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RESENHA (Arquitetura Brasileira)

SMITH, Robert. Robert Smith e o Brasil: Arquitetura e Urbanismo. IPHAN, 2012.

TELLES, Augusto C. da Silva et. al Arquitetura na formação do Brasil. 2º ed. IPHAN, 2008.

Fundada em 1861, por d. Pedro II, a CAIXA é uma das empresas mais longevas e
importantes do Brasil. Sua presença no cotidiano do país tem crescido ano a ano e se espraiado
por todo o território nacional, nas mais diversas atividades: crédito, serviços bancários,
habitação, saneamento, desenvolvimento urbano e infraestrutura, loterias, pagamentos de
benefícios e direitos sociais. Como empresa pública, compromissada com o desenvolvimento
social e econômico, ecologicamente responsável e indutor da redução das desigualdades
interpessoais e inter-regionais, a CAIXA tem fortes vínculos com a preservação da memória
nacional e com as mais diversas manifestações culturais e tradições deste país continente.

Ao eleger a arquitetura como representação material desses processos, a ela confere o


seu sentido maior de manifestação direta e legível da cultura. Arquitetura na formação do Brasil
não se restringe ao monumental, mas, ao lado da criação artística e simbólica, registra a
dinâmica da ocupação do território, da formação das cidades, da produção e do trabalho.

Grande parte dos mais expressivos exemplares de arquitetura, especialmente até o


século XIX, foram produzidos por trabalhadores, artífices e artistas, quase sempre anônimos e
muitos deles na condição de escravos, sem formação técnica e artística regular, possuidores de
grande capacidade criativa, de soluções singulares e de rara beleza, especialmente na arquitetura
religiosa e vernácula. Seu exemplo mais célebre foi o escultor e arquiteto Antônio Francisco
Lisboa, conhecido pela alcunha de “Aleijadinho”, expressão maior do barroco mineiro e que
legou ao Brasil e ao mundo uma obra singular de elaboração artística inigualável.

A Bahia foi a primeira metrópole lusitana no novo mundo, tornou-se uma réplica
fidelíssima de Lisboa e do Porto, as duas maiores cidades de Portugal, fundada sobre uma
escarpa alta, foi cercada de muros com torres e portas entremeadas com fortes, assim como em
Portugal, os melhores sítios, o alto das colinas, eram reservados às igrejas e conventos, aos
edifícios públicos e solares, enquanto o comércio funcionava embaixo, ao longo do cais. Havia
uma cidade alta e outra baixa. As ruas eram tortas, mas ironicamente eram chamadas de
“direitas”, as casas ficavam em uma teia de caminhos tortuosos e escuros, cheia de andares e
passadiços.

Três fases estilísticas podem ser apontadas durante a era colonial (1549 -1820). A
primeira se inicia com a fundação e se estende por um século, conhecida como período
missionário, construção das igrejas e substituição dos materiais por outros mais duráveis. Em
meados do século XVIII, começou-se a dar mais importância às igrejas e edifícios públicos da
Bahia. Uma série de edificações foram empreendidas nesse momento, entre 1655 a 1718,
sugerem a palavra monumental, devido às proporções e desenvoltura.

Entre 1655 a 1760, o estilo renascença é avivado aos poucos com uma nova utilização
do detalhe barroco. Ocorre a transferência da capital do vice-reinado da Bahia para o Rio de
Janeiro, em 1763. Com a introdução dos motivos rococó, misturado aos elementos de espírito
clássico, as construções tornaram-se mais modestas, como convinha à cidade provinciana que
passou a ser, o caráter do estilo arquitetônico perde sua imponência em troca da delicadeza. A
arquitetura civil da época associa-se à elegância urbana de ornamentos em menor escala. Esse
período é denominado fase mundana da arquitetura colonial da Bahia. A seguinte cronologia
será observada: o Estilo Missionário (1549 – cerca de 1655); Estilo Monumental (cerca de 1655
– cerca de 1760); o Estilo Mundano (cerca de 1760– 1820).

Existe ampla evidência de que as suas primeiras construções tenham sido similares às
dos índios que habitam o Brasil antes dos portugueses colonizadores chegarem, pau a pique. A
primeira igreja de Tomé de Sousa, N. Sra. da Ajuda, na qual trabalhou pessoalmente, sob a
direção do seu arquiteto Luiz Dias, era de taipa e coberta de folhas de palmeira, essa e outras
igrejas ficaram conhecidas como “igrejas de palha”. Em 1586, frei Melchior de Sta. Catarina e
seus companheiros construíram na costa o primeiro convento franciscano na forma de
“choupanas de palha de barro”.

Materiais mais duráveis foram empregados, quando em 1551, Luiz Dias retornou a
Portugal e anunciou que a Câmara da cidade e o Armazém haviam sido construídos de pedras
e cobertos de telhas feitas na Bahia. A construção de pedra, consistia em uma construção tosca,
de pedras irregulares assentadas com argamassa de conchas de ostra ou cal, a parte superior das
paredes era feita, geralmente, de tijolos, sendo toda superfície revestida de reboco branco ou,
nas igrejas, geralmente de azulejos.
A pedra talhada era usada, nos cunhais, nas molduras de portas e janelas ou nas beiradas
de frontões e torres; pedra de lioz, ou pedra do reino, como lastro, nos porões das esquadras
portuguesas. Era muito apreciada especialmente na Bahia, não só pelo seu caráter santuário,
mas também por serem as pedras locais, o gneis granítico e o arenito, de cor baça e textura
inferior.

No primeiro período as igrejas coloniais da Bahia eram tão homogêneas quanto as do


reto do Brasil, as capelas missionárias eram, geralmente, construções de uma nave,
retangulares, cuja única projeção era um retângulo menor formando a capela-mor e talvez um
pequeno quarto lateral servindo de sacristia. As vezes esta, edificavam-se com o corpo dividido
em três naves, seguindo com o costume observado em muitas igrejas paroquiais portuguesas.

A variante desse traçado em que as três naves são da mesma altura, o arranjo assim
chamado de Hallenkirche. Todavia, não existe evidência de ter sido tentada a aplicação desse
plano na Bahia, nem em qualquer outra parte do Brasil, embora gozasse de considerável
aceitação na América Espanhola. Em 1566, um arquiteto desconhecido iniciou, em Portugal, a
Igreja de S. Roque, calcada na planta de três naves. Porém, em virtude de oposições, sustaram-
se as obras, substituindo-se o traçado por outro da nave larga, única. A esta se acrescentou, de
cada lado da igreja, um par de capelas unidas por uma passagem estreita. Essa modificação,
representa o retorno a um plano gótico desenvolvido na França Meridional durante o século
XIII.

Os traçados dos jesuítas portugueses foram elaborados de maneira inteiramente


independente dos da Gesù, e isso se percebe não só pela ausência de certas formas do plano
romano, assim como pelo fato de terem sido iniciadas, antes da Gesù, as três primeiras igrejas
baseadas no traçado dos jesuítas portugueses em Lisboa, Évora e Braga.

A introdução no Brasil do plano de S. Roque e do Espírito Santo, isto é, da nave larga e


capelas laterais intercomunicantes, teve lugar apenas nos princípios do século XVII, e ele
parece ter sido reservado às construções de maior vulto. Todos esses edifícios são desenhados
na mesma maneira compacta, no qual um grande retângulo enquadra firmemente as capelas da
nave, o cruzeiro, a capela-mor e a sacristia. A capela-mor forma um retângulo subsidiário com
altares de cada lado, como em S. Roque e Espírito Santo. Nas extremidades do cruzeiro elevam-
se altares maiores, além de outros subsidiários, nas capelas. Têm um coro apoiado em pilares
ou colunas imediatamente sob a entrada, porém, apenas em uma, na antiga catedral, havia portas
laterais levando diretamente à rua.
A Igreja de S. Francisco foi a última grande estrutura de capelas laterais construída na
Bahia. Daí em diante, as matrizes do século XVIII e do princípio do século XIX seriam
construídas, com uma nave única semelhante a um salão, em redor da qual os altares se
colocariam em nichos rasos. A sacristia, que se torna cada vez maior e mais importante, é, em
geral, colocada imediatamente atrás da capela-mor, como a da igreja dos jesuítas, tendo por
cima o consistório da irmandade dominante. Traço importante do novo plano são os corredores
longos que levam diretamente da rua à sacristia; vieram a existir de cada lado da nave e dela
inteiramente independente; por vezes, nas igrejas do último período elevam de três para cinco
o número de portadas. Sobre esses corredores construíram-se passagem subsidiárias e outras
acomodações para o uso das irmandades.

O desenho da fachada é extremamente simples, emoldurada por pilastras dóricas e


arrematada por um frontão acentuadamente pontudo. A entrada é uma moldura de pedra,
encimada por uma verga plana que se projeta levemente sobre um friso estreito. Acima, duas
janelas quadradas e entre elas um nicho arqueado, havendo no frontão uma abertura circular
com o mesmo tipo de moldura de austera simplicidade. À esquerda, uma pequena torre com um
campanário baixo. Essa frontaria, com ligeiras variações na posição das janelas e nichos, foi
usada em todas as primitivas igrejas de pedra e cal. A torre seiscentista da Graça, apresenta uma
terminação semiesférica que lembra as meias-laranjas comuns em Portugal no final do século
XVI e pode ser considerada o primeiro tipo de campanário usado na Bahia. Como em outros
centros ao longo da costa, as portas das igrejas eram, muitas vezes, protegidas por alpendres
simples, cobertos de telhas e sustentados por pilares de madeira, tijolo ou pedra.

A fachada da antiga igreja dos jesuítas, hoje catedral da Bahia, é o primeiro exemplo,
do qual se sabe a data, do novo tipo de fachada ampla que predominaria durante o período
monumental. Pouco sabemos a respeito dos interiores das primeiras igrejas permanentes da
Bahia, uma vez que nada se conservou da decoração original das capelas missionárias. Um
estudo de primitivas igrejas jesuítas que sobreviveram noutra parte indica que o interior era
formado por um simples retângulo rebocado, com um telhado de madeira geralmente sem
forros. Limitava-se a ornamentação ao púlpito e à capela-mor, que, de ordinário, apresentava
um forro de tábuas pintadas formando polígonos.

Com o desenvolvimento de edificações mais amplas no período monumental, entraram


em uso os altares do cruzeiro e das capelas laterais, e nova atenção foi dispensada aos espaços
superiores das paredes, tornando-se o revestimento dos interiores um problema sério. As
primeiras construções desse período, foram decoradas de maneira austera e sombria, utilizando-
se como principal adorno o discreto motivo geométrico usado nas portadas exteriores desses
edifícios, geralmente losangos e retângulos.

Nas igrejas portuguesas de capelas laterais, a arcada da nave constituía uma necessidade
prática. A disposição dessas arcadas estabelecia duas categorias de interiores. Na primeira, a
arcada de proporções heroicas é elevada até a linha da cornija, não havendo espaço para janelas.
Em Portugal, a arcada da nave, colossal, é quase tão rara quanto o traçado de cruzeiro completo
e cúpula, e, na Bahia, não deixou representação alguma.

Em Portugal, arcada da nave termina na altura das capelas laterais, um pouco acima de
meia altura da parede, deixando, deste modo, espaço para tribunas que iluminam a nave dos
longos corredores que se estendem sobre as capelas laterais, como nas igrejas jesuítas de Lisboa
e Évora e em muitas igrejas sem cúpula do século XVII. Esse se tornou o desenho comum dos
interiores das principais igrejas do período monumental na Bahia.

Os interiores das igrejas da primeira fase do último período da arquitetura colonial


baiana, como as fachadas que lhes correspondem, podem ser descritos como sendo geralmente
rococó, no estilo de sua ornamentação. Desde o meado do século XVIII, as capelas laterais
haviam sido abandonadas para dispor então todos os altares menores ao longo de um simples
compartimento retangular, conseguindo-se assim um sentido de unidade íntima muito
semelhante à inter-relação das cadeiras, mesas e demais obras de madeira entalhada em um
salão francês da mesma época. O novo estilo manifestou-se particularmente, no início do
período, pelas suntuosas sanefas das janelas, altares e arcos cruzeiros, que repetem, geralmente,
as linhas frágeis e voláteis dos frontões exteriores caprichosos, porém, bem organizados.

O desenvolvimento da arquitetura civil na Bahia conforma-se ao mesmo padrão de


evolução artística que aplicamos às edificações religiosas. Nenhum monumento autêntico do
primeiro período foi preservado. As primitivas casas de barro dos “tapeiros”, como as primeiras
fortificações e estrutura públicas de Luiz Dias e seus sucessores, há muito desapareceram
juntamente com as edificações que as substituíram. As numerosas casinhas de campo, fora dos
muros da cidade, pareciam-se com as construções pequenas de barro e madeira com telhados
baixos e alpendres centrais de madeira que vemos nas paisagens pernambucanas as quais
repetem as linhas das casas de campo tradicionais das Beiras e do Minho em Portugal.
Na Bahia as últimas casas no estilo minucioso têm as molduras das janelas atenuadas,
terminadas bem um desenho vagamente piramidal, em tudo semelhantes às usadas
frequentemente nos exteriores das igrejas dessa época. Característica dessa época é a introdução
de um andar adicional, já pelo uso de telhado com sótão, imitando as reconstruções pombalinas
de Lisboa baixa, já por meio de um mirante central, ou, por uma torre que se eleva dois andares
sobre o resto da casa. Todas essas construções têm em comum o uso de vidro nas janelas, o que
marca o terceiro estágio da fenestração colonial na Bahia.

Em residências mais simples usavam-se esteiras de junco chamadas urupemas, que


foram proibidas na Bahia por volta de 1760. Mais tarde, usaram-se rótulas, consistindo de tiras
delgadas de madeira entrecruzadas diagonalmente e derivadas de modelos portugueses, até que
estas por seu turno foram condenadas por antiquadas e anti-higiênicas pelos editais de 1809 e
1811. Depois da introdução das vidraças, os construtores baianos, usualmente, preferiam as
janelas de corrediça segundo a moda que os portugueses tomaram de empréstimo na Inglaterra
e na Holanda. Todavia, ocasionalmente, usavam-se janelas francesas de batente.

A arquitetura civil do último período é mais clássica em estilo do que a das igrejas.
Explica-se, em grande parte, pela forte influência inglesa no gosto luso-brasileiro, ao findar-se
o século XVIII. Em 1782, o viajante espanhol Juan Aguirre assinalou que em algumas chácaras
do Rio de Janeiro “resplandece el gusto inglés”. Refletia o interesse de Portugal pela decoração
inglesa, onde um grupo de construções foi executado por arquitetos ingleses, no estilo clássico
dos últimos imitadores de Palladio e dos irmãos Adam. O efeito desse gosto pode ser observado
na severa simplicidade do obelisco levantado na Bahia, em 1815, para comemorar a chegada
de D. João VI e da família real portuguesa, em 1808. Um ano mais tarde, a Câmara louvava os
melhoramentos feitos em casas ocupadas pelos representantes de firmas inglesas que vieram
morar na cidade depois da abertura dos portos brasileiros ao comércio estrangeiro.

Há ampla evidência de um reflorescimento das tradições da renascença ao findar-se o


último período da arte colonial no Brasil. O melhor exemplo desse estilo era o antigo Teatro S.
João, erigido em 1813 e destruído pelo fogo em 1923. Sua fachada estreita, acentuadamente
vertical, alta e subdividida em compartimentos, ostensivamente adornada de obeliscos austeros
e outros atributos maneiristas, respira essencialmente o mesmo espírito que o exterior das
grandes igrejas do período monumental. Foi, talvez, um reconhecimento de serem esses
edifícios, na verdade, as realizações supremas da arte no período colonial da Bahia.
Nos dois séculos decorridos entre 1500 e 1700, seis nações europeias ergueram cidades
e estabeleceram colônias nas Américas. Dentre ela somente construiu cidades projetadas com
base em um plano uniforme e invariável. A planta ortogonal da Mesopotâmia foi abandonada
quase por completo, em favor de um sistema irregular de ruas tortas e espaços irregulares que
obedeciam a um planejamento de tipo bem diverso. O ressurgimento da planta ortogonal na
América Espanhola foi, portanto, uma das grandes contribuições americanas à história do
urbanismo, uma vez que a retomada da planta ortogonal ocorreu no Novo Mundo antes de se
tornar aceita na Europa.

Em 1520, Hernando Cortés tomou a capital asteca de Tenochtitlán, completando assim


a conquista do México, então chamado de Nova Espanha. Ficou decidido que a cidade seria
reconstruída no mesmo sítio, e assim foram lançadas as fundações da Cidade do México
moderna. Esse foi o primeiro exemplo de um plano em malha ortogonal, cujo uso, passou a ser
exigido por lei.

Há razões para acreditar que os jesuítas portugueses, que começaram a chegar ao Brasil
em 1519, transformando-se então numa força colonizadora poderosa, tendo mesmo fundado,
há quatrocentos anos, a cidade de São Paulo, tenham feito uso de uma planta semelhante para
a construção de suas “aldeias”, ou comunidades indígenas. No entanto, a disposição irregular
das casas em torno dessa praça, como também as ruas diagonais partindo de seu ângulo,
representa o abandono da planta ortogonal.

Em momento algum os portugueses, que descobriram o país em 1500 e o tiveram sob


seu domínio até 1822, estabeleceram um código de normas para o desenvolvimento urbano.
Suas cidades cresceram sem planejamento, numa espécie de confusão pitoresca tão
característica das cidades luso-brasileiras quanto a ordem e a clareza o são do urbanismo da
América Espanhola.

No Brasil colonial, praticamente todos os primeiros assentamentos localizavam-se na


orla marítima, ao contrário dos núcleos urbanos criados pelos espanhóis, que preferiam
estabelecer suas capitais no interior de seus territórios. Ouro Preto, a antiga capital do estado
de Minas Gerais, foi fundada em 1711, como entreposto comercial, na rica região de mineração
de ouro situada a oeste do Rio de Janeiro. A tortuosidade da planta é aqui ainda mais evidente.
Também em Ouro Preto a praça central é longa, estreita e não inteiramente regular, quebrando
num ponto de inflexão situado a meio caminho entre o antigo Palácio dos Governadores e a
bela Casa de Câmara e Cadeia do século XVIII.
Não há igreja, porque os portugueses, ocasionalmente, preferiam localizar seus edifícios
religiosos um pouco afastados da praça principal. As ruas, de larguras muito variadas, traçam
curvas obedecendo a acidentada e caprichosa topografia do sítio onde a cidade foi erigida. Na
verdade, há uma única via principal que, em seu serpentear, liga os diversos e nitidamente
separados núcleos da cidade, que consistiam nos primitivos arraiais ou postos de comércio, com
as primeiras capelas, que mais tarde foram substituídas pelas duas igrejas paroquiais e pelas
igrejas das Ordens Terceiras, que desempenhavam papel importante na vida social da cidade.

A praça principal dessas cidades acha-se quase invariavelmente dominada pela igreja
metropolitana, “levantada algo”, segundo as Leis, de modo que seja vista efetivamente. O
código seguia assim. É razoável supor que os jesuítas portugueses, que primeiro alcançaram o
Brasil em 1549 e aqui se tornaram uma grande força colonizadora, fundando há 400 anos a
cidade atual de S. Paulo, utilizassem uma planta não dissimilar à espanhola nas suas primitivas
aldeias de índios. Essas foram todas de proporções menores às das reducciones paraguaias e
pouco se sabe dos pormenores das suas instalações. Um desenho de 1793, do Arquivo Histórico
Ultramarino de Lisboa, representando o núcleo da missão do Espírito Santo na Bahia, mostra a
igreja e residência à cabeceira da mesma praça larga dos estabelecimentos da Companhia no
Paraguai.

Embora o urbanismo luso-brasileiro represente em geral a tradição das irregularidades


medievais e a planta linear em vez de quadrada, alguns esforços foram feitos durante a época
colonial na direção de uma formação mais composta e regular. O primeiro realizou-se no
Recife, de Pernambuco, durante a ocupação holandesa.

Em Mariana, em Minas Gerais, o engenheiro militar José Fernandes Pinto Alpoim


delineou em 1745 um novo bairro com ruas direitas e paralelas. Essa parece ser a primeira
instância de uso português da planta de tipo xadrez no Brasil, embora hesitante e limitado.
Elementos dessa planta foram introduzidos em algumas vilas brasileiras fundadas ao fim da
época colonial, como na praça central de Linhares no Espírito Santo, representada numa vista
de 1819, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Em conclusão, podemos epitomar a história do urbanismo colonial na América Latina


da seguinte maneira: os espanhóis empregaram a fórmula rígida do xadrez clássico em todas as
suas povoações depois de 1523. Essas foram quase sempre estabelecidas em sítios planos do
interior, selecionados com cuidado, segundo um código de instruções incorporado nas Leis das
Índias. Em consequência, as velhas cidades quase todas iguais, exceto na colocação das praças
menores e em pequenas diferenças produzidas pela topografia de certas localidades. As ruas
dessas cidades têm uma certa monotonia, mas, ao mesmo tempo, sendo largas e planas,
garantiam facilidade de comunicação até há pouco tempo.

Na América Portuguesa, o povoamento foi feito em sítios extremamente acidentados do


litoral, as principais cidades cresceram sem planta prévia, na forma de raia apertada sobre vários
níveis, com ruas estreitas e íngremes que tornaram difícil qualquer comunicação. O urbanismo
da América Portuguesa sobreviveu da Idade Média e impôs na América a repetição das plantas
das velhas cidades portuguesas. O da América Espanhola foi um produto da renascença e
representou, ao começo, o mais impressionante contraste com o sistema que obtinha na pátria.
Foi uma experiência iniciada na América, destinada a ser quase universalmente aceita no futuro,
inclusive pelo próprio Brasil.

A Igreja Católica teve papel de grande importância na formação do Brasil, assim como
os mosteiros e conventos que ainda hoje impressionam por sua majestosa arquitetura. Enquanto
a atividade extrativista requeria uma arquitetura precária, Portugal resolve investir no Brasil,
criando a cidade de Salvador para ser sua sede. Enquanto a formação social brasileira se
estruturou mais fortemente como uma sociedade dividida em classes e escravocrata, tanto nas
vilas e cidades, quanto nas áreas rurais.

As cidades que os portugueses fundaram, no período colonial, nas regiões produtoras


de açúcar, não diferem muito daquelas erguidas por eles em outras regiões do Brasil. Os
edifícios administrativos e os religiosos eram os marcos definidores do desenho urbano, a
irregularidade de traçados não está associada a falta de conhecimento de urbanismo pelos
colonizadores, pois eles provaram em construções anteriores que possuíam. A exceção de
Salvador, as demais cidades fundadas em regiões açucareiras instaladas foram construídas sem
grandes preocupações com a regularidade de seus planos.

Os edifícios mais notáveis dos engenhos de açúcar eram a fábrica, também chamada de
moita, residência do proprietário, chamada de casa-grande, a capela e a senzala. No período
colonial, os tipos arquitetônicos de casa-grande variam no tempo e no espaço, porém a senzala
não sofre modificações consideráveis.

Nos engenhos foram utilizados todos os sistemas construtivos conhecidos no período


colonial e imperial; nas paredes usou-se o enxaimel, a alvenaria de pedras, de tijolos ou de
adobe e a taipa de pau-a-pique. Nas cobertas empregou-se sempre estruturas de madeira
recobertas com palha ou telhas cerâmicas; nos pisos térreos, tijolos e lajotas de barro, e nos
pisos elevados, assoalhos de madeira. Notáveis por seu uso exclusivo na arquitetura rural, os
tijolos em forma de setor circular ou de meio círculo compunham os fustes de seção circular
das colunas dos alpendres das casas-grandes, capelas e senzalas.

Ao se instalar o engenho, o primeiro edifício construído era a fábrica, geralmente em


alvenaria de tijolos, com estrutura de coberta em madeira. Em seguida a senzala. A casa do
senhor de engenho será erguida a seguir e, nem sempre grande e nem sempre construída com
materiais duráveis. De todos os edifícios do engenho, o mais durável e sólido foi a capela. capela
é, também, o único edifício do conjunto coberto, parcialmente, com abóbadas ou cúpulas
executadas em alvenaria de tijolos ou de pedra, como é o caso da nave da capela.

O valor simbólico da Igreja Católica na civilização do açúcar fica evidente quando se


verifica que as capelas dos engenhos eram os edifícios mais bem cuidados, duradouros e, muitas
vezes, enriquecidos com obras-de-arte de talha dourada e multicolorida, azulejaria e pintura.

Salvador, na Bahia possui vários exemplares imponentes da arquitetura civil no período


colonial, não resta dúvida alguma que se pode atribuir a sua construção à riqueza proporcionada
pela produção e exportação do açúcar, isto é, à riqueza dos senhores de engenho e dos
comerciantes. Os sobrados e solares erigidos em Salvador foram, sem sombra de dúvida, os
mais expressivos exemplares da arquitetura civil realizada nas regiões açucareiras. Alguns
solares e sobrados baianos têm plantas que tendem para o quadrado, como em Salvador e não
para retângulos compridos, como é o caso dos sobrados do atual bairro do Recife.

O significado dos mestres de obra na história da arquitetura da antiga Capitania das


Minas Gerais é muito mais abrangente do que habitualmente se supõe. Atraídos por condições
excepcionais de trabalho proporcionadas pela riqueza econômica e desenvolvimento urbano
das vilas recém-criadas, começaram a afluir para a região já na segunda década do século XVIII.
Esses mestres-de-obras mudariam os rumos da arquitetura na região mineira, adaptando-a ao
uso da alvenaria de pedra, generalizado a partir de 1740, e treinando mão-de-obra local,
incluindo negros e mulatos, como o Aleijadinho, cuja atividade foi marcante na geração
seguinte.

As matrizes mineiras foram construídas em madeira e taipa até meados do século XVIII
e as goianas, até o fim do período colonial, como atestam, em Minas Gerais. Se na maioria das
igrejas construídas em Minas Gerais e em Goiás, ao longo do século XVIII e primeiras décadas
do século XIX, a simplicidade arquitetônica das plantas retangulares é a regra, nas decorações
internas, como de praxe, reina a exuberância ornamental, associando efeitos da talha dourada
aos do colorido das pinturas, em painéis parietais ou composições contínuas nos forros. O olhar
do espectador é conduzido gradativamente para a capela-mor e seu monumental retábulo, por
um jogo sutil de convergências, no qual os retábulos laterais funcionam como etapas
intermediárias.

A arquitetura rural da cultura cafeeira imperial pode ser entendida como continuação
das construções agrárias da monocultura açucareira paulista e fluminense dos séculos XVII e
XVIII. O modelo de austeridade, autorizado pela arquitetura neoclássica oficial, foi a primeira
manifestação arquitetônica da independência política do Brasil. Parece natural, então, que se
associasse à agricultura cafeeira, primeiro motor da nossa independência econômica. As
cidades cafeeiras do interior, surgidas no século XIX. Os edifícios públicos mais notáveis nas
cidades costumam ser as casas de Câmara e Cadeia. Assim como as igrejas, e mais que as casas
particulares, essas sedes de poder local procuram na arquitetura do Rio de Janeiro sua fonte de
inspiração.

Os edifícios mais interessantes, mais fortes e encantadores da cultura do café são, sem
dúvida, as sedes de fazenda. maioria das sedes estabelece suas diferenças individualizantes
sobre algumas características comuns de linguagem arquitetônica: horizontalidade, brancura,
ritmo constante de fenestração, solidez de construção e de aspecto, simplicidade majestosa e
imponente, austeridade ornamental classicizante, amplo domínio visual sobre o entorno para
controle de acesso e das etapas de produção e para visibilidade universal da sede desde os
diferentes domínios do terreno. O fato é que o café manteve o ritmo de renovação arquitetônica
e urbanística acelerado em São Paulo durante toda a República Velha. Com a crise do café de
1930, a avenida Paulista entrou em declínio. A partir dos anos 1940 quase todos os palacetes
da Paulista foram substituí dos por grandes arranha-céus de escritórios.

Transformada em porto comercial importante da região do Meio Norte brasileiro, São


Luís abastecia de algodão de boa qualidade os teares da Inglaterra, durante a Revolução
Industrial e, enriquecendo, tornou-se também conhecida como Atenas brasileira, epíteto devido
aos seus intelectuais. Famílias abastadas enviavam seus filhos para estudar na Europa, nas
melhores universidades de Portugal ou da França, os quais, ao retornarem, logo se desta cavam
no cenário nacional, como jornalistas, escritores e poetas. Os casarões, salvo as adaptações ao
clima equatorial, em tudo lembravam aqueles construídos à época em Lisboa.
De forma geral, nas cidades maranhenses, as construções, em sua maioria muito
precárias e construídas em taipa e palha, foram sendo substituídas por edificações de alvenaria
de pedra argamassada com cal extraído de conchas marinhas e óleo de peixe, empregando
madeira de lei para estruturar os telhados, nas esquadrias e entrepisos.

O surto da borracha pode não ter ensejado o surgimento de casas-sede tão elaboradas
como as dos engenhos nordestinos ou das plantações de café no sudeste, ou ainda, das estâncias
de gado no extremo sul, mas as exigências do cultivo da borracha deram ao seringal, em muitos
casos, certa complexidade, como demonstram estudos recentes e específicos. A predominância
de construções em materiais perecíveis, madeira e palha, fez, porém, com que pouco restasse
para uma análise atual desse tipo de construção.

O tapiri, modelo de construção adaptado da forma indígena de confeccionar abrigos


para atender às necessidades dos recém-chegados. O tapiri era localizado, de maneira
estratégica, na chamada estrada da borracha, permitindo o percurso elíptico que caracterizava a
coleta.

O Teatro Amazonas é fundamentalmente eclético e destaca-se pela modernidade


perceptível na introdução de estruturas metálicas, especialmente a da cúpula, com uma ousadia
técnica e uma fantasia cromática, inimagináveis no teatro do Pará. O teatro construído em
Manaus nasce eclético, com decoração fitomórfica e derivada do art nouveau. Isolado, no setor
mais alto da cidade e favorecido por uma praça que o valoriza, torna-se, assim, um prédio
emblemático, diferenciado dentre as construções do período.

A moradia usual, nas classes mais abastadas, era até então constituída por uma alcova,
peça sem ventilação ou iluminação diretas, seguida por uma varanda e uma "puxada"
envidraçada, contendo a sequência dos quartos, em geral deficientes em luz e arejamento. A
tipologia arquitetônica, cuja planta, materiais e técnicas coloniais estão ligados à figura do
popular mestre-de-obras, passa a ser identificada com um tempo de pobreza material
incompatível com a riqueza proveniente da borracha. A ornamentação das fachadas é o primeiro
passo para reformular os padrões de gosto das capitais. Elaborados elementos decorativos são
apostos a construções que, em geral, mantêm, em seu interior, o conhecido plano tradicional.

A arquitetura de origem portuguesa incorporou entre as suas principais características o


uso de azulejos nas fachadas. Especialmente indicado para a Região Norte, onde o seu uso
amenizava a grande umidade equatorial, o azulejo igualmente dava cor e beleza aos grandes
casarões neoclássicos que se espalhavam pela área central.

O que nos Estados Unidos se materializou, pioneiramente, com estruturas de ferro, no


Brasil viabilizou-se com o concreto armado: o arranha-céu. Os prédios de grande altura nas
primeiras décadas do século XX deixavam as autoridades e os arquitetos perplexos. O concreto
armado viabilizava o surgimento de arquiteturas e volumes construídos, nunca antes vistos na
paisagem urbana.

As revisões históricas têm consignado aos anos 1950 um momento especial para a
modernização brasileira, como um período de intensa industrialização e urbanização. Um
momento generoso para a moderna arquitetura brasileira, cuja consolidação se dava com o
reconhecimento internacional de sua produção e de seus arquitetos, como Lucio Costa, Oscar
Niemeyer, entre outros.

Após o período convulsivo do suicídio de Getúlio Vargas, a gestão do presidente


Juscelino Kubitschek (1956-1961) é relembrada por sua vitalidade e pelo legado de sua política
desenvolvimentista. JK é o responsável por um momento de modernização conservadora,
inovadora na intensa industrialização e crescimento econômico. Surge então Brasília e a
transferência da capital do país para o Planalto Central. A primeira obra realizada dentro dos
princípios modernos do século XX a ser inscrita na Lista do Patrimônio Mundial.

Nathalya de Melo Menezes, matrícula 2016011090, graduanda do 6º semestre do curso de


Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal de Roraima – UFRR, disciplina Arquitetura
Brasileira – AU062. Professora Cláudia Nascimento.

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