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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS – CCSH


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM CIÊNCIAS SOCIAIS

– Exercício II –
T. 2015 – Agosto de 2015
Disciplina: Teoria Antropológica II
Professores: Jurema Brites e Monalisa Dias

Nome do/a Mestrando/a: Flora Ardenghi Dutra1

Ao iniciar o exercício para a disciplina de Teoria Antropológica II, brevemente


elaboro comentários sobre os conceitos que se destacam nas primeiras leituras sugeridas
conforme o interesse na pesquisa que está sendo desenvolvida. Embora a teoria prática e
a teoria da ação sejam o tema central, o recorte para a sociologia de Bourdieu faz-se
necessário para um possível desenvolvimento do conceito de habitus. Na abordagem
sociocultural do francês Pierre Bourdieu a teoria dos campos combinada com a filosofia
prática é a sua originalidade e contribuição para as ciências sociais. Bourdieu (2007)
argumenta que as preferências e as disposições estéticas originam-se em uma hierarquia
de classe impondo-se culturalmente. Desta forma, ele substitui essa dicotomia na
relação entre duas formas de existência social: as estruturas objetivas sociais construídas
sobre a dinâmica histórica e a internalização das estruturas sociais, construídas pelos
indivíduos na forma de esquemas de percepção, avaliação, pensamento e ação, o
habitus.
O habitus configura-se como um sistema de disposições duráveis que
funcionam como esquemas de classificação para orientar os valores, as percepções e as
ações dos indivíduos. A relação estabelecida, de fato, entre as características
pertinentes da condição econômica e social – o volume da estrutura do capital, cuja
apreensão é sincrônica e diacrônica – e os traços distintivos associados à oposição
correspondente no espaço dos estilos de vida não se torna uma relação inteligível a não
ser pela construção do habitus como fórmula geradora que permite justificar, ao mesmo
tempo, práticas e produtos classificáveis, assim como julgamentos, por sua vez,

1
Mestre em Comunicação pela UFSM e mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais
pela mesma Universidade. Membro do grupo de pesquisa Usos Sociais das Mídias e do Núcleo de
Estudos sobre Emoções e Realidades Digitais.
classificados que constituem estas práticas e estas obras em sistemas de sinais
distintivos (BOURDIEU, 2007). Com o conceito de habitus, Bourdieu procura explicar
o processo pelo qual o social é internalizado nos indivíduos para dar conta das
estruturas subjetivas e objetivas. Para ele, a visão que cada pessoa tem da realidade
deriva da sua posição social neste espaço. Preferências culturais não operam em um
vácuo social, dependem dos limites impostos pelas mediações objetivas.
Para o texto que segue é possível ter uma compreensão do conceito de estrutura
partindo de Leach (2007) e a interlocução com outros pensadores como Radcliffe-
Brown, Malinowski e Lévi-Strauss.

Os Kachin e Chan pela perspectiva de Edmund Leach

Ao dedicar parte de sua pesquisa aos povos da Alta Birmânia, o antropólogo


Edmund Leach (1910-1989) discorre sobre os Kachin e os Chan e suas particularidades.
Leach foi também aluno de Malinowski e nesta perspectiva entende que as normas
devem ser ressignificadas, tanto pela compreensão da estrutura social enquanto
dinâmica, bem como pela inteligibilidade dos Kachins com relação ao rito e ao mito, ou,
ações rituais.
Leach apresenta-se uma hora estruturalista e noutra hora funcionalista, fica clara
em passagens da obra “Sistemas Políticos da Alta Birmânia” a bricolagem que o autor
utiliza para constituir o pensamento que evidencia as diferenças entre o real e o ideal
dos povos Kachin e Chan. O ponto de partida que Leach evidencia ao questionar-se se
haveria apenas um tipo de estrutura social na região Kachin ou ainda mais de uma
forma de organização social é o que motiva o diálogo constante com outros pensadores
como Durkheim, Radcliffe-Brown, Marcel Mauss e Lévi-Strauss.
Uma das primeiras críticas surge no contexto em que Leach (1997) contesta
como o conceito de estrutura social empregado por Radcliffe-Brown em seu equilíbrio
estável que perdura no tempo e espaço na comparação de uma sociedade e outra. Uma
das aproximações de RB e Leach é que para ambos o estudo da estrutura social é a
partir da realidade concreta através do conjunto de relações existentes, e que nas
observações diretas tenta-se descrever algumas particularidades.
Um dos distanciamentos é que a realidade concreta observada em sua forma
estrutural dá-se pela narrativa do antropólogo no “campo”, para RB pode tornar-se clara
a continuidade da estrutura social através do tempo, mesmo não estática, como uma
estrutura orgânica. RB diz que a variação geracional de um mesmo grupo não altera a
estrutura dos membros em sua organicidade. A continuidade da estrutura permanece.
Para Leach, quando a estrutura social de um grupo se expressa através de
representações culturais, a imprecisão é empregada. A inconsistência e as
incongruências da expressão ritual tornam-se necessárias para qualquer sistema social.
Para o autor, é através da representação simbólica que o antropólogo descreve as
estruturas lógicas presentes em sua mente, sendo sempre um trabalho dificultoso
agregar os modelos conceituais à realidade empírica, pois “as sociedades reais existem
no tempo e espaço”. Assim, a continuidade da ordem formal existente (hereditariedade)
pode contrapor-se a uma mudança na estrutura formal, ou outro sistema de estrutura e
organização social.
A variedade dos sistemas políticos que compõe o estado Kachin propicia a
contínua mudança estrutural e grupos que antes eram maiores tornam-se menores e
vice-versa. Este processo não encerra em si mesmo tanto no tempo e espaço, está em
constante dinâmica e esta descrição é a que Leach busca apreender com os povos
Kachins. Por isso, ele destaca que o antropólogo enquanto pesquisador deve deixar
sempre claro o recorte temporal para que a análise de equilíbrio seja referenciada, pois
“quando um antropólogo tenta descrever um sistema social, ele descreve
necessariamente apenas um modelo de realidade social” (LEACH, 1997, p. 71).
Para Leach, a realidade é cheia de incongruências e caos e exemplifica através
dos povos investigados. Na política, os Kachins vivem de duas formas: uma delas é o
Chan, baseado em um sistema hierárquico feudal e o outro é o sistema gumlao
(denominado pelo próprio autor) sendo anarquista e igualitário. Mas a maioria das
comunidades Kachins é de ordem gumsa, em que o comprometimento gumlao e chan se
unifica. Por isso, o gumsa, não é estático e predomina nos relatos etnográficos já
produzidos, embora para Leach este sistema seja incompreensível, contudo, pode se
tornar visível no contraste do gumlao e chan.
As mudanças estruturais nestes sistemas mexem com a posição dos indivíduos
enquanto status social e no próprio sistema ideal ou mudanças na estrutura de poder. O
movimento do grupo e dos membros, nesse sentido, é adquirir poder através das
escolhas, assim o caminho e o acesso para a jornada tendem ao reconhecimento como
pessoas sociais carregadas de poder e status social. Desta maneira, um mesmo indivíduo
pode estar em distintos sistemas de apreço e estes não dialogarem entre si. Para motivar
estas argumentações, Leach (1997) parte das ações rituais dos povos Kachins.
Fica claro que para o autor o papel do antropólogo é tentar descobrir e traduzir
aquilo que está sendo representado e simbolizado não apenas através das dicotomias
entre sagrado e profano, mas também através das ligações estéticas e das ações
funcionais como aspectos de uma ação. Mito e rito se fundem como ação e/ou conteúdo
da crença. Para concluir, o antropólogo coloca que a ação ritual deve ser entendida
como uma afirmação simbólica sobre a ordem social, mas que seu posicionamento
perante a abstração da representação é que a materialidade do mundo sempre poderá ser
observável, nunca possível com a metafísica ou sistemas de ideias (LEACH, 1997, p.
76-77).

Referências
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Editora
Zouk, 2007.

LEACH, Edmund. “Introdução” In: Sistemas Políticos da Alta Birmânia. São Paulo:
Edusp, 1996.

LEACH, Edmund. “Conclusão” In: Sistemas Políticos da Alta Birmânia. São Paulo:
Edusp, 1996. Hierarchicus. São Paulo: EDUSP, 1997.

ORTNER, Sherry. “Uma atualização da teoria da prática”. In: GROSSI, Miriam;


ECKERT, Cornelia; FRY, Peter. (org.) Conferências e diálogos: saberes e práticas
antropológicas. Blumenau: Nova Letra /ABA, 2007.

RADCLIFFE-BROWN, R. "Estrutura Social" e "Sobre O Conceito De “Função" Em


Ciência Social" In: Estrutura e Função na Sociedade Primitiva. Petrópolis: Vozes,
1973.