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Dí/ ditadura à democracia?


Emir Sader

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ATRANSICÃ0 N0 BRASI1
Da ditadura à democracia?

Emfr Sader

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EDíçãO
Emir Si m ã o Sader . 1991.
ÍÍ 1

QipyrighUltsUi edi ção:


EDITORS ATUAL S/ A , São Paulo, 199 h
Todos os direitos reservado: -
- .- *
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Av Munquri <fe Son Vice(Hr Í 697 .


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Dados de Cataiogatã O BU Fubfica an ( Cif ! luternauonaj


*

( Cintara ^ . .
Brasileira do ldvní SP Brasil )

.
Sader Emir, 194 J -
A transição no Bniiil : da ditadura ã democra -

cia? i LmirSim ã o Sadtr . Sã o Paulo : AiuaJ . 199(1,
- (Sé rie hi í i ófià vivã )

Bibliografia ,
ISBN 83-7056-315-9
.
J Jiiaiil - Histò na
ea e governo
Ii . Série.

1964- J . Ekifftcs — —
: 964. 2 . Branl PoiitL -
Braíll I . Trtuln.

-
CIJD 9S1.0S
-£20.9$10
*
9ÍM959 324.9KL
indte|iura catálogo sistemá tico;
.
1 Brasil : Ditadura mil Í Líu , 1964- 320,95108
2 . Brasil : Ç iricões : Ciência pol í tica 524.981
1 . Bras;! : Hissò ria, 1964- 981.0 »
4 . Brasil ; Pnlinca e governo, Í 96J 320.9510S

Se í ie Jlísi ó ria Vrvii


Editoras: Sonia I Ltnq uri ra .-'Santi rt Ydusreí (. ampçdv!:
Assistentes editoriais Henrique Í elic/ThaliH Falíio Botelho
f’rt' puracao dç ICJUQ . Kiaiam Nkolai
.
Revisão: Noé O. Ribeiro. Mana de Lourdes
Chaves Ferreira
-
rtiafirmvíiçãú c arte: Taoi íi r - errerra J ; Alueu
Produção grdjiat: Antonio Cábdlo Q . Fimo . '

Sílvia Regina E. Aimeida


Pnije í o gráfico: S& ni* Vaz
Fntn de capa: Gswaldn L. PaiermoY
Agêneia Estado
.
Composição: Diar ' c Ld . e Comercial Jc Livro;.
Foioitto: Bintii):.

.
\'OS P ELI 1 DOS TELHC R Á FICOS BASTA CITAR O CÓ DIGO: A2SH 2003C

LC.1 T .98
Sumário

Que país é esse? /


Transição : de onde ? Oc
De uma ditadura a outra Oc
A ditadura militar '

OC
A transição realmente existente 32
A democracia tutelada 48
Entre o relho e o novo 48
A eleição direta para presidenté 57
Transição: para o quê? 67
As outras transições 74
A nossa transição 85
Histó ria sem final 92
Bibliografia 92
Tíiulos da série
A TRANSI ÇÃ O NO BRASIL
Da ditadura à democracia?
Emir Saçter

ARGENTINA
Civilização e barbárie
Francisco Viana
I ESTE EUROPEU
A revolução democrática
Jayme Brener

PERESTROIKA
Origem, projeto,ç impasses
Jacob Gorender

AMAZÔ NIA
Av raizes da destruição
Ricardo Lessa

.
CUBA , CHILE NICARAGUA
Socialismo na America Latina
EmirSader
Introdução

Que pais é esse?

.jPy£; s com anos cie Rep ú blica no Brazil foram caracrcrizados


L

EI ma ís longa parada militar que o país já conhe ¬

ceu. A historia política brasileira tem sido uma longa cadeia de


acontecimentos articulados entre si por pactos de elite, fiados
peb for ça militar . A decantada capacidade brasileira de resol ¬

ver mediante acordos os conflitos tem um preço a nao reso
lu ção dos problemas de fundo do pais. cujas vítimas são a maio¬
¬

ria esmagadora da popula ção , excluída tlus direitos básicos de


cidadania .
Mais do que isso: a falta de rupiuras implica a falta de
identidade. Falta de identidade nacional, das classes sociais ,

dos atores pol íticos já que a identidade, de um indivíduo ou
de uma na ção, surge dos processos dc ruptura, de contraposi ¬
ção ao outro. E a nossa história est á coalhada dc momentos em
que as elites dirigentes se anteciparam à constituição de uma
vontade popular surgida de baixo, alinhavando pactos por ci ¬

ma , que frustraram as aspira ções populares c as substitu íram


por processos gattopardistas , em que "tudo muda para que tu-
du siga igual ” .
A independência política já surgiu no Brasil sob a forma

de um pacto familiar de um negócio de pai para filho que

substituiu a conquista por parte das forças nacionais. Ao diri ¬

-
gir se a seu filho, aconselhando-o a colocar a coroa na cabeça ,
“ antes que algum aventureiro o faça” , o monarca português es ¬

tava não apenas concluindo o primeiro pacto de dites da hist ó ¬


ria independente do Brasil , mas enunciando uma forma de rc-

t
solução pol í tica dos conflitos e das transições pol íticas que teria
inúmeros herdeiros e seguidores na oossa b±£túna

A diferen ça em relação aos pa íses do resto Jo continente


é flágrame . Naqueles países — á exceção de Cuba e de
Porto Rico, que não Çonseguiram sucesso na I- ULI luta — a inde ¬
pendência lo! resukudo de uma guerra popular, nacional s lati ¬

no- americana , contra os conquistadores e incasoíes ib éricos .


-
Tratou se de uma guerra popular , combinação de guerra con -
venoojiiil e gue- riu de guemllias , eoi qje participa mm amplos
setores da popula çã o em todos os pa íses. Fm ujxia guerra íatmo ¬

am cricana, porque somente .1 coordenação das ttopas dirigidas


por Bolí var , Sucre , Sun Martin . O Higgins , Anitas , atoando
'

nos v á rios pa íses do continente de forma conjunta , pôde finai-


n enie, 11 a baLmlha de Ayacuvitu , derrotar resistência das c to
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pas espanholas e conquistar a independ ê reis em rela ção aos co -


¬

lonízadores.

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A incteponsòncis do Brasil nã c st? Çaracieri+Q , pc - [irtis ruplura definitiva


com a metró pole portujussa. FRAFOIJ -.ES , na verdade, da um pacto familiar
1

que garantiu a cont


ún 0 . Pedro l . da Debret )
-
ímjóty&de da elite miwtárquica nopoeí fe/a Aclamação

Dessa iorniu , a instalação do Estado nacional nesses pai


its í len - se como
um ep ílogo do rolonidismo. O balsuço do
per íodo colonial feito naquelas condições foi de uma invasão .
estrangeira realizada para a pilhagem das riquezas naturais dos
2
pa íses latino-americanos, camuflada sob o pretextodc cristiaur
7.ãr c tio expandir a civilizado . Ao concluir a crapa colonial com
uma ruptura. íoi possivd a esses países ter acesso mais direca -
í nentc a um u identidade nudonal e a uma
consci ê ncia da possi ¬

bilidade do que a organiza çã o e a ação independente dc um po -


TO pode conseguir Alem . evidentemenle . da visão clara de que
iodos esses países pertencem a um continente submetido à mos
ma forma de domina ção pdas pot ê ncias europeias e, posterior
mente , do Primeiro Mundo no seu conjunto.
-
hnquanto isso, n ós continuamos presos à s formas mais ar ¬

caicas , graduais e escamoteadom de ertíremaniento dos nosso?


problemas. Sa ímos da Colónia não para a República , mas para
uma Monarquia umbiliciilmente ligada a velha potê ncia colo ¬
nial . Conviveram nela o liberalismo e a exploração do trabalho

escravo a nega çã o mais evidente de qualquer forma de pen ¬

samento liberal , ao evidenciar a desigualdade formal entre os


homens.
Quando a mobiliza ção abolicionista gerou ss condiçoes
dc liquidação do trabalho escravo, a princesa Isabel se encarre ¬

gou de Jar u esse I inal um cará ter de “ d á diva bondadosa que


"
.
expropriava seu sentido de conquista popular contra o poder
constitu í do . Mais uma vez a ? elites se antecipavam ao desenlace
popular dos conflitos para bloquear a detmiçá o clara dos cam ¬

pos em luta e a afirmação dc um deles contra o outro.


A proclama çã o da Rep ú blica igual men te absumiu a forma
de uma transição dirigida por um dos setores da c ú pula do Es ¬

tado , urna vez que se itarou , na realidade . de um movimento


militar contra o monarca , a que a popula ção , sem participar ,
.
nem entender assistiu “ bcstiHc ida ' b conforme a expressã o dc
,

um cronista tios acontecimentos A continuidade tie fundo pri ¬

mou uma vez mais sobre a mudança da forma de exercício do


.
poder. A Rep ú blica só nos 'negou quase sete d écadas depois da
independ ência , mediada por todo o período monárquico, que
abrandou os eleitos da transi ção, at é que uma Rep ú blica o ligai
quica desse eoimnuidade à hegemonia dos exportadores e dos
produtores de caf é sob outra forma política.
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M p roc/íima çá o da Repuiji .' ca ramòí m se caractenzou por tinis aspêcre úe
transi çã o ( tingida , sem participação popular Desta feita por meio de um
golpe militar , a dito cafewe garantiu a continuaçã o de sua hegemonia eco
.
nomea sob outra forma politics Ao participar da contratemilação da tropa’
no Ca mpo do San lana . o marechalDpodo ro ainda nestiava en tre o movimen¬
to republicano e a lealdade ao imperador > Teta úe Benedito Caiixto )

Aquela que ficou conhecida como “ revolução de 30“ rea -


lualizcm a frase que havia caracterizado a independência, sob a
forma do “ Façamos a revolução ames que o povo a fa ça " , do
politico mineiro Amónio Carlos . O movimento gctulista vagou
sem uma definiçã o precisa até o Estado Novo, quando assumiu
de forma mais global o papel de ' doador ' de conquistas ao mo ¬

vimento oper á rio , mediante a legisla ção sindical importada do


fascismo italiano.
4
Com isso, roda a mobilização social c pol í tica que vinha
do final dós anos 10, passando pelas lutas do movimento anar ¬
quista , pelas greves contemporâ neas da Rtrvólu ção Sovié tica,
pela fundação do Partido Comunista e pelos levantamentos dos
militares no transcurso da década, incluindo a Coluna Prestes,
desembocava num movimento tipicamente Ixiiupanista, em
que aos setores populares era reserv ado um papel de apoio pas ¬
sivo , externo, sem protagonismo político. O getulismo “ se
adiantava" ã expansão do movimento operá rio durante o fo ¬

mento do proces-so industrializame, criando as condições ins¬


titucionais e ideológicas para sua subordina ção ao aparelho
de Estado, castrando suas possibilidades de desenvolvimento
autónomo ,
A queda da ditadura gctul is ta tampouco serviu como mo ¬

mento de reafirmação das forças populares como sujeito inde ¬

pendente na esfera polí tica. Foi uni processo de transição que


teve nas For ças Armadas uni do de ligaçã o entre o período con ¬
cluído e o novo, a pomo de o ministro da Guerra dc Get ú lio, o
general Eurico Gaspar Dutra , set eleito presidente da Rep ú bli¬

ca c scr sucedido pelo própno Get úlio no mandato seguinte


A instauraçã o da ditadura militar pelo golpe de 196-1 foi
um momtnro de ruptura política , embora sua essência conser ¬

vadora, restauradora , estivesse camuflada pela ideologia libe¬


ral, para buscar esconder os reais objetivos com que se instaura ¬

va o novo regime e para conseguir mobilizar amplos setores das


classes médias. Foi um período especial na história brasileira,
entre outras razões porque sua natureza de ditadura Jc LLISSC,
das elites minoritá rias no poder. ícu ficando transparente para
amplos setores do pais. Sua crise e transição a um novo regime
poderia assim ter tido um cará ter dc ruptura profunda, que tlçs
se nascimento a forças pol íticas mais definidas e possibilitasse
-
uma consciência maior do pais em relação a si mesmo e aos vá ¬

rios setores que tj compõem .


No entanto a transição do período diretória! ao que o su ¬

cede se deu sob o mesmo signo enganoso dos processos anterio ¬

res dc passagem de uma fase a outra da nossa hist ória. A preten-


5
-
são, corno sempre , é a de autodefin í r sc como um momento es ¬
pecial mente novo diante de Ludo o que se viveu até ali. O mo¬
mento foi eatacterizado automaticamente como de transição
democrática , dando por definição que ao autonisnsmo sucede ¬
ria uma democracia. Mais que isso . apelou -se para a ideia de
uma iNWó República . que recuperaria a noçã o Je coisa p ú blica ,
inexistente ou conspurcada pelos regimes que se haviam dito
republicanos desde 1S89-
Mas , da mesma forma que n ão se pode tomar por necessa ¬
riamente correta a defini ção que as pessoas dã o de si mesmas ,

tampouco se pode aceitar gratuí tamente o que os setores que


protagonizam um fenômeno dizem que significam. O pró prio
movimento militar de Ly64 se dizia uma revolu ção" de natu ¬

reza democrática . Bastai Li isso para desconfiar do cará ter da


transi çã o que o pais viveu desde o finai do regime militar c
submetê-lo ã cr í tica. Utilizamos por isso a idéia de transição pu-
litiiu , tio sentido de que se passou dt um sistema de poder a
outro , sem dispensar automaticamente a da o car á ter de um
processo democr á tico , como se ver á mais adiante
Possuindo uma história cm que os momentos dc ruptura,
dc defini ção, de identidade primam pela ausê ncia , seria normal
que també m padecêssemos dc um pensamento político relati ¬
va mente pouco desenvolvido. Afinal , no pensamento político
as classes sociais expressam seus projetos globais para a socie¬
dade. Sc dispomos , cm grande medida dc partidos politicos
,

indefinidos ideologicamente, dc episódios históricos cm que a


conciliação das elites bloqueou a consciência social do que se
vivia , naturalmente as caracterizações políticas de cada setor da
sociedade tendem Lambem mats a confundir do quo a esclarecer
o sentido da a çào dc cada um ,
Quem é liberal no Brasilr Quem é social- democrata ?
Quem ê de direita ? Quem é de esquerda ? Quem e conserva
dor ? A falta de clareza nã o significa que esses termos tenham
perdido o sentido. Significa, sim , que c necessá ria uma defini ¬
çã o que n ão seja dada simplesmente peio que se diz ou se escre ¬

ve , tnas pelo cruzamento dos programas e das prá ticas políticas,


6
ou soja , dos objetivos

formulados c dos sujeitos com seus
respective» interesses de classe — que pretendem colocá-los
etn pr ática. E, também, que é necessá rio rcinserir as ideologias


na nossa realidade do Terceiro Mundo, da América Latina e
do Brasil contempor â neos. O que pode ler sido liberal na Euro¬
pa do começo do século pode ser conservador ou mesmo revo ¬

lucion á rio entre nós atual mente , Não é um problema da relação


das palavras entre si, mas da adequação das palavras às coisas
que pretendem representar.
Na recente transição de um regime político a outro, inter ¬

puseram -se vá rias contingências entre a vontade democrá tica


do povo e 0 resultado das lutas para realizá-la Da mudança re ¬

pentina de partido por pane de Samey a tnfecção hospitalar


que matou Tancredo c levou aquele à piesid ê ncia que deveria
romper precisamente com o regime para o qual trabalhou tom
afinco, desde o golpe militar até seu final. Da expressão da von ¬

tade popular de mudança ã eleição dc um presidente com apoio


nos pilares do antigo regime
— Forças Armadas, Rede Globo,
empreiteiris, bancos, capital internacional, políticos oligárqui -


cos tradicionais. Todas essas e ourras — á rvores parecem
obscurecer aos olhos do povo a logics de uma continuidade do
poder camuflado na floresta dos passes dc mágica dos grandes
meios de comunicação.
Falar do Brasil, de seus processos históricos, é necessaria
¬

mente faser um trabalho de desvendíunento, de critica das de¬


m ãos de tinta que recobrem a realidade, para facilitar o acesso
do povo à consciência transparente de seu mundo. E ajudar a
tecer o fio de Ariadne
.
— aquele por meio do qual , na mitologia
grega, seu amado Tescu, pôde oriemar-se dentro do labirinto
— , pelo qual o povo possa encontrar, dentro mesmo das apa -
rentemente insuperáveis paredes e curvas do sistema labirínt í
co de poder, as vias de sua consciência e de domínio sobre seu
pró prio destino.

7
Capítulo 1

Transição: de onde?

De uma ditadura a outra

11 Brasil viveu, de maneira concentrada, grande quartrida


r53z?de de transformações políticas, num tempo retafiva-
mente curto — medido em termos históricos. Em trinta anos o
país passou por uma crise do sisrerua parlamentar que vigorava
desde o final da Segunda Guerra, dali para um golpe de Estado
c uma ditadura militar que transformou radicalmente o Brasil,
com suas etapas ascendentes c seu período de crise, até chegar ã
transição para um novo regime, que se concluiu com a eleição,
pelo voto direto, de um novo presidente da República. Depois
de um desenvolvimento rclativameme modorrenro, é como se a
história do país sc acelerasse, colecionando acontecimentos e
períodos importantes.
Vamos abordar aqui o que se convencionou chamar de
período de transição democrática e que corresponde ao proces ¬

so de saída do regime ditatorial para um regime de direito, ba ¬

seado na institueionalidade jur


ídica e no sistema parlamentar.
Essa transição está inserida no processo iniciado com o golpe
milhar dc 1964, já que ela significa a passagem do regime insta ¬
lado por aquele movimento parà outro, que se pretendia de ca ¬

ráter democr ático.


As transformações ocorridas a partir de 1964 constituem,
junto com aquelas operadas com a “ revolução de 30’’, os mo¬
mentos de maior transcendência hist órica para o Brasil neste

8
século , sem d úvida o mais importame fie sua história. Sob a
direçã o de Get ú lio Vargas , o pa ís saía Ja hegemonia das oligar ¬
quias exportadoras e Comerciais, para iniciar um processo de
aceleração industrial por meio da substituição de importa ções ,
da expansão do mercado interno c da diversificação de sua eco¬
nomia .
Esse processo primeiro por meio da ditadura getuikta.
,

depois por meio de governos eleitos pelo voto. se estendeu at é o


início dos anos 6Ó, com um ritmo constante de expansão eco¬
nómica, Ele qao foi acompanhado , no entanto, pelo equilíbrio
social e pela estabilidade pol ítica . A manuten ção de uma ó
t tru
tura rural arcai ca , sem possibilidade de acesso da maioria de
sua população à terra, expulsava grandes contingentes para as
cidades do Centro -Sul, sem condições de absorver massas tão
grandes, apesar do crescimento económico. Ao mesmo tempo,
aquela estrutura agrá ria concentrada e atrasada não produzia
os alimentos na quantidade requerida pelas zonas urbanas e a
preço razoável para garantir a reprodução da crescente força Jc
trabalho nas Cidades.
O retomo ao processo eleitoral cm 1945 tampouco garan ¬
tiu uma continuidade está vel ao processo institucional. O pri ¬
meiro presidente eleito foi o pró prio ministro da Guerra do an ¬
tigo ditador Gcitilio Vargas, O general Enrico Gaspar Dutra
loi deito com o apoio dc Get ú lio e de dois partidos fundados

pelo ex- ditador o Partido Social Democrata, que apesar do
nome nada tinha da ideologia social-democrata, e o Partido
Trabalhista Brasileiro,
Depois de relativas condições de liberdade nas eleições
pura a presidência c para a Assembleia Constituinte, chegou ao
Brasil o períódo de guerra fria , marcado pelas confrontações
globais entre OS Estados Unidos e a União Soviética, com as
determina ções, impo&ias por Washington aos governos sob a
sua hegemonia, de colocar os partidos comunistas na ilegalida ¬
de Dutra n ão vitdlpu em cassar os mandatos dos deputados e
.

senadores comunistas e em proibiras atividades do PCB í Parti ¬


do Comunista Brasileiro ) limitando logo o cará ter rdatrvamen -
9
tc democr
ático da transi ção pol ítica com que o pais saia cia dita ¬

dura gémlísta .
Conclu ído o mandato de Dmrá , Get úlio for candidato à
presidência, conseguindo eleger-se contra a direita tradicional ,
agrupada sempre cm tomo da UDN ( LJniao Democrática Na ¬

cional ) . O per
íodo de retração relativa do capital estrangeiro no
Brasil , iniciado com a crise de 1929 , prolongado com a econo ¬

mia de guerra em que entraram as grandes potências nos anos


30 e metade dos 40, estendido pela guerra da Coreia , se con ¬
cluiu nò começo da década de 50. Retomava ati país o capital
estrangeiro, com roda a pressã o política que o acompanha , difi ¬

cultando a pol ítica nacionalista que Getúlro estava impíemen


tando .
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A á
Get úlio Vargas , sobe proteçãodD guards -chuva de seu segurança Gregóno
Fonunaio, prepara - se pars discursarem um comício da campanha eleitoral
de 1950. Uma vez eleito, o ex -ditador realizou um governo marcado poracu¬
sações de corrupção e fortes pressões políticas, gue o levaram ee suicídio
em 1954 .

O governo de Get úlio transcorreu cm meio a graves acu ¬


sa ções de corrupçã o , mas , ao mesmo tempo , sob o fogo dos se¬
tores favoráveis à internacionaliza ção da economia Get ú lio se
10
suicidou, erti 1934 No ano seguinte o governo de Perón na Ar
* ¬

gentina, com caractcrtsdcasrelativamentesimilarciasdc Gct ú-


lio , seria derruhado por um golpe militar, fechando, também lá,
uma etapa na história do pa ís. Mudavam as condições de inser ¬

ção internacional dos pa íses latino-americanos e, com elas. alte ¬

ravam -se as relações internas entre as classes sociais, esperial -


mtmte sob o impacto do ingresso maciço do capital externo, O
novo imp ui só à industrializa ção viria , a partir dali. a ser coman
¬

dado pela industria automobilística, e esta, por sua vez, seria


hegemonizada peio capital norte-americano.
Com a morte de Cctúlio sucede-se um período de instabi ¬

lidade polí tica . A eleição do governador de Minas Gerais, Jus -


edino Kubitschek, em 1935, com o apoio das mesmas forças
que haviam sustentado u governo de Get ú lio. é questionada pe ¬

los setores conservadores, que mats um;i vez haviam tido um



alto oficial o general J uar ez Ta vora como candidato â p re ¬

side n cia e mais uma vez haviam sido derrotados. Esses setores
articulam então um golpe militar para impedir a posse de josce-
litio, mas seu plano fracassa diante da atuação do então minis¬
tro da Guerra, o general 11enrique Teijreirs i ,ort , de orienta çã o
nacionalista .
j uscelino cumpriu integralmeme seu mandato, caracteri -
zado pelo impulso ã industrialização, baseada na instalação dc
empresas hibricstut íis de automóveis e no surgimento de uma
-
enorme rede de f á brica.; subsidiárias, pda grande demanda que
aquelas requerem de outros ramos industriais. Houve algumas
tentativas de rebelião militar dc setpres direitistas durante o
per íodo que vai de 1955 a 19Ó0 , que oão se estenderam ao con ¬

junto da oficialidade das Foiças Armadas. Esse período presi ¬


dencial foi o dc maior normalidade relativa vivido jiclo Brasil
desde muito tempo .
Etn L 9£>0 as for ças conservadoras apelam para a candida ¬

tura de Jâ nio Quadros um l íder carismático que havia sido eíei -


,

LLI preterio e governador de Sãu Paulu, por diferentes partidos,


baseado na sua imagem de cOmbalente implacá vel da cor ¬

rup ção e de eficiente administrador. Sua ideologia polí tica se


II
escondia por i rá s de sua iigura enigmatic» . mas cujo estilo de
governo não deixava duvidas sobre suas ambições autoritárias,
contrapostas as tqiresciiLações parlamentares c partidárias em ,

lavor do caudilhismo pessoal .


b
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k
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JusoeUno KuititscheX vtsaa as tnauna ç ccs úa 'oikswsqen ao Brasi durante
f j inaugura ção da táú nca . em 1359 . O governo de JK
-
canactenzou se por um
ptocftsso de internacionalização da economia Oramieira. çom torte impuiso
a industrialização
As fainas originá rias do getulismo foram derroracUis, ten
do tomo candidato o general Loti com uma plataforma nacio¬
,

nalista, acompanhado deJoão Gouliirt como vice. Goulart lia


viu sido ministro do Trabalho de Gei úlio e vice - presidente dt

Tuscelino . representando a ala trabalhista na coalizão heterogé ¬

nea do getuiismo. A divisão entre vá rios candidatos n vtee-


presideme na chapa dc Jânio — naquela época u voto para pre ¬

sidente e vice era desvinculado — c uma atitude demagógica c


oportunista deste de favorecer combinações de voto entre si e
Goulart terminaram fazendo prevalecer o mim í o de jan ço co ¬

mo vicc- presidcnlc junto com já nio


12
A presidência de J ânio durou apenas sete meses. Depois
dc- algumas medidas de efeito, mas sem maior profundidade,
espcdiilmente no combate a uma crise económica que ii se de ¬

senhava Jânio renunciou , era agosto dc 1%1 . alegando que en ¬


,

contrava í ortes resist ências no que chamava de forcas ocul '


¬

tas mas deixando clara me me enrrever sua disposição de rc


"
,

tornar ao governo com poderes extraordinários beirando os de ,

um ditador ,

Como Jango estava viajando pela China . Jâ nio contava


lan ç ar o pais mima situa ção descontrolada que poderia facili , ¬

tar um requerimento para que reassumisse o poder nas condi


ções em que desejava . No entanto , a situa ção evoluiu noutra
dire ção . Os três ministros militares se negavam a record tecer u
direito de Goulart de assumir a presidência e se preparavam
pat íi dar um golpe militar .

Diante daquela tentativa de romper com i legalidade vi


vente houve uma mobilização popular de resist ência coman ¬
,
,

dada pelo ent ão governador do Rio Grande do Sul Leonel lit t - ,

zola . a frente da pol ícia daquele estado aic ent ão subordinada


,

ao govvmuJi.tr e não às For


Armadas lango retornou da
ças ,

China via Porto Alegre e dali reafirmou seu direito a assumir a


presidência ,

Diante de unia situação de virtual empate entro as torças


legalistas c golpistas chegou - se a uma solução de conciliação
, ,

que toi .1 da aceitação pelos milhares da posse tie lango , porém


sob um sistema parlamentarista que limitasse seus poderes co
, ¬

lli 0 presidente Tancredo Neves j:i naquela época conhecido


. ,

t omo um politico moderado e conciliador


foi o artífice daque
, ¬

la solução e cm seguida assumiu corno primdiu -ministro du


, ,

governo Jango.
í naugurou - se um período de trégua . que prenunciava
grandes tempestades lango não se resignava 2 governar com
.

seus poderes restringidos, ainda ma ís que se via pressionado


por um movimento popular em crescimento, que reivindicava n
realização de uma reforma agrária a limitação da remessa dc
,

lucros ao exterior e a realização de uíu conjunto de reformas


13
democr áticas, chamadas naquela época de reformas de base.
Por seu lado, as forças direitistas depositavam alguma espe¬
rança em que Jango servisse de freio àquelas reivindicações , li¬
mitado pelo parlamentarismo e pelas amea ças golpistas por
parte das forças armadas e dos pol íticos conservadores.
Aquele imobilismo não era apenas resultado de um equi ¬
l íbrio de forças o da implanta ção do parlamentarismo, tnas tam -
bem da estagnação industriai c das tensões sociais que o país
vivia . Depois dc imi crescimento contínuo desde o final dos
unos 40, a economia começava a dar sinais dc dedinio em sua
expansão. A taxa de investimentos caía , demonstrando menor
disposi çã o dos empresá rios a continuar investindo, ao mesmo
tempo que se reforçava a organiza ção dos trabalhadores rurais,
formava -se um Comando Geral dos Trabalhadores e cresciam
as mobiliza ções populares,
jango conseguiu, arravés de um plebiscito, o retorno oo
presidencialismo, um ano e meio depois de sua substituição pe¬
.
lo parlamentarismo Mas isso não deu maior dinamismo ao seu
governo, já envolto em uma crise econ ómica, cujo indicador era
O aumento da inflação e a queda da taxa de crescimento da eco
nomia . Enquanto esta descia de 7.7% em 1961 para 5,6% no
ant> seguinte e para 2,1% em 1963, a inflação subia de 37%
cm
1961 para 51 % em 1962, $1% em 1963 c ameaçava ultrapassar
os 100% cm 1964.
Eslavam convocadas eleições presidenciais para 1965,
quando seriam candidatos Carlos Lacerda, governador do Rio
de Janeiro, pela direita , Jnscelino, pck> ceoinu, agora sem o
apoio da esquerda, que lançaria Leonel Brizola. No entanto, o
grande empresa riado nacional e esirangeíro e as For ças Arma ¬

das sc preparavam para impor uma transformação mais profun ¬


da e radical ao pais, mediante a instala ção de um regime ditato ¬

rial. Desde o envio de tropas brasileiras à Itália , uma convivên¬

cia muito estreita se havia desenvolvido enrre a oficialidade


brasileira c a norte-americana, que se estreitou com a passagem
ao per íodo da guerra fria.
Daquela geração de oficiais faziam parte, entre outros, os
14
generais Humberto Castelo Branco c Golbetv do Couto e Silva,
que foram art ífices ria adequa ção da doutrina de seguran ça na ¬

cional. que abordaremos mats adiante, formulada pelo Depar ¬

tamento de listado dos EUA, â situação brasileira . As Forçts


Armadas se reivindicavam u papel de bastiões na luta contra a
subversão que, a seus olhos, era guiada de fora para dentro do
pats . O comando subversivo residiria na URSS. ou em Cuba,
ou na China, c seus insmtmentos internos seriam as torças de
esquerda, os sindicatos, o governo de Jango e todas as forças
populares .
Com vistas a criar as condições para í nrerroroper o pro ¬

cesso institucional , foi gerada uma situa ção de desestabiliza ção


do governo deJango, que consistia, por um lado, na estagnação
económica e, por Outro , na promoção de manifesta ções, espe ¬

cialmente de classe média, de protesto contra o governo. Orga ¬

niza ções como a Sociedade Rural Brasileira começaram a armar


mil ícias, enquanto surgiram I or mações similares nas cidades,
como o Grupo de A ção Patriótica, as Milícias Anti comunistas e
.

a Patrulha Auxiliar Brasileira . Entidades apaientcmentv dc


pesquisa
— como o Instituto de Pesquisas Económicas e So¬
ciais [ EPES í e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática
(1BAD)
— canalizavam recursos externos para impulsionar
aquelas manifesta ções e promover, na grande imprensa toda —

ela alinhada á favor do golpe , propaganda do movimento
que se preparava . Politicos circulavam abertamente pela em-
hn íxada norte-americana , que articulava a a ção internacional
de apoio aos golpistas. O embaixador I .incoln Gordon era per ¬

sonagem diretamente envolvido naquelas articula ções.



A Igreja Católica então dc orientação conservadora
desempenhou papel importante na mobilização das classes mé¬ —
dias a favor do golpe, polarizando ddinirivamente a situação. A
propaganda direitista proclamava que . ao tentar tocar nos lati ¬

f úndios, o governo de Jartgo atentava contra toda a proprieda ¬


de privada no pa ís. Assim , conseguia envolver os pequenos
proprietários os colégios católicos e as fam ílias de classe média ,
,

que nwiiiesLavam medo diante da grande campanha anticoniu-


nista . que acenava com riscos imediatos ao direito de proprie ¬

dade , á integridade da fam ília . as escolas privadas c aos direitos


de expressão e organizarão,
A Igreja organizava orações conhecidas tonto " rosá rios
em i ítmilia ” , sob o lema Je que “ tamilia que teza unida , perma ¬

nece unida ” IMa realidade , se acumulavam lor ças para o que


postei iormente torant as marchas da tamflia. com Deus. peia
'

liberdade ” , que reuniram dezenas de milhares de pessoas nas


grandes cidades do pais, como lorma de resistência aos supos¬
tos planos comunizantes do governo de Joã o Goulart.
As Forças Armadas passaram ao centro das articulações.
Como ramo do Listado menos aletado pelas tensões suciais , já
que sua estrutura in tema é rigidamente hierárquica e sua ideo ¬

.
logia e visceral men te conservadora , as Forças Armadas atua ¬

vam como força de reserva, quando os partidos tradicionais da


burguesia se mostravam impotentes para caitulizai ui : t á solu ção
convincente para as classes dominantes diante do crescimento
das mobiliza ções populares. Nem mesmo as Forças Armadas
escapavam d :i onda de reivindicações tio movimento popular.
Sargentos , soldados , marinheiros lutavam pelo direito a se can ¬

didatar e ser eleitos para o Parlamento, participando assim di ¬

reta mettle da vida poluir á indeperrdeniemerste de seu vínculo


,

com as institui ções militares. Esses movimentos deixavam ain ¬

da jtnais inquieta a oficialidade , Lciiicn.tsa de que um processo


de democratizaçã o iniema debilitasse sua capacidade de Co
mando sobre as tropas .
Diante da ofensiva da direita, lango resolveu aprofundar
o processo de EDONNAS c, cm com ício realizado no dia 13 de
mar ço no Rio de Janeiro, anunciou decretos de limitação dos
alugu éis urbanos, de nacionaliza ção de refinarias privadas de
petróleo c de expropria ção de terras próximas a estradas para
reior ma agr á ria, diante de uma massa mobilizada pelo Coman ¬

do Geral dos Trabalhadores, pci.i União Nacional dos Estu ¬

dantes , pela Uon federa ção Naciónal dos Trabalhadores na


Agricultura, por Leonel Brizoja, por Miguel Arraes e pelos gru ¬

pos de esquerda.
lti
Pouco tempo depois Jango foi visitar os marinheiros su ¬

blevados, numa reunião de confraternização com os trabalha ¬

dores, no Sindicato dos Metal ú rgicos do Rio de Janeiro, o que


apareceu aos olhos dus oficiais golpistas como s gota d "agua c
serviu como detonaote do movimento golpisra Jongamentc
preparado. No dia seguinte, U de abril de 1964, for ças milita
res saídas na noite anterior de Minas Gerais iniciavam o golpe
de Estado, que desta vez não encontrou resist ê ncias suficientes ,
nem entre as For
Armadas nem num movimento popular
ças
despreparado para lutar por outros meios que não os pacíficos
IN o dia seguinte , alegando n ão querer provocar um grande der ¬

ramamento de sangue no país, jango sa ía do Brasil peia frontei ¬

ra com o Uruguai ,

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Wo com í cio por reformas de base , realizado na Centra - do 3ra$ em 13 de


março ae 1964, João Goulart anunciou oma sens de decretos true , entre
.‘
outras metfrdas. nacionalizavam as refinarias óe petróleo e cesapropnavarr
terras para a reforma agr á ria, O acontecimento tot o estopim nara a reaçã o
das forças direitistas e a eclosão do golpe militar de 3t de março cfe !964.

17
Ainda com o presidente constitucional em temrório bra¬
sileiro, o Congresso havia dado posse a um governo provisório,
que foi imediatamente reconhecido pelos EUA, Uma semana
depois as For ças Armadas se apropriaram direlainemc do po ¬
der. proclamando o primeiro Ato Institucional, que suspendia
a vigência da Constituição. fechava a Congresso e se atrihuia
poderes “ revolucionários". Eslava instaurada a ditadura mili¬
tar responsá vel por governos n ã o eleitos pelo povo durante os
seguintes vinre e cinco anos.

A ditadura militar
Q movimento golpista havia sido feito pregando a neces¬
sidade dc ‘ restabelecimento da urdem social " e de retomada da
expansã o econ ómica, liquidando a infla ção, diagnosticada co¬
mo responsá vel pela estagnação e favorecedora da crise social.
A ordem social foi reimposta a ferro c fogo, pela repressão aos
líderes sindicais, estudantis, intelectuais, aos artistas, politicos ,
partidos e organiza ções , catalogados como subversivos. O
Congresso foi amputado dc deputados c senadores que tiveram
seus mandatos cassados, o mesmo acontecendo com governa ¬
dores c prefeitos. Políticos foram ainda condenados ã perda de
seus direitos políticos por períodos de até dez anos, figurando
entre eles até mesmo moderados como o cx - prcsidemt
Jusceli -
no Kuhitschek. o governador de Sâo Paulo. Ademar de Barros ,
o do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, e o cx- presidente â nio
J
Quadros. Ficava daro que o plano do regime militar era o de
manter - se no poder por um tempo muito longo, ao contrá
rio
dó que esses políticos, que haviam apoiado o movimento mili¬
tar , esperavam .
O Judiciá rio foi iguálmente depurado dós juízes que po¬
deriam representar obst á culos às medidas de força implemen ¬
tadas pelo novo regime , A imprensa foi suhmerida a censura, as
universidades foram objeto de inquéritos policiais militares, os
mesmos que foram instaurados em todos os órgãos p úblicos,
para buscar os inimigos do regime infiltrados neles.
IS
A doutrina de segurança national foi a ideologia oficial da
ditadura militar. Segundo sua compreensão do processo social,
este se assemelharia ao funcionamento de um organismo bioló ¬

gica, onde o bom andamento do todo dejiende de uma colabo ¬

ração solidária de cada uma de suas partes. Fssc ponto de vista


Í Lindoiiiilista não deixa lugar para os conflitos, as diferenç as de
visão e de interesse, as contradições sociais, que Ilie aparecem
como formas externos de sabotagem do desenvolvimento desse
organismo. Assim, qualquer manifestação de antagonismos, de
discrepâncias, ê considerada como um vírus externo, que pene ¬

tra no organismo apenas paru obstaculizar seu bom funciona ¬

mento , Nessa qualidade, eLu tlcve ser tratada como um tumor

— isto é, deve ser extirpada em nome do funcionamento solidá ¬

rio do organismo sociaL


Em termos ideológicos, significava ncprimii os dissidentes
e suas formas de organização como gérmens introduzidos de
fora para dentro, pela subversão internacional, sendo conside ¬

rados como “ inimigos internos". Os interesses do pais São


identificados, nessa doutrina, à segurança nacional, que encon ¬

tra seus defensores máximos nas Forças Armadas, a pr ópria en ¬

carnação da nação. Em nome desse papel,as instituições milita ¬

res haviam se reivindicado o direito de subverter a Constituição


e o sistema legal estabelecido, pana fundai um novo sistema de
poder, legitimado pelas próprias Forças Armadas em nome da
segurança nacional.
Apoiada nessa concepção totalitária, a alta oficialidade
demonstrou logo que os valores liberais de defesa das liberda ¬

des civis contra o suposto perigo estatizante e comunizante do


governo .Tango eram apenas, mars uma vez rrn nossa hist ória,
uma farsa. Manipulava- se 0 ideãno liberal em função de um ob ¬

jetivo ditatorial As Forças Armadas passaram a reformar pro ¬

fundamente 0 Estado e o sistema político, Dc ramo do aparelho


estatal, elas passaram a desempenhar o papel de coluna verte ¬

bral du Estado, funcionando como pessoal polí tico fundamen ¬

tal para os governos, como quadros para as empresas estatais c


paraestarais. para as várias funções administrativas nos minis -

19
té rios, governos estaduais e municipais, sem limiters para sua
a ção ele tomada dos aparatos de poder em suas mãos.
.
Ao Serviço National de Informações (SNI ) foi reservado
o imporiante papel de coleta de dados para controlar as ativida ¬

des das pessoas e d ós órgãos dentro do governo, em lodos os


organismos estatais e no conjunto da sociedade. Um gigantesco
aparelho Foi montado para isso. recolhendo informa ções c
.
autando na punição dos que segundo u crit é rio de segurança
nacional, estariam amando dc forma a obstaculizar a realização
dos programas governamentais. Além desse âmbito, sindicatos ,
universidades e outras instituições ficaram sob interven ção mi ¬
litar. Os governadores estaduais passaram a ser nomeados pelo
governo federal, l?cm como os prefeito*. O Congresso ibi fe¬
chado algumas vezes, e várias ondas dc cassação de mandatos
de parlamentares ocorreram. Os partidos políticos foram dis
solvidos e tolerados apenas dois, gerados ã força por decreto
governamental — a Alian ça Renovadora Nacional í Arena )
partido do governo, e o Movimento Democrá tico Brasileiro
,

IMDB í , de oposição. Essa oposição, limitada pelo castra ção de


poderes do Legislativo e pela exclusão dos parlamentares me ¬

nos moderados dn oposição, reduzida aos trâmites parlamenta ¬

res. apenas ditva alguma aparência de legitimidade a um regime


de força.
O governo das For ças Armadas teve seus presidentes es¬
colhidos pela alta oficialidade das ires Armas, entre os oficiais
de mats alto nive! hierá rquico. O papel do Congresso era sim ¬
plesmente o de aprovar aquela escolha e dar lhe legitimidade
institucional.
Os governos tinham nos próprios quadros das Forças Ar ¬

madas seu principal componente, complementado por quadros


técnicos ligados , pessoal ou ideologicamente, ã$ grandes em ¬

presas monopolies e financeiras, ma is elementos vinculados


aos sçrores políticos da direita tradicional. Ainda com iodas es ¬
sas precau ções, os vários momentos dc sucessão presidencial
representaram sempre situa ções de crise no regime, pelos con ¬
flitos existentes dentro das próprias Forças Armadas e pelas
20
tormas restritas; de Sua resolu ção no interior dessas instituições,
isso ocorreu na troca do general Castelo Branco pelo general
Cosia c Silva 1907 ), aa substituição deste, por doença grave,
'
pelo general Garrasttizy Médici na escolha do seu su ¬

cessor no general Ernesto Gei.se! 097-11 e na do general João


Figueiredo ( 1979 ) Pretendendo revezar o lidais no comando
do governo, as Forças Armadas queriam deixar patente que
n ão se tratava dc um regime umpesso;d, mas daquela instiuiíçârt
no seu conjunto.

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 direita, Hv cima psrj .


baixo, o-í óirco pft í SiúItonfés militates do pérfodo
tiiliUgifitfl -
Costeio Branco (1-5/54-1OCT ), Cosia e &Uva (19G7-19$$; i , M éftici
{ í9Gâ- 1374 } , Geiset ft 974 - i 979 ) e Figueiredo f1979- 1395;, Apesarcfa repres
ssp, o reíp /rrte m/War ém foi oD;etc da sâ rire pofrtica , como o J í -
-
tfinb
rrionstrsw as caricaturas de CúSS í C Loreáano , a ê snu êrda

2\
Atuando dessa maneira, as Forças Armadas passaram a
funcionar como uma espécie de pan ido militar das classes do ¬
minantes. tanto pela formulação da ideologia do regime, como
peia cessã o de seus quadros fundamentais, pelas tomadas das
decisões básicas e pela condução política do Estado que repou ¬

sava essencialmente cm suas m ãos. A pmpria eooptaçã o de


quadros ligados a setores da burguesia era feita pelo regime,
certcmen íe sob efeito do condicionamento tios vá rios setores
das classes dominantes , mus reservando- sc sempre o direito de
decisão sobre a composição do governo, que cm última instân ¬

cia ficava sempre com o presidente da Rep ú blica.


A “ ordem social" foi restabelecida cm dois tempos: um
primeiro ciclo repressivo st deu a partir dc 1964, outro a partir
de 196S. Com o golpe, como mencionamos, foram reprimidos
todos os setores já catalogados como subversivos, entre politi
co«, l íderes sindicais e estudantis, camponeses, intelectuais, ar
¬

tistas, militantes ou supostos membros de organiza ções de es ¬

.
querda, soldados Cà bos , marinheiros e aié mesmo diplomatas
estrjtngciras. Sempre sob a vigê ncia dos Atos Institucionais , a
governo manteve o poder de cassação sobre um Congresso
amedrontado e um Judiciário subserviente.
A partir de 19h6 voltaram a acontecer manifesta ções de
rua , realizadas por estudantes, em protesto pela liquidação da
democracia no pa ís e contra os inqu é ritos policiais-militares
que se faziam contra professores e estudantes, bem como con ¬

tra as interven ções nas universidades e a nova lei educacional ,


que tentava enquadrar os estudantes na nova institucio ¬
nal!dade. Essas manifestações sc chocavam com as forças poli¬
ciais, prolongando sc por dois anos.
-
Enquanto isso operavam se transformações na esquerda,
como consequência d;t derrota do governo Jango e da instala ¬

ção da ditadura milirar. Desde 1961 o monopólio detido pelo


Partido Comunista Brasileiro na esquerda começou a scr ques ¬

tionado , com O surgimento de organiza ções que o criticavam


por sua posição dc excessiva moderação e de subordinação às
fra ções burguesas, em particular sua integra ção no governo de
22
] oão Goulart O; rupo CIUIMJCG luventutfe UniverjjiitárL:i <
^
ca deu origem á &ç aio Popular ( AP como organização política
nt õli

Ji.w jcutúlicoái OL. esquerda <10 inesmi tempo que ; L : - .m: / :;; uma
organLZaçãõ socialista — Politico ( g- e r . o n h e c i d a como
Puiop - e a primeira cLsãó manisí a dos Pt mundo produ-
iba o Partido Gomum.stii do ! " ; sil IXJtluB No snoviuicmo JL
massa rural, sc desenvolviam as Ligas Camponesas sub a dire ,

ç ao ítáe uni advogado pernambucano : rare sco 1 dião , Jingi


das a lura pela terra.
C golpe militar abriu um processt .:.. debate interno 10
PCB que signiiícuu o seu J ÍIIíA! como orgamração com peso po ¬

lítico no BMSÍI, porque, Jianic- das punições tejIiHidáí pela di ¬

reção — tendo Luís Carlos Prestes como secret ário-geral — , os


dissidentes, que incluíam A grande maiuru dos membros do
partido; saíram c lunJaram outros gruj os. Orloj M righclLi
organizou a Aliança Liberfadora Nacional ( ALN); Má tio Al -
vez.Jacob Gander e A polónio de Carvalho 1undaram P a r t i .
do Go mimis Cá Brasileiro Revplutionãrn ' PLBR > setores eátu
damis organizaram o Movimento Revolucionário 8 de Ourm
bro (MR-8).
No seu conjunto, .1 esquerda caminhou pAni uma aposi ¬

ção chiridcsiijw ao regime miliiar A guerra de guerrilhas, urba ¬

na ou rural, .
foi :i estrat égia escolhiJ ; pela maior pane dessas
organiza ções quando as v:,is de oposíçí
, j b ínsiituciunal è Jit.i-
durii cstávitm, i pr ática rotaimente reíh.td.ií. ( > mhmuram - se
,

essas condi ções com o descontentamento generalizado das


classes medias com um regime q . u. haviam apoiado mas que
praticava uma reprçss&Ct generalizada e irnm poluiça económica
quo ;i afetava dtretiimt-nt . . e com um certo . ja ; : ..; reorganiza -
:

çíui do movimento uper ájib que reagia ao arrocho salarial im ¬

posto pdo governo.


As mobilizações de rua se multiplies) ram e as organizações
clandestinas iniciaram um processo de luta armada, consistin ¬
do p r incipalme nte cm ações Jc propaganda arruada ede irreca -
diiçSç de tcuidos — mas suficiente para desencadear umu rea ¬

çã o do regime rnií itar a que n ão estavam preparadas para en-


(ientíirnem elas nem o movimento dc massas. Isso ocorreu a
*
partir do final de 1 %8, marcando o segundo tempo da ofensiva
repressors da ditadura, que se estenderá até 197 ] , quando o
regime pô de celebrar a vitó ria sobre as tentativas de oposição
clandestina.

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tm 6 de agosto de fSfiff , a policia ocupou a Cmeiã ncãu. no Rio de Janeiro,


hm do impedir uma passeata contra a prisão no • der estudantil a
Wtadimir
Palmeira Ps u látinamente. a repressã o militaria desarticulando todas
tativas de oposição no regime. as ten¬

Paraidamente , o primeiR) governo militar pôs em prá tica


uma política de reconversão da economia , tendi > em vista o se ¬

gundo grande objetivo do movimento militar o tie retomar a


*

expansão econ ómica. Uma polí tica de eh >qut ioi eLth < irada ¬

fu
los ministros Robeno Campos e Otávio Gouveia de Bulh ões,
sem as travas de uma oposi çã o parlamentar ou sindical, aplicai i -
do brutalmente as f órmulas do bundo Mom- ní no Internacional
-
i WVIT ) . Apostava sc tudo na cria ção de
condições ma is favora
veis a penetraçã o e a opera ção rio capital estrangeiro
24
Odsuqnc- possí ljilitou uma rá pida reconcentração de ren
_
ds nas m àos dos e í andes capeais mediante : n ..3 dura pol í tica
, .
¬

de artoelio saWiuL um amplo desemprego, acompanhado da


falência de dezenas de militares de pequt-nofi í jjjjkédtas empre ¬

sai tudo fruto da recessão economics : ,iberalizarain-eeflfi nor


, ¬

mas , facilitando o ingresso do capital esrraugeiro contraía ,

mm -se g landes emprcsUmos no exterior, ao mesmo tempo que


o i - . siado ganhava nova capaddadi* de investimento, dirigida
para ampliar a infra-estrutura do pais. Passava-se n favorecer
a esqsortação como um dos pilares de expansão da estrutura
produtiva .

dH . . .
ííe .
SUL
PC MM
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, 4? %:
r - %
A cfiç rQç pe Z ' ra'do sahrids um fato
que os dois yra' - cos segui ites
4
f ( p- 27-$ < dffpfsni íi3 r* dumntc: a rç
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jtiiíie mfflttif enquanto O produto


interno pruto do pois CrCtí du , o sa
‘ano mí nimo reql e .- j prpgtesSr
i .
omente jeír iiado, c ump / m(JO u rtiu
ppl / npo C/í- mtf
í stribuiçáo ds rendo
ás a ', .
/; qi . d concentrou mass ri -
Quezji nas m ãos £7Ci puC ;á pos
saiam irtais .

Por ouito Lido, dc í omia coerente com a estrutura de pu -


dt/ r polmco toiaimenle centralizada, foram criados órgãos que
passaram a ptiysibiiirm a direçã o dà poiir íca económica por
meio de derreros . O Conselho Monet ário Nacional pass< m n ter
© papel de órgã o normativo máximo para a ooiiiica moneiat ia .
rendo o Banco Central como seu instrumento de implementa
ção concreta . A pesai - da propaganda liberai que lia via desen ¬

volvido anterior mente. nunca 0 Estado brasileiro foi tio con ¬

centrador de poder nas diversas á reas, iudu ída a económica .


quanto ntj regime miliiar.
2l
Nt.í in ídu os resultados não foram i ão eletivos quanto [ 're¬

gavam os ministros económicos. Mas, diante de uma a çã o l ã u


dr ástica por parte do governo e da incapacidade de rea ção por
parte tios assalariados e pequenos e m édios proprietá rios , os
índices foram melhorando . A infla çã o começou a ceder, bai ¬

xando para 20 % cm 1909. enquanto rctomava-se um ritmo


maior de crescimento , que subiu aos poucos ate |%7

- —
do o PTB aumentou em ( .8% , pari começar a deskuichar a
— quan ¬

partir daquele momento , saltando para S) js ' \ . em 1 %9 , En


quanto isso. o saiario m ínimo real . que tinha um í ndice de 126
em icvcrciro de 1964 , pouco antes do golpe militar, for sendo
verucaliiienu : reduzido, chegando em março de 1967 a um ín ¬
dice de 83 .
I eni io passado por essas profundas transforma ções iiiLer -
.

nas. a economia podia dar um novo salto no processo de substi ¬

tuição de importa ções, setn a pressã o das reivindica ções sal.t -


! iais, nem as limitações a circula çã o dc> capital est rangem ou as

demandas de crédito por parte de pequenos e médios proprie ¬

t á rios. A produção para a exportaçã o, para a demanda estatal e


para o consumo suntu á rio passou a alimentar a economia que
cresceu nos anos seguintes r >essa direção .

InLeruainente, a expansão n ão necessariamente sign i ! i ça ¬

va ampliar o mercado de coásumo popular Ela se dava mais


,

pelo aumento da capacidade de consumo dos setores que já es


tavam plenamente integrados ao mercado como as camadas
,

mais altas das classes médias e as fra ções burguesas . Incentiva -


va -sc a sofisticação do consumo, a compra do segundo automó ¬

vel , da segunda televisão.


A economia estava pronta para aai um salto, dispondo de
cr éditos externos, de incentivos A exporta ção, de concentração
de renda nos estratos mais altos da popula ção para o consumo
de luxo e para aumentar as taxas de poupança e dv invcstinjcn
to. bem como do apoió de grandes obras estatais. Entre I 96S e
197 ? o P 1 B cresceu a uma média de 11,2%. chegando a 1 -1 %
cm 197 x seu í ndice m á ximo dc expansão.
26
Pats rico. trabalhador pobre
Per
í odo mo im -
Base? 100 = íf
1940 { insti í utçàò do Sf àw mí nima )
500 T -

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ISIS ias
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EY&Í U çúO do indica do PíB p-2f capiiã
— Evolu ção dc í ndice do sateria mí nimo res *

i 193&45 - Ge íú ho Vanqas 1S64ÍÕ7 - Castelo Branco


f 1945.51 Dutra
195 : .'54 - Q àfút
í o Vargas
1967769 - Costae Silva
196974 - Mêdfci
I 9u6 /61 - Juscahno KiiDltscnsH Í 9747S Gaiset
1961 64 J6ío Goulart 1979 /65 - Figueiredo

A concentração de renda seaoemuou — secundo a orien ¬

tação dc ministro Delfim Metro, Je que era neces^itio


"PRIMEIEO tiaser o bolo -eseei - pííá
t depois disinbun latiam de -
le . Os 5 % mais ricos passaram unia panic;pa ção no total da
" dt
relida nacional, em l^éO. de 2 S,3 " - - paro 39,8% Ctn 1972, - n -
21
quamo os !% mais ritos passavam dv 11.9% para 19, 1 % ^ rri
3972 . No outro extremo Ja pirannde os 50% maií pobres de , ,

17.47o do rendimento total em i960, baitaram para 11 3 % no ,

mesmo pcriodu
Quem tem mais recebe mais
63 2ti
.
n ST STi

it ,S
'
-,

?i .?v K B!i 1, 2%
? 1 . iL u
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196Q 1970 1976 ISSO 1931 1SS3
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í ianos [ |£0% mats ricçis

Dminttuíçã a (ío rend> mento ós populaçã o BcotttxfíiÇSWnta stb/a segunde .


CdrleU percentuais. exetuidos OSSeitJ rondimenlu .- ,9 ris -
lisse foi o auge da ditadura m úií .ir A economia estava em
plena ejcpansâb, à pposição armada havia sido derrotada en , ¬

quanto a institucional estava neutralizada c ban-cuttjporTada.


Quando assumiu a presidência , LTU 1974 . general Ernesto .

Geisd anunciou apoiado nessa correlação de torças absoluta


,

mente favorá vel ao regime, um processo de ‘abertura lenta e '

gradual " isto c, uma tcoiaiivfl dc limituciuiiidização da \ ids


,

pol í tica sob com role do próprio regime militar


As condições Jogo se a í r(tariam . modificando o anuncia ¬

do projeto de abertura Depois de duas décadas e meia dé


.

28
expansão, o capitalismo internacional ingressava , a partir da
crise do petróleo, num per íodo recessivo longo. Todas as eco ¬

nomias do mundo ocidental sofreram os seus efeitos, entrando


em recessão ou em estagnação , pelo menos aré se adequarem às
novas condições.
Alguns supostos do “ milagre" brasileiro eram questiona ¬

dos nessa mudan ça . Mas, ao invés dc empreender uma refor ¬


mula çã o profunda , o governo brasileiro preferiu manter o rk-
mo de crescimento, apenas bancando o seu patamar para cerca
dc 7% ao ano, em media. Porém , para fazê-lo, teve que aumen ¬

tar o endividamento externo e desenvolver as obras faraónicas


do Estado como forma de incentivo ao capita! privado.
Alguns resultados dessa maneira ainda mais artificial tie
fomentar a expansão económica foram o reromo da infla ção , a
dcsesirulura çã o do setor p ú blico brasileiro e a multiplica çã o
acelerada da divida cxrema. Contraindo dívidas a juros flu ¬
tuantes
— isto é, que variam conforme o próprio mercado in

ternacional altera a taxa de juros , a divida cresceu quatro
¬

vezes de 1974 a 1977, passando de 12 para 50 bilhões de dóla ¬

res . E , pior ainda, dos 500 milhões anuais que se pagavam dc


juros, subiu-se para 4,2 bilhões em 1979. Estava armada a cila ¬

da ou a bomba de tempo que estouraria no in ício dos anos 80,


comprometendo o desenvolvimento futuro do pais e fazendo
desses anos uma década perdida,
O roteiro traçado para a abertura foi também registrando
altera ções de percurso. No mesmo ano cm que tomava posse e
anunciava o inicio daquele processo, a oposição obtinha seu
primeiro sucesso eleitoral, conseguindo, nas eleições legislati ¬
vas, mais votos, em termos absolutos, que o partido do gover¬
no. Derrotada a guerrilha, o proresio ia deixando de se expres ¬
sar eleiroralincnte pelo voto nulo ou branco, para canalizar-se
para a ú nica via dc mimií esta çã o de oposição existente naquele
momento
— o MDB.
Por outro lado, ú rnovimenLo operário iniciava sua reorga ¬

niza ção , impulsionado pelo pró prio crescimento industrial ,


que hstvta multiplicado o contingente dc operários. Uma orien-

29
ta çã o nova , classic m e do bast , norteava sens novos líderes . cen ¬

trados em parte no ABC paulista . onde a industrio automobilís ¬

tica servia de alavanca p3ra uma variedade de outros ramos eco -


nnjnicos Greves tm 197 fi e 1979 prestaram -sc para demonsr mr
a capacidade de resist ê ncia desse setor ã política de arrocho da

ditadura — que terminaram por quebrar . para evidenciar a
solidariedade nacional com que podiam contar e para revelar
novas lideran ças sindicais, entre as quais se destacavam Lu ía,
Olívio Dutra, Jácó Bittai.

m
2. *
i. i

«• ft _
Lula comanda uma concentração Ott 50 mil operands, no Estádio de Vilã
Euclides , no ABC . em 13 de março de 1979, durante uma greve da categoria,
dirigida peio Sindicato dos Metal úrgicos de São Bernardo do Campo e Oia*
dema .

O movimento estudantil também demonstrou capacidade


de reaiperaçâo, uuase dez anos depois de ter sido desarticu ¬

lado peia repressã o, e realizou grandes mobilizações de rua , re ¬

construindo a União Nacional dos Estudantes c demonstrando


de novo poder de convocatória de outros setores ^ociais. Os
protestos contra a repressão t a ion ura conseguiram , pela

30
primeira vez, obrigar o govemu a não deixar impunes crimes
cometidos c denunciados à opinião pú blica.
O MDB, por sua vez, foi ampliando o seu caudal eleitoral
e o governo do general Geisel iá não podia dispor, no Congres¬
so, da maioria tranquila de que os governes militares sempre
haviam lançado mão para legitimar institucionalmente seus
projetos políticos. Num desses impasses entre o Executivo e o
Legislativo, o governo voltou a fechar o Congresso, em abril de
1977, para baixar mu novo pacote ditatorial, que induia a ou ¬

torga de mandatos bió nicos a parlamentares. Isso demonstrava


como a abertura anunciada pelo general Geisel foi passando
por vaivéns, pressionada pela nova situação económica interna ¬

cional e, principalmente, pela mobilização popular interna e


pelo desenvolvimento de novas contradições dentro do pró ¬

prio regime militar.


Quando , ao final do mandato do general Geisel, depois da
tradicional crise de sucessão , o chefe do Serviço Nacional de
Informações, general João Figueiredo, c escolhido para substi ¬
tu ído, a abertura é colocada finalmcnrc cm prática. Mas ela já
não é feira a partir de um regime no SL*U auge, com controle
político do pa ís e no má ximo de expansão económica. Ao con ¬

trá rio, ele já dava mostras dc seu declínio, jiela tendência á di¬

minuição dos índices económicos e, fundamcntabneaie, pelas


manifestações organizadas tie resistência social e política signi ¬

ficativa ao seu dom ínio.


Do pomo dc vista do regime militar , a transição se Inida
com o anúncio dò general Geisel dc abertura "lenta e gradual"
em 1974. Na realidade, o que aquele momemo marca é o té rmi ¬

no do clímax da ditadura, que ingressou, a partir dali, num pe¬


r íodo transitório, de oscilações, que desembocou, no final dos
anos 70 e in ício dos 80 , em sua verdadeira crise e, paralelamcn
te, no começo da transiçã o para o regime que a substituiria.
-

31
Capí tulo 2

A transição
realmente existente

r
sonho de uma transição cóntrokda de cima pam baixo
Bíi foi stmdu questionado pda
zr
^ penda de legitimidade do
redime militar no transcurso da década de 70, conforme as ba ¬

ses de expansão económica tam revelando sua fragilidade, a


crise sodal voltava z se expandir e a ojTtiriçãu polí tica a ganhar
PWf âf . Ainda assim , o general Golbcry do Couro e Silva, o mais
l úcido teótitío do regime militar, conforme a doutrina de se ¬

guran ça nacional, propunha um processo de abertura gradati ¬

va . que fosse desativando os focus de tensão acumulados pdo


regime diuturna ] , para que a transição pudesse ser feita sob
control (j -

1 íiziam pane desse processo a Institucionalização do reyi -


'

me„ 3 anistia pòl í Lidi tusidta , uma nova lei de partidos polí ticos
— que, ao mesmo tempo que abrisse campo pítia novas expres ¬

sões contidas da luta politico, enfraquecesse oposição, divi ¬

-—
dindo a ca convocação de eleições , para governadores pri
.
metro e ítualmcntc, para presidente da Rep ú blica , numa din â ¬

mica gradual que levaria mui los anos.


Pouco tempo á ntes, um grupo de dentistas políticos liga ¬

-
dos a um Organismo intern adonsl rhamado 7Vriiijfe fi// havia ela ¬

borado a teoria das demoewaas restringidas.Segundo essa teo ¬

.
ria u capitalismo ruão suportaria uma demanda de ludos os se ¬
tores da sociedade , Sc todos o® indivíduos estivessem organiza ¬
dos e integrados à luta social e pol ítica, a demanda não encon-
J2
trams resposta por pane ( ia tconornia capitalista. Esse limite
objetivo levaria a necessidade de urna espécie d : - democracia
limita d LL , jur cxcí uim jlguns setores sociais para poder aten ¬

der à s reivindicações de outros.


Ivssa concep ção éoincidãl com o esgotamento d; > “ Estado
de betn -estar social ' ' , que havia tido grande impulso cm todo o
mundo ocidental a partir dos anos 30. fundado nas teorias do
economista ingles Lord Keynes. O novo per íodo da economia
-
inrcmueUmn! iicenmava o descomrok inflacion ário, tjue já n ão
cu ryuer iscava apenas as etapas de crescimento económico, mas
coincidia com a estagnarão c a recessão. Pol í ticas neodiberais.
inie iswlas na Inglaterra com o governe de Mar caiei Thaichcr v
estendidas aos LLIA com Ronald Reagan, traduziam a no ção it (

democracia restrita para o campo econó mico e social. A â nsia


dc diminuir o tamanho do Estado cortava cspecialmentc seus
gastos sociais , privarizava setores de sa ú de e educarã o , fazia de ¬
pender cada vez mais do mercado funções quo antes o Estado
havia garantido , excluindo os serotvs menos favorecidos eco ¬
nomicamente da pruieção estatal Esses pagariam o preço das
dc m i nv r acttis restritas..
,

No Brasil , essn dimensão económica não esteve presente


na abertura pol í tica . Os militares , ao contrá rio da ideologia it
bural que veiculavam quando da mobiliza çã o contra o governo
dc Jango, lortalecerurn grandememe a interven çã o esta Lai na
economia. Uma interven ção que seria roda voltada para criar e
ampliar as condições favorá veis ã multiplica ção da acumulaçã o
privudu dc capitai c n ão para o fortalecimento do Estado como
um Hm em si mesmo. Mas as regulamentações bluda.s pelo regi ¬

me militar — como, por exemplo, pelo Conselho Monet á rio


Nacional — depositavam nas maos das autoridades económi ¬
cas um poder normativo nunca visto ames na hist ória do pa ís.
Primou tómmlfi política de uma democratização tutelada,

libeia í.
,
-
controlada restrita, n ào eti rivada ainda numa concepção neo-

O projeto original dc Golbery tropeçou em vários obscá-


- tilo.',. O primeiro foi a campanha popular pela CURTISL í.J gemi e

33
irrestrita, que terminou triunfando sobre o projeto governa ¬

mental de decreta -k de maneira restrita. Isso possibilitou a vol ¬

ta ao país de lodos os exilados politicos, concluindo um per ío ¬

do dc exclusão prá tica da cidadania a todos aqueles processa ¬

dos e perseguidos pelo regime militar que se haviam refugiado


no exterior. Brizola, À rraes. Luís Carlos Prestes, Gabeira e cen ¬
tenas de outros tiveram seus retornos comemorados simbolica ¬

mente como expressão de ruptura dos vetos militares à p:irt id -


pa ção política plena de todos os brasileiros como cidadãos.
Os atos institucionais que haviam caraeterixado o Estado
de exceção tiveram sua vigência concluída. Com eles, se reabriu
o processo amplo dc organização partidá ria. Ate aquele mo¬
mento, o Movimento Democrático Brasileiro ( MDB) abrigava
todas as tendências de oposição à ditadura, de moderados co ¬

mo Tan credo Neves a grupos de todas as orientações da es ¬

querda, mesmo os ma is radicais.


Surgiu uma nova estrutura partidária . A direita , antes or ¬

ganizada tlá Alian ça Renovadora Nacional í A rena / mudou seu


nome para Partido Democrá tico Social iPDSl. enquanto o
MDB assumia o norne de Partido do Movimento Democrá tico
Brasileiro: ( PMDB ). Deste saíram setores mais conservadores,
como os mencionados ligados a Tancredo Neves — que ioga

depois voltariam para o PMDB , e setores à esquerda.
O PMDB continuou, ainda assim, a ser um partido muito
heterogé neo, abrigando democratas-cristãos, liberais de vá rias
nuances, social-democratas, entre outros. O sociólogo Fernan ¬

do Henrique Cardoso caracterizava o PMDB como um partido


omnibus, no sentido de um espaço que possibilitava a presença
dos mais variados setores , sendo esse um mérito e não uma de
bilidade do partido. Essa visão se contrapunha, na concepção
de Cardoso, à id éia de um partido ideológico, definido progra -
maticametite, muito estreito, segundo ele, para abrigar a com ¬
plexidade da sociedade civil.
As tendências mais marcadamentede esquerda sa íram do
MDB para formar o PT. Neste, o eixo central foi formado pelos
sindicalistas de base, antes de tudo pelos metalúrgicos do ABC
34
paulista, mas incluindo também bancários, petroleiros e vá rios
outros setores desenvolvidos nos anos anteriores de resistência
à ditadura. Lula, Olívio Dutra, Jacó Binar, Luís Gusliikcn , en ¬
tre outros; a partir des&a atividade sindical e com a fundação do
Partido dos Trabalhadores, se lançaram a vida política ,
Uniram-se a esse n úcleo intelectuais, arriscas, profissio¬
nais liberais, homens de cultura, gente ligada às atividades de
direitas humanos, religiosos, todos com uma concepção que
ultrapassava o plano político para o sodal, com uma visão éti ¬

ca a respeito das injustiças sociais existentes no país. Também


se agregaram militantes origin ários das Imas dos anos 60 e gru ¬
pos — Ou seitas — de tendência trotskista ou maoism. F.m ní ¬

vel de base se juntaram as Comunidades Hclesiais de Bast


órgã os populares de trabalho social da Igreja, conforme a Teo¬

logia da Liberta ção, ligadas à s pastorais da terra, do menor,
oper á ria, etc.
Voltando ao Brasil, Leonel Brr âola tentou reorganizar a
á rea tradidonalraeme ligada ao getultsmo no Brasil, a partir do
amigo Partido Trabalhista Brasileiro iPTB). No entanto, con ¬
forme o projeto do general Golbery, a sigla ioí entregue a um 3

sobrinha de Get úíio — Ivete Vargas com o objetivo de que
Fosse formado um partido Funcional ao projeto governamen ¬
tal, dividindo a área Lrabalhísta e, ao mesmo rempo. fazendo
aliar -se ao partido da situação, cada vez filais debilitado de ba ¬

ses populares,
-
Brizola teve que comentar se com criar outra sigla —

PDT ( Partido Democrático Trabalhista ) , para desenvolver o
seu projeto. Reuniu os setores nacionalistas tradicionais em tor ¬
no dessa sigla, sem no entanto conseguir incluir nomes signifi ¬

cativos do movimento trabalhista do período ant énor .

Ficou assim constituído o novo quadro partid á rio que se ¬

ria o cenário político básico da transi ção; PDS, PMDB, PTB.


PDT , FT. A maior novidade em rela ção à estrutura partidária
anterior ao golpe militar de 1964 era a formação do PT. já que o
PDS cobria a direita tradicional , o PMDB reunia os setores he¬
terogéneos do centro e da centro-esquerda , enquanto u PTB e

35
o PDT' tratavam de ocupar o espaço do trabalh ísmo getulista.
O PT se diferenciava, já na sua constituição, da esquerda tradi

¬

cional PCB, PC do B, trahalhismos. Socíalmente, incorpora ¬

va os setores das ciasses dominadas norcnalmente exclu ídos da


-
vida política, como os sem-terrã, os sem ensa, os sindicalistas dc
base, organizações comunit á rias da Igreja, minorias.
O PT surgiu sem uma ideologia precisa. Sua prática refle ¬
tia uma combina ção entre a ideologia sindicalista de base, um
democratismo radical c a Teologia da Libertação. O privilégio
das lutas sociais, a extensão dos direitos de cidadania a uxlus e
Lima certa recusa do poder eram elementos presentes na ativi ¬
dade e no discurso original do PT,
Concluída essa primeira etapa da transição política, deslo¬
cavam - se as aten ções para as eleições dc 1982, quando seriam
escolhidos pela primeira vez pelo voto direto desde o golpe mi ¬

litar, os governadores dos Estados, conjuntamente com a reno ¬

va ção do Congressu, No entanto, nesse intervalo de tempo, vol ¬

tou a alterar -se a conjuntura económica internacional, com re ¬

flexos diretos sobre o Brasil, que condicionaram todo o proces ¬

so de transiçã o política.
O Brasil havia mantido um rinno de crescimento econó ¬

mico, no transcurso da dccada anterior, ancorado cspccialmeu-


te na multiplicação da d í vida externa , como hav íamos mencio ¬

nado. Esses empr éstimos tinham sido contraídos com juros flu ¬

tuantes, isto é , dependentes ria sua variação no mercado inter ¬

nacional e, portanto, passíveis de serem alterados bruscamente,


conforme a oscilação dessa taxa por parte dos bancos interna ¬

cionais, justamente os grandes credores dessa d ívida.


No começo tios tinos 80 um novo eido de crise financeira
internacional elevou rapidamente as taxas de juros. Emprésti ¬

mos feitos quando essa taxa estava por volta de 6 ou 7% suhi -


ram ás nuvens, quando esse índice chegou a se multiplicar por
três , O endividamento externo brasileiro sc expandiu em con ¬
sequê ncia disso, coincidindo com um retrocesso económico,
pela primeira vez desde que há estatísticas anuais no Brasil —
no segundo pós-guerra. O pa ís ingressava na década, e no seu
36
processo de transição da ditadura à democracia, com a espada
da divida externa pendendo sobre suá cabeça, o que passou a
ameaçar a economia — ca condicionar a transição „ colabo ¬—
rando para fazer dos anos SO uma déçadii perdida do ponto de
vista económico. Ao mesmo tempo se colocavam em quest ão as
possibilidades de o Brasil retomar a expansão na última década
do século, hipotecando seu futuro de curto e médio prazo.
As eleições de 1982 constituíramum inquestionável triun¬
fo para a oposição e, em primeiro lugar, para o PMDB, como
corrente que representava a continuidade ma is direta com a
oposiç aô institutional ao regime militar durante a década ante¬
rior, A oposição elegeu govemadunes nos principais Estados,
incluindo São Paulo, Minas Ceraís e Rio de Janeiro, deixando o
PDS confinado a uma sobrevivência nos Estados do Norte e
Nordeste do pais. No Rio de Janeiro, no enuinto, elegeu-se go ¬

vernador Lcond Brbjuk. do PDT,

A oposição avança polo voto


T00 maiores cictactes do pais

1972

31%
1S76

53%

1
193E
mmmm
1 03%

Porcentagem de cidades grandes onde a oposição venceu as eleições muni ¬

cipais ( i à?2/ 13?6?1 $S 2 )

37
Os juros fora de controle 11 , 40

Total de iuros paços sobre a divida brasileira


I
( em bilhões de dó lares )
B.&0 á
S

6, 31

2,70

3.10

SHH Í H ,,, H
1377 1 S7B 1979 I9fi0 1S81 19S2

Os doisgrã fieos anteriores traçam um paralelo entre a aumento dos enesr-


QC $ da olvida extorna brasileira t> o avenço da aposição ao regime militar em
très elei çõ es consecutivas. O curso ininterrupto da divida foi um dos falorus
que permitiram o croscimenlo oposicionista.

Abriu -se um período de convivência entre governadores


da oposição ê a presidência da Repú hlica exercida pelo general
João Figueiredo , ainda escolhido pelos militaries, com um man ¬

dato até 19&5, A dccisâo a respeito da forma de eleição de seu


sucessor monopolizou ( j país a partir daquele momento, O ca ¬
rá ter prolongado e gradual da institucionalização política ado ¬

tada pelo regime militar previa ainda uma eleição indireta , por
uni Colégio EJdtoraj, composto basicamente pelos congressis ¬

tas, que deveria assegurar maioria para o candidato governa -

3S
mentis i .Esse Coleg LO ha via servido, durante a ditadura miittar.
simplesmente para confirmar as escolhas de presidentes feitas
pelas altas patentes das Forças Armadas para dar uma cobertu ¬

ra insdtudonal a decisões tomadas na * alias esferas dp regime


militar.
As mãiores mobilizações populares conhecidas até enrãó
no Braii iI , convocadas para exigir eleições diretas para presi
'
¬

dente da Republica, no lugar do Colégio Eí t- isorai . se deseovol -


vei sm por todo n i nis . úm p irticipação dí oposição, - - ido
,

Ulysses Guimarães e Lula como seus principais dirigentes Pela .

prirndru veí uma esp é cie de consenso nacional foi conseguido ,


u tavor do direito elementar Jos brasileiros de eleger por seu
v oi o Litiiv ístsàl e direto . i presidente . ia Rcp úblí cjfi
.

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tnqi.it:. no paianque, qa af - f
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oos qrinçififtis tidvrcs eposi-
qiónizias envolvidos no movi -
KJ
/ Tinntiy .- t..urm ,Jr,T HH ç o :o . Utya-

sss Guimarães, TMaçinsfaó ftp-


ei FràhéÓ MonJoro e Fef -
nando Henrique Cardoso.
&1/
39
Nr> entanto essa altera ção da Constiniiçaf outorgada pe ¬

los militares em 1 67 requeria 2/3 dos congressistas para possi


^
bilitar assim a eleição d beta. Mesmo tom a adesão Jc- parkmen
¬

Lates origin á rios Je- um regime cm rase iefrrrin -.il esse qu ó rum
n ão toi atingido, inclusive pck ausência consciente dos que n ão
queriam Votar a favor , mas tampouco aparecer cqjirra a vonta ¬

de maioritarta do pais. O resultado final da votação no Con -


gresso foi duLepc íonjutu para povo. que havia demonstrado
ampla itscnie sua p úsirlq bvor á vd ãs elei ções diretas
Para leiameme , o pá nido do governo havia dado continui
dade à ideção do sou candidato prcsidtnda; por me ir. - . i ; Co . . ¬

-
l égio Picttoral . Nessa compcaiçao levas a vantagem o fci goviçr- -
nadorn meado de Sdo Paulo, Psulo Malrt rain seus mé ¬
todos ditatoriais e fama de corrupro, criava grande mal- estat
éontra sua ligma no pi ó prio PDS. Por indo do didltclísma c
da corrupção, ele venceu o ex- ministro Jo gen erno do João pi
-
gueiredo Má rio Andrear/a krKjando se candidato ã prestdkv
cu pdu FDS.

/
-
í
í"

--
Ro deado per o ficiais ui UitarUs. Pau to Ma to I , ax - ga - nd - r.- mearia de Si, : •
Paute âBS í m0::é$ COrtl 2íY\t$ÍÍBÇQÊ SdQd Í£ dã ndependè ncta em 1&8'* A Oco .
da votação do Colé gio £ te itoral que elegeu Tancrsdo Nev&s presidente ds
Republics , o
militar.
malofismo enesmsva ->?• piores Wct -
âs : mazelas rio teqime

40
O mahifismo foi surgindo como a ccnporificaçao mais
iuiLLJbbi dns piores malts do regime milirar, servindo Étnalmen-
re para dividir as águas na sucessão presidencial. Antes da vota ¬
ção no Goleio Eleitoral, o malufismo loí repudiado pelo vtee-
prvsidcntc da Rep ú blica , Aurclianu Chaves, que mostrou sua
disposição de apoiar a oposição, no que fot seguido pelo aré
ent ão presidente do PDS , José Samev, e por outros políticos,
que terminaram saindo desse partido e fundando o Partido da
Frente Liberal Í PFI - ) , Este partido estabeleceu um acordo com
o PMDB, constituindo a Aliança Democrá tica , como frente de
partidos que sc propunha a governar o pais durante a transição
democriiica.
O candidato escolhido pela oposiçã o foi o então governa ¬
dor de Minas Gerais, Tancredo Neves, político moderado que
já havia sido primciru -miiiistrn dejoao Goulart no efemero re ¬

gime parlamenrarisra de antes do golpe militar. Sua candidatu ¬


ra
— e não a do líder da oposi ção e da campanha pelas diretas,

Lflysses Guimarães era jã um reflexo da ascensão da corrente
mais moderada dó PMDB, depois da derrota das eleições dire ¬

tas no Congresso.
Houve una movimento geral de reciclagem de velhos poli ¬

ticos do regime militar em direção à oposição, utilizando sim ¬

plesmente o aníimaiufismo como passaporte para se proclama -


rem “ liberais” e “ democratas” , seguindo o caminho de Aure-
íiam > Chaves, José Sarney, Antônio Carlos Magalhães e outros.
Vá rios deles ingressaram diretamente no PMDB, contribuindo
para alterar a correlação de forças dentro desse partido, em fa ¬
vor de sua ala moderada.
A Aliança lãcmocrã iica apresentou ao Colégio Eleitoral
unta chapa formada por Tancredo Neves paria presidente c o
-
recém sa ído do PDS, José Samey, para vice. Tancredo Neves
havia participado marginal mente nas mobilizações pelas elei ¬

ções diretas, Scu “ realismo" politico e sua tradição de político


conciliador o haviam deixado ã raar eín de uma campanha que
^
julgava impraticável, pela dificuldade de obten ção dos 2/3 no
Congresso. Ele se reservou para a alternativa das eleições indí-
41
retas.onde real men te veio a ser escolhido para concorrer , dada
a nova rela ção de for ças entre o amigo MDB e as for ças sa ídas
no último momento do governo.
O Colégio EleitoraJ deu .imp].; vii ó rE: á chapa Tancredo-
Sdrney. O PT loi O unico partido a não participar dessa vota ção
indireta para presidente Jc Rep ú blica . por migar que o ( Mlégio
Eleitoral era um meio ileg ítimo de eleição, que violava a vonta ¬
de popular. Os outros partidos votaram — a maioria cm Tati-
eredo. a minoria em Malúf ,
O novo presidente formou seu ministério combinando
pol í ticos de oposiçã o sistem á iica á ditadura í como Fernando
Lira, no minist é rio da Justi ça ,i com outros rccém-saídos do regi ¬

me mililar ( como Antonio Carlos .Magalh ã es minist ério JJS


COMUNICA ções , uma forma de satisfazer a Rede Globo ! setores
,

empresariais ( como Oluvo Serú bal no minist é rio das Rela ções
Exteriores ) e temneratas nco liberais '. como o sobrinho de
í aneredo. brune isco DomeBès, no minist ério da Fazenda ) ,
’ ’

No entanto, na véspera de sua posse. Tancredo Neves te ¬


se unta rise Je divertjoiliie cfoi internado as pressas no 1 Ins
» ¬

pirai de Base de Bras ília para ser operado. Chegou 3 cstabrlc-


-
cer se uma polêmica snbrequeni deveria assumir o cargo : l.;' ivs-
ses Guimarã es, tomo president da Câ mara ou José Sames A
,

d úvida vinha do lato de qtic CStç em vice de uiu preskkflle que


i ;u > havia chegado tomar pos.se \ pos breve polé mica , losé
iWnev, algumas semanas depois de deixar a presidência dopar¬
tido do regime miliuu . u urrava posse tomo presidente da Repu ¬

blica na qualidade de candidato da oposição, no lugar de Tan -


tre ú n , tirando todo o duna de renova çã o deque a cerim ó
nia ia
se revestir.
A situa çã o de Tã iicrerio Neves se complicou, devido a

uma infeeção hospitalar como foi revelado pusteriormente.
Durante- 40 dias Sarney hcou precariamente ã treme do gover ¬

no , com p ministério formado por Tancredo que. cm estado de


coma, ioi operado várias vezes e transportado iâ quase morto
para o Instituto do Ceua çã o de Sã o Paulo. 0 pa ís ficou em esta ¬
do do choque diante da fatalidade, c o governo paralisado, O
42
desconcerto e Ls desilniág foram sendo subs:uni Jos aos pou
cos pela certeza cad a vez mmor d ç OLIO O estado de sa úde de
Tancredò Neves era irreversível, ]X> r msis que os meios de co ¬

municado c pona-vozes do governo irarassem de fomentar es -


per nn as.
^
Em 2 1 de ahnl de 19S5, i ancredo Neves morrem. Depois
d : i Anticlimax dç final dt um regime e imi to da oue deveria ser
umj? nova era na historia politics do pais, um semi memo de
mesmice, de eont ínuísmo foi tomando coma d ^ vida puLí rica ,

í lavía ainda em alguns setores a csperanqii de que , tendo sido


elevado pelo acaso a um posto que não eslava em condições de
exercer fosê Snmrt poderia trotar devanhnr nm lugar na HíSLO-
,

ria , realizando as reformas de que o pais necessitava.

!
S

morte tfe nmixeap .va- es. cfepofS cie orna . e - ta see - s. comoveu tcao o
/1
pais - .-
vá foto o corpo dc ,rjrt?s . r:v r? je £ .- ompanhAdopor um corte o efe IJJí
.
PIORES dep&usoaS, a caminho do aeroporto de Congnn.tias $so Pavio ern 22 .
de a bnl de JUÚÍ

Logo no primeiro rn ê x depois da mone de Tancred ò, ó <n:-


»ey pTonimcicí u sc a. favor Ja reforma jgriria e chcguu a jpre ¬

senter , discursando num tóngresso dé trabalhadores rurais em


Brasil ia , um projeto concreto. Mas d same das reações dos pro -
43
prict ã rios rjiraiii e da imprensa confer, a dura Samey recuou ,
u \ ! <.5 L':
'
J ±<J U N I éonipurismCnio LJLíC iot tirando aiS ilusões so-
[irt: :iiia vorttiidu pol í tica oe tT,i n S form ações
Boi se criando uma série dc conilitos entre fttesidente e
íiiinislrus, uma vez que haviam sido escolhidos por I . increjfi
'

N.LTL:S. Completado o primeiro ano dc gest ão. Síimey formou


uni mini til vrio cutn pus&oal de sua confian ça, uma parte dde

com rvajet ó na pobrica similar á sua: ori dn à í r i da anrign 1. DN ,


L] i.itr ENU um apuiadu OgoJpedc 196-1 e participado dr governos
i ri ei ai. ci . dos q Lid is se dcsJigafam sumcruc no lin .il . ; ..i: ::. LONI
'
<

SFSTJIEY. O chamado PMDB histórico foi sendo marginalizado,


irihpra o preside me cdfiri miasse qiiiizancfo membnlS desiç
pan ido, put cie mesmo cooptava conforme smis necessidades.
Alguns irieses amei já sc havia caraLierb \ . ; j;.Í L ; ! tnepm -
paitbiiidadc enlrç os dois ministros da area cCtjiiõniica ; o con -
seivátiói Francisco Domei ILS , , reformista Joã o Savacl
>
fon -1

toiTíle a infta çãó aumeiifava Domelles tu : resp hii zado í


suhsL Í Luido por um empresá rio paulista — Dílson Funaro . —
que Eevdu pá ra sen gabinete quadros de linha similar a Síiyad ,
Ljiif havbm militado , junto com alguns dos principais econo ¬

mistas da oposi çã o ao longo do regime militai como seus crí ti ¬

cos i na is sisiemiitieos.
Quando a iníLição ameaçava chegar a n í veis Í níiunimlá -
veu a d impe econ ó mica eiii fevereiro de 19Kn lançou um pjn -
,

nó eu tinó micp chamado de Pinno ( 'i ~dd : .— >rque. entre ou -


truii ined í diís. o cru einj era substitu ído por uma nova moeda o
. ^ ,

ruiiiiltt . í ) piano visava ao ir.osmo tempo , combatera inflação


,
,

canalizar recursos da estera especulativa para o pmdirriva e ini


d ui um processo de rrdisi rfomçã ri de renda
Os preços e os sal ários foram congelados, emboraos pri ¬

meiro* no pico de suas aceleradas eleva ções v os segundos no

nível bafou em que se giformtravam com a icclcraçao inflacio ¬

ná ria, sofrcndaímã u nova amputa ção em seu poder aquisitivo .


O cpr elamcnuj de preço:; pnmkiveu uma gigantesca corrida
^
ãs compras , uma vez que as poupan ças deixavam de Í unefoíiar
;io mesm õ tempo. Pela primeira vez . nvo sc semis cor - p: r

44
para controlar os pre ços c denunciar os abusos, conto sc de re -
penie a luia conlia a infla çã o estivesse ao alcance da mio
de
rodos.

!
í «33
S
*

I v; ,
V

& as
%
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! ff;
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'
m 11
íffij
m
IL> H
m
Congestionamento de carnnh os de supermercado durante a corrida as
com
.
pras desencadeada pelo PljnoCruzaoo Numa primeira /asa o congelamen
to de preços e salários causou uma explosão no consumo •
¬

que , a seguir,
geiou desabasteciirienio e novs pressão inflacionária.

Xo entanto, a euforia do Plano Cruzado Jurou pouco. O


combate ã especulação n ã o foi dado: assim que OS bancos, sen -
lindo-se prejudicados, reagiram , receberam concessões da par ¬

ts' do governo, que permitiu que cies passassem a


cobrar servi ¬
ços ames fornecidos graiuiiamente. Porém mais importance
que isso foi o faio de terem recebido imediata men te resposta
por parle do governo, demonstrando a força que continuava a
ler o secor bancá rio e financeiro.
O governo Sarney nao se valeu da enorme e s ú bita popu ¬

laridade para enfrentar a questão das d ívidas externa e interna,


nem a reforma agrá ria ou as otiinis transformações que o país
requeria , O governo e os partidos da Alian ça Democrá tica pre ¬

feriram o gozo f á cil daquela lua de-rnel , prolong ã la o mais pos ¬


-

sí vel pelo menos at é as elei ções de novembro de 1986 sem
fazer dela a alavanca para mudan ças que —
estavam contidas no
programa original Jv governo de Tancredu Neves.

-45
A luta pela democracia no Brasil havia reivindicado a con ¬

vocar ão de uma Assembleia Constituinte que formulasse uma


nova Carta Magna pura o pais, a fim de substituir aquela que
havia sido outorgada por uma junta militar durante a ditadura.
Esse objetivo não foi conseguido ames que se desse a transição
política, para nortear seus rutnos. Ainda assim , apesar dos pas ¬

sos j á dados na transiçã o a um novo regime, a quest ão de uma


nova institution;!I id ade política fundada num estado de direito
continuava a existir.
Alguns setores políticos, constituídos pelo PT, PDT e es ¬

querda do PMDB, levantavam a necessidade de convocação de


uma Assembleia Constituinte separada do novo Congresso que
seria eleito em novembro de 1986, Alegavam para isso a impor
Lânda d á nova Constituiçã o e £ necessidade de que o povo esco¬

lhesse deputados constituintes em separado dos parlamentares


norm a is, para que o debate c as propostas de cada candidato
ficassem claros aos olhos dos eleitores. Além disso, alegavam
que não era cumparivcl que uma assembleia formulasse uma
Constituição cm que os direitos do Legislativo valessem para
ela mesma , legislando assim em causa própria.
Essa proposta foi derrotada — com a oposição da direção

do PMDB e do governo federal e o pleito de novembro de
1986 elegeu, ao mesmo tempo, governadores, senadores e de ¬

putados, tendo os legisladores ao mesmo tempo a função cons ¬

tituinte, Como costuma ocorrer, as eleições majoritá rias ocupa¬

ram prepotiderantemente as atenções dos eleitores, que final-


mente votaram nos deputados sem o destaque essencial de que
estavam elegendo constituintes e sem evidencias do que estes
pretenderiam fazer nas questões fundamentais que a nova
Constituição devia conter .
Por outro lado, a popularidade do Plano Cruzado já

nos seus estertores como plano económico, conforme a infla ção
e o desabastecimento avançavam, mas ainda com apoio popu ¬

lar -— possibilitou aos partidos do governo, e ao PM DB em pri ¬

meiro lugar, obter uma grande vitória em â mbito nacional, ele¬


gendo todos os governadores e obtendo maioria no Congresso
46
investido ao mesmo tempo das funções de Assembleia Consti ¬

tuinte. N ão havia pas&odo uma semana das eleições e o governo


baixou por decreto um Plano Cruzado íf . uma tvadequação do
primeiro, fazendo cair mats duramenie os reajustes sobre os as ¬

salariados, çqnsti tu indo-se muna punhalada no eleitorado que


maioritariamente havta apoiado a linha de ação original do Pia ¬

no c que agora via como se retomava aos modelos clássicos de


combate ã inflação.
A derrota da campanha pdas eleições diretas havia sido
um duro golpe no â nimo popular. A morte de Tancredo Neves
apenas havia consolidado um estado de esp írito de que uma vez
mais a possibilidade dc interferir na história do pais escapava
por entre os dedos do povo , O Plano Cruzado havia momenta ¬

neamente restabelecido na cabeça do povo a possibilidade de


que viesse efetivamente a fazer a história, a se reapropriar do
sè u destino, mas com o Planu Cruzado F1 íSWJ se revelou uma


nova quimera e o governo Samey foi se reduzindo junto com
.1 Nova Rep ú blica que a Aliança Democrática pretendia instau ¬


rar a nm governo a mais , entre tantos não eleitos pelo povo,
dirigido pd ít elite polí tica tradicional, com um grande contin ¬
gente oriundo da ditadura militar Havia acenado com refor ¬
,

mas que nunca chegou a iniciar, havia introduzido um plano


econó mico de sucesso efémero e. finalmente, havia enganado o
povo com um segundo plano económico amipopular escondi ¬
do no bolso, para ser decretado uma semana após as eleições,
depois que o voto popular já havia sido consignado, configu ¬
rando uma verdadeira estafa. Dois anos bastaram ao povo para
se desencantar com o governo Samey e com o rumo assumido
pela transição pol ítica .

47
Capitulo 3

A democracia tutelada

Entre o velho e o novo


i- jv-yE ponto de pan ida da transirão e claro: uma ditadura mi-
H
^> ' ' Iitar que colocou em prá tica uma política prcdom í nan -
temente favorá vel ao grande capital monopolista e financeiro
nacional c internacional. As For ças Armadas tiveram ai o papel
protagonista^ aliadas a quadros técnicos vinculados aos grupos
económicos privilegiados pdo regime. A ideologia de segu ¬

rança nacional permeou a atuação da ditadura militar , que con ¬

seguiu condicionar sua .própria sucessão ao impor elei ções por


meio do Col égio EldtopaL
O pon i.o Je dhegada é menos ckro: um regime hí brido,
em que deitaram de e?dstir as leis de exceção , em que os pam
tios políticos, as associações civis ea grande imprensa n ão en -
cdntrarn limitações do ponto de vista legal. Os prop rios milita
res se riidraram do centro da cena política para um lugar m .ii:
discre-io. Deixou de- hit ver presos politicos, os ó rgãos de segu ¬

ran ça tiveram seu papd diminuído, foram restabelecidos os


mecanismos eleitorais na sua pleniuidir . Ames nicano dj nova
Constituição, o Congresso j á foavis removido o que considerou
como "entulhos autorit á rios", aprovando ;:m pacote de medi ¬

das que revogava disposições que limitavam os direitos politi ¬

cos Estabelecidos peia ditadur» militar.


F.tsj atitude d ' > Congresso se baseava iu CiirycEerisação
do regime militar n ão como uma ditadura milhar, mas tão so ¬

mente- coiri õ um regm? autorit ário Segundo as análises de vã -


48
dos quais t) quo ruais desenvolveu o tema foi Fer
i*ios auLorts , ¬

nando Henrique Cardoso — sociólogo c dirigente do MDB,



depois do PMDB e por fim do PSDB , o autoritarismo seria
uma variante mats flexível dos rqjimes de exceçã o, no qual
subsistiria uma oposição política tolerada e no qual a hegemo
nia política e económica estaria nas m ãos de uma burguesia Ji
HsMibi , conforme a versão desse autor paro o regime brasileira -
Tratar-se-ia , segundo ele, do resultado de uma enorme
concentra ção de poder e de riqueza nas m ã os de técnicos, que
se teriam transformado aos poucos em uma verdadeira classe.
Para ele , ô$ capitais monopolistas nacionais e estrangeiros se ¬

riam absolvidos de responsabilidade nesse regime, dado que


prefeririam a economia de mercado e interlocutores mais aber ¬

tos A seus interesses.


Propunha-se então a formação de uma ampla frente de
oposição ao regime autoritário, que abarcaria desde o grande
capital monopolista e financeiro at é o sindicalismo dassista do
ABCt paca lutar pelo restabelecimento da democracia. O inimi¬
go ser út o autoritarismo centralizador de poderes políticos e
ecônomiòos nas m ã os de uma burguesia estatal e o objetivo des -
sa luta seria restabelecer o Estado de direito, redistribuir os po¬
deres entre o Executivo, o Legislativo e o J udiciá rio , ao lado da
abertura de espaços de nrgan íza çao e expressão para a socieda ¬

de civil.
Desse ponto de vista se trataria de restabelecer uma de ¬
mocracia que teria existido e sido truncada pdo golpe militar.
— —
A democracia era identificada ou confundida com o Esta
do libera ] e seu funcionamento conforme Os câ nones da divisão
¬

dos poderes, de certo Estado de direito e da liberdade de ação


das leis do mercado. Dessa forma a Leu ria do autoritarismo foi
apenas uma versão renovada do liberalismo, que se transfor ¬

mou na Ideologia da transição conservadora , ao descaracterizar


os problemas económicos c sociais que geraram o golpe e o re¬
gime militar, seus setores hegemónicos no grande capital mo¬
nopolist;! e financeiro e a crise social em que repousou a expan ¬

são económica .

49

A frente opositora que terminou sendo vitoriosa com a
Aliança Democrática, a Nova Repú blica e a vitória no Colégio
Eleiroral da chapa de Tan credo N'eves- lose Sarney — baseou-
se nessa concepção estreita dos problemas que afetavam o Bra ¬

sil , diagnosticados pda teoria do autoritarismo. A democrat i -


zaçgp sc concluiria com a remoção do “ entulho autorit ário’ ',
confirmada posteriorm ente pda nova ( lonstituição. O masca -
lamento das contradições antagónicas entre as forças que parti ¬

cipavam daquda freme foi o resultado dc um passe de m ágica,


que neutralizou esses conflitos por um tempo, mas que twdou
pt >steriormentc toda a debilidade da teoria do autoritarismo e
do partido que se fundou nela. dirigindo a transição pohrica —
o PMDB.
Na realidade a transição se realizava condicionada por

duas fortes tutelas a cconnmicn e a militar. A económica advi
nha do car á ter da crise incubada durante grande parte do pe
¬

r íodo ditatorial, tendo surgido bruscamente à superf ície pela


chegada da crise da dívida , no começo da década. A expansão
económica da década anterior continha cm seu seio uma bom ¬

ba de tempo , dado que o financiamento externo havia desem ¬


penhado áli um papel propulsor.
A divida externa representava, por si só, um limite ao de ¬

senvolvimento do país. em virtude de sua multiplicação deter ¬

minada pela elevaçã o unilateral d ás taxas de juros com que os


empr éstimos haviam sido contraídos. Por seu car á ter, a divida
se transformava num endividamento impossível de ser pago.
Em primeiro lugar, porque o simples pagamento dos ju ¬

ros já implicava o envio para os bancos inremacionais de todo o


saldo da balan ça comercial brasileira. Tudo isso, simplesmente
para continuar devendo o mesmo montante, já que só sc esta ¬

riam pagando os juros.


Em segundo, porque o que já havia sido pago no transcur¬
so da década de 80 representava ma is do que o seu montante
global. No entsmto a dívida rtao só seguia em pé. como ainda
aumentava seu valor.
Em teredro lugar, a dívida havia sido em grande parte
50
contraí da poi empresas privadas, emrando ç governo com a
garantia desses compromissos, para y put' havia milízado em ¬

presas estatais, Posterioimente, a dívida toi retaii?a da areando


o governo com stu ó nus.

Quanto mass se paga, mais se deve


Evolu ção da evida exists JO Bras :! stittO I$80 •: ' ? ;>?
em mifftes ae úo resi
' ^
A
110 572.0 -

1DG 72E>, 5

103 520 .J
07 3
^ ,8 ^ -

91 804 .?

79 346,0 -- 1
i

5 70 052 ,4 - -

oao
‘ i9ai 1992 i993 i9S 4 teas isae

Muiio embers a Brssii lenna enviado so exterior s tiijio tie pagamento cos
. .
servi ços da divide , urnmontante tin Tsruis is ostia \ p.zmamr, o er,Ç iv ; £tf,:t )en-
tc externo brasileiro jamais parou de crescer ão longo da década tie 80.

PUT si só. a divida ext cr:ia represemKVH assim mn terreno


minado sobre p pitai se JesenvoHeria a i ranstção política hrasi
leira . Mas, além deJa, restava a divida interna, em grande pane
dividas do governo, pelo déficit de seu orçamento, sobre o qual
pesava também a piíiprí a dívida exiofna. Estando deficitá rio, .
governo passou a vender títulos dessa dívida no mercado, com
|uro3 alros e príi7os cada vez maia curtos. Como resultado , n

>i
endividamento estatal foi crescendo, pressionando 2 inflação e
liquidando com a capacidade de investimentos públicos que
ainda restava.
Composição dos créditos da divida externa
dos patses do Terceiro Mundo
(úin bilhões úo dólares )
1 Ano Bancos B3QCOS Total Entre 1974 e 1980. Cresceu apar ¬
públicos privados ticipação das institui ções finan¬

ê 1974 94.6 55.4 150 ceiras pnvadas nos empr ésti¬


1980 239.2 211,2 mos destinados aos países sub ¬
450 , 4
1 desenvolvidos.
As dívidas externa e interna compõem assim uma tutela
financeira que limita, condiciona e hipoteca a construção de
uma democracia no Brasil. Enquanto uma pane das riquezas
produzidas no pais e dos recursos arrecadados pelo governo
tiver que cobrir essas dívidas, o pais estar á impossibilitado de
atender suas necessidades básicas de serviços públicos — saú
de, educação, habitação, transporte, cultura — c de investi ¬

mentos essenciais ,
Por outro lado. saindo de uma ditadura milhar , a questão
da desmilitarização do poder não foi encarada de frente pelas
for ças que estiveram dirigindo a transição, As Forças A miadas
deixaram de ser a coluna vertebral do poder politico, como ha ¬

via ocorrido no período anterior, cm que AS decisões do alto


comando das For ç as Armadas eram a fonte das resoluções go ¬

vernamentais, concentrada no militar que ocupava a presidên ¬

cia da Rep ública, ele també m eleito por aquela inst ância. No
entanto, terminado o perí odo ditatorial, a presenç a das For ç as
Armadas ainda pesa de forma significativa no Estado brasileiro
Isso acontece jã na sua c úpula. Ao contrário dos outros patses
democráticos do mundo, o Brasil não possui um ministério da
defesa — a proposta derrotada na Assembleia Constituinte ,
mas sim um ministro para cada arma que. somados ao respon ¬

sá vel pelo Serviço Nacional de Informações iSNIf e ao chefe do


Estado - Maior das For ç as Arms das resultam cm cinco ministros
militares partict pando do ministério, afora outras instâncias
que seguiram povoando o palácio presidencial. ' A transform a -

52
cão pelo Collov do SNI em secretaria não muda ç pe
^ do trabalho
CiVfrn í i

sa substancial
.

de infer mações das Forças Armadas


¬

permanecendo iis insLiluiçòés militares intocadas : ; s propostas


tie enxutí umtrnlci da toitquina estalai . .

A própria ( .onstitm çàí ) aprovada em 1988 reserva às For ¬

ç as Armadas o direito dc intervenção cm assomos internos do


país , desde que solicitada por algum dos poderes da Re pública .

À primei ia dessas intervenções sucedeu na Companhia Sídc-


páigica Nacional de V úlf J Redonda. em lojis; por ocasi ãi de
, . ,

nma gr e dos Tiahaih ;- Hnre < dessa empresa esuin! tcmlo co


^
mo tesullado oficial a morte de tr
Apesar de
ês operários.
própostus alternativas, common existindo n
. ¬

servijjp militar obrigatório Por eie, urro pane juventude


brasileira entrega granutnmenie mn ano de stu vida suposta-
menie paf a Pátria ÍVias os deposit á rios desse serviço são í S
^ .

FORças Armadas, que utilizam esses jovens para trabalhos de ,

quartel e st aproveitam papa tentar Joiitnná-los com ideolo ¬


gia da segurança ní jt
ípnal , paru poder jogâ-los contra sen pró ¬

prio meio social em casos de situações de çontlno como u ,

exempli > Oc Volta Redon O LI tnctidonadii antrrionnmir de ¬

monstra .
Os militares continuam presentes c-ni grande escala nas
empresas estatais — iontts dt imprensa falam dc milhares de
oficiais aposentados nessas empresas — . cm ministerk&, nain-
d ást ria bélica, nos noticiários da imprensa e no setor de infor ¬

ma ções reservado as Foi ças Armadas que sobreviveu ri nova ,

Coustitui o As [Tuiit ias ctC-idui í i pi i- su i - - í: cumin mim mi -


^ ,

^ '

Hiariiíada^ e subordinadas à& Forças Armadas . Além disso, as


.

iH- d a ra ções Constantes de ministros militares, de com and antes


. .

tie regi õ es mil l i a r e s , do cbe : =_- do serviço de informações c do


Estydo - iVLior das forças Armadas lÈm um peso que se revela
fias ILI .Is : e| ' ci cussões . L :n ouiru.s palavras , miint ç o]; . . . U . iso
'
. , . .

da violência , a delega ção que a sociedade Ha ãs Forças Armadas


li . - utilizaçã o das a mias, sem controle por pane dessa socieda ¬

de, continua a ser um Fator de desequil íbrio — potencial e real


— para que um regime dctoiocr ático se|a insulado no país .
As tuteias financeira e militar servem de ponte entre o ve -
Ihu ê novo regime, atando um ao outro e fazendo de um a
continuidade reformulada do outro. A hegemonia económica e
social do grande capital monopolista e financeiro fica garantida
enquanto não seja rompida a tutela financeira, materializada
nas d ívidas interna e externa . A presença militar, por seu lado.
serve como reserva que atenta comia um Estado de direito e
contra a vontade da maioria do país, que tem nas instituições
militares um obst á culo munido ideológica e mtlitarmente de
meios para se opor a decisões livremente adotadas pelo povo
brasileiro ,
A chamada Nova Rep ú blica foi sendo instaurada assim
como i > ma mistura híbrida entré ò velho e o novo. Inegavel ¬

mente se trata, de um novo regime. A forma de domina ção pol í ¬

tica foi modificada , substituindo as instâncias militares por for ¬

mas parlamentares: a nova Constituição fortaleceu o papel do


Congresso , as liberdades individuais foram ampliadas, ó direito
de organização política foi explicitado, introduziram-se direi ¬
tos da cidadania que antes não constavam de nosso sistema jurí ¬

dico, tem vigência , áo menos teoricamente, um Estado de direi ¬

to, baseado em leis votadas por um Parlamento eleito pelo voto


universal e direto. O presidente da Repú blica foi finalraente es ¬

colhido por esse mesmo mecanismo, obtendo uma legitimidade


institucional que aenhun» ouLro possu ía desde 190 4. -
Porém , as tuteias mencionadas e a negação dos direitos
reais de cidadania para a esmagadora maioria do pais dos
quais 2/ 3 vivem com ronda de, no máximo, 3 salários mínimos

— b e m como as discriminações que continuam a vigorar con

¬

tra os menos favorecidos crianças e jovens originários das


classes populares, mulheres, negros, índios, homossexuais e to ¬

das as chamadas minorias polí ticas — , demonstram a dist â ncia


entre a afirma çã o da liberdade feita pdos câ nones do liberalis ¬

mo e sua vigê ncia de fato, A simples reinstall ração dos crité rios
de divisão de poderes entre o Executivo, o Legislativo e o Judi ¬

ciário, acompanhada de outros direitos formais, não atinge o


â mago da crise social brasileira.
5*4
O golpe de 1964 ioi desfechado como uma necessidade de
o capitalismo brasileiro passar a uma etapa superior no seu ca ¬

minho rumo à monopolização e ii imegra ção nos circuitos fi ¬

nanceiros internacionais. As transforma ções operadas riu pais


não se deram apenas no n ível superestrutura! do Estado s do
sisiema polí tico, mas atravessaram ioda a sociedade, das condi ¬

ções materiais de \ ida da popula ção at é a ação dos organs poli ¬


ciais c Je segurança. Assim , livrar o pa ís da diLadura militar não
poderia se limitar a reformas institucionais, epidérmicas, por ¬

que o capitalismo caraoterizado como "selvagem — especula-


"

L í VO, curto rial , e.xdudentc. poluidoí , capitalismo do desperdí ¬

cio , superexpiorádor dos trabalhadores, exportador em detri ¬

mento do mercado interno — foi < mra J . ' regime militar A ins
.

taura çao de uma democracia no pais implicaria combater LIS ra í ¬

zes desses ien õ mcnos.


A transição política seguiu inidalmcmc o roteiro propos ¬

to pelo general Golbcry do Couto c Silva , tropeçou em v á rias


circunst âncias concretas e mudou de rumo, sem necessaria ¬
mente desviar -sc do sentido proposto iniciaimente. de um pro¬
cesso controlado pelas elites políticas que. mediai ne pactos na
cúpula , impedissem a interven ção autó noma das forças popu ¬

lares. A elei ção do presidente que deveria guiar a transição por


meio du Colégio Eleitoral foi uma torma de estabelecer um pac ¬

to politico de elite. As torças do regime anterior se comprome ¬

tiam a aceitar a decisã o tomada pelo Colégio Eleitoral e a opo¬


sição sc comprometia a governar o pais conforme as normas
de transição definida » pelo governo militar que cunduia seu
mandato.
Assim , nem sequer a morte de Tancredo Neves suscitou
a decisão de convocar eleições diretas para a presidência da
Repú blica. Todas as forças opositoras entendiam que o Co¬
légio Eleitora! era um instrumento esp úrio de eleiçã o do
presidente . que participariam dele — ã exceção do PT
como meio de terminar com o regime anterior Entendida

dessa maneira, a derrota da ditadura no Col égio Eleitoral pode¬
ria ser tomada como um meio para, a í sku, conseguir impor o
55
direito dó povo brasileiro escolher com seu próprio voto o pre ¬

sidente do Brasil.
-
Ao n ão fazê lo, a passagem pelo Colégio Eleitoral deixou
dc ser uma contingê ncia para marcar proiundameme o novo
,

regime sa ído dele. Este passou - i se constiruir n ã o à imagem c


semelhan ça da campanha popular pelas eleições direras, nuts a
imagem e semelhança do esp ú rio Colégio Eleitoral.
A própria Assembleia Nacional Cunsiituinre, convocada
Lardiainente e sob forma n ão independente do Congresso, ter ¬

minou não dando á luz ou batizando um novo regime mas ape , ¬

nas dando seu atestado de crisma , no sentido de que a nova


lorma dc organiza ção do poder iã Ira via sido gostada no trans ¬

curso do processo de transição. Faltava dar - lhe retoques, defi ¬


nir quest ões imprecisas e incluir temas novos. Mas, no essen ¬

cial . mediante nu pacto que foi sendo formulado na pr á tica ,


-
um regime h íbrido enirt a ditadura militar eo novo regime já
existia.
O processo consrituinte foi frustrante para os que supu ¬

nham que tosse possí vel desenvolver um amplo debate nacio ¬

nal cm torno dos problemas essenciais que u Brasil havia acu ¬


mulado. Se na sua primeira parte houve a participação de re ¬

presenta ções de entidades sociais <? civis cm vá rios lentas



co ¬

mo a reforma agrá ria , a defesa dos direitos das minorias pol í ti ¬


cas. entre outros , poiicnurmentc o debate ficou reduzido a
um c í rculo restrito , condicionado poi unta composiçã o do
Congresso faiscada pela utiliza ção eleitoral do Plano CruzaJo ,
íá moribundo mas ainda assim fértil para conseguir votos.
,

ju na parte final da Assembleia Constituinte. a discussão


sobre a dura ção do mandato do presidente |osc Sarney terrni
nou por desmoralizar o Congresso diante do pa ís . Apesar dos
baixíssimos indices tie popularidade a que. chegava o governn .
este conseguiu ainda , valendo- se dv um gigamesco processo


clientelista e de corrupção dc que fizeram pane generosas
concessões de radio e televisã o , entre outras - um mandato
que lhe permitiu ficar na presid ência até lfW prolongando
seu desprestigiado govemo por ma is um ano.
õó
A eleição direta para presidente
< )s anos de 1987 e 1988 foram de relativa desmobiliza ção
pol ítica , A dcrroía da campanha pelas eleições diretas c a de-
Lcpçiit. com u Plano Cruzado haviam deixado muitas marcas na
)

população. Apesar de reinstauradu a demociaeia, apesar dc ret


,


sido chamado ia votar desde 1982 , vá rias vezes duas eleições
para governadores, depurados e senadores e uma eleição para
prvleitos das capitais — , o povo continuava sentindo que as
decisões tundamemais estavam fora do alcance de suas m ã os . O
principal tema era a crise económica ; a recessão, o desemprego
e. principulm çnte. a ínílaçàó e n desgaste dos salá rios Planos
econó micos e ministros se sucediam — quatro equipes econ ó ¬

micas e OLHrqs tantos planos de ckites tada vez mais curtos —


sem que fosse controlada a queda dos sal á rios, enquanto um
governo ileg í timo , desmoralizado nela incapacidade e peia cor ¬

rup ção prolongava eido de governos nã o eleitos pelo povo .


aba Lendo O â nimo das mobilizações sociais
U movimento sindical se lortalccia , mas as greves neeii r -
nais convocadas pek (. XT tinham dificuldade em se alastrar .

Somente as lutas de alguns setores sindicais conseguiam ate ¬

nuai os eleitos da in ilação ascendente c das pol í tica ? governa


-
mentais que cor ) Escavam , a cada piano, novas í alias dossalários
dos trabalhadores .

Foi nesse dima que se realizaram as eleições para prefeitos c


vereadores em novembro de l 98fc- Para surpresa geral, sa í ram
vencedores nas principais cidades do pa ís o PT c o PDT. Em Sã o
Paulo , no ABC, em Campinas, Santos. Piracicaba , Porto Alegre.
Vitoria, triunfaram candidatos do PT. enquanto no Kio de lanei
.
ro Niterói e na maior parte das cidades daquele Estado, bem to¬
mo em Curitiba , venceram candidatos btizolistas. Em Belo 1 km -
zotue a vit ó ria coube a um candidato do PSDB - Partido da So ¬

cial Democracia Brasileira , cisão saída do PMD15.


Aquelas eleições marcaram a ciise del iiiiUva dos partidos
origin anos da Mova Rep ú blica - o PMDB e o PFL. O voto
popular se dirigiu para os partidos que, de alguma torma, re-
57
prevenia mm a seus olhos protesto e oposi ção ao gpH- mo bar ¬
ney e à queles que se identificavam com ele. Até mesmo um voto
de direita reapareceu com certa torça, elegendo prctehos em
.
.ilpiiiiiLis cidad«S importantes — como Recife. Belém Florinn õ

polis — na mod ida em que apareceram como nomes opostos ao


governo federal,
Fortaleceu - sê. em primeiro lugar, o PT A [ esisLêiitiu da
< d 1 ãs pol í ticas econ ómicas do governo a atua ção persistente
,

dos deputadas Pétistas contra a corrupção e o clientelismo , a


rdaiivu clareza programá tica de um partido em meio a uma in ¬
defini ção ideol ógica geral das outras agremiações, terminaram
,

favorecendo o voto nesse pan kl o. Mas o episódio ocorrido


uma semana antes das eleições , em Volta Redonda mmc j ó
mencionamos , com a morre de ires operá rios pelo Exé rcito
contribuiu ainda unha puí a canal í xar o voto de ultima hora para
o PT Mesmo onde n ã o triunfou, o PT recebeu um caudal de
—.
votos que- demonstrava que começara a ser superada sua limita ¬

ção geográ fica ao Sudeste e sua limita çã o suciai ao movimento


oper á rio . Lm lfclo Horizonte, m Rj< dc janeiro, em Goiânia,
untre outras cidades, o PT mulriplicou vá rias vezes sua vota çã o
anterior. Por outro kdo. n PT elegeu cerca de I > <_K) vereado¬
res, dos quais varias centenas em zonas rurais, com represen-
tantes diretos do movimento camponês, em geral trabalhando
nas pastorais da terra, um fen ómeno novo nu hist ó ria do Brasil.
)< PDT reafirmou sua hegemonia pol í tica no Rto de Janei¬
-
ro , estendei ido a ao conjunto do Estado. A elei çã o do prefeito
de Curitiba teve muito a vci com o pnesugio pessoal de Jaime
Turner , que já havia sido prelcito nomeado da cidade com ad , ¬

ministra çã o muito betn avaliada pela população. \'o Rio Gran


de do Sul . o PDT perdeu para o PT na capital, mas consolidou
suas bases nu interior Em cidades do Nordeste > PDT conse ¬

guiu eleger prefeitos , mas ar raves de alianças de duvidosa con ¬


sist ê ncia ideológica c continuidade no tempo — como em Joã o
Pessoa , com Wilson Braga e em Natal com Wilma iVlaht ,
expoentes da oligarquia Lradicional da regi ão , de lortc tend ê n ¬
cia direitista .
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da nepressaa ' Volta Rc-donc
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Ê xÇrçitG invadiu .1 Companhia Sidorurgica Nacional ' . s ,- .- H PVJ I n: ipa-
± í piífós ofteré rjó$ metalúrgicos çm grevà. O saldo do cor iron >o iri5$ irutta -
thodores mortos .

A radiografia da vontade pol í tica do pais advinda das ur


nas de novembro de L9SS permitia tezei pressões para a suces ¬

são presidencial , com a qual ineviem cimente se viuculoq, num


quadro pol í tico com caracterfSticãs ttmiuns Fitava tEani ut:u < >
governor n ão teria candidato viável e que no contrário o pró s '
,

mu prosJeiUcda Rep ú blica -


viu ijSoi o nas eleições dc- RWjjí
seria aquele que aparecesse ruais consistentememe como o
Linii-Samey pura a populaçã o, Uso significava excluir Candida
ros como Ulysses Guimarães ou omros ordiná rios do FM 13K
ou do PFL e , ao mesmo tempo , aumentar a tos a ção de candida ¬

tos como Br ízula c Lula. As classes dominantes , depois de 25


anos de- domínio inquestionado , apoiado nas Forças Armadas,
chegavam à primeira deicao presidencial desde Ç>ÒU sem parti ¬

do e sem candidato.
Desde a crise prévia aogolpé dr 1964, o bloco dominante
não havia vo Irado a recompor st -us partidos rotnn formas am -
culadas de alianças e programas pol íticos A eseeçiio do
PMDB, durante o primeiro per íodo de transição da ditadura
50
militar para o novo redime, o poder independeu du aluarão dos

partidos que í içaram relegados a correntes de opinião, sem
acesso ao poder — , assim como de eleições gerais que colocas ¬

sem em quesf áo a continuidade das pol íticas fundamentais das


classes dominantes .
As elei ções de 1989 se apresentavam como as mats impor ¬

tantes já realizadas no Brasil , antes de tudo pelo tato de que


mais dc metade da população estava em condições tie votar
um total maior do que a popula çã o global du pais quando da

elei ção anterior, em 1960, em que o eleitorado representava
apenas cerca de 20% desse total Mas também pelo lato de que .
peia primeira vez na hist ória du pa ís , a esquerda se apresentava
de iorma autónoma , couto força independente da correla ção de
forças no bloco dominante , com possibilidades Je vitória.
Esse Icnõmeno, pur si só. era muito perturbador para uma
classe dominante que havia passado por poucos momentos de
risco em sua Lrajet ória , se e que passou por algum já que as
,

ocasiões determinantes em sua historia neste século — í 930 c


1%4 — n ão conviveram com eleições e votos . Xos 60 anos an
tenures Linha havido quatro elei ções para presidente dos quais
somente dois — Dutra ( 1945-50 ) ejuscelino < 1955 -601 — con ¬
clu íram sen mandato . Ainda assim , u primeiro foi ministro da
Guerra do governo ditatorial anterior e o segundo teve garanti ¬

da sua posse por um movimento militai dirigido pdu ministro


da Guerra , oposto a mobilizações golpistas cm torno Jo car a

nio — —
dato derrocado. Dos outros presidentes eleitos Get úíio c f ã -
um se suicidou e o outro renunciou , tendo o vice-

p residente do ú ltimo João Goulart —
sido deposto por um
golpe militar .
Tratava - se portanto de um sistema pol í tico que n ão estava
-
habituado a legitimar se por meio tie eleições, menos ainda no
ú ltimo quant ) de século. A crise social e pol ítica anterior ao
golpe de 1964 representou tuna crise na capacidade de direção
— ebumadíi de ovsc hegemónica dns_ classes que tinham Jiri-
gido a industrialização brasileira na etapa que havia transcorri ¬

do do primeiro governo de Getúiio até o in ício dos imos 60


60
nisei luvoi.i O blpcó no poder a romper as nil.inças com os
setores populares para implementar uma nova : ase do protejo
de expansão eapit.yJiítu, para o qual aquelas alianças cr,J n , pm
entrave O novo modelo económico nào comportava uma re
distribuirão de renda compat ível com alianças amplas, o que
signiMeava A impossibilidade de sobrevivência do sistema parla ¬

.
mentar c das eleições upiversais , e iuio des dith iw existindo
rio pós- guerra, e , portanto, dos partidos ftolílícos e da demoeril
c ia pnrlami í nrai .
1

Ocorreu naquele per íodo, junto com a crise hegewõmat ,


uma crise da < cprc$attacã o dus partidos politicos, quandu JS
c I . í SSCS Ji 1antes se nfjacatam Jda c ! IUJCAI íIJII uumas. formas

de representação política . Naquele caso as Forças Armadas se


r
transformaram numa eípêíe de partido militar das ciasses dn
uiiimuLcs . Os partidos dominamçs >c esvaíia ? ,1111 coroo alterna ¬

tivas de poder e os ouLtos (oram reprimidos. sob rev ivendo uma


Oposi çã o impotente , porque as decisões iun dam untais não pas ¬

savam peio Congresso e pelas eleições.


Os -ri anos rransconidos desid 1 %-f n ão hav iarri trazido
a revunsiru çíio dtis tor ça* partidárias burguesas. Prune no,
porque o bioco no poder n ão mirinsirava dei as : depois , por -
qut suas pol íticas nao permitiam a c isoiida çà çlc uim íor ç n
pan id á ria com apoio dc massas duradouro. À crise ecoihrmiva
tt uma Concepção extremiimente limitada fja transiçã o demo ¬

cr á tica levaram a . im esvaziam emn rá pido do PViDP c da


Aliança Democrá tica, deixando i bloco nu pode: desprep ira -
du para cji í rcnr á j a * novas turmas tie Iii;:liiniijçãi ) po idea pck
voro popular.
A hiirguesta na realidade não tem um partido político: ek
usa alternadamente os partidos, conforme suas necessidades,
c pode u [elusive prescindir dus. parLuIos elas . ! . . vaiaid ú-se
das For ças Arm í i ;’]: i -, e dn tecnocracia estai .il come forma altcç-
nativa de preserva ção e ampliação das condições necessá rias a
perpetuaçã o de seu dom í nio. Quando se abria a campanha elei ¬

to ru í de a burguesia se defrontava coça os brnipos dos


partidos que bft ò ut ílía.ado, sugado e dci \;ulc de kdo, UM Ln-
61
go do um quarto de século : Arena , PDS , PMDB RFL. e os
cadáveres políticas que um dirt haviam it do popularidade —
Sarney, Ulysses.
Ao não contar corn estruturas partidárias, o bloco domi ¬

nar) Lt ficou ã merce dos candidatos que obtivessem maiores in


dices de popularidade e, dentre eles, escolher as alternativas
que mereceriam sua confian ça . Como t imos, o primeiro crit é ¬

rio obrigava a que fosse um nome que surgisse corno oposi ção
sem v ínculos com o govern o José Sarney . O nome que despon
LOU . dentre os que mereceriam confiança, foi o de Fernando
Collor dc Mello, filho da oligarquia nordestina , cx- prefeito bió ¬

nico dc Maceió enquanto membro do PDS, que havia votado


em Paulo Maiuf no Colégio Eleitoral e que havia recebido ge ¬

neroso trata mento dos grandes meios de comunicação devido à


sua campanha contra os funcionários com altos sai;inos na ad ¬

ministra çã o p ú blica — os chamados ' marajás


' '"
.

£ ) utros candidatos cnm popularidade eram Bnzoia eLu


la, qtic apareciam como os adversá rios fundamentais Ja conri-
nuidade do regime e, portanto , n ão inspiravam confian ça. En ¬

tre os demais eandidaros, nenhum suscitava grande apoio po ¬

pular a pomo de ser inclu í do na primeira categoria pelas dites


dominantes. N ã o demorou muito para que a preferê ncia delas
se expressasse a favor de Collor, por meio de pronunciamentos ,
canaliza çã o de recursos e l avorecí menio aberto nos grandes
.

meios de comunicação
A campanha de Collor nu primeiro rumo se varactertzou
pela oposição ã corrupção do governo Samev e pela promessa
de ca ça aos “ marajás". Como sua figura em varia rinha que,

ganhar conteúdo pela oposi ção a certos males . Um tom mora



¬

lista com raiZCS nu direita brasileira , quando necessita dar ;i


seu discurso uma fei çã o acess ível à s classes populares. como ha ¬

via sido o caso de Jânio Quadros - marcou a campimha de


Collor , enquanto Lula , com uma vota ção melhor distribuída

nacional mente do que Brizols cujos votos concentravam se -
basicamente no mo de janeiro e nn Rio Grande do Sul passa
va ao segundo turno.
— ¬

62
9
5
5

. .

1J
!
'I
.
A campanha eleitoral Para presidente fo marcaria par mumenosconflitos de
rpa entre tscçòes adversaras Na foto , o enf ào candidato Fernando
Collar
de Metlo enfrenta manifestantes brizolistas, durante sua visitaa Niterói cm 9
de agosto de 1939,

O segundo turno das eleições presidenciais de 19H9 trans-


íormou -sc assim numa polarização radica] entre um candidato
conservador . com um discurso populism de direita , cum candi
dato de esquerda , unificando as forças progressistas — 0 PT', a
CUT , Brizola , Airaes, Valdir Pires , Méno Covas, o FCB, 0 PC
do B — , contando com u apoio da Igreja. O processo de politi-
zação nacional avan çou , no conjunto do processo eleitoral to ,

mo nunca antes havia acontecido no pais Bolsões de controle


tratlicional da direita , como o interior de Minas Gerais e da
Bahia , alé m do Nordeste no seu conjunto, ioram alcançados
por um trabalho de propaganda política —
que já havia apare
cido nas elei ções municipais do ano anterior e que levou
¬

expressiva votaçã o para o candidato do PT — patrocinado pe ¬

ias organizações de base da Igreja e por sindicatos rurais.


Ao contrá rio do que uma visão tradicional dc política po
de ri a esperar, o triunfo de Fernando Coilor de Mello n ão foi .
nada fá cil. Hfa de se supor que um candidato que não se assume
como diitiu , que cunra com os grandes meios de comunica çã o
e com o poder económico, dispòe de uma imagem dc jovem,
dinâ mico, " moderno" , moraliza n te. nao encontrar in dificulda
63
des para triunfar por larga margem contra Ltm oper á rio com
curso prim ário incompleto, l íder sindied representante de uin
,

partido radical de esquerda, que assume o socialismo como seu


objetivo programá tico —
com a campanha eleitoral se desen ¬

volvendo cxátametitc noí meses dc desmoronamento dos redi ¬

mes nos pa íses d '.-' Lesm europeia —


c qtn: rcjdta uma política
ampla de alian ças com políticos tradicionais.

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iodas sz pesqoimB £f à ó pinié o A charge de í pccca sal riza - desempenho
de Coíior dò/nnte ò pr í maiPó debate com Lula, já ná &eçunde ijmcd ã cam ¬
panha

Peso fundamental acabou tendo o voto das pequenas ci


lides , da campo , dos Estados d Coiuio-Nunc J I . . . ,
-
São
fflido, foram os esteios eleitorais de Collor permitindo- Qie Li. ¬

vrar nma vantagem dc : 4 milhões lie votos ; sobr


ó Lufa, que
6-1
.
trhmlou com grande margem dc votos nu maior pane d ls capi ¬
tais , rcimo Rio de Janeiro, lielo Horbonre, Recife, Salvador,
Porto Alegre, A desiniorma ção. a contra -informa ção e a facili ¬

dade de a tevê manipular o eleitorado, do qual X0% não têm


hábitos de leitura , mesià u porque semi alfabetizados , cujo n í ¬
vel de rç ndii familiar se situa abaixo dc- três salá rios m ínimos,
terminaram sendo decisivas. Apesar dos avanços mi polrtização
popular nos anos anteriores, prevaleceram ainda o preconceito
— a campanha de Collor no segundu Lumti foi feita , em grande
parte, apoiando-se no anti-coinuiiismo tradicional da direita

brasileira e a desinfor mação.
.

As classes dominantes saiam vitoriosas eleitoral mente do


pleito, tendo soí rido um enorme susto e percebido que não dis ¬

punham de alternativas partid á rias para reproduzir seu podei.


.
A imagem vitoriosa de Còllor contra os polí ticos tradicionais,
representava também a falência dos partidos da elite, que só
dispunha a partir daquele momento da imagem populista de
um líder, com n Fragilidade que isso implica. Ainda assim, a pró ¬

pria vota ção dividia o pa ís ao meio, Collor havia obtido 43% do


total dos votos, longe da expeemiva de que o segundo turno
pudesse eleger um presidente com mais da metade do eleitora ¬
do , Alé m disso, esse contingente indu ía os setures rnais desor ¬

ganizados da sociedade, localizados nas regiões mais longín ¬

quas e menos concentradas, enquanto a votação de bula se ha ¬

via concentrado nos grandes ccntTos urbanos c rurais, receben ¬

do o apoio das entidades organizadas e integradas à luta social.


Nessas condições se encerrava n processo de transição po ¬

l ítica dc sa ída do regime da ditadura militar. O golpe de Estado


havia estabelecido esse regime em 1964. A "abertura política"
havia sido anunciada pelo presidente, general Ernesto Geiscl,
eni 1974. A anistia pol í tica e a suspensão da maior parte dos
poderes exçepcionais que o Executivo se havia outorgado pe ¬
los atos insiiLudonaís, decretados scan sequer aprovação legis¬
lativa , tinham ocorrido em 1979. As primeiras eleiçòcs puxa
— —
postos executivos governadores; de Estado haviam acon ¬
tecido em 1982. A Assembleia Constituinte foi instalada em
65
1987 e a nova Cfinstitui ção promulgada em outubro de 1988.0
presidente da Rep ú blica íoi finalmente eleito pelo voto direto e
universal de todos os brasileiros em dezembro de 1989.
Quando o novo presidente da República tomou posse, em
1990, um nada invejá vel recorde havia sido estabelecido pelo
Brasil: nos 60 anos transcorridos até aquela data o país havia

vivido 41 sem governos eleitos pelo povo 15 durante o per
do ditatorial de Gctúiio (1930-1945 ) e 26 sob governos milita
ío¬
¬

res ou sua prolongar ão na presid ência de José Samey ( 1964-


1990 ), tampouco produto do voto popular. Utn regime parla ¬
mentar existiu no intervalo entre os dois períodos — entre 1945
e 1964 — que, como já dissemos, contou com quairo presiden ¬
tes eleitos , dos quais apenas dois concluíram seus mandatos .
Uma única vez nesses 60 «anos o pa ís viu um presidente civil
— —
eleito pelo voto popular Jusceíino transmitir o cargo a
outro civil — —
J ânio igualmcnte ddto por votação popular ,
mas que renunciou sete meses depois.
O restabelecimento das condições básicas para nmn luta
política institucionalizada encontravam um pa ís transformado
em rela ção ao que era antes do golpe militar de 1964 , A expan ¬

são económica, a urbanização , o crescimento do movimento


operário e do movimento dos trabalhadores no campo, a im ¬

portância assumida pela televisão, haviam feito do Brasil um


país Jc uma complexidade social enorme, mas que não conse


¬

guia mascarar o seu aspecto essencial a imensa contraposi ¬

ção entre um pólo de riqueza e outro de miséria. Se os indices


económicos colocavam o pais que saía da ditadura militar como
a oiravâ economia do mundo capitalista, conforme seu Produto
Interno Bruto, seus índices sociais, medidos em termos de con ¬
centra çã o de renda , o colocavam emrc os piores do mundo.
Resta saber qual o ponto de chegada da transição política.
Que país ú este. que recomeça a se apropriar dè seu destino,
quando suas for ças majorit á rias começam a tomar consciência
de Sua situa ção real. a se organizar, a reivindicar o que lhes é
devido, a sc expressar politicamente, a se candidatar a dirigir o
país que constroem cotídianamenic.
66
Capí tulo 4

Transição: para o quê?

— ifflkxBr.isil sui de qâ&rto de século dc {Gradará militar c


«j-L governo não eleitos pelo povo conno ima sociedade

^
a Stamen te monopolizada economicamente, concentrada em
LetTtsos de tenda , dividida c contraposta ; ;o plaíiti social e, ape
¬

sar de a LI bmedda a uma imensa desLufornjiíçào por intermédio


dos giStides méíos d< comunicação en process nceleíado de
tomada de consciência por pane das grandes maiorias natio ¬

nal s — os trabalhadores da cidade e do campa, os pequenos


proprietários urbanos L- rurais , os que vivem Je $eu pniptio rra
Who, os que sobrevivem marginalizados, 53 minorias pol í ti ¬

cas — . que , no seu conjiinio, somam mais de Kt >% da popula ¬

ção do pa ís ,
Kssa sociedade atravessou 5 dé cada de 80 cm crise — de
uma profundidade como uuiicj o país havia vivid — de dura ¬

ção t ão prolongada que bastou para modificar a atitude das


pessoas , dc confiança 00 futuro em desânimo e dê:,crença nas
possibilidades de superar os obstáculos que o Brasil passou a
enfrentar a partir de iní cios da d écada
A crise se apresentava quando o pais saia dos governos
ouior ados, sob a fornia de uma inflação que atentava diaria
^
mente; contra o pode! aquisitivo dos saíã ri ; ::, eoquamo os re
¬

cursos eram canalizados prioritariíimenre para a especulação e


a produçã o destinada à exportação e ao consumo supé rfluo das
clilos, A inflação, de 100% no início dos anos 00, passou para
main dc l 000 °/!, anuais no briní J_ década. A divida e /- Ictus
i

praticamente dobrou — subindo de cerca de 60 bilhões de dó ¬

lares para 115 bilhões -— , apesar de o governo ter pago , em iu-

67
ros e serviçosda divida. mais de uma vex sen montante. No
final do governo Sarnev, o pais dispunha de cerca de 7 bilhões
de dólares de reservas, mas acumukm. pda moratória existente
de faro, cm torao de 5 bilhões em pagamentos atrasados da dí ¬

vida. A dívida interna ascendeu à mesma quantia da externa —


115 bilhões de dólares.
O ritmo de crescimento, aproximadamente, empatou
com o aumento da população: o PIB cresceu, cm média, apenas

2,9% ao ano contra uma média de 6, 1 % na década de 70 — ,
para uma expansão da população de 2,2%. O resultado global
toi uma estagnação dos i amos económicos voltados para o mer ¬

cado de consumo popular, como reflexo de empobrei, jmento


da maioria esmagadora da população, do crescimento da con ¬

centra ção de renda e da transier êtida de valores para o exte ¬

rior, espedalmente por meio da dívida exiema.


Os investimentos globais baixaram de 23 % do PLB cm
1981 para 172 % em 1988, mas os investimentos estrangeiros,
que em 198.1 haviam chegado a 1 750 bilhões de dólares, leram
diminuindo ate curta dc 400 milhões em 1989. fazendo do bra ¬

sil. nessa década, um exportador de capitais, mediante o paga ¬

mento dos juros e seivi ços da dívida exiema.

Comparação entre o produto nacional bruto


e a renda per capita das 8 maiores economias
capitalistas do mundo.

Países PNB / 19S5 ttenda per csspita


(em US$ bilhóes ) (em dólares }
EUA 3 915.3 16400
Japão 1 366,0 11 300
Alemanha Oc. 667,9 10 940
França 526 ,6 9 550
-
Grã Bretanha 474.1 8390
Itália 371,0 6520
Canada 347.3 13 670
Bragit 222.0 1640
Apcst / t de ', tyurar tinira as rufo alarums eeOrJom.'aS capiiahStSSdOIHUPOO . O
Brjsilainda apresenta uma renda per çap/
tarmnto rimaem reiaç ao í s cios
pãfses maia desenvolvidos.

68
Inflaçao anual do Brasil i / SJ. a?s|

(1973 - 1989)

L/CpútS Uri quente acentuada, OO Í ldà


isrti . arif êi? do Plano Cnjzsú i e n .
< 9(16 , o ínWir ç dc tirsstteira itoliou
uubsr desenfresdamente. atingir ão
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íàtmmarss eSíeva nfimos enr ! S$ 9
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A concentração de renda fez com que a porcentagem dos
que ganham mais de 20 salá rios mínimos subisse dc 1,5% em
1984 para 2,2 % em 1988- Como contrapartida , nesse ano qua ¬

se 50% da população recebia menos de um salário mínimo e

rendimento algum . —
perto de 8 % — certa de 12 milhões de pessoas cão obtinha

— —
Apesar dè todo esse quadro ou , como veremos, como
sua mola propulsora a acumula ção capitalista se expandiu
no pais durante a década dc 80. Os IUCTOS bancários e das ou ¬

tras institui ções financeiras , por exemplo, nunca foram tào ai-
tos. Os produtores, industriais e agrícolas, voltados para o mer ¬

cado externo, encontraram saída para sua produção a preços


lucrativos, fazendo com que a balança comercial brasileira
apresentasse um constante crescimento de íUK> para anu. As
empreiteiras continuaram conseguindo grandes encomendas
do Estado , ampliando também seu âmbito de ação no exterior .
O mercado interno voltado para aà camadas de maís alto poder
aquisitivo continuou se ampliando, pela sofisticado do consu ¬


mo do qual o setor eletro eletrónico e de informática são

apenas alguns exemplos . assim como pela produção privile ¬

giada de carros dc luxo e o sucessivo abandono dos automóveis


mais baratos.
Do ponto de vista económico, o problema mais sé rio se
localizou na inflação. Seu níveis aumentaram constantemente,
tendo trégua por poucos meses após os sucessivos pianos de
estabiliza ção, todos eles fracassadus por suas terapias superfi¬

ciais para a profundidade do fenômeno. O desgaste salarial, a


desorganiza çã o dos preços , a instabilidade nos investimentos
apenas refletiam na superf ície uma questão muito mats profun ¬

da e que se havia originado no próprio capitalismo internacio ¬

nal: o desestimo lo ao investimento produtivo e o incentivo à


especulação. As taxas de juros se mantiveram sempre acima das
taxas dc lucro, fazendo com que ccrca de 20 bilhões dc d ólares
estivessem aplicados nos vários mecanismos financeiros, cm lu ¬

gar de na produção. Reduziu -se a produção de bens, a criação


de empregos produtivos , com a ind ústria funcionando quase
70
no má ximo tie sua capacidade, deixando de renovar âua tecno ¬

logia e expandir suas instalações.


Em outfo$ termos , não é que fake gente necessitada que
queira consumir. Na realidade, o grosso da população vive
abaixo do nivel mínimo indispensá vel para sua subsistência , em
termos de alimenta ção, vestu á rio, habitação, sa ú de, educação,
Lazer . Mas a forma de reprodu ção do capital tealimenta a con ¬

centra ção de renda, oricntando-se sempre para us setores que


tê m condições de consumo, isto t, recursos para consumir. Um
cí rculo vicioso fica instaurado: produz-se para quem pode
comprar, que condiciona assim a produ ção de bens supérfluos.
Enquanto isso, uma parte substanciai dos recursos nem sequer
se dirige para a produção, mas simplesmente fica girando no
circuito especulativo , aumentando seus rendimentos ou sim ¬

-
plesmente mantendo os, no melhor exemplo de aplica ção so-
eialmentc parasitá ria de capital Mas o Capital quer se reprodu ¬
zir, não importando a forma cm que isso se dê- Essa Id de ferro
comanda as sociedades baseadas no mercado, que se tomam
parricularmente perversas e “ selvagens” nos pa íses do Terceiro
Mundo , já afogados pelas dívidas externa e interna,

A inflação que passou de J 00% anuais no começo da
— -
década para J 70í)% no seu final tomou se então a ponta do
iceèerg do capitalismo especulativo. O combate a ek passou a
requerer transformações no modelo dc acumulação de capital,
não bastando apenas choques episódicos de congelamcnto dc
preços e salá rios, porque a onda inflacionária retornava com
mais força uma vez passado o efeito imediato do choque. Quem
deveria pagar o preço dessa reformulação era a questão essen ¬

cial que havia estado em debate durante a campanha presiden ¬

cial e que era delegada ao novo presidente eleito.


Por baixo da infla ção e da crise económica, o que verda ¬
deiramente existia era unia tiisc social. Porque a economia, pa-
ta os grandes proprietários de capim ] , funcionava apenas com
os desequilí brios propiciados pela infla ção, doa qtmis eles se de ¬
fendiam muito melhor do que os assalariados ou os pequenos
propriet á rios, Mas a ponta do iceberg não apontava apenas
71
pans um problema de acumula çã o decapitai , mas també m para
Lima situa çã o social explosiva.
Ura modelo económico que exclui a maioria da população
como mercado essencial de consumo e marginaliza grande par
te dela como tor ça de trabalho excedente é incompatí vel com
uma estrutura social equilibrada. A agricultura não abastece de
maneira adequada as cidades dedicando pane desuaprodu çã o
,

à exporta ção, ao mesmo tempo que grandes contingentes n ã o


tè m acesso á terra e continuam migrando para as cidades do
Centro-Sul , onde vivem em p éssimas condições de moradia ,
emprego , transporte , sa ú de c cduca çao. Metade da misé ria do
pa ís sc encontra no Mordeste, mas a outia metade já se situa lias
periferias dos grandes centros urbanos

parricularmenie em
são Paulo c no Rio de Janeiro , nas Iavelas e cortiços
.'

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J
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>-1 V

á yranfe de uma taveta paulistana. Graças a um modeto económico elitista,


Ft
a miséria atinge Camadas cada vez mats vastas da popuieçao brasileira a vem
sc concert frendo gradaUvamente na perifan?. dosgrandes centros urbanos
Dos eleitores que votaram cm 1989 para presidente da Rc-
pnblica , 70% n ã o tuiha o curso primá rio completo, 80% n ã o
tinha há bito de leitura de jornais, demonstrando como as con ¬
di ções mínimas dc informa ção para o pleno exerc ício da cida ¬

dania ainda est ão longe Je existir . O Estado, cujas pol íticas


72
buscaram , até certo momento, atenuar essas diferenciações , es ¬

gotou sua capacidade de investimento e , ao conrráriu , passou . 1


ser uma carga para a sociedade, na medida em que seu deitei:
faz com que 0 governo multiplique sua divida vendendo títulos
no mercado a juros cadn vez mats altos, coníormc < i inflação
avan ça.
.Sobre essa massa alua de forma sistemá tica o monopólio
de audiência de televis ão exercido peia Globo que. na prá tica,
unifica um país grandemente diferenciado em Lermos económi ¬

cos , sociais , culturais , regionais , para tentar impedir que aflo


¬

rem à vida pol í tica as contradi ções produzidas e reproduzidas


coridianameine pelo sistema de poder vigente
Uma realidade social tão dikccrantc representa um blo ¬

-
queio para que as classes dominantes possam construir parti
tios que integrem , de forma relanvamomeestá vel, setores signi ¬

ficativos das classes dominadas. A pró pria vitória de Fernando


Collor Jc Mdli > foi conseguida às custas de terminar de destruir

o que havia de partido pol ítico tradicional como o PMDB e
o Pb ]. — . ao erigir sua imagem em contra posição aos
'

“ pol í ticos" e lan çando se por um partido l íetteio. Ao resolver

apoi á - lo , as elites dominantes sc jogaram nos braços dc um pol í


¬

tico que se coloca no lugar de uma dominaçã o organizada em


partido pol ítico , com programa tá tica, alianças rdntivamente
,

claras , filiados , fi um vaso cujo conte ú do passouser urecnchi -


Jo a parrii do momento em que veneeu as eleições. Sua base de
atuação representa uma aposta na sua capacidade carismá tica ,
em substitui ção a uma rela ção orgânica e pol ítica fornecida por
um partido.
Nessas condições o sistema conta , para > ua reprodu ção,
,

mais com os grandes meios de comunicação e com o pró prio


Estado, do que com esrrultiras partidariamente enraizadas na
sociedade civil Dessa forma, ao concluir o penodo de ditadura
.


militar, uma de suas caraçtci isticas pude se reproduzir a difi ¬
culdade para resolver, sem traumas, A questão da sucessã o nu
governo Ames da se resolvia na reclusã o das casernas, nos
conflitos durm o da oficialidade, A partir do final Jo regime de
73
exceçã o, a faltade parikíus políticos pode perpetuar essa difi ¬
culdade , ainda mais que a primeira eleição presidencial eviden ¬

ciou , por parte da esquerda, uma força insuspeitada c umi ca ¬

pacidade para unir suas varias vertentes que a transforma em


protagonista de primeiro plano na tida pol ítica rio pais
:
V
7
í
/
i
\

\
=í” t

.
J ã empo.sserfQ como presidente da República Federative do Brasil Fernando
Coilorde Melio sobe a tampa do Palácio do Planalto, ladeada pelos Dragões
da Independência

As outras transições

-
O golpe de 1961 no Brasil deu inido a um processo de
militarização dos regimes pol íticos do Cone Sul latino- ame¬
ricano, entendido como sub-regiao política do continente. No
mesmo ano. um movimento similar foi realizado na Bolívia ; em
1966, seria a vez da Argentina; em 1973, do Uruguai e do Chi¬
le; e, de novo, cm 1976, a Argentina retomava a umâ ditadu ¬
ra militar A ditadura do general Stroessner. no Paraguai, não
se enquadra nesse tipo de regime, assemelhando -se mais às di
tíiduras tradicionais dirigidas por caudilhos do ripo tie Somo
za, na Nicar água , de Trujillo, na Rep ú blica Dominicana , e de
Batista , em Cuba. Mas, em excelentes relações com aqueles
7d
regimes, ele ajudava a completar o quadro que cobria uxlá a
regiã o.
De forma coordenada ou caminhando por seus pr óprios
-
passos para direções similares, instalaram se regimes semelhan ¬
te * nesses pa íses, o instituindo um quadro dominado peio papel
de protagonista exercido pelas For ças Armadas no exercício do
poder politico , baseados em ditaduras que faziam uso sistema
rico do terror , da tortura, da exclusã o política e da repressão
couLr.j movimentos sociais, partidos politicos o pos it ores. irn -

ptvnsa independente, universidades , igrejas, manifesta ções in ¬


telectuais e art ísticas criticas c: todas as turmas de dissidência.
A trajetória de cada um e seu destino de chegada teve par ¬
ticularidades ligadas à própria hist ória de cada pais. ãs poten ¬
cialidades de desenvolvimento econ ómico j situa ção das vá rias
,

classes sociais e . ú ie mesmo, aos moinemos em que os golpes


militates foram desencadeados . Ao entanto, é inegá vel que per ¬

tencem iodos a um mesmo ciclo politico e ideológico , que teve

-
seu inicio no RrasiJ ese generalizou a toda asub região, chegan ¬
do a seu á pice em 197 A no momento do segundo golpe argenti
no, quando todo o Cone bu í sc achava sth- ditaduras militares.
A hist ória de cada um desses regimes tem que combinar o
que tiveram em comum com suas especificidades, para dar con ¬

ta da globalidade do fenômeno. Aqui nos ocuparemos de um


de seus aspectos, para contras!ai com a sua evoluçã o no Brasil:
como se deu a transi ção de um regime a outro, como se eietuou
a Caída do regime de ditadura militar para o restabelecimento
de Fstados de direito de car á ter parlamentar.
Na Bolivia o golpe de 1964 cortou um processo político
,

iniciado com unia revolu ção nacional acontecida em 1952, que


nacionalizou as minas , realizou um -a retorma agrá ria e chegou a
substituir 0 Fvdiri í n por mihcias populares Esse movimento,
dirigido por um partido chamado Movimento Nacionalista Re -
v olueion á rio ( MNR í , tendo á cabeça seu principal l íder. Vietoi
.

tdiz l -.stcnssoro , Joi sc inKtiiiicion íriizíindae perdendo seu car á


ter revolucioná rio, ate o MNK se transformar , já nos anos SO,
em um partido conservador , com ideologia neoliberal.
75
Mus naqnde momento o regime politico rinha grandc-
apoio popular defendia posi ções nacionalistas c se chocava
, ,

cm vadios aspectos . epm a polí tica externa dos íiUA. ( 1 qolpe


militar levou ao poder as Foiças Ámiadis tu Jiviantis , i ã renrga
,

rifadas cue se mantiveram m ! até 1980, com pequena inter


, . ¬

rupção tie menos tio dois antes em 197U -71 . quando uma ten -
,

d ènç in de esquerda dentro da ufidalfdáde chegou a rer em


mãos o governo lo o sendií deposta
,

^ *

Nu sua secunda etapa o regime militarsc éntrdit çet . com o


iryrK o de droga i implicando s£ nele :ii -. - mesmo o ent ão presi

^
dente da Repú blica, general Luiz Garda Meza . e vá rios outros
. titiis i > li . mis . Ksse aspecto c a ruorgsuiizáção . 1: ' mtjviirterjtopo
¬

puiar boliviano tanto os sindicatos mineiros c a puder usa


t . e.iiu . ti < ) ;.'cr.ir :, i Bóihíiana (CORK quanto as urganiira çõei de
*

tlirdius humanos — , geraram uma atuação dc oposi ção gene *

rjJizujdá áo govern o, mm greves tie fume, greves gerais, ocupa ¬

ções 1í L > mums , PAIHSí-LULVS estudgptLs, qu terminou levando o


[
*

governo militar a convocar eleições , em 1980


( Js militares decidem abandonai o governo unis deixam
siLiiLj de ai um campo mui í ido, que ê a gigantesca divida externa
boliviana . Os KL ! A discutem sobre a com j -d é m ia de aceitar . -
renuhadi.1 eleitoral , que dava ao candidato de centtfrcsqacrli
i Icnuiu biles Suazu — com um par : dddissidentedo MNR
unia maioria rcimiva , que Je\ ifl sei huniukjgid;t j cl - Cóneres-.

so oo a possibilidade de favorecer o o>: ditadoí 1 luge* ftanr.tn
,

militar aposentado e candidato derrotado nas eleições O go¬


verno norTe - arnertcano aceirou a alternative vencedora, mas de ¬

clarem í mcdiatamcflie que nãu renegociaria u divida externa do


paúq nem SOL\II- I eria ecottemikaiticjitc a Bolívia .

lesse rastro de poiv-ora que minou o campo da volta à Je -


inocrada pol íriot nu Bolívia condicionou e vidou todo esse iti ¬
ner á rio de retorno. O governo do Sites Suazo teve q K- st ver ás
VOJL . I .-, com un . ! •. lem , crcsdiucnto da tofljçà< . com pilis
ploqu çifldq pob- pagamento da dívida e com ts re: - indicacôes
i 1

populares, rt esadas durante todo o período da ditadura mili-


^
L -LI , explodindq iodai uo mesnio tempo.

7b
Instalou- se unia crise económica e social que o governo
n ão conseguiu cóntrolar e o levou ao desgaste, enquanto o país
entrava num processo de hiperinfia ção Esse debilrtamento
acabou conduzindo ao governo uma solução conservadora,
tigora personificada justamente pelo que ameriormente
fora lí¬

der revolucioná rio Victor Paz Estenssono e seu partido, o
MNR, Estes adotaram implacavelmente um plano anriinfla-
eion ário receitado pelo Fundo Monetário Internacional ( FMI ),
cujo sucesso significou o empobrecimento drástico de grandes
camadas populares, o fechamento de minas e de outras empre¬
sas , t> debilita mento ainda maior dos serviços p ú blicose a esiag
na ção económica. A volt 3 da democracia não foi acompanhada
da rcsoltição dos problemas sociais do pais: ao contrário, con ¬
duziu à sua exacerba ção e gerou um desgaste das estruturas po¬
líticas que o pa ís havia levado muito tempo para reconquistar,
desde o golpe militar de 1964.

O Uruguai , valorizado, jumamente com o Chile, peia es¬


tabilidade de seu sistema institucional c pelas conquistas sociais
a favor de sua popula ção, ingressou num processo de crise a
partir do final da d écada de 60. A estagnação económica se fez
acompanhar do surgimento de nova* forças políticas, além dos
tradicionais partidos Blanco e Colorado. Acirrou -se a luta so¬
cial para decidir quem pagaria o preço da crise económica, com
greves patrocinadas pela central sindical, repressão governa ¬
mental COntra q$ movimentos populares e aparecimento da
guerrilha urbana dirigida pelo Movimento de Libertação Na ¬
cional ( MLN ) , cujos membros ficaram conhecidos como Tupa -
maros - em homenagem ao líder da resistência ind ígena pe¬
ruana áos conquistadores espanhóis , Tupac Amaru. O sistema
polí tico uruguaio terminou revelando sua fragilidade, cedendo,
aos poucos, lugar a um processo de militarizaçã o do regime, até
que os militares tomaram u poder diretaraeme. cm 1973, encer ¬
rando um longo ciclo democrá tico no Uruguai.
As Forças Armadas impuseram a sangue e fogo. um regi
,

me ditatorial, colocaram os partidos tradicionais, bem como a

77
Freme Ampla — —
coalizão de esquerda , na ilegalidade e go ¬
vernaram o pa ís durante 11 anos ctrafonue os modelos liberais
para a economia e segundo a doutrina de segurança nacional no
plano polí tico . Quando os militares quiseram institucionalizar
Sc LI poder , convocaram um plebiscito, uo final de 1980 , acredi-
Laftdo conseguir o mesmo sucesso que havia obtido Pinochet
no Chile. No entanto, para sua surpresa, o povo, apesar das
condiç&es de Estado de exceção em que se realizava a consulta,
rejeitou a Constituição com que as Forças Armadas desejavam
perpetuar seu poder.
Não lhes restou outra alternativa, depois de muita resis¬
t ência , a nã o ser retirar se do governo c chamar novas eleições,
em que participaram o$ mesmos partidos Blanco. Colorado e a
Freme Ampla , cm 1984, O vitorioso foi o candidado do partido
Colorado, o moderado Julio Maria Sanguinetti, que conduziu o
.
pa ís à redemocratiza ção concedendo noenranto espa ço de tu ¬

tela aos militares, quando antes da ditadura estes não tinham


maior projeção na cena polínca. As polí ticas económicas ha ¬
viam liquidado o sistema social de que se orgulhavam os uru ¬

guaios , com avan ços na privatiza ção desses setviços que deixa
ram grandes contingentes populares ã mercê das empresas que
os exploram conforme os critérios de mercado.
Através de uma acordo entre as direções dos dois princi ¬
pais partidos, o governo ícz aprovar orna lei dc perdão para os
crimes cometidos peles militares durante a ditadura, que signi ¬

ficava enterrar a questão sem sequer apurar responsabilidades


sobre os desaparecimentos, as mortes, a tortura, as expulsões
do pais e outras arbitrariedades dos militares nos anos anterio ¬

res . Inconformadas com a decisão, forças populares consegui ¬

ram recolher as assinaturas necessárias para a convocação de


um plebiscito popular a respeito dessa lei. Esse movimento
que contou com mats de 700 mil assinaturas para um eleitorado


total de cerca de I milhão e 500 mil eleitores demonstrou um
grau de desacordo por parte dc uin setor ponderável da socie ¬
dade sobre s forma de tratar a questão militar na transição de ¬
mocrática. K, apesar de a lei do governo ter sido fínaímeme re-
78
fercndada no plebiscito, sua convocação provocou urn amplo
debate nacional sobre um dos problemas cruciais na passagem
de um regime militar a uni Estado de direito.

No mesmo ano do Uruguai, o Chile sofreu um golpe mili ¬

tar , aquele que se tornou o mais conhecido da Am é rica Latino


,
notabilizando a figura db ditador Pinodict. O Chile havia vivi

¬

do sucessivamente duas experiências de reformas sociais


uma dirigida pela Democracia Cristã e outra pelos partidos So ¬

cialista e Comunista, sob a presidência de Salvador Aliende.


A Democracia Cristã (DC) iniciou uma reforma agrária ,
uma reforma urbana e um gradual processo dc nacionaliza o
çã
das minas de cobre, por meio de um pacto com as grandes em ¬

presas norte-americanas que dominavam o setor. Esse process


o
foi abandonado pela DG no meio do caminho, aprofundando
a
crise social e gerando condições favoráveis a que, pels primeira
vez no continente, rorças de esquerda se propusessem a intro ¬
duzir p socialismo por via parlamentar mediante o governo dc
,

Salvador Aliende, clèiio em 1970.


Essa transiçã o íoi sabotada , interna c extemamente,
cr iando-sc uma situa çã o dc deseítabilização, com
desabaste-
cimento generalizado e protestos organizados de amplos seto
¬
res de classe media, acompanhada de um plano, deque partici ¬

pavam os EU A , de gerar ás condições de um golpe militar,


que
aconteceu em setembro de 1973, quando o governo se prepara ¬

va para completar tres dos sete anos de seu mandato.


Esse mo ¬
vimento contou com a participação dos partidos de direita,
mas
també m com a Democracia Cristã, imaginando que os militar
es
convocariam em seguida novas elei ções.
Mas, Lai qual ocorreu no Brasil, as Forças Armadas descn
volveram um projeto de longo prazo, instaurando uma ditadu ¬
ra militar, fechando o Congresso, governando por decreto
s,
acumulando milhares de mortos, desaparecidos, presos c exila ¬

dos. Com o general Pinochet à cabeça , foi posto em prá tica um


programa neo -Iibeial de privatizaçio da economia, terminando
COm as conquistas sociais no campo da saúde, da educa
ção, da
79
seguridade social e abrindo as fronteiras para as importações, o
que liquidou a industria chilena em favoi dos produtos chega ¬
dos d o Japão , d .i Coreia do Sul , de Taiwan c dc outros países.
No auge de seu dominio, depois de ter conseguido neutra ¬
lizar a oposição pela repressão dc seus partidos e das associa ¬

ções populares , Pinochet convocou um plebiscito, em 1980,


para Lazer aprovar uma nova Constituição, que institucio¬
nalizaria um regime centrado nas Forças Armadas que goza
, ¬

.
riam definitivamenre de poderes legislativos além do F xecuti-
,

vo c da tutela sobre a Justi ça. Sem que a oposição tivesse condi ¬

çõ es de lazer sua campanha e controlar as condições do voto c


da sua apuração sob estado de sitio o governo conseguiu ven
,

cer o plebiscito e Pinochet iniciou um novo mandato presiden ¬


cial , agora como presidente ‘constitucional ” , ate que um novo
'

plebiscito, a ser realizado oito anos depois, pudesse- lhe conferir


ainda mandato complementar.
uin

Logo em seguida adveio um novo ciclo de crise económi ¬

ca internacional , com eleva ção drástica e sú bita dos juros da


divida externa dos países endividados. O Chile, com a econo ¬

mia toLulmeme aberta para o mercado internacional , foi dos


que mais sofreu os impactos da crise, principalmenre porque
sua dívida havia sido elevada mais que a dos outros pa íses da
região, chegando a ser a maior divida per capita do mundo. Ra ¬
pidamente instaurou -se umu crise social \’cm sequer os mcca
nismos ditatoriais foram capazes de evitar que ela se manifes ¬

tasse por meio dc grandes agita ções de rua, logo reprimidas à


for ça.
Mesmo cm meio à reorganização da oposição , o governo
militai conseguiu reestruturar a economia , com grande apoio
dos bancos internacionais, que consideraram o modelo chileno
um exemplo a ser seguido pelos países endividados do conti ¬

nente , porque respeitava o pagamento de seus compromissos


externos e desenvolvia intemamcnie uma polí tica conforme o
figurino do FMI . Ao contr á rio do Uruguai , da Bolívia e da Ar ¬

gentina , a ditadura militar chilena reformulou rapidamente a


-
economia do pais adequando a à nova divisão internacional do
80
trabalho, que reserva aos países latino-americanos um papel
ainda mais secund á rio e complementar no plano internacional
— o de exportadores de produtos agr ícolas, minerais e outros
do setor prim á rio e importadores de mercadorias industria ¬
lizadas com alto desenvolvimento tecnológico.
O Chibs que já havia rido um certo grau de desenvolvi ¬
mento industrial, retrocedeu, centrando sua economia na
exporta ção de cobre, madeira , frutas e pescados, importando o
restante. Com base na livre importaçã o e numa enorme contra ¬

ção do poder aquisitivo da grande maioria da população



possibilitada peio regime de força . a economia chilena che
— ¬

gou a sc expandir, ao contrário da daqueles países, que pratica -


mente viveram cm recessão todo o período ditatorial.
Mas esse sucesso nâo foi suficiente para livrar Pinochet da
derrota no plebiscito de ltHil, impedindo-o dc continuar no
. .
governo A partir dali ele sc preparou para entregar o governo
para a oposição. Apesar dc algumas modifica ções na Constitui ¬
ção de 1980, mantiveram -se vários expedientes que garantem
uma tutela militar sobre o novo governo e a continuidade dc
aspectos essenciais do modelo económico neo - Uhcral O pró ¬

prio Pinochet foi escolhido para um novo mandato de oito anos


como eomandante-cm -chefe das Forças Armadas independen ¬
.
te do novo presidente. Antes dc deixar o governo Pinochet pri -
vatizou rapidamente vá rias empresas públicas, autonomizou o
Banco Central, conferindo- lhe muitos poderes, c nomeou sua
direção, entre outras medidas.
O eleito foi Patr
ício Aylwin , que havia sido dirigente má ¬

ximo da Democracia Cristã, quando ela participou ativamente


da conspiraçã o golpista comra o governo constitucional de Sal ¬

vador Allen de, em 1973. A esquerda obteve uma vota çã o


inexpressiva , vítima da legislação eleitoral da ditadura , bem co
¬

mo por seu apoio a Aylwim Aquela legislatura conferiu à dita ¬

dura o direito dc nomear nove senadores, o que deixou o novo


governo sem maioria no ÍSenado. Considerando se a necessida ¬


de de grandes reformas constitucionais ou mesmo de uma

nová Constituição, em substituição ã pinocherista . a falta de
81
uma maioria absoluta deixa mats facilmeate o novo governo en ¬

feixado nas armadilhas mnnndas pela instirucíonalídade dita ¬

torial.
A necessidade de recuperar o apoio do grande cmpresa-
riado chileno faz també m com que o novo governo mantenha
os mecanismos bá sicos da pol ítica económica anterior , com a
qual a burguesia chilena est á de acordo. Programas de redisin -
buição de renda são acoplados àquele modelo, sem mudar sua

essê ncia , buscando uma convivê ncia dif
ddo concentrador de renda e antídotos a ele.

ícil entre um mo

A transi çã o chilena iniciada , como A uruguaia , com a per


da de um plebiscito convocado pelo próprio governo, sc enca ¬
minhou depois muna direção bastante conservadora, dirigida
por um presidente moderado, condicionado por uma instiiu
cíonalidadc ainda proveniente da ditadura e pela pró pria pre ¬

sen ça das For ças Armadas com poder n ã o subordinado ao Exe ¬


cutivo na á rea militar. Por outro lado. as tor ças de esquerda ,
debilitadas, n ão conseguem servir como contrapeso daquele
poder oriundo da ditadura.
A força do regime anterior sc baseia na capacidade que
teve o regime de Pinochet - - apesar dc seu desgaste internacio ¬

nal — de conquistar o conjunto do grande empresariaJo, Jos


bancos internacionais, de setores da classe media e mesmo de
pequenos propriet á rios rurais . Assim , o regime dc Pinochet é o
ú nico, no Cone Sul. que sai do governo com força eleitoral e
apoio social, lan ç ando um candidato à presid ência que, embora
derrotado, marca uma certa presença e. por outro lado, deixa a
d irei La com uma representa ção muito significativa no Parla ¬
mento.

Depois dos governos de Perón


— de 1945 a 1955
— a
Argentina viu se sucederem v á rios golpes milhares . Foi Í J que
nasceu a palavra "gorila " para earactcrizar eases movimentos.
Depois daquele que derrubou Peron , em 1955, houve vários
movimentos militares , àt é que, cai 1966, dois anos depois do
golpe brasileiro, outro movimento levou os militares a inter -
62
romper a continuidade institucional, mais uma vez derrubando
um presidente eleito e assumindo O poder com um programa
,

similar ao brasileiro.

— —
Dirigido pdo general Ongania irm católico conserva¬
dor , tinha como objetivo estabelecer, segundo seus mento¬
res, transformações estruturais na economia para , a partir dis¬
so, passar ao que denominavam de “ tempo social'' e, posterior-
mente , a uma nova iustitudonalidade politics. Uma política re¬
cessiva , similar ao tratamento dc choque brasileiro posterior a
1964 , foi colocada em prática, mas, antes que se passasse ao
“ tempo social” , uma vioienta reação generalizada da sociedade
dcscstabilizou o governo militar, com grandes manifestações,
detonadas como reação à elevação geral de impostos e preços
dos serviços pú blicos.
O general Ongania, com seu governo Ferido de morte, deu
lugar a outro general e, em pouco tempo, o regime militar co¬
meçou a preparar as condições dc sua retirada , convocando
eleições, que o perohismo venceu, em 1973-
Pcròn tentou fazer renascer as condições em que havia go¬
vernado 40 anos antes , mas, além dos obstá culos naturais a um
projeto dessa ordem , ele ficou no governo apenas um ano, mor¬
rendo em seguida , sem deixar atrás de si, como é t í pico do po-
pu íismo, uma força organizada que pudesse dar continuidade a
seu projeto. Dali para a frente o governo peromsra
viúva de Perón , Isabclita, na presidência
— — com a
entrou numa crise
aberta , até que se deu um novo golpe militar, em 1976. Combi ¬
nando a ação das Forças Armadas com a de comandos param di ¬
.
tares ligados ao peronísmo de direita, a repressão se inidou
ainda antes do golpe, estendendo-se depois como a mais selva ¬
gem de todas as que o Cone Sul havia conhecido. Dezenas de
milhares de pessoas foram mortas, oficiakncme ou sob a rubri ¬

ca de “ desaparecidos” , os partidos pol íticos foram postos na


clandestinidade, o Parlamento uma vez mais foí fechado, GS
sindicatos perseguidos, assim como as universidades c qual ¬

quer resqu ício de democracia política .


Durante nove anos a Argentina viveu o regime mais terro-
83
rista que o país havia conhecido, sem que tivesse conseguido
tirar a economia da recessã o. Ao contr á rio, aprofundou-se a de¬

teriorar ão da estrutura produtiva já envelhecida, acelerou - se a


desnacionalização da economia, que cada vez mais ficou de ¬

pendendo dos preços da ca me e do trigo no mercado interna


cinnal , enquanto a divida externa disparou. Quando ns debili
dades do regime eram flagrantes, os militares — que tinham
posto o general Vitleía na presidência , substituído depois pelo

general Viola e, logo depois, pelo general Gained decidiram ,
pelas mãos deste último , lançar um desesperado apelo ao nacio¬
nalismo para revigorar-se, através da tentativa de recupera ção
militar das ilhas Malvinas, de posse da Inglaierra. A aventura
provocou milhares dc mortes entre os soldados e marinheiros
argentinos, impotentes para resistir ao contra -ataque inglês, de¬

monstrando assim a incapacidade militar da oficialidade argen ¬

tina. O tiro sa ía pda culatra para os militares no governo.


A partir daquele momento o movimento pelo restabele ¬

cimento da democracia se tomou irresistível e as Forças Arma ¬


das, derrotadas militarmente C desmoralizadas politicamente,
tiveram que chamar eleições. Nestas, realizadas em 1983, saiu
vitorioso o candidato do Partido Radical, Raul Alfonsín, derro¬
tando pela primeira vez o peronismo, cuja imagem estava ligada
ao catastr ófico governo de Isabel Petón antes do golpe militar
dc 1, 976 ,
Alfonsín conseguiu estabilizar a transição do pomo dc vis¬
ta institucional , más tropeçou nas duas principais questões her ¬

dadas do regime anterior : a económica e a militar. Nesta, ele


teve quç enfrentar fone reação militar, quando levou a julga ¬
mento os principais oficiais das For ças Almadas comprometi ¬

dos com a repressão e a aventura bélica nas ilhas Malvinas. Vá ¬

rias rebeliões militares tiveram que ser contidas cora grandes


mobilizações populares; frnalmente, Alfonsín acabou fazendo
muitas concessões aos militares e saiu enfraquecido desses epi ¬
sódios, sem contudo ter pacificado os quartéis, nem ter atendi ¬
do ãs reivindicações de jusdça por parte das organizações de
direitos humanos.
84
-
No f .iJjtto económico , a deteriorada situa ção argctiLirui
n -. m on iron Irou nenhuma terapia de lundu por part - do gover
; ¬

no, Hcmvc planeis económicos simikres ,ios hrapileims ames —



que os nossos , todos de efeito apenas imediato, sem poder
th. afctfir a crise prolongada cm que SC encontrava a economia
-
argenrí tiíL, Ne final de stai governo. Alfbns&t d ( brou o pa ís com
a maior crise social de sua história, alimentada por um descon ¬

trole que levoi . s Argentina à hi per in fiação e .1 uma onda dc


saques . Como resultado dessa situa ção, Allonsín acabou se reii
r á ndo do governo seis meses antes de remainar seu mandato ,

deixando um quadro explosivo pam seu sucessor, 0 peronista


Carlos Menem Idre . deito com o processo de reativação polui -
c ,i do país , lermii ou aplicando um Jiiísitco pbuiu recessivo
contra a inflaçã oj ao estilo l'Ml . somatido-se a onda neoíibcral
lati nó- americana .
De maneira ainda ma ís direta que em outnos países, a divi ¬
da cxLenia herdadg dos governos militares sabem , a transição
j

pqliL ícu argeòt í m 1 ) Partido Radical de fonsín ka derrotado


nas eleições seguintes, consolidando a regra acra! dos ú ltimos
anos no courtnentÈ em que o descontrole económico gerado
pêlo endivida men to externo impede qualquer governo dc cle ¬

ver- st. LI sucessor, perdendo itiejcó ravelmente para -i Oposição ,


-
como a conk ten na Argenrinn . no I ruguai not hile , no brasil ,

nu Equador, nu Peru e na Bolivia, em IV&9-9U

A nossa transição
Comparativauiente a i!o£ do t. . onc Sul , ,i
outros pa íses
ti':insiçã ditadura
á
n origin ria t í a miiit .ir no Brnsii rem umii pri
metra diferença importante O golpe de Estado que dc- u origetu
L-U H regime militar aconteceu antes que nus outros pa íses , em

duis sen Lidos ; em pikcieiro lugar, as forças de cuiilcslação ao


regime eram muito mats fracas entre- nós do qu: nj Argentina,
nó Chile e no Uruguai. A esquerda brasileira começava a dar
seus primeiros passos não tinha ainda uma atuação indepea
,
-
a;
1
dcmc dois outros partidos, dependendo em grande parte do
próprio aparelho de Estado . O golpe a vitimou quando ainda
começava n emergir cornu for ça política com peso próprio .
Foi tilais fácil para 2 ditadora, apos depurar o Legislativo e o
Judici áiio, conviver com des, sen: necessidade de fechá-los, como
aconteceu nos outros países do Cone Sul . N ão foi um sinal de
'‘liberalismo” do
regime militar , mas de fraqueza das forças demo
crí ticas e de ambiguidade acentuada dos liberais: aquelas pude-
rari 1 ser derrotadas mantendo-se a tachada das institui
,
ções e estes
,

compactuaram com o regime Jc torça.


Fm segundo lugar, ao dar o golpe dc 19f >4 . a grande bur ¬

guesia brasileira póde reurranjar a economia a seu feitio, con


undo ainda com o per íodo expansivo do capitalismo interna ¬

cional , que se encerrai ia de /, anos depois. Entre um momento ç


outro transcorreu uma conjuntura dc grande disponibilidade
internacional de capitais — os chamados “ eurodólares" — Je
que se valeu a economia brasileira para diversificar sua depen ¬
dência — aumentando a participação dc parceiros europeus ,
especial men te a Alemanha e japoneses — c para redefinir seu
,

lugar na divis ão internacional do trabalho como uma potência


intermediária emergente .
Tendo perdido - i chance dc lazer algo similar através do
regime militar instalado em 1966, a Argentina e, da mesma for ¬

ma o ( Ink : e o Uruguai , tiveram que lenrar reformular nuas


. .

economias , vukndo- se das ditaduras militares já no período de


,

recess ão internacional iniciado cm meados da d écada dc 70 .

Suas dificuldades foram muito maiores E o país que conseguiu



uma reformula ção — 0 Chile . alcançou-a num sentido re
gressivo, da dcsindtmriaiização interna e da adequação as ten ¬
¬

dências internacionais de total abertura ao mercado mundial,


deixando sua economia absoluta mente (ragílízada diame das
constantes oscilações deste
Ourro aspecto importante vinculado áo recem -menrio-
,

nado, tem a ver com a pol í tica cstadzante dos governos mili ¬

tares brasileiros, o que se explica iustamenre porque as pol í ti ¬

ca» fundamentais desses governos seguiram os cânones do pc -


m
r íodo anterior ao auge da abertura para os mercados imerna
cionais . Isso se- adequou tamhé m ã doutrina de seguran ça na
cions ], no sentido do papel estratégico atribu ído ao Estado, a
suas ind ú strias de base e à sua inaçã o de coordenador das pol í ¬
ticas nacionais.
Do lado da esquerda, a força relarivameme pequena que
ela possu ía no Brasil determinou também um destino diferente
no transcurso du regime militai . Toda a estrutura partid á ria,
assim como a sindical , nao sobreviveu ã ditadura. Os partidos
tinham pouco enraizamento na sociedade, eram basicamente
estruturas de cú pula , indefinidas ideologicamente, que gira ¬

vam em rorno do Estado e do Parlamento. Os sindicatos, orga ¬

nizados nos moldes propostos pelo gerulismo, segundo a Carta


do Trabalho de Mussolini, estavam atrelados ao Estado, me¬
diante o imposto sindical o direito de interven ção do Ministé
, ¬

rio du Trabalho , a proibi çã o de centrais sindicais, entre outras


normas restritivas. Quando o governo federal deixou dc patro ¬

ciná- las, essas estruturas ru í ram totalmente

Ua esquenta para a direita : o presidente da rgenf áia . Raul Afí onsin. o presi
^
dente do Brasil . Josê Harney e o presidente òo Uruguai Juiio Maria Sanauí -
,
¬

netti . durante um encontro no Palácio da Alvorada em S de abri < de 1983

87
Na Argentina , com um sindicalismo organizado a partir
das fábricas, foi possí vel a sobrevivência de toda a estrutura sin ¬

dical. inclusive da central sindical, o mesmo ocorrendo ítu Chi ¬


le e no Uruguai. Nesses três países os mesmos partidos deram
cuntinuidade ã vida política depois da ditadura , possibilitando
que as classes sociais — que têm nos partidos sua consciência

política - pudessem, com menor dificuldade, dar conl ít de sua
situa ção, de sua trajetória, de sua ídenridade.
Essa falta de continuidade da organiza ção social e política
marcou sempre 3 história brasileira, dificultando a identidade
das v á rias for ças que amam no pais. rravesiídas de caracteri ¬

za ções que pouco t êm a ver com sua prá tica real. Liberais, de ¬
mocrata s-cristãos, social -democratas, centristas

se assume como de direita, como conservador , embora eles
ninguém

tenham sc constitu ído cm maioria na vida partid ária do pais.


Mas um fenômeno mais de fundo renovou radical mente u
vida social e polí tica no brasil, em comparação com a dos ou ¬

tros pa íses , sob a ditadura militar. A enorme expansão econó


¬
mica imposta ao país exigiu deste um esforço extraordinário,
entre o que se conta uma supercxploraçâo dos trabalhadores,
uma brutal concentra ção de tenda, migrações internas inten ¬

sas. a criação de gigantescos conglomerados urbanos com con ¬


dições de vida deterioradas, uma polariza ção entre riqueza e
miséria como jamais o Brasil havia conhecido.
Uma das consequências disso foi o surgimento de um no¬
vo movimento oper á rio, produto da expansão da ind ústria em
seus pólos mais dinâmicos, bem como da necessidade de
reno¬
vação tio movimento sindical, depois da falência do sindicalis¬
mo getulista origin á rio do Estado Novo. Esse movimento sindi ¬

cal seria um dos eixos dt refundação da esquerda brasileira,


com estruturas enraizadas nas próprias empresas, com lideres
ligados às suas bases , portadores de reivindicações dassist&s e
de autonomia diante do Estado.
Outra delas foi a geração de uma esmttura social em que a
maioria esmagadora da popula ção vive em n íveis abaixo das
condições básicas de sobrevivência. Um país majority riameme
88
pobre habita a oitava economia do mundo capitalist. Ou. em
outras palavras, a superexploração transformou o Brasil num
elo explosivo do capitalismo latino-americano ao gerar contra ¬
dições sociais suscet íveis dc ser expressadas no plano político
por forças radicais, para o que basta que façam da justiça sodaJ
uma bandeira de lura que se choca fromalmente com a dinâ mi ¬
ca do capitalismo brasileiro .
O Brasil que sai da transição pol í tica herda pesadas cargas
do regime ditatorial que hipotecou o futuro do pais ao colocar
em pr á tica uma politics económica de favonccimenro do grande
capital monopolista e financeiro internacionalizado, em detri ¬
mento da grande maioria da população, que n ão tem atendidas
suas necessidades b á sicas de sobrevivência - O mercado extemo
c o interno de consumo supérfluo ocuparam o lugar da produ ¬
ção dos bens essenciais à enorme massa de pobres e miseráveis
que consriruem 8G% dos brasileiros.
As tutelas militar e financeira pendem sobre o país cómo
espadas que bloqueiam a instala ção de uma democracia política
c social no Brasil. O monopólio dos grandes meios de comuni ¬
cação por algumas fam ílias
. — Marinho, Bloch, Saad. Santos,
Frias Nascimenro Brito, Mesquita, Civiia — impede a livre
expressã o da heterogeneidade de interesses e opiniões existen ¬

tes no país, trabalhando na direção oposta, de impedir o desen ¬


volvimento da autoconsciência c dc uma visão critica e inde ¬
pendente por parte de amplos setores do povo. As condições
materiais miserá veis em que se encontram fazem com que as
grartdes maiorias gastem ioda sua energia na luta pela sobrevi ¬
vência dc suas fam ílias, amea çadas pela fome, pelas doenças,
pela violência , pelas arbitrariedades do Esrado, pela Justiça
cl assista, pda degra da ção material e moral a que o capitalismo
brasileiro condena quatro de cada dnco habitantes do pa ís.
Apesar de tudo, essas mesmas condições geraram , ao lon ¬

go do processo de Juta có ntra a ditadura c, depois, uo desenro ¬

lar de uma transição conservadora , consciência, organização e


iurça social c política pró prias por parte do povo. possibili ¬

tando lhe chegar aos anos 90 fortalecido: Essa força vem, cm


ÍÍ9
primeiro lugar , dc uma organiza ção sindical como nunca o país
havia conhecido. A Central Ú nica dos Trabalhadores ( CUT í .
que agrupa a maioria dos trabalhadores sindicalizados
— —
índice ainda baixo, inferior a 20 % , tem uma posição de in ¬
um

dependência diante da tutela tradicional das estruturas estatais


sobre o movimento sindical. F,la se fortaleceu no transcurso dos
anos de transição , deixando sua rival — Confederaçã o Geral

dos Trabalhadores (CGT ) dcbilitaila c dividida em duas cn -
tidad és , como uma organização secundária, devido a sua posi ¬

ção moderada e tendente ao acomodamento às estruturas do


Minist ério do Trabalho e ãs políticas económicas do governo.
Em segundo lugar, essa força vem dos movimentos sociais
surgidos durante a década, que se cristalizaram cm organiza ¬

ções dos sem -terra , dos sem-casa, de resistência ã destruição da


Amazônia e das reservas florestais e minerais do país, em movi¬
mentos agrupando os índios, oà negros , as mulheres, os homos ¬

sexuais — enfim, todos aqueles considerados minorias pol íticas


— consolidando um espaço próprio de luta e de organização. A
atuação dos setores progressistas da Igreja e dos sindicatos ru ¬

rais possibilitou que o processo dc consciemização e emancipa ¬

çã o dos historicamente relegados traballiadures do campo


avan çasse grandemenre nas áreas tradícionalmeme dominadas

pelo cadquismb Como o Nordeste, o interior da Bahia e de
Minas Gerais. A organiza çã o popular , no seu conjunto, se es¬
tendeu grandemente e assumiu formas próprias dc autonomia e
de expressão no campo pol ítico ,
Na luta política essa força se traduziu no fortalecimento
dos partidos, tanto maior quanto ma is eles se distanciaram e
criticaram as direções assumidas pela transição. Assim, o parti ¬
do que melhor captou a dinâmica da sociedade brasileira c as
ansiedades da maioria da popula ção íoi o PT, seguido pelo
PDT c depois pelo PSDB, as formações partidárias que saíram
ma is bem estruturadas do período de transição. No primeiro
turno das eleições presidenciais elas obtiveram, somadas, -Í2%

dos votos 16 % para cada uma das primeiras e 10% para o
PSDB. Elas expressam , com diferentes graus de discordância ç
yo
radical idade, a necessidade de transformações estruturais na
sociedade c no sistema pol ítico brasileiro, frustradas peto go ¬

verno Sarney , que privilegiem o ataque cfti suas raízes aus dese¬
quilíbrios sociais e à concentra ção de renda, que fazem do Bra ¬

sil o país SOCialmente mais injusto do continente.


O segundo lumo das eleições presidenciais dc 1989 foi
muito significativo porque os dois candidatos que chegaram

até ele — C.iollor de Mello e Luta representavam para a socie
dade a possibilidade de profundas mudanças no quadro poiíti
¬

co do pais. Os dois se apresentavam como alternativas de reuni ¬

ficação de um país fragmentado c contraposto nos interesses de


seus vá rios setores, requerendo um governo fone, que atuasse
com grande presteza na direção de uma nova unidade nacional.
Mas as tõrmas propostas para essa reunifica çã o eram to-
.
ralnrentc distintas. Collor sc propunha a fa/c-la dc cima de um
Estado revigorado por uma a ção autorit ária e personalizada do
presidente, cuja melhor expressão seria a de um governo Bona ¬

partism, que aparece tomo sc pairasse acima das ciasses sociais


c de seus conflitos de interesses para melhor representar as clas
¬

ses dominantes O ad ágio “ É preciso que rudo mude para que


,

tudo siga igual", tomado famoso por um personagem literário


aristocrata do sul da Itá lia no final do século passado — num
livro escrito pelo pr íncipe Tumasi di Lampedusa, chamado O
íenpardft ( U gattaparão , no original } — . parece traduzir de tur
¬

ma mais fiel o projeto dn governo que herds a transição conser ¬

vadora dirigida por José Síimcy .


A outra possibilidade de reunificação nacional pretendia
COnstru í - la de baixo para cima , das bases da socicJade para o
Estado, apoiada na organização e consciência dos indivíduos,
elevados à condição dc cidadãos. Nunca, como no inicio da di ¬

tadura militar , essa possibilidade pareceu tão longínqua para o


povo brasileiro. Nunca , como no final da transiçã o que levou
;to fim daquele regime , essa possibilidade pareceu
rão pr
óxima.

9!
Conclusão

História sem final


jomo toda história viva , feita pelos homens <Je carne e
osso, esta também é uma hist ória sem final , cuja conti
¬

nuidade depende de todos. Para que cada vez mais ela possa ser
feita por homens e mulheres conscientes de si mesmos, de sais
direitos c deveres com a humanidade, a compreensão do trecho
andado é indispensá vel.
Para concluir provisoriamente este livro, nada melhor do
que unta cita ção do poeta e leatrõlogo alemão Bertolt Brecht:
thE agora que vocês viram no que a coisa deu ,
jamais esqueçam como foi que tudo começou” .

Bibliografia

DREIFUSS, René Armand, 1 lJ64. a conquista do Estado. Petró-


pólis, Vozes, 1986.
FERNANDES, Florestan . À Constituição inacabada. SSo Pau ¬

lo, Hstação Liberdade. 1989 ,

Nova República? Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,


1987 ,
SKIDMORE, Thomas. Brasil de Castelo a Taneredo São Paulo,
Paz e Terra . 1988.
Brasil de Getúlio a Castelo. São Paulo, Paz e Terra,
1985. 1
2
92
A TRANSI ÇÃ O NO BRASH
'‘Os cem anos da República
no Brasil foram caracierizados
como a mats longa parada mili ¬

tar que o país já conheceu . A


hist ória política brasileira tem
sido uma longa cadeia de acon¬
tecimentos articulados entre st
por pactos de elite, fiados pela
for ça militar. A decantada capa¬
cidade brasileira de resolver
mediante acordos os conflitos
tem um preço — a nào- resolu ¬

ção doí problemas de fundo


do país , cujas vitimas são a
maioria esmagadora da popula ¬

ção, excluída dos direitos bási ¬

cos de cidadania.
Mais do que isso: a falia de rup-
( Uras implica afalta de identida ¬

de. Fait a de identidade nacio ¬

nal , das ciasses sociais , dos ato¬


res políticos — j á que a identi
dade, de um indivíduo ou de
¬

uma naçào , surge dos proces ¬

sos de ruprura, de contraposi ¬


ção ao outro. ”

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ATUAL
EDITORA
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