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O capítulo onze de Daniel cobre com detalhes o longo período da história greco-romana, mas

este não pode ser o tema de todo o capítulo. Essa última visão tem mais relação com o tempo
do fi m que as anteriores. Respeitando a ordem progressiva do livro de Daniel, perguntamos: o
que Deus nos reserva nesta última visão? Uma simples repetição da história? Certamente que
não. Daniel onze revela uma incontestável progressão no tempo, uma “prolongada guerra”
(Daniel 10:1); um tempo que ultrapassa o ano de 1844, essa é uma profecia para o tempo do fi
m: “Agora vim para fazer- te entender o que há de suceder ao teu povo nos últimos dias;
porque a visão se refere a dias ainda mui distantes” (Daniel 10:14). A visão do capítulo onze
de Daniel foi mencionada em 1904 no livro Testemunhos Seletos, vol. 1: “A profecia do
capítulo onze de Daniel atingiu quase o seu cumprimento fi nal. Logo se cumprirão as cenas de
perturbação das quais falam as profecias.”1 Essa declaração fortalece a idéia de que o
cumprimento fi nal de Daniel onze diz respeito ao “tempo do fi m”, um tempo posterior ao ano
1904. Aplica-se, com certeza, aos nossos dias quando será imposta a “abominação
desoladora”.

Qual é essa “abominação desoladora?” Com que intensidade ela atingirá os santos do
Altíssimo? Essas perguntas serão respondidas nos capítulos que se seguem.

“A linguagem de Daniel 11 é considerada literal, no sentido de não ser simbólica na


modalidade em que o é a linguagem dos capítulos 2, 7 e 8. Aqui não existem imagens
formadas por múltiplos elementos, nem bestas ou chifres.”1

DANIEL 11: 1-2

Deve-se notar que esse capítulo é do mesmo ano do capítulo nove, quando Gabriel fora
enviado a Daniel para fazê-lo entender a visão dos 2.300 anos de Daniel 8:14. A visão do
capítulo onze foi dada no primeiro ano de Dario, o medo, mas o rei dominante era Ciro, rei dos
medos e persas. Esta informação nos ajuda a entender por que Dario se demonstrou tão
amigo de Daniel. O anjo Gabriel estava junto do rei para animá-lo e fortalecer. “O reino de
Dario foi honrado por Deus. Foi-lhe enviado o anjo Gabriel para animá-lo e fortalecer. Após sua
morte, cerca de dois anos depois da queda de Babilônia, Ciro o sucedeu no trono.”1 Três
outros reis surgiriam na Pérsia depois de Ciro, e o quarto seria cumulado de grande riqueza:

• Cambises, filho de Ciro (530 a 522 a.C.);

• Falso Smerdis, o impostor que governou por sete meses, (522 a.C.);

• Dario I, conhecido por Dario, o Grande, (522 a 486 a.C.), ele emitiu um decreto para
reconstruir o templo (Esdras 6:14);

• Xerxes, o Assuero, do livro de Ester (486 a 465 a.C.)

Xerxes, conhecido pelos judeus como Assuero, destaca-se como o último rei persa
mencionado em Daniel 11. Durante o seu reinado saiu um decreto de morte contra todos os
judeus. A rainha Ester era uma judia, e por meio dela Deus interveio e Seu povo foi poupado. O
fi lho de Xerxes e de Ester, Artaxerxes, um rei persa que possuía sangue judeu nas suas veias,1
foi quem emitiu o terceiro e último decreto para “restaurar e reconstruir Jerusalém” (Esdras
6:14; 7:7-8; Dan. 9:25), no ano 457 a.C

DANIEL 11: 3-4

Alexandre, o Grande, impõe-se como o poderoso rei que derrotou a Medo-Pérsia (Granico 335
a.C.; Issus 333 a.C.; Arbela 331 a.C.), e estabeleceu o Império da Grécia. Alexandre pode ter
sido um general capaz, mas, na perspectiva bíblica, ele foi favorecido pelo fato de que Deus
estava contra a Pérsia. Quando Alexandre construiu Alexandria, no Egito (331 a.C.), ele
encorajou os judeus para se estabelecerem ali dando-lhes privilégios comparáveis aos dos
gregos. Anos mais tarde sob o rei grego Ptolomeu II, setenta eruditos judeus em Alexandria
traduziram o Antigo Testamento hebraico para o grego. Essa tradução foi mais tarde chamada
de LXX ou septuaginta.

A auto-deificação de Alexandre sinalizou um prenúncio de que ele criaria sérios conflitos com o
povo de Deus, que dentro do seu domínio iria se recusar a adorá-lo como deus. A providência
divina rapidamente interveio. Alexandre, no auge da sua força, morreu, exatamente quando
estava em Babilônia (323 a.C.)2 sonhando em fazer dessa cidade o centro do seu domínio
universal. Alexandre antes de morrer lamentou por não haver mais cidades para conquistar.
Como Alexandre não tinha herdeiro, a Grécia foi dividida entre seus quatro generais:

• Lisímaco em 301 tomou o Norte;

• Ptolomeu tomou o Sul;

• Seleuco ficou com o Leste;

• Cassandro ficou com o Oeste.

Esses quatro generais foram mais tarde reduzidos a três, pois, Seleuco derrotou Lisímaco e
ampliou seus domínios, tornando- se então o rei do Norte, enquanto Ptolomeu no Egito era o
rei do Sul.

DANIEL 11: 5-13

5 “E se fortalecerá o rei do Sul (Ptolomeu), e um de seus príncipes (Seleuco I); e este se


fortalecerá mais do que ele, e reinará, e domínio grande será o seu domínio,

6 Mas ao cabo de anos, eles (Antíoco II e Ptolomeu II) se aliarão; e a filha do rei do Sul casará
com o rei do Norte para estabelecer uma concórdia; mas não conservará a força do seu braço;
nem ele persistirá, nem o seu braço, porque ela será entregue, e os que a tiverem trazido, e
seu pai, e o que a fortalecia naqueles tempos.

7 Mas do renovo das suas raízes um se levantará em seu lugar (Ptolomeu III), e virá com o
exército, e entrará nas fortalezas do rei do Norte (Antíoco II), e operará contra elas, e
prevalecerá.

8 “E também os seus deuses com a multidão das suas imagens, com os seus vasos preciosos de
prata e ouro, (Ptolomeu III) levará cativos para o Egito; e por alguns anos ele persistirá contra o
rei do Norte.

9 Mas depois este (o novo rei do Norte, Seleuco II) entrará no reino do rei do Sul, e tornará
para a sua terra.

10 “Mas os seus filhos (os dois filhos de Seleuco II, isto é, Seleuco III, que foi assassinado após
um curto reinado de 225 a 223 a.C., e Antíoco III, o Grande, de 223 a 187 a.C.) intervirão e
reunirão grande número de exércitos; e um deles virá apressadamente e inundará e passará;
e, voltando, levará a guerra até a sua fortaleza (fortaleza do rei do Sul).
11 “Então o rei do Sul (Ptolomeu IV) se exasperará, e sairá e pelejará contra ele (Antíoco III), o
rei do Norte; ele (Antíoco III) porá em campo grande multidão, e a multidão será entregue na
sua mão (na mão do rei do Sul, Ptolomeu IV).

12 E aumentando a multidão, o seu coração (o coração de Ptolomeu IV) se exaltará; mas, ainda
que derribará muitos milhares, não prevalecerá.

13 “Porque o rei do Norte (Antíoco III) tornará, e porá em campo uma multidão maior do que a
primeira; e ao cabo de tempos, isto é, de anos, virá à pressa com grande exército e com muita
fazenda” (Daniel 11:5-13).

Logo após a morte de Alexandre, dois grandes poderes entraram em cena, não somente
porque eles eram os mais fortes, mas porque o povo de Deus se envolveria com esses dois
poderes nos próximos cem anos. Os versos 5 a 13 relatam as lutas entre o rei do Norte,
representado pela Síria, e o rei do Sul, representado pelo Egito. A Síria era governada pelos
selêucidas, e o Egito, pelos ptolomeus. A história desse período, em grande parte, denuncia
uma luta pela posse da Palestina. Em Daniel 11:5-13 os ptolomeus apossaram-se da Palestina
na primeira parte do período (Dan. 11:5), contra os selêucidas.

Por que a Bíblia chama a Síria, isto é, os selêucidas, de rei do Norte? O fato é que a
terminologia bíblica leva em conta a posição geográfi ca da Síria em relação a cidade de
Jerusalém. A terminologia rei do Norte, e rei do Sul é usada em relação ao povo de Deus. Sob
o domínio dos ptolomeus, a capital do Egito era Alexandria e a capital dos selêucidas era
Antioquia, na Síria.

“Um dos seus príncipes se fortalecerá acima dele” (Dan. 11:5). Seleuco I, Nicator (302-280
a.C.), ficou originalmente com a porção Leste do império de Alexandre. Seleuco foi expulso do
Leste por outro general de Alexandre e fugiu para o Egito. Ptolomeu ajudou-o a formar um
exército e ele obteve vitória sobre o seu rival na Síria, Lisímaco, tornando-se assim o rei do
Norte, agora mais forte do que Ptolomeu.
“Eles se aliarão” (Dan. 11:6); para solidificar a paz entre os dois reinos, Antíoco II, Theos, (261-
246, neto de Seleuco I, casou-se como Berenice, filha do rei do Sul, Ptolomeu II Filadelfo.

“Mas não se conservará a força de seu braço; nem ele persistirá” (Dan. 11:6). Assim que
Ptolomeu II morreu, a sua filha Berenice foi repudiada por Antíoco II, o qual tomou novamente
sua primeira esposa, Laodice, com os filhos. Laodice, movida pelos acontecimentos,
envenenou Antíoco II e o trono passou para as mãos do filho, Seleuco Calínico.

“Mas do renovo de suas raízes um se levantará em seu lugar” (Dan. 11:7); os versos 7-9
relatam as vitórias do rei do Sul contra o rei do Norte. Ptolomeu III, Energetes, o fi lho mais
velho de Filadelfo e irmão de Berenice, foi o sucessor no trono do Egito.

“Virá com o exército e entrará nas fortalezas do rei do Norte... e prevalecerá” (Dan. 11:7).
Seleuco II, instigado por sua mãe Laodice, mandou matar Berenice e seu fi lho, que conforme o
tratado deveria ser o sucessor no trono da Síria. Diante disso, Ptolomeu III, Energetes, invadiu
rapidamente a Síria num esforço de salvar sua irmã. Ele chegou tarde demais para salvar
Berenice, mas avançou por toda a Síria e cruzou o Eufrates. Todo o território do seu rival (rei
do Norte) estava em pouco tempo aos seus pés.

“E por alguns anos ele persistirá contra o rei do Norte” (Dan. 11:8); conforme o verso 8,
Ptolomeu III Energetes voltou ao Egito da sua bem sucedida invasão da Síria, com pilhagem de
todo tipo; capturou 2.500 imagens de ouro e prata, sendo que muitas delas representavam
deuses egípcios que haviam sido roubados por sucessivos conquistadores.

“E entrará (o rei do Norte) no reino do rei do Sul e tornará para a sua terra” (Dan. 11:9). No
ano 242 a.C. Seleuco II Calínico tentou invadir o Egito, mas o seu exército foi derrotado e ele
retornou para a Antioquia.

“Mas os seus filhos intervirão e reunirão grande número de exércitos” (Dan. 11:10). Os versos
10-13 falam das vitórias do rei do Norte contra o rei do Sul. A referência aqui é aos fi lhos de
Seleuco Calínico, Seleuco III Ceraunos Soter que foi morto após um curto reinado e Antíoco III.
Antíoco III, o Grande, envolveu-se numa luta amarga contra Ptolomeu IV, Filopater, e efetuou
também uma campanha arriscada no oriente com o objetivo de restituir ao seu reino o antigo
tamanho e glória.

“Então o rei do Sul se exasperará, e sairá, e pelejará contra ele, contra o rei do Norte; ele (o rei
do norte) porá em campo grande multidão, e a multidão será entregue na sua mão (mão do rei
do Sul)” (Dan. 11:11). Antíoco III reuniu um grande exército para atacar Ptolomeu, mas
Ptolomeu preparando-se reuniu ainda um exército mais poderoso e derrotou Antíoco na
batalha de Rafia (217 a.C.).

“E não prevalecerá” (Dan. 11:12); após derrotar Antíoco III, Ptolomeu IV entregou-se à
licensiosidade e dissipação. “Porque o rei do Norte tornará e porá em campo uma multidão
maior do que a primeira; e ao cabo de tempos, isto é, de anos, virá à pressa, com grande
exército e com muita fazenda” (Dan. 11:13). O voluptuoso Ptolomeu IV foi sucedido, após a
sua morte, por seu jovem filho Ptolomeu V, Epifânio. Antíoco III dirigiu-se então contra a
Palestina e conseguiu arrancá-la do domínio egípcio, em 198 a.C. A profecia é a História escrita
antecipadamente. Deus deu todos esses detalhes da luta entre os selêucidas e os ptolomeus
trezentos anos antes que os fatos acontecessem.