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O desafio da mudança de paradigma: o Antropoceno nas Relações Internacionais

Article · December 2015

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Larissa Basso Eduardo Viola


Stockholm University University of Brasília
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mudança de
paradigma: o
Cai o preço do
petróleo,
Antropoceno nas
aumenta a Relações
produção de
energia Internacionais, por
Larissa Basso e
renovável: como
explicar?, por

Eduardo Viola
Larissa Basso

The Great
Destruction in
' 31/12/2015 ( Artigos, Política
Brazil: How to
Internacional )0
downgrade an
entire country in

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less than four " ! - +


years, by Paulo
Roberto de
Almeida No início dos anos 2000, os professores Crutzen e
Stoermer publicaram trabalhos nos quais refletem
Boletim
sobre a passagem para uma nova época
Mundorama –
geológica. A mudança seria caracterizada pelo fim
No. 101 –
da resiliência dos sistemas ecológicos: a
Janeiro/2016
capacidade dos sistemas retornarem ao equilíbrio
Moçambique: após enfrentarem interferências, presente desde
Um Estranho a última glaciação (há aproximadamente onze mil
Silêncio, José anos) até o terceiro quarto do século XX, teria
Alejandro chegado ao fim. O principal vetor da mudança foi
Sebastian o crescimento exponencial da população humana
Barrios Díaz e a consequente acumulação dos impactos sobre
o meio ambiente, chamada de “grande
Notícias de
aceleração”. Na atual época geológica, diversas
Angola: as
fronteiras planetárias, limites para uma existência
relações
segura na Terra (ROCKSTROM et al 2009; STEFFEN
políticas entre
et al, 2015), estão sendo ultrapassadas. E porque
Angola e
a humanidade é o grande vetor da ultrapassagem,
Portugal
a época é denominada Antropoceno.
segundo a
imprensa
As Relações Internacionais carecem de
portuguesa, por
atualização para essa nova realidade. Os
Samuel de Jesus
conceitos base da disciplina foram elaborados na
Concurso de época em que o meio ambiente era estável, por
Monografias da isso considerado não mais do que plano de fundo
União Europeia para os conflitos humanos – esses sim centrais
para as Relações Internacionais (DALBY, 2013).
As cidades no
Poder, interesse nacional, ameaça e segurança
coração da
eram definidos nessas bases: o “inimigo” era o
governança
outro; sobreviver no sistema internacional era o
climática global,
interesse maior de qualquer Estado; regras
por Alberto Luiz
comuns só seriam válidas na medida em que
Teixeira da Silva
emitidas e disciplinadas de acordo com o
e Mercedes
princípio da soberania. O risco de uma situação
Pardo Buendía
ter impacto de desestabilizar o sistema
internacional era inversamente proporcional à

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A política possibilidade de a situação ocorrer (DALBY, 2013).


externa Ou seja: situações de alta probabilidade de
independente e ocorrência tinham baixos riscos de perturbar o
algumas sistema; situações de alto impacto sobre o
interpretações sistema internacional, tinham baixa probabilidade
sociológicas de ocorrer. Desde a década de 1950 emergiu um
sobre o Brasil: novo tipo de risco/ameaça – a guerra nuclear
ecos na global – com baixa probabilidade, mas capacidade
atualidade, por de destruir completamente a civilização e
Ana Carolina provavelmente extinguir a espécie humana. Esta
Canellas ameaça passou a dominar todo o sistema de
calculo decisório das superpotências: a doutrina
Brazil-Iran
de destruição mútua assegurada.
Relations: What
to Expect from a
Mas esse cálculos de risco, pré-armas nucleares e
Post-Sanctions
com as armas nucleares, não são mais válidos. A
Era, by Cristine
instabilidade ambiental tira o meio ambiente do
K. Zanella
pano de fundo e o coloca como protagonista das
Nova geração grandes ameaças ao sistema internacional.
de operações de Mudança do clima, escassez de água doce e
paz da ONU?, acidificação dos oceanos, entre outros, fazem da
por Vanessa sobrevivência da civilização humana, no longo
Braga Matijascic prazo, uma incógnita. Por esse motivo, os
conflitos são, agora, muito mais complexos.
Violência e
tecnologia: é
De fato, os conflitos humanos ganharam, nas
possível pensar últimas décadas, nuances muito diversas. Há
a paz a partir de conflitos interestatais e mudanças na balança de
uma sociologia
poder entre Estados, com a ascensão parcial da
dos Ásia/Pacífico para o centro do poder, dividindo-o
armamentos?,
com Estados ocidentais, e a diminuição do papel
por Alcides E. dos EUA como garantidor de última instância da
Peron estabilidade global – fenômeno da transição de
Opinião Pública poder. A sociedade da informação, porém, erodiu
e Política parcialmente poderes estabelecidos e trouxe para
Externa no o protagonismo atores não estatais, como
Governo empresas, ONGs, governos subnacionais,
Goulart (1961- organizações religiosas e redes societais. Sobem
ao centro da cena internacional interesses

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64) – uma diversos dos de Estados nacionais; há conflitos


entrevista com mais difusos e mais difíceis de serem controlados
os autores, por – o terrorismo global e a atuação de redes
Daniel C. Gomes criminosas internacionais são os exemplos mais
importantes. As Relações Internacionais
Interesses e
compreenderam essa transformação, a difusão de
valores na
poder, e tentam adaptar seus conceitos a essa
política externa
nova realidade.
de Obama– uma
entrevista com
A instabilidade ambiental, porém, ainda não foi
Maria Helena de
internalizada pela grande maioria dos
Castro Santos e
internacionalistas, embora este quadro esteja
Ulysses Teixeira,
mudando significativamente nos últimos anos.
por Daniel C.
Quando o meio ambiente se torna instável, a
Gomes
humanidade, além de seus conflitos internos,
How Coherent passa a ter um desafio comum: enfrentar essa
Was Brazil’s instabilidade para assegurar sua sobrevivência no
Public Opinion longo prazo. Nessa situação, os conceitos de risco,
during the ameaça e interesse nacional precisam ser
Administration atualizados.
of President
João Goulart Em primeiro lugar, o cálculo de risco enraizado na
(1961-1964)?, by psique humana não é mais válido: fenômenos da
Felipe Loureiro, instabilidade ambiental têm alta possibilidade de
Adriana Schor & acontecer – a mudança do clima, por exemplo, é
Feliciano consequência direta da acumulação de gases de
Guimarães efeito estufa na atmosfera (leis da física) – e alto
impacto sobre o sistema internacional. A
As probabilidade que ocorra é alta – já está em curso
especificidades – e seu impacto é também alto. Temperaturas
da Segunda extremas, secas prolongadas, enchentes,
Guerra Mundial tsunamis e outros fenômenos climáticos extremos
e o Japão de
tornaram-se mais frequentes, e os impactos já
Shinzo Abe, por estão sendo sentidos – o número de refugiados
Fernando Horta climáticos, por exemplo, está aumentando e a
Revista Austral situação tende a se tornar crítica no futuro
apresenta próximo.
chamada de
Em segundo, o “grande inimigo” não é mais o

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artigos outro, o diverso, mas os modos de vida de grande


parte da sociedade contemporânea capitalista, os
Émeric Crucé
padrões de produção e hiperconsumo. Mitigar a
and The 1623
ameaça da instabilidade ambiental significa
Plan for Global
diminuir drasticamente o consumo das classes
Governance:
altas em todos os países e moderar o consumo
The Obscure
das classes médias nos países de renda alta e
History of Its
média; precificar o uso de bens ambientais;
Reception – an
eliminar os combustíveis fósseis e taxar as
interview with
emissões de carbono; distribuir mais a renda;
Germán de la
investir pesadamente em educação para
Reza, by
aumentar a consciência de causas e efeitos de
Leonardo
longo prazo e para reformular a definição de
Bandarra
sucesso. É uma revolução, e envolve,
Os 40 anos da simultaneamente, ações de direcionamento e
Resolução sobre mudanças de comportamento.
Sionismo e
Racismo da Nesse sentido, e em terceiro lugar, interesse
ONU – nacional passa a bases mais amplas: em um
entrevista com mundo complexo como o da sociedade da
os autores, por informação, pensar o Estado como ator unitário é
Leonardo C. irreal. Ele é, na verdade, plural, conjunto de
Bandarra governo, empresas, comunidade científica e
sociedade civil (VIOLA, FRANCHINI e RIBEIRO,
Why did Brazil
2013). Esses grupos têm interesse conflitantes,
vote to brand
mas também interesses comuns, em especial a
Zionism a form
sobrevivência humana no longo prazo. Buscar
of Racism?, by
diálogo em relação ao que é conflitante, de modo
Norma Breda
a acomodar as diferenças, mas sempre tendo em
dos Santos &
máxima consideração o que é comum, é a chave
Eduardo Uziel
da atualização do interesse nacional para o século
Pope Francis XXI.
and the
Challenges of As Relações Internacionais ainda não
Inter-Civilization internalizaram a realidade do Antropoceno e a
Diplomacy – an necessidade de atualização dos conceitos para
interview with fazer frente aos desafios dele decorrentes. É
Boris Vukićević, nosso papel na Academia insistir com essa
necessária mudança de paradigma, de modo que

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by Leonardo C. nossas pesquisas estejam em consonância com


Bandarra os desafios contemporâneos e ajudem a
compreender as causas dos conflitos no sistema
internacional e os caminhos de sua solução, razão
de ser da disciplina.

Referências:

CRUTZEN e STOERMER (2000): The


Anthropocene. Global Change Newsletter,
n. 41, p. 17-18.
DALBY (2013): Biopolitics and climate
security in the Anthropocene. Geoforum, v.
49, p. 184–192.
ROCKSTROM et al (2009): A safe operating
space for humanity. Nature, v. 461, p. 472-
475.
STEFFEN et al (2015): Planetary boundaries:
Guiding human development on a changing
planet. Science, v. 347, n. 6223.
VIOLA et al (2013): Sistema internacional
de hegemonia conservadora –
governança global e democracia na era
da crise climática. São Paulo: Annablume.

Larissa Basso é doutoranda no Instituto de


Relações Internacionais da Universidade de
Brasília e membro da rede de pesquisa
Sistema Internacional no Antropoceno e
Mudança Global do Clima
(<larissabasso@gmail.com).

Eduardo Viola é professor titular do


Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília e coordenador da
rede de pesquisa Sistema Internacional no
Antropoceno e Mudança Global do Clima

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(eduviola@gmail.com).

Como citar este artigo:


Editoria Mundorama. "O desafio da
mudança de paradigma: o Antropoceno nas
Relações Internacionais, por Larissa Basso e
Eduardo Viola". Mundorama - Revista de
Divulgação Científica em Relações
Internacionais, [acessado em 31/12/2015].
Disponível em:
<http://www.mundorama.net/2015/12/31/
o-desafio-da-mudanca-de-paradigma-o-
antropoceno-nas-relacoes-internacionais-
por-larissa-basso-e-eduardo-viola/>.

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