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maio-junho de 2019 – ano 60 – número 327

SÍNODO DA
AMAZÔNIA
3

A Igreja na
multiplicidade amazônica
Entrevista com
Márcia Maria de Oliveira
Osnilda Lima

15

O Sínodo da Amazônia:
grito à consciência,
memória da missão,
opção pela vida

Roque Paloschi

23

Uma Igreja
com rosto amazônico
Reuberson Ferreira

35 A santidade no mundo
de hoje: das distorções ao

autêntico chamado de Deus


Lino Batista de Oliveira

43 Roteiros Homiléticos
Rita Gomes
vidapastoral.com.br

Prezadas irmãs, prezados irmãos, graça e paz!


Que o planeta Terra vive uma das gran- ouvidos atentos ao grito dos povos amazô-
des crises de sua história todos nós sabe- nicos contra os homens do mercado, que
mos. É fato. Basta um pouco de atenção aos devastam o santuário da vida e toda varie-
sinais dos tempos e ouvidos abertos aos dade de criaturas que ali habitam. O verda-
gritos da criação toda, que “geme e sofre deiro seguidor de Jesus não compactua com
dores de parto até agora” (Rm 8,22). No as artimanhas diabólicas do deus mercado
entanto, para além de uma postura apoca- que, em nome do dinheiro, exploram, agri-
líptica, no sentido de destruição, a comuni- dem e matam a natureza.
dade cristã tem sempre à vista de seus olhos Para que novos caminhos sejam percor-
horizontes de esperança. ridos, como propõem o tema do Sínodo e
A metáfora do apóstolo Paulo acerca das seu Documento Preparatório, é imprescin-
“dores de parto” indica a possibilidade de dível ouvir os povos que habitam a Amazô-
um recomeço. A imagem do parto expressa nia: habitantes de comunidades e zonas ru-
renovação. Todo parto é dolorido, mas de- rais, de cidades e grandes metrópoles, ribei-
pois que a nova vida é dada à luz, toda a dor rinhos, migrantes e deslocados e, especial-
é superada pela alegria. mente, os povos indígenas.
Essa imagem tem relação com a espe- A ecologia integral de que fala o tema do
rança cristã. Quem segue Jesus está aberto a Sínodo diz respeito a um entrelaçamento da
superar todo e qualquer fatalismo ou desen- vida em sua totalidade, desde a vida huma-
canto diante da vida e dos acontecimentos. na aos animais, às plantas, aos pássaros, aos
De acordo com o teólogo Jürgen Moltmann, rios, enfim, às mais variadas formas de vida.
a esperança visa à obtenção de perspectivas Todos nós fazemos parte de uma mesma
de futuro para um mundo mais justo, mais casa. É desta casa que devemos cuidar, em-
pacífico e mais humano. Portanto, não se penhando-nos para que todos tenham vida
trata de um sentimento ou comportamento em plenitude (cf. Jo 10,10).
indiferentes ao mundo da vida. Ao contrá- O Sínodo da Amazônia é um apelo a ca-
rio, a esperança gera atitudes de justiça, de minharmos juntos pela causa da vida. É, sem
humanização e de promoção da paz. dúvida, um grande desafio, uma vez que as
A esperança é como que um alerta, uma forças contrárias são poderosas e há tempo
centelha em nós, que não nos permite co- agem ambicionando o lucro desregrado, der-
modismo diante das situações da vida. É rubando árvores, envenenando os rios, ma-
nessa perspectiva que se pode situar o gran- tando as pessoas e os bichos. Mas ainda há
de gesto do papa Francisco de convocar a esperança. Nisso consiste a exortação do
Igreja e todas as pessoas de boa vontade papa: “O urgente desafio de proteger a nossa
para a realização do Sínodo da Amazônia, casa comum inclui a preocupação de unir
com o tema “Novos caminhos para a Igreja toda a família humana na busca de um desen-
e para uma ecologia integral”. O evento volvimento sustentável e integral, pois sabe-
ocorrerá em outubro de 2019. mos que as coisas podem mudar” (LS 13).
Trata-se de um olhar permeado da espe- Boa leitura!
rança de que é possível mobilizar o mundo Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp
em defesa da Amazônia. Trata-se ainda de Editor
Revista bimestral para
sacerdotes e agentes de pastoral
Ano 60 — número 327
MAIO-JUNHO de 2019

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A Igreja na
multiplicidade
amazônica
Entrevista com
Márcia Maria de Oliveira*
Por Osnilda Lima**

A socióloga Márcia Maria de Oliveira


convida o leitor a um despertar sobre
*Márcia Maria de Oliveira é mineira de nascimento. Há 30 a importância da Amazônia para toda a
anos escolheu a Amazônia como nhaderêko-há, um modo
de ser na grande casa comum. Pesquisadora da sociedade criação, sobre a relevância do Sínodo
e cultura amazônica, caminha de mãos dadas com a pesquisa
e a militância junto aos povos amazônicos. É cientista social, para a Amazônia e sobre as contribuições
licenciada em Sociologia pela Universidade Federal do
Amazonas (Ufam); mestre em Sociedade e Cultura na desse evento para a Igreja e mundo todo.
Amazônia no Programa de Pós-Graduação em Sociedade
e Cultura da Amazônia (PPGSCA/Ufam); mestre em Gênero,
Identidade e Cidadania pela Universidade de Huelva –
Espanha; doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia
(PPGSCA/Ufam), com pós-doutorado em Sociedade e
O que é a Amazônia?
Fronteiras na Amazônia pelo Programa de Pós-Graduação Márcia Oliveira – A Amazônia é o maior
em Sociedade e Fronteiras da Universidade Federal de bioma da América Latina. Geograficamente,
Roraima (PPGSOF/UFRR); pesquisadora do Grupo de Estudos
Migratórios da Amazônia (Gema/Ufam), do Observatório das
abrange toda a área de floresta tropical, ou
Migrações em Rondônia da Universidade Federal de Rondônia aquilo que ainda existe dela, em território
(OBMIRO/Unir) e do Grupo de Estudos Migratórios e Fronteiras
de Roraima (Geifron/UFRR); professora da UFRR, lotada
brasileiro, colombiano, peruano, venezue-
no Centro de Ciências Humanas (CCH); assessora da Cáritas lano, equatoriano, boliviano, surinamês,
Brasileira, com atuação no Regional Norte e Noroeste; guianense – Guianas Francesa e Inglesa.
assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil),
Um bioma tem de ser visto em sua totalida-
nº- 327

com atuação no Sínodo para a Amazônia. Áreas de atuação:


sociologia, estudos migratórios, tráfico de mulheres de e integralidade. Por suas proporções geo-
na Amazônia.
gráficas, representa um grande desafio à

ano 60

**Osnilda Lima é jornalista, formada em Comunicação comunicação, socialização e integração en-


Social; assessora nacional de comunicação da Cáritas tre os diversos povos dessa imensa região

Brasileira, organismo da Conferência Nacional dos Bispos


planetária, caracterizada pela exuberante
Vida Pastoral

do Brasil (CNBB); membro da diretoria da Signis Brasil;


religiosa da Congregação das Irmãs Paulinas. sociobiodiversidade.

3
E a Amazônia em seu silêncio, bívoros – que comem vegetação – ingerem
além-fronteiras? esses alimentos, acabam liberando nova-
Márcia Oliveira – A Amazônia é quase mí- mente no ar o carbono que tinha sido ab-
tica: um verde e vasto mundo de águas e sorvido pelas plantas. Outras parcelas do
florestas, onde as copas de árvores imensas carbono são utilizadas na decomposição
escondem o úmido nascimento, reprodu- dos seres vivos quando morrem. As quei-
ção e morte de mais de um terço das espé- madas e a utilização de combustíveis fósseis
cies que vivem sobre a Terra. Estima-se que também liberam novamente o gás carbôni-
lá crescem em torno de 2.500 espécies de co na atmosfera. Ambas causam desequilí-
árvores – ou um terço de toda brio no ambiente e contribuem
a madeira tropical do mundo “Os danos para o aquecimento global.
– e 30 mil espécies de plantas causados As estimativas situam a
– das 100 mil da América do região como a maior reserva
Sul. É o que se chama de re- pela ação de madeira tropical do mun-
gião megadiversa. humana do. Seus recursos naturais,
As espécies animais são são muitas além da madeira, incluem
contabilizadas em 4.221, mas vezes enormes estoques de borra-
se sabe que grande parte delas cha, castanha, peixe e miné-
irreversíveis”
ainda não foi descrita. A bacia rios, representando abundan-
amazônica é a maior bacia hi- te fonte de riqueza natural.
drográfica do mundo: cobre cerca de 6
milhões de quilômetros quadrados e pos- Há generosa sociobiodiversidade,
sui 1.100 afluentes. Seu principal rio, o mas qualquer interferência pode
Amazonas, atravessa a região para desa- fragilizar, não?
guar no oceano Atlântico, lançando ao Márcia Oliveira – Toda essa grandeza não
mar cerca de 175 milhões de litros d’água esconde a fragilidade do ecossistema local.
a cada segundo. Existe ainda um Amazo- A floresta vive de seu próprio material orgâ-
nas debaixo do chão, o aquífero Alter do nico, e seu delicado equilíbrio é extrema-
Chão – no noroeste do estado do Pará –, mente sensível a quaisquer interferências.
tão imenso quanto o rio de superfície. A Os danos causados pela ação humana são
evapotranspiração da floresta produz o muitas vezes irreversíveis.2
chamado rio aéreo, que leva água em for- Tão diversa em biodiversidade, relativa-
ma de vapor pela região Centro-Oeste, Sul mente à sua fauna e flora, também é diversa
e Sudeste do Brasil, transcendendo as em sociodiversidade – uma de suas princi-
fronteiras e indo até a Argentina.1 pais riquezas. A região abriga complexa di-
Além do ciclo das águas, o bioma tem versidade cultural, incluindo o conheci-
fundamental importância para o ciclo do mento tradicional sobre os usos e a forma
carbono. O ciclo do carbono começa pela de explorar esses recursos naturais sem es-
absorção do gás carbônico do ar principal- gotá-los nem destruir o hábitat natural,
nº- 327

mente pelas plantas, quando realizam a fo- numa relação de interdependência e convi-
tossíntese. Depois, quando os animais her- vência recíprocas. Os diversos povos que

ano 60

1
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Amazônia. Disponível 2
OECO. O que é o bioma Amazônia. Portal de meio ambiente
Vida Pastoral

em: <http://www.mma.gov.br/biomas/amaz%C3%B4nia>. da UFRN, Natal, 5 set. 2016. Disponível em: <http://www.


Acesso em: 10 mar. 2018. meioambiente.ufrn.br/?p=36432>. Acesso em: 10 mar. 2018.

4
ocupam os campos e as cidades da Amazô- nais, consideradas como entrave e empeci-
nia sofrem drasticamente com os contrastes lho ao desenvolvimento e ao progresso capi-
sociais e econômicos ali presentes. Enquan- talista na região. Em todos os países, as po-
to alguns grupos políticos e econômicos pulações locais sofrem as mais diversas for-
centralizam as riquezas produzidas na re- mas de pressão para abrir caminho para o
gião e estendem a propriedade privada so- “desenvolvimento e o progresso”, vindos de
bre boa parte de seu território, a grande fora para “redimir” a Amazônia do “atraso”,
maioria dos povos vive em situação de mi- instaurando novo processo colonial que dá
séria nas periferias das cidades. continuidade ao colonialismo europeu.
A Amazônia já sofreu um desmatamen-
to de 700 mil quilômetros quadrados. Hou- E a multiplicidade
ve uma redução nesse processo, mas não dos povos amazônicos?
seu estancamento. Existe um limite para Márcia Oliveira – A Amazônia é uma mul-
esse desmatamento e, se ele fosse ultrapas- tiplicidade de realidades muito distintas.
sado, a consequência seria a desintegração Dadas as proporções geográficas, é uma re-
simultânea de toda a floresta, o que repre- gião gigantesca ocupada por povos e cultu-
sentaria a maior tragédia ambiental do ras diferentes que apresentam modos de
mundo e um prejuízo incalculável para o vida distintos. Os povos das águas são múl-
ciclo de carbono do planeta. tiplos. Têm em comum a relação de interde-
As políticas governamentais de incenti- pendência com os recursos das águas. Habi-
vo às hidrelétricas, à mineração e ao agrone- tam as margens ou os cursos dos lagos e rios
gócio tendem a anular as iniciativas em prol da Amazônia. Ou seja, moram em palafitas
da preservação da Amazônia, priorizando a ou casas flutuantes e deixam-se governar
exploração e o saque das suas riquezas em pelo ritmo das águas. Convivem com a na-
detrimento de seus povos que vivem no tureza de modo cooperativo e interativo.
meio urbano, com todos os problemas daí Todos os dias, retiram das águas o “peixe
derivados: miséria, ausência de saneamento nosso de cada dia”, sem excessos ou desper-
básico, aglomeração nas periferias, insalu- dícios, somente o necessário para alimentar
bridade, desemprego e outras mazelas de suas famílias com o pescado oferecido gene-
uma concentração urbana desregulada. rosamente pelas águas, que ainda o produ-
zem em abundância.
Quais os riscos de uma agenda O camponês e sua família se apropriam
integracionista para a Amazônia? e se utilizam dos recursos naturais da várzea,
Márcia Oliveira – O processo do chamado tendo como pano de fundo o contínuo e cí-
desenvolvimento da Amazônia é exemplo clico movimento dos rios – enchente, cheia,
mais que claro do modo de reprodução do vazante e seca –, numa relação de respeito,
sistema colonialista que presidiu a formação por saber que “a vida comanda o rio” e “o rio
dos países da Pan-Amazônia a partir da sua comanda a vida”. Entretanto, os ribeirinhos,
colonização no século XVI. O atual desen- pescadores da Amazônia, também conheci-
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volvimento econômico ainda se pauta pela dos como camponeses das várzeas, sofrem
agenda do integracionismo, que ignora a com a presença dos pescadores comerciais,

ano 60

presença histórica das populações locais, predadores de recursos que já se tornaram


formadas por povos indígenas, posseiros, ri- escassos em determinadas regiões.

beirinhos, seringueiros, quilombolas e toda Os povos da floresta, camponeses da


Vida Pastoral

uma infinidade de comunidades tradicio- terra firme, nas suas mais diversificadas

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categorias – seringueiros, indígenas e qui- tados em todo o território amazônico, que
lombolas –, extrativistas e coletores por promovem a derrubada constante das flo-
excelência, sobrevivem do que a terra e a restas e a contaminação dos rios, lagos e
floresta lhes dão generosamente. São agri- igarapés, comprometendo a sobrevivência
cultores familiares, cultivam pequenas dos povos que dependem do extrativismo
porções de terra com técnicas tradicionais animal e vegetal.
ancestrais, classificadas como agroecolo-
gia familiar por corresponderem a um Quais são as maiores chagas
modo de vida de inter-relação e interde- que avançam Amazônia adentro?
pendência com a terra e a na- Márcia Oliveira – Embora ela
tureza. Esses povos cuidam “Na trilha seja uma das maiores reservas
da terra, e a terra cuida deles das migrações, de água potável do mundo,
na mesma proporção. São os cresce na um dos principais problemas
guardiões da floresta e de seus Amazônia da Amazônia é o abastecimen-
recursos. Dela retiram a casta- to de água. Os garimpos clan-
nha para sustento da família e ‘uma das mais destinos, as hidroelétricas, as
para dinamizar a economia perversas formas petroleiras e as mineradoras
com a venda do excedente; de violação transnacionais estão por toda
coletam o açaí e, alimentada a aos direitos parte, promovendo a conta-
família, vendem o pouco que minação das águas e do solo
humanos’,
sobra para comprar o caderno em proporções irreparáveis.3
e o uniforme escolar dos o tráfico de Da mesma forma, o desmata-
“curumins” (crianças), com- pessoas” mento também compromete
pletar algum item da alimen- os mananciais de água potável
tação e atender a outras necessidades bá- em toda a Pan-Amazônia. Justificado, na
sicas. Todos os alimentos coletados nos grande maioria dos casos, pelo avanço da
rios e nas florestas são saudáveis e livres fronteira agropecuária com grande predo-
de veneno. minância da criação de gado de corte, o
desmatamento abrange boa parte dos es-
Sendo a Amazônia tão tados da Pan-Amazônia, que são os princi-
abundante, quais dinâmicas pais responsáveis pela expansão pecuária
provocam a pobreza de seu povo? no Brasil e na Bolívia.
Márcia Oliveira – A pobreza produzida ao É inegável a contribuição econômica
longo da história por uma relação de subor- da produção de gado leiteiro e de corte.
dinação, de violência política e institucional, Entretanto, o que se questiona são a ex-
de exploração, em sua maioria de origem pansão dessa atividade econômica, que
externa, representa uma ferida profunda nos avança dia a dia sobre a floresta, e os im-
corpos dos diversos povos de toda a Amazô-
nia. Num modelo de desenvolvimento que
nº- 327

Como o que vem ocorrendo no rio Orinoco, na Amazônia


3

não respeita os direitos e a dignidade dos venezuelana, com a intensa mineração irregular mobili-
povos amazônidas, a acumulação da riqueza zando toda uma economia garimpeira que vem devastan-

ano 60

do territórios indígenas inteiros, entre os quais o do povo


implica o aumento da pobreza. warao. O território warao vem sendo invadido por garim-
Mas a maior riqueza da Amazônia é a pos clandestinos desde 2016, o que tem provocado a con-

taminação dos afluentes do rio Orinoco, matando os pei-


sua sociodiversidade cultural, ameaçada xes e forçando o povo à migração compulsória para fugir
Vida Pastoral

pelos grandes projetos econômicos assen- da fome e da miséria instaladas por toda parte.

6
pactos socioambientais desse modo de
produção. O problema consiste no mode- Antropologia
lo de produção agropecuária adotado na Ousar para reinventar
Amazônia de modo extensivo, que vem a humanidade
provocando desmatamento desnecessário
Juvenal Arduini
e tornando o setor agropecuário o princi-
pal contribuinte para as emissões de gases
de efeito estufa (GEE). O desmatamento
ilegal avança sobre as Unidades de Con-
servação e sobre as terras indígenas, dei-
xando um rastro de destruição, de confli-
tos socioambientais, de trabalho escravo e
de todo tipo de violência agrária.4

Com as migrações, há também


a mazela do tráfico de pessoas?
Márcia Oliveira – Na trilha das migrações,
cresce na Amazônia “uma das mais perver-
sas formas de violação aos direitos huma-
nos”, o tráfico de pessoas,5 que também
176 págs.

tem crescido assustadoramente em todo o


mundo e se convertido numa das econo- Por meio de uma constelação de
mias ilícitas com maiores lucratividades. temas como paradoxo, o homem
Da mesma forma, o contrabando de mi- e o tempo, a antropossemia,
grantes tem atingido enormes proporções a audácia, a solidariedade, o
num contexto de intensa mobilidade hu- amor, a ética, a globalização, a
mana, que atinge praticamente todos os sociopatologia, a criticidade, a
países do mundo. rebelião antropológica e a questão
linguística, o autor quer despertar
os leitores para a insubmissão
O que se pode aprender
autêntica e ajudá-los a assumir um
do modo de vida amazônico? compromisso radical com a justiça e
Márcia Oliveira – Nessa perspectiva, os po- com a solidariedade, reivindicando
vos da Amazônia, nos seus novos processos a voz daqueles que são obrigados
de organização social, têm muito para ensi- a sofrer calados.
Imagens meramente ilustrativas.

nar com seu modo de vida simples, seu de-


sapego às coisas materiais, sua solidarieda-
de e, acima de tudo, seu cuidado e respeito
nº- 327

4
Dados levantados e analisados por especialistas do Insti-
tuto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon. Vendas: (11) 3789-4000
Disponíveis em: <http://imazon.org.br/slide/agropecua- 0800-164011

ria/>. Acesso em: 13 out. 2018.


ano 60

SAC: (11) 5087-3625


5
TORRES, Iraildes Caldas; OLIVEIRA, Márcia Maria de. Trá-
fico de mulheres na Amazônia. Florianópolis: Mulheres, V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

2012. As autoras afirmam que, de maneira especial, as paulus.com.br


Vida Pastoral

mulheres representam grande proporção nas redes do trá-


fico humano na Amazônia.

7
para com a floresta e para como todos os nova Lei de Migrações, Lei 13.445/2017,
seres que nela habitam, os quais tornam o que orienta a elaboração de políticas pú-
homem e a mulher mais dignos de Deus e blicas migratórias e determina que a au-
da sua criação. sência delas representa grave violação aos
direitos humanos por parte dos Estados
E o movimento migratório nacionais e dos governos locais. A falta de
e imigratório na região? políticas migratórias abre precedentes
Márcia Oliveira – A partir de 2010, a para a atuação de grupos especializados
Amazônia passou a figurar entre as re- na exploração de migrantes em situação
giões com maior mobilidade vulnerável, que são submeti-
interna e internacional na “É inegável dos a condições subumanas
América Latina. As novas ro- a contribuição de trabalho, muitas vezes aná-
tas migratórias, que circulam logo ao escravo. Nesse con-
dos migrantes
no sul da América Latina e texto, as rotas do tráfico hu-
passam pela Amazônia, re- para o mano têm aumentado de for-
presentam novos desloca- desenvolvimento ma exponencial na Amazônia,
mentos, oriundos especial- da Amazônia, atingindo crianças migrantes
mente do Caribe e dos países uma vez e principalmente mulheres
transfronteiriços. A esse res- para fins de exploração sexual
peito, constata-se que as
que os comercial, nas suas mais va-
fronteiras da Amazônia são deslocamentos riadas modalidades.7
vistas pelos migrantes como a de populações
entrada para o Brasil pelas fazem circular Em uma parcela da
portas dos fundos. O estado novas bases sociedade, há
de Roraima, de maneira espe- resistências à acolhida
cial, figura nesses itinerários de produção” aos imigrantes?
migratórios como lugar de Márcia Oliveira – Sim. A
entrada de grandes contingentes migra- presença mais expressiva dos migrantes
tórios oriundos da Venezuela e como lu- nas ruas das cidades de Roraima tem
gar de passagem para países vizinhos, revelado atitudes discriminatórias rela-
notadamente Guiana Francesa, Argentina cionadas ao racismo, discriminação de
e Chile.6 classe, sexismos e xenofobia. Observa-se
Essa nova conjuntura migratória na um cotidiano de relações tensas e confli-
Amazônia favorece a atualização dos estu- tuosas direta ou indiretamente influen-
dos migratórios e da sociologia dos deslo- ciadas por discursos e iniciativas de re-
camentos humanos e destaca o papel que presentantes do poder local – político
a região passa a ocupar na conjuntura in- e econômico –, que, em oposição ao que
ternacional, num processo de adaptação à estabelecem os acordos e tratados inter-
nacionais assinados pelo Estado brasilei-
nº- 327

6
Sob o título “RR é passagem para imigrantes que que-
rem chegar à Argentina”, uma matéria jornalística afir-

ano 60

ma: “A maioria prefere países economicamente estáveis 7


Sobre isso, cf. BASTOS, Isabela. Tráfico de pessoas: rela-
e onde não tenha dificuldade com a língua” (Folha Web, tos de um crime silencioso na Amazônia. Em Tempo Onli-
Roraima, 2 jul. 2018). Disponível em: <https://www.fo- ne, Manaus, 27 nov. 2017. Disponível em: <http://d.

lhabv.com.br/noticia/RR-e-passagem-para-imigrantes- emtempo.com.br/amazonas-cidades/87498/trafico-de-
Vida Pastoral

-que-querem-chegar-a-Argentina-/41520>. Acesso em: -pessoas-conheca-relatos-de-um-crime-silencioso-na-


9 set. 2018. -amazonia>. Acesso em: 10 set. 2018.

8
ro, apregoam o fechamento da fronteira
e a retirada dos venezuelanos das regiões Bento XVI, a Igreja
centrais da capital e praticam atitudes de Católica e o “espírito
completa intolerância e xenofobia.8
da modernidade”
Uma análise da visão do papa
Na dinâmica migratória, teólogo sobre o “mundo de hoje”
a fronteira tem outro sentido?
Márcia Oliveira – É inegável que os mi- Rudy Albino de Assunção
grantes são portadores de mudanças im-
portantes no modo de vida tanto das so-
ciedades de origem quanto daquelas de
destino migratório. Eles contribuem para
ampliar a visão do espaço amazônico
para além das fronteiras brasileiras e rela-
cioná-lo com a ideia de simultaneidade
de tempos e espaços. As fronteiras dão
lugar às transformações simultâneas do
espaço regional, no qual as distâncias
culturais se estreitam ou se escancaram e
as diferenças passam por um processo de
356 págs.

reelaboração ou de exasperação das rela-


ções sociais. Nessa perspectiva, a frontei- Igreja e modernidade: duas
ra representa um divisor de águas deter- palavras que, frequentemente,
minante para a construção de relações são colocadas em lados
que extrapolam as próprias linhas geopo- opostos, causando confusão e
líticas e estendem-se por outras regiões a desentendimentos. Mas muita
partir do momento em que os migrantes coisa mudou a partir do Concílio
Vaticano II (1962-1965), embora
adentram os países limítrofes.
haja quem afirme que a postura
Percebe-se que nativos e estrangeiros e eclesial não permaneceu a
as cidades que os recebem não ficam incó- mesma no pontificado de Bento
lumes à migração. A propósito, ainda que XVI. Mas afinal Bento XVI é um
não seja essa a representação hegemônica, é papa moderno, antimoderno ou
inegável a contribuição dos migrantes para pós-moderno? É o que este livro
o desenvolvimento da Amazônia, uma vez pretende esclarecer a partir de
Imagens meramente ilustrativas.

que os deslocamentos de populações fazem um estudo abrangente sobre a


circular novas bases de produção, transfe- obra do papa emérito, a fim de
apresentar o seu pensamento sobre
rências de tecnologias e conhecimentos,
as aproximações e confrontos entre
enriquecendo, em maior ou menor grau, a Igreja e o mundo moderno.
as relações culturais, sociais, políticas e
nº- 327

Vendas: (11) 3789-4000


0800-164011

ano 60

8
Conflitos frequentes têm ocorrido entre brasileiros e ve- SAC: (11) 5087-3625
nezuelanos, situação que revela a omissão por parte do
Estado, conforme matéria disponível em: <https://www1. V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

folha.uol.com.br/mundo/2018/09/imigrantes-voltam-pa- paulus.com.br
Vida Pastoral

ra-a-venezuela-apos-violencia-em-roraima.shtml>. Acesso
em: 10 set. 2018.

9
econômicas. Nesse sentido, os migrantes e Se, por um lado, a cristianização pas-
refugiados, longe de se configurarem como sava pelo projeto civilizatório colonizador,
problema social, representam avanços im- o que exigiu dos primeiros missionários
portantes para a região. uma postura arbitrária e autoritária, pro-
movendo intensa desterritorialização de
E a presença da Igreja Católica na povos inteiros destinados ao trabalho ser-
Amazônia, desde a colonização? vil, por outro, a ação missionária implica-
Márcia Oliveira – A história da presença e va também abraçar a causa ameríndia, o
missão da Igreja na Amazônia confunde-se que provocou importantes rupturas com
com a história da colonização e, ao mesmo os compromissos assumidos com as Co-
tempo, difere substancialmente dela. Con- roas ibéricas. Muitos missionários foram
funde-se porque a Igreja chega junto com expulsos, exilados ou morreram em pri-
os colonizadores das Coroas espanhola e sões como preço da desobediência.11
portuguesa, imbuídos da ânsia de riqueza e
da prática saqueadora dos recursos naturais Está em processo o Sínodo para
das colônias. Simultaneamente ao projeto a Amazônia. O que isso representa?
colonizador, porém, a Igreja estabelece um Márcia Oliveira – O Sínodo para a Ama-
projeto evangelizador que representa enor- zônia representa simultaneamente um
mes divergências quanto ao que as Coroas ponto de chegada e de partida. Ponto de
esperavam dos primeiros missionários que chegada porque reconhece a trajetória da
aportaram ao largo da bacia amazônica. presença profética da Igreja nessa região.
Tendo por base os primeiros documen- Ponto de partida porque se acredita que o
tos que registram a presença e o papel da Sínodo apontará novos caminhos e novas
Igreja na Pan-Amazônia, é possível obser- direções para a caminhada da Igreja, com
var certa desobediência dos primeiros mis- novas práticas de libertação descoloniza-
sionários em relação à prática colonialista, da, profética e missionária.
de maneira especial no que se refere à ques-
tão da escravidão indígena,9 tema bastante Como vem sendo realizada
evitado pelos intelectuais da história da a escuta dos povos da Amazônia
Amazônia. A história, nessa perspectiva, em preparação ao Sínodo?
exige da Igreja atual um “ajuste de contas” Márcia Oliveira – O processo de escuta
com o passado e, no mínimo, um pedido tem mobilizado toda a Igreja da Pan-Ama-
de perdão10 para seguir adiante. zônia, que tem encontrado também mui-
tas dificuldades para realizar as consultas
9
Os principais documentos que implicam, direta ou indire- nas bases. Os encontros em pequenos gru-
tamente, a Igreja na escravidão indígena indicam o seu
papel na regulação da escravidão: Lei de 1587; Regimento pos, comunidades e paróquias têm se
de 21/2/1603; Lei de 1611; Provisão Régia de 17/10/1653;
Alvará de 28/4/1688. 11
Atuaram nisso concretamente como missionários, mas
10
O papa Francisco já iniciou esse processo em sua visita também politicamente, denunciando a brutalidade dos con-
nº- 327

ao México em 16 de fevereiro de 2016, quando pediu per- quistadores (como foi o caso dos dominicanos Montesinos e
dão em um duro pronunciamento contra “a dor, o abuso Las Casas) ou a ganância dos “encomendeiros” e “mamelu-
e a desigualdade” sofridos pelos povos indígenas. E, mais cos” paulistas (como os jesuítas  Antonio Ruiz de Montoya

ano 60

recentemente, quando se reuniu com os povos indígenas e Samuel Fritz). Cf. MARTINS, Maria Cristina Bohn. A Amazô-
da Pan-Amazônia no dia 19 de janeiro de 2018, em Puerto nia e seus índios no Diário de Padre Fritz. IHU On-Line, São
Maldonado, Peru, onde decidiu pelo Sínodo Especial para Leopoldo, 27 jul. 2007. Disponível em: <http://www.ihu.uni-

a Amazônia e declarou que “os povos amazônicos nativos sinos.br/entrevistas/8564-a-amazonia-e-seus-indios-no-dia-


Vida Pastoral

provavelmente nunca foram tão ameaçados em suas pró- rio-de-padre-fritz-entrevista-especial-com-maria-cristina-bo-


prias terras como estão agora”. hn-martins>. Acesso em: 10 mar. 2018.

10
multiplicado por toda parte, constituindo
experiências muito bonitas e profundas. Gaudete et exsultate:
Trata-se de oportunidade ímpar para escu- sobre o chamado
tar os povos da Amazônia, seus sonhos,
desejos e anseios, e para conhecer mais
à santidade no
profundamente seus sofrimentos, lutas e mundo atual
resistências. As escutas confirmam que o Exortação apostólica do
povo sabe o que quer e como quer nossa Papa Francisco
Igreja na Amazônia. Entretanto, há muitas
dificuldades que podem comprometer o
processo de escuta. As distâncias e o difícil
acesso a muitas comunidades e grupos es-
palhados pela Amazônia representam im-
portantes barreiras no processo de escuta.
Mas é louvável o esforço que as dioceses e
prelazias estão fazendo para romper essas
barreiras e levar o Sínodo aos povos e co-
munidades mais distantes. É importante
destacar o papel do Conselho Indigenista
Missionário (Cimi), do Conselho Indígena
88 págs.

de Roraima (CIR), da Comissão Pastoral


da Terra (CPT), da Cáritas e dos/as religio- Na exortação apostólica
sos/as missionários/as que não medem es- Gaudete et exsultate (“Alegrai-
forços para envolver os povos indígenas, ri- -vos e exultai”), apresentada
beirinhos, seringueiros, comunidades qui- pelo Papa Francisco em abril
lombolas, camponeses e todos os povos de 2018, o Sumo Pontífice fala
das águas e das florestas da Amazônia nes- dos desafios do mundo atual
se processo sinodal. para aqueles que desejam ser
santos e dá orientações para
alcançar a santidade, diante de
Há alguma experiência uma realidade que impõe tantos
para destacar nesse processo obstáculos à fé. A exortação é
de escuta para o Sínodo? um convite para que ouçamos
Márcia Oliveira – Gostaria de destacar a e respondamos a um chamado
experiência que testemunhei, entre os dias que Deus faz a todos nós: o
Imagens meramente ilustrativas.

26 e 30 de setembro, nas comunidades do chamado à santidade.


baixo rio Cotingo, no extremo norte do
estado de Roraima, acompanhadas pelos
missionários da Consolata. Mais de cem
catequistas e lideranças da Terra Indígena
nº- 327

Raposa Serra do Sol estiveram reunidos na Vendas: (11) 3789-4000


Missão Camará para a realização da escu- 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


ta, num clima de grande celebração de en-
contro das comunidades e com grande V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
participação da juventude e das mulheres.
Vida Pastoral

Apresentaram propostas importantes para

11
os “novos caminhos da Igreja na Amazô- a partilhar com todo o mundo, de maneira
nia”, por exemplo a construção de um especial os ensinamentos de convivência
centro de formação permanente, segundo sem destruição, numa relação de recipro-
o formato e a metodologia praticados cidade que representa a tão sonhada “eco-
pelos povos indígenas, e a criação de mi- logia integral” proposta pelo papa Francis-
nistérios específicos, como diáconos per- co na Laudato Si’ (2015). O Sínodo repre-
manentes ou “presbíteros casados”, para senta importante oportunidade para
garantir maior presença da Igreja nas co- “amazonizar” o mundo, no sentido de
munidades mais longínquas, somando es- comprovar que é possível adotar outros
forços com os missionários modos de vida diante de um
sacerdotes que acompanham “O Sínodo predominante modelo de de-
a Missão Camará. representa senvolvimento  que precisa
importante ser mudado.
Há resistências nesse oportunidade O Sínodo tem a responsa-
processo sinodal? bilidade de “amazonizar” tam-
para
Márcia Oliveira – Há! O pro- bém a Igreja universal, apre-
cesso sinodal tem encontrado ‘amazonizar’ sentando os resultados do
a resistência de alguns bispos o mundo, trabalho de incidência e sensi-
e sacerdotes que não aceita- no sentido de bilização para incentivar mu-
ram muito bem algumas pro- comprovar que danças profundas em toda a
postas do Sínodo. Há realida- Igreja preocupada e compro-
des em que as lideranças lo- é possível adotar metida com uma “sobrie-
cais, com destaque para as outros modos dade feliz” testemunhada pe-
pastorais sociais e para as/os de vida” los povos da Amazônia.
religiosas/os das congregações
locais, têm assumido a frente dos traba- Para você, o que o processo sinodal
lhos de escuta nas comunidades para ga- já vem evidenciando?
rantir maior participação nas assembleias Márcia Oliveira – Sinto que o processo
territoriais e fazer que “as vozes dos povos sinodal tem comprovado que precisamos
da Amazônia” sejam ouvidas e enviadas de uma Igreja mais despojada e itineran-
para as equipes de sistematização do pro- te, capaz de acompanhar os povos nas
cesso sinodal. mais diversas realidades e contextos, pro-
pondo uma teologia capaz de comparti-
É possível projetar o que o Sínodo lhar a experiência de um Deus encarnado
poderá trazer de novo à Igreja? nesta realidade12 de convivência, intera-
Márcia Oliveira – O “processo sinodal” ção, interdependência e interligação com
representa um tempo de graça para a Igre- o cosmo e com a natureza.13 Uma teolo-
ja na Amazônia. Dependendo de seus re- gia alicerçada nas múltiplas espiritualida-
sultados, poderá orientar a experiência si- des das florestas e das cidades da Amazô-
nº- 327

nodal da Igreja em outras partes do mun-


do. Mas, no caso específico da Amazônia,

OLIVEIRA, José Aldemir de; GUIDOTTI, Humberto (Org.).


12
ano 60

temos a grande oportunidade de compar- A Igreja arma sua tenda na Amazônia: 25 anos do encontro
tilhar com toda a Igreja universal e com pastoral de Santarém. Manaus: Universidade do Amazo-
nas, 2000.

todo o planeta os valores de um evangelho


Vida Pastoral

LÓPEZ HERNÁNDEZ, Eleazar. Teología india. Cochabam-


13

inculturado em uma região que tem muito ba: UCB/Guadalupe/Verbo Divino, 2000.

12
nia, com especial atenção para os povos
indígenas, que representam “o mais im- Narrativas místicas
portante lugar teológico, onde podemos Antologia de textos místicos
da história do cristianismo
ouvir a voz de Deus em sua plenitude e
atualidade e descobrir os caminhos do Maria Clara Bingemer e
seguimento efetivo de Jesus”.14 Marcus Reis Pinheiro (orgs.)

Fala-se em formar uma Igreja


com rosto amazônico.
Ela já não é uma realidade?
Márcia Oliveira – A Igreja com “rosto
amazônico” já está em curso na Amazô-
nia, e o Sínodo virá confirmar esse “ros-
to”, cuja expressão é a transnacionalidade
da Igreja pan-amazônica, que leva à cons-
ciência da necessidade de uma ação eficaz
diante dos desafios que ultrapassam as
fronteiras de um único Estado e requerem
a sinergia das forças vivas de todas as na-
448 págs.

ções envolvidas, em sintonia com a Santa


Sé, com o Conselho Episcopal Latino-
-Americano (Celam), com a Conferência Parte integrante da coleção
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Amantes do Mistério, este é
com o Secretariado da América Latina e um volume fundamental para
Caribe de Cáritas (Selacc) e com a Confe- os estudos da mística no Brasil.
deração Latino-Americana e Caribenha de Ele coloca ao alcance do leitor
Religiosos e Religiosas (Clar). brasileiro textos essenciais de
A Igreja na Pan-Amazônia é caracte- místicos cristãos, desde os
primórdios do cristianismo até os
rizada pela eclesialidade que, por ser de
dias de hoje. A obra preenche
índole transnacional, visa criar interação uma lacuna nas pesquisas sobre
e colaboração harmoniosa entre os vários o contato com o Mistério Divino,
componentes da Igreja – congregações, familiarizando o leitor com a
dioceses, Cáritas, associações ou funda- biografia e com os escritos
ções católicas, grupos de leigas e leigos, originais dos místicos mais
Imagens meramente ilustrativas.

entre outras instituições e grupos sociais importantes da história cristã.


e eclesiais.
A Igreja na Pan-Amazônia é também
caracterizada pela luta em defesa e prote-
ção da vida de várias comunidades, que,
nº- 327

somadas, representam mais de 30 milhões Vendas: (11) 3789-4000


de pessoas. Elas estão ameaçadas pela po- 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


luição, pela radical e rápida mudança do
V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
Vida Pastoral

14
PERANI, Cláudio. Espiritualidade amazônica. Revista
Convergência Brasília, n. 406, p. 471, out. 2007.

13
ecossistema do qual dependem e pela falta centralização, o que gera maior participa-
de proteção de direitos humanos funda- ção e compromisso com a causa da vida e
mentais. Isso ocorre quando, por exem- da libertação. Joênia Wapichana é exem-
plo, o desmatamento avança sem controle plo disso. Foi a primeira mulher indígena
ou quando projetos de mineração e de eleita deputada federal no país, com 8.491
agricultura intensiva são iniciados sem votos, dos quais, seguramente, boa parte
consultar, muito menos envolver, as po- veio dos “parentes étnicos” dos diversos
pulações locais da Amazônia, no respeito povos indígenas de Roraima.
à sua dignidade. A tomada de posição da Reconhecer o papel das mulheres na
Igreja em favor dos povos da Igreja da Amazônia é fazer
Amazônia confere à Igreja “A tomada justiça a todas aquelas que
universal o reconhecimento de posição da morreram em defesa dos di-
de sua presença profética e de reitos e da vida dos povos
seu compromisso com a liber- Igreja em favor dessa região, com especial
tação. Isso é ser Igreja com dos povos destaque para a irmã Doro-
“rosto amazônico”. da Amazônia thy Stang, covardemente as-
confere à sassinada em Anapu, no
A presença da mulher Pará, em 12 de fevereiro de
Igreja o
na Igreja e na sociedade 2005, e para a irmã Cleusa
amazônica, como se reconhecimento Coelho, mártir da justiça e
caracteriza? de sua presença da paz dos povos indígenas,
Márcia Oliveira – É impossí- profética e de assassinada no dia 28 de
vel falar da Igreja na Amazô- seu compromisso abril de 1985 na Prelazia de
nia sem falar da presença e Lábrea, no Amazonas.
com a libertação”
do papel das mulheres à Penso que o Sínodo acena
frente dos grupos organiza- para o reconhecimento de
dos, das comunidades e pastorais. Tam- nosso papel na Igreja e na sociedade.
bém não é possível falar de política e Prova disso é a minha participação na
movimentos sociais na Amazônia sem Comissão de “Experts”, convidada pelo
considerar a atuação das mulheres. Vaticano, por meio da Secretaria do Síno-
Elas estão à frente da organização e do, para contribuir com as reflexões pré-
animação das comunidades, das organiza- -sinodais e elaborar o Documento Prepa-
ções sociais, da educação, da saúde. Seu ratório, que tem como finalidade condu-
papel está relacionado com a herança étni- zir os trabalhos da escuta sinodal. Ser a
ca dos diversos povos ameríndios que se única mulher leiga na equipe provoca
organizam com base na orientação das certa “estranheza” num ambiente em que
mulheres em estreita relação com o sagra- a presença masculina é predominante.
do. Para a maioria das etnias, as mulheres Entretanto, o fato de compor a equipe
são portadoras da experiência do sagrado, significa certa abertura da Igreja à partici-
nº- 327

são pontes entre o humano e o transcen- pação ativa e efetiva das mulheres. Vejo
dente. São portadoras das diversas espiri- nisso um sinal de mudanças mais pro-

ano 60

tualidades e por isso desenvolvem papel fundas na Igreja, no sentido de uma aber-
importante também na vida política dos tura para o diálogo com as mulheres e

grupos étnicos, ensinando a compartilhar para a valorização de nossa presença e


Vida Pastoral

a relação de poder numa atitude de des- nosso papel.

14
O Sínodo
da Amazônia:
grito à consciência,
memória da missão, opção pela vida
Roque Paloschi*

Este artigo discorre sobre as três Introdução


qualificações e tarefas do Sínodo Ao anunciar, em 15/10/2017, a reali-
zação de uma Assembleia Especial do Sí-
da Amazônia: escuta do “grito à nodo dos Bispos para a Amazônia, o papa
consciência”, “memória da missão” Francisco deu continuidade à caminhada
que qualificou como “caminho que Deus
nº- 327

e “opção primordial pela vida dos


espera da Igreja do terceiro milênio”. O
mais indefesos”. Sínodo para a Amazônia se insere no pro-

ano 60

cesso pós-conciliar em defesa da vida,


que na América Latina começou com Me-

*Dom Roque Paloschi é bispo da Igreja que está em


dellín (1968; “libertação”, “opção pelos
Vida Pastoral

Porto Velho-RO e presidente do Conselho Indigenista


Missionário (Cimi). pobres”) e continuou com Puebla (1979;

15
“assunção/redenção”), Santo Domingo as causas a ponto de acusar os “bombei-
(1992; “inculturação”) e Aparecida (2007; ros” da Amazônia de “incendiários”: “A
“Missão”). Com suas respectivas conclu- verdade é”, disse o papa, “que vós [...] sois
sões, essas Conferências do Episcopado um grito lançado à consciência de um es-
Latino-Americano e do Caribe forneceram tilo de vida que não consegue medir os
uma “cesta básica” para a prática pastoral custos do mesmo. Vós sois memória viva
e para a reflexão teológica. da missão que Deus nos confiou a todos:
Hoje, essa caminhada latino-ameri- cuidar da Casa Comum”. Ele deixa claro,
cana e caribenha é assumida e enrique- também, que, ao defender seus territó-
cida pelo carisma do papa rios, os povos da Amazônia
Francisco, que à “conversão “O Sínodo são uma “opção primordial
pastoral” (EG 25; 27; 32) in- para a pela vida dos mais indefe-
tegrou a “conversão ecológi- Amazônia sos”, porque “a defesa da ter-
ca” (LS 216ss) e deslocou o se insere ra não tem outra finalidade
centro da Igreja para as peri- senão a defesa da vida”
ferias do mundo, visando a no processo (FRANCISCO, 2018).
uma realidade social sem pe- pós-conciliar Com essas três qualifica-
riferia. As duas conversões em defesa ções e tarefas dos povos origi-
têm somente um foco: a par- da vida, nários, o papa Francisco cir-
tilha equitativa da vida entre cunscreveu também as três
que na América
tudo que foi criado e que é tarefas do Sínodo para a Ama-
dom de Deus. Latina começou zônia. Esse Sínodo haverá de
Em seu Encontro com os com Medellín” se manifestar como escuta,
Povos da Amazônia no dia 19 memória e opção:
de janeiro de 2018, em Puerto Maldona- a) como escuta do “grito à consciên-
do, no Peru, o papa Francisco lembrou cia”, porque “dificilmente se saberá escu-
que setores dominantes em nossas socie- tar os gritos da própria natureza” (LS 117);
dades e até governos nacionais e estran- b) como “memória da missão”, que, ao
geiros tratam a Amazônia como “despensa lembrar-se de seu passado e de suas amar-
inesgotável” e consideram os povos origi- ras coloniais, hoje assume árduo processo
nários um obstáculo para o desenvolvi- de descolonização. Em sentido amplo, o
mento da região. Na realidade, as culturas Sínodo foi convocado para localizar e con-
da Amazônia são sinais de vida, “além de tinuar a “viragem descolonial” que come-
constituir uma reserva da biodiversidade çou com o Vaticano II. Descolonizar a
[...], que deve ser preservada face aos no- Amazônia permitirá amparar sua biodi-
vos colonialismos” – ávidos por disputar versidade para o bem de toda a humani-
cada palmo do território amazônico com dade e para construir uma Igreja com
os habitantes originários. “A nova ideolo- “rosto amazônico”;
gia extrativa e a forte pressão de grandes c) como ação e “opção primordial pela
nº- 327

interesses econômicos cuja avidez se cen- vida dos mais indefesos”, que são os povos
tra no petróleo, gás, madeira, ouro e mo- indígenas. A esse respeito, o papa admite

ano 60

noculturas agroindustriais” representam que “provavelmente, nunca os povos ori-


uma ameaça cotidiana. Francisco contes- ginários amazônicos estiveram tão amea-

tou essa discriminação do território ama- çados nos seus territórios como estão ago-
Vida Pastoral

zônico e dos seus habitantes, que inverte ra” (FRANCISCO, 2018).

16
1. Escutar o grito à consciência
O Sínodo sobre a Amazônia, que Mercado versus
praticamente começou em Puerto Mal- direitos humanos
donado, na hora do encontro do papa
Francisco com os povos amazônidas, re- Franz J. Hinkelammert
presenta a continuação prática da Carta
Encíclica Laudato Si’ sobre o cuidado da
Casa Comum. “Quis vir visitar-vos e es-
cutar-vos”, disse o papa naquela ocasião,
“para [...] solidarizarmo-nos com os
vossos desafios”. E seu escutar não foi
em vão.
Na Mensagem Final de um seminário
recentemente convocado pelo Conselho
Episcopal Latino-Americano (Celam) e
realizado de 5 a 9 de novembro de 2018
em Bogotá, na Colômbia, bispos e secretá-
rios das Comissões Episcopais sobre a pas-
toral entre os povos originários repercuti-
240 págs.

ram esse grito à consciência e confirma-


ram a situação dramática em que os povos O livro versa sobre um tema
indígenas são obrigados a viver: fundamental dos dias de hoje:
o conflito entre mercado e
Com dor constatamos que estes povos direitos humanos. Uma das
estão sofrendo em todos os países uma principais ideias do livro é que
situação de desprezo, marginalização a defesa dos direitos humanos
e até criminalização. Frequentemente é condição de possibilidade
de uma sociedade alternativa e
são desalojados de seus territórios tra-
sustentável. Para Hinkelammert,
dicionais, o que os obriga a migrar o principal violador dos direitos
para zonas urbanas, onde sofrem o humanos é esse mercado
despojo de sua dignidade e de seu di- sacralizado, que nega aos
reito de ser diferentes [...]. O sistema pobres e aos excluídos o direito
neoliberal globalizado oprime rapida- básico de viver com dignidade.
mente qualquer pequena alternativa Na lógica do mercado, tudo é
Imagens meramente ilustrativas.

emergente. Existe pouco espaço para reduzido ao cálculo de utilidades


que os Povos Originários possam con- para a realização do interesse
econômico, em prejuízo da vida
tribuir com a grande riqueza de seus
em comunidade e das relações
valores humanos que desenvolveram de solidariedade e amizade.
e mantêm durante milênios, resistin-
nº- 327

do a toda classe de colonização, inva- Vendas: (11) 3789-4000


são ou dominação.1 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625

V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

1
Cf. <http://www.celam.org/Images/img_noticias/doc15bf paulus.com.br
Vida Pastoral

823a1a7993_23112018_858am.pdf>. Acesso em: 19 jan.


2018.

17
A escuta é exigência da sinodalidade, midade. “Confiamos que a Igreja, enraiza-
da solidariedade, da convivência e da ca- da em suas dimensões sinodal e missioná-
minhada comunitária. A sinodalidade vai ria, possa gerar processos de escuta (ver,
um passo além da colegialidade, que se escutar) e processos de discernimento
entende, na Igreja Católica, como consen- (julgar) capazes de responder (agir) às rea-
so doutrinal e vivencial entre os bispos – lidades concretas dos povos amazônicos”
portanto, como consenso corporativo. A (DP 64). A escuta é um ato de fé e “requer,
sinodalidade aponta para o consenso de mais que nunca, um magistério eclesial
todos os batizados, que, em seu conjunto, exercido na escuta do Espírito Santo, que
configuram o Povo de Deus. garante unidade e diversida-
Isso desde o Vaticano II, que, “Precisamos de” (DP 60).
após longa discussão, definiu nos exercitar na Escutemos os povos tradi-
em sua Constituição Dogmáti- arte de escutar, cionais que, com sua visão
ca Lumen Gentium a estrutura que é mais holística do mundo, com seu
hierárquica da Igreja e o epis- amor para com a terra e sua
do que ouvir.
copado como uma função mi- relação com os ecossistemas,
nisterial não acima, mas no Escutar, na amam o Deus criador. Nas
interior do Povo de Deus. comunicação “suas próprias dores conhe-
Assim podemos entender com o outro, cem Cristo sofredor” (EG
o apelo do papa Francisco à é a capacidade 198). Em sua compreensão da
autodeterminação dos habi- vida social como diálogo, es-
tantes da região amazônica: “É do coração que tão inspirados pelo Espírito
bom que agora sejais vós pró- torna possível a Santo. A evangelização exige
prios a autodefinir-vos e a proximidade” escuta recíproca: “É necessário
mostrar-nos a vossa identida- que todos nos deixemos
de. Precisamos vos escutar” (FRANCIS- evangelizar por eles” (EG 198) e “por suas
CO, 2018). Escutar a nova leitura históri- culturas”, que são “culturas do encontro”
ca do seu passado e a explicação antropo- na vida cotidiana, em “harmonia plurifor-
lógica de sua visão de mundo, de seus me” (EG 220) e “sobriedade feliz” (LS
costumes e de suas tradições milenares. 224s). E o papa pede, para essa evangeli-
“Precisamos nos exercitar na arte de zação, a ajuda dos povos aborígenes: “Aju-
escutar, que é mais do que ouvir. Escutar, dai os vossos bispos, ajudai os vossos mis-
na comunicação com o outro, é a capaci- sionários e as vossas missionárias a faze-
dade do coração que torna possível a pro- rem-se um só convosco e assim, dialogan-
ximidade, sem a qual não existe um verda- do com todos, podeis plasmar uma Igreja
deiro encontro espiritual” (EG 171). Essa com rosto amazônico e uma Igreja com
proximidade é particularmente importan- rosto indígena” (FRANCISCO, 2018).
te numa região em que a distância geográ- Desde aquela memorável visita e escu-
fica serviu de pretexto para a distância ta do papa Francisco em Porto Maldona-
nº- 327

pastoral. A escuta ajuda-nos a encontrar o do, aconteceram muitas visitas e escutas


gesto certo e a palavra oportuna “que nos em todas as circunscrições eclesiásticas do

ano 60

desinstalam da cômoda condição de es- território pan-amazônico. A Rede Eclesial


pectadores” (EG 171) e nos levam a tomar Pan-Amazônica (Repam) organizou qua-

decisões de descentralização ministerial e tro fóruns temáticos em toda a Pan-Ama-


Vida Pastoral

sacramental que possibilitam maior proxi- zônia e mais de 20 assembleias territoriais

18
pré-sinodais, que reuniram duas ou mais
dioceses, vicariatos ou prelazias em cada História política de Israel
país amazônico na busca de “novos cami- Desde as origens até
Alexandre Magno
nhos” para a evangelização daquela região,
com seus desafios específicos. As sínteses Henri Cazelles
de todas essas escutas estão sendo prepa-
radas para configurar o Documento de
Trabalho, que se espera seja publicado até
o final do mês de junho de 2019 e vai ser-
vir como subsídio aos membros do pró-
prio Sínodo em outubro.
A escuta dos desafios dos povos ama-
zônicos, tomada a sério, obriga necessa-
riamente os padres (e madres) sinodais a
assumir decisões e ações concretas. As rei-
vindicações que escutamos nas comuni-
dades amazônicas, indígenas, ribeirinhas
e das zonas urbanas, provavelmente nem
sempre estarão em conformidade com o
256 págs.

previsto pelo Direito Canônico. Este, po-


rém, não pode servir de filtro para novas
questões ou para reduzir a escuta das Instrumento de trabalho que ajuda
comunidades a um exercício meramente a abordar o panorama político
formal, sem permitir caminhar por “novos da história de Israel. De modo
caminhos” e tomar decisões corajosas, que claro e sintético, o autor se serve
o papa Francisco espera. Os membros do das pesquisas mais recentes sobre
Sínodo devem-se lembrar sempre do últi- o Oriente Antigo, permitindo ao
mo cânon do Direito Canônico, introduzi- leitor captar o essencial de cada
período da história de Israel.
do por pedido explícito do papa João Pau-
lo II: “Na Igreja deve-se ter sempre em
vista que a Lei suprema é a salvação das
almas” (Cân. 1.752).

2. Memória da missão
Imagens meramente ilustrativas.

Para a América Latina cristianizada,


missão significa memória de um passado
colonial ainda próximo e projeto de liber-
tação em curso. Memória e projeto são
constitutivos da caminhada missionária.
nº- 327

O Sínodo para a Amazônia chama a aten- Vendas: (11) 3789-4000


ção desses dois projetos: descolonização, 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


pela assunção da cultura de cada povo
como pressuposto de sua redenção (cf. V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
PAPA FRANCISCO, 2018), e libertação
Vida Pastoral

da exploração de cada povo, subjugado

19
por interesses hegemônicos. Por conse- dade teológico-pastoral é um processo
guinte, a finalidade desse Sínodo será mo- permanente, e a inculturação é a tentativa
delar uma Igreja com “rosto amazônico” de uma evangelização em chave pós-colo-
(DP 5; 63; 66; 78; 81; 82; 88; 90), quer nial. A busca do Sínodo por nova proximi-
dizer, modelar uma Igreja e um mundo dade com os povos amazônicos passa por
pós-colonial libertados de todas as formas uma Igreja vulnerável e vulnerada pelas
de neocolonialismo, que destrói a biodi- cristalizações de sua longa história, mas
versidade e impede a autodeterminação. também por uma Igreja povo de Deus,
Ainda hoje existem restos do projeto co- que nunca parou de construir o Reino a
lonizador, que demoniza as partir dos pequenos, de suas
culturas indígenas (cf. DP 24) “A Amazônia culturas, linguagens e teolo-
para destruí-las e para explo- gias. A evangelização em cha-
é uma causa
rar os sujeitos dessas culturas, ve pós-colonial reconhece a
os povos indígenas. Ao Síno- universal, alteridade de todos e a auto-
do cabe “colaborar na cons- não um nomia do pobre como bens
trução de um mundo capaz caso entre do Criador e dons do Espírito
de romper com as estruturas outros” Santo. A bandeira pós-colo-
que sacrificam a vida e com as nial insere a Igreja num movi-
mentalidades de colonização mento contra-hegemônico, no
para construir redes de solidariedade e in- qual se partilham as lutas pela preserva-
terculturalidade” (DP 4). ção da vida, o empenho pela redução do
Cabe aos padres sinodais fazer res- sofrimento e a vigilância em face da alie-
plandecer o rosto amazônico na Igreja, nação imposta pelos aliciamentos do
ou seja, “aprofundar o processo de incul- mercado e da mídia.
turação” (EG 126; DP 79) e, profetica- Hoje, a Amazônia é uma causa univer-
mente, denunciar as situações de injusti- sal, não um caso entre outros. Entre causa
ça no mundo e na região (cf. DP 66). Os universal e raiz particular ou local não
povos indígenas estão em perigo de per- existe contradição, mas polaridade. As de-
der seus territórios “por novos colonialis- cisões do Sínodo têm sua origem na Igreja
mos [...] mascarados de progresso” local, mas terão relevância universal, como
(FRANCISCO, 2018). a encarnação de Jesus de Nazaré. A Igreja
Na passagem pela sua história de dois universal não é uma entidade que paira
milênios e na convivência com sistemas acima de Igrejas locais. A Igreja universal
coloniais e imperiais, democráticos e dita- se constitui na articulação das Igrejas lo-
toriais, a Igreja não conseguiu livrar-se ra- cais. O nascimento de decisões pastorais
dicalmente de suas heranças coloniais. In- num lugar específico não afeta a unidade
culturações bem-sucedidas, às vezes, fo- universal da Igreja na fé. A helenização e a
ram impostas, em outros tempos, como romanização da Igreja, nas suas origens,
“culturas normativas” a outras regiões. As podem ser consideradas opções corretas
nº- 327

declarações de independência de povos de gregos e romanos, mas não são neces-


outrora colonizados não eliminaram o ví- sariamente relevantes para o resto do

ano 60

rus que permite a sobrevivência de menta- mundo. Atenas e Roma não forneceram
lidades anteriormente estruturadas nem o instrumentos “providenciais” para a inter-

perigo de recolonizações políticas, cultu- pretação universal do evangelho. Disponi-


Vida Pastoral

rais e religiosas. A busca da descoloniali- bilizaram instrumentos culturais, geográ-

20
fica e historicamente localizáveis. No mo- com todo o povo de Deus. A participação
mento em que se impuseram como “uni- dos povos amazônicos vai além de meras
versais”, falsificaram a identidade do cris- consultas, porque o povo de Deus é dota-
tianismo em seu pluralismo pentecostal. A do com o “instinto da fé” (sensus fidei), que
viabilidade das decisões do Sínodo para a o torna infalível em seu conjunto (EG 119;
Amazônia não pode depender de sua via- cf. LG 12; DV 10; DP 61).
bilidade cultural universal. Devemos dis-
tinguir entre um pluralismo contraditório, b) A Igreja com rosto amazônico visa
que relativiza tudo, um pluralismo com- à construção de uma Igreja descoloniza-
plementar e um pluralismo pentecostal, da, inculturada e contextualizada. Com
que nem sempre precisa ser complemen- esse pano de fundo, “urge avaliar e re-
tar. O pluralismo das línguas de Pentecos- pensar os ministérios que hoje são ne-
tes, por exemplo, não é complementar. O cessários para responder aos objetivos de
ser cristão na Amazônia e o ser cristão na ‘uma Igreja com rosto amazônico e uma
África unem a fé, e não as expressões cul- Igreja com rosto indígena’” (DP 81).
turais dessa fé. Onde já se mostra esse rosto amazônico
O Sínodo para a Amazônia vai ser um e indígena é na presença e atuação de
sínodo universal da Igreja Católica, e não mulheres e homens nas comunidades e
somente um sínodo com a participação em muitas celebrações não oficiais que
dos nove países propriamente pan-amazô- poderiam inspirar a inculturação sacra-
nicos: Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, mental. A reivindicação de avanços na
Venezuela, Suriname, Guiana, Guiana admissão de viri probati ainda é a reivin-
Francesa e Brasil. O papa admite que “ca- dicação de uma Igreja clerical de meio
minhar juntos – leigos, pastores, Bispo de século atrás. Ao falarmos de uma Igreja
Roma – é um conceito fácil de exprimir indígena descolonizada, haveremos de
em palavras, mas não é assim fácil pô-lo falar de viri probati e uxores probatae,
em prática”. de homens e mulheres que marcaram,
por longos anos, sua relevância pastoral
3. Opção sinodal na Igreja.
pelos povos indígenas
Os “novos caminhos” têm pressupos- c) Os novos caminhos se mostrarão
tos amazônicos, cultural e historicamente por meio de um novo estilo de vida de
situados e marcados por três cuidados: todos os batizados. Os “novos caminhos”
- o sujeito (os povos da Amazônia, in- não são caminhos paralelos que se en-
cluindo os seus pastores); contram na eternidade, mas caminhos
- a microrregião (rosto amazônico); dialogais e interconectados. O processo
- a macrorregião (novo estilo de vida de de evangelização não pode ser separado
toda a humanidade). do zelo pelas culturas nem do cuidado
com o território e a ecologia (cf. DP 52).
nº- 327

a) O Sínodo está sendo realizado por “‘Tudo está interligado’ (LS 16; 91; 117;
bispos, mas para e com os povos amazôni- 138; 240) é a grande insistência do papa

ano 60

cos (cf. DP 1), cuja vida é ameaçada e Francisco para facilitar o diálogo com as
cujos territórios são disputados (cf. DP raízes espirituais das grandes tradições

24). No caminhar sinodal, trata-se, por- religiosas e culturais” (DP 72). Essa inter-
Vida Pastoral

tanto, de um protagonismo partilhado ligação de tudo aponta para novo estilo

21
de vida, que una todos os humanos com gem por ocasião do encerramento da 14ª
suas culturas e a natureza, com seus bos- Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bis-
ques, terras firmes e águas, na mística de pos sobre a Família, sinodalidade “segu-
uma vida em “sobriedade feliz” (LS 224s). ramente não significa que encontramos
Interligados são a mãe Terra e toda a hu- soluções exaustivas para todas as dificul-
manidade, as religiões e os sonhos que dades e dúvidas que desafiam e ameaçam”
fazem parte da polaridade sinergética da a Amazônia. O que importa é “que colo-
vida. Ela nos permite “encontrar Deus camos tais dificuldades sob a luz da fé,
em todas as coisas”, como nos ensinaram examinamo-las cuidadosamente, aborda-
os místicos mestre Eckhart e Inácio de mo-las sem medo e sem esconder a cabe-
Loyola. ça na areia” (FRANCISCO, 2015b). Quem
esconde a cabeça na areia é o avestruz. Ele
Conclusão não sabe voar. Na hora do perigo, foge ou
Vivemos um kairós, um tempo favorá- esconde a cabeça na areia. O papa Fran-
vel para ser “Igreja em saída” (EG 20ss) e cisco, certamente, tencionava nos lembrar
caminhar juntos. Em várias ocasiões, o da nossa capacidade de voar. Cada um de
papa disse aos seus interlocutores que es- nós tem a vocação de ser condor e sabiá:
pera propostas corajosas. Aplicando em condor para voar alto e atravessar os An-
outro contexto as palavras de sua mensa- des, e sabiá para cantar.

Referências bibliográficas

AMAZÔNIA: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral: Documento Preparatório
(DP) do Sínodo dos Bispos para a Assembleia Especial para a Região Pan-Amazônica. Boletim
da Sala de Imprensa da Santa Sé, Vaticano, 8 jun. 2018. Disponível em: <http://press.vatican.va/
content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/06/08/0422/00914.html#po>. Acesso em: 20 nov.
2018.
CONFERÊNCIA EPISCOPAL LATINO-AMERICANA. Documentos do Celam: Rio de Janeiro, Medellín,
Puebla, Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2004.
FRANCISCO. Discurso do papa Francisco no Encontro com os Povos da Amazônia, 19 jan. 2018. Dis-
ponível em: <http://www.crbnacional.org.br/site/encontro-com-os-povos-da-amazonia-discurso-
do-papa-francisco/>. Acesso em: 28 nov. 2018.
______. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus/Loyola, 2015a.
______. Discurso do papa Francisco na Conclusão da XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos,
24 out. 2015b. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/octo-
ber/documents/papa-francesco_20151024_sinodo-conclusione-lavori.html>. Acesso em: 28 nov.
nº- 327

2018.
______. Discurso do papa Francisco por ocasião da Comemoração do cinquentenário da Instituição do

Sínodo dos Bispos, 17 out. 2015c. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/


ano 60

speeches/2015/october/documents/papa-francesco_20151017_50-anniversario-sinodo.html>.
Acesso em: 28 nov. 2018.

Vida Pastoral

______. Evangelii Gaudium: sobre o anúncio do evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus/Loyola,
2013.

22
UMA IGREJA COM
ROSTO AMAZÔNICO
Reuberson Ferreira*

O artigo, organizado com base na


experiência missionária do autor,
aponta caminhos que podem ser
divisados como promotores de uma
Introdução
Igreja com rosto amazônico.
Diante da secular fachada da Basílica
Considera o que a Igreja amazônica Vaticana, a uma multidão embevecida de
pode oferecer à Igreja Católica no fiéis reunidos entre as colunatas que cer-
cam a praça idealizada por Bernini, o papa
mundo, bem como o que ela precisa Francisco deu a conhecer, de maneira es-
ser: uma Igreja plenamente católica pontânea e imprevista, ao final da missa
da canonização dos mártires do Rio Gran-
na Amazônia. de do Norte, seu desejo de celebrar um
nº- 327

sínodo pan-amazônico. Se não fossem as


revelações posteriores, essa inusitada cena

ano 60

*Reuberson Ferreira, msc, é religioso e padre da


Congregação dos Missionários do Sagrado Coração. seria uma anamnese perfeita da atitude de
Mestre em Teologia, trabalhou cinco anos no Amazonas, outro papa que, numa ocasião similar,

na Diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM).


após oficiar a Eucaristia, fez um tão espon-
Vida Pastoral

Atualmente é pároco e reitor do Santuário Nacional de


Nossa Senhora do Sagrado Coração em São Paulo (SP). tâneo e significativo anúncio ao mundo,

23
definido como “flor espontânea de inespe- -pastoral do autor deste texto, que, por cin-
rada primavera” (João XXIII, 1963). Tal co anos, atuou na Diocese de São Gabriel
dístico – o Concílio Vaticano II – transfor- da Cachoeira, a mais extensa e indígena do
mou-se no maior evento da Igreja no sécu- Brasil, atendendo a aldeias ribeirinhas e co-
lo XX e marcou decisivamente a fisiono- laborando na formação de comunidades
mia católica. cristãs. O texto, nesse sentido, será eivado
Salvaguardando as diferenças de con- também por uma carga testemunhal e deli-
textos e proporções, pode-se alentar pro- neado segundo a perspectiva de uma posi-
fundas esperanças em relação às “esponta- ção geográfica restrita, não abrangendo,
neidades” daqueles que che- desse modo, em minúcias toda
gam ao sólio petrino. Quiçá se “As reflexões a capilaridade do universo
avizinhe uma lufada revigo- do Sínodo pan-amazônico.
rante do Espírito Santo, capaz
de marcar outra vez a tessitura especial superam 1. Uma Igreja
eclesial, mormente aquela da o âmbito com rosto amazônico
região amazônica, aportando, estritamente A alvissareira convocação
como fez o Vaticano II com a eclesial da assembleia sinodal pelo
modernidade, a Igreja de ma- papa Francisco despertou es-
amazônico,
neira mais cirúrgica no cora- peranças, promoveu alegrias.
ção dos povos e das culturas por serem O tema eleito pelo pontífice
amazônicas. Trata-se de, como relevantes para para esse Sínodo provoca
sonha o papa Francisco, bus- a Igreja e para tácita explosão de ideias,
car e apresentar “novos cami- o futuro de todo propostas e sonhos. Trata-se
nhos para a evangelização da- de oportunidade rara de levar
o planeta”
quela porção do povo de àquela seara eclesial propostas
Deus, especialmente dos indí- que incidam numa pastoral
genas” – uma categoria que frequente- encarnada, com contornos claros e
mente é esquecida e não raro tem suas preocupações que tocam a carne real da
perspectivas de futuro defraudadas inclu- Igreja amazônica. De fato, novos cami-
sive pela “crise da floresta amazônica, pul- nhos para a Igreja e para uma ecologia in-
mão de capital importância para nosso tegral no universo (pan-)amazônico cons-
planeta” (FRANCISCO, 2017). tituem um ideal simultaneamente auda-
Assim, instados pelos apelos do papa cioso e complexo; um projeto digno de
Francisco e inquietos pela busca de novos visionários da estirpe do atual pontífice,
itinerários para a evangelização daquela secundado, certamente, por bispos que
singular parcela do povo de Deus, tentare- sentem diuturnamente as vicissitudes do
mos, neste artigo, apontar caminhos (non labor evangelizador na desafiante realida-
nova, sed nove) para a ação pastoral e evan- de amazônida.
gelizadora da Igreja neste admirável “conti- Nesse sentido, é possível, sem anteci-
nº- 327

nente amazônico”. Os argumentos que sus- par-se às discussões sinodais, tentar con-
tentarão o aceno desses caminhos brota- templar, com propostas objetivas e reais,

ano 60

ram, de um lado, da reflexão teológica ecle- as silhuetas de uma Igreja nitidamente


sial atual à luz das exigências da ação evan- amazônica. Trata-se, a nosso ver, entre teo-

gelizadora na Amazônia e do papado de rias e experiências, de sonhar com uma


Vida Pastoral

Francisco; de outro, da experiência prático- Igreja capaz de exalar o bom odor de sua

24
gente, além de, ao mesmo tempo, amalga-
mar as necessidades concretas de seu povo Quando a fé se
e ser espelho da vivacidade ritual das cul- torna social
turas autóctones.
Antonio Spadaro
1.1. Igreja amazônica: capaz
de exalar o bom odor de sua
gente, sua cultura e sua história
No processo de preparação para a as-
sembleia a ser celebrada em outubro de
2019, a visita do papa Francisco ao Peru,
mormente seu discurso a mais de 5 mil
indígenas em Porto Maldonado, tornou-se
evento inaugural dos trabalhos sinodais,
como destacou um bispo da Amazônia
(DAMIAN, 2018). Contíguo a esse encon-
tro, naquele mesmo 19 de janeiro, um sé-
quito de mais de 30 bispos, orientados
pelo presidente da Rede Pan-Amazônica,
cardeal Hummes, e pelo secretário sino-
48 págs.

dal, dom Lorenzo Baldisseri, debateu so-


bre a dinâmica de trabalhos da assembleia O homem hoje, mais do que
sinodal. Não mais que seis meses depois, à procura de um sinal, está
despontou o sucinto texto preparatório, habituado a ficar sempre na
que deveria ser levado às comunidades possibilidade de recebê-lo. Em
para ulteriores debates, aportes e retifica- outras palavras, vivemos sem
ções, em vista de tornar-se um texto-base fazer muitas perguntas sobre
da reunião sinodal. Deus: se Ele existe, aparecerá de
algum modo. O desafio atual não
Elaborado por uma equipe de expertos
deve ser como usar bem a rede,
constituídos em uma comissão pré-sinodal, mas como viver bem nos tempos
o texto-base do Sínodo, entre outras coisas, da rede. A rede não é um novo
atesta que “as reflexões do Sínodo especial meio de evangelização, e sim um
superam o âmbito estritamente eclesial contexto no qual a fé é chamada
amazônico, por serem relevantes para a a se exprimir.
Imagens meramente ilustrativas.

Igreja universal e para o futuro de todo o


planeta” (DP, “preâmbulo”). Esse mesmo
argumento, seminalmente, já havia sido
avalizado pelo papa Francisco quando da
convocação do Sínodo (2017). Assim,
nº- 327

antes de receber algo ou ser instruída por Vendas: (11) 3789-4000


outrem, deve-se admitir que a Igreja 0800-164011

ano 60

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amazônica pode oferecer muitíssimo de
sua realidade à Igreja Católica no mundo; V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

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seria o exalar de um bom odor dos cris-
Vida Pastoral

tãos pan-amazônicos para a humanidade.

25
A Igreja pan-amazônica é, congenita- forçoso admitir que esse aspecto é algo
mente, plural e superlativa. Sua pluralidade relevante para toda a Igreja. Deve, portan-
externa-se em suas expressões eclesiais, to, ser um dos bons aromas exalados, des-
em sua população e em sua geografia. De de as cercanias das comunidades ribeiri-
fato, a bacia hidrográfica da Amazônia re- nhas ou aldeias indígenas, para a Igreja
presenta uma das maiores reservas de bio- católica mundo afora. Contemplando a
diversidade de água doce e possui mais de heterogeneidade da Igreja naquela porção
um terço das florestas primárias do plane- particular do povo de Deus, cabe traçar
ta. São, segundo o documento preparató- caminhos para, na Igreja Católica, respei-
rio, mais de 7,5 milhões de tar o diverso, o múltiplo e o
quilômetros quadrados, com plural e conviver com eles,
“A Amazônia
nove países que fazem parte evitando qualquer reducionis-
desse grande bioma que é a consegue mo ou unilateralidade de mo-
Amazônia (DP 1). A diversi- conviver delo eclesial e compreenden-
dade populacional é imensa. com a do que os acurados modelos
Desde ribeirinhos até citadinos, diversidade eclesiológicos são modos, por
de aldeias voluntariamente vezes culturais, de viver uma
isoladas a tribos profunda-
e a pluralidade mesma fé.
mente ajustadas à tradição cultural, Outro aspecto típico da
ocidental, são mais de 30 religiosa Igreja amazônica que pode
milhões de habitantes. Trata- e social” ser apresentado à Igreja em
-se, como é dito por pesqui- toda orbi como bom odor da-
sadores, de várias “Amazô- quela parcela do povo de
nias” alocadas numa única pátria grande Deus é a evangélica pobreza. A rigor,
chamada Amazônia. É um universo plu- constata-se a olho nu que a região pan-
ral e grandioso que abriga imensa e di- -amazônica é empobrecida. Um estudo
versa variedade de povos, línguas, cul- do Instituto do Homem e Meio Ambiente
turas e raças. da Amazônia (Imazon) aponta que são
Nesse cenário complexo, amplo e plu- drásticas as condições sociais, econômi-
ral, mesmo não de modo homogêneo e cas e ambientais nos países amazônicos.
totalmente ordenado, a Amazônia conse- Cerca de metade da população desses pa-
gue conviver com a diversidade e a plura- íses encontra-se abaixo da linha da po-
lidade cultural, religiosa e social. Assim, é breza. Associa-se a isso a mortalidade in-

Maria, a mãe do povo


Resgatando a tradicional espiritualidade mariana
Jerônimo Gasques
nº- 327

Pe. Jerônimo Gasques escreveu este livro com o objetivo de ajudar a resgatar o genuíno
devocional mariano, como as rezas mais antigas, e a compreender melhor a razão de tantas
devoções que, às vezes, cultivamos sem saber por que, trazendo à lembrança dos católicos esse
aspecto devocional reforçado pela evangelização.

ano 60

152 páginas

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Vida Pastoral

26
fantil, que na Amazônia é bem maior do
que a média nacional dos países. Na Bolí- O futuro da fé
via, ela está acima do verificado nas regi-
Harvey Cox
ões mais pobres do mundo: são 73 casos
por mil nascidos vivos. Há ainda a
questão da desnutrição, que atinge um
quarto da população infantil, sendo os
indígenas os mais vulneráveis a esse pro-
blema. Ademais, pesquisas revelam que o
analfabetismo na região está acima dos
parâmetros internacionais, atingindo na
Amazônia brasileira 11%, mais que o do-
bro em relação aos 5% definidos pela Or-
ganização das Nações Unidas para a Edu-
cação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
como critério de situação crítica. Em ter-
mos eclesiais, a Pan-Amazônia, propor-
cionalmente, é a que goza de menor
quantidade de ordenados e consagrados
a serviço das diversas comunidades, tem
296 págs.

menos locais de culto e obras assisten-


ciais mantidas pela Igreja. Percebe-se, Que configuração a fé cristã
portanto, da cultura à religiosidade, da deverá assumir no século XXI?
economia à educação, o empobrecimento Em meio ao ritmo acelerado das
da região pan-amazônica. mudanças globais e diante de
Não obstante a pobreza estrutural, fru- um aparente ressurgimento do
to de opções políticas injustas, outro tipo fundamentalismo, o cristianismo
de pobreza pode ser percebido, aquela ainda poderá sobreviver como
uma fé viva e fecunda? Com
que é evangelicamente vivida. A Igreja
seu estilo rico e acuidade
pan-amazônica, excetuando algumas pou- acadêmica, Cox explora essas e
cas realidades, é simples, pobre. Nas fei- outras questões num livro que é,
ções do povo ou na organização das igre- ao mesmo tempo, autobiografia,
jas, percebe-se a leveza e a simplicidade comentário teológico e história
das primeiras comunidades cristãs. No da Igreja.
Imagens meramente ilustrativas.

estilo, em geral, despojado de seus pasto-


res, percebe-se uma legião de novos signa-
tários do pacto das catacumbas, filhos da
tradição latino-americana semeada desde
Medellín, desprovidos de títulos e insíg-
nº- 327

nias de ostentação, paladinos de uma Igre- Vendas: (11) 3789-4000


ja pobre e para os pobres. No apoio às or- 0800-164011

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SAC: (11) 5087-3625


ganizações de defesa dos direitos dos es-
poliados, dos indígenas e ribeirinhos, vê- V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

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se a certeza de uma Igreja que busca ser
Vida Pastoral

voz ao lado dos que têm pouca ou quase

27
nenhuma voz. Assim, ciente, como sonha dical na Amazônia, deve ser uma flâmu-
e ensina o papa, de que o serviço aos po- la apresentada à Igreja universal como
bres deve ser o critério de autenticidade critério de autenticidade do seu anúncio
do evangelho (cf. EG 195), a Igreja na do evangelho.
Amazônia tem um bom odor a exalar pe-
los seus poros para a Igreja Católica no 1.2. Igreja amazônica:
mundo inteiro: o compromisso com os atenta às necessidades concretas
pobres, com uma Igreja pobre. Um com- do povo e espelho da vivacidade
promisso congênito, próprio do seu jeito ritual autóctone
de ser Igreja. Ainda delineando as fei-
Em cinco anos que vivi na “É momento ções de uma Igreja com rosto
Amazônia, fui surpreendido, amazônico, sonha-se com
porque aprendi mais que ensi- de rever uma comunidade encarnada,
nei, ganhei mais que doei. o modelo real e sintonizada com as ale-
Aquela Igreja local ofertou de ministro grias e esperanças concretas
muito mais à minha visão da ordenado e do povo alocado na Pan-Ama-
Igreja católica, universal.
esboçar um papel zônia. Trata-se de ideal ambi-
Aprendi, convivendo com ou- cioso, pois essa região é infini-
tros religiosos, o doloroso pre- mais significativo tamente diversa, plural e múl-
ço a ser pago pela fidelidade da mulher tipla. Esse fato dispensa, por
evangélica a Deus nos pobres na Igreja do um lado, qualquer projeto
e sofredores. Acompanhei, Amazonas” monolítico de identidade
não sem sofrimento, uma reli- eclesial e, por outro, enseja a
giosa italiana da Congregação busca de elementos transver-
das Filhas de Maria Auxiliadora ser subita- sais que, adaptados às diversas situações
mente retirada de sua função e enviada ao locais, permitem construir uma identida-
continente africano após ameaças de mor- de particular. Nesse sentido, apresenta-
te, por ter denunciado ao Ministério Pú- mos três elementos que podem ser catali-
blico a exploração sexual de indígenas por sadores de uma Igreja com rosto amazôni-
um cartel de empresários da cidade. co, a saber: ministérios, defesa da natureza
Aprendi, no atendimento diário de mais e incorporação de elementos culturais à
de 18 tribos sob minha responsabilidade realidade celebrativa.
pastoral, com línguas e histórias diferen-
tes, a conviver com a singeleza e a diversi- Ministérios
dade de uma Igreja simples e plural, que Uma Igreja amazônica que se faça verda-
merece atenção e respeito. deiramente encarnada na história e assuma
Em resumo, uma Igreja com rosto o rosto do seu povo deve repensar o exercí-
amazônico, antes de qualquer coisa, tem cio dos ministérios naquela região e repro-
de oferecer à Igreja Católica no mundo por novos modelos. A rigor, tem-se ciência
nº- 327

aquilo que ela é, diríamos, ontologica- de que, dos mais de 400 mil sacerdotes no
mente. Assim, por sua própria peculiari- mundo, uma das menores parcelas de mi-

ano 60

dade, deve ensinar à Igreja universal a nistros ordenados católicos está no conti-
capacidade de conviver com a necessária nente americano: cerca de 30%, segundo

pluralidade eclesial. De igual modo, a dados do Anuário Pontifício. A título de


Vida Pastoral

pobreza evangélica, vivida de forma ra- exemplo, no Brasil há 27.416 presbíteros e

28
3.849 diáconos permanentes. Existe, ainda,
irregular distribuição do clero no país. A Globalização, gênero e
maior parte está concentrada nas regiões Sul construção da paz
(25%) e Sudeste (45%), enquanto na região O futuro do diálogo interfé
Norte, justamente onde está a parte brasilei-
Kwok Pui-Lan
ra da Pan-Amazônia, há apenas 3% do clero
nacional. Esse fato implica uma parca assis-
tência às comunidades e a privação de mui-
tos fiéis do acesso à Eucaristia dominical.
A lamentável situação eclesial à qual os
povos ribeirinhos e comunidades da Pan-
-Amazônia estão submetidos pela falta de
clero exige, no Sínodo, uma resposta au-
daciosa. É momento de rever o modelo de
ministro ordenado e esboçar um papel
mais significativo da mulher na Igreja do
Amazonas. Não se trata de oposição ao
ministério ordenado celibatário, que é um
dom e graça para a Igreja, como afirmou
dom Erwin Kräutler (BALLOUSSIER,
96 págs.

2018), mas de repensar a privação euca-


rística que muitos vivem na Amazônia. Ao Na Conferência Madeleva,
mesmo tempo, é necessário identificar o na Faculdade de Santa Maria
tipo de ministério que pode ser dado à (Notre Dame, EUA), de 2011,
mulher, levando em conta o papel central Kwok Pui-Lan, uma das mais
que desempenham nessa Igreja particular proeminentes teólogas feministas
(DAMIAN, 2018). A Igreja amazônica, as- pós-coloniais, discute o futuro
sim como toda a Igreja universal, não deve do diálogo interfé. Ela mostra
ficar refém de um modelo único de exercí- como a globalização impactou
cio do sacerdócio (a rigor, a Igreja é plural as relações e o diálogo inter-
em formas de vida sacerdotal). Deve, des- -religiosos, demonstrando que
de a Amazônia e ouvindo o clamor do o futuro do diálogo interfé deve
povo, abrir-se a outros modelos. Especial incluir as vozes marginalizadas
atenção merece a proposta de Fritz Lobin- que não têm sido convidadas
Imagens meramente ilustrativas.

ger, bispo emérito de Aliwal, África do à mesa, especialmente as


Sul, de “equipes de anciãos”. Esses anciãos femininas. O livro é o resultado
(homens e mulheres) não seriam clérigos, dessa conferência.
embora fossem sacramentalmente ordena-
dos sacerdotes e serviriam a Eucaristia. A
nº- 327

um padre animador celibatário caberia su- Vendas: (11) 3789-4000


pervisionar (acompanhar) as várias equi- 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


pes ministeriais. Com esse regime, talvez
não se sanaria a questão ministerial, con- V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

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tudo se mitigaria a dificuldade de comu-
Vida Pastoral

nhão que muitos amazônidas enfrentam.

29
Ecologia cionamento de mais de duas dezenas de
Outra senda de uma Igreja forjada com usinas hidrelétricas, às expensas do alaga-
traços plenamente amazônicos é a mento de áreas que deveriam ser protegi-
inegociável defesa integral da natureza. A das e do remanejamento de famílias que,
Igreja cresce à sombra da diversidade bem mais que terem uma terra, se sentem
ecológica da Amazônia, respira e transpira parte da terra que habitam. Soma-se a isso
a biodiversidade dessa região. Deve-se ter o desmatamento das florestas, que, so-
claro que a Pan-Amazônia, em todo seu mente na Amazônia Legal brasileira, se-
conjunto, responde pela metade da biodi- gundo o Imazon, chegou a mais de 4 mil
versidade mundial, goza da quilômetros no último ano.
última floresta tropical, amal- “A população Não raro esse processo tem o
gama 15% da água doce no que vive na assentimento dos próprios ha-
mundo e é a maior extensão bitantes locais, que, coopta-
região – da qual
florestal nos trópicos. A popu- dos por industriais e sob o en-
lação que vive na região – da fazem parte godo do discurso de bem-es-
qual fazem parte muitos cris- muitos cristãos –, tar social, acampam as ideias
tãos –, além de habitar o lugar, além de habitar o subjacentes à prática explora-
tem uma relação umbilical lugar, tem tória e as promovem entre
inextrincável com a terra, os seus pares. Em face de tão
rios, as matas e as florestas. A
uma relação complexo cenário, colocar-se
cosmovisão dos viventes au- umbilical sobre o pálio de defesa da bio-
tóctones é eivada por essa re- inextrincável diversidade é questão pre-
lação quase mística com o am- com a terra, mente para a sociedade civil, e
biente que povoam. os rios, as matas mais ainda para a Igreja.
Essa relação espiritual, no Essa defesa da biodiversi-
entanto, é diuturnamente to- e as florestas” dade insere-se na clarividente
mada de assalto, achacada e certeza descrita pelo papa
vilipendiada. Em toda a Pan-Amazônia há Francisco como ecologia integral (cf. LS
reiteradas investidas de grandes conglo- 137). Ela repousa na plena convicção da
merados industriais para explorar suas ri- inter-relação entre todos os organismos
quezas minerais e vegetais. Milhões de vivos, considerando o mundo todo como
quilômetros da região amazônica estão ce- uma casa comum. Essa concepção con-
didos à exploração de recursos minerais. corre para a ideia de que a crise ambien-
Só na Amazônia, até 2020, prevê-se o fun- tal não é distinta da crise social (cf. LS

Atualização litúrgica 1
Associação dos Liturgistas do Brasil

Hoje, mais de 50 anos após o Concílio Ecumênico Vaticano II e a promulgação da Constituição


nº- 327

Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia, temos condições de fazer uma
reflexão mais madura sobre o sentido e a identidade da liturgia assumida pelos padres
conciliares, celebrada e vivida pelas comunidades em todo o mundo. Com esta publicação, a

ASLI e seus membros pretendem contribuir para uma liturgia autêntica, nobre e simples.
ano 60

224 páginas

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Vida Pastoral

30
137) e que somente uma visão holística
da realidade possibilitará a resolução de Origem do sofrimento
tão complexa situação. Nesse espírito, do pobre
ante a crescente devastação da Pan-Ama- Teologia e antiteologia no
livro de Jó
zônia, a crítica ao modelo de desenvolvi-
mento antropocentrista e capitalista apli-
Luiz Alexandre Solano Rossi
cado à Amazônia deve ser protagonizada
pela Igreja. Esta deve inserir, no microní-
vel, em seus planos catequéticos, uma
crítica a esse sistema de desenvolvimen-
to, que oprime e mata. De igual modo, na
formação do clero local, deveria incutir,
via ementa de cursos de formação sacer-
dotal, uma sadia teologia da criação, que
torne aguda a compreensão da inter-rela-
ção entre os sistemas naturais e sociais,
dos quais o próprio ser humano é parte,
e explicite que a destruição dessa inter-
-relação implica também a do ser huma-
152 págs.

no. Ainda nessa perspectiva, a Igreja deve


colocar-se em linha de frente para inter-
por objeções a acordos que primam ape- A humanidade está vivendo uma
nas pela lucratividade, sem levar em con- de suas maiores crises: o aumento
sideração o bem-estar das populações da polarização entre ricos e
frágeis que vivem à sombra e/ou às mar- pobres. Esse é o tema do livro
gens da região amazônica. Por fim, que a de Luiz Alexandre Solano Rossi.
defesa da ecologia integral seja uma ban- Os ricos agradecem a Deus nos
deira institucionalizada da Igreja univer- mais diversos altares como se a
riqueza fosse uma recompensa
sal e das Igrejas particulares da Amazô-
divina. Mas nenhum sistema
nia, para que não seja refém de primave- econômico que produz injustiça
ras ou invernos eclesiais, mas permaneça pode ser abençoado. A obra traz
uma prática contínua da Igreja. a experiência de Jó, que proclama
que não há relação entre pecado
Ritualidade e liturgia e sofrimento, entre virtude e
Imagens meramente ilustrativas.

No espírito do olhar poético de Gui- recompensa.


marães Rosa, uma terceira margem à qual
a Igreja amazônica deve singrar, a fim de
plasmar sua própria imagem, é o universo
da ritualidade. Não sem razão, mirando a
nº- 327

Pan-Amazônia, pode-se parafrasear o pen- Vendas: (11) 3789-4000


samento cartesiano e dizer que ritus, ergo 0800-164011

ano 60

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sum (no rito, existo). Os povos autócto-
nes, em geral, são afeitos a celebrações V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

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rituais. São ritos que as comunidades
Vida Pastoral

nativas preservam de maneira sistemática

31
e explícita, vivenciando-os e transmitin- misso com a realidade humana (cf. CE-
do-os às gerações mais novas. Comuns LAM, Medellín, “liturgia”, n. 4). Assim, é
entre muitas tribos, em diversas aldeias e um imperativo que o Sínodo possa abrir
comunidades, são os ritos que secundam espaço, não de maneira excepcional, mas
a gravidez e o nascituro, que marcam a en- institucionalizada, para que cada vez
trada na puberdade ou na vida adulta, que mais, sobretudo no que diz respeito às
acompanham a passagem da vida para a línguas mais comuns, os livros litúrgicos
morte. São ritos que se traduzem em fes- sejam vertidos para o vernáculo. Certa-
tas, em grandes comemorações religiosas mente, com o motu proprio Magnum Prin-
e espirituais. cipium, de Francisco, está
Em comunidades amazô- “Não se sendo germinada essa ideia
nidas mais moldadas pela no que tange à tradução dos
trata apenas
mentalidade ocidentalizada, textos para as línguas usual-
os ritos são vividos de manei- de concessões, mente faladas, contudo cabe
ra velada, talvez parcimonio- mas de admissão insistir para que essa posição
sa. Nesses casos, bem mais de traços seja aplicada a todos os to-
que em cerimônias rituais, da cultura mos litúrgicos que compõem
expressam-se no modo parti- os rituais católicos.
cular de entendimento do
amazônica Ademais, cabe desvelar a
mundo e de relacionamento no universo necessidade de adaptações ri-
com ele. É uma cosmovisão celebrativo, tuais à realidade de alguns
peculiar. Constata-se que é de maneira atos litúrgicos. Não se trata
uma percepção delineada pela institucional” apenas de concessões, mas de
atitude de sacralidade com re- admissão de traços da cultura
lação à natureza, aos ances- amazônica no universo cele-
trais e ao Criador. Essa condição ritual, a brativo, de maneira institucional. Tais tra-
exemplo de todas as outras culturas, é ços seriam apresentados em cantos, na
algo superlativo na cultura amazônica. apropriação justa de ritos, como os de
Trata-se de quesito do qual não se pode apresentação de nascituros (benzimentos)
prescindir na tentativa de compreender tal ou de apresentação de dons (como o que
universo, pois compõe, de maneira em- ocorre no Dabucuri, cerimônia milenar
blemática, o complexo mosaico dos povos que ocorre na região do alto rio Negro),
da Pan-Amazônia. ou na preparação do ambiente religioso.
Diante dessa constatação, parece irre- Deve-se, contudo, livrá-los de qualquer
fragável a necessidade de localizar a litur- sincretismo, mas fundi-los no espírito da
gia católica de rito latino – predominante liturgia católica, que, a rigor, não prescin-
na região amazônica – dentro dessa ritua- de da realidade concreta dos povos; antes,
lidade e festividade intrínsecas ao univer- ao contrário, faz-se carne nelas (cf. EG
so amazônico. Não se nega que o rito la- 115; 167).
nº- 327

tino seja ritual, mas deve-se admitir que À guisa de exemplo, ao longo dos
ele advogue uma ritualidade que possa anos que vivi na região amazônica, perce-

ano 60

ser, à luz do “continente amazônico”, bi que alguns passos foram ensaiados. O


prenhe de tons afeitos ao gênio das cultu- bispo da Diocese de São Gabriel da Ca-

ras (cf. CELAM, Medellín, “liturgia”, n. choeira, Edson Damian, entusiasta da


Vida Pastoral

7b) e se expresse como coroa de compro- cultura indígena, caminhando às apalpa-

32
delas, buscava sendas para esse feliz casa-
mento entre a fé e a cultura. Em sua orde- Deus e sua criação
nação episcopal, com a mitra e o báculo, Doutrina de Deus, doutrina
recebeu o cocar e o bastão indígenas, sig- da criação
nos do poder e do serviço religioso. Esse Renold Blank
gesto, excetuando a entrega da mitra, ele
repetia quando ordenava padres autócto-
nes. De igual modo, nos ritos iniciais da
missa de posse do bispo, ao som do cari-
çu (instrumento musical ritual dos indí-
genas), foi feita uma ambientação do es-
paço, com defumação e preces em língua
nativa. Igualmente, no processo catequé-
tico, há um esforço para aproximar a
dinâmica própria do Reino de valores da
cultura indígena, normalmente muito
próximos. De modo particular, em cele-
brações com grande afluência de fiéis, eu
favorecia o canto de músicas em línguas
nativas, danças rituais e a proclamação
348 págs.

de leituras no vernáculo local. Talvez seja


o Sínodo momento oportuno de abertura No centro desta obra, encontra-
para nova reforma litúrgica que, desta se uma doutrina de Deus que
vez, atinja de maneira explícita o coração documenta, em estreita relação
da realidade amazônica. Atualmente, o com a Bíblia e, principalmente,
bispo da Diocese do Alto Rio Negro anda com Jesus de Nazaré, o interesse
às voltas com uma tradução do rito da de Deus pelos seres humanos.
Ao mesmo tempo, revela-se aqui
missa para uma das línguas presentes na
um Deus criador, cuja atuação
sua diocese, a fim de que seja aprovada dinâmica pode ser percebida
pela Conferência Nacional dos Bispos do também contra o pano de fundo
Brasil. Oxalá o Sínodo Pan-Amazônico de intelecções científico-naturais
impulsione esse projeto. da cosmologia, física quântica e
teoria do caos. Dessa maneira,
Conclusão o autor aponta uma saída sólida
Imagens meramente ilustrativas.

Ao fim desta reflexão, recorda-se que a do estreitamento no pensamento


evangelização no horizonte amazônico já judeu-cristão sobre a criação, um
estreitamento novamente atual.
goza de um lastro histórico de mais de
300 anos. Muito embora o Sínodo possa
ser avançado e assertivo em suas intui-
nº- 327

ções, deve-se reconhecer que suas propo- Vendas: (11) 3789-4000


sições ainda percorrerão lento caminho 0800-164011

ano 60

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até serem decantadas e se tornarem límpi-
das na Igreja amazônica. Desse modo, as V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

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sugestões acima expostas são elucubra-
Vida Pastoral

ções entre a teoria e a prática que precisam

33
ser recepcionadas, acolhidas, avaliadas e com responsabilidade evangélica e devo-
redirecionadas até se tornarem suficiente- tado amor à Igreja, a missão de estabele-
mente capazes de embeber a catolicidade cer, em suas realidades locais, aspectos
da Igreja na cultura indígena. ligados ao culto (liturgia), ao ministério
A rigor, em termos eclesiais e na pers- (homens e mulheres) e à defesa da natu-
pectiva de uma sinodalidade profunda, reza, enquanto a Roma, como primeira
julgo que a assembleia dos bispos deste entre iguais, competiria assentir e con-
ano deixará grande legado se, verdadei- firmar. Trata-se de ideal que beira à uto-
ramente, permitir aos bispos locais a li- pia; todavia, é ela que, como diria o poe-
berdade para ousar traçar caminhos, ta uruguaio Eduardo Galeano, serve de
construir novas trilhas. Nesse espírito, estímulo no horizonte para nos fazer
caberia aos prelados da Pan-Amazônia, caminhar.

Referências bibliográficas

AMAZÔNIA: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral: Documento Preparatório
(DP) do Sínodo dos Bispos para a Assembleia Especial para a Região Pan-Amazônica. Boletim da
Sala de Imprensa da Santa Sé, Vaticano, 8 jun. 2018. Disponível em: <http://press.vatican.va/con-
tent/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/06/08/0422/00914.html#po>. Acesso em: 9 ago. 2018.
BALLOUSSIER. Anna Virginia. Padres mais velhos puxam aumento de clérigos no país. Folha de S.
Paulo, São Paulo, 7 maio 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/
padres-mais-velhos-puxam-aumento-de-clerigos-no-pais.shtml>. Acesso em: 20 ago. 2018.
CONFERÊNCIA EPISCOPAL LATINO-AMERICANA (CELAM). Documentos do Celam: Rio de Janeiro,
Medellín, Puebla, Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2004.
DAMIAN, Edson Tasquetto. Una Chiesa dal volto amazzonico. Settimana News, Bologna, 3 Iuglio
2018. Disponível em: <http://www.settimananews.it/chiesa/chiesa-dal-volto-amazzonico/>. Acesso
em: 10 jul. 2018.
FONSECA, A. et al. Boletim do desmatamento da Amazônia Legal (dezembro de 2017). Belém: Imazon,
2017.
FRANCISCO. Ângelus. Vaticano, 15 out. 2017. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/fran-
cesco/pt/angelus/2017/documents/papa-francesco_angelus_20171015.html>. Acesso em: 9 ago.
2018.
LOBINGER, Fritz. Padres para amanhã: proposta para comunidades sem eucaristia. São Paulo: Paulus,
2008.

Virgem Maria
Mãe em plenitude
Frei Maria-Eugênio do Menino Jesus
nº- 327

Frei Maria-Eugênio do Menino Jesus, fascinado pelo mistério da maternidade espiritual de


Maria, viveu imerso na irradiação de sua presença. As orações e meditações que se agrupam

neste volume nasceram de seu olhar contemplativo e filial, revelando o essencial da Virgem
ano 60

Maria e o lugar que ela ocupa na vida do cristão e da Igreja.


160 páginas

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Vida Pastoral

34
A santidade
no mundo de hoje:
das distorções
ao autêntico
chamado de Deus
Lino Batista de Oliveira*

A santidade exige de cada um mais que Introdução


conhecimento e vontade, pois, Na solenidade de São José, em 19 de
março de 2018, o papa Francisco publi-
antes de tudo, é um chamado gratuito cou a Exortação Apostólica Gaudete et
de Deus a, pela ação do seu Espírito, Exsultate (Alegrai-vos e Exultai – cf. Mt
conformar nossa vida à de Cristo, que 5,12), uma reflexão a respeito da santi-
dade nos tempos hodiernos. O objetivo
nos convida ao amor incondicional do papa, segundo ele, é humilde: “[...]
a Deus e ao próximo, especialmente fazer ressoar mais uma vez o chamado à
santidade, procurando encarná-la no
aos sofredores: “tive fome e me destes contexto atual, com os seus riscos, desa-
de comer...” (Mt 25,35-36). fios e oportunidades [...]” (FRANCIS-
CO, 2018, n. 2).
Para enfrentar a discussão sobre a pos-
sibilidade da santidade no mundo de hoje
nº- 327

e para ajudar na reflexão sobre o modelo


de santidade em nossa sociedade, o papa

ano 60

*Lino Batista de Oliveira é padre da Diocese de Apucarana, inicia seu pensamento falando sobre o
doutor em Filosofia (Ética) pela Universidade Santo Tomás chamado à santidade. Destaca o papel dos

(Roma, Itália); professor da Pontifícia Universidade Católica do


que já são santos, que aparecem como en-
Vida Pastoral

Paraná e do Seminário de Filosofia da Diocese de Apucarana


(IFA); avaliador do MEC. E-mail: lino.batista326@gmail.com corajadores de novos santos e santas, e

35
lembra que santos não são somente os dos Concepções que não nasceram em nossos
altares, pois a santidade é uma graça con- dias, mas já são conhecidas, ganhando
cedida a todos por iniciativa de Deus. apenas nova linguagem: gnosticismo e pe-
O papa faz referência a dois inimigos lagianismo. “São duas heresias que surgi-
sutis da santidade em nosso tempo: o ram nos primeiros séculos do cristianis-
gnosticismo e o pelagianismo. O gnosti- mo, mas continuam a ser de alarmante
cismo liga-se ao conhecimento como au- atualidade. Ainda hoje os corações de
tossuficiência, isto é, à ideia de que é pelo muitos cristãos, talvez inconscientemente,
conhecimento que o ser humano deve deixam-se seduzir por estas propostas en-
buscar a sua salvação. A pessoa se resume ganadoras” (FRANCISCO, 2018, n. 35).
na imanência da sua subjetividade e dos
seus sentimentos, tornando-se autorrefe- 1.1. A distorção gnóstica
rencial. Quanto ao pelagianismo, associa- Gnósticas eram algumas correntes filo-
-se à ideia de atribuir à vontade do ser hu- sóficas que se difundiram, nos primeiros
mano a causa de sua salvação, esquecendo séculos depois de Cristo, no Oriente e no
que, antes de tudo, não há “eu me salvo”, Ocidente. O gnosticismo foi uma primeira
mas sim “Deus me salva” – afinal, a salva- tentativa de filosofia cristã, feita sem rigor
ção é de pura iniciativa divina. sistemático, com a mistura de elementos
O objetivo desta reflexão é retomar o cristãos míticos, neoplatônicos e orientais.
primeiro e segundo capítulos da exortação Em geral, para os gnósticos, o conhecimen-
papal e responder às inquietações sobre a to era condição para a salvação. Os princi-
concepção de santidade no mundo con- pais gnósticos dos quais temos notícia fo-
temporâneo, principalmente no que diz ram Basílides, Carpócrates, Valentim e Bar-
respeito ao lugar que o ser humano e Deus desane, cujas doutrinas eram conhecidas
ocupam na construção do ser santo. Qual pelas refutações feitas por Clemente de Ale-
é o papel de Deus e qual é o papel do ser xandria, Irineu e Hipólito (ABBAGNANO,
humano? É com o fito de responder a essa 2000, p. 485). O gnosticismo foi combati-
questão que se refletirá sobre as distorções do por uma série de Padres gregos e latinos,
gnóstico-pelagianas e sobre a santidade desde Santo Irineu, no século II, e seus
como um chamado de Deus. contemporâneos até Agostinho de Hipona,
na obra A verdadeira religião (389).
1. O chamado à santidade O papa, no segundo capítulo da exor-
e suas distorções tação, estigmatiza o gnosticismo como um
O papa não mede esforços ao refletir dos inimigos da santidade no mundo atual.
sobre as concepções equivocadas acerca Segundo ele, o gnosticismo é a autocele-
da santidade presentes em nosso mundo. bração de “[...] uma mente sem encarna-

Maria: mulher de Deus e dos pobres


nº- 327

Releitura dos dogmas marianos


Clara Temporelli

Quem é Maria? Muito foi dito e escrito sobre ela. Mas será a verdadeira Maria a mesma da

doutrina da fé? Que motivos há para que milhares de pessoas se reúnam em seus santuários
ano 60

para orar e experimentar o consolo e a ternura de Deus por meio dela? O propósito deste livro é
resgatar a figura de Maria a partir de uma releitura dos dogmas marianos.
264 páginas

Vida Pastoral

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36
ção, incapaz de tocar a carne sofredora de que a realidade apresenta, também as so-
Cristo nos outros, engessada numa enci- bre Deus, “[...] é possível que seja um falso
clopédia de abstrações” (FRANCISCO, profeta, que usa a religião para seu benefí-
2018, n. 37). Trata-se de vaidosa superfi- cio, a serviço das próprias lucubrações
cialidade, que pretende reduzir o ensina- psicológicas e mentais” (FRANCISCO,
mento de Jesus a uma lógica fria e dura 2018, n. 41). A consequência direta, por
que procura dominar tudo. Ao desencar- se colocar como aquele que conhece e
nar o mistério, prefere “[...] um Deus sem pode explicar Deus com lógica, é pensar
Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja que por isso já se é santo, perfeito e me-
sem povo” (FRANCISCO, 2016, n. 11). lhor do que a massa ignorante. Lembra-
Além de alertar sobre um tipo de santi- -nos o papa que São Francisco preocupa-
dade baseada numa mente sem Deus e fria, va-se com a ideia de que saber de Deus
o papa afirma ser o gnosticismo uma ideolo- significava necessariamente ser de Deus –
gia que quer convencer o ser humano de portanto, santo. Ensinou São Boaventura,
que a sua visão sobre o mundo é plena e diz-nos o pontífice, que “[...] a verdadeira
perfeita. O gnóstico, “[...] ao mesmo tempo sabedoria cristã não se deve desligar da
que exalta indevidamente o conhecimento misericórdia para com o próximo” (FRAN-
ou uma determinada experiência, considera CISCO, 2018, n. 46). Não é sendo somen-
que a sua própria visão da realidade seja a te intelectuais de Deus que seremos os
perfeição” (FRANCISCO, 2018, n. 40). Tra- seus santos. Esse é o maior equívoco do
ta-se da pessoa que, pela via do conheci- gnosticismo de ontem e de hoje.
mento, quer esgotar tudo e todos ao seu eu
pensante, aprisionando a realidade aos con- 1.2. A distorção pelagiana
ceitos. Como nos lembra Lévinas (1906- Estágio importante na história do cris-
1995), em sua filosofia da alteridade, trata- tianismo, sobretudo no tratado da teologia
-se do pensamento do idêntico, que nega a da graça, foi a controvérsia pelagiana, re-
diferença, o diferente, que quer dar ao todo solvida com o Concílio de Cartago em 418
uma única identidade, transformar toda rea- (BAUMGARTNER, 1982, p. 101-105). Pe-
lidade numa “mesmeidade”. lágio, monge de origem irlandesa, asceta e
Assim como busca a redução do real diretor espiritual em Roma, ensinava que
ao racional no que se refere ao mundo das o ser humano podia cumprir os manda-
coisas, também o pretende fazer em rela- mentos de Deus por suas próprias forças,
ção ao mundo de Deus. Com efeito, o sem que para isso tivesse necessidade de
gnosticismo, “[...] por sua natureza, quer um auxílio divino interior (AGOSTINHO,
domesticar o mistério” (FRANCISCO, 1999, p. 199-317).
2015, n. 11), tanto o do mundo como o No  século V, Pelágio havia debatido
do outro e o de Deus. No entanto, “Deus com  Santo Agostinho  sobre esse assunto.
supera-nos infinitamente, é sempre uma Agostinho sustentava que o pecado original
surpresa, e não somos nós que determina- de Adão fora herdado por toda a humani-
nº- 327

mos a circunstância histórica em que o en- dade e que, mesmo que o homem caído
contramos, já que não dependem de nós o retenha a habilidade para buscar a Deus

ano 60

tempo, nem o lugar, nem a modalidade do por si mesmo, ele está escravizado ao peca-
encontro” (FRANCISCO, 2018, n. 41). do e não pode não pecar. Por sua vez, Pelá-

Segundo o papa, alguém que arvore gio insistia que a queda de Adão afetara
Vida Pastoral

ter as respostas para todas as perguntas apenas a Adão e que, se Deus exige das

37
pessoas que vivam vidas perfeitas, ele tam- de nos ter atraído e tornado idôneos com o
bém dá a habilidade moral para que pos- seu dom” (FRANCISCO, 2018, n. 50).
sam fazê-lo. Ademais, na concepção dos O problema daqueles que caem no pe-
pelagianos, embora Adão fosse um mau lagianismo é o esquecimento dos ensina-
exemplo para a sua descendência, suas mentos da Igreja a respeito da justificação
ações não trariam consequências para ela, e do papel da graça: “A Igreja ensinou re-
tendo Jesus o papel de dar um bom exem- petidamente que não somos justificados
plo fixo para o resto da humanidade (con- pelas nossas obras ou pelos nossos esfor-
trariando assim o mau exemplo de Adão), ços, mas pela graça do Senhor que toma a
bem como proporcionar a ex- iniciativa. Os Padres da Igreja,
piação dos seus pecados, e ten- “No pelagianismo já antes de Santo Agostinho,
do a humanidade, em suma, expressavam com clareza esta
total controle das suas ações. está presente convicção primária” (FRAN-
As sentenças pronuncia- a ideia de que CISCO, 2018, n. 52).
das pelo papa Inocêncio I tudo se pode pela Os novos pelagianos que
contra tal tese acabaram por vontade humana, têm se apresentado em nossos
classificá-la como heresia. He- dias são cristãos que insistem
como
resia que sustentava basica- em trilhar outros caminhos:
mente a ideia de que todo ser se esta fosse
humano é totalmente respon- algo puro, [...] o da justificação pelas suas
sável pela própria salvação e, perfeito, próprias forças, o da adoração
portanto, não necessita da onipotente” da vontade humana e da pró-
graça divina. Segundo os pela- pria capacidade, que se traduz
gianos, toda pessoa nasce mo- numa autocomplacência ego-
ralmente neutra, sendo capaz, por si mes- cêntrica e elitista, desprovida do verda-
ma, sem qualquer influência divina, de deiro amor. Manifesta-se em muitas ati-
salvar-se quando assim o desejar. tudes aparentemente diferentes entre
No pelagianismo está presente a ideia si: a obsessão pela lei, o fascínio de exi-
de que tudo se pode pela vontade humana, bir conquistas sociais e políticas, a os-
como se esta fosse algo puro, perfeito, oni- tentação no cuidado da liturgia, da
potente, a que se acrescenta a graça. A graça doutrina e do prestígio da Igreja, a van-
aparece como acréscimo à vontade huma- glória ligada à gestão de assuntos práti-
na. No fundo, como nos faz refletir a Gau- cos, a atração pelas dinâmicas de auto-
dete et Exsultate, “a falta dum reconheci- ajuda e realização autorreferencial
mento sincero, pesaroso e orante dos nos- (FRANCISCO, 2018, n. 57).
sos limites é que impede a graça de atuar
melhor em nós, pois não lhe deixa espaço O pelagianismo assume hoje caracterís-
para provocar aquele bem possível que se ticas modernas: o individualismo da cultura
integra num caminho sincero e real de cres- (“eu sei, eu quero, eu posso, eu consigo, eu
nº- 327

cimento” (FRANCISCO, 2018, n. 50). faço!”); a autossuficiência liberal-capitalista;


O que há é uma vontade sem humilda- a ambição do progresso absoluto; a ênfase

ano 60

de: “Com efeito, se não reconhecemos a nos- no sucesso a todo custo; a pretensão do po-
sa realidade concreta e limitada, não podere- der e do controle da mente; o interesse pelos

mos ver os passos reais e possíveis que o movimentos neognósticos, como o espiritis-
Vida Pastoral

Senhor nos pede em cada momento, depois mo; o planejamento controlado; a ética civil;

38
a idolatria do mercado; o mercantilismo reli-
gioso. No campo eclesial e pastoral, fazem- Igreja
-se presentes: a moral do legalismo, do ritua- Comunhão viva
lismo e do juridicismo; expressões jansenis-
Paul Lakeland
tas de rigorismo; o carreirismo e o clericalis-
mo eclesiásticos; devocionismos de tendên-
cia mágico-fundamentalista; o apelo fácil aos
exorcismos; a satanização da vida; o apego
às tradições e leis do passado; o hiperativis-
mo; a confiança nos planos e projetos huma-
nos, que fazem crer que a Igreja é resultado
da ação humana (BINGEMER; FELLER,
2003, p. 48-56).
Para evitar isso, o papa nos lembra a
existência de uma hierarquia das virtudes.
Nessa hierarquia, a primazia pertence às
virtudes teologais, que têm Deus como
objeto e motivo. E, no centro, está a cari-
dade. Segundo o papa:
280 págs.

[...] no meio da densa selva de preceitos


e prescrições, Jesus abre uma brecha que Os recentes livros premiados de
permite vislumbrar dois rostos: o do Pai Paul Lakeland sobre o lugar dos
e o do irmão. Não nos dá mais duas fór- leigos na Igreja Católica Romana
mulas ou dois preceitos; entrega-nos contemporânea o prepararam
dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus muito bem para assumir esta
que se reflete em muitos, porque em “eclesiologia desde baixo”.
cada irmão, especialmente no menor, Lakeland debruça-se sobre as
frágil, inerme e necessitado, está presen- “marcas clássicas da Igreja”, mas
sua atenção volta-se de modo
te a própria imagem de Deus. De fato,
especial para o que podemos
será com os descartados desta humani- aprender sobre a natureza da
dade vulnerável que, no fim dos tempos, Igreja como comunhão viva, a
o Senhor plasmará a sua última obra de partir do exame dos valores e
arte (FRANCISCO, 2018, n. 61). práticas das pessoas de fé comuns.
Imagens meramente ilustrativas.

2. Santidade: antes de tudo,


um chamado de Deus
Quando se toma a Palavra de Deus, do
nº- 327

Antigo ao Novo Testamento, ecoa de manei- Vendas: (11) 3789-4000


ra constante o convite à santidade. No Anti- 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


go Testamento, no livro do Levítico, fala-nos
Deus: “Pois eu sou o Senhor, o Deus de vo- V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
cês; consagrem-se e sejam santos, porque eu
Vida Pastoral

sou santo. Não se tornem impuros com

39
qualquer animal que se move rente ao chão. é a vontade de Deus, a vossa santificação’
Eu sou o Senhor que os tirou da terra do (1Ts 4,3; cf. Ef 1,4)” (LG 39).
Egito para ser o seu Deus; por isso, sejam É na esteira da história da salvação e
santos, porque eu sou santo” (Lv 11,44-45). da Igreja que o papa Francisco reflete so-
No Novo Testamento, em 1 Pedro, recorda- bre quem é chamado à santidade nos dias
-se o chamado a ser santo porque Deus é atuais. Em sua exortação apostólica sobre
santo: “Mas, assim como é santo aquele que a santidade, no capítulo primeiro, sobre o
os chamou, sejam santos vocês também em chamado à santidade, o papa lembra o im-
tudo o que fizerem, pois está escrito: ‘Sejam portante papel dos que já chegaram aos
santos, porque eu sou santo’” altares; daqueles que, já sendo
(1Pd 1,15-16). “A raiz de santos, encorajam os que
Quando se volta para a tra- toda santidade ainda estão a caminho. São os
dição da Igreja, já no século IV que já chegaram à presença de
está em Cristo,
se verifica uma preocupação Deus e mantêm conosco laços
teológica em estabelecer o real pois a missão do de amor e comunhão (FRAN-
lugar dos santos e santas de santo e da santa CISCO, 2018, n. 4).
Deus. Teólogos como Santo de Deus A santidade não se esgota
Agostinho rejeitam a ideia de os é a missão naqueles que já foram beatifica-
santos poderem ser vistos como dos e canonizados, pois o Espí-
sucessores dos deuses ou como de Cristo” rito Santo de Deus sopra sem
deuses independentes: cessar e para todos os lados,
derramando a graça da santidade. Sem bar-
Eles [mártires] não são deuses: o Deus reiras, o Espírito vai suscitando os santos e
deles é o nosso Deus. É certo que vene- santas de hoje, que se encontram, segundo o
ramos as suas “memórias” como santos papa, não necessariamente em pessoas que
homens de Deus, que até a morte com- vivem longe, mas naquelas que estão perto e
bateram pela verdade para fazerem co- são um reflexo da presença de Deus. Muitos
nhecer a verdadeira religião, provando a são santos, e o são perto de nós, vivendo,
falsidade, a mentira do paganismo trabalhando e partilhando a vida.
(AGOSTINHO, 1991, p. 788). A santidade é um chamado do Senhor
feito a cada um de maneira particular.
Decorre do pensamento de Santo Muitos são os caminhos através dos quais
Agostinho a definição de quem são os san- somos convidados a vivê-la. “Todos esta-
tos e de qual o papel e a importância deles mos chamados a ser testemunhas, mas há
no serviço da Igreja. muitas formas existenciais de testemu-
É tratando os santos não como deuses, nho” (LG 11). Lembra-nos o papa:
mas reservando-lhes um lugar bem defini-
do na história da humanidade, que o Ma- [...] uma pessoa não deve desanimar,
gistério eclesiástico afirma ser a  santida- quando contempla modelos de santida-
nº- 327

de  uma vocação universal dos batizados, de que lhe parecem inatingíveis. Há tes-
conforme nos fala o Concílio Vaticano II, temunhos que são úteis para nos esti-

ano 60

ao versar sobre a Igreja: “Todos na Igreja, mular e motivar, mas não para procu-
quer pertençam à hierarquia quer por ela rarmos copiá-los, porque isso poderia

sejam pastoreados, são chamados à santi- até afastar-nos do caminho, único e es-
Vida Pastoral

dade, segundo a palavra do Apóstolo: ‘esta pecífico, que o Senhor predispôs para

40
nós. Importante é que cada crente dis-
cirna o seu próprio caminho e traga à A religião na sociedade
luz o melhor de si mesmo [...] (FRAN- urbana e pluralista
CISCO, 2018, n. 11).
Manfredo Araújo de Oliveira

O que não se pode desconsiderar é o


fundamento da santidade, seja ela em qual
modo de vida for escolhida para ser vivi-
da. A raiz de toda santidade está em Cris-
to, pois a missão do santo e da santa de
Deus é a missão de Cristo. No fundo, a
santidade decorre da profunda união com
Cristo e com o mistério da sua vida;

[...] consiste em associar-se duma ma-


neira única e pessoal à morte e ressur-
reição do Senhor, em morrer e ressusci-
tar continuamente com ele. Mas pode
também envolver a reprodução na pró-
pria existência de diferentes aspectos da
368 págs.

vida terrena de Jesus: a vida oculta, a


vida comunitária, a proximidade aos Esse livro pretende, em primeiro
últimos, a pobreza e outras manifesta- lugar, apresentar o debate
ções da sua doação por amor (FRAN- contemporâneo a respeito da
CISCO, 2018, n. 20). presença e do papel da religião
no contexto sociocultural da
O ser santo com Cristo, por Cristo e modernidade tardia em que o
em Cristo remete-nos a uma vida de servi- saber científico vive uma fase
determinante. Num segundo
ço que santifica. No entanto, um serviço
momento, é enfrentada de
movido pela ansiedade, pelo orgulho, pela forma introdutória a questão
necessidade de aparecer e dominar certa- central, nesse contexto, de uma
mente não será santificador. Sendo assim, leitura do fenômeno religioso
o desafio é viver de tal forma a própria do- no horizonte de uma teoria
ação, que os esforços tenham um sentido sistemática sobre o ser em si
Imagens meramente ilustrativas.

evangélico e nos identifiquem cada vez mesmo e em seu todo, que


mais com Jesus Cristo. Afirma o papa: é específico de uma reflexão
“Não é saudável amar o silêncio e esqui- filosófica e teológica.
var-se do encontro com o outro, desejar o
repouso e rejeitar a atividade, buscar a
nº- 327

oração e menosprezar o serviço” (FRAN- Vendas: (11) 3789-4000


CISCO, 2018, n. 26). 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


Os santos de hoje nascem no mundo,
pertencem a Cristo, vivem no mundo, não V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
são do mundo, mas nele estão para a san-
Vida Pastoral

tificação do mundo. Assim nos instrui o

41
sucessor de Pedro: “Cada cristão, quanto somos chamados a deixar transparecer
mais se santifica, tanto mais fecundo se torna no dia a dia da nossa vida.
para o mundo” (FRANCISCO, 2018, n. 33).
O rosto do Mestre, que devemos deixar
Conclusão transparecer no dia a dia da vida para alcan-
A santidade que o papa propõe vai na çar a santidade, passa pelo comportamento.
contracorrente do intimismo gnosiológico Para ser santo, há uma regra de comporta-
e pelagiano. Segundo Francisco (2018, n. mento, como lembra o evangelho: “Tive fome
63), ela parte de Jesus, que e destes-me de comer, tive sede e destes-me
de beber, era peregrino e recolhestes-me, es-
[...] explicou, com toda a simplicida- tava nu e destes-me que vestir, adoeci e visi-
de, o que é ser santo; fê-lo quando tastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo”
nos deixou as bem-aventuranças (Mt 25,35-36; cf. FRANCISCO, 2018, n. 95).
(cf. Mt 5,3-12; Lc 6,20-23). Estas são Ser santo não significa revirar os olhos
como que o bilhete de identidade do num suposto êxtase. Se partimos da con-
cristão. Assim, se um de nós se ques- templação de Cristo, devemos saber vê-lo
tionar sobre “como fazer para chegar a sobretudo no rosto daqueles com quem ele
ser um bom cristão”, a resposta é sim- mesmo se quis identificar. Reconhecer Cris-
ples: é necessário fazer – cada qual a to nos pobres e atribulados revela-se o pró-
seu modo – aquilo que Jesus disse no prio coração de Cristo, os seus sentimentos e
sermão das bem-aventuranças.  Nelas as suas opções mais profundas, aos quais se
está delineado o rosto do Mestre, que procura conformar todo santo.

Referências bibliográficas

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 2000.
AGOSTINHO. A graça de Cristo e o pecado original. São Paulo: Paulus, 1999. (Patrística, 12).
______. Cidade de Deus. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991. v. 1.
BAUMGARTNER, Ch. La gracia de Cristo. Barcelona: Herder, 1982.
BINGEMER, M. C. L.; FELLER, V. G. Deus-Amor: a graça que habita em nós. Valência: Siquem; São
Paulo: Paulinas, 2003.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium. Disponível
em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_
const_19641121_lumen-gentium_po.html>. Acesso em: 12 dez. 2018.
FRANCISCO. Carta ao Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica Argentina no centenário da
Faculdade de Teologia (3 mar. 2015). L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, 12 mar. 2015.
nº- 327

______. Evangelii Gaudium: a alegria do evangelho. Sobre o anúncio do evangelho no mundo atual.
São Paulo: Paulus/Loyola, 2013.

ano 60

______. Gaudete et Exsultate. Sobre o chamado à santidade no mundo atual. Tradução de Flávia Regi-
nato. São Paulo: Paulinas, 2018.

Vida Pastoral

______. Homilia da Missa na Casa de Santa Marta (11 nov. 2016). L’Osservatore Romano, ed. portu-
guesa, 17 nov. 2016.

42
homiléticos
Roteiros

Rita Gomes*

Também na internet:
vidapastoral.com.br
3º Domingo da Páscoa
5 de maio

Reconhecimento e
testemunho do Ressuscitado
*Ir. Rita Maria Gomes, nj,
é natural do Ceará, onde fez seus
I. Introdução geral
estudos em Filosofia no Instituto No domingo anterior, nossa liturgia abordava a ques-
Teológico e Pastoral do Ceará (Itep), tão da identificação de Jesus ressuscitado como o mesmo
atual Faculdade Católica de
Fortaleza. Possui graduação, que fora crucificado. A experiência de Tomé de tocar as
mestrado e doutorado em Teologia chagas visava precisamente afirmar que o Crucificado e o
pela Faculdade Jesuíta de Filosofia
e Teologia (Faje), onde lecionou
Ressuscitado são “um e o mesmo”. Neste domingo, conti-
Sagrada Escritura. Atualmente nuamos, em nossa celebração pascal, a reflexão a respeito
é professora na Universidade do reconhecimento do Cristo ressuscitado. Agora o ponto
Católica de Pernambuco (Unicap).
de partida é a partilha de uma refeição de Jesus com seus
nº- 327

É membro do Instituto Religioso


Nova Jerusalém, que tem como discípulos, como atesta o evangelho deste dia. A primeira
carisma o estudo e o ensino
leitura traz o testemunho corajoso dos apóstolos diante do

da Sagrada Escritura. E-mail:


ano 60

ritamarianj@gmail.com Sinédrio, testemunho esse que ecoa na exaltação do Se-


nhor, presente na resposta do salmo, e se liga com a se-

gunda leitura, que atesta a adoração da comunidade fiel ao


Vida Pastoral

seu Senhor.

43
Roteiros homiléticos

II. Comentários zes no texto. A primeira delas, na boca do


dos textos bíblicos sumo sacerdote, como memória dessa
1. Evangelho (Jo 21,1-19): acusação. A segunda, na boca dos apósto-
Reconhecimento, partilha e missão los, tendo Pedro como destaque. O fato de
O evangelho deste domingo nos rela- que Pedro seja destacado nesse trecho se
ta o encontro, à beira do lago, de Jesus liga diretamente ao evangelho, que teste-
com seus discípulos, com quem ele parti- munha seu chamado a apascentar o reba-
lha uma refeição. Esse texto, chamado de nho do Senhor.
“a pesca milagrosa”, é narrado por João
no final de seu evangelho, distinguindo- 3. II leitura (Ap 5,11-14):
-se, assim, de Lucas, que o situa no iní- A adoração do Senhor prestada
cio, no contexto do chamado dos primei- pelo rebanho
ros discípulos. Para João, a pesca e a con- A segunda leitura, tirada do Apoca-
sequente partilha do alimento são ex- lipse, está intimamente ligada à primeira
pressões do reconhecimento do Ressusci- e ao evangelho. Ela traz o testemunho
tado como aquele que vivera com eles e celeste do Cristo. São os anjos e os san-
fora crucificado. O crucificado e o ressus- tos, no céu, que reconhecem, exaltam e
citado são a mesmíssima pessoa. Essa é a louvam o Cristo, a exemplo do que fize-
experiência vivida que ilumina a mente e ram os discípulos, na terra, diante do
o coração dos discípulos. E isso não é Sinédrio. O rebanho do Senhor que fora
tudo. Em João, à pesca e à consequente confiado aos apóstolos, tendo Pedro
refeição segue-se o chamado de Pedro como líder desse grupo, agora louva seu
para apascentar as ovelhas do rebanho de Senhor e pastor nas alturas celestes.
Jesus. O texto conhecido como “primado
de Pedro” nos sinópticos é, em João, um III. Pistas para reflexão
chamado a exercer uma missão, delegada Uma primeira consideração a ser teci-
a Pedro pelo Ressuscitado. da relaciona-se com a questão do reco-
nhecimento do Ressuscitado como o
2. I leitura (At 5,27b-32.40b-41): mesmo que fora crucificado. A melhor
Pedro lidera o rebanho do Senhor forma de atestar que o Ressuscitado não
A primeira leitura atesta o testemu- era um mito, uma invenção ou qualquer
nho dos apóstolos a respeito de Cristo outro subterfúgio dos discípulos era re-
diante do Sinédrio. Eles anunciam seu conhecê-lo como o mestre com quem
mestre, sua vida e seus ensinamentos. O conviveram.
texto apresenta ainda a resistência ou in- Aquele que aparecia diante deles não
cômodo que esse anúncio causa na classe era uma ilusão ou um fantasma, por isso
dirigente da religião oficial. A razão da ele come com os discípulos, como fizera
resistência é clara: os apóstolos não só muitas vezes antes de sua morte. Esse tex-
anunciam o Cristo ressuscitado, mas to, contudo, não fala apenas do Cristo: diz
nº- 327

também, junto a esse anúncio, denun- algo também sobre os cristãos. Estes serão
ciam aquela mesma liderança por seu pa- reconhecidos pela partilha do pão, ou

ano 60

pel ativo no processo que desembocou seja, pela comensalidade repetida em cada
na execução de seu mestre. liturgia eucarística. Assim, o texto não tes-

A responsabilidade das autoridades ju- temunha apenas o Ressuscitado, mas, por


Vida Pastoral

daicas na morte de Jesus aparece duas ve- antecipação, também os cristãos.

44
Uma segunda consideração nos leva
a entender que essa experiência de en- Patologias do poder
contro com o Ressuscitado permite aos Saúde, direitos humanos e a
nova guerra contra os pobres
discípulos a ousadia e a coragem de
anunciar o Cristo e de testemunhar seus Paul Farmer
ensinamentos, ainda que sob o risco de
serem presos e torturados. Com isso,
alerta os cristãos de todos os tempos de
que seguir a Cristo e anunciá-lo com-
porta o risco do incômodo das estrutu-
ras injustas há muito estabelecidas. A
incompreensão e a perseguição podem
fazer e fazem, de tempos em tempos,
parte da “herança” dos seguidores do
Cristo. Enfim, somos chamados, como
Igreja, a unir nossa voz à dos anjos e
santos num canto de louvor ao nosso
Senhor e salvador.
504 págs.

4º Domingo da Páscoa
12 de maio
Este livro é o esforço de um

A constituição do médico antropólogo para revelar


caminhos nos quais o direito mais

rebanho do Senhor básico – o direito de sobreviver


– é atropelado em uma era de
grande riqueza, provando que
esse assunto deve ser considerado
I. Introdução geral
o mais urgente dos nossos
No domingo anterior, o evangelho tempos. O drama e a tragédia
apresentou a experiência do reconheci- dos doentes desamparados
mento do Ressuscitado como o mesmo preocupam não apenas os
que fora crucificado, a exemplo do que médicos e estudiosos que
ocorrera no domingo precedente, não trabalham entre os pobres, mas
permitindo assim um desvirtuamento todos os que professam algum
Imagens meramente ilustrativas.

da pessoa de Cristo. Neste 4º domingo interesse pelos direitos humanos.


da Páscoa, o tema do reconhecimento
aparece, mas de modo diferente, menos
central. Somos chamados a refletir não
sobre a identidade do pastor, mas, so-
nº- 327

bretudo, sobre a identidade das ovelhas Vendas: (11) 3789-4000


ou, simplesmente, do rebanho – embo- 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


ra a dinâmica de todas as leituras e tam-
bém do salmo nos faça perceber algo V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
sobre a identidade de ambos: pastor e
Vida Pastoral

rebanho.

45
Roteiros homiléticos

II. Comentários to pela indicação: “No sábado seguinte,


dos textos bíblicos toda a cidade se reuniu para ouvir a Pa-
1. Evangelho (Jo 10,27-30): lavra de Deus” (v. 44).
O pastor conhece suas ovelhas No entanto, os judeus, a quem primei-
No evangelho deste dia, a primeira ro se dirigiram os apóstolos, não acolhe-
coisa que o texto nos traz serve de critério ram o ensinamento, porque ficaram toma-
para a identificação das ovelhas desse re- dos de inveja quando viram a multidão
banho particular: elas escutam a voz do que os ouvia anunciar. Diante da rejeição,
pastor e o seguem. O texto diz algo tam- os apóstolos se dirigem aos pagãos, que
bém do pastor: ele conhece as ovelhas e acolhem sua mensagem com muita ale-
lhes dá a vida – não qualquer uma, mas a gria. Do anúncio de salvação em Cristo,
vida eterna. Isso não é tudo. Do conheci- testemunhado por Paulo e Barnabé, de-
mento do pastor em relação às ovelhas e correm duas posturas: rejeição por parte
do reconhecimento da voz do pastor por dos judeus e alegre acolhida por parte dos
parte delas, decorre a compreensão de que gentios. Os que acolhem são aqueles que
elas nunca se perderão, não se extraviarão, ouvem a Palavra de Deus, reconhecem a
nem ninguém poderá roubá-las, tomá-las “voz” do pastor na palavra pregada.
de seu pastor.
O evangelho ainda assegura a posse 3. II leitura (Ap 7,9.14b-17):
das ovelhas por parte de alguém maior. O rebanho reunido junto
Elas foram dadas pelo Pai e ninguém pode ao seu pastor
arrancá-las da mão dele. De algum modo, Na segunda leitura, encontramos no-
as ovelhas pertencem ainda ao Pai, são do vamente a questão do rebanho e do pas-
Pai e do Filho, porque eles são UM. Não tor. No entanto, a afirmação primeira se
existe possessão de bens de um e de outro, refere ao rebanho, às ovelhas que “lava-
mas uma única posse do Pai e do Filho, ram e alvejaram suas vestes no sangue do
como bem lembrou Lucas na parábola do Cordeiro” (v. 14b), ou seja, àqueles que
pai misericordioso, quando este se dirige se ligaram existencialmente ao Cristo-
ao filho mais velho e diz: “Tu estás sempre -cordeiro, o Crucificado. Por outro lado,
comigo e tudo que é meu é teu” (Lc 15,31). a leitura fala da identidade do “pastor”
A unidade da qual fala o texto é a garantia como o Cordeiro. A imagem diz muito. O
de que as ovelhas que permanecem com o pastor das ovelhas, ou seja, do rebanho, é
pastor, que é o Filho, permanecem na pos- como um deles, é o Cordeiro. O pastor
se do Pai. participa, de algum modo, da mesma
condição de vida das ovelhas, o que per-
2. I leitura (At 13,14.43-52): mite não só o reconhecimento mútuo,
O testemunho na sinagoga mas também a confiança decorrente des-
Na primeira leitura, temos o teste- se conhecimento.
munho de Paulo e Barnabé na sinagoga
nº- 327

de Antioquia da Pisídia. Como bem in- III. Pistas para reflexão


dica o texto, era um dia de sábado, sa- Esta celebração, nas suas três leituras,

ano 60

grado para os judeus. Num primeiro fala ao mesmo tempo da identidade do


momento, a atuação deles parece bem pastor e da identidade das ovelhas ou do

discreta, mas na sequência se percebe rebanho, bem como da ligação entre pas-
Vida Pastoral

uma mudança radical, apontada no tex- tor e rebanho. O fio que os une é a escuta

46
ou o ouvir, para ser mais fiel ao texto. Ou-
vir é o mandamento por excelência do Deus se revela em
povo de Israel e, no evangelho, aparece gestos de solidariedade
como o critério de reconhecimento: as
Luiz Alexandre Solano Rossi
ovelhas escutam a voz do pastor e, porque
escutam, ele as conhece.
Na primeira leitura, novamente a es-
cuta aparece como critério identificador, à
diferença de que, ali, aqueles que têm por
mandamento o “ouve, Israel” se recusam a
ouvir a Palavra de Deus anunciada, en-
quanto os gentios, de quem não se exige
tal conduta, a ouvem. Essa dinâmica de
escuta e reconhecimento se completa na
segunda leitura, que traz a imagem da re-
compensa dada àqueles que ouviram a
voz do pastor e o seguiram. O Pastor-Cor-
deiro é o Cristo, divino-humano e, por
isso, salvador desse rebanho.
112 págs.

A imagem do Cordeiro-Pastor nos diz


muito sobre Jesus Cristo e sobre nós mes-
mos. É a perfeita imagem da relação única O livro compõe-se de quatro
de Cristo com a humanidade. O nosso unidades. Na primeira, o autor
pastor não é alguém distinto de nós, mas discorre sobre os fatos da história
alguém como nós. Ele participa da nossa do povo no Antigo Testamento:
condição e sabe para quais pastagens nos “Deus na história”. Na segunda,
conduzir, a fim de chegarmos em seguran- com o título “Deus na vocação”,
ça ao redil de Deus. o livro reflete sobre a vocação
de Abraão como exemplo de
fé, que acreditou mesmo contra
5º Domingo da Páscoa
toda esperança. A terceira traz o
19 de maio exemplo de solidariedade de Rute:
“Deus se revela nos gestos de

Eles serão solidariedade”. A quarta tem como


tema “Deus na espiritualidade”.

o seu povo!
Imagens meramente ilustrativas.

I. Introdução geral
A liturgia do domingo passado nos
nº- 327

convidava a pensar a identidade do reba- Vendas: (11) 3789-4000


nho do Pastor-Cordeiro, e a deste dia nos 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


convoca para lançarmos mais profunda-
mente o olhar para a ação de Deus na vida V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
do Cristo, dos apóstolos e de todos nós,
Vida Pastoral

cristãos. As leituras nos levam a perceber

47
Roteiros homiléticos

Deus agindo e conduzindo-nos a ele, para amar-se está alicerçado no amor com
sua maior honra e glória. E esse louvor que o Cristo os amou, e esse amor será
aparece na boca do salmista, ao dizer que também o critério para que se saiba que
o seu louvor a Deus será eterno. eles são discípulos de Cristo.

II. Comentários 2. I leitura (At 14,21b-27):


dos textos bíblicos Permanecer firme na fé abraçada
1. Evangelho (Jo 13,31-33a.34-35): A primeira leitura nos traz um relato,
Amar, critério de reconhecimento aparentemente apressado, da missão de
do discipulado Paulo e Barnabé. Esse é o trecho final da
O evangelho desta celebração tem uma primeira missão deles. Com isso, conti-
aparência sapiencial em algumas de suas nuamos a acompanhar o trabalho mis-
construções. Ele começa pela indicação da sionário dos apóstolos, especialmente
saída de Judas do cenáculo, referência ve- de Paulo e Barnabé. Nessa leitura são
lada à traição desse discípulo ao, até en- mencionadas pelo menos sete cidades
tão, seu mestre. Até esse momento, não há ou regiões.
nada de novo ou de intrigante. A sequên- No caminho, os apóstolos exortam os
cia do texto, porém, traz uma mudança na discípulos a permanecer firmes na fé. Essa
expressão e no conteúdo. exortação, porém, está ancorada na afir-
A fala de Jesus parece um enigma. O mação: “É preciso que passemos por mui-
texto é construído com base nestas pala- tos sofrimentos para entrar no Reino de
vras: glorificar, Filho do homem e Deus. A Deus” (v. 22). Tal afirmação só tem senti-
primeira frase está construída com o tem- do se nos remetemos à paixão de Cristo.
po passado, e a segunda com o futuro. O Os discípulos seguem o seu Senhor, cujo
tema da glória, no Evangelho de João, caminho foi de cruz. Sua glorificação foi a
ocupa praticamente toda a segunda parte exaltação na cruz. O discípulo deve enten-
e indica que, para o evangelista, a glorifi- der que sua vida não será diferente.
cação é uma exaltação “às avessas”, pois Ao final, encontramos a “prestação de
remete à paixão do Cristo. contas” da missão, com a nota de que tudo
A frase no passado indica que o pri- que fizeram, na verdade, foi Deus que fez
meiro ato – no caso, a traição de Judas – já por meio deles. E junto ao “tudo que Deus
iniciou o processo de glorificação do Filho fizera” está a abertura da porta da fé aos
do homem e, nele, a do próprio Deus que pagãos (cf. v. 27).
o enviou. A segunda, no futuro, aponta
para o ápice dessa glorificação, que ainda 3. II leitura (Ap 21,1-5a):
será narrada: a cruz. Novamente, a glorifi- Eis que faço novas todas as coisas!
cação do Filho é também a de Deus. Deus A segunda leitura, tirada do livro do
e seu enviado estão juntos no momento da Apocalipse, traz a visão da nova Jerusa-
exaltação na cruz. lém que vem de junto de Deus. Segundo
nº- 327

O texto continua e mostra que o Se- a leitura, a primeira coisa que João vê é
nhor, sabendo que lhe resta pouco tem- “um novo céu e uma nova terra. Pois o

ano 60

po com os seus, se despede deles, dei- primeiro céu e a primeira terra passa-
xando a seus filhinhos uma “herança ram, e o mar já não existe” (v. 1). Essa

espiritual”: o novo mandamento do afirmação só tem sentido com o conhe-


Vida Pastoral

amor. O amor com que eles deverão cimento do imaginário do mundo anti-

48
go, que concebia a criação como domí-
nio do caos primordial, sendo o mar a Outro cristianismo
imagem desse caos, que ameaçava cons- é possível
tantemente a criação. A fé em linguagem moderna
Ao dizer que “o primeiro céu e a pri-
Roger Lenaers
meira terra passaram, e o mar já não exis-
te”, o autor anuncia uma realidade total-
mente nova, que vem diretamente de Deus
e, por isso mesmo, é a realidade definitiva.
Nada mais deve nos amedrontar.
E a imagem continua: “Vi a cidade
santa, a nova Jerusalém, que descia do
céu, de junto de Deus, vestida qual espo-
sa enfeitada para seu marido” (v. 2). A
imagem diz muito. Lembra o esplendor
de uma festa de bodas. “Esta é a morada
de Deus entre os homens” (v. 3): a nova
Jerusalém representa a comunhão plena
com Deus. Por isso, já não há espaço para
264 págs.

dor, sofrimento, lágrimas, pois estas são


realidades antigas, fazem parte de um
passado imperfeito. O ser humano descobriu a
autonomia do universo e, com
III. Pistas para reflexão isso, sua própria autonomia. A
O vínculo entre as leituras desta cele- doutrina da fé em seu conjunto,
bração não é facilmente detectável, mas é construída sobre o axioma da
de uma profundidade impressionante. O heteronomia, perdeu sua validade.
sofrimento, a perseguição, a incompreen- Não a perdeu, no entanto, a
própria mensagem da fé, que
são e, por vezes, a morte são aquilo que
reflete a experiência histórica de
liga o Cristo, crucificado e ressuscitado, Israel em contato com a camada
com seus discípulos na continuação de mais profunda da realidade.
sua missão. Mas a “paixão” que une o Para quem vive na modernidade,
Mestre aos discípulos pela fidelidade a essa transmissão só fará sentido
Deus é vista como “glorificação”, exaltação na linguagem da teonomia.Eis
Imagens meramente ilustrativas.

e motivo de alegria. o fundamento da necessidade e


Essa íntima relação do Mestre com os justiça deste livro, uma tentativa de
discípulos se faz perceber também, con- formular a mesma mensagem, só
que na linguagem de hoje.
quanto seja uma “coincidência litúrgica”,
no fato de que a primeira coisa que os
nº- 327

apóstolos fazem, na primeira leitura, é Vendas: (11) 3789-4000


exortar à permanência na fé (cf. v. 22). 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


“Permanecer” é verbo caro ao evangelista
João, utilizado para falar da relação de in- V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

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timidade que se estabelece com o Mestre e
Vida Pastoral

também com Deus Pai.

49
Roteiros homiléticos

A permanência na fé uma vez abraçada Separemos as afirmações para me-


tem sua recompensa. Ainda que não seja lhor compreender a mensagem. Nessa
esse o motivo da sua fidelidade, aqueles frase, a afirmação principal é a última: a
que perseverarem gozarão a plenitude da promessa de que o Pai e Jesus permane-
vida, expressa aqui na visão da nova Jeru- cerão/morarão na pessoa. Essa promessa
salém, a realidade totalmente nova que está condicionada ao amor que a pessoa
vem de junto de Deus. É a essa realidade tenha a Jesus e à acolhida de sua pala-
nova que devemos aspirar. vra. Essa palavra de Jesus é a palavra do
Pai, que o enviou. Parece contraditório:
6º DOMINGO DA PÁSCOA ora a palavra é de Jesus, ora é do Pai.
26 de maio Como entender isso? A compreensão de
que a palavra de Jesus seja também a pa-

O Espírito Santo lavra do Pai se sustenta em outra afirma-


ção joanina célebre: “Eu e o Pai somos

ensinará UM” (Jo 10,30).


Na sequência, Jesus ressuscitado re-

todas as coisas corda aos discípulos que nada disso lhes é


novo, porque ele mesmo já tinha falado
quando estava com eles (v. 25) – clara re-
I. Introdução geral ferência ao tempo de seu ministério públi-
Nos domingos anteriores, contem- co. Como se isso fosse pouco, o Senhor
plamos a presença do Ressuscitado no promete o Paráclito, o Defensor, que ensi-
meio de seus seguidores, contemporâ- nará tudo, mas também recordará todo o
neos e atuais. Tratou-se de um momento ensinamento dado antes por ele.
privilegiado de alegre encontro com o Antes de ir-se, Jesus deseja a paz, que
Mestre e também de fortalecimento de nada tem que ver com a pax romana, “a
seus ensinamentos. Agora, o Ressuscita- paz que o mundo dá” (cf. v. 27), imposta
do prepara os seus para nova forma de pela força esmagadora de um exército for-
presença na ausência. Ele se despede de te, poderoso e assustador. Jesus ressuscita-
seus seguidores. É esse momento espe- do consola os seus: “Não se perturbe nem
cífico que somos chamados a vivenciar, se intimide o vosso coração” (v. 27); ou
na fé, nesta celebração do 6º domingo seja, não sofram, mas alegrem-se por mim,
da Páscoa. porque vou para junto do Pai. O texto ter-
mina com uma promessa: “Vou, mas vol-
II. Comentários tarei a vós!” (v. 28).
dos textos bíblicos
1. Evangelho (Jo 14,23-29): 2. I leitura (At 15,1-2.22-29):
Não se perturbe A nova condição dos membros
o vosso coração! do povo de Deus
nº- 327

No evangelho deste dia, Jesus fala a A primeira leitura nos traz o motivo da
seus discípulos algo um tanto intrigante realização da “assembleia de Jerusalém”

ano 60

para nossas mentes modernas: “Se alguém (cf. At 15,3-21) e o seu resultado: a deci-
me ama, guardará a minha palavra, e o são de enviar representantes da Igreja de

meu pai o amará, e nós viremos e faremos Jerusalém, com Paulo e Barnabé, a Antio-
Vida Pastoral

nele a nossa morada” (v. 23). quia. A questão geradora da necessidade

50
de uma viagem a Jerusalém foi o ensina-
mento de alguns membros dessa Igreja a Teologia da ternura
respeito da circuncisão. Os “vindos da Um “evangelho” a descobrir
Judeia” podem legitimamente ser chama-
Carlo Rochetta
dos de “judaizantes”, porque ensinavam
que era condição de salvação para os
cristãos antioquenos, vindos da gentili-
dade, fazer-se circuncidar.
A circuncisão era exigência feita a
todo e qualquer pagão que se convertes-
se ao judaísmo, e os “vindos da Judeia”
queriam impor essa mesma condição
aos irmãos procedentes da gentilidade
que se propusessem aderir à nova fé. Se
assim fosse, antes de assumir a fé cristã,
seria necessário fazer-se judeu. Paulo e
Barnabé, com toda razão, não aceitaram
tal ensinamento, por ser desprovido de
528 págs.

sentido. Esse tema foi amplamente dis-


cutido, e o resultado foi que a Igreja, re-
Em âmbito teológico, não é comum
presentada na assembleia, não só
refletir sobre o mandamento novo
acolheu a “liberdade paulina” relativa- numa ótica de ternura. Todavia,
mente a essa questão, mas também en- uma reflexão desse gênero é
viou seus próprios representantes para fundamental se se deseja que a
confirmar o ensinamento de Paulo e Igreja se apresente ao mundo
Barnabé, pois, do contrário, a condição como o sacramento da ternura de
para tornar-se cristão seria tornar-se an- Deus, de um Deus de bondade e
tes um judeu. Isso aponta para o proces- de graça, e não um Deus de medo
so de distinção do grupo cristão em re- e punição. Não é possível falar de
ternura sem discutir, como Igreja e
lação ao grupo judeu.
como indivíduos, a presença entre
A decisão da assembleia de Jerusa- os mais pobres. A teologia da
lém não é, porém, uma decisão pura- ternura proclama à comunidade dos
mente humana; é também divina, e crentes que, sem o Evangelho da
isso se expressa no texto pela frase: ternura, não se cumpre plenamente
Imagens meramente ilustrativas.

“Porque decidimos, o Espírito Santo e o Evangelho do amor, deixado por


nós...” (v. 28). Jesus, e não se consegue fazer aos
seres humanos o anúncio alegre da
3. II leitura (Ap 21,10-14.22-23): graça.
O novo povo de Deus
nº- 327

A segunda leitura nos traz a descrição Vendas: (11) 3789-4000


da nova Jerusalém, que desce de junto de 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


Deus e brilha com sua glória. Essa cidade
tem coisas muito especiais que chamam V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
a atenção: a ausência de templo e a não
Vida Pastoral

necessidade de sol.

51
Roteiros homiléticos

O templo é o lugar natural do encon- Ascensão do Senhor


tro das pessoas com Deus, mas, nessa ci- 2 de junho
dade, já não existe distância entre Deus e
o ser humano e, portanto, não existe a
necessidade de um lugar de aproxima- A exaltação
ção. A comunhão está estabelecida.
Essa cidade também não necessita da humanidade
dos astros criados para presidir o dia e
a noite (cf. Gn 1,14-19), pois o próprio na elevação
Deus e o Cordeiro iluminam tudo. E
mais: essa cidade tem uma muralha,
tem por alicerce os apóstolos e tem
do Cristo
portas nas quais estão inscritos os no- I. Introdução geral
mes das tribos de Israel. Isso revela que A celebração de hoje foi preparada
o povo de Deus que habitará a nova Je- pelos domingos precedentes e, particu-
rusalém, os cristãos, vem de ambas as larmente, pela celebração do domingo
tradições religiosas e se compõe de ju- passado, na qual o Senhor se despede
deus e gentios. dos seus, preparando-os para o momen-
to especial que agora celebramos: sua
III. Pistas para reflexão ida/volta ao Pai. A resposta do salmo de
As leituras desta celebração nos con- hoje soa como um convite à alegria pela
duzem ao reconhecimento da identidade elevação do Senhor, pelo lugar que ocu-
dos cristãos, o novo povo de Deus. Esse pa à direita do Pai nos céus, como nos
reconhecimento é dom do Espírito e nos diz o trecho da carta aos Efésios escolhi-
chega progressivamente. do para esta liturgia. O evangelho e a
No evangelho, o Senhor promete que primeira leitura nos convidam a refletir
o Pai enviará o Espírito e este nos ensina- sobre o significado da elevação do Se-
rá todas as coisas. A primeira leitura ates- nhor e a contemplar o grande gesto de
ta um momento crucial, no qual o Espíri- amor de Deus por nós.
to Santo ensina algo fundamental sobre a
salvação dos cristãos e, consequentemen- II. Comentários
te, sobre sua identidade: a não necessida- dos textos bíblicos
de de circuncisão para a salvação. A se- 1. Evangelho (Lc 24,46-53):
gunda leitura ratifica, de certo modo, A elevação do Senhor fora
esse ensinamento do Espírito Santo da cidade santa, Jerusalém
quando atesta a composição dos cristãos O trecho que lemos no evangelho de
na imagem das portas e alicerces da cida- hoje não deixa claro o lugar onde se en-
de: as doze tribos de Israel e os apóstolos. contram Jesus e os discípulos, mas a lei-
Os cristãos – portanto, a Igreja – têm tura do trecho anterior nos permite
nº- 327

como fundamento os apóstolos, mas seus identificar. Eles estavam reunidos em


membros vêm do judaísmo e da gentilida- Jerusalém, e isso nos alerta para o fato

ano 60

de e formam um único povo de Deus, ha- de que o relato sobre o qual somos cha-
bitando uma cidade que não tem outro mados a refletir se passa em dois am-

templo ou luz que não seja o próprio Deus bientes distintos. No início e no final, o
Vida Pastoral

e o Cordeiro. grupo se encontra em Jerusalém, depois

52
de uma incursão fora desta cidade “até
perto de Betânia”. Migrações, refúgio e
Jerusalém tem grande importância comunidade cristã
para o evangelista, tanto que o evange-
lho da infância começa ali, mais preci- Carmem Lussi e Roberto Marinucci (orgs.)
samente no Templo; ademais, a seção
central de seu evangelho está ambien-
tada no caminho para Jerusalém e é se-
guida da última seção, que se dá na-
quela cidade; e o texto sobre o qual
agora refletimos se conclui com uma
referência ao Templo de Jerusalém.
Tudo converge para a cidade santa e,
especificamente nesse trecho, Lucas dá
a conhecer uma orientação de Jesus
ressuscitado aos seus discípulos. Nela,
Jesus faz memória de sua paixão e res-
surreição e diz que, em seu nome, a
conversão e o perdão dos pecados se-
176 págs.

riam anunciados a todas as nações, co-


meçando por Jerusalém (cf. v.47).
Os discípulos serão as testemunhas Este livro traz treze artigos
autorizadas de Jesus, mas para isso eles de especialistas em teologia
contarão com a força do alto, aquele pastoral e mobilidade humana.
Foi organizado pensando,
que fora prometido pelo Pai. É em vis-
especialmente, em leitores que
ta desse envio que Jesus lhes ordena atuam ou gostariam de atuar
permanecer na cidade, ou seja, em Je- em contexto eclesial para/
rusalém. Porém, em seguida, ele os com ou junto a migrantes e/
conduz para fora (CF. v.50) – entenda- ou refugiados. São reflexões e
-se “de Jerusalém”. É num lugar afasta- ideias sobre temas relacionados
do que Jesus se despede dos seus, e à vivência e ao serviço
pastoral que desafiam agentes
não em Jerusalém.
pastorais, lideranças eclesiais e
O relato é muito discreto e simples. migrantes/refugiados, a partir
Jesus abençoa seus discípulos e, en-
Imagens meramente ilustrativas.

de uma visão da mobilidade


quanto faz isso, afasta-se deles e é leva- humana como processo positivo
do para o céu. Não há nada de extraor- e propositivo, seja para a
dinário nesse relato, a não ser a ausên- humanidade em geral, seja
cia, nos discípulos, de qualquer senti- para a Igreja, em particular.
nº- 327

mento de tristeza ou de resistência pela Vendas: (11) 3789-4000


separação do mestre. Depois da adora- 0800-164011

ano 60

ção ao Senhor, enquanto era elevado, SAC: (11) 5087-3625

eles voltam alegres para Jerusalém e V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL


paulus.com.br
bendizem a Deus continuamente no
Vida Pastoral

Templo.

53
Roteiros homiléticos

2. I leitura (At 1,1-11): deles” (v. 9). Isso quer dizer que eles
Jesus é elevado, mas voltará! viram o Senhor sendo elevado.
A primeira leitura é literalmente a Pelo fato de os apóstolos continua-
continuação do texto do evangelho, uma rem olhando para o céu, enquanto Je-
vez que inicia a segunda parte da obra sus subia, “dois homens vestidos de
lucana. Começa exatamente retomando branco” (v. 10), ou seja, dois anjos,
e resumindo o anúncio de Jesus teste- chamam a atenção deles: “por que fi-
munhado no Evangelho de Lucas, “até o cais aí, parados, olhando para o céu?”
dia em que foi elevado para o céu, de- (v. 11). Esse questionamento indica
pois de ter dado instruções pelo Espírito que é tempo de pôr as mãos à obra, tra-
Santo aos apóstolos” (v. 2). Retoma, a balhar, anunciar o Senhor, enfim, teste-
título de memória, as informações sobre munhar. E o texto se conclui com uma
as aparições do Ressuscitado e a ordem promessa: Jesus vai voltar! (cf. v. 11). O
de não se afastarem de Jerusalém, mas que aqui dizem os anjos, Jesus dissera
esperarem o cumprimento da promessa no evangelho da liturgia do domingo
do Pai de que eles seriam “batizados passado (cf. Jo 14,23-29).
com o Espírito Santo” (v. 5).
A sequência do texto revela que os 3. II leitura (Ef 1,17-23):
discípulos ainda não tinham compre- Jesus sentado à direita
endido completamente o ensinamento do Pai exerce seu poder
e a missão de Jesus, pois perguntam: soberano em favor
“Senhor, é agora que vais restaurar o da humanidade
Reino em Israel?” (v. 6). Esse questio- A segunda leitura, tirada da carta aos
namento mostra que os discípulos ain- Efésios, amplia nossa compreensão do
da pensavam o messianismo de Jesus evangelho e da primeira leitura. Como
na perspectiva da restauração do reino vimos, os relatos sobre a elevação do Se-
terreno, de uma independência política nhor, razão de ser da celebração de hoje,
para o povo de Israel. A paixão e a res- são muito sóbrios. Não existem detalhes
surreição do Cristo não foram suficien- sobre o fato, apenas se informa que o
tes para modificar as expectativas mes- Senhor foi elevado e que os discípulos
siânicas tão enraizadas em suas mentes viam essa elevação acontecendo gradu-
e corações. almente. Jesus se afastou, indo em dire-
Por isso, Jesus responde que não ção ao céu, e nada mais.
lhes cabe saber os tempos e os momen- Esse trecho da carta aos Efésios traz
tos determinados pelo Pai e acrescenta: uma reflexão sobre o lugar que o Cris-
“Mas recebereis o poder do Espírito to, uma vez ressuscitado, ocupa nos
Santo [...] para serdes minhas testemu- céus e ressalta que o exercício de seu
nhas em Jerusalém, em toda a Judeia e poder se dá em favor dos que creem.
na Samaria”. Jesus muda o foco da Tudo foi colocado “sob seus pés” (v.
nº- 327

questão, chamando-lhes a atenção para 22), ou seja, está sob seu domínio como
a missão de testemunhá-lo e prometen- o Senhor soberano que é. Tudo isso é

ano 60

do-lhes que receberão para isso a força projeto de Deus para nós por meio de
do Espírito. Eles serão atendidos, su- Jesus Cristo.

portados pelo poder do Espírito. Logo A ligação indestrutível do Cristo


Vida Pastoral

depois disso, Jesus é elevado “à vista com o resto da humanidade por sua en-

54
carnação se revela agora em sua eleva-
ção, quando a íntima união é expressa A glória de Deus é o
pela imagem do Cristo Cabeça da Igre-
homem vivo
ja. Somos um com Cristo por sua en- A profissão de fé de santo
carnação e elevação. Somos seu corpo Irineu
e ele a Cabeça que rege e governa todo
o corpo. Donna Singles

III. Pistas para reflexão


O sentido da celebração de hoje en-
contra-se nessa relação indestrutível
que se estabelece entre Deus e a huma-
nidade na pessoa do Filho. Ele é a cha-
ve de acesso ao Pai. A pergunta que fica
quando lemos esses textos é: que signi-
fica a ascensão do Senhor? Diz respeito
somente a Jesus e sua condição de Fi-
lho de Deus? Representa somente o seu
176 págs.

retorno para junto de Deus para assu-


mir “seu lugar” de Filho no seio da
Trindade? Separado de nós por dezoito
A resposta a essas duas últimas séculos, mas muito próximo das
questões é não. Os textos não se refe- origens da fé cristã, o pensamento
rem somente a Jesus, mas dizem respei- de Irineu – o primeiro grande
teólogo da Igreja – é, com efeito,
to também a nós e ao nosso destino úl-
desses que têm muito a dizer às
timo. Todas as leituras fazem referência mulheres e aos homens de hoje.
a Jesus desde seu ministério público, Aliando a paixão ao rigor e à
passando por sua paixão e ressurreição, competência de um longo contato
até chegar a esse momento de elevação, com a obra de Irineu, a autora nos
e toda a sua vida narrada nos textos sa- propõe a “chave de leitura” para
grados tem relação conosco. entrar em sua linguagem, que era
a dos primeiros séculos, e descobrir
Uma vez que assumiu a condição
de que modo ela pode nos tocar e
humana pecadora e, por solidariedade, nos iluminar hoje. Os capítulos do
se fez pecado por nós ele, ao assumir
Imagens meramente ilustrativas.

livro se dispõem de acordo com


seu lugar soberano no céu, não o faz os artigos do Credo, o Símbolo
apenas a partir da sua condição de Fi- dos apóstolos, sendo a fé de Irineu
lho de Deus, mas também de filho da interrogada sobre cada um desses
humanidade. Portanto, nele estamos artigos.
nº- 327

também nós junto ao Pai. Celebrar a Vendas: (11) 3789-4000


Ascensão do Senhor é celebrar a eleva- 0800-164011

ano 60

ção de nossa humanidade. É celebrar SAC: (11) 5087-3625

nosso acesso à vida junto de Deus por V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL


Jesus Cristo. Que alegria para toda a paulus.com.br


Vida Pastoral

humanidade!

55
Roteiros homiléticos

Pentecostes pulos se alegram por verem o Senhor (cf.


9 de junho v. 20). Essa alegria é característica dos
tempos messiânicos, e eles estão cientes

A promessa de de que testemunham um acontecimento


único na história de seu povo.

Deus se cumpre: Depois da segunda saudação, Jesus


confere aos discípulos uma missão: “Como

veio o Consolador! o Pai me enviou, também eu vos envio” (v.


21). Em seguida, sopra sobre eles e diz:
“Recebei o Espírito Santo” (v. 22). Jesus
I. Introdução geral confere o dom do Espírito aos discípulos
A promessa que Jesus fizera aos seus nos moldes do relato da criação, no qual
discípulos de que não os deixaria sós se Deus sopra o sopro da vida nas narinas do
cumpre com o envio do Espírito. A litur- homem que moldou do solo e o torna um
gia deste dia foi preparada pela liturgia da “ser vivente” (Gn 2,7). O dom do Espírito é
Ascensão, pois, no evangelho do domingo derramado sobre os discípulos, e Jesus os
passado, o Senhor diz: “Eu enviarei sobre orienta sobre qual deve ser a missão desse
vós aquele que meu Pai prometeu” (Lc grupo: perdoar pecados (cf. v. 23). A mis-
24,49). Por isso, agora, celebramos a reali- são dos discípulos é dar continuidade
zação dessa promessa e somos convidados àquela de Jesus. Uma vez que a vida e a
a nos alegrarmos com essa realização. O morte dele tiveram como meta a reconcilia-
salmo do dia pede a vinda do Espírito e, ção da humanidade com Deus, cabe agora
com ela, a renovação de toda a obra da aos discípulos, continuadores de sua mis-
criação. Toda esta celebração é festiva e são, levar adiante esse serviço universal.
convoca à alegria!
2. I leitura (At 2,1-11):
II. Comentários O dom do Espírito,
dos textos bíblicos fim da confusão das línguas
1. Evangelho (Jo 20,19-23): No evangelho, os discípulos recebem o
O Espírito e a missão confiada Espírito pelas mãos de Jesus, que sopra so-
aos discípulos bre eles, numa experiência limitada ao seu
O evento narrado no evangelho desta grupo mais próximo. Nos Atos dos Após-
celebração está bem situado no tempo: tolos, a vinda do Espírito acontece durante
acontece no primeiro dia da semana (cf. v. a festa dos judeus conhecida como Sema-
19), entenda-se: o domingo. O encontro nas (cf. Dt 16,9-12), Primícias (cf. Nm
com os discípulos se dá na sequência da 28,26) ou ainda como Pentecostes, pois
narração do encontro de Maria com o Res- era ligada à colheita e era celebrada sete
suscitado no sepulcro, experiência que ela semanas depois de iniciada a ceifa (cf. Dt
anuncia aos discípulos. Na tarde desse 16,9). Já Lv 23,15s precisa que a festa deve
nº- 327

mesmo dia, Jesus aparece aos seus discí- ser celebrada cinquenta dias depois do ofe-
pulos e lhes dirige, por duas vezes, a sau- recimento do primeiro feixe, donde pro-

ano 60

dação: “A paz esteja convosco” (v. 19.21). vém o nome Pentecostes, que também
Após a primeira saudação, mostra-lhes as identifica essa festa na versão grega do tex-

mãos e o lado, e isso revela que eles estão to bíblico. Após as reformas de Esdras e
Vida Pastoral

diante do que fora crucificado. Os discí- Neemias, por volta do século V a.C., a festa

56
foi ressignificada e passou a celebrar o dom
da Lei no Sinai. Era marcada pelo júbilo e Trânsitos religiosos,
pelo entusiasmo, por isso todos deviam cultura e mídia
participar dela e alegrar-se. A expansão neopentecostal
O dom do Espírito é concedido ao gru-
po de discípulos, que estavam reunidos “no Adilson José Francisco

mesmo lugar” (v. 1). A imagem do vento e


das línguas de fogo que se repartem e re-
pousam sobre cada um dos presentes na
casa segue o padrão narrativo das teofanias,
mas o resultado é um pouco distinto. Em
geral, nos relatos de teofania, o espanto e,
por vezes, o medo apoderam-se daqueles
que contemplam o acontecimento; aqui, os
presentes começam a falar até mesmo em
outras línguas, segundo a inspiração do Es-
pírito. E todos os que ouviam os discípulos
falar ouviam-nos em sua própria língua.
Esse texto é uma imagem inversa do texto
440 págs.

da torre de Babel, no qual a confusão das


línguas é a razão do desentendimento e da
incompreensão entre os povos. Com raro cuidado, maestria e
ética em relação a seus depoentes,
3. II leitura (1Cor 12,3b-7.12-13): Adilson José Francisco culminou seu
doutorado, na PUC-SP, legando-
O Espírito, fundamento
nos esta significativa contribuição
do único corpo de Cristo para repensarmos a sociedade
A segunda leitura traz uma orientação brasileira, em sua formação social,
de Paulo à difícil comunidade de Corinto, cultural e religiosa. Lançando
marcada por divisões e por toda sorte de mão de depoimentos orais e
dificuldades. Paulo tenta conscientizar os frequentando diversos cultos,
coríntios de sua unidade fundamental, a analisados em metodologia de
pertença ao corpo de Cristo. Primeira- história oral, sob o enfoque de
mente, alerta para a responsabilidade da estudos culturais, Adilson alcança
vozes, sentimentos e percepções
confissão do senhorio de Jesus, que só é
religiosas até então pouco ouvidas
Imagens meramente ilustrativas.

possível no Espírito. Logo depois, alerta e, menos ainda, elevadas a alvo


para o lugar de cada membro da comuni- de atenções entre estudiosos sobre
dade no corpo de Cristo e faz isso pela re- religiosidades populares em um
ferência aos dons do Espírito. país multiétnico e pluricultural.
Paulo recorda que cada membro da
nº- 327

comunidade tem seu lugar e função e isso Vendas: (11) 3789-4000


se revela pela manifestação do dom do Es- 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


pírito, com a ressalva de que tal realidade
não deve ser motivo de divisão ou separa- V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
ção entre os membros. Não é lícito a ne-
Vida Pastoral

nhum membro da comunidade sentir-se

57
Roteiros homiléticos

superior aos outros por causa do dom re- Jesus deve ser também instrumento de
cebido do Espírito, uma vez que todos são vinda desse Espírito, por meio da oração e
membros do único corpo de Cristo. Paulo da presença de Jesus em seu meio.
fundamenta esse entendimento no fato de O evangelho deste dia também nos cha-
que tanto judeus como gregos, escravos e ma a ser reconciliadores no mundo; a travar
livres foram batizados num único Espíri- uma luta a fim de que cessem os ódios, a
to. Como um é o Cristo e um é o Espírito, violência, o descaso, o abuso e a corrupção
os membros da comunidade formam um moral, social e política. A Igreja partilha a
único corpo. A unicidade do corpo está vida de Jesus quando, ao receber o seu Espí-
fundamentada no Espírito, que os anima e rito, se compromete a lutar para que o evan-
orienta no testemunho e na confissão de fé gelho saia do papel impresso e seja gravado
no Cristo Senhor. nas suas ações; quando se compromete a ser,
ela mesma, lugar e instrumento de reconci-
III. Pistas para reflexão liação interna e externa.
O evangelho desta celebração traz ao Há na Igreja pessoas diferentes, com
menos dois temas importantes em relação dons e ministérios diferentes, e isso é graça
ao dom do Espírito: a alegria e a missão. Os de Deus. A completa igualdade na Igreja ti-
discípulos, diante do Ressuscitado-Crucifi- raria seu dinamismo e beleza. Importa re-
cado, alegram-se. O Senhor sopra sobre conhecer que o Espírito Santo é quem nos
eles e lhes concede o Espírito, que os capa- faz todos membros de um mesmo corpo, o
citará para sua missão: a reconciliação da corpo de Cristo. E a missão de Cristo de
humanidade com Deus. A primeira leitura levar a humanidade à reconciliação plena
nos traz novamente o dado da alegria como com Deus agora deve ser realizada por
característica própria da festa de Pentecos- meio desse corpo. Jesus, por sua paixão e
tes ou das Semanas, assim como a temática ressurreição, reconciliou o mundo com
da superação do impedimento linguístico Deus. Nós, seus representantes e enviados,
para o anúncio dos discípulos. devemos dar a conhecer ao mundo essa re-
A segunda leitura traz um dado que a conciliação. A unidade do Espírito Santo
liga à primeira: a ação do Espírito é res- agindo na diversidade de dons e carismas é
ponsável pela superação de dificuldades sinal manifesto da presença de Deus no
de entendimento. Se, na primeira, a falta mundo por meio da Igreja, comunidade
de entendimento devia-se à diferença lin- dos seguidores e seguidoras de Jesus.
guística, na segunda, encontra-se no nível
das relações comunitárias. Ambas são su- SANTÍSSIMA TRINDADE
peradas ou devem ser superadas pela pre- 16 de junho
sença e ação do Espírito.
O dom do Espírito já não se encontra
restrito ao povo de Israel, representado Trindade: a dinâmica
pelos discípulos, mas cumpre a missão
salutar do amor
nº- 327

confiada por Jesus, no evangelho, de levar


a reconciliação a todos os povos. O Espíri-

ano 60

to é o dom do Pai que, pela morte e res- I. Introdução geral


surreição de Jesus, foi dado à sua Igreja, Na liturgia deste dia, celebramos a so-

mas não pode ficar aprisionado nela ou lenidade da Santíssima Trindade. Somos
Vida Pastoral

por ela. A comunidade dos seguidores de assim convidados a celebrar e contemplar

58
o mistério de nossa fé: Deus uno e trino.
Como é habitual, nossa liturgia foi pre- Espiritualidade para
nunciada ou preparada pela liturgia do insatisfeitos
domingo anterior, Pentecostes. Na liturgia
do domingo passado, contemplamos e ce- José M. Castillo
lebramos o dom do Espírito, o Consola-
dor, aquele que vem ser nosso auxílio para
recordar os ensinamentos dados a nós por
Jesus e nos ensinar o que for necessário. É
dentro dessa missão do Espírito, de sua
ação na vida da Igreja, que podemos con-
fessar um Deus em três pessoas.

II. Comentários
dos textos bíblicos
1. Evangelho (Jo 16,12-15):
O Espírito da verdade
nos conduzirá à plena verdade
O evangelho traz pequeno trecho de
264 págs.

um discurso de Jesus conhecido como


“discurso de despedida” (cf. Jo 13-17).
Nesse discurso, Jesus instrui os discípulos Nos dias atuais, quando as
sobre vários assuntos e sabe que fala de religiões se veem questionadas
por sérios motivos e sob diversos
coisas que os discípulos ainda não são ca-
pontos de vista, a espiritualidade
pazes de entender. Por isso, aponta para ganha força. Um dos problemas
um tempo futuro, no qual o Espírito, aqui apontados neste livro é que,
qualificado como “Espírito da verdade”, em muitos ambientes, a
irá conduzi-los à plena verdade. O texto espiritualidade é relacionada
de João vai ainda mais longe e diz que o àquilo que nos afasta da vida
Espírito “não falará por si mesmo, mas e do mundo. A obra apresenta
dirá tudo o que tiver ouvido” (v. 13). o significado e a forma de viver
Como vimos nas liturgias dos domin- uma espiritualidade correta, que
não renuncie à nossa condição
gos anteriores, o Espírito é um dom pri-
de cidadãos do mundo nem à
meiramente do Pai, porque foi quem o necessidade de sermos felizes.
Imagens meramente ilustrativas.

prometeu, mas, na liturgia de Pentecostes,


vemos que o Espírito é “soprado”, conce-
dido pelo Ressuscitado; portanto, é envia-
do também pelo Filho. Essa relação estrei-
ta entre Pai, Filho e Espírito é reafirmada
nº- 327

no último versículo: “Tudo o que o Pai Vendas: (11) 3789-4000


possui é meu. Por isso disse que o que ele 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


receberá e vos anunciará é meu” (v. 15).
Assim, tudo o que o Espírito nos anuncia V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
vem do Pai e do Filho. Esse trecho é clara-
Vida Pastoral

mente trinitário!

59
Roteiros homiléticos

2. I leitura (Pr 8,22-31): A missão do Cristo é dupla: revelar o


Cristo, sabedoria de Deus Deus uno e trino e conduzir a humanida-
A primeira leitura, tirada do livro dos de à salvação, ou seja, ao próprio Deus
Provérbios, traz o importante tema da perso- Trindade. Em Cristo e por ele, temos aces-
nificação da sabedoria. À sabedoria foram so à Trindade e participamos também da
aplicadas qualidades humanas, de modo missão dele de revelá-la, porque o Espírito
que ela passa a ser percebida como uma pes- está em nós e nos transforma em coopera-
soa. Essa sabedoria personificada foi inter- dores dessa missão do Filho, Jesus Cristo.
pretada pelos cristãos como protótipo da pes-
soa de Cristo. Tal releitura cristã é justificada III. Pistas para reflexão
pelos atributos da sabedoria: existente desde Como é possível ter acesso ao mistério
o início, junto de Deus na obra da criação da Santíssima Trindade, o qual nos parece
etc. Essas qualificações tornaram possível a tão impenetrável? O evangelho nos informa
identificação da sabedoria com aquele que que a experiência da Trindade passa pela
estava junto de Deus, o Verbo, por meio de ação do Espírito Santo em nós. Somente pela
quem tudo foi feito e fora do qual nada foi docilidade ao Espírito compreenderemos a
feito (cf. Jo 1,1-3; Cl 1,16). relação íntima e profunda entre o Pai, o Filho
A leitura nos ajuda a perceber que a e o Espírito. A vida e a missão de Jesus reve-
ação criadora e salvífica de Deus é contí- lam a decisão de Deus Pai de caminhar com
nua. Isso significa que não há uma sepa- a humanidade desde o antigo Israel, com os
ração radical entre as ações de Deus em patriarcas Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés,
favor dos seres humanos no Antigo e no os profetas, os reis e todo o povo. Jesus es-
Novo Testamento, mas uma continuida- colhe os doze e se revela como Salvador,
de diferenciada. O Deus de Israel é o mas o pleno entendimento só acontecerá
mesmo Deus de Jesus Cristo que, desde quando a comunidade experimentar a ação
sempre, tomou a decisão de salvar a sua do Espírito em seu meio. “Tudo que o Pai
criação e o faz se manifestando, comuni- possui é meu”, afirma Jesus no evangelho
cando-se com a humanidade, desejando (v. 15). O Espírito foi encarregado de nos
participar da vida do ser humano e, as- revelar tudo sobre o Pai, de nos dar toda a
sim, partilhar de suas dores, sofrimentos, compreensão dessa relação de amor.
alegrias, vitórias e derrotas. Em Jo 14,9 Jesus nos diz: “Quem me
vê, vê o Pai”. Aproximamo-nos de Jesus
3. II leitura (Rm 5,1-5): pela força do Espírito; somos conduzidos a
Fé, esperança e amor, adentrar nessa fonte de vida que passa do
transbordamento do amor divino Pai para o Filho e do Filho para o Pai por
A segunda leitura, tirada da carta aos Ro- meio do Espírito, derramado abundante-
manos, fala-nos da justificação pela fé, que mente nos corações. Podemos afirmar que
se dá pela mediação em Jesus Cristo, e dos a Trindade é amor. Então, é esse mesmo
benefícios recebidos por esse acesso ao Pai: a amor que deve conduzir nossa existência.
nº- 327

reconciliação e a paz (cf. v. 1). O texto de Mas que amor é esse? Como fazer o amor
Romanos ainda joga com as três virtudes ser verbo de ação em nossa vida? A cons-

ano 60

teologais: fé, esperança e caridade (amor). cientização de que, em Cristo, somos inse-
As virtudes, principalmente o amor de Deus, ridos na Trindade nos compromete a deci-

foram derramadas nos corações humanos dir aceitar o desafio de usufruir desse trans-
Vida Pastoral

pelo Espírito que nos foi dado (cf. v. 5). bordamento íntimo de amor e de nos por-

60
mos a caminho com nossos irmãos e irmãs, Jesus, contudo, não parece ficar satisfeito
partilhando suas dores e alegrias. com a resposta incerta do povo e direciona
sua pergunta aos discípulos: “E vós, quem
O Roteiro Homilético de Corpus Christi dizeis que eu sou?” (v. 20). Não é de uma
(20/6/19) pode ser acessado no site da multidão distante que deve vir o reconheci-
revista: vidapastoral.com.br mento de quem ele é, e sim daqueles que o
acompanham de perto e, espera-se, o co-
nhecem. Pedro responde, em nome dos ou-
12º Domingo do Tempo Comum tros discípulos e em seu próprio nome: “O
23 de junho Cristo de Deus” (v. 20). Sua resposta é sim-
ples e direta: “Tu és o Messias de Deus”, o

Cristo, fonte ungido, enfim, o enviado por Deus. Dizer


que Jesus é o Messias é dizer que ele é aque-

da purificação le esperado para resgatar o povo de Deus e


trazer-lhe a salvação da parte de Deus.

e da vida No entanto, Jesus proíbe severamente


que se divulgue essa informação. Tal proi-
bição faz que o ouvinte entenda que a res-
I. Introdução geral posta de Pedro foi adequada, mas há algo
Passada a solenidade de Pentecostes, mais. Esse algo mais é a segunda questão a
que encerra o tempo pascal, e a solenidade ser considerada nesse texto: a chamada
da Santíssima Trindade, voltamos para o “predição da paixão”. Não é tempo ainda
Tempo Comum. Celebrando o 12º domingo de falar, porque Jesus é um Messias que
do Tempo Comum, somos convidados a ver passará pelo sofrimento, deverá ser rejeita-
na vida de Jesus a promessa de salvação de do pelos anciãos, sumos sacerdotes e dou-
Deus para cada um de nós. Na aparente con- tores da Lei – entenda-se, pela liderança
tradição de sua paixão está a fonte que sacia religiosa de seu povo –, para depois ser
a nossa sede de Deus, expressa no Salmo 62. morto e ressuscitar ao terceiro dia. O texto
de Lucas é perspicaz: diz que Jesus deve
II. Comentários “ser morto” (v. 22), não que “deve morrer”,
dos textos bíblicos indicando, assim, que a morte de Jesus não
1. Evangelho (Lc 9,18-24): é natural nem desejada por Deus simples-
Jesus, o profeta enviado por Deus mente, mas tem responsáveis por ela.
O trecho do evangelho deste dia nos A terceira questão presente no evange-
traz pelo menos três questões bem perti- lho do dia não se relaciona diretamente
nentes. A primeira diz respeito à pessoa de com Jesus, e sim com seus seguidores – do
Jesus, em relação com sua missão ou seu seu e do nosso tempo. A questão agora
envio. Jesus interroga seus discípulos para versa sobre a adesão a Jesus Cristo. O Se-
saber o que o povo pensa e diz a seu res- nhor nos diz quais as condições necessá-
nº- 327

peito. As respostas são: João Batista, Elias rias para sermos seus discípulos. A formu-
ou um dos antigos profetas que ressusci- lação de Lucas novamente impressiona,

ano 60

tou (cf. v. 19). Todas as respostas apontam pois começa com um “se”, revelando a li-
para a tradição profética. Para o povo, Je- berdade de decisão para o seguimento. O

sus é um profeta, e a discussão ou a incer- “se” acentua a possibilidade de acolhida


Vida Pastoral

teza são sobre qual deles Jesus é. livre do chamado ao seguimento de Jesus.

61
Roteiros homiléticos

Quem quer que decida segui-lo terá de los habitantes de Jerusalém. A promessa
“renunciar a si mesmo e tomar a cruz” (v. final ao povo, ainda enigmática, é a de
23). A tomada da cruz exige a renúncia de uma fonte para ablução e purificação: o
si, pois quem se ocupa apenas de si não Messias padecente.
poderá nunca compreender a cruz, já que
ela é o símbolo máximo da doação e da 3. II leitura (Gl 3,26-29): No Cristo,
negação de si em vista dos outros. toda discriminação é abolida
A segunda leitura, da carta aos Gálatas,
2. I leitura (Zc 12,10-11; 13,1): fala sobre a condição daqueles que renun-
O enviado padecente, ciaram a si mesmos e abraçaram a cruz de
fonte de purificação Cristo. A afirmação paulina é clara: em
A profecia de Zacarias, aqui contem- Cristo, todos os batizados se tornam filhos
plada na primeira leitura, parece estranha de Deus. Por isso, as categorias com as
nesta celebração, mas a aparente estranhe- quais as pessoas eram classificadas e assim
za serve de alerta para que busquemos o separadas perdem todo o sentido.
essencial nesse trecho. O texto começa si- Daí o apóstolo poder dizer que já não
tuando a ação de Deus, que chega como existe nem judeu nem grego, nem escravo
promessa a um destinatário: “Derramarei nem livre, nem homem nem mulher. Ne-
sobre a casa de Davi e sobre os habitantes nhuma dessas realidades deixou de existir
de Jerusalém um espírito de graça e de de fato. A mudança se deu na valorização,
oração e eles olharão para mim” (12,10). ou não, das pessoas segundo essas distin-
Deus vai preparar os judaítas para a ções. Em Cristo, todos somos um só, e se
chegada do Messias. O enigmático do tex- somos de Cristo, somos da descendência
to, porém, é que o povo, a quem o envia- de Abraão e temos direito à herança se-
do virá, só perceberá esse enviado diante gundo a promessa de Deus a Abraão; ou
do sofrimento e da morte, e então o chora- seja, em Cristo todos somos abençoados.
rão como se chora pela perda de um pri-
mogênito. Esse texto de Zacarias parece III. Pistas para reflexão
ser devedor dos cantos do Servo de Isaías, As leituras desta celebração convergem
porque a sequência do texto aponta para na figura de Jesus Messias padecente. En-
uma esperança que advém dessa situação quanto Messias que padece, morre e ressus-
mesma de sofrimento e morte: “Naquele cita, ele é a fonte para a purificação e salva-
dia, haverá uma fonte acessível à casa de ção do povo, anunciada na profecia de Zaca-
Davi e aos habitantes de Jerusalém, para rias. Como fonte de purificação e salvação,
ablução e purificação” (13,1). ele é acessível a todos os que o buscam, uma
Esse trecho está construído de modo vez que estejam preparados pelo “espírito de
que a “a casa de Davi e os habitantes de graça e oração” para assim reconhecê-lo.
Jerusalém” apareçam no início e no fim, Por isso, Paulo pode falar do batismo
em clara inclusão. Para o profeta, a pro- como revestimento do Cristo. A fonte da
nº- 327

messa da ação de Deus – entenda-se, o en- profecia de Zacarias dizia respeito à “ablu-
vio do Messias – tem um destinatário cer- ção e purificação”, ou seja, tinha o aspecto

ano 60

to, e este é o povo judaíta, representado de ritual de purificação para o encontro


emblematicamente pelas figuras da “casa com o sagrado, prática habitual no mundo

de Davi”, na qual se assenta a expectativa judaico. O batismo em Cristo, do qual fala


Vida Pastoral

messiânica da realeza, e, por extensão, pe- Paulo, torna desnecessários os rituais de

62
purificação, pois todos se revestem do
Cristo. Isso significa que Cristo é a fonte Novos desafios para o
de purificação e, portanto, de salvação. cristianismo
No momento em que vivemos a negação A contribuição de José Comblin
de tantos direitos, conquistados a duras pe-
Eduardo Hoornaert (org.)
nas, e nos assaltam os fantasmas do desres-
peito aos direitos de muitas categorias de
trabalhadores, que a máxima cristão-paulina
– “não há mais nem judeu nem grego, nem
escravo nem livre, nem homem nem mu-
lher” – ressoe em nossa mente e coração e
não nos deixe novamente manchar pelas in-
justiças institucionalizadas que não revelam
o Cristo, antes o crucificam novamente.

SÃO PEDRO E SÃO PAULO APÓSTOLOS


30 de junho

Deus sustenta e
176 págs.

liberta os seus servos Esta coletânea comporta oito


trabalhos de teólogos e biblistas,
I. Introdução geral em sua maioria da nova geração,
O evangelho do domingo anterior tra- que iluminam diversos aspectos
zia, entre outros, o tema das exigências da teologia e da ação de José
para o seguimento do Cristo, e uma delas Comblin, tendo sempre em vista os
era tomar a cruz. Esta celebração nos con- novos desafios para o cristianismo.
Leitura para conhecer melhor a
vida a contemplar a experiência dos após- contribuição do grande teólogo
tolos Pedro e Paulo, que não só tomaram a que foi Comblin, falecido no final
cruz no sentido de assumir a cruz de Cris- de março de 2011.
to, mas a experimentaram totalmente.
Com justa razão, a Igreja os recebe como
suas colunas e celebra sua vida e doação
Imagens meramente ilustrativas.

ao anúncio do evangelho.

II. Comentários
dos textos bíblicos
1. Evangelho (Mt 16,13-19):
nº- 327

“Tu és Pedro e sobre esta pedra Vendas: (11) 3789-4000


edificarei a minha Igreja” 0800-164011

ano 60

SAC: (11) 5087-3625


O evangelho do domingo passado
trazia o testemunho lucano do trecho co- V I S I TE N OS S A L OJ A V I RTU AL

paulus.com.br
nhecido como “primado de Pedro”. Nesta
Vida Pastoral

solenidade de São Pedro e São Paulo, o

63
Roteiros homiléticos

evangelho traz a versão mateana desse tex- O apóstolo parece perceber que seu fim
to. Na resposta à pergunta de Jesus sobre está próximo e testemunha sua fidelidade
quem as pessoas dizem que ele é, acrescen- ao Senhor e sua coerência de vida de fé.
ta-se aos nomes de João Batista e Elias o de Paulo expressa a confiança de que sua
Jeremias, entre as possíveis identificações vida será contada como justa e o próprio
com a pessoa de Jesus. É bem interessante Senhor atestará a justiça de sua conduta.
essa perspectiva mateana, porque Jeremias Toda essa confiança de Paulo está, po-
é considerado um profeta sofredor. rém, assentada na certeza de que o Senhor
Como nos outros evangelhos sinópti- esteve sempre ao seu lado e foi ele quem o
cos, Jesus dirige a pergunta aos discípulos fez anunciar a mensagem. A sequência do
e Pedro responde por eles: “Tu és o Mes- texto traz palavras de libertação que não
sias, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Só Ma- deixam de ser também palavras de con-
teus une o título Filho de Deus ao de Mes- fiança em Deus diante do fim iminente.
sias. Nesse trecho, e só nesse evangelho,
Jesus felicita a Pedro por sua resposta, III. Pistas para reflexão
acrescentando que não é a condição hu- Pedro e Paulo são, de acordo com a tra-
mana que o faz reconhecer sua messiani- dição, as pedras fundamentais da Igreja. Os
dade, mas uma revelação de Deus. Essa é textos desta celebração vão muito além da
a razão por que o Senhor lhe confere a res- atestação de seu papel fundamental na exis-
ponsabilidade por sua Igreja. tência da Igreja; revelam a grande impor-
tância que adquiriram por seu testemunho
2. I leitura (At 12,1-11): de vida, ao se conformarem a Cristo pelo
“Levanta-te depressa!” sofrimento, perseguição e morte. A tradição
A primeira leitura, dos Atos dos Após- da Igreja afirma que Pedro foi crucificado,
tolos, atesta o aprisionamento e a liberta- mas, não se sentindo digno de morrer como
ção miraculosa de Pedro. O texto começa o Senhor, pediu para ser crucificado de ca-
e termina com uma referência ao rei Hero- beça para baixo. Independentemente da
des. Além disso, duas outras referências a exatidão desse relato, é certo que sofreu o
esse rei enquadram o v. 5, no qual se afir- martírio, como também Paulo.
ma que a Igreja rezava continuamente por Pedro e Paulo são, segundo os Atos dos
Pedro enquanto este estava encarcerado. Apóstolos, as figuras de maior destaque na
A libertação fora do comum ocorrida Igreja, embora, inicialmente, Tiago apareça
em favor de Pedro vem como resposta à como a figura maior na Igreja de Jerusalém.
oração incessante da comunidade. Isso é O livro dos Atos dos Apóstolos testemunha
um indício da importância que o apóstolo que a Paulo se deve a expansão da Igreja,
já tinha para a comunidade primitiva. Ao por seu trabalho de evangelização dos gen-
final, o próprio Pedro reconhece que o Se- tios, e a Pedro sua conservação, por seu tra-
nhor, por meio de seu anjo, é o responsá- balho de evangelização e acompanhamento
vel por sua libertação. das Igrejas judaico-cristãs. Na origem da
nº- 327

Igreja cristã se encontravam judeu-cristãos


3. II leitura (2Tm 4,6-8.17-18): e gentio-cristãos, e nada mais lógico que

ano 60

“Completei a corrida, guardei a fé” cada grupo originário contasse com um re-
A segunda leitura traz o texto conheci- presentante que fosse sua coluna de susten-

do como “testamento de Paulo”. Na verda- tação. Festejemos, portanto, com alegria as


Vida Pastoral

de, esse texto é verdadeira confissão de fé. colunas da Igreja: Pedro e Paulo!

64