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piauí

EDIÇÃO 152 | MAIO_2019

questões brasileiras

PROCURA-SE UM PRESIDENTE
Dependência virtual e extremismo de Bolsonaro precipitam
corrida política no campo da direita

MIGUEL LAGO

Ao normalizar a extrema direita, Bolsonaro desloca o centro de gravidade da


política. A extrema direita purista se torna direita, a direita mais contundente
se torna centro, e o centro se torna esquerda. O radicalismo de Bolsonaro
contribui para dar aparência de moderação e pragmatismo a um grupo
profundamente ideológico como o MBL CREDITO: ROBERTO NEGREIROS_2019

J air Bolsonaro é um fenômeno tecnopolítico. Ele é produto da


dinâmica das redes sociais, onde o brasileiro gasta boa parte do seu dia,
consumindo e compartilhando informações. O Brasil é a segunda nação a
passar mais tempo conectada, em média nove horas por dia. Não por acaso,
o país foi de certa forma pioneiro no uso da tecnologia em uma eleição, a
ponto de invalidar determinantes clássicos, como tempo de televisão,
financiamento, estrutura partidária, palanques estaduais ou memória
eleitoral (experiência passada que marcou o eleitorado). O candidato do
PSL tinha míseros segundos, um partido nanico, poucos recursos
declarados, palanques frágeis e não havia governado antes.
A tecnologia foi também determinante para eleger Donald Trump, sabemos
disso. Nesse caso, entretanto, outros fatores contribuíram para a vitória,
como o fato de o personagem ser uma celebridade televisiva e dispor da
estrutura e da capilaridade de um grande partido tradicional. Bolsonaro não
tinha nada disso. Ele precisou se construir nos últimos quatro anos como
um digital influencer poderoso para, em seguida, saltar à condição de
candidato popular e vitorioso. Agora, para manter-se no poder, Bolsonaro
quer desafiar também outros determinantes da ciência política – os da
governabilidade.
Será possível governar sem negociar, pactuar ou respeitar as instituições?
Será possível se manter no poder recorrendo à sua capacidade
extraordinária de mobilização via redes sociais? Será que tudo o que foi
determinante para elegê-lo se torna agora um empecilho para poder
governar?

A dimensão online foi fundamental para a vitória eleitoral, mas é na


dimensão offline que se governa. Como então conciliar o Bolsonaro
vitorioso – o do perfil nas redes sociais –, com o Bolsonaro empossado,
presidente da República – e que precisa governar? Manter-se constante e
relevante nas redes sociais não é algo que combina com a tarefa de
governar um país atolado em múltiplas crises. Para cada uma dessas
atividades, são necessárias habilidades muito diferentes, muitas vezes
antagônicas. A chave do êxito do governo Bolsonaro passa pelo equilíbrio
entre a lógica do perfil virtual e a função de presidente. Do contrário, ele
deixará aberta uma avenida para a emergência de uma oposição forte à
direita.

Nos primeiros meses de governo ficou claro que a lógica do perfil nas
redes sociais está vencendo de goleada. Não à toa, pois ela explica o
bolsonarismo em todos os seus aspectos: o tipo de base social, os formatos
de mobilização, a formação ideológica, o perfil social de seus aliados.
Tudo isso está condicionado pelas novas formas de interação das redes
sociais. Manter o perfil ativo é fundamental para manter a base fiel
conectada e motivada. Como explica Marcos Nobre, em artigo publicado
nesta revista (“A revolta conservadora”, piauí_147, dezembro), o capitão
reformado precisa do caos para poder governar, pois sua estratégia é
governar para “uma base social e eleitoral que não é maioria, mas é grande
o suficiente para sustentar um governo. Algo entre 30% e 40% do
eleitorado. Tornar essa base fiel é fundamental para manter o poder”.

V ale complementar essa análise com os estudos de Paolo Gerbaudo,


professor do King’s College, de Londres, sobre populismo e redes sociais.
Segundo ele, a arquitetura das redes sociais – a maneira como são
desenhadas – propicia o desenvolvimento de lideranças populistas e de
mensagens sensacionalistas. A visualização da informação é
prioritariamente definida pelo número de interações que a publicação
gerou nos primeiros minutos seguintes à postagem. Ou seja, ela favorece o
compartilhamento de conteúdo inflamável. Por isso, muitas celebridades
das redes são originalmente trolls: perfis que adotam um comportamento
que viola regras básicas de convivência. Um governante que queira se
manter “ultrarrelevante” nas redes sociais precisa gerar grande número de
reações às suas postagens.
Foi com o intuito de manter a capacidade de digital influencer que
Bolsonaro criou uma nova categoria de ministros: os ministrolls. Abraham
Weintraub, Damares Alves e Ernesto Araújo cumprem essa função, assim
como outras figuras paraministeriais, como Filipe Martins, Olavo de
Carvalho, Carlos e Eduardo Bolsonaro. Quanto mais barbaridades eles
dizem, mais interações geram e maior é a relevância cibernética do
governo. A nomeação dos ministros ditos mais “ideológicos” atende
eficientemente às necessidades do perfil virtual, ao mesmo tempo que
compromete a execução de políticas públicas.
Donald Trump conseguiu equacionar o dilema entre as figuras do perfil
virtual e do presidente graças ao Partido Republicano, que ofereceu a ele
quadros e capacidade de governar. Como disse Marcos Nobre (“O caos
como método”, piauí_151, abril), aqui são as Forças Armadas que
cumprem a função de vertebrar o governo. O cientista político Sergio
Fausto escreveu algo parecido nesta revista (“O ponto a que
chegamos” piauí_149, fevereiro), ao dizer que o governo atual é composto
por duas forças – a do “liberalismo econômico e da racionalidade
burocrático-militar”, ou seja, Paulo Guedes e os militares, de um lado, e “o
conservadorismo militante e não raro insensato”, de outro. A tensão entre
“olavetes” e militares, tão citada na mídia, seria, portanto, o reflexo da
tensão essencial entre o perfil das redes sociais e o presidente.
Os analistas argumentam que a capacidade de governar será conferida por
essa combinação de técnicos liberais e militares. Mas um olhar mais atento
revela que apenas as pastas da Agricultura, Infraestrutura e Saúde são
comandadas por ministros com alguma capacidade de ação e experiência
na gestão pública.

A té mesmo na escolha dos nomes ditos “técnicos”, a lógica do


perfil virtual predomina sobre a do presidente. O principal nome do
governo Bolsonaro é um empresário bem-sucedido sem nenhuma
experiência no setor público, mas que manteve uma colaboração regular,
como colunista, no jornal O Globo. O ministro da Economia não foi
escolhido por aquilo que fez como quadro técnico, mas por sua capacidade
de expressar e articular sua opinião.
Opiniões são importantes, mas para fazer política pública é preciso ação.
Na era digital, contudo, a opinião predomina sobre a ação. Passamos a
viver no reino das opiniões: todos têm alguma opinião formada sobre tudo
e se sentem na obrigação de opinar sobre qualquer coisa. Esse fenômeno é
consequência direta da hiperconectividade e, em particular, do modelo de
negócios das empresas detentoras de redes sociais: a venda de dados de
usuários para marketing. A fim de obter um perfil completo e apurado de
cada usuário, é preciso estimulá-lo a revelar suas preferências sobre o
maior número possível de temas. Ao opinar sobre tudo, do nazismo à
Fórmula 1, o usuário contribui para a captura mais precisa de dados pelas
empresas.

Com isso, tudo se tornou opinião e se confunde com ela, numa arena em
que não existem hierarquias. A análise política de um especialista equivale
à opinião de qualquer pessoa que nunca abriu um livro sobre política.
Trata-se de uma perversão do direito à liberdade de expressão: muito
embora cada um tenha o direito de opinar sobre o que quiser, e uma
opinião não se sobreponha à outra, nem tudo é da ordem da opinião.
Análises, pesquisas e evidências são de outra esfera. Não se questiona o
resultado de uma pesquisa científica dizendo simplesmente que não se
concorda com ela, mas analisando sua metodologia ou apresentando uma
pesquisa sobre o mesmo tema que possa colocar em xeque as conclusões.

Na era do Facebook, entretanto, é como se isso não fosse necessário, pois


basta concordar ou discordar, clicar like ou dislike. A ação, o trabalho, a
especialidade, tudo perde lugar para a opinião. No reino da opinião não
existe mais espaço para a autoridade. No perfil do papa no Twitter,
internautas brasileiros se sentem no direito de contradizer as análises
teológicas dele. As redes sociais tornam o dono de botequim um
especialista em exegese bíblica do mesmo quilate que o chefe da Igreja
Católica.
Ao tornar equivalente a opinião de todas as pessoas, a rede social
demonstra sua extraordinária vocação anti-establishment. Os marcadores
de certeza, os filtros de qualidade, as certificações construídas ao longo de
séculos pela civilização são dissolvidos pelo algoritmo equalizador.
Diplomas universitários, pesquisas científicas, títulos honoríficos são
substituídos por opiniões, likes e seguidores. Abrese, portanto, uma
extraordinária brecha para a ascensão social de pessoas descartadas pelos
filtros analógicos. Esse potencial gerado pela dinâmica das redes vai de par
com o que Marcos Nobre escreveu sobre a base do candidato do PSL:
“Uma revolta de quem frequenta a igreja contra seus pastores, de militares
de patentes mais baixas contra as altas patentes, do baixo clero contra o
alto clero do Congresso Nacional, de pequenos comerciantes, produtores
rurais e industriais contra suas entidades representativas e contra os
‘campeões nacionais’, da base de primeira instância do Judiciário contra
suas instâncias superiores, do baixo clero do mercado financeiro contra os
porta-vozes dos bancões.”
Aqui, não se trata dos excluídos do sistema, dos pobres, mas
dos incluídos que perderam: os perdedores da meritocracia. Não daqueles
que, por causa do racismo e do classismo estruturais do Brasil, não
puderam sequer sonhar em competir. Mas daqueles que, em um país
desigual, tinham o privilégio de poder competir, e ainda assim perderam. É
a essa franja da população que a nova extrema direita se dirige. O
americano Steve Bannon, estrategista dessa corrente ideológica, resume
bem esse sentimento quando define o capitalismo global como um regime
socialista para ricos e pobres. Segundo ele, os mais ricos e os mais pobres,
além de não pagarem imposto (o que é uma falácia, pelo menos no que diz
respeito aos mais pobres), são subsidiados pelo Estado, seja por meio de
políticas redistributivas (no caso dos pobres), seja via auxílio direto em
caso de falência (no dos ricos), segundo a máxima do too big to
fail [grande demais para quebrar]. Enquanto isso, a franja média, chamada
por Bannon de little people [povinho], que trabalha e paga seus impostos,
não teria apoio algum do Estado.
Os arautos dessa nova extrema direita por aqui também são os perdedores
da meritocracia. Assim ocorreu com Olavo de Carvalho, que não
conseguiu nem fazer o ensino médio, mas hoje é chamado de “filósofo”. E
também com o ministroll Ernesto Araújo, cujo perfil publicado
na piauí_151, abril (“O chanceler do regresso”) revela uma personalidade
profundamente ressentida, disposta a mudar oitenta anos de uma política
de Estado contínua para provar algum ponto a seus colegas. Não por acaso,
a obsessão em lutar contra o “globalismo” – conceito inexistente na teoria
política, mas onipresente nas redes de extrema direita – reflete o complexo
de inferioridade dessas pessoas em relação aos vencedores da globalização
e o seu ressentimento com o burguês cosmopolita, formado em uma boa
universidade e com diálogo internacional. Nesse sentido, a trajetória de
Bolsonaro – de militar de baixa patente que não progrediu na carreira, saiu
do Exército, entrou para a política e se tornou chefe de todos os generais –
serve de inspiração e encarna o sonho de quebra de hierarquia, de
trampolim social e de fim da meritocracia.

S e, de um lado, a hiperconectividade equaliza todos na opinião e abre


uma brecha para a ascensão social dos perdedores da meritocracia, por
outro molda a ideologia ainda em formação. Talvez por prezar a honra da
direita e do conservadorismo, eu não consiga concordar com os analistas
que qualificam o governo e o movimento que o elegeu “de direita” ou
“conservador”. O conservadorismo de verdade zela pelo fortalecimento da
autoridade, da hierarquia, da excelência e da tradição. E basta olhar
atentamente para as propostas políticas do bolsonarismo para ver que ele é
anticonservador.
Tomemos, por exemplo, o movimento Escola sem Partido, que parte da
premissa de que professores de esquerda estão doutrinando alunos em sala
de aula. Para combater essa pretensa prática, alunos foram incentivados a
filmar seus professores e a constrangê-los. Caso isso de fato ocorresse, a
figura de autoridade e a relação hierárquica entre mestre/aluno seria
imediatamente quebrada. Uma política de educação conservadora, ao
contrário, estaria focada em fortalecer a figura de autoridade do professor
dentro da sala de aula, eventualmente autorizando a palmada como forma
de disciplina. Além disso, a própria figura de Bolsonaro é
anticonservadora: como seria possível um eleitor conservador escolher um
líder que não valoriza o sacramento do casamento, que usa termos
grosseiros como “comer gente” e, pior, se faz batizar evangélico, sem
renunciar previamente ao catolicismo? O discurso pretensamente
conservador encobre a quebra de hierarquia, a erosão das figuras de
autoridade e a utilização da máquina pública como catapulta social para os
amigos do baixo clero e os “alunos” de Olavo de Carvalho.

Se existe um governo anticonservador e anárquico é justamente esse. A


ideologia que ele prega não é exatamente a da defesa da ordem, da
hierarquia, da disciplina e da família: é a da defesa da violência. Sua
aversão à legalização do aborto não tem a ver com a proteção da vida,
como ocorre com os conservadores católicos, mas com a conservação da
submissão da mulher ao homem. Ele se opõe às cotas raciais não porque
defenda a meritocracia e a disciplina – mesmo porque no seu grupo
político poucos passaram no vestibular de uma universidade de qualidade –
, mas porque insiste na manutenção da subalternidade da população negra
em relação à branca. Dessa violência, Bolsonaro deu mais uma prova no
final de abril, ao afirmar que “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma
mulher, fique à vontade. Agora, [o Brasil] não pode ficar conhecido como
paraíso do mundo gay aqui dentro”. A frase não expressa uma defesa da
família, mas apenas a homofobia pura e simples. Se fosse um conservador,
ele teria condenado toda forma de turismo sexual. Ao contrário, faz
apologia.
Tampouco acho que se possa chamar esse governo de “fascista”. O
fascismo tinha como base pilares racistas e foi o responsável pelas maiores
barbaridades do século XX. Mas até nele havia construção de uma ideia de
sociedade – ideia abominável, diga-se de passagem. No bolsonarismo, não
há nem isso; trata-se de esvaziar o fascismo de todo conteúdo inteligível e
conservar apenas sua forma e primitivismo: a violência contra a minoria.

Uma ideologia baseada na violência e na opressão reverbera no contexto


da hiperconectividade. A arquitetura das redes, como vimos, estimula as
pessoas a se expressarem sobre absolutamente tudo, e o conteúdo
difundido aparecerá prioritariamente para aqueles que tendem a concordar
com elas. É dessa maneira que a rede social se torna uma acumulação de
câmaras de eco, de filter bubbles, para usar a expressão do ativista político
da internet Eli Pariser. Cada um tem um perfil e nele pode se expressar
livremente como se escrevesse para uma coluna de jornal. Mas uma coluna
cujos leitores praticamente só concordam e aplaudem. Quanto mais
agressivo o comentário, mais interações ele gera, potencializando o seu
alcance. Essa ideologia da violência pura, da violência como fim e não
como meio, está vinculada à hiperindividualização das redes sociais, onde
as pessoas colecionam “joinhas” e acreditam sempre ter razão. Se há um
problema no mundo, a culpa é do outro, sempre dele, nunca é minha. No
ensaio “Anotações sobre uma pichação” (piauí_139, abril 2018), João
Moreira Salles examinou uma característica atual do brasileiro, que é se
eximir de qualquer responsabilidade – característica que ganhou expressão
sintética em um grafite pintado nos muros da cidade do Rio que dizia:
“Não fui eu.” Bruno Carvalho, no artigo “Não foi você” (piauí_142, julho
2018), conectou a lógica do “não fui eu” à ascensão de Bolsonaro.

A sociedade hiperconectada é parte fundamental do perfil


Bolsonaro: é daí que provêm argumentos, ideias, informações, apoios e
alianças dele. Por essa razão, Bolsonaro estará sempre condenado a
priorizar o perfil, em detrimento da função de presidente. E é nessa brecha
– que o capitão reformado não consegue tapar – que emerge gradualmente
uma oposição latente mas vigorosa ao seu governo.
Em outras partes do mundo, a ideologia da violência da hiperconectividade
vem funcionando de maneira mais sofisticada e inteligente, visando
articular as diferentes correntes de direita. O professor René Rémond, um
dos maiores estudiosos da direita francesa, identificou três famílias dentro
desse campo político: a direita legitimista e contrarrevolucionária (na
origem, inimiga da Revolução Francesa e defensora da restauração da
monarquia; portanto, de perfil conservador), a orleanista (na origem,
partidária de uma monarquia parlamentarista; ou seja, de perfil liberal) e a
bonapartista (populista e autoritária). As três correntes compuseram o
partido de direita hoje chamado Républicains. Rémond exclui de sua
análise o partido Front National por não considerar a extrema direita como
parte do campo político das diversas direitas.

A nova direita que emerge no mundo é personalista, autoritária, violenta,


tem forte grau de adesão popular, alguma capacidade de entrega em termos
de política pública, e é defensora das instituições no discurso. É uma
direita vigorosa, mas não revolucionária, como a extrema direita se propõe
a ser. Está à esquerda da extrema direita e à direita dos conservadores e
liberais. Tomando emprestado os termos de Rémond, seria uma direita
bonapartista. Até mesmo líderes de extrema direita estão estrategicamente
tentando se deslocar para essa nova direita. O aparecimento na Hungria de
uma extrema direita ainda mais radical que a do primeiro ministro do país,
Viktor Orbán, permitiu que ele deixasse de ser o exemplo máximo de
intolerância. Nos Estados Unidos, ocorre o mesmo fenômeno: movimentos
como o alt-right (direita alternativa) e o dos supremacistas brancos fazem
Donald Trump parecer um pouco menos alucinado.
No artigo “Dois caminhos para a direita francesa” (piauí_149, fevereiro),
Mark Lilla, professor da Universidade Columbia, faz uma análise
detalhada de todo o ecossistema conservador que surgiu na França nos
últimos cinco anos. As manifestações maciças, em 2012 e 2013, contra
uma lei que autorizava o casamento gay ressuscitaram a direita legitimista
(conforme a definição de Rémond), que, em seguida, se organizou em
movimento político – o Sens Commun [Senso Comum]. O movimento se
tornaria determinante para que, nas primárias do partido Républicains para
as eleições presidenciais de 2017, François Fillon, o candidato
conservador, derrotasse de maneira surpreendente o postulante liberal
(Alain Juppé) e o liberal-populista (Nicolas Sarkozy).
Caso essa nova direita legitimista não eleja o próximo presidente francês, é
muito provável que alguém que se posicione entre ela e a extrema direita
chegue lá. Para Lilla, Marion Maréchal, ex-deputada e neta do polêmico
político de extrema direita Jean-Marie Le Pen, é a mais bem posicionada
para ocupar esse lugar. A extrema direita na França é tradicionalmente
antielitista e anticlerical. Maréchal tem se aproximado dos católicos e é
muito mais amável com as elites tradicionais, diferentemente de sua tia,
Marine Le Pen.

J á no Brasil, ninguém é mais sectário do que Bolsonaro, sentado na


extrema direita com seus filhos e o astrólogo Olavo de Carvalho. Sua
estratégia é extremamente arriscada e atende mais uma vez à lógica do
perfil virtual. O digital influencer Bolsonaro pretende ter hegemonia
completa sobre suas hordas cibernéticas e não quer dividir atenção ou
pactuar com possíveis concorrentes. Ele busca fidelizar os 30% do
eleitorado, uma base em si mesma diversa, como apontou Marcos Nobre:
“Nunca antes tinham confluído para uma única candidatura presidencial,
como ocorreu com a do capitão reformado do Exército, as figuras do ‘lava-
jatismo’, do antipetismo, do antissistema, do voto nulo, do abstencionismo,
do conservadorismo de costumes, do desejo de ‘lei & ordem’.” O perfil
virtual quer converter em likes e seguidores os votos recebidos pelo
presidente no primeiro turno das eleições de 2018. Pretende com isso
estabelecer contato direto com sua base social ampliada e servir como
única fonte de informação, como único validador da verdade.
A tarefa é hercúlea. Ela implicaria arregimentar todas as direitas – a liberal,
a tradicional e a conservadora – para uma extrema direita purista e sectária,
submissa à visão de mundo de Bolsonaro e Olavo de Carvalho. Trata-se de
uma verdadeira cruzada nas redes sociais contra plataformas formadoras de
opinião da mesma base de eleitores, sobre as quais não tem controle –
como observou Celso de Rocha Barros (“A queda”, piauí_150, março).
Além de ter comprado briga com toda a imprensa tradicional, o presidente
enfrenta veículos declaradamente de direita, como o site O Antagonista e a
rádio Jovem Pan. Articulistas de direita, como Reinaldo Azevedo, Marco
Antonio Villa ou Augusto Nunes, são alvos das milícias digitais do perfil
virtual. No vídeo intitulado “Destruam Felipe Moura Brasil!!!”, Renan
Santos, o mais preparado dos meninos do Movimento Brasil Livre (MBL),
ironiza o processo de expurgos e perseguições feito pelos seguidores do
capitão reformado contra personalidades de direita, como o próprio Santos
e o MBL, o editor Carlos Andreazza, a jornalista Vera Magalhães e o
Partido Novo, classificando todos, jocosamente, de “comunistas”. A
conclusão de Renan é que para os radicais de extrema direita “não há
caminho algum na direita se não houver concordância total e absoluta.
Senão você será um grandissíssimo comunista”. O vídeo tem mais de 250
mil visualizações.

E m cem dias de governo, Bolsonaro não se deslocou para o que


chamamos de direita bonapartista. Construir uma eventual direita desse
tipo seria muito mais realista e factível do que a estratégia adotada até o
momento por Bolsonaro. A direita bonapartista teria muito mais chances
de atrair para si a direita conservadora evangélica, a direita liberal e as
forças da direita tradicional (o antigo PFL), assim como uma parcela da
extrema direita. Mas Bolsonaro simplesmente se recusa a fazer isso. Com o
vácuo por ele criado, já existe quem queira ocupar esse lugar. Penso, por
exemplo, no Movimento Brasil Livre, protagonista das manifestações pelo
impeachment de Dilma Rousseff, que foi se radicalizando e caminhou na
direção da extrema direita, mobilizando-se em peso pela eleição de
Bolsonaro. Neste ano, entretanto, uma vez que alguns de seus membros
agora ocupam cargos legislativos, a entidade reduziu seus flertes com
Bolsonaro para se posicionar cada vez mais nesse terreno vago entre a
direita tradicional e a extrema direita. O MBL continua apoiando o
governo, mas vai construindo pouco a pouco uma narrativa de
diferenciação importante.
Em janeiro, Kim Kataguiri, uma das principais lideranças do movimento,
eleito deputado federal, divulgou um vídeo – intitulado “A culpa de Flávio
Bolsonaro”, com mais de 1 milhão de visualizações – em que elogia a
imprensa tradicional (com a qual o movimento brigou ferrenhamente nos
últimos quatro anos), afirma não existir desculpa plausível no caso
Fabrício Queiroz e pede a punição, inclusive com pena de prisão, para o
filho do presidente. Em fevereiro e março, o distanciamento se ampliou,
com a difusão pelo MBL de vídeos e textos críticos à forma de
relacionamento do Executivo com o Congresso Nacional, à atuação de
alguns ministrolls e a casos de corrupção.
Renan Santos reclamou do chanceler Ernesto Araújo e do ex-ministro
Vélez, que ele definiu como “ideológicos”. Elogiou os ministros
“pragmáticos” como Paulo Guedes (Economia), Tereza Cristina
(Agricultura) e Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), fazendo votos
para que Sergio Moro (Justiça) chegasse ao mesmo patamar destes. E
cobrou do governo ações pragmáticas, com resultados políticos concretos,
bem como uma relação saudável e republicana com o Congresso. Em outra
peça, mais longa, de 16 minutos, criticou o vídeo comemorativo de 1964
veiculado pelo Planalto, fez sua exposição sobre os acontecimentos e
concluiu o óbvio: João Goulart foi deposto por um golpe militar.
Aproveitou para recordar as críticas à ditadura feitas por Carlos Lacerda, a
quem chamou de “o maior nome da direita do Brasil”. Além disso,
declarou apoio à reforma da Previdência, embora tenha criticado a
proposta de aposentadoria dos militares.

Os pontos fracos de Bolsonaro são a falta de liderança política e a


incapacidade técnica. Não à toa, o discurso do MBL está focado na falta de
planejamento, qualidade operacional e execução de políticas públicas. Ao
nomear um ministro para atender mais as necessidades do perfil virtual do
que as da nação, Bolsonaro deixa claro como falta ao presidente o mínimo
de capacidade executiva. Não haverá mágica que o perfil virtual possa
fazer para manter fiel uma base tão ampla e diversa, se o presidente não
oferecer ao país uma boa governança. Aquilo que parecia uma brecha vai
ganhando contornos de avenida para aqueles que estão de olho na
formação de um novo polo político de direita.

Ao normalizar a extrema direita e pautar os principais debates do país a


partir dessa perspectiva, Bolsonaro contribui para o deslocamento do
centro de gravidade da política. A extrema direita purista se torna direita, a
direita mais contundente se torna centro, e o centro se torna esquerda. Esse
deslocamento favorece a direita bonapartista, que se torna mais palatável a
um eleitorado que antes certamente a rejeitaria – o eleitorado de centro-
direita. Em resumo, o radicalismo de Bolsonaro contribui para dar
aparência de moderação e pragmatismo a um grupo profundamente
ideológico como o MBL. A fim de parecer razoável, não é preciso fazer
concessões ao centro, mas apenas marcar a diferença com relação aos mais
sectários: não endossar as loucuras e devaneios do núcleo duro do Planalto
(“nazismo de esquerda”, “1964 não foi golpe” etc.) e cobrar um pouco de
competência política e técnica. Desse modo, o MBL e congêneres podem
disputar parte do eleitorado de Bolsonaro, mas também parte do eleitorado
clássico do psdb, habilitando-se para dominar o campo das diversas
direitas: liberal, conservadora, populista e extremista.

O inimigo dos bonapartistas não é a esquerda, e sim o centro. O MBL sabe


disso e se mobilizou contra a nomeação de Ilona Szabó – uma das
lideranças do Agora!, um movimento de renovação política nitidamente de
centro – para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. A
hashtag #IlonaNão atingiu o primeiro lugar nos trending topics do Twitter
em 27 de fevereiro último, e chamava a cientista social de “comunista” e
“esquerdista”. Jogar qualquer formação de centro para a esquerda é
estratégia para poder conquistar a direita liberal e a direita moderada.

O governador de São Paulo, João Doria, é, dentre todas as


lideranças políticas, o mais bem posicionado para nadar de braçada na
avenida que Bolsonaro vai abrindo e que o mbl enuncia. Doria mantém
ativo o vínculo com o discurso de extrema direita, que ajudou a elegê-lo.
Em sua entrevista ao programa Roda Viva, em meados de abril, deu
mostras disso. Defendeu a atuação brutal da Polícia Militar, ao mesmo
tempo que condenou o armamento da população. Exibiu um antipetismo
visceral e violento e também marcou sua diferença com relação a
Bolsonaro, afirmando o óbvio ululante: houve um golpe militar em 1964, e
o que se seguiu foi uma ditadura. De quebra, fez acenos ao centro,
elogiando Fernando Henrique Cardoso. Sua atuação como governante
reflete esse deslocamento: montou um secretariado com vários técnicos.
Apesar de não ser um digital influencer como Bolsonaro, tem grande
familiaridade com as redes e cerca de 5 milhões de seguidores nas três
principais plataformas. Doria sabe manejar seu lado perfil virtual e seu
lado governador.
Por enquanto, o jogo de Doria e do MBL tem sido apoiar o presidente de
maneira crítica, mas já existe uma narrativa construída para abandonarem o
barco, caso Paulo Guedes e/ou Sergio Moro saiam do governo – ou, ainda,
se a reforma da Previdência não for aprovada. A oposição dessa nova
direita tem muito mais chances de fazer o governo sangrar do que hoje são
capazes a esquerda e o centro.

Se vivêssemos num mundo analógico, apostaria todas as minhas fichas na


vitória da nova direita sobre o capitão reformado. Mas na era da
hiperconectividade tudo pode acontecer – e não seria impossível que
Bolsonaro inaugurasse com sucesso uma nova forma de governar, na qual
a lógica de perfil virtual fosse mais importante que a de presidente.

MIGUEL LAGO
Miguel Lago é cientista político, cofundador da rede Meu Rio e diretor da ONG Nossas