Você está na página 1de 7

Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE

Gabriel de Oliveira Thomazi

Uma Breve Analogia a cerca dos Átomos e


Homeomerias

Toledo – PR

2019
Introdução
Desde o princípio da história da Filosofia diversos filósofos formaram suas teorias a
respeito da Arké da Physis, a Origem de todas as coisas, o principio e causas da vida.

Para os filósofos pré-socráticos, a arché é o princípio que está presente em todos os


momentos da existência de todas as coisas; no início, no desenvolvimento e no fim de
tudo. Sendo, portanto, o princípio pelo qual tudo vem a ser, esta sendo e ainda virá a
ser. A fonte ou origem, termo último, e permanente sustento ou substância de todas as
coisas. Assim, é a origem, mas não como algo que ficou no passado e sim como aquilo
que, aqui e agora, dá origem a tudo, perene e permanentemente.

Em nosso referente trabalho, abordaremos como temática as teorias de dois importantes


filósofos pré-socráticos, Anaxágoras de Clazómenas e suas homeomerias, juntamente
com Leucipo de Mileto e Demócrito de Abdera e o desenvolvimento da teoria atômica,
apontando seus respectivos aspectos, semelhanças e diferenças.

Escolhemos abordar essa temática, pois durante o estudo desses filósofos em particular,
nos chamou muita atenção algumas semelhanças entre a teoria atômica e a maneira
como Anaxágoras formula sua teoria sobre as homeomerias, afirmando que as mesmas
seriam sementes, ou mais precisamente, minúsculas partículas inumeráveis que geram a
realidade que conhecemos e que são divisíveis em partes sempre iguais. Havendo assim
homeomerias dentro de homeomerias.

Essas homeomerias assemelham-se aos átomos, para os atomistas, cada uma das
partículas minúsculas, eternas e indivisíveis, que se combinam e desagregam movidas
por forças mecânicas da natureza, determinando desta maneira as características de cada
objeto por sua indivisibilidade infinita e são partes similares que existem que compõe
toda a natureza.

A seguir desenvolveremos separadamente a ideia de ambos os filósofos a fim de


evidenciar as semelhanças e diferenças dos pensadores.

Anaxágoras de Clozômena
Primeiramente iremos falar a respeito das ideias desenvolvidas por Anaxágoras de
Clozômena (~500 a.C. — ~428 a.C.) filósofo grego do período pré-socrático.
Anaxágoras foi um pensador cuja tendência era voltada para o pluralismo, ou seja, o
dinamismo da realidade. Anaxágoras propôs, assim como os pluralistas, um princípio
que atendesse tanto às exigências teóricas do "ser" imutável, princípio de tudo, quanto à
contestação da existência das múltiplas manifestações da realidade.

Evidenciaremos aqui em nosso texto dois termos básicos que compõe a Filosofia de
Anaxágoras em sua busca pelo elemento primordial de formação do universo.
Explicaremos, assim, as características de sua filosofia cosmológica centrada no que ele
denominou de “homeomerias” e “Nous”.
 Homeomerias: São descritas como sementes (spérmata), ou mais precisamente,
minúsculas partículas inumeráveis que geram a realidade que conhecemos e que
são divisíveis em partes sempre iguais. Essas homeomerias assemelham-se aos
átomos por sua indivisibilidade infinita e são partes similares que existem que
compõe toda a natureza. Simplício demonstrou bem esta concepção em uma
passagem: “Juntas estavam todas as coisas, infinitas pela multidão e pela
pequenez; porquanto também a pequenez era infinita (ápeiron). Enquanto
estavam juntas, nada era claramente reconhecível, em virtude da pequenez (dos
elementos). E o ar e o éter dominam o todo, sendo ambos infinitos, pois eles são
os maiores (elementos), em quantidade e grandeza” [Frag. 1 D] (Simplício,
Física, 155, 23).

Anaxágoras, para exemplificar seu raciocínio de que essas sementes são partes
semelhantes de várias coisas, usa o seguinte exemplo: quando comemos carne e nossos
cabelos crescem. A matéria que compõe nossos cabelos, portanto, advém da carne.
Assim, aquilo que comemos, seja lá o que for, carrega em si uma quantidade de matéria
que explica o que acontece quando ingerimos um determinado alimento – num
elemento, existem outros.
Cada coisa que existe é composta por misturas ordenadas dessas sementes e as
homeomerias são movimentadas por uma força inteligente denominada “Nous” para
poder originar a constituição dos elementos naturais.
 Nous - Para Anaxágoras, a totalidade do universo teria sido criada por uma
inteligência eterna e divina denominada “Nous”, essa inteligência foi
responsável por iniciar os princípios do cosmos fundamentando tudo o que
existe. Essa força consistia numa mistura de elementos distintos. Conforme
mencionado por Daniel W. Graham (2008, p. 244) “da mistura primordial
provém o cosmos, quando a Mente (Nous) cósmica dá início a um movimento
rotatório que separa umas das outras as diferentes coisas”. E o autor
complementa (GRAHAM, 2008, p. 244): “Anaxágoras admitia um número
infinito de diferentes substâncias como elementos básicos de seu cosmos”.

É interessante notar o quanto a descrição de tal elemento assemelha-se ao átomo visto


que ambos consistem em infinitamente indivisíveis. O Nous, portanto, consiste numa
força matriz, primária e suprema que é viva, em si e que transmite movimento à
natureza. E para o filósofo, a natureza possui substâncias fixas que interagem e formam
substâncias mistas, sendo que assim, “tudo está inserido em tudo” e, portanto, qualquer
coisa em tese, pode se transformar em outra coisa. Ou seja, na natureza, uma substância
faz-se presente na outra e pode transformá-la em algo distinto do que ela é. Anaxágoras
desenvolve uma teoria em que há uma intensa mistura de todas as coisas, a qual se
parece estender ininterruptamente até o nível macroscópico. Uma passagem do próprio
filósofo nos ajude a compreender tal pensamento.
“A mente é algo infinito e autônomo, que não foi misturada com coisa alguma,
mas existe só, por si e para si. Pois se não existisse por si, mas estivesse
misturada com alguma outra coisa, participaria de todas as coisas, caso estivesse
misturada com algumas delas. Pois em tudo quanto há, está presente uma
parcela de tudo, conforme já explicitado por mim anteriormente, e as coisas com
ela misturadas a impediram de controlar o que quer que fosse da maneira como o
faz sendo efetivamente só e por si. Pois que ela é a mais fina de todas as coisas e
a mais pura, detentora de todo o conhecimento acerca de tudo e dona da maior
das forças. E tem a mente a faculdade de controlar todas aquelas coisas, tanto
grandes quanto pequenas, dotadas de alma”. (Anaxágoras, fragmento 12)

O Nous, ao realizar seu movimento, gera as coisas que conhecemos. E essa ação, por
sua vez, se da através das homeomerias, que são a raiz do mundo. E para Anaxágoras,
essa relação e a responsável pela realidade que conhecemos.

O Nous que dividiu as sementes é a mente divina, ela é ilimitada, independente e não
está misturada a nada. Essa Inteligência divina é sutil, pura, tem pleno conhecimento de
tudo e tem uma força imensa. A Inteligência domina as coisas que tem vida. Ela deu o
impulso inicial na rotação que distribuiu ordenadamente todas as outras coisas. Nada se
forma ou se divide se não for através da Inteligência Nous.
O grande mérito de Anaxágoras é ter sido o primeiro a introduzir a ideia de uma
Inteligência transcendente como última explicação da ordem e teologia do cosmos.

Encerrado temporariamente o debate sobre as homeomerias, podemos dar inicio a


discussão sobre a teoria atômica do filosofo Leucipo juntamente com Demócrito de
Abdera, ambos desenvolveram a teoria atômica e recorrentemente aparecem juntos nos
livros que tratam sobre esse assunto.
Leucipo de Mileto
Leucipo Viveu durante o século V a.C. e ficou conhecido como o filósofo atomista da
Grécia Antiga, justamente por uma de suas descobertas mais importantes, ninguém tem
informações exatas sobre o ano em que nasceu, quando morreu e onde viveu.

Leucipo se dedicou essencialmente à chamada filosofia natural, para compreender


melhor como ocorria à composição dos elementos. Foi assim que desenvolveu a sua
teoria a respeito do átomo.

Embora não se saiba muito sobre ele, escritos deixados por outras pessoas,
especialmente Diógenes Laércio, dão conta de que ele havia viajado muito, conhecido
povos e culturas, o que contribuiu para que tivesse um amplo conhecimento sobre
vários assuntos.

Foi ele quem realmente construiu o modelo atômico. E Demócrito seu discípulo
desenvolveu parte da teoria atômica.
Demócrito viveu de 460 até 360 a.C. tem algumas obras que abrangem assuntos como
meteorologia, história, linguística e outros ramos. Viajava muito para aprofundar seus
conhecimentos e os destinos favoritos eram o Egito, a Pérsia, Índia e Etiópia.

Muitas vezes, Demócrito recebe o crédito pela criação do primeiro modelo atômico
praticamente sozinho, mas não foi isso que aconteceu. Ele era um dos mais fiéis
discípulos de Leucipo, desenvolvendo e detalhando a teoria criada por seu tutor.

Demócrito acreditava que tudo aquilo que existia no universo era composto por dois
elementos: “o átomo e o vazio”, complementando ainda dizendo que o vazio era o
espaço no qual os átomos podiam se movimentar.

A teoria atômica, para Demócrito, servia também para explicar a origem de tudo: os
átomos, antes dispersos, em meio a um caos, haviam se unido, para compor toda a
matéria.

Ambos foram uns dos primeiros a pensarem sobre a constituição atômica do universo.

Apesar da grandiosidade de suas teorias cometeram alguns equívocos quando fizeram


suas definições. Acreditavam que o universo era o grande vazio preenchido por átomos
espalhados ou aglomerados, e que esses últimos eram sólidos, indestrutíveis e
indivisíveis; hoje sabemos que eles podem ser separados em partículas muito menores.

Acreditavam ainda que essas partículas assumissem diversas formas geométricas, o que
explicaria como os seres vivos transmitiam suas imagens e características complexas
aos seus descendentes. E como se sabe hoje, as características de um ser vivo são
heranças genéticas de seus genitores.

Ainda que tenham ocorrido diversos equívocos nas teses de Leucipo e Demócrito, o
pensamento deles serviu de base para a elaboração de novas teorias sobre a constituição
do universo, e do que existe nele; graças a isso esses dois pensadores ganharam o título
de grandes filósofos da humanidade.

De acordo com a teoria de Leucipo, o mundo era dividido em duas partes, uma vazia
(vácuo) e a outra cheia, a parte cheia é constituída por pequenas partículas, os chamados
ÁTOMOS. E como havia esse vazio, havia então espaço para que os átomos se
colidissem, formando assim, uma construção ou desconstrução das coisas.

Leucipo acreditava que nada poderia surgir do nada, mas de algo já existente, e o que já
existia não poderia desaparecer de repente. Essa teoria é o que conhecemos por
“Princípio da conservação da matéria”.

Leucipo e Demócrito afirmavam que todas as coisas visíveis eram feitas de átomos. Os
átomos seriam sólidos, estáveis, imutáveis, indestrutíveis e existiriam sob várias formas
geométricas. Possuíam um movimento espontâneo, saltavam, chocavam-se, e uniam-se
de acordo com suas formas e tamanhos, dando origem as coisas compostas.
Abaixo segue uma citação das ideias de Leucipo:

- Naquele tempo (430 a.C.), caminhando pelas areias próximas ao mar Egeu, o filósofo
grego Leucipo disse a seu discípulo Demócrito: "Esta areia, vista de longe, parece ser
um material contínuo, mas de perto é formada de grãos, sendo um material descontínuo.
Assim ocorre com todos os materiais do Universo". "Mas, mestre", interrompeu
Demócrito, "como posso acreditar nisso se a água que vemos aqui aparenta
continuidade tanto de longe como de perto?”.

- Respondeu-lhe Leucipo: "Muitos veem e não enxergam; use os 'olhos da mente', pois
estes nunca o deixaram na escuridão do conhecimento. Em verdade, lhe digo: todos os
materiais são feitos de partículas com espaços vazios ou vácuo entre elas. Essas
partículas são tão pequenas que mesmo de perto não podem ser vistas. Muitos séculos
passarão até que essa verdade seja aceita. Chegará o dia em que essas partículas serão
até 'vistas' pelo homem. Ide e ensinai a todos e aqueles que nela acreditarem encontrarão
respostas para as suas perguntas sobre o Universo."

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O princípio que é conhecido sob a expressão homeomerias significa que, o que existe, a
matéria individual (os ossos, metal, carne etc.), se constitui em si e para si mesmo, é o
que se constitui em partes iguais. (Riemer traduz he homoioméreiai: "A semelhança das
partes individuais com o todo"; e hai homoioméreiai: "Os elementos, a matéria
originária". Isso demonstra uma grande semelhança com o átomo, pois estes átomos
assim como as homeomerias, se constituem com os quatro elementos. O primeiro efeito
do movimento estabelecido é agrupar aqueles átomos semelhantes em forma e tamanho,
em si e para si mesmo, assim se da à origem dos quatro elementos: fogo, o ar, a terra e a
água. Este processo pode ser ilustrado pela imagem daquelas ondas separando os seixos
numa praia e amontoando as pedras alongadas com as alongadas e as arredondadas com
as arredondadas. Neste processo, os átomos mais leves são impelidos para a periferia,
enquanto os maiores para o centro. Podemos, portanto, comparar essa representação ao
movimento de separação e organização dos elementos, semelhante ao movimento
realizado pelo Nous, O Nous, ao realizar seu movimento, gera as coisas que
conhecemos. E essa ação, por sua vez, se da através das homeomerias, que são a raiz do
mundo. E para Anaxágoras, essa relação e a responsável pela realidade que
conhecemos. O Nous que dividiu as sementes é a mente divina, ela é ilimitada,
independente e não está misturada a nada. Ela deu o impulso inicial na rotação que
distribuiu ordenadamente todas as outras coisas. Nada se forma ou se divide se não for
através da Inteligência Nous. Portanto essas homeomerias assemelham-se aos átomos,
pois, cada uma das partículas minúsculas, eternas e indivisíveis, que se combinam e
desagregam, quer sejam movidas por forças mecânicas da natureza (como no caso do
átomo), quer sejam movidas pela inteligência Nous (como no caso das Homeomerias)
determinando desta maneira as características de cada objeto por sua indivisibilidade
infinita e que são partes similares que existem que compõe toda a natureza.
 Diferenças: Evidenciamos em nosso texto que o que mais se difere, realmente, é
o meio como ocorre o principio de movimento de ambas as teorias, pois as
homeomerias tem como principio de movimento a inteligência Nous, e por sua
vez, o principio de movimentação dos átomos é uma justaposição que ocorre
naturalmente.

 Semelhanças: Ficou evidente que, as principais semelhanças entre esses


conceitos distintos são justamente sua indivisibilidade infinita junto aos quatro
elementos existentes que compõem a natureza no geral. Também podemos
observar em ambos os casos que: “juntas estavam todas as coisas, infinitas pela
multidão e pela pequenez; porquanto também a pequenez era infinita (ápeiron).
Enquanto estavam juntas, nada era claramente reconhecível, em virtude da
pequenez (dos elementos)” como podemos constatar no [Frag. 1 D] (Simplício,
Física, 155, 23).

Você também pode gostar