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Trabalho e técnica na sociedade pornográfica


WELLINGTON LIMA AMORIM*
EVERALDO DA SILVA**

Resumo: Este ensaio pretende apresentar o conceito de sociedade pornográfica, a partir do


filósofo sul-coreano: Byung-chul Han. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica. É
importante ressaltar que no atual estágio desenvolvimentista da sociedade contemporânea a
positividade tem total proeminência diante do negativo, e os conceitos de trabalho, técnica e
ciência não podem mais serem pensados isoladamente: estamos dentro de um novo
paradigma, não dicotômico, dominado pelo trabalho-técnico-científico. É importante
ressaltar que esta absolutização do real consiste na possível conclusão do processo
iluminista do século XVIII. E por isso, a metáfora da luz, do explícito, de se abrir as pregas,
explicare, contém o elemento sádico necessário para se compreender a modernidade, que
tem como projeto principal jogar luz sobre a escuridão, explicitar, desvelar, retirar o véu,
colocar a nú a própria condição humana, onde a transparência total do real acaba nos
introduzir em uma sociedade pornográfica, onde não há mais espaço para a subjetividade
ou privaticidade humana.
Palavras-chave: Trabalho e Técnica; Sociedade Pornográfica; Byung-chul Han;
Privacidade humana.
Work and technique in pornographic society
Abstract: This essay intends to present the concept of pornographic society, from the
South Korean philosopher: Byung-chul Han. This is a bibliographical research. It is
important to emphasize that in the current developmental stage of contemporary society
positivity has full prominence in the face of the negative, and the concepts of work,
technique and science can no longer be thought in isolation: we are within a new paradigm,
not dichotomous, technical-scientific. It is important to emphasize that this absolutization
of the real consists in the possible conclusion of the Enlightenment process of the
eighteenth century. And so the metaphor of light, of the explicit, of opening the folds, will
explain, contains the sadistic element necessary to understand modernity, whose main
project is to throw light on the darkness, to explain, to unveil, to remove the veil, to put the
very human condition in the place where the total transparency of the real ends up
introducing us into a pornographic society where there is no more space for human
subjectivity or privaticity.
Key words: Work and Technique; Pornographic Society; Byung-chul Han; Human
privacy.

*
WELLINGTON LIMA AMORIM é Filósofo, Doutor em Ciências Humanas (UFSC) e
docente na Universidade Federal do Maranhão. E-mail: wellington.amorim@gmail.com

**
EVERALDO DA SILVA é Cientista Social, Doutor em Sociologia Política (UFSC). E-mail:
prof.evesilva@gmail.com
1. Introdução comportamentos devido à positividade
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do Deus cristão.
Este ensaio tem a pretensão de analisar
o conceito de trabalho e técnica e as Na modernidade, o desaparecimento
suas diversas consequências geradas por gradual da centralidade do Deus cristão,
uma sociedade que se move a partir do fêz com que a razão passasse a ocupar
conceito de positividade, elemento seu espaço, exigindo luminosidade
central que perpassa tanto o trabalho sobre todos os cantos escuros que a vida
quanto a técnica na modernidade. privada possa a ter: “Assim, a sociedade
da negatividade dá espaço a uma
Uma das exigências da sociedade na qual vais se
contemporaneidade é a exigência de desconstruindo cada vez mais a
transparência. Ela permeia o discurso negatividade em nome da positividade”.
público e privado na atualidade. Ao (HAN, 2017, p.9). Isto se chama
contrário da antiguidade, espaço público iluminismo. É neste sentido que se pode
e privado eram considerados distintos. dizer que o movimento iluminista é
Igualdade entre os indivíduos era pornográfico. Para isto é preciso definir:
somente para aqueles que eram o que é isto – a pornografia? O discurso
considerados cidadãos, nascidos em da pornografia é extremamente
Atenas, homens e com a maioridade, transgressivo, busca a máxima
todos os demais, crianças, mulheres e visibilidade, consiste em jogar luz sobre
estrangeiros (metecos) não tinham o tudo o que está fora de cena, ou melhor,
direito a participação política e não obsceno, ele exige o direito de mostrar,
eram considerados cidadãos. A ágora explicitar, colocar tudo nú, exigindo que
era o único lugar onde se era possível todos testemunhem diante de seus olhos
ser explícito. Sendo respeitada a a verdade do homem:
obscuridade e sombra, ou ainda, a Para além da prática a qual ela
nebulosidade no espaço privado. remete, a obscenidade exige
Mesmo os deuses, seu território de testemunhas, uma presença exterior
atuação e presença, somente se davam exigida, uma exibição, uma espécie
no espaço público. de encenação destinada a tornar
particular sua percepção por um
Todavia, uma mudança radical ocorreria olhar exterior convidado,
com o surgimento do pensamento certamente, mas que permanece
judaico-cristão. Na antiguidade greco- estranho. Ela pode ser relacionada
romana o mundo era encantado, deuses com o teatro, do qual deriva em
e homens caminhavam lado a lado. De muitos aspectos. (GOULEMOT,
1991, p.127).
acordo com esta perspectiva, o Deus
único, onipresente no espaço público e E ainda: “a atividade sexual que é
privado, coloca luz sob a vida no oikos mostrada deve, de uma maneira ou de
e passa a legislar naquele espaço que outra, ser espetacular”.
antes era dominado pelo poder do pai: (MAINGUENEAU, 2010, p. 40). Quem
pátria potestas. A filosofia cristã exige pode duvidar de que a modernidade
transparência, luminosidade na vida inaugura e se consolida a partir de
privada, antes obscura e impenetrável. movimentos espetaculares? Exibindo de
Desde então, a transparência passou a forma explicita corpos enfileirados e
ser exigida não somente no espaço profanados? Não há como negar como é
público, mas também no espaço espetacular a produção em série
privado, regulando costumes e realizada pelo fordismo no século XIX e
a esteira de defuntos nos campos de religião e a arte, de tudo o que
merece o nome de conhecimento, e 34
concentração de Auschwitz:
nisso como em outras coisas revela
No Terror, sob a Revolução seu parentesco com o positivismo
Francesa, 10 mil vítimas pereceram. moderno, a escória do
Entre maio e junho de 1793, mas de esclarecimento. (ADORNO;
1,3 mil pessoas foram HORKHEIMER, 2006, p. 78).
guilhotinadas. Sob o nazismo, mas
de 1,3 milhão de judeus foram Para Sade (2006), o esclarecimento é o
executados por meio de longo e interminável processo de
fuzilamentos e tiros na nuca” (...) destruição e construção civilizacional,
prisioneiros “eram infectados com um progresso que se autodesenvolve-se
gangrena, com tifo, alvejados com
por etapas, uma arquitetura onde a
balas de veneno, forçados a saciar a
sede com água salgada. Para serem
atividade é intensa, sem ociosidade ou
enviados às câmeras de gás e inatividade, uma odisseia do espirito
crematórios”. (PINHEIRO, 2001, p. que parte do mais primitivo a magia, do
192). matriarcado ao patriarcado, politeísmo
ao monoteísmo, substituindo antigas
Se a pornografia exige mitologias por novas, sempre buscando
espetacularização. A modernidade é em com isso a objetividade, fundamentação
si mesma um movimento pornográfico, última da realidade que a luz da razão
pois exige o “entendimento sem a seria capaz de fornecer. Como
direção de outrem”, isto é o sujeito consequência tudo tem a tendência a ser
burguês liberto de toda tutela” tornar transparente, raso, plano e
(ADORNOH; HORKHEIMER, 2006, operacional, tudo é fruto do cálculo e
p. 75). O princípio central da controle, em um tempo presentificado,
modernidade é a positividade/atividade sem grandes dramatizações ou
constante e ininterrupta. Para que este capacidade interpretativa, enfim:
empreendimento tivesse sucesso, a pornográficas. O trabalho do espirito na
razão moderna buscou colocar a nú toda modernidade iguala tudo, homogeneíza,
e qualquer forma de figura que se passando a ser precificado, onde a
apresentasse obscura ou subjetiva, se transparência coage a tudo e a todos,
fez necessário, profanar e liberar o exigindo aceleração e modificação
homem de qualquer influência da sistêmica da vida social:
superstição popular ou da religião do
antigo regime. A luta que se seguiu foi A pressão pelo movimento de
entre sádicos e masoquistas, aceleração caminha lado a lado com
reacionários românticos que se a desconstrução da negatividade. A
expressaram no maniqueísmo dos comunicação alcança sua
contrarrevolucionários católicos e velocidade máxima ali onde o igual
responde ao igual, onde ocorre uma
esclarecidos.
reação em cadeia do igual. A
Se a grande Filosofia, representada negatividade da alteridade e do que
por Leibniz e Hegel, descobrira é alheio ou a resistência do outro
também uma pretensão de verdade atrapalha e retarda a comunicação
nas manifestações subjetivas e rasa do igual. (BYUNG, 2017, p.
objetivas que ainda não são 11).
pensamentos (ou seja, em
sentimentos, instituições, obras de O totalitarismo na modernidade se
arte), o irracionalismo de seu lado apresenta na imposição da
isola o sentimento, assim como a homogeneização e quantificação dos
corpos, transparentes e expostos, sem raciocínio é um ato de violência, sempre
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ambivalências. Logo, é um mundo de com rigor, serenidade, calma, que nos
informações obscenas, não havendo coloca diante da onipotência e da
mais espaço para o conhecimento ou a perfeita solidão que somente a razão é
paciência necessária a reflexão capaz de proporcionar. O que quer o
espontânea do ser humano, onde o sádico? Afastar qualquer forma de
mesmo somente pode ser concebido desamparo que possamos vir a ter diante
como simples funcionalidade. No das contingências da vida. Desde que
entanto: “Só a máquina é transparente; a nascemos se experimenta a sensação de
espontaneidade – capacidade de fazer ser lançado ao mundo, que se expressa
acontecer – e a liberdade, que perfazem nas marcas deixadas no corpo e pela
com tal a vida, não admitem carbonização da alma e no burnout
transparência”. (BYUNG, 2017, p. 13). psíquico que se experimenta
A vida privada é exposta nas redes na diariamente.
busca desesperada através de um fluxo
comunicativo de total transparência. A frustração e o desamparo surgem na
mesma tenra idade. Na separação entre
O tipo ideal na contemporaneidade é a a mãe e o filho e com a presença da lei
Juliette, a heroína de Sade. Ela é que o pai invoca. Da mesma forma que
pedagogicamente formada para recusar o Pai, no exercício legal de suas funções
a qualquer forma de superstição que divinas, expulsa Lúcifer do paraíso, ele
seja proveniente do pensamento judaico (o filho) decai, experimentando a
cristão. Exige a exposição, explicitação. exclusão, sendo constrangido a estar só.
A vida da personagem é o exemplo Deus é sádico, indiferente, apático ao
máximo daquele que rasga todos os sofrimento de Lúcifer, seu filho que
contratos que fundamenta a civilização perdeu sua integralidade, unicidade,
ocidental, seu instrumento é o sacrilégio comunhão, enfim, se fez homem. Da
e a bestialidade, a consequência deste mesma forma que ao nascer somos
ato se expressa na profanização: “o jogados em um mundo que se expressa
gosto intelectual pela regressão, amor ou se desenvolve, a partir de principios
intelectualis diaboli, o prazer de derrotar opostos e ambivalentes, que se
a civilização com suas próprias armas”. interpenetram, longe da segurança
(ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. oferecida intrauterinamente. Não existe
81). A vida passa a ser exigência de nascimento ou amadurecimento sem
apatia, indiferença, uma sabedoria sofrimento, que precisa ser superado e
estoica e demonstrativa que normaliza a guardado, Aufheben, em uma
nudez e a desinibição. Qualquer espaço consciência infeliz.
protegido pela discrição é profanado,
jogado luz sobre, conquistado e Este é o desejo estoico que se expressa
saqueado. Esta indiferença e apatia é a na certeza da consciência de si em
principal característica da modernidade Hegel, e na exigência de contenção dos
sádica. seus desejos. É a expressão do desejo
contido e recalcado que não exige mais
É na obra 120 dias em Sodoma (2006) reconhecimento, de Deus, grande Pai,
que Sade demonstra um projeto onde a ou do outro, que está diante de si. O
vida é sistemático-demonstrativa, sádico inaugura uma guerra contra
sempre em um tom professoral e qualquer dispositivo que venha se
acadêmico, ele apresenta, a partir da colocar como substituto da lei e busca
faculdade de demonstração, que seu viver sem a necessidade psicológica de
colocar algo no lugar simbólico do Pai. presente:
Qual pomba, abrindo as asas 36
Daí porque Freud (2013) irá dizer que
Deus e as religiões são ilusões criadas poderosas,
pelo ser humano para suprir a Pairaste sobre a vastidão do
necessidade psicológica do desamparo. Abismo
E com almo portento o fecundaste:
Legendre (1983, p. 88) mostrará, por
Da minha mente a escuridão
exemplo, como o Estado e o juiz dissipa,
ocupam o vazio do corpo psíquico Minha fraqueza eleva, ampara,
deixado pelo Pai fundador, sempre esteia,
ausente: Para eu poder, de tal assunto ao
nível,
Do homem primeiro canta, empírea
Justificar o proceder do Eterno
Musa,
E demonstrar a Providência aos
A rebeldia – e o fruto, que, vedado,
homens.
Com seu mortal sabor nos trouxe
ao Mundo Dize primeiro, tu que observas tudo
A morte e todo o mal na perda do No Céu sublime, no profundo
Éden, Inferno,
Até que Homem maior pôde remir- Dize primeiro a causa irresistível
nos Que mover pôde os pais da prole
E a dita celestial dar-nos de novo. humana,
Em tão próspera sina, ao Céu tão
Do Orebe ou do Sinai no oculto
caros,
cimo
A apostatar de Deus que o ser lhes
Estarás tu, que ali auxílios deste
dera
Ao pastor que primeiro aos
E a transgredir a lei que lhes ditara,
escolhidos
Sendo só num objeto restringidos,
Ensinou como do confuso Caos
No mais senhores do universo
Se ergueram no princípio o Céu e a
Mundo:
Terra?
Quem lhes urdiu a sedução
Ou mais te agrada Sião e a clara
malvada
Síloe
Que os lançou em tão feia rebeldia?
Que mana ao pé do oráculo do
O Dragão infernal. Com torpe
Eterno?
engano,
Lá donde estás, invoco o teu
Por inveja e vinganças instigado,
socorro
Para este canto meu que hoje Ele iludiu a mãe da humana prole,
aventuro, Lá depois que seu ímpeto soberbo
Decidido a galgar com voo inteiro O expulsara dos Céus coa imensa
Muito por cima da montanha turba
Aônia, Dos rebelados anjos, seus
De assuntos ocupado que inda o consócios.
Mundo
Tratados não ouviu em prosa ou Confiado num exército tamanho,
verso. Aspirando no Empíreo a ter assento
De seus iguais acima, destinara
E tu mais que ela, Espírito inefável, Ombrear com Deus, se Deus se lhe
Que aos templos mais magníficos opusesse,
preferes E com tal ambição, com tal insânia,
Morar num coração singelo e justo, Do Onipotente contra o Império e
Instrui-me porque nada se te trono
encobre. Fez audaz e ímpio guerra, deu
Desde o princípio a tudo estás batalhas.
Mas da altura da abóbada celeste assumir como processo, por outro, seu
Deus, coa mão cheia de fulmíneos 37
projeto é se fundir com o negativo que
dardos, se apresenta como a mais pura
O arrojou de cabeça ao fundo contradição, onde a desordem é apenas
Abismo, outro lugar, onde possui uma nova
Mar lúgubre de ruínas insondável,
ordem e leis próprias. Atingir tal estágio
A fim que atormentado ali vivesse
Com grilhões de diamante e intenso do negativo somente pode se dar
fogo afirmando a máxima positividade: “Por
O que ousou desafiar em campo o isso a natureza original é,
Eterno. necessariamente, objeto de uma Ideia,
sendo a pura negação um delírio, mas
Pelo espaço que abrange no orbe
humano
um delírio da razão como tal. O
Nove vezes o dia e nove a noite, racionalismo não está absolutamente
Ele com sua multidão horrenda, “cravado” na obra de Sade; ele precisou
A cair estiveram derrotados ir até a ideia de um delírio próprio da
Apesar de imortais, e confundidos razão”. (DELEUZE, 2009, p. 28-29). Se
Rolaram nos cachões de um mar de estivermos corretos nesta especulação,
fogo. na modernidade este projeto somente é
Sua condenação, porém, o guarda possível porque se realiza através do
Para mais fero horror: e vendo conceito de saber e desenvolvimento do
agora espirito que busca a universalidade. A
Perdida a glória, perenal a pena,
heroína de Sade representa o
Este duplo prospecto na alma o
punge (MILTON, 2014, p.3).
desenvolvimento moderno na expressão
da técnica e Ciência que se move sem se
Enfim, a violência na obra de Sade importar com o sofrimento humano. Sua
(2006) tem a função de criar uma defesa crença é a Ciência. Seu meio uma razão
físico-psíquica em relação ao demonstrativa que se move através da
sofrimento e o desamparo: lógica, coerência, o princípio da não-
[...] o elemento impessoal do contradição, e que se expressa na mais
sadismo e identifica essa violência moderna e nova administração que
impessoal com uma idéia da razão surgirá no século XIX denominada
pura... É a famosa apatia do positivismo: ordem e progresso. E para
libertino, o sangue-frio do que este processo desenvolvimentista
pornologista que Sade opõe ao atinja seu objetivo é preciso evocar um
deplorável “entusiasmo” do perfil funcionalista, transparente,
pornográfico. O entusiasmo é apático, indiferente, frio e cruel diante
precisamente o que ele critica em
do sofrer do outro. E por isso Nietzsche:
Rétif de La Bretonne; ele não deixa
de ter razão ao dizer (como sempre
insistiu em suas justificativas celebra os poderosos e sua
públicas) que ele, Sade, pelo menos crueldade exercida “para fora, onde
nunca mostrou o vício sob forma começa a terra alheia”, quer dizer,
agradável nem alegre: mostrou-o perante tudo o que não pertence a
apático. (DELEUZE, 2009, p. 22- eles próprios. “Eles gozam aí da
30-31). liberdade de toda coerção social,
eles buscam nas regiões selvagens
O que está em jogo no pensamento de uma compensação para a tensão
Sade é olhar e imergir na mais pura provocada por um longo
negatividade. Se por um lado, o encerramento e clausura na paz da
negativo ou a contradição, pode se comunidade, eles retornam à
inocência moral do animal de modernidade a sociedade é inimiga do
rapina, como monstros a se 38
prazer, uma vez que se recusa ao
rejubilar, talvez saindo de uma série mistério, véu, ocultação. A coação
horrorosa de assassinatos, pornográfica destrói qualquer
incêndios, estupros, torturas, com a capacidade de sedução e tudo vira
insolência e a serenidade de quem
procedimentos e funcionalidades fonte
cometeu apenas uma travessura de
estudantes convencidos de que os de sofrimento psíquico.
poetas terão agora e por muito
tempo algo a cantar e celebrar...
Essa audácia de raças nobres, louca, Referências
absurda, súbita, tal como exprime, o ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max.
próprio caráter imprevisível e Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro,
improvável de seus Zahar Editores, 2006.
empreendimentos... sua indiferença DELEUZE, Gilles. SACHER-MASOCH: o
e desprezo por segurança, corpo, frio e o cruel. Zahar. 2009.
vida, conforto, sua terrível
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão.
jovialidade e a profundidade do Porto Alegre: L&PM, 2013.
prazer em destruir, do prazer que se
tira de todas as volúpias da vitória e HAN. Byung-Chul. Sociedade da
da crueldade” essa audácia que Transparência. Petrópolis-RJ: Editora Vozes.
2017.
Nietzsche proclama, também
arrebatou Juliette. “Viver GOULEMOT, J. M. Prefáce, in Cahiers d’
perigosamente” é também sua historie culturelle, nº5, p.5.
mensagem: “ousar tudo doravante LEGENDRE, Pierre. O Amor do Censor:
sem medo. (ADORNO; ensaio sobre a ordem dogmática. Tradução
HORKHEIMER, 2006, p. 83) Aluísio Pereira Menezes. Rio de Janeiro:
Forense Universitária: Colégio Freudiano, 1983.
Uma sociedade com máxima
positividade é uma sociedade infeliz! MAINGUENEAU. Dominique. O discurso
pornográfico. Editora Parábola. 2010.
Uma vez que a felicidade provém do
vocábulo oco, ou ainda, fortuna. Enfim, MILTON, John. Paraíso Reconquistado.
uma sociedade que não admite a Tradução de Guilherme Gontijo Flores, Adriano
Scandolara, Bianca Davanzo, Rodrigo Tadeu
fortuna, contingência ou a negatividade Gonçalves, Vinicius Ferreira Barth; ilustrações
é uma sociedade que não pressupõe a de William Blake. São Paulo: Cultura, 2014.
felicidade. E neste sentido que o
PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estado e Terror.
trabalho, Ciência e a técnica moderna, Ética. Companhia das Letras. 2001.
não é causa, mas um fim do longo
processo de racionalização que não dá
espaço para a negatividade e a Recebido em 2018-10-16
contingência. E por isso na Publicado em 2018-12-06