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A LENDA DE TTER PAN

~ E A AMEIXA FOSFORESCENTE ~

[ VERSÃO PARA INTERNET]


A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

EM MEMÓRIA DE JOÃO VITOR VILLAS, AMIGO QUE UM DIA TIVE E QUE ME


AJUDOU A IDEALIZAR ESSA HISTÓRIA.

AGRADEÇO AO MEU PRIMO BRUNO DIAS, QUE IDEALIZOU O BRUTAL F ORCE (SE
BEM QUE O PLANO ORIGINAL ERA FAZER ISSO DE VERDADE ).

AO VITOR CUNHA, QUE ME APOIOU E AVALIAVA CADA CAPÍTULO QUE EU ESCREVIA


– CASO ALGUM CAPÍTULO ESTIVER RUIM, A CULPA É DELE.

UM ABRAÇO PRO BRUNO BRIANTE, QUE ERA SEMPRE ANIMADO E AJUDOU NA


DIVULGAÇÃO DA HISTÓRIA.

E A TODOS OS QUE LERAM ISSO ANTES QUE VIRASSE UM LIVRO.


[LER A PRÓXIMA PÁGINA]

AH É.

UM ALÔ PRA MINHA MÃE, QUE ME DISSE DESDE SEMPRE QUE ISSO SERIA UMA
PÉSSIMA IDEIA.

E UM PRO MEU PAI, SÓ PRA ELE NÃO FICAR COM CIÚMES.

CASO ESSA PÁGINA DE AGRADECIMENTOS SIGNIFIQUE NADA PARA VOCÊ,


APENAS PULE A PÁGINA, O INDICE DE PDF SERVE PARA ISSO.

~2~
ESTE LADO PARA CIMA

POR “TODOS QUE LERAM ISSO ANTES QUE VIRASSE LIVRO” ME REFIRO A GALERINHA DO
MAL QUE PARTICIPOU DO P ITTER SPAM E QUE LIA O BLOG ANTES QUE EU PENSASSE EM
PUBLICAR A HISTÓRIA.

OS AGRADECIMENTOS SÃO CHEIO DE INTERNAS E EM ORDEM ALFABÉTICA.

ESCRITOR DO BAKA NO HON (HTTP://BAKANOHON.COM), UM


@AAG_XD
DOS MAIORES BROS DA HISTÓRIA.

ASSASINA DE BODES QUE SUGERIOU O NOME SUPIMPA DE


@ANASAYSRELAX
“PITTER SPAM”.

GRANDE PARCEIRO DE PROBLEMAS, AJUDOU A DIVULGAR


@ARCTICUS
TAMBÉM.

MUITO OBRIGADO PELA DIVULGAÇÃO E TAL, MAS LEIA O


@AZUL84
AGRADECIMENTO DO BRNO.

@BRNO O JOGO.

AMG QUE PRECISA DE UM COLÍRIO (REMÉDIO OU EMO KID,


@DIGITALDEAD
QUALQUER UM SERVE )

VOCÊ SE ACHA MUITO REBELDE POR NÃO CAIR NA MINHA


@DIPNLIK
PEGADEÑA GRAÇAS AO GMAIL , NÉ ? ):

NÃO LEMBRO SE ELE TAVA NO PITTER SPAM, MAS ELE VIU O


@EDBIZARRO PITTER IMPRESS. E COM O TANTO DE ELOGIO QUE ELE ME
FAZ EU NÃO PRECISO NEM DE MÃE .

@FEEMENDES MANO, SÉRIO, INSIRA RISADAS AQUI.

OBRIGADO POR TODO SPAM E POR TODAS AS ACUSAÇÕES DE


@FER_MENDONCA
EU ME DOPAR PARA ESCREVER ISSO.

TALVEZ MEREÇA CRÉDITOS SÓ POR SER MEU IRMÃO (ME


AGUENTOU <MINHA I DADE > ANOS , ACHO QUE NEM MINHA
@FILIPEKISS MÃE AGUENTOU ISSO ).

ALSO, NÃO VELHO, NÃO !

GRANDE GEEKPOBRE (LITERALMENTE), ANIMOU E


@GEEKPOBRE
DIVULGOU. E ABRIU O ORKUT SEM SABER POR QUÊ .

@GUI_BLANCO PÕE ISSO NA CABEÇA.

@HENRI_SILVA QUANDO CRESCER EU QUERO SER IGUAL ESSE CARA.

CAPITULO 99 É EM SUA HOMENAGEM, MESMO EU ACHANDO


@HIKKARI
QUE VOCÊ NEM LÊ ISSO .

~3~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

@IADRIEL DIVULGOU MUITO E TAL .

@JATE PQP HEIN NEGA?

@JUNNIN ALO AMG, VOCÊ É UM FOFOQUEIRO, HEIN?

@LUIGILOL VOCÊ COME MATO, CORTA AQUI.

@MANUFONSECA

FORA REVISÃO (ACREDITEM QUE A CRIATURA MERECE


@MARCORIGOBELLI CRÉDITOS, EU ESCREVI COISAS COMO “DE PRESSA/NASCE -
SE ”) ME AJUDOU NA PARTE BUROCRÁTICA.

@MATHEUSBONELA FORNECEDOR DE SORVETE. ABRAÇO PRA SUA MÃE.

VOCÊ TEM NSYNC NA SUA BIO, +REP PRA VOCÊ. E


@MATTIDIOTEQUE
AGRADECIMENTOS POR TODO SPAM QUE TU FEZ .

@MAUGX3 GRATO POR TODO SPAM.

ACHO QUE VOCÊ NÃO CHEGOU A FAZER SPAM, MAS VOCÊ IA


@METALRUFFLEZ ME VENDER LOVE HINA POR UM PREÇO BOM ( APESAR DE EU
NUNCA TER COMPRADO).

@MUSTABR OI QUER TC?

@OBERDANORRIS MANDOU ALGUNS ERROS ESCROTOS QUE EU FIZ.

@RAAFAEL NEM SEI SE VOCÊ CHEGOU A LER. BOA SEGUNDA PRA VOCÊ.

OBRIGADO PELO SEU BACKGROUND EM PROTESTO CONTRA A


@RODRIGOSEROISKA SOCIEDADE ATUAL QUE NÃO DÁ LIBERDADE DE SER MEU
PRÓPRIO CAPITÃO E ESCALAR MINHA PRÓPRIA MONTANHA.

UM DOS MAIORES FÃS DO JAVALI EVER, SAI LINDO, SEU


@SAELIND
LINDO.

@THEO892 VOCÊ ME DEVE CAFÉ, SÓ DIGO ISSO.

@THIAGO _PATO TE ODEIO, MORRA DIABÉTICAMENTE.

UM DOS PRIMEIROS FÃS, AJUDOU MUITO COM APOIO E


@VIATA
DIVULGAÇÃO.

@VITORLOL_ ABS DOS BROTHERS.

<INSIRA ALGO LEGAL/GENIAL ESCRITO AQUI (F OI MAL, MAS


@WESLLY
A CRIATIVADE FALHOU AGORA)>

@ZYGOT TU TÁ EM ÚLTIMO PORQUE É MENOS IMPORTANTE.

~4~
ESTE LADO PARA CIMA

~ ESCRITO POR VINICIUS KISS ~


REVISADO POR MARCO RIGOBELLI

~5~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

~6~
ESTE LADO PARA CIMA

O MELHOR ÍNDICE DE TODOS OS TEMPOS

PRÓLOGO ............................................................................................................... 11
[1] O BAIXO DO P ITTER ....................................................................................... 12
[2] O SONHO DE SE TORNAR FEIRANTE ................................................................. 13

[3] PARCEIROS DE AVENTURA .............................................................................. 14


[4] O GUIA DAS CAVERNAS COM LETREIRO DIGITAL ............................................. 16
[5] DENTRO DO TÁXI ........................................................................................... 18
[6] IIIIIIIIC ........................................................................................................... 20
[7] A BUSCA PELO P ITTER ................................................................................... 22
[8] A PERSEGUIÇÃO DO FLAMINGO NO CIO ........................................................... 24
[9] A MONTANHA DO RIACHO DE CARAMELO ........................................................ 26
[10] [B.C.L.] CARDÁPIO DA HUMILDADE NAQUELE JEITO .................................... 29
[11] A INCRÍVEL ESPERA ..................................................................................... 31
[12] BRUTAL FORCE ............................................................................................ 32
[13] IRENE, TRAGA MEU RIFLE! ............................................................................ 35
[14] ALERGIA PRIMAVEIRÍSTICA ......................................................................... 37
[15] O VÔO ATÉ O ABRIGO PARA TAXISTAS LADRÕES DE RATAZANAS COM TRAUMA
PÓS CALOTE ........................................................................................................ 39

[16] Ã-ME- Ã-TI- Ã-DA- Ã-SE- ............................................................................ 40


[17] POSSÍVEL FILLER ......................................................................................... 42
[19] O CAPÍTULO DEPOIS DO 17 ........................................................................... 43
[18] A NARRAÇÃO DE P ITTER .............................................................................. 44
[20] NO, I’M NOT ................................................................................................ 45
[21] -(12º ANDAR) .............................................................................................. 47
[22] O CASSINO 12 º ANDAR NEGATIVO ................................................................ 48
[23] A VOZ POR TRÁS DA VOZ ............................................................................. 50
[24] DUAS DÚZIAS DE CAPÍTULOS JÁ .................................................................... 52
[25] O CAPÍTULO EM QUE PITTER ESTAVA ESTRANHAMENTE INTELIGENTE............ 53
[26] O VÔO ATÉ A CIDADE DE SUPER-MERCADOS ................................................. 55
[27] A CIDADE DE SUPER-MERCADOS .................................................................. 56
[28] A CIDA DE SUPER-MERCADOS ..................................................................... 58
[29] O TÊNIS DE LUZINHA DO P ITTER ................................................................... 60
[30] O FIM DA CAVERNA ...................................................................................... 62

~7~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[33] MAIS UM DAQUELES MOMENTOS EM QUE SE PULA UM OU DOIS CAPÍTULOS QUE


SÓ SERÃO NARRADOS DEPOIS. S ENDO ESTE NARRADO PELO P ITTER. ..................... 63

[34] UM CAPÍTULO SEM NARRADOR (NÃO O PERSONAGEM, NO SENTIDO


DE NARRAÇÃO) ................................................................................................... 64

[35] A FUGA DA CAVERNA, NARRADA PELO BIGODUDO ........................................ 65


[32] O QUE ACONTECEU ENQUANTO OS PARCEIROS DE AVENTURA ESTAVAM NA
CAVERNA, NARRAÇÃO PELO J AVALI ..................................................................... 66

[36] A IDÉIA GENIAL DO GRANDIOSO LÍDER P ITTER PAN ...................................... 67


[37] A LONGA TRAJETÓRIA DA CAVERNA ATÉ A C IDADE DE SUPER-M ERCADOS .... 68
[38] PARADOS, EM FRENTE À PORTA DA CASA DA CIDA ........................................ 69
[39] A INICIATIVA DO GRANDIOSO LÍDER P ITTER PAN .......................................... 70
[40] O DIÁLOGO .................................................................................................. 71
[41] NARRAR CANSA ........................................................................................... 72
[42] A CONVERSA COM O XAMÃ .......................................................................... 73
[43] PITTER E BIGODUDO RUMO À VOLAÇÃO ........................................................ 74
[44] A SOLEIRA ................................................................................................... 76
[45] A HISTÓRIA DOS SUPER-MERCADOS ............................................................. 78
[46] PLANO VOLADO ........................................................................................... 79
[47] A SEGUNDA OU TERCEIRA IDEIA DO P ITTER .................................................. 81
[48] O CEMITÉRIO DOS PRODUTOS VENCIDOS. ...................................................... 83

[49] DANÇANDO WE’RE IN HEAVEN COM P ITTER ................................................. 84


[50] OS AMIGOS DO PEITO ................................................................................... 86
[51] “PLANO DE ESCALAMENTO DO ARCO-ÍRIS” ARQUITETADO E DESENHADO PELO
GRANDE LÍDER P ITTER P AN, ................................................................................ 89

[52] A ESCALADA DO ARCO-ÍRIS .......................................................................... 90


[53] SOMEWHERE OVER THE RAINBOW ................................................................ 92
[54] DE VOLTA A BUSCA PELA AMEIXA ................................................................ 95
[55] A ENTRADA DOS TÚNEIS “QUE FICAM EMBAIXO DO VIVEIRO DE CAPIVARAS” 97
[31] EXPLICAÇÕES SOBRE O QUE ACONTECEU ...................................................... 99
[56] A VIAGEM PELOS TÚNEIS ............................................................................ 100

[57] O PADRE E O ROBÔ GIGANTE ...................................................................... 102


[58] PROTO FILLER ............................................................................................ 105

[59] RUMO AO BACON ....................................................................................... 106


[60] ENTÃO, COMO FORAM AS FÉRIAS DE VOCÊS ?............................................... 107

~8~
ESTE LADO PARA CIMA

[61] O PÉ DE AMEIXAS FOSFORESCENTES .......................................................... 109


[62] MOMENTO PRÉ-BATALHA-FINAL ................................................................. 110
[63] DESAVENÇA COM O PITTER ........................................................................ 111
[64] UMA RÁPIDA LIÇÃO SOBRE NUNCA FALAR DE RELIGIÃO .............................. 112
[65] O QUE ACONTECEU NA MINHA LUTA CONTRA O DUMBO E O
TAXISTA DIREITEIRO......................................................................................... 114
[66] A FINAL DO BRUTAL FORCE XIX ............................................................... 115
[67] A DIFERENÇA ENTRE BACON E PRESUNTO ................................................... 117
[68] O FINAL DA HISTÓRIA ................................................................................ 119
[69] O LADO B DA FITA ..................................................................................... 121
[70] ERRATA ..................................................................................................... 122
[71] ADMIRÁVEL CHUVA DE JABUTIS NOVA ....................................................... 123
[72] O FIM DO DIÁRIO DE BORDO ....................................................................... 125
[73] O CAPÍTULO QUE DEVE SER LIDO, AO INVÉS DO 70, 71 E 72 ......................... 127
[74] O MOTIVO POR QUAL NÃO FAZEMOS SUCESSO ............................................. 128
[75] “DISCO” VOADOR ...................................................................................... 129
[76] “NO COMEÇO, NÃO HAVIA NADA” – PARTE 1 .............................................. 130
[77] SETE HISTÓRIAS EM UM CAPÍTULO COM QUATRO SETES NO TÍTULO (ABRAÇOS
AOS SUPERSTICIOSOS) ....................................................................................... 132

[78] REVOLUÇÃO DOS ENLATADOS .................................................................... 134

[79] O COMEÇO DO APOCALIPSE ........................................................................ 136


[80] FAVOR LEVAR ESSE CAPÍTULO PURAMENTE NA ESPORTIVA .......................... 138
[81] LÁ SE FOI O DISCO VOADOR ........................................................................ 140
[82] ERA MEIA NOITE, O REQUEIJÃO VENCIDO PERSEGUIA NOSSOS HERÓIS... ....... 142
[83] PLANO DE FUGA ......................................................................................... 143
[84] A LENDA DE NATTER/PIDUDO E A FUGA DOS ALIMENTOS VENCIDOS ............ 145
[85] BURACOS FEITOS POR JOANINHAS SÃO VERMELHOS E COM PINTAS PRETAS.
SÉRIO. ............................................................................................................... 147
[86] A LUZ NO FIM DO TÚNEL ............................................................................. 148
[87] TEM UM BURACO EM SUA ALMA QUE GOSTA DE UM ANIMAL ........................ 150
[88] A PARTIR DE AGORA, SÓ CAPÍTULOS POSITIVOS. E SIM, ISSO FOI UM
TROCADILHO . .................................................................................................... 152

[89] PATATOVAS! .............................................................................................. 153


[90] REPEITE O CÓDIGO DOS ESCOTEIROS ........................................................... 154

~9~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[91] UM MOMENTO DE REFLEXÃO ...................................................................... 155


[92] SE UM GOLFINHO TIVER O DOBRO DO TAMANHO DELE, SERIA ELE UM GOLFO?
......................................................................................................................... 156
[93] A HISTÓRIA DA SERPENTE ........................................................................... 159
[94] O BANJO E A LICHIA .................................................................................. 161
[95] O FIM DE UM SONHO ................................................................................... 164
[96] A CARTA DE DUMBO .................................................................................. 166
[97] COMENTÁRIOS SOBRE O FINAL TRÁGICO DO DUMBO ................................... 167
[98] O ANO QUE O BRASIL PERDEU A COPA ........................................................ 168
[99] “MINHA LENTE CAIU NO TREM” .................................................................. 170
[100] PRIMEIRO DIA FORA DA CADEIA ESTADUAL ............................................... 171
[101] SALVAR PESSOAS, CAÇAR COISAS. NEGÓCIOS DA FAMÍLIA ........................ 173
[102] ESSE É O PENÚLTIMO CAPÍTULO DA HISTÓRIA. DESSA VEZ É SÉRIO............. 175
[103-A] O FINAL PARA QUEM VIU NOS C INEMAS ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
[103-B] O FINAL PARA QUEM COMPROU O DVD .ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
[103-C] O FINAL PARA QUEM BAIXOU (I)LEGALMENTE DA INTERNET .................. 176
PITTER PAN E AS CARTAS AO PAPAI NOEL .............ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
CARTA PARA O PAPAI NOEL #1 ..........................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
CARTA PARA O PAPAI NOEL #2 ..........................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
CARTA PARA O PAPAI NOEL #3 ..........................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
AS CARTAS PARA O PAPAI NOEL .......................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
A ESPERA PELA RESPOSTA DO VELHO DO SACO VERMELHO .. ERRO! INDICADOR NÃO
DEFINIDO.

A DEVOLUÇÃO DAS CARTAS ..............................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.


PITTER PAN E O CARBURADOR SAFADO .................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
PRIMEIRO DE ABRIL ...........................................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
ALMOÇO DE SEXTA SANTA ................................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
SÁBADO DE ALELUIA ........................................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.
FELIZ PÁSCOA, CONVIVAS .................................ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.

~ 10 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Prólogo

A história que está para ser contada não tem o intuito de reproduzir nenhuma opinião
religiosa, política, musical ou gastronômica, portanto não leve a sério as coisas escritas
aqui, pois elas têm o puro intuito de entreter os leitores, e não foram escritas na intenção
de serem levadas a sério. Caso você vai se sentir ofendido pare de ler aqui. E por aqui
eu quis dizer na frase anterior.

Logo abaixo nesta página está um resumo da história inteira, pode ler, ele foi escrito
para você ler. É só uma precaução, para caso você morrer antes de terminar a história (e
eu não te desejo isso, eu te amo) você saiba o final.

O Narrador e o protagonista se juntam a um personagem secundário para irem


atrás da ameixa fosforescente. Eles voam até umas cavernas, encontram uma ratazana,
conseguem a ameixa, mas perdem a ameixa para um flamingo. Dumbo aparece na
caverna, e eles voam para a liberdade, porém esquecem a ratazana com um taxista que
só tem duas mãos direitas, então invadem o abrigo dos taxistas caloteiros para
recuperarem a roedora. Depois eles visitam a ilha da cachoeira de caramelo e assistem
ao Brutal Force. A próxima parada é um hotel, aonde eles visitam um cassino e
coseguem um javali de brinde. Saindo de lá eles visitam uma cidade longínqua, uma
tribo de gramofones e escalam um arco-íris.

A viagem chega ao fim quando eles atravessam o oceano em um carrinho de


montanha-russa e chegam ao pé de ameixa fosforecentes. Com todos felizes, eles
voltam para casa.

Embora possa acontecer, o resumo não tem o propósito de desmotivar sua leitura.

~ 11 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[1] O baixo do Pitter


“Nunca dei valor as amizades, por isso que eu sempre andava na
companhia do Pitter.”

Em um dia quente de setembro, estava andando pela rua e distraidamente conversava


com um anão de meio metro, que usava um gorro verde chamativo feito letreiro de
motel, que carregava seu baixo de ponta cabeça utilizando as duas mãos, tinha pavor de
dentista e se chamava de Pitter.

Como não estava prestando atenção em muita coisa, esbarrei em um garoto que
parecia estar triste, e carregava uma ameixa fosforescente. Ele olhou para mim e
perguntou:

Garoto triste: O que devo fazer com uma ameixa Roxa Fosforescente do tamanho
exato de um vibrador?

Pensei que aquilo fora uma pergunta capciosa, então fiquei encarando-o por um
tempo. Foi quando descobri que se você encara pessoas tristes, surgem bigodes,
cavanhaques e monocelhas nelas.

Narrador: Ah, eu troco essa ameixa por esse anão aqui do meu lado.
Bigodudo: Feito.
Narrador: Mas diga-me, como foi que você conseguiu essa maravilha?
Bigodudo: Ah, é uma história longa.

~ 12 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[2] O sonho de se tornar feirante


Bigodudo: Minha mãe sempre me ensinou que na vida, uma pessoa tem que fazer
escolhas inteligentes. Eu escolhi que seria o feirante de frutas inusitadas.
Narrador: E onde que entra a parte inteligente?
Bigodudo: Lugar nenhum, eu era rebelde e não quis obedecer à velha.
Narrador: Faz sentido.
Bigodudo: Foi quando meu pai disse que existiam frutas que brilhavam no escuro e
tinha gosto maravilhoso. Foi então que eu decidi ir atrás da “Ameixa Fosforescente”.
Fui atrás da fruta, cruzei mares, derrotei dragões, deixei crescer bigode, fiz carteirinhas
em bordéis e todas essas coisas que se faz em jornadas épicas e coisas do tipo. Num
belo dia finalmente cheguei ao gigantesco Pé de ameixas fosforescentes. Eu pedi uma
fruta, mas o Pé estava com a unha encravada e se recusou a me dar, saí de lá triste e fui
me embebedar num bar ali perto. Foi quando uma jovem moça se aproximou de mim,
como meu dia estava triste eu criei coragem e perguntei ‘Por acaso você teria uma fruta
fosforescente em formato de vibrador?’, e ela respondeu ‘Ah, claro! Sempre carrego
uma dessas comigo. ’ E foi assim que eu consegui essa ameixa.
Narrador: E por que você está trocando ela pelo Pitter, se ela é o que você precisa pra
realizar o seu sonho de ser feirante?
Bigodudo: Ah, é que o Pitter é tão atraente, e esse baixo dele, e o jeito que ele carrega
me empolgam.
Narrador: Você se excita com o baixo do Pitter?
Bigodudo: Você não?

Fiquei ali tentando definir o quão familiar aquela cena me era parecida, como um dejá
vú, eu segurando um proto pênis roxo com gosto de ameixa enquanto um bigodudo
conversava com meu amigo anão.

Pitter: Oi, meu nome é Pitter, eu sei voar, e faço apologia a uma história clichê
americana.
Bigodudo: Olá, meu nome é-
Narrador: Oh não, era uma cilada, Bino.
Bigodudo: Que foi?
Narrador: Essa ameixa aqui é falsa, ela tem gosto de pêra.
Bigodudo: Como assim?
Narrador: Vamos ter que ir até o Pé de Ameixas Fosforescentes, caso contrário o Pitter
não é mais seu amigo.

Então, eu e Bigodudo montamos no Pitter, que ergueu vôo.

~ 13 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[3] Parceiros de aventura


Sobrevoávamos o mar. Bigodudo e eu montados no Pitter, parecíamos aquela posição
“O Pelicano Mal-Formado” do Kama Sutra.

Narrador: Desisto de procurar…


Bigodudo: Mas a gente nem começou.
Narrador: Não tem problema, vai demorar muito até a gente achar.
Bigodudo: Mas ela tem formato de vibrador.
Narrador: Ah é…

E fora aquele detalhe eu queria me livrar do Pitter.

Pitter: Ei… Agora que somos um trio… Podíamos escolher um líder…

Pitter: Eu me candidato…

Pitter: Legal, eu sou o líder.


Bigodudo: Francamente… Esse seu amigo aí…
Narrador: Meu nada, ele passou a ser seu amigo. Eu o troquei pela ameixa
fosforescente…
Bigodudo: Droga!
Pitter: Ei, parceiros de aventura…
Narrador: “Parceiros de aventura”? Francamente ô do bigode, esse seu amigo aí…
Pitter: …Que tal investigarmos aquela caverna ali?

Pitter apontava para uma caverna situada no meio do mar.

Narrador: Por quê? Só porque é uma caverna no meio do mar?


Pitter: Não… Porque tem um letreiro digital enorme escrito “Local onde
provavelmente está uma fruta fosforescente que você e seus parceiros de aventura
procuram”.
Bigodudo: Fico impressionado… Que mais alguém use a expressão “parceiro de
aventura”.

Não demorou muito até Pitter pousar na caverna, já que por alguma ideia idiota ele era
o líder e tínhamos que ir aonde ele ia, ainda mais porque éramos obrigados a nos agarrar
na bunda dele para sair voando por aí. O lugar – em que chegamos, não a bunda do
Pitter - fedia a mofo e certas horas tinha cheiro de baunilha com canela.

Bigodudo: Para que lado nós vamos?


Pitter: Não sei. Deixa-me perguntar.

Já estava estranhando o fato de Pitter e do aspirante a feirante estarem se dando tão


bem, isso me deixava triste, porque eu tava sem minha ameixa com formato de

~ 14 ~
ESTE LADO PARA CIMA

vibrador. De qualquer forma, Pitter tinha encontrado uma barraca de informações cuja
atendente era uma, enorme, ratazana.

Pitter: Com licença, estamos procurando por uma ameixa fosforescente… Por acaso
você a viu?
Ratazana: Iiiiic!
Pitter: Obrigado…

Pitter fez uma cara de inteligente e ficou encarando Bigodudo e eu com um jeito de
filho de padeiro por um tempo.

Bigodudo: E então?
Pitter: Ela disse pra gente procurar em outra caverna.
Narrador: Peraí. Você entendeu o que ela disse?
Pitter: Ah, quando eu era pequeno minha mãe me fez decorar o “dicionário das
ratazanas atendentes de cavernas com letreiros” como hobby.
Narrador: Que irado. E que caverna é essa aí?
Pitter: A que estiver escrito “Aqui, achados e perdidos, se você e seus parceiros de
aventura perderam alguma coisa”.
Narrador: Não acredito-
Pitter: Mas é verdade…
Narrador: … Não acredito que exista outro letreiro que tem a expressão “parceiros de
aventura”.

Saímos da caverna, montamos no traseiro de Pitter e fomos à procura da tal caverna.

Bigodudo: Não deve ser difícil achar uma caverna com um letreiro digital.

Então, logo avistamos: “Entre nesta caverna para o guia de cavernas com letreiros
digitais”.

Bigodudo: Tá, talvez seja…

~ 15 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[4] O guia das cavernas com letreiro digital


Como nós realmente precisávamos de alguma informação que fosse útil para nossa
busca, resolvemos pousar na caverna, e como sempre eu era o último a descer, e tinha
que ficar agarrado no cinto (com ‘c’ mesmo) do Pitter. A entrada era estranha, porque
tínhamos que nos jogar em um buraco que parecia toca de toupeira, então
escorregávamos até chegar a um tipo de piscina de chantili. A parte mais bizarra é que
flutuando nela tinha uma cereja.

Tentei me levantar, mas não a tempo suficiente de Pitter me acertar. Ele encravou a
perna direita e a bola esquerda dele no meu pescoço, e sim, isso foi possível na hora.
Como ficamos enganchados naquilo, ergui-o e comecei a andar assim, eu sabia que
tentar me soltar daquilo seria pior. Andamos por um extenso corredor até chegarmos a
um incrível balcão com uma atendente loira.

Narrador: Érm… Com licença, eu precisava de uma informação.


Atendente: Ah, jura? Pensei que você tinha vindo aqui comer donuts e jogar tarô.
Narrador: … Eu ignoro seu sarcasmo se você ignorar minha burrice.
Atendente: Mas é sério, eu realmente já estava preparando os donuts…

Bigodudo me puxou de canto.

Bigodudo: Escuta, você tá com um saco na sua orelha esquerda, deixa que eu falo com
ela.

Ele ajeitou o bigode dele, coçou o saco e se apoiou no balcão.

Bigodudo: Olha querida, eu realmente gostaria de jogar tarô, comer donuts e pular
corda jogando amarelinha com a sua vó, mas estou aqui a trabalho e minha missão é
achar a ameixa fosforescente.
Atendente: Ah, e onde que eu entro na história?
Bigodudo: Nesse capítulo.
Atendente: Tá, me deixa reformular a pergunta… Que é que eu tenho a ver com a sua
vida?
Bigodudo: …

Ele ficou encarando ela por um tempo, depois virou de costas e começou a chorar. Foi
então que Pitter conseguiu se desenrolar da minha cabeça e resolver tentar a sorte com a
atendente.

Pitter: Dê-me um guia das cavernas com letreiros digitais para que meus parceiros de
aventura e eu possamos nos localizar aqui.
Atendente: Tá na mão.
Pitter: É “nóis”.

Pitter virou, e mostrou um enorme pergaminho com desenhos no paint.

Narrador: Tá, como que era tão fácil?


Pitter: Ah, quando eu tava com meu saco enroscado na tua cabeça eu vi no crachá dela

~ 16 ~
ESTE LADO PARA CIMA

“Aperte ‘A’ para pedir pelo guia das cavernas com letreiro digital”.
Bigodudo: Mas o certo não seria ‘guia das cavernas com letreiros digitais’
Pitter: Ah… Sei lá, acho que é a mesma regra de quando é com ‘Papai Noel’, sabe?
Narrador: Quem liga pra regra de plural? Já é a terceira vez que eu vejo ‘Parceiros de
Aventura’. Isso está ficando assustador.

Procuramos a saída nós mesmos, não me atreveria a falar com a atendente de novo.
Achamos um elevador que nos levou para a superfície. Montamos no Pitter e saímos à
procura de cavernas, resolvemos tentar a que no mapa estava com o título de “Não deixe
de visitar isso com seus parceiros de aventura ;D”. A maldita expressão estava de novo,
e já nem tinha mais graça lê-la, mas o que chamou atenção mesmo foi o emoticon.
Dessa vez o pouso foi, diria suave, com o saco de cada um no lugar que devia estar.

Fomos adentro a caverna até achar uma enorme placa “Siga as Joaninhas”, e foi o que
fizemos. Havia joaninhas enormes, do tamanho de hipopótamos, andando feito zumbis.
Seguimo-las até o final onde encontramos um altar com a Ameixa Fosforescente Roxa
no formato de um vibrador e com uma legenda de “Pegue logo antes que a ratazana
apareça”. Como as letras eram miúdas tive que me aproximar para ler, e isso foi tempo
suficiente da ratazana da primeira caverna aparecer, com um alto grito de
“Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiic”, pular, acertar minha cabeça, pegar a ameixa e sair correndo.

Corremos atrás dela até achar um ponto de táxi perto das Joaninhas gigantes. Entramos
logo no táxi.

Narrador: Motorista, siga aquela ratazana!

~ 17 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[5] Dentro do Táxi


“Sempre fui ensinado a nunca dar gorjeta para nada na vida. Se a pessoa
fizesse por merecer ela iria colocar no preço, gorjeta seria um nome barato para
esmola, e como nem esmola pra mendigo eu dou…”

O motorista do táxi começou a acelerar, e todos estavam empolgados caçando a


ratazana com o Táxi, talvez empolgados demais.

Bigodudo: Pitter dá pra parar de cantarolar músicas idiotas?


Pitter: Eu não posso, elas me animam.
Narrador: Sandy & Junior te anima?
Pitter: Eu não posso evitar, são letras tão profundas.

Enquanto isso o taxista dirigia sorrateiramente, desviando do fluxo pesado de


morcegos, quando avistamos uma placa gigante escrito “A ratazana está a frente”. Sem
perder tempo, Sr. Taxista disse:

Taxista: Alguém aí quer café?


Bigodudo: Cara, estamos dentro de um carro a…
Pitter: Quero com adoçante
Bigodudo: Mais o q-

O taxista retirou um bule do bolso, com a mão direita, enquanto dirigia com a outra
mão direita.

Narrador: Você carrega um bule de trinta e dois centímetros e meio no bolso?


Taxista: E você não?
Bigodudo: Cara, você não devia pilotar o táxi ao invés de servir café expresso?
Taxista: E posso fazer os dois, tenho duas mãos direitas.
Todos: A PAREDE!

O carro bate sua lateral com força, fazendo Pitter voar pela janela, batendo a cabeça na
via expressa. Naquele momento um ônibus da federação dos lutadores de sumo da
caverna passou por cima dele, seguido por um elefante que acabara de fugir do circo.

Bigodudo: Ah, que pena, gostava dele. Mas o café ainda tá de pé?
Taxista: Claro. Quantas pedrinhas de açúcar?
Bigodudo: Três, por favor.

O taxista apertou ’select’ no painel frontal e o carro reapareceu no meio da via


expressa com a frente reformada. Voltamos a perseguir a ratazana, deixando Pitter para
trás.

Bigodudo: Você vai deixar ele pra trás?


Narrador: Ele é seu amigo agora, você que tem que se preocupar com ele, eu quero a
minha ameixa.

~ 18 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Antes que Bigodudo pudesse reclamar mais, Pitter reaparece no retrovisor, montado
num estranho animal.

Bigodudo: Dumbo!
Narrador: Que nojo, o Pitter está sem braço.

Então Pitter respondeu, gritando.

Pitter: Por sua causa, você não devia ter me trocado por essa ameixa!
Bigodudo: Acho que eu que devia ter ficado com a ameixa.
Pitter: Na verdade, se não tivessem trocado estaríamos em casa.
Dumbo: É isso aí, abaixo o Narrador.

Foi nesse momento que o taxista interrompeu a discussão irada e fez uma proposta.

Taxista: Eu troco um dos meus braços direitos por uma gorjeta.

Eu só lembro de desmaiar e ter um ataque epilético quando ouvi a palavra ‘gorjeta’.

~ 19 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[6] Iiiiiiiic
Quando acordei estava no banco de trás do táxi, me levantei ainda tonto e abri a porta
sem nem lembrar direito onde estava e o que tinha acontecido. Quando desci do carro,
tentava recapitular o que tinha acontecido comigo naquele dia, o que tinha me levado
até aquele momento, e o que eu consegui foi isso: Acordei com o Pitter dormindo em
cima da minha TV. Fiquei na cama esperando a Vontade aparecer. Vontade bateu na
porta e berrou “acorda moleque, vai buscar pão antes de ir pro trabalho”. Meu
trabalho consiste em fazer volume na fila do INSS. Acordei o Pitter e fomos andando
rumo à padaria, até encontrar com um garoto que tinha um bigode de cobrador, mas
que logo cresceu quando eu fiquei encarando ele, e depois o resto dá pra acompanhar
do capítulo 1.

Quando me toquei que tudo aquilo tinha acontecido, a única coisa que eu consegui
falar em meio a um bocejo foi:

Narrador: ... Dia lazarento.

Fui até a frente do táxi e estava lá Bigodudo e o motorista de táxi jogando gamão no
capô do carro.

Taxista: Até que enfim.


Narrador: Ah, foi só um ataque epilético básico devido a trauma de infância (e de
pobreza)… Cadê o Pitter?
Bigodudo: Fugiu com o Dumbo e com o braço do taxista.
Narrador: Oh noes. E tu tá aí jogando gamão?
Bigodudo: O que eu podia fazer? Era isso ou Copas.
Narrador: E a ratazana?
Taxista: A miserável continuou fugindo quando eu parei o táxi para jogar gamão.
Narrador: Eis que surge a pergunta… Porque você parou o táxi pra jogar gamão?
Taxista: Foi o que o letreiro dizia.

Foi então que eu notei um enorme letreiro piscante escrito ‘Jogue gamão/copas
agora!’.

Narrador: Tá… Eu vou atrás da ratazana e vocês achem o Dumbo e o Pitter.


Taxista: Não. Só depois que você cumprir o que o letreiro diz.

Depois de umas duas partidas de gamão montei em um pedalinho – aqueles de cisne –


que o taxista guardava escondido no porta-luvas do táxi dele e fui atrás da ratazana.
Cheguei até um beco escuro e com cheiro de bolinha de gude, e lá estava a maldita.
Desci do pedalinho e encurralei o monstro peludo. Diz a lenda que esses animais
quando encurralados tendem a atacar, já que se sentem ameaçados, mas com minha
vasta experiência, eu já estava preparado para o que viria. Com um movimento rápido
puxei o sabonete líquido que eu tinha no meu bolso e joguei no chão, fazendo um
círculo em volta dela, qualquer um saberia que sabonete líquido obedece a lei da inércia
de que objetos parados tendem a permanecer parados.

~ 20 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Aproximei-me dela com todo cuidado possível, levemente retirei a ameixa de suas
patas. Achei uma miniatura de Buda que tinha ali por perto e acertei o estômago da
bichana, deu pra ver o ar saindo de seus pequenos pulmões, assim como deu pra ouvir
um grito desesperador com direito a legenda.

Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiic

Ela cambaleou e caiu no chão, eu já ia dar meu golpe final, que seria uma budada fatal
nela, mas quando eu a vi tendo um ataque epilético eu me apaixonei, senti aquela
química que nós dois compartilhávamos de ter ataques epiléticos em meio a cavernas
cheias de letreiros. Decidi que iria adotar aquela ratazana pra mim, batizei-a de Vandira.

Estava feliz e saltitando com Vandira no banco passageiro do pedalinho e a ameixa do


lado dela, quando um flamingo manco aparece do nada e, achando que o pedalinho-
cisne queria acasalar com ele, me ataca. No meio do ataque fui proteger a frágil Vandira
enquanto gritava “It’s fun to stay at the YMCA” pra ver se afugentava a ave gregária,
mas fiz com que ela em seu momento de tesão e atração magnética pelo pedalinho
pegasse a fruta fosforescente.

Com o pedalinho deformado acabei encontrando o táxi com Dumbo e Pitter em um


pedágio. Desci do pedalinho para não pagar a taxa de Locomoção por Anserinae e entrei
no táxi.

Bigodudo: Conseguiu pegar a ameixa?


Narrador: Uhum, mas acabei perdendo ela pra um flamingo no cio. Mas parece que
você conseguiu achar os dois.

O ser de bigodes e o Dumbo se entreolharam.

Bigodudo: É uma longa história.


Narrador: Vai contando.

~ 21 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[7] A busca pelo Pitter


Bigodudo: Bom, depois que você saiu, eu fui andando do lado oposto aonde eu achei
que poderia encontrar o Pitter e o Dumbo.
Narrador: Mas eles foram para o mesmo lado que eu.
Bigodudo: Sei lá… Na hora fez sentido. De qualquer forma, continuei andando e então
pensei “Ei, eu realmente gosto de Agaricus Blazei”…
Narrador: E isso seria?
Bigodudo: Cogumelo-do-Sol.
Narrador: … E porque você não falou logo “cogumelo-do-sol”?
Bigodudo: Porque eu vi um dia no Discovery que cogumelo comestível também tinha
esse nome.
Narrador: E…?
Bigodudo: E eu queria falar isso uma vez na vida. É triste a gente saber das coisas e
nunca usar esse conhecimento.
Narrador: 6ª série manda beijos.
Bigodudo: Então, no meio do caminho eu achei um mercadinho e comprei uma caixa
desses. Ali por perto eu vi um flamingo meio desanimado, cheguei perto dele e
perguntei ‘Por acaso você viu um Dumbo por aqui?’, como ele não tinha forças pra
responder eu dei metade dos meus cogumelos pra ele… Eu não sabia que isso
incentivava os hormônios dele…

Eu não sabia nem que flamingo tinha hormônios suficientes para estuprar um
pedalinho-cisne.

Bigodudo: …Então ele me disse para procurar no Sindicato dos Dumbos


Homossexuais.
Narrador: Sério? Esse tempo todo eu pensei que o Pitter fosse gay.
Bigodudo: Nada, ele é só simpatizante. Mas então, a ave começou a contar a história do
por que dele estar naquela caverna, ele tinha mulher e três filhos, e estava atrás da-
Narrador: Estamos embarcando numa lembrança dentro de uma lembrança?
Bigodudo: Exato. A mulher dele disse: “Se você não trouxer uma ameixa sagrada e
fosforescente eu não te aceito mais. Vá e vê se arranja uma prótese”. Então falei sobre
nossa busca e fiz um trato: O Dumbo pela ameixa.
Narrador: Mas peraí. Até onde eu me lembre, você que tinha o sonho de ser feirante e
você que trocou a ameixa pelo Pitter.
Taxista: São dezenove e oitenta.
Narrador: O quê?
Taxista: São dezenove e oitenta.
Narrador: Eu estou conversando aqui, caro taxista.
Bigodudo: -Mas eu sou preguiçoso demais, e ele me trouxe o Dumbo e o Pitter…
Curiosamente os dois sem calças. Então ele teve um ataque pervertido e saiu correndo
atrás de você.
Taxista: São dezenove e oitenta
Narrador: Ó, tá claro desde o meio do capítulo 5 que nós íamos te dar um calote.

O taxista fez a típica cara de “tomeicalotegzuis”, entrou no táxi, mexeu no porta-luvas,


pegou o retrato da mãe dele e voltou para mim e Bigodudo.

~ 22 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Taxista: E então, ou você paga ou eu enfio a minha mãe na sua cara.

Ele veio com a mãe dele, mas eu logo acertei uma budada nele.

Narrador: Vamos atrás daquele pássaro. Montem no Dumbo!


Pitter: Felicidades, agora não sou eu quem leva atrás.

~ 23 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[8] A perseguição do Flamingo no cio


Estávamos empolgadamente montados no Dumbo, com o vento fazendo as orelhas
dele produzirem um zumbido que soava como “New York, New York“. Finalmente
avistamos um pássaro que estava encoxando com um botijão de gás, mas assim que nos
viu, o flamingo começou a correr em uma velocidade incrível.

Narrador: Voe Dumbo, voe!

Dumbo tentava alcançar a ave, mas ela parecia sempre estar se distanciando mais e
mais. Pitter teve a incrível ideia de arremessar seu baixo para tentar parar o flamingo, o
detalhe é que se arrependeu quando viu que tinha errado.

Pitter: Meu baixo! Nooooes!

Então Pitter saltou do Dumbo e foi atrás do baixo dele.

Narrador: Caramba, essa ave corre bastante pra um flamingo pervertido.


Bigodudo: Ah, mas isso é por causa do tamanho dos flamingos , que tem mais ou
menos uns 90 centímetros, e por isso consegue ser mais rápido que o Dumbo, que tem
uns 90 quilos.

Foi então que o flamingo saltou e começou a voar.

Narrador: E isso agora?


Bigodudo: Ah, ele provavelmente é um flamingo chileno, que tem o costume de voar
500 kilometros por dia. Eles são ótimos planadores.
Narrador: Caramba, de onde que vem tanta informação inútil?
Bigodudo: Ah, minha mãe me fazia decorar livros de flamingos e a reprodução deles
quando eu era pequeno.

Foi então que o flamingo, incrivelmente, tropeçou no ar. Dumbo parou logo em
seguida e descemos. Bigodudo segurou as pernas do bicho e Vandira prendia-o com
uma chave de braço.

Narrador: Agora você vai falar flamingo… Como que você tropeçou no ar?
Flamingo: Eu nunca direi.
Bigodudo: “Mermão”, um flamingo que fala. Preciso te vender para o circo.
Narrador: Cadê a ameixa?
Flamingo: Nunca direi.

Eu tentei ameaçá-la com a estátua do Buda, mas o flamingo era judeu, então em um
rápido movimento ele derrubou o dos bigodes com um mortal duplo-twist-carpado e
arremessou Vandira longe, e saiu correndo, só que com o mortal dele, ele deixou a
ameixa cair.

Narrador: Tá bom, isso foi idiota.

~ 24 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Fiquei ali encarando a ameixa por um tempo, e nesse momento Pitter vem com seu
baixo em mãos, segurando com as duas mãos, e de ponta cabeça.

Narrador: A ameixa perdeu o encanto, quero desfazer a troca.


Pitter: Como assim? Eu já tinha conseguido até trabalho como ajudante de feirante.
Narrador: Pode ficar com ele, eu fico com o Dumbo

Arremessei a ameixa pro de bigodes. Eu já estava para ir embora quando o taxista


surgiu em meio à escuridão.

Taxista: São… Dezenove. e oitenta…


Pitter: Você não tinha morrido?
Narrador: Vamos embora, antes que ele peça gorjeta.

Montei no Dumbo, Bigodudo no Pitter e saímos voando. Mas eu achei que tinha
esquecido alguma coisa lá, a única coisa que eu ouvi quando já estava para sair da
caverna foi um grito de longe vindo de onde eu tinha partido:

Vandira: Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiic!*

________________
* O que claramente dava para traduzir como:
“Super fantástico!
No Balão Mágico,
O mundo fica bem mais divertido!”

~ 25 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[9] A montanha do riacho de caramelo


Nós voávamos e nos distanciávamos da caverna.

Narrador: E agora?
Bigodudo: E agora o quê? Eu fiquei com a ameixa e o Pitter, você com o Dumbo, fim
da história.
Narrador: Mas… A Vandira. Veja a matemática. Você me deu a ameixa eu te dei o
Pitter. Eu consegui a Vandira e Pitter achou o Dumbo. Você tá com a ameixa e o Pitter,
e eu to só com o Dumbo.
Bigodudo: E daí?
Narrador: E daí que eu to no prejuízo.
Bigodudo: E onde isso me afeta?
Narrador: Na cara.

Antes que ele falasse mais alguma coisa arremessei o Buda (a estátua dele, afinal não
dava para arremessar o próprio Buda) na cabeça dele. Ele caiu do Pitter e o Buda caiu
no mar, Pitter deu uma cambalhota e segurou o do bigode pelas pernas.

Bigodudo: Tá, bom, eu te ajudo a recuperar a Vandira. Mas você vai ter que ajudar a
montar a minha barraca de feira.

Continuamos voando até sairmos da área das cavernas com letreiros digitais.
Avistamos uma montanha e decidimos que pousaríamos lá. A montanha era grande e
tinha um rio de caramelo. Assim que pousamos logo apareceu um camponês, ele usava
uma camisa branca, uma calça marrom, botas pretas, uma boina verde e usava uma
vestimenta que tinha escrito atrás “100% humildade”.

Camponês: Vermes imundos que estão a poluir minha terra sejam bem vindos.
Pitter: Digo o mesmo, exceto a parte do ‘bem vindo’… E do ‘minha terra’.
Camponês: Eu sou o guia de pouso de vocês.
Narrador: A gente vai ter que te pagar alguma coisa?
Camponês: Não, mas eu aceito uma gorj-
Narrador: O fato de você aceitar não quer dizer que eu vá te dar nada.
Camponês: E se eu quiser à força?
Narrador: Aí é estupro.

O camponês desistiu de arrancar dinheiro e trouxe um carrinho de bagagem que ele


guardava atrás de uma árvore.

Camponês: Eu vou levá-los a um hotel.


Narrador: Mas nós não…

Bigodudo me puxou de canto.

Bigodudo: Escute, deixa que eu converse com ele aqui, ok?

Ele me empurrou e foi falar com o 100% humilde camponês.

~ 26 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Bigodudo: Olha querido, eu realmente gostaria de ir para aquele hotel com você e ser
estuprado pela sua enorme gorjeta, mas estou aqui a trabalho e minha missão é resgatar
uma ratazana.
Camponês: Ótimo, e a minha missão é insistir e ser chato até vocês me acompanharem,
ou eu irei roubar a bagagem de vocês.
Bigodudo: Nós não temos bagagem.

O camponês olhou para nós quatro, ficou encarando cada um por um tempo, agarrou
Dumbo, colocou no carrinho e saiu correndo, descendo a montanha.

Narrador: Ótimo, agora teremos que ir atrás de um humilde camponês ladrão de


paquidermes.
Bigodudo: E depois de um taxista mercenário ladrão de roedores.
Pitter: E quem liga? Ele acabou de jogar 90 quilos em um carrinho e saiu correndo com
ele, isso deve ser algum recorde.
Narrador: Recorde do quê?
Pitter: Ah, aposto que deve ter uma categoria por roubo de elefante por aí.

Começamos a descer lentamente, observando a paisagem, as borboletas, o rio de


caramelo, e tinha até arco-íris no fundo escrito “Gay também é gente”. Eu andei
depressa, mas Bigodudo e Pitter ficaram para trás.

Pitter: Ei, do bigode…


Bigodudo: O quê?
Pitter: Foi muito bravo aquilo que você fez ali atrás.
Bigodudo: Pode parar.
Pitter: Eu te amo!
Bigodudo: Não. Você nunca me amou! NOSSO AMOR É UMA MENTIRA.

Foi então que uns camponeses de ali perto começaram a encarar os dois.

Bigodudo: Você ainda voa, não é?


Pitter: Érm… Claro.
Bigodudo: Então tira a gente daqui antes que eles peguem as tochas

Eles voaram até o pé da montanha.

Bigodudo: Bom, espero que o Narrador esteja pior.


Pitter: Ah, ele já estava quase no final da montanha observando pássaros e borboletas,
deve estar bem, no máximo sentindo falta do Dumbo.
Bigodudo: E isso é estar bem?
Pitter: Nesse capítulo você tá muito preconceituoso, o que há de mais em ser gay? O
que há demais em gostar de um Dumbo mágico? Por acaso é crime? Eu vivo num país
livre! Você tem que me respeitar e-

O Bigodudo já estava subindo a montanha de novo.

Pitter: Aonde você vai?


Bigodudo: Mudei de ideia. Prefiro as tochas.

~ 27 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Nesse momento eu encontrei Bigodudo subindo a montanha.

Narrador: O que houve?


Bigodudo: Pitter está muito gay.
Narrador: Ah, é só uma fase da amizade, vai passar depois que você saciar todas as
vontades dele.
Bigodudo: E por saciar as vontades dele você quer dizer o quê?
Narrador: Eu não quero dizer nada, eu to dizendo que acaba quando acontecer. O
amigo é teu, o problema é seu agora. Vem, vamos voltar pra recuperar Dumbo e ir atrás
da Vandira.

Na base da montanha achamos um enorme hotel.

Narrador: Presumo que seja aqui.


Pitter: Acho que não, olhe.

Tinha um aviso na porta “Cardápio do dia: Agaricus Blazei” e logo embaixo uma nota
“Você só terão o elefante de volta depois do show de hoje à noite”.

Narrador: Ótimo, agora vamos ter que esperar um gueto de camponeses apresentarem
um show com o Dumbo para fugir daqui?
Pitter: Olhe.

Tinha outra nota: “Isso mesmo, mas vocês poderão assistir ao show de graça”.

Bigodudo: Já que não tem jeito, podemos pelo menos almoçar aqui?
Narrador: Nós demos calote no taxista… Por que não?

Já íamos entrar no hotel quando ouvimos um som familiar, era o flamingo que
apareceu ali, e ficou nos encarando.

Bigodudo: É uma cilada.


Pitter: Se você quer a ameixa, você nunca a terá.

O flamingo permaneceu em silêncio.

Narrador: Vamos entrar lentamente e ele nem percebe.

Abrimos a porta lentamente e íamos andando de vagar, quando o flamingo começou a


correr em nossa direção. Pulou para nos acertar um chute, mas acabou tropeçando no ar.

~ 28 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[10] [B.C.L.] Cardápio da Humildade naquele jeito


Pitter amarrou o flamingo e arrastou-o para dentro do hotel. Paramos no balcão de
informação e eu fui falar com a atendente

Narrador: Olá, eu gostaria de uma inf- AH NÃO, VOCÊ DE NOVO NÃO!


Atendente: Ah, dessa vez você quer donuts ou jogar tarô?

Deixei que Pitter fosse falar com ela, como aprendi no capítulo 4, é impossível ter um
diálogo entre um idiota e uma pessoa sarcástica. Você que decide quem é quem.

Pitter: Oi. Eu quero guardar esse flamingo no porta-volumes…

Ele jogou o flamingo desmaiado no balcão.

Pitter: … E também queria saber aonde é o restaurante.


Atendente: É logo à direita. Mais alguma coisa?
Pitter: Uhum, eu e meus parceiros de aventura vamos ter que ver o espetáculo dos
camponeses já que eles roubaram nosso elefante voador, e precisamos do mesmo para
recuperar nossa ratazana que está com um taxista mal resolvido na vida. Então tem
como você arranjar um quarto pra gente que tenha uma janela que passe um Dumbo,
para que possamos fugir e dar calote?
Atendente: Quarto 511.
Pitter: Valeu, truta.

Era impressionante como o Pitter parecia alguém inteligente perto dela. Fomos até o
restaurante e logo sentamos-nos à mesa indicada com o número do nosso quarto, como
éramos os únicos hóspedes que estavam no restaurante àquela hora, um camponês anão
veio nos atender.

Garçom: Vermes imundos que estão a poluir minha terra sejam bem vindos. O que vão
pedir?
Bigodudo: O prato do dia.
Garçom: E vocês?
Narrador: Ah, o que tem?
Garçom: Comida, o que você esperava?
Pitter: Traga o cardápio, sim?
Narrador: Sério, ainda descubro quem foi o sem mãe que inventou o sarcasmo.
Pitter: É mais fácil você deixar de ser burro.

O garçom trouxe um cardápio, que era cheio de enfeites, com capa dura, colorido e
perfumado. A capa dizia “[BCL] Cardápio da Humildade naquele jeito”.

Narrador: A que se deve a sigla “BCL”?


Garçom: “Bonde do Cardápio Loko”.

Segunda lição do dia, nunca pergunte nada para camponeses anões que vivem em uma
comunidade “100% humilde”. Abri o cardápio e incrivelmente só havia uma página.
Tinha a foto de um prato com a folha de um calendário dentro dele.

~ 29 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Narrador: O que isso quer dizer?


Garçom: Que a única opção é o “Prato do dia”. Entendeu? Prato… do dia, por isso o
calendário. Nossa essa é muito boa.

Dava pra ver o orgulho de ter que explicar essa imagem nos olhos dele, era
impressionante.

Garçom: Vai querer alguma coisa?


Narrador: Não, to de regime.

Fiquei lá brincando de resolver expressões de quarto grau fracionadas junto do Pitter


enquanto esperava o Bigodudo terminar. Demorou umas seis horas até ele comer o tanto
de cogumelos que ele queria. Talvez não fosse bem para ele “comer o tanto quanto
queria”, porque a última vez que o anão veio trazer o prato com cogumelos ele
sussurrou ”Se pedir mais uma porção eu enfio esse prato goela abaixo, seu gordo
bigodudo maldito” para o garçom do lado dele; o maior detalhe é que ele era o único
garçom do restaurante, então ele sussurrou aquilo para o Pitter. De qualquer modo, já
estava na hora de sairmos dali, afinal em seis horas só ganhar duas vezes do Pitter é
humilhação demais.

Garçom: São dezenove e oitenta.


Pitter: Engraçado, já ouvi isso antes.
Bigodudo: Põe na conta.
Garçom: Não posso.
Bigodudo: Por que não?
Garçom: Porque quando você pede o prato do dia, tem que pagar no ato.
Narrador: Acho que não tem muita opção então.
Pitter: Aceita flamingo como forma de pagamento?
Garçom: Vivo ou morto?
Pitter: Vivo.
Garçom: Não. Só aceito morto, para empalá-lo e colocá-lo na frente do hotel como
enfeite.
Pitter: Ah, mas com ele vivo dá pra fazer o mesmo efeito usando um gel Bozzano.

Pitter foi à recepção, pegou o Flamingo, untou o bicho com gel e entregou pro garçom.

Pitter: Aqui está.


Garçom: Magnífico.

Levantamos da mesa e fomos para nosso quarto. Tinha uma cama de casal e um berço.
Liguei uma TV que tinha lá e fiquei assistindo, para esperar o show do Dumbo começar.
Pitter logo olhou para o Bigodudo, depois para a cama de casal e levantou as
sobrancelhas.

Bigodudo: Ah, nem vem.


Pitter: É o destino tentando nos unir.
Bigodudo: Unirei minha mão com a sua cara se você começar com ideias.

~ 30 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[11] A incrível espera


Empolgadamente assistíamos TV quando surgiu a dúvida.

Bigodudo: Que horas o show começa?


Narrador: Sei lá, no aviso só falava que a gente podia ir de graça.
Bigodudo: Ah, que bom que tem um enorme panfleto do show atrás do abajur.

Pitter foi lá olhar.

Narrador: Que horas está marcado aí Pitter?


Pitter: Aqui está marcado “No capítulo 12″.
Narrador: Tá bom, então esperaremos.

~ 31 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[12] Brutal Force


Bigodudo: Pronto, tá na hora.
Narrador: Certo, onde que é mesmo?
Pitter: Aqui no panfleto diz que é no restaurante.
Narrador: Tá certo… Só vamos torcer para que aquele garçom anão não faça parte do
espetáculo, se bem que faria sentido.

Arrumamos-nos para ir ao restaurante, e pela primeira vez em todo o tempo que


conhecia Pitter o vi mudar a roupa que vestia. Ele colocou uma capa preta, botas velhas,
um gorro de coelho da páscoa e amarrou o baixo nas costas (de ponta cabeça, claro). O
Bigodudo simplesmente penteou o bigode e a sobrancelha, coloquei um boné de
dálmata que tinha, e sim, era um boné branco com manchas pretas. Para disfarçar,
amarrava um sino no pescoço e fazia “Muu” de vez em quando.

Chegamos no restaurante, as luzes estavam apagadas, as mesas tinha sido arrastadas


para o lado, formando um caminho único que era iluminado por velhas. Andamos por
ele até chegar a uma arena que era cercada por cadeiras, havia muitos camponeses do
lado de fora da arena, sentados em algumas mesas e outros em perus de natal. O garçom
anão estava logo ali perto, e do lado dele estava o Dumbo.

Narrador: Dumbo, paixão da minha vida, você tá bem? Eles te machucaram? Quer
uma rapidinha?
Garçom: Nada de caricias e “paquidermofilias” por aqui. Nós temos um torneio que vai
começar.
Narrador: Torneio?
Garçom: É, o restaurante aqui organiza briga de mendigos clandestina.
Bigodudo: Como é que é?
Garçom: A gente coloca algum morador de rua para lutar contra algum animal épico.
Pitter: E qual a motivação deles para lutar?
Garçom: A gente joga os dois na arena e põe um marmitéx como prêmio.
Narrador: Espera aí. Vocês vão colocar o Dumbo para lutar?
Garçom: É rápido, ele luta contra uns dois mendigos, e se ganhar deles ele vai para a
final contra o nosso campeão.

Eu até ia perguntar quem era o campeão, mas Pitter me puxou para um peru ali perto.
Sentamos e esperamos o show começar. Deu para ver o Dumbo sendo carregado para
dentro de uma tenda na área de sobremesas. Ficou um tempo o lugar quieto, e quando
estávamos olhando atentamente para alguém sair da tenda perto da arena principal ouve-
se um grito:

“Irene, traga a cerveja!”

E foi assim que o Garçom foi introduzido. Ele entrou pelo palco gritando e pedalando
uma bicicleta.

Garçom: Bem vindos ao Brutal Force, a luta clandestina de mendigos.

Cochichei para Pitter.

~ 32 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Narrador: “Brutal Force”? Não tinha nome pior.


Pitter: Acho que devia ter. Sei lá, “Luta 100% Humilde” ou “Quebrada dos mendigo
loko”.
Narrador: É, faz sentido.

O anão desceu da bicicleta, tirou um marmitéx do bolso e colocou no chão.

Garçom: Dois entram, o ganhador sai com a marmitéx, o outro com um presunto
gigante de plástico.

Foi então que ele tirou um enorme presunto de plástico.

Garçom: Muito bem, é com enorme desprezo pela raça imunda que esta poluindo a
minha terra que vos apresento... O Mendigo dos Mares!

Incrivelmente todo mundo gritou “Ripa na chulipa” quando ele anunciou esse nome.
Nessa hora um mendigo com um chapéu de pirata amassado e no lugar da perna direita
um cabo de vassoura… Só que o cabo tava ao contrário, de que a piaçava da vassoura
servisse de apoio.

Garçom: E seu oponente será o Macaco Autista!

Ninguém gritou, assim como ninguém entrou na arena. Todos ficaram esperando
alguma coisa acontecer quando de repente entra um macaco com um jaleco branco
escrito “Rubens” no bolso direito e segurando um diário no braço esquerdo.

Garçom: Certo, o desafio de vocês é derrotar um ao outro… Em cima de patins!

Todos gritam. O pirata colocou os patins na perna esquerda e deixou o cabo de


vassoura lá. O macaco não colaborou muito, mas no final o amarraram e colocaram os
patins. Deixaram um de frente para o outro e soltaram.

O mendigo usou a perna-vassoura e foi em direção ao macaco, que tomou o golpe em


cheio e caiu. A multidão gritou novamente.

Pitter: Foi só isso?


Narrador: E você queria mais?
Pitter: Ah, sei lá. Teve toda essa apresentação de mais de dois parágrafos pra só isso.
Narrador: O show foi de graça, não dá pra esperar muito.

O mendigo pegou a marmitéx dele e foi embora. O macaco agachou e ficou


“autistando” até conseguirem fazê-lo ir embora – ele não quis levar o presunto. O
garçom voltou à arena, só que dessa vez montado em uma palmeira, amarrada em um
pula-pula.

Garçom: Muito bem, agora vamos para as semi-finais.

Pitter levantou indignado.

Pitter: Como assim? “Semi-finais”?

~ 33 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

O garçom tinha que berrar para Pitter ouvi-lo, já que todos na nossa frente ficavam
murmurando pragas contra o Pitter.

Garçom: Escuta jovem, a gente junta um monte de mendigos e marmitéx para fazer
uma luta clandestina. Você acha que isso ia ter algo mais do que eliminatória, semi-final
e final?

Pitter sentou no canto dele e o Garçom voltou ao anúncio.

Garçom: Então, de um lado teremos o novato “Dumbo”.

Eu e Pitter começamos a gritar

Narrador: Diva!
Pitter: Delícia!

E o garçom logo anunciou o concorrente do Dumbo.

Garçom: O novato irá lutar contra... O Catador Ninja!

Então um catador de lixo com um boné de gari escrito “Ninja”. Dumbo e o Catador
ficam se encarando.

Garçom: Muito bem, nessa luta vocês serão obrigados a lutar sem roupas.

Incontrolavelmente, em um daqueles momentos que você não faz ideia do que você
estava dizendo, eu gritei “Safaaaaada!”. Depois de um súbito silêncio, o catador tira o
boné dele e a camisa, porque eram as únicas coisas que ele vestia quando entrou na
arena. Dumbo tira o chapéu.

Quando eles estão prontos, o catador corre em direção ao paquiderme indefeso, que se
encolhe e começa a tremer, antes mesmo do catador de lixo chegar perto, Dumbo cai e
tem um ataque epilético.

Bigodudo: Que ótimo, a falta de medo de ratos dele compensa em medo de catadores
de lixo nus. Elefante estranho.

Pitter e eu tivemos de ir até a arena para carregar Dumbo e o presunto gigante dele. Já
estávamos para sair quando o garçom anuncia.

Garçom: Parece que só os mendigos irão para a final, onde ambos irão lutar nosso
invicto campeão.

Nessa hora o Bigodudo me puxa de volta para uma cadeira, arrastando o Dumbo junto.

Bigodudo: Vamos ver as finais.

O Pitter então senta ao meu lado com um enorme presunto de plástico.

Pitter: Olha, pelo menos o cheiro do presunto fica conservado no plástico.

~ 34 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[13] Irene, traga meu rifle!


Ficamos observando o palco principal e cheirando o presunto do Pitter. Os dois
mendigos se posicionaram de frente para uma porta e o garçom anunciou:

Garçom: E que venha… o nosso campeão... CÃO NAVALHA !!!

A platéia começou a gritar, a porta abriu um pouco e então um cachorro com giletes
amarradas nas patas saltou, abrindo a porta e caindo atrás dos dois mendigos. O catador
ninja jogou uma latinha na direção do vira-lata, mas ele estraçalhou o objeto utilizando
a mijatória-laminada, ataque que consistia em levantar a pata esquerda. O Mendigo dos
Mares tentou chutá-lo, com sua perna-vassoura, mas ele usou a mijatória-laminada-
invertida, que consistia em levantar a pata direita. Sem nenhuma defesa, os dois
adversários desistem.

Garçom: E mais uma vez o cão navalha veeeeeence a partida.

Bigodudo e o Dumbo já iam para a saída, o Pitter eu tive que arrastar para fora.
Arrancamos nossas roupas protoformais e saímos do restaurante, passamos pelo balcão
de informações, e finalmente atingimos a liberdade. Era noite, e a entrada ficava pouco
iluminada. Fomos de fininho quando a atendente liga um enorme holofote cegante, que
causa uma conjuntivite no Pitter.

Atendente: Já iam saindo sem pagar, é?


Narrador: Na verdade, a gente já está fora, então já saímos sem pagar.
Atendente: Não quero saber, são dezenove e oitenta.

Pitter ainda estava se contorcendo da dor dos holofotes na cara dele.

Pitter: Ó meu deus, estou cego, e nem tenho vocação para Jazz.

O garçom saiu gritando.

Garçom: Irene, traga meu rifle!

O Bigodudo montou no Dumbo e começou a fugir, mas eu tive que ficar para ajudar o
Pitter que não conseguia ver muito, e estava tremendo de medo que realmente existisse
uma Irene, e caso existisse, ela deveria ser uma daquelas maria-macho, então o Pitter
teve uma ideia para sairmos de lá antes da criatura chegar.

Pitter: Ei, eu tive uma idéia.


Atendente: Qual?
Pitter: Lembra que vocês aceitaram o flamingo como enfeite para pagar a conta do
restaurante?
Garçom: Hm.
Pitter: Ofereço-te um gnomo para acompanhar o flamingo.

Antes da resposta, mesmo sem ver muito, Pitter pegou o gel bozzano, passou no
garçom e entregou para a atendente (sim, ele fez isso sem ver, foi impressionante).

~ 35 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Pitter: Tá aí, seja feliz.


Atendente: Eu vou ter problema por causa do consulado de garçons anões, mas aceito.

Montei no Pitter e saímos voando, deixando o Hotel “100% Humilde” com enfeites de
flamingo e gnomos no jardim, ou quase gnomos.

Conseguimos alcançar Dumbo e o Bigodudo.

Bigodudo: Até que enfim, pensei que nunca iriam nos alcançar.
Narrador: Tá, agora nós precisamos resgatar a Vandira.
Bigodudo: Quer dizer que vamos ter que voltar pras as cavernas?
Narrador: A não ser que haja algum abrigo para taxistas ladrões de ratazanas com
trauma pós calote.
Pitter: Na verdade tem, me siga, Dumbo.

Pitter mudou a direção, mas como a sua conjuntivite estava atacada ele não conseguiu
ver muito.

Bigodudo: Vamos parar em algum lugar, amanhã de manhã a gente vai para esse abrigo
aí.

Do céu, avistei uma enorme tartaruga gigante, e decidimos pousar lá. Paramos perto da
cabeça da tartaruga.

Pitter: Ei, se incomoda se eu e meus parceiros de aventura ficarmos em seu casco por
esta noite?
Tartaruga Gigante: Em cima de mim?
Pitter: É
Tartaruga Gigante: Não pode ser de ladinho?
Pitter: Pode.

A tartaruga se inclinou e nós ficamos perto de uma das patas dela, estávamos deitados
e parecíamos leitões dormindo na mãe-porca.

~ 36 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[14] Alergia Primaveirística


Dormimos quase uma semana inteira, só acordamos porque era quase outubro, e em
época de quase outubro o Pitter tem uma alergia primaverística, em que ele ficava
manco e espirrava pó de arroz. Começamos a navegar na Tartaruga gigante, e nem
lembrávamos nosso objetivo.

Narrador: Bom, como eu não lembro nada, acho que está na hora de tudo isso acabar,
não?
Bigodudo: Ah sim, concordo. Eu fico com o Pitter, você com o Dumbo e fim de
história.
Narrador: Exato.

Montei no Dumbo. O mar estava tão calmo que a tartaruga nem se movia. O Bigodudo
agarrou a bunda do Pitter, que levantou voo.

Pitter: Muito bem parceiros de aventura, foi um enorme prazer estar nessa jornada
cheia de altas aventuras.
Narrador: “Parceiros de aventura, “Altas aventuras”. Você está decadente Pitter, que
bom que não sou mais seu amigo.
Pitter: Você me deu uma ótima ideia. Veja só: Parceiros de Altas Aventuras.

Ao ouvir isso Dumbo começou a voar, e só vi Pitter – espirrando – e o Bigodudo se


distanciando mais e mais.

Por mais que voássemos, parecia que o mar não acabava. Foi quando avistei uma
Capivara andando no meio do mar. Pedi para Dumbo sobrevoar ali perto.

Narrador: Ei! Capivara-Messias!


Capivara: Fala.
Narrador: Nós precisamos ir para o “final feliz da história”, onde fica?
Capivara: É só seguir reto e procurar uma enorme seta escrita “Créditos”.
Narrador: Ah tá, obrigado.
Capivara: “Obrigado” nada, são dezenove e oitenta.

Ao ouvir esse numeral minha memória adormecida por uma semana começou a
despertar, e lembrei-me do grito de Balão Mágico da Vandira. Rapidamente pedi para
Dumbo fazer um retorno.

Narrador: Vamos Dumbo!


Capivara: Aonde vai? Essa é a direção oposta ao “Final Feliz”... Por essa direção é o
Final Alternativo!

A Capivara continuou a gritar, o Dumbo a voar, a última coisa que ouvi dela foi “Se
você entrar numa Caverna, é o New Game+”.

Dumbo voava em uma velocidade impressionante, conseguimos achar Pitter ainda


preso na Tartaruga.

~ 37 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Narrador: Ei, me lembrei da Vandira.


Bigodudo: E eu com isso? Eu aproveitei que você tinha esquecido e nem te lembrei. Eu
já tenho a ameixa mesmo.
Narrador: Morra seu crápula. Você tinha feito uma promessa ou algo do tipo.
Bigodudo: Maldito capítulo 9. Mas mesmo assim, você ainda vai ter que me ajudar
com a barraca da feira.

Pitter ficava o tempo todo espirrando.

Bigodudo: Mas o Pitter não tem condições nenhuma de voar.


Pitter: Não se preocupem…

Pitter espirrou, se levantou, amarrou uma corda em seu pé, pulou na água, e voltou
com o Buda (a estátua) que eu tinha arremessado. Com o Buda fez um furo em uma das
orelhas do Dumbo, que gritou de dor

Narrador: Alocs!* Você é doente?


Pitter: Não, mas eu tô. Hihi.

Ele, espirrando, encaixou o Buda na orelha do Dumbo e amarrou a corda ali.

Pitter: Pronto, agora o Dumbo tem um piercing budista, e assim que ele voar ele pode
me carregar junto.

Montamos todos no Dumbo, que levantou voo. Pitter ficou pendurado de cabeça para
baixo, e seu baixo ficou na posição certa pela primeira vez, desde sempre. Voávamos
com certa lentidão, e íamos em direção ao “Final Alternativo”.

________________
* “Alocs” é uma expressão que é uma mistura de “ô louco” com “o que você tem na cabeça?”

~ 38 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[15] O vôo até o abrigo para taxistas ladrões de


ratazanas com trauma pós calote
Voamos.

~ 39 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[16] Ã-me- Ã-ti- Ã-da- Ã-se-


Ficamos o capítulo 15 inteiro voando, quando finalmente chegamos ao tal abrigo. Era
uma ilha com estradas que só passavam táxis. Tinha nada, nem árvore, nem pedra de
enfeite, apenas um campo deserto e o próprio abrigo. Pousamos próximo à garagem.
Dumbo desceu muito depressa fazendo Pitter ficar fincado no chão.

Pitter: Ã-me- Ã-ti- Ã-da- Ã-se- vermemaldito.


Dumbo: Só entendi o final.
Narrador: Dumbo, você ajuda o Pitter sair daí, ô do bigode, eu e você vamos lá
procurar o taxista.

Eu e o Bigodudo entramos no abrigo. Acho que abrigo devia ser um eufemismo,


aquilo estava mais para banheiro público gigante, tinha um caixote que era o balcão, e
graças a minha sorte, não tinha atendente sarcástica, atrás do balcão tinha várias redes
que serviam de camas para os taxistas, e atrás de uma fileira de redes ficavam os táxis.
Bem no fundo fica um placar marcando qual taxista estava ganhando no recorde de
calotes – incrivelmente, tinha uns vinte empatados com dezenove e oitenta. Fomos até o
balcão falar com o taxista que ali estava. Assim que chegamos perto ele colocou um
taxímetro em cima do caixote e ligou na bandeira 2.

Narrador: Que merda é essa?


Taxista Atendente: Te dou a dica de que não é um forno micro-ondas ninja.
Narrador: Tá, isso deve ser algum mal de atendente. Deixa-me perguntar de novo, pra
que isso?
Taxista Atendente: Você está num abrigo de taxista, é normal que tenha um taxímetro.
Narrador: E pra que você ligou?
Taxista Atendente: Para registrar o falar das informações que eu te passo.
Narrador: Tá, aonde eu acho um taxista que roubou uma ratazana?
Taxista Atendente: Isso aqui tem cara de balcão de informações?
Narrador: Bem, foi o mais perto que eu consegui achar. E além do mais, você está me
cobrando pela informação.
Taxista Atendente: O fato de eu te cobrar não quer dizer que eu necessariamente vou
te dar algo útil.

E o bigodudo foi tentar a sorte.

Bigodudo: Olha querido, eu realmente gostaria de andar no seu táxi e ficar de devendo
uns trocados, mas estou aqui a trabalho e minha missão é resgatar uma ratazana.
Taxista Atendente: Ó, eu vi um taxista com uma ratazana entrando, mas nem reparei
quem era?
Bigodudo: Não sabe nem o nome dele?
Taxista Atendente: Nome? Taxista não tem nome.
Bigodudo: E nem mãe, imagino.
Taxista Atendente: O quê?
Bigodudo: Nada.
Taxista Atendente: São dezoito e noventa.
Bigodudo: Legal, fera, senta e espera.

~ 40 ~
ESTE LADO PARA CIMA

O Bigodudo virou-se para mim.

Bigodudo: Viu que legal? A última coisa que eu falei foi uma rima.
Narrador: Sim, achei irado, “fera”. Agora como vamos recuperar a Vandira?
Bigodudo: Vamos ter que entrar e roubá-la.

Saímos para ver se o Dumbo já tinha tirado o Pitter de lá. A cena lá fora era do
Dumbo, com o piercing do Buda amarrado nas pernas do Pitter, tentando puxá-lo para
fora do buraco que tinha ficado. Pitter já devia ter espirrado tanto que deveria ter
“litros” de pó de arroz lá.

A iniciativa do Pitter foi colocar as duas mãos apoiando o tronco e dar a maior
catarrada da vida ele – normalmente isso seria nojento, mas se tratando de pó de arroz...
O catarro foi tão forte que não saiu só pó de arroz, mas o trigo inteiro. Pitter foi lançado
para o ar e ia cair de costas no chão, mas virou e caiu de barriga, para não quebrar o
baixo dele.

Pitter: Mas e então? Recuper- *pausa para espirro* Recuperaram a Vandira?


Narrador: Não, os taxistas são mais inteligentes do que pensávamos.
Pitter: Eles a esconderam?
Bigodudo: Não, a tática é melhor.
Pitter: O quê?
Bigodudo: Eles não têm nomes.

Ficamos um tempo só olhando o portão do abrigo, enquanto tentávamos bolar um


plano para invadir o local.

Pitter: Mas então, já que não conseguimos nada, a gente podia ir para uma moita, só eu
e o Bigodudo.
Bigodudo: Não começa, eu não faço caridade só porque você vai morrer com um arroz
entupido no seu nariz.
Pitter: Ah, poxa vida.

Pitter olhou para um lado e para o outro.

Pitter: Ei, seja qual for…

Ele espirrou, e depois tirou o gigante presunto de plástico do bolso.

Pitter: … a gente pode incluir isso no plano?

~ 41 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[17] Possível filler


Continuávamos olhando o abrigo esperando alguma idéia aparecer, foi quando eu vi a
Capivara-Messias andando ali perto, em direção à parte de trás da ilha. Montei no
Dumbo e fui até ela, Pitter pulou e agarrou no Buda enquanto ele alcançava. A Capivara
estava para submergir quando eu apareci.

Capivara: Ah, vejo que realmente foi pelo “Final Alternativo”.


Narrador: O que posso fazer? Um homem tem que ir atrás de sua ratazana.
Capivara: E você faz o que por aqui?
Narrador: Só conversando, voando com meu Dumbo com um cara que carrega seu
baixo de forma estranha pelo piercing do Buda, essas coisas. E você?
Capivara: Eu tô indo pro bazar.
Narrador: Que bazar?
Capivara: Ah, você não sabe? No esgoto do abrigo dos taxistas ladrões tem um bazar.
Narrador: Ah, por que eu não estou surpreso? De qualquer forma, obrigado pela
informação.
Capivara: “Obrigado” nada, eu to marcando tudo na conta.

A Capivara foi para baixo d’água. Olhei para Pitter que contaminava a água com pó de
arroz.

Pitter: Que foi? Você vai fazer compras em um bazar enquanto sua ratazana está
sumida?

Ignorei o comentário da vil criatura e voltei para falar com o Bigodudo.

Narrador: Descobri que no esgoto do abrigo eles fazem um bazar.


Bigodudo: E daí?
Narrador: E daí que provavelmente vou descobrir alguma coisa lá que me aproxime da
Vandira.
Bigodudo: E por que você acha isso?
Narrador: Porque se não fosse importante eu não teria que narrar isso.
Bigodudo: Mas pode ser só filler.
Narrador: Olha só, vamos tirar no arroz. O Dumbo não pode nadar, então ele vai tentar
invadir o abrigo pelo telhado, quem tirar o menor vai com ele.

Pegamos um pouco de arroz do trigo que o Pitter tinha cuspido e cada um grão da
minha mão. O meu e o do Bigodudo eram mais ou menos do mesmo tamanho, o do
Pitter era pequeno.

~ 42 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[19] O capítulo depois do 17


Eu e o Bigodudo pulamos na água e nadamos até perto onde a Capivara tinha entrado.
Mergulhei e achei um cano de PVC, Bigodudo veio logo atrás, e nadamos pelo cano até
achar uma saída. Estava dentro de uma privada, no banheiro do bazar. Nos secamos
com papel higiênico que tinha, e saímos do banheiro. O lugar onde estava acontecendo
o bazar tinha o aspecto de feira, e não só aspecto, como também tinha uma placa escrito
“Feirinha da Madrugada”.

Bigodudo: Meu deus, isso é um sonho!

Tinha várias barracas de diversas cores, e facilmente percebia que a fileira eram
sempre de quatro peças.

Narrador: Olha que mágico, isso é quase um tetris gigante.


Bigodudo: Olha, barraca de feira.

O ser de bigodes estava abismado com a feira e mal conseguia se mexer, então eu
comecei a olhar pelas barracas que formavam o quadrado, o L e o T. Conforme eu ia
olhando pelas barracas, cada uma com um produto mais bizarro que o outro, que ia
desde liquidificador para cegos até lápis de cera para daltônicos; notei que todos os
taxistas eram basicamente iguais, a única coisa que mudava era a quantidade e pelo
(pelo no sentido de ‘peludo’; triste ter que explicar agora que o acento sumiu) no peito.

Bigodudo ainda estava lá fantasiando com sua própria barraca de feira, e eu já estava
olhando nas tendas de forma de Z e a peça de comprido. Cheguei até o final e não achei
nenhuma pista da Vandira. Comecei a arrastar o Bigodudo para fora do Bazar quando
uma parte do teto cai perto de mim, e caiu o Dumbo e o Pitter logo em seguida. Não
demorou muito até que caísse a Vandira, mas eu pulei e peguei ela antes que sofresse
algum impacto. Pitter se levantou rapidamente, começou me arrastar, o Dumbo veio
logo em seguida e carregou nós quatro para fora, abrindo um buraco na parede para sair.

Com a Vandira nos braços, olhei para Pitter e fiz a pergunta que não conseguia segurar
para mim mesmo:

Narrador: Por que motivo seu baixo está posicionado de maneira certa?
Pitter: Ah, erro técnico.

Ele virou o baixo dele de cabeça para baixo.

Narrador: Tá, então me diz. O que é que aconteceu no capítulo 18?

~ 43 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[18] A narração de Pitter


Para começar, logo depois que vocês dois pularam na água, eu e o meu parceiro de
aventura Dumbo voamos pelo céu até chegarmos numa telha mofada do abrigo. Usamos
o Buda para quebrar a telha, e entramos. Era uma sala escura, cheia de teia, e escura. A
escuridão era tão escura que eu não via nada, e o meu parceiro de aventura, Dumbo,
também não, eu acho. Ou será que elefante vê na escuridão? Não sei, mas acho que tava
escuro pra ele também.

Só conseguimos sair de lá quando eu estrategicamente coloquei meu pé em falso em


uma falha no chão e caímos num depósito. Lá tinha uma placa escrita “Depósito de
animais perdidos ou roubados”, procurei a jaula da Vandira e “abri ela”.

Ela correu e ficou fora do nosso alcance de vista. Corremos atrás dela, mas o Dumbo
me parou quando ele viu numa jaula a mãe dele. Tentei o que pude para libertar a
pequena elefanta, eu puxava com muita força a porta, mas ela não abria, foi então que o
Dumbo “budeou” a jaula e a elefante estava livre.

Assim que ela estava liberta, veio o Sindicato dos Dumbos Homossexuais para tentar
prender o Dumbo, era dois Dumbos enormes usando um chapéu azul. A mamãe Dumbo
segurou os dois enquanto nós fugíamos. Eu vi a Vandira e pulei para pegá-la, e com
sorte segurei-a antes que ela fosse para a jaula do Hamtaro.

Com o Dumbo, fui para o terceiro andar – tem quatro -, e ficamos escondidos lá.
Como tinha muita poeira comecei a espirrar, e logo o lugar estava cheio de pó de arroz.
Usamos isso para despistar os Dumbos sindicalistas, que ficaram presos nesse andar. No
segundo andar nós encontramos o lugar cheio de flamingos, que assim que notaram a
ameixa no meu bolso, me atacaram, usurparam da minha virgindade e levaram a fruta
embora.

E eu só caí aqui quando fiquei dentro de um círculo vermelho e apertei um botão


escrito “vá para o capítulo 19″.

________________
* Essa história inteira foi contada com um espirro a cada 3 palavras, rendendo quase 4 quilos de pó de arroz.

~ 44 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[20] No, I’m not


Depois que o Pitter disse que tinha entregado a ameixa pras aves pervertidas ficou um
silêncio em cima do Dumbo. Até que:

Pitter: Se te consola saber, eu salvei o presunto gigante.

O Bigodudo ainda estava processando as informações: Existia uma feira-bazar


embaixo de um abrigo de taxistas, o Sindicato dos Dumbos Homossexuais de fato tinha
vindo atrás do Dumbo, e Pitter perdeu a ameixa para salvar um presunto de plástico.

Narrador: Tá bom, ainda deve dar para recuperar a ameixa, certo?


Pitter: Não, assim que eles pegaram a ameixa eles “comeram ela”
Narrador: “Comeram-na”.
Pitter: Não, eles comeram a ameixa mesmo.
Narrador: Tá bom, Pitter, tá bom.

Olhei para o Bigodudo, que estava na orelha do Dumbo.

Narrador: E então? O que você vai fazer?


Bigodudo: Bom, eu preciso pegar outra ameixa. E você vai me ajudar.
Narrador: Por que eu faria isso?
Bigodudo: Porque eu te ajudei com a Vandira.
Narrador: Deveria barganhar enquanto pudesse, agora que eu tenho a Vandira em
mãos não adianta nada.

Foi então que a Vandira se irritou com minha despreocupação com o ser de Bigodes e
me mordeu.

Vandira: Iiiiiiiiiic!
Narrador: Ah, então você acha que por um senso moral eu tenho que ajudar ele, já que
ele me ajudou?
Vandira: Iic!
Narrador: E que isso é o que os amigos fazem?
Vandira: Iic!

Enfiei a mão na cara da Vandira, que chegou até a subir as palavras “Critical” de tão
forte que foi.

Narrador: Vá te lascar com seu senso moral, minha preguiça supera.

A Vandira ficou desacordada, o Bigodudo ficou no canto dele sem falar nada e o Pitter
ficou lustrando o baixo dele e espirrando pó de arroz em cima. Eu realmente não tava
nem um pouco de ir falar com o gigante pé de ameixas fosforescentes, mas talvez fosse
preciso. Já que caso contrário a história acabaria aqui, e eu teria que voltar para a fila do
INSS.

Narrador: Tá bom, diz aí como que a gente chega nesse Pé de ameixas fosforescentes.
Bigodudo: Primeiro nós temos que achar um lugar para ficar, aí então nós podemos

~ 45 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

arquitetar nosso plano.


Narrador: “Arquitetar”?
Bigodudo: É. A viagem vai ser longa e precisaremos de dinheiro. Será muito difícil
andar, enfrentar dragões, cruzar mares e fazer tudo o que eu disse que fiz no capítulo 2.
Narrador: Pera… Você fez mesmo tudo aquilo?
Bigodudo: Fiz.
Narrador: Ah, pensava que era mentira. Isso quer dizer que vai ser infame, cansativa e
clichê?
Bigodudo: Exato. Tá disposto?

Foi nesse momento que surgiram dois quadrados enormes na minha frente, um com a
opção “Sim, vamos nessa parceiros de aventura” e o outro dizia “No, I’m not”, os
quadrados tinham bordado de madeira e uma luva que parecia a mão do Mickey, ou
seja, mais merchan gratuito da Disney. Escolhi “No, I’m not”.

Bigodudo: Ah, mas pode ser a aventura da sua vida.

E de novo apareceram dois quadrados: “Ah, tá bom, amiguinho” e “No, I’m not”. E
novamente eu escolhi “No, I’m not”.

Bigodudo: Ah, mas pode ser a aventura da sua vida.

Então apareciam as mesmas opções, e pelo visto parecia que por mais que eu
escolhesse “No, I’m not”, o Dumbo não ia chegar a lugar nenhum e o Bigodudo não
pararia de falar a mesma coisa. Daí decidi escolher “Ah, tá bom, amiguinho”. Assim
que eu falei isso o Bigodudo gritou “Yup” de um jeito muito entregador, de repente
surgiu uma cidade onde o Dumbo pousou rapidamente e tudo pareceu que começou a
funcionar perfeitamente.

~ 46 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[21] -(12º Andar)


Dumbo pousou em uma cidade que era feita de tijolos vermelhos com uma parte feita
de tijolos amarelos, as casas eram todas beges e de tijolos verdes, e havia abajures
gigantes que iluminavam as ruas naquela tarde de outubro (sim, já era outubro).
Continuamos o caminho a pé, até pararmos na frente de um Hotel. Entramos para fazer
o check-in, nosso plano era passar a noite matutando um plano e sairíamos pela manhã.

Narrador: Por favor, um quarto para cinco.


Atendente: Só um minuto.
Narrador: ... Sério, o que você está fazendo aqui, e como chegou tão rápido?
Atendente: Ah, depois que perdemos o garçom anão, tivemos que vender Detefon no
farol. Usei o último estoque para pegar um navio e vir para cá, mas ele bateu em uma
tartaruga gigante no meio do mar, então uma capivara me carregou para cá, a caminho
de um bazar no esgoto de um abrigo de taxistas ladrões.
Narrador: Ah, entendi. Mas e o quarto lá para cinco pessoas? Tem?
Atendente: Tem.
Narrador: Então eu vou querer alugar por uma noite.
Atendente: Mas ele está ocupado.
Narrador: Você não acabou de dizer que tem?
Atendente: Uhum.
Narrador: Então.
Atendente: Então que você perguntou se tinha, e não se estava livre.

Deixei que Pitter fosse conversar com ela.

Pitter: Um quarto pra cinco, agora.


Atendente: Só tem um com duas camas de casal.
Pitter: Qual a utilidade de um quarto com duas camas de casal?
Atendente: ... Er, organizar orgias eu acho.
Pitter: Sério?
Atendente: Ah, acho que é o que mais faz sentido.
Pitter: Então eu vou querer um quarto desses.

Pitter pegou a chave do quarto e pulou de alegria. Ele nos arrastou até o elevador, que
tinha um espelho em ambos os lados, um papel de parede de uma chave de fenda numa
tigela de cheia de leite escrito “Coma sucrilhos”, e a musiquinha era “Bonecão do
Posto” versão 8 bits.

O elevador subia a uma velocidade muito lenta, quando estávamos quase no segundo
andar ele para e começa a descer, e caiu uns 14 andares para baixo.

Bigodudo: Impressionante como esse hotel ainda tinha mais 12 andares para baixo.

Conseguimos abrir a porta do elevador usando o Buda. O “12º andar negativo”, assim
como ele era chamado, tinha cheiro de consultório de dentista, e fomos recebidos por
um javali com cara de peixe e com voz de girafa.

Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo.

~ 47 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[22] O cassino 12º Andar Negativo


Ficamos encarando o javali, esperando que ele falasse mais alguma coisa, o momento
ficou constrangedor, tanto para nós quanto para ele. Pitter olhava em volta do cassino
quando ele viu pendurada na parede de papel crepon, uma folha de recepção escrita em
diversas línguas.

‘Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo’

Este andar é o lar de uma antiga sociedade de Javalis-peixeados com voz de girafa
(acredite quando vos escrevo que girafa tem voz). Todo javali-peixeado nasce sabendo
falar ‘Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo’ em todas as línguas, e sempre
que avistam uma pessoa nova, aonde quer que estejam, vão dizer isso. Aproveitem a
estadia, aposta mínima dezenove e oitenta.

Bigodudo: Certo, então como vamos nos virar com um bando de caras de peixes que só
sabem falar uma droga de uma sentença?
Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo.

Ficamos naquele momento constrangedor, olhávamos para o javali e ele para nós. O
resto do cassino ficava atrás de uma cortina vermelha, mas parecia que tínhamos que
nos apresentar formalmente para entrarmos por aquela cortina. O detalhe é que fica um
pouco difícil se apresentar “formalmente” em voz de girafa para alguém que tem cara de
peixe.

Narrador: Vamos tentar ir pro nosso quarto que é mais lucro.


Bigodudo: Mas essa desgraça não vai subir com o Dumbo.
Pitter: A gente pode subir sem o Dumbo.
Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo.

Decidimos então que passaríamos a noite na entrada do cassino mesmo. Ficamos


dormindo na porta do cassino e acordamos na tarde seguinte, com uns cinco javalis-
peixeados limpando o lugar. Pitter foi o primeiro a ter uma ideia.

Pitter: Eu estive pensando...

Até os javalis pararam de limpar para fingir que ouviam o que ele teria a dizer.

Pitter: Se você enxugar um tomate… Ele vira um tomate-seco?

Depois dessa incrível pergunta, o javali-peixeado que estava na porta na noite anterior
apareceu gritando

Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo!!

Parecia que ‘Tomate-seco’ era algum tipo de senha, e o javali logo nos levou para
dentro do cassino. O lugar era todo enfeitado com emblemas de pesca nas paredes, mas
não deu para ver muito já que o cara de peixe logo nos conduziu até uma sala isolada,
toda branca com um sofá com bolinhas pretas. Lá uma voz veio falar com a gente.

~ 48 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Voz: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo.


Bigodudo: Tá, qual foi a utilidade?
Voz: Ao contrário dos outros javalis, eu consigo entender qualquer língua.

A voz era estranha, parecia um chiado de rádio misturado com o som de uma
cachoeira de groselha. Tentávamos achar onde os alto-falantes ficavam, mas era difícil
de enxergar alguma coisa em meio a todo aquele branco.

Voz: Eu fui informado pelo meu porteiro que vocês quebraram o elevador, e que vocês
sabem a nossa senha secreta.
Narrador: ‘Tomate-seco’
Voz: Isso! Vocês com certeza são espiões tentando conseguir informações do nosso
cassino. Mas vocês nunca conseguirão nada.

A voz começou a rir histericamente. Depois apareceram dois javalis-peixeados e nos


levaram para onde deveria ser uma prisão, então nos jogaram em uma cela sendo cada
um em uma cela diferente. Até na prisão a voz surgiu em algum alto-falante

Voz: Vocês não sairão daí enquanto não falarem o nome dos seus líderes.

Olhei para Bigodudo, que estava meio bravo por estar sem a ameixa e desconsolado
por ser preso por javalis com cara de peixe, Dumbo sozinho não conseguiria usar o
Buda, Pitter ficava o tempo todo lustrando o baixo dele e Vandira tinha feito amizade
com um porquinho-da-índia. Eu era o único que não tinha nada com o que ocupar
minha mente, então tirei um clips da orelha e tentei abrir minha cela.

~ 49 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[23] A voz por trás da Voz


Fiquei lá tentando abrir a cela um bom tempo até desistir, o baixo do Pitter já estava
tão brilhante quanto a parede branca da outra sala, Vandira tinha passado leptospirose
pro poquinho-da-índia, Dumbo dormiu o tempo todo e Bigodudo ficou triste no canto
dele. Foi então que a voz voltou a se comunicar.

Voz: Então, houve um engano, o porteiro disse que vocês sem querer quebraram o
elevador e acabaram parando aqui. Vou trazê-los até minha sala.

Não demorou muito até que dois javali-peixados aparecessem e nos tirassem de lá.
Levaram-nos até uma sala, que ficava atrás de uma porta oposta à que viemos. Lá tinha
uma enorme tábua de passar e detrás dela estava um Javali com cara de peixe, e com
enormes bigodes.

Bigodudo: Titio!

Bigodudo deixou a tristeza de lado e correu para abraçar o seu tio cara de peixe, e logo
pulou no colo dele, numa típica cena do elefante Babar.

Tio-Javali: Sobrinho! O que faz aqui?


Bigodudo: Só sendo preso por ter caído de um elevador e coisa e tal.
Tio-Javali: Ah, que triste, se soubesse que era você teria levado pra sala de tortura. Mas
que bom que você veio. Como que vai o seu sonho de ser feirante?
Bigodudo: Eu tinha conseguido a ameixa fosforescente que eu tanto queria, mas uns
flamingos no cio “comeram ela”.
Narrador: “Comeram-na”.
Bigodudo: Não, a ameixa mesmo.
Narrador: Tá, deixa quieto.
Bigodudo: Então, agora nós íamos bolar um plano para conseguir outra.
Tio-Javali: Então você já foi uma vez no grande pé de ameixas fosforescentes?
Bigodudo: Já.
Tio-Javali: E pretende ir de novo?
Bigodudo: Larga a mão de ser burro, tio, eu acabei de te dizer isso.
Tio-Javali: Não sou burro, sou javali. Mas enfim, como eu posso te ajudar?
Pitter: Se você nos oferecesse um helicóptero, um xarope para gripe de primavera e
spray anti-flamingos, agradeceríamos.
Tio-Javali: Que pena, umas joaninhas gigantes vieram rolando e levaram todo nosso
estoque disso. Mas eu te ofereço o porteiro como prêmio de consolação.
Bigodudo: Serve.

Tentei ignorar o fato do Bigodudo ter um tio Javali; estava mais preocupado em como
que eu ia levar um diálogo com alguém que só falava “Horay, bem vindos ao cassino
12º Andar Negativo”. De qualquer forma, fomos convidados a passar a noite na suíte
deles, enquanto eles consertavam o elevador para que Dumbo pudesse usá-lo sem
maiores preocupações. O detalhe mais importante de tudo isso, é que a suíte deles eram
as celas das prisões, mas conseguimos nos ajeitar lá.

~ 50 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Narrador: Como que vamos chegar até esse Pé de Ameixas Fosforescentes?


Pitter: Bem, eu fiquei pensando nisso enquanto estávamos conversando com o tio do
Bigodudo.
Narrador: E chegou a qual conclusão?
Pitter: Pensa. Em uma família de ovelhas negras, uma ovelha branca será a “ovelha
negra da família” ?
Javali: Horay!

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A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[24] Duas dúzias de capítulos já


Nota (pseudo) formal

Aviso-vos que neste capítulo o ser de bigodes não aparecerá (nem será mencionado de
forma direta), já que ele recusou-se devido à numerologia que ele segue a risca, e ele
acredita fielmente que um número rege a opção sexual dele.

Bom, estávamos nós quatro: eu, Pitter, Dumbo e Javali tentando decifrar qual seria o
plano para chegar até o Pé de Ameixas Fosforescentes, como não tínhamos nenhuma
experiência no assunto (e a única experiência está ausente nesse capítulo) fomos
procurar no Cassino um mapa para a tal ameixeira. Por coincidência um mendigo que
estava jogando na roleta já tinha tentado pegar uma ameixa dessas. Começamos a
conversar com ele, mas parecia que ele só falava quando dávamos-lhes uma moeda, e
eram exatamente 6 palavras por moeda.

Mendigo: “ Então garoto, eu atravessei oceanos e…


…escalei montanhas. Logo depois do abrigo…
…dos taxistas e das cavernas com…
…letreiros você vai ter que passar…
…por uma caverna, e por uma…
…cidade de super-mercados, aí vocês…
…podem atravessar um enorme oceano, que…
…é um viveiro de capivaras, ou…
…vocês podem cortar caminho pelos túneis…
…“Que ficam embaixo do viveiro de…
…capivaras” aí então vocês terão que…”

Foi então que nossas moedas acabaram. Ninguém se atreveu a falar nada, nem
perguntar, nem concordar, para ele não cobrar.

Narrador: Onde vamos achar um mapa para acharmos a tal cidade de supermercados?
Pitter: Deve ter no Hall do Hotel.

Pitter e eu subimos pelo elevador para ver se havia um panfleto ou coisa do tipo
enquanto o porteiro foi levar Dumbo até a saía de elefantes que tinha no cassino.
Achamos um panfleto lá, mas custava dezenove e oitenta.

Narrador: E agora? Já gastamos todas nossas moedas com o mendigo.

Foi então que Pitter tomou uma atitude genial: Ele pegou um panfleto e saiu correndo,
e eu fui logo atrás. Saímos do Hotel e corremos até uma padaria ali perto.

Pitter: Pronto, agora já temos o panfleto, é só esperar um tempo aqui dentro, depois
procurar Dumbo e o Javali-peixado, aí é só esperar o próximo capítulo para o ser
ausente aparecer.
Narrador: Ok, esperaremos.

~ 52 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[25] O capítulo em que Pitter estava


estranhamente inteligente
A padaria mostrava muitos tons de marrons, não tinha nem um chiclete em alguma
prateleira para dar um contraste nem nada, tudo era bem organizado e simetricamente
posicionado. As coisas ficavam divididas por corredores, tinha o corredor dos pãe
industriais, os pães cazeiros e o corredor dos brotos, que por mais infâme que fosse, era
um corredor com garotas com cabelos dos anos 60 com etiquetas do tipo “Promoção
Supimpa”.

Ficamos esperando na padaria até Dumbo aparecer, mas ele estava demorando demais.
Demora suficiente para que um vendedor aparecesse.

Vendedor: Olá, bem vindos à padaria Do outro lado da rua.

Eu e Pitter ficamos quietos, só para ter certeza de que ele sabia falar mais de uma
sentença.

Vendedor: Já digo que a nossa padaria atendende a qualquer pessoal que entrar,
independente de religião, cor e… opção sexual.
Narrador: Ah não, não somos um casal. Estamos aqui só olhando.
Vendedor: Tá bom.

O vendedor voltou para os fundos da loja. E não demorou muito apareceu uma
vendedora.

Vendedora: Olá, bem vindos à padaria Do outro lado da rua.

Ela ficou nos encarando.

Vendedora: E não se preocupem porque não temos nenhum preconceito contra religião
ou opção sexual.

Pitter passou o braço dele em volta do meu.

Pitter: Eu vou ali e já volto, amor.

Eu fiquei com uma cara de pamonha encarando a vendedora.

Narrador: Érm, to só olhando.


Vendedora: Quem é o idiota que entra em uma padaria só para olhar?
Narrador: Não sei, mas em uma padaria em que vem vendedores te empurrar pães não
se pode esperar muita coisal.

A vendedora levantou uma sombrancelha e ficou lá, parada. Eu fui procurar Pitter no
corredor de brotos.

Narrador: Eles estão demorando muito.


Pitter: Pois é, mas olha essa garota que “paça duca”

~ 53 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Narrador: …?
Pitter: “Paça duca”, “muito ótima”, entende?
Narrador: Não, não entendo gírias dos anos 60, e mesmo assim “muito ótima” é
burrice.
Pitter: Não não, é adjetivo.

Eu fiquei tão feliz de Pitter saber o que é um adjetivo que nem corrigi. Olhei pela
janela e Bigodudo, Dumbo e Javali já estavam na porta do Hotel. Arrastei Pitter até lá.

Narrador: Por que demoraram?


Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo
Narrador: Não foi para você a pergunta.
Bigodudo: É que só me acharam no começo desse capítulo.

Pitter teve uma crise de espirros.

Pitter: Eu não vou conseguir voar assim.


Bigodudo: E Dumbo provavelmente não vai conseguir levar Pitter na orelha e nós três
em cima.
Pitter: Ah não ser que ele pegue impulso.
Bigodudo: Como assim?
Pitter: Impulso: quando você corre para adquirir mais velocidade.
Bigodudo: Eu sei o que é, estou perguntando o que isso vai mudar.
Pitter: Se ele pega mais impulso, tá em mais velocidade, a noção do peso nas orelhas
dele diminui.

Pitter ficou nos olhando, então amarrou sua perna no Buda.

Pitter: É só vocês montarem no Dumbo.

Subimos no Dumbo, ele começou a correr e a arrastar Pitter no chão. Não demorou
muito até que as orelhas dele começaram a subir por causa do ar que batia nelas, e então
levantamos vôo.

Bigodudo: Já sabem a direção?


Narrador: Seguindo reto vai ter uma cidade de supermercados, é pra lá que vamos.

~ 54 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[26] O vôo até a cidade de Super-Mercados


Estávamos voando relativamente rápido, porque Dumbo tinha pego uma corrente de
vento que passa por cima do hotel e leva em direção à cidade de supermercados quando
está no começo de outubro. Foi só então que eu notei.

Narrador: Ei, cadê a Vandira?


Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo

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A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[27] A cidade de Super-Mercados


Quando a gente ouve falar em um lugar chamado de “Cidade de Super-Mercados”,
você pensa que vai ser um lugar cheio de supermercados, entretanto, quando Dumbo
pouso no terreno baldio que tinha apenas uma placa “Cidade Super-Mercados” eu
realmente fiquei reavaliando os conceitos da minha vida.

O lugar estava completamente deserto, fora a placa, a única coisa que tinha lá era o pó
de arroz que Pitter ainda estava espirrando.

Bigodudo: Não me lembro de ter passado por aqui para chegar ao Pé de Ameixas
Fosforescentes.
Narrador: Se você estivesse conosco quando bolamos a trajetória até chegar ao lugar
quem sabe seria mais útil.

Não deu tempo da discussão terminar, logo veio uma construção, que havia sido
arremessada, em nossa direção. A construção era toda cinza e usava uma capa vermelha.
Ela acertou Dumbo, desmaiando e deixando ele preso debaixo da estrutura, apenas com
seu chapéu verde de fora, parecia o “Dumbo Mal do Leste”. A construção logo se
levantou e pudemos observar que ela tinha um enorme banner escrito “Mercado da Rua
de Baixo”. Não demorou muito e veio uma outra enorme construção com uma capa roxa
atacando o Mercado da Rua de Baixo, essa era a “Quitanda da Quitéria”. O Mercado da
Rua de Baixo segurou o golpe da Quitanda e a arremessou para longe, antes que ele
fosse atacá-la Pitter decidiu conversar.

Pitter: Ô grandalhão, você tá em cima do nosso Dumbo aqui.

O mercado levantou e ajudou Dumbo a se levantar com um de seus carrinhos.

Mercado da Rua de Baixo: Ah, desculpa, é que estava em uma luta intensa, e
geralmente não recebemos visitantes.
Pitter: Ah tá. Já que você tá aí, pode me dizer se aqui tem uma farmácia.
Mercado da Rua de Baixo: Desculpa mas isso é uma cidade de Super-Mercados, e não
o shopping center inteiro.
Pitter:Ah tá, é que como tem mercados com super poderes, voando e acertando
elefantes eu achei que poderia ter uma farmácia caçando mamutes por perto, mas deve
ter sido só minha imaginação.
Mercado da Rua de Baixo: Ah, sem problemas. Qualquer coisa só chamar.

Então o mercado voou na direção que a quitanda estava. Continuamos andando pelo
terreno baldio para ver se achávamos alguma coisa, não demorou muito até Javali achar
uma Loja de 1,98.

Loja de 1,98: O que forasteiros fazem por aqui?


Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo

A loja parecia ser velha e rabugenta, as paredes dela estavam todas descascando.

~ 56 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Bigodudo: Nós só queríamos saber para que direção o Pé de Ameixas Fosforescentes.


Loja de 19,8: Não sei de ameixa alguma.
Pitter: E de uma farmácia?
Loja de 1,98: Eu tenho cara de poço de informação?
Pitter: Tá, mas eu to com gripe de primavera e precisava me cuidar.
Loja de 1,98: Problema é seu, meu filho.
Narrador: E onde a gente pode conseguir essas informações?
Loja de 1,98: Com a Cida.
Narrador: Que Cida?
Loja de 1,98: Aquela que te comeu com a barriga.

Daí a velha loja começou a rir sozinha. Deu um tempo e depois voltou a falar.

Loja de 1,98: Eu to falando da “Cida de Super-Mercados”


Narrador: Tá, acho que a sua piada foi melhor do que a infâmidade do nome dela.
Loja de 1,98: Agora vai pagando.
Narrador: Pelo quê?
Loja de 1,98: Cada sentença minha custa 1,98.
Narrador: E…?
Loja de 1,98: E até agora deu dezenove e oitenta, pague.

Foi só ele falar e já saímos correndo no carrinho de supermercado do Dumbo.

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A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[28] A Cida de Super-Mercados


Fugimos da Loja de 1,98 e chegamos à divisa da cidade. Era a entrada de uma floresta
com uma casinha de guarda florestal, com a placa “Casa da Cida”, decidimos bater para
perguntar por direções.

Batemos na porta e logo veio uma mulher atender, ela tinha cabelos louros e presos,
um aspecto jovem e óculos que eram maiores que seus seios (não que seus óculos
fossem grandes).

Mulher: Pois não?


Pitter: Oi, você é a Cida?
Mulher: Sim, sou eu.

Ela tirou os óculos para limpar e pudemos ver que ela tinha uma tatuagem na testa
“Oi, meu nome é Cida”.

Cida: O que fazem aqui?


Pitter: Ah, estamos conversando com você.
Cida: E por que me procuraram?
Pitter: Para conversar com você.
Cida: Sobre o quê?
Pitter: Olha, agora estamos conversando sobre o que estamos conversando.
Cida: E a intenção era…?
Pitter: Pedir informações.
Cida: Então peça.

Antes de Pitter abrir a boca eu puxei ele e decidi falar para agilizar o diálogo.

Narrador: Assim, nós precisamos achar uma ameixa fosforescente com formato de um
vibrador, qual o caminho do Gigante Pé que tem essas frutas?
Cida: E eu tenho cara de bússola?
Pitter: Não, pela sua testa eu diria que você tem cara de Cida.

O bigodudo deu um passo á frente.

Bigodudo: Olha querida, eu realmente gostaria de me divertir com a sua tatuagem e


falar sobre o que estamos falando, mas estou aqui a trabalho e minha missão é conseguir
uma ameixa fosforescente num formato de vibrador.
Cida: Eu não sei onde você pode achá-la, mas eu sei aonde você pode achar alguém que
saiba.
Bigodudo: Aonde?
Cida: Procurem o Mercado da Rua de baixo.
Bigodudo: Tá bom.
Cida: Mais alguma coisa?
Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo

Subimos no carrinho do Dumbo e saímos à caça do mercado. Quando ouvimos o som


de uma quitanda sendo arremessada esperamos. Logo depois Quitanda da Quitéria caiu

~ 58 ~
ESTE LADO PARA CIMA

uns quilômetros à nossa frente, abrindo uma cratera no chão. Mercado veio logo em
seguida, mas antes que ele pudesse atacá-la Pitter foi falar com ele.

Pitter: Olá amigo.


Mercado: Olha, eu já disse que eu não vi nenhuma farmácia.
Pitter:Não, dessa vez eu to interessado em saber de um Pé de Ameixa Fosforescentes.
Mercado: Ah, tá. Não é bem comigo que você tem que falar, garoto, mas eu sei quem
é?

Mercado com a sua pose de herói levantou Quitanda pelo estoque e colocou-a em
frente ao Pitter.

Pitter: Onde que fica o Pé de Ameixas Fosforescentes?

Sinceramente, dava pra perceber que cansava falar “ameixas fosforescentes”.

Quitanda: Vocês, no caminho, passaram por uma caverna, não sei se perceberam. Lá
mora uma loja de som ermitã, ela deve saber mais.

Antes que pudéssemos perguntar mais alguma coisa, Pitter espirrou e Mercado logo
arremessou Quitanda para longe.

Mercado: Agora eu vou lá combater as ofertas explosivas dela, boa viagem, pequenos.
Narrador: Pelo menos “pequenos” é melhor do que “parceiros de altas aventuras”.

O Super-Mercado saiu voando, e logo montamos no carrinho do Dumbo e fomos na


direção que tínhamos vindo voando.

Narrador: Ei Bigodudo, a Vandira ficou no casino do seu tio.


Javali:Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo
Narrador: Isso, aí mesmo.
Bigodudo: Depois a gente passa lá.
Narrador: É que eu to com saudade de quando ela cantava Roberto Carlos para eu
dormir.

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A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[29] O tênis de luzinha do Pitter


Depois de muito trilhar com o carrinho do Dumbo, chegamos na entrada da caverna. O
lugar era deserto do mesmo jeito que a cidade, não tinha nem muitas pedras em volta,
nem grama, só a entrada da caverna mesmo, que parecia mais um buraco que levava
para uma gruta perdida.

Bigodudo: O líder vai primeiro.


Pitter: Por quê?
Bigodudo: Porque você já batizou-nos de “parceiros de altas aventuras”, então mostre a
sua liderança.
Pitter: … Certo. Como líder, eu ordeno que você vá primeiro.

Antes que Bigodudo fizesse cara de enxofre e reclamasse, Dumbo deu uma investida e
fez ele cair no buraco. O grito dele não foi um tipo “Ahhhhhhhhhhhh”, foi algo como
“Aêêêííííoiasafada”. Pela curiosidade pulei atrás, e ao invés de cair direto no chão, caí
em um escorregador em espiral, de cores vermelho e branco, parecendo um pirulito. Fui
escorregando muito rápido e só consegui ler a placa “Sorria” e logo depois uma câmera
tirou uma foto. O escorregador não acabava, mas fazia uma curva impossível do seu
corpo acompanhar com o atrito, e tinha as laterais baixas, então estourei meu pâncreas
lá. Cai girando e aterrisei usando minha cara em uma pedra muito, como diria o Pitter,
“doível” (do verbo ‘doer’).

Consegui me levantar e logo atrás veio Pitter, só consegui ver o momento em que o
escorregador fazia a curva, então vi o Pitter sendo lançado no ar, rapidamente fazendo
uma cambalhota, a pose do flamingo e um duplo twist carpado, pena que na hora de cair
ele levou o pé a frente, então subiu uma plaquinha de 8,8 do lado dele.

Pitter: Que batuta. De novo, de novo.

Nós três continuávamos olhando para o escorregador esperando Dumbo e Javali, mas
como eles não vieram, decidimos ir atrás da Loja de Som ermitã. Só havia uma saída
para aquela pedra de aterrisagem, e era por uma barraca de souvenirs. Entramos, e lá
tinha monitores com nossas fotos, cada uma custava seis e sessenta. Pitter decidiu
comprar a dele, Bigodudo também, já que tinha tirado a foto justo no ‘a’ do meio do
grito ’safada’. Por motivos matematicamente óbvios não comprei a minha, ao invés,
comprei um chapéu de foca, porque focas fazem aqueles sons bizarros e são mais
compreensíveis do que javalis com cara de peixe. Pitter também comprou um tênis de
luzinha. Não havia nenhum atendente para nos cobrar, então saímos da loja sem pagar e
continuamos vagando pela caverna.

O lugar era completamente escuro e a única coisa que dava para ver eram as luzes do
tênis do Pitter.

Pitter: Ei, você acha que vai demorar a chegar?


Bigodudo: Vai demorar o tempo que for demorar.

Foi então que fez-se um buraco no teto, uma luz enorme iluminou a caverna toda e um
cara, com uma roupa de parquedista com um enorme símbolo de ‘O’ no peito, entrou

~ 60 ~
ESTE LADO PARA CIMA

pelo buraco amarrado por uma corda, apontou os dedos no estilo Elvis de ser, deu um
sorriso ladino e gritou “AHÁ”, e logo depois foi puxado pela corda, desaparecendo.

Bigodudo: O que foi aquilo?


Pitter: O Capitão Óbvio… Pensei que ele estava morto.

Como eu já estava mudo desde o começo do capítulo preferi nem comentar, e


continuamos andando.

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A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[30] O fim da caverna


E quando a caverna parecia não ter mais fim, encontramos no fim dela uma antiga loja
de Som, toda empoeirada e com as paredes rachadas.

Narrador: Com licença…

A loja começou a se debater e murmurar coisas sem sentido.

Pitter: Será que de tanto tempo sem a civilização, ela pensa que é um basset hound?
Bigodudo: É mais provável que ela simplesmente tenha esquecido como falar com as
pessoas.
Pitter: Verdade, se ela fosse um basset hound estaria numa casa do subúrbio com
aqueles casais que ouvem “Cruisin’ Together“.

Nenhum de nós três ousou se aproximar. A loja começou a se debatar mais e caiu no
chão.

Pitter: Será que eu posso “invadir ela” e roubar um baixo novo ou isso seria estupro?

Antes de alguém falar alguma coisa ela começou a ter um ataque epilético.

Narrador: Tá bom, se a Cida que é a manjadora da cidade nos manda aqui deve ter
algum motivo…

Essa foi minha última fala até que a loja se debateu e me acertou com a sua vitrine da
frente, me jogando para a escuridão da caverna.

~ 62 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[33] Mais um daqueles momentos em que se pula um


ou dois capítulos que só serão narrados depois. Sendo
este narrado pelo Pitter.
É tão triste, quando você não é narrador você tem que contar a história tudo em
terceira pessoa, e não pode nem usar travessão nem hífen, e nem é abençoado pelo
milagre da correção automática. Mas nesse capítulo juro que vou me esforçar para fazer
uma boa narração para vocês, meus parceiros de altas aventuras.

De qualquer forma, eu e o Bigodudo desistimos de estuprar a loja de música pra


roubar um baixo novo pra mim e fomos atrás do Narrador. A caverna era densamente
escura, sombria e escuramente densa. A escuridão era escura, andávamos sem ver nada,
ou melhor, sem ver algo.

O Bigodudo ia tateando pelas paredes para tentar achar um caminho, e eu ia tateando


ele. Até que chegamos num lugar um pouco mais iluminado. “Tá ouvindo alguma
coisa?” perguntou o Bigodudo, eu não ‘ouvava’ nada, só o som da escuridão, que
parecia mais com uma música dos Bee Gees, e antes que eu pudesse soltar um suspiro
de ‘Ah meu deus, que viagem chata, vou comer sorvete de paçoca’ ouvimos passos
vindo em nossa direção.

Acho que se algum dia você estiver andando na rua e me vir carregando um presunto
gigante no ombro esquerdo, um baixo nas costas, um tênis de luzinha e com um tapa
olho, gritando “GYAR, quero seu bacon”, seria algo muito normal. Mas a cena do
Narrador, vindo da escuridão escura, carregando um filhote de pata que tinha a cara
daquelas placas de saída de emergência era algo bizarro, acima da minha imaginação.

~ 63 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[34] Um capítulo sem narrador (não o personagem,


no sentido de narração)
Pitter: O que aconteceu?
Narrador: …..
Pitter: Que coisa é isso na sua mão?
Narrador: …..
Bigodudo: Pitter, você não consegue ver que a criatura não pode falar?
Pitter: Ver eu consigo, só não consigo ouvir.
Bigodudo: Vamos sair logo daqui.
Pitter: Como?
Bigodudo: Ele tem uma pata com cara de saída de emergência… Ela deve saber alguma
coisa. Põe ela no chão e provavelmente ela vai pra saída.
Pitter: Interessante.

….

Pitter: Ei, se for boboca fica quieto.


Narrador: …
Pitter: Hihi… Agora não tem ninguém para censurar minhas piadinhas. Aliás, agora
“tem ninguém”, duas negativas anulam.
Bigodudo: Como é isso? O Narrador perde a voz e o Pitter a burrice? Essa história tá
ficando sem sentido.

~ 64 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[35] A fuga da caverna, narrada pelo Bigodudo


Olha querido, eu realmente gostaria de continuar sendo um personagem secundário
miserável, mas estou aqui a trabalho e minha missão é substituir o Narrador neste
capítulo.

Como não sabíamos o que fazer com o Narrador, decidimos procurar a saída. A pata
com cara de saída foi andar, e andamos atrás dela.

Andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,


andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos e andamos.

Aí então, chegamos à saída.

~ 65 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[32] O que aconteceu enquanto os parceiros de


aventura estavam na caverna, narração pelo Javali
Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo

~ 66 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[36] A idéia genial do grandioso Líder Pitter Pan


“Já aviso que definimos que iremos ficar alternando a ordem dos narradores da
história enquanto nosso parceiro de aventura, Narrador, está imcapassibilitado. Então,
não precisaremos narrar bonitinho, e podemos escrever do jeito que quisermos e
soubermos.”

Comunicado Oficial do Grandioso Líder dos Parceiros de Altas Aventuras, Pitter Pan

A sim que saímos da escura escuridão da caverna escuridão, a cabeça da pata de


cabeça de saída que tava acesa, apagou. Procuramos por pelo Dumbo e o Javali, mas só
tinha lá o carrinho deles que ali estava no chão jogado.

Eu olhei para o Bigodudo e falei em forma de pergunta “Para onde eles foram?”. Ele
olhou para mim, a luz clara do sol refletia-se no meu baixo e me deixava com uma pose
de herói. Foi aí que ele olhou para mim com seus olhos e disse em forma de resposta
“Não sei, grandioso líder. O que devemos fazer?”. Eu não fazia ideia, mas sabia que não
podia deixar o meu parceiro de altas aventuras desamparado, então coloquei ele para
andar (para ele ficar desamandando).

Como não sabíamos que direção tomar, decidi, como líder impecável que sou eu, que
iríamos voltar para a Cidade de Super-Mercados falar com a Cida de Super Mercados.

~ 67 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[37] A longa trajetória da caverna até a Cidade


de Super-Mercados
“Já aviso que odeio narrar isso, meu sonho era ser feirante e não ocupante de fila de
INSS.”

Pitter entrou em pânico assim que soube que o Dumbo e o Javali tinha sumido, ele se
abraçou ao Presunto Gigante e ao baixo dele, e eu disse que podiamos ir falar com a
Cida, para ver se ela saberia recuperar o Narrador.

Andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,


andamos, andamos, andamos, tropecei, levante, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos,
andamos, andamos, andamos e andamos.

Aí chegamos na casa da Cida.

~ 68 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[38] Parados, em frente à porta da casa da Cida


Bigodudo: Genial a sua ideia de não narrar, Pitter. Poupa muito esforço.
Pitter: Obrigado, parceiro de aventura. Fico feliz que tenha reconhecido meu ato.
Bigodudo: Agora… Por que você não teve essa ideia DEPOIS que a gente já tivesse
batido na porta da mulher e ela já estivesse entre nós para continuar o diálogo?
Narrador: …
Pitter: Eu já pensei demais para ter essa ideia, queria mais o quê?

~ 69 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[39] A iniciativa do grandioso líder Pitter Pan


Depois de uma polêmica discussão com meu parceiro de altas aventuras, heróicamente
subi os três tenebrosos degraus/degrais da escada da mulher, bati na porta e voltei para o
posto ao lado do meu parceiro.

~ 70 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[40] O diálogo
Pitter: Alovose.
Narrador: …
Cida: Vieram pedir dinheiro?
Pitter: Não.
Cida: Vender biscoitos?
Pitter: Por quê? Eu tenho cara de escoteiro?
Cida: Na verdade tem cara de via-
Bigodudo: Pera… Você não lembra da gente?
Cida: Não.
Bigodudo: Você por acaso tem Alzheimer?
Cida: Não, sou solteira mesmo. Interessado?
Bigodudo: Depende… Você tem uma ameixa fosforecente com formato de vibrador.
Cida: Ah, você gosta de joguinhos com frutas, é isso?
Bigodudo: … É, isso mesmo. Mas não foi pra isso que eu vim. A criatura narradora
aqui perdeu a voz.
Cida: Ah, eu conheço um xamã em algum lugar que pode recuperar isso.
Bigodudo: E você sabe, lembra onde ele mora?
Cida: Se eu não me engano… é no porão da minha casa.
Bigodudo: Podemos ir até lá?
Cida: Claro, mas peguem uns crachás de visitantes para caso eu esquecer quem são,
saber que os convidei para minha casa.
Pitter: Uhum… E… Bigodudo, você narra.

~ 71 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[41] Narrar cansa


Entramos, pegamos os crachás e descemos as escadas para encontrar o Xamã. Fim do
capítulo.

~ 72 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[42] A conversa com o Xamã


Pitter: Hey, criatura verde lima com cara de desodorante.
Xamã: …
Pitter: Eu e meus parceiros de aventura viemos aqui com um humilde pedido.
Xamã: …
Pitter: … Ah, já entendi sua tática… Se aceitar cartão de crédito eu pago.
Xamã: O que vos aflinge?
Pitter: … “que que” é aflingir?
Xamã: “Qual o serviço”.
Pitter: Ah, a criatura aqui não fala.
Xamã: Hm, pela cara dele e pela pata que ele segura na mão, ele sofreu uma síndrome
pós-parto de “tyla sukelia filhotepata“.
Pitter: ‘Cê tá me xingando?
Xamã: Uma síndrome de “mudez causada for filhote pata”.
Pitter: Ah. Não que eu queira saber como ele pegou isso, mas dá pra reverter?
Xamã: Não, essa síndrome é irreversível… Ele só poderá falar nos feriados.
Bigodudo: Pera lá, quer dizer que eu e Pitter vamos ter que ficar revesando na narração
de capítulos?
Xamã: Hm… Na verdade eu posso voltar essa habilidade de narração pra ele… Mas ele
ainda não vai poder falar.
Bigodudo: Melhor assim, faço-o, por favor.

~ 73 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[43] Pitter e Bigodudo rumo à volação


Como é bom poder narrar de volta, acho incrível o que aqueles dois fizeram enquanto
eu estava imcapacitado, mesmo assim, é estranho ser mudo, não tenho palavras para
explicar essa sensação.

De qualquer forma, quando retornou meu dom/maldição de narrador, eu estava em


frente ao Xamã, naquele porão imundo, com paredes rachadas, teto desbotado e chão
gosmento, a única coisa limpa da sala eram os crachás que haviamos recebido e o baixo
do Pitter.

Bigodudo: Então agora não tenho mais que me preocupar com narrar capítulos?

Sério, o capítulo já tinha começado e eu já tava narrando a fala dele, será que a
pergunta era realmente necessária?

Xamã: Você só tem que se preocupar em pagar.


Pitter: Antes, me diz. O “que que” cê tava falando sobre ele poder falar nos feriados?
Xamã: Ah, é que assim, a tyla sukelia filhotepata causa mudez irreversível, exceto nos
feriados… Quando amanhecer um feriado ele poderá falar livremente.

Era realmente estranho, não o que ele tava me dizendo e sim o fato da cara dele ter
formato de desodorante, parecia que caso eu apertasse a cara dele ele ia cuspir ‘Bom
Ar’, ou coisa que o valha.

Xamã: Parem de me enrolar e paguem.


Pitter: Acertaremos com a moça lá de cima.
Xamã: Ok então.

Eu estava entendendo nada, parecia que quando fiquei mudo e perdi minha habilidade
de narrar eu meio que fiquei num estado bêbado, exceto que não tinha aproveitado a
bebida e mesmo assim parecia estar de ressaca.

Subimos as escadas, eu carregava a pata com cara de saída de emergência em mãos e a


acariciava como se fosse Vandira – de quem, por sinal, ainda sinto falta – eu até
contaria a história dessa pata, mas deixa para depois. Assim que encontramos Cida, ela
fez uma cara do tipo ‘você são escoteiros?’ então depois olhou nossos crachás, ficou um
pouco quieta e perguntou:

Cida: O que vieram fazer aqui mesmo?


Pitter: Usar o banheiro.
Cida: Os três?
Pitter: Uhum.
Cida: Juntos?
Pitter: Uhum.
Cida: Eu avisei que cobro né?
Pitter: Avisou, mas como falamos que iriamos usar os três juntos, você achou melhor
não cobrar para não parecer preconceituosa com nossa sexualidade.
Cida: Ah… Esqueci a quão generosa eu sou.

~ 74 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Bigodudo: Você não tem nem ideia.


Pitter: Já estamos saindo de qualquer forma.

Era impressionante o quanto a minha mudez afetava as ideias do Pitter. Saímos da


casa da mulher e sentamos na soleira.

Bigodudo: E então, o que faremos?


Pitter: Não sei. Alguma ideia?
Narrador: …
Pitter: Não você, sua besta… To perguntando pra sua pata.
Bigodudo: Pata… A gente precisa achar um nome pra isso.
Pitter: Que você acha de chamá-la de Escape Rope?
Bigodudo: Eu acho que alguém tá muito viciado. “Saída de Emergência” é o suficiente.

Eu queria mesmo chamá-la de Quitéria, mas como uma pessoa muda não tem muita
opinião quando se trata de ‘falar o que pensa’, ficou Saída de Emergência.

Pitter: Para onde vamos agora?


Bigodudo: Não sei, eu não tava presente quando falaram a trajetória.
Pitter: Hm.

Ah, ótimo, as únicas pessoas presentes quando conversamos com o mendigo éramos
Pitter, eu e Javali se não me engano. Se bem que, mesmo que o Javali não tivesse
fugindo com o Dumbo ele não seria de muita ajuda.

Bigodudo: Mas então, qual o plano?


Pitter: Eu voto em esperar o próximo feriado pra gente bolar um plano.
Bigodudo: Parece uma boa.
Pitter: Carnaval é feriado?
Bigodudo: Não, acho que você tem que gostar pra ser considerado feriado.
Pitter: Será que o Narrador é do tipo que gosta de carnaval?
Bigodudo: Sei lá, tenta imaginar ele só com uns tapa-bico-de-peito e uma tanguinha
dançando algum funk para menores de 18.
Pitter: … É, acho que consigo imaginar… Mas na minha imaginação parece um filme
da Xuxa.
Bigodudo: Bom, o dia do feirante é em agosto…
Pitter: E agora? Será que eu e você vamos ter que volar um plano, sozinhos?
Bigodudo: Depende.
Pitter: O quê?
Bigodudo: O que é ‘volar’?
Pitter: ‘Bolar’ escrito errado.
Bigodudo: Ah…

Já estava começando a sentir falta da época em que eu facilmente conseguiria censurar


uma conversa dessas.

~ 75 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[44] A soleira
Pitter: …Caramba. Estou sem ideias.
Bigodudo: Eu também… Ei Pitter, que dia é hoje?
Pitter: Algum dia entre o começo de Janeiro e a Páscoa, por quê?
Bigodudo: Pra arranjar assunto.
Pitter: Hm. Tem quanto tempo que a gente tá sentado nessa soleira?
Bigodudo: Desde o capítulo anterior.
Pitter: Ah.

Eu estava encostado no corrimão da soleira, tendo de ouvir aquela conversa. Antes que
Pitter perguntasse se ia chover, a escada começou a balançar.

Pitter: Ó meu Deus, os Maias estavam certos: as soleiras são assombradas!

Antes que conseguisse achar o sentido da frase, os degraus da soleira começaram a


flutuar.

Degraus: Nós somos os tenebrosos “degrais” da soleira.

Sério, por que é que nessas horas a única pessoa que poderia corrigir está muda e
segurando uma pata na mão?

Pitter: Ó não, que “tenebrosidão”. De onde vocês surgiram?


Degraus: Do capítulo 39, quando você disse que ia subir os “tenebrosos
degraus/degrais”. Isso nos despertou.
Pitter: Sério?

Pitter tirou sua meia, fixou seu olhar no dedão do pé direito e repetiu:

Pitter: Dedão valente, dedão valente, dedão valente!

Ele continuou olhando para o dedão, quando deu um pulo de alegria.

Pitter: Ahahaha, eu tenho um dedão do pé valente, ajoelhem-se perante a mim, pobres


mortais.

Ele se virou para os degraus, encarou-os, e apontou seu dedão do pé para eles.

Degraus: … Tá certo! Eu vim extorquir um favor.


Pitter: Em troca do quê?

Pitter fez uma cara de mau e balançou o dedão do pé.

Degraus: Sou eu que estarei fazendo as perguntas e ameaças aqui, jovem.

Eu não sei como é a cara de um degrau bravo, mas eu posso dizer que aqueles lá
estavam encarando o Pitter no melhor estilo Sidney Magal.

~ 76 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Degraus: Essa cidade que vocês estão aqui agora um dia já foi governada por nós.
Bigodudo: Vocês três?
Degraus: Não, mas pelos “degrais” em geral?

Será que ele tem certeza que foram os “degrais” que governaram?

Degraus: A Cida não se chama “Cida de Super Mercados”. O nome de nascença dela é
“Cida de Soleiras”.
Pitter: Então quer dizer que antes essa cidade se chamava…
Degraus: Exatamente, essa já foi a “Cidade dos Degrais Tenebrosos e Flutuadores”.

Tá… ‘Degrais’ deve ser nome próprio, não é possível.

~ 77 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[45] A história dos Super-Mercados


Degraus: Antigamente essa cidade era habitada por diversos ‘degrais’, tínhamos
enormes soleiras para morar e a vida seguia como devia ser. Até que um dia um degrau
subiu em cima do outro, que subiu em cima do outro e eles formaram uma escada, e
vários outros ‘degrais’ copiaram a ideia.

Pitter olhou para o dedão do pé.

Pitter: Valente… Se você se juntar com outros dedões de pé você vira um megazord de
dedões também?
Degraus: … De qualquer forma, logo nós éramos habitados por escadas, e isso chamou
a atenção de várias Quitandas que moravam nas florestas, e juntando a quitanda com
algumas escadas elas viravam mercados. A população de ‘degrais’ simples se tornou
escassa, éramos a minoria que vivíamos em um canto isolado da cidade, até que uma
escada que estava prestes a fazer um pacto com uma quitanda tropeçou e rolou colina
abaixo. Essa virou a primeira escada rolante no mundo, e quando se juntou com a
quitanda, ela tinha mais possibilidades, virando um “super-mercado”. Logo, todos os
mercados estavam se convertendo, alguns continuaram simples, mas a maioria adaptou-
se aos poderes mágicos da escada rolante. E assim, começaram a voar e se espalhar pelo
mundo. A cidade então ficou deserta, ainda resta alguns super-mercados perdidos, uma
loja ou outra, e as quitandas que aparecem por aqui são caçadas. A Cida abrigou a nós
três em sua soleira, e ficamos adormecidos desde então.
Pitter: Uau! Essa história de mercado é tipo a teoria de Darwin, né?

Queria poder falar, porque me surgiu a dúvida de que, se tudo aconteceu por meio de
evolução, daonde surgiram os sex-shops?

~ 78 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[46] Plano volado


Degraus: De qualquer forma, chega de momentos emotivos por hoje.

Francamente, eu estava emocionado.

Degraus: … nós despertamos com um propósito.


Bigodudo: Ajudar-nos a achar uma ameixa fosforescente, pra eu entregar pro mudinho,
pegar o Pitter e ir embora?
Degraus: Quase isso, vocês terão a honra de nos ajudar a derrotar os Super-Mercados.
Bigodudo: E aonde entra o ‘quase isso’?
Degraus: Te dou um donut se você fizer isso para nós.
Bigodudo: Com um donut não dá pra comprar nem… Nem um passe de ônibus.
Degraus: Mas é lógico que não, agora é tudo eletrônico, não se tem mais passe de
ônibus.
Pitter: Mas se você entra com um baixo de ponta cabeça o motorista pensa que você é
um mendigo e te deixa subir pela porta de trás.

Pitter ficou olhando para os dois com a cara mais feliz do mundo, segurando seu pé
para exibir o dedão “valente”.

Degraus: É pegar ou largar.


Pitter: Meu dedão?
Degraus: Não, a oferta.

Pera lá, ele estava no “pegar ou largar” o quê? Ele nem ofereceu recompensa… Será
que as pessoas ficam invisíveis quando ficam mudas, porque eu tava balançando a Saída
de Emergência na frente de todo mundo e eles estavam simplesmente me ignorando.

Bigodudo: Certo. E como que se derrota um Super-Mercado?

Meu deus, como que a criatura conseguiu aceitar a proposta? Depois dessa eu sentei
na soleira e deixei-os conversarem.

Degraus: Têm várias maneiras, a mais fácil é mandar uma inspeção sanitária.

Bigodudo puxou Pitter de canto e veio cochichar.

Bigodudo: A gente pode derrotar o Super-Mercado, depois cobramos um favor dos


“degrais”.

E você já parou pra pensar que eles podem simplesmente dizer um ‘valeu, amiguinho’
e irem embora?

Pitter: E você já parou pra pensar que eles podem simplesmente dizer um ‘valeu,
amiguinho’ e irem embora?

Ótima hora para o Pitter decidir ler a minha narração.

~ 79 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Bigodudo: Mas eu tenho algo par aameaçar os “degrais”.


Pitter: Meu presunto?
Bigodudo: Não.
Pitter: Então não sei o quê?
Bigodudo: Copos plásticos.
Pitter: Que irado.
Bigodudo: Dizem que os “degrais” têm aflição a copos plásticos, porque sempre que
alguém usa um degrau de apoio para deixar o copo de plástico com refrigerante, acaba
abandonando o copo lá, e isso deixa os “degrais” zangados.
Pitter: Iraaaaaaaado!

Sério… Aquela explicação fazia mesmo sentido? Pitter então olhou para o dedão dele.

Pitter: Eu posso ameaçá-lo com meu dedão.

Enquanto eles discutiam, os degraus ficavam assobiando e flutuando de um lado para


o outro, eu até tentei, mas não descobri como que os degraus assoviam.

Bigodudo: Tá bom, então seguiremos com o seu plano de torturá-lo com o seu dedão, e
depois partimos para os copos plásticos.

~ 80 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[47] A segunda ou terceira ideia do Pitter


Pitter aproximou-se dos degraus, apoiou-se num pé só e apontou seu dedão para os
blocos de pedra voadores.

Pitter: Certo, mortal, você vai nos dizer aonde arranjamos uma ameixa fosforecente, e
vai cobrar nada em troca.
Degraus: Como assim? Eu pensei que vocês tinham aceitado o meu plano de derrotar
os Super-Mercados.
Bigodudo: Nós não vamos fazer parte do seu plano de independência degrauzística.
Degraus: Não vejo então, motivos para ajudar vocês…

Bigodudo se apressou e sacou um copo plástico.

Degraus: OH NÃO! ARGH!


Bigodudo: Diga-nos, como podemos chegar ao Pé de Frutas Fosforecentes.
Degraus: Vocês têm de atravessar o oceano.

As vozes dos degraus mal saíam direito, parece que copo plástico realmente faz efeito
na criatura. Bigodudo guardou o copo plástico e Pitter calçou seu pé com o tênis de
luzinha dele.

Bigodudo: Viu? Foi mais fácil do que pareceu.


Degraus: Achou que terei que voltar a minha miserável vida de “degrais” de soleira.

Acho que ele olhou-me.

Degraus: Pelo menos eu posso falar.

Então ele pousou no começo da soleira e adormeceu. Pitter virou-se para mim.

Pitter: Certo, mas e então… Como vamos atravessar o oceano?

Subtamente senti a porta atrás de mim se abrir e um pé verde pisar na minha cabeça.

Xamã: Eu quero meu dinheiro!


Bigodudo: Caramba, acho que demoramos muito pra sair da frente dessa casa.
Xamã: Eu devolvi o dom da criatura, quero a grana, seus miseráveis.
Pitter: Credo, o cara tá parecendo mais um agiota do que um xamã verde-lima com cara
de desodorante.

E era verdade, o fato dele querer tanto dinheiro deixou-o careca, com barba mal-feita,
seu tom de verde tinha ficado menos verde-lima e mais verde-musgo, e estava com
aquelas camisas de botões e suspensórios amedrontadores. E o que era pior, suas mãos
ficaram enormes, enormes o suficiente para me segurar pela cabeça.

Bigodudo: Acredite, você não vai conseguir nada nos ameaçando com a vida dele.

Então o Xamã-agiota me jogou no ar.

~ 81 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Pitter: Você nos disse que ele não poderá falar, só nos feriados. Mas nós torturamos os
“degrais” e descobrímos que essa síndrome é reversível…

Eu ainda tava levantando, mas continuei a ouvir o Pitter… Não é sempre que ele banca
o inteligente e engana alguém.

Pitter: …e como você não curou ele, nós não pagaremos.


Bigodudo: Se bem que eu não quero muito que ele se cure.

Ele olhou pra mim com aquela cara de “quero ser feirante e te odeio”.

Bigodudo: Você é melhor assim, sem falar nada.

A Saída de Emergência me deu um abraço, pra me animar.

Pitter: De qualquer forma, você nos diz como recuperar a voz dele e te mandaremos um
cheque.
Xamã-agiota: Ok, eu confesso que não disse tudo.

De repente, voltou a crescer cabelo nele, a cor de pele voltou a ser verde lima e as
roupas se transformaram em um manto velho.

Xamã: Não muito longe daqui, existe uma tribo de gramofones, eles podem ajudar.
Bigodudo: Gramofones?
Xamã: É, eles são aqueles aparelhos antigos que se usava para ouvir vinis.

O Xamã já tinha desistido de receber o dinheiro e já estava pra entrar na casa da Cida,
abriu a porta, parou e virou-se para nós.

Xamã: Mas tomem cuidado, eles são perigosos.


Pitter: Perigosos como?
Xamã: O fato de serem substituídos rapidamente com o avanço da tecnologia fez deles
gramofones agressivos, por isso todo mundo evita passar por lá.
Pitter: Tá bom, mas agressivos como?
Xamã: Primeiro, eles te atacam, depois eles levam você para o covil deles… e só
então…

A cara do Xamã fechou-se, ele fez uma expressão séria e assustadora.

Xamã: … eles obrigam você a dançar Bryan Adams.

Houveram suspiros de espanto vindo do Pitter e do Bigodudo… Acho que eu também


faria se pudesse.

Xamã: É só seguirem depois do cemitério de produtos que passaram da validade.

Nós três nos entreolhamos angustiados, e começamos a andar.

~ 82 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[48] O cemitério dos produtos vencidos.


Começamos a andar pelo cemitério dos produtos que já haviam passado do prazo de
validade. O lugar era macabro, tinha muito musgo e queijo podre derretido em cima das
lápides, e tinha um cheiro de presunto velho com pilha carregável oxidando.

Pitter: Acho que ouvi alguma coisa.

Realmente, fez-se um barulho enrome atrás de nós. Já estava ficando tarde e como o
cemitério era atrás de uma colina, era pouco iluminado, e a essa hora ficava em
contraste de resolução Média (16 bits).

Pitter: Acaba logo com esse capítulo pra saírmos daqui.

E foi o que eu fiz.

~ 83 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[49] Dançando We’re in heaven com Pitter


Passamos pelo cemitério e chegamos aonde deveria ser o lugar de habitação da tal
tribo de gramofones. Já dava para ouvir Cindy Lauper de longe. Escondemos-nos atrás
de uma moita, com medo deles nos verem. Dava para ver que eles estavam todos
reunidos na floresta, numa espécie de luau, cada um tocando uma música por vez.

Pitter: E agora?
Bigodudo: Não dá para atacar todos de uma vez… E copos plásticos não funcionarão
com eles.
Pitter: Eu ainda tenho meu dedão.
Bigodudo: Não, Pitter, não.

De repente um dos gramofones nos encontrou atrás da moita. O tênis de luzinha do


Pitter tinha nos denunciado.

Pitter: Oh meu deus, não é o que parece, nós só estávamos acasalando e…

Antes que o Pitter continuasse o gramofone me acertou, e provavelmente acertou os


dois também.

Acordei enxergando só metade das coisas… Isso porque meu chapéu de foca estava
meio inclinado. Eu estava em meio a algumas mesas de jantar a luz de vela, tinha um
globo flutuando no meio da floresta e começou a tocar We’re in Heaven. Pitter veio em
minha direção, ele estava com uma expressão diferente e eu não sabia quanto tempo eu
tinha ficado desacordado, logo não sabia se tinha acontecido alguma coisa. Ele me
agarrou pela cintura e começou a conduzir. Esses são os piores momentos para você
ficar sem fala, e ao mesmo tempo não fazer nada com medo de apanhar de alguém que
irá cantarolar Fábio Júnior enquanto você sofre. A música já estava chegando ao fim.
Pitter não tinha dito uma palavra, ficava com a cabeça encostada no meu ombro e
dançando, parecia que ele estranhamente estava gostando daquilo, o que eu não
duvidaria. Mas sei lá, acho que depois de 14 anos de amizade você pode dançar música
lenta com o seu melhor amigo (já que ele ainda era como não tínhamos encontrado a
ameixa) de vez em quando.

De qualquer forma, a música acabou, Pitter me largou lá no meio, pegou o baixo dele
e sentou em uma mesa. Antes que eu pudesse sentar veio o Bigodudo. Já fiquei na pose
de dança, pensando que iria tocar Have You Ever Really Loved a Woman? - Caso
estejam estranhando, eu tinha matéria de Bryan Adams na primeira série, então
conhecia a vida do cara –, Bigodudo veio como se fosse me conduzir também, mas logo
me acertou um soco na cara e berrou:

Bigodudo: EU NÃO VOU PASSAR POR ISSO!

De repente os gramofones ficaram sérios, amontoaram-se perto do Bigodudo.

~ 84 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Bigodudo: Que foi? Eu só vim aqui porque fiquei sabendo que dava para fazer a
criatura ali voltar a falar, mas se eu tiver que dançar pra isso, ele que fique mudo.

Os gramofones continuavam fazendo nada, só encarando o Bigodudo. Pitter levantou,


e já estava com a antiga cara de filho de padeiro dele.

Pitter: Eles têm nomes.

O Bigodudo olhou para o Pitter.

Bigodudo: Tá bom, vamos socializar, yey.

Não sei aonde surgiu mais sarcasmo, quando ele disse ’socializar’ ou quando ele disse
‘yey’. Tinha uns cinco gramofones que rondavam o ser de bigodes, ele virou para um
deles.

Bigodudo: Quem é você?

Ficou um tempo quieto, depois começou uma música.

“Meu nome é Mike / Gosto muito de brincar”

Ficou um silêncio constrangedor. Bigodudo olhou para o gramofone do lado.

Bigodudo: Você deve ser a Simony, né?

~ 85 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[50] Os amigos do peito


Mike, Simony, Jairzinho, Fábio e Tob eram então, os cinco gramofones que ali nos
cercavam, só depois que cada um cantou seu trecho de “Amigos do Peito” eu reconheci
alguns traços das personalidades das quais eles encorporam, como o cabelo da Simony e
a cara de “meu herói meu bandido hoje é mais muito mais que um amigo” no Fábio Jr.

Pitter: Consegui conversar com um deles quando eles me ensinavam a dançar Bryan
Adams.

Pitter levantou da mesa e foi caminhando em direção ao Bigodudo. Apoiou o braço no


ombro de Jairzinho como se eles já fossem grandes amigos.

Bigodudo: Peraí. Como você conversou com eles?


Pitter: Ah, você pergunta e eles respondem. Só que eles tocam música ao invés de falar.
Bigodudo: E o que você descobriu?
Pitter: Que o Mike deixou pra trás todo marasmo da fazendo só pra sentir no sangue
dele o ódio que Jesus lhe deu, a Simony com dezessete anos fugiu de casa, o Fábio era
um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, o Tob nunca viu nem comeu, só
ouviu falar de caviar. E o Jairzinho aqui não sabe se a Florentina ama-o ou se ela só o
seduz.
Bigodudo:…

De repente todo aquele clima de tensão acabou, os gramofones colocaram a festa ao


estilo de Everything I do, I do it for you fora, puxaram algumas mesas e logo já
pareciamos um grupo de pinguços que se reúne na sexta-feiras para comer amendoim e
falar de mulheres que nunca vão comer. Um dos gramofones começou a tocar “Beber,
cair e levantar”, mas o olhar de censura foi o suficiente para ele se abster.

Bigodudo: Certo, então teremos de ser cautelosos com as nossas perguntas… eu não
quero acabar ouvindo um “Bonecão do Posto” sem querer.
Pitter: Então deixa-me tentar.

Pitter olhou para Mike.

Pitter: Como que a gente recupera a voz do Narrador?


Mike: Que ‘co cê foi fazer no mato, Maria Chiquinha?
Pitter: A gente não sabe o que aconteceu com ele direito, mas ele certo dia apareceu
com uma pata com cara de saída de emergência e não conseguia mais falar desde então.
Tob: Now I’m speechless over the edge.

Acho que por mais desgraça que você pegue: AIDS, Câncer ou até mesmo a secretária
do outro departamento que não tem os dentes da frente, elas são sempre suportáveis
comparadas a alguém narrando sua vida com músicas dos Jonas Brothers.

Bigodudo: Tem como reverter?


Simony: They say that nothing is forever.

Steppenwolf… Fiquei impressionado.

~ 86 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Bigodudo: E como faz para reverter?


Fábio: Somewhereeee, over the rainbow / Way up hiiiigh!
Pitter: Você diz isso… do modo literal?
Bigodudo: O quê? Você acha que realmente dá pra alcançar um arco-íris, ir até o
“topo” dele, falar com algum leprechaum ou unicórnio e recuperar a voz da criatura,
Pitter?
Jairzinho: Eu vou de escada para elevar a dor.

Como se não bastasse eu já estar sem voz e comparado a Jonas Brothers, agora ele ia
falar por metáforas de MPBs escrotamente escritas?

Pitter: Ah, então eu acho que tem algum elevador que nos leva até o topo do arco-íris,
certo?

Os gramofones assentiram dançando Ray Charles.

Pitter: Certo, mas vamos fazer isso amanhã de manhã, hoje já está cansativo demais.
Bigodudo: Pera, corrijam-me se estiver errado, mas um arco-íris só aparece se chover,
certo?

Todo mundo ficou em silêncio e ficou encarando o Bigodudo.

Pitter: Qual é? Todo mundo sabe que os arco-íris têm rodinhas e que ursos polares
ninjas da África que arrastam eles para os lugares.
Bigodudo: Mas ninguém nunca viu um urso POLAR na África!
Pitter: É porque eles são ninjas.
Bigodudo: Então o quê? A gente conversa com um desses ursos e sobe no arco-íris?
Pitter: Você é louco? Você acha que urso fala?

Realmente, não faz sentido algum um urso polar ninja da África falar.

Jarizinho: Eu adoro andar no abismo / Numa noite viril de perseguição / Saltando


entre os edifícios.
Bigodudo: Ah, entendi, então a gente tem que sair correndo feito louco sem que esses
ursos nos vejam e subir no arco-íris.
Pitter: Olha, pra um feirante você tá interpretando muito bem os gramofones.

Finalmente Pitter tinha encontrado algo que era bom: conversar com gramofones, pena
que isso não dava dinheiro, mas se recuperasse minha voz já era uma coisa. Os
gramofones ofereceram bacon como jantar, e logo depois adormeci.

Acordei com Pitter fazendo a dança do peixe fora d’água na minha barriga e gritando
“Bacon! Bacon! Bacon! Bacon! Bacon!”. Acho que ele tinha viciado na coisa.

Bigodudo já estava de pé, e com um sapato feito de jornal. Tentei fazer a cara mais
expressiva tentando dar a entender que queria saber o motivo de tal sapato, mas acho
que me expressei errado, porque ele respondeu com um:

Bigodudo: Não se preocupa, foi o Pitter que dormiu de conchinha com você e não eu.

~ 87 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Logo depois ele jogou um par de sapatos feitos de jornal para mim.

Bigodudo: Para andar num arco-íris você tem que estar usando um sapato
monocromático.

Até que fazia sentido.

Bigodudo: E não me pergunta como eu sei disso, o Pitter disse que perguntou pro Tob,
e ele respondeu usando o “Rap do Ovo” junto com “No alto do Cume”, então nem quis
saber.

Assim que vesti o sapato, partimos. Os gramofones sabiam que íamos partir, porque
deixaram uma trilha de bacon até onde levava a um arco-íris. É realmente estranho ver
um arco-íris estacionado. Eles ficam em um canto isolado em alguma floresta, naquele
caso ele ficava em cima de um rio, as cores dele pigavam lentamente na água, mas a
outra ponta dele rapidamente sugava mais cores para o mesmo. De fato, dava para ver
as rodinhas que eram usadas para empurrar o arco-celeste, o negócio era imenso, então
imagino que os ursos polares empurradores sejam muito fortes, o que de certo modo
assustava; tente imaginar o que é ter de subir num arco-íris protegido por um bicho
invisível – que já não é naturalmente amigável – e é um ninja e veio da África.

Ficamos esperando Pitter terminar de comer o bacon e já planejávamos como


escalaríamos aquilo, a pior parte de montar o plano era não saber de onde os ataques
poderiam vir.

~ 88 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[51] “Plano de Escalamento do Arco-Íris”


arquitetado e desenhado pelo grande líder Pitter Pan,

~ 89 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[52] A escalada do arco-íris


Pitter fez um desenho do plano que ele tinha em mente.

Bigodudo: Esse é seu plano?


Pitter: É! E nós somos representados por um bacon, vocês notaram?
Bigodudo: Não, eu pensei que isso era propaganda de xampu, um desenho patrocinado,
sei lá.

Tem horas que dava vontade de ter ficado surdo-mudo, mas como eles estavam
fazendo tudo aquilo só para recuperar minha voz eu não tinha do que reclamar… Eu não
tenho nem como reclamar, a bem da verdade.

Bigodudo: Então, seu grandioso plano é correr feito suicida direto para o arco-íris
sendo que um urso polar ninja da áfrica pode nos atacar a qualquer momento?
Pitter: É.
Bigodudo: Parece um bom plano pra mim. Alguém tem alguma objeção?

Levantei a mão.

Bigodudo: Diga.

… abaixei minha mão.

Bigodudo: Certo, vamos.

Bigodudo e Pitter disseram isso e saíram correndo. Dava para ver a ponta do arco-íris,
Bigodudo rapidamente esticou um pé e num pulo só já estava em cima dele. Consegui
ver o jornal fazendo um apoio em meio as cores, transformando as faixas da ponte
colorida em degraus. Eu passei Pitter e fui logo atrás, assim que meu pé apoiou no arco-
celeste dava para sentir a parte monocromática dos meus pés solidificar a superfície
“arcoirezistica”. Incrivelmente parecia que não tinha ninguém guardando o lugar. Pitter
veio correndo, pé direito: firme. Já dava para ver a felicidade na criatura em estar
correndo em uma parábola quadrática em que ‘a’ é menor que zero.

Acho que esse era um dos sonhos de Pitter, uma vez ele me disse que queria ser
bombeiro, depois que queria ser astronauta, e depois me disse que queria fugir de ninjas
num arco-íris, nunca pensei que um deles fossem se realizar, isso me dava esperanças
para tomar chá com um irlândes em cima de um búfalo.

Mas enfim, quando Pitter foi apoiar o pé esquerdo dele, o jornal simplesmente não
funcionou, o pé dele foi direto pro chão e Pitter caiu, com um pé preso no arco-íris. Eu e
Bigodudo paramos, rapidamente desci para ver o que aconteceu com Pitter. Quando
cheguei perto do pé dele que ainda estava preso no arco-íris, ouvi algo cortando o ar e se
aproximando pulei num mortal duplo e rodava meu corpo no ar, mas por idiotice minha
eu tinha pulado bem na direção do “o que quer que aquilo fosse” que tinham jogado em
mim. Cai de baço no chão e logo senti uma pata de urso pisar na minha cabeça.

~ 90 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Ele bateu minha cabeça no chão vezes o suficiente para eu achar que estava indo para
uma conferência de fãs do Macgyver. E como eu achava que era o Macgyver,
transformei meu chapéu de foca numa Harley Davidson, fugi do urso e me lancei no
arco-íris, a moto depois voltou a ser meu chapéu e eu pousei perto do Pitter, puxei ele
pelo pé que estava preso e o carreguei até chegarmos em uma parte do arco-celeste que
o urso não pudesse mais nos alcançar. Pitter andava pulando só em um pé, o que
funcionava.

Bigodudo: Tá… Muito irado o que você fez. Se bem que eu acho que isso foi só um
golpe de marketing para conseguir mais leitores.
Pitter: Se fosse assim eu podia ganhar uns músculos, assim faziam um filme sobre
minha vida e eu ganhava um monte de fãs que juntariam e montariam o ‘Team Pitter’.
Bigodudo: Nada, mulher gosta mesmo é de um bigode e uma monocelha, as fãs iriam
criar um ‘Team Bigodes’.
Pitter: É mesmo, agora que eu notei, qual é o seu nome?
Bigodudo: Eu abdiquei-me do meu nome assim que vocês me encararam e ganhei
bigodes.
Pitter: Ah tá.
Bigodudo: E você, Pitter? Porque diabos sua perna não consegue apoiar no arco-íris.
Pitter: Não sei.
Bigodudo: Por acaso você pegou a fola de tirinhas dos jornais?
Pitter: …. peguei, é que eu não sei ler, mas essa pelo menos eu consigo ver as figuras.
Bigodudo: Sua besta, não pode ter nada com cores pra conseguir andar aqui.
Pitter: Ah, relaxa, eu fui campeão de amarelinha, consigo subir isso num pé fácil, fácil.

~ 91 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[53] Somewhere over the rainbow


Depois de tanto andar no arco-íris, e Pitter pular, chegamos exatamente no meio dele,
o lugar estava completamente branco pela névoa que ficava lá em cima, e havia um
elevador com uma seta para cima.

Bigodudo: Olha onde chegamos… Estamos no topo de um arco-íris, e vamos pegar um


elevador para curar a mudez.
Pitter: Aonde você quer chegar?
Bigodudo: Na escola e nos canais de TV que eu assistia, sempre diziam que um arco-
íris é um fenômeno óptico e meteorológico que separa a luz do sol em seu espectro
contínuo quando o sol brilha sobre gotas de chuva. E agora eu esto em cima de um
deles.
Pitter: E isso quer dizer que…?
Bigodudo: Não sei, mas e se nós encontrarmos “Deus” lá em cima?
Pitter: Não seja idiota, “Deus” não existe.

Entramos no elevador, e ele começou a subir. Não tinha musica alguma, o que tornou
a viagem de 12 segundos entediante. As portas abriram e o lugar onde estávamos era um
bar. O ambiente era basicamente feito de madeira, tinha uma mesa e atrás dela uma
criatura que parecia um avestruz. Não que fosse realmente um avestruz, ele era bípede,
parecia uma galinha, mas tinha penas multicoloridas na cabeça, uma barba parecendo
um viking e usava ombreiras com cara de gargulas, a cara dele eu não conseguia
descrever com nada que eu já tivesse visto, tinha olhos bem juntos e um enorme nariz.
Usava uma daquelas camisas de mecânico, e do lado esquerdo do peito tinha um crachá
de velcro com o nome “Deusarininson”. Estava lavando alguns copos, mas parou assim
que nos viu.

Deusarininson: Ah, enfim, visitas. Sejam bem-vindos ao meu humilde bar. Meu nome
é Deusarininson, mas me chamem de “Deus” para ser mais fácil.

Entramos, onde fomos atordoados mentalmente pelo fato de estarmos no bar em cima
de um arco-íris, e pelo fato de que “Deus” nada mais era do que uma galinha evoluída.

Deus: O que vos trazem aqui?


Pitter: Nossas pernas.
Deus: Não, eu me referia ao motivo de terem escapado dos meus ursos ninjas e escalado
um arco-íris para me ver.
Pitter: Ah, é qu-
Bigodudo: Não, espera, eu primeiro preciso entender o que está acontecendo aqui.
Deus: Uma amigável conversa?
Bigodudo: Tem dois minutos eu acreditava em ciência, em lógica, gravidade, teorema
de pitágoras e ameixas fosforescentes. Agora eu estou num bar, conversando com
“Deus”.
Deus: Ah tá, o nobre erro humano em querer achar solução para tudo.

Deus colocou três copos na mesa e balançou a cabeça em sinal para sentarmos. Na
verdade parecia que ele fazia headbang acompanhando alguma música fossa do Bon

~ 92 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Jovi – não sei nem se é possível somar headbang com Bon Jovi, mas enfim -, sentamos.
Ele ficou enxugando copos.

Deus: Eu nasci como uma galinha qualquer.


Bigodudo: Como assim? Você “nasceu”? Você é “Deus”, você simplesmente existe.
Deus: “Simplesmente existo”? Como isso é possível? As coisas começam e terminam,
exceto as águas-vivas.
Bigodudo: Então, o que existia antes de você?
Deus: Não sei, mas antes o dono desse bar era um tal de Alailton, e antes dele era um
careca monge que eu não cheguei a conhecer.

Quer dizer, todas as religiões que eu já conheci na vida, são nada mais que histórias de
bar.

Deus: Ainda quer saber como eu fui de galinha até dono desse bar?
Pitter: Conta aí, vai ser supimp-
Bigodudo: Não, deixa pra outro dia. É informação demais pra um dia só. Tem como
você curar a mudez dele?
Deus: Ér... Não. Eu sou só dono de um bar, e não um mágico. Mas tem um amigo meu
que pode ajudar nisso.
Bigodudo: Algum tal de ‘Zeus’ alguma coisa?
Deus: Não, é um tal de ‘Jesus’, conhece?
Bigodudo: Atualmente eu não conheço mais nada.
Deus: Ele é um médico com poderes psiquicos, ele descia aqui do bar de vez em
quando. Primeiro foi há muito tempo atrás, só que as pessoas achavam que ele era filho
do capeta ou coisa do tipo, aí o crucificaram. Eu tive que descer e fazer um voodoo pra
transformar-lo num zumbi. Depois fez uma plástica e volto mais recentemente, como
David “Copperalgumacoisa”, dessa vez ele fez mais sucesso.

Ele apontou uma mesa com um mendigo.

Deus: Ele tá meio acabado nas bebidas, mas conversem, ouçam sua história de vida que
depois ele cura sua mudez.

Levantamos e fomos até a mesa. Ele estava meio acordado, um quarto dormindo e o
resto querendo cérebros.

Bigodudo: Jesus? É você?

Sentamos defronte a ele, que murmurava feito bêbado. Ficamos esperando-o falar
alguma cosa. Ele continuva de cabeça abaixada murmurando coisas sem sentido, depois
de uns quinze minutos naquela situação constrangedora, levantou a cabeça, sua cara de
repente parecia um daqueles retratos de igreja, uma luz se acendeu atrás dele e ele sorriu
como se fizesse propaganda de pasta de dente.

Jesus: O olho é a lâmpada do corpo. Se teu olho é bom, todo o teu corpo se encherá de
luz. Mas se ele é mau, todo teu corpo se encherá de escuridão. Se a luz que há em ti está
apagada, imensa é a escuridão.
Bigodudo: Tá, mas e no caso dele que ele tá mudo?

~ 93 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Jesus: Reconheça o que está diante de teus olhos, e o que está oculto a ti será
desvelado. Pois não há nada oculto que não venha ser manifestado.

Acho que quando ele estava murmurando bêbado fazia mais sentido. De repente ele
ficou sério, o sorriso simpático tinha virado uma cara de Keanu Reeves. Olhou bem nos
meus olhos gritou:

Jesus: SHAZAM!

Senti um formigamento na minha garganta e depois cócegas no meu mamilo esquerdo,


mas isso eu acho que foi a Saída de Emergência.

Narrador: … Eu posso falar. HÁ! Eu fui curado da mudez, cadê seu deus agora?
Bigodudo: Tá ali, enxugando copos.
Narrador: Ah, e por Deus, ou pelo que for. “Degrais” não existe.
Bigodudo: Já estou me arrependendo de curar

sua mudez.

Jesus depois voltou a ter a cara de bêbado e ficou offline.

Narrador: Tá, vamos sair daqui.

Ajeitei meu chapéu de foca na cabeça e fomos pro elevador. Pitter parou na porta.

Pitter: Ér… Deus, os ursos lá no arco-íris vão deixar a gente descer sem problemas?
Deus: Claro, vocês descerem do arco-íris é lucro pra eles.
Pitter: Tá, então até um dia desses.

Pitter entrou no elevador e a porta ia se fechando, quando eu notei que Deus ia falar
mais alguma coisa, então apertei o botão par segurar a porta aberta.

Deus: Ah, Pitter. Enquanto você conversava com Jesus eu poli seu baixo.

Deus então jogou o baixo do Pitter para o mesmo.

Pitter: Ah, valeu.

Então o elevador fechou e começamos a descer. Dessa vez começou a tocar “Wanted
Dead or Alive” do Bon Jovi em versão 8-bit, pelo visto Deus era fã de Bon Jovi mesmo.

Bigodudo: … To tentando entender o fato de eu ter tomado uma cerveja com Deus, e o
fato de ele ser uma galinha evoluída.
Pitter: Deus poliu meu baixo, você não merece falar comigo.

~ 94 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[54] De volta a busca pela ameixa


Descemos do elevador, no topo do arco-íris. Decidimos que iriamos na direção oposta
pela qual viemos, já que não queriamos encontrar os gramofones. Pitter esqueceu que só
um pé dele que funcionava no arco-celeste, acabou pisando por dentro da coisa e ficou
pendurado.

Pitter: Ahrg! Alguém... ajuda.

Antes que alguém fizesse alguma coisa o outro pé dele se soltou e ele caiu no rio.

Bigodudo: … Que idiota.

O Bigodudo ficou olhando a correnteza levar Pitter.

Bigodudo: A criatura pode voar, e consegue cair.


Narrador: E eu acho que teremos de pular atrás dele. Estamos sem o Dumbo, se
ficarmos sem Pitter ficamos sem nenhum meio de transporte.
Bigodudo: Por Deus… Ou melhor, Deus não, mas enfim, vamos pegar uma droga de
ônibus ou trem.
Narrador: Nossa próxima parada é o viveiro das capivaras, ou um túnel que passa por
baixo dele.
Bigodudo: Vamos pelo túnel, eu tenho enjôos quando viajo de navio.

Descemos o arco-íris, a ponta estava quieta sem nenhum urso polar ninja pra nos
atacar. Fomos andando pela floresta na direção da correnteza do rio, andamos até
chegarmos a uma cocheira.

Bigodudo: Será que o Pitter caiu por essa cachoeira?


Narrador: Não sei, mas se caiu, quando o encontrarmos ele estará vestindo um barril.

De lá de cima dava para ver o oceano que teríamos que atravessar.

Bigodudo: Eu to lembrado dessa parte.


Narrador: Você veio por esse caminho?
Bigodudo: Uhum. Essa correnteza deságua no oceano.
Narrador: Tá pensando em ir buscar o Pitter?
Bigodudo: Por enquanto não, ele não é meu amigo. Vamos chegar na entrada do túnel e
a tiramos no palitinho para ver o que faremos

Não sei por que, mas o meu pé com o jornal que funcionava antes não me ajudou
quando eu fiquei preso no arco-íris. Acho que tem a ver com o desenho que eu fiz para
deixar meu tênis de jornal mais irado.

Então eu cai e cai e cai e cai e cai, achei que ia bater de cabeça no rio, mas não, sou o
genioso lider dos parceiros de altas aventuras LTDA ME, de repente um samurai saltou
do meio da água e me carregou no colo. Ele correu pela água, me colocou do outro lado

~ 95 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

do rio e foi embora. A cara dele era quadrada e ele tinha dois risquinhos que deveriam
ser os olhos.

Eu comecei a andar pela margem do rio, minha intuição de lider me guiava, a cada
passo a energia da vitalidade da força de lider liderava a minha liderança, e eu sabia
exatamente para onde ir. Cheguei até onde era um rio na vertical que vai bem forte
(esqueci como que chama), tipo um chuveiro gigante, uma chuva forte… Acho que
vocês sabem o que eu to falando. Do lado disso tinha um teleférico, que foi por onde eu
desci. Acho que depois de conversar com Deus a minha aura de lider e de especial
aumentou, porque eu me sentia mais charmoso, especial e as luzinhas do meu tênis
estavam mais supimpas.

~ 96 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[55] A entrada dos túneis “Que ficam embaixo do


viveiro de capivaras”
Eu e Bigodudo chegamos à entrada do túnel. Era realmente diferente você ver um
oceano, um porto, e um tubo de ventilação enorme escrito “Que ficam embaixo do
viveiro de capivaras”. No oceano dava para ver um navio que parecia estar navegando
fazia pouco tempo. Olhei para Bigodudo.

Narrador: É aqui que nós vamos entrar.

Bigodudo foi na frente, entrou no túnel e se perdeu na escuridão de lá. Assim, não era
bem uma escuridão, tinha luzes negras e um globo de luz, mas logo o ser de bigodes não
estava mais ao alcance dos meus olhos. Eu ia logo em seguida, mas um barulho me
incomodou, era o som das orelhas do Dumbo rasgando o ar. Olhei para cima e lá vi a
criatura, ele vôou em circulos feito um abutre e logo depois pousou.

Narrador: Dumbiiiiiiinho!

Corri na direção dele e pulei para abraçá-lo, mas fui recebido com uma trombada que
me derrubou. Olhei-o, estava diferente, não tinha mais aquela cara inocente, e o chapéu
verde dele estava realmente me incomodando. Foi quando me lembrei.

Narrador: Ah tá, aquele lance de Dumbo Mal do Leste realmente te afetou, né?

Capítulo vinte e sete, quando ficou soterrado, isso o transformou.

Narrador: Então você raptou o Javali…

Dumbo assentiu.

Narrador: E você planeja vingança contra nós, que te levamos até a cidade de
supermercados, onde aconteceu aquele acidente contigo?

Concordou de novo, fechava os olhos e balançava a cabeça, mas não era mais gracioso
quando fazia isso.

Narrador: E você é uma menininha linda de olhos azuis?

Continuava a balançar a cabeça.

Narrador: HÁ!

Desculpe leitor, mas eu não podia perder essa. De qualquer modo ele me repreendeu
com os olhos, levantou vôo e foi-se.

Narrador: Dumbo…

Fiquei um tempo olhando para o ser paquiderme sumir no ar, e depois entrei no túnel.

~ 97 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

O lugar era mais estreito do que parecia por fora, parecia ser um corredor só, mas
depois de um tempo andando cheguei a uma enorme plataforma. As paredes desse lugar
onde ficava a plataforma eram feitas de vidro, então dava para ver o oceano, e se
olhasse para cima, dava para ver o viveiro das capivaras, assim como dava para ver o
navio que tinha avistado mais cedo. Encotrei Bigodudo.

Bigodudo: Por que demorou tanto?


Narrador: Encontrei o Dumbo lá fora, ele foi para o lado negro da força, acho que
temos que achar Pitter logo.

Eu e Bigodudo estávamos inquietos sobe o que queriamos fazer. Sentamos numa mesa
em uma lanchonete que tinha ali perto, mas como lá só vendia crustáceos e eu sou
alérgico a pimenta, ficamos só conversando mesmo.

Bigodudo: Ir atrás do Pitter é perda de tempo.


Narrador: Não podemos deixar ele desmaiado na beira do rio sendo que existe um
Dumbo a solta por aí.
Bigodudo: Tá. Então vamos revisar o que aconteceu e decidir o que faremos.
Narrador: Fomos praquela caverna procurar informações da ameixa e eu fui
nocauteado. Vocês me encontraram e fomos recuperar minha habilidade de narrar,
depois vocês convenceram o xamã a recuperar minha voz, que ele disse ser impossível.
Fomos atacados por uma tribo de gramofones que nos fizeram dançar Bryan Adams,
depois fomos falar com Deus que recuperou minha voz, e aí Pitter caiu no riacho.
Bigodudo: É, agora que você pode falar: O que aconteceu no capítulo 31 para você
perder a voz e aparecer com a Saída de Emergência?

~ 98 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[31] Explicações sobre o que aconteceu


Depois que fui jogado para a escuridão da caverna pelo ataque epilético da loja de som
ermitã, fiquei encolhido no chão feito uma pata choca. Estava escuro, frio, não dava
para ver nada, e o que eu mais queria era achar uma saída.

Foi então que sinto uma cãimbra na perna, olhei para ela e onde costumava ser minha
canela tinha virado uma porta sanfona de PVC. Abri a porta e de lá saiu a Saída de
Emergência. Segurei-a no colo e quando olhei minha perna já estava normal de novo,
exceto pela cicatriz que parecia uma girafa tocando sanfona.

A Saída de Emergência pulou do meu colo e comecei a andar, eu corri atrás dela e
pegue-a no colo, não demorou muito e eu encontrei vocês.

~ 99 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[56] A viagem pelos túneis


Bigodudo: É, agora que você me contou tudo realmente faz muito mais sentido.
Narrador: Olha, não conta nada pro Pitter, ele não pode saber que o melhor amigo dele
virou pai sem ele estar presente.

Bigodudo ficou quieto por um momento

Narrador: O que foi?


Bigodudo: Tem um pequeno problema.
Narrador: Qual?
Bigodudo: Eu, meio que, sou pai.
Narrador: Como “meio que”?
Bigodudo: É que a criança nasceu sem pernas.

Ele ficou em silêncio por um tempo, parecia preocupado.

Narrador: Mas qual o problema?


Bigodudo: Depois que eu te entregar a ameixa, Pitter vai virar meu melhor amigo, e ele
não pode saber disso.
Narrador: Ah, relaxa, é só você contar a verdade, ele vai saber que perdeu só o
nascimento de um meio filho seu e ficará meio chateado.

Fez-se um barulho deveras alto. Eu e Bigodudo fomos para a ponta da plataforma.


Veio então um carrinho de montanha-russa e parou na nossa frente, como se fosse um
trem de metrô.

Bigodudo: Vamos entrar.


Narrador: Tem certeza?
Bigodudo: Também podemos ficar aqui, parados esperando que Deus faça alguma
coisa por nós.
Narrador: Sabe, esse discurso de que proto-ateísta de que “Peça pra Deus e ganhe
nada” fica sem sentido depois que sabemos que ele esta ocupado enxugando copos.
Bigodudo: Eu sei, eu sei. Mas ficarmos aqui parado não acharemos nem a ameixa nem
o Pitter.

Fui entrar no carrinho.

Bigodudo: Não, não. Vamos no carrinho do fundo.

Fomos no último, sentamos, abaixamos a trava de segurança e ficamos lá esperando.


Demorou um tempo até que tocou um sinal, e logo o carrinho acelerou. O trajeto era
emocionante, vários loopings dentro de paredes grossas de vidros sendo que o plano de
fundo era o oceano, a parte ruim é que era meio abafado, mesmo com tanta velocidade.
Fomos tão fundo que entupiu meus ouvidos, Bigodudo gritou alguma coisa mas eu não
consegui ouvir – se bem que deu para imaginar o que era, afinal, ele estava com a
mesma cara de quem está gritando “safaaaaaaaaaaada”, eu sabia muito bem, já que ele
tinha uma foto disso - de todo modo, depois o trem começou a subir em alta

~ 100 ~
ESTE LADO PARA CIMA

velocidade, chegamos a superfície, os trilhos saiam de um tubo, e sem os vidros em


volta dava para respitar bastante.

Em certo momento os trilhos acabavam e o carrinho ficava solto no ar, tinha uma
continuação dos trilhos, e eu já imaginava que o carrinho alcançaria. E ele alcançou,
pelo menos a ponta dele. Seguindo as leis da física, eis o resultado: O primeiro carrinho
alcança o trilho, os outros tombam para fora, retirando o primeiro carrinho dos trilhos e
caindo na água. Só que aquela montanha russa não seguia as leis da física. O primeiro
carrinho alcançou, os outros então entortaram em forma de um nó de gravata clássico, e
depois os pinos pelos quais os carrinhos ficavam conectados entre si se rompera, e então
caímos na água.

Estranhamente, do lado do nosso carrinho, assim como os outros, tinha uma boia.

Bigodudo: Eu realmente fico imaginando se algum desses carrinhos já chegou até o


outro lado.

Realmente, para colocar bóia em um carrinho de montanha-russa é preucação demais,


ou então são muitos processos por danos morais e natatórios.

Narrador: Ótimo, vamos ter que remar com a mão.


Bigodudo: Bom, você pode usar os pés, seu tornozelo, o baço ou até mesmo a sua pata.
Narrador: Ei, não vá querer abusar da minha filha, só porque ela nasceu com pernas e
o seu filho não.
Bigodudo: Isso que você está fazendo é preconceito.
Narrador: Eu chamaria de “jogar a verdade na cara em momentos inoportunos”, mas se
você prefere chamar assim.

Bigodudo começou a me enforcar, depois acertou um soco na minha cara, tirou a


minha trava de segurança e me jogou na água. Eu comecei a nadar de volta para o
carrinho para continuar a briga, mas vi que do lado esquerdo, perto de um suporte, tinha
um remo. Desgrudei o remo do carrinho, subi nele e quebrei o remo na cabeça do ser de
bigode.

Narrador: Pensa melhor antes de me bater, sua besta.

Depois otei que eu estava com o único remo do carrinho na mão, e que tinha quebrado
na cabeça da minha única companhia de naufrágio.

Narrador: Tá, isso foi idiota, o que a gente faz agora?


Bigodudo: Eu tenho uma ideia.
Narrador: O quê?

Ele acertou meu estômago com um chute, e caí na água de novo.

~ 101 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[57] O Padre e o robô gigante


Nadei de volta para o barco e tentei subir, mas o Bigodudo me segurou pelos pelos do
meu mamilo.

Bigodudo: Você quebrou o remo, você vai remar.

E foi o que eu fiz, deixei a Saída de Emergência para controlar o leme – sim, o
carrinho de montanha russa tinha leme – apoiei minhas costas contra o carrinho e
comecei a fazer meu nado de costas.

Sou um ótimo nadador, quando era criança minha mãe me inscreveu em aulas de
natação, já que quando era mais criança do que quando eu era criança, pulei num
aquario e fingi que era o Aquaman. Acordei no hospital duas horas depois.

De qualquer modo, comecei a empurrar o barco e estavamos indo a uma velocidade


relativamente rápida, até que Bigodudo começou a gritar

Bigodudo: PÁRAAAAAAAAAAE

Parei rapidamente, e subi no pseudo barco para ver o que tinha acontecido. A frente do
nosso carrinho tinha um outro, com um Padre e um Robo Gigante dentro. Bigodudo
cochichou para mim.

Bigodudo: Será que devemos socializar com eles?


Narrador: Não sei, mas você falando baixinho para mim ficou meio sensual.

Deu para ver claramente que ele só não me bateu para não chamar atenção de ninguém
e para ninguém classificar isso como “Literatura Homofóbica”. Na falta de ideia, o
Bigodudo resolveu improvisar.

Bigodudo: Ei! Vocês aí!

Tanto o Padre como o Robô Gigante, que estavam olhando atentamente para a água,
olharam para o Bigodudo.

Bigodudo: Dêem-me dinheiro, aí!

Por mais que o Bigodudo realmente não pudesse perder a piada, deu para ver o olhar
de raiva do Padre. Ele vestia aquelas roupas da igreja preta com aquele capuz no estilo
Whoopi Goldberg. O Padre tinha cara de bravo por natureza, ele mantinha seus dentes
fechados e sempre olhava para você como se estivesse com escabiose. O Robô parecia
um Mega Zord, só que não era muito colorido. Eles só nos olharam e voltaram a
examinar a água.

Bigodudo: É, eles devem ser alguns daqueles cientistas aquáticos que vivem estudando
os peixes.
Narrador: Pela cara dele tá mais pra Ahab.

~ 102 ~
ESTE LADO PARA CIMA

O Padre e o Robô gigante pularam no mar.

Bigodudo: Certo, vamos embora.

Pulei na água para começar a empurrar o carrinho, mas de repente uma enorme bolha
de ar veio da água, na direção que eles tinham pulado, então mergulhei para ver o que
tinha acontecido.

O Padre estava lutando contra um Tubarão e o Robô disparando raios lasers, o


tubarão tentava fugir, mas o Padre não deixava. Então, em um golpe final, o robô fez
um nado borboleta dentro d’água – nem sei como foi possível – e emergiu, o Padre
segurou o tubarão e o levou para a superfície, subi para acompanhar.

Eles seguraram o tubarão fora d’água por um tempo até que ele morresse.

Bigodudo: Pobre tubarão, vamos embora daqui.

Eu já tinha pulado para dentro do carrinho

Narrador: Agora que eu descobri que tem tubarões aqui você acha que eu vou
continuar na água?
Bigodudo: É o oceano, você esperava que tivesse o quê?
Narrador: Depois de 30 capítulos nada mais me surpreenderia. O que você acha de
irmos falar com o senhor Ahab ali?
Bigodudo: Temos garantia de vida?
Narrador: Bom, acho que a história não vai acabar com cinquenta e sete capítulos,
então eu sobrevivo para contar a história.
Bigodudo: Não necessariamente, eu e o Pitter já narramos uns quatro ou seis capítulos.
Narrador: Tá, mas temos que ir falar com eles. Ou então teremos de enfrentar os
tubarões.
Bigodudo: Prefiro os tubarões.
Narrador: Sério?
Bigodudo: Aquele cara ali, ele mata tubarões na porrada e segurando-os fora d’água.
Você tem alguma dúvida?

Antes que a discussão continuasse o carrinho deles se aproximou.

Robô: Saudações habitantes do carrinho 12, eu vim em paz.


Bigodudo: E o seu amigo aí?
Robô: Posso garantir que ele é inofensivo.
Padre: GRAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Bigodudo: Que tipo de Padre que grita “Graaa”, mata tubarões com a mão e fica com
os dentes fechados é inofensivo?
Robô: … Entenda, ele acabou de ser expulso do navio pelo qual viajava. Estavam com
excesso de tripulantes.
Narrador: E o que o levou a atacar tubarões?
Robô: É uma longa história.
Bigodudo: Nós estamos no meio do oceano, pode ir contando.

~ 103 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

O Robô nos contou que o Padre estava indo fazer um serminário numa cidade do outro
lado do oceano, e tudo ia bem, até que surgiram dois novos tripulantes no navio, e
tiveram que eliminar dois que já estavam. Expulsaram o Padre e sua mala, que tinha o
peso equivalente ao de um tripulante. Então ele começou a nadar, até que achou um
viveiro de capivaras, elas o carregaram até metade do caminho, aonde ele achou um
carrinho de montanha russa, começou a navegar pelo carrinho e nos tempos livres – e
não, eu não sei o que significa “tempo livre” para alguém que está no meio do mar
nadando sem rumo, mas preferi não interromper a história – desmontava uma torradeira,
depois de 3 semanas tinha construído aquele robô que estava ali contando a história.

Bigodudo: Quer dizer que ele tá a todo esse tempo no mar?


Robô: Correto.
Bigodudo: E ele não fala?
Robô: Deixe-me continuar a história.

Então, ele contou que quase na quarta semana ele encontrou um tubarão, que atacou
seu carrinho-barco, e de tanto pavor perdeu a voz – eu entendia o sofrimento do Padre.
Ele então encontrou outro carrinho de montanha russa jogado no mar e jurou vingança
ao tubarão.

Bigodudo: Uau! Mais um pouquinho e virava clichê, hein?


Narador: De qualquer modo, vocês estão indo para onde agora?
Robô: Não sei, agora que a vingança está completa não sei os planos dele.
Narrador: Vocês podiam se juntar conosco, também estamos atravessando o oceano.
Robô: Está bem, mas eu precisarei de ajuda para empurrar o carrinho.

Então nos juntamos ao Padre e o Robô. O Padre ficava raspando os dentes um no


outro, eu e Robô nadávamos para empurrar o carrinho, e Bigodudo ficou sentado ao
lado do Padre, contanto para ele toda a nossa história.

Bigodudo: …Então, nós andamos andamos andamos andamos andamos, escalamos um


arco-íris, encontramos Deus, depois perdemos a nossa modelo internacional…

Sim, Pitter tinha sido substituído por uma modelo internacional que usava roupas
curtas. O ruim é que por mais que eu tentasse encaixar ela na história, sempre acabava
saindo o Pitter com short e muito blush.

Bigodudo: …E então agora estamos atrás dele e da nossa Bíblia Especial.

Não dá para falar para um Padre que você tá procurando um vibrador roxo comestível,
simplesmente não dá. Acho que o Padre não atacou o Bigodudo quando ele falou que
viu Deus porque ele deve ter pensado que “ver Deus” significa “fumamos umas ervas”,
e isso explicaria muita coisa a meu respeito e ao Bigodudo, e àquela história que o ser
de bigodes contava.

Robô: Eu não prestei muita atenção, mas parece que você fala muito ‘então’.
Bigodudo: É um tique.

~ 104 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[58] Proto filler


Chegamos ao outro lado do continente. Deixamos o carrinho ancorado em um porto,
que ficava entre umas montanha, então não dava para ver se havia uma cidade por perto
ou não.

Narrador: Pra onde vamos agora?


Bigodudo: Não sei, esse Padre e esse Robô estão me assustando.

Ficou um silêncio quando o Padre se aproximou.

Bigodudo: … Sabe o que eu tava pensando?


Narrador: O quê?
Bigodudo: Se por acaso algum de nós ficasse grávido de um bebê zombie, e um lobo se
apaixonasse por esse bebê assim que ele nascesse… Na realidade em que vivemos isso
seria normal.
Narrador: …Você prestou atenção no que você disse?
Bigodudo: Hm?
Narrador: Lobos se apaixonarem por bebês…
Bigodudo: É, tem razão, seria tosco até para nós.

~ 105 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[59] Rumo ao bacon


Não demorou muito até que um navio chegou ao porto, dava para ver Pitter acenando
de longe. Antes mesmo de o navio ancorar Pitter pulou dele para nos encontrar.

Pitter: Nossa que saudade de vocês, quanto tempo a gente não se vê.
Narrador: Quatro capítulos, no máximo.
Pitter: Tenho tantas histórias pra contar.

Pitter estava com seu tênis de luzinha, o baixo classicamente de ponta cabeça, o
presunto gigante no ombro, um tapa-olho e um chapéu de mexicano. Logo atrás veio
um samurai de cara quadrada com dois riscos que deviam ser os olhos, uma roupa
branca e um hakama – aquelas saias de samurai – preto.

Narrador: Quem é o seu amigo?


Pitter: Um samurai que eu encontrei por aí. E os seus?
Bigodudo: Ah, um padre matador de tubarões e a torradeira evoluída dele.
Pitter: Hm. Vamos nos sentar e compartilhar histórias.
Bigodudo: Tipo Goosebumps?
Pitter: Mais ou menos. Se a gente fizer isso dentro de um café vai ser tipo Friends. Mas
tem que ser em algum lugar que tenha bacon.

O samurai sinalizou com a cabeça um letreiro digital que tinha nas montanhas.
Primeiro piscava “Bacon aqui”, e depois “Para você e seus parceiros de aventura”. Não
demorou até Pitter puxar todos nós na direção das montanhas.

Pitter: Vamos, tem bancon, bacon, bacon, bacon.


Bigodudo: Acho que o bacon fez mal para ele.

Estávamos nós sete andando (sim, eu incluí a Saída de Emergência na conta), quando
Pitter começou a cantar:

Pitter: Yohooou Yohoou, pro bacon agora eu vou.

E só posso vos dizer: “Pararatimbum Paratimbum Eu vou, eu vo, eu vou, eu vou”

~ 106 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[60] Então, como foram as férias de vocês?


O local do bacon tinha forma de porco, o rabo era o estacionamento. A parte ruim é
que como o estacionamento era grande o porco tinha um rabo que o fazia parecer uma
raposa com nariz chato. Ficamos sentados em uma mesa perto da janela, só Pitter que
estava comendo. Em meio aos bacons Pitter fez a clássica pergunta de primeiro dia de
aula na primeira série:

Pitter: Então, como foram as férias de vocês?


Bigodudo: Férias?
Pitter: É, estar livre de mim pode ser considerado férias, não?
Bigodudo: Com certeza. Bom, nós tentamos ir pelos túneis que atravessavam os
oceanos, mas eles nos deixar no meio do mar. Então tivemos que continuar o caminho
nadando, encontramos o Padre e a torradeira dele caçando tubarões e nos juntamos a
eles. Quando chegamos no porto você logo apareceu, e voc-

Antes do Bigodudo concluir a pergunta, o Samurai levantou-se e foi até a cozinha do


restaurante de bacon, pegando logo uma chaleira e colocando água quente.

Pitter: Ah, esse Samurai é um amigo meu que me salvou de quando eu estava caindo
do arco-íris. Ele tem esse hábito de fazer chá de vez em quanto. Depois de ser salvo,
desci a montanha por um teleférico, depois subi em um navio e logo o Samurai apareceu
perto de mim. Viemos navegando pelo oceano compartilhando histórias da nossa vida e
contando sobre como era bom fazer tricô e bordados em forma de golfinhos, e quando
nos demos conta já estávamos aqui.
Narrador: Ah, antes que eu esqueça, encontrei o Dumbo.
Pitter: Sério?
Narrador: Sério. Aquele lance de Dumbo Mal do Leste que aconteceu lá na Cidade dos
Super-Mercados o afetou.
Pitter: E o que faremos?
Bigodudo: Nós estamos perto do pé de ameixa. Nós podemos pegar a ameixa primeiro
e nos preocupar com o Dumbo e o Javali depois.
Pitter: Hm. E a Vandira? Que fim levou?
Narrador: Se eu não me engano ficou lá no cassino do tio do Bigodudo.
Pitter: Ah é. Então, parceiros de aventura, avante em busca da ameixa fosforescente.

Pitter se levantou para buscar o Samurai. Padre e seu Robô-Torradeira foram para
fora, deixando eu e o Bigodudo a sós.

Narrador: Ah, foi mal aquele lance de zoar o seu filho que não tem pernas.
Bigodudo: Relaxa, ele vivia chorando que não conseguia andar, então um certo dia eu
dei um tapa nele e disse “Ou você conserta seus defeitos ou você para de reclamar
deles”.

Que exemplo de pai, inspirador.

Bigodudo: Daí então ele aprendeu a andar levitando, poder da mente e essas coisas.

~ 107 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Agora sim! Nada como a desnaturalidade do pai para gerar crianças com podere
psíquicos. Levantamo-nos, nos reunimos ali fora, e fomos andando em direção ao topo
da montanha, onde ficava o pé de ameixa. E só para constar, saímos sem pagar, como de
costume.

~ 108 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[61] O Pé de Ameixas Fosforescentes


Chegamos nós sete no topo da montanha. Lá havia um gigante pé, e dos pelos da
planta do pé – sério, preciso fazer uma pausa entre esse trocadilho de pé do corpo
humano com pé de árvores, é muito complexo – nasciam ameixas fosforescentes,
parecia até uma balada. Então a próxima vez que falaram que balada não nasce em
árvore, bom, ela vai continuar não nascendo em árvore, mas você pode dizer que
nascem em um pé gigante.

Bigodudo fez um sinal para todos pararem, e assim fizemos. Ele se ajoelhou e falou:

Bigodudo: Batatinha quando nasce esparra-lha ramas pelo chão…

Ele ficou um tempo em silêncio. Olhamos-o com cara de “tem certeza do que você tá
fazendo?”, exceto o Samurai, que estava com a mesma cara quadrada de sempre.
Bigodudo respirou e continuou.

Bigodudo: Eu quando durmo acordo com câimbra.

Todo mundo olhou espantado, estranhados por não ter rimado, exceto o Samurai. O Pé
então começou a se mexer, aparentemente ele estava conversando com o Bigodudo, mas
ninguém conseguia ouvir, parecia ser algo telepático. Nosso amigo ajoelhado falava,
mas a voz dele não saia. Depois de uns vinte minutos de conversa, caiu uma ameixa em
formato de vibrador do Pé, rolou pelos dedos e estacionou nos joelhos do ser de
bigodes, ele apanhou, se inclinou agradecendo, nos olhou.

Bigodudo: Não falem nada, eu explico depois.

E começou a descer, fomos atrás, e assim que chegamos ao pé da montanha. Não digo
“pé da montanha” no sentido de Pé da montanha, digo no sentido de… pé da montanha.
Bigodudo se virou para nos explicar o que tinha acontecido, mas nesse momento
Dumbo apareceu junto do taxista direitero e de um flamingo.

~ 109 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[62] Momento pré-batalha-final


Se aquele fosse um momento para uma batalha final, seria genial (a rima foi sem
intenção), eu sempre quis descrever uma daquelas batalhas que acontecem num clímax
de um filme, onde o cenário geralmente é um lugar antigo e famoso, e os vilões ficam
em vantagem noventa por cento do tempo, mas o protagonista dá uma cambalhota e
ganha ou coisa do tipo. Porém, na teoria o protagonista era o Pitter, e não dava para
esperar que ele conseguisse ganhar alguma coisa, mas de qualquer modo, eram seis
contra três.

Narrador: O que foi agora?

Dumbo ficou olhando para nós, havia um ódio em seus olhos – ou isso ou era lente de
contato – que eu nunca tinha visto antes. O flamingo ficou lá parado, e o taxista gritava
“DEZENOVE E OITENTAAAAAA!”. É realmente triste saber que o vilão da sua
história será aquele que você montou durante muito tempo, um ser fissurado por
ameixas que tropeça no ar, e um taxista. Mas como o Dumbo nem o flamingo falavam,
e o taxista só sabia gritar a tarifa do táxi, fomos poupados daquele discurso tedioso que
provavelmente teria.

Bigodudo: Tá, acho que agora é o momento da história que tem uma batalha épica, e
depois tem o prólogo e o final feliz, certo?
Narrador: Quase isso.

Antes que eu contasse um spoiler, o Samurai de cara quadrada passou por nós e
avançou no taxista, esse que também avançou em direção ao Samurai. Quando eles se
encontraram o taxista sacou uma xicara de café e água quente, o Samurai não resistiu e
começou a fazer um chá. O Padre ficou abismado com aquilo e montou em sua
torradeira, que foram em direção ao flamingo, Dumbo vôou e -sei lá de onde – estendeu
um tapete no chão, o Padre saltou da torradeira, caiu no tapete e começou a rezar.

Bigodudo: Quer dizer que o Padre é muçulmano?


Narrador: Não, não faz sentido… Eu acho.

A torradeira continuou em direção ao flamingo, porém o taxista jogou um pão de


forma nela, que teve que parar e esperar o pão ficar pronto. Sobrou apenas eu, Pitter e o
Bigodudo – e a Saída de Emergência, mas ela seria usada só em caso de emergência.

Então, a batalha seria resumida entre três contra três, ficamos encarando nossos
inimigos que tanto queriam a ameixa. O pé da montanha ficou silencioso, e de repente
surgiram um monte de anões camponeses, colocando grades em volta de nós seis, eles
se aglomeraram rapidamente, não dava para saber nem de onde eles vieram, mas tudo
ficou explicado quando eles começaram a gritar “Brutal Force!”

~ 110 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[63] Desavença com o Pitter


O pé da montanha havia se transformado em uma arena, os camponeses 100%
humildes gritavam. Havia cartazes com “Dumbo Team” e “Saída de Emergência Team”
escritos. Tinha um cartaz escrito “Isso é uma cópia do capítulo 13″, e o cara que
segurava parecia que ia matar alguém por isso, mas até onde eu me lembre nós não
íamos dormir de conchinha com uma tartaruga gigante. Nós 7 – tenho que incluir a
Saída de Emergência, afinal ela foi proclamada a líder do time – ficamos parados, acho
que estávamos esperando que fosse cantado algum hino antes de começarmos a lutar.

Alguns camponeses com bonés e microfones carregaram enormes alto falantes e


colocaram nos quatro cantos da arena que havia se formado, depois montaram uma
mesa com três lugares. Dos alto falantes saiu uma voz familiar, a do garçom. Sim, o
garçom anão que havia se transformado em um gnomo de jardim no começo da história.

Garçom: Bem-vindos ao Brutal Force, a luta clandestina de mendigos.

Bigodudo gritou.

Bigodudo: Ei! Quem você está chamando de mendigo aqui?


Garçom: Você não pára em casa já faz um tempo, vive por aí voando em elefantes e
não tem emprego. Se preferir eu te chamo de nômade.
Bigodudo: Pode deixar “mendigo” mesmo, acho que consigo viver com isso.

O Garçom ajeitou o microfone e continuou o discurso:

Garçom: Esta será a 19ª edição do torneio.

Cochichei para Pitter

Narrador: Décima nona edição? Fico imaginando como durou tanto tempo.
Pitter: Você assistiu uma e já está participando de outra, você tem moral para falar
nada.
Narrador: Mas…
Pitter: Fora que o presunto como prêmio é muito amor.

Pitter ficou com cara de chinchila

Pitter: Mas podia ser bacon.


Narrador: Que diferença faz? É tudo de plástico mesmo.
Pitter: Se pra você bacon e presunto são a mesma coisa, então você não merece minha
amizade.
Narrador: Que seja, é só essa luta terminar e eu troco sua amizade por uma ameixa
fosforescente.
Pitter: Tô de mal.

Quando voltei a prestar atenção no discurso o garçom já estava no:

Garçom: … diga agora ou cale-se para sempre.

~ 111 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[64] Uma rápida lição sobre nunca falar de religião


A luta parecia que ia começar, o garçom foi falar com o outro time e depois veio falar
conosco.

Garçom: Vocês estão com um lutador a mais.


Narrador: Como assim? A Saída de Emergência não vai lutar.
Garçom: Sinto muito, mas ela não pode sair do time, sendo que metade da audiência é
ganha devido a ela.
Narrador: Como isso? Desde quando eles sabem da existência dela?
Garçom: A maioria disse que foi Deus que postou no blog dele.
Bigodudo: Então… Um de nós vai ter que sair do time?
Garçom: Exatamen-
Pitter: Eu saio!
Bigodudo: O quê?!
Pitter: Eu não quero ficar em um time que não sabe a diferença entre bacon e presunto.

Pitter pegou o baixo dele, ajeitou o tapa-olho, colocou o presunto gigante nas costas e
saiu gritando “BACON!”, parecendo um zumbi. Bigodudo olhou para mim.

Bigodudo: Acho que desde que Deus poliu o baixo dele ele ficou distante de nós.
Narrador: Deus está distanciando as pessoas.
Garçom: Ei, não falem mal da minha religião! Isso é preconceito, não é só porque
vocês não acreditam em Deus que devem culpar as pessoas que acreditam…
Bigodudo: Mas não foi iss-
Garçom: E outra, cada um tem sua religião e crença, você deve respeitar. Julgar uma
pessoa por sua religião é preconceito.
Narrador: Você não devia estar organizando o torneio?
Garçom: Dane-se o torneio, eu não vou deixar vocês participarem.

Então o garçom pegou o microfone e anunciou.

Garçom: O Brutal Force por aqui está encerrado.

Todos os camponeses humildes começaram a sair da platéia praguejando, o lugar


começou a ser desmontado, e logo estava quase tudo vazio.

Narrador: Será que se a gente disser que não só acreditamos em Deus, mas que o
vimos pessoalmente muda alguma coisa?
Bigodudo: Acho que não. Melhor a não falarmos mais em religião por aqui, o povo não
parece aceitar novas ideias muito bem.

Com o cenário desmontado já estávamos indo atrás do Pitter, porém minha cabeça foi
surpreendida por uma leve pancada de um piano arremessado a muitos quilômetros –
estranhamente não desmaiei, só cai e me levantei logo em seguida. Dumbo queria
terminar a batalha.

A platéia que estava indo embora voltou e fechou um círculo em volta de nós, como se
fosse uma luta de rua. O taxista deu uma voadora de dois pés, nocauteando o Bigodudo,

~ 112 ~
ESTE LADO PARA CIMA

o flamingo até tentou acertar a Saída de Emergência, mas tropeçou no ar se se


nocauteou. Dumbo usou sua tromba para jogar minha cria longe. E logo seria apenas eu
contra o taxista e meu melhor elefante voador. Nesse momento o Garçom voltou.

Garçom: E agora a empolgante batalha vai começar!


Narrador: Começar? Como assim? Eu estou na desvantagem.
Garçom: Calado, ser herege!

~ 113 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[65] O que aconteceu na minha luta contra o Dumbo


e o Taxista Direiteiro
Apanhei.

Muito.

~ 114 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[66] A Final do Brutal Force XIX


Depois de apanhar muito no capítulo anterior, acordei encostado em uma parede, com
Saída de Emergência no colo, e do lado do Bigodudo. Estávamos fora do círculo de
camponeses que fechava o cenário da luta.

Bigodudo: Até que enfim você acordou. Parece que você apanhou bastante, hein?
Narrador: … É. Se eles ganharam, então eles estão com a ameixa?
Bigodudo: Não, ela está aqui comigo.

Ele me mostrou a ameixa, ela fosforescia roxamente diante dos meus olhos. Eu tentei
tirar da mão dele.

Bigodudo: Não, a troca é o Pitter pela ameixa, lembra?


Narrador: É só achá-lo que é seu.
Bigodudo: Tá, mas antes eu quero ver a final.
Narrador: Que final?
Bigodudo: Lembra o que aconteceu depois que os Mendigos ganharam do Dumbo e do
Macaco lá?
Narrador: …uuh. “O Cão Navalha”.

Levantamo-nos, eu mancava e meu chapéu de foca ficava torto na minha cabeça, nos
enfiamos no meio dos camponeses e ficamos em um lugar que dava para ver um pouco
da arena.

Garçom: E agora… que venha… o nosso campeão. CÃO NAVALHA !!!

Assim que ele gritou isso alguns dos organizadores jogaram biribinhas na arena e o
cão navalha pulou na pseudo-arena. Os camponeses gritaram, até eu e o Bigodudo
gritamos também. O cão correu na direção do taxista, que tentou atacar com uma de
suas mãos direitas, mas o cão desviou e usou a mijatória-laminada. O taxista caiu no
chão, Dumbo começou a voar e desceu em direção ao grande campeão, que então usou
um ataque inédito: A cara-de-pidão, Dumbo estava se aproximando e pareceu não se
abalar, ele estava pronto para acabar com o cachorro quando o cão navalha cancela seu
ataque e desvia da investida do elefante. Dumbo atola a cara no chão, mas logo se
recupera, ele então corre em direção ao cão, que começa a fugir do paquiderme.

Virei para um camponês do meu lado.

Narrador: Eles vão só ficar correndo em círculos?


Camponês: Cala a boca! Cão Navalha sempre sabe o que faz.

Olhei de novo e o grande campeão estava com uma cara de desespero, latindo
freneticamente enquanto fugia do Dumbo, que estava correndo incrivelmente rápido
para um elefante. Não demorou muito e o Cão Navalha se jogou no chão, para fingir-se
de morto, Dumbo não percebeu e continuou correndo, tropeçando no cachorro, cortando
a pata e se atolando na terra. Antes que o elefante pudesse se levantar, Cão Navalha
rolou por cima dele, e depois jogou terra em sua cara.

~ 115 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Garçom: Mas esse é um lindo cão! Dá a patinha, vai.

O cachorro que estava mostrando os dentes de repente colocou a lingua pra fora, fez
uma cara amigável e levantou a pata. O garçom jogou um biscoito pra ele.

Garçom: E mais uma vez nosso Cão sai vitorioso.

Dumbo estava para se levantar e continuar a batalha, mas de algum lugar caiu um
banheiro químico em cima dele e o deixou atolado lá. Bigodudo me puxou para fora da
multidão.

Bigodudo: Certo, vamos procurar o Pitter agora!

~ 116 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[67] A diferença entre bacon e presunto


Eu e o Bigodudo fomos para o restaurante que servia bacon, Pitter estava lá encostado
numa janela, com quilos de bacon em seu prato. Entramos e sentamos-nos à mesa dele.

Bigodudo: Ei, Pitter.

Ele ignorou e continuou a comer.

Narrad0r: Vamos, poxa vida, eu quero me desculpar.

Pitter olhou pelo canto da pilha de bacon que nos separava.

Narrador: Eu sei que bacon é importante pra você, e que é diferente de presunto.
Pitter: Sabe? Então me diga… Qual a diferença?
Narrador: Bom, Bacon tem gosto de bacon.
Pitter: Hm.
Narrador: E presunto tem gosto de… presunto.
Pitter: Hm.
Narrador: “Hm”…?
Pitter: Não me convenceu.
Narrador: Mas, olha, você não precisa nem me perdoar, é que agora você será amigo
do Bigodudo, e não meu. Certo?
Pitter: Não.
Narrador: Nós tínhamos um trato, Pitter.
Pitter: Você não sabe diferenciar bacon, isso anula qualquer trato.

Então eu fiz o que me deu na telha, peguei um pedaço de bacon e mordi para tentar
saber a diferença. Por um momento meus problemas acabaram, parecia que um bacon
tinha casado com outro e tido aquele bacon como filho, a sensação era indescritível, era
a soma de tudo o que há de bom. Abri os olhos para explicar para o Pitter como era, mas
o prato de bacon havia se acabado e ele me olhava com fúria.

Pitter: Você… comeu… meu… bacon.


Narrador: Mas, eu precisava comer para-
Pitter: Você comeu meu bacon!
Narrador: É só você pedir mais.
Pitter: Não, porque então eu poderia ter comido um bacon a mais, mas não terei feito
porque você comeu meu bacon!

Eu levantei a mão, chamei a garçonete.

Narrador: Traga-me um bacon.

A garçonete tirou um do bolso e colou na mesa.

Narrador: Pronto, agora coma o meu bacon.


Pitter: Eu não.
Narrador: Vamos, assim acabam os problemas.

~ 117 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Pitter: Um amigo não come o bacon do outro.


Narrador: Ah, então eu sou seu amigo?
Pitter: Não.
Narrador: Mas você acabou de dizer-
Pitter: Se você fosse meu amigo, não teria comido meu bacon.
Narrador: Se eu não tivesse feito isso eu nunca saberia o gosto do bacon.
Pitter: Ficasse na dúvida.
Narrador: Aí pra mim bacon e presunto seria sempre a mesma coisa.
Pitter: Como você ousa trazer esse assunto de novo?

Eu nunca tinha visto o Pitter ficar tão irritado, e eu só percebi que ele estava irritado
porque surgiu uma árvore na testa dele. Caso vocês não saibam, quando alguém fica
irritado com seu melhor amigo, surgem árvores na testa da pessoa.

O Bigodudo gritou:

Bigodudo: AIHOOOHAISAFADA!

Nós dois paramos a discussão, caiu uma folha da árvore do Pitter, e ficamos olhando
para ele.

Bigodudo: Pronto! Pirulitinho do Papai Noel

Ele jogou um pirulito na mesa. Pitter pegou o pirulito e logo a sua árvore sumiu. Toda
a raiva que ele sentia, simplesmente acabou quando tinha o pirulito em mãos, cochichei
com o Bigodudo.

Narrador: O que tinha naquele pirulito?


Bigodudo: Farinha Láctea.
Narrador: E qual o motivo de acalmar tão rápido a criatura?
Bigodudo: É que quando eu era criança e sonhava que a equação de Bhaskara resultava
num delta negativo, e minha mãe fazia mingau pra me acalmar.
Narrador: Impressionante.
Bigodudo: Não é?

Eu realmente estava impressionado que ele não sabia trabalhar com números
imaginários, mas melhor não estragar a infância da criatura.

________________
Se você está se perguntando “mas afinal, qual a diferença entre presunto e bacon?” pare de ler agora. Sim, agora! Eu
disse para parar de ler na frase anterior. Você está se achando todo rebelde por ler até aqui, né?

~ 118 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[68] O final da história


Saímos da lanchonete e fomos em direção ao porto, para voltarmos para o outro
continente. Pitter estava empolgado com o pirulito com farinha láctea dele que nem
prestava atenção na minha conversa com o Bigodudo.

Bigodudo: Ei, será que nós devíamos procurar o Samurai, o Padre e a torradeira dele?
Narrador: Nah… Eles são coadjuvantes. Mas me diz, o que é que aconteceu lá no pé
da ameixa?
Bigodudo:Então, cheguei lá, fiz minha referência, ele se conectou com a minha mente.
Começamos a conversar, falar da vida, eu contei da nossa viagem até aqui, ele contou
que estava com um dedo encravado, mas melhorou, jogamos uma “pedra papel e
tesoura” mentalmente e eu perdi, e ganhei a ameixa como prêmio de consolação.
Narrador: E qual seria o prêmio caso você ganhasse?
Bigodudo: Um cortador de unha gigante.
Narrador: Hm… Mas pelo menos faz sentido o formato da ameixa por ser um prêmio
de consolação.
Bigodudo: Um baita trocadilho, não é?

Chegamos ao porto e havia um navio parado lá, o mesmo navio pelo qual o Pitter veio.

Pitter: Ei, é meu navio lá! Olha! Olha!


Narrador: Pera, você tem que falar no plural: “olhem”. Já que somos dois.
Pitter: Eu falei “olha” mais de uma vez justamente por isso.

Fomos até o navio, Pitter embarcou sem nenhum esforço, mas Bigodudo e eu tivemos
que plantar bananeira. Sorte nossa que eu andava com duas sementes de bananeira no
bolso por precaução. Entramos no navio, tinha um aspecto velho, de pirata, fedia ao
banheiro da casa da minha avó depois que ela joga desinfetante na pia.

Narrador: Esse navio vai nos levar até o continente do qual viemos, certo?

Então uma voz veio do manche, era o Capitão Óbvio, usava uma camisa retalhada com
um enorme “O”, um chapéu maior que a largura de seus ombros e no seu ombro
esquerdo ninguém menos do que a Vandira.

Capitão Óbvio: Mas é óbvio.


Bigodudo: Ah, então o “Capitão” do seu nome é porque você é literalmente um capitão.
Capitão Óbvio: Mas é óbvio.
Narrador: E vejo que você está com a minha amada Vandira.

A Saída de emergência pareceu ficar com ciúmes, já que a sua cara piscou.

Capitão Óbvio: Mas é óbvio.

Me ajeitei num banquinho cheio de musgo que tinha ali, Bigodudo me deu a ameixa
dele e passei a amizade do Pitter pra ele – só para esclarecer, eu ganhei a amizade do
Pitter em uma rifa então existe, de fato, um “Vale amizade” do Pitter.

~ 119 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Capitão Óbvio colocou o navio em movimento e Bigodudo foi com seu mais novo
amigo até a proa fazer a pose mais clichê que qualquer pobre turista faz. Capivaras
começaram a correr do lado do navio cantando:

“Em dãããããããããíãã Uiu óueis, lóviuuuuuuuuuuãããããããíããããã”

~ 120 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[69] O lado B da fita


A viagem demorou, foi meio enjoativa mas-

Pitter: Ei, o que você tá narrando?


Narrador: O capítulo.
Pitter: Mas você narrou aquele capítulo como sendo o último.
Narrador: … não.
Pitter: Narrou sim, teve até clichê e essas coisas.
Narrador: Que clichê? Capivaras correndo do lado do navio é um novo nível de
literatura. Imagine essa cena quando chegar aos cinemas.
Pitter: No cinema? E com trilha sonora da Whitney Houston?
Narrador: É. Por que não?
Pitter: Sério? Whitney Houston?
Narrador: Eu não imaginei nem que você ia reconhecer-la, Pitter.

Então, continuando. A viagem demorou um pouco, foi meio enjoativa, Pitter resolveu
tocar o baixo dele para as capivaras, e isso as espantou, a música que ele tocou acabou
atraindo jabutis do mar que furaram o navio e-

Pitter: Ah, mais uma pergunta.


Narrador: Alô amigo, eu to tentando narrar uma história aqui.
Pitter: Tá bom, mas é que eu não entendo. Por que de repente você decide
simplesmente resumir o que aconteceu durante a viagem?
Narrador: É que-
Pitter: Você está censurando nossos leitores da verdade omitindo fatos.
Narrador: Que leitores? A sua mãe, a minha e o mendigo cabeludo que achar isso no
lixo anos depois que minha mãe jogar fora?
Bigodudo: Sem esquecer o meu tio, eu o conheci e agora ele faz parte da familia.
Narrador: Tá, que seja.

Então tá, nos capítulos 70 ao 72 eu conto a viagem inteira, mas aconselharia a pular
para o 73 de uma vez, sério, a viagem foi chata.

~ 121 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[70] Errata
Pitter: Alô Alô! No Final da História, eu e o Bigodudo reproduzimos um clichê dos
cinemas, onde ficamos na proa do navio. O detalhe é que a música que tocou, e eu até
comentei no capítulo anterior, foi da Whitney Houston, e a música certa seria a da
Celine Dion.
Narrador: O que você tá fazendo aqui seu miserável?
Pitter: Você narrou a música errada, eu vim corrigir o seu erro.
Narrador: Mas eu já tinha separado três capítulos pra contar sobre a viagem inteira.
Pitter: Faça em dois.
Narrador: Mas, mas. Era só corrigir, apertar “Backspace” lá e redigitar a música certa,
ninguém ia perceber.
Pitter: Sinto muito, fera. Agora me ajuda aqui, temos que cantar a música certa pra eles
relerem o final da história com a trilha sonora certa.
Narrador: …

Pitter e Narrador: “Ééévri nái im má drims, ah síiu ah fio”.*

________________
* Nota do Narrador:
Eu cantei corretamente “Every night in my dreams/ I see you / I feel you” o detalhe é que saber cantar Celine Dion
não é muito mérito

~ 122 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[71] Admirável chuva de jabutis nova


“Para melhor entendimento, releia o capítulo 69, assim você não se
perde da história, amiguinho”

A viagem começou, e logo estávamos em alto mar. Fiquei encostado no banco cheio
de mofo, Bigodudo e Pitter ficaram brincando feito gato e novelo de lã, literalmente:
Pitter deitava e ficava rolando Bigodudo no ar com os pés e dando tapas nele.

Depois de muito tempo parados, ficaram entediados, e Pitter decidiu pegar o baixo
dele para tocar. A tripulação toda – eu, Bigodudo, Saída de Emergência e Vandira – se
reuniu em uma roda, Pitter se ajeitou com seu baixo.

Bigodudo: O que você vai tocar?


Pitter: Zé Ramalho.
Bigodudo: Sério? “Affe”.
Pitter: O que foi? Zé Ramalho é irado.

Pitter começou a tocar com o baixo dele.

Pitter: Êêêêêê Ôôôôô Vida de Gado. Povo marcadoê povo-

Bigodudo berrou para Pitter.

Bigodudo: Sério mesmo que vai cantar isso?!


Pitter: Eu vou, se você não gosta, merece meu desprezo.

E essa foi a primeira briga deles, e eu fiquei lá, sem falar coisa alguma. Bigodudo se
levantou, entrou no navio e foi dormir. Pitter ficou triste e decidiu ir tocar para as
capivaras – que ideia idiota. Não tinha melodia, não tinha ritmo, assim como não tinha
apreciação. As capivaras logo fugiram e Pitter ficou lá tocando pro nada, na proa do
navio.

Vandira e Saída de Emergência ficaram me olhando como se eu tivesse que fazer


alguma coisa, mas eu não era mais amigo dele, não conseguia me importar com a
solidão e tristeza dele, simplesmente não dava.

Tá certo que minha mãe sempre me dizia para nunca deixar alguém tocando baixo na
proa de um navio no mesmo dia em que um peixe cria asas – explicarei isso depois –
mas pra que dar ouvidos a sua mãe, e então aconteceu o que se esperava: De tanto o
Pitter ficar tocando, começou a chover jabutis.

Pitter: ARGH, mas que- O que tá acontecendo? Está chovendo Jabutis?


Capitão Óbvio: Mas é óbvio.

Bigodudo saiu da cabine.

Bigodudo: Abandonar navio!

~ 123 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Correu e pulou na água, Vandira correu e voltou pro ombro do Capitão, Saída de
Emergência se escondeu de baixo do meu chapéu e Pitter protegia o baixo dele – de
ponta-cabeça – como se não houvesse amanhã.

Um dos jabutis furou o navio, que logo encheu de água, começando a afundar. O
Capitão e Pitter pegaram patinhos de boia – exatamente isso, eram patos que tinham
formatos de bóia – e pularam na água, eu ia logo atrás, mas corri para a cabine do
Bigodudo para pegar algo mais importante. Logo achei o ioiô dele em meio à bagunça,
corri para abandonar o navio, mas nisso um jabuti fura o teto e o chão, fazendo meu pé
ficar preso.

~ 124 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[72] O fim do diário de bordo


Estava lá preso, o navio ia afundando e comecei a entrar em desespero. Acalmei e
respirei para tomar uma atitude sensata.

Narrador: São Longuinho, São Longuinho, se você me tirar daqui dou três pulinhos.

Em meio à chuva de jabutis apareceu um helicóptero, dele jogou-se uma corda e


desceu por ela um ser careca, meio gordo e alto, usava uma jaqueta de couro escrito
“Saint Little Long” – tradução livre de “São Longuinho” para leigos – tinha uma barba
malfeita e era cheio de tatuagens.

São Longuinho: Diz ae, você quer sair daí, não é?


Narrador: … É.
São Longuinho: Então vai, dá três pulinhos.
Narrador: Eu até pularia, mas sabe... To preso aqui.
São Longuinho: Então nada feito.
Narrador: Faz assim, me tira daqui e depois eu pulo.
São Longuinho: Não, Michael Jackson não pôde ficar branco antes de trabalhar muito.
Narrador: … E o que isso tem a ver?
São Longuinho: Você tem que fazer por merecer, pivete.
Narrador: O seu “fazer por merecer” é pular três vezes?
São Longuinho: Exatamente, você acha que as bandas de hoje em dia fazem sucesso
como?
Narrador: Ah tá. Afinal, qual é o seu prazer em “pular três vezes”?
São Longuinho: Eu tenho um gosto muito peculiar. Mas então, vai pular ou não?
Narrador: Vai ser meio difícil.

Ele se apoiou na escada dele que estava balançando.

São Longuinho: Então morra aí!


Narrador: Espera, eu tenho aqui…

Tirei a ameixa do bolso e joguei para ele.

Narrador: A ameixa por me tirar daqui, que tal?


São Longuinho: É, acho que isso satisfaz o meu gosto… Gosto por ameixa, digo.

Ele soltou meu pé, depois se prendeu na escada e logo sumiu na chuva de jabutis. Eu
ia sair correndo, mas vi o vale amizade do Pitter na estante, e como estava sem ameixa,
decidi pegar a amizade do Pitter de volta.

Assim que peguei o bilhete corri para fora da cabine, o navio começava a entortar para
o lado que o casco estava furado, os jabutis não paravam de chover, e estavam fazendo
peso no navio, que foi se inclinando, enquanto eu corria para a direção que se levantava.
Cheguei na ponta, me apoiei lá e me joguei.

O fundo ficou branco, imaginem a cena de eu pulando vista de baixo, o céu em


destaque, a coisa toda em camera lenta, e sendo possível observar todo o movimento do

~ 125 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

meu corpo, desde a minha pequena banha até o chapéu de foca que quase caiu da minha
cabeça. E essa é a parte legal da história, enquanto eu ainda estava naquele momento de
pular – você está imaginando em câmera lenta, certo? – meu corpo estava se inclinando,
meio dobrado, um peixe pulou d’água e veio parar na minha cabeça. Agora, se você
lembra bem, eu estava pulando – em câmera lenta – de cima de um navio que estava
inclinado, e para o peixe conseguir alcançar minha cabeça, ele tinha que pular uma
altura suficientemente grande, era uns dois pescoços de girafa aquilo. Eu – em câmera
lenta, como disse – consegui ver o peixe saltar da água, estender suas nadadeiras
pélvicas, que são aquelas nadadeiras que ficam embaixo deles, e sair voando para a
minha cabeça.

Enfim, foi isso que manteve meu chapéu de foca na cabeça, agora pode tirar minha
imagem em câmera lenta e o The Final Countdown que estava tocando na sua cabeça –
e se não estava, estará agora.

(Só para concluir, Pitter cantar Zé Ramalho e um peixe criar asas para preservar meu
chapéu que causaram a chuva de jabuti)

Cai de barriga na água, e o peixe misteriosamente sumiu da minha cabeça. Pitter veio
e ficou nadando em círculos.

Narrador: Pode me salvar se quiser.


Pitter: Não, to procurando o Bigodudo.
Narrador: Não precisa…

Eu, ainda com a barriga ardendo, mostrei o bilhete de amizade dele, que eu consegui
manter seco no meu bolso impermeável.

Pitter: Que adorável você.

Pitter que estava nadando em circulos nadou para perto, para me ajudar, porém, como
ele nadou em círculos isso gerou um redemoinho. Eu poderia até dar uma aula sobre
redemoinhos, o que colocaria em dúvida o fato de aparecer um bem ali no meio, do
nada, mas deixaremos a parte cultural mais pro final da história.

O redemoinho sugou toda a água e o oceano secou, se mostrando uma enorme


banheira. Por pouco não fomos junto com a água pelo ralo.

Pitter: Ei, olhe!

Pitter mostrou que tinha um carrinho de montanha russa e um trilho que levava até o
continente. Óbviamente ajudamos o Capitão Óbvio e à Vandira a chegar até o carrinho
conosco, e fomos de montanha russa até o continente.

E sim, o Bigodudo estava sumido.

~ 126 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[73] O capítulo que deve ser lido, ao invés do 70, 71


e 72
“Se você pulou do capítulo 69 para este, então terá um pirulitinho do
Papai Noel anexado aqui. Se você leu os três capítulos que eu disse para não
ler, então você estará lendo esta nota. É sério. Se você pulou e está lendo isso,
ligue para o serviço de atendimento ao consumidor, eles provavelmente não
resolverão seus problemas, mas os atendentes estão meio carentes.”

Assim que chegamos ao continente. As travas de segurança do carrinho se levantaram


e saímos dele. Depois que você passa três/dois capítulos da sua vida navegando em um
navio, encontra São Longuinho em pessoa, toma jabutizada na sua cabeça – que agora
parei para pensar, que fim levara o Buda que ficava com o Dumbo? – e quase perde seu
chapéu de foca para um peixe voador você fica meio alterado.

Narrador: TERRA! (x20)

Preferi poupar vocês de lerem “TERRA!” vinte vezes.

Pitter: Ei, nós estávamos em terra tem cinco minutos, quando o mar inteiro foi sugado
pelo ralo, lembra?
Narrador: Mas é o sentido figurado da coisa que importa.

Capitão Óbvio ajeitou seu chapéu, colocou a Vandira no ombro e chegou perto de
mim e de Pitter.

Pitter: Você acha que procurar pelo Bigodudo é uma boa ideia?
Narrador: Ele tá sem ameixa e sem amigo eu não acho que-
Capitão Óbvio: Óbvio!

Olhamos para a banheira, que antes era um oceano, atrás de nós. Estava
completamente seca, tinha alguns jabutis no meio dela e um enorme ralo.

Narrador: Por onde começamos a procu-


Capitão Óbvio: MEU NAVIO! NÃÃO-ÓBVIO!

O capitão se ajoelhou e começou a chorar, Vandira fazia carinho na bochecha dele e


até a Saída de Emergência pulou do meu chapéu para dar apoio.

Narrador: Peraí, esse reação não está atrasada, não?


Pitter: Cala a boca aí, o cara sofrendo e você tirando sarro dele.

Certo, então vamos fazer um capítulo de silêncio pelo navio dele.

~ 127 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[74] O motivo por qual não fazemos sucesso


Este é o capítulo em silêncio para o navio do Capitão Óbvio, levando em conta que
você está lendo isso, você não pode ler isso em voz alta.

E eu provavelmente quebrei a sua expectativa de um capítulo em branco.

Estávamos lá, falando nada, um olhando para a cara do outro. Eu conheço bem essa
sensação de ficar mudo. Pitter olhou com cara de “E então? O que faremos?”, eu fiquei
indeciso e respondi com uma levantada de sobrancelha ao tipo “Sei lá, que tal
procurarmos nosso amigo de bigodes”, sendo assim, minhas sobrancelhas tiveram que
se juntar par representar o bigode. Pitter deu a clássica piscada “Ok, mas ele é seu
amigo, e não meu”, e eu fiz um “jóinha” de “São apenas negócios”.

Deixamos Vandira e Saída de Emergência apoiando o Capitão, que chorava


silenciosamente. Pitter e eu começamos a andar na beira da banheira, sempre olhando
para todos os lados, foi quando avistei um abutre com uma tatuagem “Se você procura
um amigo perdido, agarre na minha perna, se você procura fama, agarre na minha asa, e
se você quer emagrecer, pergunte-me como”, eu precisava sinalizar isso para Pitter, mas
não conseguia encontrar gestos do meu corpo que explicasse isso, então fiz o óbvio,
usei a linguagem de sapateados. Parecia que eu tava dançando uma música brega de
qualquer banda brega que você puder pensar, mas eu acho que não consegui fazer meu
amigo gnomo entender, porque Pitter ficou me encarando, depois tirou um queijo e
mostarda e me entregou com cara de “Eu te entendo, se é isso que você precisa”.

Joguei o queijo e a mostarde fora – vai saber daonde o Pitter tinha tirado aquilo –
enfiei um tapa nele e apontei o abutre. Ele correu para perto da ave e abriu a boca para
perguntar alguma coisa, mas sua consciência o impediu, então ficou encarando o bicho
e apontando para a própria barriga. Aproximei-me deles, mas acabei assustando a ave,
que começou a voar, corremos atrás dela, que ficava cada vez mais alta. Foi então que
depois de muitos capítulos sem fazer isso, Pitter lembrou que sabia voar, agarrou meu
braço e perseguiu a ave pelos ares, ele tentava agarrar a asa, eu sacodi meu braço
sinalizando “Precisamos encontrar o Bigodudo”, o gnomo voador suspirou do jeito
“Mas, mas… Fama”. Meio triste, ele agarrou a perna do abutre, que virou um balanço
de pneu, Pitter me jogou lá e se apoiou no meu ombro.

Então, se você está lendo isso em um pedaço de embalagem de pão, é culpa do Pitter
que não agarrou a asa do abutre, mas releve que, depois que você passa centenas de
parágrafos com uma pessoa, você abre mão de qualquer coisa por ela. Ta, é mentira, é
porque o Bigodudo já tem contrato de imagem por cento e oitenta e oito capítulos.

~ 128 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[75] “Disco” voador


O abutre continuava voando, o céu que antes estava meio cinza por causa da chuva de
jabutis, agora estava mais claro.

Pitter: Ei, agora já podemos falar, certo?


Narrador: Se não pudesse você já falou mesmo, então não faz diferença.

Ali voando nós vimos uma Discoteca – Santa mãe da infamidade, Batman -, o abutre
nos jogou em um tipo de suporte que tinha antes da entrada. Como tinha uns pufes a
queda foi até confortável. Ajeitamo-nos e entramos. É meio complicado descrever o
cenário, então só imaginem como deve ser uma discoteca por dentro.

Em meio ao globo e as luzes piscando, deu para ver o Bigodudo sentado em uma mesa
conversando com o Javali. Aliás, pergunto-me o assunto da conversa relevando que o
Javali não é de falar muitas coisas.

Aproximamo-nos.

Narrador: Alô!

Javali virou-se surpreso, e feliz por me ver. Pulou no meu pescoço.

Javali: Hoooray!
Narrador: Hey, saudades em ver você. Tem 40 capítulas já, né? Ou mais. Que fim você
levou?
Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo.
Bigodudo: Eu estava até agora tentando descobrir o que aconteceu com ele.
Narrador: E o que aconteceu contigo, Bigodudo?
Bigodudo: Longa história. Mas antes, olha ali no bar.

Olhamos em direção ao bar, e todos os personagens secundários – só para seu


entendimento, qualquer um que não for o Pitter é um personagem secundário – que
tinham simplesmente sumido ao longo da história estavam ali.

Bigodudo: Cada um tem uma história interessante par contar.


Pitter: Bacana, a gente pode ir dançar?

Só então que tinha percebido a música que estava tocando: “YMCA”. E vos digo,
ninguém consegue ficar parado quando está tocando essa música. Pitter foi dançar e eu
fui conversar com o elenco coadjuvante.

~ 129 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[76] “No começo, não havia nada” – Parte 1


Chega a ser impressionante o tanto de histórias que personagens secundários têm para
contar. Cheguei no bar da discoteca voadora, eles estavam posicionados ovalmente: O
campones humilde, aquele que tinha roubado o Dumbo, estava de pé, bem ao lado do
Mendigo dos Mares, que estava sentado e com uma lata de “Bom Ar” na mão. Na outra
ponta de pé tinha o Padre, com a mesma cara de Ahab de sempre, a torradeira gigante
dele estava encolhida em um canto, o Samurai estava sentado ao lado deles, não sei se
estava de ressaca dormindo ou se estava olhando concentradamente para o relógio, mas
enfim. Sentado entre o Mendigo e o Samurai estava o Xamã Mercenário que recuperou
meu dom de narrar. Que, aliás, nem sabia o que ele fazia ali, já que deveria estar na
Cidade dos Super-Mercados.

Cheguei na roda, ficando ao lado do Catador Ninja e da Atendente. O grupo estava


discutindo algo sobre teoria da relatividade. Quando você chega, a coisa mais
interessante é já chegar falando do assunto do grupo, para se enturmar. Eu abri a boca
para falar alguma coisa inteligente, mas o Pitter gritou lá do fundo.

Pitter: Ei, por que existe grão de mostarda, mas não existe grão de ketchup?

Olhei para trás sem reação, tentei falar algo para divagar a pergunta dele, mas ele tinha
mais perguntas a fazer.

Pitter: E porque é Coronel Mostarda e não Coronel Barbecue?

Foi ai que eu lembrei que nessa época do ano, se o Pitter fica a uma altitude elevada, a
única coisa que ele pensa é em mostarda. Mas me virei para os secundários.

Narrador: E… aí? Como vão?

A coisa sôou mais tosca do que realmente pareceu, mas ainda não inventaram nenhum
quebra gelo para pessoas que você só narra durante três capítulos cada. Mas eu era o
narrador, tinha que ganhar algum crédito.

Atendente: Olá, bem vindo ao bar Making of.


Narrador: O que vocês tem feito?
Mendigo dos Mares: Diversas coisas, pirralho. Ao contrário do que você pensa, todo
mundo tem uma história por trás da história que você narra.
Narrador: Eu sei disso, mas se a sua história fosse importante você seria o personagem
principal, não?
Mendigo dos Mares: Você acha que minha história de vida não é importante? O que
você tem na cabeça, moleque?

Ela falava enquanto soluçava, e confesso que me assustou um pouco.

Mendigo dos Mares: Muito bem, eu vou te contar minha história de vida.
Atendente: De novo, não.

~ 130 ~
ESTE LADO PARA CIMA

O grupo de secundários se ajeitou da melhor forma possível, o pirata ficou de pé,


arrastou sua perna de piaçava até o meio do grupo, espirrou bom ar nos olhos, que
começaram a lacrimejar, mas sua expressão continou a mesma:

Mendigo dos Mares: NO COMEÇO, NÃO HAVIA NADA!


Atendente: Isso são duas negativas.
Mendigo dos Mares: Tá bom, tá bom… NO COMEÇO, NÃO NÃO HAVIA NADA!
TUDO ERA NADA, E NADA NÃO NÃO EXISTIA!

O que está por vir é empolgante demais, vou cortar o capítulo aqui. A “supimpeza”
dessa história será demais para vossos olhos. Além do mais, essas coisas de parte um e
parte dois sempre faz a coisa parecer importante, e sempre quis fazer isso.

~ 131 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[77] Sete histórias em um capítulo com quatro setes


no título (Abraços aos supersticiosos)
O Mendigo dos Mares até começou a contar a história dele:

Mendigo dos Mares: … quando eu criança eu queria ser bandido, né? Porque meu pai
morreu com um tiro. Eu ero o terror de lá onde eu morava e…

Mas ele já estava bêbado de Bom Ar, e acabou caindo no chão e dormindo. Mas essa
não é a parte supimpa de qual eu vos adverti no capítulo anterior. Cada personagem
secundário contou sua história, igual naqueles seriados de detetive.

Atendente: Eu estava fazendo serviço de tele-marketing em um buteco quando fui


atingida por um pé de pato, e acordei aqui.

As histórias eram quase as mesmas.

Samurai: …!…?
Xamã: Eu estava meditando, acabei pegando no sono e acordei aqui.
Camponês 100% Humilde: Eu tava lá na humildade da comunidade, quando uns
vermes imundos que estavam a poluir minha terra me atacaram com suas espátulas
“azuzes”. Só me lembro de ser carregado por lambaris e acordar aqui.

A torradeira gigante do Padre estava desligada, então não nos atrevemos a perguntar
para ele. O catador Ninja parecia que queria ficar quieto, e como ele tinha falado nada
desde que chegou, preferimos não perguntar.

Bigodudo se aproximou.

Bigodudo: E eu, assim que pulei do navio cai em um cavalo marinho que galopou até
aqui.
Narrador: Ele voava?
Bigodudo: Voava. Era tipo um “Pégasus marinho”.

Pitter veio dançando.

Pitter: Pégasus ajuda o teu cavalei-

Ele parou de cantar porque percebeu que o assunto estava sério.

Pitter: E eu estava voando quando tive que escolher meus amigos ao invés da fama.
Bigodudo: Que bonitinho, amo você.
Pitter: Mas a nossa amizade acabou, sinto muito, morra sozinho.

Foi então que eu levantei o vale-amizade do Pitter.

Narrador: Você esqueceu no navio, sinto muito.


Bigodudo: Como você pôde, Carlos Narrador Daniel?
Narrador: Não é você, sou eu, Maria Bigudoda Leopoldina.

~ 132 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Bigodudo colocou a mão na testa e fez um “Oh!”, que foi interrompido quando o
anfitrião da Discoteca parou a música e subiu a um palco que ali havia.

~ 133 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[78] Revolução dos enlatados


Eu disse para vocês imaginarem como era uma discoteca por dentro, mas agora eu
realmente preciso descrever alguns detalhes importantes. Imaginem um triangulo, em
uma ponta tem um bar, na outra tem cadeiras confortáveis e mesas que fazem parecer
um clube de strip e na outra ponta tem um palco. A discoteca em si era redonda, mas
essa descrição dá pra entender, eu espero.

O anfitrião que tinha subido ao palco era nada mais nada menos que um atum gigante.
Eu confesso que não reconheci de primeiro, só vi atum enlatado na vida, de qualquer
modo ele começou o discurso:

Atum: Olá vocês personagens secundários, eu vim aqui-


Pitter: Alô! Desculpa interromper, mas preciso fazer um aviso de que eu sou o
protagonista.

O atum aguçou os olhos – não precisa tentar imaginar um atum forçando a vista, é
simplesmente ridículo – e viu Pitter.

Atum: O que você faz aqui? E como você é o protagonista?


Pitter: Ah, o nome da história é “Pitter Pan”, deve existir um motivo pra isso.
Atum: A protagonista da história é a ameixa, você é só um golpe de marketing.

Pitter pareceu abalado com isso.

Pitter: Mas, mas…


Atum: Por que você acha que seu nome é tão comum e comercial?

A discoteca agora fazia um silêncio total, e todos ficaram meio mórbidos, exceto o
Atum.

Atum: Enfim, eu vim aqui para contar-lhes sobre o meu plano. Eu juntei todos vocês
aqui, porque é simplesmente muito irado ter uma Discoteca que voa para ficar vazia.

Todos continuaram olhando para o peixe no palco, incrédulos, exceto Pitter, que ficou
remoendo-se.

Atum: MENTIRA! Eu juntei todos os meus familiares para raptarem vocês para por em
prática meu plano… Por muito tempo as pessoas só reconhecem o atum como um peixe
enlatado, e agora chegou a hora de nos revelarmos ao mundo!

O peixe estava fazendo o próprio discurso e entrevistando a si mesmo.

Atum: Mas vocês devem estar se perguntando agora: “Como ele fará isso?” É simples,
eu já comecei a recrutar meus peixes voadores para preparar o local de pouso da minha
discoteca. E vocês devem ser perguntar novamente: “Para que ele está fazendo isso?”
Bem, os peixes-

Foi então que o Catador Ninja, que estava calado até então, gritou:

~ 134 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Catador Ninja: CALADO SER INÚTIL, NINGUÉM ESTÁ PERGUNTANDO


COISA ALGUMA, RECOLHA A SUA VIDA MISERÁVEL NA LATA DE ONDE
VEIO AONDE NINGUÉM LIGA PARA VOCÊ OU PARA A SUA CARA DE
PAMONHA!

Ele tinha uma voz fina, parecia que falava o tempo todo em si sustenido, quatro
oitavas acima (se você não entende, só imagine uma voz bem fina). O Atum parecia que
tinha se enfezado.

Atum: Como você ousa falar assim comigo?

Uma horda de diversos peixes – atuns, lambaris e piranhas basicamente – invadiram o


local. Eu sei que a palavra “horda” é referente a uma tribo de nômades, mas se levarmos
em conta que esses peixes nunca estão no mesmo lugar, eles podem ser considerados
nômades, certo?

O Atum vestiu um paletó – parecia agora mais um pinguim do que um atum –, o palco
se elevou e ele gritou:

Atum: BOOOOOMBA!

E os peixes que estavam nos cercando gritaram respondendo, como se fosse um


código:

“Para dançar isso aqui é bomba!”

E vieram para o ataque.

~ 135 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[79] O começo do apocalipse


O samurai logo ficou no centro dos peixes, colocou uma faixa na testa e retirou uma
peixeira para atacá-los. Eles davam peixadas em todos nós, eu até tentava revidar, mas
não conseguia. O resto dos personagens secundários estava bêbado demais para lutar,
exceto o Samurai, que estava atacando as piranhas de um modo geral e não cafetão.

O resultado dessa luta foi um monte de personagens secundários derrotados, uma


matança de piranhas, um Samurai com a mesma cara quadrada de sempre, Pitter mais
deprimido e lambaris e atuns dançando polka em cima de bêbados.

Atum: Vitória!

Eu estava escondido atrás do balcão do bar, o Atum gigante apertou um botão escrito
“Apertar em caso de vitória dos peixes”, que ficava do lado de um botão “Apertar caso
o impossível aconteça”, a criação desses botões me deixou confuso: Se ele achava
impossível que os peixes perdessem, para que criar o botão?

Assim que ele apertou, tocou uma sirene, e desceu um televisor perto do palco, que
ainda estava levantado. No televisor mostrava a parte debaixo da discoteca, e
começaram a chover atuns.

Deu para ouvir um grito vindo lá da margem do oceano, que parecia do Capitão
Óbvio:

Capitão Óbvio: PRIMEIRO JABUTIS... AGORA ISSO? O QUE VOCÊ QUER DE


MIM, DEUS?

Depois que eu conheci Deus em pessoa, ou melhor, em forma de ave, eu nunca mais
comentei de religião com ninguém, achei que Deus ficaria no lugar dele, Jesus fazendo
mágicos dele e a vida fluiria novamente, mas nunca pensei que o avestruz lavador de
copos realmente um dia fosse se encher de tanto usarem o nome dele.

Vendo pela câmera que mostrava a parte debaixo da discoteca, deu para observar um
arco-íris chegando até perto do Capitão - os ursos polares ninjas da África estavam
invisíveis, obviamente. Acho que Deus ia descer do arco-íris, mas a chuva de atum
começou a cair bem onde ele estava.

É meio estranho imaginar isso, mas suponha que você se intitulado Deus (ou tem um
apelido assim por causa do seu nome), e comece a chover atum na sua cabeça...

Bom, enquanto isso acontecia, o Atum gigante estava simplesmente observando tudo.

Atum: O que... O que está acontecendo ali embaixo?

Antes que ele gritasse para alguém, a porta da discoteca arrebentou, e Jesus apareceu.

Jesus: Eu voltei.

~ 136 ~
ESTE LADO PARA CIMA

E não é que “Jesus voltará”, mesmo? Ele não estava mais com cara de bêbado, entrou
correndo na discoteca colocando todos os peixes para dormir e- Preciso fazer uma pausa
aqui, trocadilhos com peixes cansaram já.

~ 137 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[80] Favor levar esse capítulo puramente na esportiva


“É sério, se você tem uma religião e acha que vai se ofender,
simplesmente pule esse capítulo.”

A discoteca estava com os personagens secundários bêbados, os peixes dormindo e


Jesus pronto para atacar o atum.

Atum: S-s-s-senhor, eu... Eu não sabia.

Eu aprendi muita coisa quando pequeno sobre religião, mas aquelas coisas que
aconteciam de modo literal ofendiam minhas crenças (se bem que depois de tudo que eu
tinha passado já não tinha mais crença em muita coisa).

Jesus pensou em fazer algo, mas hesitou. Logo depois Deusarininson entrou na
discoteca, ele carregava um enorme tridente nas costas e estava pronto para jogar no
Atum. Jesus percebendo aqui logo o acalmou.

Jesus: Pai perdoa porque não sabem o que fazem


Deus: “Sabem” o quê? É só uma pessoa, não se usa plural.
Jesus: É que eu li isso em algum lugar, achei que seria oportuno falar isso.

Deus apontou o tridente para o Atum gigante. Parecia que seria a batalha mais épica,
personagens secundários, peixes, Deus-pavão e um Atum gigante. De repente, um
personagem que estava quieto por muito tempo gritou.

Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo.

O lavador de copos abaixou o Tridente, foi no bar, pegou uma garrafa – não consegui
ver a marca e não to com vontade de fazer marketing gratuito – e saiu. Deu para ver
pelo televisor que ele desceu e deu um sermão no Capitão Óbvio, e logo depois
recuperou o navio dele e reencheu a banheira que era o oceano (ou o oceano que era
banheira, tanto faz).

E como esse capítulo teve narração demais, o Atum cortou o silêncio.

Atum: Quer dizer que então, existe um deus?


Narrador: Na verdade...

Eu até pensei em falar, mas depois me calei.

Pitter: Eu sou apenas um golpe de marketing?


Bigodudo: Ei.

Ele ainda estava meio sonolento, mas parecia sóbrio.

Bigodudo: Que tal descermos daqui? Você pode ficar com o resto dos personagens
secundários.

~ 138 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Acho que quando falou isso ele esqueceu que o Samurai ainda estava acordado, mas a
expressão quadrada dele parecia não se importar com o que foi dito. Ou isso ou ele tinha
olhado com toda a fúria do mundo, mas não dava para diferenciar, preferi entender o
que me convinha.

~ 139 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[81] Lá se foi o disco voador


“Um resumo para quem pulou o capítulo anterior: O Atum gigante se
converteu e ficou amiguinho, o Javali reapareceu, o Bigodudo acordou e
estávamos prestes a pousar a discoteca. E óbvio, o Capitão Óbvio recuperou o
navio dele”.

A discoteca pousou.

Atum: Eu queria me desculpar por tentar provar que os atuns são uma raça superior,
aprendi a lição de que não se pode jogar a verdade na cara das pessoas. (nem na cabeça)
Pitter: Golpe... De marketing?
Narrador: Tá, cuide bem desses bêbados aí

Bigodudo me puxou de lado.

Bigodudo: Hey, você acha que vai ter uma concorrência entre o bar de Deus e a
discoteca do Atum?
Narrador: Não sei, só sei que “Disco” voador e Deus serão sempre duas coisas
polêmicas.

O atum gigante veio me abraçar e acabou apertando a Saída de Emergência, que piou
alto (não sei como, já que ela não tem bico).

Atum: O que é isso?


Narrador: Ah, é só uma dessas patas com cara de saída de emergência.
Atum: Posso ficar com ela?

Assustei-me quando ele disse isso. E Pitter ainda estava murmurando “Golpe de
marketing” silabicamente.

Narrador: Por que eu faria isso?


Atum: Para eu ter como recordação.
Narrador: E o que eu ganho em troca?

A Saída de Emergência deveria ter ficado ofendida com isso, mas ela nem demonstrou
reação. O atum gigante tirou um enorme saco de bacon do paletó, que fez Pitter
esquecer a depressão dele. Não sei se vocês lembram, mas Pitter estava com um tapa-
olho e um chapéu mexicano, ele jogou o chapéu para cima e gritou “ARIBA”. Depois o
peixe pegou a Saída de Emergência de mim e entrou na discoteca, que saiu voando.

Pitter estava feliz comendo o bacon dele quando para e olha pra mim.

Pitter: Ah é, não sabia que você batia em piranhas.


Narrador: O que você quer dizer com isso?
Pitter: Nada, mas eu vi você batendo em piranhas lá em cima.
Narrador: Piranha... O peixe.
Pitter: E seria o que mais?
Narrador: Nada, eu preferia você deprimido.

~ 140 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Pitter, Javali, Bigodudo e eu continuamos andando, nem nos demos ao trabalho de


procurar o Capitão Óbvio, que já devia estar longe.

~ 141 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[82] Era meia noite, o requeijão vencido perseguia


nossos heróis...
Andamos muito tempo pela margem de um riacho, que logo nos levou para perto da
Cidade dos Super-Mercados. Já estava escurecendo e o cheiro da chuva de atum estava
passando. Pelo que eu me lembre na minha experiência de narrador, éramos para chegar
à tribo dos gramofones, mas acho que ela ficou perdida em algum lugar, porque fomos
direto para o cemitério dos produtos vencidos.

Bigodudo: Eu acho que deviamos esperar amanhecer antes de passar por aqui.
Pitter: Não tema, o meu dedão do pé valente está aqui.

Ele tirou o pé pra fora e apontou o dedo na cara do Bigodudo (foi na minha, porque o
tapa-olho o fazia ficar estrábico, mas eu jamais contrariaria alguém que está te
apontando o dedão do pé).

Pitter: Viu? Agora vamos adiante!

Pitter colocou o pé de volta ao seu tênis, fazendo as luzinhas piscarem.

Javali: HORAY!

É realmente complicado entender essa criatura, mas o grito dele tinha uma motivação
única. Logo apareceu um pote de requeijão vencido vindo em nossa direção. Com o
susto começamos a correr na direção oposta ao alimento zumbi, e caímos em uma
armadilha. Era um buraco enorm, não dava para ver coisa alguma, era um simples
escuro e uma ponta de luz que vinha de cima. Dava para ver alguns vultos se
aproximando do buraco, parecia que o requeijão tinha se juntado com a manteiga e o
iogurte vencido.

Pitter: E agora, o que faremos?


Bigodudo: A gente podia jogar 21.

Bigodudo tirou um baralho do bolso e foi distribuindo cartas. Começamos o jogo, eu


estava com um rei, um dois e um três. Bigodudo entregou mais uma carta para Pitter,
que assim que analisou as cartas gritou:

Pitter: Truco!
Bigodudo: ...
Narrador: ...
Javali: Horay!
Bigodudo: Pitter, você sabe jogar 21?
Pitter: Não é aquele que tem que fazer pares?
Narrador: Espera. Aonde que o “truco” entra nisso?

Como jogar 21 não deu certo, decidimos tentar fugir.

~ 142 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[83] Plano de fuga


Pitter ficou de olho no movimento do requeijão, da manteiga e do iogurte, enquanto
Bigodudo, Javali e eu pensávamos em um jeito de sair dali.

Pitter: Eles estão parados e olhando para cá.

Enquanto isso os alimentos vencidos deviam estar discutindo alguma coisa também.

Requeijão: Eles estão parados, um deles está olhando para cá.

Começamos a olhar pelas paredes do buraco em que estávamos, quando eu notei uma
frase familiar “Siga as joaninhas”, indiquei para o Bigodudo.

Bigodudo: O que isso deve dizer?


Javali: Horay, bem-vindos ao-

Antes mesmo que o Javali concluísse seu raciocínio um enorme buraco foi-se feito na
parede, e dele saíram joaninhas do tamanho de hipopótamos, que foram em para o lado
oposto que vieram, e fizeram outro buraco na parede.

Bigodudo: A gente podia entrar por esse buraco.


Narrador: Nossa! Que ideia genial, que bom que você está aqui, jamais pensaria nisso.
Pitter: A gente podia também ir pelo buraco de onde as joaninhas vieram?
Bigodudo: E quem seria louco de fazer isso?
Pitter: É uma lógica, amigo. Encontramos as Joaninhas Gigantes na caverna dos
letreiros digitais, lá pela meia dúzia de capítulos iniciais, e depois lá no cassino
subterrâneo do seu tio, é de se imaginar que por aqui vai nos levar ao começo da
história.
Narrador: E desde quando você consegue guardar mais de 12 parágrafos de
informações no seu cérebro?
Pitter: É que eu comprei uma caixa para guardar as minhas memórias.

Então eu notei que já tinha um tempo, Pitter estava com um caixote amarrado em sua
cintura e nele estava escrito “Memórias do Pitter”.

Bigodudo: Então vamos nos dividir.


Pitter: Boa ideia.

Dividimos-nos em dois, literalmente. E como uma metade de alguém não sobrevive


sozinha, afinal uma perna e um braço só não conseguem ficar de pé, tivemos que nos
juntar um ao outro. Minha parte direita se juntou com a esquerda do Pitter, a direita dele
se juntou com a esquerda do Bigodudo, a direita deste se juntou com a esquerda do
Javali, e a que sobrou você consegue fazer as contas. A única coisa que não se dividiu
foi o baixo do Pitter, que ficou com a parte direita dele.

Tá, é meio complicado de imaginar, então vou facilitar as coisas:

~ 143 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

PARTE DIREITA PARTE ESQUERDA RESULTADO


NARRADOR PITTER NATTER
PITTER BIGODUDO PIDUDO (COM O BAIXO)
BIGODUDO JAVALI BIGOVALI
JAVALI NARRADOR JARRADOR

Agora ficou mais fácil, e como eu estarei em ambos os lugares conseguirei narrar tudo
o que acontece, o detalhe é que cortar uma pessoa ao meio e junta-la com outra pessoa
cortada ao meio afeta a personalidade, não sei se você já fez isso.

Então agora você tem dois narradores, Natter, eu com o Pitter, e Jarrador, eu com o
Javali. Dividirei os capítulos para melhor compreensão (e logo que começar, você
entenderá o motivo de dividir por “Positivo” e “Negativo”).

~ 144 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[84] A lenda de Natter/Pidudo e a fuga dos alimentos


vencidos
Positivo
Para facilitar sua leitura, dividirei os capítulos pela parte que está narrando, eu sou a
parte direita, Natter, então metade da minha personalidade incrivelmente fantástica
contém traços da personalidade do grandioso líder Pitter. Não é como se ele fosse narrar
também, afinal só eu tenho esse dom, mas conforme eu conto a história vocês
entenderão o que eu quero dizer com “afetar a personalidade”.

Assim que nos dividimos iríamos cada dupla para um lado, só não sabíamos qual ia
para cada lado.

Pidudo: Vamos resolver isso de um jeito democrático.

Pidudo pegou quatro palitos iguais e pediu para cada um tirar um. Cada um foi lá e
pegou um palito, e depois tentou comparar com o palito do outro. Como minha
maravilhosa mente disse antes, eram iguais.

Natter: Qual a vantagem de pegar palitos iguais?


Pidudo: É fácil, ó. Você olha para eles e... Pronto.

Pidudo ficava olhando para o palito dele.

Pidudo: Descobri que eu faço dupla com o Bigovali.


Bigovali: Horay, vamos nessa.
Natter: Espera aí, você só ta falando de fazer dupla com ele porque ele tem a outra
metade da sua personalidade.
Pidudo: E...? Ele não tem nada de nenhuma de suas personalidades, então porque você
se incomoda?
Natter: Mas, mas... Porque você não faz comigo?
Pidudo: Hein?
Natter: Eu tenho metade da sua personalidade.
Pidudo: E daí?
Natter: Você me considera somente um golpe de marketing também?

Não entendia a minha carência, mas realmente não agüentava ver a outra parte do
Pitter simplesmente me abandonar assim, a parte ruim era não saber se toda essa
carência era da minha personalidade de Narrador, ou da minha personalidade de Pitter.

Jarrador resolveu intervir.

Jarrador: Bem-vindos, pelo que eu entendi cada um ficou com metade das
personalidades de cada um.
Bigovali: Horay, isso deveria ser meio óbvio já que nos dividimos em dois.
Natter: Mas por que parece que eu estou com a personalidade só do Pitter e o Pidudo

~ 145 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

com a personalidade só do Bigodudo?


Bigovali: Veja bem, você quando se misturou com o Pitter, juntou a maravilhosa
amizade de vocês-
Natter: Calado! Você só fala assim porque tem ciúmes, já que eu recuperei o vale e
você ficou sem a ameixa!
Pidudo: É mesmo! Você precisa então recuperar a minha ameixa!
Bigovali: Horay!
Jarrador: Calma lá! Vamos cada um para um lado para fugir dos alimentos zumbis, e
depois a gente vê isso quando estiver cada personalidade em seu devido personagem.
Natter: Ué? Daonde vem o seu bom senso?
Jarrador: Não sei, acho que por dentro de todos os “Horays” do Javali existia uma
sabedoria que jamais entenderíamos.

Negativo

Bem-vindos ao capítulo 84 negativo. Na metade do capítulo anterior, estávamos


justamente tentando decidir qual dupla iria para cada bifurcação.

Bigovali: Enfim, eu vou por onde as joaninhas foram.


Pidudo: Eu... Não sei. Parte de mim teve a ideia de ir por onde elas foram, mas parte de
mim teve a genial ideia de ir por onde elas vieram.
Jarrador: Bem vindos, cada narrador tem que ir para um lado, senão, não teria sentido
em dividir-nos.
Natter: Eu vou por onde as joaninhas vieram.

Obviamente eu iria por onde elas foram, Bigovali logo decidiu em ir comigo, mas o
Pidudo não sabia qual decisão tomar, e relutante – acho que não teria nenhuma opção
por qual ele não ficasse feliz e triste ao mesmo tempo – foi junto com o Natter. Eu devia
ter impedido-o, colocar minha outra metade de personalidade junto com o Pitter inteiro
e metade do Bigodudo não seria boa coisa, mas fui com o Bigovali seguir as joaninhas.

~ 146 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[85] Buracos feitos por joaninhas são vermelhos e


com pintas pretas. Sério.
Positivo
Pidudo e eu começamos a andar pelo túnel feito pelas joaninhas que levava até o
começo da história.

Pidudo: Ei, o que você acha que vamos encontrar quando chegarmos do outro lado do
túnel?
Natter: O começo dele.

Continuamos andando, mas o túnel era extenso e fedia a limão com PVC.

Negativo
Horay, bem vindos ao capítulo 85 negativo. Bigovali e eu andávamos pelo enorme
caminho criado pelas joaninhas, dava para ouvi-las abrindo um buraco na terra ainda.

Jarrador: Bem vindos, eu estava pensando... Agora que temos a personalidade do


Javali poderíamos entender o que aconteceu com ele e com o Dumbo.
Bigovali: Horay, falar nisso o Dumbo sumiu, não?
Jarrador: É. E não só ele, o requeijão já deveria estar atrás de nós.
Bigovali: Tem razão, melhor continuar andando.

~ 147 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[86] A luz no fim do túnel


Positivo
Pidudo (entendam que tenho muito medo de errar na hora de escrever o nome dele) e
eu andamos heroicamente e enfim, chegamos ao começo do túnel. Tudo parecia mais
esperançoso, a vida parecia ter sentido, estávamos no capítulo 4 – que foi a primeira
aparição das joaninhas.

Pidudo: Nossa, nós viajamos no tempo, agora podemos alterar a história e-


Natter: Pára de se empolgar.
Pidudo: Mas... O passado é agora!
Natter: Você não entendeu? Essa história está usando todos os clichês possíveis.
Pidudo: E daí?
Natter: Você tem ideia do que é narrar um clichê?
Pidudo: Credo, só chora você... Desde o começo da história reclamando. Eu to sem
ameixa e não falei nada.
Natter: Se você não falou nada, você falou alguma coisa.
Pidudo: Hein?
Natter: São duas negativas.
Pidudo: Eu to aqui, com duas personalidades não tão inteligentes me esforçando para
não falar “menas”, falar apenas duas negativas é uma vitória.

Uma parte de mim concordou, mas me senti meio insultado... Meio no sentido de
metade.

Natter: Agora que já voltamos, podemos voltar?


Pidudo: Isso está certo?
Natter: Contextualmente falando, sim. Além do mais, você tem moral zero para me
questionar.
Pidudo: Você está com metade da personalidade “protagonística”, merece ser
questionado o tempo todo.
Natter: E você está com metade da personalidade secundária.
Pidudo: O Narrador também é personagem secundário, ta?
Natter: Mas eu sou narrador também, é um cargo de mais importância.
Pidudo: Minha vó também me conta histórias e não é considerada importante.
Natter: Exatamente, só um preenchedor de fila de INSS que narra que é importante.
Pidudo: Você está insultando minha vó?
Natter: Não sei. Se for a vó por parte do Pitter, não.
Pidudo: Não seja por isso, eu vou te mostrar minha vó e quero ver você falar isso na
cara dela.

Pidudo me arrastou para procurarmos a avó dele, o detalhe é que estávamos na “Não
deixe de visitar isso com seus parceiros de aventura ;D”, então teríamos que arranjar um
jeito de voar. Embora eu também fosse dotado de habilidades incríveis (em todos os

~ 148 ~
ESTE LADO PARA CIMA

sentidos, quem quiser é só pedir meu número, só gatas) era o baixo que dava ao Pitter
habilidade de voar. Agarrei-me nele e saímos voando, parecia até o capítulo 15 (favor
reler).

Negativo
Horay, bem vindos ao capítulo 86 negativo, eu sei que cansa ler isso toda hora, mas é
mais forte do que eu. Bigovali e eu alcançamos as joaninhas e chegamos a uma sala que
parecia um laboratório, tinha aqueles símbolos de coisas nucleares na parede e estava
escrito “Centro de Testes de Zumbis”, tinha um computador quebrado e um buraco em
um lugar aonde deveria ter uma porta. As joaninhas deveriam ter passado por ali, mas
depois os rastros desses seres gigantes simplesmente sumiam.

Bigovali: É realmente presumível que haveria um centro de testes de Zumbis embaixo


de um cemitério.
Jarrador: Isso foi normal na década de 70.

Procuramos em uma mesa capotada por ali alguma arma ou algo que servisse como.
Eu achei um desentupidor e o Bigovali - Horay!- achou um bote de sabonete líquido,
exatamente as armas de que precisávamos. Adentramos pelo buraco em uma sala
escura, onde só dava para ouvir o grito dos zumbis.

(Nota para a posterioridade: Presumimos que os zumbis seriam apenas alimentos


vencidos, já que era embaixo de um cemitério dos mesmos. Dica clichê universal,
jamais confie na sua expectativa por alimentos zumbis).

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A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[87] Tem um buraco em sua alma que gosta de um


animal
Positivo
Voamos, e logo chegamos na “casa” da avó do Bigodudo.

Pidudo: Aqui, a maravilhosa casa da minha avó.


Natter: Você sabe que isso é um asilo, né?
Pidudo: Quem disse que isso é um asilo? Eu jamais, e quando eu digo JAMAIS eu
quero dizer quase nunca, colocaria minha avó em um asilo.

Acho que a personalidade de Pitter estava ofuscando a visão dele, sorte minha que eu
havia ficado com a genialidade de Pitter e- Mentira, Pitter não tem genialidade nenhuma
na verdade... Não, sério, preciso confessar, Pitter é um gênio nato, ele sabe exatamente
o que faz, não acharia pessoa melhor para ser líder dos Parceiros de Aventura.

Tá, não confabularei sobre a personalidade alheia, não vai dar certo.

O asilo estava velho – assim como as pessoas que estavam dentro, HÁ! (Meu Deus,
perdão por isso, não sei de onde surgiu esse humor negro) – mas o lugar estava caindo
aos pedaços, as paredes estavam rachadas.

Natter: Bom, vamos entrar e conhecer sua avó.


Pidudo: Você perderá seu emprego de narrador, já aviso.

Enquanto adentrávamos ao abrigo, minha brilhante mente não tinha pensado na


possibilidade do que estava por vir. Mas, uma coisa de cada vez. Primeiro eu tinha que
falar com a atendente, e sim, aquela que ao mesmo tempo, no capítulo 4, nos atenderia,
não quero entender como ela estava nos dois lugares ao mesmo tempo, mas agora tinha
chegado a hora da minha vingança, como ela sempre tinha sido arrogante comigo
Narrador, agora eu tinha uma parte Pitter, que ela sempre respondera e respeitara.

Atendente: Ei, eu conheço vocês de algum lugar, não?


Pidudo: Dos seus sonhos, pedaço de céu.

Puxei o Pidudo de canto.

Natter: O que foi isso?


Pidudo: Isso o quê?
Natter: Não sei, to tentando decidir qual foi pior: “dos seus sonhos” ou “pedaço de
céu”...

Deixe o Pidudo de lado, sabe lá de onde ele tinha tirado aquela tara por atendentes de
repente.

~ 150 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Natter: Desculpa pelo meu amigo é que-


Atendente: Ele é seu amigo?
Natter: Só metade dele, mas não vamos entrar no mérito da questão.
Atendente: Certo. O que o senhor deseja?
Natter: Você.

Acho que isso era algum mal do Pitter – mal não isso é bom, algo nessa história toda
tem que dar em cima de mulher, pelo amor... O resultado da cantada eu não vos
informarei, ela totalmente caiu na minha, mas eu achei melhor não, começar um caso
amoroso em um asilo é um tanto quanto tentador, eu e ela provavelmente somos almas
gêmeas (parte protagonista, ou golpe de marketing como alguns preferirem, da minha
personalidade), mas nosso amor era impossível, ela era uma mera personagem
secundária, e eu sou uma mistura de narrador com personagem. De qualquer modo, vou
pular para a parte que nós falamos apenas dos negócios, extremamente profissionais:

Atendente: ...e acho melhor você sair antes que eu te processe.

E foi com essa frase que saímos do asilo, por sorte.

Pidudo: E agora? Tem mais alguma ideia?


Natter: Ideia o quê? Quem queria visitar a avó era você.

E como se não fosse “sorte demais”, a avó dele passa bem na nossa frente chupando
cana, empinando pipa e descendo escada – era uma escada de rodinha, então ela levava
para onde podia.

Pidudo: Olha, mas se não é a minha avó favorita.

Negativo
Horay, bem vindos ao capítulo 87 negativo. A sala era escura, as luzes ficavam
piscando, então de vez em quando dava para ver a sala inteira, ela tinha paredes de
azulejo, um gira-gira e uma horda de zumbis. A parte engraçada é que esses zumbis
ficavam cada vez mais próximos toda vez que a luz piscava. Bigovali tentou jogar
sabonete neles, mas não deu tempo, fomos cercados, e logo fomos levados como
prisioneiros.

~ 151 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[88] A partir de agora, só capítulos positivos. E sim,


isso foi um trocadilho.
O Pidudo teve que correr atrás da avó dele, e por sorte alcançou-a.

Vó de Bigodes: Já disse que não te quero mais Ernesto!


Pidudo: Não vó, sou eu: o teu neto.
Vó de Bigodes: Acompanha fritas?

A avó dele parecia realmente não entender, então ele subiu na escada dela para ficar
mais próximo. Minha mente genial processou rapidamente o que já tinha que ter
pensado um capítulo atrás, o Bigodudo não estava com cara de Bigodudo, ele estava
com cara de Pitter com um meio Bigode e meia sombrancelha que parece uma taturana,
então a avó dele só poderia chegar a uma conclusão:

Vó de Bigodes: Socorro, esse jovem aproveitador de velhas quer jogar gamão comigo.

Ela cuspiu cana nele, chutou-o e fugiu na escada. Pidudo se levantou.

Pidudo: Poxa, nossa família era tão unida.


Natter: E agora? Vamos voltar?
Pidudo: É uma boa, eu quero ter minha personalidade por inteira logo
Natter: Nós podiamos juntar o Pitter e ficaríamos separados apenas nós dois.
Pidudo: Não, o Pitter inteiro e nós dois juntos não daria certo.

Foi a primeira vez que concordamos. Então voamos de volta a entrada do buraco das
joaninhas e fomos procurar nossas outras metades.

E o final do capítulo parecer uma letra de samba foi sem intenção.

~ 152 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[89] Patatovas!
Chegamos à entrada e começamos a andar em direção ao futuro, em via de voltar ao
capítulo oitenta e quatro e depois seguir direto para o noventa onde reencontraríamo-nos
e voltaríamos ao normal, cada um na sua devida personalidade. Já estávamos andando
por onde seria mais ou menos o capítulo sessenta e quatro – eu bravamente notei que
tinham algumas marcações nas paredes, aparentemente para as joaninhas não se
perderem – quando a minha outra personalidade inteligente fez uma brilhante
observação.

Pidudo: “Patatovas”!
Natter: ... Primeiro defina essa palavra.
Pidudo: Ah, é que eu queria inventar uma palavra que demonstrasse espanto e patos ao
mesmo tempo.
Natter: E por que patos? Você tem aquela Anatidaefobia?
Pidudo: Mãe de quem?
Natter: Essa palavra aí que eu falei antes, é um medo de ver patos em todo lugar,
achando que está sendo perseguido por eles e etc.
Pidudo: Ah não, tenho isso não.
Natter: É de se pensar... Misturou a personalidade brava, “liderativa” e genial do Pitter
com a do Bigodudo e gerou você, vai que se criou uma fobia no meio.
Pidudo: Duvido muito.
Natter: Mas enfim, a que se deve o seu espanto.
Pidudo: Se nós estamos voltando ao capítulo onde nos separamos... É bem provável
que encontraremos o requeijão vencido lá.
Natter: É... E daí?
Pidudo: O plano original não era fugir?
Natter: Mas a gente desistiu dele para ir ver a sua vó.
Pidudo: Ah é. E agora?
Natter: Agora nós continuamos andando até chegarmos ao buraco que estávamos,
encontrarmos os outros dois, torcemos para eles estarem vivo, voltamos a nossas
devidas personalidades e vamos atrás de uma nova ameixa.
Pidudo: Que plano genial.
Natter: Eu sei, eu sei.

Parece que finalmente nossas personalidades superiores e que pensam similarmente


estavam mais fortes.

~ 153 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[90] Repeite o código dos escoteiros


Chegamos ao buraco que tínhamos caído inicialmente, ele estava com as paredes
pintadas, com vários enfeites, purpurina, lantejoulas e no buraco que as joaninhas
tinham feito na parede, onde Jarrador e Bigovali tinha ido, estava com uma faixa escrita
“Seu umbigo nada mais é do que um porta-dedo-mindinho”.

Pidudo: E agora? O que faremos?


Natter: Hm... Nós entramos e procuramos por eles, que tal?
Pidudo: Mas, pode ser uma armadilha.
Natter: E por que seria?
Pidudo: Código de escoteiro: Quando tem “mindinho” e “umbigo” na mesma frase, é
porque é uma armadilha.

Ignorei-o e continuei andando, parece que a genialidade dele começou a ficar escassa.
Assim que entrei no buraco ele veio atrás, era um corredor escuro, iluminado apenas por
uma luz negra que estava porcamente presa ao teto.

Chegamos ao final do túnel e estávamos em uma sala de dentista.

Pidudo: Eu disse que era uma armadilha! Eles nunca me pegarão!

Oh meu deus, DENTISTA?! GRWAH!

~ 154 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[91] Um momento de reflexão


Agora já estou inteiro, com nada afetando minha personalidade, Narrador de novo, e já
explicarei como isso aconteceu. Antes, só queria fazer uma rápida observação: Logo no
começo da história, Pitter é taxado apenas como simpatizante do homossexualismo –
afinal é uma história sem preconceitos – e enquanto eu e o Bigodudo tínhamos metade
da personalidade dele, nós demos em cima da Atendente. Não que isso fosse impossível
de nossa personalidade... Na verdade era, somos covardes, mas se o Pitter deu em cima
dela, ou ele na verdade é o cara mais homem da história, ou a Atendente que é.

Acho que prefiro ficar sem entender.

Prossigamos com a história.

~ 155 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[92] Se um golfinho tiver o dobro do tamanho dele,


seria ele um golfo?
Desmaiei de pavor de dentista devido à personalidade do Pitter. Quando acordei,
estava em um daqueles tubos de cientista, cheio de formol. Abri o olho – apenas um, na
água/formol, o que ardeu demais – estava em uma sala de cientista, do meu lado tinha
um tubo com Pitter, do outro um com Bigodudo e ao lado do Bigodudo, Javali. Olhei
que tínhamos sido remontados com super-bonder. A sala inteira estava com enfeites,
lantejoulas, purpurina, pinturas nas paredes e faixas de aniversário.

Tentei pressionar o vidro, mas não tinha muito efeito, sem opções, tirei um aríete –
meu chaveiro – e furei o vidro. Fui esvaziado junto com o formol, me levantei e quebrei
o vidro do Bigodudo e do Javali, que estavam desacordados, mas nada que uma queda
brusca no chão para mudar isso.

Bigodudo: Você podia ter sido mais gentil.


Narrador: Foi mal, mas foi a primeira vez que eu fiz isso, ainda estou aprendendo.

Quando me direcionei ao vidro do Pitter, ele acordou, os olhos dele abriram e ele
começou a agonizar de dor, por causa do formol. Quebrei o vidro e ele pulou para fora.

Pitter: ARGH! TEM UM VERME NO MEU OLHO! COMO ARDE.

Ele gritava desesperado.

Pitter: SÉRIO CRIATURA, VAI NASCER UM SASCI DISSO. ARGH!

Ele se jogou no chão e começou a se debater.

Narrador: Tá bom, onde estamos? Como viemos parar aqui?


Bigodudo: Não sei, toda essa história de dividir minha mente confundiu. Pelo que eu
entendi a gente foi visitar minha avó, que já está tão velha que parece um zumbi, e ela
nos atacou e estamos aqui.
Narrador: E eu to lembrando alguma coisa sobre sermos processados por sofrermos
assédio por um desentupidor e um sabonete líquido ou coisa do tipo.
Javali: Horay, bem vindos ao cassino 12º Andar Negativo.

Pitter parecia que tinha melhorado, ajeitou o tapa-olho e entrou na conversa.

Pitter: E eu tenho uma vaga lembrança sobre dar uma cantada na avó de alguém.
Narrador: Que seja. Acho que o mais importante é lembrar como viemos parar aqui.
Bigodudo: Bom, ou minha avó aprisionou-nos aqui, o que explicaria o formol, ou os
zumbis o fez.
Narrador: Ou fomos processados e presos por sermos assediados.
Bigodudo: Mas isso não faria sentido, afinal, seriamos vítimas nessa situação.

Ouvimos um grunhido.

~ 156 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Pitter: Patatovas, são os zumbis!


Bigodudo: Ainda não descarto a possibilidade de minha avó ser um zumbi.
Narrador: E agora?
Javali: Horay!
Bigodudo: Ficar aqui pode ser perigoso.
Pitter: Por quê?
Bigodudo: Porque tem zumbis, oi?
Pitter: E o que eles vão fazer? Zombar de nós?
Bigodudo: Não, eles vão te comer.
Pitter: Em qual sentido?
Bigodudo: No sentido zumbi da coisa sabe? Enfiar uma pinça na sua orelha, chegar até
o seu cérebro, desfiá-lo todo, comê-lo, depois com um apagador poluir sua cara com
tinta de quadro branco, então passarão manteiga e enviarão pelo correio como carta
social.
Pitter: Ah, eu duvido. Zumbis em um laboratório científico não devem ter selos.

A sala onde estávamos tinha apenas uma porta, então elaborar uma fuga teria de ser
complexa.

Pitter: Ei, tive uma ideia.


Narrador: Não.
Pitter: Por quê?
Narrador: Porque eu já estive na sua mente e sei que envolve alguma coisa com nariz
de palhaço e uma bola de praia.
Pitter: Nem envolve, é uma ideia elaborada. Você narrou que tinha que ser uma fuga
complexa e eu acho que tenho a solução
Narrador: Eu ainda acho que-
Pitter: Você não acha nada. Eu sou o líder e eu que mando nessa bagaça!
Narrador: Quem foi que-
Bigodudo: Não, sinto muito amigo narrador, mas ele usou a palavra “bagaça” e isso
concede a ele autoridade máxima por quatro linhas e meia a partir de... agora!

Narrador: Pronto, eu estava pensando...


Bigodudo: Não, só agora que vale... Eram quatro linhas e meia.
Narrador: Deixa-me falar logo meu plano!
Pitter: Vai, conta logo.

~ 157 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Narrador: A gente arrebenta a porta com meu aríete e sai correndo.


Bigodudo: Essa era a sua ideia inteligente?
Narrador: É um plano em desenvolvimento.
Pitter: Eu tenho uma ideia complexa aqui.
Bigodudo: Blasfêmia!
Pitter: Ué? Você não estava do meu lado?
Bigodudo: Não é isso. É que ideia hoje em dia nem acento tem mais, logo é impossível
ela ser complexa.
Pitter: Quem liga?
Narrador: Enfim, conte seu plano.
Pitter: Pegamos esses chapéus de festa, colocamos na cabeça, batemos na porta e
quando os zumbis entrarem fazemos um trenzinho até a saída e fugimos.
Bigodudo: Parece uma boa ideia.
Javali: Horay!
Narrador: É... Pois é.

~ 158 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[93] A história da serpente


Ficamos na porta esperando o ataque, já tínhamos nos equipado. Pitter era a infantaria,
eu ia logo atrás desarmado, Javali era o suporte que tínhamos, carregando meu aríete e
Bigodudo que nos direcionava. Começamos a correr, Pitter chutou a porta, abrindo uma
sala cheia de zumbis. Hesitei, criando uma distância entre mim e Pitter, mas logo tomei
coragem, coloquei minhas mãos nos ombros dele, e assim fez o Javali, colocando as
patas nos meus ombros e Bigodudo nos ombros dele. Começamos:

“Essa é a história da serpente, que desceu o morro para procurar o pedacinho do seu
rabo!”

Os zumbis vieram em nossa direção - eram zumbis clássicos. Nessa pausa da música
percebi o quão enorme a sala era e tinha várias mesas de laboratório. Quando os zumbis
estavam se aproximando, apontamos para um deles e logo gritamos.

“HEY! VOCÊ AÍ! VENHA FAZER PARTE DO MEU RABÃO!”

Ele ficou perdido, mas logo se juntou ao nosso trenzinho e continuamos a correr,
cantar e dançar. Nós quatro não tínhamos tempo para conversar, então ficamos
rodeando a sala esperando o Pitter nos direcionar até uma saída.

O trenzinho já estava cheio de zumbis. Tudo corria muito bem (sério, leia a frase de
novo, o trocadilho de “correr” foi genial, admita), até que Pitter tropeçou em um pé de
abacate que tinha perdido por ali e a fila inteira caiu. Levantamo-nos e já saímos
correndo dos zumbis.

Narrador: Pitter, como você não viu o pé de abacate ali?


Pitter: Como eu ia imaginar que ia ter um pé de abacate ali?
Narrador: Você está em um laboratório de zumbi, queria o quê?

Nisso o Bigodudo nos alcançou – ainda corríamos.

Bigodudo: Eu não sei se vocês sabem, mas essa uma fábrica de tênis clandestina.
Pitter: Quer dizer que eles substituíram a mão de obra infantil por mão de obra zumbi?
Narrador: Bom, acho que zumbi não tem muito direito à vida, né?

Estávamos correndo pelo enorme corredor que ficava entre as mesas, e dava para ver
uma saída no final dele. Quando estávamos chegando perto, vários zumbis lotaram a
saída. Foi então que Javali fez algo inesperado: Ele colocou uma ushanka e começou a
dançar a polka. Os zumbis o acompanharam na dança e Bigodudo, Pitter e eu pulamos
pela saída.

Era um tobogã elevador que passava por três andares. No primeiro, ele lavava,
jogando água e sabão, no segundo, enxaguava, com mais água, e no terceiro, ficava em
círculo umas três vezes, secagem rápida, UAU! E logo depois fomos cuspidos para o

~ 159 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

cemitério. Já tinha amanhecido, e o requeijão estava aberto e jogado perto de uma


lápide. Não havia nem sinais da manteiga e do yogurte.

Pitter: Ei, o Javali foi-se para sempre?


Bigodudo: Ele está em um lugar melhor agora.

Eu só conseguia imaginar o Javali dançando polka pelo resto da vida e produzindo


tênis. De qualquer modo, parecia que ele tinha nascido para isso, dava para ver na cara
dele. Ajeitei meu chapéu de foca na cabeça, Pitter amarrou seu tênis de luzinha e ajeitou
seu baixo nas costas – de ponta-cabeça – e Bigodudo coçou o bigode.

Pitter: Ei, já que essa cena parece um comercial de absorvente, que tal cantarmos uma
música?

Ele começou a cantar:

Pitter: Absorvente é legal / Absorvente é bacana / Só tem uma utilidade / Que é tampar
a sua cabana.
Narrador: Sério Pitter, existe uma genialidade na sua mente que o mundo jamais
compreenderá.
Pitter: Mesmo?
Narrador: Mesmo. E quando eu digo “jamais”, eu quero dizer “nunca”.

~ 160 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[94] O Banjo e a Lichia


Já estávamos para sair da cidade, quando passamos perto da caverna onde morava a
Loja de Som ermitã, Pitter nos parou.

Pitter: Ei, já tem uns sessenta capítulos de dúvidas na minha mente. Afinal, por que nós
tínhamos que ir falar com a Loja de Som?
Narrador: Para eu perder minha voz, ganhar uma pata com cara de saída de
emergência e depois escalarmos um arco-íris para recuperarmos minha voz.
Pitter: Mas isso não é motivo suficiente.
Bigodudo: Na verdade é.
Pitter: Lógico que não. Se alguém te falar “dá uma estrelinha enquanto fuma um
charuto cubano” você não ia perguntar o motivo?
Bigodudo: Eu não fumo.
Pitter: Mesmo assim, tudo na vida tem que ter um motivo.
Narrador: Ué, eu não conhecia essa parte curiosa sua, Pitter.
Bigodudo: Mas, Pitter, pensa: Se você resolver não enfiar um “por que” em tudo o que
acontecer, a pressão das coisas diminui e você vive melhor.
Pitter: Quem quer viver melhor? Se eu não souber o porquê das coisas eu jamais serei
bom em palavras-cruzadas.
Bigodudo: Tá bom.
Narrador: Como assim? “Tá bom”?
Bigodudo: Tá bom, ué? Quando as coisas estão boas as pessoas costumam falar isso.
Narrador: Mas, mas... Você não vai relutar e expor seu ponto de vista?
Bigodudo: Não. Eu acho o motivo dele muito nobre e repeito isso. Eu voto por irmos
investigar aquela caverna de novo.
Narrador: Tá bom.
Bigodudo: Ué? Cadê a relutância por “expor o ponto de vista”?
Narrador: Vocês são a maioria. E eu não consigo voar, e logo teria de esperar o Pitter
de qualquer modo.

Fomos até a caverna, mas entramos por onde saímos da última vez, para evitar o
tobogã. Quando estávamos chegando perto da Loja – dava para ouvir-la gritando –
decidi parar.

Narrador: Pensando bem, eu acho que vou ficar por aqui mesmo.
Pitter: Ué? E quem vai narrar o que acontecer?
Narrador: Vocês me contam depois.

Bigodudo e Pitter entenderam a minha hesitação. Eles adentraram a caverna escura,


ouvi uns gritos, vidros quebrando, e uns cinco minutos depois eles voltaram, Pitter com
um banjo amarrado ao baixo dele, de forma certa (o banjo, não o baixo) e Bigodudo
com uma árvore de lichia.

~ 161 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Narrador: Alguma explicação?


Bigodudo: É uma longa história.
Narrador: Longa história? Mas vocês não ficaram lá nem mais que sete minutos e
meio.
Bigodudo: A história é muito maior do que o fato social em si.

De repente eu ouvi uma vaia.

Narrador: E o que foi isso?


Pitter: Alguém te vaiando.

E eu ouvi outra.

Narrador: Tá, vamos sair daqui, depois vocês me contam.

Fomos tateando o caminho de volta, e chegamos à luz do dia. Pitter andava fatigado
por carregar o banjo e o baixo.

Pitter: Então, depois que nos separamos de você, tomei a liderança e chegamos até a
Loja. Joguei um arpão nela, mas ela virou meu bote, depois investiu contra meu barco,
que começou a afundar. Em um ato suicida lancei meu arpão, e acabei afundando ao
oceano junto dela. Bigodudo sobreviveu ao ataque, ele estava em um dos botes
destruídos e conseguiu se agarrar a um caixão e-.
Narrador: Você ta parecendo aquele padre. Isso é Moby Dick?
Bigodudo: É. Pitter leu enquanto estávamos lá na caverna.
Narrador: E desde quando ele sabe leitura dinâmica?
Pitter: É que-
Narrador: Aliás, desde quando você sabe ler?
Pitter: Ei! Eu tenho minha educação básica.

Vaiaram-me novamente.

Pitter: Eu ganhei bolsa de estudos para o ensino fundamental.


Narrador: Existe isso?
Pitter: Eu ganhei em uma rifa.
Narrador: Tá bom, tá bom. O que aconteceu lá?
Bigodudo: Eu explico.
Narrador: E favor descrever os minutos, quero ver como vocês conseguiram fazer tudo
isso em pouco mais de 5 minutos.
Bigodudo: Certo. Primeiro minuto: Eu e Pitter nos aproximamos da loja. No segundo
minuto colocamos um miojo para cozinhar. No terceiro: Pitter começou a ler o final de
Moby Dick. No quarto minuto: Nós quebrados os vidros e Pitter pegou o banjo. No
quinto: Fui ver o miojo e tinha uma árvore de lichia no lugar. Corremos para fora e te
encontramos.
Narrador: E afinal? Por que a Cida pediu para irmos lá?
Bigodudo: Porque tinha um filhote de dinossauro lá com um bilhete “sou o último de
minha espécie, alimente-me”.

~ 162 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Narrador: ... UM “DINASSAURO”?


Bigodudo: Não, dinossauro.
Narrador: É que eu escrevi errado. Mas mesmo assim, por que não o pegou?
Bigodudo: Ele parecia estar feliz lá.
Narrador: Ah é. E as vaias de antes. Quem era e qual o motivo?
Bigodudo: É que as lichias também são chamadas de uruvaias.
Narrador: Ah, tá explicado, agora posso dormir em paz.

Começamos a andar rumo ao hotel onde havia o décimo segundo andar negativo, foi
só então que reparei que o lugar não tinha nome, só o cassino clandestino dele.

~ 163 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[95] O fim de um sonho


Bigodudo: Ei. Ainda precisamos achar minha ameixa.
Pitter: Ah, larga a mão. Já conseguimos umas três ou quatro ameixas e perdemos todas.
Bigodudo: Mesmo assim, temos que continuar tentando, senão a viagem toda será em
vão.
Pitter: De acordo com minhas memórias, ainda falta o hotel onde tem o cassino do seu
tio, e se sairmos voando direto passamos pelas cavernas dos letreiros digitais e logo
estaremos em casa. Eu não quero mais parar para o que for.
Bigodudo: Mas, se pararmos de procurar pela ameixa, teremos que mudar o nome da
história.

Foi então que andamos mais um pouco e achamos uma barraca de frutas inusitadas.
Bigodudo jogou a lichia para longe e correu para a barraca, lá tinha várias frutas
fosforescentes, de diversos formatos dos mais maliciosos até o “Tenha seu retrato em
forma de fruta”.

Pitter: Olha Bigodudo, alguém teve o seu estúpido sonho primeiro e tem uma barraca
cheia de frutas inusitadas.
Bigududo: É Pitter, eu percebi.
Pitter: Mesmo que você tentasse a sua vida, morasse e nascesse de novo você nunca
chegaria a essa nível.
Bigodudo: Pitter, eu estou em um momento de dor aqui! Fica quieto!

Ficamos observando a barraca até que uma figura se mexeu atrás, um indivíduo meio
que familiar. Antes que conseguisse identificar, Bigodudo pulou no meio da barraca
com os pés direcionados a testa do proprietário das frutas. Só depois que o ser de
bigodes já estava alisando a perna dele e cantando ula-ula que eu decidi separar. Eu
poderia descrever como foi a cena do reencontro com aquele ser, mas vou apenas
escrever a fala dele e vocês presumem todas as emoções envolvidas:

Taxistas: DEZENOVE E OITENTA!


Bigodudo: Você?!
Taxista: Eu?
Bigodudo: Por que você virou um feirante de frutas inusitadas?
Taxista: É uma história muito legal.
Bigodudo: Legal é minha mão na sua cara. Você destruiu meus sonhos.
Pitter: Ignore os sonhos dele, conte sua história.
Taxista: Bom, depois que perdi com o Dumbo para o cão navalha, fomos viajando sem
rumo, então encontramos um homem com um caminhão de frutas fosforescentes,
dizendo que tinha acabado de cortar os pés de ameixa, goiba, caqui, fruta do conde,
maçã e vinho tinto fosforescentes. Ele me ofereceu tudo aquilo em troca do Dumbo,
falou que ia fazer uma sequencia para o filme dele ou coisa do tipo.
Narrador: Ah, mas e o Dumbo, como estava?

~ 164 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Taxista: Ele perdeu a personalidade de Dumbo Mal do Leste e foi com o cara de livre e
espontânea vontade.

Apenas Pitter tinha observado uma coisa.

Pitter: E por que tudo custa dezenove e oitenta na sua barraca?


Taxista: Para compensar a perda que eu tive com vocês. Já era difícil ter dois braços
direitos, e depois tomar um calote e perder meu único segundo braço direito? Foi uma
dor e tanto e... Aceitam um chá?

Eu e Pitter aceitamos, mas Bigodudo ainda estava desolado. Problema foi dele, o chá
estava bom.

Narrador: Mas então, nós estamos quites, certo?


Taxista: Sem dúvida. Só de saber que eu estraguei os sonhos do seu amigo já
compensou qualquer calote ou braço perdido.
Pitter: Aliás, seu braço me serviu muito bem.
Taxista: Por favor, não me diga o que você tem feito com ele.
Pitter: Ah, relaxa que eu sou canhoto.

Bigodudo ainda estava de cara fechada e resmungando baixinho, quando o taxista se


lembrou de algo importante:

Taxista: Ah, me lembrei de algo importante.


Narrador: O quê?
Taxista: O Dumbo escreveu uma carta para vocês.
Narrador: Ele sabia escrever?

O taxista nos entregou a carta, estava meio amassada e tinha perfume de groselha.
Bigodudo se aproximou para lê-la.

O que estava escrito mudou todas as minhas crenças e me deixou por um e noventa e
oito minuto impressionado, abismado e excitado ao mesmo tempo. Então, acho justo
que a carta do Dumbo mereça um capítulo próprio.

~ 165 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[96] A carta de Dumbo


Caros convivas,

Eu sei que não fui um bom amigo elefante voador, mas a verdade é: Eu nunca fui
um elefante voador. O “Dumbo” foi apenas um experimento, eu sou na verdade um dos
hamsters que regem esse universo.

Tudo é muito complexo para eu explicar nesta carta, mas em resumo: No centro
do planeta existem cinco hamsters que ficam correndo em uma roda enorme que rege o
universo. Fui enviado para testar os humanos, porque pretendemos subir do centro da
terra e escravizá-los para que eles corram pelas rodas do universo (assim como elas
são chamadas).

Isso significa que um dia desses nós ainda nos encontraremos, juro que não
usarei chicotes em vocês, nem os obrigarei a usar roupas de couro.

Abc,
Hamster que estava no Dumbo

~ 166 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[97] Comentários sobre o final trágico do Dumbo


Pitter: O que seria “convivas”?
Taxista: Pelo que eu entendi, é uma gíria para “amigos”.
Bigodudo: E ‘abc’?
Taxista: Deve ser alguma abreviação para “abraços” escrita errada.
Narrador: Isso quer dizer que nós nos isentamos de marca registrada e outros
processos?
Taxista: Para isso, acho eu, que vocês têm que mudar o nome dele na história.
Narrador: “Dumbus”, que tal?
Bigodudo: Criatividade é uma dádiva.

~ 167 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[98] O ano que o Brasil perdeu a Copa


O taxista ficou nos olhando perplexo.

Taxista: Vocês não estão nem um pouco abismados com o fato de vosso companheiro
ser um hamster em um robô elefante voador?
Bigodudo: Como poderíamos? Ele tocava “New York New York” pelas orelhas, não dá
pra acreditar em alguém desse tipo.
Taxista: Vocês sabiam o tempo todo?
Pitter: Eu não. Eu acreditei em tudo o que ele disse.
Bigodudo: Tudo o quê? Ele teve no máximo três falas a história inteira.
Pitter: Mas... Eu conheci a mãe dele e o sindicato dos Dumbos Homossexuais.
Narrador: Bom... Ignorando a incoerência, afinal, que fim levou o Dumbo? Você disse
que o trocou por essa barraca com alguém que filmaria o segundo filme dele.
Taxista: Isso é verdade. O hamster me contou toda a verdade-
Bigodudo: Te contou? O Hamster fala?
Taxista: Mais ou menos, ele falava em castelhano.
Pitter: Ele era indiano?
Narrador: Ãhm?
Pitter: É. Ele disse que o hamster falava a língua das castas e-
Bigodudo: É Pitter... Ele era um hamster indiano. Continuando a história, diz aí-
Pitter: Então ele era um porquinho-da-índia, certo?
Bigodudo: Apenas ignore. Continua a história.
Taxista: Então, ele me disse que na verdade tinha terminado sua missão e que estaria
voltando para o centro da Terra. Logo fizemos um acordo, achamos esse cara que queria
o Dumbo, eu dei a carcaça para ele, peguei a barraca, e cada um foi para seu canto.

Bigodudo até pegou uma xícara para tomar chá.

Taxista: Então, vão querer comprar alguma fruta?


Bigodudo: Eu vou querer uma ameixa fosforescente.

O taxista feirante entregou a fruta pro Bigodudo, que pegou a ameixa e abraçou-a.
Depois olhou para Pitter e eu.

Bigodudo: Escuta, eu sei que eu tinha combinado de trocar a ameixa pelo Pitter, mas é
que isso é o único pedaço que sobrou do meu sonho de ser feirante.
Pitter: Tudo bem. Nós não precisamos ser amigos. Você já tem a sua fruta roxa, eu sei
que você será muito feliz com ela.
Bigodudo: Obrigado, Pitter.
Narrador: Espera lá, você que tinha preconceito contra cenas românticas e
homossexuais agora está trocando palavras amorosas com o Pitter?
Bigodudo: É por causa de pessoas preconceituosas como você que o mundo de hoje em
dia tem uma mente fechada.

~ 168 ~
ESTE LADO PARA CIMA

Taxista: São dezenove e oitenta.


Narrador: Ó, tá claro desde o meio do capítulo 5 que nós íamos te dar um calote.

Deixamos as xícaras lá, levantamos e fomos andando, ignorando a gritaria do taxista.


E continuaríamos ignorando, se não fosse por um detalhe: vinte policiais pularam sobre
nós, nos algemaram e nos levaram em cana. Não sei como não tínhamos visto, mas
tinha uma delegacia colossal do lado da barraca do taxista.

~ 169 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[99] “Minha lente caiu no trem”


Estávamos amarrados a uma cana de açúcar dentro de umas das celas da delegacia.
Não reparei muito no caminho até lá, mas passamos por um enorme corredor que fedia a
legumes, e ficamos amarrados cada um em canas diferentes, mas dava para conversar
um com o outro gritando. A sala era pequena, e só havia nós três como presos.

Bigodudo: Sério que eles acham que a piadinha “em cana” tem graça?

Pitter estava perto do Bigodudo, confortavelmente abraçado com a cana e falando


coisas românticas para ela.

Narrador: Sério mesmo que o Pitter está cantando a cana na qual ele está amarrado?
Bigodudo: Pensa bem, pelo menos ele não vai reclamar se tomar um “caldo”.
Narrador: Ué? Desde quando você usa gíria de surfista?
Bigodudo: Eu tenho um passado obscuro.

Olhei em volta e reparei que tinha várias canas de açúcar para prender os presos, e as
paredes eram feitas de abóboras.

Narrador: Que prisão mais bizarra.


Pitter: Aqui deve ser uma cadeia alimentar.

De repente, a parede perto de nós explodiu. Era uma moto que havia caído dos céus e
aberto o buraco na parede.

Bigodudo: O que foi isso?!


Pitter: Acho que é um “Cometa Harley”.
Narrador: Mesmo assim, como vamos fugir?
Bigodudo: Larga a mão de ser idiota. Você está amarrado a uma cana.

Bigodudo simplesmente envergou a cana e se soltou. Como não pensei nisso? Fiz o
mesmo. O difícil foi convencer o Pitter de que a família da cana não ia deixar eles se
casarem.

~ 170 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[100] Primeiro dia fora da cadeia estadual


O buraco por onde fugimos dava a um campo aberto, na parte de trás da delegacia, era
um bosque imenso, e tinha uma trilha paralela a que estávamos usando antes de sermos
presos, então era bem útil.

Bigodudo: Agora vamos ver meu tio.


Narrador: Seu tio?
Bigodudo: É. Já tive meus sonhos destruídos, agora vou ver se ele me arranja um
emprego. Continuar os negócios da família.

Pitter estava calado, com saudades de sua amada cana. Continuamos andando e logo
achamos um touro mecânico.

Pitter: Olha, um amiguinho touro, nós podíamos montar nele para irmos mais rápido.
Narrador: Vai lá, você é o líder.
Pitter: Hm.

Pitter deu um passo, mas hesitou.

Pitter: Eu sou o líder. Então eu ordeno que você monte nele.

Poupando discussões, me aproximei do touro mecânico, apoiei uma mão no lombo


dele e fui montá-lo, mas ele se levantou e me derrubou.

Touro Mecânico: O que vocês pensam que vão fazer?


Pitter: Nós iamos montar em você, poxa vida.

Eu ainda estava me levantando e tirando a sujeira do meu chapéu.

Touro Mecânico: E por que vocês fariam isso?

O touro tinha uma voz rouca.

Bigodudo: Bom... Você é um touro.


Touro Mecânico: E daí? Não perceberam que eu sou um touro mecânico.

Demorei a entender, mas logo percebi que ele tinha um macacão jeans e por baixo
uma camisa pólo, segurava discretamente uma chave de fenda em sua mão direita.

Touro Mecânico: Então se vocês tiverem um veículo para consertar, eu sou o cara.
Pitter: Touro.
Touro Mecânico: É, isso. Força de hábito.
Narrador: Então, nós precisávamos-

Interrompi minha frase, ele se virou bruscamente para olhar pra mim, já que eu estava
atrás dele. Me olhou da cabeça as pés, e depois para minha cabeça de novo. Seus olhos
brilhavam, ele se ajoelhou enquanto acariciava minha cabeça.

~ 171 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Touro Mecânico: Eu adoro focas.

Ele não parava de alisar minha cabeça.

Narrador: Então, como eu ia dizendo. Nós quatro - eu, o bigode de nós todos, o gnomo
e a foca – precisávamos chegar até um hotel que fica no final desse bosque.
Touro Mecânico: Por que não me avisou logo, “foquinha”?

Ele parecia estar hipnotizado. Segurou Bigodudo e Pitter, que fez um enorme esforço
para proteger o baixo, com um braço e me apoiou em seu ombro. Correu pelo bosque
inteiro e nos deixou no final dele.

Narrador: Obrigado, a foca não tem modos de agradecer.

Ele colocou Pitter e Bigodudo no chão e ainda me segurava na palma de sua mão.

Touro Mecânico: A foca podia vir morar comigo, não?


Narrador: JAMAIS!

Pulei da mão dele e corremos para a civilização. Entramos direto no hotel e fechamos
a porta, por precaução, já que nem havíamos olhado para trás.

Bigodudo: Estamos dando calote até em carona de touro. Talvez nós realmente
merecêssemos ir para a cadeia.

Entramos no elevador, e fomos para o décimo segundo andar negativo, bateu uma
nostalgia do Javali, mas ele foi um bravo herói em nos salvar, então só tínhamos boas
memórias dele.

~ 172 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[101] Salvar pessoas, caçar coisas. Negócios da


Família
Chegamos ao décimo segundo andar negativo, a recepção estava um pouco diferente, e
quando eu digo “um pouco diferente” me refiro a uma estátua de baleia no meio dela.

Pitter: Que lindo enfeite.


Bigodudo: Enfeite?
Pitter: É, essa baleia aí.
Bigodudo: Não, isso geralmente é colocado para avisar quando o cassino está
interditado.
Narrador: Quer dizer que todas as vezes vocês têm que colocar a baleia aí só para
avisar que o cassino está interditado?
Bigodudo: Todas às vezes não, só quando ele estiver interditado.
Narrador: Uma placa não seria mais eficiente?
Bigodudo: Para um povo que só fala “Horay, bem vindos ao cassino do décimo
segundo andar negativo”?

Contornamos a estátua e fomos direto para a sala do tio do Bigodudo, dessa vez
ninguém tentou nos impedir nem nada, já que falamos “Tomate-seco” para um javali
que estava na entrada. Chegamos lá, o tio-javali estava deitado na tábua de passar.

Tio-Javali: Vocês voltaram, enfim. Como foi a viagem? Cadê meu pupilo Javali?
Bigodudo: Então, é uma longa história.
Tio-Javali: Vai contando.
Bigodudo: Nós o perdemos.
Tio-Javali: E...?
Bigodudo: E mais nada.
Tio-Javali: Mas você não disse que era uma longa história?
Bigodudo: Queria só fazer drama. Ele ficou em um cemitério dançando com zumbis.
Tio-Javali: Hm. Sabia que ele tinha vocação para isso. Meu sobrinho, se aproxime,
tenho coisas a te contar.
Bigodudo: O cassino está passando por uma crise.
Tio-Javali: Exato. Como soube?
Bigodudo: Pela baleia enorme lá fora.
Tio-Javali: Sabia que aquela baleia era uma ideia genial. Então, eu gostaria de saber se
você quer trabalhar comigo.
Bigodudo: Adoraria.

Bigodudo se virou para Pitter e eu.

Bigodudo: Algum problema para vocês se eu ficar aqui?


Pitter: Nenhum. Você não é nosso amigo, mesmo.
Bigodudo: Ah é, esqueci desse detalhe.

~ 173 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

Pitter: Onde é a saída mesmo?


Bigodudo: Acompanhem-me.

Bigodudo nos levou até a saída, fomos por um elevador diferente do qual viemos.

Bigodudo: Até mais.

Estávamos saindo, quando Pitter parou, tirou uma palheta do bolso, entregou ao
Bigodudo e só então fomos embora.

Era só Pitter e eu de novo.

Narrador: Sabe Pitter, legal isso de você ter dado a palheta para ele. Não sabia isso de
você.
Pitter: Isso o quê?
Narrador: Que você tinha uma palheta.
Pitter: Pois é, eu sempre carrego comigo, mas nunca uso.
Narrador: E pelo que eu notei você nem sabe tocar o baixo direito.

~ 174 ~
ESTE LADO PARA CIMA

[102] Esse é o penúltimo capítulo da história. Dessa


vez é sério.
Montei em Pitter e saímos voando a caminho de casa. Passamos pelas cavernas dos
letreiros digitais e logo depois já estávamos na rua de casa. Ele pousou em frente à
soleira e eu logo pulei na frente.

ANTES QUE VOCÊS PROSSIGAM QUERO FAZER MINHA CONSIDERAÇÃO FINAL.


GERALMENTE, O FINAL DAS HISTÓRIAS TENDE A ESTRAGAR A HISTÓRIA POR
COMPLETA. S E VOCÊ PREFERE TERMINAR A HISTÓRIA AQUI, MELHOR QUE SEJA,
ALGUMAS HISTÓRIAS FICAM MELHORES SEM FINAL.

SE VOCÊ CONTINUAR, A HISTÓRIA TEM TRÊS FINAIS DIFERENTES, MAS NESTA VERSÃO
VOCÊ SÓ TEM DIREITO A UM FINAL, E OS EXTRAS (ACREDITE, EXISTEM ) TAMBÉM NÃO
ESTÃO INCLUSOS:

[103-A] O FINAL PARA QUEM ASSISTIU NOS CINEMAS


[103-B] O FINAL PARA QUEM COMPROU O DVD
[103-C] O FINAL PARA QUEM BAIXOU (I)LEGALMENTE DA INTERNET

~ 175 ~
A LENDA DE PITTER PAN E A AMEIXA FOSFORESCENTE

[103-C] O final para quem baixou (i)legalmente da


internet
Bati na porta de casa, Vontade veio atender.

Vontade: Até que enfim moleque!


Narrador: Nós tivemos que fazer uma rápida parada no meio do caminho.

Dava para perceber que estava brava comigo, mas ela não era sempre assim. Eu não
tinha mãe, então era gentil da parte dela em cuidar de mim. Nunca reclamei de Dona
Vontade, embora ela sempre reclamasse de mim.

Eu já ia entrando, e Pitter vinha logo atrás, quando de repente...

~ 176 ~