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Ficha Bibliográfica:

Título: Um Erro Judiciário


Autor: Cronin, A. J.
Local da publicação: Rio de Janeiro
Data da Publicação: não consta (Copyright (c) 1950,1953 by A. J. Cronin
)Editora: Record - 2ª edição
Gênero: Romance
Classificação: Inglaterra, século XX - Ficção
Digitalização e Correção: M. Regina M. de Carvalho e Silva - setembro de 2004

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Orelhas do livro:
Paul, personagem principal desta história, acaba de completar 21 anos e é convidado
para assumir a cátedra de Inglês da universidade onde terminou os seus estudos, em
Belfast, mas, para isso, deverá apresentar a sua certidão de idade. Providência tão
corriqueira, marca no entanto o início de todas as atribulações pelas quais o jovem terá
de passar.
Ele vive só com a mãe, funcionária pública, uma mulher profundamente religiosa que o
educou dentro dos mais rígidos princípios da Igreja Anglicana. Certo dia Paul lhe pede a
certidão e ela começa a inventar uma série de desculpas e evasivas. Em vista da
insistência do filho, que ameaça ir ao cartório para obter outra via da certidão que a
mãe alegava ter perdido, ela resolve aconselhar-se com o seu pastor e decide contar a
Paul a terrível verdade que se escondia por trás de tudo.
A mãe o criara com o seu nome de solteira, Burgess, em lugar de lhe dar o do pai,
Mathry, um nome que ela procurava esquecer desde quando o marido fora condenado
como autor de um assassinato sórdido e inominável de uma moça na cidade de Wortley,
em
1921, quando Paul tinha apenas cinco anos.
A vida de Paul se converte num verdadeiro tormento: ele quer, a qualquer preço,
descobrir exatamente o que houve, pois se recusa a aceitar a idéia da culpabilidade do
pai. Dele guarda as melhores recordações dos tempos de sua primeira infância, e lhe
causa imensa dor vê-lo agora, um farrapo humano, cumprindo há 15 anos uma pena de
prisão perpétua, comutada que fora de morte na forca.
Um Erro Judiciário, que os críticos colocam entre as melhores obras de A. J. Cronin, é
um livro com a marca do gênio do autor, e o suspense durante o desenrolar de toda a sua
maravilhosa história é tão intenso que o torna um romance policial no melhor estilo
inglês.
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UM ERRO JUDICIÁRIO
a. j. cRONIN
OBRAS DO AUTOR
O JARDINEIRO ESPANHOL
UM ERRO JUDICIÁRIO
PELOS CAMINHOS DA VIDA
O CASTELO DO HOMEM SEM ALMA
A CIDADELA
A CORAGEM DE RESISTIR
A DAMA DOS CRAVOS
ENCONTRO DE AMOR
O JOVEM TROVADOR
O MÉDICO NATIVO
SOB A LUZ DAS ESTRELAS
TRÊS AMORES
VIGÍLIA NA NOITE
A FIGUEIRA DE JUDAS
Tradução de LUIZ CORÇÃO BRAGA
2ª EDIÇÃO
EDITORA RECORD
Título original inglês BEYOND THIS PLACE
Copyright (c) 1950,1953 by A. J. Cronin
Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa no Brasil
adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA SÁ.
Rua Argentina 171 - 20921 Rio de Janeiro, RJ que se reserva a propriedade literária
desta tradução
IMPRESSO POR TAVARES & TRISTAO - GRÁFICA E EDITORA DE LIVROS
LTDA., À RUA 20 DE ABRIL. 28, SALA 1.108, RIO DE JANEIRO, RJ.
PRIMEIRA PARTE
Capítulo I
Nas noites de quarta-feira, a mãe de Paul tomava o bonde depois de haver terminado o
seu trabalho no City Hall e ia pegar seu serviço semanal em Merrion Chapei, e ele saía
da universidade, depois da sua aula de filosofia às cinco horas, e ia ao encontro dela
caminhando a pé. Naquela quarta-feira, no entanto, sua entrevista com o Professor Slade
atrasou-o e então, depois de consultar o relógio, ele resolveu ir direto para casa.
Já era o mês de julho e a perspectiva de uma noite agradável chegava a embelezar os
tristes e sujos edifícios de Belfast. Tendo por fundo o céu amarelado, os telhados e as
chaminés da parte irlandesa ao norte da cidade perdiam seus contornos prosaicos e
tornavam-se misteriosos e resplendentes como uma cidade de sonho.
Quando chegou em Larne Road, a tranqüila rua lateral de casas de tijolos aparentes
onde morava com a mãe no andar térreo do número 29, com três aposentos, Paul sentiu-
se envolvido por uma onda de pura satisfação. Sentia naquele momento toda a beleza
que a vida lhe prometia. Ficou de pé, do lado de fora da porta, durante alguns minutos,
enchendo os pulmões com aquele ar extremamente agradável. Era um rapaz de
aparência vulgar, cabeça descoberta e com um terno de tweed já bem surrado. Logo
depois, num movimento brusco, ele enfiou a chave na fechadura.
O canário estava cantando na cozinha. Assobiou para o passarinho ao mesmo tempo que
tirava o casaco para pendurá-lo num cabide do bali e então, já em mangas de camisa,
colocou a chaleira com água no fogão e começou a preparar a ceia. Alguns minutos
depois o despertador de níquel que estava em cima da lareira bateu as sete horas e ele
ouviu os passos de sua mãe do lado de fora na varanda. Cumprimentou-a com alegria
assim que ela entrou. Era uma mulher seca e forte e estava ligeiramente inclinada para
um lado por causa de sua inseparável sacola onde enfiava tudo que havia. Seu vestido
respeitável era preto.
- Desculpe-me se não fui esperar você hoje, mamãe, mas o Slacde deu-me o trabalho -
falou o rapaz, sorrindo. - Parece que já estou empregado.
A Sra. Burgess olhou-o com atenção. A mecha de cabelos grisalhos que lhe escapava
por baixo do chapéu já bem velho fazia sobressair a impressão de cansaço e de decisão
com resignação cristã, tudo isso fruto do rosto enrugado e muito atento e olhos míopes.
Sua expressão, no entanto, modificou-se gradativamente diante do olhar franco e alegre
do filho. Sempre agradecia a Deus pelo fato de ele ser um rapaz simpático, embora não
propriamente bonito, e isso era ainda uma outra razão para seus agradecimentos à
Divindade, já que sabia bem os perigos que havia para os rapazes muito bonitos. Seu
filho tinha um rosto agradável com traços finos, mandíbulas salientes demais e uma
aparência sadia, claros olhos cinzentos, testa larga e cabelos escuros cortados rentes. Era
muito estudioso, e sua aparência física era boa, embora claudicasse um pouco da perna
direita por causa de um acidente num jogo de futebol.
- Ainda bem que isso ficou resolvido, filho. Sabia que deveria haver uma boa razão para
você não me esperar. Ella e o Sr. Fleming sentiram sua falta.
A mulher tirou as luvas de algodão com as quais fez uma bola e depois, olhando para a
mesa, tirou da sacola um pedaço de presunto frio embrulhado num papel gorduroso,
junto com um saquinho de biscoitos de trigo que ele gostava muito. Sentaram-se à mesa
e, depois de uma rápida oração, começaram a comer a refeição simples. O rapaz
percebia que a mãe, apesar de não demonstrar, estava muito satisfeita.
- Foi mesmo um golpe de sorte, mamãe. São três guinéus por semana, e durante todas as
nove semanas de minhas férias.
- Deve ser uma boa coisa para você depois do duro que deu para os exames finais.
- De fato. Ensinar durante o verão é, para mim, como se fosse umas férias.
- Deus tem sido bom para você, Paul... Ele escondeu um sorriso antes de responder.
- Preciso mandar minha certidão de nascimento para o Professor Slade ainda esta noite.
Houve uma pausa. A mulher inclinou a cabeça e, com a colher, tirou fora uma folhinha
de chá que flutuava na xícara. Sua voz não era muito clara.
- Para que é que eles precisam de certidão de nascimento, Paul?
- É uma simples formalidade, mamãe. Não contratam estudantes com menos de vinte e
um anos. Foi com dificuldade que consegui
convencer Slade quanto ao fato de haver feito vinte e um anos no mês passado...
- Você quer dizer, então, que ele não aceitou sua palavra? O rapaz olhou-a com uma
mistura de surpresa e espanto.
- Mamãe! Você não tem razão! Ele está apenas obedecendo aos regulamentos. Meu
pedido deve ser apresentado à Diretoria junto com a certidão.
Ela não respondeu. Depois de um breve silêncio, Paul pôs-se a fazer uma descrição um
tanto humorística de como fora a entrevista com o professor que também era o diretor
da escola de verão em Portray. Depois de haver tomado sua terceira xícara de chá, ele se
levantou da mesa, e foi só então que sua mãe falou, interrompendo-lhe a descrição.
- Paul... Eu... Eu, afinal de contas, não sei bem se estou gostando dessa sua ida para
Portray...
- O quê! Mas que história é essa! Durante as últimas semanas sempre esperamos por
isso!
- Mas isso quer dizer que você vai ficar longe de mim... - Ela hesitou um pouco e tornou
a baixar a cabeça. - Não vai poder passar sua semana de férias com os Fleming. Ella vai
ficar desapontada. Isso vai ser demais para você.
- Mas que tolice, mamãe! Está-se afligindo sem razão!
Ele demonstrou que não estava dando muita importância para aquelas preocupações de
sua mãe, e antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa levantou-se e saiu pelo
corredor, para ir fazer o requerimento em seu quarto.
Era um aposento pequeno que servia ao mesmo tempo, de quarto de dormir e de
estudar, na frente da casa, com um papel de parede muito claro, onde se viam molduras
penduradas com fotos de grupos com jogadores de futebol e de hóquei. Em cima da
lareira havia taças e outros troféus ganhos por ele em competições na universidade.
Embaixo da janela havia uma estante onde se viam livros de ficção juntos com coisas
mais sérias, principalmente clássicos, indicando um gosto inteligente e bem equilibrado.
Na alcova do outro lado, oculta por uma cortina de chita verde, ficava a estreita cama
onde ele dormia e, em cima de uma mesa não envernizada encostada à parede, estavam
bem arrumadinhas as apostilas da universidade ao lado dos programas das aulas. Tudo
que ali havia era um testemunho silencioso da qualidade do caráter de Paul, da
integridade de seu corpo jovem e do sensato vigor de seu espirito. Para quem procurasse
uma falta, isso poderia, talvez, ser encontrado no excesso de arrumação que existia ali
no quarto e que dava a impressão
de muita exigência e de perfeccionismo que poderiam ter sido causados pelas
influências de sua mãe que também era assim.
Paul sentou-se à mesa, tirou a tampa da caneta e preencheu o formulário com os
cotovelos apoiados na mesa e o busto empertigado. Releu o que escrevera para ter
certeza de que não havia nenhum erro, acenou com a cabeça e voltou para a sala.
- Quer me dar a certidão, mamãe? Quero ver se ainda pego o correio das nove horas...
A mulher levantou a cabeça. Ainda não tinha tirado a mesa e estava na mesma posição
que o filho a deixara antes. Tinha o rosto vermelho e a voz estava mais estridente do que
de costume.
- Nem sei onde ela está, Paul. Você sabe como é. São essas coisas que a gente nunca
sabe direito onde estão guardadas.
Ele olhou para um móvel antigo, onde a mãe costumava guardar todos os papéis,
lembranças de família, seu testamento, óculos e outras coisinhas particulares.
- Deixe disso, mamãe. .. deve estar ali na gaveta de cima... A mulher olhou-o com a
boca meio aberta deixando entrever
sua dentadura barata e mal fixada. Já não estava mais corada e a vermelhidão fora
substituída por uma palidez fora do comum. Levantou-se, tirou do bolso uma chave e
abriu a gaveta de cima do móvel. De costas para ele, a mãe procurou metodicamente
durante cinco minutos, fechou a gaveta e voltou-se para ele, falando-lhe com uma voz
sem expressão.
- Não, não está aqui. Não consigo encontrá-la.
Ele mordeu o lábio numa demonstração de contrariedade. Era um filho atencioso e
carinhoso restrito à educação que tivera, sempre muito severa, mas, naquele momento,
simplesmente não podia compreender a atitude da mãe. Conseguiu controlar-se para
responderlhe.
- Olhe aqui, mamãe. Este documento é muito importante e preciso dele agora...
- Como é que eu podia saber que você iria precisar dessa certidão? - A voz dela tremia
um pouco, num ressentimento repentino. - São coisas que a gente perde. Você sabe bem
a luta que tenho enfrentado todos esses anos depois que enviuvei, depois que tive de
cuidar de você com centenas de outras coisas que também precisava atender. Posso
garantir-lhe que tive coisas muito mais importantes para cuidar e por isso não me ia
preocupar com certos papéis, especialmente quando nem mesmo tenho onde guardá-los.
Paul ficou espantado com aquela explosão a que não estava acostumado e que era tão
contrária à natureza sempre muito controlada dela. Mas também estava perplexo diante
da maneira como sua mãe raciocinava. A severidade de sua expressão, no entanto, não
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lhe permitia discutir mais o assunto, principalmente porque ele já a conhecia bem, e foi
por isso que respondeu com muita calma.
- Ainda bem que é muito fácil conseguir uma segunda via escrevendo para o cartório de
Somerset House, em Londres.
Ela fez um gesto mostrando-lhe que aquilo não seria necessário e então falou com a voz
já bem mais calma.
- Não precisa fazer isso, Paul Não há motivo para tanto barulho por causa de uma coisa
à toa. O dia hoje não foi nada bom para mim. Amanhã mesmo eu escrevo pedindo a
certidão em papel timbrado do City Hall...
- Você não vai esquecer, mamãe?
- Paul!
- Desculpe, mamãe.
- Está bem, meu filho. Acenda o gás que vou tirar a mesa e depois nós estaremos
prontos para passar a noite. - O sorriso da mulher iluminava um pouco seu rosto pálido
e atribulado.
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Capítulo II
Durante os dois dias seguintes Paul andou muito ocupado. As longas férias estavam
começando para a Universidade de Queen, e havia muitas coisas a fazer com o fim do
ano letivo. Atendendo a um pedido geral, ele serviu de pianista na festa dos estudantes.
Estava sendo difícil encontrar um livro que estava faltando na biblioteca. Houve uma
prova de última hora, de química, e ele passou pela tensão costumeira, enquanto
esperava o resultado, mas quando foram afixadas as listas, viu que tinha tirado uma boa
nota. De um modo geral, como bom estudante, como colega agradável e bom atleta,
Paul era muito bem-visto pelos colegas, mas sua popularidade sempre sofria algumas
restrições, principalmente entre os estudantes de medicina - uma turma de reputação
duvidosa - que sempre ridicularizavam sua mania de extrema propriedade de conduta e
que achavam sua abstenção às diversões desinibidas dos colegas uma atitude por demais
quadrada.
Uma ou duas vezes, no meio de suas várias preocupações, Paul voltou a pensar na
recente cena com a mãe e, quando a observava com atenção, achava que ela talvez
estivesse mostrando sinais de estafa. Mostrava-se sempre aflita, mais pálida do que de
costume e com estranhos momentos de alheamento. Normalmente, a despeito de um
temperamento naturalmente dominador, e duplamente fortalecido por uma convicção
austera, ela sempre fora uma mulher extremamente nervosa, e ele se lembrava ainda
como antigamente, em Belfast, uma repentina batida na porta a deixava tão nervosa e
assustada que chegava a mudar de cor. Agora, porém, era diferente, e ela parecia estar
constantemente aflita. Nas noites de quinta e sexta-feira ela saíra depois da ceia para
passar uma hora com seu velho amigo e pastor, Emmanuel Fleming, em Merrion
Chapei, de onde voltara mais tranqüila, embora ainda com um ar ausente e apreensivo, e
com os olhos vermelhos.
Na manhã de quinta-feira, Paul lhe perguntara, diretamente, se já havia escrito pedindo
a certidão.
Ela lhe respondera: "Não".
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Várias vezes, depois disso, ele esteve a ponto de tornar a perguntar, mas sempre lhe
faltava coragem em vista da autoridade que ela sempre exercera sobre ele. Não era
possível que houvesse alguma coisa errada. Não era mesmo. Aquilo, no entanto,
deixava-o intrigado e então ele começou a procurar uma explicação pensando no
estranho comportamento da mãe no passado, naquilo que se referia a ele. Não
encontrava, contudo, senão fatos comuns e normais.
Ele passara os primeiros cinco anos de vida no Norte da Inglaterra, em Tynecatle, onde
nascera. Era um passado um tanto apagado do qual só se lembrava do ruído dos
marteletes automáticos cravando os arrebites e da sirene chamando o pessoal dos
estaleiros para o trabalho. Entremeado com essa impressão apagada havia uma
fulgurante lembrança do pai, uma figura alegre e incomparável que, aos domingos,
levava-o pela mão até Jesmond Dene para soltar pequeninos barcos feitos de papel azul
no lago e depois, quando ele já estava cansado, sentava-o num dos bancos do parque, na
sombra, e onde, com um talento natural, desenhava tudo que havia por ali como, por
exemplo, pessoas, cachorros, cavalos, árvores que o deixavam encantado e despertavam
nele maravilhosos sonhos infantis. E então, como se aquilo ainda não fosse o bastante,
depois dos domingos, trazia-lhe doces que imitavam morangos com as suas hastes
verdes, bananas amarelas, pêssegos avermelhados, tudo delicioso para ser admirado e
comido, e feito de marzipã numa confeitaria do lugar, que o empregava como caixeiro
viajante.
Depois de haver completado cinco anos, eles mudaram-se para uma cidade maior no
Midland chamada Wortley, e aí as lembranças já eram mais cinzentas e menos alegres,
sempre misturadas com fumaça, chuva e mudanças constantes, a luz ofuscante dos
fornos de aço e as caras tristes dos pais, tudo culminando numa viagem de negócios do
pai para a América do Sul. Como ele sentira falta daquela companhia agradável e cheia
de alegrias! Lembrava-se do suspense com a constante espera de sua volta, e então,
como se aquilo fosse a realização de suas previsões de criança, vinha a dor terrível ao
saber de sua morte num desastre na estrada de ferro perto de Buenos Aires.
Depois disso, como um melancólico judeu errante, ainda com menos de seis anos, ele
viera para Belfast, e ali, por intermédio dos bons ofícios de Emmanuel Fleming, sua
mãe conseguira um emprego na contabilidade da Saúde Pública, no City Hall. O salário
era pequeno mas era também garantido e permitia que a viúva tivesse um teto
respeitável para se abrigarem e para educar o filho para o magistério, mediante
tremenda economia e parcimônia. Agora, depois de 15 anos de esforços da parte da
mãe, ele ia, finalmente, formar-se na universidade.
Pensando no passado, Paul tinha a impressão que aquela intensidade dos esforços de sua
mãe havia levado a vida dos dois em Belfast aos seus mais apertados limites. A não ser
para freqüentar com assiduidade a capela, sua mãe não ia mais a lugar nenhum. Não
tinha outras intimidades além do Pastor Fleming e sua filha Ella. Mal conhecia os
vizinhos de seu prédio. Na universidade, ele nunca tivera oportunidade para dar vazão
aos seus instintos sociáveis já que sempre tinha medo que aquilo desagradasse à mãe.
Havia ocasiões em que se revoltava contra aquilo, mas no fim, como gratidão ao que a
mãe fizera por ele, e que ela estava sempre a lembrar-lhe, Paul resignava-se.
No passado, ele sempre acreditava que aquela atitude protetora de parte da mãe era
principalmente devida a seus extremados sentimentos religiosos. Agora, no entanto,
levando em conta sua conduta, ele ficava imaginando se não haveria talvez outras
causas. Lembrou-se, de repente, de um incidente. No ano anterior ele fora honrado com
um convite para jogar em uma partida internacional de rúgbi entre a Irlanda e a
Inglaterra. Aquilo era coisa que não poderia deixar de ser uma grande satisfação para
um coração de mãe, mas, apesar disso, ela proibira-lhe terminantemente que aceitasse o
convite. Qual seria a razão para aquilo? Era coisa que ele, nem mesmo, poderia,
suspeitar. Agora, de forma um tanto confusa, adivinhava a razão. Na realidade, levando
em conta o padrão da existência dela, nas suas reservas tranqüilas, na fuga a todos os
contatos, no mistério, na sua apaixonada dependência ao Todo-Poderoso, ele via, com
susto e apreensão, que a vida dela era a de alguém que tem alguma coisa que precisa
esconder.
No sábado, quando trabalhava somente em meio expediente, ela voltou às duas horas.
Paul, já então, tinha resolvido que ia pôr tudo em pratos limpos com a mãe. Tinha
começado a chover e, depois de largar o guarda-chuva na entrada, ela entrara na sala
onde ele já estava sentado folheando um livro. Quando olhou para ela, Paul levou um
susto. Seu rosto estava cinzento, mas, afora isso, parecia controlada.
- Já almoçou, filho?
- Comi um sanduíche no sindicato. E você, mamãe?
- Tomei um chocolate quente que Ella fez para mim. .. Paul logo olhou-a com atenção.
- Você foi lá outra vez?
Ela sentou-se com um ar desaninado.
- Fui sim, Paul. Fui lá outra vez para orar e pedir uma orientação...
Houve uma pausa até que ele se esticou na poltrona e segurou-lhe os braços mostrando-
se nervoso.
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- Mamãe. Nós não podemos continuar assim. Estou vendo que há alguma coisa errada.
Será que você foi buscar minha certidão hoje de manhã?
- Não, meu filho. Não fui e nem mesmo escrevi pedindo-a. O rapaz sentiu o rosto
esfogueado.
- E por que não escreveu?
- Porque ela sempre esteve comigo, filho. Menti para você. Está aqui agora na minha
bolsa.
A indignação já tinha desaparecido do rosto dele. Olhou-a espantado, enquanto a mãe
remexia a bolsa à procura do papel. Afinal, tirou de lá uma folha azulada e dobrada.
- Durante todos esses anos eu lutei para manter isso escondido de você, Paul. No
princípio, eu pensava que nunca iria mostrá-la, já que era doloroso e difícil. Todos os
passos nas escadas e todas as vozes na rua faziam com que eu tremesse por sua causa.
Então, com o decorrer dos anos e com o seu crescimento, pensei que Deus me ajudara e
que tudo tinha passado. Mas isso não era o que Ele queria. Eu sempre tivera medo das
coisas grandes, mas, afinal, foi uma coisa pequena que aconteceu. Foi só o fato
insignificante de você ser nomeado para ensinar na escola de verão. Aliás, acho mesmo
que teria de acontecer mais cedo ou mais tarde. Foi o que me disse o pastor. Fui
implorar-lhe para que procurasse fazer com que você desistisse, mas ele não concordou.
Disse que você já é um homem e que tem o direito de conhecer a verdade.
A agitação dela tinha aumentado à medida que falava, e apesar de sua decisão para se
manter calma, terminou com uma espécie de gemido. A mão tremia-lhe, quando lhe
entregou o papel. Ele tomou-o, meio tonto, olhou-o e viu, imediatamente, que não era
dele o nome que ali estava na certidão. Em lugar de Paul Burgess, que era o sobrenome
da mãe, o nome que ali se achava era Paul Mathry.
- Isto aqui não está certo... - Ele parou e ficou olhando para o papel e para ela. E então,
bem lá no fundo de suas recordações, uma corda, tocada de leve pelo nome Mathry,
vibrou com um lamento parecido com uma corda de harpa tocada numa sala deserta. •-
E o que significa isto aqui, mamãe?
- Quando nós viemos para cá, adotei meu nome de solteira que era Burgess. Meu
sobrenome é realmente Mathry, já que seu pai era Rees Mathry e você é Paul Mathry.
.Só que esse era um nome que eu queria esquecer. Não queria que você jamais visse ou
ouvisse esse nome... - Os lábios tremiam ao mesmo tempo que ela falava.
- E por que, mamãe?
Houve uma pausa e ela baixou os olhos. Mal se ouvia o que dizia quando respondeu.
- Para poupar-lhe... uma horrível vergonha, Paul.
Sentindo que seu coração batia descompassadamente e com um nó no estômago, ele
ficou ali esperando, sem se mexer, até que a mãe continuasse, mas isso não podia
acontecer porque ela não conseguia falar, e então lançou-lhe um olhar de desespero.
- Não me obrigue a continuar, filho. O pastor prometeu-me que lhe contará tudo. Ele
está à sua espera. Vá até lá.
Paul percebia a tortura que representava para a mãe a continuação do que havia para
contar, mas seu sofrimento também era grande e ele não via razão para poupá-la, e
então falou com uma certa frieza.
- Continue. É você quem tem a obrigação de me contar tudo. Ela começou a chorar e
depois caiu num pranto com soluços
convulsivos que lhe sacudiam os ombros muito estreitos. Paul jamais em sua vida vira
lágrimas nos olhos dela. Depois de alguns minutos, ela respirou fundo como se quisesse
reunir todas as forças para prosseguir. Sem mesmo encará-lo, continuou a falar com
dificuldade.
- Seu pai não morreu na América do Sul. Ele estava tentando fugir para lá quando a
polícia o prendeu.
De todas as coisas que ele esperara ouvir aquela era a que jamais lhe ocorrera. Sentiu
como se o coração lhe fosse saltar pela boca.
- De que era acusado?
- Assassinato...
Houve ali na salinha um silêncio mortal. Assassinato. Aquela palavra aterradora ecoava
sem parar nas convulsões do cérebro dele. Sentia-se arrasado. Um suor frio inundou o
seu corpo. Sua pergunta veio num sussurro que tremia.
- Então ele foi enforcado?
Ela sacudiu a cabeça e seus olhos faiscavam de ódio.
- Teria sido melhor se fosse. Foi condenado à morte mas foi perdoado no último
minuto... Está cumprindo pena de prisão perpétua na Prisão de Stoneheath.
Aquilo fora demais para ela. Deixou pender de lado a cabeça, balançou-se e caiu para a
frente, na cadeira.
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Capítulo in
A casa do Pastor Fleming estava situada na parte mais movimentada do coração de
Belfast, perto da Estação da Great Northern, e era um prédio feio e estreito ao lado da
capela, pintado de cinza. Embora se sentisse fisicamente exausto, desejando apenas
esconderse em algum canto escuro, um desejo incontido tinha levado Paul até lá,
atravessando as ruas molhadas e muito iluminadas, cheias de gente, já que era uma noite
de sábado, pois precisava conversar com o religioso. Sua mãe recuperara-se do desmaio
e tinha ido para a cama. Paul não podia descansar, enquanto não soubesse do resto,
enquanto não soubesse de tudo.
Logo que bateu na porta, a luz do hall acendeu e Ella veio recebê-lo.
- É você, Paul ? Vamos entrando...
A moça acompanhou-o até a sala com o teto baixo e cortinas vermelhas e mobília
acolchoada com uma pequena lareira.
- Papai está falando com um de seus paroquianos, mas não vai demorar. Está muito
úmido lá fora e eu vou preparar um chocolate para você.
Ella dizia tudo aquilo com um sorrisinho forçado. A panacéia que mais aconselhava
para todas as doenças era uma xícara de chocolate, e aquilo era um verdadeiro gesto
paroquial. Embora não tivesse a menor vontade para beber coisa alguma, ele estava por
demais exausto para poder recusar. Seria somente na sua imaginação que as maneiras
dela davam a entender que sabia do que se tratava? Sentou-se completamente
desanimado enquanto a moça ia até a cozinha para buscar o chocolate. Trouxe tudo
numa bandeja e preparou ali mesmo diante dele.
A jovem era dois anos mais velha do que ele, mas seu corpo esbelto com o rosto pálido
davam-lhe uma aparência de garotinha. Seus olhos de uma cor verde acizentado eram
grandes e expressivos, e também o que ela tinha de mais bonito para apresentar. Eles
eram, geralmente, brilhantes e pensadores, mas também havia ocasiões em que se
enchiam de lágrimas, ao passo que em outras faiscavam de
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ódio. Ella cuidava muito de sua aparência e, naquela noite, estava com uma saia escura
pregueada, meias pretas e uma blusa branca solta com decote, e que parecia ter saído da
lavandaria.
Paul tomou o chocolate em silêncio. Uma ou duas vezes ela levantou os olhos para fixá-
los nele interrogativamente, interrompendo o tricô que fazia. Gostava de conversar e
tinha grande facilidade para isso, e o fato de ser a dona da casa para o pai viúvo dava-
lhe uma certa respeitabilidade social. No entanto, quando viu que não conseguia obter
respostas, ela arqueou as sobrancelhas e resignou-se ao silêncio que lhe era imposto.
Logo ouviram-se vozes lá fora seguidas do clique da porta ao fechar-se e a moça correu
para lá.
- Vou dizer a papai que você está aqui, Paul.
A moça saiu da sala e logo depois o reverendo apareceu. Era um homem de uns 50
anos, ombros largos e mãos um tanto desajeitadas. Vestia calça preta, botinas pesadas
de trabalhador e um casaco preto de alpaca já com as mangas bem puídas. A barba
pontuda já era bem grisalha, mas seus olhos azuis-claros davam-lhe uma aparência
infantil.
Entrou apressado e apertou a mão de Paul com muito carinho e depois levou-o pelo
braço
- Ainda bem que você está aqui, meu filho. Estou muito satisfeito. Venha comigo e
vamos conversar um pouco.
Levou Paul para o escritório que era uma pequena sala austera nos fundos da casa, sem
tapete e com o assoalho manchado, um mobiliário reduzido e uma escrivaninha de
carvalho com tampo de correr. As cadeiras eram de madeira vergada e havia uma
estante de livros com porta de vidro. Um relógio de mármore verde, horroroso, ganho
de presente, com anjos dourados segurando-o, estava em cima da lareira forrada com
um pano de veludo com franjas e bolinhas verdes. Depois de fazer sentar seu visitante, o
pastor sentou-se também, devagar, à sua mesa. Hesitou um pouco antes de começar com
uma voz cheia de afeição e simpatia.
- Meu caro rapaz, sei que isso deve ter sido um tremendo choque para você. Mas a
primeira coisa que precisa pensar é que essa foi a vontade de Deus. Com Sua ajuda,
você logo se recuperará...
Paul engoliu em seco.
- Não poderei recuperar-me antes de saber toda a verdade. Preciso saber de tudo.
- É uma coisa triste e sórdida, meu filho. Não acha que seria melhor se enterrássemos o
passado?
- Não. Quero ouvir tudo. Isso é necessário para que eu não passe o resto da vida
imaginando coisas. - E se interrompeu, sem poder continuar.
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Houve um silêncio. O pastor estava com os cotovelos fincados em cima da mesa e
protegia os olhos com as mãos, como se estivesse entregue a alguma oração implorando
ajuda. Ele era um homem sincero e cheio de boas intenções que mourejara durante
muito tempo "nas vinhas do Senhor". Só que era coibido de diversas formas e então,
muitas vezes, com grande desânimo, ele via desperdiçados os seus melhores esforços.
Era uma alma solitária que conhecia muitos sentimentos de autocomiseração. Até
mesmo seu amor pela filha tornava-se, para ele, uma acusação, já que conhecia bem as
imperfeições, as mesquinharias e as vaidades dela, sem que pudesse repreendê-la dado
seu grande amor pela filha. Sua tragédia estava no fato dele desejar ser santo, um
verdadeiro discípulo que poderia curar pelo toque, que poderia tornar radiante seu
rebanho com a palavra de Deus que ele próprio sentia bem no fundo de sua alma.
Queria voar, mas, infelizmente, não tinha o dom da palavra e seus pés estavam atolados
na terra de onde não podia sair. Agora ali, ao começar a falar, a voz lhe saía perturbada
e suas frases, graves e pedantes, pareciam sintonizadas com o sombrio tique-taque do
relógio.
- Há vinte e dois anos, efetuei o casamento de Rees Mathry e Hannah Burgess, em
Tynecastle. Já conhecia Hannah desde muitos anos e ela era uma das mais queridas de
meu rebanho. Não conhecia Rees, mas sabia que ele era um jovem atraente e de muito
boas maneiras, galés de origem. Gostava muito dele e também achava que era digno de
confiança. Tinha um emprego excelente como caixeiro viajante para os municípios do
norte de uma grande firma atacadista de doces e balas. Tinha todas as razões para
imaginar que seriam felizes, especialmente quando tiveram um filho. Fui eu, meu filho,
quem o batizou com o nome de Paul Mathry...
Ele fez então uma pausa como se quisesse pesar suas palavras com um grande cuidado.
- Não poderia dizer que não havia pequenos desentendimentos na família. Sua mãe era
estritamente religiosa, uma verdadeira cristã, ao passo que seu pai, para ser, pelo menos,
caridoso, tinha opiniões mais liberais e isso, naturalmente, resultava em brigas. Sua
mãe, por exemplo, era irredutivelmente contra o vinho e o fumo na casa, e isso era uma
coisa com que seu pai não podia concordar e, nem mesmo, compreender. Acontece que
o trabalho de seu pai era viajar e isso o afastava de casa uma semana por mês, pelo
menos, uma coisa que pode ter contribuído para desorientá-lo um pouco. Ele sabia fazer
amigos e tinha muitos, já que era um homem bonito e simpático, embora certas
companhias suas não fossem lá grande coisa, principalmente as que ele encontrava nos
bilhares, nos bares e outros lugares de má fama. Mesmo assim, eu nada tinha contra ele
até o dia dos terríveis acontecimentos em 1921...
19
Ele suspirou e, tirando as mãos da testa, juntou as pontas dos dedos com um olhar
doloroso e perdido como se estivesse contemplando, em retrospectiva, todos aqueles
anos do passado.
- Em janeiro daquele ano, a firma onde seu pai trabalhava fez uma modificação no
pessoal e então seu pai mudou-se com vocês para os Midlands. Aliás, nessa mesma
ocasião, eu mesmo fui transferido para Belfast, aqui para esta paróquia, mas sempre
mantive contato com sua mãe por cartas, mas devo confessar que a vida de vocês em
Wortley, desde o princípio, não era muito satisfatória. Seu pai parecia não ter gostado
da transferência, já que seu novo distrito oferecia menos possibilidades de vendas.
Wortley era rodeada por uma paisagem campestre muito agradável, embora a cidade
fosse cinzenta e triste e, aliás, sua mãe também não gostava dela. Não conseguiam
encontrar uma casa que lhes servisse e então moraram numa sucessão de quartos
mobiliados. Então, de repente, exatamente no dia nove de setembro, para ser preciso,
seu pai simplesmente chegou à conclusão de que não podia mais agüentar aquilo e que
sua paciência se esgotara. Achou que seria melhor abandonar o emprego e emigrar para
a Argentina onde achava que todos teriam melhores oportunidades, uma vez que se
tratava de um novo mundo. Comprou três passagens no Eastern Star, cuja saída estava
marcada para o dia quinze de setembro. No dia treze ele embarcou você e sua snãe para
Liverpool onde deveriam esperá-lo no Hotel Great Center. Na noite do dia quatorze ele
saiu de Wortley, de trem, para ir ao encontro de vocês, mas nunca chegou lá. Às duas da
madrugada, quando ele desembarcou na estação, a polícia estava à sua espera. Foi preso
depois de uma luta violenta e foi levado para a cadeia na Rua Canon. Deus do céu!
Como ainda me lembro daquele tremendo choque! Ele era acusado de assassinato
premeditado.
Houve uma longa pausa cheia de tensão. Paul estava encolhido em sua cadeira como se
estivesse hipnotizado. Parecia estar com a respiração suspensa até que o pastor
recomeçou a contar o que houvera.
- Na noite de oito de setembro havia sido perpetrado um crime horrível e sórdido. Mona
Spurling, uma moça bonita de vinte e seis anos, empregada numa loja de flores perto de
Leonard Square, foi brutalmente assassinada no apartamento onde morava no número
cinqüenta e dois de Ushaw Terrace, em Eldon, um subúrbio de Wortley. A hora do
crime ficou bem estabelecida, já que ele ocorrera entre oito horas e oito e dez minutos.
Voltando do trabalho às sete e meia, a moça tinha aparentemente feito uma ligeira
refeição e depois vestira urna leve e transparente camisola de dormir com a qual foi
encontrada. As oito horas, um casal chamado Prusty, que morava no apartamento de
baixo, ouviu um barulho de violência vindo do apartamento de cima e então Alfred
Prusty, atendendo aos insis20
tentes pedidos da mulher, subiu para ver o que havia. Bateu com força na porta do
apartamento mas não teve resposta. Estava sem saber o que fazer do lado de fora,
quando chegou um rapaz chamado Edward Collins, motorista de uma caminhonete de
entregas, que vinha trazer um embrulho com roupa lavada. Na hora exata em que
Collins chegava, a porta foi aberta e um homem saiu do apartamento da moça, passou
por eles correndo e despencou-se pela escada. Os outros dois entraram e encontraram
Mona com a cabeça quase decepada estirada no tapete da frente da lareira numa enorme
poça de sangue.
" Prusty correu, imediatamente, para chamar um médico das redondezas que veio no
mesmo instante, mas que nada mais pôde fazer, pois a moça já estava morta. Chamaram
a polícia e logo chegaram o médico-legista junto com o Inspetor Swann. Logo de saída
parecia que o criminoso não deixara pistas, mas, depois de algumas horas de buscas, o
inspetor conseguiu encontrar três delas. Encontrou numa escrivaninha um cartão-postal
com um desenho feito a lápis e que fora entregue aos Correios de Sheffield uma semana
antes, com as seguintes palavras: A ausência aumenta, as saudades. Quer encontrar-se
comigo para jantarmos no Drury quando eu voltar? A assinatura era Bon-bon.
"Ele encontrou ainda um bilhete meio queimado, sem assinatura, com o carimbo do
Correio de oito de setembro, e que dizia: Preciso ver você esta noite. Finalmente, no
tapete, ao lado do corpo, achava-se uma estranha sacolinha de dinheiro feita de um
couro macio e muito bom, que se fechava com uma argola de metal, e continha cerca de
dez libras em notas e moedas. Na mesma hora, com detalhes fornecidos por Collins e
Prusty, foi feita uma descrição do homem procurado junto com uma substancial
importância em dinheiro para qualquer informação que resultasse na captura do
criminoso.
"No dia seguinte, a dona de uma lavandaria local procurou a polícia levando com ela
uma de suas empregadas chamada Louise Burt que era prima de Collins e dizia que o
havia acompanhado até Ushaw Terrace na noite do crime e que, enquanto esperava no
beco junto ao prédio, já que não gostava de subir escadas, fora esbarrada, e quase
atirada ao chão, por um homem que saíra correndo do número cinqüenta e dois. No seu
depoimento constava a descrição do indivíduo. A polícia já tinha então três pessoas que
haviam visto o assassino.
Fleming parou e olhou para Paul que ali permanecia perturbado e com um olhar
perdido.
- Não me é nada agradável reviver certas coisas, Paul, mas, infelizmente, tudo isso tem
grande importância para essa trágica história. Antes de mais nada devo dizer que Mona
não era uma moça de bons costumes. Era realmente promíscua, mas um dos homens
21
que a procurava era o que a visitava com freqüência regular. Ninguém sabia quem ele
era, mas as outras colegas que trabalhavam com ela na loja de flores afirmavam que
Mona parecia muito preocupada ultimamente, e até mesmo aflita. Tinham ouvido uma
conversa sua no telefone em que ela se mostrava zangada e cheia de recriminações
usando frases como: "Você é responsável, e se me abandonar agora eu vou desmascará-
lo completamente." Afinal, a autópsia constatou que a pobre moça estava grávida e isso
mostrava qual era o motivo. Não havia dúvida de que o assassino deveria ser aquele que
era o responsável por sua condição. Talvez já estivesse cheio dela. Diante daquela
ameaça, ele lhe escrevera marcando um encontro e então a matara.
"Armada com aquelas provas, a polícia empregou todos os seus recursos para descobrir
o homem procurado. Todos os jornais reproduziram a foto do postal assinado Bon-bon
com aquele desenho a lápis, e todos eles convidavam as pessoas que soubessem de
alguma coisa para procurarem a polícia de Wortley. Todas as estações de estradas de
ferro e portos de embarque ficaram sob severa vigilância e, durante uma semana, a
polícia intensificou suas atividades. Então, na noite de treze de setembro, um
empregado de bookmaker chamado Harry Rocca procurou a polícia num estado de
grande agitação para fazer uma declaração. Confessou logo que tinha relações íntimas
com Mona e que estivera com ela na noite da véspera do crime. Continuou seu
depoimento dizendo conhecer quem havia enviado aquele postal, e que era um amigo
com quem costumava jogar bilhar e que também era muito bom no desenho. Alguns
meses antes ele o apresentara a Mona. E mais ainda, quando o postal apareceu nos
jornais, fora procurado pelo tal amigo que parecia muito aflito e que lhe pedira para
ajudá-lo dizendo: Se alguém vier perguntar a você onde eu estava na noite de oito de
setembro, quero que responda dizendo que estávamos jogando bilhar no Hotel
Sherwood.
"Isso então, naturalmente, foi o bastante. O Superintendente da Polícia, acompanhado
do Inspetor Swann, foi imediatamente para o endereço que Rocca lhes dera, mas ali
foram infermados de que a pessoa procurada partira pelo expresso noturno da estação da
Rua Leonard, com destino a Liverpool, uma hora antes. Seguiu-se então a prisão na
estação em Liverpool e o homem procurado era seu pai, Paul.
Houve um novo silêncio enquanto o pastor bebia um gole de água do jarro que tinha em
cima da mesa. Depois, continuou com a testa franzida.
- Aconteceu, no entanto, que Prusty, a principal testemunha, estava de cama com um
acesso de asma. Ele era fabricante de cigarros e o pó da nicotina causava-lhe aqueles
acessos periódicos, mas as duas outras testemunhas foram imediatamente levadas a
Liver22
pool pelo superintendente e pelo inspetor e ali, no meio de um grupo de doze pessoas,
imediatamente reconheceram o homem que haviam visto saindo do apartamento na
noite do crime. Collins exclamou logo que o viu: Que Deus me perdoe! Foi eses homem
aí! Louise Burt teve um acesso de histeria diante da responsabilidade e desatou em
pranto. "Eu sei que lhe estou colocando a corda no pescoço, mas foi ele mesmo!"
"A indignação popular foi tremenda contra o preso e começaram a querer linchá-lo, mas
a polícia conseguiu escamoteá-lo e leválo para a prisão em Wortley. Deus bem sabe,
Paul, como estou dilacerando seu coração. O julgamento teve início a quinze de
dezembro no tribunal de Wortley presidido pelo Juiz Oman. Você bem pode imaginar
nossa angústia durante todo esse tempo! A acusação chamou todas as testemunhas, uma
de cada vez, e seus depoimentos eram terríveis. A polícia examinou as malas de seu pai
e encontrou uma navalha que os seus peritos afirmaram ter sido a arma do crime. Um
outro perito- afirmou que o bilhete meio queimado, encontrado no apartamento, tinha
sido escrito por seu pai com a mão esquerda. Ele fora visto muitas vezes na loja
comprando uma flor para a lapela e conversando e rindo muito com Mona. E o processo
prosseguia sempre incriminando-o cada vez mais com sua fuga frustrada para a
Argentina e sua tremenda resistência à prisão, mas a pior de todas as provas foi a do
depoimento de Rocca contando como tinha sido procurado por ele para lhe fornecer um
falso álibi. E quando foi chamado a depor, Mathry, infelizmente, saiu-se muito mal
contradizendo-se, perdendo a compostura e até mesmo gritando para o juiz. Ele não
conseguia prestar contas de seus movimentos na hora do crime, dizendo apenas que
passara uma parte do tempo num cinema, mas essa triste tentativa foi logo
desmascarada pela acusação. No meio de toda aquela tenebrosa confusão, havia apenas
uma luz muito fraquinha a seu favor. Prusty, embora reconhecendo que ele era muito
parecido com o homem que saíra do apartamento, recusava-se a garantir que fosse ele
mesmo. No entanto, a acusação logo mostrou que a visão da testemunha era deficiente e
também que Prusty guardava uma certa mágoa por não haver sido levado a Liverpool
junto com Collins e Louise.
"As instruções do juiz para os jurados mostravam que ele era contra o acusado. O júri
retirou-se para dar a conhecer sua decisão às três horas da tarde do dia vinte e três de
dezembro, mas, vinte minutos depois, voltou com o veredicto de "Culpado". Eu estava
lá na sala do tribunal, mas sua mãe não compareceu porque se achava doente, e jamais
me esquecerei daquele pavoroso momento, quando o juiz, colocando sua toga,
pronunciou a sentença entregando a alma de seu pai à mercê de Deus. Debatendo-se e
vituperando quando o
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levaram da sala, seu pai ainda soltou um grito. Deus não existe! Que se danem sua
mercê e a dEle. Não preciso de nenhuma delas.
"Ninguém pode fazer pouco de Deus, Paul. Mesmo assim, talvez fosse para responder à
blasfêmia que o Todo-Poderoso demonstrou seu perdão ao pecador. Embora ninguém
esperasse aquilo, bem na véspera de sua execução, a sentença foi comutada para prisão
perpétua, e ele foi então levado para a Prisão de Stoneheath.
Junto com a cadência decrescente do que dizia o pastor, o silêncio invadiu o escritório.
Os dois homens não se olhavam. Paul estava tão mergulhado na poltrona que até parecia
fazer parte dela, e então enxugou a testa com o lenço amarrotado que tinha na mão.
- E ele ainda vive?
- Ainda...
- Alguém foi visitá-lo depois que ele foi para lá? O pastor soltou um profundo suspiro.
- No princípio, ainda tentei manter-me em contato com ele por intermédio do capelão da
prisão, mas ele recebeu minhas tentativas com tal ressentimento, e até mesmo com tal
ferocidade, que fui obrigado a desistir Quanto à sua mãe... bem, meu caro Paul... ela
achava que tinha sido tratada com muita crueldade e, além disso, precisava cuidar de
você. No seu próprio interesse, meu filho, ela achava que o melhor mesmo seria apagar
esse triste capítulo de sua vida ainda tão no começo Não vem ao caso se conseguiu isso
ou não. Você tem boas condições para enfrentar este choque da revelação e foi por isso
que eu lhe contei toda a verdade em lugar de procurar enganá-lo com meias-verdades
Contei tudo o que aconteceu, mas agora, depois de fazer isso, quero que você esqueça
tudo, já que ainda tem toda uma vida para enfrentar. Deve seguir em frente como se
jamais houvesse acontecido tudo o que lhe contei. Siga em frente, sempre em frente,
não só com sua fé como também com SP" perdão
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Capítulo IV
Já se passara uma semana depois daquela conversa no escritório de Fleming. Era uma
tarde de domingo e a aula de catecismo em Merrion tinha terminado. A última criança já
havia saído, e Ella ficou esperando Paul na porta de entrada, ostentando o seu mais
bonito costume azul e o chapeuzinho de palha que ela mesma enfeitara com fitas. O
rapaz desceu muito ereto e passou por entre as carteiras vazias para chegar até onde ela
estava. Embora aceitasse aquelas aulas com o intuito principal de agradar à sua mãe, ele
gostava daquela petulante garotada, mas, naquele dia, sentia-se tonto com a cabeça
pesada depois de mais uma noite em claro, e só Deus sabia como havia conseguido
chegar até o fim.
Ella foi a seu encontro, procurando sondá-lo.
- Tenho certeza de que você não está muito disposto para música, Paul, mas o dia está
tão bonito que nós bem que poderíamos dar umas voltas por aí.
Era seu costume, antes de sair a passeio aos domingos, sentar-se diante do pequeno
órgão e ali tocar para ela coisas agradáveis, quando estava de bom humor. Seu talento
para a música estava bem acima do normal e então, conhecendo bem o gosto da moça,
bem diferente do seu, ele tocava Hãndel ou Elgar, ou qualquer outra coisa que fosse do
agrado dela que, aliás, era bem restrito. Naquele domingo, no entanto, aquilo estava fora
de qualquer cogitação, da mesma forma que também não lhe agradava a perspectiva do
passeio, mas concordou porque percebia que a intenção dela era apenas distraí-lo.
Ella tomou-lhe o braço apertando-o um pouco como se quisesse afirmar sua posse e
Paul acompanhou-a na rua caminhando na direção do Parque Ormeau. Ainda era cedo,
mas o parque já estava cheio com as mulheres procurando exibir o que tinham de
melhor enquanto os homens exibiam suas respeitabilidades e seus trajes domingueiros e
com isso criavam a ortodoxia dos sábados dos judeus, coisa que não agradava muito a
Paul. No momento em que atravessavam o portão, ele resmungou numa voz em que se
notava o cansaço.
- Não estou muito disposto a esta espécie de desfile, Ella...
A moça não gostou mas ficou calada. Embora sua natureza não tivesse grande
capacidade para as emoções, suas afeições, desde muito, se concentravam nele. Seu
agudo sentimento sobre convenções não permitia que ela deixasse transparecer aquilo, e
Paul, embora aceitando-a como amiga íntima e também para satisfazer as insinuações
da mãe, tinha-se deixado envolver naquele relacionamento de forma um tanto
descuidada, sem perceber a grande incompatibilidade entre o seu caráter franco e
generoso e a religiosidade estreita e estereotipada que lhe marcavam todas as ações.
Apesar de tudo, Ella considerava aquilo como assunto resolvido e todos os seus planos
para o futuro giravam em torno do casamento dos dois. Ela era extremamente ambiciosa
no que lhe dizia respeito e essa ambição também se estendia a ele. Reconhecia que a
vivacidade dele combinava bem com sua própria habilidade para "arrumar" as coisas.
Ele já via como a sua boa influência poderia ajudá-lo na carreira até que atingisse uma
alta posição acadêmica que permitisse aos dois a livre circulação entre os mais elevados
círculos.
Sendo assim, a recente descoberta tinha ferido profundamente seu orgulho, mas via
também como fora um tremendo choque para Paul. E no entanto, se ela estava disposta
a tolerar e esquecer aquilo, por que então Paul não poderia fazer a mesma coisa? O dano
não era irremediável, já que tudo estava bem enterrado no passado remoto e, com um
pouco de cuidado, não haveria possibilidade daquilo vir novamente à tona. Essa era a
atitude dela. E agora ali, vendo-o ainda deprimido, Ella já começava a ficar contrariada
e magoada. Embora conseguisse dominá-lo com grande sabedoria, a moça tinha um
gênio terrível que era mais mordaz do que violento, e então, naquele exato momento,
quando ele tornou a falar, foi com dificuldade que conseguiu dominar-se.
Como se sentisse vergonha, ele procurava dar vazão aos pensamentos que o
atormentavam.
- Tenho a impressão de que, durante todos esses anos, vivi enganando todo mundo.
Nem mesmo posso continuar me chamando Paul Burgess porque meu nome é Paul
Mathry. Se não usar esse nome, serei um vigarista mentiroso, mas, se usá-lo, terei
sempre a impressão de que as pessoas estão olhando para mim, apontando-me e
segredando coisas a meu respeito. Aquele ali é Mathry... o filho do homem que...
- Pare com isso, Paul. É você mesmo quem está tornando as coisas mais difíceis...
Ninguém precisa saber.
- Mas mesmo que os outros não saibam, Ella, eu sei... É isso aí, eu sei, e então o que
posso fazer? - Ele caminhava falando sempre de cabeça baixa.
- Mas você precisa esquecer tudo isso, Paul...
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- Esquecer? - falou, encarando-a com um olhar onde se v a incredulidade.
- É isso mesmo, Paul. - A moça já sentia o fim de sua paciência. - Esquecer! Você
precisa varrer completamente de sua existência esse... esse tal de Mathry...
Ele virou-se com um olhar de espanto magoado.
- Repudiar meu pai, Ella?
- Então você acha que ele é alguém de quem pode orgulhar-se ?
- Seja lá o que for que ele fez, o coitado já pagou bem caro... com a metade da vida
passada na prisão... pobre-diabo...
- Só estou pensando em você, Paul. Peço-lhe o favor de não praguejar em minha
presença...
- Mas eu não disse nada, Ella.
A moça não conseguia mais conter-se. Ficou muito vermelha e falou com rispidez.
- Você disse sim, Paul. Usou uma palavra imprópria que nenhuma senhora pode tolerar.
Não vejo desculpas para a maneira como você está se comportando...
- E como você espera que eu me comporte?
- Apenas com um pouco mais de civilidade. Você parece não se dar conta de que isso
afeta tanto você como a mim também...
- Olhe aqui, Ella, pelo amor de Deus, não vamos agir como crianças numa situação
como esta!
Ela reagiu, de repente, dominada pela sensação de sentir-se magoada e pelo desejo de
fazer valer sua influência sobre ele. O rosto tomara uma tonalidade esverdeada e os
olhos estavam molhados.
- Eu acho que... já que você se sente assim... o melhor mesmo é interrompermos o
passeio.
Houve uma pausa em que ele a olhou como se estivesse tonto. Seus pensamentos
estavam muito longe dali.
- Como você quiser...
A moça ficou desconcertada vendo que ele lhe fazia a vontade ao pé da letra e mordeu o
lábio procurando esconder as lágrimas de indignação. E então, vendo que ele não fazia
menção para detê-la, ela esboçou um tímido sorriso cheio de reprovação e de bondade
ultrajada, aquele mesmo sorriso de mártires que tinham as virgens cristãs de outrora
quando lhes rasgavam os seios com ferros em brasa.
- Muito bem. Então vou voltar para casa. Adeus por enquanto. Espero que você esteja
com melhor disposição na próxima vez que nos encontrarmos.
Ela fez meia-volta e seguiu em frente de cabeça erguida, como se houvesse passado por
alguma provação. Durante alguns momentos ele ficou ali olhando para ela, lamentando
sinceramente o desentendimento, mas sentindo-se aliviado, profundamente aliviado
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mesmo, por ficar sozinho. Quando já não a via mais, começou a caminhar lentamente na
direção oposta.
Não tinha coragem para voltar para casa, onde, certamente, iria encontrar a mãe à espera
com uma solicitude ansiosa e insuportável. Detestava aquela voz lamurienta, a
apresentação servil de seus chinelos, a insinuação silenciosa para uma noite segura e
tranqüila no aconchego do lar.
Como era estranha aquela nova atitude que ele adotara para com a mãe! Mais estranho
ainda, porém, e também mais ilógica era a atitude e o sentimento que,
inconscientemente, começava a se formar em seu espírito, a respeito do pai. Ali, na
realidade, estava o criminoso e a causa de toda a sua infelicidade. Mas, apesar de tudo,
Paul não conseguia odiá-lo. Em lugar disso, durante aquelas últimas horas torturadas e
insones, havia pensado muito nele com um estranho sentimento de pena. Quinze anos
de prisão! Então não seria aquilo um castigo adequado para qualquer homem? Sentia-se
envolvido pelas recordações da infância, recordações vagas e pungentes. Lembrava-se
de toda a ternura que sempre recebera do pai, mas não se lembrava de nenhuma coisa
desagradável. Sentiu as lágrimas que lhe turvavam a visão.
Já se encontrava agora no cais Donegal que era o distrito pobre das docas da cidade.
Sem que ele mesmo percebesse, tinha sido levado até ali por um estranho impulso. Com
a cabeça baixa, continuava a andar, atravessando os trilhos da estrada de ferro e
enveredando por uma confusão de fardos e sacos que enchiam o calçamento de pedras.
Um nevoeiro noturno vinha-se aproximando do cais junto com a escuridão da noite, e
isso fazia com que os guindastes parecessem fantasmas. A buzina dos barcos no
nevoeiro começara a soar melancolicamente.
Afinal, detido por uma barreira de caixas, sentou-se numa delas. Ali bem na sua frente,
do outro lado, um cargueiro pequeno e enferrujado estava ultimando seus preparativos
para partir com a maré alta e ele logo reconheceu o Vale of Avoca que atravessava o
canal entre Belfast e Holyhead. Havia ocasiões em que ele levava passageiros
misturados com a carga, e então ali estava um pequeno grupo de homens e mulheres,
que iam colher batatas nas fazendas de Lincolnshire, todos levando suas bagagens e
despedindo-se de amigos.
Sentado no meio da neblina que já o envolvia, como se fosse um manto, com o jruido
das buzinas enchendo-lhe os ouvidos, Paul ficou olhando para o barco com um interesse
cada vez maior. Já estava de férias e não havia mais condições para assumir seu cargo
como professor na escola de verão, e então ele poderia fazer de seu tempo o que bem
entendesse. Sentiu-se tomado por um entusias-
mo repentino, estranho e predestinado. Impulsivamente, tirou do bolso seu caderno de
notas e escreveu um bilhetinho.
Vou viajar durante alguns dias. Não se ajlija.
Paul
Rasgou a página, dobrou e escreveu por fora o nome e endereço de sua mãe e chamou
um garoto que estava ali olhando o barco e entregou-lhe o bilhete com uma moeda para
que ele o entregasse no destino. Depois, levantou-se e foi até o escritório da companhia
onde comprou uma passagem para Holyhead que lhe custou alguns xelins. Quando
pisou na prancha, o navio já se estava movimentando. Logo depois soltaram uma grossa
corda e os velhos motores do cargueiro começaram a arquejar, enquanto ele zarpava
para o mar.
Capítulo V
Eram seis horas da manhã e chovia muito quando o Avoca atracou em Holyhead. Um
tanto enregelado, Paul atravessou os trilhos da estação e mal teve tempo de tomar uma
xícara de chá, porque o trem já estava apitando para partir. Pagou à garçonete ainda
tonta de sono e correu para tomar um lugar num canto do vagão da terceira classe, e o
trem logo apitou e partiu.
Foi uma viagem longa atravessando Shrewsbury e Gloucester, com duas baldeações, e
com isso ele ficou encharcado já que não trouxera capa, mas, apesar de todo o
desconforto, ele estava cada vez mais decidido. A paisagem agora já era mais triste e
desolada e aquilo parecia coadunar-se com seu estado de espirito. Já não se viam mais
os campos divididos por cercas vivas e, em seu lugar, o terreno era pedregoso e
desolado. Lá estavam os altos monolitos em grupos formando círculos, estranhos e pré-
históricos, que chocavam sua visão. Para o lado oeste, saindo de uma floresta de
pinheiros, via-se uma cadeia de montanhas lívidas com os cumes cobertos por nuvens
cinzentas, onde a chuva se despencava em cataratas. A máquina prossegua enfrentando
o vento que vinha do mar e, numa das curvas, Paul via as ondas frias que se quebravam
nos penhascos.
Finalmente, por volta das quatro horas da tarde, o trem parou numa pequenina estação
que era o destino da Paul. A única plataforma estava quase deserta, quando ele entregou
sua passagem ao solitário empregado da estação, sentindo o sangue latejar-lhe nos
ouvidos. Sua intenção era perguntar ao homem o caminho para a prisão, mas as palavras
não lhe saíam da boca e ele passou em silêncio pela cancela da estação. Logo que
chegou do lado de fora, viu ao longe, através da terra avermelhada e encharcada,
escondido pelas altas paredes acasteladas, o enorme complexo cinzento que era a Prisão
de Stoneheath. Seguiu em frente para atravessar o pântano.
Quanto mais perto chegava da prisão, mais rápidas eram as batidas do coração. Estava
com a boca seca, o coração apertado e sentia-se enjoado e vazio. Durante todo o dia só
tomara uma xícara de chá e comera um sanduíche. Quando chegou a um aclive do ca-
minho, ele se encostou a um tronco para recuperar o fôlego. Agora já se via no
horizonte um pedaço de céu limpo e claro e, tendo por fundo aquela cortina delicada, e
na pequena elevação onde se encontrava, ele já via melhor os detalhes da prisão.
Lá estava ela, um bloco quadrado sem janelas e apenas com vigias baixas e as torres dos
guardas que pareciam planar como águias em todos os cantos, lisa como rocha, sinistra
como uma fortaleza medieval. Do lado de fora estavam duas fileiras de casas dos
guardas com barracões e várias oficinas, mas tudo que havia em torno era a desolação
do pântano. Um muro muito alto, impossível de escalar, com pontas agudas no topo,
cercava todo o conjunto onde saltavam aos olhos três pedreiras avermelhadas que
pareciam enormes feridas. Em uma delas, havia uma turma de presidiários trabalhando
e, vistos à distância, eles pareciam formigas cinzentas guardadas por quatro homens em
uniformes azuis e armados que caminhavam lentamente, de um lado para outro, com ar
ameaçador. Ali, à vista de Paul, aquelas figurinhas tristes, curvadas e cansadas,
trabalhavam, e o silêncio reinante dava ao quadro uma impressão de eternidade.
Paul voltou-se rapidamente quando ouviu às suas costas o ruído de passos e o seu susto
foi como se tivesse ouvido estalar o dia do juízo final. Era um pastor que vinha
acompanhado de seu cão com uma triste aparência. O homem tinha um certo aspecto
misterioso que parecia um reflexo da tristeza que reinava em torno, e quando ele parou
ao lado de Paul, apoiando-se em seu bordão, seus olhos mostravam a desconfiança que
fazia parte daquela região. Passou-se algum tempo antes que dissesse alguma-coisa.
- A vista aqui não é nada bonita...
- Não.
Paul não se mostrava muito disposto a falar, e então o outro apenas acenou com a
cabeça, concordando.
- É um lugar amaldiçoado, se é que isso existe mesmo. Já faz quarenta anos que vivo
aqui... No mês passado houve uma revolta na prisão. Morreram cinco presidiários e dois
guardas, mas nada mudou na sua aparência. Está agora como era antes. Tudo tranqüilo e
cego. É isso aí. Agora mesmo, enquanto estamos aqui conversando, um guarda lá
naquela torre deve estar nos vigiando com seu binóculo. Está observando todos os
nossos movimentos.
Paul conseguiu evitar um tremor e reuniu as forças necessárias para fazer a pergunta que
era a coisa mais importante em seu espírito.
- Quais são os dias de visitas?
O outro olhou-o como se estivesse ouvindo uma piada.
- Dia de visitas? Isso é coisa que não existe aqui em Stoneheath.
31
Paul sentiu um aperto no coração, mas logo reagiu.
- Mas é claro que... deve haver dias... quando os parentes dos presos podem vir visitá-
los...
- Aquela gente não recebe visitas. Isso nunca acontece. É tão difícil para alguém entrar
lá da mesma forma que é difícil sair... E agora, boa tarde, moço.
O rosto curtido do velho, que não parecia muito dado a coisas alegres, mostrava agora
um certo ar divertido com as respostas que dera a Paul. Ele assobiou chamando o cão e
foi embora.
Sozinho, e novamente envolvido no completo silêncio, Paul ficou absolutamente imóvel
endo desmoronar-se suas expectativas cheias de esperanças. Nada de visitas... nunca!
Então ele não ia poder ver o pai... não podia nem mesmo trocar uma única palavra com
ele... Era completamente impossível aquilo que ele viera fazer ali. Na verdade, naquele
momento, diante da triste realidade daquela prisão, Paul percebia como eram fúteis e
inúteis as esperanças que havia alimentado e também aquela sua viagem sentimental até
ali.
O dia começava a escurecer e, enquanto ele ainda ali estava de pé, um sino começou a
tocar lá na prisão, devagar e forte, rompendo o silêncio como se fosse um toque fúnebre.
Depois, ele viu os presos largarem o trabalho na pedreira e, sob as ordens dos guardas,
formarem as filas que, lentamente, se encaminhavam para a prisão. Logo os portões se
abriram para recebê-los e fecharam-se em seguida. Nesse momento, os últimos restos da
transparência no céu já tinham desaparecido.
Paul sentiu que alguma coisa se lhe despedaçava dentro do peito. Fustigado pela dor
física e moral, numa tremenda frustração, ele soltou um grito selvagem e desarticulado.
As lágrimas candentes saltavam-lhe dos olhos e corriam-lhe pelo rosto. Ele deu as
costas àquela visão maldita e caminhou de volta, quase às cegas, para a estação.
Capítulo VI
Na periferia da cidade de Wortley, na esquina da Rua Ayres com a Avenida Eldon,
existe uma charutaria com uma placa já bem apagada onde se lê: A. PRUSTY -
Importador de Charutos de Burma. A loja, em estilo bem antigo, mas ainda com um ar
de solidez comercial, possui duas vitrinas. Uma delas exibe, com sobriedade, charutos,
rape, cachimbos e as melhores qualidades de fumo. Na outra, o vidro é opaco, tendo
apenas um pequeno círculo com moldura dourada pelo qual se pode espiar a banca onde
o proprietário fabrica manualmente os cigarros Robin Hood de fumo escolhido e que
tornam a loja famosa.
Na tarde daquele dia de julho, Prusty estava sentado ali de avental e em mangas de
camisa, enrolando sua marca especial de cigarros com rapidez e delicadeza. Era um
velhinho magro que já passara dos 60 com um nariz chato e poroso e um rosto
apoplético. Era quase completamente calvo e tinha apenas uma mecha de cabelos
brancos e uma verruga muito grande que quase parecia uma ameixa. O bigode eriçado
estava manchado de nicotina da mesma forma que as pontas dos dedos. Tinha no nariz
um pince-nez com aro de metal.
Sentado ali na sua banca, e olhando pelo círculo transparente da vitrina, ele vinha
acompanhando, desde alguns minutos, os movimentos de um rapaz que já fizera
algumas tentativas para entrar, mas sempre hesitava no último instante e continuava lá
fora. Afinal, tomando-se de coragem, o estranho entrou, pálido, mas resoluto, depois de
haver atravessado a rua. Prusty não tinha empregado, e então se levantou lentamente e,
de uma forma um tanto brusca, dirigiu-se ao rapaz.
- Sim...?
- Eu desejava falar com o Sr. Albert Prusty, se é que ele ainda está vivo.
O outro olhou-o com um sorriso ácido.
- Até onde eu saiba, ele ainda está bem vivo. Sou Albert Prusty.
O rapaz, como um mergulhador atirando-se num mar gelado, respirou fundo como se
quisesse tomar coragem.
Eu sou Paul Mathry... - Conseguira afinal. Uma vez pronunciado aquele nome, sentiu-se
invadido por uma onda de alívio e sua língua já estava solta. - ...Isso mesmo. Mathry.
Escreve-se M-a-t-h-r-y. Não é um nome comum. Será que ele significa alguma coisa
para o senhor?
Não houve mudança na expressão do rosto do fabricante de cigarros, e foi com voz
irritada que ele respondeu.
- E o que deveria significar para mim? Lembro-me do caso Mathry se é disso que você
quer falar. A gente nunca esquece as coisas muito desagradáveis que nos acontecem.
Mas que diabo está você querendo dizer com isso? O que tem a ver com você?
- Eu sou o filho de Rees Mathry.
Um silêncio pesado caiu sobre a loja com seu teto muito baixo. O velho olhou Paul dos
pés à cabeça, aspirou lentamente uma pitada de rapé que tirou de uma lata ali na sua
frente.
- E por que veio me procurar?
- Não posso explicar... mas eu precisava vir. - Em frases interrompidas, Paul fez um
esforço para contar a respeito das circunstâncias que o haviam levado até Stoneheath. -
Qieguei hoje de manhã... Há um trem que parte às nove da noite e que faz a ligação com
o barco que parte para Belfast à meia-noite. Achei que se apenas conseguisse descobrir
alguma coisa .. alguma coisa que eu mesmo não sei o que possa ser... talvez alguma
a.tenuante... então eu voltaria para casa mais tranqüilo. Foi por isso que vim aqui...
porque o senhor foi a única testemunha favorável no caso...
A resposta do velho veio de uma forma um tanto agressiva.
- O que está querendo dizer com essa história de favorável? Não vejo até onde você
quer chegar...
- Então... isso quer dizer que o senhor não tem nada para me dizer?
- E que diabo você queria que eu dissesse?
- Eu... não sei... - Paul suspirou, resignado. Depois de uns segundos empertigou-se e
caminhou para a porta, e então falou com voz firme. - ... Muito bem, eu vou andando.
Desculpe-me se o perturbei. Muito obrigado por me haver ouvido.
Ele já estava no meio do caminho, quando a voz autoritária do velho o interrompeu.
- Espere aí...
Paul voltou devagar e, mais uma vez, Prusty olhou-o dos pés à cabeça. Viu seu rosto
aflito e a calça cheia de lama, e então aspirou mais uma pitada de rapé.
- Está com uma pressa dos diabos. Você me aparece aqui, de repente, vindo sem que eu
saiba de onde, depois de tanto tempo
34
que só Deus sabe, e entra-me por aqui apressado como se quisesse apenas comprar uma
caixa de fósforos. Mas que diabo! Você não pode esperar que, em quinze minutos, eu
recue quinze anos.
Antes que Paul pudesse responder, a campainha da porta tocou e chegou um freguês.
Era um homem forte que, depois de haver escolhido e acendido um charuto, parecia
disposto a puxar uma conversa. Prusty veio até onde Paul estava e íalou em voz baixa.
- Esta é a hora do almoço e a gente nunca fica só. Não podemos conversar aqui. Aliás,
eu nada tenho a dizer, mas como fecho às sete e o seu trem só saí às nove, você terá
tempo de vir até o meu apartamento para tomar um cafezinho, aí pelas sete e meia.
- Muito obrigado... - De repente, porém, Paul lembrou-se de alguma coisa e arregalou os
olhos. - No seu apartamento?
Prusty sacudiu a cabeça, fazendo uma careta e apertando os seus olhos de míope.
- Sim. No mesmo endereço: Ushaw Terrace cinqüenta e dois. Estarei esperando. Ele
ainda está lá, da mesma forma que eu.
Afastou-se para conversar com seu freguês, e Paul saiu caminhando pela rua ainda tonto
de cansaço, já que passara a noite no banco duro da estação, enquanto esperava o trem.
Sentia-se fraco e com fome, e então lembrou-se de que havia passado pela Associação
Cristã de Moços quando viera da cidade. Tomou um bonde amarelo que passava e em
cinco minutos estava lá. Depois de um banho quente, ele passou uma escova nas roupas
e arrumou-se para ir almoçar. Comeu uma sopa, carne e pudim de arroz.
Eram ainda duas horas e quando saiu do salão de refeições, já reconfortado, ficou
imaginando como iria passar o tempo de espera que tinha pela frente. Foi então que lhe
ocorreu uma idéia. Indagou na portaria e depois de uma caminhada de 10 minutos na
Rua Leonard, muito congestionada, ele atravessou para a Praça Kenton e entrou na
Biblioteca Pública da Cidade.
No saguão embaixo da cúpula muito alta onde os sons reverberavam, ele indagou onde
era a sessão de consultas a jornais.
- O senhor pode dar-me o nome do melhor jornal de Wortley? O rapaz que estava por
detrás do balcão levantou os olhos com
ar petulante.
- E será que existe algum que seja bom mesmo? - Logo corrigiu-se e assumiu o ar de
alguém cuja função era de prestar informações a quem as pedia e respondeu mais
amável. - Creio que o Courier ainda é o melhor e o mais digno de confiança.
- Muito obrigado. Será que eu poderia ver os números de
1921?
- De todo o ano?
Apesar de querer mostrar-se confiante, Paul corou um pouco.
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Não. Não. Acho que os últimos quatro meses seriam suficientes.
- Quer preencher o formulário, por favor?
- Claro...
Ele apanhou o lápis preso por uma correntinha, preencheu o formulário e o entregou ao
funcionário.
O jovem bibliotecário sorriu com afabilidade e bateu na campainha que tinha sobre sua
mesa. Poucos minutos depois veio um empregado trazendo uma pesada pasta que
colocou em cima da mesa que estava ao lado.
Foi com certa agitação que Paul começou a folhear as páginas já amareladas e logo
ficou muito tenso quando viu, de repente, a primeira notícia sobre o crime. Ali estava.
CRIME HORROROSO EM ELDON. UMA MOÇA BRUTALMENTE
ASSASSINADA.
Paul controlou-se, apertou os dentes e começou a ler. Leu com a cabeça baixa até o fim,
enquanto os ponteiros do relógio lá no alto da cúpula continuavam andando. Em
essência, ele já sabia de tudo, só que ali era descrito de forma mais espetacular. Quando
chegou à notícia da prisão, sua testa estava alagada de suor. Quando, palavra por
palavra, o drama do julgamento se desenrolou na sua frente, o rapaz soltou um gemido
ao ler o que dissera o advogado que funcionou na acusação, Mathew Sprott, e aquilo
cortou-o como se fosse uma chicotada.
"Este assassinato atroz, cometido por um malfeitor frio e resoluto em circunstâncias de
feroz selvageria que não podem ser expressas em palavras, quase não encontra um
paralelo nos anais do crime. O assassino que cometeu um crime desta natureza chegou
ao mais baixo nível da degradação humana. A forca somente, senhores jurados, ainda é
coisa muito boa para ele."
Depois, na última página, num suplemento especial, ele encontrou as fotos que
mostravam a vítima, uma moça bonita com uma blusa cheia de fitas; das testemunhas;
de Rocca, o desprezível informante, uma criatura nojenta, os cabelos repartidos ao meio
emplastados de brilhantina; do cartão-postal fatal com sua frase pretenciosa. "A
ausência aumenta as saudades"; o instrumetno do crime, uma navalha de fabricação
alemã da marca Frass. Nada fora omitido. Até mesmo o navio estava lá, singrando as
ondas, o Eastern Star em que o criminoso ia fugir. E no centro da página, entrando no
tribunal no dia em que fora condenado, entre dois policiais, estava o condenado. Paul
ficou olhando para aquela foto mal podendo acreditar. Ali estava o rosto de seu pai com
uma expressão apavorada e estranhamente abatida, como um animal que foi, finalmente,
encurralado e que vai ser abatido, e sentiu-se então dominado por uma tremenda
angústia.
Largou rapidamente os jornais, sentindo-se agora privado da única esperança que ainda
vinha alimentando com tenacidade. E então ficou murmurando para si mesmo!
"Culpado! Culpado! Sem a menor sombra de dúvida."
Olhou para o relógio e viu, com surpresa, que eram quase oito horas. Levantou-se e
entregou os jornais de volta ao mesmo rapaz que ainda ali estava de plantão.
- Vai precisar disto outra vez? Se assim for, nós podemos deixá-lo separado...
Apesar do estado de agonia em que se encontrava, Paul não pôde deixar de reparar que
o rapaz o olhava com um interesse amistoso. Devia ter uns 19 anos, era pequenino e
magro com uma boca bem grande, onde se percebia o bom humor, olhos cinzentos e
inteligentes, e um nariz arrebitado que lhe dava ao rosto uma expressão de petulância.
Ficou imaginando, um tanto encabulado, se o rapaz percebera seu estado ansioso.
- Não. Não vou precisar mais disso...
Paul ainda ficou ali de pé por uns momentos, como se esperasse ainda uma resposta do
rapaz que continuava olhando para ele, embora calado. Saiu então da biblioteca e
mergulhou nas ruas barulhentas.
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Capítulo VII
Agora que já sabia de tudo, o seu primeiro impulso foi desistir da visita a Prusty, a fim
de se poupar a uma repetição sem sentido de tudo que já tinha ouvido e lido. Mesmo
assim, afinal, com o estranho fatalismo que o vinha perseguindo desde a primeira
revelação, e que orientara todos os seus passos, ele seguiu na direção de Eldon.
Caminhava devagar, e o crepúsculo começava quando entrou no calçamento de pedra de
Ushaw Terrace. Era uma rua estreita com uma fileira de casas altas dos dois lados, todas
elas com uma varanda e um degrau para o desembarque de carruagens que eram como
uma recordação de eras passadas e bem mais amenas. Embora ainda fosse um bairro
respeitável, a transformação das mansões em casas de pequenos apartamentos tinha
privado a área de sua antiga dignidade, tornando-a mais feia e até mesmo mais triste.
Paul não pôde evitar o arrepio que sentiu quando chegou àquela casa onde fora
cometido o crime, mas, afinal, encheu-se de coragem e entrou subindo a escadinha de
pedra que cheirava a mofo. Chegou ao segundo andar e tocou a campainha.
Depois de uma ligeira espera, Prusty veio abrir-lhe a porta e ele atravessou o hall até
uma pequena sala mal arrumada e escura, onde, num pequeno fogareiro a gás, estava
uma cafeteira íumegante e cheirosa.
O velhinho estava com chinelos e um velho casaco de veludo, mas, para fazer sobressair
sua excentricidade, ostentava um surrado fez árabe. Ele demonstrava sua hospitalidade
andando de um lado para outro, servindo café com açúcar mascavo e oferecendo uma
xícara a seu convidado.
Paul bebia o café em pequenos goles, sentindo o seu gosto agridoce junto com o próprio
pó do café mal coado, mas que estava bom e refrescante. Enquanto isso, Prusty tirava a
palha enrolada numa longa cigarrilha que cheirou como bom apreciador, e depois
acendeu-a.
Tirou uma tragada com o cuidado de um apreciador antes de falar.
- Não tenho empregada. Faço tudo sozinho. Já faz seis anos que minha mulher morreu.
Espero que esteja gostando do café. É importado por mim diretamente...
Paul apenas resmungou uma resposta cortês. Dominado pela estranha posição em que se
encontrava, ele olhava em torno da salinha com veludos já bem gastos e, atraído pelo
lustre de bronze muito enfeitado, os seus olhos chegaram ao teto que ali estava em cima
de sua cabeça, e Prusty logo percebeu sua expressão.
- Pois é... eu estava aqui mesmo nesta cadeira quando começou a barulhada lá em cima.
Era tão forte que eu saí para ver o que havia e subi a escada correndo. Meu Deus!
Jamais poderei esquecer aquilo que vi... ela estava deitada ali, quase nua, um pedaço de
mulher... mas com a garganta aberta de uma orelha à outra... - Fez uma pausa. - Não,
não olhe assim tão espantado! Não há ninguém lá agora... O apartamento está vazio.
Tenho a chave que o senhorio deixa comigo... se você quiser subir para ver...
Paul sacudiu a cabeça recusando, mas logo se desculpou apertando a testa.
- Não. Não. Por hoje eu já li e ouvi tudo que precisava saber. Passei a tarde toda na
biblioteca lendo o Courier...
- Sim, sim. Eles fizeram uma boa cobertura. Foram até bem justos comigo. E eu fiz uma
figura bem triste. Sprott fez de mim um palhaço. E tudo porque eu não queria jurar que
o homem que eu vira sair de lá era... era o Rees Mathry.
- O senhor não o reconheceu... como o meu pai...
- Estava escuro ali na entrada e eu estava sem óculos. Eu poderia dizer que estava
errado... O Ed, o rapaz da lavanderia, e todos os outros mostravam muita certeza, mas
eu sou um cara teimoso. Não tinha certeza, e por mais que o tal Sprott me apertasse, eu
não poderia jurar. Você, algum dia, já compareceu como testemunha a algum
julgamento? - Ele parecia sentir-se vaidoso com aquela sua teimosia.
- Não.
- Deus do céu! Quando eles pegam a gente ali... eles nos deixam bem amarradinhos! Na
metade do tempo, a gente nem mesmo sabe o que está dizendo. Na outra metade, eles
não deixam a gente dizer o que deseja. E então havia uma coisa estranha que eu nunca
tive oportunidade de dizer. Eu sempre costumava falar nisso com minha mulher e com o
Dr. Tuke, o médico que eu chamei para vir ver o corpo. Eu sei que ele nunca foi
mencionado no processo porque eles tinham lá os seus médicos e os seus peritos, mas
ele sempre se interessara muito pelo caso e então nós sempre falávamos naquilo.
O velho puxou uma grande tragada, ao mesmo tempo que, pensativamente, mexia o seu
café.
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- Quando entrei naquela sala e vi que ali tinha havido um crime, eu instintivamente fui
até a janela e abri-a completamente. Eu queria dar mais uma olhada no homem que
fugira. E então, por Deus, eu o vi bem. Lá embaixo na rua, com a luz que vinha da
janela aberta, eu vi quando ele apanhou uma bicicleta que ali estava encostada e saiu
pedalando como um louco. A bicicleta era verde. Posso jurar que era... uma bicicleta
verde. Você não acha estranho?
Prusty adorava fazer suspense, e então fez uma pausa.
- Especialmente quando, em toda a sua vida, Mathry jamais possuíra uma bicicleta!... -
Fez um gesto com a mão para reforçar o que dizia. - É claro que eles acharam que
Mathry tinha simplesmente roubado alguma bicicleta para poder fugir mais depressa,
mas, se fosse assim, como foi que a bicicleta desapareceu? Dragaram quase todo o canal
e nunca a encontraram...
Houve mais uma pausa bem significativa.
- E há mais uma coisa ainda. Aquela bolsa de couro encontrada junto do corpo. Ela não
pertencia à mulher assassinada, mas também não era de Mathry. E então de quem era?
Ali estava um ponto, e era um ponto que desafiava gente mais esperta do que eu. O cara
que se encarregara do caso logo de saída, o tal Swann...
- Swann... - Paul repetiu aquele nome quase sem sentir. Prusty acenou com a cabeça, de
repente sério.
- O Inspetor-Detetive James Swann. - Instintivamente, Prusty olhou em torno como se
tivesse medo de estar sendo ouvido, e então puxou sua cadeira para mais perto de Paul. -
Não sou nenhum benfeitor da humanidade e não gosto de arriscar meu pescoço para
salvar seja lá quem for, mas, sendo você quem é, acho que precisa ficar sabendo quem é
esse Swann.
A mudança que se operara no outro fez com que Paul despertasse da completa apatia.
Ajeitou-se na cadeira enquanto Prusty continuava falando sempre com grande cautela.
- Swann era um cara agradável e também muito esperto. Mas não era somente isso.
Quando ele estava de plantão, por exemplo, e alguns dos rapazes se metiam em
encrencas, ele não os atirava logo na prisão. Tinha uma longa conversa com eles como
se fosse um velho tio. Você sabe como é. Era um cara decente. Infelizmente, porém, ele
tinha uma fraqueza bem séria que era a bebida. - Prusty ficou olhando com ar ausente
para a brasa de sua cigarrilha e sacudiu a cabeça. - Por Deus! Aquilo foi muito estranho.
Estranho mesmo!
Paul sentiu um arrepio na cabeça, mas agora já era todo ouvidos.
- Conhecia-o bem porque ele costumava vir à loja duas vezes por semana para comprar
fumo, e é claro que tive muito contato com ele durante todo o caso de seu pai. Depois
que tudo acabou e as
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coisas voltaram à normalidade, comecei a notar uma mudança nele. A primeira era que
estava bebendo muito mais. Nunca fora muito falador, mas depois daquilo era difícil a
gente arrancar uma palavra de sua boca. Já não era mais alegre e folgazão como antes e
parecia sempre preocupado. Costumava brincar com ele perguntando se estava
apaixonado, mas Swann sempre desconversava. Então um dia, mais ou menos um ano
depois, ele entrou na loja mais soturno do que eu jamais o vira... e até mesmo me
parecia um pouco alto na bebida. Vou fazer uma longa viagem, Albert. Vou falar com o
Walter Gillett.
O velho fez mais uma pausa para tomar um gole de café.
- Esse Walter Gillett é um dos grandes advogados criminalistas e eu, naturalmente,
perguntei-lhe por que ia procurá-lo, mas ele apenas sacudiu a cabeça e respondeu de
forma bem estranha: "Não posso dizer nada a você agora, mas talvez você venha a saber
de tudo em breve."
Mais uma vez o velho parou para tomar outro gole de café, e Paul mal podia conter-se.
E então Prusty continuou falando sombriamente.
- Bem, de fato fiquei sabendo logo depois. Logo no dia seguinte ele se apresentou no
serviço estupidãmente embriagado. Estava dirigindo um carro da polícia e causara um
sério acidente. Atropelara uma mulher que quase morrera. Claro que houve um
tremendo escândalo e ele foi julgado e demitido da polícia, como bem merecia, e foi
condenado a seis meses de prisão com trabalho forçado.
- Prisão! Então.. . e que fim ele levou?
- Ele estava acabado. Quando foi posto em liberdade, tentou vários empregos como, por
exemplo, investigador particular, porteiro de hotel, gerente de cinema, mas nunca ficou
muito tempo em nenhum deles. Era um homem completamente mudado e, para ser
franco, em vista da bebida e tudo mais, ele ficou completamente arrasado. Não sei por
onde anda porque já faz uns dois anos que não o vejo.
- Mas por quê? Por que foi que tudo isso aconteceu? E ele chegou a falar com o Gillett?
- Pois é aí que pega o carro. Pergunte-me qualquer outra coisa.
Bebeu o último gole de café e falou sempre baixinho.
- Eu raramente o via depois de ele sair da prisão. Uma noite, porém, ele me apareceu na
loja. Já vinha bebendo muito nos últimos dias e estava mesmo alto. Ficou lá, de pé,
balançando-se de um lado para outro sem dizer uma palavra. Finalmente, falou. "Quer
saber de uma coisa?" Eu não queria provocá-lo e respondi. "Não, Jimmy."
Pois muito bem, é o seguinte. Nunca conte coisas fora da escola."
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E então aí ele desandou a rir sem parar e saiu da loja, cambaleando e rindo ainda, mas
não era um riso que você gostaria de ouvir.
Paul não podia mais conter-se e perguntou, gritando.
-. E o que foi mais que ele disse?
- Nada... nunca mais disse nada. Nem mais uma palavra. Mas, e que Deus me perdoe,
posso estar certo ou errado, eu tive uma nítida impressão de que ele chegara àquele
ponto por causa de alguma coisa ligada ao caso de seu pai.
Houve um longo silêncio. Paul sentia um aperto no coração e não tinha coragem para
levantar-se. Continuava rígido na cadeira. Depois, aos poucos, ali sentado, ele olhava
para o teto. Nada estava claro para ele. As nuvens da escuridão eram cada vez mais
densas do que antes, mas, mesmo assim, apesar de tudo aquilo, ele sentia aquela
estranha incitação para que seguisse em frente. Prusty já havia jogado na lareira o resto
da cigarrilha e olhava para o relógio.
- Está ficando tarde. Não estou querendo apressá-lo, mas se não o fizer você vai perder
o trem.
Paul levantou-se para sair e, quando falou, foi com uma voz muito firme.
- Não vou mais nesse trem. Eu quero descobrir... o que têm a. nizeo Swann e Gillett.
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Capítulo VIII
O dia seguinte amanheceu com uma linda manhã. Paul se levantou cedo na A.C.M.,
onde havia alugado um quarto na noite anterior após sua conversa com Prusty. Depois
de tomar o café, ele escreveu uma carta muito breve para sua mãe. Não queria que ela
ficasse muito preocupada e depois, com uma firme decisão, dirigiu-se para o centro da
cidade. Prusty não sabia onde Paul poderia encontrar Swann ou Gillett já que raramente
saía fora da vizinhança onde morava, mas, remexendo em papéis velhos, ele,
finalmente, encontrou um antigo endereço no escritório de Gillett em Temple Lane,
junto com um outro endereço perto do Mercado do Milho onde Swann morara durante
algum tempo, uns dois anos antes.
Paul chegou no número 15 de Temple Lane às nove e meia e teve a sorte de encontrar
um homem com um avental verde e que, aparentemente, tinha acabado de abrir o prédio
e estava limpando uma placa de metal do lado de fora da porta.
- É aqui o escritório do Sr. Walter Gillett?
O homem parou o que estava fazendo. Era um cara cujo rosto lembrava um cavalo,
tinha pernas tortas e os olhos injetados. Sua resposta foi bastante delicada.
- Já foi...
- Ele saiu daqui?
- Certo... Houve uma pausa.
- E será que o senhor sabe qual é o seu atual endereço? O faxineiro olhou Paul de
esguelha, dos pés à cabeça.
- Não poderia dizer que não sei...
- E onde é que posso encontrá-lo?
O outro continuava a responder olhando só de esguelha.
- Bem... Duvido um pouco que consiga encontrá-lo, mas também não custaria muito
tentar... - Esfregou o nariz como quem está pensando. - Será que isso valeria uns
trocados?
De seus recursos já escassos, Paul tirou um xelim que entregou ao homem.
Ele rodou o xelim na mão com perícia e limpou a boca com as costas da mão.
- Ele está na Praça Orme. É bem perto daqui. É na cidade velha próximo da igreja. Vá
até o fim de Temple Lane, vire para a direita e siga em frente. Olhe por ali e logo verá
sua placa. É muito fácil.
Paul jamais esperara que aquilo fosse tão fácil. Sentia que o homem continuava a olhá-
lo, quando seguiu em frente naquela rua de edifícios de escritórios.
Encontrou logo a rua sem dificuldade. Era bem perto da igreja conforme lhe dissera o
seu informante. Era, aliás, o próprio quintal da igreja. Era o cemitério da igreja e a
entrada era por um velho portão que dava acesso a uma alameda sombreada por velhos
olmos. Paul não percebeu logo o significado do endereço que o cara lhe dera, mas isso
não demorou muito. Gillett estava ali no cemitério da igreja. Estava morto. Ficou
indignado e pensou logo em voltar para tomar satisfações com o homem de avental
verde, mas logo desistiu e entrou no cemitério. Ali, depois de meia hora de buscas,
encontrou o que queria. Uma lápide de mármore branco escondida num dos cantos do
cemitério e com um breve epitáfio.
Consagrado à memória de Walter Gillett Nascido em 1881 - Morto em 1930 Muito
lamentado e altamente estimado
Honrou sua comunidade O trabalho de todos deve ser sempre lembrado
Três vezes, mecanicamente, Paul repetiu baixinho a frase final. Sabia agora que, com
Gillett morto, ele precisava, mais do que nunca, encontrar James Swann. Fez meia-volta
e saiu dali apressado.
Logo a seguir estava ele batendo na porta de uma casa com porão que fazia parte de
uma fileira situada por detrás do Mercado de Milho. Uma senhora de meia-idade, de
aspecto respeitável, enrolada num xale de xadrez azul, apareceu na porta do porão.
- Estou procurando o Sr. Swann... James Swann. Disseramme que ele já morou aqui... -
Paul esforçava-se para tornar a voz natural, sem deixar transparecer sua tremenda
ansiedade.
- Morou sim. Teve um quarto aqui durante alguns meses, mas já faz uns dois anos que
saiu.
- E para onde foi?
A mulher pensou durante algum tempo.
- Eu não tinha nada contra o pobre homem... pagava o aluguel quando podia. Será que o
senhor está à sua procura, porque ele fez alguma coisa errada?
- Não, não... Nada disso, muito pelo contrário...
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- Bem... ele foi para uma casa de cômodos na Rua Ware. Não sei o número, mas sei que
o encarregado chama-se Hart.
Aquela rua ficava apenas a um quilômetro dali. Era longa e atravessava um bairro muito
pobre e congestionado da cidade. Havia nela muitas lojas baratas e o tráfego ali era
sempre congestionado e tumultuado com o barulho dos bondes que passavam. Paul
verificou na lista telefônica que obteve numa agência dos Correios e logo encontrou o
endereço de Hart.
Era uma casa de cômodos de tijolos aparentes situada num pátio esquálido e espremida
entre edifícios altos e sujos de fumaça. A entrada era muito estreita. A corda da
campainha tinha sido arrancada, deixando um furo e não havia aldrava para se bater na
porta já bem bombardeada. Paul bateu várias vezes com a mão até que apareceu um
menino de uns 12 anos, de cara suja e com os gânglios do pescoço inflamados e
enrolados numa flanela vermelha.
Antes mesmo que Paul perguntasse alguma coisa ele foi logo dizendo, com uma voz
rouca, que não tinha ninguém em casa. Disse que estava doente e por isso não fora à
escola e que todos os homens tinham saído para trabalhar, a maior parte deles na
fundição. Não conhecia ninguém chamado Swann. Disse que sua mãe era a encarregada
do prédio e que estaria em casa às quatro horas.
Paul disse ao menino que voltaria. Saiu dali e entrou novamente na Rua Ware. Não
conseguia ficar parado já que seus nervos não o permitiam, tensos como estavam
aguardando por ação. Atendendo a um impulso que vinha tomando conta dele desde a
noite anterior, resolveu voltar à biblioteca pública.
Já estava na parte da tarde e quem o atendeu foi o mesmo rapaz da véspera. Quando
Paul entrou, ele estava na sua mesa sem fazer nada, com um aspecto sonhador, mas
quando levantou a cabeça e reconheceu Paul, que vinha caminhando em sua direção, ele
logo ficou atento e recebeu em silêncio o papel que Paul já preenchera.
Tocou a campainha e, depois que o empregado veio e saiu com o pedido, ele abriu a
gaveta da mesa.
- O senhor esqueceu estas notas quando esteve aqui ontem...
Paul ficou olhando para a folha de papel onde começara a escrever uma espécie de
resumo, mas que logo abandonara. Seu instinto dizia-lhe que o rapaz lera o que ele
havia escrito, apesar de suas maneiras não darem a entender que o fizera. Talvez, até
mesmo, já desconfiasse de sua identidade. Ele hesitou um pouco antes de apanhar o
papel.
- Eu, realmente, não preciso disso, mas, assim mesmo, muito agradecido.
O rapaz continuava olhando para Paul de uma maneira peculiar, e os seus olhos
brilhantes e espertos mostravam um certo interesse.
- Então o melhor mesmo é destruir tudo isto...
Paul ficou olhando enquanto ele rasgava o papel e, nesse momento, chegou o
empregado trazendo duas pastas dos números do Courier do ano 1922. Paul
acompanhou-o até a mesa e abriu a primeira pasta.
Examinou atentamente as páginas, correndo todas as colunas com os dedos. Aquilo era
um trabalho cansativo e seus olhos já doíam, mas ele não desanimava. Terminou com a
primeira pasta e passou para a segunda, e depois ficou ali sentado esfregando os olhos
com a testa franzida. O relógio lá em cima mostrava que já passava das quatro horas, e
ele então devolveu as pastas, lembrando-se de que tinha um outro compromisso.
- Conseguiu encontrar o que queria? - O rapaz fez a pergunta como se aquilo fosse uma
parte da rotina da biblioteca, mas Paul, de uma certa forma, sentia que havia na pergunta
uma certa curiosidade.
- Não. Não encontrei...
Houve uma pausa e ele sabia que o rapaz não iria falar de novo. Só lhe restava ir
embora e dar o caso como encerrado. No entanto, de uma forma mais ou menos
estranha, ele sentia que o outro, com o seu silêncio e com uma espécie de convite no
olhar, estava-lhe oferecendo, quase com impertinência, embora com a melhor das
intenções, uma oportunidade, e então, de repente, foi tomado de um desejo impulsivo
para confiar nele.
- Eu estava procurando a notícia de um caso em que o inspetor da polícia, chamado
Swann, foi julgado e condenado em 1922...
Aquilo foi uma surpresa para o bibliotecário, mas ele conseguiu disfarçar.
- Isso não deve ser difícil. Se descobrir alguma coisa em outros números, eu a guardarei
para lhe mostrar... Será que... será que está interessado nesse homem?
- Estou tentando encontrá-lo.
- E tem alguma idéia de como conseguir isso? - A pergunta foi feita demonstrando um
certo interesse.
- Ele ainda deve andar por aqui. Pelo que tenho ouvido, é um cara liquidado...
- Estou vendo...
Houve um silêncio. Paul ficou ali ainda um instante e então, já intrigado com a falta de
reserva do outro, ele agradeceu canhestramente, enfiou o chapéu e saiu.
Continuou andando na direção da Rua Ware e eram cinco horas quando chegou à casa
de Hart. A encarregada do prédio já estava de volta. Era uma mulher grande com uma
saia de lã e um xale de xadrez em cima dos ombros e na cabeça, preso por dois alfinetes,
estava um boné de homem.
46
- Eu me lembro bem do Swann. Muito bem, até. Anda\ muito por baixo... Ficou doente
e perdeu o emprego na fundiçã< Andava entornando muito, se é que me compreende.
Não fiqu( triste quando ele foi embora.
- E quando foi isso?
- Faz uns seis meses.
- E sabe para onde ele foi?
- Se quer saber mesmo, acho que foi para Bromlea, para trabalhar nas construções que
estão fazendo lá.
- É bem perto daqui, não é mesmo?
- Pertinho... uns cinco quilômetros...
- E ele deixou algum endereço ?
- Swann não era homem para deixar endereços. Ninguém consegue arrancar uma
palavra dele. Mas espere aí... Deixe-me pensar um pouco... Ele me disse que estava
esperando uma carta e pediu-me que a mandasse, mas a carta nunca chegou aqui. Será
que anotei o endereço que ele me deu? - Voltou-se para o garoto que estava a seu lado. -
Vá buscar o livro lá no quarto, Josey...
Pouco depois, o menino voltou trazendo um velho caderno de notas. A mulher molhou a
ponta do dedo na língua e começou a folhear o caderno.
- Pois não é que está bem aqui? Eu não lhe disse? - Paul aproximou-se dela cheio de
esperanças e olhou a página que ela apontava. E ali, escrito a lápis, estava o endereço
que ele procurava.
James Swann c/o Roberts Castle Road 15 Bromlea
O rapaz copiou o endereço rapidamente no seu caderno de notas, agradeceu à mulher e
foi-se embora. Ao caminhar apressado pelo beco, já agora iluminado por uma única
lâmpada bem fraca, ele ia pensando que o dia fora bem proveitoso. Estava agora
realmente na pista certa de Swann e, até mesmo, tinha sua descrição. Era um homem
liquidado, infeliz e que, a cada dia, afundava-se mais tentando afogar suas tristezas e
vivendo de um trabalho braçal, para atender às suas necessidades. Já era tarde para ir a
Bromlea naquela noite. Iria no dia seguinte. Sim, amanhã ele teria seu encontro com
Swann.
47
Capítulo IX
Na noite seguinte, precisamente 24 horas depois, Paul estava novamente de volta à
A.C.M. Caía uma chuva constante desde a tarde, mas ele continuava a andar sem se dar
conta dos sapatos encharcados e das roupas ensopadas. Todas as suas grandes
esperanças tinham desaparecido e todas as expectativas tinham desmoronado
íragorosamente. Estivera em Bromlea no endereço que lhe fora dado e tinha conversado
com o encarregado das construções onde Swann havia trabalhado. Tinha vasculhado
todo o distrito de uma ponta à outra sem o menor sucesso. Swann desaparecera sem
deixar vestígios.
Completamente desanimado, Paul entrou no hotel e subiu as escadas devagar. Colocou
uma moeda no medidor e acendeu o gás. Depois, quando se aprumou, notou que havia
um telegrama em cima da lareira. Abriu-o e leu-o:
TERRIVELMENTE AFLITA VOLTE IMEDIATAMENTE NOMEAÇÃO ESCOLA
VERÃO SUA ESPERA SAUDADES DE TODOS
MAE
Agachado diante do fogo fraquinho, com a fumaça saindo da roupa molhada, ele tornou
a ler o telegrama. Achava muito natural que ela lhe pedisse para voltar como também
achava, realmente, que na sua situação atual, aquilo seria mesmo a melhor coisa a fazer.
A ausência amenizara a irritação que sentia contra a mãe. Era claro que ela falara com o
Professor Slade ou então, e o mais provável, ela teria pedido a Fleming que o fizesse, e
então o emprego em Portray ainda estava à sua disposição. Aquela expressão "saudades
de todos" trouxe-lhe aos lábios um sorriso • ligeiramente amargo, já que aquilo,
evidentemente, se referia a Ella, sempre disposta a perdoar. Depois de haver secado toda
a roupa, Paul desligou o gás e desceu para comer alguma coisa. Quando entrou no salão
de jantar um mensageiro veio a seu encontro.
48
- Há um rapaz procurando o senhor e está à sua espera na sala das visitas.
Paul seguiu o mensageiro, um tanto surpreso, até a salinha mobiliada com cadeiras e
mesas de vime e uma planta num vaso modestamente escondida por uma cortina de
contas de vidro e separada da portaria. Logo que atravessou a cortina com as continhas
tinindo, ele viu, com espanto, que a pessoa ali sentada numa das cadeiras era o
funcionário da biblioteca, e ele se adiantou com alguma hesitação.
- Boa noite.
- Não me esperava, não é mesmo?
- Claro que não...
O moço aceitou aquela resposta ríspida com um sorriso. Separado de seu cargo oficial
ele parecia ainda mais petulante, com uma franqueza que desarmava qualquer um mas
que, para Paul, na situação em que se encontrava, parecia um tanto constrangedora. O
rapaz correu os olhos espertos pela sala ainda vazia.
- Tenho alguma coisa para lhe dizer e estou vendo que podemos conversar aqui mesmo,
sem medo de sermos ouvidos.
Paul olhou-o de tal maneira agressiva que o outro não se conteve e achou graça.
- Estou vendo que ainda não me compreendeu bem, mas pode crer que sou um cara
legal. Meu nome é Mark Boulia.
E estendeu a mão que Paul apertou e sentou-se. Aquela situação estava começando a lhe
dar uma sensação de estranha expectativa. Antes de continuar, Mark observou-o com
mais atenção.
- Naquele primeiro dia que você apareceu lá na biblioteca eu não podia deixar de
reparar que estava... com dificuldades. Fiquei com pena e senti uma certa simpatia por
você. Uma simpatia amistosa. Sabe como é... a gente simpatiza com alguém logo à
primeira vista. Depois então eu verifiquei o que havia naqueles jornais antigos. - Via-se
que era com satisfação íntima que ele constatava um fato. - Sei quem é, e estou a par de
tudo a seu respeito.. .
Tudo aquilo era coisa que Paul já desconfiara. Então ficou calado ouvindo com atenção
tudo o que o outro tinha para lhe dizer.
- Ontem voltou para procurar mais alguma coisa, mas não encontrou o que queria. Só
que, depois que saiu, eu encontrei. Encontrei em outro jornal, no Clarion, que é um
jornal liberal com uma circulação insignificante. Encontrei um comentário sobre o
julgamento de Swann e, por estranho que pareça, era um protesto em relação à dureza
da sentença contra ele.
O rosto de Paul estava pálido mas impassível, porém os olhos tinham um brilho
estranho e sombrio. Afinal, conseguiu falar.
- E por que veio aqui dizer-me isso? Mark deu de ombros e achou graça.
49
- Porque você estava querendo encontrar Swann.
- Não adianta - retrucou Paul, sacudindo a cabeça, desanimado.
- E por que não?
- Não depois de quinze anos.
- Não fique tão certo disso. - O jovem fez uma pausa só para dar mais força às palavras.
- Eu, aliás, já o encontrei.
Paul sentiu a boca seca. Ficou olhando, sem acreditar, para aquele cara que ali estava e
que acenava com a cabeça como alguém que sabe o que está dizendo.
- Nem mesmo foi muito difícil depois daquilo que me disse... segui um palpite e
procurei na lista dos que estavam recebendo pensão do governo como desempregados e
também verifiquei todos os registros da Casa do Trabalhador e de todos os hospitais da
cidade. Ele está no Hospital Belvedere.
50
Capítulo X
A enfermaria onde Swann estava era comprida e estreita com as paredes caiadas de
branco e um teto inclinado com uma quantidade de clarabóias. Ali, era o setor dos
indigentes, um dormitório triste e nu.
A cama, cercada de biombos, achava-se em cima de blocos de madeira e no chão havia
um cilindro de oxigênio com o tubo e a máscara para respirar. Dominando o cheiro forte
do ácido carbólico, havia um odor indefinido de doença e de dissolução orgânica.
Recostado em dois travesseiros, Swann achava-se deitado com as pernas esticadas e
olhando para teto. A face encovada fazia ressaltar ainda mais seu nariz adunco e
amarelado em contraste com o branco das fronhas e a pele curiosamente cheia de
manchas escuras. Os seus dedos inertes na beira do colchão tinham as pontas muito
grossas. Sua respiração fraca e arquejante mal se mostrava no peito.
Era a hora das visitas da tarde e Paul estava ali ao lado da cama junto com Mark.
Tinham chegado 10 minutos antes e Mark, com muito tato, tinha dito ao doente quem
era Paul que, então, fez um apelo apaixonado. E agora, dominado pela importância do
momento, ele esperava para ouvir o que Swann tinha a dizer.
O doente não tinha pressa e estava perdido em seus pensamentos, mas logo, sem se
mexer, ele virou os olhos para Paul. Depois de uma pausa falou, afinal, com voz rouca.
- Você é bem parecido com ele...
Depois, ele ficou olhando para a clarabóia, sem falar, durante algum tempo, até que
afinal continuou com uma voz muito fraca.
- É estranho você aparecer por aqui agora. Depois do que me aconteceu, eu jurei que
ficaria calado e, afinal, fui um idiota quando falei. Mas você é o filho de Mathry e eu, de
qualquer maneira, estou liquidado. E então vou falar...
Houve uma pausa curta e Swann parecia estar olhando para um passado distante.
- Quando fui encarregado do caso do assassinato em Eldon, eu estava em plena forma.
Bem diferente do que estou agora. Lembro-me como se fosse ontem, quando surgiu
aquela pista muito im51
portante. Foi um tal de Rocca, empregado de um bookmaker, que apareceu lá na
polícia... o cara mais nojento que já vi em minha vida, e estava num tal estado de pânico
que mal conseguia falar. Mas, afinal, falou. Ele vinha tendo relações com a moça
durante um ano e costumava passar as noites lá, e isso acontecera no dia sete de
setembro... mas ele dizia que não tinha nada a ver com o assassinato, e nem mesmo
poderia, porque nos dias oito e nove ele estivera nas corridas em Doncaster e tinha uma
dúzia de testemunhas para provar isso. Ele estava ali voluntariamente, só para limpar
seu nome...
"Aquilo não nos ajudava muito, já que sabíamos como a moça tinha uma quantidade de
admiradores, mas, de qualquer maneira, achamos que sempre seria bom deter Rocca.
Quando soube que ia ficar preso, Rocca ficou verde e então despejou tudo que sabia.
Contou-nos a respeito de seu camarada Rees Mathry que andava de amores com a
moça. Contou como ele se mostrara aflito a respeito da publicidade dada ao postal
desenhado a lápis, e então contou como Mathry tinha-lhe pedido que confirmasse seu
álibi. Aquilo foi uma maravilha para nós, uma vez que, depois de uma semana sem
conseguir pista alguma, tínhamos ali uma que parecia muito quente. E tudo ficou ainda
mais quente, quando soubemos que o cara que estávamos procurando ia embarcar em
Liverpool. Telefonamos logo para a polícia de lá e ele foi preso...
Swann fez uma pausa enquanto molhava os lábios.
- Infelizmente para ele, Mathry era um cara de maus bofes e então resistiu à prisão e
ainda cometeu o erro fatal de agredir um policial. Se acrescentarmos o fato de que,
como disse, ele estava de saída para a América do Sul, então sua situação se tornava
ainda mais séria. E logo a seguir ele tornou tudo ainda pior. Naturalmente, nas
investigações preliminares, a primeira pergunta que lhe fizemos foi para saber onde ele
estava entre oito e nove horas da noite do dia oito de setembro. Sem saber que seu
amigo já o denunciara, ele logo contou a tal história dizendo que passara a noite jogando
bilhar com seu amigo Rocca. Assim sendo, nós logo imaginamos que estávamos com o
criminoso na mão.
Swann deixou a cabeça pender no travesseiro e, nos seus olhos já meio apagados, surgiu
uma estranha expressão.
- Preciso contar alguma coisa a respeito do meu chefe naquela ocasião, que era o
Delegado-Chefe Adam Dale, hoje Chefe de Polícia de Wortley. Ele era filho de um
fazendeiro de Cumberland que começara bem por baixo e era exigente em matéria. de
disciplina. Dava mão forte a seus subordinados e era um grande policial que jamais fora
subornado em sua vida. Adorava seu trabalho e gostava de gabar-se comigo que, só pelo
cheiro, ele conseguia des-
cobrir qualquer criminoso a quilômetros de distância. E, desde o princípio, ele estava de
olho em Mathry...
Cheio de entusiasmo com sua descrição, o doente tentou fif* mar-se nos cotovelos.
- Para mim, no entanto, a coisa não era tão fácil assim. Em~ bora as provas parecessem
concludentes, eu alegava que Mathry tinha comprado as passagens em seu nome e que,
também em seu not*16" havia reservado quartos num hotel para ele e a família sem
tentar esconder sua identidade, uma coisa inconcebível, no caso de um homem que
tentava fugir e que desejasse esconder-se. Além disso, e a despeito de todas as provas
contra ele, Mathry sempre me causara boa impressão. Não tentou negar suas relações
com a moça, e confirmava haver-lhe enviado o tal postal desenhado. Dizia que tudo
aqU&> fora uma brincadeira, e aquela mensagem no cartão confirmava ° fato, apesar de
ser um tanto tola. Acontecia ainda que o ferimento era tão terrível que somente poderia
ter sido feito por um homem muito forte, e Mathry estava longe disso. E o seu caráter
também não se coadunava com uma tal violência já que era, naturalmente, delicado, e
aquilo me dava a impressão de ser uma explicação cabível para o fato dele haver
tentado conseguir aquele álibi com o Rocca. Talvez estivesse nervoso e aflito, cada vez
mais alarmado com a publicidade dada ao postal idiota, e então ele poderia ter sentido a
necessidade de se garantir com aquele álibi. Aquilo fora uma coísa estúpida, mas que se
enquadrava bem com o seu caráter, e também com a história que contava.
"Expus tudo isso a meu chefe, mas ele não me dava ouvidos Ja que estava convencido,
sinceramente convencido, vejam bem, de qt*e tinha apanhado o homem certo.
Swann mergulhou nos travesseiros para descansar um pouc°> mas logo recomeçou bem
mais calmo.
- A mentalidade oficial é bitolada para certos canais, e ninguém sabe disso melhor do
que eu, e a rotina estabelecida por DaJe seguia o mesmo padrão que, na prática, era o
certo. Ele queria cí1 contrar a arma do crime entre as coisas de Mathry; queria encontrar
manchas de sangue nas roupas; queria encontrar as testemunhas que reconhecessem
Mathry como o homem que fugira do apartamento.
"Não demorou muito e logo encontrou em suas malas a arm que estava procurando. Era
uma velha navalha de fabricação alemãjá um tanto enferrujada pelo desuso, e Mathry
logo, no auge d" indignação, a reconheceu como sua desde muitos anos já que
pertencera a seu pai. Estivera para jogá-la fora várias vezes, mas continuava sempre a
guardá-la por uma questão de sentimentalismoAgora, vejam bem, se ele tivesse mesmo
usado aquela navalha par#- o crime, vocês acham que voltaria a guardá-la
cuidadosamente nO
5?
meio de suas coisas? Claro que não! A primeira coisa que os assassinos fazem é livrar-
se logo do instrumento do crime. E, no entanto, Dale estava quase pulando de
contentamento e orgulho, quando me mostrou a navalha. Pois então eu não lhe dizia?
Agora já temos o cara!
"Ela foi enviada para ser examinada pelos peritos que deviam procurar manchas de
sangue, junto com uma trouxa de roupas de Mathry, Enquanto isso, as testemunhas
continuavam sendo interrogadas, especialmente aquelas que haviam visto o criminoso
fugir na noite do crime. . . Eram Prusty, Edward Collins e Louise Burt. Prusty era
míope. Edward era um rapaz amável que prestava seus depoimentos com certa
relutância, mas Louise era completamente diferente. Naquela noite escura e chuvosa de
setembro, numa rua muito mal iluminada, ela só vira o criminoso de relance, mas,
apesar disso, julgava-se habilitada a dar os mínimos detalhes de sua aparência. Ainda
vejo seu rosto redondo e parecendo ansiosa, exibindo toda a sua satisfação depois de
prestar os depoimentos.
"Ela afirmava que ele era um homem de uns trinta e cinco anos, alto, magro e moreno
com um rosto pálido, nariz reto, barbeado. Estava com um boné de xadrez, uma capa de
chuva muito desbotada e calçava botinas marrons...
"A princípio, Dale mostrava-se satisfeito com aquela descrição, mas, quando Mathry foi
preso a coisa mudou de figura, já que ele não era alto, moreno e tampouco barbeado, e
sim de estatura média, rosto claro e um bigode castanho. E suas roupas também eram
diferentes. Louise, no entanto, não se perturbou e logo disse que fizera confusão porque,
no seu primeiro depoimento, não medira bem suas palavras porque queria falar
depressa. Com a maior das calmas ela descartou o homem alto e de rosto raspado,
substituindo-o por um outro que era mais baixo e tinha bigode. Edward Collins, que no
seu primeiro depoimento tinha declarado positivamene que não poderia reconhecer o
homem, logo passou a confirmar tudo o que a Louise dizia. O boné claro de xadrez
passou a ser um chapéu mole escuro e a capa passou a ser uma capa comprida de
inverno. Em resumo, a descrição se ajustava a uma outra que bem poderia ser a de
Mathry.
Swann descansou novamente, com os lábios pálidos apertados e procurando controlar a
respiração.
- A providência seguinte foi a do reconhecimento a ser feito pelas testemunhas. O chefe
acompanhou-as e eu também estava presente. Onze policiais à paisana foram alinhados
numa sala junto com Mathry. Aquela era a rotina usada para os reconhecimentos e que
muita gente acha justa. De qualquer forma, as duas testemunhas foram_ unânimes ao
reconhecer Mathry. Ele foi então levado para Wortley e formalmente acusado da morte
de Mona Spurling.
54
O doente virou de lado com dificuldade e ficou olhando para Paul.
- Mesmo assim, eu não me convencia de que ele estivesse mesmo enrascado... a
acusação contra ele estava tão certinha que eu tinha certeza de um fracíisso a qualquer
hora. Só que não tinha pensado no advogado que fora escolhido para a acusação.
Alguém poderia pensar que o superintendente, o honesto e teimoso Dale, foi o
responsável pelo que aconteceu com Mathry, mas, na realidade, não foi ele e sim o tal
Sprott muito vivo que liquidou Mathry. Ele é agora Sir Matthew, chegou quase ao topo
da árvore e, certamente, ainda irá mais alto, mas, naquela ocasião, era um desconhecido
que desejava, desesperadamente, vencer na vida. No mesmo instante em que eu o ouvi,
logo percebi que ele queria enforcar Mathry...
"E então tudo começou. A acusação chamou todos os seus peritos. Só não chamou o Dr.
Tuke, o médico que tinha visto o corpo em primeiro lugar. Além de Dobson, o legista
da polícia, apresentaram um professor chamado Jenkins, e este disse que a navalha
alemã poderia ter sido o instrumento do crime. Não poderia jurar que houvesse manchas
de sangue nela nem mesmo nas roupas de Mathry, mas encontrara vestígios de corpos
que poderiam ser corpúsculos da mama. Depois veio o perito em grafologia, e ele jurou
que o bilhete meio queimado encontrado junto ao corpo fora escrito por Mathry, embora
disfarçado com a mão esquerda. Quando Edward e Louise foram chamados para depor,
ambos se excederam, especialmente Louise, com o seu rostinho inocente e olhos muito
grandes que pareciam sinceros e que causaram uma tremenda impressão sobre os
jurados. Ela se apresentou ali como um anjo e jurou: É o mesmo casaco. É esse homem
aí. E então, referindo-se ao reconhecimento na polícia, ela ainda acrescentou com muito
orgulho: Fui a primeira a reconhecê-lo.
"Depois veio a fala da Coroa. Durante três horas, Sprott deu tudo que tinha, falou sem
uma só pausa e sem ler qualquer nota. As palavras lhe jorravam da boca e deixavam o
tribunal numa espécie de fascinação, como se as pessoas estivessem hipnotizadas.
Quando descreveu o crime, Deus do céu, ele não usou meias-palavras. Mostrou como o
acusado, com a navalha escondida no bolso, atacara brutalmente sua amante indefesa, a
mãe de seu filho que estava para nascer, a fuga desordenada e a tentativa para se
esconder num país estrangeiro... Confesso que ele foi, realmente, magistral. O júri, de
boca aberta, estava fascinado por suas palavras.
"O que disse depois o advogado de defesa tornou-se completamente inútil. Os recursos
financeiros da defesa eram mínimos, o advogado era um velho que arrastava as palavras
com uma voz muito fina e que desconhecia muitos pontos do processo. E especialmente
55
ele parecia não se dar conta de muitas provas que poderiam ser favoráveis ao réu.
"Pois é... tudo estava logo acabado. Culpado. Os protestos de inocência do acusado me
atravessaram como se fosse uma faca. Ele foi arrastado para fora e todo mundo parecia
satisfeito. As quinhentas libras oferecidas como recompensa pela condenação foram
pagas a Edward Collins e Louise Burt e só Deus sabe se eles a mereceram.
As forças do doente pareciam ter chegado ao fim e foi com voz exausta que ele disse
não lhe ser mais possível continuar.
- Voltem outra vez dentro de uns dois dias e eu lhes contarei o resto.
Houve um silêncio longo e penoso naquele pequeno quarto. Mark Boulia levantou-se
sem uma palavra, virou um pouco de água num copo que levou à boca de Swann. O
doente engoliu sem fazer um movimento. Durante todo esse tempo, Paul estava ainda
assombrado e segurava a cabeça com as mãos sentindo dentro dele desencadear-se uma
tempestade de emoções. Tinha ainda, na ponta da língua, uma quantidade de perguntas,
mas sabia que não podia fazê-las naquela entrevista que já considerava terminada.
Swann tinha fechado os olhos e estava completamente inerte e incapaz do menor
esforço. Quando Mark saiu do quarto na ponta dos pés, Paul levantou-se ainda meio
tonto, apertou a mão do doente e depois saiu.
Capítulo XI
Seria possível que um homem inocente tivesse sido enterrado vivo durante 15 anos?
Perturbado e confuso, completamente tonto, Paul nem mesmo tinha coragem para
articular aquela pergunta terrível. Swann ainda não apresentara provas concretas e sim
apenas sua própria opinião. Tudo aquilo parecia inconcebível, mas a simples
possibilidade de uma tal monstruosa injustiça cometida contra seu pai era o suficiente
para enlouquecê-lo. Ele não devia pensar naquilo. Resolveu controlar suas emoções e
percebeu que, acima de tudo, ele precisava mostrar-se calmo, prático e resoluto.
A primeira coisa que fez foi escrever para casa pedindo roupas limpas e depois resolveu
procurar um outro lugar para morar onde pudesse contar com mais liberdade de ação do
que na A.C.M. Acabou descobrindo um sótão barato num quinto andar de uma casa de
cômodos na Rua Poole, uma rua feia mas respeitável que ficava na margem do Canal
Sherwood e que era principalmente ocupada por casas de cômodos baratas perto da Rua
Ware, onde o tráfego era intenso. A senhora, cujo nome era Coppin, magra, pequenina e
com voz muito aguda, levou-o para ver o quarto e deu-lhe um pedaço de sabonete e uma
toalha muito áspera mas limpa. O pagamento adiantado do quarto praticamente exauriu
o dinheiro que ele trouxera de Belfast, e então, depois de lavar-se, ele saiu à procura de
alguma coisa que pudesse contribuir para seu sustento.
Wortley era uma cidade muito ativa, uma vasta colméia de atividades encravada numa
área agrícola, mas, da mesma forma que as cidades vizinhas de Coventry e
Northampton, tinha indústrias muito especializadas principalmente na fabricação de
louças, cutelaria e artigos de couro, atividades essas que exigiam treinamento que ele
não possuía. Também não era afiliado a nenhum sindicato nem tinha referências que
pudesse exibir, já que ainda não se formara como professor. Passou dois dias sem nada
conseguir, embora consultasse sempre a seção de classificados dos jornais.
Na manhã seguinte, no entanto, a sorte lhe sorriu. Quando saía do prédio onde morava,
para caminhar na calçada cheia de gente da
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Rua Ware até uma lanchonete que descobrira e onde era muito barato um sanduíche
com café, ele viu, colado na vitrina de uma grande loja chamada The Bonanza Bazaar,
um papel dizendo:
Precisa-se de um pianista
Procurar o Sr. Victor Harris aqui na loja
Depois de um momento de hesitação. Paul entrou na loja. Era um desses empórios que
vende tudo que se possa imaginar para necessidades caseiras. Havia ali ferragens,
produtos de beleza, roupas de baixo e brinquedos de crianças, e tudo ficava exposto ali
em cima dos balcões ao alcance dos fregueses. O gerente era um homem de uns 30
anos, muito bem penteado, de maneiras delicadas e fala macia. Olhou rapidamente para
Paul e depois levou-o para uma seção da loja onde havia um piano comum no meio de
uma porção de partituras. O homem trajava um jaquetão listrado e a gravata florida
esvoaçava com o vento dos ventiladores. Apanhou uma das partituras, sem escolher, e
colocou-a no piano.
- Toque!
Paul sentou-se no banquinho e correu os dedos pelo teclado. Ele sabia interpretar, à
primeira vista, e sem dificuldade, as músicas mais difíceis e aquela valsa popular ali na
sua frente era a própria simplicidade em pessoa. Tocou-a toda primeiro e depois repetiu-
a com algumas variações improvisadas. Apanhou outras músicas e tocou-as todas.
Antes que ele acabasse já as moças das outras seções estavam prestando atenção e o
próprio gerente acompanhava o compasso batendo no balcão com seu anel. O homem
fez com a cabeça um sinal de que estava satisfeito.
- Está bem. Você serve. O emprego é seu. Três libras por semana e um sanduíche para
almoço. Só quero que toque sem parar. Se isso acontecer, logo estará na rua. E use
sempre o pedal para o maior volume. Isso ajuda as vendas.
Dispensou para Paul um sorriso protetor, deixando ver um dente de ouro e depois,
fechando a cara para as moças que estavam ouvindo, foi-se embora.
Paul tocou durante todo o dia. Aquilo não era uma sinecura. Ele começou com muita
disposição, mas, com o correr das horas, seus músculos começaram a doer por estar ali
sentado no banco duro do piano. Quando a loja mal ventilada se encheu, a multidão que
o cercou, acotovelando-se e apertando-o, com alguns quase sentados no teclado, passou
a ser um sacrifício para ele. E, além disso, seu espírito estava sempre em ebulição,
vergastado por pensamentos sobre seu pai e por planos e projetos malformados,
sentindo a necessidade de se resolver quanto ao que devia fazer.
Por volta de uma hora, o gerente Harris saiu para o almoço e logo depois veio uma
moça trazendo café e um prato com sanduíches para Paul. Satisfeito com aquela folga,
ele se levantou, estirouse e, com um sorriso, perguntou-lhe o nome. Ela respondeu
secamente que era Lena Andersen, e quando ele pensou que poderia trocar algumas
palavras ela logo se virou e foi-se embora. Não havia nenhuma indelicadeza naquela sua
atitude de reserva, mas, por baixo da superfície daquele seu procedimento, ele sentia um
certo constrangimento que logo lhe despertou a curiosidade, apesar de seus próprios
problemas. E depois, quando ela voltava para a lanchonete, ele, quase instintivamente,
olhou na sua direção antes de começar a tocar novamente.
Ela não podia ter mais de uns 20 anos e ele tinha a impressão de que era um tipo
escandinavo. Era alta, mnito loura e com pernas compridas. Seus traços eram regulares
e, embora prejudicados por uma fina cicatriz branca que riscava seu rosto desde a
orelha, ela poderia ser considerada bonita, se não fosse uma espécie de expressão
melancólica. Aliás, quando estava descuidada, seu rosto mostrava uma tristeza fora do
comum, um olhar distante, concentrado e sério. Várias vezes, naquela tarde, os olhos de
Paul, quase contra sua vontade, eram atraídos por aquela trágica amazona ainda bem
jovem. Reparou que usava seu uniforme demonstrando bom gosto e sempre muita
calma. Embora parecesse ter boas relações com os outros empregados, ela não se
misturava com eles. Até mesmo com os seus fregueses regulares, com algumas poucas
exceções, a jovem mostrava-se sempre reservada e distante. Que espécie de pessoa seria
aquela moça? Paul tentou dirigir-lhe um olhar amistoso que foi ignorado, e ela até
mesmo baixou a cabeça virando-a para o outro lado.
A tarde custou a passar. Ele fechou os olhos enquanto seus dedos martelavam uma
melodia que já conhecia de cor por havê-la tocado um sem-número de vezes. As seis
horas chegaram, afinal, e ele soltou um suspiro, de alívio, quando viu que estava livre.
Saiu correndo da loja e foi direto ao hospital, onde, depois de alguma dificuldade,
conseguiu ser admitido para falar com Swann. Ele parecia pior e também não se
mostrava muito disposto a conversas. Aliás, Paul tinha a impressão de que ele já estava
arrependido por haver falado tão francamente na véspera. Paul ficou ali sentado ao lado
de sua cama, mostrando muita paciência e sem forçá-lo de forma alguma, e então, aos
poucos, o doente foi-se tornando mais acessível. Voltou a cabeça e ficou olhando Paul
como se sentisse pena dele. Afinal, resolveu falar.
- Então você voltou, hem?
- Sim - respondeu Paul numa voz muito baixinha.
- Quero avisá-lo... se você persistir, isso vai transformar toda a sua vida... Foi o que
aconteceu comigo. E lembre-se de que depois de começar não poderá mais recuar.
- Não vou recuar nem desistir.
- E então, como quer fazer para começar?
- Pensei em bater à máquina uma declaração para o senhor assinar e que eu levaria às
autoridades...
Swann não tinha mais condições para rir, mas foi sacudido por um tremor sardônico.
- Que autoridades? A polícia? Mas ali todos já estão muito bem informados e estão
satisfeitos com o estado das coisas. O homem que fez a acusação em nome da Coroa,
Sir Matthew Sprott? Conheço pessoalmente esse cavalheiro e meu conselho é no sentido
de que não se meta com ele. - O enfermo foi obrigado a interromper por causa de um
acesso de tosse. - O Secretário do Interior, no Parlamento, é o único que tem o poder de
reabrir o caso, e você nunca poderia nem mesmo chegar a um quilômetro de distância
dele com as provas que possui agora. Achariam que você estava apresentando provas
fornecidas por um antigo policial desacreditado, num delírio de moribundo. Provas que
não valiam nada. Simplesmente ririam na sua cara.
- Mas o senhor acredita na inocência de meu pai?
- Claro que acredito. Sei que é inocente. No resumo que fez no julgamento, o juiz disse
que aquele crime era vil, brutal e monstruoso e que, por isso, deveria ser punido com a
pena capital, mas, ainda assim, eles comutaram a sentença. E por quê? É o que eu lhe
pergunto. Por quê? Talvez, afinal de contas, não tivessem certeza quanto à culpa do
homem condenado e então, num gesto de generosidade, para mostrar seus bons
corações, eles não o enforcaram logo. Preferiram condená-lo à morte lenta em
Stoneheath.
Paul ficou ali sentado e apalermado, sem dizer palavra, enquanto o doente se esforçava
para controlar a respiração, e logo depois continuar falando secamente e de forma muito
diferente.
- Não. Existe apenas uma forma para obrigá-los à reabertura do caso. Você terá que
descobrir quem foi o verdadeiro assassino.
Aquilo apanhou Paul desprevenido e ele sentiu um calafrio correr-lhe pela espinha. Até
ali, ele vinha pensando somente na inocência de seu pai, e aquela outra alternativa só
lhe ocorrera muito por alto. Aquilo era como se uma nova e formidável sombra se
atravessasse no seu caminho. Depois de um silêncio prolongado, ele afinal falou
- E esse cara, o Rocca? O que acha dele? Swann sacudiu a cabeça como se sentisse
nojo.
- Ele nada teve a ver com o crime. Não teria coragem suficiente para tanto. É um pulha
que só queria salvar a própria pele. E por falar em pele... - O doente fez uma careta. -
Voltamos à bolsa que foi encontrada junto ao corpo. Acredite ou não, aquela bolsa era
coisa fina, feita com o melhor couro que existe neste mundo... Era de pele humana
curtida...
Houve um momento de silêncio absoluto, e depois Swann continuou com o mesmo
amargor satírico.
- Por aí você pode ver. É só botar a mão num tarado com gosto para possuir uma coisa
assim. Depois estabeleça uma ligação entre ele e umas outras coisinhas que foram
esquecidas... e então você terá o assassino. Depois de quinze anos, isso deveria ser
relativamente fácil... - Mais uma vez, seu rosto mostrava um tremor sardônico.
- Não faça isso! Pelo amor de Deus! Preciso de sua ajuda! A expressão no rosto de
Swann transformou-se e ele olhou para
Paul quase com desânimo.
- Bem... já que você insiste... vou contar-lhe mais algumas coisas a respeito das duas
testemunhas principais... aquelas que identificaram o homem errado em lugar do certo...
Edward Collins e Louise Burt.
"Quando os dois chegaram à delegacia para receber a recompensa, era eu quem estava
de plantão. Como já lhe disse antes, eu tinha dúvidas a respeito daquela dupla, dúvidas
muito sérias. Elas não eram tantas a respeito de Edward que era apenas um bom rapaz,
tolo mas com boas intenções, mas a moça, apesar de ter apenas dezessete anos, já me
parecia diferente... eu achava que seria bom mantê-la de olho... Mandei que os dois
entrassem numa salinha ao lado e, enquanto trabalhava, ouvia bem o que eles diziam já
que aquela sala fora preparada para isso. Fui anotando tudo que os dois diziam. Logo de
saída eles falaram pouco. Depois, o rapaz, que parecia apavorado, falou Será que vamos
mesmo receber o dinheiro? Claro que vamos, Ed, não se afobe... A voz dela era fria
como você nem pode imaginar. Nós ainda poderíamos ter feito melhor, Ed. O que você
quer dizer com isso? Ela deu uma risadinha. Tenho uma coisinha escondida na manga
do casaco que vai deixar você espantado, Ed. Aquilo pareceu chatear Edward. Ficou
calado durante algum tempo, mas depois falou como se fosse um papagaio, como se
estivesse repetindo alguma coisa já ouvida muitas vezes: Foi o Mathry mesmo, não foi
Louise? Cale essa boca, Ed. Agora já é tarde demais para recuar. Nós não prejudicamos
ninguém... Com todas aquelas provas, Mathry estaria encrencado de qualquer maneira.
E, afinal de contas, ele não foi enforcado. Pois então você não sabe, seu paspalhão, que
a gente nunca deve ser contra a polícia. Além disso, o resultado de tudo isso pode ser
muito melhor do
que você jamais sonhou em sua vida. Nestes últimos dias eu percebi certas coisas, ela
&1 estendia naquilo como se estivesse mesmo sonhando Eu ainda vou ter uma vida de
grande dama, Ed. Talvez viva como uma rainha, com criados para me servirem e para
lavarem os pratos e as latrinas. Dê-me só uma chance e eu cuspirei no mundo inteiro, e
nunca mais passarei a ferro uma camisa.
Swann fez uma pausa porque já sentia fata de ar, mas quando recomeçou estava olhando
Paul bem de frente.
- Aquilo foi o fim da conversa, mas eu já ouvira o bastante para confirmar minhas
piores suspeitas. Louise Burt, afinal, confessara tudo. Ela tinha visto o assassino e tinha
feito sua descrição, mas quando viu que não combinava com Mathry, ela logo resolveu
mudar de depoimento. Sabia que iria haver muitas perguntas na polícia e queria ficar
por dentro, já que tudo mais apontava Mathry como o culpado. Ela queria ficar bem
com as autoridades e queria ser a prima-donna do show e também, naturalmente, queria
receber a recompensa prometida. Edward agira sob sua influência. Ela até mesmo talvez
já estivesse convencida que tinha sido Mathry... Isso pode acontecer com gente dessa
laia. E então, quando tudo acabou, depois das manchetes, da publicidade, dos elogios,
de toda a palhaçada em suma, e quando parou para pensar, ela começou a imaginar
sobre as coisas que não haviam vindo à luz no tribunal e a perguntar a si mesma se,
afinal, não teria sido uma outra pessoa que já vira antes, que conhecia bem, nas suas
andanças a serviço da lavandaria. E então, de repente, ela lembrou-se... ocorreu-lhe uma
possibilidade sobre quem poderia ser o cara... havia uma possibilidade. .. e ela percebia
que a fortuna lhe batia à porta.
"Eu deveria ter falado com o chefe sobre isso, mas não falei... Já o havia chateado muito
no começo do processo e ele não me iria ouvir, quando tudo estava acabado. Além
disso, ele me fizera uma advertência dias antes a respeito de serviço e nós não nos
víamos com bons olhos. Então, durante algum tempo, fiquei ruminando tudo sozinho
até que me resolvi a procurar um advogado chamado Walter Gillett, um bom advogado
e uma pessoa que eu apreciava muito e em quem também confiava. E tenho certeza que
ele também gostava de mim. E o que você acha que ele me aconselhou a fazer? Ele me
disse que ficasse afastado e que não me metesse naquilo. Ele sabia que eu já não era
bem-visto na polícia. Sabia que eu andava bebendo e então é possível que não
acreditasse muito nas novas provas que eu descobrira. Suas palavras foram: Jimmy, não
vá mexer em casa de marimbondos. E o que foi que eu fiz? Eu vivia sob uma tensão tão
tremenda, andava tão confuso, que resolvi tomar um porre, cheguei embriagado ao
serviço e... bem... você sabe o que
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aconteceu. Depois que saí da prisão, eu não queria mais saber de nada...
As palavras dele tinham-se tornado cada vez mais baixas e as últimas quase não podiam
ser ouvidas. Depois, um forte acesso de tosse o interrompeu, e ele ficou calado. Fez um
gesto mostrando que nada mais tinha a dizer.
Rígido e emocionado, Paul rompeu o silêncio.
- E eles ainda andam por aqui, Edward e Louise?
- Você não vai poder falar com Edward. Ele se casou há alguns anos e emigrou para a
Nova Zelândia. Mas a Louise ainda anda por aqui... Louise... a pequena Louise... meu
Deus! Ela não presta mesmo, mas é também a chave para todo o enigma... A
probabilidade é de uma em um milhão de você conseguir tirar alguma coisa dela.
- E onde é que posso encontrá-la? - indagou Paul.
- Ela trabalha para uma família muito respeitável e isso é mais uma prova de sua
capacidade para enganar as pessoas decentes...
Ele meteu a mão embaixo do travesseiro e tirou de lá um pedaço de papel com umas
coisas escritas e entregou-o a Paul sem dizer palavra.
- Eis aí. Mas não acho que isso possa ajudá-lo. Agora, deixe-me em paz. Já fiz muito
por você e não vou fazer mais nada. Não me sinto nada bem e quero dormir um pouco.
Ele deitou-se de lado e puxou a coberta até o queixo, mostrando que a entrevista
terminara.
Paul levantou-se e, quando falou, sua voz estava carregada de emoção.
- Muito obrigado. Eu voltarei em breve...
O rapaz olhou mais uma vez para aquele homem que ali estava arrasado mas impassível
e depois fez meia-volta e saiu. Ao descer as escadas, seu coração estava aos saltos,
cheio de novas esperanças. Recebera de Swann uma ajuda que estava além de todas as
suas melhores expectativas. No entanto, de uma certa forma, ele não conseguia livrar-se
da impressão que sentia. Aquele homem doente ainda estava escondendo alguma coisa,
algo que não queria revelar, e era até possível que tivesse medo de fazê-lo. Garantiu a si
mesmo que descobriria aquilo na sua próxima visita ao hospital.
Capítulo XII
Na noite seguinte, depois do trabalho, Paul encontrou-se com Mark do lado de fora do
Bonanza, já que o rapaz havia telefonado para ele na parte da manhã daquele dia. Mark
demonstrava prazer em encontrá-lo e depois de se apertarem as mãos, exclamou com
entusiasmo.
- Vamos começar esta noite!
- Vamos sim, Mark, mas primeiro vamos comer alguma coisa?
- Não para mim, obrigado. Já comi às cinco horas. E você?
- Eu estou bem...
- Eu mal conseguia me conter depois que telefonei para você, Paul. Agora conte-me
esse negócio da Louise Burt.
Mark mostrava-se aflito e falava nervoso enquanto caminhavam pela calçada cheia de
gente.
Paul estava calado. O temperamento exaltado do amigo, e sua tendência para tratar
daquilo sem lhe dar muito valor, como se fosse apenas uma alegre aventura, fazia com
que ele se perguntasse se andara certo quando o convidara para acompanhá-lo, mas, por
outro lado, ele se sentia obrigado, já que o outro lhe prestara um grande favor e com
isso não podia recusar sua companhia. Então, depois de alguns instantes, ele resolveu
responder à pergunta.
- Louise está empregada como doméstica. Parece que as coisas não lhe correram bem.
Esta é a sua noite de folga. Eu sei, mais ou menos, qual é a sua aparência e onde
podemos encontrá-la.
- Bom trabalho, Paul. E como foi que você deixou Swann? Paul sacudiu a cabeça e
olhou-o de lado. Mark perdeu logo todo
o seu entusiasmo, mas perguntou baixinho.
- Está pior?
- Passei no hospital na hora do almoço, mas ele não podia receber visitas. Parece que
estava pior...
Depois disso, eles atravessaram o parque em silêncio, passando pelo coreto da banda
que ficava fechado no inverno e que ali, na luz crepuscular, tinha uma aparência
fantasmagórica com o lago ornamental ao lado e no alto do aclive estava a Galeria
Municipal de
Arte e o Museu de História Natural. Estavam agora em Brimlock Hill, um dos melhores
bairros da cidade, cheio de belas mansões e cercado de alamedas de castanheiros muito
altos. Junto da área residencial havia, no entanto, estranhos sobreviventes de outros
períodos com ruas transversais calçadas de pedra e becos modificados com algumas
lojas e uma taverna chamada The Royal Oak. Logo que viu a tabuleta, Paul falou para
Mark.
- É aqui. Lembre-se de que precisamos ser cautelosos. Se não souber o que dizer, o
melhor mesmo será ficar calado.
Atravessaram o beco na direção da luz amarela que vinha das janelas e empurraram a
porta de mola da taverna.
O salão era velho e bonitinho, forrado de veludo manchado e com lâmpada.3 em cima
das mesas já bem usadas, e nas paredes havia reproduções de quadros de corridas ao
passo que por trás do bar havia um espelho quebrado com moldura dourada. O salão
estava começando a encher com os fregueses da noite, quando Paul encaminhou-se para
uma das mesas de carvalho escuro. Sentou-se e pediu duas cervejas, e depois olhou em
torno com cuidado para não despertar atenção.
- Ainda não chegou. Talvez esta não seja nossa noite de sorte, Mark.
Mal tinha acabado de falar quando a porta de vaivém se abriu para dar passagem a uma
mulher que caminhou com o desembaraço de uma habitue e para um dos reservados
num canto. Paul desconfiou logo, com um aperto no coração, que aquela era a Louise
Burt que ele procurava. Devia andar pelos 30, mas já estava gorda, com ancas largas e
busto farto. Estava com um vestido de fazenda barata, tinha luvas amarelas e carregava
uma bolsa de fantasia. Ela era, na verdade, tão completamente comum, tão obviamente
uma criada doméstica na sua noite de folga que Paul se sentiu momentaneamente
confundido apesar de seu coração estar batendo em ritmo bem acelerado.
A mulher sentou-se, pediu uma dose de gim e, depois de haver mexido na bolsa, olhou
em torno do salão. Quando seu olhar cruzou com o de Paul, o rapaz sorriu, mas a
mulher logo virou o rosto como se estivesse insultada. Mas, dois minutos depois, ainda
com um ar ofendido, ela tornou a olhar na sua direção. Paul levantou-se então e foi até à
sua mesa. Nada era mais estranho para seu caráter do que aquilo que estava fazendo,
mas, com uma nova maturidade, saiu-se muito bem. Falando com facilidade e exibindo
grande delicadeza, como exigia a ocasião, ele abriu o jogo.
- Boa noite... Houve uma pausa.
- Está falando comigo?
- Estou sim. Se estiver sozinha, quem sabe a gente poderia se juntar para beber alguma
coisa...
- Não. Não estou sozinha. Estou esperando um amigo.
- Mas que pena!
- Claro que ele talvez não venha esta noite... quem sabe vai trabalhar até tarde. Ele é um
cara muito importante.
- Então é bem provável que não venha mesmo. E assim, o que ele perde nós ganhamos.
Quer beber alguma coisa?
- Não. Realmente não quero. Não sou dada a bebidas. Mas já que você insiste...
Paul fez um sinal a Mark, por cima do ombro, e ele logo veio trazendo os dois copos.
- Dá licença para eu lhe apresentar meu companheiro?
- Muito prazer em conhecê-lo. Esqueci meus cartões de visita, mas o meu nome é
Louise Burt.
Quando os dois se sentaram a seu lado, ela afastou-se um pouco e ajeitou a saia como se
fosse uma senhora. Depois, curvando o dedo mínimo, esvaziou o copo.
- Agora é a minha vez. O que vai ser?
- Olhe que eu nem estava pensando nisso. Pode ser um gim. Mark sorriu.
- Foi o que desgraçou minha mãe - disse Mark, rindo.
Ela não retribuiu o sorriso. Seus olhos azuis de boneca estavam fitos neles como se
quisesse descobrir quem eram. Tinha o rosto pálido e a pele grossa muito empoada com
um nariz arrebitado. Suas bochechas gordinhas, como de criança, chupadas nos cantos
da boca, davam a seus lábios finos e úmidos uma estranha espécie de sorriso já que a
sua expressão era completamente desprovida de graça. Quase não tinha testa.
Logo que o gim dela chegou, Paul levantou seu caneco de cerveja.
- À nossa saúde! Boa sorte para todos. Mark retomou a palavra.
- Vocês sabem como é. Não há nada melhor do que uma noite em boa companhia. Entre
bons amigos... A gente sente-se mais animado. É uma fuga da velha rotina...
- Preciso voltar para casa às nove horas... Esta noite eu não posso ir a lugar nenhum. -
Foi com a dignidade de mulher que ela falou isso muito séria.
- Não faz mal - disse Paul, alegre. - Na próxima vez teremos mais sorte. Já então
seremos velhos conhecidos...
Ela olhava para os dois como se estivesse de acordo.
- Estou vendo que são mesmo uns cavalheiros. A gente sempre encontra alguns que
querem andar depressa demais, e chegam
66
l
mesmo a ser cruéis. - Voltou-se para Paul. - Será que já não o vi em algum lugar?
- Acho que não. Infelizmente...
- Isso é um prazer que ele ainda não teve - falou Mark, rindo.
Mantendo-se sempre alerta, Paul não deixava morrer a conversa e explorava a vaidade
da mulher, aceitando seus modismos e suas explicações. Dizia-se governante de uma
grande mansão em Brimlock Hill. Depois de alguns drinques, ela já não se mostrava
mais tão precavida e já exibia um ar mais agradável, mas então, de repente, seus olhos
já vidrados foram invadidos por uma onda de sentimentalismo barato.
- Sempre é muito agradável a gente conhecer perfeitos cavalheiros. Vocês não são como
alguns que eu poderia mencionar, mas que não menciono porque esse não é o meu
feitio, já que sou uma senhora. Tive uma educação muito severa, sabem. Fui educada
num convento de freiras na França. Aquilo lá era mesmo muito bom, muito sossegado e
as freiras eram encantadoras. Elas mimavam-me demais. Era Louise pra lá e Louise pra
cá a toda hora. Especialmente da parte da Madre Superiora que fazia tudo por mim,
desde o café da manhã servido na cama até as rendas feitas à mão em todas as minhas
camisolas. É claro que o fato de eu ser meio francesa também ajudava muito. Elas todas
sabiam o que eu poderia ter sido, se os meus direitos não tivessem sido usurpados e
talvez elas desconfiassem das desgraças que ainda iam desabar em cima de mim. Vocês
se surpreendem comigo? - Ela parou e ficou olhando para eles com os olhos úmidos.
Paul sacudiu a cabeça gravemente, ao mesmo tempo que pensava consigo mesmo
jamais haver esperado, em sua vida, encontrar uma mentirosa nata tão completa e
perfeita.
A mulher segurou-lhe o braço com força.
- Vocês nem podem imaginar tudo o que sofri! Meu pai era do Exército, não do
Exército da Salvação, do Exército mesmo. Era coronel. Era um bruto que espancava
minha mãe, especialmente quando voltava para casa embriagado, nos sábados à noite.
Eu sentia desejos de fugir de casa. O palco sempre foi a minha maior ambição. Queria
que todo mundo me visse e me admirasse. Só pensava nessa oportunidade...
- E ela apareceu? - disse Mark, interessado.
Ela sacudiu a cabeça e seus cílios longos esconderam um lampejo de tristeza.
- Aconteceu uma coisa... Mas eu fiz o que era certo, sabem ? Eu só disse a verdade,
somente a verdade e nada mais do que a verdade, em nome de Deus. E qual foi a minha
recompensa? Umas poucas pratas que só me duraram uns seis meses.
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Paul concordou com uma amargura fingida.
- É sempre assim... você pratica uma boa ação e nem mesmo lhe agradecem.
- Eu não queria agradecimentos. - Ela se mostrou indignada. - Só queria que
reconhecessem os meus méritos... queria o meu lugar. Nunca esperei que viria a ser uma
cri... quero dizer uma governante, para o resto de minha vida.
Paul ainda teve juizo e ficou calado, mas Mark não se conteve e se inclinou para a
frente.
- E por que não conta para nós o que aconteceu? Quem sabe a gente poderia ajudar?
Seguiu-se uma pausa. Paul mordeu o lábio e baixou os olhos. Ela olhou para Mark e, de
repente, pareceu dar-se conta do que estava fazendo. A vermelhidão da indignação
desapareceu de seu rosto e ela olhou para o relógio que estava em cima do bar. Esvaziou
o copo e levantou-se.
- Estão vendo que horas são ? Preciso ir andando...
Paul conseguiu esconder seu desapontamento, ajudou-a a juntar suas coisas e
acompanhou-a até a porta depois de pagar a despesa. Já lá fora, ele olhou para o céu.
- Está uma noite tão bonita! Será que não poderíamos acompanhá-la até em casa?
Ela hesitou um pouco, mas depois, não de muito boa vontade, acabou concordando.
- Está bem, mas será só até o portão... Lembrem-se disso.
Saíram da rua calçada de pedras e seguiram pela estrada deserta. Louise ia entre os dois,
caminhando com cuidado por causa dos saltos altos do sapato. Mais do que nunca, Paul
fazia o possível para se mostrar amável. Logo chegaram a uma avenida larga, ladeada
por árvores altas e cheias de residências bonitas no meio de grandes jardins. Quando
chegaram na frente da última casa, Louise parou.
- Muito bem. Aqui estamos...
- Mas que linda mansão! - falou Paul.
- É mesmo. - Ela pareceu satisfeita com o elogio. - Pertence aos Oswalds... gente muito
fina.
•- Sim, sim. Naturalmente. Será que poderemos nos encontrar outra vez na próxima
quarta-feira?
Ela hesitou, mas foi só por pouco tempo.
- Está bem. À mesma hora lá no bar.
- Esplêndido!
Paul tirou o chapéu com muita cortesia e estendeu a mão. No mesmo instante, a porta da
frente da casa abriu-se e um senhor idoso saiu fumando um charuto, com algumas cartas
na mão e sem chapéu. Foi até o portão e abriu-o, encaminhando-se para a caixa
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do Correio que ficava na estrada. Ali naquela escuridão era quase impossível ver-lhe o
rosto claramente, mas Paul percebia que ele tinha um ar abstrato e uma expressão
benevolente, e também via que seus cabelos eram prateados. Quando passou pelo grupo,
ele viu que era a Louise e, com uma voz muito agradável, cumprimentou-a.
- Boa noite, Louise.
- Boa noite, senhor. - A resposta foi dada numa voz humilde, numa mudança de tom
para um servilismo respeitoso que era quase cômico.
Depois que ele se afastou, deixando para trás um cheiro agradável do charuto, Louise
despediu-se muito encabulada. Após atravessar o portão, ela tomou o caminho da
entrada de serviço que ficava à esquerda e logo desapareceu por detrás de uma moita de
louro. Quando iam voltar, os dois ainda escutaram a porta de serviço bater.
Durante uns cinco minutos, eles caminharam de volta em silêncio e foi Mark quem o
quebrou.
- Desculpe, Paul. Ela ia começar a falar... e eu fiz com que ela se fechasse como uma
concha.
A única resposta de Paul foi apertar os lábios.
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Capítulo XIII
Quando Paul subiu para seu quarto já eram quase 11 horas, mas ele não conseguia
dormir. Andava de um lado para outro no quartinho muito apertado quase não ouvindo
através das paredes muito finas os ruídos noturnos dos outros inquilinos. Havia um
indiano, estudante de medicina que estava com o rádio ligado no andar de baixo; James
Crocket, um contador que escovava seus sapatos e assobiava uma música triste no
quarto ao lado; e o velho Garvin, um leiloeiro aposentado que descia a escada para
encher sua moringa. Paul lutava com a excitação que lhe causara aquela noite.
Despiu-se afinal, e caiu na cama. Dormiu mal porque seus pensamentos ainda estavam
em ebulição e os nervos achavam-se tensos e bem afinados para a ação. Ficou satisfeito
quando o primeiro clarão da madrugada chegou até seu quarto, através das frestas da
janela.
Durante todo o dia, na loja, mostrava-se cansado e preocupado. Quando Lena chegou
com o almoço, ele comeu os sanduíches sem mostrar o apetite de costume. Ela devia ter
notado porque, com um ar sério e impessoal, perguntou-lhe se o presunto não estava
bom.
Aquilo despertou-o de sua abstração, e o rapaz levantou os olhos procurando sorrir.
- Está até muito bom. O caso é que hoje não estou com fome. Você se mostra muito
agradável comigo. Sei que Harris me disse que eu poderia comer alguma coisa, mas
você sempre me aparece com um verdadeiro almoço...
- Também não é tanto assim. Os sanduíches não são assim tão bons, mas quero crer que
você tem um bom jantar à noite.
Paul não quis contradizê-la. A despeito do peso de todas as suas preocupações, ele
gostava da maneira como a moça ficava ali conversando, não com muita vontade, mas
com uma espécie de tensão dolorosa que se manifestava contra a vontade dela. Talvez
fossem os olhares silenciosos dele, aos quais já se acostumara, os responsáveis pela
mudança de atitude. Aquilo era como se ambos se dessem conta da mútua condição de
solidão e então resolviam conversar.
- Você mora sozinho, não é mesmo?
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- Moro sim. E você?
- Não. Eu não. Tive muita sorte. Moro num lugar agradável. Tenho quarto e sala na casa
de uma amiga em Ware Terrace.
- Puxa vida! É quase um paraíso!
Ela sacudiu a cabeça e desviou os olhos. Eles eram castanhos escuros e pareciam
exprimir o desejo e os encargos da vida.
- Eu posso me dar a esse luxo. Trabalho duro mesmo. Muitas vezes vou servir em
banquetes públicos à noite, onde pagam bem.
- Quer dizer que nunca sai para dançar ou para ir ao cinema, como fazem as outras
moças? - indagou Paul, curioso.
- Não - ela deu de ombros. - São coisas que não me interessam.
Ela ficou ali, de pé, com um olhar perdido mas logo em seguida apanhou a xícara vazia,
sorriu e voltou para a lanchonete.
Aquelas conversas dos dois não tinham passado despercebidas por algumas outras
garçonetes muito vivas, e então, quando ela voltou para o balcão, e como havia pouco
movimento, uma das mais moças, chamada Nancy Wilson, cutucou sua companheira.
Ela era uma garota muito viva, produto das sarjetas da Rua Ware, que ostentava um
cinto vermelho por cima do uniforme e botas de cano alto. Fez um aceno leve com a
cabeça.
- Está vendo aquilo? Lena teve hoje uma longa lição de música.
- Dó, ré, mi! - cantarolou a outra.
Uma outra abriu-se num largo sorriso e gritou.
- Oi, Lena! Você está querendo arranjar um afinador para o seu piano?
Todo mundo riu, e Nancy tentou melhorar a piada.
- Cuidado, Lena. Você sabe como é. As que são mordidas uma vez ficam duplamente
tímidas...
Seguiu-se um silêncio incômodo. As moças voltaram ao trabalho e algumas olharam
zangadas para Nancy. Lena parecia nem mesmo ter ouvido e apanhou uma nota
começando a somar as parcelas. Ela tinha sempre uma resposta pronta para aquela
espécie de brincadeira, mas continuou calada naquela ocasião.
Paul ficou imaginando o que estaria acontecendo, mas logo esqueceu daquilo. Ele, na
realidade, estava sempre num tenso estado de expectativa e não conseguia pensar em
outra coisa que não fosse seu próximo encontro com Louise, e chegava, até mesmo, a
contar os dias da semana.
Chegou afinal a esperada quarta-feira, e ele ficou ainda mais tenso pensando no que iria
acontecer. O dia custou muito a passar. Tinha combinado o encontro com Mark na
frente do Bonanza às sete horas, e quando a loja fechou foi um dos primeiros a sair.
Como Mark ainda não houvesse chegado, ficou esperando junto a um pos71
Paul sentia-se desanimado, mas ainda não se sentia derrotado. Custasse o que custasse,
ele pecisava falar com Louise.
A noite estava seca e fresca com uma escuridão que se tornava mais suave e luminosa
por causa das estrelas. Havia uma promessa de geada; o céu estava muito limpo e as
folhas secas no chão estalavam sob os seus pés, quando Paul voltou para a frente da
casa. Ali, numa janela muito iluminada, cujas cortinas não tinham sido corridas talvez
devido à beleza da noite, Paul viu o dono da casa, aquele mesmo que já vira antes, e que
tinha a seu lado uma senhora idosa, com expressão de bondade e que, provavelmente,
era sua mulher. Havia ainda um outro casal que, provavelmente, ali estava de visita, na
sala mobiliada com sobriedade. Todos estavam com trajes a rigor. Protegido pelos
arbustos, Paul ficou contemplando aquela cena cheia de dignidade e graça, tão diferente
da paixão desordenada que sentia dentro do peito. Viu que havia ali uma mesa de
bridge. Pela forma lenta e despreocupada como corria o jogo, com as risadas e
conversas, aquilo iria acabar muito tarde, mas ele estava preparado para uma longa
espera.
De repente, na sombra, ele ouviu passos pesados e, voltando-se, deu de cara com um
policial.
74
Capítulo XIV
- O que você está fazendo por aqui?
Ao ouvir as palavras do policial, Paul ficou gelado e, por um instante, chegou a pensar
em fugir, mas conseguiu conter-se.
- Eu queria falar com uma pessoa da casa...
- E é assim que você faz suas visitas? Escondendo-se atrás de uma moita no escuro?
- Eu não estava escondido.
- Claro que estava. Eu o venho observando desde que chegou. Chamo a isso
vagabundagem com más intenções...
- Não. Não... Posso explicar-lhe tudo direitinho, se o senhor quiser me ouvir.
- Pois então venha explicar ao sargento na delegacia. É melhor não tentar resistir.
Com a cara amarrada, Paul ficou olhando o policial uniformizado que estava ali na sua
frente. Aquilo era a pior desgraça que lhe poderia acontecer. Nada mais podia fazer
senão submeter-se. Seguiu em silêncio ao lado do policial.
Foi uma longa caminhada pelas ruas iluminadas e cheias de gente até o centro da
cidade. Paul percebeu logo que não estava sendo levado para a delegacia local que era
ali perto. Afinal atravessaram uma porta em arco iluminada por uma lâmpada azul e
quadrada e entraram na sala da Chefatura de Polícia de Wortley.
Era uma sala pequena e bem iluminada que tinha uma janela com grade, duas portas,
sendo que uma delas tinha uma pequena grade quadrada e dois bancos encostados às
paredes. Por detrás de uma mesa alta, com a túnica desabotoada, escrevendo
laboriosamente, como se fosse um menino fazendo seus deveres num caderno, achava-
se um sargento grandalhão, de rosto muito vermelho e cujo nome estava ali bem à vista
na folha de ocorrências. Chamava-se Jupp. Tinha a aparência de um taverneiro do
interior. Cabeça quadrada, cabelos ralos e untados, divididos ao meio e que brilhavam
embaixo da lâmpada de um abajur verde.
Manteve Paul ali diante dele durante uns cinco minutos, enquanto botava o pingo no
último "i" e cruzava o último "t" de for75
i
ma satisfatória, e então levantou os olhos, virou a página e, finalmente, falou.
- Muito bem. Agora vamos ver o que temos aqui... Obedecendo à rotina e de forma
quase perfunctória, Jupp foi
anotando os detalhes que lhe fornecia o subordinado, retorcendo a ponta do bigode e
olhando calmamente para Paul de tempos em tempos pelo canto dos olhos. Finalmente,
apontou com a ponta da caneta para o banco.
- Acho que o chefe vai querer ter uma conversinha com você. Fique aí sentado e espere
que eu chame.
Paul fez o que lhe era mandado, mas já então ele tinha a certeza que sua prisão não fora
apenas um acidente, e que sua presença ali fazia parte de um plano mais amplo. Ficou
sentado cerca de meia hora. Durante esse tempo, passaram por ali dois marinheiros
embriagados que pareciam ter rolado em todas as sarjetas da cidade e uma pobre
criatura com uma triste cara e com a pena do chapéu quebrada. Era uma vagabunda
acusada de estar procurando homens. Os três foram levados pela porta com grade à
esquerda. Quando a porta se abriu, veio de lá uma catinga de humanidade suja um
pouco diminuída mas não completamente eliminada pelo cheiro de desinfetantes.
Afinal, o sargento fez um sinal a Paul e ele levantou-se para acompanhá-lo, passando
por um corredor à direita. Abriu-se então uma outra porta, protegida por uma cortina, e
Paul encontrou-se num gabinete confortável, com poltronas de couro e uma grande
mesa de mogno além de um armário grande com portas de vidro cheio de taças e
troféus. As paredes estavam cheias de fotos emolduradas das equipes de atletismo e de
futebol da polícia e uma vitrina com uma coleção de armas antigas. O chão era coberto
por um espesso tapete vermelho.
Paul, no entanto, não se deixou impressionar muito com tudo aquilo já que toda sua
atenção era dirigida para o homem que estava sentado do outro lado da mesa.
Reconheceu-o imediatamente pelas fotos que já vira, e sabia que estava na presença de
Adam Dale, o Chefe de Polícia de Wortley.
- Sente-se aí, meu filho. Esta poltrona é bem confortável.
A voz muito calma, mostrando uma amizade calorosa, foi, para Paul, um verdadeiro
choque, e ele deixou-se cair na poltrona que lhe era indicada. Não conseguia desviar os
olhos de Dale.
* O Chefe de Polícia era agora um homem de uns 55 anos e já havia talvez chegado ao
ponto mais alto de sua força física. Era uni Homem grandalhão, pescoço taurino e
braços tão grossos como as coxas de qualquer homem normal. Ali não havia gordura.
Tudo era músculos sólidos e ossos, e seu rosto parecia esculpido em granito. Sua
aparência chegava a meter medo. A testa era larga e inteligen76
te, mas o queixo, que mais parecia uma rocha, com aparência implacável, parecia
desafiar o mundo. Os olhos eram cinzentos e gelados. Ele continuava a falar de maneira
calma e delicada.
- Já faz alguns dias que venho querendo ter uma conversa com você, meu rapaz. Foi
uma boa oportunidade essa que o trouxe até aqui.
Paul estava imóvel e tenso na poltrona.
- Não fiz nada...
- Espero que não tenha feito mesmo. Falaremos disso depois. Antes de mais nada, quero
dizer-lhe que sei quem você é e também sei de tudo que há a seu respeito. Para você,
Wortley pode parecer uma cidade grande, mas, para nós, ela não passa de uma aldeia.
Sabemos de tudo que acontece nela. É para isso que estamos aqui. Recebi informações a
seu respeito logo que chegou na cidade. - Ele brincou com um telegrama que estava na
caixa de laça ali ao seu lado. - Recebemos um pedido de Belfast, que nos foi enviado
por amigos seus de lá, para que o encontrássemos e para que nada de ruim lhe
acontecesse. Sei onde você mora, onde trabalha, e tudo que tem feito desde que chegou.
Pegou numa régua de ebonite e ficou virando-a em suas mãos tremendamente fortes.
Aquelas manoplas já haviam derrubado muitos adversários antigamente, quando ele
praticava luta livre em Cumberland.
- Agora então, meu rapaz, veja bem... sei exatamente o que você pensa a meu respeito.
Está cheio de ódio. Eu sou o bruto que enviou seu pai para a prisão perpétua. Foi por
pouco que ele escapou da forca. Esse é o seu lado do caso. Muito bem, agora vou-lhe
contar qual é o meu. Simplesmente, cumpri meu dever. Diante de provas irrefutáveis, eu
não tinha outra escolha. Seu pai foi apenas um dentre as centenas que passaram pelas
minhas mãos. Aliás, eu até mesmo já me esquecera completamente dele até que você
apareceu por aqui.
Mais uma vez Dale fez uma pausa e olhou firme para Paul.
- Estou aqui para garantir a tranqüilidade da comunidade. Nossa sociedade está dividida
em duas classes. Há os que agem certo e há os que agem errado. Minha obrigação é
proteger os que andam certos e condenar os que andam errados. Compreendeu bem
isso? Se compreendeu mesmo eu quero, então, fazer-lhe uma pergunta.
Fez mais uma pausa e apontou para Paul com a régua.
- De que lado você está? Faça esta pergunta a si mesmo. Se se colocar contra as forças
da lei e da ordem, vai acabar seriamente enrascado. Veja o que já lhe está acontecendo.
Foi encontrado dentro do quintal de uma casa depois de escurecer, sem o
consentimen77
to e, até mesmo, sem o conhecimento do proprietário. Logo a seguir talvez seja
encontrado lá dentro. Veja bem que não vou prendê-lo agora. Acontece, porém, que
nosso lema aqui é que "é melhor prevenir do que remediar". Então, só lhe quero avisar e
mostrar, para o seu próprio bem, até onde essas infrações podem levá-lo.
Houve ainda uma outra pausa em que Paul ficou ali rígido e calado. No princípio, ele
pensara em falar com toda a sua alma, em expor seu lado do caso, discutir, reclamar e
explicar, mas fora contido por uma força íntima, um sentimento secreto de previsão.
Dale continuou, e agora já falava com evidente sinceridade e sua voz era persuasiva e
razoável.
- Não me compete aconselhá-lo, mas, assim mesmo, digo-lhe que volte para sua casa e
para sua mãe em Belfast. Você tem lá um bom emprego à espera e, pelo que me
disseram, tem também uma boa moça. Desista de remexer na sujeira da vida. Será que
me está ouvindo? Também tenho filhos, sabe? Eu sou humano. Detestaria vê-lo sofrer.
É tudo o que tenho a dizer. Pode ir embora, e se tiver juízo, espero que não torne a
aparecer por aqui.
Ele fez um gesto dando por terminada a entrevista, e que fora mais cordial do que
formal. Paul levantou-se e, sem uma palavra, saiu do gabinete, passou pelo corredor e
pela sala sem que ninguém o detivesse, e saiu para o ar fresco da noite. Estava livre.
Sentia-se alagado de suor e caminhava rapidamente. Ficara abalado com a franqueza de
Dale. Não havia como negar sua sinceridade de propósito. Apesar disso, no entanto, no
tumulto desordenado de seu pensamento, ele sentia um ressentimento íntimo e
profundo. Ele nada fizera de errado e, naquele país livre, ninguém tinha o direito de lhe
ditar ordens e ele não iria submeter-se ao que Dale exigia. Em lugar disso, a própria
natureza daquela exigência, e as circunstâncias que a haviam precedido despertavam
nele uma tremenda desconfiança, um desejo para ações mais enérgicas que, já desde
alguns dias, vinham martelando em seu espírito.
Ele precisava urgentemente de conselhos e então, apesar da hora, ele pensava
desesperadamente.
"Preciso falar com Swann... imediatamente. Ele já me disse que fosse devagar... mas
então... ele ainda não sabia o que ia acontecer. Se eu for cerceado aqui em Wortley...
preciso usar métodos mais diretos... é isso mesmo. Afinal de contas foi ele mesmo quem
me disse que eu só conseguiria alguma coisa favorável recorrendo aos mais altos
escalões."
Caminhando rapidamente pelas ruas vazias, ele logo chegou ao hospital onde pediu
licença para entrar. O porteiro já velho correu
78
o dedo no registro, levantou os olhos por trás dos óculos, e sacudiu a cabeça.
- S warm... James Swann. Sinto muito, rapaz. Ele já não está mais na lista. Morreu
tranqüilamente às quatro horas da tarde.
Naquela noite, já bem tarde, depois de madura reflexão, Paul tomou uma decisão.
Escreveu uma carta para Westminster e colocou-a no Correio.
79
Capítulo XV
O membro liberal do Parlamento para a região de Wortley gostava de fazer suas breves
visitas a seu distrito eleitoral especialmente em outubro que era a melhor época para a
caçada às perdizes. George Birley era filho do lugar, e seu sucesso em Londres, onde
casara com Lady Ursula Duncaster, aliara-o a uma das famílias liberais mais influentes
do país, mas ele nunca desprezara seus velhos amigos nem deixara de adorar seu esporte
predileto. Era uma figura popular em Wortley, tinha 50 anos, um rosto curtido e
vermelho, cara raspada, era alegre, gostava de contar casos e era também grande
apreciador de charutos. Andava sempre bem trajado e, nas horas de lazer, gostava de
ostentar roupas de xadrez. Estava sempre pronto para uma ajuda aos amigos, a
contribuir para as obras de caridade da região e tornara-se uma espécie de símbolo para
o homem bemsucedido mas que não se estragara com o sucesso.
Era verdade, no entanto, que sua carreira no Parlamento não tinha sido muito notável até
então. Ele comparecia com regularidade às sessões, votava com fidelidade ao partido e
participava dos torneios anuais de golfe dos Comuns com os Lordes. Todos os homens
públicos encontram sempre detratores, e então havia muita gente que dizia não ter
Birley inteligência nem qualificações para sua posição e que um bom camarada não era,
necessariamente, um bom estadista, que ele tinha medo de sua nobre esposa e, aliás, até
mesmo de todos os Duncasters senhoriais e que toda sua euforia era apenas um
esnobismo invertido e que se não fosse por sua mulher e suas boas relações com todos
os ministros e políticos em geral, George jamais teria conseguido um lugar no governo
da nação durante tanto tempo.
Naquela determinada manhã ele estava de muito bom humor. Sua viagem a Wortley
pelo expresso da manhã fora muito boa e agora, sentado diante do café da manhã na
suíte que tinha sempre reservada no Queens Hotel, ele se regalara com ovos e bacon,
rins grelhados e uma costeleta de carneiro de quebra, e já estava nas torradas com geléia
junto com a terceira xícara de café. Gostara de
80
ler o Courier que estava ali com ele e gostara de saber que seu partido ia sair-se bem nas
eleições em Cotswold, já que não havia perspectivas de greves e a Bolsa estava em alta.
Geara um pouco durante a noite, o suficiente para refrescar a teira, e o sol já estava
aparecendo. Dentro de 10 minutos seu carro estaria na porta e, em uma hora, ele já
estaria sentindo o cheirinho gostoso da terra de sua meninice, caminharia com três
outros companheiros, também bons caçadores, embora não tão bons como ele. Tinha
ainda um novo cão bem treinado e esperava que o animal fosse bom mesmo.
Logo apareceu um garçom, um velhote de costeletas, muito correto e respeitoso. George
gostava do ambiente daquele hotel que ainda respeitava as antigas tradições e não se
passava para as tolices modernas que ele detestava cordialmente.
- Está lá fora um rapaz que quer falar com o senhor. Ele levantou os olhos do jornal e
franziu a testa.
- Não posso atendê-lo. Vou sair dentro de dez minutos.
- Ele diz que tem um encontro marcado, senhor. Deu-me esta carta.
Birley segurou a carta que o homem lhe estendia com respeito. Ele mesmo a escrevera
em papel timbrado da Câmara dos Comuns. Franziu ainda mais a testa. Aquilo era uma
maçada! Ele tinha marcado aquilo dias antes, em resposta a uma vaga carta solicitando
uma entrevista, mas esquecera completamente o compromisso. Acontecia, porém, que
ele era uma pessoa que se orgulhava de jamais faltar a um compromisso.
- Está bem. Traga-o aqui.
Um momento depois, Paul entrava na suíte. Birley estava acendendo um charuto caro
mas logo apertou-lhe a mão afavelmente, fazendo-lhe sinal para sentar junto da mesa.
Soltou uma baforada mostrando-se alegre.
- Muito bem. Tenho estado à espera deste momento desde que recebi sua carta. Quer
uma xícara de café?
- Não, obrigado, senhor.
Paul estava pálido, mas sua expressão firme e a postura de seu corpo causaram uma boa
impressão em Birley que sempre gostava de ajudar os jovens que pareciam promissores.
- Então vamos ao que veio, meu jovem. Tenho outros compromissos, sabe como é...
Tenho uma importante conferência fora da cidade. E vou voltar a Londres no expresso
da noite. - Ele falava com um tom amistoso como se fosse um protetor de bom humor, e
aquilo era sua especialidade.
Paul tirou um papel que trazia no bolso.
- Eu sabia que seu tempo era curto, senhor. Então preparei um relatório batido à
máquina explicando os fatos.
81
- Muito bem, muito bem... - Ao mesmo tempo que falava ele fazia um gesto com a mão,
indicando que dispensava o relatório. Detestava a leitura de relatórios. Era para isso que
ele tinha duas secretárias na Câmara. - Diga-me o que há em poucas palavras.
Paul passou a língua nos lábios secos e respirou fundo.
- Meu pai está na prisão já faz quinze anos por um crime que não cometeu.
Birley ficou ali de boca aberta com os olhos arregalados para Paul, como se aquilo fosse
alguma coisa ofensiva. Paul, no entanto, não lhe deu tempo para falar e continuou
dizendo tudo o que tinha para dizer e que era o motivo para aquele encontro.
Logo de saída parecia que Birley ia detê-lo, mas não o fez embora se mostrasse cada
vez mais aborrecido e não escondesse seu desagrado aos olhares que dirigia a Paul.
Continuava a ouvir e o charuto apagou-se.
A exposição durou exatamente sete minutos, e quando terminou Birley ficou ali sentado
como alguém que cai numa armadilha desagradável e inesperada. Ele apenas pigarreou.
- Não posso acreditar que isso seja verdade. Para mim isso parece uma história mal
contada. Mas mesmo que não seja... é uma história bem antiga.
- Não para o homem que está lá na prisão em Stoneheath. Ele continua a viver todos os
seus minutos.
Birley fez um gesto de desinteresse.
- Não posso aceitar nada disso. Não quero remexer um lamaçal. De qualquer maneira,
isso não é de minha alçada...
- Mas ainda é um membro do Parlamento representando Wortley, senhor.
- Claro que sou, com todos os diabos! Mas não represento Stoneheath. Represento gente
decente e não um bando de presidiários!
Ele levantou-se e começou a andar de um lado para outro, furioso por ver o seu dia
estragado daquela maneira. Nunca deveria ter concedido aquela entrevista com aquele
rapaz doido que ali estava. Não podia enfiar a cabaça naquela casa de marimbondos.
Nenhum homem sensato tocaria naquilo nem mesmo com uma vara muito grande. E no
entanto, enquanto olhava zangado para Paul que continuava ali sentado, sentia-se
inquieto. De repente olhou para o relógio e resolveu contemporizar.
- Está bem. Deixe comigo este seu maldito relatório. Eu vou lê-lo com- cuidado ainda
hoje. Volte aqui às sete horas.
Paul entregou-lhe o documento, levantou-se e saiu, e quando chegou lá fora encheu os
pulmões com o ar agradável da manhã. Se ele, ao menos, conseguisse convencer um
membro do Parlamento para levantar a questão na Câmara, então o processo seria
reaberto. Ao
caminhar apressado para o Bonanza ele só esperava que houvesse causado uma
impressão favorável em Birley.
O dia transcorreu numa lentidão intolerável. Ele só pensava no que estaria acontecendo
no espírito de Birley e não tirava os olhos do relógio. Várias vezes o gerente veio ficar
de pé por trás dele como se desejasse vê-lo afrouxando seu vigor. Afinal, a hora já
estava bem perto. Pouco antes de a loja fechar ele foi ao banheiro e mergulhou a cabeça
na água fria para refrescar as idéias. Chegou no hotel às sete e quinze e, logo depois, foi
levado para cima.
Nessa ocasião, porém, quando entrou, já não encontrou afãbilidade da parte de Birley.
Ele estava de pé, de costas para a lareira, e com a mala pronta para a viagem junto com
um sobretudo atirado em cima da mesa. O único cumprimento foi um leve aceno de
cabeça e depois ficou olhando para Paul de forma bem pouco amistosa, até que,
finalmente, falou.
- Li com muita atenção seu relatório. Não perdi uma só palavra. Li durante a viagem
para o interior. Tornei a lê-lo na volta. Devo dizer-lhe que você apresentou seu caso
muito bem, mas sempre há dois lados para um caso. E você só apresentou um deles.
- E isso foi porque só um deles representa a verdade, senhor. O outro franziu a testa e
sacudiu a cabeça.
- Coisas como essa não podem acontecer aqui em nosso país. Poderiam acontecer em
algum país estrangeiro já podre... mas nunca aqui. Pois então não temos nós o melhor
sistema de justiça que há em todo o mundo ? Como em tudo mais, aliás, nós aqui
estamos na vanguarda. O que pode haver de mais justo além do julgamento por um júri?
Deus do céu! Isso já vem funcionando há mais de setecentos anos!
Paul respondeu falando muito baixo.
- Pois isso, justamente, poderia ser um argumento contra ele. Pensei muito a respeito,
senhor. Aliás, seria natural nas minhas circunstâncias. Pois então o senhor não acha que
os júris são muitas vezes compostos de pessoas estúpidas, ignorantes, cheias de
preconceitos e que nem mesmo entendem os pontos técnicos, não possuem
conhecimentos de psicologia e que são facilmente enganados por provas circunstanciais
e pela retórica emocional dos advogados espertos?
- Deus do céu! Não vai demorar muito e você já estará atirando lama até mesmo no
Lorde da Suprema Corte!
O ressentimento apaixonado que perseguia Paul, noite e dia, uma fermentação negra e
amarga, obrigou-o a responder.
- Um homem cujo sucesso na carreira depende muito de sua capacidade para tirar a vida
de uma pessoa colocada diante dele no banco dos réus merece, na minha opinião, tão
pouco respeito como o próprio carrasco que coloca a corda no pescoço do condenado.
- Só que você esquece que nós precisamos desse carrasco.
83
- E por quê?
- Mas com todos os diabos! Precisamos dele para enforcar os assassinos.
- E será que é preciso enforcá-los?
- Mas claro que precisamos. Temos a obrigação de proteger a comunidade. Se não fosse
pelo medo da forca, qualquer malfeitor estaria disposto a nos matar, na calada da noite,
mediante uma nota de cinco libras...
- Nos países onde foi abolida a pena de morte, as estatísticas mostram que não houve
aumento na incidência de crimes.
- Não acredito nisso. A forca ainda é a melhor precaução. E é também uma morte
humana, melhor do que a guilhotina ou a cadeira elétrica. Seria um ato de completa
loucura acabarmos com ela.
Acossado pela pressão em seus sentimentos, Paul deixou de lado toda e qualquer
cautela.
- Isso foi o que disse Lord Ellenbourough, Chefe da Corte Suprema da Inglaterra, há
alguns anos, quando Samuel Romilly tentou abolir a pena de morte para aqueles que
roubassem mais de cinco xelins.
O sangue subiu à cabeça de Birley e ele gaguejava quando respondeu.
- Você é um maldito jovem idiota! Não pode me acusar de uma coisa dessas. Eu sou um
liberal. Sou a favor de toda a humanidade! E nosso sistema também é. Nós não
queremos enforcar ninguém. Deus do céu! Você deveria saber disso por experiência
própria. Sempre é possível comutar uma pena!
- O seu sistema legal, que é o melhor do mundo, primeiro prova que um homem é
culpado de assassinato e depois condena-o a ser enforcado. Aí, então, põe em dúvida
seu próprio julgamento, arrepende-se e manda-o para viver o resto da vida no inferno de
uma prisão. Será que isso é um gesto de bondade? Uma espécie de perdão? Será que
isso é justiça? Pobre humanidade! - Paul levantou-se. Seu rosto estava branco e os olhos
faiscavam. - Foi isso o que aconteceu com meu pai. Ele está lá em Stoneheath vítima de
um procedimento criminoso de um sistema que confia em provas circunstanciais e em
testemunhas sem idoneidade, um sistema que permite a manipulação dos fatos pela
acusação, recorrendo a peritos que nada mais são do que indivíduos pagos para dizerem
"sim" a favor da Coroa, e o emprego de advogados de acusação cujo único propósito é
conseguir, por todos os recursos à sua disposição, enforcar o acusado que está no banco
dos réus sem se preocuparem muito com a justiça.
Já não dando mais atenção a Birley, e empolgado por sua obsessão, Paul continuou a
falar em voz baixa.
84
- O crime é o produto da ordem social de um país, e aqueles que elaboram essa ordem
são, muitas vezes, mais culpados do que os que são considerados criminosos. A
sociedade não deveria tratar os malfeitores dentro dos mesmos princípios que a levaram
a enforcar um garoto faminto, há cem anos, só porque ele tinha roubado um pão. No
entanto, se estamos mesmo resolvidos a aplicar a lei de olho por olho e dente por dente,
então, pelo menos, deveríamos esperar uma certa eficiência de parte da lei. Em lugar
disso, o que temos? Especialmente nos casos da pena capital? Métodos tão antiquados
como as forcas, onde, depois da palhaçada das orações, tetmos então a última cena de
vingança...
Já quase sem fôlego, Paul continuava arrastado pela emoção. •
- Já é tempo de adotarmos um sistema mais novo e melhor, mas ninguém quer mudar.
Todo mundo quer que tudo continue sempre como nos bons tempos do antigamente.
Quem sabe se, até mesmo, ainda haja alguns que desejem voltar aos velhos tempos
feudais e quando, por falar nisso, começou o sistema do julgamento por um júri. Muito
bem, o senhor tem o direito de defender seu ponto de vista, mas nunca deve esquecer
que é um representante do povo, que é o meu representante no Parlamento. Mesmo que
não acredite no relatório que lhe entreguei, seu dever é fazer com que ele seja
devidamente ouvido e examinado. Se não o dizer, eu mesmo irei para a praça pública
gritar com todas as minhas forças.
De repente, percebendo o que acabara de dizer, Paul ficou calado. Sentia as pernas
fraquejarem e foi obrigado a sentar-se, cobrindo o rosto com as mãos. No longo e
pesado silêncio que se seguiu, ele nem mesmo tinha coragem para encarar Birley. Sentia
que tinha destruído completamente qualquer possibilidade de sucesso.
E, no entanto, estava errado. Embora as solicitações obsequiosas não o
impressionassem, Birley podia ser convencido com uma demonstração de audácia. Ele
admirava a coragem e muitas vezes passava a gostar de adversários que, conforme suas
próprias palavras, "tinham tutano suficiente para enfrentá-lo". Ele sentia, também, que
talvez houvesse alguma verdade naquele estranho e desagradável caso. Além disso, ao
pôr em dúvida seu sentimento de dever, Paul tinha tocado no ponto mais sensível do
parlamentar. Ele se dava bem conta de que sua crescente indulgência por si mesmo e o
padrão de vida estipulado por sua autocrática consorte tinham, nos últimos anos,
contribuído para se esquivar de encargos desagradáveis no exercício de suas funções.
Andou de um lado para outro ali na sala, para se acalmar, e então conseguiu falar.
- Vocês, os jovens de hoje, parecem pensar que são donos de todas as virtudes. Esse é o
problema de vocês todos. Ninguém mais é bom no seu modo de pensar. Jamais me
considerei um santo, mas,
i?
apesar de todos os adjetivos que você me lançou no rosto, ainda defendo algumas
coisas, e uma delas é um jogo limpo. Confesso que este seu caso não me agrada de
forma alguma, mas, por Deus, não é por isso que deixarei de lutar por ele. Vou cuidar
disso e trarei tudo para a luz do dia, direto da tribuna da Câmara dos Comuns. É isso
mesmo, juro pelo Todo-Poderoso, juro-lhe solenemente, que tudo isso vai acabar nas
mãos do Secretário do Interior a quem o caso está afeto.
Paul levantou os olhos. Tão inesperado era aquele discurso, e tão formidável era a
vitória, que ele sentia toda a sala rodar.
Tentou gaguejar alguma espécie de agradecimento, mas não conseguia pronunciar uma
só palavra, e tudo em volta continuava a girar com maior força.
Birley tirou, às pressas, um frasco portátil que trazia no bolso e forçou um pouco da
bebida entre os lábios de Paul.
- Deus do céu!... Agora sim. Já está melhor. Abaixe a cabeça ...
Ficou ali de pé vendo as cores voltarem ao rosto do rapaz com um novo ar protetor,
enquanto, ao mesmo tempo, virava também um trago substancial. A intensidade da
reação de Paul tinha afastado os últimos resquícios de sua indignação, restaurando-lhe
um sentimento confortador de sua própria autoridade. E mais tarde, depois de haver
expurgado aquelas tolices a respeito de injustiças, ele teria muito que contar lá no seu
clube! Até mesmo já ouvia as palavras que usaria "e ali estava ele, aquele jovem idiota,
caído a meus pés". Mas já estava ficando tarde.
- Você já se sente bem agora? Meu trem sai às oito horas. Paul levantou-se e, ainda às
cegas, segurou a mão que Birley
lhe estendia, e logo depois já estava na rua com os ouvidos cheios de canções e outras
ainda mais fortes dentro de seu coração.
86
Capítulo XVI
No dia seguinte, Paul falou com o jornaleiro da esquina para lhe entregar o Courier
todas as tardes, já que esse jornal fazia uma boa cobertura diária de todas as sessões da
Câmara dos Comuns, e embora soubesse que não poderia haver ainda nenhuma notícia,
já que Birley teria que esperar por uma oportunidade, ele leu o jornal inteiro naquela
noite quando voltou do trabalho.
Muito animado e cheio de esperanças, Paul enfrentava as circunstâncias do momento
aproveitando-as ao máximo com grande alegria. No edifício onde morava ele fez
relações mais estreitas com um outro rapaz chamado James Crocket e que era ajudante
de contador. Era um tipo sossegado e seus hábitos podiam servir para acertar relógios.
Usava colarinhos duros e gravatas-borboleta com o nó já feito, e retribuía os
cumprimentos de Paul com muita reserva, mas num sábado pela manhã, quando os dois
saíam de seus quartos, ele tirou duas entradas do bolso.
- Quer ficar com elas ? Foi meu chefe que me deu. Ele é sócio da Sociedade...
Paul olhou para as entradas.
- Mas você não as quer?
- Minha namorada não está passando bem e por isso, infelizmente, nós não podemos
ir. .É muito bonito. Aos domingos, somente os sócios podem entrar, ou então os seus
amigos.
Paul não quis magoar o rapaz e aceitou as entradas com uma palavra de agradecimento
e saiu apressado para a loja. No estado de espírito em que estava agora, tocava com
muita disposição e, de tempos em tempos, olhava para Lena, que licava do outro lado
<la sala, tentando romper sua barreira de reserva, mas aquilo não era coisa fácil.
Ultimamente, depois daquele período em que ela conversara com ele mais francamente,
sua reticência parecia ter aumentado e, algumas vezes, havia nos seus olhos uma certa
teimosia dolorosa. Sentia-se magoado com a recusa da amizade que lhe oferecia e então,
na hora do almoço, naquele sábado, Paul se encheu de coragem.
87
- Lena, você não quer dar uma saidinha comigo amanhã à tarde?
Ela não respondeu e ele resolveu insistir.
- Um cara que mora lá no prédio deu-me duas entradas especiais para o Jardim
Botânico. Talvez não seja uma coisa extraordinária, mas, pelo menos, servirá para
amenizar um pouco nossas vidas por demais monótonas.
A expressão no rosto dela modificou-se perceptivelmente e, durante uns instantes, a
moça ficou muito quieta. Ele estava intrigado e encabulado com o seu silêncio e então
tentou uma piada.
- O que há? Está com medo de ser mordida pelas orquídeas? Ela sorriu levemente, mas
seu rosto continuava rígido e havia
nele uma expressão de medo, medo do mundo e da humanidade. Afinal respondeu
evitando-lhe os olhos.
- É muita gentileza sua. Eu raramente saio...
Ele não conseguia compreender a confusão dela tão fora de propósito para aquele seu
convite, mas a loja já estava começando a encher.
- Pense nisso e depois diga-me se quer ir. - Ele girou o banco do piano e enfrentou o
teclado.
Lena caminhou de volta para o seu lugar numa excitação estranha. Durante os últimos
seis meses, desde que chegara a Wortley, ela jamais encorajara ou aceitara qualquer
espécie de atenção de homem algum. Claro que isso lhe trouxera dificuldades, e
algumas bem desagradáveis. Harrib, por exemplo, não lhe dera uma folga logo nos
primeiros dias de sua chegada à loja, mas, afinal, acabara desistindo em vista de sua
rígida indiferença. Era comum também ela ser seguida nas ruas, quando, parecendo uma
jovem Juno, voltava para casa à noite, e então, nessas ocasiões, ficava realmente
apavorada e passava a caminhar mais depressa com a cara fechada. Agora, no entanto, a
coisa era diferente e, talvez por isso mesmo, poderia ser ainda mais perigosa. Aquilo
faria com que se afastasse da regra que estabelecera para si mesma de um
comportamento inflexível.
No entanto, à medida que o tempo ia correndo, ela se dizia que não poderia haver
grande perigo se aceitasse o convite de Paul. Estava claro que aquilo não significaria
nada de sério para ele, já que sua atitude a seu respeito fora sempre muito franca e
amistosa. Nunca a olhara de forma inconveniente e nunca lhe tocara a mão até então.
Ela achava que não deveria exagerar uma resolução que tomara em ocasião de grande
aflição e angústia. Logo que o movimento diminuiu um pouco, e na primeira
oportunidade que se apresentou, ela foi até ele para dizer que aceitava com prazer seu
convite. Ele poderia ir buscá-la quando fossem duas horas.
88
Assim, depois do almoço, no dia seguinte, Paul caminhava na Praça Ware que, embora
ficasse perto da loja, era muito tranqüila e respeitável. Muitas das casas altas e sujas de
fuligem tinham pintado as esquadrias das janelas e isso sempre alegrava um pouco
aquela rua antiga. Logo que chegou diante do nº 61 a porta abriuse e Lena saiu trajando
casaco e chapéu escuros e veio a seu encontro. Lá na porta estava aquela senhora idosa
que ele já vira naquela noite na saída da loja e que, de repente, resolveu-se também vir
ao seu encontro, já que desejava conhecê-lo.
Ela veio sorrindo e com a mão estendida, com os dedos deformados pela artrite.
- Meu nome é Hanley. Lena me fala muito do senhor.
Ela devia andar pelos 50, tinha os cabelos grisalhos, baixa e tão curvada pelo
reumatismo que era obrigada a levantar a cabeça para poder falar com ele. Apesar de
tudo, tinha um ar alegre e muito decidido, e isso tornava-se mais expressivo por causa
de seus olhinhos brilhantes como os de um passarinho. Ela continuava a olhá-lo
atentamente ao mesmo tempo que falava.
- Já me disseram que é um grande músico... Paul soltou uma gargalhada.
- Eu apenas martelo as teclas. Sou tão músico como o homem que toca realejo.
- Seja lá o que for, estou bem satisfeita vendo que vai levar Lena para passear. Ela
nunca sai de casa. Não quero atrasar vocês. Só queria cumprimentá-lo. - Ela pareceu
satisfeita com o que vira e já não olhava tanto para Paul. Sorria agora para Lena, com
muito carinho. - Divirtam-se bastante.
Então voltou capengando para casa, segurando-se no corrimão da escadinha.
Os dois seguiram em frente, logo que a porta se fechou. O bonde vermelho levou-os ao
longo da Rua Ware na sua tranqüilidade domingueira, atravessou a Praça Leonard e saiu
na grandiosidade da Garland Road com suas casas de tijolos aparentes escondidas por
trás de cercas vivas e de árvores altas. O Jardim Botânico ficava na periferia daquele
bairro. Eles desceram do bonde quando chegou o fim da linha e entraram pelo grande
portão ornamentado.
- Podia ser pior. - Ele falou sorrindo para Lena ao mesmo tempo que corria a vista pelos
bonitos gramados e avenidas de castanheiros que iam até o lago ao longe e as
numerosas estufas que se espalhavam pelo terreno. - Creio que não haverá muita coisa
para se ver nesta época do ano, mas vamos dar umas voltas antes de entrarmos nas
estufas. E por falar nisso, Lena, já ia me esquecendo de dizer que você hoje está muito
bonita.
Ela não respondeu aquele cumprimento formal, mas o fato era que ele representava a
verdade, e Paul notara aquilo logo ao vê-la
89
quando saíra de casa, da mesma forma como a via ali agora chamando a atenção de todo
mundo que cruzava com eles ao caminharem para o lago. O rapaz só a vira com o
uniforme do serviço e com sua capa muito surrada e, por isso, nunca chegara a perceber
toda a sua graça natural e a sua individualidade. Ela era ali uma pessoa diferente, e
também incomum com sua aparência saudável, fartos cabelos cor de mel e um porte
gracioso e elegante. Os olhos, que ele jamais antes vira à luz do dia, eram escuros e
amendoados. O mais notável de tudo era sua maneira completamente desinibida, sua
simplicidade com ar digno e tocante. Sentiu-se possuído de um grande desejo para saber
mais a respeito da jovem.
- Conte-me alguma coisa a seu respeito, Lena... a sua família, o seus país...
Passou-se um momento até que, olhando os reflexos prateados do lago ao longe, entre
as altas árvores já sem folhas, e em frases breves, ela contou-lhe que nascera na cidade
de Sleescale, uma cidade de pescadores da Costa Leste, e que seus ancestrais eram,
provavelmente, pescadores suecos que se tinham instalado ali muitos anos antes. Seu
pai enviuvara quando ela tinha apenas sete anos, e era sócio num barco pesqueiro de
arenques e, como todos os outros de sua profissão, tinha passado pelas dificuldades
havidas com aquela espécie de atividade em completo declínio. As condições
meteorológicas eram cada vez piores, e havia ocasiões em que os barcos voltavam
apenas com alguns latões de peixes. Se não fosse pelo que conseguiam tirar da fazenda,
eles teriam passado maus bocados mas, afinal, até mesmo ela, situada a cavaleiro do
Mar do Norte, chegou a um ponto em que não mais podia sustentar toda a família.
Quando o pai morreu, seus dois irmãos emigraram para Manitoba, onde pretendiam
tentar fazer fortuna com as lavouras de trigo. Haviam, finalmente, conseguido comprar
umas terras lá no Canadá, que pareciam promissoras. Antes deles partirem, Lena já
tinha conseguido um bom emprego e por isso eles já não precisariam mais se preocupar
com ela. Quando tinha 18 anos ela fora para Astbury, uma estação de cura a uns 30
quilômetros de distância de Wortley, para trabalhar como recepcionista no Hotel County
Arms.
Depois disso houve uma pausa.
- Então você é a única que sobrou da família? Ela concordou com a cabeça e ele logo
continuou.
- E você não gostou de Astbury?
- Até que gostei muito.. .
- E mesmo assim saiu de lá?
- Isso mesmo.
Houve uma longa pausa. Ele achava que ela poderia ter-lhe dito mais, muito mais,
porém isso não aconteceu.
- E foi aí que você veio morar com aquela senhora?
- Foi sim. - Voltou-se e olhou-o bem de frente, e seus olhos grandes tinham uma
expressão de um sentimento bem profundo. - E você nem imagina como ela tem sido
boa para mim...
- Ela aluga quartos?
- Não aluga, propriamente. Apenas permite que eu use dois no sobrado. O marido está
sempre viajando. É o maquinista-chefe de um navio-tanque.
Parecia estranho que ela preferisse abandonar um bom emprego como recepcionista
para ser garçonete de uma lanchonete barata. Aquilo no entanto era coisa que só ela
poderia resolver, e ele não queria insistir, porque, a despeito da frarqueza em seu olhar,
ela já se havia retraído outra vez, e então Paul achou melhor irem visitar as estufas onde
um sem-número de plantas florescia no ar úmido fornecido pelo grossos canos de vapor.
À medida que iam percorrendo as lindas coleções, Paul mostrava apenas um interesse
relativo, mas ficou realmente espantado ao ver a mudança que se operara em sua
companheira. Já não tinha mais aquele ar triste que nunca a abandonava, e então
começou a conversar animadamente com uma delicadeza de sentimentos realmente
inesperada. Reparava muitas coisas que escapavam à observação de Paul, e o que lhe
faltava em conhecimento era substituído pelo bom senso. Sua apreciação era natural e
sem afetação. Quando pararam diante de uma laranjeira, que estava com frutos e flores,
ela ficou olhando para aquilo em silêncio com um ar de admiração como se a beleza e
fragrância da árvore houvessem finalmente atravessado seu corpo completamente.
Parecia tão fascinada que não conseguia afastar-se daquela pequenina árvore. Paul
percebeu que duas lágrimas se formavam como contas de cristal por baixo dos cíüos
dela. Sentiu então, inesperadamente, que seu coração também pulsava mais rápido e
ficou silencioso.
Tomaram chá num pagode japonês que servia de restaurante. Era uma sala pequenina
cheia de correntes de ar e de bambus, e o chá estava fraco e morno, e o bolo que
acompanhava só servia mesmo para os passarinhos que esvoaçavam em torno na
esperança de migalhas. O sentimento de camaradagem entre os dois soltou-lhes as
línguas, fazendo com que esquecessem as deficiências do chá. Ela era uma boa
companheira que ouvia tudo mostrando simpatia e interesse com as coisas que também
o interessavam e sempre tinha pronta uma observação sensata que mostrava a Paul
como conseguia entendê-lo bem.
Então, de repente, depois de uma pausa, ele falou.
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- Você não me perguntou por que fui trabalhar no Bonanza. Talvez pense que ali é o
meu lugar.
Ela respondeu baixando os olhos.
- Nada disso. Eu acho é que você deve ter uma boa razão para estar lá.
- E tenho mesmo. Lena levantou os olhos.
- Está metido em alguma encrenca?
A resposta do rapaz foi um simples aceno de cabeça.
- Então espero que tudo acabe bem.
Ela falou em voz baixa, mas alguma coisa em suas palavras tocaram-lhe o coração. O
perfil da moça era sereno e triste, fazendo lembrar uma jovem Madona. Os cílios
lançavam uma ligeira sombra em seu rosto, e estavam iluminados apenas pela luz
crepuscular.
Afinal, saíram do Jardim para o caminho de volta a casa. A expressão nos olhos de Lena
estava agora bem mais pensativa, e ela parecia estar debatendo alguma coisa em seu
espírito. Uma ou duas vezes olhou-o como se fosse falar, mas as palavras não lhe saíam
da boca.
Ele também, de seu lado, permanecia calado sabendo que estavam voltando à realidade.
Quando chegaram na frente da casa, Paul estendeu a mão para a despedida, e ela falou
muito devagar.
- Foi uma tarde maravilhosa. Simplesmente adorei. Muito obrigada por haver-me levado
lá.
Houve um intervalo durante o qual os olhos dela percorriam as janelas da casa numa
forma indecisa. Ele ficou imaginando se ela iria convidá-lo para entrar, mas isso não
aconteceu. O silêncio já se tornava opressivo, mas ela continuava a hesitar com os olhos
fitos em seu rosto e a respiração tornando-se ofegante como se aquele desejo íntimo de
se comunicar com ele se tornasse, de repente, mais intenso.
- Paul... - Aquela era a primeira vez que ela usava o seu nome de batismo.
- O que é?
Ela encarou-o e logo desviou o olhar, afetada por uma dolorosa tensão que era, na
verdade, uma dor física.
- Não tem importância. Deixe pra lá.
Fosse lá o que fosse que desejava falar, ela, simplesmente, não o conseguia. Em lugar
disso, deu apenas um "Boa-noite" apressado e logo correu para a porta de casa.
Paul ainda ficou ali por um momento, mesmo depois de a porta se fechar, perplexo pela
maneira inesperada de como terminara aquela tarde, um pouco deprimido e vagamente
perturbado. Final92
19
mente, saiu de volta para casa caminhando pelas ruas tranqüilas do domingo.
De noite, quando voltou para casa, encontrou o Sunday Courier em cima da mesa,
acendeu o gás e lavou-se para então ver o que havia no jornal.
Logo de saída, ele pensou que, mais uma vez ainda, nada havia do que esperava, mas,
no fim da última coluna, ele viu logo o nome que estava procurando. A notícia saltou-
lhe aos olhos e o coração bateu descompassado tal era sua alegria, e aquilo foi
mergulhando nele como se fosse chumbo.
Era uma notícia bem pequena.
Na Câmara dos Comuns, George Birley (Wortley, L.) levantou a questão do caso Rees
Mathry que agora cumpre sentença na prisão de Stoneheath. Ele perguntou se as novas
provas que apresentara não justificavam a reabertura do caso. Além disso, em vista do
fato de Mathry já haver cumprido 15 anos da sentença, já não seria a hora de soltá-lo?
Sir Walter Hamilton (Secretário do Interior) respondeu que a decisão era negativa. Em
primeiro lugar, tendo considerado com atenção os argumentos apresentados pelo ilustre
membro, ele não via razão alguma para interferir com o processo normal de justiça e,
em segundo lugar, a ficha de Mathry na prisão era das piores, havendo, inclusive, casos
de flagrante insubordinação, e ele, com isso, tinha perdido o direito de comutação do
resto da sentença. O assunto deveria ser considerado como definitiva e
irremediavelmente encerrado.
Paul largou o jornal em cima da mesa e nem mesmo levantou os olhos, quando a
senhoria entrou no quarto e entregou-lhe uma carta expressa que acabara de chegar.
Ele abriu-a e leu-a com atenção. Era de George Birley e complementava o que fora
publicado no jornal. Ele tinha cumprido a palavra empenhada, tinha feito o que era
possível, mas encontrara uma recusa completa e final. Dizia ainda na carta que seria
completamente inútil insistir, e procurando amenizar o golpe da melhor maneira que
podia, aconselhava ao "seu jovem amigo" que esquecesse completamente aquele caso
infeliz. Era uma carta amável, cheia de boas intenções e, sem dúvida alguma, bondosa.
Ela quase despedaçou o coração de Paul.
93
Capítulo XVII
Na manhã seguinte, depois de uma noite em claro, Paul automaticamente bebeu uma
xícara de café e depois atravessou as ruas enlameadas para chegar ao Bonanza, onde se
sentou ao piano e começou a martelar as teclas tocando uma música comum. As luzes
fortes que eram mantidas acesas dentro da loja quando o tempo estava fechado lá fora
chegavam a doer nos seus olhos insones, mas ele reparou que, em cima do piano, havia
um ramo de flores, quatro ou cinco flores amarelas num jarro de cerâmica e viu logo
que Lena as comprara para colocá-las ali.
Era tão grande a amargura que sentia que nem mesmo agradeceu aquela lembrança do
passeio da véspera e ele, tampouco, podia imaginar o quanto a moça lutara consigo
mesma para chegar àquele gesto. Quando Lena lhe trouxe o almoço, no entanto, ele
resmungou algumas palavras de agradecimento.
Ela estranhou os seus modos e depois de alguns minutos conseguiu juntar coragem para
encará-lo de frente.
- Há alguma coisa errada? Ele respondeu com voz cansada.
- Tudo está errado, Lena.
Nesse ponto, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela foi chamada à lanchonete.
Quando a moça se afastou, Paul reparou que Harris olhava-o de esguelha enquanto
fingia estar brincando com um palito, e o gerente logo aproximou-se com uma
expressão estranha que era uma mistura de malícia e de hostilidade, procurando puxar
conversa.
- Então você e a sua amiguinha saíram numa expedição ontem à tarde, não foi?
- Expedição? - indagou, Paul, franzindo a testa.
- Claro. As moças me disseram que vocês saíram juntos, e devo confessar que isso me
surpreendeu. - O rosto do gerente mostrou uma espécie de careta irônica e maldosa. -
Achei que devia alertá-lo a respeito da Lena. Será que não sabe o que todos nós
sabemos?
Paul deixou a pergunta sem resposta.
94
- Pois então não sabe que ela teve um filho? E não é casada. Isso mesmo, um filho
natural que nasceu surdo-mudo, mas morreu com uma espécie de ataque... Veja só.
Muito romântico, não é? Converse com ela a respeito na primeira vez que forem dar os
seus passeios. Pode ser que ela lhe conte os detalhes, enquanto vocês passeiam de mãos
dadas...
Na pausa que se seguiu, a careta ficou ainda mais maldosa, e Harris sacudiu a cabeça e
foi andando sempre com o palito entre os dentes.
Paul ficou completamente imóvel com os olhos fitos nas costas do gerente que se
afastava. Deus do céu! Como era possível que existisse um animal tão nojento! Então
aquela era a razão para os acessos de tristeza de Lena. Pobre moça! Nunca a julgaria
capaz de uma coisa assim. Sentia uma imensa pena dela, mas era uma pena muito fria
que, de uma certa maneira, servia para abafar a pequenina chama que havia em seu
coração. Todo o puritanismo que existia nele, com aquelas restrições que lhe haviam
sido impostas por sua educação, sentia-se ferido e ultrajado com aquela revelação. Ele
não podia deixar de sentir que ela forçara a aproximação dos dois com aqueles seus ares
de serenidade virginal e sua expressão de candura. Manter uma coisa assim em segredo
era, realmente, o cúmulo do fingimento. Ele virou o rosto ostensivamente para não
encará-la. Deus do céu! Quanta infelicidade para um dia só!
Naquela tarde, enquanto martelava seu último tango, sentia-se envolvido por ondas
seguidas de amargura e desânimo. O pobre Swann tinha razão. Seria uma futilidade
esperar qualquer ajuda oficial para o seu caso. Ele teria que agir sozinho. Apertava a
boca cada vez mais decidido. Ainda não estava vencido. A luta apenas começara.
Qualquer que fosse o risco, Paul deveria tentar uma nova aproximação com Louise
Burt. Ela era agora sua única esperança.
As autoridades tinham conseguido amedrontar Mark Boulia, mas nada poderiam fazer
contra ela. Era bem possível que a, mulher não houvesse sido incomodada.
Naquela noite, ele voltou a seu quarto logo que saiu da loja, pegou num bloco de papel e
num envelope escreveu:
Querida Louise,
Senti muito não ter comparecido ao nosso encontro anterior, mas a culpa não foi minha.
Espero que me perdoe porque, depois que nos vimos, tenho pensado em você todos os
dias. É por isso que lhe peço para se encontrar comigo na próxima quarta-feira lá
naquela taverna. Meu amigo não estará comigo. Não falte, Louise. Aí por volta das sete
horas. Estou desde agora pensando no prazer que sentirei com sua com95
panhia, garanto-lhe que não a desapontarei outra vez como aconteceu da última, sem
que a culpa fosse minha.
Sempre seu
Paul.
Dois dias depois, ele recebia a resposta.
Prezado Senhor,
Será um prazer encontrá-lo novamente, mas peço-lhe que tenha o cuidado de não
aparecer aqui no jardim. Espere-me no lugar marcado e eu procurarei estar lá também.
Com os meus respeitos, nada mais e nada menos por enquanto.
L. B.
Paul soltou um grito de satisfação. Louise ainda não desconfiava de nada e ele ainda
podia contar com aquela oportunidade. Estava aflito para que chegasse a quarta-feira.
Durante as últimas
48 horas, ele vivera numa preocupação constante pensando que a atitude de Birley
poderia comprometê-lo ainda mais com as autoridades. Agora, com uma sensação de
alívio, ele já se convencera de que aquela pequenina notícia no Courier a respeito de seu
pai escapara às autoridades de Wortley.
Quanto a isso, no entanto, ele, infelizmente, estava completamente enganado.
Capítulo XVIII
Naquela mesma -manhã, no momento preciso era que Paul recebia a carta de Louise,
um homem com cerca de 50 anos, um pouco gordo e com o rosto raspado e aparência de
ator, estava de pé, depois do café da manhã, na sala de almoço de sua casa, olhando pela
janela para o gramado e os canteiros de flores cercados de moitas de rododendros. Da
sala ao lado, vinham as vozes de suas duas filhas que se aprontavam para ir ver a
exposição de cavalos na Escola St. Winifred e, de vez em quando, uma voz mais grossa
se interpunha com alguma observação jocosa. Era a voz de Catherine, sua mulher muito
querida, mas, a despeito daquela alegria na família, Sir Matthew Sprott estava bastante
irritado.
A entrada de um criado que veio tirar a muito bem-arranjada mesa, em completo
silêncio, interrompeu o seguimento de seu pensamento e então, com um olhar de mau
humor que reservava para os criados, ele saiu para o saguão onde já estavam todas
prontas. Sua mulher enfiava as luvas compridas e se mostrava muito atraente com um
chapeuzinho de peles combinando com a gola do vestido. As moças vestiam trajes de
montaria com bonés de veludo e os chicotinhos com ornamentos de ouro que ele lhes
dera como presentes de Natal. A mais velha estava com 16 anos, era esbelta, morena e
serena, da mesma forma que sua mãe, ao passo que a outra era mais parecida com ele.
Acabara de completar 12 anos e era gorduchinha e muito corada.
A expressão dele modificou-se logo que as filhas vieram a seu encontro abraçando-o e
pedindo-lhe que as acompanhasse, enquanto sua mulher olhava a cena com um
tranqüilo sorriso de satisfação e falando persuasivamente.
- Seria bom para você, querido. Tem trabalhado muito ultimamente.
Era esbelta e delicada com um rosto oval e pálido e uma expressão de grande bondade.
Com seus 40 anos e rosto muito fino, ela ainda parecia uma mocinha, mas sua aparência
frágil mostrava
97
que, durante toda a vida, sempre estivera às voltas com doenças. A pele muito branca
era quase transparente, e os dedos eram longos.
Sprott olhou-a com uma afeição que não procurava esconder e passando o dedo
indicador nos lábios num gesto que lhe era comum. Tentou amenizar a recusa com uma
brincadeira.
- E depois quem é que vai conseguir o dinheiro, se eu for me esbaldar junto com vocês?
Ele abriu a porta da frente para elas saírem, e o carro fechado já estava ali esperando
junto com Banks, o motorista, e logo elas estavam sentadas e agasalhadas. Quando o
carro partiu, Catherine voltou-se e acenou-lhe uma despedida pelo vidro traseiro do
carro.
Ele entrou devagar na casa, atravessando a biblioteca para chegar a seu escritório, com a
testa ligeiramente franzida e parando para olhar com ar ausente o magnífico quadro que
ali estava à sua frente. A casa era rica e muito confortável. Durante os últimos 10 anos,
ele, valendo-se do bom gosto da mulher, tinha feito tudo para conseguir o máximo de
luxo e refinamento. Adorava as coisas boas que tinha, as cadeiras bordadas, a tapeçaria
Aubusson, os bronzes de Rodin e Mailiol e as duas paisagens de Constable. Todas
aquelas posses materiais eram a prova exuberante de seu sucesso.
Ele chegara às culminâncias à custa de seus próprios esforços, partindo da camada mais
humilde e desprezível da sociedade e costumava dizer que viera "de menos do que
nada". Órfão desde criança, fora criado por uma tia que de xale na cabeça e tamancos
nos pés passava o dia inteiro no meio do carvão ganhando o pão de cada dia na região
carvoeira do pobre distrito de Galdshill, perto de Nottingham. Desde o princípio, a
despeito de todas as adversidades, da sordidez da vida num só quarto nas fileiras das
casas dos mineiros, dos socos e pontapés que recebia, Matthew Sprott era perseguido
por uma única ambição. Ele queria vencer. No seu coração estava gravado de forma
permanente o seu lema: "Eu irei em frente, em frente, em frente."
Como acontesse na evolução dos homens que se fazem por sua própria conta, havia
sempre, no começo de sua vida, o padrão comum de uma aplicação febril e um bocado
de sorte. Ele era um menino esperto e o professor da escola em Gadshill, um homem
que adorava os clássicos, dava-lhe aulas noturnas de graça. Quando tinha
14 anos, em lugar de ir trabalhar nos poços de carvão, ele fugiu para Wortley, e ali
empregou-se como mensageiro e depois escriturário na firma Marsden & Company, que
publicava livros de direito e vendia artigos de papelaria. Foi ali que viu, pela primeira
vez, como funcionavam as engrenagens nos tribunais e então, impressionado com
aquilo, passou a estudar muito nas suas horas de folga até que lhe surgiu a oportunidade
para trabalhar no escritório
98
de Thomas Hailey, um advogado de boa reputação, como seu assistente.
Ele escolheu o direito não por predileção e não porque se sentiu moralmente adaptado à
profissão e sim porque achava que era a que lhe oferecia melhores possibilidades para
chegar ao poder. Aquele seu lema perseguia-o sem cessar como se fossem engrenagens
girando dentro do cérebro. Principiou fazendo tudo para se tornar indispensável a seu
chefe já idoso, mas jamais lhe passara pela cabeça a idéia de ficar ali para sempre como
seu prestimoso auxiliar. Ao fim de cinco anos, depois de formar-se em direito, Sprott
abriu seu próprio escritório e deixou seu antigo chefe em má situação já que andava
doente e dependia muito do auxiliar. Ele, porém, não dava importância a tal situação.
Era agora advogado embora trabalhasse sempre nos tribunais de instâncias inferiores,
mas já dera o primeiro passo na direção de suas ambições. Embora desempenhasse
todas as suas obrigações com um vigor exemplar, ele continuava a estudar direito
consuetudinário e direito constitucional. Quando achou que estava pronto e depois de. já
haver poupado o dinheiro necessário para o pagamento das taxas, pediu que seu nome
fosse riscado da lista dos "solicitadores", ingressou no Inner Temple e foi, finalmente,
chamado para funcionar como advogado junto aos tribunais superiores.
Ele sabia bem o que estava fazendo. Dispunha de pouco dinheiro e tinha poucos
conhecidos, e durante muitos meses freqüentou os tribunais vagando por ali como um
advogado sem causas. Foi então que lhe ofereceram uma oportunidade para
conferências legais. Ele aceitou apenas como um cargo provisório, enquanto não
aparecia alguma coisa melhor e como uma espécie de trampolim para se tornar útil aos
que estavam no poder. Tornou-se aos poucos conhecido como homem inteligente e
muito industrioso com conhecimentos especializados em direito criminal. Melhor ainda,
ele tinha grande facilidade com a palavra, era dotado com um dom especial para os
apartes, contundentes ou joviais, conforme exigisse a ocasião, e tinha um poder
especial, que chegava às raias do gênio, para tocar nas cordas sensíveis dos membros do
júri. Em 1910, por ocasião das eleições parlamentares, ele se alistara nas hostes do
candidato conservador de seu distrito, Sir Henry Longden, e não poupou esforços na
campanha, fazendo discursos a todas as horas. Longden foi eleito, e Sprott logo recebeu
sua recompensa. Os casos legais corriam todos para o seu escritório e ele, cada vez
mais, era escolhido como advogado de acusação nos tribunais de Wortley.
Quando voltou à sua terra natal, embora sua renda fosse modesta, a fama tinha crescido
muito. Durante cinco anos, ele trabalhou como um escravo em Wortley e tornou-se uma
figura conhecida e temida no mundo do crime já bem desenvolvido ali. Cultivava
99
assiduamente a amizade das pessoas que lhe poderiam ser úteis e a verdade era que,
quando queria, não havia no mundo melhor companheiro do que ele. No entanto, apesar
de todos os seus esforços, o sucesso nunca lhe batia à porta. Foi nesse período que se
casou e sua mulher, muitas vezes, fora obrigada a animá-lo para que não desesperasse.
Ele ficava então imaginando se sua hora jamais chegaria, se ele nunca conseguiria ir em
frente, em frente, em frente"...
De repente, quando ele já parecia condenado a passar toda a sua vida naquela
mediocridade provinciana, surgiu sua oportunidade como se fosse um presente caído do
céu. Ia haver o julgamento de um assasinato que havia despertado o interesse popular,
mas, na época da realização do júri, o advogado de acusação ficou muito doente. Então,
em lugar de adiarem o julgamento, resolveram chamar Sprott, já que os seus colegas
mais eminentes estavam todos envolvidos em outros casos e não tinham condições para
cuidar daquele que era muito complicado.
Ali estava o ponto crucial de sua carreira. Enquanto aquela voz íntima lhe segredava
exultante "Siga em frente, em frente, em frente, esta é, finalmente, sua oportunidade",
ele se atirava com todas as armas que tinha a seu dispor à acusação de Rees Mathry. Sua
intenção era chamar a atenção de sua capacidade para tontear, para dominar com seu
brilho, a qualquer custo, e para conseguir a condenação do acusado. E foi isso o que
aconteceu.
Antes de se passarem oito meses, ele fora nomeado para um bom cargo em Upmarston
e, sem abrir mão de sua residência oficial em Wortley, coisa fácil em vista do magnífico
serviço de trens expressos entre Wortley e Londres, ele ingressava no Temple. Em parte
devido à sua experiência anterior e em parte também pelo seu grande conhecimento
forense, ele era, cada vez mais, chamado para representar a Coroa nos casos de crimes
capitais e se saía sempre tão bem que, em 1933, foi sagrado cavaleiro. Agora, com 50
anos, mas ainda cheio de energia, e com a ambição aumentada pelo sucesso, ele se
sentia pronto para galpar posições ainda mais altas. A decisão de manter sua residência
em Wortley tinha sido frutífera e ele fora convidado a se apresentar candidato pelo
Partido Conservador como adversário de George Birley, e com grandes possibilidades
de sucesso. Uma vez na Câmara, o cargo de Procurador-Geral já estaria a seu alcance.
Depois disso, não lhe seria difícil chegar a Lord Chanceler e até mesmo, quem sabe, ao
posto mais alto de primeiro-ministro.
Claro era que, para aquela escalada homérica, ele se vira forçado a ser um tanto
impiedoso, e não alimentava ilusões quanto ao que dizia respeito às qualidades
necessárias para o sucesso. A vida era um sério combate em que somente sobreviviam
os mais capa100
zés. Na medida em que conquistava mais autoridade, seu cenho ia ficando mais
carregado e mais duro, e sua língua passava a cortar como navalha. Obrigado a se tornar
bem-visto, a qualquer preço, entre os altos círculos políticos, ele aprendera como se ver
livre, com grande habilidade, das pessoas que já lhe haviam servido e como cruzar com
alguém que já antes bajulara, sem sequer lhe dirigir um cumprimento. E, acima de tudo,
adquirira a facilidade de estar sempre se mantendo a um passo à frente de todos os seus
rivais, mediante constantes provas de seu valor e a demonstração de sua capacidade com
formidáveis exibições de força.
Conquistara, naturalmente, inimigos e conhecia bem a reputação que conquistara.
Diziam que ele era um forçado e um verme submisso para os grandes e que conquistara
cada degrau de sua ascensão esmagando o que estava embaixo dele. Era acusado de
haver feito mal sério a muita gente. Murmurava-se especialmente que, no exercício de
suas funções oficiais, como advogado de acusação , por parte da Coroa, ele se valia
muito de seu talento natural para orientar o curso da justiça.
Ali em seu gabinete, andando inquieto de um lado para outro, seu rosto estava cada vez
mais carrancudo. Reconhecia, afinal, a causa de sua irritação. Era, sem dúvida, a
questão levantada de repente, na Câmara dos Comuns. Claro que George Birley era um
toleirão que já fora severamente repreendido pelo líder de seu partido. Além disso, o
Secretário do Interior logo desacreditara aquela tolice com grande firmeza. Apesar
disso, as implicações eram sumamente desagradáveis. Dentro de um círculo muito
restrito, os comentários tinham sido muitos e até mesmo haviam chegado aos ouvidos
de sua querida mulher, que o interrogara certa noite quando estavam sós.
Embora não fosse aquele o seu costume, ele chegou a praguejar em surdina. A única
paixão desinteressada em sua vida era a que sentia pela família e, especialmente, por sua
mulher. Ela não lhe trouxera dinheiro nem posição, já que era apenas filha de um
médico de Wortley e, ao casar-se com ela por amor, ele, pela primeira vez, se mostrara
inconsistente com os seus princípios. No entanto, sua amabilidade como companheira,
sua admiração constante e a doçura de sua disposição sempre presente tinham sido, para
ele, uma ampla compensação. Sprott não tinha amigos, e o fato de saber que podia
sempre contar com ela lhe valera muito em condições difíceis. O que, finalmente, levou-
o a uma decisão foi o medo de ver sua reputação ligeiramente abalada aos olhos da
mulher.
Com um gesto decisivo, ele pegou o telefone e pediu uma ligação com a Chefatura de
Polícia de Wortley, cujo número era Central 1234.
101
Capítulo XIX
Dez minutos depois, o Chefe de Polícia Dale vestia seu casaco do uniforme com
bordados de prata e, atendendo ao chamado, seguia para Grove Quadrant, atravessando
o parque.
Ele preferiu caminhar em lugar de usar o carro oficial porque gostava de receber as
demonstrações de respeito e amizade quando atravessava as ruas, sem falar nas formais
continências que recebia de seus subordinados. Gostava de ver como os varredores do
parque se tornavam mais ativos logo que eie aparecia.
Quando chegou à casa de Sprott a porta foi aberta por uma empregada já idosa com um
uniforme verde-malva que logo o conduziu ao escritório que ficava no lado direito do
saguão. Ela disselhe, com a voz abafada que usava para as pessoas importantes na sua
qualidade de criada de maior categoria, que Sir Matthew viria imediatamente. Dale
apenas tomou conhecimento de sua resposta com um leve aceno de cabeça, sabendo
bem que seria obrigado a esperar embora não gostasse disso.
Deixou-se cair numa poltrona de couro com a pasta no colo e olhou em torno. O
escritório tinha lambris de pinho e tapetes espessos, e as paredes eram cobertas de
estantes com livros bem encadernados. Com um certo sentimento de inveja, Pale pensou
que também poderia ter feito o mesmo, se houvesse recebido a instrução necessária. Da
forma como as coisas estavam agora ele era obrigado a guardar seu orgulho, já que não
podia brigar com quem lhe dava o pão e a manteiga.
Sprott entrou, já de mão estendida num gesto amistoso, e em seu rosto não havia nem
vestígios de sua irritação anterior.
- Muito bem, Dale, aqui está você. Quer beber alguma coisa?
- Não, obrigado, Sir Matthew. Sprott sentou-se.
- Espero que esteja bem.
- Muito bem. - Sir Matthew fez uma pausa enquanto alisava o lábio. - Ótimo. Você viu,
Dale, aquela besteira... na Câmara... a respeito do caso Mathry ?
102
O policial levou um susto, mas conseguiu esconder o seu espanto.
- Não vi nada, Sir Matthew...
- Claro que é tudo um absurdo... sujeiras da política. Mas, mesmo assim, precisamos ter
cuidado, nos tempos que correm, para que ela não nos atinja...
Dale rodava lentamente seu quepe nas mãos enormes sem compreender ainda o que
estava acontecendo. Sprott continuava pensativo.
- Foi aquele rapaz idiota... o filho do... como era mesmo o nome dele?... Mathry... Será
que ainda está na cidade?
Dale mexeu-sc na cadeira e ficou olhando para as solas grossas das botinas.
- Ele ainda anda por aqui. Tenho mantido o rapaz em estrita vigilância todo esse tempo.
- Pois é. Ele rne parece um criador de casos. . . Bem, você sabe o que quero dizer. . .
aquele cara que anda sempre atrás de nós. .. que está sempre enfiando petições em
nossas mãos... um maluco completo com suas reivindicações... Nós já estamos bem
acostumados a isso. - Houve uma curiosa pausa até que Sprott, batendo no dente com a
unha, afinal falou: - A questão é... o que podemos fazer com ele?
Durante um minuto, o Chefe de Polícia ficou calado. Ele descobria agora a razão do
telefonema de Sir Matthew, e sentiu-se envolvido por uma curiosa sensação de dúvida e
uma vaga malícia. Então levantou os olhos com decisão.
- O senhor quer apresentar queixa contra ele?
- Mas de modo algum! Afinal de contas, por mais enganado que ele esteja, esse rapaz
não é um criminoso. E nós devemos ser caridosos, Dale. A mercê é duplamente
abençoada, quando ela cai como o orgulho suave nas planícies. Espero que minha
citação esteja certa. - Olhou bem de frente para o Chefe de Polícia. - No entanto, você
poderia talvez convencer esse nosso amigo meio desorientado a desaparecer dessa nossa
boa cidade de Wortley...
- Eu já lhe disse para ir embora...
- As palavras, meu caro Adam, conforme sei por experiência própria, significam muito
pouco. Não estou sugerindo coisa alguma. Mas, mesmo assim, sei que você sempre
pode encontrar uma forma para fazê-lo pensar de maneira diferente.
Sprott levantou-se e ficou de costas para a lareira de onde falou com voz autoritária.
- Não quero que me entenda mal, Dale. Eu já me dei ao trabalho, apesar de não me
sobrar tempo para isso, de repassar todo o caso de Mathry.
103
- Ah! - Dale sentiu-se tornado daquele mesmo tremor, mas não deu a perceber
- Nada há ali de que nos possamos arrepender. Nada mesmo. Merecemos a aprovação
dos mais altos escalões. Não obstante, a situação apresenta ainda certos perigos. No
momento atual, com as eleições dentro de alguns meses, a simples sugestão de um erro
judicial, por mais infundada que fosse, poderia ter sérias conseqüências para todos nós.
Você sabe que eu vou me candidatar ao Parlamento pelo Partido Conservador com
razoáveis probabilidades de sucesso. Mas minha preocupação não é puro egoísmo. Não
é só no meu futuro que estou pensando e sim no seu também... no efeito que teria diante
do público, se essa falsidade diabólica se transformasse num escândalo promovido pelos
partidos contrários, e que só serviria para solapar a confiança em todo o Poder
Judiciário e no próprio governo. Essa é a razão para pormos um fim a essa história
idiota.
Quando acabou de falar, Sprott tornou a olhar atentamente para Dale. Em seguida, logo
estendeu a mão dando a entrevista por encerrada. Quando já estava lá fora na rua, Dale
sentia-se completametne decidido. De uma certa forma ele agora já pensava de modo
diferente e sentia como se fosse um espinho incomodando sua honestidade natural. Era
com um rosto frígido que ele, teimosamente, resmungava para si mesmo: "Não pode
ser... não pode ser verdade..." Mas aquilo soava tristemente em seus ouvidos, e com sua
combatividade despertada, ele achou que seria melhor amenizar as exigências de Sprott.
Ele continuaria a vigiar o jovem Paul, mas não lhe faria mal nenhum desde que ele não
infringisse a lei.
104
Capítulo XX
A noite de quarta-feira estava escura e chuvosa. Quando saiu para ir ao encontro, a
tensão no espírito e no corpo de Paul dava aos seus movimentos uma impressão
enganadora de calma. Ele chegou ao bar pouco depois das sete, examinou bem as
redondezas e depois espiou lá para dentro por uma janela que estava sem cortina. Tudo
parecia normal e ele então entrou rapidamente, foi até a mesa que Louise costumava
ocupar e sentou-se.
Olhou em torno e viu que a sala ainda não estava cheia. Duas empregadas domésticas
estavam conversando e brincando com os namorados, um casal de meia-idade bebia
cerveja em completo silêncio, dois velhos cocheiros estavam jogando dominós,
enquanto outros colegas seus observavam, um homem de cabeça chata de terno escuro,
que parecia um mordomo, lia com atenção um jornal vermelho de esportes. Paul achou
que não havia razões para se preocupar e que ninguém parecia interessado nele.
Então, quando olhava novamente para a porta, ele a viu chegar e caminhar na sua
direção.
Levantou-se logo e estendeu-lhe a mão.
- Louise! Mas que prazer vê-la novamente!
Ela respondeu com um meio sorriso e apertou-lhe a mão com a ponta dos dedos
enluvados como se fosse uma grande dama, e depois acomodou-se na cadeira junto à
mesa com muita afetação. Ele logo reparou que ela estava mais maquilada do que na
outra ocasião, trazia um colar de contas de vidro azuis, um lenço bordado com perfume
muito forte enfiado na manga do vestido, e parecia arrependida de ter vindo.
- Eu não devia ter vindo depois da maneira como você me desapontou antes, com
certeza porque saiu com alguma outra moça.
- Nada disso, Louise, eu só penso em você.
- Isso é o que você diz. Vocês, os homens, são todos iguais. - Ela fez uma pausa para
ajeitar os cabelos em cima das orelhas e acenou um cumprimento íntimo para o garçom
que veio servi-los. - Traga-me o de costume, Jack...
Paul inclinou-se com um sorriso fingido de admiração.
105
- A diferença é que eu sou sério. Você hoje está de abafar...
- Vamos deixar disso. - Ela estava realmente lisonjeada e falava com afetação, ao
mesmo tempo que tomava um gole do gim. Depois então olhou-o de lado. - Não pense
que não sei o que você está querendo, mas eu sou uma moça de respeito...
- Pois é justamente isso que me atrai em você, Louise.
- Bem... não sou nenhuma puritana, embora seja uma senhora. Só saio com os caras que
me agradam... desde que ele me trate direitinho. Você tem um emprego certo, não é
mesmo?
- Claro que tenho, e você sabe muito bem que estou vidrado por você. - E Paul apertou-
lhe a perna com o joelho por baixo da mesa.
Ela soltou uma risadinha inesperada.
- Então é isso, hem? Sempre é bom para a gente quando se consegue um pouco daquilo
que se deseja... Conheço um lugar onde a gente pode ir depois... É uma espécie de hotel
com muita classe e nós podemos escolher o quarto grande. Mas fique sabendo que não é
para passar a noite. Eu preciso estar de volta às onze.
- Mas claro... e por falar nisso, você teve qualquer problema para chegar até aqui?
Ela se arrepiou toda.
- Por que você me fez essa pergunta?
- Bem... foi você mesma que falou nisso em sua carta, dizendo que era preciso ter
cuidado...
- É isso mesmo. Foi o que eu disse, sim. Ela recostou-se e bebeu mais um gole.
- O negócio é que a gover. . . que o Sr. Oswald é muito exigente a respeito de certas
coisas. É muito rigoroso. Você, com certeza, já ouviu falar dele, não é mesmo? É um
dos que mais contribuem para as obras sociais de Wortley. Todos os anos ele dá
centenas e centenas de libras para os hospitais e todos os invernos ele oferece café de
graça... na Cantina Silver King. Ele é realmente um cavalheiro, apesar de ser muito
rigoroso. E ele sempre me tratou como uma senhora, pois, se não fosse assim, eu não
ficaria lá...
- Isso quer dizer que já faz tempo que você está lá? Ela acenou com a cabeça com um ar
complacente.
- Eu não tinha mais de dezoito anos quando entrei para lá. Você não me acredita? -
Cruzou as pernas grossas com afetação e ajeitou a saia.
- Mas claro - Paul estava imaginando se ela estaria mentindo a respeito da idade - ...só
você parece tão mais moça...
- Pareço mesmo, não é?
- Só me surpreendo com o fato de você não ter-se casado...
106
Ouvindo os elogios dele, ela se pavoneava toda.
- O Sr. Oswald e sua mulher sempre quiseram que eu me casasse. Estou falando sério
mesmo. Estão sempre dizendo que seria bom para mim, se eu casasse para organizar a
minha vida. Eles acham que poderia ser com o Frank, o faz-tudo da casa, ou então com
o Joe Davies que faz a entrega do leite. Eles são realmente uns caras sérios, mas já
andam pelos cinqüenta e tantos. E você pode imaginar eu casada com um dos dois?
Aliás, é bem possível que eu me case mesmo qualquer dia desses. A gente nunca sabe o
que pode acontecer. Só que, por enquanto, ainda quero gozar a vida. Você não acha que
estou certa?
- Mas claro que está.
Ele apertou-lhe a mão num gesto de carinho. O padrão que ele suspeitava estava
surgindo lentamente com toda a clareza. O casal filantrópico tinha-se tomado de
amizade por aquela moça infeliz e errática, tinha feito o que podia para mantê-la no
caminho certo e, até mesmo, procurando casá-la com um cara respeitável e sério, mas, a
despeito de tudo isso, sempre continuava existindo nela um sentimento de queixa
profundamente enraizado, uma espécie de amargura contra a vida. E então, de repente,
ele viu como poderia tirar proveito daquilo que era, justamente, o que procurava.
Conseguiu controlar o entusiasmo que sentia e murmurou.
- Acho bem estranho que uma pessoa tão viva e inteligente como você não consiga um
emprego melhor.
- E você está com a razão. Eu nunca teria me resignado a um emprego de doméstica. . .
isto é, de governanta, se eles não me houvessem convencido. - Â medida que falava ela
ia perdendo aquele seu ar de gabolice e seus olhos já estavam cheios de lágrimas, como
se tivesse pena de si mesma. A verdade é, querido, que eu fui embrulhada. E depois
disso tive que agüentar firme.
Ele fingiu que não acreditava.
- Ninguém jamais faria uma sujeira com uma moça decente como você.
- Isso é o que você pensa. E tudo porque eu fiz uma coisa certa, alguma coisa que, até
mesmo, poderia ser considerada nobre.
Paul conseguiu conter-se e continuou falando baixo, sempre demonstrando uma certa
pena.
- É muito comum ver pessoas que sofrem por ter praticado uma boa ação...
- É isso aí! Você agora falou certo. Bem, no princípio tudo andou direitinho e eu apareci
em todos os jornais... com fotos e tudo o mais... em manchetes de primeira página...
como se eu fosse uma rainha.
107
Enquanto ela o olhava de esguelha, como se quisesse avaliar o efeito de suas palavras,
ele soltou uma risadinha na conta certa para mostrar incredulidade, e ela reagiu
imediatamente.
- Então você está pensando que sou uma mentirosa, hem? Isso só serve para mostrar sua
ignorância quanto à pessoa com quem está falando. Talvez lhe interesse saber que
houve uma ocasião em que... - de repente, ela se interrompeu.
- Eu sabia bem que você estava brincando - disse ele, sorrindo e sacudindo a cabeça.
Ela ficou muito vermelha, olhou por cima do ombro e debruçou-se em cima da mesa
para falar mais de perto.
- Acha então que foi uma brincadeira, quando um cara quase foi enforcado?
- Essa não! - Ele conseguiu exibir uma admiração chocada. - Você nunca se meteu
numa dessas...
Ela acenou lentamente com a cabeça e, em seguida, virou o seu segundo gim.
- Pois foi isso mesmo que eu fiz...
- Era algum assassinato? - Paul fingia-se assombrado.
Louise tornou a sacudir a cabeça com um ar orgulhoso, e estendeu a mão com o copo
que o homem do bar veio logo encher, obedecendo a um sinal de Paul.
- E se não fosse por esta sua criada aqui, eles jamais pegariam o cara. Eu fui a que fez
mais barulho em todo o caso.
Paul fingia-se cada vez mais assombrado.
- Ora, ora. Essa não. Essa é mesmo de morte! Eu nunca poderia sonhar...
- Pois que isso lhe sirva de lição. - Ela estava no máximo diante da bajulação dele. -
Veja bem agora quem é a senhora que está sentada aqui na sua frente. E, aliás, se eu
quisesse, ainda poderia surpreendê-lo com muitas outras coisas...
- Pois então conte lá...
Ela olhou-o com um ar matreiro e amoroso.
- Isso seria uma indiscrição de minha parte, seu curioso... Mas eu simpatizo com você.
Digo-lhe, com franqueza, que é um perfeito cavalheiro. E isso já foi há tanto tempo que
não pode mais prejudicar ninguém. Bem... Pois então foi... saúde e tudo de bom... Pois
então faça de conta que esta sua criada tinha alguma coisa escondida na manga...
alguma coisa que poderia ter liquidado tudo de uma vez. Por exemplo... você já ouviu
falar sobre uma bicicleta verde?
- Uma bicicleta verde?
- Isso mesmo, amorzinho. Verde claro. Verde como o capim... - Ela começou a rir
baixinho.
- Nunca vi uma coisa assim...
108
- E foi isso mesmo que todo mundo disse lá no tribunal. Todo mundo riu quando um
velhote jurou que tinha visto o assassino fugir numa bicicleta verde. Eu poderia ter feito
eles rirem de forma diferente. Eu conhecia bem as ruas desde criança. Sabia muita coisa
a respeito de bicicletas verdes.
Quando percebeu que ela hesitava, Paul soltou uma risadinha incrédula.
- Acho que você está inventando tudo isso, Louise... Ela ficou vermelha de indignação.
- O quê!... Está querendo dizer que sou mentirosa? Naquela ocasião havia em Eldon um
clube de ciclistas que se chamava Os Gafanhotos. E então, só para esnobar, e pára
combinar com o nome, as bicicletas dos sócios deviam ser pintadas de verde claro.
- Os Gafanhotos? - Paul continuava a mostrar uma indiferença completa. - Então o cara
que tinha a tal bicicleta que você falou devia ser sócio do clube.
- Exatamente. E devia ter grana também para poder ter gostos extravagantes e, aliás,
bolsas também extravagantes... vamos dizer uma que tivesse sido feita com pele
humana curtida. Você se sente chocado?
Paul tentava desesperadamente não demonstrar o mínimo interesse por tudo aquilo que
ela dizia. Fez sinal ao cara do bar para trazer outro gim para a mulher.
- Claro que me sinto...
- Agora então eu lhe pergunto, queridinho, que espécie de pessoa poderia ter uma bolsa
como aquela?
- Um maluco?
- Essa não! E que tal um estudante de medicina que disseca os cadáveres para os exames
de anatomia?
- Meu Deus! - exclamou Paul. A ele jamais ocorreria aquela conclusão, embora
percebesse agora que era absolutamente correta. Paul lembrava-se agora que em Queen
havia estudantes de medicina que faziam aquilo para guardar como lembrança.
Houve um silêncio tão tenso que Paul nem mesmo conseguia falar. Encantada com o
resultado que estava conseguindo, Louise Burt soltou uma risadinha prolongada e bebeu
mais um gole do gim. Já não estava muito firme na cadeira.
- Eu poderia deixá-lo completamente arrepiado se quisesse. Por exemplo... o cara que
eles pegaram era casado. Todas as moças que trabalhavam na loja de flores onde ele
sempre aparecia sabiam disso. Mona também sabia. Esse era o nome da moça que foi
assassinada. Eu conhecia bem a Mona e sabia que ela jamais se meteria com um homem
casado. Ela era muito bonitinha e queria encontrar um bom partido... Em outras
palavras, o cara com quem ela andava e que a engravidara... devia ser solteiro. Além
disso,
109
a gravidez já era de quatro meses. Mas o cara que eles acusavam só conhecera Mona
umas seis semanas antes. Ele não podia ser o responsável por sua condição. Aquela
acusação contra ele era completamente impossível.
Paul levou a mão aos olhos para esconder a emoção que o dominava. Foi com voz rouca
que ele murmurou.
- Mas por que. .. por que isso nunca veio à tona no processo ? Ela soltou uma risada.
- Não me pergunte isso. Pergunte aos caras que eram os donos do show. Eles tinham um
advogado que conseguia enrolar todo mundo...
Volta e meia ele estava sempre encontrando esse homem chamado Sprott que,
permanecendo sempre remoto e invisível, parecia ser também onipresente, parecia ser o
elemento crucial que esmagara seu pai, impiedosamente, transformando-o num morto-
vivo na prisão de Stoneheath. Pela primeira vez em sua vida, Paul sentia o que era o
ódio, e então com uma pergunta candente na boca ele se inclinou em cima da mesa para
falar com a mulher.
Naquele momento exato, no entanto, o rosto de Louise passou por uma transformação
radical. Seu rosto gorducho estava pálido e ela olhava apavorada, por cima dos ombros
de Paul.
- Desculpe-me - conseguiu gaguejar ela. - Estou-me sentindo tonta...
- Beba mais um gim. Espere aí que vou buscar...
- Não, não. Mas que tolice. Preciso ir embora...
- Não. Não. Vamos ficar mais um pouco.
- Eu preciso ir.
Paul mordeu o lábio perplexo. Era de enlouquecer aquela interrupção exatamente na
hora em que ele conseguira levá-la à mais importante revelação. Ele precisava agarrar-
se a ela, custasse o que custasse. Inclinou-se e falou ainda mais baixo.
- O que há?
- É um policial...
Sem se voltar completamente, Paul conseguiu olhar para o cara de cabeça chata que
estava na mesa ao lado. Talvez, inconscientemente, ele houvesse percebido aquele cara
de roupa escura que estava tão interessado nas notícias esportivas. Interessado até
demais. Durante os últimos 20 minutos ele não virará uma única folha do jornal que
escondia seu rosto imóvel. Agora ele baixara muito pouco o jornal e Paul via que era o
Sargento Jupp.
Paul tomou coragem e virou-se para Louise.
- Vou sair junto com você. Aqui está muito quente e o ar fresco da noite vai ser bom
para você.
Antes que ela pudesse protestar, ele já tinha pedido a conta e pago a despesa. Muito
nervosa, sempre olhando desconfiada para
110
a mesa ao lado, ela apanhou as suas coisas e enfiou o casaco e então levantou-se. O
sargento levantou-se também, imediatamente, dobrando o jornal que enfiou no bolso, e
então, com ar muito distraído, saiu do bar na frente deles.
Paul sentia seus nervos vibrarem como se fossem sinos. Escava imaginando se, ao sair
dp bar, iria sentir novamente aquela mão em cima de seu ombro para levá-lo outra vez à
Chefaíura de Polícia, sob uma falsa acusação. Ele estava resolvido a não se submeter
mais àquilo. Via o policial de pé lá na sua frente, esperando que a porta se abrisse. Ele
segurou o braço de Louise e. com ar muita decidido, seguiu em frente.
- Espere um minuto...
Paul parou de frente para o sargento que se aproximou deles, e seu rosto não
demonstrava nenhuma expressão
- Estive olhando você lá dentro. Estava sendo inconveniente com esta moça...
- Você está mentindo!
- Acha que estou mesmo? - Ele voltou-se para Louise. - Este cara aqui estava se
metendo com você, não é mesmo?
Houve uma pausa antes que ela respondesse com voz muito aguda.
- Bem... ele estava me convidando para sairmos juntos... sabe como é... mas eu não
queria.. .
- Está bem. Vá dando o fora bem depressa...
Logo que a mulher saiu apressada, Jupp olhou para Paul.
- Está vendo? Agora olhe aqui, Mathry, não vou encanar você, mas este é o segundo
aviso e espero que tenha juízo Instante para compreender.
Em lugar de sentir-se aliviado, Paul foi tomado de uma raiva louca. Aquela indulgência
fingida era mais dura de aceitar do que um ferimento de verdade. Não esperou mais
nada. Seria inútil tentar seguir a mulher. Com a respiração acelerada, fez meia-volta e
embrenhou-se nas sombras até chegar na esquina da rua.
Depois de passar por três cruzamentos de ruas sem importância, ele entrou numa rua
lateral e foi até a Rua Marion sempre muito cheia. Chegando ali, diminuiu o passo e
misturou-se com as pessoas que caminhavam em direção à Ponte Tron e o centro da
cidade. Em sua maioria eram mulheres que passeavam sozinhas, ou em pares, de braços
dados, ao longo da avenida poeirenta e ladeada por árvores, com olhares convidativos
apesar da boa iluminação que havia ali.
À medida que seguia em frente, ainda com os dentes cerrados de raiva e engolindo em
seco, ele sentia aumentar sua indignação. Escapara ao perigo imediato, mas os seus
contatos com Louise es111
tavam irremediavelmente terminados. Ela jamais se recuperaria do susto. Ele soltou um
tremendo palavrão. Aquela sensação de estar sendo sempre vigiado e ameaçado só
servia para inflamar cada vez mais as brasas que ferviam sempre em seu peito.
Quando chegou em casa, arrancou as roupas e deixou-se cair na cama completamente
exausto. Viriam eles procurá-lo ali? Não acreditava que tal acontecesse. A verdadeira
ocasião já passara e, embora ficasse constando de sua ficha, ele duvidava que aquilo
fosse usado como um pretexto para prendê-lo. Fosse aquilo certo ou errado, ele sabia
que o objetivo da polícia era de apavorá-lo, obrigando-o a fugir de Wortley. Ele já nem
se importava mais se eles viriam ou não. Fechou os olhos e logo adormeceu
profundamente.
112
Capítulo XXI
Na manhã seguinte, quando acordou, ele já via com maior clareza as perspectivas de
tudo que descobrira na noite anterior. Embora a entrevista tivesse sido interrompida, ele
conseguira obter de Louise uma série de fatos vitais entre os quais estavam a bicicleta
verde e a bolsa de pele humana. Refletindo bem ele chegava à conclusão de que o dono
da bolsa devia ter sido um estudante de medicina naquela ocasião e que agora devia ser
certamente médico. Se ele conferisse o catálogo dos médicos com uma velha lista dos
sócios do Clube dos Gafanhotos, talvez fosse possível determinar a identidade do dono
da bolsa.
Muito animado com essa nova esperança, ele saltou da cama. Já passava das oito e
quinze que era a sua hora de levantar-se. Fez a barba, vestiu-se, tomou o café às pressas
e correu para a loja. Quando chegou lá viu Harris que o esperava na porta principal.
Aquilo era estranho porque ele só chegava às 10.
O gerente adiantou-se e barrou-lhe a entrada...
- Você está atrasado.
Paul olhou para o relógio que ficava lá no fundo da loja e viu que ele marcava nove
horas e seis minutos. Ainda não havia nenhum freguês lá dentro onde só estavam os
empregados e todos eles, inclusive Lena, estavam olhando para o gerente, sendo que ela
se mostrava aflita.
- Desculpe-me. Acho que dormi demais...
- Não admito respostas. Você tem alguma justificativa? - Harris estava ficando cada vez
mais exaltado.
- Justificativa para quê? Só estou com seis minutos de atraso...
- Estou perguntando se tem alguma justificativa.
- Não. Não tenho nenhuma.
- Pois então está despedido. Nesta loja nós não aceitamos empregados que tenham
encrencas com a polícia.
Harris não esperou pela resposta e entrou na loja, a caminho de seu escritório. Quando
atravessou o salão, todos o. empregados
113
se puseram ocupados junto a seus balcões, com exceção de Lena que ficou de pé, muito
pálida, próximo à sua mesa.
Com aquela ferida aberta no peito, Paul saiu dali e quando caminhava pela Rua Ware
tinha a sensação de estar sendo seguido.
No principio, cheio de indignação, começou a caminhar rapidamente e sem propósito
pelas ruas movimentadas perdendo-se no meio da multidão que havia nas calçadas.
Depois, pouco a pouco, foi ficando mais calmo. Livre da tirania daquele insuportável
piano, ele, pelo menos teria liberdade para verificar se estavam certas ou não as
concluções a que chegara na noite anterior.
Entrou numa cabina telefônica e verificou pela lista que o Touring Club dos Ciclistas
tinha seu escritório no número 62 da Rua Leonard. Em 10 minutos ele chegou lá no
prédio, passou por baixo da tabuleta com uma roda dourada com asas e chegou ao
balcão de informações numa sala cheia de mapas pendurados nas paredes.
A secretária era uma senhora de meia-idade que o recebeu sem mostrar surpresa quanto
à pergunta e logo apanhou uma pasta cujas páginas folheou com grande habilidade, mas
sem nenhum resultado.
- Parece que esse clube não consta de nossos registros. O senhor sabe se ele era
afiliado?
- Não. Não sei. É até possível que não exista mais, porém preciso descoLri-lo de
qualquer maneira. Por favor, ajude-me. É muito importante...
Houve uma pausa.
- Eu não tenho tempo, mas se é tão importante assim eu poderei permitir que verifique
nossos registros antigos. Ele deve estar lá.
Ela levou-o até um pequeno anexo ao lado do escritório e mostrou-lhe uma estante de
brochuras amarelas e verdes.
Paul ficou ali sozinho e percorreu todos os livros e relatórios auuais dos últimos 20
anos. Sua busca minuciosa levou três horas, mas ele nada encontrou a respeito do Clube
dos Gafanhotos.
Desapontado, mas não desanimado, ele refletiu com toda lógica que conseguia reunir
que, se aquele clube realmente existira, seus sócios deveriam, sem dúvida alguma,
comprar suas máquinas em alguma loja do lugar. Ele começou então a percorrer,
sistematicamente, todas as lojas de bicicletas da cidade.
Nessa busca, no entanto, ele só encontrava respostas negativas, indiferença e, em alguns
casos, chegou a ser ridicularizado e até mesmo insultado. Ninguém jamais ouvira falar
naquele clube e muita gente chegou, até mesmo, a pensar que aquilo era alguma
brincadeira de mau gosto. Ele cometera um erro, pensando, no auge de seu entusiasmo,
que se encontrasse algum sócio daquele clube antigo e que fosse agora médico
praticante, sua busca estaria terminada. Agora, ele es114
tava desanimado e dizia a si mesmo que aquilo tudo talvez fosse um mito, uma fantasia
criada pelo espírito conturbado e perverso de Louise.
Às quatro horas ele tinha chegado, cansado e desanimado, na periferia de Eldon onde
estava o último endereço da lista de casas de bicicletas e aquela ali era apenas uma
pequena garagem que ostentava o nome Jos. Stevens. Era pouco mais do que um posto
de gasolina com duas bombas manuais, mas no lado de fora havia algumas bicicletas de
segunda mão, para vender ou alugar. Nada poderia ser de aparência menos promissora.
Contudo, depois de ligeira hesitação, e quase automaticamente, ele entrou e falou com
um homem de macacão que regava a calçada.
Já então, a forma usada por Paul para fazer interrogações eram mais agressivas e
peremptórias. No entanto, enquanto esperava a resposta que, certamente, seria também
no mesmo tom, ele ficou surpreso ao constatar no rosto do proprietário um olhar cheio
de consideração. Sem responder imediatamente, ele fechou primeiro o registro de água e
olhou para Paul com um ar pensativo.
Parecia que estava falando para ele mesmo.
- Os Gafanhotos... Pensando bem, creio que já ouvi meu pai falar deles...
- Ouviu mesmo?
- Ouvi sim. No tempo dele isto aqui era apenas uma oficina de bicicletas. Foi depois que
ele morreu que eu aumentei para garagem. Acho que ele costumava fazer os consertos
para um clube com esse nome. Eles só usavam bicicletas New Hudson pintadas de
verde...
- Então o senhor deve saber os nomes dos sócios...
- Eu era apenas um garoto. - O homem sorriu. - Já faz tantos anos...
- Mas seu pai, com certeza, devia anotar alguma coisa... as contas... um livro de
endereços... alguma coisa desse gênero...
- Nada disso. Com ele era só pagamento à vista contra entrega das máquinas...
- Mas devia havef uma lista dos sócios... coisas impressas... atas de reuniões...
- Duvido muito. A impressão que tenho é de que devia ser uma coisa mais ou menos
informal, constituída por um grupo de rapazes mais como brincadeira do que por
qualquer outra razão. Uma espécie de mania... sabe como é... e aquilo não deve ter
durado muito.
Seguiu-se uma pausa. Levado ao máximo da esperança só para ver tudo desmoronar
outra vez, Paul tentava evitar toda a amargura e frustração que sentia.
115
- Quando o senhor tiver tempo, eu lhe pediria que verificasse nos papéis de seu pai, e se
encontrar alguma coisa relacionada com o tal clube, avise-me, por favor. Ser-lhe-ei
muito grato.
Com uma voz bem calma, ele deu-lhe seu nome e endereço e guardou o cartão
comercial que o outro lhe oferecia, e depois de agradecer mais uma vez voltou para a
cidade.
E então, exausto com todos aqueles esforços, e desanimado com o fracasso, ele se
perdeu e, quando se deu conta, estava inesperadamente no Grove Quadrant, um distrito
residencial onde havia esplêndidas mansões. Sem mesmo se aperceber do que estava
fazendo, ele ia andando e lendo os nomes nos portões. The Towers, Wortley Hall, Robin
Hood Manor. Todos eles tresandavam opulência e grandeza. De repente, por cima de
uma caixa de correio num importante portão senhorial, seu olhar foi atraído por uma
pequena placa de bronze que trazia apenas o nome do dono da casa. Estava escrito Sir
Matthew Sprott.
Paul parou de repente, varado por aquele nome, sem conseguir despregar os olhos
daquela placa brilhante, dos jardins, da mansão, com o rosto tão pálido que dava a
impressão de não haver nele mais sengue. Ali então estava a casa do advogado de
acusação. Ele chegara a um ponto em que só encontrava esse nome para Sprott. Ao
descobrir-se ali, de repente, tão perto dele, Paul sentiu-se invadido por uma onda de
acusação que fora acicatada por Swann e que crescera dentro de seu peito.
Ali morava um homem de inteligência invulgar, um especialista em direito criminal,
com uma competência elevada a seu mais alto grau na técnica de dedução e elucidação.
Como poderia ter acontecido que ele não houvesse tomado conhecimento das provas da
maior importância como as da bicicleta verde, da bolsa de pele humana e do tempo de
gravidez da mulher assassinada? Teria sido então uma omissão deliberada? Poderia
alguém ignorar propositadamente fatos favoráveis ao acusado para concentrar-se apenas
nas provas prejudiciais, desempenhando assim o papel de advogado do diabo, e usando
toda a sua força e personalidade para esmagar uma oposição fraca e incompetente a fim
de conseguir uma condenação qeu sabia ser errada? Seria assim a lei?
Só de pensar naquilo, Paul sentia-se tomado de um verdadeiro caos de emoções, de
raiva e rancor que lhe estrangulavam o peito. Ele tremia ao pensar que o advogado
poderia surgir ali agora, naquele portão, e que eles poderiam encontrar-se frente a
frente. Ele pensou logo em fugir dali, mas suas pernas se negavam e ele não conseguia
mover-se e então segurou-se no gradil para não cair. Seus pés pareciam de rhumbo.
Afinal, conseguiu afastar-se e foi refugiar-se no meio da multidão que andava pelas
ruas.
116
De volta a seu quarto, Paul atirou o casaco em cima da cama e começou a andar de um
lado para outro muito nervoso. Provara, pelo menos, que havia substância naquilo que
Louise lhe contara, mas a impossibilidade de fazer qualquer coisa deixava-o
desorientado. Ele queria ação drástica e imediata. À medida que passava o tempo, ele
sentia aumentar a inquietação. No momento exato em que pensava não lhe ser possível
agüentar mais, alguém bateu na porta. Ele abriu-a imediatamente e deu de cara com
Lena enrolada na sua capa de chuva e sem chapéu. O ar frio da noite ou então, talvez,
sua rápida passagem pelas ruas tinha-lhe puxado o cabelo para trás e ela estava bem
corada. Ela ficou ali na porta sem saber o que fazer com os olhos muito abertos e
espantados e a testa franzida numa expressão de aflição que não procurava esconder.
- Paul. .. desculpe-me se vim incomodá-lo... Eu precisava vir, Esta tarde, lá na loja...
apareceu uma pessoa para falar com você...
- Sim? - Quando a viu ali, daquela maneira inesperada, o olhar dele, instintivamente, se
tornara mais brilhante. Imediatamente, porém, insidiosa como se fosse veneno, veio-lhe
a lembrança do que Harris lhe contara. Ele não se resignava a pensar nela à luz daquele
descrédito e sentia-se tomado por um pensamento mau, que não lhe agradava, de que ela
com aquele seu arzinho fingido de simplicidade fizera-o de tolo. Inconscientemente,
seus modos se tornaram mais frios e duros. - Entre, por favor...
- Não, preciso voltar imediatamente. - Ela falava impulsivamente. - Harris foi injusto
com você hoje de manhã...
- Acho que ele tinha lá suas razões.
Ela continuava a olhá-lo muito agitada. Por cima da gola abotoada da capa, ele percebia
a pulsação na sua garganta muito branca.
- Você já encontrou outro emprego?
- Ainda não procurei...
- Mas então o que vai fazer?
A aflição que ela não conseguia esconder amargurou ainda mais o espírito já torturado
dele, mas Paul, simplesmente, deu de ombros.
- Não se preocupe. Eu me arranjarei de qualquer maneira. Quem era que queria falar
comigo, afinal? Era alguém da polícia?
Ela atalhou-o rapidamente, e seus lábios tremiam.
- Não, não. Foi um homenzinho engraçado.. . Harris foi muito bruto com ele. Não quis
receber o recado e não lhe deu nenhuma informação. Mas eu consegui falar com ele. É
um tal de Prusty que mora no cinqüenta e dois de Ushaw Terrace... Quer que você vá
falar com ele esta noite.
- Esta noite?
- Isso mesmo. Pode ir a qualquer hora. Ele disse que é terrivelmente importante...
117
- Muito obrigado. Você me fez um grande favor.
- Qual nada... eu não quero me meter... mas se houver alguma coisa em que possa
ajudar...
A simpatia que ela demonstrava, muito retraída, mas espontânea, envolveu-o num
intenso desejo para confiar nela. Ainda uma vez, porém, ele não cedeu. Em lugar disso,
esforçou-se para nostrar um sorriso convencional que mais parecia uma careta na forma
como torceu a sua boca.
- Será que seus problemas e encrencas não lhe bastam?
Ela olhou-o de uma forma estranha, quase inquiridora, e baixou o rosto.
- Se eu os tiver, realmente, isso fará com que entenda melhor
os seus.
Ela esperou sua resposta com um ar de aflição. Vendo que ele continuava calado, ela
apertou os lábios como se quisesse abafar um suspiro.
- Então... pelo menos, tenha cuidado.
Durante um instante, ela o encarou, mas, logo em seguida, com um rápido movimento,
voltou-se e foi embora.
Ele sentiu-se imediatamente tomado por um calafrio, uma sensação de privação
misturada com raiva por sua fraqueza ao desejar que ela ficasse ali. Quase correu para
chamá-la de volta. Desistiu quando ouviu o relógio da Praça Ware bater as horas.
Contou nove badaladas e logo apanhou o chapéu e o casaco e desceu as escadas,
pensando qual seria a razão para aquele recado de Prusty. Aquela insólita atitude ia bem
de encontro à natureza cautelosa do velho. Com a testa franzida, tentando encontrar uma
resposta para aquele quebra-cabeça, ele caminhou para Eldon a passos apressados.
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Capítulo XXII
O tempo tinha, afinal, mudado, e a noite estava fria. Uma noite de inverno. Por baixo de
um céu carregado, as ruas estavam silenciosas e desertas. A cidade parecia congelada. A
neve logo começou a cair. Os flocos secos flutuavam no ar e depois caíam muito
macios, em cima das calçadas. Com os passos abafados, Paul passou pela chárutaria
fechada e caminhou para a casa de Prusty.
Ele estava em casa todo enrolado numa grossa manta de lã. Olhou para ver quem era
pela porta entreaberta e logo abriu-a toda ao reconhecer Paul que entrou depois de haver
sacudido a neve das botinas na escada. A sala estava sempre como antes, escura e
empoeirada, com aquele mesmo cheiro pungente de fumaça de charuto e a luz do gás
iluminava o tapete de pele de carneiro. Ali, pelo menos, estava confortável e quente em
comparação com o frio lá fora.
Prusty olhou-o com atenção por cima do pince-nez.
- O inverno chegou cedo. Sinto nos meus ossos. Sente-se. Vamos comer alguma coisa.
É a hora de minha ceia.
Ele encheu uma xícara com o indispensável café que oferecia às visitas e insistiu com
Paul para fazer-lhe companhia num pastelão de carne que comprara na padaria e
esquentara no fogão. A despeito daquela demonstração de hospitalidade, Paul tinha a
impressão de que o velho já não o via com tão bons olhos como antes. Ele continuava a
examiná-lo de soslaio e com uma série de perguntas indiretas, mas todas elas ligadas ao
ponto crucial, ele ia conseguindo descobrir o que Paul andara fazendo nas semanas
anteriores.
Depois de já saber o que queria, ele não fez comentário algum, mas seu ar era bem
sombrio, quando escolheu e acendeu sua cigarrilha tossindo espasmodicamente e depois
inclinando-se para a lareira.
- Então é isso aí. - O velho ficou pensando com a testa franzida. - Não é de admirar eu
ter sentido que toda a história tinha renascido. Depois de ter permanecido enterrada
durante todos esses anos... agora é como se você tivesse colocado o ouvido no chão e
descobrisse que lá embaixo havia alguma coisa se mexendo...
119
Houve um completo silêncio, e a sala parecia estar cheia de sombras.
- Mas tudo ainda continua escondido. Só que já aparecem sinais e sintomas... e também
há presságios e portentos... para melhor ou pior, é coisa que não posso dizer, mas sinto
em meus ossos que vai haver uma ressurreição. Sinto isso até mesmo aqui nesta sala... e
na sala lá em cima.
Ao mesmo tempo que falava ele olhava para o teto. Ouvindo aqueles estranhos
presságios do velho, Paul sentiu um arrepio e olhou também para o teto.
- O apartamento ainda está vazio? Prusty concordou com um aceno de cabeça.
- Completamente vazio. Depois do crime, ele nunca permaneceu ocupado durante muito
tempo.
Paul mexeu-se inquieto na cadeira. Sentia-se agora acossado por pensamentos
perturbadores e pela necessidade urgente de continuar, custasse o que custasse.
- O senhor está pensando em alguma coisa. Será que isso é devido ao que tenho feito
ultimamente?
- É isso mesmo. Já estão começando a falar nisso. São apenas sussurros e ecos que já
chegaram em lugares bem estranhos. E foi por isso que mandei chamá-lo.
Paul inclinou-se ainda mais e trançou bem os dedos para esconder o tremor das mãos.
- Na última sexta-feira apareceu-me aqui, neste apartamento, um cara que queria falar
comigo. Eu estava lá na loja mas a faxineira que vem duas vezes por semana para
arrumar o apartamento estava trabalhando aqui. Ela é uma mulher simples e sensata que
não se deixa intimidar com facilidade, mas aconteceu que ficou realmente apavorada
quando viu aquele homem... você quer que eu continue ?
- Qaro...
- O homem era um desses caras que a gente não consegue saber a idade. Tanto podia ser
moço como velho. Parecia forte mas também parecia doente. As roupas eram grandes
demais para ele. Seu rosto era duro com a palidez da morte. Tinha a cabeça raspada, e a
faxineira jurava que ele era um presidiário.
Paul sentia os lábios secos.
- Quem poderia ser?
- Só Deus sabe... Eu não sei, mas poderia apostar como viera de Stoneheath. Não deixou
nome. Só o que deixou antes de ir embora foi um recado.
Com movimentos graves, mas decididos, Prusty tirou do bolso do colete um pedacinho
de papel que entregou a Paul. Meio apaga120
das no papel amarelado estavam umas palavras escritas em letras muito pequeninas, e
Paul leu-as um sem-número de vezes.
Pelo amor de Deus não permita que eles o afastem. Procure Charles Castíes em Lanes.
Ele lhe dirá o que fazer.
O que poderia significar aquilo? Quem teria escrito aquele recado desesperado? Quem
poderia ter dado aquele grito de desespero? Paul estava empertigado na cadeira,
petrificado por uma louca conjetura. Não, não. Não poderia ser. E no entanto, por
alguma possibilidade inconcebível, poderia ser verdade. E se aquele pedaço de papel
viesse de seu pai? Se houvesse atravessado secretos canais subterrâneos para ser
entregue às escondidas por um companheiro de prisão solto depois de haver cumprido a
sua pena?
Paul teve a sensação de que um choque elétrico corria-lhe pela espinha. Naquele
doloroso apelo ele via uma inspiração, uma ordem para que continuasse. Sentiu uma
convulsão no peito, dobrou o papel e perguntou ao velho se poderia ficar com ele.
Prusty teve um gesto de resignação como alguém que procura fugir a uma
responsabilidade.
- É até um prazer ver-me livre disto. Não pedi para me envolverem nessa trapalhada.
A sala estava numa meia escuridão e a luz do gás da lareira era muito fraca. Lá fora o
silêncio era cada vez maior e a neve já se amontoava nos vidros das janelas. Paul ficou
ali sentado mergulhado em suas refleções e cheios de novas esperanças. Continuava
imóvel na cadeira.
De repente, sem qualquer aviso, ouviu-se o barulho de passos no apartamento de cima.
Paul retesou-se na cadeira e durante um momento pensou que se enganara, mas os
passos logo recomeçaram com uma regularidade abafada. Insinuando-se daquela forma
nos seus pensamentos do momento, aquela manifestação assumia um caráter de
tremenda significação. Ele sentia os cabelos arrepiados e seus olhos não se desviavam
do teto. Prusty também estava atento e olhava para cima com a mesma consternação.
Afinal, foi Paul quem falou baixinho.
- O senhor disse que o apartamento estava vazio...
- E juro que está mesmo, Paul.
Com uma agilidade incomum, Prusty levantou-se de um salto e precipitou-se para fora
do apartamento. Ao mesmo tempo a porta lá em cima bateu e ele ouviu passos na
escada. O primeiro impulso de Paul fora o de seguir Prusty mas logo foi detido por uma
exclamação de alívio que vinha lá de fora. Ficou ouvindo uma voz desconhecida que
cumprimentava e logo depois a voz do velho já em
121
tom normal. Depois houve uma conversa em voz baixa seguida por um amistoso "Boa-
noite" dos dois lados.
Prusty voltou logo depois ainda enxugando a testa. Fechou a port? acendeu o lustre e
depois voltou-se para Paul com um ar meio encabulado.
- Era o nosso senhorio. Há uma goteira no telhado por causa de algumas telhas que
saíram do lugar. Ele subiu para ver o que era. - Enrolou-se na manta, aconchegando-se
bem. - Quando a gente fica sentado no escuro logo começa a imaginar coisas... Foi isso
que me aconteceu agora.
Paul mexeu-se lentamente na cadeira.
- Mas aquele pedaço de papel não foi imaginação sua...
- Nada disso. Mas quando ouvi aquele barulho lá em cima e logo saí correndo... Meu
Deus! Aquilo estava igualzinho ao que eu ouvira quinze anos antes. Muito bem... será
que não quer mais um cafezinho?
Paul não aceitou. Já não podia ficar parado. Aquelas palavras apagadas naquele pedaço
de papel queimavam-lhe a pele atravessando o pano do bolso, como se fosse chumbo
derretido. Já não pensava mais na bicicleta verde e na bolsa de pele, coisas que, até
algumas horas antes, lhe pareciam de importância capital. Aquela última pista afastava
de seu espírito todas as outras. Ao voltar apressado para seu quarto, seus pensamentos
estavam febris e confusos. Haveria possibilidade de suas ações terem resultado naquele
bilhete? Naquele doloroso pedido de socorro? Também poderia ser que aquela notícia
sobre Birley houvesse chegado até a prisão pelos misteriosos canais de comunicação.
Paul suspirou profundamente, sentindo que aquele estado de suspense estava acima de
suas forças. Agora, pelo menos, ele já tinha uma orientação segura, direta e poderosa.
Iria segui-la até o fim.
222
Capítulo XXIII
- Eu sinto muito, mas o senhor já está atrasado uma semana no pagamento do aluguel de
seu quarto. - Quem assim falava era a senhoria, quando Paul acabara de vestir-se na
manhã seguinte.
- Será que a senhora não poderia esperar até sábado? Eu agora estou com pouco
dinheiro.
Ela estava de pé na porta com um vestido sujo envolvendo seu corpo sem busto e
olhando para ele com um ar de dúvida. Sabia que o rapaz perdera o emprego e, embora
não fosse impiedosa, a luta pela vida fizera com que a pena fosse um objeto de luxo fora
de seu alcance.
- Não gosto que abusem de mim. Vou esperar até amanhã à noite. Se não houver
conseguido emprego até lá, serei obrigada a pedir-lhe que se mude.
Ele não tinha a menor intenção de procurar emprego e, no seu bolso, havia apenas 10
xelins. Tampouco queria prejudicá-la. Depois que a mulher saiu, Paul abriu a mala para
avaliar suas posses, entre as quais estava seu relógio e a corrente de prata. Se ela
vendesse aquilo, era possível que conseguisse a importância que Paul lhe devia. Além
do que tinha no corpo, ele levou apenas os papéis que se relacionavam com o caso e que
guardou no bolso interno do sobretudo. Depois, olhou em torno e saiu.
Chegou a Lanes por volta das dez horas. Aquele era o nome de um dos mais antigos
bairros de Wortley e constituía uma abreviação de Fairhall Lanes. Nos tempos
medievais aquilo fora um acampamento e, mais tarde, transformara-se numa feira. No
fim do século XIX, o processo de deterioração continuara com a construção de
habitações baratas para trabalhadores, uma das demonstrações da era vitoriana
industrial. O resultado, no momento, era uma favela, a pior região da cidade, uma rede
de ruas estreitas e tortuosas esmagadas por edifícios altos em ruínas. Durante todo o dia,
Paul percorreu todas as ruas tentando, sem sucesso, localizar o homem chamado
Castles. Quando anoiteceu, uma chuva fina começou a cair. O rapaz, porém, estava
resolvido a continuar e então dirigiu-se para
123
o centro do distrito, onde, por nove penies, conseguiu um quarto para uma noite num
alojamento de trabalhadores.
Ali era ainda um lugar mais pobre do que a casa de Hart que ele visitara um dia e
consistia apenas de um longo quarto no sobrado para onde se subia por uma escada de
madeira bem precária. As camas eram sacos velhos esticados como redes baixas entre
duas cordas que corriam por toda a extensão do dormitório. Numa das extremidades
havia uma cozinha suja onde, amontoados em torno de um fogão, uma quantidade de
homens maltrapilhos se acotovelava e empurrava a fim de conseguir uma brecha para
fazer suas comidas em frigideiras e "penicos" velhos, naquele vapor que tresandava a
ranço.
Depois de olhar para aquilo, Paul esticou-se na sua cama completamente vestido e
puxou o cobertor cinzento muito fino e surrado.
- Você não vai querer jantar, companheiro?
Paul voltou-se. Na rede a seu lado estava um homenzinho com um rosto gaiato e
enrugado apoiando-se nos cotovelos com dois sacos sujos de papel na sua frente. Ele
estava embrulhado num sobretudo todo rasgado e calçava tênis de lona rasgados, sujos e
forrados com um papel escuro, e um suéter de gola alta. Com seus olhos muito vivos
espetados em Paul, o homem enfiou os dedos magros num dos sacos e tirou dali uma
ponta de cigarro que cortou ao meio e sacudiu o fumo para dentro do outro saco com
gestos fáceis e rápidos.
- Posso cozinhar para nós dois, companheiro, se você tiver aí alguma coisa que se
coma...
- Desculpe, mas eu comi antes de vir para cá.
- Puxa vida! Você tem sorte, companheiro. Eu, por mim, podia comer um boi com
chifres e tudo.
Quando acabou o que estava fazendo, ele fechou o saco já cheio e escondeu-o dentro da
camisa. Do fumo que ainda restava ele enrolou um cigarro que colocou atrás da orelha.
Depois levantou-se como se fosse um roedor humano pequenino, olhando para Paul e
para o letreiro que estava pregado ali dizendo "É PROIBIDO FUMAR", ele saiu na
direção dos sanitários.
Logo que ele voltou, Paul inclinou-se para seu lado.
- Eu estou procurando um cara chamado Castles. Você já ouviu falar dele?
- O Charlie Castles? Claro que já ouvi. Todo mundo já ouviu.
- E onde é que posso encontrá-lo?
- Ele está fora no momento. Deve estar fazendo algum trabalhinho... Deve estar de volta
em poucos dias. Se não for fisgado outra vez... Fique por aqui que eu logo o avisarei...
Será que sabe bem quem ele é?
- Não - disse Paul, sacudindo a cabeça negativamente.
124
- Pois então vai logo descobrir, companheiro. ..
- Conte-me você mesmo.
- Bem! - O homenzinho deu de ombros. - Ele dá azar mesmo... trapaceia nas corridas...
recebe coisas roubadas nas horas vagas. Já passou anos atrás das grades. Assalto e
coisas parecidas. .. a verdade é que acaba de ser libertado depois de cumprir muitos
anos... Ele é da velha guarda. Mas fique sabendo que já esteve por cima, embora agora
esteja bem por baixo.
- Não diga... E qual foi a prisão onde ele esteve?
- Foi em Stoneheath. Paul respirou aliviado.
A barulhada aumentava ali no dormitório com gritos, palavrões e gargalhadas. Alguém
começou a tocar uma gaita. Já era quase meia-noite quando se fez um silêncio relativo.
Paul dormiu mal.
Na manhã seguinte, às seis em ponto, todo mundo foi obrigado a acordar. O processo
era fácil. Consistia em desamarrar uma das cordas e todas as redes vinham abaixo. Os
que insistiam em dormir eram acordados com pontapés do encarregado. Paul saiu com
os outros para a manhã fria, mas o seu vizinho de cama não o largava e levou-o até o
café mais próximo onde ficou batendo com os pés enfiados nos tênis rasgados e
soprando nas mãos com um ar de expectativa bem-humorada.
- Que tal um cafezinho, companheiro? Você paga. Eu só tenho uma nota de cinco...
Paul trocou um dos seus poucos xelins e pagou um café com pão para ele e seu
companheiro.
O nome dele era Jerry. Jerry, o Jumento, para os íntimos. Confessava com seu sorriso
maroto quê era um mordedor. Durante os últimos anos nunca tivera um trabalho firme,
mas conhecia todos os golpes para conseguir viver. Sua ocupação mais comum era a de
apanhar pontas de cigarros nas ruas e vender o fumo por preços que variavam, mas
sempre compensavam. Com o mau tempo, no entanto, era difícil apanhar as pontas de
cigarros e então, naquela manhã, ele ia trabalhar com os cartazes. Convidou Paul para
irem juntos.
- Venha comigo, companheiro. Com esse seu corpo você logo vai ser escolhido.
Paul estava quase recusando, mas resolveu arriscar. E por que não? Ele precisava ficar
com o seu companheiro para poder encontrar Castles. Ali era quase certo que ficaria
bem escondido da polícia. Com o pouco dinheiro que tinha, ele era obrigado a tentar
tudo para sobreviver. Foi então junto com Jerry, caminhando na direção de Dukes Row.
Lá no fim do beco, do lado de fora de um terreno mal tratado com um cartaz
COMPANHIA LANES DE PROPAGANDA
12)
E CARTAZES, eles ocuparam um lugar numa fila onde já havia alguns homens
esperando. Depois de mais ou menos uma hora, o portão abriu-se para deixar entrar os
primeiros 20 da fila e entre eles estavam Jerry e Paul.
Dentro do terreno havia uma fileira de cartazes-sanduíches, todos eles recentemente
pintados e onde estavam colados os cartazes em vermelho e amarelo anunciando o
Teatro Palace. Seguindo o exemplo dos outros, Paul caminhou para um deles, enfiou-o
nos ombros e caminhou na direção do portão. Formaram novamente uma fila onde Paul
entrou ficando logo atrás de Jerry.
Durante todo o dia a fila percorreu as ruas mais movimentadas da cidade. Os cartazes
eram pesados e incômodos e estavam sempre escorregando e machucando os músculos
dos ombros. Às cinco horas, estavam todos de volta à sede e cada um recebia dois xelins
e nove penies. Quando saíram juntos, Jerry disse a Paul que estava na hora de comer
alguma coisa e, com o seu sorriso de sempre, levou-o para a lanchonete mais próxima.
Todos os dias, naquela semana, Paul saía com os cartazes. Era um trabalho humilhante.
Para chamar mais a atenção, os homens eram obrigados a exibir sempre alguma coisa
estranha e numa das manhãs Paul saiu, como todos os outros, ostentando uma cartola
bem surrada. À tarde, quando desfilavam pela Rua Ware, ele viu Nancy Wilson, uma
das empregadas do Bonanza, caminhando na sua direção. Abaixou rapidamente a
cabeça mas já era tarde e ela já o reconhecera e ficara muito espantada.
Ele pouco se importava. Estava conseguindo existir com o dinheiro que ganhava. Uma
parte ia para a dormida e o resto para a comida. Como era mais econômico usar a
cozinha do dormitório, ele seguiu o conselho de Jerry e comprou uma frigideira de
segunda mão do gerente do dormitório. A carne mais barata, quando fritada com
cebolas, constituía-se numa boa refeição.
Aquele cortiço recebia uma estranha coleção de gente abandonada e desabrigada. Era a
verdadeira escória da população de Wortley. Nenhum dos homens tinha trabalho certo,
e até mesmo os melhores dependiam sempre da sorte. Essa podia manifestar-se numa
fila de barcaças que chegavam, de repente, e precisavam ser descarregadas ; da abertura
de novas valas de esgotos; de uma forte nevasca que entupia as ruas; e então, nesse
caso, como dizia Jerry, eles tinham o que comer e tvber. Outros havia que escolhiam
coisas mais estranhas. Eram os trapeiros, os das garrafas e ossos ou coisas parecidas,
figuras silenciosas que vasculhavam as latas de lixo da cidade, sempre curvados, e
olhando para o chão, perpetuamente procurando o tesouro de uma garrafa vazia, uma
peça de louça, um pedaço de metal. Havia ainda os que faziam verdadeiros shows nas
ruas. Eram os contorcionistas que comiam lingüiças com os pés;
126
o violinista cego, um velho de maus bofes que, todas as noites, depois de tirar os óculos
escuros e de largar a bengala branca que usava para ir batendo pateticamente no chão,
deitava-se confortavelmente em sua cama para ler o jornal do dia; um vocalista que se
especializava como "ponto" para teatros; um ardoroso filho de Dublin que não
dispensava sua ceia habitual de batatas quentes com arenques salgados. Finalmente,
havia ainda os aleijados. O homem sem pernas que se arrastava pelas calçadas com o
auxílio das mãos, o falso paralítico, os repelentes que se valiam de feridas abertas e os
que simplesmente mendigavam ostensiva e desavergonhadamente. Muitos eram
corruptos e maus. Outros já estavam irremediavelmente doentes. Quando se juntavam
ali, naquele dormitório baixo e mal ventilado, sujos e com alguns que despertavam
gritando por causa de pesadelos, eles exalavam, na escuridão, odores fétidos que se
misturavam com a catinga das latrinas.
E aquilo tudo só serviu para agravar rapidamente a aflição de Paul. Começou a temer
que jamais resolveria o mistério e, com a crescente sobrecarga de inação, começou a
desejar alguma atividade decisiva que cortasse definitivamente as peias que ainda o
cerceavam. Seu espírito jovem era, cada vez mais, fustigado pela injustiça feita a seu
pai, e então passava noites em claro e seu pensamento se voltava sempre, e cada vez
com mais indignação, para o principal instrumento dos sofrimentos do pai, na pessoa de
Sir Matthew Sprott, o advogado de acusação.
Quando chegou o fim da semana, a agência de publicidade suspendeu os anúncios com
os cartazes. Quando receberam a notícia, Paul olhou para Jerry que apenas sacudiu seus
ombros magros.
- Eles costumam fazer isso. Escolhem outros meios. Vamos tentar a estação.
Foram juntos para a estação da estrada de ferro e, durante dois dias, ficaram por ali, na
esperança de encontrarem alguma mala para carregar, mas sempre de olho nos
carregadores registrados que não toleravam aquela invasão em seus domínios. Com as
poucas gorjetas que recebeu, Paul conseguiu agüentar-se até o sábado. Nessa noite, logo
que entraram no dormitório, Jerry parou de repente e apontou para um estranho, um
homem magro que devia andar pelos
40, com rosto pálido e estreito, barba por fazer, olhos pequenos, com uma roupa escura,
chapéu-coco e uma écharpe no mesmo tom solta em torno do pescoço.
- Olhe ali, companheiro - disse Jerry, em voz bem baixa. - Aquele é o Castles, mas
cuidado quando falar com ele.
127
Capítulo XXIV
Mais tarde, naquela mesma noite, num pequeno quarto de fundos que Castles tinha
alugado numa rua lateral, Paul encontrou o homem que tão ansiosamente esperara. A
despeito de sua aparência pouco recomendável e de sua voz grosseira, ele era, conforme
já dissera Jerry, educado e, obviamente, inteligente. Havia, realmente, na sua aparência,
uns resquícios da lei. Seu rosto longo e magro dava-lhe um ar de empregado de
escritório e, nos seus olhos amarelados e sinistros, havia a expressão de alguém que já
redigira muitos documentos bem escritos. No entanto, fosse lá o que fosse •que já
tivesse sido na vida, ele agora, sem sombra de dúvida, já se embrenhara na escuridão do
submundo.
- Estou vendo que você está querendo descobrir quem eu sou. Desista. Eu já não existo
mais - Ele interrompera tão repentinamente os pensamentos de Paul que este ficou
muito vermelho e confuso. Os olhos do homem não tinham nenhuma expressão, mas
seus lábios pálidos se retorciam para baixo demonstrando um completo desprezo. - O
que deseja de mim?
Houve um novo silêncio. Então, sem conseguir falar e sem tirar os olhos de cima dele,
Paul entregou-lhe o bilhetinho que recebera de Prusty. Castles desenrolou-o, olhou-o
sem lhe dar muita importância, demonstrando uma indiferença amarga, e depois
devolveu-o.
- Então foi por isso que você veio até aqui?
- Quem foi que me mandou este bilhete ? Terá sido... terá sido meu pai?
Houve uma outra pausa curta, mas cheia de suspense.
- Acho que pode ter sido...
- Então... o senhor conhece meu pai ?
- Talvez...
- Em Stoneheath?
- Naquele maldito lugar... sim... Já que quer saber, nós costumávamos conversar com
batidas na parede durante a noite... quando ele não estava na solitária... As nossas suítes
eram pegadas ...
128
Paul passou a mão na testa que escaldava. Mal podia falar.
- E como está ele?
- Está mal. - Ele tirou do bolso do sobretudo um saquinho com fumo e uma folha de
papel de arroz e, com uma só mão, enrolou um cigarro. - Aliás, não podia estar pior.
Apesar de toda a sua coragem, Paul não conseguiu evitar um soluço que lhe escapou do
peito.
- O senhor não tem nada para me dizer? Não pode dar-me nenhuma esperança?
- E você acha que há esperanças em Stoneheath?
O latejar do coração de Paul parecia encher-lhe os ouvidos como se fossem as batidas
de um tambor fúnebre. Apesar de tudo, ele achava que deveria haver alguma coisa por
trás da reserva sinistra e inescrutável daquele homem, e mordeu com força o lábio.
- E então por que eu recebi este recado para vir procurá-lo?
- Seu pai sabia que eu ia sair. Ele achava que seria bom nos conhecermos. Então me
entregou esta porcaria...
Paul recebeu os papéis que o outro lhe entregava. Eram pouco mais do que pedaços de
papel sujos e cobertos com palavras escritas a lápis, mas embora lesse e relesse tudo
aquilo escrito de forma quase ininteligível, ele ia ficando, cada vez mais, desanimado.
Aquilo era apenas uma seqüência de gritos e lamentos vindos das trevas, protestos e
reclamações sempre repetidos, provas de sofrimentos que dilaceravam o coração de
Paul, sem mesmo lhe oferecer nenhuma outra prova ou alguma coisa com valor
material. Completamente acabrunhado, ele levantou os olhos para Castles, que esperava
com paciência exemplar.
- Isto quer dizer que o senhor não me pode ajudar? O outro puxou fundo o cigarro e
falou lentamente.
- Isso depende. Preciso saber que espécie de ajuda você espera de mim.
Paul respondeu exaltado.
- O senhor sabe o que eu quero. Eu só quero arrancar de lá um pobre-diabo enterrado
vivo durante quinze anos.
- Ninguém consegue sair daquela sepultura... Paul estava fora de si, completamente
alucinado.
- Pois eu vou tirá-lo de lá. Ele é inocente... e posso provar. Vou encontrar o verdadeiro
assassino...
- Nunca - respondeu o outro, com ar desdenhoso. - Depois de quinze anos você não tem
a menor possibilidade. O autor do crime pode estar a milhares de quilômetros de
distância. Pode ter mudado de nome e de identidade. Pode estar morto. Não há
esperanças. - Fez uma pausa para dar tempo, a fim de as palavras calarem bem
125
no espírito de Paul, e seus olhos amarelos não saíam de cima dele. - E por que você não
corre atrás do assassino legal? Daquele que, realmente, condenou seu pai?
- De quem o senhor está falando?
- Estou falando do advogado de acusação...
Paul pôs-se de pé num salto como se houvesse sido mordido, e ficou com a respiração
suspensa.
- Pelo amor de Deus... quem é o senhor ?
Houve uma pausa pesada. Depois, lentamente, com aquela indiferença que o escondia
como se fosse uma máscara, Castles respondeu.
- Isso não é nenhum segredo. Está registrado no processo... condenado por apropriação
indébita. Pelo menos foi assim que começou. Eu só precisava de um pouco de
clemência... precisava de tempo para devolver o dinheiro. E foi isso o que implorei em
pleno tribunal. Em lugar do que eu pedia o que recebi foram sete anos com trabalhos
forçados...
Fez-se mais um silêncio, antes que ele continuasse.
- E então por aí você vê que estamos os dois no mesmo barco. Foi talvez por isso que
Mathry achou que seria bom nos conhecermos. Ele e eu devemos tudo ao mesmo cara.
E somos tão moles que nada fizemos a respeito.
Paul soltou um grito de desespero.
- E o que podemos fazer? - E mergulhou a cabeça nas mãos, esmagado pelo peso de seu
próprio desapontamento, mas aquela voz candente ainda continuava.
- Você não conhece o cavalheiro?
- Não.
- Não desanime. Nós dois estamos no lugar que nos cabe, mas até mesmo um gato pode
levantar os olhos para um rei.-Um brilho estranho faiscou nos olhos de Castles. - O que
você precisa, antes de mais nada, é um pouco mais de animação. Por que não me dá
licença para oferecer-lhe algum divertimento?
- Divertimento?
- E por que não? Você não anda lendo os jornais como deveria fazer. Se lesse ficaria
sabendo que existe um grande show na cidade nestes últimos dez dias... Duas
representações de primeira ... Eu sei que sempre se exibem aqui em Wortley
regularmente, mas esta é uma de suas maiores atrações. E o melhor ainda é que tudo é
de graça...
A voz dele tinha, aos poucos, assumido uma inflexão que fez correr um arrepio pela
espinha de Paul. Houve uma pausa, e Paul ficou esperando.
130
- O tribunal está funcionando. O presidente é Lord Oman, e a acusação está a cargo de
Sir Matthew Sprott.. . você não gostaria de assistir a uma sessão?
Paul ficou ali de olhos arregalados e sem responder.
- É uma oportunidade formidável... o último dia do julgamento. - Castles estava
brincando com ele outra vez, daquela mesma maneira sinistra. - Estou certo de que
gostará de vir comigo amanhã à tarde... só para ver como eles trabalham.
- Como assim?
- Ora, ora. - Charles Castles afetou uma surpresa ingênua. - Você sabe muito bem. É
claro que sabe. Só que este não será tão emocionante. É só uma pobre coitada que
esfaqueou o amante. Mas, mesmo assim, aquelas capas pretas não deixam de ser
interessantes. Chega a ser bonito e está sempre em moda.
- Não! - disse Paul, violentamente.
O rosto de Castles endureceu e ele varou Paul várias vezes com seus olhos amarelados.
- Você está com medo?
- Não, não estou com medo, mas não vejo razão para ir lá.
- Pois eu lhe digo que está com medo. - Essas palavras frias e cortantes vieram mais
depressa. - Eu, logo de saída, pensei que você tivesse tutano. Mas já estou vendo que me
enganei. Você diz que quer pôr tudo em pratos limpos. Pois muito bem, então, pelo
amor de Deus, por que não faz isso? Pois então ainda não percebeu que há duas espécies
de pessoas no mundo de hoje? Há aquelas que se apossam do que querem e há as que
não têm1 coragem para isso.
Suas narinas estavam dilatadas e o sangue lhe fugira do rosto.
- Que espécie de jogo você pensa que é esse em que nós dois estamos empenhados?
Pensa que estamos brincando? Conheço bem todas as suas dificuldades! Mas você...
você está permitindo que eles o espezinhem... você está querendo as duas coisas... você
quer correr junto com a lebre e quer caçar junto com os cachorros... Muito bem! Faça
isso! Se não quer a minha ajuda, siga então por seu caminho que eu seguirei pelo meu.
Calou-se, levantou-se e jogou a ponta do cigarro na lareira apagada. Paul ficou de pé
olhando para ele, sentindo-se magoado e excitado ao mesmo tempo, sem saber o que
fazer.
Aquela palavra "ajuda" que Castles lhe atirara foi decisiva para ele. Por mais obscura e
incompreensível que fosse, ele não poderia rejeitá-la.
- Está bem. Eu irei. A que horas nos encontramos?
- Não! - O outro sacudiu a cabeça. - Não adianta fingir. Nada mais temos a dizer.
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- A que horas nos encontramos?
Castles voltou-se devagar abotoando o sobretudo, e olhando firme nos olhos de Paul.
- Você está falando sério? Muito bem. Na porta do tribunal às duas horas, amanhã.-E se
voltou, abrindo a porta para Paul sair.
132
Capítulo XXV
Na tarde seguinte, cinzenta e úmida, Paul encontrou-se com Castles conforme fora
combinado. O tribunal funcionava num nobre edifício de pedra cinzenta construído no
estilo grego, com colunas no pórtico muito alto, e na entrada, num nicho central, estava
uma estátua de mármore com os olhos vendados e segurando a balança da justiça.
Castle estava de barba feita e respeitavelmente vestido com um terno escuro, colarinho e
gravata preta, e parecia conhecer bem o lugar. Levou Paul por uma entrada lateral e
subiram por uma ampla escada circular até uma pesada porta de mogno onde um
policial impassível levou a mão à boca para recomendar silêncio e fazendo-os entrar
para a galeria pública muito estreita, onde os dois se espremeram para sentar-se em duas
cadeiras vazias.
Lá embaixo estava todo o tribunal. O juiz de toga no seu estrado elevado de um lado, e
do outro o recinto dos jurados à esquerda e a cadeira das testemunhas à direita, o recinto
do tribunal cheio de gente com togas e perucas e no centro o banco dos réus, onde se
achava uma moça embrulhada num xale entre duas guardas da prisão. Embora tudo ali
fosse cinzento e sombrio, aquilo explodia na visão de Paul com tanta força que chegava
a cegá-lo. Agarrado ao gradil da galeria e inclinado para a frente, ele tinha os olhos
pregados em Lord Oman já bem velho, e cuja estatura era um pouco acima da normal,
mas sempre ligeiramente curvado como se fosse pelo peso das honrarias recebidas. Seu
rosto, da cor de vinho do Porto em contraste com a brancura do arminho, era altivo e
mostrava uma severidade implacável. Dos dois lados de seu nariz adunco, as bochechas
pesadas e flácidas pareciam penduradas, como se fossem as de um buldogue. Por baixo
das sobrancelhas carregadas, seus olhos senis tinham uma aparência formidável.
Um aperto no braço de Paul fez com que ele se virasse para Castles que lhe apontou um
personagem que se apresentava diante do júri. Castles segredou-lhe baixinho:
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- Não se preocupe com Oman. Ele já está senil e nem sabe o que faz. Seu amigo é
aquele que se levantou para falar agora... Sprott.
Paul começou a suar, quando olhou na direção indicada e viu o vulto atarracado do
advogado de acusação de peruca e envolto na sombria toga. Seu rosto duro e redondo
era bem visível até mesmo na luz fraca do recinto. Ele apertava os lábios e seu olhar
dardejava pela sala como se fosse um ator procurando impressionar a platéia. Depois de
uma pequena pausa, ele começou a falar para os jurados na recapitulação final e
cuidadosa do caso em pauta.
Os fatos, sórdidos e miseráveis, eram os mais simples possíveis. A acusada era uma
prostituta da classe mais pobre, com 24 anos, que, desde os 17, vinha exercendo sua
profissão num dos piores bairros da cidade. Tinha, como todas as outras, um "protetor"
que a vigiava sempre na esquina e que vivia com ela à custa do que conseguia ganhar e
que sempre a espancava brutalmente. Uma noite, sem provocação, quando estava
embriagada, ela, num ímpeto de revolta, e de remorso, matara-o com a faca de cozinha e
depois tentara também esfaquear-se, mas não conseguira seu intento.
Tudo indicava que aquele fato sórdido não merecia ser dissecado, mas Sprott tratou dele
e de todos os seus tristes e nojentos aspectos com detalhes dramáticos e com candentes
recomendações para que o júri nem sequer pensasse em atenuantes que pudessem tornar
o veredicto mais ameno. Se a acusada, com intento deliberado, tinha assassinado seu
amante, então ela era, sem dúvida alguma, culpada de assassinato. Para Paul, aquilo era
como se Sprott estivesse usando toda a sua força intelectual de uma tal maneira que
deixava a acusada sem qualquer oportunidade para apresentar as atenuantes que
houvessem em seu favor, e ele fazia aquilo de uma tal maneira que dava a impressão de
estar apresentando o seu caso de forma justa e imparcial.
Quando concluiu, com um gesto dramático, ele voltou a sentar-se no meio de um
silêncio mortal.
- Olhe bem para ele - disse Castles, baixinho. - Foi assim mesmo que fez com seu pai.
Mesmo sem aquele aviso, olhando atentamente para Sprott, Paul sentia-se
profundamente emocionado, de uma forma tão intensa e violenta que chegou a sentir
náuseas e a ficar com a testa alagada de suor. Antes, na sua vida, ele já sentira
instintivas manifestações de repulsa, uma vez que certas naturezas são mutuamente
antagônicas e por isso sentem, logo à primeira vista, uma recíproca onda de
animosidade. Mas naquele caso tudo era muito pior e mais violento do que uma simples
aversão. Aquilo veio, negro e predestinado, do mais profundo recesso de seu ser. Ele
pensava ali em tudo que aquele homem fizera a seu pai e da forma
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impiedosa e implacável a que o submetera. Claro que era verdade o fato de a
familiaridade gerar o desprezo e que o uso constante chega a embotar as maiores
sensibilidades. Não obstante, havia no comportamento estudado daquele representante
da Coroa alguma coisa tão impenetrável e tão desprovida dos menores resquícios de
humanidade normal que Paul se sentiu invadido por um insaciável desejo de vingança.
De repente, fez-se um completo silêncio. O juiz tinha concluído seu resumo. Ouviram-
se pés arrastando-se e os jurados retiraramse. A sala logo se esvaziou.
Castles também se levantou com urn trejeito na boca.
- São quatro horas. Calhou certinho na hora deles todos tomarem o chá.
- Como você pode saber?
O outro deu de ombros com uma indiferença cínica.
- Para eles isso faz parte do trabalho do dia... Oman & Sprott, só que não é Limitada.
Fico pensando quantos eles já terão liquidado juntos nestes últimos quinze anos. Você
quer sair um pouco ?
Paul responde que não queria, falando com os dentes cerrados e virando o rosto.
O seu vizinho do outro lado estava comendo um sanduíche que tirara de um saco de
papel com o ar de um freqüentador inveterado. Ele era um homenzinho magro com uns
poucos fios de cabelos grudados, atravessando a cabeça calva. Inclinou-se e falou em
tom confidencial.
- Vocês dois chegaram um pouco tarde. Perderam o melhor da festa. Sprott saiu-se mais
ou menos no resumo final, mas vocês deviam tê-lo visto de manhã. Mandou brasa
mesmo. Chamou-a de restos das sarjetas... coisas terríveis. Pouco faltou para fazê-la
chorar. Já está tudo acabado. O júri não vai levar mais de dez minutos para deliberar.
Claro que vai ser enforcada. Pelo que eu vi daquele porta-voz do júri, a mulher dele não
o deixa em paz. Não haverá recomendação para clemência. É uma beleza, não é
mesmo? Eu prefiro isto aqui a qualquer jogo de futebol, seja lá qual for.
Paul pensava consigo mesmo se todos os que estavam ali pensavam da mesma maneira.
O calor na galeria causava-lhe náuseas. O júri estava voltando junto com o juiz e todo
mundo mais.
- Culpada!
Claro. Não podia deixar de ser. Aquele homenzinho, o especialista, fizera sua previsão.
Ele só não previra o grito lancinante da pobre infeliz que se escondeu no xale, ali no
banco dos réus. Tampouco previra o acesso de tosse, o prolongado e doloroso
paroxismo que se seguiu. Lord Oman, frigidamente aborrecido, foi obrigado a esperar
que aquilo tudo passasse. Afinal veio a toga negra e
135
Paul olhava fascinado com os olhos arregalados ouvindo aquelas palavras "pendurada
pelo pescoço até que esteja morta". Já se tinham passado 15 anos, mas ele sentia agora o
mesmo que seu pai sentira então. Dominado por seu tormento, ele nem mesmo
conseguia chorar, mas podia respirar e voltou a si com as mãos agarradas ao gradil da
galeria.
- Acabou-se. - Castles parecia satisfeito. - Nada mal para uma matinê!
Ainda atordoado, Paul acompanhou-o descendo a escada e, quando chegaram lá fora,
Castles parou.
- Quer ir comer alguma coisa?
Ele parecia estar querendo avaliar as reações de Paul com uma curiosidade fria, como se
estivesse observando um inseto espetado, através de uma lente de aumento. Havia, no
entanto, mais do que isso... por trás daquela máscara sinistra, Paul parecia perceber a
presença de emoções talvez ainda mais tenebrosas do que as suas.
- Não conseguirei engolir coisa alguma...
O outro colocou-lhe a mão no braço, num gesto amistoso.
- Que tal se voltássemos para minha casa para um drinque? Nós dois estamos
precisando...
- Está bem, vamos... - No fervilhar de suas emoções, Paul já não se importava com o
que fazia nem para onde iria.
Seguiram, então, juntos.
136
Capítulo XXVI
Quando chegaram de volta ao quarto em Lanes, Paul deixou-se cair numa cadeira
enquanto Castles baixava cuidadosamente as cortinas, tirava a garrafa do armário e
enchia dois copos. Antes de falar, ele entregou um deles a Paul.
- Nós bem merecemos isto. Vai fazer bem a você. É coisa boa que consegui no lugar
certo.
Ó estimulante esquentou o estômago de Paul e acalmou seus nervos. No meio de toda a
sua aflição, o rapaz sentia que precisava daquilo e então não se preocupava com os
efeitos que poderia causar a seu atual estado de espírito. Jamais em sua vida sentira uma
amargura tão negra e tão desesperada na alma. Virou tudo de uma só vez e não se
lembrou de protestar quando Castles tornou a encher o copo.
Depois de colocar seu copo em cima da lareira, o antigo presidiário ficou observando
seu companheiro pelo canto dos olhos. Passou a língua nos lábios, disfarçadamente,
percebendo bem que a crise estava perto. Aquela única combinação de possibilidades,
que ele tanto desejara, estava agora ali a seu alcance. Ele não podia perder a
oportunidade que se lhe apresentara, quando aqueles papéis haviam sido passados para
as suas mãos com uma recomendação em voz baixa na hora do exercício no pátio
poucos dias antes de ser posto em liberdade. Mathry, aquele presidiário em Stoneheath,
nada representava para ele e, aliás, estava irremediavelmente liquidado já que a sua
sentença de prisão perpétua jamais seria computada. Não ligava a mínima para Paul que
considerava como um simples instrumento de vingança que lhe caíra do céu.
Na ocasião de sua "desgraça", Castles era funcionário da grande Companhia de Seguros
dos Municípios de Midland. Era um solteirão que gostava dos esportes, que vivia
folgadamente e até mesmo participava das caçadas locais e freqüentava as corridas de
cavalo com regularidade. Para um homem nas suas condições, astuto e amante de
aventuras, constituía uma segunda natureza o fato de querer arriscar "numa coisa boa e
certa", uma "barbada" em suma. Assim, quando recebeu uma informação de fonte
segura sobre um
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plano para a fusão planejada entre a sua companhia e uma outra menor, a Companhia de
Seguros Haddon Hall, um ótimo negócio para a companhia menor. Ele viu naquilo a
oportunidade de sua vida e então, usando dinheiro de sua companhia, que estava sob seu
controle, comprou 50.000 ações da Haddon Hall.
A compra foi feita discretamente, mas a importância em jogo era tão grande que os
boatos começaram a circular e logo foram ter aos ouvidos das autoridades. Com grande
surpresa para Castles, os auditores vieram fazer um exame nos livros a pedido de
Matthew Sprott que tinha poderes para isso. Castles correra imediatamente para falar
com Sprott, já que o conhecia por se haverem encontrado em reuniões sociais, e
contando tudo com a maior sinceridade pediu-lhe que suspendesse a auditoria por mais
10 dias, mas ele, muito acertadamente recusou, e então ordenou uma rigorosa
investigação onde o crime de Castles foi descoberto, e ele foi então julgado e condenado
à pena máxima. Nesse meio tempo, as ações da Haddon tinham triplicado de valor, mas
em lugar de um lucro de 70.000 libras, Castles foi condenado a sete anos de trabalhos
forçados.
Para um homem com o seu temperamento, aquilo era imperdoável. Passou a alimentar
um ódio mortal contra Sprott e não pensava em outra coisa senão numa vingança que
não o comprometesse. E agora... depois de todos aqueles anos, ali estava o filho de
Mathry, um jovem idiota e idealista atirado numa aventura melodramática para "limpar
o nome do pai". Deus do céu, aquilo era para se morrer de rir. Nos círculos que ele
freqüentava agora, tudo o que se relacionava com atividades da polícia era logo
conhecido, e então não demorou muito até ele ficar sabendo das atividades de Paul. Foi
fácil para ele se valer de tal vantagem.
Castles rião podia mais resistir. Tremendo, quase como se estivesse embriagado, ele
tomou coragem. Com a cara muito séria, ele se encaminhou para Paul.
- Devo reconhecer que você se saiu muito bem esta tarde. - Ele sentou-se no braço da
cadeira onde o rapaz estava. - Você tomou coragem e agüentou firme, não foi mesmo?
Paul continuava calado.
- Acho que fui injusto com você na noite passada. - Na voz dele começava a se insinuar
uma inflexão de reconhecimento, embora essa não fosse sua intenção. - Afinal de
contas, as coisas ficaram ruins para o seu lado. Com tudo dando errado e, ainda por
cima, com a perseguição da polícia, não seria de admirar se você perdesse a coragem...
Fez uma pausa e sacudiu a cabeça.
- Você está batendo com a cabeça contra um muro de pedra. Foi por isso que eu quis
que você visse aquele precioso par
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hoje. Não, não se trata de Oman que já está velho demais e acabado, embora ainda goste
da brincadeira. Ali, o que vale mesmo é o Sprott.
Só de falar em seu nome o rosto de Castles ficava sombrio, e apesar de querer manter
um tom de ironia, ele era duro como pedra.
- Ele é o cérebro mestre do sistema. O mais amaldiçoado reacionário de Wortley. Nem
mesmo poderia contar-lhe todo o mal que ele fez até agora, mas sempre indiretamente e
sempre disfarçado. Foi ele quem mandou seu pai para o inferno de Stoneheath. E
enquanto de andar por aqui, você jamais conseguirá arrancar seu pai de lá.
No silêncio que se seguiu, a visão de Sprott cheio de si mesmo levantou-se diante de
Paul, e uma estranha febre começou a percorrer-lhe as veias.
Castles continuava a falar já tendo voltado à calma, como se estivesse pensando em voz
alta.
- É isso aí... Os outros foram apenas estúpidos. Veja o Dale, por exemplo. É um cabeça-
dura bitolado por seus preconceitos profissionais. Ele, provavelmente, convenceu-se de
que estava certo. Para odiá-lo, você teria que se rebaixar. Oman, o juiz, só segue as
regras, mas Sprott... Sprott é diferente. Seu espírito é brilhante. Ele devia ter visto logo,
de relance, como as provas apresentadas eram inconclusivas. Mas, apesar de tudo isso,
seguiu em frente, completamente insensível, e condenou seu pai a uma pena pior do que
a forca. Condenou-o a ser um morto-vivo durante quinze anos. Foi ele quem fez isso.
Foi ele e mais ninguém.
Diante daquela lógica irrefutável, Paul sentia ferver-lhe o sangue de uma forma que não
podia mais suportar. Ele via o caso numa clara perspectiva, e então, como um
deslumbrante facho de luz, ele via, sem sombra de dúvida, a responsabilidade de Sprott.
Quase por acaso, Castles deixou cair seu braço sobre o ombro de Paul num gesto que
parecia um carinho.
- Compreendo bem como você se sente, Paul. Tenho pena de você. .. Mas como é que
você vai chegar até um cara assim ? Ele é inacessível.
Paul levantou a cabeça e seus olhos injetados se fixaram em Castles.
- Deve haver alguma maneira para eu chegar até eles...
- Não, Paul... acho que não há... - O outro falava num tom de comiseração. Depois
hesitou escondendo uma ligeira contorção no rosto. - ... Bem... Existe, pelo menos, um
meio... mas é claro que é impossível. . .
Os olhos de Paul faiscavam no rosto muito branco.
- Mas impossível por quê?
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Castles ficou pensativo de uma forma estranha, mas depois pareceu desistir daquilo que
pensava.
- Não. Não. Você é muito moço. Você não poderia ir até ele... até a sua casa para acertar
suas contas com ele...
Ao dizer aquilo, ele olhou rapidamente para Paul e ficou ofegante, ofegante demais,
para um homem que, geralmente, se mostrava desligado e calmo, mas já então Paul não
estava em condições de perceber coisa alguma e muito menos o que se passava no
espírito de Castles. Ele apenas resmungou com um trejeito no rosto.
- E por que eu não me poderei defrontar com Sprott? Eu posso fazer isso...
- Será que pode mesmo, Paul? - Ele falava com aquela mesma intensidade estranha.
Paul encarou-o, percebendo vagamente onde ele queria chegar. Sentia o sangue latejar-
lhe nos ouvidos, martelando na cabeça como se fosse a batida de uma centena de
martelos.
- Será que pode mesmo, Paul? - repetiu Charles Castles a pergunta, num tom mais
insistente.
O rapaz apenas respondeu com um aceno de cabeça.
- É a única forma que lhe resta para fazer justiça. Fazer justiça por suas próprias mãos.
Ninguém irá culpá-lo. Todos os fatos virão à tona. Se você fizer isso... então eles já não
poderão mais esconder o caso de seu pai. Todo mundo precisa saber a verdade. Pense
bem. Uma completa exposição à luz meridiana de tudo que eles estão tentando
esconder. Vão ficar todos com caras de tolos... se você fizer isso. Tudo vai poder ser
atribuído a eles... desde o começo até o fim. E Sprott, o instrumento, o que arquitetou
toda a injustiça, já não existirá mais. Terá sido liquidado. .. se você o fizer.
Paul levantou-se diante daquela incitação que excedia seu raciocínio, por aquelas
palavras, e por tudo mais que vira naquele julgamento, pelo processo de desmoralização
que lhe tinha sido incutido naqueles últimos 10 dias. Seu cérebro estava cheio de
relâmpagos. Ele tornou a encher o copo e virou tudo de um só gole.
- Leve isto aqui - falou Castles com voz rouca - para o caso de alguém procurar detê-
lo...
Era uma pistola automática preta, da marca Webley. Paul não se mostrou surpreso.
Nenhum dos dois falou. Castles abriu a porta e Paul saiu. Ao descer a escada, ele sentia
aquele peso no bolso batendo-lhe no quadril, e logo desapareceu na escuridão da rua.
Sozinho na sala, Castles encostou-se no portal durante um instante como se estivesse
tentando recuperar sua respiração, com a boca contorcida e o rosto estranhamente
pálido. Depois, com os
140
dedos que tremiam, ele enrolou e acendeu um cigarro e olhou para o relógio. Havia um
trem que partia para o Norte em 10 minutos. Era melhor não demorar. Enfiou o
sobretudo e ficou ali de pé tirando sucessivas baforadas do cigarro. Seus pensamentos,
pensamentos esses que só ele conhecia, faziam com que arreganhasse os dentes. Com
um gesto violento, ele esmagou a ponta do cigarro com o pé, voltou-se e saiu.
141
Capítulo XXVII
Naquela mesma noite, quando Sir Matthew Sprott saiu do vestiário do tribunal, ele ficou
de pé na entrada pensando na melhor maneira para passar as duas horas que ainda
faltavam antes do jantar às sete. Havia uma competição de sinuca entre Smith e Davis,
no Burroughs Hall. Mas, embora gostasse do jogo e fosse, até mesmo, bom jogador com
uma mesa do tamanho maior em casa, ele imaginou que a partida já deveria ter
terminado, e então achou que seria melhor ir para seu clube, o Sherwood, que ficava ali
na Praça Leonard.
Havia ainda um restinho de sol quando saiu e que tornava o céu muito vermelho,
especialmente uma nuvenzinha que estava ali no horizonte e parecia pequenina, do
tamanho da mão de uma pessoa. Os olhos de Sir Matthew ficaram estranhamente presos
e fascinados por aquela nuvem que ali estava ficando mais escura, como se fosse algum
presságio de calamidade lá no céu, e ele se sacudiu de repente. Durante aquelas últimas
semanas, não se sentira bem. Talvez fosse estafa. Estava trabalhando muito para as
eleições, que se aproximavam. Embora sempre se gabasse de que "não tinha um único
nervo no corpo", ele, ultimamente, vinha sendo assaltado, de uma forma absurda, por
coisas sem a menor importância. Por que, por exemplo, levar a sério aqueles sonhos
insignificantes que vinham perseguindo sua mulher?
Ele fez uma careta bem clara ao tornar a pensar naquele assunto realmente ridículo.
Aqueles fantásticos farrapos de tolices, aparentemente desprovidos de sentido, eram
coisas realmente incompreensíveis, mas todos eles, no entanto, tinham um ponto em
comum. Ele aparecia em todos os sonhos da mulher e em todos eles lhe acontecia
sempre alguma coisa ruim. Ela sonhava que ele estava no tribunal, mas tinha esquecido
seus papéis referentes ao caso; ele levantava-se para se dirigir ao júri, mas não
conseguia falar; ele era severamente admoestado pelo juiz; e então, quando ele saía do
tribunal, todo mundo se levantava para caçoar dele, imitando-lhe os gestos e palavras, e
este último era o que mais freqüentemente acontecia. E fora esse, na verdade, que mais
a atormentara e que a levara a contar-lhe tudo.
142
A cor pesada do céu refletia-se no rosto de Sprott, quando ele entrou na praça, solitário
e lento. Por mais que fizesse pretendendo desprezar a psicologia moderna, ele era
forçado a reconhecer que aqueles distúrbios do subconsciente que assaltavam sua
querida Catherine pareciam um eco daquele caso Mathry num passado bem remoto. E
ele sentia-se dominado por uma chama de indignação ao perceber corno eram
desproporcionados os estragos feitos por aquele terrível mosquito que, de forma tão
ultrajante, saía dos pântanos do passado para vir atormentá-lo agora,
Ele mentira ao dizer a Dale, o Chefe de Polícia, que relera todo o processo. Fora uma
mentira completamente desnecessária, já que sua memória era infalível e ele lembrava-
se de todos os seus detalhes. E como poderia realmente esquecer, até mesmo depois de
15 anos, o que fora o primeiro impulso para chegar à eminência que agora desfrutava ?
Ele ainda via sempre, bem na sua frente, o rosto do preso que ali estava no banco dos
réus. Via o rosto bonito do tipo que agradava às mulheres, embora estas sempre viessem
a se arrepender mais tarde. Sprott lembrava-se bem como explorara aquele ponto, junto
com muitas outras fraquezas evidentes no caráter do acusado, reduzindo-o, durante sua
inquirição na cadeira das testemunhas, a uma irremediável e completa confusão. Ora
essa! E por que não deveria agir assim? Pois então sua obrigação não era a de fazer
sobressair completamente todas as deficiências do acusado? Resumindo, sua obrigação
consistia em vencer a causa.
Já ele tinha chegado à praça com seus graciosos gramados centrais cheios de estátuas
perseguidas pelos pombos e que representavam dignitários cívicos do passado, e então,
fazendo um esforço, procurou livrar-se de todos aqueles pensamentos que o aborreciam.
Atravessou os portais nobres do clube, entregou o chapéu e o sobretudo e foi sentar-se
num canto do salão para pedir um chá. Enquanto aguardava ser servido, lançou um
olhar em torno do salão.
O Sherwood era uma instituição exclusiva cujos sócios vinham de famílias antigas do
interior e da aristocracia de Midland. Ele não era bem-visto ali. Na realidade, antes de
conseguir ser aceito como sócio ele fora recusado três vezes com inúmeras bolas pretas,
e sua vaidade ficara muito satisfeita por haver, finalmente, conquistado o que desejava.
Ele sabia que todo mundo tinha inveja de seu sucesso e, por isso, chegava até mesmo a
vangloriar-se de sua impopularidade e de sua força para derrubar qualquer oposição.
Muitas vezes, de pé diante do espelho no aposento onde se vestia com a indumentária
do tribunal, enquanto Burr, seu auxiliar de meia-idade, cor de rape, obsequiosamente lhe
entregava a peruca, ele sorria complacentemente para seu reflexo no espelho e
145
i
exclamava: "Burr! Eu sou o homem mais odiado em toda a cidade de Worthy."
Naquela noite, no entanto, sua atitude era estranhamente calma e delicada, e ao perceber
que havia alguns sócios espalhados no salão, ele desejava, intimamente, que algum
deles viesse até a sua mesa para conversarem um pouco. Quando entrara, além de
alguns distantes acenos de cabeça, ninguém mais o cumprimentara. No canto do outro
lado da sala, havia quatro sócios jogando bridge e, entre eles, estava um colega seu,
Nigel Grahame, que ele conhecia ligeiramente e que era Advogado do Rei. Uma ou
duas vezes eles olharam na sua direção e então, instintivamente, ele sentira a estranha
desconfiança de que os jogadores deviam estar falando do caso Mathry. Não, não.
Aquilo era impossível. Ele precisava cuidar-se. Mas então por que Grahame não falara
com ele? Enquanto tomava o chá, ele tinha os olhos fitos no outro.
Grahame, na sua opinião, era um indivíduo estranho, um expoente de credos esquisitos
e inexplicáveis. Era filho de um reitor do interior e, ainda menino, conseguira a
distinção de ganhar um lugar em Winchester. Depois de sair daquela escola famosa, que
o marcara com o seu tipo de escolaridade e maneiras, ele fora para Oxford. Um ano
após haver colado grau, seu pai morrera deixando-lhe uma pequena renda de 200 libras
por ano. Logo depois do enterro, ele viajara para o exterior, onde, nos cinco anos
seguintes, levou uma existência movimentada. Uma parte desse tempo ele passou como
preceptor de um rapaz austríaco que era tuberculoso e por isso via-se obrigado a. viver
em lugares altos como o Tirol. Durante o resto do tempo, ele vagou pela Europa, quase
sempre a pé, com uma mochila às costas. Passava os invernos no Jura e os verões nas
Dolomitas. Adorava as caminhadas nas montanhas e, em um dia, fora de Merano a
Innsbruck, cobrindo uma distância de
80 quilômetros.
Naturalmente, essa vida, aparentemente sem destino, inquietara muito os seus amigos,
mas, no ano seguinte, ele voltou para Wortley aparentemente em perfeito estado de
saúde mental e física, e então, da maneira mais natural deste mundo, como se se
houvesse ausentado apenas na véspera, ele voltou a dedicar-se à sua profissão. Aos
poucos, foi fazendo uma clientela que, não sendo muito grande, era, pelo menos, muito
escolhida e distinta. Diziam que ele devia muito às suas maneiras distintas e à boa
aparência. Era alto e magro com traços regulares e olhos escuros e ascéticos.
Apresentava-se sempre imaculado, cortês e reservado. No entanto, por trás desses
atributos superficiais, havia uma camada especial de integridade de objetivos que
formava a estrutura invisível, o verdadeiro cerne de sua reputação. Era fantasticamente
honesto e sincero. Ha144
via nele alguma coisa imponderável que sempre intrigara e perturbara Sir Matthew.
Este lembrava-se bem, por exemplo, daquela ocasião em que, num dos grandes jantares
oferecidos em sua mansão, sabendo que Grahme se interessava pela arte e também
desejando exibir suas posses, ele o levara para longe dos outros convidados para lhe
mostrar os seus Constables. Grahame portara-se com uma perfeita cortesia, mas, durante
todo o tempo, Sprott sentira sua completa indiferença em face de seus tesouros, quase
como se eles fossem falsificações. Afinal, provocado por sua atitude, ele deixara
escapar uma exclamação.
- E então, meu rapaz... como connoisseur que é, você não sente inveja de mim?
O outro se abrira num sorriso agradável antes de responder.
- Mas por que sentir inveja quando eu posso ver quadros, pelo menos tão bons como
estes, na Galeria Municipal do outro lado do parque?
- Mas que diabo, homem! Eles não são seus. São da Galeria! Grahame sorria cada vez
mais e aquilo já estava inquietando
Sir Matthew.
- Será que não são mesmo? Pois então não sabe que todas as grandes obras-primas
pertencem a todos nós?
Agora ali no seu canto, Sprott sentia a mesma coisa daquela ocasião. Vendo que tinham
acabado de jogar e que todos se levantavam, um impulso perverso levou-o a fazer um
sinal a Grahame.
O outro hesitou de forma quase imperceptível, mas afinal veio a seu encontro.
- Sente-se aqui um pouco. Estou sozinho... - Sprott fez o convite com uma falsa efusão,
mas o outro respondeu com muita delicadeza.
- Já tomei meu chá...
- Mas sente-se um pouco aqui. Nós nos vemos pouco... Sempre sorrindo com
delicadeza, Grahame sentou-se no braço
da cadeira que ali estava.
- Assim está bem. - Sir Mathew mostrou seu apetite servindo-se de mais um bolinho. -
Fique sabendo que não mordo, apesar de todas as fofocas que se contam neste clube.
O outro mostrou-se ligeiramente embaraçado, mas continuava a manter suas boas
maneiras.
-Posso garantir-lhe... tanto quanto eu saiba...
Sprott riu satisfeito, mas sua risada saiu um pouco mais alta do que ele pretendia.
- Pois então vocês não estavam falando a meu respeito, alguns minutos atrás? É difícil
enganar uma raposa velha como eu.
145
Não foi à toa que me especializei nos poderes de dedução durante todos esses anos...
Sprott sabia que se estava excedendo, mas havia alguma coisa dentro dele que o
fustigava. Houve uma pausa enquanto ele levava a xícara à boca para tomar o chá.
- Você sabe, Grahame, um homem não chega à posição que eu alcancei sem que uma
multidão de invejosos se junte à sua porta, esperando a hora de dar o alarme. Basta um
idiota irresponsável como o George Birley para começar. Você não concorda comigo?
O outro respondeu, falando devagar.
- Eu só vi uma pequena notícia no Courier, mas não lhe dei a menor atenção...
- Aquilo foi apenas para efeitos de publicidade. Ninguém sabia o que ia acontecer até
que Birley pediu a palavra na Câmara. O Secretário do Inferior ficou furioso. Naquela
mesma noite houve uma recepção na casa de um dos Duncasters. A mulher de Birley
estava presente e disse para quem quisesse ouvir: "Eu sempre soube que George era um
idiota, mas também sempre pensei que tivesse juízo bastante para não remexer nessa
espécie de sujeira!" Você já viu uma imbecilidade igual? Ouvi dizer que não vão
apresentá-lo para as próximas eleições.
Houve um curto silêncio durante o qual Grahame continuava de olhos baixos, mas
afinal falou.
- É bem possível que seus motivos fossem sinceros. De qualquer forma, você não acha
que sempre é melhor ser um tolo do que ser um canalha? - Olhou para o relógio. -
Desculpe, mas preciso ir andando.
Leevantou-se e despediu-be muito cortesmente.
Com a cara amarrada, Sprott serviu-se de mais uma xícara de chá, mas este pareceu-lhe
bem amargo. Aquela conversa não lhe proporcionara a menor satisfação e a saída
repentina do outro era mais um prego no seu sapato. Sua expressão tornou-se mais dura
e ele sentiu-se envolvido numa onda de ressentimento e raiva. Lembrou-se, então, como
já passara por piores coisas no passado e sempre conseguira sobreviver.
Instintivamente, pôs-se a pensar em seus triunfos e então empertigou-se esticou o lábio
inferior e assumiu uma atitude parecida com aquela que sempre exibia nos julgamentos.
Arrependia-se de se haver deixado levar por aquela momentânea fase de desânimo e
fraqueza. Estaria ele perdendo aquele seu ardor? Iria desistir agora que estava para
chegar ao Parlamento? Ali onde todas as grandezas estariam ao seu alcance? Não... mil
vezes não.
Levantou-se de mau humor e saiu do clube. O porteiro que lhe abriu a porta comentou
sobre o tempo. Com incivilidade estudada,
146
ele nem mesmo respondeu. Entrou num táxi e mandou tocar para Grove Quadrant.
Ao entrar em casa, teve a surpresa de ver sua mulher vir a seu encontro, beijando-o e
ajudando-o a tirar o sobretudo.
- Querido, há um rapaz esperando por você na biblioteca. Ele tem demonstrado tanta
paciência... Você quer falar com ele antes do jantar?
Sprott fechou a cara. Esteve quase dizendo a ela que ninguém tinha licença para invadir
sua privacidade de acordo com ordens que já dera muitas vezes. Adorava-a muito e por
isso não disse nada. Baixou a cabeça e caminhou para a biblioteca.
147
Capítulo XXVIII
A biblioteca era um belo aposento coberto com um tapete creme muito espesso e
algumas preciosas gravuras nas paredes. Imóvel como uma estátua, Paul estava ali
esperando já fazia uns 10 minutos. Fora a própria mulher de Sprott que o fizera entrar.
Ela era bonita, devia ter uns 40 anos, rosto pálido e delicado e trajava um vestido
cinzento. Paul percebia que ela o tomava como um dos empregados do escritório do
marido, e por isso o recebera com um sorriso calmo.
- Espero que não esteja trazendo mais trabalho para Sir Matthew - dissera ela. Depois
oferecera um conhaque com biscoitos. Tornou a sorrir, quando ele recusou, e saiu.
Tudo ali estava muito silencioso. Então, lá em cima, alguém começou a estudar piano.
Era o Prelúdio nº 7 de Chopin, tocado muito devagar e com alguns erros. Parecia uma
criança tocando e ele ouviu risadas e conversas. O som daquele piano afetou-o
cruelmente. Ficou pensando naquele homem que tinha uma mulher tão bonita e filhas
tão alegres. Mas pensou também naquele outro homem trancado na sua cela úmida. Já
não agüentava mais. E então ouviu o barulho de um carro que chegava. Sabia que devia
ser Sprott. Empertigou-se na cadeira. Estava pronto para ele. Ouviu a porta da frente
abrir-se e fechar-se. Ouviu vozes no hall. Um minuto depois abria-se a porta da
biblioteca.
Paul ficou sentado, completamente imóvel quando Sprott entrou. Olhou para o rapaz,
mas ficou calado. Durante um momento o silêncio era absoluto. Depois, então, Sprott
falou.
- Qual é a razão para esta intrusão? Você não tem o direito de vir aqui. Esta é a minha
residência particular. - Estava realmente indignado, mas, ao mesmo tempo, havia
alguma coisa em seus olhos. Paul percebeu logo que ele o conhecia.
Aquela observação de Sprott revelou tudo para Paul. Ele percebeu a fenda que se
escondia por trás da fachada imponente. Seu pensamento foi que aquele homem não
tinha o direito para conde148
nar quem quer que fosse. Seu espírito tornou-se de uma clareza cristalina, e o rapaz
falou devagar.
- Quando alguma coisa já esperou muito tempo, então ela se torna urgente.
As veias estufaram na testa de Sprott. Ele nem mesmo tentou aproximar-se de Paul e
ficou junto da porta. Conseguiu reunir toda a sua dignidade e agora já era o ator
declamando seu papel.
- Não pretendo esconder o fato de que, já desde alguns meses, eu venho sabendo de sua
presença e de seus movimentos aqui na cidade. Você é o filho do homem que está
cumprindo sua sentença de prisão perpétua e está querendo criar problemas a respeito
de um caso que foi julgado há quinze anos.
- Existem dúvidas sobre ele, e também existem provas novas que precisam ser ouvidas.
Durante um momento, Sprott deixou-se levar pela indignação até mesmo esquecendo a
desconfiança que sentira.
- Não seja tolo. Depois de quinze anos, isso é legalmente impossível. Devido à sua
infernal intromissão, houve uma petição para a reabertura do caso, mas o Secretário do
Interior a recusou categoricamente.
- Mas o senhor não precisa recusar. O senhor foi o advogado de acusação e seu dever
principal é fazer com que a justiça seja feita. E o senhor mesmo se sentiria obrigado a
fazer alguma coisa, se ficasse convencido da inocência de meu pai.
- Mas não estou convencido! - Sprott disse isso quase aos berros.
- O senhor se convencerá, se quiser me ouvir. O menos que pode fazer é tomar
conhecimento das novas provas na sua função oficial.
O outro estava agora tão furioso que mal podia falar. O rosto estava vermelho. Afinal,
conseguiu controlar-se e falou friamente.
- Eu, realmente, devo pedir-lhe que se retire. Você nem sabe o que me está pedindo...
não conhece as dificuldades técnicas, as engrenagens legais e as repercussões
envolvidas. Está-me parecendo uma criança estúpida que está querendo derrubar um
grande edifício só porque está pensando que, nos seus alicerces, há um tijolo que foi
mal colocado...
- Se os alicerces estiverem podres, então o edifício vai desmoronar.
Sprott achou que aquilo não merecia resposta. Seu rosto agora era de completo deboche.
Mas quando ele olhou de lado, com a cabeça esticada e os olhos apertados, Paul
percebeu outra vez aquela vaga ilusão, aquela fenda secreta na fachada, e ficou sabendo,
finalmente, que, se apenas devido ao fato de ele precisar manter escondida aquela fenda
a qualquer custo, Sprott jamais concordaria em
145"
reabrir o caso. Mesmo assim... ele lhe daria mais uma oportunidade.
- Quando um condenado já cumpriu quinze anos de uma sentença de prisão perpétua. . .
não existe um costume humano. . . para a comutação de sua pena?
O outro continuava a observar Paul de esguelha com os olhos esbugalhados e injetados,
mas logo respondeu decisivamente. - O Secretário do Interior já se pronunciou a
respeito... Paul sentia-se quase sufocado.
- Mas o senhor ainda não se pronunciou. Uma palavra sua nos círculos competentes
seria uma grande influência. Uma palavra só... uma insinuação das novas dúvidas
surgidas. ..
Sir Matthew sacudiu a cabeça irrevogavelmente, até mesmo com certa ferocidade,
descartando sua responsabilidade. Levou uma das mãos às costas e abriu a porta,
falando com o mesmo ar de deboche.
- Quer sair agora, ou será preciso que eu chame alguém para atirá-lo lá fora?
Paul percebeu então, definitivamente, que era inútil. Aquele homem jamais faria alguma
coisa a seu favor, jamais faria alguma coisa pelo perdão. Enclausurado em seu orgulho,
só o que lhe importava era a sua dignidade, a sua posição e o seu futuro. Eram coisas
que deviam ser conservadas fosse a que custo fosse.
Quando pensou naquilo, Paul foi assaltado por uma indignação incontrolável, pela raiva
e pelo desespero que percorria seu corpo como se fosse uma droga. Castles estava com a
razão! Seu pai, Swann, ele mesmo, todos os obstáculos ou obstruções humanas, tudo era
derrubado pelo insaciável orgulho do homem que ali estava. Não lhe restava outra saída.
Só havia uma coisa a fazer. Levantou-se. Suas juntas estavam endurecidas e as pernas
não lhe pertenciam. Ele começou a caminhar para aquele homem grande que estava ali
na porta. Sua voz mal podia ser ouvida e ele quase não respirava.
- Pela última vez...
- Não...
Ele estava com a mão no bolso. Durante todo o tempo, quando estava falando, a arma
estivera em sua mão. Ela já não estava fria... ele a esquentara com o calor de sua mão...
ela parecia fazer parte de seu corpo. Tinha o dedo no gatilho e sentia a força da mola.
Ele nem precisaria tirar a arma do bolso. Ela estivera todo o tempo apontada para
Sprott, o ator, o homem sem alma, que de nada suspeitava. Ele estava ali de pé sem
olhar para Paul, sempre com aquela careta de dignidade ofendida estampada no rosto. O
rapaz estava agora bem na sua frente a menos de um metro. Percebia o arredondado da
sua barriga bem alimentada. A arma estava bem apontada para ele. Seria
150
um tiro à queima-roupa. Paul não sentia o menor medo. Ele os olhos sentindo-se muito
tenso, com a boca entreaberta, numa espécie de êxtase, como se todo o seu ser estivesse
sendo elevado por um supremo desejo físico.
Então, de repente, seu corpo foi sacudido por uma convulsão, com as dores do
renascimento e, finalmente, voltou à razão. Não, Deus meu! Não. Aquele pensamento
ocorreu-lhe como se fosse um relâmpago que o apunhalava. Eles chamaram meu pai de
assassino. Iriam eles fazer com que ele, Paul, também fosse um assassino? Largou a
arma no bolso. Abriu os olhos e encarou Sprott sem, contudo, vê-lo. Estava ofegante
como se houvesse apostado uma corrida. Não conseguia falar. Quando, porém, cruzou
com os olhos hostis do outro, seus lábios se abriram num tênue sorriso e todo o seu
rosto se iluminou de forma estranha. Enquanto Sprott olhava-o lívido, Paul passou por
ele e saiu da casa.
Lá fora, na escuridão fresca embaixo das estrelas, uma torrente de lágrimas jorrou-lhe
do rosto. Com uma voz triunfante, ele sussurrou.
- Eu não consumei o crime. Graças a Deus, eu não consumei o crime.
151
SEGUNDA PARTE
Capítulo I
Três semanas antes, quando Paul fora despedido pelo gerente do Bonanza, Lena
presenciara o incidente muito aflita, mas isso melhorou um pouco quando foi procurar
Paul em seu quarto, naquela mesma noite. Conversara com ele e levara-lhe um recado
que o deixara muito animado e então ela acreditava que o havia ajudado. O tempo foi
passando sem que ela tivesse mais notícias dele e a vida lhe parecia triste e vazia. No
fim da semana foi contratada uma nova pianista e as notas do piano chegavam outra vez
até a lanchonete, mas a música já não era, infelizmente, a mesma, embora a moça
tocasse bem. Lena continuava triste e oprimida. Sentia-se, cair novamente numa
profunda depressão, a pior que já tivera desde a outra calamidade que lhe destruíra a
vida.
Ao contar para Paul que fora feliz e satisfeita no emprego de recepcionista no Hotel
County Arms, dois anos antes, ela dissera a verdade. Astbury era uma antiga cidade
encantadora, famosa por sua abadia em ruínas, por muitas casas pintadas em preto e
branco em estilo elisabetano e alguns interessantes túmulos romanos situados nos
lugares mais bonitos ao longo do Rio Trent, e era uma espécie de cidade de repouso
para os meses de primavera e verão. O hotel era muito bom e o seu gerente era um
oficial do Exército reformado, chamado Prentice, que era ajudado por sua mulher. A
freguesia principal do hotel era formada por pescadores e turistas que vinham do Sul do
país. Lena gostava muito da cidade e do trabalho e achava que o resto do pessoal do
hotel também gostava dela.
De 15 em 15 dias, aos sábados, ela tinha a metade do dia de folga e então gostava de ir
de trem até Wortley onde passava o dia percorrendo as grandes lojas cheias de coisas
bonitas que eram novidade para uma moça do campo. Tomava o seu chá às cinco horas,
sempre sozinha, no Green Lantern, um café bonitinho e agradável que descobrira perto
da Praça Leonard. Depois, alegre e satisfeita, ela pegava o trem de volta às seis horas
carregando seus embrulhos. O hotel ficava bem longe da estação, mais de três
quilômetros e a estrada ao longo do rio era sinuosa e sombreada. Isso, porém, não
constituía dificuldade para ela que gostava muito de andar e já estava acostumada a
percorrer grandes distâncias em Sleescale.
Um sábado à noite, já no fim do verão, Lena partiu, alegre como sempre, de volta para o
hotel depois de um "Boa-noite" amistoso para o funcionário da estrada de ferro
encarregado de recolher os bilhetes na estação. A lua estava escondida atrás de nuvens e
a estrada estava escura e ela ouvia os ruídos do mato junto com os que faziam os insetos
noturnos. A escuridão dava a impressão de um jângal estagnado, e até mesmo ela tinha
a impressão de estar sendo seguida. Lembrou-se de que no trem havia uma turma muito
barulhenta e então, ao contrário do que fazia geralmente, ela caminhava olhando sempre
para trás. Quando ouviu o barulho de um galho seco quebrando-se bem perto, ficou
nervosa e apressou o passo chegando quase a correr. De repente, quando se aproximava
do lugar mais deserto da estrada, um braço saiu da escuridão e agarrou-a pelo pescoço.
Ela gritou mas logo sentiu a mão que, brutalmente, lhe tapava a boca. Lutou
desesperadamente com toda a força de seu corpo jovem, mas tudo foi inútil. Os
atacantes eram cinco robustos rapazes. Foi atirada ao chão com brutalidade e, ao cair,
bateu com a cabeça numa pedra e, felizmente para ela, desmaiou.
Existem atos que são indignos de serem mencionados já que pertencem à degradação
dos brutos, e o melhor mesmo é deixá-los no lodo das épocas primevas. Existe, porém,
uma certa continuidade fatal no crime, uma interdependência de sorte e de
circunstâncias que ligam acontecimentos que podem ter ocorrido com anos de diferença.
O horror que aconteceu com Lena precisa ser registrado aqui já que ele está ligado ao
caso Mathry e, se não tivesse acontecido, o caso talvez jamais seria solucionado. Lena
voltou a si gemendo, tentando compreender o que havia acontecido, levantando-se para
tornar a cair e, finalmente, conseguindo reunir forças para caminhar até a segurança que
lhe oferecia o hotel.
O choque imediato resultante do crime abalou toda a comunidade. Foram organizadas
turmas de buscas, mas os assaltantes nunca foram descobertos. Eram estranhos e,
provavelmente, vinham da escória dos maus elementos de Nottingham que invadia
aquela região por ocasião da feira em Mosley.
Major Prentice e sua mulher trataram Lena com muita bondade. Depois de haver
passado o primeiro choque e quando ela já podia andar, eles insistiram para que tirasse
umas longas férias antes de reassumir seu cargo no hotel e ofereceram-se para lhe pagar
todas as despesas, mas Lena não aceitou. Ela não podia tolerar as solicitudes
exageradas, os olhares disfarçados, as óbvias atenções com que a cumulavam, sempre
com as melhores intenções. Sabia que não podia mais continuar naquele hotel. Além
disso, e por uma outra razão, ela também queria sair dali. Embora não dissesse a
ninguém, man156
tendo-se num silêncio estóico, ela descobrira, apavorada, que estava grávida.
Nessa ocasião, um dos hóspedes do hotel era um homem chamado Dunn, um indivíduo
taciturno e sem muitos amigos no hotel, mas que vinha regularmente a Astbury para
tentar pescar os salmões prateados que abundavam no rio durante o outono. Ele, entre
outras coisas, era um estudioso da natureza humana e então, quando não estava
pescando, gostava de observar Lena.
Embora se orgulhasse de ser uma pessoa que não se deixava impressionar facilmente,
Dunn observava, com admiração, o silêncio e a coragem da moça, o seu desejo de tirar
o melhor proveito de uma coisa tão horrorosa e, acima de tudo, a tranqüila resistência
que oferecia à histérica efusão, apesar do sofrimento em sua alma independente.
Enquanto permanecia pacientemente sentado à beira do rio, expondo a sua calvície ao
sol, no meio de todos os seus sonhos, ele imaginava a possibilidade de escrever um livro
a respeito de Lena, embora não fosse escritor, mas tinha medo de fracassar. Mesmo
assim, ele tinha percepção bastante para adivinhar o que estava procurando o espírito
amargurado da moça. Ela queria fugir definitivamente, queria perder sua identidade,
queria ir para bem longe de todos que a conheciam. Sem fazer daquilo grande alarde,
ele conseguiu que ela fosse para Wortley, para ficar com uma mulher chamada Hanley,
uma velha amiga em quem depositava completa confiança.
Dunn não era rico e tinha mulher e família para sustentar. Não obstante, as peculiares
qualidades de seu caráter levaram-no a apoiar Lena na sua hora mais difícil, quando ela
já tinha sido esquecida por toda aquela gente cheia de boas intenções, sempre prenhe de
demonstrações de amizade e que corria para oferecer-lhe almofadas quando ela vinha
sentar-se na varanda do hotel.
Foi ele quem cuidou de todas as providências para o parto que foi difícil e perigoso. A
criança não era normal, nasceu surda e muda e morreu em poucas semanas, felizmente
para ela. Só meses depois, Lena, arrasada, física e moralmente, conseguiu voltar para a
casa da boa Sra. Hanley.
Dunn não se ofereceu para arranjar um emprego para ela. Agora que o pior já tinha
passado, ele queria que ela voltasse a cuidar de si mesma. Quando Lena, finalmente,
arranjou aquele emprego na lanchonete do Bonanza, ele achou melhor não lhe dizer que
aquilo não era grande coisa. Apenas acenou com a cabeça concordando. E então,
freqüentemente, quando ia para o seu trabalho, ele passava por lá para tomar um café e
ver como ia passando sua protegida. Escondendo sua maneira habitual de desligamento
das coisas, Dunn acompanhava a situação com interesse, percebendo a luta pela
regeneração que se processava naquela alma ferida e estóica. Divertia-se quando
percebia
157
que o remédio infalível para os seus acessos de tristeza era enfrentar um trabalho duro.
E era esse mesmo antídoto que ela aplicava agora à sua melancolia. Logo que chegava
em casa, quando saía do trabalho na loja, ela se enfiava num macacão e começava, com
uma determinação silenciosa, a esfregar e lustrar o assoalho, a lavar as cortinas das
janelas, a limpar a lareira e polir os metais e depois ia para os seus dois aposentos, onde
se afanava até que eles ficassem brilhantes.
Certa noite, olhou em torno e ficou desanimada. Não havia mais nada para limpar, não
havia um só grão de poeira contra o qual ela pudesse investir, e então foi para a cozinha
onde fez um bolo. Depois foi sentar-se na sala para ouvir as novidades que havia na
última carta recebida de Joe, o marido da senhoria, que zarpara de Tampico e deveria
atracar em Tilbury na segunda-feira seguinte. Seus pensamentos, no entanto, estavam
muito longe da carta recebida, e aquilo não escapou à atenção da boa senhora.
- O que há com você, Lena ? Você não parece a mesma. Está trabalhando demais...
- Não há nada - respondeu a jovem com um sorriso forçado.
- Pois você está muito pálida. Acho que não vou deixá-la aqui sozinha. É uma pena que
o Joe, seja obrigado a ficar lá para reabastecer o navio... vai perder também suas
férias.. .
- Estou bem. Pode ir divertir-se em Londres.
- Está bem... Eu estava mesmo com vontade de ir. A companhia paga as quatro semanas
do hotel. Mas mesmo assim... quero que me prometa que se cuidará bem, sim?
- Pode ficar descansada... Amanhã vou ficar à toa... to meu sábado de folga...
O sábado, no entanto, não melhorou muito as condições de Lena. Na manhã seguinte,
depois de levar sua amiga à estação, ela foi assaltada por uma dolorosa solidão e,
estranhamente, tomou um caminho diferente do que costumava nos seus dias de folga.
Foi com confusão e contrariedade que ela se viu na entrada do Jardim Botânico.
Franziu a testa diante de sua fraqueza e pensou consigo mesma que, uma vez que já
chegara até ali, e que a entrada era grátis, o melhor mesmo seria entrar para aproveitar.
Atravessou os portões largos e começou a caminhar numa alameda que seguia na
direção oposta àquela que seguira quando ali estivera antes com Paul. Durante uma
hora, lutou contra seu desejo, mas, afinal, quando já pensava em ir embora, entrou na
estufa onde estavam as laranjeiras. Lá dentro da estufa toda de vidro e muito alta, à
medida que se aproximava daquela laranjeira que admirara na companhia de Paul, ela
sentia seu coração bater descompassado e então logo encostou seu rosto a um galho
cheio de flores muito chei158
rosas e macias. Quando se afastou, uma única lágrima, salgada e amarga, caiu em sua
mão.
Naquela noite, enquanto se despia, reparou, de repente, no seu corpo que se refletia no
espelho, completamente despido, onde as marcas da gravidez apareciam claramente
como cicatrizes azuladas na sua pele muito branca. Ficou ali imóvel e então, enojada de
si mesma, sem saber o que estava fazendo, esbofeteou-se com violência, e murmurou
para si mesma: "Não seja tola... não adianta... nunca mais. .."
Desligou a luz e fechou bem os olhos na escuridão.
No entanto, toda a sua resolução era insuficiente para livrá-la daquilo que sentia em seu
íntimo, e que era mais forte do que ela e então, envergonhada, acabou cedendo. No dia
seguinte, ela foi procurar Paul no seu antigo endereço e ali a senhoria, Sra. Coppin,
olhou-a dos pés à cabeça com os olhos apertados.
- Ele foi embora. . .
Lena sentiu um aperto no coração, mas insistiu.
- Para onde foi ?
- Não faço a menor idéia. Talvez lhe interesse saber que a polícia esteve aqui à sua
procura. Fiquei com sua mala em pagamento do aluguel que ele ficou devendo.
Houve uma pausa enquanto um pensamento se formava na cabeça de Lena.
- Se eu lhe pagar, a senhora me entrega suas coisas?
A mulher refletiu um pouco. O valor das coisas que tinha era muito pequeno e ela sabia
que não seria o suficiente para pagar a dívida. Com aquilo ela "jamais veria a cor de seu
dinheiro". Num caso como aquele ninguém iria perder tempo fazendo perguntas. Era
uma coisa boa demais para se desprezar, e ela concordou de má vontade e entrou
deixando a porta encostada.
Muito vermelha, e com um ar de mistério, Lena levou para casa a mala já em estado
bem precário que havia recuperado, e que continha apenas algumas roupas usadas.
Lavou e passou as roupas, cerziu as meias. Limpou e passou as calças e até mesmo
colocou alguns níqueis no bolso. Sentia-se aliviada ao fazer aquilo, mas quandotudo já
estava lavado, arrumado e pronto, de volta à mala, ela não se sentia melhor do que
antes. Cada vez mais se convencia de que alguma coisa ruim tinha acontecido com ele.
Então, ao chegar à loja, ela teve notícias de Paul. Nancy estava contando alguma coisa
que todo mundo achava muito engraçado. Estavam todos ouvindo, até mesmo Harris.
Devia ser bem interessante.
- Pois é o que lhes digo... cheguei a ficar tonta. Eu ia para o cinema com o meu
namorado, quando vi aquele homem enfiado no cartaz. Logo de saída não o reconheci.
Estava muito magro e mal vestido. Quase em farrapos. . . sem sobretudo. "Espere aí um
pouco,
159
George", disse a meu namorado. "Acho que conheço aquele cara". E então vi quando
ele passou bem na minha frente desfilando junto com aqueles outros infelizes. Era o
Paul mesmo. Ele virou a cara logo que me viu do outro lado da rua.
Os ouvintes soltaram exclamações e Lena quase desmaiou.
- Vocês deviam tê-lo visto. Está mesmo liquidado. - Nancy acompanhava o seu relato
com gestos dramáticos e com o espanto estampado nos olhos.
Harris encerrou a sessão com um ar de superioridade.
- Eu sabia que ele não prestava. Fui avisado pela polícia. Bem... vamos trabalhar.
Voltem para seus lugares.
Foi nessa ocasião que se romperam as últimas defesas de Lena. Ela se dava conta de sua
loucura e percebia também que estava acumulando desgraças para a seu futuro. Mesmo
assim, ela não conseguiu conter-se. Todas as manhãs, quando ia para o trabalho, e todas
as noites, quando saía da loja, ela percorria as ruas mais pobres da cidade, olhando
sempre com atenção para os vultos mais pobres. Quando estava de folga, ela passava
horas por perto da estação ferroviária na Rua Leonard. Tentou também outras estações,
sempre sem sucesso. Todos os seus esforços resultavam em fracassos, e ela passava dias
e noites num desapontamento amargo.
160
Capitulo II
Quando Paul saiu da casa de Sprott, atravessando sem olhar as ruas silenciosas, a noite
estava clara e fria, mas havia um vento cortante que prenunciava geada. Quase
dominado pela fraqueza da reação, havia uma idéia que não lhe saía da cabeça. Na hora
em que chegou ao canal, ele tirou a pistola do bolso e, com um soluço, atirou-a bem
longe dentro d'agua, ouvindo o barulho que a arma fez quando caiu.
Ficou ali, meio tonto, olhando os círculos excêntricos que se formavam e só foi embora
quando eles desapareceram.
Nesse momento o relógio público batia 11 horas.
Aquelas pancadas fortes trouxeram-no de volta à realidade e então, de repente, apesar
do tumulto em seu cérebro e do tremendo cansaço que sentia, ele percebeu que não
tinha nem mesmo um níquel no bolso, e ficou imaginando onde poderia passar a noite.
Aos poucos foi chegando à conclusão de que só havia uma saída. Teria que fazer aquilo
que o Jerry e todos aqueles outros lá do dormitório detestavam. Teria que dormir ao
relento. Havia na cidade um lugar conhecido como os Arcos, e que era o único lugar,
com exceção do cemitério, onde todo rnundo podia dormir sem ser incomodado. Ao
caminhar lentamente para aquele triste destino, ele sentia que se desmoronava o último
e fraco baluarte de sua respeitabilidade. Agora, certamente, ele já tinha chegado ao fim.
Os Arcos ficava perto do canal e embaixo da ponte da estrada de ferro. Quando chegou
ali já encontrou outros infelizes que se haviam acomodado para passar a noite. Levantou
a gola do sobretudo e deixou-se cair na sombra fria com as mãos nos bolsos, encostado
numa das colunas redondas de ferro. O frio era intenso e Paul procurava não tremer,
enquanto tirava alguns cochilos. A manhã chegou acompanhada de um nevoeiro
cinzento e com o troveejar de um trem que passava lá em cima. Paul sentia tanto frio, e
estava tão enregelado, que mal podia mexer-se, mas sempre conseguiu levantar-se para
ir embora. A fome causava-lhe dores no estômago, mas ele não tinha dinheiro nem
mesmo para um pedaço de pão. Instintivamente, dirigiu-se para a companhia dos
cartazes, mas lá encontrou os portões fechados. Seguiu então para a estação ferroviária
da Rua Leonard
161

e passou o dia inteiro rondando por ali, escorraçado pelos outros carregadores
registrados, mas sempre conseguiu ganhar nove penics, mas aquilo não chegava para
comer e dormir. Num café de trabalhadores que havia ali por perto ele comeu uma
lingüiça e tomou uma sopa gordurosa que lhe caiu no estômago como se fosse chumbo,
causando-lhe fortes dores. Depois, arrastou-se novamente para os Arcos.
Na manhã seguinte chovia muito e ele não podia ir para a estação, e então ficou
vagando pelas ruas à procura de um abrigo. Sentia-se muito cansado, mas, naquela
cidade grande, não havia um único lugar onde pudesse sentar sem pagar. Finalmente,
chegou a um salão de bilhares e, no sobrado, numa atmosfera cheia de fumaça,
iluminado por lâmpadas com abajures verdes, ele encontrou um refúgio. Aquilo durou
pouco. Depois de haver assistido a algumas partidas sem jogar, o encarregado veio
pedir-lhe que se retirasse.
De volta à rua, a única coisa que sabia era que precisava continuar andando sem se
preocupar com o destino.
Já no fim da tarde, viu-se na parte do canal onde havia rebocadores, uma área suja e
triste flanqueada por fábricas e cerâmicas, Ao chegar ali um homem de uma barcaça
gritou-lhe pedindo que segurasse uma corda para ajudá-lo na manobra da comporta
acionada à mão. Dentro da barcaça havia uma mulher de aspecto maternal que fritava
bacon com ovos no fogão da cabina. Ela, naturalmente, percebeu logo as condições de
Paul e então, depois de completada a manobra e quando a barcaça ia seguir viagem,
deu-lhe um substancial sanduíche ainda bem quentinho.
Aquela demonstração de bondade e o olhar de pena da mulher abalaram Paul e ele
sentiu um tremendo desejo de abandonar tudo, de voltar para casa, voltar para uma vida
normal com um decente conforto humano, mas sempre conseguiu dominar tal impulso.
Ele não ia desistir. Jamais desistiria. Encharcado até os ossos, o rapaz caminhou de
volta para os Arcos.
Começou então para Paul um período de tanto sofrimento que, quando, de tempos em
tempos, chegava a perceber seu estado, ele mal podia acreditar que aquilo estivesse
acontecendo. Dependendo sempre da sorte de conseguir uma moeda, havia dias em que
ele passava sem comer. Havia momentos em que a lembrança das coisas lhe escapava e
ele vagava pelas ruas numa espécie de estupor. Naquele pesadelo contínuo em que se
encontrava, Paul chegava a esquecer quem era e então, quando se lembrava, sentia um
desejo irracional de se dirigir às pessoas para lhes explicar seu caso. Havia outras
ocasiões em que via as pessoas na rua como se estivessem fora de foco e então
esbarrava nelas balbuciando uma desculpa e seguindo em frente. Durante tudo aquilo,
ele tinha sempre a impressão de estar sendo seguido, e era sempre a figura de Jupp, o
sargento da
162
polícia, que lhe aparecia vigiando-o e esperando, com o rosto sem expressão mas hostil,
pelo fim inevitável. Ele se perguntava, vagamente, por que não o prendiam. Suas roupas
estavam sujas, seus sapatos furados, sua barba era de muitos dias. Os cabelos caíam-lhe
sobre a gola do casaco e os olhos não tinham mais expressão. Ele ficava pensando, no
meio da tonteira, se seria possível alguém morrer de fome naquela cidade tão grande e
tão próspera.
Era claro que havia as instituições de caridade, e então, afinal, arrasado demais para
sentir qualquer orgulho, ele apelou para aquele último recurso. Uma tarde, quando já
começava a escurecer, ele conseguiu arrastar-se até o Mercado do Milho, onde, num
pequeno espaço triangular, entre os trilhos da estrada de ferro, havia um caminhão com
uma chaminé e uma espécie de balcão onde já estava uma fila de mendigos esperando.
Às cinco horas em ponto, o balcão abriu-se mostrando no interior do caminhão uma
cozinha moderna. Um empregado de avental branco ficava atrás do balcão e entregava
uma tigela de sopa e um pedaço de pão a todos que se apresentavam numa fila ordeira.
Quando chegou a vez de Paul receber sua parte, a sopa muito quente percorreu suas
veias, fazendo-o renascer. Ele tomou a sopa e comeu o pão como um esfomeado e
depois saiu em silêncio.
No meio de toda a escuridão de sua vida, na sua luta desnecessária mas feroz pela
sobrevivência, aquela cantina gratuita tornou-se o ponto fixo de sua existência. Todos os
dias, ao anoitecer, fizesse bom ou mau tempo, ele estava sempre silenciosamente ali na
fila, onde ninguém falava. Simplesmente esperavam. Depois de comer, todos eles iam
saindo, voltando para as sombras, mas sempre em silêncio.
Então, depois de uma semana, mais ou menos, na noite de quartafeira, apareceu um
companheiro para o empregado de avental branco. Era um senhor com cerca de uns 50
anos, alto e desempenado, vestido de preto, com aparência sacerdotal, olhos escuros e
um sorriso bondoso. Paul reconheceu-o imediatamente. Era Enoch Oswald, e só então
percebeu que vinha freqüentando a Cantina Silver King. Realmente, logo que ele tirou o
chapéu preto de abas largas os seus cabelos brilharam como prata à luz das lanternas do
caminhão, mostrando o traço característico do homem que havia recebido aquele
apelido pelo qual era ".onhecido por todos os sofredores que recebiam sua caridade.
Sem chapéu, sempre com seu inefável sorriso nos lábios, ele percorria a fila devagar,
parava junto de cada um, sem olhar e sem falar, mas colocando-lhe na mão uma moeda
de um xelim recentemente cunhada. Quando Oswald chegou a seu lado e embora
estivesse com a cabeça baixa, Paul logo se deu conta de sua presença. Logo de saída,
sua emoção foi apenas de gratidão, mas, aos poucos, um outro sentimento foi-se
apossando dele, um desejo intenso e desvairado, fruto de seu desespero, para pedir a
ajuda daquele homem bom que
163
sentia necessidade de estender a mão aos mais necessitados e que, certamente, não
deixaria de vir em seu auxílio. Traído por Castles, atolado nas areias movediças da
baixeza humana, perdido e perseguido, ele precisava, diante de Deus, de alguém que
viesse em seu socorro disposto a apoiá-lo.
O desejo de falar, de se identificar e de explicar sua situação tornou-se irresistível. Ele
estava sem fôlego diante daquela oportunidade. Cada vez mais, depois de horas de
penosas meditações, Paul chegara à conclusão de que somente por intermédio de Louise
Burt ele poderia desvendar o mistério do assassinato. O rapaz tinha certeza de que ela
sabia. Ela estava ali viva e real, ao passo que o resto eram sombras, eram coisas
perdidas na escuridão dos anos. E ali, a seu lado, estava a única pessoa que, mais do que
ninguém, devido à sua posição e influência, poderia obrigar aquela infeliz mulher a
dizer o que sabia. Era claro que nas circunstâncias tristes em que ele se encontrava, e
que haviam contribuído para aquele encontro cara a cara, havia alguma coisa
providencial e predestinada.
Sentiu-se tomado de uma espécie de vertigem. No seu estado enfraquecido e nervoso,
aquela oportunidade repentina era demais para Paul. Foi assaltado por um espasmo na
laringe e as palavras lhe morriam na boca, e nem mesmo conseguia abri-la. Quando
sentiu que a cabeça já não girava mais, e já voltara a seu estado normal, seu benfeitor já
não estava mais ali. Ficou furioso maldizendo-se por sua fraqueza. Não tinha coragem
para procurá-lo em casa. Indagando com o empregado, ele ficou sabendo que o "chefe"
visitava a cantina todas as quartas-feiras e então teve a certeza que a oportunidade se
repetiria na semana seguinte. A moeda de prata continuava na sua mão como se fosse
um talismã.
Os próximos dias foram duros de aturar. No fim da semana, o frio aumentou. Os
nevoeiros consecutivos envolviam a cidade como se fosse uma praga. Nos crepúsculos
tristes o ar estava carregado com a fumaça de enxofre e Paul contraiu uma tosse
convulsiva. Nos intervalos de lucidez, o rapaz chegava a reconhecer que não agüentaria
mais.
Chegou então a quarta-feira e a esperança deu-lhe vida nova. •Chegou cedo e tomou seu
lugar na fila da cantina. A noite caiu rapidamente. Acenderam-se as lanternas do
caminhão e abriram o balcão. De repente, quando ainda estava ali na fila, ele sentiu que
havia alguém a seu lado. Só que não era a presença inspiradora de Oswald. Depois de
um momento, o rapaz levantou a cabeça. Era Lena Andersen que ali estava.
164
Capítulo in
Era isso mesmo. Ela ali se encontrava a seu lado sem dúvida alguma, mas ele estava tão
mudado que Lena chegou a ficar comovida. Ela quis fingir que o encontro era apenas
acidental.
- Ora essa... é você, Paul ?
Extremamente pálido, ele evitou olhá-la e não respondeu.
- Mas que surpresa... Vamos descer a rua juntos?
- Eu preciso esperar aqui - disse ele, após uma pausa.
- Por quê?
Ele sabia que Lena não entenderia, se lhe dissesse a verdade.
- Aliás, é aqui que eu como, e se sair da fila perderei minha ceia, e isso será ruim...
Ela sentiu um novo choque, vendo a maneira ausente que ele usava para responder.
- Estou justamente indo para casa, Paul. Venha comigo e nós comeremos juntos lá.
Ele voltou para ela seus olhos cansados. Havia no olhar da moça uma solicitude que só
servia para intensificar aquela dor perene que havia no coração dele.
- O melhor mesmo é você se afastar de mim, Lena - murmurou Paul.
Ela, porém, não desistia e continuava a olhá-lo.
- Venha, Paul... por favor...
Ele hesitou sem ter coragem, vítima de sua fraqueza e também porque precisava falar
com Silver King. Foi assaltado por uma onda de indecisão ae ficou completamente
tonto. Afinal, resmungou ao mesmo tempo que olhava para sua calça suja e rasgada e
para seus sapatos furados.
- Não posso andar a seu lado na rua deste jeito. Deixe... preciso ficar aqui mais meia
hora. Depois, eu irei até a sua casa...
- Você promete, Paul? Você vai mesmo?
Ele respondeu afirmativamente com a cabeça. Durante um momento, ela ficou ali
olhando-o muito aflita, mas logo afastou-se lentamente.
165
Ele deixou pender a cabeça e não a seguiu com o olhar, mas, de uma certa maneira,
aquela sua presença inesperada, no vasto oceano de rostos desconhecidos, servira para
restaurar suas esperanças de que, afinal, as coisas mudariam para melhor.
Começou a chover. Era aquela chuva impiedosa em diagonal que caracterizava o
inverno inglês. Paul, instintivamente, levantou a gola do casaco e acompanhou a fila que
seguia para o balcão a fim de receber as refeições, mas sempre atento esperando a
chegada de Enoch Oswald, o Silver King.
Naquela noite, no entanto, ele estava atrasado e ainda não tinha aparecido, quando
chegou a sua vez de receber a sopa e o pão no balcão, Paul estava aflito e olhava em
todas as direções, mas afinal não se conteve e falou com o empregado.
- O chefe está atrasado esta noite...
- Ele só vem amanhã... O próximo...
O desapontamento de Paul foi tremendo. Estava contando tanto com aquele encontro
que agora aquele novo adiamento, embora bem curto, deixava-o tonto. Os que estavam
atrás dele na fila reclamaram e ele saiu do balcão, mas ficou ali sem tomar a sopa ou
comer o pão. Ele ficou parado durante um instante olhando indeciso para o relógio do
mercado e depois saiu arrastando os pés sem destino definido.
Lena, porém, não tinha ido para casa e ficara escondida do outro lado da rua, na esquina
da praça, e veio a seu encontro.
- Venha comigo, Paul.
- Por uma questão de princípio... isto é, no domínio da pura lógica... bem... eu não sei
realmente se...
Ele agora falava de uma forma estranha e vaga, e aquilo deixou-a muito alarmada, mas
já não hesitava mais.
Segurou-o pelo braço e ele deixou-se levar, mas não pronunciou uma só palavra até
chegarem à casa, embora ela percebesse que seus lábios se moviam, de tempos em
tempos, como se falasse consigo mesmo. Uma ou duas vezes, ele olhou para trás.
Quando chegou em casa e subiu as escadas, ela estava ainda mais pálida do que antes,
mas suas maneiras eram firmes, e ao chegarem lá em cima, do lado de fora da sala dela,
Lena olhou-o de frente. Embora estivesse tremendo por dentro, sua expressão era firme.
- Você vai comer em um minuto, mas primeiro precisa mudar essa roupa.
Mostrou-lhe onde era o banheiro, abriu a torneira da água quente, deu-lhe um sabonete e
toalha junto com seus petrechos de barba e uma muda de roupa. Ele olhava com
estranha fixidez aquelas roupas limpas.
- De quem são estas roupas?
São suas mesmo. Deixe de perguntas e trate de se arrumar.
166
Enquanto ele estava no banheiro, ela acendeu a lareira da sala, foi até a kitchenette,
colocou duas frigideiras no fogão e arrumou a mesa às pressas. Quando Paul saiu do
banheiro com sua calça de flanela, camisa esporte aberta ao peito e bem barbeado, já
tudo estava quase pronto. Sempre calada, ela trouxe uma cadeira para a mesa, fez-lhe
sinal para sentar-se e colocou na sua frente uma vasilha com sopa.
Ele segurou a vasilha com as duas mãos, antes de ver a colher que ali estava em sua
frente. Mergulhou-a então na sopa grossa e suas mãos tremiam quando a levou à boca.
Depois que acabou a sopa, Lena deu-lhe um prato com ensopado de carne. Ele comia
em silêncio e tão distraído que nem mesmo notava que ela o observava. Ele estava
magro demais, embora o mais sério fosse a fixidez de seu olhar quando estava em
calma. Quando, afinal, acabou de comer, ele levantou a cabeça e suspirou, para logo em
seguida falar baixinho.
- Já fazia semanas que eu não comia uma coisa tão gostosa...
- Sente-se melhor agora? - Ela se levantou às pressas para esconder as lágrimas que lhe
desciam pelo rosto.
- Estou muito melhor. - O rapaz levantou-se como se pretendesse sair e parecia
obcecado com a idéia de ser preciso ir embora dali.
Abruptamente, ela pegou a cadeira dele e virou-a para a lareira. Quando viu que era
para ele aquela cadeira, Paul sentou-se com as mãos cruzadas e os olhos fixos nas
chamas da lareira. Vez por outra, com uma espécie de susto e assombro, ele olhava em
torno da sala apreciando a novidade e o conforto daquelas quatro paredes que o
cercavam.
Lena observava-o enquanto tirava a mesa e seus lábios estavam apertados como se
tivesse tomado uma decisão. A situação, em vista da ausência da senhoria, era
penosamente difícil. Mas ela estava resolvida a enfrentá-la. Quando acabou de lavar a
louça e arrumar tudo, ela desenrolou as mangas e saiu da sala. Dez minutos depois
voltou e foi até onde ele estava sempre olhando para as chamas da lareira.
Logo que a viu ali de volta, ele se levantou.
- Bem... já é tempo de eu ir andando...
- E para onde vai?
- Vou voltar para meu hotel.
- E onde é isso?
Ele tentou sorrir mas não conseguiu. Deixou cair os ombros e baixou a cabeça.
- Já que você quer saber, fica embaixo dos Arcos. Se não chegar cedo, não encontro
mais lugar e tenho que ficar ao relento... - Dizendo isso, ele soltou uma risadinha
divertida. - É bem desagradável quando a chuva começa a entrar pela gola do casaco.
- Nada disso. Você não vai sair daqui, Paul.
167
- Mas eu preciso ir, Lena. - Ele foi tomado de grande agitação. - Pois então você não
compreende? Não posso ficar a noite toda vagando pelas ruas. Onde está meu
sobretudo? Se eu não pegar meu lugar lá, onde é que vou dormir então?
- Aqui. É aqui mesmo que você vai dormir, Paul. A casa tem mais um quarto onde você
pode ficar. E o melhor mesmo é você ir logo para a cama.
Ela virou-se e saiu na frente para mostrar o caminho e então abriu a porta do quarto que
já tinha arrumado para ele. As cortinas vermelhas estavam corridas, a. lâmpada, acesa, a
lareira brilhava e as cobertas da cama confortável se achavam dobradas à sua espera.
O rapaz esfregava os olhos, lentamente, com as costas das mãos como se não
conseguisse compreender bem o que estava acontecendo.
- Realmente... comida... e uma cama. Como é que a gente pode expressar
adequadamente... Ainda falava aos arrancos e completamente tonto.
- Deixe disso, Paul... não diga mais nada... agora trate de cair na cama para descansar... -
Lena ainda falava com a voz alterada.
- Sim... É isso mesmo... descansar.
Enquanto estavam os dois ali, uma rajada de chuva fustigou os vidros das janelas. Paul
estremeceu instintivamente. Virou-se de lado para que ela não percebesse o tique
nervoso de seu rosto, entrou no quarto e fechou a porta.
168
Capítulo IV
l
Paul acordou quando a primeira luz do dia invadiu o quarto. Ficou ali deitado, quieto,
até perceber bem onde estava. Depois, ouvindo barulho no quarto ao lado, levantou-se e
vestiu-se depressa e foi para a cozinha. Lena estava lá arrumando a mesa para o café.
quando ele entrou, ela ficou muito vermelha. Passara a noite quase sem dormir
pensando nele que, finalmente, estava ali bem perto dela ao mesmo tempo que se
culpava pela liberdade que tomara com a senhoria ausente. Não obstante, a despeito das
dificuldades de sua posição, seu instinto lhe dizia que ela devia conservá-lo ali, longe
das ruas, custasse o que custasse, até que sua amiga voltasse. Serviu-lhe o café, um ovo
com torrada, e ficou olhando enquanto ele começava a comer. Paul não falava muito e
ela achou mais acertado manter-se em silêncio também. Finalmente, depois de tomar o
seu café, e sem dizer mais nada, como se sua presença ali fosse a coisa mais natural do
mundo, ela saiu para o seu trabalho no Bonanza.
Depois dela sair, Paul voltou ao quarto e ficou ali, vencido pelo cansaço, a maior parte
da manhã. Depois de tudo aquilo que sofrera, aquela sensação de abrigo, de segurança
transitória, dava-lhe uma boa oportunidade para pensar. Livre da miséria dos Arcos,
bem vestido e alimentado, ele sentia voltar-lhe a coragem, seu cérebro começava a
funcionar mais normalmente, com maior lucidez, e ele chegava à conclusão de que
precisava procurar o Sr. Oswald em sua casa.
Saiu do apartamento quando eram quatro horas. Era uma longa caminhada até lá e ele
viu-se obrigado a sentar-se num dos bancos do parque. Cerca de uma hora depois,
chegava ao lugar que evitara durante muito tempo.
De repente, ao atravessar a rua, ele cruzou com um homem que o olhou com
curiosidade, parou, e logo veio a seu encontro. Era Jack, o homem do bar que o olhou
surpreendido.
- Então é você, hem? Espere aí que tenho alguma coisa para lhe dar.
Aquelas palavras conseguiram romper a apatia de Paul. Ficou ali parado enquanto o
outro metia a mão no bolso para tirar uma carteira já bem usada e começava a procurar
alguma coisa lá dentro.
165
- Ah... Aqui está. Já faz duas semanas que estou com isto aqui. Foi Louise Burt quem
me pediu para lhe entregar...
O olhar esgazeado de Paul fixou-se no envelope sujo que o outro lhe estendia e,
imperceptivelmente, seu coração começou a bater descompassado. Estendeu a mão e
pegou no envelope, enquanto Jack o olhava com muita curiosidade.
- Você nunca mais apareceu por aqui...
- É sim... não tenho aparecido...
- Andou passando maus pedaços, hem?
- Não, não. Estou bem. - Paul falava quase automaticamente, sem poder desviar os olhos
do envelope e sentindo dentro dele um •estranho presságio ainda não muito definido.
Houve um silêncio, enquanto Jack continuava ali esperando, mas, afinal resolveu-se.
- Bem... preciso ir andando. Boa sorte para você...
Olhou ainda, inquisitivamente, para Paul, mas, afinal, deu de ombros e desceu a rua.
Enquanto o homem do bar descia a rua e desaparecia, Paul ficou ali de pé na luz
crepuscular, sem fazer um movimento, e passou a língua nos lábios pálidos. Com o
papel sujo apertado na mão ele correu até a primeira lâmpada da rua e abriu o envelope.
Levantando a carta para a luz muito trêmula, ele conseguiu lê-la.
Caro Sr. Sabichão. Já que você tentou me fazer de palhaça, conforme me disseram, esta
tem por fim comunicar-lhe que vou casar direitinho na igreja e então não preciso mais
de suas propostas e promessas. O Sr. Oswald arranjou tudo para mim e para o meu
marido e eu vou para a Nova Zelândia no mês que vem, junto com meu marido. Ele já
fez a mesma coisa antes com meu amigo Edward, que estava empregado aqui antes de
mim, e eu vou me encontrar com ele lá. Portanto, espero que você morra de inveja
sabendo que estou lá vivendo com luxo e conforto.
Louise Burt P.S. Você nunca me enganou. Tenho pena de você.
Paul levantou lentamente os olhos desiludidos. Afinal de contas, aquilo não era nada.
Mesmo assim, porém, estranhos pensamentos levantavam-se em seu espírito, como se
fosse um nevoeiro em cima •de um lago sujo. Com uma espécie de assombro doloroso,
ele flutuava no crepúsculo entre a realidade e a ilusão. A rua oscilava vagamente ali na
sua frente. Sentia a cabeça zunir. Então, como se seu espirito, adormecido naquelas
últimas semanas, houvesse recuperado, de repente, toda a sua lucidez, depois do
repouso que tivera, ele sentiu a força de um lúcido clarão. Os véus se abriam
lentamente.
170
Com um ombro caído e com o braço estendido para a luz trêmula da rua, ele tornou a ler
a carta estúpida e desprezível, tresandando a uma vaidade barata ofendida. Havia uma
frase vital, significativa e terrível que sobressaía como se tivesse sido escrita com letras
de fogo: o mesma coisa antes com o meu amigo Edward... que estava empregado aqui
antes de mim. Ali, naquela meia-luz, seu rosto mostrava uma rigidez que não era
natural, mas seus olhos brilhavam e o coração batia acelerado.
Sempre com a carta na mão, Paul agarrava-se ao poste de luz como se estivesse sendo
esmagado por um peso terrível. Por que nunca antes suspeitara aquilo? Com a cabeça
ainda girando, ele procurava recuperar a calma para reorganizar suas idéias ainda
tumultuadas.
Já fazia 12 anos que Louise era empregada na casa dos Oswalds. Isso em si, embora
raro, era um fato sem o menor significado, mas logo assumia uma importância capital
quando reunido ao fato de Louise Burt e Edward Collins terem sido ambos empregados
da casa ao mesmo tempo.
Como poderia ser que aqueles dois, as principais testemunhas contra seu pai, houvessem
encontrado emprego, ao mesmo tempo, na casa de Oswald? A filantropia poderia,
talvez, explicar tudo, mas aquilo não deixava de ser uma bondade exagerada que levava
o patrão a casar os dois e depois despachá-los para os confins do globo.
Paul sentia os nervos vibrarem e seu pensamento se focalizava em Oswald, alto e
imponente, com a cabeça grande mergulhada nos ombros altos e angulares, os olhos
escuros cheios de benevolência por baixo das sobrancelhas grossas e prateadas. Seria
possível que aquele homem bom estivesse envolvido de alguma forma no caso de seu
pai?
Os tentáculos de seus pensamentos se estendiam tateando e procurando, coordenados
com uma condição de alerta pouco natural. Ele não conseguia explicar a razão, mas
naquele momento exato toda a sua consciência parecia estar sendo arrastada e dirigida
para uma recordação extraordinária. Era o timbre da voz daquele homem que falara com
Albert Prusty no patamar escuro da escada daquela noite em que haviam ouvido a
tempestade de neve, o homem que era o dono de Ushaw Terrace.
Como um feixe de luz saído da escuridão, Paul foi assaltado por novas suspeitas, e
então empertigou-se numa crescente agitação. Era quase certo que encontraria Prusty
em casa, já que era quinta-feira, dia em que ele fechava a loja mais cedo. Ainda não
eram cinco horas. Ele tomou coragem e dirigiu-se para lá debaixo da chuva que caía.
171
Capítulo V
Vinte minutos depois, Paul estava batendo na porta de Prusty, na Ushaw Terrace 52.
Ninguém respondeu às primeiras batidas, mas depois de insistir a tampa da caixa do
Correio abriu-se para deixar passar a voz do velho.
- Quem é? Não posso receber ninguém agora... Paul curvou-se diante da fresta e deu-se
a conhecer.
- Estou com um acesso de asma - disse Prusty. - Vou para a cama agora mesmo. Volte
amanhã.
- Não. Não... Preciso falar com o senhor. É urgente...
Paul não se dava por vencido e então, finalmente, depois de muitos resmungos o velho
abriu-lhe a porta e deixou-o entrar no hall que estava muito quente e tresandava a pó de
estramônio que ele estava queimando. Prusty achava-se em mangas de camisa,
espirrando espasmodicamente ao mesmo tempo que olhava para Paul com o rosto
ligeiramente congestionado e uma expressão de zanga bem justificada.
- Mas que diabo quer você agora?
- Não vou levar mais de um minuto... eu só queria perguntar-lhe quem é o dono desta
casa. - Ele falava muito depressa e sentia a boca seca.
Ali naquela passagem estreita e muito quente, os espirros do velho pareciam suprimidos
com a surpresa. Olhou bem para Paul.
- Ora essa! Você me viu falando com ele naquela outra noite... esta casa é do Enoch
Oswald.
Ainda uma vez, Paul sentiu-se como se houvesse sido atingido por um martelo de gelo.
Encostou-se à parede para não cair.
- Naquela noite eu não percebi que era ele.
- Pois era... e continua sendo. Tudo isto aqui é dele. Era antes de seu pai. É um dos
maiores proprietários de Wortley e também um dos melhores. Já faz dez anos que ele
não aumenta os aluguéis. E ele trata muito bem de meu apartamento.
- E o apartamento lá de cima? Ele também o conserva direitinho? - O timbre de voz de
Paul era estranho e abafado.
172
- Mas claro! Ele demonstrou um bom sentimento de decência e respeito. Mas que diabo
está acontecendo com você, Paul?
- Não sei... O senhor ainda tem a chave ?
- Claro que estou com ela, mas também estou com asma. Não posso mais ficar aqui em
mangas de camisa. - Já estava começando a empurrar Paul para fora.
- Espere um pouco. O senhor me prometeu que me deixaria ver o apartamento lá de
cima. Quer me dar as chaves agora?
O rosto de Prusty mostrava bem como ele estava aborrecido com aquilo tudo. Esteve
quase recusando, mas só queria ver-se livre de Paul e então entrou na cozinha e saiu de
lá com as chaves na mão.
- Aqui estão. Agora deixe-me em paz. Bateu a porta com estrondo.
Paul ficou ali no patamar escuro ouvindo Prusty colocar a tranca na porta. Estava com
os olhos fitos na escada que levava ao andar de cima. Quando subiu o primeiro degrau
ocorreu-lhe uma idéia melhor e então ele parou, refletiu e enfiou as chaves no bolso.
Ainda não chegara a hora. Voltou-se e desceu a escada.
Chegando lá fora, levantou a gola do sobretudo para se proteger do vento cortante e
caminhou rapidamente. Uma terrível suspeita começava a se formar em seu cérebro que
fervilhava. Se estivesse mais calmo, ele consideraria aquilo uma rematada loucura.
Agora, porém, ele já não podia permanecer calmo e aquele pensamento que germinava
dentro dele ia crescendo de tal modo que já o sufocava. Oswald era o dono do
apartamento onde morava Mona quando fora assassinada. Uma vez que era ele que
cuidava pessoalmente de todos os seus prédios, ele devia vê-la pelo menos uma vez por
mês, quando ia receber o aluguel. Mas mesmo que a visita fosse com mais freqüência,
isso não seria de admirar. Ele era o proprietário e suas idas e vindas seriam consideradas
sempre tão razoáveis como as do carteiro ou do caixeiro do armazém que vinha trazer as
compras. Se Mona fosse mesmo sua amante, quem jamais suspeitaria a verdade? Se ele
a houvesse assassinado...
O rapaz foi assaltado por uma tremenda convulsão. Aquilo poderia ser uma loucura,
mas seu espirito torturado não o deixava em paz, porém, ao contrário, continuava a
persegui-lo, reunindo, como se fosse uma estranha cadeia, todas as ações daquele
homem muito rico, Até mesmo sua caridade pública parecia uma farsa, ou melhor, uma
forma de necessidade de perdão que sentia sabendo-se culpado.
Quase correndo agora, Paul chegou ao centro da cidade e, qu .e sem fôlego, entrou na
biblioteca, onde, meses antes, começara sua busca.
Mark já não estava mais ali, e em seu lugar havia uma moça que o atendeu com
delicadeza inteligente, quando percebeu sua pressa.
173
Ela lhe trouxe uma quantidade de livros e levou-o para uma das mesas onde ele logo se
pôs a folhear febrilmente as páginas.
O primeiro volume, que era a última edição do Whos Who, continha apenas ligeiras
informações condensadas de ascendência, títulos oficiais e o atual endereço de Enoch
Oswald. Os dois seguintes eram iguais e não serviam para o que ele queria. Um quarto
volume fornecia apenas uma longa lista de fundações patrocinadas por sua família.
Finalmente, porém, numa edição local em brochura publicada por uma firma de Wortley
sob o título Worthy and its Notables, Paul, com um suspiro de satisfação, encontrou a
biografia completa do mais importante filantropo da cidade. Avidamente, com a
velocidade de um relâmpago, ele passou por cima dos parágrafos convencionais e
elogiosos.
Enoch Oswald, nascido em 13 de novembro de 1885, filho único de Saul Oswald e
Martha Cleghorn... Curso primário em Wortley e Universidade Nottingham... Ia seguir
uma carreira profissional, mas, por motivos de saúde, e depois de dois anos no Hospital
St. Mary, foi obrigado a abandonar seus estudos de medicina...
Paul sentiu um arrepio quando percebeu o significado das últimas palavras, mas
continuou a ler, embora mal pudesse respirar.
Depois disso... ingressou nas atividades comerciais de seu pai... muito prósperas e
antigas... com muitos imóveis em Eldon... começou exemplarmente por baixo como
recebedor dos aluguéis semanais e mensais... Apesar de freqüentes ataques de
indisposição, o jovem Oswald não era um maricás... mostrava-se interessado em
esportes ao ar livre... particularmente o ciclismo... e por alguns meses... foi um dos
membros mais ativos do Clube dos Gafanhotos, o qual, aliás, durou muito pouco.
A descrição continuava, mas as palavras já estavam muito borradas e Paul não
conseguia lê-las. Recostou-se completamente estarrecido. Entre as sinistras reflexões
que saíam como torrente do cérebro de Paul ele sabia muito bem o que teria a fazer logo
a seguir. Com seu supremo objetivo exposto ali diante dele, já não havia mais tempo
para hesitações ou cerimônias. Cheio novamente de uma energia sobrenatural, afastou a
cadeira com barulho e, deixando os livros espalhados em cima da mesa, saiu apressado
da biblioteca.
174
Dez minutos depois, Paul chegava na casa onde Lena morava e foi ela mesma quem lhe
abriu a porta. Então, no mesmo momento em que ela o recebia com um sorriso, Paul
falou de uma maneira que a deixou assustada.
- Lena... preciso de sua ajuda... imediatamente.
17?
Capítulo VI
Ainda ali de pé na entrada do apartamento, sem dar atenção às perguntas dela nem às
suas solícitas atenções, Paul explicava-lhe detalhadamente o que ela teria que fazer. As
palavras custavam tanto a sair-lhe da boca e seu ar era tão estranho que ela chegou a
desconfiar de que ele não estava bom da cabeça. A despeito da aflição dela e do
aparente absurdo de seus pedidos, havia nas maneiras dele alguma coisa tão profunda e
terrível que ela se via forçada a obedecer-lhe. Ela foi à cozinha e voltou com uma caixa
de papelão, papel pardo, barbante, e um pedaço de lacre. De seu quarto, trouxe um
velho caderno de notas com algumas folhas em branco.
Ali no hall meio escuro, com a mão apertada a seu lado, ela viu quando ele,
metodicamente, embrulhou a caixa, amarrou-a e selou-a com o lacre vermelho.
Depois ele pegou no caderno de notas, escolheu uma folha limpa e escreveu nas seis
primeiras linhas nomes e endereços.
- Mas, Paul, pelo amor de Deus, o que você está fazendo? Ele hesitou. Era possível que
sentisse uma ligeira desconfiança
de que aquilo que estava fazendo parecesse fantástico, mas o choque tinha embrutecido
seus processos mentais, e então, tendo elaborado seu plano, ele se agarrava a ele
tenazmente. Só lhe era preciso agora descobrir uma coisa a mais. Só uma coisa.
- Explico depois. Agora vamos sair.
Ela estava ali ao lado dele sem saber o que fazer, já que seus sentimentos eram
desencontrados. Não sabia se devia ou não obedecer. Pensava então que talvez naqueles
preparativos triviais e sem sentido houvesse alguma coisa de importante.
- Não se preocupe, Lena. É tudo muito simples.
- Pode ser simples ou difícil, farei o que você quiser, Paul. Olhou-a e depois explicou-
lhe direitinho o que ela teria que
fazer.
- Compreendeu bem?
- Acho que compreendi... Mas, Paul... não há nada no embrulho...
Os olhos dele mostravam um brilho estranho.
176
- Não há nada... mas talvez haja tudo. - Olhou para o relógio na parede que marcava
cinco minutos para as nove. - É melhor irmos andando. Você está pronta? A coisa toda
não vai levar nem meia hora...
Saíram juntos e caminharam em silêncio pela Rua Ware na direção de Lanes, dobraram
à direita na Northern Road, e depois saíram por uma passagem que era conhecida como
Weavers Alley. No fim do beco, ele parou e ficou olhando à procura do triângulo onde
ficava o Mercado do Milho. A cantina já estava aberta e a fila já se movimentava. Ficou
todo arrepiado quando viu que Oswald já tinha chegado. Ele estava ali ao lado do
trailer, bem visível à luz do poste com os cabelos prateados brilhando como se fossem
uma auréola naquela luz crepuscular.
Instintivamente, Paul recuou para um ponto mais escuro do beco. Bem no fundo de seu
espírito ele estava convencido de que Oswald conhecia sua identidade e por isso ele
achara melhor não se mostrar a fim de não sacrificar a validade daquele teste crucial.
Durante muito tempo, ele ficou ali imóvel até que, com um imperceptível movimento
do braço, ele fez com que Lena fosse até a cantina.
A moça cruzou a rua com passos firmes e aproximou-se de Silver King. Paul estava
com a garganta cada vez mais seca. Inclinouse com os olhos quase saltando-lhe das
órbitas e o corpo completamente rígido. Viu quando Lena falou com ele e quase podia
saber o que lhe dizia pelo movimento dos lábios dela.
- Sr. Oswald?
O homem voltou-se para ela, inclinando a cabeça com dignidade.
- Recebi ordens para lhe entregar isto aqui, senhor.
Como era perfeito o desempenho de Lena! Que calma! Que compostura! Paul
suspendeu a respiração, quando ela lhe entregou o embrulho e lhe apresentou o caderno
para o recibo oferecendo-lhe o lápis.
- Assine aqui, senhor, por favor... Oswald já tinha o lápis na mão.
O lápis já estava agora na mão dele. O momento se prolongava de forma quase
insuportável e o silêncio era tão grande, tão rígido e tão fora do natural que Paul tinha a
impressão de que ele lhe iria arrebentar os tímpanos. Então, Oswald assinou o caderno
de notas. Paul soltou um profundo suspiro. Lena já estava de volta caminhando firme e
sem pressa. Chegou até onde ele estava e os dois foram embora com os passos abafados
na escuridão do beco deserto.
177
Capítulo VII
Paul jamais soube como conseguiu voltar para casa. Não falou durante todo o percurso e
caminhava como um cego, com a cabeça baixa quase à beira de um colapso físico. Logo
que chegaram, o rapaz sentou-se dominado por um único pensamento. Sentia uma
tremenda dor de cabeça e era assaltado por ondas de calafrios. Oswald era canhoto.
Enoch Oswald, antigo estudante de anatomia, sócio do Clube dos Gafanhotos, recebedor
de aluguéis, dono de Ushaw Terrace 52, era o homem. A descoberta sufocava-o e
cegava-o com a intensidade de sua luz. Ele não podia agüentar aquilo sozinho. Com os
cotovelos fincados na mesa, ele segurava a cabeça com as duas mãos.
- Lena... preciso contar-lhe uma coisa...
Ela estava muito pálida, mas a sua expressão era de firmeza. Deu-lhe um prato de sopa
que estava fumegando na panela e insistiu para que ele a tomasse.
- Ainda não, Paul...
Depois que ele acabou, Lena sentou-se na sua frente.
- Agora pode contar, Paul...
Houve uma pausa. Depois, levantando a cabeça, ele começou a falar contando-lhe tudo
enquanto ela o ouvia com atenção. Embora sua voz fosse baixa e trêmula, seus modos
deixavam ver sua tremenda amargura.
- E então agora eu já sei de tudo. Sei de tudo mas não sei o que fazer. Nada há que eu
possa fazer. A quem devo procurar? Não há ninguém. Quando não me ouviram antes, o
que você acha que eles vão fazer agora, se eu voltar a procurá-los? Sprott, Dale ou até
mesmo Birley? Não existe justiça. Aqueles que se sentem confortáveis, que podem
comer, beber e gastar dinheiro à vontade e que contam com um bom teto, pouco se
importam para saber o que está certo ou errado. O mundo inteiro está podre...
Seguiu-se um rígido silêncio. Lena estava profundamente comovida e sacudia
lentamente a cabeça.
178
- Não, não está, Paul. Se as pessoas soubessem a verdade... Ninguém permitiria que isso
acontecesse... As pessoas comuns são sinceras... e bondosas.
Paul olhou-a com incredulidade.
- E sua experiência prova isso?
Ela ficou vermelha e fez menção de falar, mas então, como se não tivesse certeza do que
pretendera dizer, ficou calada. Logo depois, porém, respirou fundo e tomou coragem.
- Paul, não sou muito esperta, mas acho que sei o que você deveria fazer...
Ele ficou olhando para ela com se a interrogasse.
- Isso mesmo. Conheço uma pessoa que você deveria procurar ...
Ele repetiu as palavras dela, com incredulidade, antes de completar :
- E quem é?
Ela hesitou e seu rosto estava muito vermelho.
- Bem... é um amigo meu.
- Um amigo seu ? Um amigo... - Ao repetir as palavras dela, o rapaz as achava tão fora
de propósito, tão impossíveis à vista de seu tremendo dilema, que um sorriso doloroso
aflorou-lhe ao rosto. Um amigo de Lena! Depois de todos os seus esforços, depois de
tudo que ele tentara fazer, aquela solução ingênua parecia-lhe tão ridícula que,
inesperadamente, num acesso de completa histeria, ele soltou uma tremenda gargalhada.
Por mais que fizesse não conseguia contê-la e, antes de saber o que estava acontecendo,
toda aquela angústia que lhe enchia o peito explodiu em soluços sufocantes. A moça
levantara-se e estava olhando para ele, profundamente aflita mas com medo de, até
mesmo, colocar-lhe a mão no ombro. Quando, afinal, ele se acalmou, Lena conseguiu
falar.
- Você agora precisa descansar. Amanhã nós falaremos outra vez.
- Amanhã. - Ele repetiu a palavra com um timbre estranho e desesperado. - Sim, sim...
amanhã muitas coisas podem acontecer.
Sozinho, no mesmo quarto que já ocupara na véspera, Paul sentou-se na beira da cama.
Sentia a cabeça escaldando e seus pés estavam frios. Sentia, vagamente, que apanhara
um resfriado, mas aquilo não tinha a menor importância. Na verdade, seu espírito ficava
mais lúcido à medida que seu resfriado piorava. Via com a máxima clareza todas as suas
fúteis tentativas até aquele momento. Via também que a situação iria continuar da
mesma forma, a não ser que ele descobrisse um meio para precipitar uma crise. A
necessidade de uma ação decisiva e ostensiva crescia dentro dele como se fosse um
grande rio em vésperas de inundar suas margens. Naque179
la estranha urgência de seu espírito, o equilíbrio natural e o bom senso tinham
desaparecido e haviam sido suplantados por um acesso de loucura audaciosa. Ele queria
ir para o meio da rua, levantar os braços e gritar aos quatro ventos toda a iniqüidade de
que estava sendo vítima.
Ao pensar naquilo, um brilho quase irracional lhe iluminou os olhos. Levantou-se então,
e depois de verificar que a porta estava fechada com a chave, ele foi até a escrivaninha
que estava no canto do quarto e tirou todas as folhas de papel branco que forravam as
gavetas. Esticou o papel no chão e apanhando caneta e tinteiro ajoelhou-se e começou a
escrever em letras maiúsculas. Ele sempre tivera um talento especial para pintar, e
então, dentro de mais ou menos uma hora, tinha acabado apesar de a mão lhe tremer
muito e de a vista não estar muito clara. Deixou os papéis no chão para secarem e então
estirou-se na cama completamente vestido.
A despeito do projeto que lhe queimava o cérebro, Paul conseguiu dormir
intermitentemente e sempre com aquela mesma sensação de febre lhe correndo nas
veias. Eram cerca de sete horas quando acordou assustado. A dor de cabeça aumentara,
mas aquilo apenas servia para reforçar seu intento. Apanhou as folhas de papel, enrolou-
as, passou pela porta do quarto de Lena e saiu de casa.
Já quase não chovia, quando ele caminhava apressado descendo a rua e a manhã estava
clara e fresca como se ainda fosse madrugada. Ao chegar à guarita do vigia, do outro
lado de Dukes Court, ele parou. Viu que tinha algumas moedas no bolso e então pediu
café com pão e margarina e aquilo animou-o um pouco, mas tinha dado apenas alguns
passos quando se sentiu assaltado por um intenso enjôo, e então se inclinou na sarjeta e
vomitou.
Lá no fim da rua, o terreno da Companhia de Cartazes Lanes estava deserto, já que era
ainda muito cedo. Ele conseguiu esgueirar-se por uma brecha da cerca de madeira já
podre, onde, tantas vezes, ficara na fila à espera do seu cartaz junto com seus outros
companheiros. Lá dentro as armações duplas dos cartazes estavam todas alinhadas num
telheiro. Paul escolheu a mais nova delas e depois, valendo-se dos potes de goma que ali
estavam, colou as folhas de papel que tinha trazido de casa. Já ia enfiar-se dentro dos
cartazes quando viu, atiradas num canto e cheias de ferrugem, as correntes que haviam
sido usadas pelo ilusionista Houdini quando se exibira recentemente no Teatro Palace.
Sem hesitação, já que agora nem sabia o que fazia, ele apanhou a que lhe pareceu
melhor, encontrou um cadeado ainda em boas condições, e cinco minutos depois, com a
corrente enrolada ao corpo e enfiado nos cartazes, ele saiu do terreno.
O relógio da Catedral batia as oito horas, quando ele chegou de volta à Rua Ware e
começou a caminhar para o centro da cidade.
180
O movimento intenso do dia já tinha começado. As multidões saltavam dos ônibus e
saíam das escadas do metrô caminhando para seus destinos, mas eram poucos os que
davam atenção àquele rapaz com um cartaz nas costas dizendo
ASSASSINATO: O INOCENTE CONDENADO
e na frente
ASSASSINATO: O CULPADO EM LIBERDADE
Se alguém dava atenção àquilo, a idéia que logo ocorria era que se tratava de uma
inteligente campanha de propaganda com um slogan que calava no espírito do povo,
deixando as pessoas intrigadas durante semanas até chegar a hora de desvendar o
mistério.
Eram nove horas e ele continuava caminhando ao longo das sarjetas, olhando firme para
a frente com um rosto sem expressão e segurando o pesado cartaz com as mãos rígidas.
Paul desejava evitar um encontro com a polícia e por isso evitava os cruzamentos onde
havia sempre um policial de serviço. Uma ou duas vezes ele teve a sensação que estava
sendo observado, mas a sorte parecia protegê-lo e ninguém o deteve.
A manhã já ia avançada e ele começava a sentir-se fraco, mas, como a parte mais
importante de seu plano ainda não fora realizada, já que aquele desfile era apenas um
prelúdio para a intenção principal, ele não queria desistir. Ensurdecido pelo barulho do
tráfego, enlameado pela água espalhada pelas rodas dos veículos, ele continuava
marchando, mas não conseguia dominar a fraqueza cada vez mais forte que se
apoderava de seu corpo, e houve mesmo instantes em que chegou a cambalear.
Já na parte da tarde, uma onda de curiosos começou a segui-lo. Eram em sua maioria
vagabundos e desempregados, a escória da cidade, alguns mensageiros e cachorros
esfomeados que ladravam. No princípio ele fora perseguido por caçoadas e epítetos
vulgares, mas como não lhes dava atenção e continuava em silêncio, eles foram
desistindo das piadas mas continuavam a acompanhá-lo, intrigados mas instintivamente
certos de serem recompensados. Pouco depois de uma hora da tarde, o desfile chegou à
Praça Leonard e ali, afinal, ele descansou ao lado da estátua de Robert Greenwood, que
fora o primeiro Prefeito de Wortley. Saiu para fora dos cartazes deixando-os ali na
calçada e depois, apertando os pulsos com a corrente, ele prendeu-se na grade da estátua
com o cadeado que levava. Os que ali estavam soltaram uma exclamação de espanto e
imediatamente, já que era a hora do almoço, a multidão aumentou em torno dele. Paul
percebeu que já havia ali quase 100 pessoas.
Com a mão que tinha livre, Paul afrouxou a gravata que o sufocava. Não estava com
medo nem se achava excitado. Apenas
181
sentia uma desesperada urgência para apresentar seu caso perante os cidadãos de
Wortley. Ali estava agora a sua grande oportunidade. Lena já lhe dissera que a gente
comum era cheia de bondade e ele jamais teria uma melhor oportunidade para se
certificar disso, e para tentar convencê-los. Se, apenas, sua dor de cabeça passasse. Pior
ainda do que ela era a náusea e a sensação de irrealidade que o invadia como se seus pés
estivessem em cima de balões que flutuavam às tontas no ar. Passou a língua nos lábios
rachados, e começou seu discurso.
- Meus amigos! Estou aqui porque tenho alguma coisa para lhes dizer... alguma coisa
que vocês precisam saber. Meu nome é Mathry e meu pai está na prisão...
- Você também vai acabar lá se não se cuidar, meu chapa... A interrupção provocou
risadas, e Paul esperou que elas acabassem.
- Ele já está na prisão há quinze anos por um crime que não cometeu.
- Ora, deixe disso. Vá contar isso para os trouxas... Vieram, de novo, as gargalhadas,
mas desta vez ouviam-se
também gritos de "Silêncio", "Vamos dar ao pobre coitado uma oportunidade..." "É
preciso que haja jogo limpo".
- Eu tenho as provas todas da inocência de meu pai, mas não encontro quem me dê
ouvidos...
- Nós também não podemos fazer isso, meu chapa, se você não falar logo dizendo o que
há.
- É isso aí. Fale logo, fale logo!
Paul engoliu em seco. Ele percebia vagamente que, por mais que se esforçasse para falar
alto, sua voz lhe saía da garganta fraca e rouca. Fez então um esforço sobre-humano.
- Há quinze anos meu pai foi condenado por assassinato com base apenas em provas
circunstanciais, apesar de não ser ele o assassino ...
O vira-latas que vinha acompanhando Paul com persistência começou a latir.
- Eu repito... não foi ele quem cometeu o crime! E a prova disso...
O cachorro agora já latia tão alto, rosnava e mordia-lhe os pés que Paul não conseguia
fazer-se ouvir. Depois, enquanto ele fazia uma pausa, o animal, sem dúvida encorajado
pela aprovação dos que ali estavam, saltou, de repente, em cima dele. Paul cambaleou e
quase foi ao chão. Enquanto procurava agarrar-se, ainda tonto, às armações dos
cartazes, a multidão começou a resmungar.
- Está de porre...
- Está pensando1 que nos pode fazer de trouxas!
- Fora com o cachaceiro...
182
Uma casca de banana saiu da multidão e bateu-lhe em cheio no rosto. Aquilo foi o sinal
para uma fuzilaria de pedaços de pão e restos de comida. Seguiram-se restos de maçãs,
mas, na mesma ocasião, dois policiais romperam a multidão, e um deles era o Sargento
Jupp.
- O que está havendo aqui? Pois então não sabe que está perturbando a ordem?
Paul olhou para aquelas duas figuras azuis um tanto fora de foco, mas, vagamente,
reconheceu Jupp. Já chegara ao fim de suas forças. Abriu a boca para se justificar, mas
as palavras não saíam. A multidão se apertava em torno dele cada vez em maior
número.
Uma voz de quem procura agradar veio do meio da multidão.
- Ele está de porre, sargento. Está dizendo uma porção de tolices...
- Você afinal conseguiu o que queria. Eu estava só esperando por isso. Venha conosco...
O sargento pegou Paul pelo braço e tentou fazê-lo atravessar a multidão. Como
encontrasse resistência, ele puxou com mais força quase deslocando o pulso de Paul,
antes de perceber a corrente. Ficou muito vermelho e encabulado. Resmungou, então,
para o companheiro.
- Ele se acorrentou ali. Acho que vai ser preciso vir o carro.
Os dois estavam zangados e procuravam soltar Paul de qualquer maneira, puxando-o de
um lado para outro, enquanto a multidão se comprimia em torno. Chegou mais um
policial que logo começou a apitar. Todo mundo parecia empurrar e gritar ao mesmo
tempo, o trânsito engarrafou e houve uma confusão geral. Tinha chegado o momento
esperado por ele como o ponto alto de sua resistência. Era o momento para lançar o seu
apelo apaixonado, e então tentou gritar.
- Meus amigos... só estou pedindo justiça. Um homem inocente ...
Um dos policiais tinha conseguido arrebentar a corrente com um golpe de cassetete.
Paul foi levado para o carro policial que já estava ali e que logo disparou para a
delegacia. Dentro de sua insensibilidade, ele não percebia o que estava acontecendo até
ser atirado para o interior de uma cela. Sua cabeça bateu com toda a força no piso de
cimento, mas aquilo não fez diferença diante da tremenda dor de cabeça que sentia,
porém, em lugar disso, serviu para despertá-lo do estado de inconsciência em que se
encontrava. Soltou então um gemido que não agradou aos três policiais que ali estavam
consideravelmente chateados com o trabalho que ele lhes dera.
- O porquinho já se está recuperando do porre...
- Nada disso - falou o Sargento Jupp. - Ele não está de porre.
183
O terceiro policial, um cara grandalhão, ainda estava vermelho e furioso. Na confusão,
alguém lhe dera um pontapé na barriga.
- Seja lá o que for, ele não vai-se livrar dessa depois que me agrediram...
Abaixou-se, segurou Paul pelo pescoço e colocou-o de pé como se fosse um saco de
farinha. Depois, fechando a mão, assentou-lhe um soco entre os olhos. O sangue
espirrou de seu nariz e ele desabou no chão onde não se mexeu mais.
Jupp não gostou daquilo e repreendeu-o friamente.
- Você não devia ter feito isso. Ele vai receber o bastante... e não demora muito para
isso acontecer.
Quando a porta da cela bateu com estrondo deixando lá aquele corpo encolhido, o
policial mais novo riu meio sem jeito.
- De qualquer forma - disse, talvez procurando acalmar sua consciência - foi ele mesmo
quem pediu.
184
Capítulo VIII
A tarde já ia bem adiantada quando Paul, de uma maneira ainda incerta, percebeu onde
estava. Ficou ali deitado durante muito tempo olhando para a única luz que havia no teto
da cela e devidamente protegida. Depois, arrastando-se de joelhos, foi até um jarro que
havia num dos cantos perto da cama que era apenas uma prancha de madeira. Inclinou o
jarro, bebeu um gole de água e molhou a cabeça inchada. A água era fria e refrescante,
mas quase imediatamente ele sentiu o calor em seu rosto.
Com muita cautela conseguiu sentar-se na prancha. A cabeça já não lhe doía tanto, mas,
para sua surpresa, estava encontrando dificuldade para respirar. Ele via-se obrigado a
respirar aos poucos mas aquilo não era muito inconveniente.
De repente, quando se acomodava para se adaptar à nova situação, a porta da cela abriu-
se e um homem entrou. Apesar de seus olhos inchados, Paul logo o reconheceu como o
Chefe de Polícia de Wortley.
Dale ficou ali muito tempo olhando para ele sem dizer nada, como se estivesse
examinando bem suas condições. Em contraste com o encontro anterior, as suas
maneiras eram desligadas e sua expressão estranhamente sombria. Quando falou, sua
voz era baixa e calma.
- Então, afinal de contas, você não quis seguir meu conselho. Se bem me lembro, eu lhe
disse que voltasse para casa. Mas não, achou que meu conselho não era bom. Preferiu
continuar aqui para criar mais problemas. E agora aqui está você, justamente como lhe
disse, somente pior, muito pior...
Houve uma pausa.
- Você, semi dúvida, pensou que era muito esperto. Conseguiu embrulhar o meu
sargento e andou por aí todas essas semanas sem ser descoberto. Não se engane, meu
amigo. Durante todo esse tempo, você conseguiu sobreviver graças a mim. Eu poderia
ter prendido você a qualquer momento. Mas, de certa forma, e até mesmo contra minha
vontade, eu lhe queria dar mais uma chance, mas você não quis aproveitá-la.
185
Dale apertou a boca.
- E então você agora está aí num estado bem triste, pelo que posso ver. Pode ser que
meus rapazes tenham sido um tanto brutos, mas... não ligue muito para isso. É o que
acontece quando alguém resiste a uma ordem de prisão. A culpa é só sua.
Seguiu-se um novo silêncio e até parecia que o Chefe de Polícia queria dar a Paul uma
oportunidade para dizer alguma coisa. Talvez, até mesmo, ele se comprometesse mais
com alguma palavra mal escolhida. No momento em que vira Dale entrar na cela, Paul
se prometera a não dar uma palavra. Sua oportunidade viria mais tarde, quando
comparecesse perante o juiz. Ele ouvia, num estranho silêncio, tudo que Dale lhe dizia.
Chegava a parecer desligado.
- E o que acha que vai acontecer com você agora? Talvez esteja pensando que vai-se
safar apenas com mais alguns conselhos, mas não acho que isso vai acontecer. Creio
que a hora dos conselhos já passou. Você teve sua oportunidade e não soube aproveitá-
la. Agora está-se metendo em coisas que não são da sua conta, perturbando a
comunidade, chateando cidadãos decentes e policiais e, até mesmo, membros do
Parlamento, mas, além de tudo isso, é a mim que você anda chateando. Isso, aliás, não
faz diferença. Sei onde piso. É só em pedra sólida. Mesmo assim, porém, isso já me
encheu. Já estou farto de sua persistência e de sua insinuação que andei errado. Agora,
tenho um pressentimento curioso que chegou a hora de você pagar por tudo isso. Agora
foi você quem errou. Amanhã cedo você vai comparecer perante o magistrado. Não me
surpreenderia se ele levasse a sério o seu caso e se estabelecesse uma fiança bem alta...
talvez umas cinqüenta libras... O que você acha ? Claro que não vai poder conseguir
essa quantia, não é mesmo? Não, acho que não conseguirá mesmo. - Sacudiu a cabeça
como se aquilo fosse uma sátira silenciosa. - Isso quer dizer que você será mandado de
volta para aqui... E você tem uma celazinha bem boa aí à sua espera. É pena que não
tenha boa vista para o exterior... mas tem tudo mais que precisa. Só espero que goste
dela, porque tudo indica que você vai ficar muito tempo por aqui.
Durante mais uns momentos, os seus olhos apertados ficaram olhando para Paul, mas
depois o policial fez meia-volta e foi-se embora.
Logo que saiu da cela a expressão no rosto de Dale tornou-se diferente. Franziu bem a
testa. Achava que na D se saíra bem. Era como um ator que houvesse representado mal
o seu papel- e sentiase contrariado por isso. Mas que diabo poderá ele ter feito senão
aquilo mesmo? Ele recebera um recado urgente de Sir Matthew dizendo-lhe que
telefonasse para ele no tribunal, mas antes de fazer isso ele queria estar em condições
para lhe dizer que falara com o preso.
186
Ao entrar em seu gabinete particular e sentar-se em sua mesa, seu rosto mostrava uma
preocupação maior. Por mais empedernido que estivesse com todos os tipos de
problemas e trapalhadas, com o sórdido emaranhado das coisas humanas, resultantes da
vida de crimes, ele não gostava de ver aquilo surgir novamente e cair em suas mãos
fazendo com que ficasse com o estômago embrulhado. Ele desejava ardentemente que
aquele jovem louco houvesse ouvido os seus conselhos e houvesse voltado para casa
naquelas últimas semanas. E, mais uma vez, aquela pergunta incômoda vinha-lhe do
mais remoto canto de seu espírito, parecendo mais um sussurro do que uma pergunta:
"Haverá nisso tudo alguma coisa... afinal de contas ?"
Atirou a cabeça para trás zangado como se fosse um touro provocado. Não, por Deus,
até onde podia saber, não havia nada. Ele se conhecia bem. Podia apresentar uma ficha
de absoluta honestidade, de integridade sem mácula, em condições de resistir aos mais
severos exames. Não era como muitos outros, que poderia citar, e que estavam sempre
dispostos a transigir com suas consciências. Sua divisa sempre fora Ninguém pode
mexer no piche sem sair sujo. Suas mãos estavam limpas.
Mesmo assim, ficou olhando para o aparelho durante muito tempo antes de se resolver a
pegar no fone. Discou o número devagar com se estivesse em dúvida. Quem atendeu foi
Burr, o auxiliar, mas logo ao mesmo tempo a voz de Sprott estava na linha.
- Alô! Alô! É o senhor, Sir Matthew?
Imediatamente, Dale ouviu o clique que significava estar o aparelho de Sprott em linha
direta e desligado dos outros. Ouviu então aquela voz suave e amistosa embora zangada.
- Qual é a razão para esta nova mancada?
- Que mancada, Sir Matthew?
- Você sabe bem o que quero dizer. Essa trapalhada de hoje lá na praça. Pois então eu já
não lhe dei instruções específicas a respeito desse indivíduo?
- As suas instruções foram executadas...
- Mas então como foi que isso aconteceu? Uma palhaçada em público! Justamente o que
eu queria evitar! Você deve ter condições para, de vez em quando, usar um pouco sua
inteligência.
Dale procurava conter-se. Não podia dar-se ao luxo de estrilar.
- Não foi coisa fácil para nós, Sir Matthew. Quem era que poderia imaginar o que esse
jovem idiota ia fazer? Nós o vigiamos até onde era possível. Encarreguei disso um dos
meus melhores homens. Só não o prendemos porque o senhor recomendou-me que não
o fizesse. Desta vez, porém, ele exagerou. Vai pegar uns seis meses, sem dúvida
alguma...
- Não seja tolo.
187
Seguiu-se um silêncio estranho e quando Sir Matthew continuou sua voz já estava mais
macia e mais razoável.
- Olhe aqui, Dale. Você estava certo quando usou a expressão idiota. Parece não haver
dúvida que esse rapaz é um psicopata.
Dale, para poder controlar-se, vinha desenhando coisas no seu mata-borrão, mas parou,
de repente, e ficou com os olhos fitos na parede que estava à sua frente.
- Então, se for assim - a voz de Sprott continuava muito mansa - ele se torna
imediatamente passivo, não de punição judicial com julgamento, mas sun de uma
internação numa dessas instituições destinadas à terapia das aberrações mentais...
- Um manicômio? - indagou Dale, alarmado. Sprott soltou uma exclamação de
aborrecimento.
- Meu caro Dale, pois então você não sabe que essas expressões incômodas de
manicômio, lunáticos, loucos já passaram de moda no linguajar civilizado? Classificar
dessa forma a nossa admirável instituição em Dreem seria quase um insulto
injustificável.
- Ah! Dreem! - Dale repetiu aquilo falando baixinho mas o timbre de sua voz era
indescritível.
- Naturalmente, vamos classificá-lo como louco! Só que, para isso, precisamos de
alguns dados. Fale-nos a respeito dele, Adam. Você acha que suas maneiras são
estranhas, fora de propósito e excêntricas ?
- Acho que realmente poderiam ser...
- E os seus amigos? Será que tem alguém para cuidar dele?
- Ele tem a mãe... e uma namorada em Belfast, mas parece que já se cansaram dele.
Ultimamente ele tem vivido nas ruas bastante solitário.
- Pobre rapaz... Tudo indica que ele deve mesmo ser internado. Deve apresentar-se ao
juiz amanhã cedo, não é mesmo?
- Vai sim. Não se pode evitar isso. - A voz de Dale já estava mais dura.
E a voz de Sprott não demonstrava mais pena. Já não havia mais aquela untuosidade e
sua resposta atingiu Dale como se fosse uma facada.
- Só quero uma solução que sirva para nós dois. - Agora já não havia mais dúvidas para
saber quem era o mais forte. Ele continuou mais calmo. - Acho que Battersby, é um
homem muito sério.
Dale continuava falando naquele mesmo tom que não lhe era natural.
- E é mesmo. Se ele fixar uma fiança muito alta, o preso voltará para nós.
- Não quero que você pressione a coisa num sentido venal ou duvidoso. Mas sempre
seria bom se tivesse uma conversinha com ele
188
explicando-lhe os aspectos psicológicos do caso, dizendo-lhe que sua devolução dar-
nos-ia o tempo suficiente para arranjar um competente exame mental que, afinal de
contas, seria do interesse do próprio rapaz.
- Está bem.
- Estamos entendidos, então, Dale. Trate de não cometer mais erros. - Sprott falou muito
claramente, desligado o telefone em seguida.
O Chefe de Polícia, no entanto, só fez o mesmo, muito devagar, depois de passar um
minuto.
189
Capítulo IX
A sessão do juízo que funcionava junto à polícia abria às 10 horas da manhã. A sala era
no sobrado, pequena e informal. Havia um estrado de mogno para o juiz, de um lado, e
do outro uma fileira de bancos para o público. Do lado direito do juiz ficava o banco dos
réus e do esquerdo a cadeira para as testemunhas. Era uma sala cheia de correntes de ar
e então haviam colocado um biombo entre a janela e a cadeira do juiz, e isso diminuía
muito a luz da sala. No teto havia um afresco com as armas da cidade ao qual ninguém
dava atenção. Eram dois arqueiros com os arcos prontos para atirar embaixo de um
carvalho.
O policial de cara muito vermelha levou Paul para cima. Ele parecia estar de bom
humor naquela manhã e, pelo seu hálito, viase que acabara de fumar um cachimbo
depois do café da manhã. Quando saíram da cela, ele olhou para o rosto de Paul cujos
olhos estavam machucados e inchados.
- Isso foi um tombo que você levou ontem, meu chapa. Tenha cuidado para não cair
outra vez hoje. Está-me entendendo?
Paul não respondeu. Ele adormecera de madrugada durante algumas horas. Aquilo fora
uma espécie de desmaio doloroso e inquieto em que se deixara cair de exaustão, como
se fosse um poço fundo e escuro. O repouso, no entanto, não fora suficiente. Não
conseguia compreender por que se sentia tão fraco já que, mesmo para respirar, ele
precisava fazer um grande esforço. Sentia muita dor do lado esquerdo e então tinha que
conservar o braço sempre apertando o corpo daquele lado para melhorar um pouco. Por
outro lado, no entanto, seu espírito estava novamente bem aguçado, naquele ponto de
percepção febril que havia caracterizado todos os seus processos mentais desde que
recuperara o conhecimento das coisas. Ele percebia tudo com uma brilhante lucidez que
não era natural. E estava firmemente decidido a falar para revelar tudo. Agora já nada
havia para detê-lo.
Quando entrou escoltado pela porta lateral e colocado no banco dos réus, o Juiz
Battersby, um homem magro de meia-idade, com
190

uma aparência bondosa mas preocupada, já tinha despachado com presteza três velhos
bêbados, um rapaz que recebia apostas para as corridas, um vendedor ambulante que
não tinha licença, um velho músico que pedia esmolas e um vagabundo preso porque
"não tinha condições aparentes para se manter".
Os lábios do juiz eram finos e sua profissão tinha feito com que eles tivessem uma
aparência de sinceridade, mas seus olhos eram espertos e humanos. Ele nunca sorria ao
ouvir as lamúrias e pedidos de clemência dos infelizes que eram trazidos à sua presença,
mas, apesar disso, suas sentenças nunca eram pesadas. Paul olhou-o e logo chegou à
conclusão de que "ali está um homem que vai-me ouvir".
De repente, ele sentiu que havia alguém que o olhava com atenção e com insistência.
Levantou os olhos para as galerias e logo deu de cara com Lena, vendo também que ela
não estava só. A seu lado estava uma pessoa que ele nunca vira antes. Era um homem
com cerca de 40 anos, grandalhão, com cara decidida, trajando um terno de casimira e
gravata com um nó mal dado e um sobretudo de tweed já bem usado. Ele tirara o seu
chapéu mole bem surrado deixando à mostra uma cabeça grande e calva. Seu rosto era
redondo e gorducho, e apresentava, a despeito da barba por fazer, uma curiosa
franqueza que os olhos com cílios muito longos não conseguiam esconder, exibindo
uma aparência de desligamento aborrecido. Ele, aparentemente, já vinha examinando
Paul durante algum tempo com aquela mesma expressão de desinteresse desiludido,
mas, agora, apesar de ela continuar da mesma forma, o homem tinha levantado a mão e
estava com o dedo indicador apoiado nos lábios. Aquele foi um gesto rápido e trivial,
mas sua significação era tremenda, Paul lançou um rápido olhar para Lena, leu o que
seus olhos imploravam e depois olhou para o corpulento indivíduo que estava a seu lado
e que sacudia a cabeça ligeiramente, uma só vez, mas então, novamente, com um
significado irresistível, antes de se recostar na cadeira examinando as unhas e
mostrando um completo desinteresse por tudo que se passava ali.
Paul ficou de pé para ouvir a acusação feita contra ele, mas ainda estava muito tonto.
Viu quando o Chefe de Polícia entrou na sala.
- O que tem a dizer? Culpado ou inocente? Paul sentia-se confuso e não respondeu.
- Vamos lá... diga o que há com você - insistiu o magistrado.
Ele olhou para Paul com muito mais atenção do que aquela que dispensara aos outros
que já haviam passado por ali. Mais uma vez houve uma curta pausa. A avalanche de
palavras estava pronta para jorrar de sua boca, mas, por alguma razão que ia até mesmo
contra
191
a sua vontade, ele continuava calado. Ele agora já nem mesmo se atrevia a olhar para as
galerias, para Lena ou para aquele homem, que lhe fizera aquele sinal tão estranho mas
compulsivo. De repente, porém, independente de sua própria vontade, ele baixou a
cabeça e com uma voz de arrependimento fingido, falou muito baixinho.
- Desculpe, meritíssimo... Acho que bebi um pouco demais... Houve um silêncio curto
mas geral. Paul via que Dale se mexia
na cadeira. O juiz pigarreou.
- Você estava embriagado? Mas, na sua idade, isto é uma grande infelicidade...
- Sim, meritíssimo...
- E não sente vergonha ao confessar isso?
- Sinto sim, meritíssimo...
Havia na voz de Paul uma entonação de submissão que deixou o juiz perplexo e ele
franziu a testa. Examinou umas notas que tinha ali na frente e depois inclinou-se
novamente.
- Qual foi a razão para você fazer aquela demonstração? Por que se acorrentou ali no
lugar mais central da cidade?
- Como já disse, meritíssimo. Eu tinha bebido demais e então tive vontade de me
exibir...
- E qual é a sua explicação para aquele... aquele cartaz monstruoso que desfilou pela
cidade?
- Não tenho explicação, meritíssimo... Não queria fazer mal a ninguém... Quando a
gente entorna além da medida... o resultado é uma porção de tolices...
Embora Paul não visse, um pequenino tique, que poderia ser um sorriso, aflorou aos
lábios do homem que já não olhava mais para as unhas, mas parecia interessado em
interpretar o brasão da cidade que estava lá no teto. Dale empertigara-se na cadeira e
virara-se de lado, ficando de perfil para o tribunal. O juiz olhou imperceptivelmente
para ele antes de fazer a pergunta seguinte.
- Você já, alguma vez, fez uma demonstração assim?
- Não, meritíssimo...
- Já teve, por vezes, ataques nervosos?
- Acho que nunca tive, meritíssimo... Houve mais uma pausa.
- Quais são as suas opiniões políticas?
- Eu não as tenho, meritíssimo.
Mais uma vez, o juiz hesitou e tornou a olhar para Dale, que continuava ali
impenetrável.
- Meu rapaz, se eu agisse na forma do costume, o resultado seria uma multa de dois
guinéus e o pagamento das custas, para depois mandá-lo embora com alguns conselhos.
Acontece que recebi informação de fontes responsáveis que me fazem pensar ser o seu
•caso mais sério do que realmente parece. Sendo assim estipulo a
192
fiança em cinqüenta libras. Se não pagá-la, você será enviado de volta para a polícia a
fim de procurarem mais informações a seu respeito.
Quando a sentença foi pronunciada, o homem que estava lá nas galerias deixou de lado
seu alheamento. Não parecia indignado nem surpreso, mas os seus olhos biliosos
demonstravam um interesse peculiar. O rosto de Lena deixava ver o seu espanto e
preocupação.
- Pode arranjar as cinqüenta libras de fiança? - A pergunta era feita pelo escrevente do
tribunal, numa voz cantante.
- Não.
- Pode apresentar o nome de alguém que garanta esta importância ?
Paul ainda não tinha sacudido a cabeça na negativa, quando o homem da galeria
levantou-se.
- Estou pronto para prestar a fiança...
Paul ficou completamente imóvel com as mãos trançadas. Ao mesmo tempo o Chefe de
Polícia virara-se na cadeira e sua expressão de surpresa e desapontamento transformava-
se em raiva.
- Eu protesto. Quero saber de onde vem esse dinheiro.
- Ele vem de mim mesmo, L. A. Dunn, Rua Grant, quinze, nesta nobre e histórica
cidade. Tenho o dinheiro aqui em meu bolso.
- Eu protesto...
- Silêncio no tribunal!
- Protesto, meritíssimo - insistiu Dale. Estava agora de pé, completamente indignado. -
Acho que a importância estabelecida para a fiança não é suficiente. Acho que deverá ser
muito maior...
- Silêncio no tribunal!
O juiz esperou de cara amarrada até o Chefe de Polícia sentar-se novamente. Depois,
com voz muito séria e provocadora, ele falou.
- Este tribunal deseja tornar bem claro que não se submete à influência da polícia ou de
quem quer que seja. Não vê razão alguma para modificar sua decisão. A fiança será
prestada na importância de cinqüenta libras. O próximo caso...
Quando Paul saiu da sala de audiências, ele se deu conta da existência de uma certa
confusão, de Dale discutindo com o juiz e logo saindo, furioso, pela porta particular.
Apesar de tudo, 15 minutos mais tarde, depois de se submeter às formalidades
conduzidas pelo escrevente, ele foi posto em liberdade.
Quando chegou à rua, a claridade do dia ofuscou-o de tal maneira que ele chegou a
cambalear. Depois, viu Lena e seu acompanhante que o esperavam de pé na calçada
logo adiante. A vista de Lena trouxe uma estranha tranqüilidade ao coração dilacerado
de Paul. Ela ficou ali imóvel. Foi o seu companheiro gorducho que veio até
193
ele com seu sobretudo aberto esvoaçando, com as mãos nos bolsos e o chapéu atirado
para trás mais do que de costume.
- Desculpe-me. Meu nome é Dunn. Sou amigo da Lena. Estamos esperando aqui para
levar você de volta para casa.
- Qual é a razão para o senhor estar fazendo isto comigo?
- E por que não? - Dunn sorriu com um ar ausente. - Quando uma pessoa está doente
assim como você, ela precisa de ajuda.
Houve um silêncio constrangido. Paul olhava para Lena que, por sua vez, não tirava
seus olhos de cima do rapaz, deixando transparecer sua aflição.
- Eu me sinto constrangido metendo vocês nesta embrulhada. - Paul falava baixinho,
dominando as marteladas que sentia na cabeça.
- Não se preocupe, meu filho. Nós vamos sobreviver. . . Dunn colocou dois dedos na
boca e soltou um penetrante assovio para um táxi que passava e que logo encostou no
meio-fio.
Ele ajudou Paul entrar e depois Lena, e entrou em seguida, a caminho da casa dela.
Meia hora depois, Paul já estava de banho tomado, deitado e encostado em dois
travesseiros com uma compressa fria de vinagre na testa e uma garrafa de água quente
nos pés gelados. Tinha conseguido engolir, sem vomitar, o copo de leite que Lena lhe
trouxera. Ainda sentia aquela dor terrível do lado esquerdo, mas aquilo era largamente
compensado pelo alívio que sentia por estar fora daquela cela e de volta a seu quarto
tranqüilo.
Dunn estava sentado na poltrona de vime, ainda com o chapéu e o sobretudo, e dando a
impressão de que até mesmo dormia com aquilo, e não despregava os olhos de Paul.
- Está melhor agora?
- Muito melhor, senhor. - Mas ainda falava com dificuldade. Dunn não fez comentários
e dava a impressão de que já tinha
juízo formado sobre o assunto. Mais uma vez ele olhava para as unhas roídas, dando a
impressão de que alimentava por elas uma grande admiração.
- Olhe aqui, meu filho. Não quero afligi-lo quando você está doente, mas estou achando
que você tem alguma coisa que ainda o preocupa. Lena já me contou tudo. Ela, aliás, é
uma velha amiga minha, mas se você quiser desabafar. - E deu de ombros de forma
expressiva.
- O senhor é advogado?
- Deus me livre e guarde!
Lena veio lá de baixo onde estava e sentou-se numa banqueta ao lado de Dunn.
194
Os dois estavam bem ali à sua vista, e ele não precisava virar-se para lhes falar. Paul
começou a falar olhando para eles e, de vez em quando, era obrigado a parar para
recuperar o fôlego e, sentindo na atenção silenciosa de Dunn e na absoluta imobilidade
de Lena um encorajamento, ele descarregou todo o peso que guardava na alma.
Houve um longo silêncio quando ele acabou. Dunn, que durante o tempo todo
mergulhara, cada vez mais, na cadeira, já agora se levantava, bocejava e esticava-se.
Afastou a cortina e olhou lá para fora.
- Já está chovendo outra vez. Mas que tempo horroroso! - Tornou a bocejar e voltou-se
para Lena. - Cuide dele. Temos cinco semanas diante de nós com a fiança,
Dunn encostou-se na porta durante uns minutos, tirou do bolso da capa um cigarro que
acendeu e botou na boca. Havia nos seus olhos uma aparência sonolenta. De repente,
girou nos calcanhares com o seu corpanzil e foi-se embora sem mais uma palavra.
195
Capítulo X
Aquele homem, Dunn, com olhos cansados e unhas roídas, era um produto da cidade de
Wortley e de algumas circunstâncias estranhas e hereditárias. Seu nome por inteiro era
Luther Aloysius Dunn, que ele escondia como se fosse um crime, e as pessoas que o
usavam passavam a ser seus inimigos mortais, e ele dava indicação de suas origens já
que nascera de um casamento "misturado" e que tinha sido um desastre, ao contrário de
muitos outros parecidos que tinham sido bem-sucedidos graças a uma tolerância mútua.
Sua mãe calvinista e seu pai católico estavam sempre brigando ferozmente. A vida do
filho foi uma tristeza, situado como estava entre as duas religiões. Mais tarde ele
contaria aos amigos íntimos que tinha sido batizado nas duas igrejas e cresceu
alimentando tremenda antipatia pelas religiões organizadas.
Quando completou quatorze anos, seu pai morreu num acidente de rua. Ele saíra depois
de um lauto café da manhã, praguejando contra John Knox e voltara depois do almoço
numa padiola e já morto. Aquilo fora uma justa desforra! A viúva, no entanto, depois de
um período de completo alheamento, estava inconsolável pois descobrira, tarde demais,
sua completa dependência àquele fanático defensor da infalibilidade do papa e, por mais
incrível que pareça, resolvera então mudar radicalmente a orientação de sua vida. Essas
suas lutas, no entanto, não eram importantes mas apresentavam, pelo menos,
conseqüência para a vida do filho. Tirou-o da escola local e jnatriculou-o no colégio dos
jesuítas em Hassock Hill.
Ali, ele foi tratado pelos padres com uma muito prudente consideração. Por ocasião de
seu ingresso, o velho reitor observara-o atentamente e depois recomendara à
congregação que "deixasse o menino em paz". Nada poderia ter ultrapassado aquela
recomendação, mas o rapaz já tinha 15 anos e o dano já estava feito. Ele nunca se sentiu
como fazendo parte da vida do colégio. Mostrava-se muito retraído e ia assistir a jogos
de futebol sozinho em lugares distantes da cidade, fugia para um salão de bilhares em
Hassock Hill, onde ficava sentado durante horas olhando as partidas com um ar muito
sério naquele ambiente enfumaçado. Adorava jogos, embora não praticasse nenhum, e
196
tinha um conhecimento quase enciclopédico dos resultados em todos os esportes. Como
possuía uma boa inclinação para composições, seu professor de inglês, o Padre
Marchant, pedia-lhe sempre que escrevesse pequenos artigos para a revista do colégio a
respeito de atletismo. Por ocasião de sua matrícula, um jovem caladão e meio
encabulado, ele obteve, por intermédio do reitor, um emprego no escritório do
Chronicle de Wortley que era um jornal diário com pouca circulação, mas muito
independente e que gozava de excelente reputação.
Durante os anos seguintes, sua vida seguia mansa sem acontecimentos dignos de nota.
Ele fazia papel de mensageiro, cortava e colava, e, em raras ocasiões, saía para fazer
reportagens de encontros esportivos de menor importância. Sua primeira contribuição
para o jornal tinha aparecido no pé de uma coluna, mas ele a recortara e a guardava
ciosamente.
Mais tarde, no entanto, começou a sair para reportagens mais importantes como jogos
de water polo nos Corporation Baths, partida de boxe na Arena de Blakely, e o editor
reconhecia que ele era bom e vivo, em suas avaliações, e sabia redigir bem, embora
nunca reconhecesse isso abertamente. Num dia de Ano-Novo, quando tinha apenas
25 anos, ele foi designado inesperadamente para a cobertura do mais cobiçado
acontecimento esportivo e que era um jogo de futebol que, todos os anos, empolgava
completamente a cidade, levando para o campo dois terços de sua população, e que era
uma verdadeira loucura de entusiasmo entre os torcedores dos dois times. Do local
reservado para a imprensa no estádio, Dunn ditara, sem titubear, duas colunas e depois,
na manhã seguinte, escrevera um comentário que, na realidade, nada dizia a respeito do
jogo e sim apenas de um incidente ocorrido durante o mesmo.
Naquela mesma tarde, James McEvoy, editor e proprietário do jornal, saiu de seu
gabinete e veio para a sala da redação com o artigo na mão. O que havia de
característico em McEvoy era que nunca chamava ninguém a seu gabinete. Sentou-se ao
lado da pequena mesa de Dunn.
- O que isto quer dizer? - falou, batendo com o pince-nez no artigo. - Mandei você fazer
a cobertura de um jogo de futebol e você me aparece com um artigo sobre um jogador
que, acidentalmente, levou um pontapé na cabeça. Enquanto ele continua inconsciente,
você me apresenta trinta mil seres humanos furiosos contra ele. Depois apresenta-me os
mesmos trinta mil querendo arrasar um jogador do adversário. Você fala dos gritos, dos
insultos, das brigas entre torcedores, das garrafas atiradas no campo, do juiz com o rosto
ferido... em uma palavra, você me pinta um quadro do esporte nas selvas, da
intolerância racial e religiosa que chegaria para fazer corar um esquimó sentado na porta
de seu iglu...
197
- O senhor me desculpe, mas sentei-me à máquina e foi isso que
saiu...
McEvoy ficou calado. Pensava na estranha contradição que oferecia aquele rapaz forte e
caladão meio encabulado, que não gostava de conversar e que, certamente, seria incapaz
de contar uma piada depois de um jantar, nem mesmo se isso fosse necessário para lhe
salvar a vida, mas que, com um papel em branco diante de si, era um verdadeiro leão de
verbosidade, um gêiser espirrando água, um vulcão em erupção com uma torrente de
expressão, que entusiasmava o leitor, que lhe tocava nas cordas mais sensíveis e que o
fazia rir ou chorar.
McEvoy se levantou.
- É o pior artigo que já li neste ano, mas amanhã ele vai sair na primeira página. Quero
que você venha cear comigo em minha casa no domingo.
Quando ele falou fazendo aquele convite, Dunn já estava a olhálo atônito e apavorado,
mas McEvoy sorria.
Aquilo foi o fim da ligação de Luther Aloysius Dunn com o mundo dos esportes e. o
verdadeiro começo de sua carreira. Ele foi primeiro designado para cobrir os tribunais
de polícia que lhe proporcionavam uma boa safra daqueles incidentes humanos que, tão
particularmente, se adaptavam à sua pena. Depois, começou a percorrer o país
escrevendo artigos que ocupavam meia página sobre costumes e assuntos diferentes.
Uma vez que a comédia de seus nomes não era mais segredo para McEvoy, ele
descobrira um excelente pseudônimo para o seu repórter principal. Dessa data em
diante, todos os seus artigos eram assinados "O Herege", e as suas séries tinham por
título "Questões Candentes" seguido de "Mais Lenha para a Fogueira" e eram muito
procurados e chegaram, até mesmo, a serem honrados com dois processos que o jornal
defendeu com sucesso. A circulação do jornal aumentava espasmodicamente, assim
como também crescia a amizade entre o repórter e seu patrão, amizade essa que foi
fortalecida em 1929 quando a irmã de McEvoy, uma mulher alta e senhorial, que desde
muito o tinha na alça de mira, finalmente fisgou-o com seus olhares modestos e tímidos.
O casamento, apesar de não curar a mania de Dunn pela cerveja e roupas velhas, foi
uma união feliz e duradoura que lhe trouxe duas meninas que eram secretamente
idolatradas pelo pai. Eva era uma mulher bonita que lembrava um cisne e tinha paixão
por contas de marfim, saquinhos de alfazema e brincos muito compridos. Dunn dava
inteira liberdade à mulher na administração do lar, e sendo ela muito religiosa,
acompanhava-a à missa com as filhas de forma perfeitamente ortodoxa. Aliás, eles eram
sempre citados na paróquia de São José como a família exemplar. Acontecia, no
entanto, que o coração de Dunn não estava realmente naquilo que fazia devido ao que
198
lhe acontecera na infância. Ele dava pouca importância às formas externas, achando que
o verdadeiro valor estava naquilo que se passava no coração das pessoas. Se ele tivesse
que adotar uma divisa, ela seria certamente: "Viver e deixar que vivam", e na sua
própria vida ele estava sempre pronto para corrigir um erro e sempre pronto, também,
para defender os que estavam por baixo.
Esse sentimentalismo inerente tornava-o altamente vulnerável, especialmente para si
mesmo, porque, até mesmo com 40 anos, sua natureza ainda era essencialmente retraída
e sensível como fora na adolescência. Ele não tolerava que o considerassem, nem
mesmo de forma muito remota, um "consolador" ou um reformador portador de uma
mensagem. Era apenas um jornalista que cumpria suas obrigações. E fora por isso que
ele criara e se cobrira com uma camada de verniz protetor da melancolia do cinismo e
da espécie de alheamento que é geralmente atribuído aos membros de sua profissão.
Aquilo era uma pose, encenação perpétua, que, provavelmente, não enganava a mais
ninguém além dele próprio. Havia sempre, de uma certa maneira, remendos cheios de
ternura que escapavam, apesar de estarem bem escondidos nos enxertos de uma pele
dura, mas aquele homem bom não via nada disso, e então, como o avestruz, sentia-se
completamente seguro.
Já falamos aqui de seu primeiro contato com Lena. Durante o último ano ele sempre se
mantivera em contato com ela e muitas vezes passava por sua lanchonete para um café
com bolo e um dedo de prosa quando ia a caminho do seu escritório no Chronicle, na
Rua Arden. Então, quando ela o procurara em sua casa em Hassock Hill, já tarde, na
noite em que Paul fora preso, ele compreendeu bem o seu desespero e ouviu-a com toda
a atenção. Não obstante, quando, na manhã seguinte, acompanhou-a ao tribunal, ele
ainda não sabia bem em que aventura ia meter-se. O que presenciara lá no julgamento,
no entanto, logo serviu para esclarecê-lo. Ouvira depois a narrativa de Paul e se dera
conta de todo o seu desespero, sem dúvida alguma autêntico, sem uma única falha do
começo ao fim.
Dunn se acostumara a não tirar logo suas conclusões, mas todo o seu instinto lhe dizia
que encontrara afinal a grande história de toda a sua vida. Ele era um cara plácido,
tornado, de certo modo, letárgico por causa de sua corpulência, mas, ao voltar para casa
naquela noite, sentia-se tomado de um tal entusiasmo que seus passos pareciam os de
um garoto.
Durante uma semana, ele nada disse a James McEvoy. Por todo esse tempo, embora não
aparecesse na redação nem um só dia, ele andava extremamente ocupado e fez algumas
viagens bem longas. Então, cerca das 11 da noite da quinta-feira seguinte, ele foi para a
sede do Chronicle onde só foi visto pelo vigia noturno, e trancou-se em seu escritório.
Estava cansado e sujo da viagem, mas seus olhos
199
brilhavam e ele já não tinha mais aqueles seus modos desprendidos, quando tirou fora o
sobretudo, o paletó e o colete, afrouxou o colarinho e sentou-se em sua mesa, deixando
à mostra os suspensórios. Pensou durante algum tempo até que, finalmente, muito
devagar, com uma expressão de alegria, cuspiu nas mãos, esfregou-as, puxou a máquina
de escrever e começou a martelar-lhe as teclas, com aquela sua inimitável mistura de
sentimento e sensação.
Na escuridão úmida da cela do condenado, nesta grande cidade de Wortley, um inocente
está sentado esperando a hora de ser enforcado. No exterior, no pátio da prisão, ele ouve
as marteladas dos homens que estão construindo sua forca. Dentro de algumas horas,
eles virão para amarrar-lhe as mãos nas costas e, em seguida, levá-lo para a madrugada
fria lá de fora. E então, ali embaixo da forca, passarão a corda em seu pescoço e
cobrirão sua cabeça com um saco branco...
Na manhã seguinte, às nove horas, Dunn levantou-se do sofá do escritório, ainda tonto,
com ar cansado e a barba por fazer, sempre em mangas de camisa, e levou para McEvoy
as laudas que tinha batido à noite.
- Este aqui é o primeiro dos próximos artigos do Herege. Está também aí uma sinopse
completa dos outros nove que completam a série. Leia. Eu vou tomar o meu café.
Meia hora depois, quando Dunn voltou, encontrou o editor em seu escritório, sentado
em sua mesa, tão imóvel e imerso em seus pensamentos que não se mexeu
imediatamente. Depois então virou o rosto devagar. Ele era um homem magro e bem-
arrumado num terno azul, rosto fino e cabelos escuros já grisalhos nas têmporas,
repartidos no meio, bem certinho, com um pince-nez sem aro preso no colete por uma
fitinha. Ele era absolutamente imperturbável, e orgulhava-se muito dessa sua qualidade.
Mas agora era fácil ver que estava um tanto aflito. Aliás, embora procurasse esconder,
ele estava realmente estarrecido.
- Onde, em nome de Deus Todo-Poderoso, você conseguiu descobrir isto?
- Não fui eu quem descobriu.
- Mas então quem foi?
- Foi o filho do Mathry. Ele descobriu tudo...
- E onde é que ele está agora?
- Foi solto depois de pagar a fiança e agora está de cama bem doente.
-"E você tem certeza de que tudo isto aqui é verdade?
- Positivo. Conferi tudo que está escrito aí.
200
McEvoy esfregou o rosto magro. Estava preocupado, indeciso e profundamente
nervoso.
- Podemos publicar isto?
Dunn simplesmente deu de ombros.
- Faça como entender...
- Mas, Deus do céu! Isso vai direitinho aos mais altos escalões do judiciário... Chega ao
próprio Secretário do Interior. E o que vamos fazer com este Sr. O.? Não podemos
publicar isto. Vamos tomar com um processo de calúnia pelas costas. Pode contar com
isso.
- Não há perigo. Nem pense nisso. Pois então não percebe como eu planejei tudo ? Nós
vamos deixar tudo para o fim. Não vamos citar nomes. Nós apenas diremos o Sr. O- ou
melhor ainda, o Sr. X. Depois, ficamos sentadinhos esperando para ver o que acontece.
Puxa vida! É tremendo! É a maior coisa que já tivemos até hoje... Pense bem nisso...
então temos um coitado que está lá em Stoneheath já faz quinze anos... e que não fez
nada.
- Mas... quem sa-a-a-be se se ele não fe-fe-fez mesmo? - Na, sua excitação, o preciso
McEvoy chegava a gaguejar.
- Nada disso. Juro que ele é inocente.
- Mas eles jamais reconhecerão isso... jamais...
- Pois nós vamos obrigá-los. - Dunn já falava agora andando de um lado para o outro. -
Vamos mostrar-lhes a força de uma imprensa livre. E também a força da opinião
pública. Vou lançar um ataque tão violento que as partes interessadas serão obrigadas a
abandonar suas falsas defesas oficiais. Vamos obrigá-los a reabrir o caso. Vamos forçá-
los a novas investigações, a novos depoimentos. Durante meses o filho de Mathry vem
batendo em todas as portas, sem o menor sucesso. E por quê? Simplesmente porque
sabem que cometeram um erro e então fazem tudo para deixá-lo lá escondido no porão.
Que diabo adianta dizer que somos uma democracia, quando permitimos que um bando
de burocratas nos amedrontem? Daí para o comunismo é apenas um passo. Se
quisermos continuar sendo uma democracia, então é preciso arrumarmos bem a nossa
casa. Precisamos ter progresso e desenvolvimento dentro da ordem. Se escondermos um
único caso de injustiça, se suprimirmos a liberdade da palavra, nem que seja por um
segundo, então nós estamos liquidados. A praga tomará conta de nós e seremos
destruídos. Veja o que quase aconteceu com esse moço, o filho de Mathry. Pouco faltou
para que o liquidassem e, aliás, ainda podem fazer isso. E por quê? Simplesmente
porque tudo que lhe fizeram foi negar-lhe o direito de ser ouvido. Se somos um país
livre e se queremos continuar a sê-lo, então> qualquer um deve ter o direito de elevar
sua voz...
- Está bem! Está bem! - exclamou McEvoy. - Não precisa citar todo o artigo. Vamos
publicá-lo até mesmo se isso repre201
sentar nossa ruína. E é isso exatamente o que vai acontecer. - Então, com repentina
decisão, tocou a campainha que estava em cima •da mesa.
Dunn voltou para o seu escritório, tornou a vestir-se e colocou o chapéu na cabeça. Lá
embaixo as máquinas estavam começando a rodar com um barulho que fazia vibrar todo
o prédio. Esfregou o queixo pensativamente. Eva estava sempre atrás dele, querendo
que se apresentasse bem. Era melhor ir fazer a barba. Sentir-se-ia mais refrescado.
Também estava com sede. Seus olhos brilharam. Pouco faltava para o meio-dia e ele ia
passar no Hannigan para uma cervejinha.
202
Capítulo XI
Na tarde de quarta-feira anterior, quando Dunn saíra da casa de Lena, ela viu que Paul já
estava dormindo.
Olhando-o com um ar preocupado, era forçada a reconhecer que ele estava doente, bem
doente mesmo. Ela tinha um estranho pressentimento, que não conseguia reprimir, e que
fazia com que desejasse mantê-lo ali, naquele refúgio seguro e tranqüilo a seu lado. Pelo
menos, poderia tentar. Sua natureza, endurecida pela brutalidade que sempre a deixava
aflita quando pensava naquilo, e sem mesmo poder pensar também em amor, já
despertara completamente e suas emoções já haviam chegado a um ponto que ela, antes,
havia imaginado ser-lhe impossível alcançar. Quando poderia Lena jamais imaginar que
na sua vida de uma Juno jovem e triste, ferida e solitária, fugindo dos homens com as
desconfianças de uma freira, o amor se apossaria dela, daquela forma, transformando-a
completamente e enchendo seu coração com doçuras e angústias, mas era justamente
aquela dor que lhe dava força.
Sentou-se numa cadeira ao lado da cama sem tirar os olhos do rosto de Paul. De quando
em quando levantava-se para enxugar a testa molhada de suor dele. Achava que aquilo
era um sinal e que a febre já passara e então sentia-se mais aliviada. À noite, ela deu-lhe
uma gemada. Quando o deixou para ir dormir, ela tinha esperanças de que ele já estaria
melhor de manhã e que ela poderia ir trabalhar. Não queria perder seu emprego no
Bonanza.
Na manhã seguinte, quando ela o acordou, Paul disse-lhe que estava melhor e que
poderia ficar só, mas quando já estava pronta para sair e já tinha colocado no fogo a
sopa para o almoço dele, Lena pegou-lhe a mão e sentiu que ele estava ardendo em
febre. Não deixou transparecer o susto em seu rosto mas ficou ali na porta hesitando, já
pronta para sair.
- Acho que vou ficar mesmo em casa... Ele sacudiu a cabeça.
- Pode ir que estou bem...
- Tem certeza?
203
- Claro...
Ela saiu sem muita vontade, mas durante todo o dia, enquanto se afanava por trás de seu
balcão, o pensamento estava sempre lá com ele. Às quatro horas ela pediu ao gerente o
favor de deixá-la sair mais cedo. Ele franziu a testa sorrindo com maldade, mas deixou-
a sair. Ela deixou a loja às pressas, parando num verdureiro para fazer umas compras.
Quando subia as escadas sentiu na garganta uma estranha opressão, e seu coração bateu
com mais força.
Paul estava sentado na cama, recostado num travesseiro e olhando lá fora os telhados
que se enfileiravam. Logo que ela entrou, seu rosto perdeu a expressão distante e aflita e
tornou-se mais alegre. Apesar disso, logo que olhou para ele, Lena percebeu que Paul
estava pior. As suas duas faces estavam muito vermelhas, e ele recebeu-a com uma
respiração ofegante.
- Chegou cedo, hem?
- O dia foi muito fraco. - Ela tirou devagar a capa. - Você não acha que devia estar
deitado?
- Sinto-me melhor assim recostado...
- Tomou a sopa?
- Tomei um prato cheio.
Ela começou a arrumar-lhe a cama, tentando esconder sua preocupação.
- Eu trouxe um bolo para você... e também frutas. Quer uma limonada ?
- Quero sim. - Ele conseguiu evitar um acesso de tosse. - Estou com uma sede terrível
mas não consegui comer nada.
Ela ficou logo assustada.
- Paul, acho que vou chamar um médico... Ele protestou logo.
- Não... Eu prefiro f kar só... Você sabe como é... depois de tudo por que passei... eu
quero mesmo é ficar só.
Olhou-o indecisa, sem saber o que fazer entre o bom senso e o desejo de ficar ali junto
dele, sem serem perturbados. Só por causa dele, Lena não gostava de pensar numa
interferência externa que poderia resultar em novas dificuldades para ele. Quem sabe,
até mesmo, entregá-lo novamente à polícia. Sentia-se aflita sem saber o que fazer.
Ainda irresoluta, ela acendeu o gás e fechou as cortinas. Paul olhava-a com um
alheamento que tornava os movimentos dela estranhos e irreais. Durante todo o dia, ele
cochilara intermitentemente, mas nos intervalos seus pensamentos iam para Dunn. Não
acreditava muito que ele tivesse condições de fazer alguma coisa em seu benefício. Em
verdade, à medida que recapitulava tudo que fizera nos últimos meses, ele chegava à
conclusão de que sua luta fora inútil. Tinha chegado ao fim e nada mais podia fazer.
204
Nesse estado de espírito de completo desespero, ele pensava em Lena com uma dor
inesperada. Sua grande amizade por Dunn e a óbvia compreensão que existia entre os
dois, não permitia dúvidas quanto à natureza daquele relacionamento. Ele achava que
aquele homem de meia-idade, casado, devia ser o pai do filho dela e continuava sendo o
seu protetor oculto. Aquela era uma conclusão que o deixava perplexo e chegava, até
mesmo, a causar-lhe uma dor física que, de uma certa forma, intensificava aquela
fisgada aguda que acompanhava sua respiração. Um desejo compulsivo para se
mortificar ainda mais levou a uma pergunta decisiva.
- Lena...
- O que é?
- Você tem-me ajudado muito e estou sempre me perguntando qual poderá ser a razão
para isso.
Ela virou o rosto bruscamente.
- Ora essa... Por que a gente faz as coisas ? Só por fazer.
- Quero que saiba como me sinto agradecido...
- Não foi nada... Seguiu-se um breve silêncio.
- Acho que já faz tempo que você conhece o Dunn, não é mesmo ?
- Uns três anos...
- E ele sempre tem sido bom para você? - Tem sido sim. Devo-lhe tudo...
- É o que estou vendo...
Ele pareceu ler um desafio nos olhos orgulhosos e tristes dela. No entanto, ao mesmo
tempo, seu rosto tenso exprimia uma resignação tão misteriosa que ele foi assaltado por
uma espécie de terror, e então virou-se para a parede.
- De qualquer forma, isso não faz diferença. Eu já sabia... Ela fez um gesto de espanto e
ficou muito pálida. Fez menção
de falar, enquanto os seus olhos o interrogavam com um sorriso triste que era uma
imploração inconsciente. Foi o seu único momento de fraqueza, mas apertou bem os
lábios.
Houve um silêncio maior. Ele fechou os olhos e foi atacado por um acesso de tosse
rouca.
- Acho que estou meio bombardeado...
Ela não hesitou mais. Sem uma palavra, desceu depressa a escada, enfiou a capa e saiu.
O consultório do Dr. Kerr era ali pertinho, na mesma rua, a uns
200 metros. Era moço e formara-se recentemente. Fazia pouco tempo que colocara a
placa na porta e se esforçava por conseguir uma clientela ali no bairro. Lena já tinha
ouvido dizer que ele era muito amável e competente.
Quando chegou lá encontrou o consultório fechado, mas havia uma nota pregada na
porta com o número do telefone onde ele poderia ser encontrado. Ela foi a uma cabina e
discou o número. Quem atendeu foi uma mulher dizendo que ele tinha sido chamado
para um caso urgente, mas, assim que voltasse, ela lhe daria o recado.
Lena saiu da cabina muito pálida e aflita. Teria agido bem deixando aquele recado por
tempo indefinido? Não seria talvez melhor procurar um outro ali por perto? Depois de
haver hesitado tanto, ela sentia-se muito culpada por aquilo, agora já parecia que era
urgente a presença de um médico.
Voltou ao quarto onde encontrou Paul aparentemente dormindo. Ficou ali esperando
muito aflita e aguçando os ouvidos para saber se o médico estava chegando. Pouco
depois das 11, quando ela já não se agüentava mais, ele, finalmente, chegou. Ela
percebeu logo que ele estava fatigado, com o rosto tenso, e suas perguntas eram bruscas,
mas examinou o doente meticulosamente. Quando acabou, afastou-se da cama e
consultou o seu relógio.
- O que ele tem, doutor? - Lena mal podia falar. - É coisa séria?
Ele tinha tido um dia duro, já perdera a hora do jantar, mas, assim mesmo, respondeu
com paciência exemplar.
- Ele teve uma pleurisia seca, e era isso que lhe causava a dor. Depois veio a
transpiração e ele está com muitos fluidos comprimindo-lhe o pulmão.
- Pleurisia? - Então não era tão ruim assim. O médico encarou-a e depois desviou os
olhos.
- Acho que deve haver pus... É um empiema, e isso significa que precisa ir para o
hospital.
Ela mudou de cor e apertou a cintura.
- Será que o senhor não pode tratar dele aqui?
- Deus me livre! Nada disso. Precisa de uma ressecção nas costelas. É preciso drenar
toda a cavidade. Vai ficar lá seis semanas. A senhora tem telefone?
- Fica lá embaixo no hall.
Ele desceu a escada com barulho e ela ouviu-o falando e mostrando a necessidade de
urgência já que o caso era grave, e então desceu também muito pálida.
O médico estava encontrando muita dificuldade para encontrar uma vaga já que os
hospitais gratuitos estavam cheios, em sua maioria, e como ele era novo no bairro as
recepcionistas não lhe davam muita atenção. Conseguiu afinal encontrar uma vaga e
depois de combinar tudo largou o telefone com um suspiro de alívio.
-- Ele vai ficar no St. Elizabeth. Fica a uns cinco quilômetros daqui, em Oakdene
Road... É pequenino mas é muito bom. A ambulância já vem aí.
206
Ela chegou, realmente, em quinze minutos e foi logo embora.
Sentindo-se ainda completamente arrasada, confusa e exausta, vencida por suas
emoções, Lena voltou para o sobrado. Tudo ali parecia quente e abafado. Ela apagou a
lareira e abriu a janela para respirar fundo o ar úmido da noite, e depois, pela força do
hábito, começou a arrumar tudo direitinho.
Seu terno muito usado, aquele que ele usara quando dormira nos Arcos, naqueles
tempos atribulados, estava dobrado em cima da cadeira ao lado da cama e ela apanhou-o
com a intenção de pendurá-lo no armário e, nesse momento, viu que a velha carteira de
Paul caía de um dos bolsos, espalhando pelo chão uma quantidade de papéis.
Lena abaixou-se para apanhá-los e viu logo que se tratava de anotações feitas por ele,
todas relacionadas com o caso, e foi colocando-as de volta, uma por uma, quando, de
repente, entre as folhas, encontrou uma pequena foto recortada que ela instintivamente
olhou com atenção. Era um retrato de Ella Fleming, tirado em um estúdio, em sépia e
extremamente lisonjeiro, e por baixo havia uma dedicatória muito cheia de ternura.
Aquilo era, na realidade, uma lembrança dela por ocasião dos seus 19 anos, e fora ela
mesma que a enfiara ali na carteira esperando que ele sempre a tivesse junto de seu
coração.
Paul já desde muito esquecera que tinha aquela foto, mas, para Lena, aquele rostinho
bonito, os olhos suaves e os cabelos crespos e aquelas palavras carinhosas indicavam,
acima de tudo, o quanto aquele tesouro era querido para ele.
Lena não exalou nem mesmo um suspiro, mas no seu corpo imóvel e em sua fixa
expressão petrificada, a não ser por um ligeiro tremor nos cantos da boca, jazia
escondida uma angústia inominável. Levantou-se de onde estava ajoelhada juntando os
papéis, tornou a colocar a foto na carteira que voltou para o bolso de onde caíra.
Pendurou o terno no cabide que colocou no armário e foi para a cozinha. Chegando ali
encostou-se na pia, fechou os olhos, virou a cabeça sentindo-se presa de uma náusea que
não conseguia evitar.
Durante todo o tempo ela lutara contra uma sensação de medo achando que estava
criando para si mesma uma situação impossível. Nunca, porém, chegara a imaginar uma
tal contingência, tão comum mas também inesperada, e que deixara claro a enormidade
de sua presunção. Sentia arrepios ao pensar na sua luta desnecessária contra si mesma e
de sua rendição triste e abjeta. Em sua estupidez, enganando-se e pensando que a
gratidão era afeto, ela chegara quase a contar a tragédia de sua vida, de se tornar,
cegamente, o instrumento de seu desapontamento. Agora, já nunca mais lhe poderia
contar. Nunca mais. Completamente arrasada, fechou os olhos deixando-se possuir
novamente pelos demônios já conhecidos da vergonha e do ódio que nutria por si
mesma. Ao fazer uma comparação entre ela, que já estivera mergulhada na sujeira, e
aquela criatura angélica do
207
retrato, que estava comprometida com ele, Lena desejava morrer ali mesmo naquele
momento, e desejava ardentemente que a dor que sentia agora em seu peito fosse o sinal
da dissolução final.
Ela jamais soube quanto tempo ficou ali naquela angústia. Afinal, com energia
repentina, ela despertou, atirou para trás os cabelos que lhe caíam na testa, e sentou-se
numa banqueta. Com os olhos secos, com a boca apertada numa linha firme que
eliminava qualquer possibilidade de autocomiseração, ela esforçou-se para pensar.
Passaramse minutos e então através de toda a confusão que havia em seu espírito, ela
encontrou o remédio que procurava e que, na verdade, também lhe parecia ser a única
solução. Por mais difícil que fosse era o que ela ia fazer. Tudo que desejava agora era
fugir, era desaparecer, para apagar definitivamente a lembrança de seu supremo ato de
loucura. Em seguida ela começou a traçar os seus planos.
208
Capítulo XII
Na manhã de segunda-feira do dia 21 de fevereiro, o Chronicle de Wortley publicou na
primeira página o primeiro artigo de Dunn a respeito do caso Mathry.
Contrariando seus hábitos já que costumava acordar tarde e custava a se aprontar para
sair, Dunn caminhou cedo para a sede do jornal. Nas calçadas, os jornaleiros estavam
apregoando as manchetes e levando os cartazes especiais que McEvoy tinha mandado
fazer. Quando ouviu os meninos gritarem e viu o nome Mathry em letras muito grandes
esvoaçando ao vento, Dunn sentiu que uma onda de contentamento lhe invadia
lentamente o corpo. Ele não era vaidoso e não alimentava grandes ilusões quanto à sua
profissão, mas acreditava apaixonadamente na liberdade da imprensa e no poder de um
jornal orientado para o bem. Ia pensando consigo mesmo que: "Agora já saiu, já está em
letra de fôrma, e então vamos ver o que eles vão fazer."
Quando ele chegou ao escritório, McEvoy já estava lá, pois haviam combinado esperar
juntos no escritório as reações da série de artigos, e ele não resistiu para dizer ao editor
o que pensava.
- Eu gostaria bem de ver a cara do Sprott e do Dale, quando lhes servirem isso na mesa
do café da manhã.
Já McEvoy não se mostrava tão eufórico e então deu de ombros com um ar apreensivo.
- Nós agora já estamos atolados nisto até os olhos e só nos resta pedir a Deus para que
tudo ande direitinho.
Durante aquele dia não aconteceu nada de importante. Algumas bancas telefonaram
pedindo mais exemplares às centenas. Não houve encalhes. Quando saiu para o almoço,
Dunn viu que todo mundo nas ruas, nos bondes e no restaurante que ele freqüentava lia
o seu artigo. Tudo estava calmo e ele sabia que aquilo era a calmaria que precede a
tempestade.
No dia seguinte, cerca de 11 horas da manhã, o telefone tocou. O segundo artigo, muito
mais contundente do que o primeiro que apenas passava em revista as particulares do
caso, já acusava a po209
lícia por haver errado. Quando McEvoy levou o fone ao ouvido os seus olhos estavam
fitos em Dunn e ele acenou com a cabeça, fazendo com os lábios, sem falar, um sinal
que significava "Dale".
- Sim, aqui fala o editor do Chronicle. Bom dia, Chefe! Espero que esteja bem...
Houve uma pausa. Não havia uma extensão no escritório, e Dunn não podia ouvir o que
o outro dizia. Ouvia apenas um dos lados da conversa mas, pelo rosto de McEvoy, ele
podia imaginar o outro lado.
- Sinto muito, Chefe. Mas qual é o artigo a que se está referindo ?. Sim, sim, o do caso
Mathry. Puxa vida... espero que isso não lhe cause muitas preocupações...
O rosto do editor estava completamente impassível.
- Bem... realmente... não vejo por que o senhor tenha o que reclamar... A nossa
obrigação é publicar os fatos, e é justamente isso o que estamos fazendo. Como é? Não,
não, não temos a menor dúvida. O que temos mesmo são provas bem interessantes...
Houve um longo intervalo e a resposta de McEvoy já não era tão amável como antes.
- Olhe aqui, Chefe, nós não temos medo de processo de calúnia nem de qualquer outra
espécie. Só achamos que o público deve ser informado da verdade a respeito desse caso.
E juro-lhe por Deus que é isso o que vamos fazer...
Seguiu-se uma pausa final e os olhos de McEvoy brilhavam por trás do pincez-nez.
- Eu não faria uma coisa dessas se estivesse em seu lugar, Dale. Nós podemos distribuir
o resto da série para a cadeia Howard Thompson que tem cinco jornais nas províncias e
um em Londres. Já nos procuraram para isso. Não. Eu não faria isso se estivesse em seu
lugar, Dale. Procure acalmar-se. Você vai precisar de todo o seu controle até chegar ao
fim. E, por falar nisso, se quiser ler o depoimento do Inspetor Swann, procure no jornal
amanhã. Isso vai ser o próximo artigo.
McEvoy estava ligeiramente exaltado quando desligou e então acendeu um cigarro para
acalmar os nervos.
- Dale está furioso e muito assustado. Achei melhor falar grosso com ele.
- Dale não é um mau sujeito. Ele é, fundamentalmente, honesto. Está sendo pressionado
pelo que está de cima, mas nada há que ele possa fazer.
- Ele poderia, mas não se atreve - falou McEvoy. - Se fizerem alguma coisa contra nós,
isso seria o mesmo que confessar a culpa. Aí é que pega o carro. Aposto um drinque
com você que, amanhã ou depois, vamos ter a visita do chef ao. - Apanhou um
biIhetinho que lhe tinham trazido, antes de continuar de forma des210
preocupada. - Tudo isto é bom para o negócio. Nossa tiragem de hoje cresceu em mais
vinte mil exemplares. Tudo foi vendido.
Na manhã seguinte, já era evidente que todo mundo estava falando a respeito do caso. O
Correio trouxe uma quantidade de cartas dos leitores e muitos outros jornais
comentavam a série de artigos do Herege, mas a maioria deles mostrava-se cautelosa, e
o Guardian, de Blankshire, chegou até mesmo a censurar o autor: "Nossa opinião é de
que, na sua missão para reformar o universo, o nosso estimado colega excedeu-se um
pouco desta vez." No entanto, o Record, de Londres, um jornal liberal da mais alta
reputação, chegou a publicar um artigo de fundo em que dizia o seguinte para começar:
"O Chronicle, de Wortley, está fazendo uma acusação muito séria que, se for verdade,
será um grande choque para todo o país...", e terminava dizendo: "Como sempre
aconteceu com todas as contribuições anteriores da pena altamente dotada do Herege,
todas as palavras possuem o timbre de uma sincera convicção. Esperamos, com grande
interesse, o resto dos artigos desta notável série."
McEvoy entregou os recortes a Dunn.
- A coisa já começou. Vamos esperar para ver o que eles dizem a respeito do
depoimento de Swann. E, por falar nisso, eu, se fosse você, não andaria por aí à noite...
- Deus do céu! Eles jamais se atreveriam a uma coisa dessas... A voz do editor tinha um
timbre estranho.
- Não, não fariam... mas você poderia apanhar um resinado ...
Bateram na porta e um jovem, o secretário de McEvoy, entrou.
- Desculpe-me, senhor, mas o auxiliar de Sir Matthew está no telefone para lhe dizer
que seu patrão lhe agradeceria se pudesse ir falar com ele esta tarde.
Os dois trocaram olhares, e McEvoy esticou as pernas embaixo da mesa.
- Diga-lhe que sinto muito não poder ir vê-lo. Diga-lhe que estamos muito ocupados.
Por outro lado, no entanto, diga-lhe que, se Sir Matthew quiser vir até aqui, nós
teríamos grande satisfação em recebê-lo.
- Muito bem, senhor.
- Ele jamais virá - disse Dunn. McEvoy deu de ombros.
- Talvez não venha mesmo, Dunn, mas nestes últimos quinze anos ele tem vivido
metendo medo em todo mundo. Então já é tempo de alguém começar a meter medo nele
também.
Os dois artigos seguintes falavam, sem deixar sombra de dúvidas, a respeito do tempo
da gravidez que não fora mencionado no processo e também a respeito da maneira
estranha como a polícia tratara as testemunhas. Já agora, na realidade, a avalanche se
desencadeara. O
211
jornal recebia sacos cheios de cartas e os telegramas eram tantos que a redação viu-se
obrigada a destacar um grupo especial para fazer .uma triagem numa sala ao lado,
enquanto McEvoy e Dunn, em mangas de camisa, esperavam no escritório. Alguns dos
telegramas "ram de maníacos, outros eram de sociedades que pleiteavam a abolição
disto, daquilo e de mais alguma coisa, alguns eram insultuosos, protestando que os
artigos só serviam para solapar as forças da justiça e da ordem, mas, de uma maneira
geral, a absoluta maioria, vinda dê todos os cantos do país, era de congratulações. Era
apenas uma questão de separar o joio do trigo.
Receberam ainda ov seguinte, da parte do Reverendo Foster Bowles, o sensacional
publicista e pregador do Tabernáculo da Cidade de Londres:
CALOROSAS FELICITAÇÕES MANEIRA CONDUZEM CAMPANHA PT
PRÓXIMO DOMINGO MINHA PREDICA SERÁ CASO MATHRY DEUS VOS
ABENÇOE IRMÃOS
BOWLES
- Por que é que ele quer se meter agora? - indagou Dunn, enciumado. - Ele é apenas um
falastrão esperto...
McEvoy sacudiu a cabeça, fingindo uma reprovação.
- Por onde é que anda o seu amor fraternal, irmão? Bowles é justamente o cara que
estamos precisando. Quando fala, o Tabernáculo fica repleto e junta gente até mesmo do
lado de fora. Há milhares que ficam de boca aberta lá na velha Kent Road.
Apanhou depois o outro telegrama, e pediu a Dunn que ouvisse aquela peça:
APROVO INTENSAMENTE SUA CONTINUAÇÃO CASO MATHRY ASSUNTO
LEVANTADO POR MIM CÂMARA DEZENOVE NOVEMBRO PT DEVIDO
PRÓXIMAS ELEIÇÕES AGRADECERIA SE MENCIONASSEM MEUS
ESFORÇOS PT AFINAL FUI PRIMEIRO PT CONTINUAREI PROCURANDO
JUSTIÇA SAUDAÇÕES
GEORGE BIRLEY
- Nosso bom e velho George. Ele quer tirar vantagem...
- O que ele quer mesmo é ir à forra com os Duncasters, a família da sua mulher. Eles o
maltrataram tanto que ele até chegou a ficar sem poder jogar o seu golfe, Dunn. Achei
bom o que ele disse "continuarei procurando justiça".
212
Pegou noutro telegrama, leu-o com atenção, e passou-o para Dunn, perguntando-lhe o
que achava daquilo.
O outro leu-o com a testa franzida. Era um telegrama pessoal que vinha do editor do
Record.
CARO MCEVOY EM VISTA GRANDE INTERESSE AQUI CASO MATHRY
OFEREÇO PUBLICAÇÃO ARTIGOS HEREGE IMEDIATAMENTE AO PREÇO
QUE QUISER CORDIALMENTE
LLOYD BENNETT
Durante um momento houve silêncio no escritório. Como jornalistas que eram os dois
estavam pensando exatamente a mesma coisa... McEvoy rabiscava o mata-borrão, mas,
de repente, levantou a cabeça.
- Eu sei como você se sente, Dunn. Está numa pescaria e encontrou um magnífico
pesqueiro, um pesqueiro só para você, e então chega um outro cara na margem oposta
que lhe pede licença para pescar ali também. Claro que isto é um grande cumprimento...
o Record... e o fato de Lloyd Bennett ser também um bom pescador ... será que me
compreende ?
Dunn levantou-se e foi até a janela onde ficou de costas para McEvoy, mas afinal falou.
- Isto aqui é maior do que qualquer vaidade pessoal. Seria bom aceitarmos...
- Ótimo! Eu sabia que você ia concordar. Vamos pedir um dinheirão!
Dunn ainda continuava na janela.
- Cale essa boca, Jimmy. Isto é uma coisa que não pertence a nenhum de nós. Aqui
estamos nós como uma dupla de bookmarkers torcendo num grande páreo e cheios de
entusiasmo... e o garoto que fez realmente todo o trabalho, que lutou como o diabo para
descobrir as provas está lá no hospital com duas costelas de menos e um buraco no
pulmão. Está tudo errado.
- Ele ainda está passando mal?
- Bem mal, mesmo. Mas os médicos acham que ainda há esperanças. Se, ao menos, ele
pudesse ler os meus artigos... Eles seriam mais eficazes do que todos os remédios.
- Puxa vida!... Seria um furo e tanto. - O editor não conseguia conter-se e sonhava em
voz alta. - Quero dizer, se no momento psicológico o rapaz morresse...
Quando viu Dunn voltar-se indignado, ele arrependeu-se e apertou o botão da
campainha.
- Você sabe como é, Dunn, a gente não pode deixar de pensar numa coisa dessas... está
no sangue... Vou telegrafar já para Lloyd Bennett.
Na manhã seguinte, o Record publicava um suplemento de três páginas com os três
primeiros artigos da série e no dia seguinte estava publicando o mesmo artigo junto com
o Chronicle. Naquela mesma noite, quando os dois estavam saindo da redação, um
mensageiro apareceu com uma folha do teletipo.
NA CÂMARA DOS COMUNS O SR. DOUGLAS GIBSON (L) DEPUTADO POR
NEWTOWN PEDIU A PALAVRA PARA PERGUNTAR SE, EM VISTA DOS
RECENTES DESENVOLVIMENTOS NA IMPRENSA E OUTRAS PARTES, O
SECRETARIO DO INTERIOR NÃO ESTARIA PREPARADO PARA
RECONSIDERAR SUA DECISÃO ANTERIOR A RESPEITO DO CASO MATHRY.
EM RESPOSTA O SECRETARIO DO INTERIOR, SIR WALTER HAMILTON,
DISSE QUE PRECISAVA RECEBER A PERGUNTA POR ESCRITO.
Ali no escritório os dois se olharam num silêncio eletrizante. O dia tinha sido cansativo
e sem grandes resultados, e aquilo estava começando a transparecer nos rostos dos dois.
Afinal McEvoy conseguiu falar com uma voz estranha.
- Então ele quer "uma pergunta por escrito". Já não é uma recusa definitiva. Eles
querem ganhar tempo para poder pensar. Essa noite os fios das comunicações com
Wortley vão ficar bem quentes. Amanhã, com certeza, vamos ter uma visita.
Eles apertaram-se as mãos em silêncio mas com efusão, e depois apanharam seus
chapéus e sobretudos e saíram.
O dia seguinte era uma terça-feira, e então, por volta das quatro horas, quando toda a
administração do jornal tomava o seu chá muito forte feito pelo mensageiro do
escritório e servido em xícaras de louça já lascadas, alguém bateu na porta.
- Pode entrar...
Ainda não era o chá, mas sim o secretário de McEvoy, Ted Smith, que parecia nervoso,
e logo atrás dele vinha Sir Matthew Sprott muito bem vestido e que, com suas maneiras,
não dava sinal de grandes preocupações. Suas feições, exibindo sua expressão normal
de dignidade e desprendimento, não demonstravam nervosismo.
Houve uma pequena pausa.
- Sente-se, por favor - disse o editor.
214
- Muito obrigado. Tem sido bem difícil encontrá-lo nesses últimos dias, Sr. McEvoy. Eu
ia passando por aqui e então lembreime de dar uma chegada... Claro que não é,
absolutamente, oficial.
A expressão no rosto de McEvoy era completamente impassível, mas ele não tirava os
olhos de seu interlocutor.
- Sim, compreendo. O senhor aceita um cigarro?
Sprott fez um gesto com a mão para afastar a caixinha de prata.
- Não, obrigado. É uma sorte encontrá-lo aqui também, Sr. Dunn. Tudo o que eu disse
aplica-se também ao senhor.
Seguiu-se uma pausa ainda mais longa. Sprott estava absolutamente calmo e decidido a
não se trair deixando transparecer sua inquietação. Chegava até mesmo a sorrir para
mostrar como se sentia à vontade.
- Cavalheiros, eu não vim aqui para me entregar a divagações dialéticas. O assunto é por
demais trivial. Além disso, reconheço que os senhores têm a liberdade para administrar
o seu jornal da maneira como bem entenderem. Quero avisá-los, no entanto, que sua
série de artigos está criando sérias dificuldades para o Governo de Sua Majestade.
Houve outro silêncio. Os dois olhavam para Sprott e viam que, por trás de toda a sua
pomposidade, havia uma aflição que ele não conseguia disfarçar. Quando tornou a falar,
havia na sua voz uma efusão que nada tinha de natural.
- Nós somos homens do mundo, senhores. Estou certo de que todos reconhecemos as
dificuldades para administrar o país nestes tempos de incertezas. Dentro de três meses
teremos as eleições. Não quero tirar deduções a respeito de tudo isso, mas só espero que
os senhores se lembrem. Não há dúvida alguma de que o Governo de Sua Majestade vê
com muita simpatia o assunto que está sendo ventilado pelo seu jornal.
- Vê mesmo? - disse o editor.
- É uma coisa que posso garantir... Na noite passada falei com o Secretário do Interior
pelo telefone, durante uma hora. - Sem que Sprott percebesse McEvoy lançou um olhar
rápido para Dunn. - E quero reiterar dogmaticamente que Sir Walter é homem muito
esclarecido e deseja agir com completa humanidade a respeito desse estranho caso.
- Ah!
Sir Matthew olhou-os com um sorriso ainda mais aberto.
- Conforme já lhes disse, não estou aqui em caráter oficial, e aliás, na minha posição,
isso não poderia ser de outra forma, não é mesmo? Mas francamente, e em absoluta
confiança, estou aqui para lhes apresentar uma oferta generosa e, até mesmo
magnânima, que, na minha opinião, deveria, uma vez por todas, resolver o assunto com
uma justa conclusão.
Sprott passou a língua nos lábios e inclinou-se para a frente.
215
- Tenho poderes para lhes dizer que, se os senhores interromperem a publicação dos
artigos, já que então não teriam mais razão de ser, Sir Walter estaria disposto a conceder
o perdão ao preso que seria imediatamente libertado de Stoneheath.
O sorriso altruísta de Sir Matthew não saía de seu rosto. Dunn e McEvoy nem mesmo
trocaram olhares.
- Muito bem, senhores, estão dispostos a aceitar?
- Não. Nós recusamos.
Muito devagar, Sprott tirou o lenço do bolso e enxugou as mãos. Já não sorria mais.
Não conseguia manter o sorriso.
- Então recusam? Isso me surpreende muito. Posso saber qual é a razão para isso?
McEvoy tinha os olhos pregados nele.
- Em primeiro lugar, seria uma traição à integridade do Chronicle se fizéssemos
qualquer acordo agora. E, em segundo lugar, um homem inocente não pode ser
perdoado.
Houve um novo silêncio em que Sprott tornou a colocar o lenço no bolso do casaco.
- O senhor deu duas razões. Pode dizer-me então qual é o seu objetivo final?
McEvoy nem mesmo alterou a voz para responder.
- Nós queremos conseguir a liberação incondicional de Mathry. Queremos que se
proceda a um inquérito completo, imparcial e público sobre as circunstâncias de sua
condenação... e se tiver havido um erro judicial... nós queremos amplas e satisfatórias
indenizações pelo horrível crime perpetrado contra um inocente.
Sir Matthew sorriu arqueando as sobrancelhas. Tentou, pelo menos, simular um sorriso
contrafeito, mas seu rosto não cooperou. O sorriso ficou pelo meio e mais parecia uma
careta, e ele logo escondeu o rosto com as mãos, ficando nessa posição durante algum
tempo como uma pessoa atacada por forte dor de dentes. Depois levantou-se com
grande esforço e falou friamente.
- Só me resta esperar, senhores, que não se arrependam do caminho que escolheram.
Não lhes preciso dizer que encontrarão sempre a minha oposição dentro dos limites de
meus poderes. Devo lembrar-lhes ainda que sai muito cara uma briga com a Coroa.
Ele tinha uma larga experiência e era um mestre para se apresentar ao público e por isso
conseguiu manter a calma. Inclinou-se diante de cada um e saiu da sala aparentando
grande tranqüilidade. Seu rosto, porém, traía as suas emoções já que estava
positivamente cinzento. E seus passos eram trôpegos.
No fim daquela mesma semana, McEvoy, sempre pensando no futuro, abriu, pelas
colunas do jornal, o Fundo para a Ação Legal de Mathry, e as contribuições logo
choveram vindas de todos os
216
recantos do país. Ele esfregava as mãos de satisfação e não podia conter-se.
- É um problema de âmbito nacional que vai ter agora sua solução.
Num país livre, onde a opinião pública não é arregimentada nem suprimida, sempre
surge, em determinadas circunstâncias, quando os sentimentos públicos atingem um
certo ponto, uma grande onda de protesto. Isso pode começar apenas com sussurros
individuais, mas logo cresce e se expande com incrível velocidade e força até chegar à
violência de um ciclone. E quando isso acontece, é inútil qualquer resistência dos
poderes constituídos. Eles ficam com a escolha para cederem ou para serem esmagados.
É então que fica em pleno vigor o governo do povo pelo povo.
E foi justamente o que aconteceu no caso de Rees Mathry. Na ocasião de seu
julgamento, o caso era apenas de âmbito regional e foi logo esquecido e relegado à
obscuridade durante 15 anos. Agora, como dizia McEvoy, aquilo era um problema
nacional. Os jornais do país, uns atrás dos outros, exigiam unanimemente uma
investigação imparcial de todos os fatos. Milhões de palavras passavam pelas linotipos
tratando do caso Mathry. Escritores e políticos, pregadores de todos os credos,
publicistas, conferencistas, professores universitários, chefes de sindicatos, cientistas
eminentes, médicos notáveis e artistas, todo mundo, em suma, juntava sua voz ao
clamor já existente. Em vários centros foram formadas Sociedades Rees Mathry e foram
fabricados e vendidos, em todo o país, botões com o seu nome. Crianças de escola, que
ainda não tinham nascido na ocasião em que ele fora condenado, saíam às ruas com
faixas: Soltem Mathry. Não havia como conter a onda, principalmente quando o próprio
governo não estava muito firme.
Numa tarde chuvosa e triste, mais ou menos no fim do mês, McEvoy e Dunn estavam
no escritório, inquietos e calados, exaustos com a tensão dos dias anteriores, quando
ouviram gritos e confusão no corredor. Logo a seguir Smith, o secretário, entrava na
sala seguido por todo o pessoal da redação.
Ele estava excitado e tinha na mão uma folha do teletipo.
- Isto acaba de chegar, senhor...
Lá de baixo da sala das máquinas vinha também o barulho de outras demonstrações.
- Pois então leia logo, pelo amor de Deus! - disse McEvoy. Smith leu em voz alta.
AS CINCO HORAS DA TARDE NA CÂMARA DOS COMUNS O SECRETÁRIO
DO INTERIOR LEVANTOU-SE PARA ANUNCIAR QUE REES MATHRY SERÁ
LIBERTADO INCONDICIONALMENTE DA PRISÃO DE
217
STONEHEATH NO ULTIMO DIA DESTE MÊS E QUE UM TRIBUNAL ESPECIAL
SERÁ CRIADO JUNTO AO TRIBUNAL DO JÚRI DENTRO DE QUATRO
SEMANAS. ESSA DECISÃO FOI RECEBIDA COM GRANDES APLAUSOS.
Como se fosse o ponto final daquelas palavras, ouviu-se no prédio a explosão dos
aplausos. O editor olhou para aquele pequeno grupo amontoado à porta do escritório.
No estado de exaustão em que se encontrava ele percebia com surpresa a alegria geral
que havia ali naqueles rostos contentes. Sentiu-se então obrigado a dizer alguma coisa.
- Vocês todos fizeram um grande trabalho, e agora que temos estas boas notícias eu
quero agradecer a todos pelo apoio que me deram. No dia em que Mathry sair vai haver
uma boa gratificação para todo mundo.
Dunn e McEvoy sabiam perfeitamente que aquela decisão do Secretário do Interior era
apenas uma "tapeação", já que ele não conseguia mais resistir ao clamor público que
exigia a liberdade de Mathry. Ao mesmo tempo, aquilo significava a condenação
daqueles que estavam envolvidos no processo que julgara Mathry culpado, embora o
Secretário não estivesse ainda convencido de sua inocência. Ele se decidira então a
exercer os poderes que lhe eram atribuídos, pedindo que o Tribunal de Apelação, por
meio de um julgamento aberto e formal, verificasse as novas provas que existiam e que
justificassem a concessão do perdão. Era de presumir que o Secretário sediasse o
tribunal em Wortley, para amenizar um pouco a situação.
Depois de o pessoal sair, McEvoy voltou-se para Dunn que ali estava examinando as
unhas. Ele sentia-se vazio e gasto por ter sido apanhado pela marola da reação.
- Bem, afinal conseguimos. Estou que não me agüento mais e vou já para casa.
Começou a enfiar o casaco devagar.
- Eu queria que você escrevesse um curto editorial para a edição de amanhã. Sabe como
é... falando sobre a instituição parlamentar, o poder da vox populi e coisas parecidas...
Você escreve?
- Claro...
- Muito obrigado. Traga Eva para jantar conosco. Precisamos comemorar. - Ele apanhou
o sobretudo e parou. - Nós ganhamos a parada, não foi mesmo? Deveríamos estar nos
congratulando e dançando. Que diabo há de errado conosco?
- Acho que é a reação. Demos um duro danado. Mas Mathry está livre... Nós o
trouxemos de volta à vida...
213
- Eu não sei... Estou pensando como se sentia o Lázara quando saiu do túmulo... -
Depois dessas palavras enigmáticas, McEvoy sacudiu a cabeça e foi-se embora.
Em quinze minutos, Dunn tinha pronto o editorial, apertou a campainha e deu os
originais a Smith. Depois foi para sua sala. Tinha a intenção de telefonar para o hospital
a fim de dar as boas novas a Paul, e já desde muito ele vinha pensando naquele
momento agradável. Deteve-se, porém, quando lhe ocorreu um pensamento. Sorriu para
si mesmo com aquele ar de cansaço do qual não conseguia livrar-se. Atirou o chapéu na
cabeça e saiu.
Quando chegou na casa de Lena, verificou que a Sra. Hanley, a senhoria, já havia
voltado de sua viagem a Londres e estava perto do fogão passando umas roupas lavadas.
- A senhora já sabe a novidade? O pai do Paul vai ser solto. É definitivo e oficial. Quero
que Lena vá já ao hospital para dar a notícia a ele. Acho que ela vai fazer isso melhor do
que eu. Chame-a para que desça até aqui.
A mulher não se moveu, e sua boca estava apertada quando o encarou.
- Lena não está mais aqui. Quando voltei na semana passada, os seus quartos estavam
azios. Deixou um bilhetinho dizendo que ia embora definitivamente.
219
Capítulo XIII
A madrugada do dia 2 de março chegou clara e suave com um bando de passarinhos que
pipilavam entre as flores amarelas no gramado do lado de fora do Hospital St. Elizabeth.
O tempo era de uma perfeita primavera e o sol já se apresentava com algum calor, os
olmos que beiravam a curta entrada de carros já começavam a exibir os brotos verdes e
delicados nos seus galhos mais altos. A terra úmida, murmurando com invisíveis fios de
água, parecia explodir para a vida.
Paul ia ter alta naquele dia.
Muito antes da tarde, na hora que Dunn prometera vir buscálo, ele já estava pronto,
esperando, sentado na sala de espera do hospital depois de ter feito as despedidas, com
uma palavrinha a mais de gratidão e um aperto de mão especial para a Irmã Margaret,
uma freirinha gorducha, vermelha e sempre alegre que fora sua enfermeira. Ele tinha
estado bem doente, mas a costela já cicatrizara, o pulmão já se expandira e a tosse tinha
desaparecido. Agora, apesar de não ter recuperado completamente suas forças e ainda
mostrar sinais de debilidade, ele era considerado como completamente curado.
Dunn chegou num táxi pontualmente. Depois de uma cena um tanto longa na sala, que
mostrava como Paul era querido no hospital, por todas as boas irmãs, e depois de se
haverem livrado com habilidade da insistência da Madre Superiora que lhes oferecia
vinho com biscoitos, eles conseguiram sair. A caminho da cidade, com o agradável ar
fresco entrando pelas janelas do carro, Paul sentia, de repente, uma explosão de
antecipação alegre, fruto do que estava à sua espera imediatamente. Ele via, afinal,
realizado tudo aquilo por que se batera durante todos aqueles meses de sofrimentos e
tristezas. Afinal, Dunn rompeu o silêncio.
- Reservei um quarto para você no Windsor. Não é um hotel importante, mas, pelo
menos, é tranqüilo. Um lugar bom para você se recuperar e arrumar sua vida.
Com um olhar cheio de agradecimentos, Paul mostrava a Dunn que estava disposto a
aceitar tudo que ele quisesse.
220
- Aliás, quando sua mãe chegar amanhã, ela pode ficar com você no hotel até o fim do
inquérito. O jornal vai pagar todas as despesas. Não tem que me agradecer. O show é
por nossa conta. E também por conta do jornal aqui estão trinta libras. Você vai precisar
comprar roupas e outras coisas para seu pai. Depois, se você quiser, poderá acertar as
contas quando receber a indenização.
- Mas que indenização é essa? Dunn olhou-o de lado.
- Tudo indica que seu pai vai receber uma indenização do governo. O advogado acha
que deve andar em torno de umas cinco mil libras.
Paul recebia em silêncio todas aquelas informações inesperadas. Embora no seu
presente estado de espírito aquela indenização lhe parecesse coisa de somenos, ele já
podia aceitar sem-cerimônia o maço de notas que Dunn lhe oferecia. Seria muito bom
para ele usá-las para os fins sugeridos por Dunn. E pensando naquele prazer próximo,
sentia-se especialmente grato e satisfeito porque iria ter um dia inteiro a sós com o pai
antes que sua mãe chegasse na manhã seguinte.
- O senhor já o viu? -"perguntou Paul, após uma pausa.
- Ele está no hotel. Um rapaz lá do jornal está com ele.
- O senhor pensa em tudo.
- Eu bem gostaria que isso fosse verdade. - A resposta dele foi seca. Suas maneiras,
embora sempre muito delicadas, eram bruscas e ele logo mudou de assunto. - Você tem
visto Lena, Paul?
- Não. - A face de Paul alterou-se.-Não a vi mais depois daquela noite que fui para o
hospital.
- Você nada sabe a respeito dela, Paul, mas já é tempo de ficar sabendo.
Olhando sempre para a frente e em poucas palavras, Dunn contou tudo sem omitir
nenhum detalhe.
Paul ficou completamente tonto e abalado sentindo apertar-lhe a. garganta. Como a
julgara mal! Ele fora um tolo... como tinha sido cego e mau! Sentia-se perseguido pela
recordação de seu rosto, com aquela expressão de tristeza e sinceridade. Afinal,
conseguiu controlar-se para poder falar.
- Eu preciso vê-la.
- Ela foi-se embora.
- Mas como?
- Largou o emprego e desapareceu. - Dunn parecia sentir uma satisfação amarga ao
dizer aquilo.
- Mas qual foi a razão?
- Como posso saber?
- Mas sabe, pelo menos, para onde ela foi? Dunn olhou de lado para Paul.
221
Nós não sabíamos... mas agora já sabemos. Está trabalhando como garçonete num
restaurante barato de Sheffield...
- E o senhor tem seu endereço?
- Mesmo que tenha não posso dá-lo... - Ele disse aquilo com uma reticência que
encerrava o assunto.
O táxi tinha fugido do centro da cidade, cruzara a ponte de Nottingham Road e estava
agora nos bairros do sul. Muitas das ruas que atravessavam agora já tinham sido
palmilhadas por Paul durante os seus dias amargos de miséria, quando estava
completamente desesperado. Logo, porém, chegaram a Fairhall e o carro parou na porta
do Windsor, um edifício velho e malconservado com sacadas de madeira, alguns
torreões e coberto com telhas vermelhas. Era um hotel do tipo residencial construído na
década anterior, em estilo grandioso que nunca fora rentável e então tinha caído aos
poucos até chegar a um estabelecimento meio comercial, mas bastante respeitável,
quase sempre só com a metade ocupada. Passaram pela porta giratória, subiram as
escadas com uma passadeira verde e pararam na porta de uma suíte do primeiro andar, e
Paul percebeu que Dunn queria dizer-lhe alguma coisa, mas ele agora já não podia mais
esperar. Tremendo diante da expectativa, ele abriu a porta.
Na sala, numa mesa perto da janela, um homem velho estava comendo presunto com
ovos enquanto o secretário de McEvoy observava-o de longe. O homem devia ter uns
60 anos, tinha um corpo forte, embora não bem proporcionado, um torso forte e braços
musculosos. A cabeça, em parte calva, com cabelos raros por trás das orelhas salientes,
era redonda como uma bala de canhão, ligada ao corpo por um pescoço grosso e ombros
fortes. A peie do pescoço estava como se fosse um pergaminho amarelo, pelancuda,
cheio de arranhões e manchas azuladas. Estava com um terno escuro brilhante muito
apertado e quase arrebentando nas costuras, velho e grotesco, parecendo um velho
marinheiro no seu dia de folga.
Depois, enquanto Paul ficava ali de pé, com o coração aos saltos, olhando para aquele
estranho, ele levantou a cabeça cofn os cabelos cortados rentes, franziu a testa ainda
mastigando com seus dentes fortes descobridos, e encarou-o com olhos rígidos e hostis.
Durante um momento de agonia, Paul não conseguiu falar. Já mil vezes e em outras
tantas maneiras diferentes, ele imaginara aquele encontro, imaginara o rápido
reconhecimento, o abraço afetuoso e as lágrimas desculpáveis. Ah! Com que ternura ele
havia embelezado o encontro com aquele pai tão amado de sua meninice! Embora
estivesse preparado para as mudanças, que não poderiam deixar de ocorrer em todos
aqueles anos, Paul, na sua imaginação, jamais poderia esperar por uma tal devastação.
Foi com esforço que ele conseguiu controlar-se e dar um passo à frente com a mão
estendida. Os dedos que apertaram
222
os seus, depois de uma ligeira hesitação, eram grossos e calejados, duros como chifres e
as unhas estavam lascadas e amareladas.
Dunn fez um esforço para amenizar o ambiente, falando com uma alegria forçada, tão
fora de seu natural retraído até então, que aquilo chegou a arranhar os ouvidos de Paul.
- E então, senhor? Espero que o estejam tratando bem...
O outro levantou os olhos para Dunn, mas não respondeu e continuou a comer como se
quisesse tirar daquilo o máximo proveito. Dunn salvou a situação virando-se para
Smith.
- Você tomou todas as providências, Ted?
- Está tudo providenciado, Sr. Dunn.
- Você não permitiu que os repórteres chateassem muito o Sr. Mathry, não foi mesmo?
- Foi o que fiz, senhor... Entreguei a todos eles a declaraçãoque preparamos.
- Muito bem.
Houve uma pausa. Smith pegou o chapéu que estava no chão a seus pés.
- Muito bem! - exclamou Dunn, fitando os pés. - Vocês dois não se vêem já faz muito
tempo e nós não queremos nos intrometer... Amanhã eu apareço por aqui. Chamem-me
se precisar de alguma coisa.
Paul sentiu-se realmente apavorado. Daria tudo para que aqueles dois ficassem ainda ali,
mas aquilo era impossível, e o rapaz percebeu que ambos estavam aflitos para ir
embora.
Depois da porta fechada, ele ficou ali de pé ainda por um minuto, mas depois apanhou
uma cadeira e sentou-se perto da mesa. Aquele que ali estava, o seu pai Rees Mathry,
abaixou-se ainda mais sobre seu prato e continuou a comer, empurrando a comida com
os dedos, ao mesmo tempo que, de quando em quando, levantava os olhos numa espécie
de interrogação muda. Paul já não agüentava mais. Tomadode desespero, de forma
quase incoerente, em frases lentas e curtas, ele começou.
- Você nem imagina como estou contente por vê-lo outra vez, papai. Isto significa muito
para mim. Claro que... depois de todos estes anos... isto se torna difícil para nós dois...
Posso até dizer que você se sente tão desajeitado como eu. Temos tanta coisa para nos
dizer que nem mesmo sei como começar. E, aliás, também temos muito o que fazer, e a
primeira delas é arranjar umas roupas decentes para você. Logo que você acabar de
comer, nós vamos dar uma. saída aí pelas lojas . . .
Aquilo que dizia e que, para ele, parecia tão inadequado, foi-se transformando em
silêncio. Ele assustou-se, mas sentiu-se aliviado,, quando, afinal, seu pai falou.
223
- E você tem as pratas?
Embora chocado pela crueza da pergunta, Paul logo respondeu dizendo que tinha o
suficiente para aquilo.
- Não consegui arrancar um níquel daquele Dunn. - Depois, continuou como se
estivesse pensando em voz alta. - Eu vou ter dinheiro. Vou fazer eles pagarem por tudo
que me fizeram.
A voz era dura e rouca como um instrumento pouco usado, mas pior ainda do que a
aspereza era a completa amargura, o rancor negro e violento que se percebia em tudo
que ele falava. Paul estava cada vez mais aflito.
- Você tem um cigarro aí?
- Que pena! - Paul sacudiu a cabeça. - Já faz uns tempos que deixei de fumar...
Mathry olhou-o com atenção franzindo as sobrancelhas como se estivesse procurando
descobrir se ele estava falando a verdade. Logo depois, com relutância, tirou do bolso
um maço de cigarros que Paul reconheceu como sendo a marca usada por Dunn. Ele
tirou um e abaixou-se para acendê-lo como se estivesse fazendo alguma coisa proibida.
Com o cigarro escondido na concha da mão, ele fumava rapidamente, às escondidas, e
tragando toda a fumaça. Observando bem o seu rosto, Paul percebeu, pela primeira vez,
e quase com horror, como ele parecia ser de pedra. A boca, especialmente, era dura
como aço e fechada como uma armadilha, por baixo do lábio superior mal barbeado. De
repente, sem qualquer aviso, Mathry apagou o cigarro e guardou a guimba no bolso do
colete.
- Que horas são?
Quando tirou o relógio de prata para ver as horas, Paul repaTOU que o pai olhava
aquilo com olhos cobiçosos e ávidos.
- Eu não tenho relógio...
Paul pegou no relógio com a corrente e entregou-lhe.
- Fique com o meu até comprar um melhor.
Sem uma única palavra de agradecimento, Mathry sopesou o relógio e a corrente e
depois com um movimento rápido e solene, como, aliás, eram a maior parte dos que
fazia, guardou-os no bolso interior.
Alguém bateu na porta e uma camareira entrou para tirar a mesa do café.
Paul levantou-se. Ele sabia que havia desculpas para o procedimento de seu pai, mas
não podia deixar de se sentir muito chocado, e então falou numa voz que quase não se
podia ouvir.
- É melhor nós irmos andando... vamos fazer umas compras ...
- Vamos lá. Olhe que eu quero coisa boa...
224
Saíram para o agradável sol de primavera e tomaram um táxi que desceu a Rua Leonard
e deixou-os no Dron que era uma das melhores lojas da cidade. Paul estaria
redondamente enganado, se esperasse algum alívio naquela empreitada. O resto da tarde
tornou-se, para ele, um verdadeiro pesadelo. A aparência de seu pai fazia com que todo
mundo olhasse para ele, e seus modos grosseiros com a moça que os atendia quase fez
com que ele desandasse em prantos. Pior do que isso, no entanto, era a truculenta
perversidade com que ele escolhia as roupas mais impróprias. A roupa de xadrez que
escolheu era coisa para gente moça, a camisa de seda artificial era de cor muito viva da
mesma forma que a gravata, e os sapatos eram pontudos demais. Ele ficou na seção de
joalheria durante mais de uma hora olhando fascinado para as mostras, e Paul só
conseguiu arrancá-lo dali depois de lhe comprar um anel com sinete.
Quando voltaram ao hotel, às seis horas, Paul estava cansado e desanimado e deixou-se
cair numa cadeira da sala. Mathry levou seus embrulhos para o quarto e ficou lá uns 20
minutos. Quando voltou, envergando as roupas novas, o relógio e o anel, era fácil ver
que se sentia vaidoso.
- Você está vendo. Ainda não estou liquidado, apesar do que fizeram comigo. Gostaria
bem que aqueles porcos lá me vissem aqui agora, especialmente o Hicks. Nós
precisamos sair para nos divertir e também para ir a um teatro.
- Nós acabamos de chegar. O melhor mesmo é jantarmos aqui hoje...
Mathry olhou para ele com a testa franzida.
- Então vamos beber alguma coisa...
- Claro. Boa idéia. O que vai querer?
- Uísque... - respondeu o velho, estirando-se no sofá e abrindo o jornal da noite que
pedira a Paul para comprar. •- Eu devo estar por aqui. Tiraram muitas fotos. Eles vão ter
que me pagar por tudo que publicarem a meu respeito.
Paul tocou a campainha e quando a mesma camareira veio atendê-los, pediu o jantar e
uma garrafa de uísque enquanto Mathry, deitado no sofá, não tirava os olhos dela,
olhando-a por cima do jornal. Era uma moça alta com cara de tola e rosto chupado, e
aquela atenção da parte de uma pessoa tão notória fazia-a ficar muito vermelha e cheia
de trejeitos. Logo que ela saiu, Mathry vangloriou-se.
- Ela sabe quem eu sou...
Paul mal pôde tocar no jantar que veio para os dois, ao passo que o outro comeu com
uma voracidade de espantar e sem dizer uma só palavra. Depois que acabou,
desarrolhou a garrafa e serviu-se. Levou o copo e a garrafa e foi sentar-se numa cadeira
de espaldar alto que estava encostada à parede. Ficou sentado ali muito em225
pertigado, em silêncio absoluto, com o olhar perdido e com os olhos apertados de
maneira a meter medo. De tempos em tempos, tornava a encher o copo. Havia
momentos em que seus lábios se mexiam como se estivesse falando consigo mesmo.
Não se dava conta da presença de Paul e, quando a moça veio para tirar a mesa, ele não
lhe deu a mínima atenção, deixando-a completamente desapontada.
Como o silêncio continuasse, Paul olhou para a grotesca figura do pai, ali entregue aos
seus pensamentos. Como era que aquele homem ali poderia ser aquele mesmo delicado
e elegante que o levava para soltar barquinhos de papel na Praça Jesmond Dene, que
tanto se esforçava para diverti-lo desenhando silhuetas e recortando figurinhas e que,
em todos os fins de semana, nunca se esquecia de lhe trazer um presente e que em todos
os seus atos só demonstrava amor e consideração. Qual fora o pavoroso processo de
brutalização que o transformara e reduzira àquele estado? Paul lutava por imaginar
como poderia ter sido o sofrimento do pai naqueles 15 anos. Sentia que uma pequenina
chama de pena surgia em seu peito. Ele pensava naquela cela apertada, no uniforme dos
presidiários e na comida intragável, nas grades de ferro, as horas da escuridão solitária,
os gritos e as catingas daquela horda, na vigilância constante, nos arrasadores trabalhos
forçados no verão e no inverno, debaixo de sol e de neve, os dias tristes e as noites sem
fim. Tudo aquilo, porém, desaparecia no mesmo instante diante da triste realidade
daquela presença física que ali estava sentada na cadeira do outro lado da sala.
De repente, com um movimento que era quase uma carícia, Mathry tirou o relógio do
bolso e ficou olhando para ele durante muito tempo antes de começar a falar.
- São nove horas. Agora eles já estão todos no escuro . . . nas suas macias camas de
pranchas. Estiveram na pedreira-, trabalhando duro debaixo da chuva... Tomaram
aquela sopa aguada... tiveram sorte os que encontraram pedacinhos de gordura... e a
espuma que tem gosto de sabão. Ela está sempre presente cinzenta e suja . . . embrulha o
estômago. Tudo está escuro... mas eles sempre o ouvem lá fora na galeria... para cima e
para baixo, sempre a vigiá-los por aquele buraquinho na porta. É possível que o Hicks
esteja hoje de plantão... todos logo sabem quando é ele.
"Alguns esmagaram os dedos na pedreira... outros estão com as mãos cheias de bolhas...
e com dores nas costas... todos sofrem de reumatismo por causa daquela neblina
infernal. Isso, porém, nada significa diante do que estão pensando. Todo mundo só
pensa no que está cá fora... ficam ali deitados nas pranchas, tentando lembrar como era
a vida cá fora, pensando nas farras, nas camas macias e num bom bife, além de muitas
outras coisas. Os veteranos ficam batendo nas paredes para contar as novidades... quem
foi chicoteado... quem.
226
vai chegar... e quem vai sair. São os que cumprem pena de prisão perpétua. Não podem
alimentar esperanças. São os enterrados vivos.. .
"Mas também há aqueles que não gozam de tanto conforto, e que não estão em suas
celas. Cometeram um engano ou fizeram alguma coisa errada. Então vão para a solitária
de dois metros e meio por dois lá embaixo no porão... é escuro como breu. E não
recebem nem mesmo a espuma suja. É só pão e água... pão seco e água. Não há espaço
nem mesmo para se virar... se tentar logo baterá com a cabeça na parede de cimento. E é
ali que a gente começa mesmo a pensar... a pensar quem somos... e onde estamos, e que
diabo fizemos para ir ter ali. É ali que a gente começa a pensar na possibilidade de as
paredes se abrirem para nós irmos à forra... para fazer alguém pagar por tudo quanto
sofremos, para odiar todo mundo amaldiçoado... para nos apossarmos de tudo... se, ao
menos, as paredes se abrissem.
"Pois bem, por Deus, elas se abriram para mim. Então agora você já pode imaginar o
que eu vou fazer.
Depois que acabou, ele se levantou e, sem mesmo dar boa noite ou apenas olhar para
Paul, saiu da sala. Podiam-se ouvir os seus passos pesados caminhando pelo corredor
até o quarto. Houve então um curto silêncio. Logo depois, Paul ouviu uma cigarra tocar
e, a seguir, passos leves no corredor. Por mais que tentasse, Paul não conseguia
levantar-se. Ficou então ouvindo com atenção. Os passos leves não voltaram.
Paul soltou um gemido. Não se atrevia a ir até a porta para confirmar suas suspeitas,
mas por um processo de associação do inconsciente, ele lembrou-se daquele momento,
quando saíam da loja, em que alguém esbarrara em seu pai e, instintivamente, a mão
dele enfiara-se no bolso de dentro do seu paletó. Tudo que restava do dinheiro, umas 15
libras, tinha desaparecido.
227
Capítulo XIV
O dia seguinte amanheceu também bonito e a luz clara da manhã fazia com que as
perspectivas fossem menos sombrias. Ao contrário do que esperara, Paul dormira bem
e, ao acordar, sentia-se pronto para enfrentar suas dificuldades com mais determinação.
Sua mãe devia chegar de Belfast às 11 horas e, enquanto se vestia e fazia a barba, ele
esperava que aquilo lhe traria mais apoio e que, materialmente, viria melhorar a
situação. Afinal de contas, era mais do que inevitável que a prisão houvesse mudado o
pai, e fora somente sua ansiedade natural que o levara a esperar outra coisa, mas com o
tempo e o carinho da família, seria fácil suavizar e regenerar o mais duro dos corações.
Ele tomou o seu café no restaurante do hotel, sozinho, e depois subiu de volta. Ao
passar pelo corredor, ainda um tanto apreensivo, experimentou a outra porta que se
abriu sem barulho e entrou. Seu pai ainda dormia tão profundamente que até parecia
morto com a cabeça grisalha enfiada nos braços, os lençóis atirados para o lado e o
travesseiro no chão. Sentiu uma nova onda de pena vendo-o ali todo encolhido e
indefeso num sono profundo. Achou melhor não acordá-lo. Apanhou uma folha do
papel do hotel que havia na mesinha do canto e escreveu um recado. Fui esperar o trem.
Espero que esteja pronto quando voltarmos. Paul. Colocou-o bem à vista em cima da
cadeira onde estavam as novas roupas e depois saiu.
Caminhou para a cidade sentindo o frescor agradável e revigorante. O caminho
margeava o canal cheio de atividade com as barcaças descarregando no cais e havia
também uma pequena lancha de recreio que estava pronta para partir. Quando chegou à
estação, soube que o expresso estava atrasado, mas o trem chegou às 11:20. Paul viu
logo o pequeno grupo que saltava de um dos compartimentos da frente. Lá estavam sua
mãe, Ella e Emmanuel Fleming.
O rapaz assustou-se imperceptivelmente já que não esperava o pastor com a filha, que,
desde algum tempo, estavam afastados de seus pensamentos, e sentiu-se um tanto
constrangido, mas não havia tempo para reflexões. Eles já o tinham visto, e o pastor
acenava-lhe
228
com o braço enquanto a filha fazia o mesmo com um lencinho branco. Logo a seguir já
estavam todos juntos se abraçando com entusiasmo, falando todos ao mesmo tempo
numa confusão de frases desencontradas. Os olhos da mãe estavam molhados, e Ella
parecia não querer largar o braço do rapaz, que apertava com a mão enluvada, enquanto
o pai dela, em segundo plano, olhava tudo aquilo com um sorriso aprovador.
Caminharam todos para a parada de bonde. Sua mãe e Fleming iam na frente, e Paul
vinha atrás com Ella. O rosto da moça estava corado pela excitação e seus cabelos
curtos tinham sido recentemente lavados e frisados. Trajava um costume cinza novo e
um chapeuzinho da mesma cor, por baixo do qual brilhavam os olhos.
- Pois é isso, Paul. Nós devemos a você muitas desculpas envergonhadas. Devíamos
todos nos ajoelhar a seus pés. E é isso mesmo que faremos, se você quiser. Eu, pelo
menos, vou fazer isso. - Tais palavras foram ditas acompanhadas de um olhar carinhoso
e cheio de promessas. - É claro que nós não fazíamos a menor idéia do que estava
acontecendo. Se soubéssemos, tudo teria sido muito diferente. Nós todos pensávamos
que você estava arruinando sua esplêndida carreira e prejudicando sua vida a troco de
nada. E para nós que o amamos tanto, isso era o que havia de pior. Nós achávamos que,
se o apoiássemos, tudo ficaria ainda pior. Como já disse... jamais poderíamos sonhar
que... e então veja o que aconteceu. Veja o que você fez. Você é a pessoa mais
maravilhosa deste mundo, Paul! Quase desmaiei de alegria quando soube... Eu estava na
cozinha preparando um chocolate, quando papai entrou e me contou. Paul, meu querido,
não tenho passado bem ultimamente. Quase tive um esgotamento nervoso por causa de
minhas preocupações a seu respeito ... aquela desgraça e tudo mais. Mas não vou falar
de meus pobres sofrimentos agora, já que agüentei tudo sem dar a perceber. Você, Paul,
é a pessoa mais maravilhosa deste mundo! Só queria que você lesse o que dizem os
jornais de Belfast, mas acho que os daqui também devem dizer a mesma coisa, então
você veria o que todo mundo pensa a seu respeito. No país inteiro, só se fala no seu
nome. Naturalmente, ninguém haveria de querer ser vulgar ou sensacionalista numa
hora como esta. Fiquei, realmente, bem satisfeita quando vi que não havia fotógrafos na
estação... tinha quase a certeza que iriam aparecer por lá. Que tal você acha este meu
vestido novo, querido? Acho que vai bem com a primavera, embora seja discreto como
exige a ocasião. Como eu estava dizendo, Paul, o triunfo é todo seu e quero que você o
aproveite ao máximo. Naturalmente, as orações também devem ter ajudado muito,
conforme nós dois sabemos muito bem, e não se passou uma só noite sem que eu
rezasse por você com súplicas ao Todo-Poderoso.
229
O olhar dela estava cada vez mais terno e carinhoso, como sempre acontecia quando
falava em religião, e Paul podia ver isso nos seus olhos claros e esverdeados voltados
para ele.
- Como é maravilhoso, Paul, estarmos nós todos aqui, novamente juntos com todo o
futuro à nossa frente! É claro que no meio de toda a nossa alegria pelo reencontro, não
devemos esquecer o seu pai. Como sinto pena dele! Meu coração sangra por ele. É
difícil para nós compreender como uma coisa dessas pôde acontecer... mas acho que
certas coisas são enviadas lá das Alturas para nos submeter à provação e para purificar
nossos espíritos... Eu mal posso esperar para falar com ele, para lhe mostrar minha
simpatia e tristeza diante do que aconteceu. E quero garantir-lhe, Paul, que, se houver
alguma coisa que eu possa fazer por ele, tudo o que você tem a fazer é ordenar.
A moça afinal parou e tornou a levantar os olhos para ele, juntando-se aos outros que
entravam no bonde. O rapaz mordeu o lábio diante daquele prolongado e possessivo
monólogo tão vazio e vão, que tão bem mostrava uma natureza barata e mesquinha.
Estaria ele, realmente, tão comprometido a seu respeito como as suas palavras davam a
entender? Espantava-se ao pensar que algum dia houvesse sentido qualquer afeição
especial por aquela criatura, e como fora grande a transformação que se operara nele.
Pensou em Lena e seu coração encheu-se de tristeza. Depois de estarem todos sentados,
ele achou que seria bom dizer-lhes como seu pai estava completamente mudado. O
pastor, de uma forma mais reservada do que geralmente, olhava pela janela como se
debatesse consigo mesmo, e parecia ser o único que ainda alimentava alguma dúvida
secreta enquanto Ella continuava a tagarelar sem descanso. As duas mulheres, da
mesma forma que ele mesmo, obviamente, não estavam preparadas para o encontro. Ele
tinha a obrigação de avisá-las, mas, à medida que o bonde seguia seu caminho, levando-
os, cada vez mais, para perto do hotel, ele permanecia em silêncio. Havia no entusiasmo
fácil de Ella, e até mesmo na antecipação nervosa que percebia em sua mãe, uma
qualidade que, de forma peculiar, era completamente diferente de tudo que ele sentia, e
isso fazia com que se sentisse mais do lado daquele homem que fora tão brutalizado e
que os esperava no quarto do hotel. Sua mãe até mesmo se havia embonecado com o
que tinha de melhor para a sua condição de matrona respeitável.
Após saltarem do bonde na frente do Windsor, Paul seguiu pelo caminho de entrada do
hotel sem dar uma palavra. Quando chegaram no andar de cima, Paul, apertando os
lábios satiricamente, abriu a porta da suíte, deixando os demais entrarem na sala.
230
Mathry tinha acabado de tomar o seu café e estava fumando um cigarro. Achava-se
somente de calça e suspensories, com a camisa desabotoada no pescoço e os sapatos
novos desamarrados para maior conforto dos pés. Estava ainda sentado à mesa que não
tinha ainda sido tirada. Sua expressão, quando se virou para olhar os que chegavam, era
ainda mais impenetrável do que antes. Levou a xícara de café à boca sem tirar os olhos
deles. Pelo seu pescoço enrugado era fácil ver quando engolia o café. Largou a xícara e
voltou-se para Paul, como se ele fosse a única pessoa que conhecia e tolerava.
- O que eles querem?
Diante da interrogação, Paul procurou uma resposta que não piorasse a situação.
- Pois então você não sabe, papai... querem ficar aqui com você...
-- Mas eu não quero ficar com eles. Você, pelo menos, sempre fez alguma coisa, mas
eles não fizeram nada. Deixaram-me lá apodrecendo todos esses anos. Agora que estou
livre, eles voltam rastejando para me lamberem os sapatos e ver o que conseguem tirar
de mim...
O pastor deu um passo à frente, muito pálido mas menos surpreendido do que os outros
com aquela recepção, e talvez até mesmo, conforme Paul desconfiava, já esperasse
alguma coisa assim, e falou com voz baixa e cheia de persuasão.
- Você está cheio de razão quando nos reprova. Tudo que podemos fazer é esperar que
nos perdoe...
Mathry olhou para o pastor com a cara amarrada.
- Você não mudou nada. Lembro-me bem de você, Fleming.. . Lembro-me muito bem
de você. Não quero saber dessa porcaria de desculpas... Já aturei o máximo que podia
naqueles velhos tempos. Perdão! - Os seus beiços rachados abriram-se numa expressão
de nojo. - Havia lá um guarda que se chamava Hicks. Um dia nós estávamos na
pedreira... foi no meu primeiro mês. Eu ainda era novato e aquele trabalho quase me
matava. Mas Hicks estava ali bem a meu lado, tomando conta de mim. O suor escorria
nos meus olhos e eu mal podia ver. Quando desci a minha picareta, ela escorregou do
granito e bateu na sua bota. Não chegou nem mesmo a arranhá-lo. Apenas tirou um
pedaço da bota. Você acha que ele me perdoou? Jurou que eu tentara matá-lo. Levou-
me à presença do diretor. Mas não ficou satisfeito com aquilo. Dava-me pontapés e
socos, cuspia na minha comida, atirou-me na solitária e não me deixava em paz.
Durante 15 anos, ele fez de minha vida um verdadeiro inferno. E você me vem aí com
essa conversa de perdão!
231
li
Eu sei que você sofreu muito. Sei que sofreu horrivelmente, e isso é mais uma razão
para nós querermos ajudá-lo. Queremos que volte a ser o que era, que encontre paz no
seio de sua família...
O rosto de Mathry voltou a mostrar aquela mesma teimosia que já demonstrara na
escolha das roupas.
- Pois eu tenho outras idéias. Ainda não estou liquidado. Eu vou gozar a minha vida...
- Como?
- Você pode esperar para ver, seu hipócrita pregador. Eles se divertiram comigo, mas
agora chegou a minha vez...
Diante daquelas palavras, Fleming lançou um olhar desesperado para a mãe de Paul
que, com a boca entreaberta e uma expressão de assombro, estava de olhos arregalados
para o marido. Até ali ela não se manifestara. Aliás, não poderia falar mesmo se
quisesse. Agora, porém, impelida por uma nova emoção desconhecida, talvez por algum
impulso do passado, ela soltou um grito e estendeu os braços.
- Rees... vamos tentar começar tudo de novo.
A repulsa dele veio com um olhar antes mesmo que ela se aproximasse, e Mathry deu
um soco na mesa.
- Não me venha com esta. Tudo está acabado entre nós. Eu quero uma mulher mais
nova e com bastante sangue. - Seus olhos se dirigiram para Ella que ficou muito
vermelha e encabulada, depois voltaram-se novamente para a sua mulher com uma
expressão cheia de amargura. - Você vivia me chateando, choramingando porque eu não
queria ir para a igreja e preferia ir beber uma cervejinha com os amigos. Eu não
chegaria perto de você agora nem mesmo se fosse a única mulher no mundo...
Hannah deixou-se cair numa cadeira com o coração humilhado, a cabeça caída e as
lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto. Ella correu para o seu lado ajoelhando-se e tentando
consolá-la. Fleming estava calado com os olhos fitos no tapete. Paul olhou para sua
mãe, mas não saiu de onde estava, mostrando assim, mais uma vez, que queria ficar do
lado do pai.
Mathry continuava ali sentado na mesa com a testa franzida e os olhos baixos,
completamente imóvel como se, de alguma forma, estivesse em recolhimento. Logo a
seguir levantou-se e foi até a porta. Antes de sair, porém, contemplou-os todos com o
seu olhar perdido.
- Oito lambadas da chibata... vocês nem sabem o que é isso... Foi o que eu recebi deles.
Bateu a porta com estrondo ao sair e, lá dentro, só ficaram os soluços angustiados.
Fleming foi até a janela e olhou lá para fora com tristeza.
232
- Meu Deus! Meu Deus! - disse a mãe de Paul. - Eu preferia estar morta...
Ella chorava de uma forma que parecia apavorada.
- Eu não compreendo. Não compreendo. Pensei que ia ser tudo tão bonito... tal como
diziam os jornais. Quero voltar para casa.
O pastor virou-se lentamente, falando com a voz embargada mas cheia de autoridade.
- Não. Nós precisamos ficar aqui para o inquérito. Já lhe faltamos uma vez e não
podemos fazer isso novamente. Pode ser que ainda não seja tarde. Ainda poderemos
salvá-lo, se rezarmos e se tivermos esperanças.
231
Capítulo XV
Às dez horas de segunda-feira, do dia 25 de março, numa manhã quente e úmida, o
Tribunal do Júri de Wortley estava cheio de sufocar, e o público, até mesmo, já havia
extravasado para a rua. Nas galerias os espectadores estavam apertados como sardinhas
em lata não só nos bancos como nas passagens e nas escadas, numa tremenda excitação.
Lá embaixo, no recinto, a aglomeração era a mesma. O exército de repórteres estava
pronto com papel e canetas à mão. Na frente da galeria pública havia o lugar reservado
para as pessoas importantes não só da cidade como do país, e entre elas estavam Lord
Oman e Sir Matthew Sprott. O Procurador-Geral com o seu advogado e outros altos
funcionários da Coroa estavam sentados do lado esquerdo e do outro lado estava o
advogado do apelante, Nigel Grahame, o seu ajudante, e o solicitor que era o advogado
encarregado de instrução. Paul e sua mãe, Ella e seu pai, Dunn e McEvoy, com alguns
outros amigos, estavam na primeira fileira das galerias do público e, ao lado de seu
advogado, estava Rees Mathry, o antigo presidiário que passara 15 anos em Stoneheath,
e que insistira em ficar ali bem à vista do público, contrariando os conselhos de seus
advogados, sempre de cara amarrada e mordendo o beiço, e olhando tudo com muita
atenção.
De repente, o zunzum constante das conversas cessou completamente com o aviso
"Silêncio no Tribunal!" Logo a seguir, abriu-se a porta e todos ficaram de pé ao entrar o
Juiz Frame seguido de um dos juizes de Apelação, todos solenes e imponentes em suas
togas esvoaçantes. O silêncio tornou-se ainda maior até que todos houvessem tomado
seus lugares. Depois, os juizes sentaram-se e, logo em seguida, uma voz entoou:
- Está em julgamento o caso Rees Mathry...
Apertado e tenso em seu lugar, Paul respirou fundo sentindo uma dor no peito. Dia após
dia, vivendo à custa de seus nervos, ele tinha acompanhado a formação do processo por
Nigel Grahame. Mal podia acreditar que, finalmente, o inquérito ia começar. Sentiu os
olhos turvos quando Grahame levantou-se muito calmo. Ele era alto,
234
benvapessoado, e então, com a mão na lapela, na atitude característica e tradicional, o
jovem advogado dirigiu-se ao juiz. O seu timbre, da mesma forma que suas maneiras,
era perfeitamente informal, despido de retórica e quase como se fosse uma conversa.
- Meritíssimos, no dia 15 de dezembro de 1921 e nos que se lhe seguiram, Rees Mathry,
o apelante, foi julgado pelo Tribunal do Júri de Wortley, acusado de haver assassinado
Mona Spurling no dia oito de setembro de 1921, na cidade de Wortley. Como o
peticionário se declarasse inocente, o julgamento teve lugar perante um júri presidido
pelo então Juiz Oman e que, no dia 23 de dezembro de 1921, condenou-o à morte.
Depois disso, no entanto, a pena foi comutada para prisão perpétua e ele foi então
removido para a prisão de Sua Majestade em Stoneheath, e ali permaneceu durante
quinze anos. O Secretário do Interior, valendo-se da Prerrogativa Real, constituiu este
tribunal para proceder a inquérito minucioso e completo sobre o assunto que condenou
o apelante e, em vista dos problemas em causa, ordenou que o inquérito fosse público.
Eu funciono aqui como defensor do apelante e vou mostrar que ele é inocente do crime
que lhe foi imputado e que resultou na sua condenação, uma condenação errada e
injusta que constituiu um sério erro judicial.
Sem que fosse notado, Paul olhou para os três representantes da lei que estavam ali tão
perto dele que até mesmo poderia tocá-los com a mão, se assim desejasse. Eram o Chefe
de Polícia Dale com o rosto impassível de sempre, Oman, com um ar arrogante e
ausente, e Sprott que estava estirado na cadeira, muito vermelho mas com o olhar firme
e determinadamente indiferente. Depois, o rapaz desviou os olhos para a figura solitária
e pouco atraente de seu pai que sofria novamente a prova de um tribunal público, e
então seu coração começou a bater com violência. Não podia haver dúvida de que,
finalmente, ele seria inocentado. Logo porém, com medo de não resistir mais, ele
desviou os olhos para o outro lado.
Grahame, tendo completado sua abertura preliminar, fizera uma pequena pausa
enquanto seus olhos contemplavam gravemente o tribunal. Em seguida, sempre muito
calmo, ele continuou sua peroração.
- Meritíssimos, doze meses depois, o caso Rees Mathry foi sepultado nos arquivos
poeirentos do Departamento do Interior. Durante quinze anos ele ficou esquecido, com
o criminoso condenado cumprindo sua sentença de prisão por toda a vida e que poderia
ser comparada com a própria morte, numa prisão de Sua Majestade, enquanto o mundo
continuava a girar tranqüilamente...
"Então, por um simples golpe da sorte, o filho do condenado, que desconhecia
completamente tudo que se passara, descobriu, de repente, o ódio e a mancha terrível
que era imputada a seu pai e que, natu-
ralmente, de alguma forma, envolvia-o também como se fosse uma praga. Surpreso e
indignado, ele, não osbtante, confiava na força da lei, mas foi com horror que se viu
obrigado a reconhecer a vergonha de ter um assassino como pai. No entanto, em
conseqüência do amor profundo que nutria por ele, o filho sentiu-se também obrigado,
quase contra a sua vontade, a esmiuçar as circunstâncias terríveis que teriam levado seu
pai a cometer tão nefando crime. Pôs-se então em campo e, depois de meses de
investigações, de sofrimentos e das mais cruéis oposições, ele foi descobrindo, passo a
passo, todos os fatos já esquecidos do caso. Meritíssimos, foi devido a todos esses
esforços e os resultados apurados que nós estamos aqui hoje reunidos neste tribunal.
A abertura de Grahame e a calma solenidade que ele emprestava às palavras
provocaram uma grande sensação. Paul continuava de olhos baixos e sentia um tremor
interior, ao passo que Grahame continuava a falar, consultando por vezes as notas que
tinha diante de si, para, finalmente, definir e analisar os fatos da prisão, do julgamento e
da condenação de Rees Mathry, em dezembro de 1921. Por mais familiarizado que
estivesse com tudo aquilo, Paul não podia deixar de se comover, quando, ponto por
ponto, numa seqüência sem falhas, Grahame calmamente examinava e logicamente
dissecava os detalhes das provas circunstanciais que haviam enredado seu pai.
A fala, brilhante e magistral, durou quase três horas, com um intervalo para o almoço. E
no final, antes que passasse o efeito causado, Grahame continuou tranqüilamente. Sem
mostrar sinais de cansaço, o advogado inclinou-se perante o tribunal e pediu licença
para chamar suas testemunhas.
- Mteritíssimos, proponho, em primeiro lugar, chamar como testemunha o próprio
apelante. Durante o seu julgamento, e em vista do tremendo ataque contra o seu caráter
feito pelo advogado da Coroa, Rees Mathry não teve licença nem oportunidade para se
defender. Agora, em seu depoimento, ele apresentará todas as provas de sua completa
inocência e também responderá a todas as perguntas que lhe forem feitas com relação à
acusação.
Imediatamente, o Procurador-Geral levantou-se para protestar. Durante todo o tempo da
apresentação de Grahame, ele se remexera na cadeira.
- Meritíssimos, estou desejoso, e até mesmo ansioso, para presenciar um inquérito
legítimo com respeito a esta apelação, mas não permitirei que haja um novo julgamento.
Oponho-me absolutamente à convocação do acusado como testemunha.
Houve uma onda de excitação em todo o tribunal. Paul viu seu pai mexer-se na cadeira
olhando para Grahame. Os juizes estavam
236
com as cabeças juntas numa consulta recíproca, mas logo o Juiz Frame anunciou a
decisão.
- Este tribunal quer investigar todas as provas novas que pos~ sam relacionar-se com o
veredicto anterior. É desnecessário e indesejável ouvirmos o próprio acusado. Temos
diante de nós as provas do julgamento anterior que nos satisfazem plenamente. A
credibilidade do acusado já foi determinada por um júri. O que precisamos fazer não é
uma avaliação subjetiva de sua credibilidade e sim até onde ela pode ser reavaliada
mediante a apresentação de novas provas. É isso o que esperamos agora, Sr. Grahame.
Mathry inclinara-se para a frente a fim de melhor ouvir o que dizia o juiz e sua
indignação era cada vez maior. E agora, no meio do zunzum que predominava, ele
levantou-se, de repente, tremendo dos pés à cabeça dentro de sua estranha indumentária.
Paul, viu, horrorizado, que ele sacudia os punhos para o tribunal e gritava com voz
rouca.
- Isto não é direito. Eu preciso dizer o que sei. E tenho muito a dizer. Quero que todos
ouçam. Quero que saibam como me liquidaram. Como fui tratado na prisão durante
quinze anos. - Sua voz já atingira o ponto mais alto. •- Vocês não podem mais me
prender agora... como fizeram antes. Eu quero ser ouvido. Eu quero justiça. .. justiça...
Gesticulando como um louco, ele foi, afinal, obrigado a sentar-se de novo por Grahame
e outros que ali estavam, funcionários do tribunal que logo haviam corrido para junto
dele. Durante alguns minutos, houve uma grande confusão seguida por uma sensação de
consternação que logo se transformou em completo silêncio. Desolado também, Paul
logo notou que sua mãe e Ella estavam chorando. Dunn e McEvoy trocaram olhares
aflitos. Sprott e Dale que, pela primeira vez davam sinais de emoçãc, pareciam
satisfeitos.
Então, com grande severidade, o Juiz Frame inclinou-se para Mathry.
- Nós estamos preparados para sermos muito tolerantes, mas devemos avisar ao apelante
que esta sua conduta não vai melhorar a opinião que este tribunal tem a seu respeito.
Mais ainda, devo avisarlhe que, se houver uma repetição, o apelante poderá ser
condenado por desacato ao tribunal.
Grahame. já de volta a seu lugar, intercedeu a favor de Mathry.
- Meritíssimos, em nome do apelante, ofereço suas desculpas sinceras pela lastimável
explosão que talvez possa ser compreendida. Então, com a vossa permissão, chamarei
minha primeira testemunha, Sir Malcolm Garrison, eminente especialista em assuntos
pertinentes ao Departamento do Interior.
De novo, o Procurador-Geral logo se levantou.
237
- Meritíssimos, mais uma vez eu protesto. Não há necessidade de novas opiniões de
especialistas, a não ser que sejam apresentadas novas provas ou novos fatos.
O Juiz Frame sacudiu a cabeça concordando.
- Em que fatos o senhor se respalda, Sr. Grahame, para desejar trazer aqui o testemunho
de Sir Malcolm Garrison?
- Meritíssimos, Sir Malcolm, conforme sabeis, é um dos nossos mais notáveis
criminologistas e ele fez a descrição dos ferimentos encontrados na mulher assassinada.
Ele viu todas as fotos do corpo
tiradas na ocasião do crime e também da navalha que a Coroa presume ter sido o
instrumento letal, e sua opinião definitiva é que esse instrumento nada teve a ver com o
crime.
O Juiz Frame tornou a consultar seu colega e logo depois olhou para Grahame.
- Mais uma vez, Sr. Grahame, o senhor não está compreendendo bem a nossa função.
Não estamos aqui para um novo julgamento do caso. Se fosse assim, as especulações de
especialistas poderiam ser pertinentes. Estamos aqui para julgar novas provas que o
senhor nos possa apresentar e que possam afetar as conclusões anteriores. Não existe
nenhum caso neste mundo em que a defesa não possa conseguir novas opiniões de
especialistas repetidamente depois da condenação. Aqui não se trata de nova prova e
sim apenas de uma nova conjetura.
Paul estava no auge da indignação. Sentia-se esfogueado, ao mesmo tempo que
arrepiado de frio. Iriam eles ser obstruídos em todas as suas tentativas? Grahame, no
entanto, apenas curvou-se diante do tribunal aceitando a decisão sem discutir.
- Meritíssimos, vejo que a vossa intenção é limitar ao mínimo possível o número de
testemunhas e, sendo assim, chamarei apenas cinco que não poderão ser recusadas. Com
relação à questão que haveis levantado a respeito daqueles que viram o corpo, ser-vos-á
fácil verificar, da leitura do caso, que o Dr. Tuke, o médico que viu a mulher
assassinada logo depois de sua morte, não foi chamado para depor durante o
julgamento. Meritíssimos, durante toda a vossa experiência, jamais ser-vos-á possível
citar um só caso em que o médico que foi o primeiro a examinar o corpo, não tenha sido
chamado para prestar seu depoimento. Por que então, neste caso, aconteceu isto com
uma testemunha de tanta importância? O Dr. Tuke já morreu, mas sua viúva está aqui
presente para responder a esta pergunta absolutamente pertinente.
Houve um movimento geral no tribunal, quando o nome da viúva foi chamado e logo
depois ela se sentava na cadeira das testemunhas. Era uma senhora idosa, toda de preto,
e trazia estampado
238
no rosto simples e enrugado, sem sombra de dúvida, a honestidade, sinceridade e
respeitabilidade. Ela prestou o juramento sem titubear e voltou-se para Grahame, o qual
logo iniciou o interrogatório com calma e delicadeza.
- A senhora é a viúva do Dr. Tuke, que morreu em 1933, e que teve seu consultório
durante muitos anos, até a sua morte, noDistrito de Eldon, em Wortley?
- Tudo isto é correto, senhor.
- Sabe que seu marido foi chamado à casa da Srta. Spurling na noite em que ela foi
assassinada?
- Sei.
- Ele falou alguma coisa com a senhora a respeito?
- Claro que falou. Disse que tinha sido uma coisa terrível. Em muitas outras ocasiões
falamos sobre esse crime.
- E o seu marido alguma vez falou com a senhora, achandoestranho o fato de ele não ter
sido chamado para depor no julgamento?
- Ele, realmente, falou sobre isso comigo. Disse que era muito estranho, ele disse que... -
parou e olhou atemorizada para os juizes.
- Não tenha medo, Sra. Tuke. O objetivo deste tribunal é obter e não suprimir a prova
que a senhora apresentar. O que foi então que ele lhe disse?
- Ele disse que as autoridades não consideravam sua opinião como relevante.
Mais uma vez uma onda de interesse varreu o tribunal, e também pela primeira vez, a
atenção dos espectadores se concentrava em Sir Matthew Sprott. Embora Paul
conhecesse bem todos os fatos, ele também sentia-se empolgado pela excitação que
havia no ar.
- Diga-nos então, minha senhora, em suas próprias palavras, tudo que seu marido lhe
disse nas inúmeras conversas que tiveram a respeito desse caso.
Houve uma pausa enquanto a testemunha bebia um gole de água do copo que estava na
sua frente.
- Meu marido sempre dizia que aquele ferimento não poderia ter sido feito com uma
navalha. Na sua opinião, o instrumento deveria ter sido um objeto pontudo e afiado
como, por exemplo, um bisturi...
- E como foi que ele chegou a essa conclusão?
- Foi com o exame minucioso que fez do ferimento. Ele encontrou um Juro que
penetrava profundamente no lado direito do pescoço e daí um corte profundo na direção
da orelha esquerda.
- Foi então assim que ele concluiu que um instrumento pontudo e afiado tinha sido
primeiro enterrado para cortar as artérias do pescoço antes de rasgar o sulco profundo
para a esquerda?
239
- Sim, senhor.
- E uma navalha comum, devido à sua configuração, jamais poderia ter feito aquilo...
- Era justamente o que ele sempre dizia, senhor. Ele também dizia que o crime deveria
ter sido cometido por uma pessoa muito forte e violenta... Além disso, pela disposição
do ferimento e a maneira como o sangue se espalhara pelo tapete perto do corpo, ele me
dizia que tinha a certeza, sem sombra de dúvida, de que o assassino era canhoto.
- Um homem canhoto... - Grahame repetiu com muita ên, fase e olhou para a
testemunha com um laivo de severidade. - A
senhora está certa de que foi isso mesmo que ele disse? Lembra-se bem?
- Lembro-me perfeitamente. Foi isso mesmo. - Os seus lábios tremiam ligeiramente e
ela respondia com muita dignidade. - Ele foi um bom marido para mim, senhor, e eu
respeito sua memória. O senhor pensa que eu lhe atribuiria palavras que não fossem
realmente verdadeiras ?
- Nem por um momento, minha senhora. Eu só queria que este tribunal percebesse, sem
sombra de dúvida, sua completa boa fé...
Como se sentisse um desafio naquelas palavras e no olhar que Grahame lhe dirigiu, o
Procurador-Geral logo retrucou.
- Ainda não cheguei a compreender a razão para esta testemunha estar sendo
interrogada tão minuciosamente. Por enquanto nada tenho a dizer.
- Então isto é tudo, minha senhora. Nós lhe agradecemos muito. Agora vou chamar a
minha próxima testemunha.
Atendendo a um sinal de Grahame, a viúva do médico voltou para o seu lugar, e logo a
seguir foi chamado o Professor Valentine.
A pessoa que se apresentou era um homem baixo com cerca de
50 anos e um traje bem profissional. Vestia um fraque já meio surrado com lapelas de
cetim, colarinho duro e alto e gravata preta. Seu rosto era pálido e a testa era larga. Os
cabelos escuros eram compridos atrás e aquilo lhe emprestava um ar de empresário de
segunda classe. Depois de prestar o juramento, ele fez uma pose, com uma das mãos na
cintura e a outra na beira da mesa que estava à sua frente, com a cabeça atirada para trás
dando a impressão de que estava pronto para o que desse e viesse.
- Tanto quanto eu saiba, Sr. Valentine, os seus conhecimentos a respeito de caligrafia
são bem grandes, não é mesmo?
- Sou professor de grafologia e tenho um diploma do D.G.W. Creio poder afirmar que a
minha reputação como perito é universalmente conhecida...
240
- Excelente. Por ocasião do julgamento, creio que o senhor ífarantiu que o bilhete
encontrado no apartamento da mulher assassinada tinha sido escrito por Rees Mathry,
não foi mesmo?
- Sim. senhor... eu fui chamado especialmente pela acusação. ..
- Estou certo que, naquela ocasião, o senhor conhecia a gravidade e a importância de
sua opinião e o senhor estava convencido de que ela era correta?
- Era correta, sem dúvida alguma, senhor. Eu tenho grande experiência em atestados de
validez de documentos públicos e particulares em casos da maior importância.
- Apreciaria muito então, senhor... desculpe-me... Professor Valentine, saber como foi
que chegou a uma conclusão tão positiva.
- Eu uso lentes de aumento, senhor, para examinar os documentos e depois faço
ampliações fotográficas que comparo com a caligrafia e foi assim que fiz neste caso.
Comparei com a caligrafia do postal que fora escrito pelo acusado conforme ele mesmo
reconheceu. Foi assim, usando meus conhecimentos especializados, que cheguei à
conclusão definitiva de que o bilhete fora escrito por Mathry com a letra disfarçada...
- Mas disfarçada de que forma?
- Pela maneira simples e muito comum de escrever com a mão esquerda.
- Ah! Então o bilhete foi escrito com a mão esquerda?
- Sem dúvida alguma. E foi escrito por Mathry.
- E foi escrito por Mathry. - Grahame esboçou um sorriso agradável e amistoso. - Esta
sua convicção nos tranqüiliza muito. Não tenho qualificações, professor, para me
imiscuir nos mistérios de sua arte. Não obstante, tenho a impressão, com base nas
maiores autoridades sobre este assunto, que as provas dessa natureza, com base em
opiniões e teorias, nem sempre são dignas de confiança. O senhor já ouviu falar do caso
Adolf Beck?
O professor não respondeu, mas seu ar já era mais arrogante.
- Nesse caso, professor, um perito em grafologia de reputação reconhecida jurou que
certas cartas tinham sido escritas por um homem chamado Adolf Beck, que, por força
dessa prova, foi condenado a cinco anos de prisão com trabalhos forçados. No fim desse
tempo, depois de o condenado cumprir sua sentença até o fim, ficou definitivamente
provado, sem a menor sombra de dúvida, que ele não tinha escrito as cartas, que era
completamente inocente, e que o perito grafológico cometera um terrível e triste
engano, engano esse que levou um homem inocente a cinco anos de sofrimentos e
angústias, e que lhe arruinou o resto da vida.
Valentine sacudiu a cabeleira com um ar ofendido.
241
- Eu nada tive a ver com esse caso Beck.
- Claro que não, professor. O seu caso foi o de Mathry e é dele que nós estamos tratando
aqui. Então, em sua opinião, havia três pontos distintos. Primeiro, o bilhete fora escrito
com a mão esquerda; segundo, isso fora feito como disfarce; terceiro, que o autor fora
Mathry. O senhor quer nos dizer quais dessas conclusões se respaldam em fatos e quais
são apenas suas deduções pessoais?
O professor já estava bem nervoso e respondeu exaltado.
- Um simples novato, senhor, pode distinguir logo pela inclinação e configuração das
letras que o bilhete em questão foi escrito com a mão esquerda para disfarçar. O terceiro
ponto, no entanto, já envolve conhecimentos técnicos especializados de alta ordem...
talvez até mesmo poderíamos usar a expressão intuição... uma espécie de sexto sentido
que permite ao perito o reconhecimento de uma caligrafia específica entre muitas
outras.
- Muito obrigado, professor - falou Grahame, calmamente. - Era só isso o que eu queria
saber. Afinal, o senhor afirma com segurança que o bilhete foi escrito com a mão
esquerda para disfarçar. Estribandp-se no seu sexto sentido, na sua intuição, sua opinião
é que Mathry o escreveu. Muito obrigado.
O professor, cada vez mas aborrecido, fez menção de querer dizer ainda alguma coisa,
mas logo pareceu julgar mais sensato ficar calado.
Depois dele sair, Grahame voltou-se para o tribunal.
- Meritíssimos, com a vossa permissão, chamo, agora, o Dr. Dobson, o médico-legista
da polícia.
Mais uma vez, o Procurador-Geral levantou-se de um salto apesar de seu corpanzil.
- MeritíssLmos, quero protestar com veemência! Este tribunal já concordou que não
estamos aqui para fazer um novo julgamento, já que no anterior o médico-legista
prestou seu depoimento. É inadmissível que ele possa fornecer novas provas...
- A não ser que - falou Grahame, com muita calma - como o senhor mesmo já disse, isso
se torne necessário em vista de novos fatos.
Seguiu-se um momento de tensão, um conflito de pontos de vista, logo interrompido
pelo Juiz Frame.
- É por causa disso que o senhor deseja ouvir o médico?
- Se isso for do vosso agrado...
Houve um aceno de cabeça concordando e logo um homem ágil, de cabelos pretos com
um terno azul-marinho, porte atlético e agradável, e um rosto viril caminhou apressado
atravessando a sala e,
242
com a compostura de alguém já muito habituado àquilo, sentou-se na cadeira das
testemunhas.
Grahame dirigiu-se a ele de forma bastante amistosa.
- Dr. Dobson, o senhor ouviu as teorias do Dr. Tuke com relação aos ferimentos da
mulher assassinada, apresentadas a este tribunal de forma concisa e lúcida por sua
viúva. O que tem a dizer sobre elas?
- Tolices...
Aquela palavra dita com naturalidade sem qualquer intenção de desprezo ou ridículo, e
sim com um sorriso encantador, fez correr nas gaterias um murmúrio de divertimento.
Embora conseguisse logo suprimi-lo, Mathry rangeu os dentes e olhou com raiva
nanuela direção.
- Tolices, doutor? NSo acha que é uma palavra muito forte?
- O senhor pediu a minha opinião e eu a dei...
Paul levou um susto. Não achava boa aquela idéia de chamar o médico-legista e temia
que Grahame se saísse mal diante daquele homem tão confiante e decidido, mas o
jovem advogado também parecia confiante e continuou.
- Talvez, de um modo geral, o senhor seja contra as teorias.
- Quando encontro uma mulher com a garganta aberta e com a cabeça quase decepada,
eu não vejo necessidade para teorias ou especulações.
- Pois é. Então o senhor logo conclui que a arma só pode ter sido uma navalha...
- Nunca usei a palavra navalha em meu laudo.
- Mas a acusação apresentou uma navalha como o instrumento do crime e isso pesou
muito no julgamento.
- Isso não pertence ao meu setor.
- Então, se me dá licença, vamos voltar ao seu setor. Deixando de lado as teorias, qual
foi a sua conclusão pessoal, se é que chegou a alguma, a respeito da arma do crime?
- Na minha opinião, o ferimento foi ocasionado por um instrumento muito afiado.
O médico, com uma certa razão, mas erradamente, estava ficando zangado; porém, o
advogado continuava sorridente e atencioso.
- Então, conforme achava o Dr. Tuke, o assassino poderia ter usado uma lâmina fina e
afiada como um bisturi, por exemplo.
No rosto do médico via-se uma expressão que era a mistura de honestidade e desagrado,
mas, afinal, respondeu.
- Sim. Acho que poderia ter sido, mas seria preciso que ele tivesse algum conhecimento
de anatomia.
- Algum conhecimento de anatomia. - A despeito de sua calma, Grahame dava àquela
frase um timbre de grande significação. -
243
Muito obrigado, doutor. Muito obrigado mesmo! Então, depois o senhor fez a autópsia
do corpo?
- Naturalmente.
- E verificou que ela estava grávida?
- Isso consta de meu laudo.
- E o senhor também declarou o tempo de gravidez?
- Mas naturalmente! Ou será que o senhor quer insinuar que não cumpri a minha
obrigação?
- Longe disso, doutor. Por mais que discordemos em questões de metafísica, estou
convencido de sua completa e absoluta integridade. E quantos meses tinha ela de
gravidez, doutor?
- Três meses.
- Tem certeza?
- Tanta certeza como a que tenho de estar aqui prestando este depoimento. Estava
grávida de três meses... talvez um ou dois dias a mais.
V - E o seu laudo foi enviado para o advogado de acusação?
- Naturalmente...
- Muito obrigado, doutor. É só isso. - Grahame sorriu para o médico e depois virou-se
para o tribunal. - Meritíssimos, com vossa permissão, chamarei minha quarta
testemunha.
Apresentou-se um homenzinho de rosto fino, calvo, prematuramente envelhecido e
enfiado num terno de xadrez muito grande para o seu corpo magro e franzino.
- Qual é o seu nome?
- Harry Rocca.
- Sua atual ocupação?
- Cavalariço... no Hipódromo de Nottingham.
- Foi o senhor que, há quinze anos, informou à polícia a respeito do falso álibi que
Mathry queria arranjar?
- Sim.
- O senhor conhece bem Mathry?
- Nós andávamos por aí juntos.
- Como foi que o conheceu?
- No Salão de Bilhares Sherwood... aí por volta de janeiro de 1921.
- E depois então apresentou-o a Mona Spurling?
- Isso mesmo, senhor.
- Poderá lembrar-se com precisão quando foi que fez essa apresentação ?
- Lembro muito bem. Foi no dia do grande páreo do Handicap de Julho, em Catterick.
Lembro bem porque apostei cinco libras no vencedor... Foi o Warminster...
- Foi então no Handicap de Julho?
244
- Sim, senhor. Na corrida de quatorze de julho.
- E o senhor disse às autoridades a data exata? Houve uma pausa, e Rocca baixou a
cabeça.
- Não me lembro...
- Levando em conta o laudo médico, essa data mostrando que Mathry só conhecera
Mona sete semanas antes era da maior importância. Então as autoridades não insistiram
sobre esse ponto?
- Não me lembro.
- Procure refrescar sua memória.
- Não. - Rocca sacudiu a cabeça com vigor. - Não me lembro. Eles não estavam assim
tão interessados... Achavam que não tinha grande importância.
- Então não era importante provar que a mais odiosa acusação e o elo mais
comprometedor em todas as provas contra Mathry era uma absoluta impossibilidade,
levando em conta o tempo de gravidez. É só isso. Muito obrigado.
Logo que Rocca saiu, Grahame ficou olhando para o tribunal.
- Meritíssimos, minha próxima testemunha é Louise Burt. Ela se apresentou muito
faceira, apesar de, no canto de seus
olhos, haver um vislumbre de desconfiança. Sentou-se, arrumou-se toda e olhou em
torno com aquele ar afetado que Paul conhecia muito bem. Ela ainda não o vira nem
tampouco olhou na direção de Mathry, que, logo à sua entrada, olhou-a com uma
expressão de ódio violento.
Depois de ela haver prestado o juramento, Grahame dirigiu-se a ela da sua maneira mais
encantadora.
- A senhora é Louise Burt?
- Sim, senhor. Isto é, eu era. Como o senhor provavelmente sabe, eu me casei
recentemente.
- Meus parabéns. Realmente, devemos agradecer-lhe sua presença aqui, especialmente
nessas circunstâncias...
- Devo dizer que foi uma surpresa, quando nos detiveram a bordo. Mas, para mim, é um
prazer, colaborar, senhor.
- Muito obrigado. Posso garantir-lhe no entanto que a senhora não foi intimada sem
justa causa. Estou certo de que a senhora se dá conta de que o seu depoimento de há
quinze anos foi de importância capital, e provavelmente o que levou à condenação do
acusado.
- Eu fiz o melhor que podia, senhor. É só o que posso dizer - respondeu Louise,
modesta.
- Muito bem. A noite do crime era muito escura e chuvosa não era mesmo?
- Sim, senhor. Lembro-me como se fosse ontem.
245
- E o fugitivo que saíra do número cinqüenta e dois de Ushaw Terrace estava correndo
muito, não estava?
- Estava mesmo, senhor.
- Correndo tanto na verdade que passou pela senhora em um segundo...
- Creio que foi mesmo, senhor.
- Mas, mesmo assim, a senhora conseguiu guardar bem sua fisionomia e tudo mais, não
foi? A senhora disse que ele estava com uma capa de chuva amarelada, um boné xadrez
e botinas escuras. Quer nos contar agora como foi que, num momento tão rápido e em
plena escuridão, a senhora conseguiu guardar tudo isso? Uma descrição tão completa?
- Bem, senhor. - Ela já se sentia mais confiante agora. - O caso foi que ele passou bem
por baixo da lâmpada da rua e a luz deu em cheio em cima dele.
- E faltavam vinte minutos para as oito?
- Exatamente, senhor. Saí da lavandaria com o meu amigo às sete e meia, e de lá até o
número cinqüenta e dois é menos de dez minutos a pé.
- Então a senhora tem certeza absoluta sobre a hora?
- Eu posso até jurar... Na realidade, já jurei.
- Nesse caso, como é que poderia ter visto o fugitivo à luz da lâmpada? No Distrito de
Eldon, com a lei municipal que vigorava em 1921, as luzes das ruas só eram acesas às
oito horas da noite.
Pela primeira vez, Louise pareceu surpreendida e então, muito disfarçadamente, seus
olhos procuraram Dale que estava ali sentado e que não olhava para ela, mas, afinal,
recuperou-se.
- Eu tinha a impressão de que a luz estava acesa, senhor. Aquilo aconteceu tão de
repente, mas consegui registrar tudo direitinho...
- Então como é que esses detalhes tão bem registrados figuram diferentes em seu
depoimento na polícia, depois de um interrogatório rigoroso?
Ela baixou a cabeça e ficou silenciosa.
- Será que recebeu insinuações da polícia?
- Eu protesto, Meritíssimos! Isto é uma imputação imperdoável e injustificável! - O
Procurador-Geral estava indignado.
- Vamos deixar isso de lado - falou Grahame, mostrando-se Tazoâvel. - Se bem me
lembro, a senhora disse que o fugitivo tinha o rosto raspado.
- Sim - respondeu ela, após uma pequena demora.
- A senhora fez essa declaração espontaneamente e isso foi publicado nos jornais. Não
poderia contradizer-se, pois senão ficaria completamente desacreditada. - Grahame fez
uma pausa. - E
246
no entanto, Mathry, o homem que a senhora identificou em Liverpool como sendo o
fugitivo, usava bigode há cerca de seis anos.
- Não sei como foi - retrucou Louise, mal-humorada. - Pensando bem, porém, pareceu-
me que ele tinha bigode. Como já lhe disse, fiz o melhor que podia...
- Claro - falou Grahame, calmamente. - Isto está-se tornando cada vez mais evidente.
Muito bem. Vamos então deixar de lado essas coisas de lâmpada, bigode e diferenças
nas roupas, para passar a coisas mais interessantes.
Houve um silêncio constrangido. A pose da mulher já desaparecera. Ela procurava os
olhos de Dale e de Sprott, para ganhar coragem, mas eles não a encaravam, e então, em
vista disso, ela olhou em torno já desesperada. De repente, viu Paul. Levou um susto,
arregalou os olhos e seu rosto tornou-se lívido.
- Vamos tratar agora de suas relações com Edward Collins - continuou Grahame. - A
senhora era muito amiga dele, não era mesmo ?
Louise Burt rompeu em pranto, agarrou-se aos braços da cadeira e começou a gemer.
- Eu não me sinto bem. Não posso continuar. Preciso deitarme. Acabo de me casar...
O Juiz Frame amarrou a cara para fazer cessar a tensão que se notava no tribunal.
- A senhora está doente? - indagou o- juiz. •
- Estou sim, senhor. Sim, Meritíssimo. Preciso repousar...
- Meritíssimos - falou Grahame, de maneira razoável - com vossa permissão, acno que a
testemunha precisa de um descanso. Voltarei a chamá-la, no entanto, com referência a
um assunto que reputo da maior importância e para o qual preciso comprovação.
Depois de se consultarem, os juizes concordaram. Quando Louise desceu da cadeira das
testemunhas, o Juiz Frame olhou o relógio do tribunal e, vendo que faltavam cinco
minutos para as quatro, resolveu suspender a sessão para a manhã seguinte, anunciando
isso com sua voz autoritária.
247
Capítulo XVI
Logo depois de os juizes saírem, Sprott, que já não se agüentava mais esperando o fim
da sessão, saiu sorrateiramente pela porta particular dos fundos e chegou à saída
particular do tribunal numa porta lateral. Estava fugindo dos repórteres e não queria ser
detido para conversas. Tinha mandado seu carro esperá-lo às quatro e ele já estava ali.
Atravessou a rua quase correndo e sentiu uma imensa sensação de alívio e alegria ao ver
que sua mulher o esperava no carro. Refugiou-se no veículo e mandou o motorista levá-
lo para casa. Levantou o vidro da janela e recostou-se no estofamento macio, segurando
a mão da mulher.
Aquele dia tinha sido uma tortura para seu espírito dominador. O desempenho de
Grahame tinha-o colocado num pelourinho. E o preocupante era que o seu instinto
profissional dizia-lhe que o pior ainda estava para vir. Pensava naquela mulher e no que
Grahame conseguiria tirar dela na manhã seguinte. Fechou os olhos durante um
momento e ficou silencioso.
- Como foi bom você ter vindo, Catherine. Sabia que podia contar com você.
Ela não respondeu.
Entreabrindo os olhos. Sprott percebeu que ela estava muito pálida e que, em lugar de
seu vestido de seda para as tardes, ela usava um casaco simples de tweed com um
chapéu mole de feltro puxado sobre os olhos. Ela retirou a mão que ele segurava.
Ele sentou-se direito, e então falou como se quisesse consolála, ao mesmo tempo que
também se consolava.
- Afinal de contas não foi tão ruim assim. Claro que Grahame esteve sensacional, como
seria de esperar. Mergulhou a pá no estéreo e atirou tudo em cima de nós... aquele
rafeiro medíocre...
- Não faça isso, Matt.
Ele inclinou-se para ela com um ar surpreso e interrogador.
- O que há?
- Não acho que o Sr. Grahame seja medíocre...
- O quê!
248
- Acho que ele é honesto e sincero. Ele ficou vermelho como um pimentão.
- Você não diria isso, se tivesse ouvido o que ele disse hoje...
- Mas eu o ouvi. - Ela virou-se da janela e apoiou o rosto nos dedos longos e delicados,
e depois olhou-o pela primeira vez com tristeza. - Fiquei lá nas galerias, na fila de trás.
Eu tinha que ir. Fui para lhe dar apoio, para lhe dar forças com o meu amor e queria ir
ver você ser inocentado de tudo aquilo que o acusam, das insinuações... E em lugar
disso...
Olhou-a espantado e ficou muito pálido. A última coisa que desejaria nesse mundo seria
que ela lá estivesse e que ouvisse tudo. Ele estava zangado.
- Você não deveria ter ido. Eu tinha dito que não fosse. Aquele tribunal não é lugar para
uma mulher. Pois então eu não lhe disse tudo isso antes? Todo homem público é
obrigado a engolir a sua dose de remédio amargo uma vez na vida. Mas isso não é razão
para que sua mulher assista ao sacrifício.
- Mas eu queria ir. Alguma coisa me dizia que eu precisava ir. Houve uma pausa e ele
ficou mais calmo já que a amava muito,
e então procurou segurar-lhe a mão outra vez.
- Muito bem. Não faz mal. Isso tudo estará acabado em breve. Eles vão dar uma
compensação qualquer a esse Mathry... Então tudo estará acabado e esquecido.
- Estará mesmo, Matt? - Ela continuava a demonstrar aquela mesma apatia.
As suas maneiras e o timbre de sua voz foram para ele como se houvesse sido atingido
por um golpe. Sprott estava quase a ponto de praguejar, mas, naquele momento,
estavam justamente chegando em casa e o carro parava na porta principal. Catherine
entrou em casa apressada.
- Vai precisar do carro outra vez esta noite, senhor? - perguntou Banks, o motorista.
Ele respondeu com raiva.
- Não... que vá para o inferno!
Haveria mesmo um estranho brilho de satisfação nos olhos obsequiosos do motorista?
Matthew não saberia dizer. E também, para de, aquilo não tinha importância. Seguiu
apressado atrás da mulher e foi encontrá-la no hall.
- Espere aí, Catherine, preciso falar com você...
A mulher parou sem dizer nada com a cabeça caída no peito. Impressionado por sua
atitude e por sua grande palidez, ele hesitou e, em lugr de continuar a importuná-la,
perguntou-lhe apenas onde estavam as filhas.
249
- Elas foram para a casa da mamãe. Achei que você gostaria de poupar-lhes a
publicidade desta... calamidade.
Ele sabia que ela tinha agido acertadamente e que ele mesmo aconselhara aquela
providência. Mesmo assim, sentia saudade dos carinhos com que as filhas costumavam
recebê-lo. Depois de um breve silêncio, Sprott olhou-a de soslaio.
- Esta não é uma maneira muito alegre para se receber alguém que foi massacrado o dia
inteiro. Será que não poderíamos esquecer tudo num jantar só para nós dois?
- Já mandei tirar o jantar para você, Matt, mas peço que me •desculpe. Não me estou
sentindo bem...
Novamente ele ficou muito vermelho e olhou-a com olhos injetados.
- Mas que diabo há de errado com você hoje, Catherine?
- Será que você não desconfia? - respondeu desolada.
- Não. Não desconfio. E também não vejo razão para ser tratado como um leproso em
minha própria casa.
Ela colocou uma das mãos na balaustrada da escada e olhou para trás.
- Desculpe, Matt. Preciso deitar-me um pouco...
- Não! - Sprott quase gritou. - Não antes de me dar alguma espécie de explicação...
Houve uma longa pausa. Depois, sempre segurando o corrimão e com o pé no primeiro
degrau da escada, ela levantou a cabeça e olhou-o como se fosse um pássaro ferido.
- Eu pensei... pensei que você talvez compreendesse... o choque que isso foi para mim.
Durante todos estes anos, sempre que ouvia todo mundo falando mal de você...
desancando-o... eu até achava graça. Recusava-me a acreditar no que ouvia. Eu era a sua
mulher e confiava em você. Mas agora... agora eu vejo... percebo agora o que queriam
dizer. Hoje, no tribunal, Grahame não estava atirando lama em cima de você. Ele estava
apenas dizendo a verdade, Matt. Você condenou um homem à morte e depois a algo
pior do que a própria morte, só para satisfazer sua ambição. Para subir. - Num gesto de
angústia, ela passou a mão pela testa. - Meu Deus, como foi que você pôde fazer uma
coisa dessas? Como pôde fazer isso, Matt ? Foi horrível... quando olhei para aquele
pobre infeliz e vi o que ele tinha sofrido.
Ele foi a seu encontro.
- Catherine... você não sabe o que está dizendo. Minha obrigação é conseguir a
condenação.
- Não! Sua obrigação é zelar para que a justiça seja feita.
250
- Mas, querida... eu sou o instrumento da justiça. Quando um criminoso é culpado sem
sombra de dúvida, sou obrigado a condená-lo.
- Mesmo que, para isso, seja preciso escamotear provas a favor dele?
- Quem tem que cuidar disso é o advogado de defesa...
- Enquanto você emprega todos os meios para fazer com que ele seja condenado... Você
é... você é o que eles chamam o advogado do diabo, Matt.
- Catherine! Só pelo fato de estar exausta e aflita, isso não lhe dá o direito de deixar de
ser razoável. Você mesma viu hoje quem é esse Mathry...
- Eu vi o que ele acabou sendo. E até mesmo assim ele não me pareceu um assassino.
Ele parecia... ele antes parecia com • alguém que tivesse sido assassinado.
- Não fique histérica. Ele ainda não foi inocentado.
- Mas vai ser - falou ela, baixinho.
- É o que nós vamos ver...
Os seus lábios tremiam muito, mas, assim mesmo, ela olhou-o durante algum tempo.
- Matt, você sabe... aliás, sempre soube, que ele era inocente ...
Ao ouvir aquela palavra "inocente", que já tantas vezes ouvira do banco dos réus mas
que, agora, na boca de sua mulher, assumia um significado aterrador, ele sentiu-se
inundado de uma estranha combinação de raiva e desejo. Sentia desejo de consolá-la,
mas também queria magoá-la, e no meio de tudo um desejo abjeto de aninhar a cabeça
em seu seio e chorar. Aproximou-se dela e tentou passarlhe a mão pela cintura, mas foi
repelido por um espasmo nervoso, quando ela se encolheu.
- Não me toque.
Aquela exclamação deixou-o estarrecido. E no rosto dela, devastado pelo sofrimento e
pela dor, havia alguma coisa que ele jamais lhe vira antes. Havia um olhar de
hostilidade e, o que era ainda pior, também de medo. Ficou ali embaixo olhando
enquanto ela subia a escada lentamente.
O gongo tocou chamando para o jantar.
Ele foi para a sala de jantar e viu que a mesa estava posta só para uma pessoa. Em
silêncio, a copeira trouxe-lhe a sopa de rabada, que era o seu prato predileto, linguado
grelhado, bife, torta de maçã e um delicioso queijo Stilton. Para Sprott, no entanto, tudo
aquilo era sem gosto e ele mastigava completamente distraído, sentindo a raiva crescer-
lhe na alma. Uma ou duas vezes, quando a porta de vaivém se abria para a copeira, ele
ouvia, lá para os lados da cozinha, o
251
amarfanhar de um jornal e o sussurro de conversas. Ele não se conteve mais e então
explodiu em vituperações contra a copeira, uma senhora idosa, reclamando do serviço.
Levantou-se logo que acabou, com um safanão, e foi para o seu escritório. Ali, acossado
pela necessidade, e pela condição torturada de seus nervos, ele fugiu a seus hábitos
servindo-se de uma grande dose de uísque com água e depois deixou-se cair na
poltrona. O torvelinho que lhe ia no espírito era uma coisa como nunca antes tivera
igual, mas, ainda assim, havia uma espécie de vazio, um vácuo cruel dentro do qual ele
se sentia perdido. Sentia-se apavorado com o que lhe estaria reservado para o dia
seguinte, mas, por outro lado, pouco se estava preocupando. Ele parecia um homem que
acabava de ser derrubado por uma apoplexia e sentia-se confuso e atrapalhado,
procurando, sem sucesso, descobrir onde estava. Tudo o que tinha buscado e
conseguido, todas as suas ricas posses que o cercavam, seus livros ricamente
encadernados, seus lindos quadros, pareciam ter perdido toda a razão de ser de repente.
Só pensava em Catherine e ali, na casa silenciosa, ele prestava atenção para ver se
conseguia ouvi-la andando lá em cima.
Tomou mais um uísque e, aos poucos, seus sentidos foram melhorando e as coisas já
não lhe pareciam tão negras. Catherine era mulher muito nervosa, uma perfeita puro-
sangue, mas logo esqueceria tudo aquilo. Afinal de contas, ela também partilhara com
ele sua prosperidade e seu sucesso. Iria falar com ela agora mesmo. Mais do que nunca,
ele precisava da mulher naquela contingência. Sentia o coração bater mais acelerado,
quando pensava em todas as suas qualidades, sua delicadeza, sua obediência, seus
favores, seu bom gosto e a bondade inveterada que demonstrava por ele.
Eram 11 horas, os empregados já estavam todos em seus quartos e a casa se achava em
completo silêncio. Sprott levantou-se, apagou a luz e subiu a escada na ponta dos pés.
Do lado de fora da porta do quarto da mulher, Sprott parou com o coração aos saltos,
dominado por uma onda de desejo, de carinho e consolação. Levou a mão à maçaneta e
girou-a com cuidado. A porta estava trancada. Espantado com aquilo, chamou-a em voz
baixa... e depois mais alta. Não houve resposta. Tornou a tentar torcendo a maçaneta
com violência e empurrando a porta com o ombro. Ela continuava fechada. Durante um
momento, seu corpo forte empertigou-se num movimento de paroxismo como se fosse
tentar derrubar aquela barreira, mas logo, aos poucos, foi ficando mais descontraído. Sir
Matthew fez meia-volta e com o lábio pendente arrastou-se para o seu próprio quarto.
252
Capítulo XVII
Naquela mesma noite, à medida que as horas passavam, Paul sentiu-se tomado por uma
compulsão cada vez maior. Sua mãe junto com o pastor tinham saído para procurar
consolo no serviço das oito horas na igreja mais próxima, mas ele se recusara a
acompanhálos apesar da insistência dos dois. Ella tinha ficado no quarto emburrada.
Mathry, seguindo as estritas instruções de McEvoy e Dunn, já estava na cama. Paul
achava-se sozinho na sala do hotel, ainda sofrendo as conseqüências dos acontecimentos
do dia e assaltado por um- desânimo estranho e complexo junto com um pressentimento
ao qual não conseguia fugir.
A seus pés estavam espalhados vários jornais. Os boatos do "nvolvimento de Oswald
tinham-se multiplicado rapidamente e agora os jornais proclamavam em manchetes as
últimas notícias sensacionais do caso Mathry. Ali mesmo, de sua cadeira ele via uma
delas.
ONDE ESTÁ ENOCH OSWALD? MISTERIOSO DESAPARECIMENTO DE
SILVER KING
Ao ler aquilo ainda uma vez, cresceu dentro dele o impulso para agir de forma tão forte
que se tornava irresistível. Ainda não eram nove horas. Ele se levantou, enfiou o casaco
e o chapéu e saiu do hotel. Seu pressentimento era tão intenso que quase se tornava
realidade. Pouco antes caíra um orvalho bem forte que deixara as calçadas molhadas e
isso resultará num forte nevoeiro que tomava conta das ruas. O rapaz tinha caminhado
na direção de Eldon e agora era fácil ver que seu destino era Ushaw Terrace, onde
entrou no número 52. Subiu as escadas como se fosse uma sombra, passou pela porta de
Prusty e, com uma calma aparente, embora com o coração aos saltos, subiu até o último
andar, parou e bateu na porta do apartamento fatal.
Não houve resposta. Estaria ele enganado? Impulsivamente, tirando do bolso a chave
que Prusty lhe emprestara, Paul abriu a
25}
porta com facilidade. Entrou e tornou a fechar a porta e então falou alto com voz firme.
-r- Há alguém em casa?
Não houve resposta.
Não havia luzes acesas. Ele ficou imóvel no hall escuro, sentindo-se envolvido pelo
silêncio, o silêncio que o jog amortecia, tornando mais intenso o frio que fazia no
apartamento vazio. Apesar de tudo, ele não parecia abandonado já que não se via mofo
nem se sentia o cheiro de umidade. Encontrou no bolso uma caixa de fósforos e acendeu
um. O linóleo do assoalho estava limpo e não havia poeira na chapeleira. Quando o
fósforo já se estava apagando, ele percebeu que estava aberta a porta de comunicação
com a sala. Deu mais três passos e entrou.
- Há alguém aí?
Ainda uma vez não houve resposta e ele então pensou que, afinal, era bem possível que
estivesse sozinho ali no apartamento.
Acendeu o gás num globo vermelho. Até aquele momento ele se mantivera
moderadamente calmo, com os nervos congelados pela coragem que o trouxera até ali.
Agora, no entanto, olhando aquele aposento onde houvera a tragédia que viria afetar
tantas vidas, ele tremia de medo. A qualidade aterradora do aposento, revelada pela
fraca luz do gás, era sua completa normalidade. Ali estava a mesa de carvalho redonda
embaixo do lustre de bronze, duas cadeiras de veludo ao lado da lareira, onde, por trás
de um biombo de papel, tudo estava direitinho. Os atiçadores e os protetores, com o
espelho e os ornamentos em cima da lareira, estavam todos limpinhos, e o relógio
marcava a hora certa.
De repente, Paul levou um susto. Lá do quarto de dormir, veio o estalido de uma tábua
do assoalho que, embora muito fraco, soou como se fosse um raio no dia do Juízo Final.
Paul parou e olhou para a porta do quarto. Foi preciso apelar para toda a sua virilidade
para não fazer meia-volta e sair correndo, quando, logo depois, ouviu passos que se
arrastavam para a porta. Embora já esperasse aquilo, já que fora com esse intuito que
viera até ali, ele ficou estarrecido quando a porta do quarto abriu-se e Enoch Oswald
apareceu, sempre vestido de preto mas com os cabelos em desalinho e a camisa
desabotoada, o rosto pálido, a testa coberta pelos cabelos, os olhos com olheiras como
se tivesse acabado de acordar. Como se fosse uma aparição, ele caminhou até onde
estava Paul e olhou-o profundamente.
- Então é você, hem? Eu imaginava que me viria visitar. Sabia que tinha a chave. - Sua
voz era profunda e cansada, cheia de ressonâncias ásperas que combinavam bem com
sua aparência. Deixouse cair na cadeira ao lado da mesa e, com um gesto comedido,
fez-lhe
254
sinal para sentar-se também. - Sinto muito não poder oferecer-lhe alguma coisa para
beber. Foi só ontem que me mudei para cá, seguindo uma espécie de impulso que
também poderia ser um palpite. Ainda não cuidei das comidas. - Enquanto falava ele
corria os olhos em torno da sala e depois fixou-os em Paul. - Diga-me uma coisa. Por
que foi que veio aqui?
Paul estava com a boca seca sem saber como responder. Como poderia jamais explicar?
Tentou recuperar a voz fazendo o jjossível para mantê-la bem firme.
- Achei que deveria estar aqui. Eu vim... eu vim para dizerlhe que caia fora... que fuja
enquanto é tempo.
Houve uma pausa estranha. Através de toda a sua letargia, do peso que carregava,
Oswald olhou firme para Paul.
- Você me surpreende, moço. Você me surpreende muito mesmo. Sempre estive bem a
par de todas as suas atividades nesses últimos meses. Minha impressão era de que você
não devia gostar muito de mim... que não tinha boas intenções a meu respeito...
- Eu agora encaro as coisas de modo diferente - respondeu Paul, com voz baixa. - Tudo
por que passei, tudo que vi no tribunal hoje, o que aprendi sobre as engrenagens da lei...
tudo isso, em suma, contribuiu para mudar minhas idéias. Esse caso já causou muitas
infelicidades e sofrimentos. Fez com que meu pai sofresse durante quinze anos. Qual
será a vantagem de se começar tudo outra vez, tendo o senhor como vítima? Portanto,
fuja enquanto é tempo. O mais depressa que puder. A ordem de prisão contra o senhor
só poderá sair amanhã à noite. Tem vinte e quatro horas para fugir do país. Isso, pelo
menos, lhe dá uma oportunidade.
- Uma oportunidade. - Oswald repetiu a palavra com um timbre indefinível. - Uma
oportunidade. - Ele estava numa espécie de êxtase. Seu lábio superior muito longo
tremia e seu rosto pálido estava vermelho. Seus olhos grandes rolavam úmidos por
baixo de suas sobrancelhas espessas e prateadas. De repente, exclamou numa voz alta e
fervorosa. - Meu jovem, ainda há esperanças para a humanidade! Agora já tenho
certeza... tenho certeza de que o meu Redentor ainda vive!
Sem poder conter-se mais tempo, ele levantou-se e começou a andar de um lado para
outro em passos rápidos, estalando os dedos e levantando a cabeça reptidas vezes como
se estivesse dando graçasa Deus. Afinal, fez um esforço para dominar sua emoção,
tornou a sentar-se e agarrou o braço de Paul.
- Meu querido jovem. Além de minha gratidão eu ainda lhe devo uma explicação. Você
tem o direito de ficar sabendo como foi toda essa tragédia.
255
Sem largar-lhe o braço, Oswald olhou bem para Paul e, depois de um silêncio, com voz
muito rouca, começou a contar tudo de maneira tão arcaica e com tais citações das
Escrituras que chegava a ultrapassar as raias da razão.
- Meu jovem, durante toda a minha vida eu fui sempre visitado pelas forças do além.
Sou epiléptico desde menino. - Parou para respirar fundo e continuou. - Meus pais eram
velhos... eu era filho único. Em vista disso fui criado de forma muito isolada e, em lugar
de freqüentar a escola comum, tive um professor particular, e era mimado de todas as
formas.
"Tive um desenvolvimento retardado, mas, como tinha inclinação para a medicina, fui
enviado para a universidade quando tinha dezenove anos e dali fui para o Hospital St.
Mary. Infelizmente, porém, minha doença interrompeu e, finalmente, terminou o meu
estudo de medicina. Fui obrigado a voltar para casa. Meus ataques foram aos poucos
diminuindo e quase desapareceram quando eu já tinha vinte e um anos e então eu passei
a trabalhar com as empresas de meu pai, assumindo todas as responsabilidades já que
era o único herdeiro. Quando completei trinta anos, fiquei noivo de uma moça de uma
boa família que gozava de uma posição igual à nossa e que consentiu no casamento
desde que, depois de um período de provação, eu fosse considerado definitivamene
curado...
Oswald parou mais uma vez e suspirou com tristeza. - Infelizmente, durante esse
período, fiquei conhecendo Mona Spurling que, como você sabe, trabalhava numa loja
de flores onde eu entrei, por puro acaso, para comprar flores que queria levar para
minha noiva. Não vou falar aqui da trivialidade desse primeiro encontro, e tampouco
quero entrar em detalhes quanto à maneira insidiosa que resultou na nossa ligação.
Aceito toda a culpa por minha fraqueza e meu pecado. Não obstante, cumpre-me
afirmar que na minha fraqueza eu recebi de minha amante toda a assistência possível.
Nunca em sua vida, meu jovem amigo, você deve deixar-se enredar por uma mulher vã
e exigente. Mona espremeu-me até a última gota. Dei-lhe roupas, jóias, dinheiro e um
apartamento. Quando lhe ofereci para lhe dar tudo que fosse preciso, para garantir o seu
futuro e o futuro da criança, ela recusou redondamente e de forma muito ofensiva. Só
ficaria satisfeita com o casamento...
"Foi justamente nesse ponto que meu pai morreu. O choque da dor fez com que me
voltassem os ataques epilépticos. Depois de um muito violento eu fui ter com Mona
com quem havia marcado um encontro. Meu caro amigo, você nem mesmo pode
imaginar como é dolorosa e perigosa a fase que se segue a um desses ataques. Depois
que a pessoa se levanta, pálida e lívida, com a língua mordida e a boca espumando, o
espírito permanece numa narcose profunda que
256
é uma espécie de abulismo, mas as paixões, embora convulsas, são violentas e
excitadas. E foi nessa condição que, provocado até não poder agüentar mais, perdi a
noção das coisas e cometi o crime.
Seguiu-se uma longa pausa e a fisionomia transtornada de Oswald transformou-se num
pálido sorriso com um olhar tão secreto, tão expressivo de um espírito conturbado, que
Paul se agarrou à cadeira.
- Meu primeiro impulso foi entregar-me à polícia. Então, pela primeira vez, ouvi a Voz
Interior que me falava. Disse apenas: "Não faças isso." Eu não sentia medo das
conseqüências do meu crime, mas simplesmente percebia, desdobrando-se à minha
frente, como se fosse uma grande e sagrada paisagem, o que eu poderia fazer para
reparação e arrependimento, desde que não fosse preso. - As maneiras de Oswald
tornaram-se desprendidas e cheias de dignidade. - E desde então venho dedicando
minha vida ao serviço da humanidade. E então gritei bem alto: "Cuidarei dos pobres,
dos aleijados, dos cegos, e serei abençoado e a minha recompensa virá na ressurreição
do justo!"
- Mas, e o homem que foi condenado? - indagou Paul. Oswald suspirou como se
estivesse muito arrependido.
- Essa era a única falha no meu plano para a redenção. Mas eu recebera ordens. Não
nego que, várias vezes, fui tentado a confessar e a entregar-me, mas a Voz falou outra
vez repetidamente, cada vez mais imperiosa na calada da noite. "Mas como? Então és
como o homem que começou a construir sua casa e não conseguiu terminá-la? Se te
entregares, então, de acordo com a lei, todos os teus bens serão confiscados pelo Estado.
Não faças isso!" Eis aí, meu caro jovem. Eu estava profundamente contrito, mas o que
poderia fazer? Todos nós somos instrumentos dos Poderes Mais Altos. Fomos feitos
para sofrer. O fim justifica os meios...
Ainda uma vez aquele mesmo sorriso triste aflorou ao rosto de Oswald de uma forma
estranha.
- A Voz Interior chegou até mesmo a sugerir meios e modos, precauções, para garantir a
minha segurança, de forma que a minha grande obra pudesse continuar. Como você
bem sabe, houve alguns que procuraram aproveitar-se levantando suspeitas quanto à
minha culpa. Embora eu conseguisse fazer prevalecer minha vontade sobre eles,
levando-os para a minha casa e moldando-os como o oleiro faz com o barro, eles eram
sempre motivo para preocupações. Não pense que minha vida foi fácil. Ao contrário,
sempre me impus as mais rigorosas austeridades. Minha doença voltou e os ataques
eram constantes. Vinham duas vezes por semana e, até mesmo, três. Suportei tudo. E,
acima de tudo, aquela minha ação mais difícil e opressiva era a que eu precisava vigiar
com maior atenção, sendo obrigado a
257
conter-me dentro dos limites mundanos das convenções para que nenhum olho
indiscreto penetrasse meu segredo.
Excitado por suas palavras, Oswald levantou-se outra vez e começou a andar pela sala
com os ombros encolhidos e os braços balançando, raciocinando consigo mesmo em
voz alta e agitada.
Ao constatar a agitação de Oswald, Paul sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Via-
se que era um triste infeliz torturado que piorava a cada instante. Era uma coisa horrível
de contemplar os destroços daquela alma humana, mas sua desolação aumentou ainda
mais a pena que sentia por ele. Via claramente que estava diante de um louco.
De repente, rompendo a bruma que havia lá fora, e sem dúvida alguma vindo do canal
distante, ouviu-se o fraco som de uma sirene como as que os barcos usavam quando
havia nevoeiro. Aquele som que parecia vir de outro mundo, como o gemido de um
espírito atormentado, deixou Oswald completamente aflito. Soltou um gemido e
levantou-se de um salto com os olhos arregalados e o pescoço esticado.
- A hora se aproxima. Abençoa o teu servo...
No término dessas palavras, a voz dele cessou. O rosto ficou cinzento, os braços ficaram
rígidos e ele tinha a aparência de um louco. Aos poucos, porém, depois de alguns
minutos, relaxou, olhou em torno e voltou lentamente. Apoiando-se na beira da mesa,
tirou um lenço do bolso e enxugou a testa. Depois, sorriu desanimado para Paul.
- Meu caro jovem, quero, mais uma vez, agradecer-lhe as suas bondosas atenções. Pode
ir, se quiser, porque já estou bem...
Paul hesitava ainda, sentindo aquela estranha pena que lhe afogava o peito.
- O senhor me promete que vai fugir?
Ele sorriu outra vez, acenando com a cabeça e colocando o braço nos ombros de Paul.
- Eu vou fugir. Eu já previa isso. Posso dispor de recursos... Adeus, e que Deus o
abençoe.
Sua mão estava gelada quando apertou a de Paul, e ele logo abriu a porta para o rapaz
sair.
258
Capítulo XVIII
Na manhã seguinte, na hora da abertura do tribunal, a atmosfera estava eletrizante e a
multidão se comprimia em toda a parte conversando em voz baixa. Havia no ar
sussurros estranhos. Quando perceberam que Sir Matthew não estava em seu lugar,
começaram a correr os boatos mais desencontrados que logo cessaram, no entanto,
assim que ele chegou. Vinha atrasado e apressou-se para tomar o seu lugar com cara de
quem não dormiu e com um lanho no rosto feito quando se barbeava.
Logo que os juizes tomaram seus lugares, Grahame levantou-se, sempre calmo, mas
suas maneiras já eram agora mais frias.
- Meritíssimos, com a vossa permissão, desejaria continuar interrogando a testemunha
Louise Burt.
Houve uma breve pausa enquanto tinham lugar as formalidades habituais e ela então
apareceu e sentou-se na cadeira das testemunhas.
Grahame começou de forma muito cortês, mas também muito fria:
- Espero que a senhora já esteja bem depois do descanso de ontem para hoje.
- Estou bem - respondeu ela, mas não havia mais em suas maneiras a faceirice de antes
para conquistar simpatias e ela se mostrava agora até mesmo rude. A hesitação do dia
anterior tinha desaparecido dando a impressão de que, naquele interim, ela fora bem
instruída e animada, e estava ainda ereta, encarando firme o advogado.
- Nós ontem estávamos falando de suas relações com Edward Collins, o rapaz que levou
a roupa lavada da mulher assassinada. Os dois se viam muito antes e durante o
julgamento?
- Eu não podia evitar. Nós estávamos sempre juntos a maior parte do tempo.
- Ah! Então estavam sempre juntos... Então a senhora falava sempre com ele a respeito
do julgamento.
- Não. Nós nunca tocávamos nesse assunto.
Grahame levantou ligeiramente as sobrancelhas e olhou para o Juiz Frame antes de
continuar.
259
- Isso é realmente surpreendente, mas vamos adiante. E a senhora falou com ele a
respeito do caso depois do julgamento?
- Não. - A resposta dela foi categórica.
- Devo avisá-la de que a senhora está sob juramento e que as penalidades para o perjúrio
são muito sérias - falou Grahame, decididamente.
O Procurador-Geral fez menção de levantar-se, e disse:
- Meritíssimos, protesto contra essa insinuação. Ela tem por fim intimidar a testemunha.
- Então quer dizer que tanto a senhora como o Collins nunca falaram sobre o caso -
insistiu Grahame.
Pela primeira vez, a mulher baixou os olhos.
- Isto é... Eu não me lembro bem... é possível que tivéssemos ...
- Em outras palavras, falaram mesmo?
- Pode ser.
- E muitas vezes?
- Sim.
Grahame respirou fundo.
- Na noite do crime, quando o homem saiu correndo e passou por Collins no patamar da
escada, ele não o reconheceu nem vagamente ?
- Não - respondeu Louise, em voz alta.
- E a senhora? Ele lhe era completamente desconhecido?
- Sim.
--A - A senhora nunca disse a Collins que tinha a impressão de já o haver visto antes?
- Nunca.
- A senhora nunca lhe falou, em confiança, bem baixinho, num determinado nome?
Houve uma pausa cheia de curiosidade.
- Vamos voltar então ao que a senhora viu naquela noite tão importante... mesmo não
levando em conta que a luz ainda estava apagada... mesmo se a senhora não pudesse ver
claramente as feições do fugitivo, viu ainda assim o que ele estava fazendo... Estava
correndo ?
- Estava sim. Já disse isso tantas vezes que até estou cansada. ..
- Desculpe-me se a estou fazendo ficar assim tão cansada. O homem correu toda a vida?
- Como assim, toda a vida?
- Quero dizer até o fim da rua.
- Sim... suponho, naturalmente, que correu.
260
- Supõe mesmo? Será que ele, por acaso, não montou numa bicicleta, uma bicicleta
verde que estava encostada à grade, e saiu pedalando até desaparecer?
- Não.
Grahame olhou para ela muito sério.
- Tendo em vista informações que possuímos, devo avisá-la novamente de que precisa
ter cuidado. Repito a pergunta. Ele fugiu ou não numa bicicleta? Uma bicicleta verde?
Ela estava abalada.
- Eu já lhe disse que não. Não posso fazer mais. - E Louise começou a fungar dentro do
lenço.
Ainda uma vez o Procurador-Geral protestou.
- Meritíssimos, protesto energicamente com os meios empregados para intimidar a
testemunha.
Grahame ficou vermelho, mas respondeu com vivacidade.
- Talvez o Procurador-Geral ache que estou usurpando os seus direitos. Já houve
ocasiões, neste mesmo tribunal, quando ouvi o advogado da Coroa fazer com as
testemunhas a mesma coisa que um cão faz com um rato encurralado, levando-as a um
tal estado de agitação e confusão que elas, simplesmente, nem mesmo sabiam mais o
que estavam dizendo. Estou fazendo o possível para dar à testemunha um máximo de
consideração, e posso garantir-vos que ela vai precisar muito disso.
A essas palavras, seguiu-se um silêncio mortal. Sir Matthew Sprott olhou para os
magistrados, mas, dessa vez, o Juiz Frame não se manifestou.
Grahame esperou até a testemunha acabar de enxugar os olhos.
- Quando o julgamento terminou, a senhora foi para a Central de Polícia, junto com
Edward Collins, para receber o prêmio de quinhentas libras que cabia aos dois...
- Sim, foi isso mesmo. E não vejo nenhum mal nisso.
- Claro que não. Quando chegaram lá, os dois foram levados para uma sala a fim de
esperar que se completassem certas formalidades.
- Isso mesmo. Fomos muito bem tratados na polícia... e já não posso dizer o mesmo
daqui, de sua parte.
- Mais uma vez, eu lhe peço que tenha paciência e me desculpe, e peço-lhe também que
volte seus pensamentos para aquela meia hora em que os dois passaram lá na polícia.
Sem dúvida, o julgamento tinha sido penoso para os dois. É possível que a senhora se
sentisse nervosa e incerta e isso justificaria a conversa entre a senhora e Collins.
- Que conversa?
261
- Pois então não se lembra?
- Não. Não me lembro de nada.
- Pois então eu vou tentar refrescar sua memória. - Grahame apanhou um pedaço de
papel entre os muitos que tinha na sua frente. - Tenho a impressão de que a conversa
entre os dois foi, mais ou menos, a seguinte:
"COLLINS: Muito bem. Está tudo acabado. Ainda bem. Eu estava muito aflito.
LOUISE: Não se aflija, Ed. Você sabe que fizemos o que era direito e certo...
COLLINS: Eu sei... Acho que fizemos mesmo, mas...
LOUISE: Mas, o quê?
COLLINS: Ora... você sabe como é, Louise. Por que foi que você não falou da... você
sabe o que é.
LOUISE: Porque nunca ninguém me perguntou, seu estúpido.
COLLINS: É acho que não... Será que nós... Será que vamos receber o prêmio?
LOUISE: Claro que vamos receber, Ed. Não fique aflito... Nós ainda poderíamos fazer
melhor.
COLLINS: Como assim?
LOUISE: Espere e verá. Ainda tenho uma coisa escondida na minha manga...
COLLINS: Mais foi Mathry mesmo, não foi, Louise?
LOUISE: Cale essa boca. Agora já é tarde para recuar. Nós não fizemos mal a ninguém.
Com todas as provas que tinham, eles pegariam o Mathry de qualquer forma. E, afinal
de contas, ele escapou da forca. Pois então você não sabe, seu bobalhão, que não adianta
a gente ir contra a polícia? Além disso, você ainda pode ter muito mais do que nunca
sonhou por causa de tudo isso. Ainda vou viver como uma grande dama."
Mal tinha acabado de ler, e sem dar tempo, à Coroa para protestar, já Grahame se
voltava com ar severo para a testemunha.
- A senhora nega a realidade dessa conversa que foi ouvida e registrada ?
- Eu não sei. Não me lembro. Não posso ser responsável pelo que Collins possa ter dito.
- Ela respondeu com a voz perturbada, mas era fácil ver que estava com medo.
- E o que foi que fez depois que recebeu o dinheiro da polícia ?
- Não me lembro o que fiz exatamente.
- Pois então não foi passar uns dias em Margate, com Edward Collins?
262
- Acho que fui sim.
- E os dois ficaram no mesmo quarto no Hotel Beach?
- Certamente não. E não vim aqui para ser insultada.
- Então, com certeza, não vai querer que eu mostre ao tribunal o registro do hotel
naquela data...
- Meritissimo, devo protestar contra essas alegações irrelevantes a respeito do caráter
moral da testemunha - interrompeu o Procurador-Geral.
- E, no entanto, quando alegações muito mais sérias e menos verdadeiras foram
levantadas contra a moral de meu cliente há quinze anos, a Coroa não se lembrou de
protestar.
Houve um silêncio, e Grahame voltou-se para a testemunha.
- Depois dessas férias, os dois voltaram para Wortley, e perceberam que a atmosfera já
tinha mudado e estava mais fria. A senhora não era considerada como a heroína que
pretendia ser. Viu que era difícil encontrar trabalho. E então, foi justamente nesse ponto
que os dois, a senhora e Edward Collins, receberam um excelente convite para ser
empregados de uma ótima casa em Wortley e que logo aceitaram. Estou certo?
- Está.
- E quem era o dono dessa casa?
Louise já não exibia mais aquele seu ar de desafio. Lançava olhares furtivos para Paul.
Durante alguns momentos parecia que estava engasgada, mas, afinal, conseguiu falar.
- O Sr. Enoch Oswald.
- Estarei falando a verdade se disser que o Sr. Oswald foi extremamente bondoso para
Collins, que lhe arranjou um casamento, e que o despachou para Nova Zelândia? Casou-
se com uma de suas empregadas ?
- Acho que ele foi bacana com o Edward - murmurou ela.
- E com a senhora ? - A voz de Grahame tornou-se mais suave. - Também não foi
tratada com muita consideração embora com alguma severidade? Deu-lhe um bom
emprego em sua casa, também casou-a e quase que também a despachou para Nova
Zelândia com todas as despesas pagas?
Logo que ela confirmou de má vontade, houve um zunzum em todo o tribunal t o
interesse já parecia ter atingido seu ponto de rutura. Todos tinham os olhos pregados em
Grahame, quando ele fez sua próxima pergunta.
- A senhora pode, de alguma forma, explicar o notável interesse demonstrado pelo Sr.
Oswald para com as duas principais testemunhas do caso Mathry?
Ela sacudiu a cabeça como se estivesse aparvalhada. Grahame fez a pergunta seguinte,
com muita tranqüilidade.
26)
- Poderia isso estar, de qualquer forma, ligado, ao fato... ao fato de Enoch Oswald ser o
proprietário do apartamento ocupado por Mona Spurling, a mulher que fora
assassinada?
Mais uma vez a pergunta ficou sem resposta, e o silêncio no tribunal era mortal.
- O Sr. Oswald visitava sempre o apartamento, sem dúvida por motivo comerciais
como, por exemplo, para receber o aluguel e ver se tudo estava em ordem... Como essas
visitas eram feitas, geralmente, à noite, era possível que Collins o conhecesse de vista já
que ele também costumava andar por ali à noite, entregando roupas lavadas.
- Eu... acho que poderia ser.
E então, de repente, como se fosse uma punhalada, ele perguntou.
- E Oswald fazia essas visitas de bicicleta?
- E daí?... Aliás, era uma bicicleta verde... Aquilo nada tinha a ver comigo - falou
Louise.
Sensação no tribunal.
- Aliás.. . tenho ainda uma última pergunta. Já ouvimos falar muito aqui de alguém que
é canhoto. Será que o Sr. Oswald é canhoto ?
Podia-se ouvir uma mosca voar no tribunal. A mulher já não se agüentava mais. Ela
olhou em torno, apavorada, e afinal exclamou bem alto.
- É sim... e, para mim, isso tanto faz...
Depois disso ela ficou histérica e a sala do tribunal vibrava de excitação. Os repórteres
pegaram suas notas e correram para os telefones que ficavam lá fora.
Depois de haverem retirado Louise da cadeira, Grahame voltou-se para o tribunal para
suas considerações finais. Sua voz, que durante todo o tempo permanecera calma e
moderada, assumiu agora um timbre de indignação sincera.
- Quero agradecer a este tribunal pela paciência com que fui ouvido durante tanto
tempo, mas agora serei breve Meritíssimos, nós, em nosso sistema judicial, nos
orgulhamos com o princípio de que todo homem deve ser considerado inocente até que
seja provado ser culpado. Qualquer um pode ser suspeito, mas o ônus da prova cabe à
Coroa.
"E então, Meritíssimos, o que acontecerá se a Coroa não desempenhar a sua parte com
honestidade? Se os agentes da lei, depois de prenderem um suspeito, se valerem de
todas as tricas e futricas da lei, de todos os recursos da oratória, de todas as persuasões
sutis e secretas, de todos os métodos de pressão e de perseguição, para mos264
trar que estão com a razão e que, em verdade, prenderam a pessoa certa ?
"A Coroa, Meritíssimos, conta com grandes recursos como sejam dinheiro, gente capaz
e autoridade indiscutível. Os seus agentes, sendo humanos, querem sempre, não
somente justificar suas legítimas suspeitas, como querem também galgar postos mais
altos na carreira para serem bem-vistos pela opinião pública. Os peritos que são
chamados são o que pode haver de melhor em suas especialidades, mas, apesar disso,
podem ser influenciados pelo estado de espírito reinante. O Chefe de Polícia, em sua
firme convicção de que prendeu a pessoa certa, remove céus e terra para conseguir que
ela seja condenada. Os médicos da polícia, quando chamados para examinar um
instrumento do crime, seja ele uma faca, um porrete ou um martelo, raramente dizem,
logo de saida: "Não há sangue nesta arma." Mais facilmente dirão: "O mateial não se
prestava para testes conclusivos." Ou então: "Havia traços de uma substância que
poderia ser sangue." Em resumo, Meritíssimos, quando um infeliz se torna suspeito ou
quando, por seu modo de proceder, dá azo a que seja considerado como tal, então,
inconscientemente, logo surge uma atitude preconcebida, quase instintivamente, hostil e
prejudicial para o acusado.
"Vamos considerar o caso deste cidadão comum, cujo caráter não é dos mais fortes, um
pouco irresponsável, talvez vaidoso, mas, de um modo geral, nem melhor nem pior do
que a maioria das outras pessoas. Com uma vida conjugal infeliz e prejudicada pela
austeridade, ele, naturalmente, lança seus olhares em torno na esperança de encontrar
um rosto mais simpático e atraente, e é nesse estado de espírito que é apresentado a uma
moça bonita que lhe agrada e depois de algumas semanas, encontrando-se solitário
numa cidade distante, num hotel comercial de segunda classe, envia-lhe um postal no
qual, usando o seu talento especial para desenho, rabisca uma cena rústica e a convida
para jantar. E então, horrorizado, poucos dias depois, ele vê nas manchetes dos jornais,
que aquela mulher foi brutalmente assassinada e que a policia procura ativamente o
autor do postal cuja foto aparece estampada em todos os jornais.
"Ele fica desatinado sem saber o que fazer. Saber que o certo seria apresentar-se à
polícia, mas o medo da publicidade e do envolvimento que talvez, nem mesmo tenha
razão de ser, não permite que o faça. Além disso, ele sabe que a primeira pergunta na
polícia vai ser no sentido de saber onde ele estava na noite do crime, entre oito e nove
horas, e ele se lembra então que estava num cinema e sozinho, e que, aliás, chegara a
adormecer durante o filme. Aquilo será um álibi inútil! Quem poderia tê-lo visto lá no
escuro? Ele notara ainda que a moça da bilheteria, que lhe vendera a entrada, nem
mesmo levan26}
tara a cabeça para olhá-lo. Não havia ninguém que pudesse responder por ele naquela
noite fatal...
"Ele está cada vez mais apavorado, perde completamente a cabeça, e em lugar de se
apresentar às autoridades, num acesso de pura estupidez, inventa e prepara um álibi com
seu amigo. Logo, porém, o descobrem como o autor do postal e então ele apresenta o
seu álibi que é logo desmascarado. A partir daí, ele está completamente enredado.
Falsus in uno falsus in omnibus. Levanta-se contra ele toda uma estrutura de provas
incriminadoras, mas, à medida que esse edifício se ergue, começam a surgir certas
discrepâncias, tais como uma bolsa de dinheiro muito estranha encontrada junto ao
corpo, uma bicicleta verde que poderia muito bem ter sido usada pelo criminoso, sem
que nada disso possa ter qualquer ligação com o acusado, mas, apesar de tudo, essas
discrepâncias são consideradas irrelevantes, são ignoradas e, praticamente, afastadas do
processo. Já que não se enquadram nele, o melhor mesmo será então afastá-las. E
quando o advogado de acusação se levanta no tribunal desejoso de ver a justiça feita,
aliás, com muita propriedade, nada daquilo é mencionado...
"Meritíssimos. A minha opinião é de que a conduta da Coroa no caso Rees Mathry foi
calculada para impedir um julgamento justo, e foi isso o que ela conseguiu. Por mais
inadequada que tenha sido a minha apresentação dos fatos, a conclusão final a que ireis
chegar é que, realmente, houve uma séria omissão de provas. Além disso, o advogado
de acusação, no decorrer do julgamento, fez as mais prejudiciais insinuações e as mais
graves acusações especialmente quando se dirigiu ao júri.
"Tudo o que ele disse ao júri, na realidade, estava espetacularmente carregado de
insinuações prejudiciais, deliberada e sutilmente calculadas, para influir no júri e
conseguir a condenação do réu.
"Meritíssimos, quando a vida de um homem está em jogo, não se justifica esse tipo de
oratória que atinge, não os espíritos dos jurados, e sim os seus sentimentos, induzindo-
os não à clara luz calma da lógica e sim às mais violentas emoções de horror, ódio,
repulsa e vingança. Essa espécie de oratória é ainda mais vilificada, quando feita como
se fosse uma representação teatral, quando o ilustre advogado apresenta uma arma
atirando-a ao chão e até mesmo imitando o golpe fatal, tudo isso como uma espécie de
melodrama mórbido que transforma um solene tribunal de justiça num espetáculo
barato. Na minha opinião, a acusação feita pelo advogado da Coroa contra Rees Mathry,
e a maneira como foi apresentada ferem os próprias raízes da nossa administração
criminal, e estou certo de que este Tribunal não hesitará em concordar comigo.
Quando Grahame fez uma pausa, Paul, mal podendo conter-se tal era sua excitação,
olhou para onde estava Sprott. O seu rosto, geral266
mente vermelho, tinha-se tornado pálido como a morte, sua boca estava apertada. Em
que estaria ele pensando? Seria naquela sua humilhação? Ou seria na sua carreira
interrompida e esfacelada definitivamente ... nas suas ambições políticas completamente
liquidadas ?
- Eu ainda digo mais - continuou Grahame - que o juiz no julgamento, ao dirigir-se ao
júri, orientou-o mal dentro da lei. O sumário que lhe apresentou, aliás, não era
verdadeiro, era inadequado e induzia a erro. Acompanhando a linha de acusação, o juiz
deliberadamente prejudicou o caráter do acusado e deixou de chamar a atenção do júri
para as graves irregularidades que existiam no processo. No que diz respeito à polícia,
embora tenha ela sempre agido de boa fé, de acordo com o que sabia, não se pode negar
que não deu atenção aos pontos mais importantes para a identificação do criminoso.
Vemos com toda a clareza que ela possuía provas, favoráveis ao acusado, mas
desconhecidas para ele e seus advogados, provas essas que foram deliberadamente
omitidas no processo policial com grande prejuízo para o condenado.
Grahame, fazendo seu primeiro gesto durante todo aquele dia, estendeu, de repente, o
braço apontando para o tribunal.
- Meritíssimos, Rees Mathry não foi o assassino. Com base em nossas investigações e
na análise do julgamento, torna-se claro e cristalino que é inocente, que foi vítima de
um tremendo arremedo de justiça, de uma verdadeira mascarada. Tendes diante de vós a
testemunha Louise Burt, perjura que se condenou, mas que, saindo do seu lamaçal de
mentiras, indicou com toda clareza quem foi o criminoso.
"Meritíssimos, não sou policial e não faz parte de minhas obrigações ir buscar o
criminoso para entregá-lo à justiça, mas tenho provas suficientes para dizer o seu nome.
Compete agora às autoridades prenderem este homem a fim de se afastar,
definitivamente, qualquer sombra de dúvida que ainda possa pairar sobre este caso.
Meritíssimos, por todos os sagrados mandamentos da justiça, eu vos imploro que
corrijam esse tremendo erro, reconhecendo a culpabilidade da Coroa e proclamando
para todo o mundo a inocência de Rees Mathry.
Grahame sentou-se no meio do mais profundo silêncio, mas isso logo foi quebrado por
calorosos aplausos, e só a ameaça de mandar evacuar a sala conseguiu restabelecer a
ordem. Paul tinha os olhos cheios de lágrimas. Jamais em sua vida ouvira coisa tão
comovente como aquele apelo final. O rapaz olhava para a tranqüila figura do jovem
advogado e depois para o pai que ali estava confuso, como se não conseguisse
compreender que estava agora sendo ovacionado por aquele mesmo público que, 15
anos antes, o condenara e execrará.
267
Quando, afinal, foi restabelecida a ordem, o Procurador-Geral levantou-se, depois de
uma longa consulta com seus colegas, para defender a Coroa. Embora sua expressão
fosse digna e calma, via-se claramente que não estava gostando daquilo que seria
obrigado a fazer, mas que não podia, de forma alguma, ser evitado. Falou durante quase
uma hora com muita moderação em tudo que dizia. Em contraste com as veementes e
prolongadas palavras de Grahame, as suas eram ditas sem muita inflamação e era bem
possível que aquilo fosse de propósito. Logo que ele se sentou, o Juiz Frame levantou a
sessão que continuaria no dia seguinte.
O tribunal reuniu-se novamente às duas e meia da tarde do dia seguinte, quando, no
meio de um completo silêncio, o Juiz Frame, digno e impenetrável, finalmente se
pronunciou. À medida que ele falava, o coração de Paul parecia que ia explodir da
maneira como batia descompassadamente, como se fose uma perfuratriz automática,
Olhou para seu pai que ouvia tudo numa espécie de desespero doloroso.
- O Secretário do Interior foi informado sobre os novos fatos apresentados a este
tribunal e que o deixaram convencido de que não existe motivo para o veredicto de
culpado.
Houve uma longa pausa, durante a qual Paul mal conseguia respirar.
- Recebemos instruções para dizer que, sendo assim, o Secretário do Interior vai
recomendar imediatamente a Sua Majestade que o condenado seja considerado
inocente.
Pandemônio... Chapéus atirados ao ar... Aplausos calorosos. Dunn, McEvoy, Grahame e
Paul apertavam-se as mãos efusivamente. As pessoas se comprimiam para abraçar Paul.
Até mesmo o velho Prusty estava ali, sempre espirrando e fungando, para abraçá-lo,
Ella e a mãe de Paul estavam ali juntas, tontas e espantadas, e ainda envergonhadas. O
pastor achava-se com os olhos fechados como se rezasse. O rosto de Dale era mais duro
e inescrutável do que nunca. Sprott procurava a saída ainda tonto com o choque. Lá em
cima, na galeria, havia uma pessoa gesticulando... parecia Mark Boulia.
Então, Paul voltou-se e caminhou para onde estava ainda sentado, apesar de todo aquele
tumulto, de cabeça baixa, como se ainda não compreendesse bem o que se passava,
aquele homem arrasado a quem já ninguém mais poderia chamar de assassino.
268
Capítulo XIX
Paul voltou para o Hotel Windson, às quatro horas. Eles tinham vencido... Nem mesmo
as frases legais e as maneiras formais dos juizes, a fria displicência do tribunal poderiam
diminuir o valor da vitória final. Seus nervos, porém, ainda estavam tensos e ele se
sentia num estado de estranha irrealidade, diante de um futuro que ainda lhe parecia
incerto e precário.
Quando passou pelo corredor que levava à saída do hotel, ele viu a bagagem de Ella
arrumada e pela porta entreaberta, Paul via sua mãe lá dentro do quarto arrumando o
que faltava e então aquilo, de uma certa forma, preparou-o. Quando entrou na sala, viu
Ella sentada, já de chapéu e luvas, e aquele ar decidido e autoritário que, no passado,
pressagiava uma decisão tomada para os dois.
A presença dela ali serviu para cristalizar todas as indecisões do rapaz. Foi ao aparador
e bebeu um copo de água, sempre sentindo que os olhos dela estavam em cima dele.
- Muito bem... então está tudo acabado.
- Espero que esteja mesmo... e. não é sem tempo...
Ela estava sentada ali muito empertigada, com a boca apertada e a cabeça atirada para
trás. Paul procurou mostrar-se razoável.
- Eu sei que não foi nada agradável, Ella, mas era preciso fazer tudo isso...
- Então era preciso? Você acha que era mesmo? Mas eu já não penso assim. Acho que
tudo isso era desnecessário. E mais do que completamente desnecessário, era também
inútil. E foi você quem fez tudo. Você começou e você acabou sem levar em conta o
que todo mundo achava. E o que foi que você conseguiu? Nada. Absolutamente nada...
- Mas, certamente, já é alguma coisa termos ganho a nossa causa...
- E o que você vai lucrar com isso ? Você viu o que eles fizeram. Esses advogados são
sempre solidários. Você vai ter que recorrer ao Parlamento para conseguir uma
indenização. E, mesmo que a receba, ela não virá para as suas mãos.
269
Ele estava rubro de indignação mas esforçou-se para não demonstrar rancor.
- Não estou interessado no dinheiro, Ella. Isso nem mesmo me ocorreu. Tudo que eu
queria era limpar o nome de meu pai e foi isso que consegui.
- E vai lucrar muito com isso! Pela maneira como ele vem-se comportando, seria melhor
se o tivesse deixado lá, uma vez que se preocupa tanto com a sua reputação. Ele se
revelou justamente o que é... um nojento velho bêbado...
- Ella! Foi a prisão que o modificou. Ele não era assim antes...
- Mas é agora. E já estou cheia! Já era bem ruim quando ele estava na prisão, mas, pelo
menos, estava afastado da gente. Ninguém o via e ninguém nem mesmo sabia que ele
existia. Ora essa! Pois até mesmo lá no tribunal ele se desmandou. Procurou exibir-se.
Foi por isso que os juizes nos trataram como se fôssemos lixo. Nunca me senti tão
humilhada e envergonhada em toda a minha vida, só em pensar que gente de bem possa
saber que eu tenha a mais remota ligação com uma pessoa assim. Fique sabendo que, se
não fosse por você, eu já teria pegado minhas coisas e estaria longe daqui.
Ele percebeu que ela era perfeitamente incapaz para se dar conta dos problemas em
jogo. Ela, tampouco, mostrava a menor consideração pelos sacrifícios que ele fizera, a
luta em que se empenhara. Só levava em conta sua perpétua vaidade e a maneira como
tudo aquilo poderia prejudicá-la. E então, por causa disso, ela lhe atirava no rosto
queixas e recriminações que se tornavam ainda mais mesquinhas, porque se mostravam
justificadas. Como poderia ele ter sido jamais tão tolo para se deixar apaixonar pelo seu
rostinho bonito, sempre com uma auréola de sentimentos religiosos extremados e
incompreensíveis ?
Seguiu-se uni silêncio que ela, à luz de suas experiências do passado, pensava ser um
indício da submissão dele. Mais calma por isso e pelo fato de ele não lhe dar resposta, a
moça passou a falar com mais suavidade, com a aparência de mártir de alguém que,
embora profundamente ferido, sempre está disposto a perdoar dentro dos preceitos
cristãos.
- Venha logo. Ande daí. Arrume suas coisas.
- Para quê?
- Ora essa, seu tolinho. Porque nós vamos embora. Nada mais temos a fazer aqui... O Sr.
Dunn já pagou as contas do hotel e não fez senão sua obrigação, já que seu jornal está-
se enchendo à nossa custa. Vamos pegar o barco das sete que parte de Hollyhead.
- Não posso deixá-lo, Ella.
Ela olhou para ele espantada e logo depois assombrada.
270
- Nunca ouvi tolice igual em minha vida. Você não precisa dele e ele não precisa de
você. Logo que sair do tribunal, ele irá se embebedar em algum bar. Ele que fique por
lá. Quando voltar, verá que já fomos todos embora. . .
Paul sacudiu a cabeça.
- Não vou com vocês...
A moça ficou vermelha e seus olhos faiscaram.
- Quero avisar-lhe, Paul, que vai-se arrepender se não vier. Já aturei muita coisa por sua
causa, por causa de nosso amor. Mas isso já é demais. Não aturarei mais. . .
Enquanto Ella continuava a repreendê-lo, a porta se abriu, e Paut viu entrar sua mãe e o
pastor, ambos já vestidos para a viagem. Ele olhou para Paul e depois para a filha.
- O que há?
- Está havendo tudo, papai. Depois do que fizemos por ele aqui, Paul tem agora a
coragem de dizer que não vai voltar conosco.
Fleming mostrou-se contrariado. Durante aquelas últimas semanas, ele sofrera muito,
vítima de uma luta que se desencadeava no seu íntimo. Tinha alimentado esperanças
quanto à regeneração de Mathry, mas tinha falhado lamentavelmente a despeito de
todos os seus esforços e orações. Aquela derrota significava muito para ele e atingia as
raízes de sua crença. E agora ali estavam sua filha e Paul, e a situação o deixava
perturbado e atônito. Procurou contemporizar com chavões que ele já quase desprezava.
- Você não acha que já fez o bastante, meu filho? Você trabalhou tanto... de uma forma
tão nobre...
A mãe juntou-se ao pastor, falando baixinho.
- Pois é, Paul. O melhor mesmo é você vir conosco...
- Afinal de contas, do ponto de vista moral, você não tem obrigação de ficar. - Fleming
pensou um pouco e depois encontrou um meio-termo. - Ou talvez... nós poderíamos ir
agora... e você voltaria depois.
- Ele vai-se arrepender amargamente se não vier conosco, papai...
- Cale a boca, Ella - interrompeu Fleming. - Será que esse seu egoísmo não tem limites?
A moça rompeu em prantos, sem se deixar vencer.
- No que me diz respeito, isto é o fim. Isso quer dizer que aquele velho maldoso
significa mais para ele do que eu. Nunca mais falarei com ele. Nunca mais mesmo!
Pálido e com a testa franzida Fleming fez um esforço para se recompor e para apaziguar
a filha, mas não adiantava. Ela já estava furiosa demais para se deixar levar pelas
palavras do pai. A mãe de Paul, completamente arrasada pelo que passara naqueles dias.
não se
271
sentia com forças para ajudar o pastor. Só pensava em ir embora imediatamente.
Afinal, Fleming desistiu, pôs em paz sua consciência e salvou em parte sua dignidade,
caminhando para Paul cuja mão apertou em silêncio durante muito tempo.
Alguns minutos depois, já todos tinham ido embora.
Paul mal podia acreditar. Sentiu como se um grande peso tivesse sido tirado de suas
costas. Sozinho na sala, deixou-se cair numa cadeira soltando um profundo suspiro de
alívio. Aquela sua resolução de ficar não fora premeditada, mas sabia que, por causa
dela, ele jamais veria aquela moça. Sentia-se livre.
Sentado ali, imóvel, ouviu passos pesados no corredor e logo depois a porta se abria e
seu pai entrava.
Paul olhou-o admirado. Ele, geralmente, só voltava para o hotel depois de meia-noite, já
um tanto "alto". Não parecia ter bebido, mas via-se que estava cansado, que seus
movimentos eram lentos e com um ar inteiramente desligado que não condizia bem com
sua vitória recente. A roupa amarrotada não lhe assentava bem, estava rasgada embaixo
do braço e havia respingos nas lapelas. A mancha de lama no joelho, resultante de
algum tombo, tinha sido precariamente limpa. Arrastou-se até uma cadeira onde se
deixou cair e olhou para o filho. Parecia esperar que o outro falasse primeiro, mas
quando viu que isso não acontecia, resolveu falar ele mesmo.
- Eles já deram o fora?
- Sim.
- E não era sem tempo, já foram tarde. - Depois então, com um toque daquela aspereza
que lhe era peculiar, ele acrescentou: - E o que você ainda está fazendo por aqui? Acho
que está esperando para pegar um pouco da minha grana, quando eu a receber...
- É isso mesmo - concordou Paul, calmamente. Ele chegara à conclusão de que aquela
era a única maneira para responder às tiradas sardônicas do pai. E a resposta, realmente,
fez calar o outro que, no entanto, lançava-lhe de quando em quando aqueles seus
estranhos olhares, ao mesmo tempo que mordia o lábio superior, como se, ainda uma
vez, esperasse que o filho lhe falasse alguma coisa. Quando não agüentou mais,
perguntou:
- Será que perdeu a língua? - Não.
- Já comeu?
- ja, agora mesmo, pedir alguma coisa.
- Então peça para mim também...
Paul foi ao telefone do quarto e pediu que servissem um jantar para dois ali mesmo.
Continuou calado, de propósito, e pegou num livro enquanto esperavam o jantar.
272
Este não demorou para chegar e constava de uma sopa, carneiro assado com batatas e
ervilhas, e torta de maçã, tudo coberto com tampas duplas para não esfriar. E então
sentaram-se em silêncio. O velho comeu com menos apetite do que o comum e, em
poucos minutos, parecia estar satisfeito. Sem mesmo terminar a sobremesa, Rees se
levantou e foi até a poltrona onde começou a encher o cachimbo muito devagar e depois
acendeu-o. Fazia pouco tempo que ele começara a fumar cachimbo. Sua aparência era a
de um velho bem cansado. Afinal não se conteve mais.
- Você não está admirado de me ver tão cedo assim em casa? Agora que o show
terminou, eu devia estar me esbaldando por aí...
- Nada que você faz me surpreende mais...
Paul continuava a usar aquela maneira despreocupada e desinteressada, pois sabia que
aquilo deixava o pai exasperado, e era uma provocação para que ele continuasse a falar.
Levantou-se da mesa e foi sentar-se no outro lado da sala, ao lado da lareira.
- Já me enchi com aquela turma com quem tenho andado por aí - continuou o velho. -
Só pensam em me fazer de trouxa. Estão sempre me enchendo o saco dizendo que sou o
tal e então pedem bebidas, mas quem paga sou eu. São uns aproveitadores. As mulheres
então ainda são piores. Elas pouco estão ligando para mim. Só querem me tirar até o
último níquel para depois rir de mim. E você sabe bem por quê. Porque eu já não presto
mesmo para mais nada. Nada, nada, mesmo.
Houve um silêncio penoso, e então, sem encarar o filho, ele continuou numa voz
incolor.
- Você pode imaginar como é lá atrás das grades... centenas de homens. . . fortes, em
plena virilidade.. . afastados das mulheres. Nem mesmo é bom pensar, não acha? O sexo
é uma coisa suja, quando se trata de presidiários... As comissões que visitavam a
prisão... uns sacanas santarrões... nem mesmo pensam nisso. Mas passariam a pensar,
por Deus, se ficassem lá dentro. Dia após dia, semana após semana, mês após mês,
aquilo se infiltra na gente e todos ficam quase loucos. É a natureza humana que não
pode ser cerceada. A gente fica deitado na cela pensando... imaginando uma mulher lá
fora à nossa espera... uma mulher linda e jovem... esperando... esperando... até que a
gente deseja derrubar as paredes com socos para poder fugir. E agora, eu estou cá fora...
até parece uma piada infernal. Vejo que não presto mais para nada... Já tudo se foi para
sempre.
De repente, para preocupação e aflição de Paul, o peito de Mathry começou a arfar
convulsivamente e seu rosto chegava a dar pena.
- Tudo sai errado para mim. Tudo mesmo! Até mesmo esse novo julgamento. Foi uma
vergonha hoje. Não me deram a menor satisfação. Todos aqueles advogados sacanas
muito bem vestidos com
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o seu palavrório... Por que não tentam fazer alguma coisa diferente? Por que não me
deixaram falar? Riram-se de mimi às escondidas. Eu sou um aleijão. Não me enquadro
mais em lugar algum. Nunca vou prestar. Estou liquidado e arrasado. Nunca matei
ninguém. Foram eles que me mataram...
O cachimbo já se apagara, seu rosto estava cinzento e todo seu corpo tremia de angústia.
Paul sentia uma tremenda pena dele. No entanto, aquele momento de fraqueza do pai,
aquele inesperado vislumbre de esperança, era precioso demais para ser perdido e
desperdiçado por outra fraqueza igual, por uma demonstração de sentimentos. Embora
seu coração estivesse aos saltos, o rapaz encontrou forças para responder com frieza.
- Mas é claro que você ainda não está liquidado... - Fez uma pausa para permitir que as
palavras calassem bem no espírito do pai. - Aquilo por que você passou transformou-o
muito. Mas, em matéria de anos, você não é tão velho assim. É a você mesmo que
compete reajustar suas idéias para saber o que vai querer fazer. O que lhe agrade mais...
- Não há nada que me agrade. Chego até a pensar em dar cabo de minha vida. Quando
passei pela ponte do canal hoje, fiquei lá olhando... e pouco faltou para me atirar.
- Essa seria uma excelente maneira para me pagar tudo que fiz por você.
O pai levantou a cabeça grisalha que estava inclinada sobre o peito e olhou para o filho.
- É isso mesmo... Você tem sido muito bom para mim... bom mesmo.
- Afogue-se, se é isso o que deseja. - Paul continuou a falar de forma incisiva. - É a
maneira mais fácil para resolver os seus problemas, mas a mim parece que existe uma
idéia um pouquinho melhor. Você vai receber em breve uma boa soma em dinheiro.
Mas é claro que vai mesmo, apesar de tudo que está pensando. Por que então não
compra uma fazendola. .. Vai viver ao ar íivre, numa casa sua, com suas galinhas e
ovos... e deixe de odiar as pessoas... Lá no campo a sua saúde logo voltará... você vai
sentir-se mais jovem de espírito e de corpo. - A voz do filho tornou-se então mais
intensa e vibrante. - Eu o tirei de lá, não foi? Pois então aproveite o máximo dos anos
que dei para você.
- Nunca poderia fazer isso. - A voz dele era áspera.
- Mas claro que pode. E vou ajudá-lo. Arranjarei uma escola por perto. Estarei ali à mão
se precisar de mim.
- Não. .. Você não faria uma coisa dessas. . . Ou será que está mesmo disposto ?
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- Claro que estou.
Mathry tornou a olhar para o filho e os seus lábios rachados tremiam.
- Estou muito cansado... acho que vou para a cama.
Paul sentiu um alívio no coração, como se tivesse havido uma grande vitória. Não podia
imaginar o que poderia ter causado aquele desabafo do pai, coisa que nunca esperara.
Naquela fachada que se desmoronava, no entanto, ele antevia um futuro para os dois,
uma justificação final que surgira no momento da derrota. Sentia-se satisfeito por ter
ficado ali esperando.
Olhou de frente para o pai, procurando não deixar perceber a emoção na voz.
- Você vai sentir-se melhor depois de uma boa noite de sono... O outro levantou-se.
- Lá no campo... com galinhas e uma vaca... seria bacana mesmo. . . mas como é que eu.
..?
- Sim - falou Paul de novo, firmemente. Houve um momento de hesitação.
- Está bem - disse Mathry.
O timbre de sua voz era rouco e estranho. Ele abriu a boca, como se quisesse dizer mais
alguma coisa, mas fechou-a novamente.
- Agora eu vou mesmo é dormir. - Parou, de repente, como se lhe houvesse ocorrido
alguma coisa, levantou a cabeça e olhou para longe. Sua voz assumiu uma qualidade
diferente, remota, humana, estranhamente tímida. - Você se lembra, Paul, lá em
Jesmond Dene... quando a gente soltava os barquinhos de papel ?
E lançou para o filho um olhar envergonhado e constrangido, passou a mão pelos olhos
úmidos e injetados, e saiu da sala arrastando os pés.
275
Capítulo XX
Paul ficou ali na sala durante muito tempo. Agora, afinal, ele ia poder executar o plano
que concebera desde muito. Não era a visão idílica que ele poderia antes ter alimentado
de uma casinha cercada de rosas numa colina de onde se descortinava a planície verde
que desaparecia no horizonte. A nova maturidade que substituíra sua adolescência
sentimental tinha-o tornado sobriamente prático e desconfiado de entusiasmos
passageiros. Precisava terminar seu curso de professor, mas não em Belfast,
naturalmente, que estava fora de qualquer cogitação, mas numa das pequenas
universidades das províncias. Poderia ser em Durham onde o custo era moderado e o
ensino excelente. Nos arredores dessa cidade do norte, com sua catedral, ele certamente
encontraria onde morar, por mais rústico que fosse, e que servisse para os dois, talvez
com um jardim onde o pai poderia começar a trabalhar para sua salvação. Seria possível
sua regeneração? Paul, simplesmente, não sabia. Já ouvira falar de casos em que
homens, depois de cumprirem longas sentenças, em penitenciárias, de 15, 20 e até
mesmo 30 anos, tinham voltado para uma existência normal e uma velhice tranqüila. Só
que esses, naturalmente, não haviam sido condenados injustamente.
Rapidamente, antes que a indignação contra a injustiça se apossasse dele novamente,
Paul levantou-se. Não queria que qualquer coisa viesse perturbar sua nova sensação de
paz e quase de placidez, que havia substituído sua raiva violenta contra a lei. Ainda era
cedo e ele resolveu sair para dar uma volta antes de ir dormir. Desligou a luz e saiu pelo
corredor sem fazer barulho, por causa do pai, e desceu a escada.
As noites já estavam ficando mais longas e lá fora ainda estava relativamente claro,
como se a luz não quisesse desaparecer. O ar apresentava-se cálido, luminoso e parado.
Levado pela beleza do crepúsculo, ele se afastou do hotel.
Sua primeira intenção fora de sair por ali andando a esmo, mas embora desse muitas
voltas, ele não se surpreendeu quando, meia hora depois, encontrou-se nas imediações
da Praça Ware. Ao che276
gar diante da casa em que morara Lena, ele parou do outro lado da rua e, apoiado ao
gradil, olhou lá para cima onde estava o sobrado vazio.
Aqueles dias de tristes incertezas já tinham acabado ê seus nervos já não estavam mais
tensos. Livre de sua obsessão, ele podia agora apreciar livremente tudo que Lena fizera
por ele. Naquele momento, Paul percebia que, sem o auxílio dela, seu pai ainda estaria
na prisão e ele talvez já nem existisse mais. Sentiu-se atingido por um sentimento de
arrependimento por sua insensibilidade e sua falta de gratidão sentindo uma saudade
quase insuportável e uma necessidade imperiosa de revê-la. Se ela ao menos lhe
aparecesse ali, saída das sombras, de cabeça descoberta e metida na sua velha capa de
chuva abotoada até o pescoço, com o rosto fino e pensativo, tão generosa e tão humilde,
tão desprendida de si mesma, mas sempre exalando aquela frescura nórdica- que lhe
assentava como se fosse orvalho.
Como tinha sido pueril sua atitude a respeito dela, como tinha sido imatura aquela sua
repulsa por sua falta de virgindade. Agora ele já podia pensar com calma no seu estupro,
nos detalhes que, antes, só lhe haviam causado repulsa, náusea e uma raiva insensata.
Agora, na realidade, e por causa daquela violação, ele sentia por ela uma ternura ainda
maior.
O relógio da torre da igreja ali perto bateu as 11 horas. A lua crescente começava a
desaparecer, mas ele não saía dali olhando para as janelas lá em cima, todas três às
escuras, ao mesmo tempo que, em seu espírito, as imagens se sucediam sem
interrupção. Embora ela não estivesse lá, jamais ele a vira tão claramente como durante
aquela hora solitária. E então, ele, cada vez mais, sentiu-se invadido pelo
pressentimento de que iria vê-la outra vez. Rejeitou logo o impulso de procurar a
senhoria que sabia estar sempre disposta a confidencias. Em lugar disso, ele iria
procurar Dunn, no dia seguinte, para conseguir o endereço dela. Ele antevia desde já as
circunstâncias que o levariam a seu encontro, como se aquele momento já houvesse
chegado, e sentia-se inundado de felicidade.
Afinal, saiu dali e voltou lentamente para casa. Na rua principal o tráfego era escasso, e
as lojas já estavam todas fechadas desde muito, mas nas esquinas das ruas ainda havia
alguns pequenos jornaleiros anunciando as últimas edições. Durante toda a noite, de
uma forma bem vaga, ele ouvira os seus pregões, mas, já enjoado de sensações, não lhes
dera importância. Agora, no entanto, seus olhos deram com um cartaz que um garotinho
maltrapilho sacudia embaixo de uma lâmpada da rua. Ele voltou e comprou um
exemplar do Chronicle que leu ali mesmo à luz da lâmpada. E no jornal estava, numa
enorme manchete, a notícia que a polícia havia invadido
277
o apartamento de Ushaw Terrace onde encontrara Enoch Oswald. Ele se enforcara no
lustre da sala.
Paul recuperou-se lentamente.
- Pobre-diabo! - murmurou para si mesmo. - Ele bem me disse que iria fugir, e foi essa a
sua fuga!
E, com essa exclamação, numa demonstração de tristeza e compaixão, toda a amargura
e os últimos vestígios do ódio pareciam expurgados de seu espírito. Respirou fundo o
úmido e frio ar da noite. Do porão de uma padaria próxima, onde o pessoal já
trabalhava, vinha a fragrância do pão fresco. Não havia lua, mas, por entre os telhados,
algumas estrelas brilhavam sobre a cidade silenciosa. Insensivelmente, o coração de
Paul encheu-se de ânimo e ele caminhou mais apressado na direção do hotel. Pela
primeira vez, desde muitos meses, apreciava a doçura da vida e a promessa da manhã.
FIM

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