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ESCOLA BÁSICA DA VENDA DO PINHEIRO

PORTUGUÊS
FICHA DE AVALIAÇÃO – 8.º ANO
2016/2017 Prof.ª Sílvia Rebocho

 Utiliza apenas caneta ou esferográfica de tinta azul ou preta.


 Responde a todas as questões na folha de resposta, de forma correta e completa.
 Não é permitido o uso de corretor. Deves riscar aquilo que pretendes que não seja
classificado.

Grupo I

Lê o texto. Se necessário, consulta o vocabulário.

Gémeos de 85 anos vão navegar até morrer e procuram tripulantes

Velhos lobos do mar, dois irmãos dos Estados Unidos, querem fazer a viagem das suas
vidas, num veleiro com três mastros

Os gémeos Van e Carl Vollmer têm, aos 85 anos, um invulgar projeto de vida: partir
oceano fora, a bordo de um veleiro de três mastros, no que eles acreditam que será a sua
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5 maior e derradeira viagem. O plano é ir, sem regresso. Chegado o momento, os seus corpos
deverão ser lançados ao mar, para aí ficarem “com os peixes até ao fim dos tempos”, como diz
Van, o mais expedito2 dos dois.
Velhos lobos do mar, literalmente, os Vollmer vivem há muito num barco de 12 metros,
ancorado numa doca de City Island, Bronx, Nova Iorque. Para trás ficaram décadas de vida em
10 terra, no bairro de Williamsburg, Brooklyn, e de trabalho em carpintaria e em pequenas viagens
costeiras, para entrega de barcos alheios em marinas da costa leste dos Estados Unidos.
Agora os gémeos Vollmer sonham ir mais longe e, claro, tudo pode não passar disso
mesmo, mas, como diz Carl, citado no site de notícias Patch, “para se cumprir um sonho,
primeiro é preciso ter um”.
15 O deles é ambicioso, e não apenas nas lonjuras que se propõem navegar com a sua
idade, porque entre a intenção e a viagem ainda há três milhões de dólares (2,634 milhões de
euros) em falta. É isso que custa o Peacemaker, um veleiro de 48 metros e três mastros
mandado construir nos anos de 1980 por um industrial brasileiro, que Carl encontrou à venda, e
lhe pareceu perfeito para a aventura.
20 A compra estará iminente, garante Van Vollmer que já começou a recrutar a futura
tripulação. Foi para isso que os gémeos distribuíram por toda a Brooklyn, no início do mês,
posters com os dizeres: “Comandante de Brooklyn procura tripulação”.
Nos papéis impressos que colaram pelas paredes e enfiaram em caixas de correio do
exigente bairro nova-iorquino, os gémeos explicam que estão à procura de “12 homens e
25 mulheres bem constituídos para uma viagem de dois anos à volta do mundo, a bordo de um
veleiro de três mastros e 48 metros”, com “partida provável a 31 de agosto”. Como requisitos,

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os futuros tripulantes “não precisam de ter experiência [de mar]”, lê-se no anúncio, que pede
especificamente pessoas com conhecimentos de mecânica, um cozinheiro, um especialista em
nutrição, um cientista ou ainda alguém experiente em sistemas aquapónicos3 para produzir
30 legumes em aquários. Em troca, eles prometem “a maior experiência de uma vida”. [...]
Cabe a Van, que esteve na marinha dos Estados Unidos na juventude, escolher os futuros
marinheiros, e é também ele que diz ter um amigo, cujo nome não revela, mas que a repórter
da Patch diz chamar-se Felix, que vai avançar o dinheiro para a compra do veleiro.
[...] Se tudo se passar como os gémeos esperam, a viagem arranca no final do mês,
35 primeiro a caminho da Florida, e depois, via canal do Panamá, até ao Havai, Austrália e mais
além, canal do Suez, Mediterrâneo, uma ou outra ilha grega...
Van Vollmer é o mais entusiasta da aventura. Carl alinha de bom grado, vê-se como o
responsável pela segurança, teve o treino da guerra da Coreia na qual combateu, “mas se não
acontecer”, diz ele, sereno, não é nada de mais. “Só não mudo de estilo de vida”.

Diário de Notícias, disponível em http://www.dn.pt/globo/interior/gemeos-de-85-anos-vao-navegar-ate-morrer-e-


procuram-tripulantes-4747466.html (consultado em 17-12-2016)

VOCABULÁRIO
1. derradeira: última.
2. expedito: desembaraçado.
3. aquapónicos: relativos ao sistema de aquaponia (cultivo de plantas em aquários).

Responde às perguntas que se seguem, de acordo com as orientações dadas.

1. As afirmações apresentadas de A. a E. referem-se a informações do texto.


Escreve a sequência de letras que corresponde à ordem pela qual essas informações
surgem no texto.

A. A maior parte das viagens feitas pelos irmãos foram curtas e ao longo da costa dos
Estados Unidos, país onde moram.

B. Para integrar a tripulação do veleiro, os dois irmãos procuram pessoas com


conhecimentos em áreas distintas e espírito aventureiro.

C. O sonho dos dois irmãos é grandioso, não só pelo objetivo final, mas também porque a
sua realização implica custos monetários muito elevados.

D. O plano de Van e Carl é fazerem uma última viagem, da qual não regressarão, pois
desejam ser sepultados no mar.

E. A compra do veleiro é quase uma certeza, mas, se não se concretizar, os irmãos não
pretendem mudar o seu modo de viver.

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2. Para responderes a cada item (2.1. a 2.3.), seleciona a opção que permite obter uma
afirmação adequada ao sentido do texto.
Escreve o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

2.1. Com a expressão “lobos do mar” pretende-se caracterizar os dois irmãos como
A. marinheiros já velhos e cruéis.
B. marinheiros já velhos e solitários.
C. marinheiros já velhos e com muita experiência.
D. marinheiros já velhos e com gosto pelo perigo.

2.2. A palavra que permite substituir “iminente”, sem alterar o sentido da expressão “A
compra estará iminente” (linha 20), é
A. proeminente.
B. assegurada.
C. próxima.
D. prevista.

2.3. Na linha 36, as vírgulas são usadas para


A. separar os elementos de uma enumeração.
B. delimitar o vocativo.
C. delimitar o modificador apositivo do nome.
D. anteceder conjunções coordenadas.

3. Identifica o referente do pronome “que” (linha 18).

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Grupo II

Lê o texto. Se necessário, consulta o vocabulário.

Hoyle nunca casara e, numa terra para ele estrangeira, não tinha família e as suas raras
amizades eram pouco íntimas. [...] Para ele, Hans era a sua nova possibilidade, o destino outra
vez oferecido, aquele que iria viver por ele a verdadeira vida, que nele, Hoyle, estava já
perdida, como se o destino, tendo falhado os seus propósitos, fizesse, com uma nova
5 mocidade, uma nova tentativa. Assim, Hans era para ele não o herdeiro daquilo que possuía e
fizera, mas antes o herdeiro daquilo que perdera. Por isso seguiu passo a passo os estudos e a
aprendizagem do adolescente, controlando a qualidade do ensino nas escolas onde o
inscrevera e vigiando a competência dos superiores, sob cujas ordens, a bordo, o colocava.
Aos 21 anos, já Hans era capitão de um navio de Hoyle e homem de confiança nos seus
10 negócios.
Assim, desde muito cedo, Hans conhecera as ilhas do Atlântico, as costas de África e do
Brasil, os mares da China. Manobrou velas e dirigiu a manobra das velas, descarregou fardos e
dirigiu o embarque e desembarque de mercadorias.
Respirou o arfar dos temporais e a imensidão azul das calmarias. Caminhou em
15 grandes praias brancas onde baloiçavam coqueiros, rondou promontórios e costas desertas,
perdeu-se nas ruelas das cidades desconhecidas, negociou nos portos e nas fronteiras. [...]
Quando estava já passada a sua primeira mocidade, um dia, à volta de uma das suas
viagens, Hans encontrou o inglês doente. O mal atacara os seus olhos, e a cegueira avançava
rápida.
20 – Hans – disse ele –, estou velho e cego, já não posso tratar dos meus barcos, dos
meus armazéns, dos meus negócios. Fica comigo.
Hans ficou. Deixou de ser empregado de Hoyle e tornou-se seu sócio. Sentado em
frente da pesada mesa de carvalho, recebia os comerciantes, os chefes dos armazéns e os
capitães de navio. As suas narinas tremiam, quando no gabinete entravam gentes vindas de
25 bordo. Porque deles se desprendia cheiro a mar. A renúncia endurecia os seus músculos. À
noite relatava a Hoyle as conversas que tivera, as decisões que tomara. Depois bebiam juntos
um copo de vinho.
A vida de Hans mais uma vez tinha virado. Já não eram as longas navegações até aos
confins dos continentes, o avançar aventuroso ao longo das costas luxuriantes 2 e de costas
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30 desérticas, de povo em povo, de baía em baía. Agora verificava a ordem dos armazéns, o bom
estado dos navios, a competência das equipagens 3, controlava as cargas e descargas, discutia
negócios e contratos. As suas viagens iam-se tornando rápidas e espaçadas.
E Hans compreendeu que, como todas as vidas, a sua vida não seria a sua própria vida,
a que nele estava impaciente e latente 4, mas um misto de encontro e desencontro, de desejo
35 cumprido e desejo fracassado, embora, em rigor, tudo fosse possível. E compreendeu que as
suas grandes vitórias seriam as que não tinha desejado, e que, por isso, nem sequer seriam
vitórias. [...]

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Associado ao inglês, Hans começou a construir uma fortuna pessoal que nunca tinha
projetado. Era um homem de negócios hábil, porque se apercebia da natureza das coisas e da
40 natureza das pessoas e negociava sem paixão. A fortuna não era nem a sua ambição nem a
sua aventura nem o seu jogo e nela nada de si próprio envolvia. Enriquecia porque a sua
perceção e os seus cálculos estavam certos.
Algum tempo depois, casou com a filha de um general liberal 5, que desembarcara no
Mindelo6 e cuja espada, mais tarde, transitando de herança em herança, se conservou na
45 família.
Escolheu Ana porque tinha a cara redonda e rosada e cheirava a maçã, como a
primeira mulher criada e como a casa onde ele nascera, e porque o seu loiro de minhota lhe
lembrava as tranças das mulheres de Vig 7.
Pouco antes do seu casamento, Hoyle morrera, e Hans fundara a sua própria firma, cuja
50 prosperidade8 crescia. Era agora um homem rico e também respeitado e escutado. A sua
honestidade era célebre e a sua palavra era de oiro.
Parecia estar já inteiramente integrado na cidade, onde, quase ainda criança, vagueara
estrangeiro e perdido. Conhecia um por um os notáveis do burgo 9: ele próprio agora era um
dos notáveis do burgo. Amava o rio, o granito das casas e calçadas, as enormes tílias inchadas
55 de brisas, as cameleiras de folhas polidas, que floriam desde novembro até maio.
E foi no tempo das últimas camélias (vermelhas, pesadas e largas) que nasceu o seu
primeiro filho.
“Saga” in Sophia de Mellho Breyner Andresen, Histórias da Terra e do Mar.
Porto: Porto Editora, 2015 (com supressões)

VOCABULÁRIO
1. confins: lugares longínquos.
2. luxuriantes: viçosas, vistosas.
3. equipagens: conjunto de pessoas que trabalham num navio.
4. latente: oculto, escondido.
5. liberal: que respeita a liberdade e os direitos dos outros.
6. Mindelo: freguesia de Vila do Conde.
7. Vig: ilha dinamarquesa, situada no Mar do Norte, a terra natal de Hans.
8. prosperidade: riqueza.
9. burgo: residências nobres.

Responde às perguntas que se seguem, de acordo com as orientações dadas.

1. Explica, por palavras tuas, o que Hoyle sentia em relação a Hans.

2. Hans era “um homem de negócios”, no entanto “negociava sem paixão”.


2.1. Explicita o sentido da afirmação anterior.

3. Refere as razões que levaram Hans a casar com Ana.

4. Classifica o narrador deste excerto, quanto à sua participação na ação. Justifica.

5. Identifica o recurso expressivo em “…a sua palavra era de oiro.” (l.51) e comenta a sua
expressividade.

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Grupo III

1. Associa os constituintes sublinhados na coluna A à função sintática que lhe corresponde na


coluna B.

Coluna A Coluna B
A. Hans gostava de ver o mar. 1. Sujeito
B. Os navios de Hoyle estavam parados, 2. Complemento direto
junto ao cais. 3. Complemento oblíquo
C. Os mares do Sul são navegados por 4. 4. Predicativo do sujeito
milhares de aventureiros. 5. Complemento agente da passiva
D. Hans considerava o mar a sua paixão. 6. Predicativo do complemento direto

2. Transforma as duas frases simples seguintes numa frase complexa, utilizando uma
conjunção subordinativa concessiva. Faz as alterações necessárias.
O sonho de Hans era ser marinheiro.
O seu tempo era dedicado aos negócios.

3. Para responderes a cada item (3.1. a 3.2.), escreve o número do item e a letra que identifica
a opção escolhida.
3.1. Identifica a frase que contém uma oração subordinada adverbial consecutiva.
A. Os destinos turísticos que mais me agradam são os exóticos.
B. Gosto tanto de aventuras que irei viajar contigo.
C. Mudei de vida para que possa realizar o meu grande sonho.
D. Os meus amigos vão fazer um cruzeiro, ainda que tenham medo de água.

3.2. Identifica a frase em que a palavra “que” é uma conjunção.


A. As pessoas que seguem os seus sonhos sentem-se realizadas.
B. Os navios que estão atracados partirão amanhã.
C. Penso que as viagens nos enriquecem bastante.
D. Que viagem de sonho gostarias de realizar?

4. Reescreve a frase abaixo, substituindo as expressões sublinhadas pelas formas adequadas


do pronome pessoal. Faz as alterações necessárias.

Os meus pais farão uma viagem pela Europa, para que a minha mãe possa conhecer alguns
países que admira.

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Grupo IV

No texto do grupo II, o narrador afirma que, a certa altura, Hans percebeu que “como
todas as vidas, a sua vida não seria a sua própria vida [...] mas um misto de encontro e
desencontro, de desejo cumprido e desejo fracassado”.
Partindo destas palavras do narrador, escreve um comentário crítico ao texto que leste,
tendo em conta os tópicos seguintes:
– a tua concordância ou discordância em relação às palavras do narrador;
– a justificação do teu ponto de vista, tendo em conta os traços psicológicos e/ou os
comportamentos de Hans e/ou de Hoyle.
O teu comentário crítico deve incluir uma introdução, um desenvolvimento e uma
conclusão e deve ter cerca de 120 palavras.

FAZ AQUI O TEU RASCUNHO

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CORREÇÃO DA FICHA DE AVALIAÇÃO

Grupo I

1. D., A., C., B., E.

2.1. C.
2.2. C.
2.3. A.

3. (O pronome refere-se a) “o Peacemaker”.

Grupo II

1. Hoyle tinha por Hans um sentimento paternal. Como o inglês nunca tinha casado e não tinha
família, via no rapaz a possibilidade de dar continuidade ao que havia conquistado. Além disso,
como não tivera oportunidade de fazer tudo o que desejava, Hoyle via em Hans uma nova
forma de viver o que não viveu. Hoyle tinha, também, uma grande confiança em Hans e tentava
garantir que o rapaz tinha as melhores oportunidades que ele lhe podia proporcionar.

2.1 As alterações que ocorreram na vida profissional de Hans não o deixavam realizado, pois
essas alterações implicaram que o jovem deixasse de fazer aquilo de que mais gostava: viajar.
As responsabilidades acrescidas afastaram-no do mar e obrigaram-no a concentrar-se noutros
aspetos dos negócios que não o entusiasmavam. O jovem tinha um espírito aventureiro,
sempre desejara navegar, pelo que a vida dos negócios não o preenchia. A sua verdadeira
paixão era o mar.

3. Hans casou com Ana, uma vez que a rapariga apresentava determinadas características que
lhe agradavam: tinha um rosto rosado e redondo, cheirava a maçã, tal como a casa onde havia
nascido e tinha o cabelo loiro que lhe lembrava o cabelo das mulheres de Vig. A aparência de
Ana trazia-lhe lembranças da terra onde nascera.

4. Quanto à presença, o narrador é de 3.ª pessoa, uma vez que não participa na ação e se
limita a contar a história.

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5. O recurso expressivo utilizado foi a metáfora, para realçar o valor da palavra de Hans: esta é
comparada ao ouro, uma vez que tão valiosa como esse metal.

Grupo III

1. A. – 3; B. – 4; C. – 5; D. – 6.

2. Embora o sonho de Hans fosse ser marinheiro, o seu tempo era dedicado aos negócios.

3.1. B.
3.2. C.

4. Os meus pais fá-la-ão, para que a minha mãe os possa conhecer.

Grupo IV

Sugestão de resposta:

O excerto apresentado pertence ao conto “Saga”, de Sophia de Mello Breyner


Andresen, e conta a história de Hans e de Hoyle. Estes eram próximos não só pela relação que
os unia, mas pela forma como encaravam a vida.
Segundo o narrador, a vida de Hans não era a que o jovem tinha desejado, mas um
compromisso entre esse desejo e o que alcançara. E tal acontecia “com todas as vidas”.
Efetivamente, a vida, raramente, é aquilo com que se sonhou, pois há acontecimentos
inesperados e Hans e Hoyle são o exemplo disso. Hoyle via em Hans uma possibilidade de
viver o que não vivera, o que mostra que ele falhou “os seus propósitos”.
Assim, visto que desejara navegar, viver aventuras, mas, eventualmente, teve de deixar
de viajar e de se dedicar aos negócios, Hans tornou-se sério, duro e desiludido.