Você está na página 1de 12

PRÁTICAS DE LETRAMENTO CIENTÍFICO:

Um estudo de caso no curso de Engenharia de Energias na UNILAB

Claudio Henrique Victor Porto. (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia


Afro-Brasileira).

Maria Cristiane Martins de Souza. (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia


Afro-Brasileira – UNILAB).

José Cleiton Sousa dos Santos. (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia


Afro-Brasileira – UNILAB).

RESUMO

Na formação acadêmica, a compreensão da linguagem científica está muito envolvida à


prática social de um grupo, propiciando não somente o entendimento do vocabulário técnico,
mas destaca a perícia na formação de opinião, compreensão e defesa coerente mesmo em
contextos informais. Dessa forma, pode-se chamar de letramento científico a prática da
compreensão, decodificação e transmissão de códigos que envolvem o cotidiano científico e
o mundo natural. O presente trabalho apresentará o estudo realizado quanto o letramento
científico de estudantes do curso de Engenharia de Energias da UNILAB matriculados na
disciplina de Laboratório de Química I. Por se tratar de um estudo de avaliação da escrita
científica com estudantes na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-
Brasileira, deve ser compreendido que a Instituição recebe estudantes estrangeiros
pertencentes a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP –, cujas normas técnicas
de formatação de trabalhos científicos divergem dos regulamentos brasileiros. No início das
aulas, foram realizados palestras e acompanhamentos para elaboração de trabalhos
acadêmicos. Ao fim da disciplina foi entregue aos estudantes um questionário que deveriam
avaliar a qualidade do roteiro; se a disciplina incentivou à pesquisa; se houve relação nos
conteúdos entre as aulas práticas e as teóricas, sobre o relacionamento entre alunos, monitores
e técnicos e, por fim, eventuais queixas. Durante as atividades foi possível analisar melhoria
na capacidade de interpretação de textos científicos. O relatório possibilitou o
desenvolvimento de competências, destacando a capacidade de contextualizar problemas,
levantar e discutir hipóteses, planejamento estratégico, interpretação de dados e melhoria na
comunicação acadêmica.

PALAVRAS-CHAVE: Letramento Científico; Escrita; Engenharia de Energias; Práticas


Pedagógicas; Relatório.

ABSTRACT
In academic formation, the understanding of scientific language is very involved in the social
practice of a group, not only providing an understanding of the technical vocabulary, but also
emphasizing expertise in forming opinion, understanding and coherent defense even in
informal contexts. In this way, one can call scientific literacy the practice of understanding,
decoding and transmitting codes that involve scientific everyday and the natural world. The
present work will present the study carried out regarding the scientific literacy of students of
the course of Energy Engineering of UNILAB enrolled in the discipline of Laboratory of
Chemistry I. Because it is a study of evaluation of scientific writing with students at the
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, it should be
understood that the Institution receives foreign students belonging to the Community of
Portuguese-Speaking Countries (CPSC), whose technical standards for formatting scientific
papers differ from Brazilian regulations. At the beginning of the classes, lectures and follow-
ups were held to prepare academic papers. At the end of the course students were given a
questionnaire that should evaluate the quality of the script; whether discipline encouraged
research; if there was a relation between the practical and theoretical classes, the relationship
between students, monitors and technicians, and finally, any complaints. During the activities
it was possible to analyze improvement in the ability to interpret scientific texts. The report
enabled the development of competences, highlighting the ability to contextualize problems,
raise and discuss hypotheses, strategic planning, data interpretation and improvement in
academic communication.
KEY WORDS: Scientific Literature; Writing; Energy Engineering; Pedagogical practices;
Report.

1 INTRODUÇÃO

No decorrer da formação acadêmica, a forma como a linguagem científica é utilizada


está muito vinculada à pratica social de um grupo, permitindo que o indivíduo não somente
entenda as terminologias técnicas, mas permitindo que este adquira a habilidade de formar e
modificar opiniões, compreendê-la e defendê-la congruentemente mesmo em contextos pouco
formais (SHAMOS, 1995). Assim, pode se denominar Letramento Científico (LC) como a
prática da compreensão, decodificação e transmissão de conteúdos que envolvem as
atividades cotidianas relacionadas às práticas científicas e do mundo natural (CHASSOT,
2003).

O ensino aplicado desde a formação inicial busca concatenar os conhecimentos


científicos como objetos neutros, o que causa uma descontextualização do valor social, de
forma que prejudica a capacidade da população em discutir os assuntos levantados em sala de
aula e confrontá-los com a realidade de sua sociedade. A desvinculação do conhecimento ao
seu fator natural enaltece a restrição do conteúdo científico a meios acadêmicos, excluindo a
sua presença em atividades rotineiras (SANTOS, 2007).

A respeito dos processos de ensino, Soares (1998) afirma que a segregação do


conhecimento fragmenta o significado de ser alfabetizado, o que torna ainda mais restrito o
processo de aprender a ler e escrever, enquanto o letramento não propõe somente um estado
ou condição passiva quanto o desenvolvimento da capacidade descritiva e de leitura, mas
permeiam em práticas sociais que usam a escrita, auxiliando-os na interpretação de textos.

No Brasil, a demanda de avanços em ciências e tecnologias tem sido o desafio que as


Instituições de Ensino Superior – IES – vêm enfrentando, de forma que estas, têm buscado
novas metodologias que remetam a uma maior qualidade na profissionalização de seus
estudantes para sua futura atuação no competitivo mercado de trabalho. As suas periódicas
reformas, que possuem o intuito de sanar essas questões, não têm sido totalmente eficientes,
principalmente pela a acumulação de conteúdos durante a grade curricular de seus discentes,
como se tais práticas garantissem que um amplo conhecimento teórico é o principal fator para
a formação de um profissional eficiente e qualificado.

No Parecer do CNE/CES nº 1.362/2001 são apontadas as diretrizes que norteiam para


as IES na elaboração e manutenção de cursos como de Engenharias em todo o território
nacional. Dessa forma, vários autores (HAWKES, 2004; ANDRADE; DINIZ; CAMPOS,
2011; BORGES, 2011; SATO, 2011) afirmam e reiteram suas expectativas com a
implementação de novos modelos de práticas educacionais. Dentre estas, destacam-se o uso
de estratégias de ensino diversificadas que possam auxiliar na superação dos obstáculos das
atividades didáticas.

Dentre os conceitos aplicados, destacam-se as disciplinas práticas, que são obrigatórias


durante sua permanência no curso, que possuem a intenção de projetar os conhecimentos
científicos, tecnológicos e instrumentais indispensáveis para todas as modalidades de
engenharia dentro da grade curricular dos discentes (SATO, 2011). Comumente em cursos de
engenharias, a avaliação destas disciplinas é feita a partir de relatórios de prática, exigindo do
estudante ser capaz de transmitir de forma apropriada os conhecimentos teóricos aplicados na
prática, além de comunicar-se eficientemente na modalidade escrita.

A formação dos estudantes dentro do laboratório didático proporciona uma construção


tangível do conhecimento ensinado em sala de aula, já que o discente passará a relacionar e
compreender as leis e fenômenos descritos em livros e materiais de apoio de forma mais
dinâmica, passando a interagir e a executar processos que comprovem ou refutem a literatura.
O ambiente laboratorial propicia aos estudantes que “testem suas hipóteses, indagações e
curiosidades e que façam uso de sua criatividade, transformando assim o laboratório didático
em um ambiente em potencial para o desenvolvimento de uma cultura científica”
(ANDRADE, LOPES E CARVALHO, 2009, p. 2).

Como citado anteriormente, o trabalho experimental ou relatório de prática são


ferramentas comuns na avaliação do conhecimento obtido, no qual deve conter a teoria, a
problemática, a metodologia, os resultados e as conclusões ao fim do experimento. O relatório
é, ainda, um método de avaliar o conhecimento desse aluno sobre a sua capacidade de produzir
textos científicos, buscando alargar as alternativas fazendo a utilização desse saber na forma
destes estudantes de descreverem o universo (SANTOS, 2007). Nesse sentido, Porto, Souza e
Santos (2017) discutem a metodologia das aulas laboratoriais.

As aulas laboratoriais são comumente disseminadas de modo descritivo-


reprodutivo, seguindo roteiros que são semelhantes à receitas, no qual o
discente não está ativamente envolvido com a construção do conhecimento,
se concentrando apenas em repetir os passos do roteiro de prática
mecanicamente e, assim, não conseguindo analisar os resultados e assimilar
valores que os ligam a teoria, de modo que passa a não atender às
expectativas e interesses. Este tipo de abordagem acaba por distorcer a visão
do aluno quanto a evolução do pensamento científico, caracterizada por um
‘indutivismo ingênuo’ proporcionando um baixo retorno de conhecimento
considerando a proporção de tempo e esforço investido pelos alunos,
professores e técnicos (p. 404).
Dessa forma, por muito tempo, a aprendizagem estava baseada na capacidade de
memorização e repetição dos saberes repassados pelos seus tutores. A culpa, quando o
conteúdo não era compreendido pelo discente, era unicamente do aluno por não ser capaz de
aprender. O modo como o professor ensina, até hoje, está muito relacionado com sua formação
inicial e à influência dos livros de texto que utiliza enquanto orientador, como os materiais
que lhe foram indicados durante sua vida acadêmica. Quanto a isso, Libâneo (2003) afirma
que

A formação de uma comunidade de aprendizagem requer a adoção de uma


estrutura organizacional e processos de gestão que valorizem a participação,
mas também o desenvolvimento de competências de todos os membros
[...]especialmente, requer dos dirigentes capacidade de liderar e gerir
práticas de cooperação entre os membros do grupo (p. 10).
Cooperando com as informações acima citadas, a Pré-proposta da Câmara de
Graduação da UFMG denominada “Flexibilização curricular na UFMG” (2009) quanto as
práticas de replicação nas atividades laboratoriais e o uso de práticas-pré-definidas afirma que:

As aulas constituem o processo no qual o Professor estuda e, na melhor das


hipóteses, recria e reinterpreta o conhecimento para, então, repassá-lo ao
aluno. Esse processo é seguramente uma alternativa válida e legítima de
ensino. Constitui, no entanto, o método dominante em alguns cursos,
transformando o aluno em elemento passivo da aprendizagem. O aluno não
é estimulado a exercer sua capacidade de compreensão, estruturação dos
problemas, nem a buscar, sozinho, soluções. O exercício da reinterpretação
e do olhar crítico chega a ser inibido [...] na atual concepção, mesmo a aula
prática é concebida apenas para conectar o pensar ao fazer. É apresentada
como a execução de um experimento, sem a opção de discussão de sua
representatividade, ou da recolocação de novas soluções. O aluno não é,
portanto, levado, de uma forma acadêmica e pedagogicamente elaborada, a
trabalhar o conhecimento com o objetivo de: desenvolver sua capacidade de
estruturar e buscar soluções alternativas às propostas; ter um pensamento
independente; contextualizar problemas (Flexibilização curricular na
UFMG, 2009, apud, PORTO; SOUZA; SANTOS, 2017).
Com isso, os autores discutem o conhecimento dos problemas e a falta de condições
que possibilitem a comunidade acadêmica transpor as atuais limitações, denotando a falta de
investimentos em educação experimental.

Com o intuito de oferecer subsídios metodológicos para o ensino de formatação de


trabalhos acadêmicos aos estudantes ingressos no curso de Engenharia de Energias – antes da
disciplina de Metodologia do Trabalho Científico –, foram utilizadas as atividades de
monitoria da disciplina de Laboratório de Química I como objeto da presente pesquisa.

2 CARACTERIZAÇÃO DA INSTITUIÇÃO

Em 20 de julho de 2010, o Presidente da República sancionou a Lei nº 12.289


instituindo a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
(UNILAB), como uma autarquia federal, com sede administrativa em Redenção/CE. A
UNILAB nasce baseada nos princípios de cooperação solidária e tem como objetivo contribuir
com a internacionalização do ensino, promovendo a integração do Brasil e os países
pertencentes a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), e propiciando o
desenvolvimento e crescimento regional, além das trocas de experiência, relacionando os
conhecimentos culturais, científicos e educacionais (UNILAB, 2013).

No gráfico 1, podemos ver a distribuição de estudantes brasileiros e estrangeiros na


instituição.

Gráfico 1: Distribuição dos estudantes de graduação na modalidade presencial.


3000 2,964
2750
Quantidade de estudantes

2500
2250
2000
1750
1500
1250
1000
750 622
500 151
250 91 32 0 84 51
0

Fonte: UNILAB (2017)


De acordo com os dados do gráfico 1, é possível denotar que há 3995 estudando
presencialmente entre os campis das Auroras e da Liberdade em Redenção, no campus dos
Malês em São Francisco do Conde e na Unidade Didática dos Palmares em Acarape.

2.1 Caracterização da Turma

Por se tratar de um estudo de avaliação de escrita científica na UNILAB, deve ser


compreendido que a instituição recebe estudantes estrangeiros cuja nacionalidade seja
pertencente a CPLP, dentre esses, a República de Angola, a República Federativa do Brasil,
a República de Cabo Verde, a República da Guiné-Bissau, a República de Moçambique,
a República Democrática de São Tomé e Príncipe e a República Democrática de Timor-Leste.
A turma que recebeu a monitoria possuía 63 estudantes do curso de Engenharia de
Energias da UNILAB matriculados na disciplina de Laboratório de Química I, esta alocada
no primeiro semestre. Entre os 63 cadastrados, 51 responderam o questionário de acordo com
a gráfico 2.

Gráfico 2: Nacionalidade dos estudantes entrevistados.

0% ANGOLANOS
BRASILEIROS
CABO-VERDIANOS
19%
GUINEENSES
55% 45% 10%
0% MOÇAMBICANOS
8% 0% OUTROS
8%
PORTUGUESES
SÃO-TOMEENSES

Fonte: Elaboração própria.

Mesmo com um grande número de estrangeiros mostrados no Gráfico 2, no que diz


respeito ao letramento científico, o presente estudo não tem interesse na respectiva
nacionalidade desses estudantes, mas na propagação do conhecimento. O grupo que aceitou
participar voluntariamente da entrevista foi avaliado a partir da nota de avaliação dada pelo
professor da disciplina.

3 METODOLOGIA

Foi escolhida a disciplina de Laboratório de Química I, principalmente por ser o


primeiro momento em que o estudante de Engenharia de Energias da UNILAB realiza
atividades dentro laboratório de química durante sua graduação. Era parte da metodologia
pensada pelo professor, instruí-los sobre o letramento científico, possibilitando um
crescimento acadêmico palpável durante o andamento do projeto.

Antes do começo das atividades dentro do laboratório, o professor disponibilizou o


roteiro de práticas que os alunos deveriam trazer a todas as aulas e seguir os passos
determinados pelos procedimentos. Neste roteiro eram definidos os objetivos e resultados que
deveriam ser alcançados. Todas as aulas durante esse semestre contaram com a presença dos
monitores da disciplina teórica e da prática, que no decorrer da aula, se dispunham a ajudar os
estudantes em eventuais questionamentos durante a execução do experimento. Ao fim da
primeira aula, para cada turma, foram realizadas palestras com o monitor da disciplina de
laboratório, que apresentou aos estudantes as normas da ABNT e sobre elaboração do relatório
de prática, escolhido como ferramenta avaliativa do professor.

Após a entrega do primeiro relatório, o professor os corrigia e devolvia aos discentes


com a revisão dos erros e acertos. Os dados coletados pelo professor eram repassados ao
monitor, que, com a análise das correções, elaborava um novo acompanhamento grupal, onde
justificava e mostrava modos de resolver os equívocos mais comuns cometidos, assim eram
passadas mais orientações. Em casos pontuais, foram necessárias orientações individuais.
Após a entrega do segundo relatório, os erros eram menos decorrentes e por conta disso, as
orientações se tornaram em sua maioria individuais, ou para os grupos que compunham a
equipe que elaboravam o relatório, com o objetivo de solucionar dúvidas específicas e definir
padrões.

Ao fim da disciplina os estudantes receberam um questionário em que deveriam se


identificar e informar seu país de origem como é possível ver na figura 1.
Figura 1: Avaliação e resposta dos questionários.

Fonte: Acervo pessoal.

O questionário avaliava as perguntas de 1 a 5, onde 1 significava “totalmente


insatisfeito” e 5 “totalmente satisfeito” quanto a quatro pontos: qualidade do roteiro, se surgiu
incentivo à pesquisa após a execução da disciplina ou se as aulas os instigaram a buscar mais
informações para elaboração de experimentos, se houve relações entre as prática e a teoria
estudada em sala de aula e, por fim, sobre o relacionamento entre monitores e técnicos para
com os alunos eram relativamente bons e eventuais queixas.

É válido ressaltar que o presente trabalho tem o interesse de analisar somente o


processo de letramento científico ao avaliar os dados repassados pelo professor ao corrigir os
relatórios e se é possível analisar um crescimento na capacidade descritiva dos estudantes ao
longo das atividades desenvolvidas tanto em sala de aula como extracurricularmente.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Com o início das atividades foi perceptível uma relutância por parte de muitos
membros da turma quanto ao comparecimento à palestra de Formatação de Trabalhos
Acadêmicos dirigida pelo monitor da disciplina, o que causou uma grande desuniformidade
de modelos no primeiro relatório de prática. Após a entrega do primeiro relatório e sua
eventual devolução com as pertinentes correções, houve uma maior procura por parte dos
estudantes às atividades promovidas que buscavam sanar dúvidas quanto a execução e a
formatação exigida.
O número de discentes presentes durante o segundo encontro foi muito superior se
comparada com o primeiro, o que resultou em um aumento considerável na qualidade dos
relatórios entregues e nas notas atribuídas à segunda avaliação. A partir desse momento, as
atividades passaram ter um caráter mais particular, buscando resolver problemas de forma
individual para a resolução do terceiro relatório. Nestes encontros foram apresentados alguns
modelos de programas para criação de gráficos e referências, o que proporcionou um resultado
significativo, principalmente de notas ótimas se comparado com a anterior, como pode ser
visto na Tabela 1.

Tabela 1: Média da turma a cada relatório.


RELATÓRIOS MÉDIA DA TURMA
1 7,58 ± 1,63
2 8,24 ± 1,00
3 8,53 ± 1,22
Fonte: Elaboração própria.

Durante as atividades houveram dificuldades por parte de alguns estudantes


estrangeiros quanto a colaboração, já que, em sua grande maioria, se reuniam e faziam
trabalhos em grupos entre seus compatriotas, de forma que toda a equipe chegava a não
participar das atividades, e, em casos extremos, não se submeter às mudanças nos critérios de
avaliações a qual estão acostumados, principalmente no que diz respeito a formatação de
textos para o modelo da ABNT, o que prejudicou em suas avaliações, como pode ser visto no
gráfico 3.

Gráfico 3: Caracterização das médias e o desvio padrão da turma.


10
9.5
9
8.5
8
7.5
7
6.5
6

Fonte: Elaboração própria


Ao final das atividades da disciplina, os estudantes foram convidados a comparecer
voluntariamente para a realização do questionário, onde deveriam: se identificar e definir o
quão satisfeitos estavam em relação a qualidade do roteiro; o quão se sentiu motivado a
participar de pesquisas científicas durante a disciplina; se havia relações entre as disciplinas
de laboratório e a teórica e se era possível aproveitar os conhecimentos adquiridos uma na
outra; e, por fim, se a participação do professor, monitores e técnicos antes, durante e depois
das atividades letivas eram positivas, além das eventuais queixas quanto a disciplina e demais
fatores que a envolvem. Os dados obtidos foram demonstrados na tabela 2.

Tabela 2: Resultados do questionário respondido pelos alunos.


TÓPICOS MÉDIA
AVALIAÇÃO DO 4,57 ± 0,47
ROTEIRO
INTERESSE CIENTÍFICO 4,07 ± 0,83

RELAÇÃO TEORIA- 4,14 ± 0,58


PRÁTICA
RELAÇÃO PROFESSOR- 4,65 ± 0,49
MONITOR-TÉCNICO
Fonte: Elaboração própria
Por se tratar de uma Universidade com formação recente, parte da estrutura ainda está em
construção, e, diferente de outras instituições que estão no mercado a mais tempo, são poucos
os laboratórios disponíveis para uso. Além disso, os laboratórios possuem alta demanda para
aulas, pesquisas científicas e atividades que envolvam esse espaço, o que não favorece a
sincronização dos conteúdos da disciplina prática e teórica, fazendo com que esta fosse uma
das as queixas mais comuns entre os estudantes. Quanto as relações interpessoais – alunos,
monitores, técnicos e professor – não houveram queixas metodológicas e o interesse
científico, dentre os demais dados, foi levantado como o ponto menos relevante dentro das
atividades executadas, de acordo com os alunos. Mas é necessário se levar em conta que a
disciplina de Laboratório de Química I é o primeiro contato desses estudantes com um local
de atividades práticas, que, neste caso, são mais simples de fazer e executar que as demais
disciplinas práticas dessa área.

5 CONCLUSÕES

Este trabalho levantou algumas questões quanto à prática do Letramento Científico de


estudantes no curso de Engenharia de Energias na UNILAB. Os meios utilizados durante o
andamento das atividades buscaram desmistificar a “falta de necessidade” de saber escrever
em engenharia, o que em muito dificulta o entendimento dos discentes na escrita acadêmica e
compreensão de textos técnicos.
Conclui-se que, proposta uma nova metodologia de adaptação à vida universitária,
seria conveniente que houvesse uma preparação a respeito das Normas Técnicas para escrita
científica nos primeiros períodos letivos dos estudantes, buscando uma melhor integração
destes ao meio acadêmico. A falta de incentivo das instituições de ensino – desde a educação
básica – provocou uma maior rejeição dos conteúdos pertinentes ao LC pelos discentes,
levando em conta a crença que “o aluno de engenharia só tem que saber calcular”.
Com o desenvolver das atividades foi notável o engajamento dos participantes e o
crescimento de suas capacidades em escrever e interpretar textos científicos. O relatório de
prática possibilitou o desenvolvimento das competências de escrita, interpretação e
apropriação do conteúdo, destacando a capacidade de contextualizar os problemas, levantar e
discutir hipóteses, além de planejamento estratégico. Foi notado, ainda, que uma presença
mediadora, como a de um monitor, evidencia o trabalho do professor, servindo como uma
ponte entre a relação professor-aluno.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, S. T. Relato de uma experiência: recuperação e cadastramento de resíduos dos


laboratórios e graduação do instituto de química da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Química Nova, Vol. 24, No. 3, 419-423, 2001
ANDRADE, J. A. N., LOPES, N. C., CARVALHO, W. L. P. Uma análise crítica do laboratório
de Física: a experimentação como ferramenta para acultura científica. In: VII Encontro
Nacional de Pesquisadores em Educação em Ciências, 2009, Florianópolis-SC. Anais do
VII ENPEC. Belo Horizonte - MG: UFMG/UFSC, 2009.
ANDRADE, C. A., DINIZ, L. G., CAMPOS, J. C. C. Uma metodologia de ensino para
disciplinas de laboratório didático. Revista Docência do Ensino Superior, v. 1, 2011
BRASIL. Ministério da Educação (MEC). MEC/CNE, Diretrizes Curriculares Nacionais dos
Cursos de Engenharia, Parecer CNE/CES 1.362/2001 de 12/12/2001, publicado no Diário
Oficial da União de 25/2/2002.
BORGES, A. T. Novos Rumos para o laboratório escolar de ciências. Caderno Brasileiro de
Ensino de Física, v. 19, n. 3, 2002.
CHASSOT, A. I. Alfabetização científica: uma possibilidade para a inclusão social. Revista
Brasileira de Educação, São Paulo, v. 23, n.22, p. 89-100, 2003.
HAWKES S. J. Chemistry is NOT a laboratory science, Journal of Chemical Education, v.
81, n. 9, p.1257, 2004.
KIRSCHNER, P. A., MEESTER, M.A.M. The laboratory in higher Science education,
problems, premises and objectives, Higher Education, v. 17, 81-98, 1988.
LEITE, L. Contributos para uma utilização mais fundamentada do trabalho laboratorial no
ensino das ciências. In: CAETANO, H. V.; SANTOS, M. G. (Org). Cadernos Didácticos de
Ciências, Lisboa: Departamento do Ensino Secundário, 2001 p. 79-97.
LIBÂNEO, J. C. O Ensino de graduação na universidade – a aula universitária. 2001.
Disponível em <http://www.ucg.br/site_docente/edu/libaneo/pdf/ensino.pdf>. Acesso em: 04
abr. 2017.
LIBÂNEO, J. C. O ensino de graduação na universidade - A aula universitária na perspectiva
da teoria histórico-cultural. In: XI Semana de Planejamento Acadêmico Integrado da
UCG, 2003, Goiânia -GO, 2003.
PORTO, C. H. V.; SOUZA, M. C. M.; SANTOS, J. C. S. Educação científica na perspectiva
de Letramento: Um estudo de caso no curso de Engenharia de Energias. In: SILVA, G. C. et
al. (Org) Ensino, Pesquisa e Extensão na UNILAB: Caminhos e perspectivas. Fortaleza:
Expressão, 2017. p. 404-415.
PSILLOS, D. & NIEDDERER, H. Issues and questions regarding the effectiveness of
labwork. In: PSILLOS, D. & NIEDDERER, H. (Ed.). Teaching and learning in the Science
laboratory. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2002. p. 21-30.
SANTOS, W. L.P. Educação científica na perspectiva de letramento como prática social:
funções, princípios e desafios. Revista Brasileira de Educação. v. 12 n. 36 set./dez. 2007
SATO, M. S. A aula de Laboratório do Ensino Superior de Química – São Carlos –
Dissertação – Universidade de São Paulo. Instituto de Química de São Carlos, 2011.
SHAMOS, M. H. The myth of scientific literacy. New Brunswick: Rutgers University Press,
1995.
SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. UNILAB: Caminhos
e Desafios Acadêmicos da Cooperação Sul-Sul / Universidade da Integração Internacional
da Lusofonia Afro-Brasileira; organizado por Camila Gomes Diógenes e José Reginaldo
Aguiar. – Redenção: UNILAB, 2013.