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para-as-aulas-de-lingua-portuguesa

Publicado em NOVA ESCOLA 01 de Janeiro | 2013

Prática Pedagógica

Leve a crônica para as


aulas de Língua
Portuguesa
A crônica é um dos primeiros gêneros textuais com que os
alunos entram em contato no Ensino Fundamental. A leitura
e a produção de textos no gênero são conteúdos importantes
para ensinar aos alunos do 6º ao 9º ano
Gabriela Portilho

A origem da palavra crônica remonta ao vocábulo grego chronikós, que significa


"tempo", pelo latim chronica, ou seja, ao ler uma crônica estamos diante de um
gênero textual onde a questão temporal é fundamental.

As crônicas tratam da realidade, do cotidiano, com linguagem despretensiosa e


temas mais simples, geralmente relacionados ao passado e à infância. "A crônica
tem essa característica peculiar de tratar sobre aquilo que está desaparecendo do
mundo", explica o escritor e professor de literatura da Universidade Estadual de
Ponta Grossa (UEPG), no Paraná, Miguel Sanches Neto. É por isso que podemos
dizer que se trata de um gênero miniloquente, ou seja, que fala de uma maneira
suave, não impositiva e mais prosaica - em contraposição à eloquência dos
grandes clássicos literários.

Por se tratar de um gênero mais cotidiano, confessional, breve e, sobretudo,


muito vinculado ao "eu" do leitor, as crônicas são tidas como formas mais fluidas
e efêmeras que a dos romances, contos e poesias.

Para Rita Jover Faleiros, selecionadora da área de Língua Portuguesa do Prêmio


Victor Civita Educador Nota 10, a crônica pode ser considerada uma anedota, no
sentido de despertar no autor - e nos leitores - uma reflexão ou transformação,
utilizando-se ou não do humor. "As crônicas nos fazem pensar sobre a vida e
sobre o mundo a partir de um pequeno evento cotidiano", explica.

Embora as crônicas que circulem no jornal reportem, na maioria das vezes, um


recorte político, ou uma análise da transformação social, é importante colocar os
alunos em contato com outros tipos de temas, mais literários - as crônicas de
autores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade.

4 motivos para levar a crônica para a sala de aula

1. A crônica narra eventos e, por isso, produzir este tipo de texto mobiliza
algumas estruturas linguísticas próprias, como os verbos no pretérito perfeito e
imperfeito e as formas narrativas em primeira pessoa.

2. Por apresentar uma narrativa curta, focada em temas cotidianos, as crônicas


trazem um texto muito acessível do ponto de vista de leitura e da produção
escrita. "Somos familiarizados com essa narrativa desde a primeira infância e o
processo de aquisição de linguagem", conta Rita. É por isso que as crônicas são
um excelente ponto de partida para os exercício de leitura e escrita em sala de
aula, especialmente a partir do Fundamental 2.

3. Por meio da leitura desse gênero literário podemos iniciar os alunos na


articulação dos tempos verbais do pretérito, verbos de estados e de
transformação. Segundo Rita, é importante chamar a atenção dos alunos para o
fato de que essa arquitetura textual tem uma forma mais ou menos estável e
pode ser notada em quase todas as crônicas - o que faz disso um gênero.

4. Do ponto de vista da formação de leitores, é fundamental chamar a atenção


dos alunos para o fato das crônicas depositarem um olhar sobre o cotidiano.

Um bom modo de introduzi-las em sala de aula é trabalhar a leitura da coleção


Para gostar de ler, com suas coletâneas de crônicas de grandes escritores como
Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando
Sabino e Luiz Fernando Veríssimo. Outros autores de referência são João do Rio,
Stanislaw Ponte Preta e Mário Prata, como sugere Rodrigo Ugá, mestre em
Literatura e Crítica Literária e professor da rede estadual de ensino de São Paulo.
Como iniciar o trabalho com os alunos
No Ensino Fundamental 2, além do exercício de leitura, é ideal que os professores
mobilizem a turma a escrever suas anedotas, atentando para o uso de
marcadores temporais. A ideia é que, durante a escrita, os alunos ampliem sua
rede lexical de marcadores se apropriando de termos e expressões como:
"quando eu fui", "uma semana depois", "três meses antes", entre outras.

Mas, antes de pedir a produção de um texto, o professor deve apresentar o


gênero, pontuando sua origem, sua importância histórica e sua relevância ao
longo de toda nossa história literária.
Em seguida, ele deve apresentar algumas crônicas para a turma (leia algumas
aqui) e pedir que os alunos tentem identificar as características do gênero. Só
então, o professor deve solicitar à turma a produção do texto.

É importante salientar que além de ser um gênero mais conciso, a crônica não se
restringe ao mero relato. É um gênero que permite ao escritor desenvolver seu
próprio estilo, e até mesmo carregar um pouco mais no lirismo.

Desenvolvendo o pacto com os leitores


A professora Rita Jover inovou a produção de crônicas com seus alunos das
turmas de Fundamental 2, na EJA no colégio Santa Cruz, em São Paulo; Ela sugeriu
que, primeiramente, os alunos fizessem a leitura do livro O imaginário cotidiano,
de Moacyr Scliar.

Depois, Rita e a turma selecionaram em sites como o Planeta Bizarro, notícias


inusitadas da internet. A professora solicitou que, a partir daquelas manchetes
improváveis, os alunos constituíssem uma história crível para os futuros leitores.

O importante era que, por mais absurda que parecesse a notícia, os alunos
relatassem o evento cotidiano como se fosse verdade, utilizando os recursos da
narração em primeira pessoa, verbos no passado e um grande detalhamento de
ações - características elementares da crônica. O fundamental era criar um pacto
de ficção com o seu leitor.

Por fim, o trabalho elaborado com os alunos acabou virando um livro, que foi
apresentado em um sarau onde a turma pode ler os textos produzidos.