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Revista Saúde e Desenvolvimento Humano - ISSN 2317-8582

http://revistas.unilasalle.edu.br/index.php/saude_desenvolvimento
Canoas, v. 4, n. 2, 2016
__________________________________________________________
Artigo de Relato de experiência

Vânia e Sérgio: um estudo de caso com Terapia Cognitivo-Comportamental para


casal

Vânia and Sérgio: a case study with cognitive-behavioral therapy for couples

Vânia y Sérgio:un estudio de caso con la terapia cognitivo-conductual para parejas

http://dx.doi.org/10.18316/2317-8582.16.37

Carol Rebeschini1* Abstract: This article discusses the contributing


factors to the formation and dissolution of the
marriage bond. For that, a therapeutic experience
Resumo: O presente artigo aborda fatores of a couple composed of two individuals with
contribuintes para a formação e a dissolução do previous psychiatric diagnoses and dissatisfaction
vínculo conjugal, utilizando-sede uma experiência history in married life, treated in psychotherapy
de atendimento terapêutico de um casal with Cognitive-Behavioral Therapy, was used. The
composto por dois indivíduos com diagnósticos objective is to understand the relational patterns
psiquiátricos prévios e um histórico de that contribute to the maintenance of aggressive
insatisfação na vida conjugal, tratado em communication between them and for that the
psicoterapia no modelo Cognitivo- initial sessions werediscussed descriptively and
Comportamental. O objetivo é o entendimento theoretically grounded, explaining the principal
dos padrões relacionais que contribuem para a techniquesand the progress made. As the
manutenção da comunicação agressiva do casal experiment results, the couple was able to
e para isso são abordadas as sessões iniciais de achieve greater understanding of the unique
forma descritiva e fundamentada teoricamente, issues of each individual, culminating in the
explicando as principais técnicas utilizadas e os termination of the couple therapyin order to
investment in individual psychotherapy.
avanços alcançados. Como resultados da
experiência, o casal pôde alcançar maior Keywords: Couples Therapy; Cognitive
entendimento das questões singulares de cada Behavioral Therapy for Couples; Case Reports.
componente da dupla, culminando na interrupção
do processo terapêutico a dois para o
investimento na psicoterapia individual. Resumen: El presente artículo analiza los
Palavras-chave: Terapia de Casal; Terapia factores que contribuyen a la formación o
Cognitivo-comportamental para Casais; Relato de disolución del vínculo matrimonial, mediante una
Caso. experiencia de atendimiento terapéutico de una
pareja compuesta por dos individuos con
1*
diagnósticos psiquiátricos previos y una historia
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande de insatisfacción en el matrimonio, tratados en
do Sul, Porto Alegre, Brasil. psicoterapia en el modelo Cognitivo-
Comportamental. El objetivo es la comprensión
Endereço de correspondência: Avenida Getúlio de los patrones relacionales que contribuyen al
Vargas, 1644, sala 611 - Menino Deus, Porto mantenimiento de la comunicación agresiva en la
Alegre, RS. pareja y para eso se abordan las sesiones
iniciales de forma descriptiva y teóricamente
E-mail: carol.rebeschini@gmail.com fundamentadas, explicando las principales
técnicas utilizadas y los progresos alcanzados.
Submetido em: 25/09/2015 Como resultados del experimento, la pareja ha
logrado una mayor comprensión de los problemas
Aceito em: 05/08/2016
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específicos de cada uno de ellos, lo que resultó Palabras clave: Terapia de Pareja; Terapia
en la interrupción del proceso terapéutico de la Cognitivo-comportamental para Parejas; Estudio
pareja con el fin de invertir en la psicoterapia de Caso.
individual.

INTRODUÇÃO ajuda de um psicoterapeuta. No entanto,


sabe-se que a psicoterapia de casal é
O vínculo conjugal se dá por meio de
indicada para qualquer casal em que um ou
um processo complexo de reformulação das
ambos os parceiros atribuam seu sofrimento
individualidades de cada membro da dupla,
individual à relação a dois2.
objetivando a construção de um presente e
de um futuro a dois. Para o desenvolvimento A terapia de casal é foco de estudos
do mesmo e para a construção de uma na teoria Sistêmica há bastante tempo, mas
identidade conjugal, é necessário um grande a abordagem Cognitivo-Comportamental
investimento emocional e sexual. A relação é focada na conjugalidade ganhou maior
construída a partir de trocas intra e espaço apenas nas últimas décadas. Apesar
extraconjugais, de forma que as interações disso, atualmente ocupa um lugar de
sociais da dupla também façam parte dessa destaque em diversos compêndios da área.
identidade formada pelo casal1. Quando utilizamos este referencial teórico
para trabalhar problemas de relacionamentos
Por outro lado, a dissolução da
íntimos, é possível que tenhamos êxito na
relação também ocorre na mesma proporção.
investigação das crenças irracionais ou
Após enfrentarem diversas dificuldades, o
irrealistas que os parceiros têm sobre o
casal inicia um processo de desconstrução
outro, assim como em fazer com que estes
da identidade que antes lhes parecia óbvia.
indivíduos percebam suas avaliações
Desta forma, um dos parceiros ou até mesmo
negativas e disfuncionais quanto ao
ambos, passam a não identificar mais as
relacionamento conjugal, podendo assim
peculiaridades que antes faziam parte desta
flexibilizá-las. Desta forma, torna-se possível
relação, causando sofrimento para ambos1.
a modificação de diversos pensamentos e
Apenas quando esta crise se instaura é que
comportamentos disfuncionais que
alguns casais decidem que é hora de buscar
prejudicam a relação3.
Após algumas sessões de processo leva à identificação das crenças
psicoterapia nesta modalidade, muitos casais individuais de cada componente da dupla e
já estão aptos a monitorar seus pensamentos então torna-se mais fácil o processo de
automáticos que prejudicam a dupla. desculpabilização do parceiro, para que
Inicialmente pratica-se esta habilidade assim cada cônjugepossa compreender e
apenas durante as sessões, facilitadas pelo aceitar suas contribuições para os conflitos
psicoterapeuta, e posteriormente os conjugais4,5.
pacientes já são capazes de utilizar estes
aprendizados no dia a dia do casal. Este
Diante do exposto, o presente estudo DESCRIÇÃO E FUNDAMENTAÇÃO
de caso objetiva explorar os ganhos e as
O casal, foco deste trabalho, foi
dificuldades de um casal em crise que busca
encaminhado para atendimento numa
terapia de casal na modalidade Cognitivo-
instituição de ensino em psicoterapia em
Comportamental. Para isso, serão discutidas
Porto Alegre, visando a atendimento para a
as sessões iniciais realizadas com este casal
filha, que apresentava sintomas graves de
a partir da perspectiva da psicoterapeuta
ansiedade, déficit de atenção e
responsável pelo caso e dos pressupostos
hiperatividade e depressão. Porém, como a
teóricos utilizados para a condução do
menina já estava em terapia individual em
tratamento.
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outra instituição, foi oferecida a opção de psicoterapia era originalmente destinada à


escolha entre uma terapia de família ou uma menina. Ao final da sessão ficou combinado
terapia de casal. Posteriormente os dois que o casal faria contato telefônico na
optaram por iniciar a terapia de casal. A partir semana seguinte, após tomar a decisão
disso, houve a combinação de mantermos sobre a continuidade do processo
sessões semanais. psicoterápico sistêmico ou de casal, já que
Lara estava fazendo psicoterapia com outra
Vânia (39 anos) e Sérgio (45 anos)
terapeuta na época.
eram um casal de classe média, estavam
juntos há 18 anos e casados há 16, desde 2. Segunda sessão:
que sua filha Lara nasceu†. Vânia mostrava-
Tendo em vista que o casal não
se discreta, com tom de voz bastante baixo,
realizou o contato telefônico, a segunda
simples, silenciosa e um pouco descuidada
sessão ocorreu somente um mês depois da
em relação a sua aparência. Em muitas
primeira, quando a instituição contatou Vânia,
sessões apareceu com o cabelo visivelmente
afim de confirmar o encerramento do
sujo e com roupas aparentemente velhas e
processo. Neste telefonema ela informou que
gastas. Além disso, Vânia foi diagnosticada
continuava interessada na terapia, então,
com Transtorno Obsessivo-Compulsivo e já
marcou-se uma nova sessão.
teve problemas com compras compulsivas.
Sérgio mostrava-se extrovertido, teatral, Na segunda sessão, os dois optaram
explosivo, falava muito alto e transparecia ser por não trazer Lara para que pudessem falar
uma pessoa bastante ansiosa. Sempre sobre quaisquer assuntos sem se preocupar
inquieto, já passou por algumas crises de com a menina. O casal passou a sessão
depressão e foi diagnosticado com discutindo muito um com o outro, reclamando
Transtorno de Déficit de Atenção e e discordando quase o tempo todo. A sessão
Hiperatividade ainda na infância, assim como foi destinada à história pregressa do
sua filha. relacionamento dos dois até o presente
momento. Além disso, Vânia contou que
1. Primeira sessão:
sofre com um nível grave de Transtorno
O primeiro contato com Vânia e Obsessivo-Compulsivo e percebeu-se que o
Sérgio foi em uma entrevista juntamente com comportamento de Sérgio é muito parecido
a filha do casal, Lara. Nesta entrevista Sérgio com o de Lara, ambos com Déficit de
mostrou-se muito ansioso ao longo de todo o Atenção e Hiperatividade. Apesar das
atendimento, demostrando dúvidas quanto sucessivas discordâncias do casal, ambos
ao seu interesse pela consulta, já que conseguiam assumir que seus diagnósticos
acreditava desnecessária a busca por “mais individuais influenciavam negativamente a
um atendimento para a filha” (sic). Lara vida a dois e que seus sintomas patológicos
demonstrou ser uma criança muito alegre, geravam atritos diários na rotina do casal.
teatral, carinhosa e aparentemente também Como o caso ainda estava em processo de
muito ansiosa e hiperativa. Neste dia, Lara avaliação, nenhuma tarefa foi prescrita para
estava sem ir à escola há uma semana por a dupla nesta sessão.
terem-na convidado a se retirar de sua
3. Terceira sessão:
escola anterior, justificando que a instituição
não possuía o suporte necessário para dar a Na terceira sessão, pela primeira vez,
atenção de que ela precisaria. Esta sessão Vânia se apresentava com um aspecto limpo
foi dedicada à anamnese de Lara, já que a e organizado, além disso, estava mais falante
do que o habitual. Após combinarmos que a

Os nomes, idades e profissões, assim como outras terapia seria de casal, com orientação
informações, foram alterados com o objetivo da não Cognitivo-Comportamental, realizou-se a
identificação dos indivíduos em questão. Além disso, psicoeducação do modelo de tratamento
todos os cuidados éticos foram tomados e um TCLE foi
assinado pelos envolvidos. para casais. Fez-se um registro de

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pensamento disfuncional e foram explicadas com amigos poupando-os de nossas ironias
as distorções cognitivas mais comuns, dentre e lavagem de roupa suja; uma vida sexual
elas, a catastrofização em especial, já que foi mais saudável e ativa; parar de discutir em
a mais identificada na relação do casal. Após frente à filha” (sic). Com base nas metas
isso, foi solicitado que cada um deles levantadas por Sérgio e nas sucessivas
escrevesse suas metas de terapia numa reclamações trazidas em sessão, observou-
folha. se o quanto ele se sentia diminuído quando
Vânia discutia com ele na frente dos outros.
Segundo Dattilio3, é de fundamental
A partir dessa verbalização, foi abordada a
importância que o terapeuta possa instruir o
vida sexual do casal, que era percebida por
casal quanto aos princípios da terapia
ambos como ativa, porém insatisfatória.
cognitivo-comportamental, para que eles
Sérgio acreditava que a frequência era baixa
possam compreender todos os métodos que
e Vânia se sentia usada após a relação
fazem parte deste tipo de tratamento. Desta
sexual.
forma, o paciente se torna mais engajado ao
tratamento, bem como se torna possível o Ao final da sessão, apontamos os
estabelecimento de metas terapêuticas, as pontos em comum nos objetivos dos dois, já
quais guiarão o processo terapêutico na que apesar de a dupla ainda estar muito
busca dos objetivos trazidos pelos pacientes agressiva entre si, ainda era possível
no momento de avaliação. Além disso, desta encontrar uma coerência em seus desejos
maneira também é facilitada a instauração da para o futuro. O objetivo desta atividade era
noção de responsabilidade do paciente instaurar o sentimento de esperança em
quanto ao tratamento, que não mais poderá Vânia e Sérgio, que pareciam ainda muito
colocar sob responsabilidade apenas do pessimistas quanto ao alcance da terapia por
terapeuta o andamento da psicoterapia3. já terem sido atendidos nesta modalidade
dez anos antes e não terem percebido sinais
As metas levantadas por Vânia foram:
de melhora.
“possibilidade de espaço que propicie o
diálogo (escuta, expressão, troca) entre o 4. Quarta sessão:
casal; conhecimento e conscientização de
O quarto encontro iniciou com trinta
ambos sobre os comportamentos repetitivos
minutos de atraso. Vânia contou que se
e negativos, que acabam por propiciar a
atrasaram porque tiveram que passar num
manutenção de um cotidiano/rotina/vida com
caixa eletrônico porque haviam se esquecido
muito baixa qualidade; entendimento e
de trazer dinheiro para o pagamento. Este
condição de mudança visando a uma vida
comportamento, de dificuldade com o horário
mais saudável (com foco na vida de uma
e com o pagamento, seguiu sendo um
criança que desde sempre esteve envolta em
problema de organização para o casal até o
um clima de conflito/tensão/angústia e que
final do processo terapêutico. Nesta sessão,
creio que por esse motivo não consegue
por iniciativa da terapeuta, discutiu-se o
dimensionar adequadamente e organizar os
quanto eles estavam realmente dispostos a
sentimentos, reações e ações).” (sic) Com
tentar modificar um funcionamento tão
base nessas metas, pudemos confirmar a
arraigado em seu dia a dia, considerando
hipótese de que Vânia usa da racionalização
que isso não seria um processo fácil e que
como forma de não entrar em contato com
exigiria muito investimento de ambos. Como
suas reais emoções e sentimentos.
tarefa, foi solicitado que Vânia e Sérgio
As metas de Sérgio foram: fizessem um jantar na casa deles junto com
“Organização de espaço e tempo; aprender a Lara, já que eles costumavam fazer todas as
lidar com Lara e que ela não seja motivo de refeições na casa dos pais de Sérgio, onde
desavença; harmonização; que cada um Lara morava durante a semana. Neste jantar,
possa aprender a ceder; que possamos sair eles cozinhariam juntos um prato

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anteriormente escolhido pela dupla em porém, acredita-se que os que mais se
sessão. enquadram são os do primeiro e do quinto
domínios para Vânia, e os do segundo e do
A esta altura do processo terapêutico
terceiro domínios para Sérgio. Partindo
estava evidente o funcionamento dependente
desse pressuposto, torna-se perceptível que
de Sérgio, que aceitava ser sustentado
ambos têm seus esquemas confirmados
inteiramente pela esposa e pelos pais, há
pelos do outro, na medida em que Vânia se
anos sem um empreso fixo. Nesta época, o
sente incompreendida e sem apoio, Sérgio
casal estava esperando que os pais de
acredita ser merecedor de privilégios e não
Sérgio adquirissem um outro apartamento
consegue desenvolver um comportamento
para que eles se mudassem dali, já que os
tolerante e acolhedor com a esposa,
dois viviam em um apartamento emprestado
mantendo-se dependente.
pelo irmão de Sérgio e este o queria de volta.
Além disso, Sérgio saía diariamente de sua 5. Quinta sessão:
casa pela manhã para tomar banho e vestir-
Na quinta sessão, como de costume,
se na casa de seus pais, já que era lá que
o casal relatou que não cumpriu a tarefa que
suas roupas eram lavadas. Vânia, por sua
havíamos combinado. Vânia disse que não
vez, contribuía para que esta homeostase
jantaram juntos porque Sérgio chegou em
continuasse, mostrando-se também
casa mais tarde do que ela esperava,
estagnada à espera de mudanças que, em
quando ela já havia decidido ir jantar com
sua mentalidade, deveriam vir impostas pelos
Lara na casa dos avós. A partir desta
sogros. Ela sempre referia o incômodo que
verbalização, ficou evidente que Vânia não
sentia pela intensa interferência dos sogros
desejava cumprir a tarefa, já que eles
em suas vidas, porém seguia visitando a
poderiam ter cozinhado juntos qualquer outro
casa deles diariamente e entregando sua
dia da semana. Após apontar este
filha aos cuidados da sogra semana após
comportamento de sabotagem da tarefa,
semana.
trabalhamos a dificuldade de comunicação
A Teoria dos Esquemas de Young, do casal, focando em técnicas de treino de
aplicada à terapia de casal, propõe que a comunicação de casais e resolução de
escolha do cônjuge se dá sob influência dos problemas. Foram utilizados exemplos
esquemas formados na infância, para a práticos para explicitar as falhas na
formação de um vínculo que confirme seus comunicação dos dois. Tanto Sérgio quanto
pressupostos e crenças quanto a si mesmo e Vânia concordaram que costumam colocar a
aos outros6. Os esquemas descritos por culpa um no outro quando algo dá errado.
Young7 são divididos em cinco domínios. São Por isso,foi elaborada uma lista das coisas
eles: desconexão e rejeição (incluindo os que um faz que incomoda o outro, para que
esquemas de abandono, desconfiança, não mais ficasse nas entrelinhas os
privação emocional, vergonha e isolamento problemas do casal. Cada item da lista foi
social), autonomia e desempenho discutido em sessão, e, posteriormente, um
prejudicados (dependência, vulnerabilidade, item de cada lista foi escolhido para que o
emaranhamento e fracasso), limites casal pudesse tentar diminuir esse
prejudicados (merecimento/grandiosidade e comportamento durante a semana em casa.
insuficiência de autocontrole/autodisciplina),
Falhas na comunicação do casal
orientação para o outro (subjugação e
costumam ser um dos maiores motivos de
autossacrifício) e supervigilância e inibição
busca por terapia. Nestes casos, um dos
(negativismo, inibição emocional, padrões
cônjuges ou os dois costumam culpar o outro
inflexíveis e caráter punitivo).
pelos problemas que estão enfrentando. O
É possível identificar em Vânia e grande problema é que, mesmo quando um
Sérgio diversos esquemas descritos acima, dos membros do casal tenta resolver as

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questões pendentes, pela inabilidade na abandono, relacionamentos anteriores,
comunicação, muitas vezes acaba por possíveis traições e outros temas. Desta
agravá-las ainda mais. Nestes casos, a forma, torna-se possível realizar um maior
comunicação costuma se dar de uma forma entendimento para a formulação de
agressiva e de tal modo progressiva, que hipóteses sobre quaisquer psicopatologias
leva os cônjuges ao comportamento de que podem estar envolvidas no mau
esquiva8. Este tipo de comunicação funcionamento do casal. Porém, ainda o
agressiva já estava instaurado no dia a dia mesmo autor reforça um fator com o qual se
de Vânia e Sérgio há muitos anos e deve ter muito cuidado nestas entrevistas,
atualmente a esposa relatava que muitas que é o de clarear as questões de
vezes procurava chegar mais tarde em casa confidencialidade, para que não pareça
propositalmente para não ter que conviver possível ao paciente a criação de um elo com
tanto com o esposo, demonstrando o terapeuta que exclua o outro cônjuge3.
comportamento de esquiva.
A primeira consulta individual foi com
O treino de comunicação possibilita Vânia, por uma questão de agenda do casal.
que o casal aprenda a aumentar sua Segundo a paciente, sua infância foi
habilidade de negociação e de marcada por um trauma por volta dos nove
enfrentamento de problemas e foi empregado anos de idade, quando foi atropelada por
neste caso visando a romper este padrão uma moto. Nesta ocasião, tiveram que cortar
evitativo. Este processo busca trabalhar tanto seu cabelo na raiz para dar pontos no
a aceitação, quanto a desacomodação para ferimento e, por sentir-se feia desta maneira,
a mudança. Nestes casos, o treino de ela não quis mais ir à escola e se tornou uma
resolução de problemas também é muito menina mais introvertida e insegura que
utilizado, já que com ele é possível identificar anteriormente. Segundo Vânia, sua mãe
outras possibilidades de enfrentamento e de tinha descontrole de impulso, era
comportamentos mais adaptativos aos desorganizada e evadiu cedo da escola. “Ela
problemas enfrentados. Com estas técnicas, não fazia nada, só tricô”(sic). Já seu pai foi
busca-se estimular que o casal passe a se um homem estudioso, com ensino superior
relacionar enviando mensagens claras e completo e, por conta disso, os dois não
informações completas um ao outro, conseguiam se comunicar adequadamente,
contribuindo assim para a formação de um já que o pai se irritava com as limitações da
ambiente conjugal mais agradável e seguro8. mãe. Além disso, era o pai quem ocupava o
papel de provedor e, apesar de ficar pouco
6. Sexta sessão:
em casa, era ele quem dava limites aos três
A sexta e a sétima sessões foram filhos quando necessário.
apenas individuais, como acordado
Durante a adolescência, Vânia
previamente, para que fosse possível obter
costumava ser tímida, tinha medo da
mais informações sobre a história de vida de
professora e não gostava de ir à escola.
cada um, assim como quaisquer sentimentos
“Aguentava o colégio, mas tinha vontade de
não compartilhados pelos dois. Segundo
chorar e segurava” (sic). Sempre teve poucos
Dattilio3, é de grande importância que, em
amigos e nunca se sentiu pertencente a um
terapia de casal, os membros também
grupo, devido à sensação de rejeição que
possam ser vistos individualmente para que
trazia desde pequena e que a induziu a um
se obtenham maiores informações sobre o
certo distanciamento de seus pais e irmãos,
funcionamento do indivíduo durante toda a
já que ninguém tinha o costume de
sua vida, até o presente momento. Nestas
demonstrar afeto na casa. Ao terminar o
sessões, costuma ser mais fácil abordar
colégio, iniciou a faculdade de Relações
temas difíceis sobre as individualidades dos
Internacionais porque queria sair da casa de
pacientes, como depressão, sentimentos de
seus pais e morar fora do país. A partir desta
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sessão, pôde-se perceber que Vânia possuía que não recebeu a segurança necessária
sintomas intensos de depressão desde a para se sentir acolhido9. No caso de Vânia foi
infância, sempre se sentindo deslocada de possível identificar fortes traços indicadores
sua família e objetivando fugir deste contexto dos três grupos de crenças, indicando que a
desde muito nova. paciente possivelmente não recebeu carinho,
validação e segurança durante sua infância e
Foi na época da faculdade que Vânia
tornou-se uma adulta incapaz de sentir-se
conheceu Sérgio, na universidade. Segundo
amada.
ela, o marido era socialmente esquisito e,
quando o conheceu, não queria manter Após dois anos de relacionamento,
nenhum contato com ele, inclusive evitou dar Vânia engravidou de Lara. Neste período,
seu número de telefone. Porém, Sérgio ela e Sérgio moraram na casa dos pais da
conseguiu o contato com alguns amigos em moça por alguns meses. Mais próximo ao
comum e seguiu insistindo em sair com final da gestação, o casal recebeu o
Vânia por duas semanas até que ela apartamento onde moram hoje, emprestado
concordou. Os dois começaram a sair, porém do irmão de Sérgio, porém não conseguiram
duas semanas após o primeiro encontro, se organizar para de fato realizar uma
Vânia comentou com seus amigos que mudança. A partir disso, percebeu-se que
precisava terminar o relacionamento logo desde esta época Vânia e Sérgio já
porque não gostava de Sérgio. demonstravam ter muitas características do
comportamento de estagnação que ainda
Vânia acreditava que seu problema
apresentam hoje. O fato de os dois
sempre fora a carência e que era por causa
possuírem um local para morar, porém não
disso que ela continuara seu relacionamento
conseguirem se organizar para isso,
com Sérgio, apesar de não gostar dele. “Me
mantendo-se dependentes dos pais é algo
vendia muito barato. Sentia-me sozinha e
muito significativo, mostra a necessidade de
queria companhia” (sic) “Nunca foi bom, só
ambos continuarem a homeostase familiar.
era menos pior. Eu achava que era o que eu
Quando Lara nasceu, Vânia e Sérgio
merecia” (sic). Nestas falas, foi possível
continuaram morando com os pais por algum
observar fortes crenças de desamor e
tempo. A filha dormia em um carrinho de
desvalia por parte de Vânia, que diz ter
bebê, enquanto seu berço ficava no
aceitado muitas coisas para apenas ter
apartamento que supostamente eles
companhia para sair de casa. Além disso,
deveriam estar habitando.
através destas falas também foi possível
hipotetizar o motivo pelo qual a paciente Esta sessão finalizou com a paciente
sentia-se usada após ter relações sexuais bastante emocionada ao deparar-se com sua
com o esposo, Vânia assumiu sentir-se história de vida. Ao mesmo tempo em que
“vendida” ao esposo em troca de atenção. Vânia parecia estar acostumada a queixar-se
de tudo na frente do marido, na sessão
Crenças nucleares são algumas de
individual ela conseguiu expor de forma mais
nossas concepções mais arraigadas sobre
madura o quanto lamenta a situação atual do
nós mesmos, os outros, o mundo e o futuro.
casal e o quanto consegue enxergar seu
Estas costumam ser incondicionais e muito
padrão de funcionamento disfuncional,
difíceis de serem flexibilizadas. São
sempre sabotando seus possíveis avanços
formuladas desde a infância, nas mais tenras
individuais, assim como os de seu marido.
vivências significativas em nossas vidas.
Vânia inclusive verbalizou seu medo de sair
Estas crenças estão ligadas a sentimentos
de sua zona de conforto e de fato promover
de desamor, desvalor e desamparo, ou seja,
mudanças em seu dia a dia.
em ordem, o indivíduo possuidor destas
crenças acredita que não é passível de ser
amado, que é indesejável e sem atrativos e

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7. Sétima sessão: época, e aos 30 anos veio a terceira crise,
por perceber que estava demorando muito
Como combinado, a sétima sessão foi para se formar, enquanto seus amigos já
individual, para que Sérgio pudesse também tinham uma situação mais independente e
relatar sua história de vida. O pai e a mãe estável. Nesta ocasião, mais uma vez o
eram advogados e existia um irmão mais sentimento de fracasso aflorou na vida de
novo. Aproximadamente aos cinco anos de Sérgio, já que a partir do relatado é possível
idade, Sérgio foi diagnosticado com inferir que esta depressão tenha sido
problemas de coordenação motora e, por desencadeada pela crença de desvalia.
conta disso, iniciou alguns tratamentos
terapêuticos, porém ele não guardava muitas A depressão e o sentimento crônico
memórias disto. Sérgio repetiu a segunda de tristeza eram um sintoma muito presente
série por faltas devido a uma catapora e após na família de Sérgio e Vânia. Apesar de
isso trocou de colégio para não ficar na somente ele ter relatado grandes crises de
mesma turma que o irmão. Na pré- Transtorno Depressivo Maior, Vânia parece
adolescência, teve a primeira de três grandes ter apresentado durante toda sua vida um
crises depressivas, porém não se recordava humor deprimido. Além disso, afilha do casal,
exatamente do que desencadeara este Lara, também já havia apresentado sintomas
processo. deste transtorno, pois em uma ocasião no
colégio ameaçou se suicidar. Em ambas as
Sérgio referiu ter sido um bom aluno famílias de origem também estava presente o
até a sexta série, embora reconhecesse que transtorno de humor em vários parentes.
tinha facilidade nas ciências humanas e
dificuldade nas exatas. Na sétima série Quando Sérgio conheceu Vânia, disse
repetiu novamente de ano e, como repetente, que logo se apaixonou: “Eu bati o olho e
acreditava ter sofrido bullying. Após terminar disse: é essa!” (sic). Segundo ele, ela sempre
o colégio, iniciou concomitantemente a foi grosseira e chamava-o de retardado ou
faculdade de Administração e de Filosofia, monstro, às vezes. Quando Vânia
porém, por volta do quinto semestre engravidou, iniciou-se uma fase muito difícil
abandonou a Administração por questões para o casal, pois Vânia culpou o esposo
financeiras. Mais ou menos na mesma época pela gravidez indesejada. Quando Lara
foi diagnosticado com Transtorno de Déficit nasceu, não colocaram nome na menina por
de Atenção e Hiperatividade. quinze dias, até que Sérgio tomou iniciativa
para registrá-la mesmo sem a aprovação de
Sérgio dizia que, apesar de ser o Vânia. Após isso, ela continuou chamando
irmão mais velho, sentia como se fosse o Lara de “a nenê”, porque não gostava do
mais novo e que sabia ser imaturo em muitas nome que Sérgio havia colocado na menina,
questões. Seu irmão era muito bem sucedido o que demonstra a crônica insatisfação da
e Sérgio referia que os dois sempre foram esposa e sua necessidade de sempre culpar
muito competitivos um com o outro, o que alguém por sua infelicidade, livrando-se de
instaurou no paciente um sentimento de sua responsabilidade.
fracasso que o acompanhou a vida toda. Os
pais dele, ao contrário dos de Vânia, foram A transição para a parentalidade, no
muito carinhosos na criação dos dois e nascimento do primeiro filho, acarreta uma
Sérgio referiu sempre ter feito parte de série de mudanças no dia a dia do casal e na
grupos de amigos e de ter tido alguns identidade de família do mesmo. Atualmente
especiais. Na época, acreditava ter cinco é considerada uma das etapas mais
amigos mais íntimos. Aos 21 anos, Sérgio marcantes no ciclo vital de qualquer
teve a sua segunda crise depressiva, indivíduo, sendo assim, é também uma etapa
desencadeada pelo término indesejado de bastante turbulenta para casais disfuncionais.
um relacionamento com sua namorada da Este momento é marcado por muitas

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expectativas quanto ao papel parental e, demonstrando medo e tristeza frente à
quando essas expectativas são ameaça de perda. Ele respondeu que tinha
essencialmente divergentes entre os muito medo de que as coisas
cônjuges, o bem-estar da tríade é afetado, permanecessem sempre iguais no futuro. A
podendo chegar a gerar ou agravar crises partir das respostas de ambos, foram
depressivas ou outras perturbações nos trabalhadas as emoções e os pensamentos
genitores10. Possivelmente, Vânia, que já após um ter ouvido a resposta do outro.
vinha com sintomas de depressão, teve sua Ambos concordaram que foi muito difícil,
crise agravada pela gravidez indesejada e porém Vânia não conseguiu nomear seus
pelas diferenças dela em relação à ideia de sentimentos.
família do esposo.
A inteligência emocional é a
Em janeiro deste mesmo ano, quando habilidade do indivíduo de sentir, reconhecer
Lara ainda era um bebê, Sérgio ameaçou e expressar suas emoções. Crianças que
separar-se de Vânia. Outras ameaças já vivenciaram situações estressoras na
haviam sido feitas, porém, segundo ele, não infância, de intensa ansiedade, podem
“de verdade”. Nesta sessão individual, ele desenvolver psicopatologias no futuro, pois
admitiu que iniciou o processo terapêutico tèm uma capacidade diminuída no
pensando que provavelmente o rumo seria o reconhecimento de outras emoções11.
da separação. Porém, Sérgio acreditava que Acredita-se que um dos fatores envolvidos na
Vânia não queria se separar porque tinha dificuldade emocional de Vânia possa ter
medo de ter que voltar para a casa dos pais. sido a falta de carinho e apoio na infância,
Desta forma, o paciente aceitava esta somado a sua vergonha de ir à escola após
situação de conveniência e rejeição em troca ter tido seu cabelo raspado, acarretando-lhe
de continuar casado com a mulher que dizia intensa ansiedade social e danos
amar. Quanto às ameaças de separação, permanentes a sua autoestima.
apesar do que Sérgio relatava, elas não
Evidenciou-se nesta sessão a
pareciam ter real intenção, já que foram
incapacidade de ambos se comunicarem de
feitas diversas vezes e em nenhuma delas
forma assertiva, desta forma foram utilizadas
foram tomadas providências para tal.
algumas ferramentas do treinamento de
8. Oitava sessão: habilidades sociais para que Vânia e Sérgio
pudessem treinar formas de se expressar um
Na oitava sessão os dois mostraram-
com o outro sem serem agressivos. O
se mais agressivos que o usual, por isso,
Treinamento em Habilidades Sociais,
foram praticadas maneiras de sinalizar coisas
anteriormente chamado de Treinamento
um ao outro sendo assertivos, não
Assertivo, segundo Caballo12, é uma das
agressivos, como estavam acostumados.
técnicas mais eficientes para obter uma
Nesta ocasião, questionou-se o que eles
melhor efetividade nas relações
consideravam um relacionamento saudável.
interpessoais, contribuindo para obtenção de
Vânia respondeu que era um relacionamento
uma melhoria na qualidade de vida em geral
onde havia boa comunicação, com acordos,
do sujeito.
tarefas e respeito. Sérgio disse que deveria
haver tolerância, flexibilidade e preocupação 9. Nona sessão:
com o bem-estar do outro. Após isso, o casal
Sérgio não compareceu à nona
foi questionado quanto a sua visão de futuro
sessão por motivos profissionais, então
conjugal a curto e médio prazo. Vânia
Vânia fora sozinha. Inicialmente foram
inicialmente respondeu que via tudo escuro
levantados os prejuízos que o Transtorno
e, após um período, disse que se via com um
Obsessivo-Compulsivo gerava em sua vida e
apartamento próprio e separada, o que fez
ela confessou que em seu antigo trabalho
com que Sérgio se emocionasse,
isso chegava a atrapalhar muito no convívio

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com os outros colegas. Quando ela saiu incongruência do casal e então os dois
deste trabalho, teve a sensação de que o afirmaram que talvez o caminho da terapia
restante da equipe se sentiu aliviada e após fosse o da separação. A partir desta aparente
isso não manteve contato com nenhum decisão, foi proposto aos dois que
colega. passassem uma semana sem se ver, com a
finalidade de que o casal pudesse sentir os
Nesta sessão, também foi possível
benefícios e malefícios de uma vida não mais
confrontar sua ambivalência a respeito da
a dois. Sérgio iria para a casa dos pais e
meta trazida inicialmente, de harmonizar a
Vânia permaneceria no apartamento.
relação conjugal, com a colocação sobre sua
Inicialmente os dois concordaram, apesar de
perspectiva de estar separada em um futuro
Vânia aparentar resistência, mas
relativamente breve. Por um lado ela
determinamos o início da tarefa não para a
desejava evoluir, ter mais autonomia e se
mesma semana e sim para a próxima, por
divorciar de Sérgio; por outro, tinha medo de
motivos de trabalho de ambos. Porém, os
sentir-se ainda mais sozinha e desamparada
dois desmarcaram as duas sessões
do que já vinha sentindo-se a vida toda.
seguintes, demonstrando não estarem
Vânia admitiu sua ambivalência, mas não
preparados para rumar em direção à
conseguiu definir realmente qual era seu real
separação.
desejo. Além disso, relatou que Sérgio vivia
estipulando datas para a separação, para ela 11. Décima primeira sessão:
ir embora do apartamento, caso ela não
Após este período de faltas, retomou-
começasse um tratamento focado em seu
se o real desejo do casal em dar
transtorno, o que lhe trazia mais a sensação
continuidade ao processo terapêutico, tendo
de solidão, apesar de não acreditar que o
em vista a dificuldade de ambos em manter
marido fosse capaz de realmente pedir a
os horários, as datas e fazer as tarefas de
separação. A paciente trouxe que acreditava
casa. Sérgio expressou vontade de investir
que Sérgio vivia como um parasita,
na terapia, mas Vânia permaneceu reticente,
demandando seus cuidados enquanto os
dizendo que talvez tivessem outras questões
cuidados de sua filha ficavam a cargo da avó.
primárias a serem resolvidas antes do
Vânia sabia que contribuía para manter esse
casamento, a serem trabalhadas na terapia
funcionamento, porém acreditava que
individual. Nesta época, Vânia já estava em
continuava casada por causa do papel social
tratamento individual há algum tempo, porém
que Sérgio ocupava como pai naquela
o marido seguia resistente em retomar sua
família, dividindo os cuidados de sua filha e
terapia interrompida há anos.
as responsabilidades do dia a dia. Ao final da
sessão, Vânia disse que pensava que seria Outra incongruência percebida no
um alívio para todos se o marido morresse. casal era em relação ao comportamento de
Com o objetivo de questionar este Sérgio frente à terapia. Nos momentos em
pensamento, pedi que ela procurasse pensar que ele foi questionado quanto a sua real
bastante sobre sua ambivalência e que se intenção em investir no processo terapêutico,
posicionasse frente ao esposo na próxima Sérgio era sempre o que mais insistia ser
sessão, tendo em vista a necessidade de possível que os dois vivessem com maior
nomear os sentimentos e emoções que harmonia e dizia que estava pronto para
estavam impedindo o casal de avistar um fazer o que fosse necessário para isso.
futuro mais feliz em conjunto. Porém, apesar de Vânia se mostrar reticente
quanto à terapia, era somente ela que fazia
10. Décima sessão:
contato com a terapeuta por telefone e
Na décima sessão, após atualizar procurava acertar horários para as sessões,
Sérgio a respeito dos assuntos trabalhados enquanto Sérgio sequer avisava quando
na última sessão, falamos muito sobre a tinha que desmarcar a sessão.

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12. Décima segunda sessão: tratando como casal, já que ambos estavam
fazendo terapia individual e que os atrasos,
O casal chegou pontualmente na
as faltas e os esquecimentos eram a regra no
décima segunda sessão, porém, quando
funcionamento dos dois. Ao final de um ano
foram questionados quanto à tarefa, que era
neste processo turbulento, concluímos em
pensar a respeito da continuidade ou da
supervisão que não mais estava sendo
ruptura do tratamento, Vânia disse que não
terapêutico para o casal continuar em
se lembrava do que havíamos combinado.
psicoterapia, já que ambos apenas seguiam
Assim, com a ajuda de Sérgio, o assunto foi
com os comportamentos poliqueixosos em
retomado e ambos concordaram em investir
relação ao outro e não apresentavam
no casamento.
mudanças significativas em nenhuma atitude.
Durante o restante da sessão, foi Foi indicado que Vânia e Sérgio
aplicado um questionário sobre satisfação na continuassem a terapia individual de cada um
relação conjugal, no qual ficaram claras, e que voltassem a buscar atendimento para o
pelas respostas, diversas incongruências e casal posteriormente, quando se sentissem
distorções cognitivas sobre crenças de preparados para enfrentar verdadeiras
ambos. Devido ao tempo, foram discutidas mudanças em seus comportamentos e
apenas as primeiras afirmações. A partir atitudes um com o outro.
delas, pudemos perceber que tanto Vânia
quanto Sérgio não se sentiam amados um
pelo outro e gostariam que o outro DISCUSSÃO
demonstrasse mais afeto. Neste momento,
O caso de Vânia e Sérgio nos leva,
pela primeira vez, Vânia emocionou-se ao
como terapeutas, a uma reflexão muito
falar que não se sentia amada por ninguém e
importante: muitas vezes, antes de
que Sérgio não supria esta falta nela. Nesta
pensarmos em fortalecer um casal, é
sessão, já que Sérgio vinha falando sobre
necessário fortalecermos os indivíduos
poesias que estava escrevendo, ficou como
separadamente, para que cada um se sinta
tarefa de casa que ele escolhesse uma
íntegro e forte o suficiente para provocar
poesia sobre amor e desse para Vânia ler, de
mudanças em seus padrões de
forma que ela pudesse receber algum
enfrentamento, assumir as consequências de
carinho e ele, se possível, recebesse de
seus atos e as influências de seus
Vânia algum reconhecimento.
comportamentos sobre a relação conjugal. O
Durante as demais sessões, autoconhecimento leva o indivíduo ao
discutimos estratégias de melhoria na sentimento de liberdade e aceitação. A falta
qualidade de vida do casal, sempre com a deste sentimento e a má elaboração dos
temática de uma possível separação como conflitos do passado leva ao aprisionamento
um fantasma nos atendimentos e na vida de do mesmo dentro dele próprio. Sendo assim,
Vânia e Sérgio. Apesar das ameaças, ambos somos limitados mais por nós mesmos do
evitavam qualquer comportamento em que pelo contexto. O ser humano é um ser
direção ao término, apenas agrediam social, porém para nutrir bons
verbalmente um ao outro no seu dia a dia, relacionamentos é necessário que
desgastando a relação e revelando as primeiramente se crie um bom
dificuldades na aprendizagem e na adoção relacionamento consigo mesmo13. Vânia e
de novos comportamentos. Sérgio não conseguiram desenvolver-se
individualmente antes de formarem-se como
Após mais alguns meses de terapia,
casal, por isso justifica-se a necessidade de
nos quais continuaram ocorrendo as faltas,
terapia individual antecedendo o processo
os atrasos e os esquecimentos, iniciamos
conjugal.
discussões a respeito de se era realmente
indicado que os dois continuassem se

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O processo descrito acima foi capaz buscou romper com a homeostase do
de proporcionar maior entendimento sobre as relacionamento. Esta hipótese é sustentada
dificuldades individuais da dupla e sobre a pelo fato de posteriormente o casal ter
parcela de responsabilidade que suas buscado novamente a instituição para terapia
dificuldades e transtornos individuais gerava de casal para daí sim, após três anos, passar
no casamento. Apesar disso, devido ao alto por uma separação de forma mais saudável.
grau de sofrimento individual, nenhum dos
membros da dupla foi capaz de desenvolver
o sentimento de aceitação e de perdão pelas CONCLUSÃO
limitações individuais. Casos como o de Vânia e Sérgio
Vânia não conseguiu desenvolver em evocam no terapeuta um misto de paixão e
sua juventude a capacidade de identificação frustração, pelo profundo desejo de provocar
de suas emoções e, por isso, assumia tudo o a mudança juntamente com as sucessivas
que sentia como raiva. Enquanto Sérgio não desistências e adiamentos por parte dos
recebeu suporte positivo, validação e pacientes. Porém, através destes casos, o
incentivo à autonomia na infância e, até a terapeuta tem a oportunidade de perceber
fase adulta, seguia sentindo-se um eterno que existem emoções paralisantes e, muitas
adolescente carente de reconhecimento. O vezes, o paciente necessita de mais tempo
casal precisava desenvolver-se para processar seus medos e suas dores
individualmente antes de conseguir até mais profundas a fim de reunir coragem em
mesmo criar uma identidade a dois. Segundo direção às mudanças desejadas. Estar
Leahy et al. 14, indivíduos pouco regulados disponível e perceber o tempo necessário é
emocionalmente lidam de forma problemática um desafio que se pode transpor para
com o que sentem, desenvolvendo auxiliar a busca do desenvolvimento de
comportamentos disfuncionais e até autocuidado e autoestima daqueles que
autodestrutivos. A desregulação emocional, buscam a relação de ajuda.
portanto, pode provocar inclusive o Experiências como a relatada neste
afastamento de pessoas importantes, já que artigo nos permitem visualizar outros
nestes casos as emoções não são processos terapêuticos e aprender com os
processadas corretamente. acertos e erros dos mesmos, construindo-nos
Ficou evidente após um ano que a como seres de um contexto em que a partilha
terapia não estava sendo suficientemente do conhecimento auxilia a concepção de
eficiente para a melhora da relação do casal. novas possibilidades na relação de ajuda. O
Alguns avanços foram alcançados, mas a investimento no estudo de nossas
principal questão, da separação, não pôde experiências do passado nos move e motiva
ser trabalhada, uma vez que os dois se a melhorar a prática do futuro, colocando-nos
mantiveram sempre oscilando, ora decididos como eternos aprendizes. Relatos como
a terminar o relacionamento, ora propondo- este, além de tornarem possível a análise de
se a investir na relação. Ao mesmo tempo, um caso para outras pessoas, também
apesar das diversas vezes em que Vânia e elucidam no imaginário do terapeuta uma
Sérgio verbalizaram desejo de investir na nova visão de um mesmo caso, já que se
terapia, muito pouco foi de fato feito com o utiliza o tempo para permitir o distanciamento
objetivo de uma real mudança do mesmo, oferecendo um novo ângulo de
comportamental. Neste sentido, a imposição visão, agora distanciado do contexto.
de limites por parte da terapeuta, Relatos de caso nos guiam também
incentivando a interrupção da terapia de para a análise do tempo do paciente,
casal e indicando o prosseguimento da respeitando seus limites, mesmo que isso
terapia individual para ambos, foi, resulte no término de um processo que
provavelmente, uma atitude terapêutica, que
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poderia ter muito a desenvolver. Apesar de 9. Knapp P e cols. Terapia cognitivo-


ser difícil lidar com a sensação de impotência comportamental na prática psiquiátrica.
no terapeuta, experiências como esta se São Paulo: Artmed; 2004.
tornam fundamentais para ensinar ao próprio 10. Silva AIGS. Relacionamento conjugal na
terapeuta as limitações que uma psicoterapia transição para a parentalidade: estudo
carrega em si. São nessas situações, em que com casais com o filho entre os 12-24
nos deparamos com nossas próprias meses de idade. [Tese] Porto:
Universidade do Porto – U.PORTO; 2016.
limitações, tanto quanto com as dos
pacientes, que podemos refletir também 11. Sousa M, Benevides J, Carvalho CB,
sobre nossas potencialidades, bem como Caldeira SN. Programa de Promoção da
Inteligência Emocional na Ansiedade
sobre as potencialidades dos pacientes, e
Infantil. Revista de Estudios e
percebemos o quanto a psicoterapia é um InvestigaciónenPsicología y Educación.
desafio, ao mesmo tempo tão fundamental e 2015; extr(5):0-0.
tão sensível.
12. Caballo VE. Manual de Avaliação e
Treinamento das Habilidades Sociais.São
Paulo: Grupo Editorial Nacional; 2003.
REFERÊNCIAS
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1. Féres-Carneiro T, Diniz Neto O. entendimento sistêmico e psicodinâmico.
Construção e dissolução da Porto Alegre: Artmed; 2012.
conjugalidade: padrões relacionais. 14. Leahy RL, Tirch D, Napolitano LA.
Paidéia. 2010; 20(46): 269-278. Regulação emocional em psicoterapia: um
guia para o terapeuta cognitivo-
2. Gomes IC, Levy L. Indicações para uma
comportamental. Porto Alegre: Artmed;
terapia de casal. Vínculo. 2010 jun; 7(1):
2013.
13-21.
3. Dattilio F. Manual de Terapia Cognitivo-
Comportamental para casais e
famílias.Porto Alegre: Artmed; 2011.
4. Vandenberghe L. Terapia comportamental
de casal: uma retrospectiva da literatura
internacional. RevistaBrasileirade
TerapiaComportamental e Cognitiva.
2006; 8(2):145-160.
5. Peçanha RF, Rangé BP. Terapia cognitivo-
comportamental com casais: uma revisão.
Revista Brasileira de Terapias Cognitivas.
2008; 4(1):0-0.
6. Scribel MC, Sana MR, Di Benedetto AM.
Os esquemas na estruturação do vínculo
conjugal. Revista Brasileirade Terapias
Cognitivas. 2007;3(3):47-60.
7. Young J. Terapia Cognitiva para
Transtornos da Personalidade - Uma
Abordagem Focada no Esquema. 3ed.
São Paulo: Artmed; 2003.
8. Silva LP, Vandenberghe L. A importância
do treino de comunicação na terapia
comportamental de casal. Psicologia em
estudo. 2008;13(1):161-168.

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