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FAZENDO VS A FAZER

COMPETIÇÃO ENTRE O GERÚNDIO E A PERÍFRASE DO INFINITIVO NO


PORTUGUÊS ANTIGO

FÁTIMA MARTINS

TRABALHO DE LINGUÍSTICA HISTÓRICA REALIZADO NO ÂMBITO DO


SEMINÁRIO DE MESTRADO EM LINGUÍSTICA
FAZENDO VS A FAZER
COMPETIÇÃO ENTRE O GERÚNDIO E A PERÍFRASE DO
INFINITIVO NO PORTUGUÊS ANTIGO

ÍNDICE

1. Prefácio
2. O Objecto e os Objectivos
3. O Corpus
3.1. A Constituição do Corpus
3.2. A Metodologia
3.3. Os Problemas
4. Os Dados
4.1. A Variação Diacrónica
4.2. Os Dados Estatísticos
5. Conclusões
6. Referências
1. Prefácio

Os problemas subjacentes à mudança linguística e às especificidades dessa


mudança tornaram-se determinantes no momento da escolha do tema para o trabalho
final do seminário de Linguística Histórica.
Definir as características da mudança, os princípios e as tendências que a
influenciam e, sobretudo, chegar a entender e perceber as razões que estão por detrás
dessa mudança, pareceu-me, sem dúvida, um trabalho árduo mas, também aliciante pelo
seu carácter quase policial em que o linguista histórico, qual detective, vai procurando nas
fontes, pistas, «pegadas linguísticas» que lhe permitam deslindar o caso que é objecto da
sua atenção.
Assim, as razões que me levaram a pensar em deter-me neste estudo sobre as
formas do gerúndio vs as formas perifrásticas do infinitivo encontram-se na descoberta
que foi para mim, das problemáticas associadas aos estudos linguísticos diacrónicos. Não
é meu principal interesse neste trabalho determinar que razões levaram à diminuição da
frequência das formas de gerúndio, nem porque razão ou razões se manteve no Sul do
país e no Brasil. Não é o meu principal interesse porque, para isso, deveria realizar um
trabalho de muito maior envergadura, com um corpus muito mais extenso do que aquele
que utilizei e teria, com certeza, de deter-me muito mais tempo do que aquele que me é
concedido para a realização deste trabalho. No entanto, à medida que ia avançando nas
minhas buscas, nas minhas observações, nas minhas descobertas, uma frustração ia
também crescendo dentro de mim. Por um lado, porque esse trabalho que
conscientemente denomino de «dantesco» é realmente aliciante e, de algum modo,
provocava-me uma vontade de continuar a procurar, de chegar mais longe, mas o tempo
escasseava... Por outro lado, dava-me conta da dificuldade que existe em reconstruir
fidedignamente o passado da língua e de poder chegar a conclusões que não me
deixassem um «mau sabor de boca» no que respeita às certezas das inferências realizadas.
Deste modo, sou consciente de que este trabalho é apenas um grão ínfimo face ao
que realmente poderia ser feito mas, é seguramente um trabalho que me deu muito
prazer. Espero que algo mais possa também ser retirado de tudo o que aqui é apresentado.
2. O Objecto e os Objectivos

Desde há muito que a distinção entre diacronia e sincronia é objecto de muitas


discussões, sendo os estudos diacrónicos definidos como o estudo das mudanças na
língua e os estudos sincrónicos como o estudo dos estados de uma determinada língua
num determinado tempo é, no entanto, uma evidência de que a verdadeira distinção entre
diacronia e sincronia faz-se a partir do facto de que ninguém pode aceder ao passado de
uma língua enquanto falante. Seria necessário poder viajar no tempo e ainda assim ser
possuidor do dom da imortalidade para perceber como foi evoluindo a língua, como se
processaram as mudanças e que razões ou motivos levaram a essas alterações.
Tal impedimento é, sem dúvida, determinante para a concretização, não só do
estudo, mas também para a definição dos objectivos que se pretendem atingir, já que, o
alcance dos mesmos passa pela questão que considero de relevante pertinência: Como
posso ter a certeza de que as minhas avaliações são correctas sobretudo quando se trata de
estruturas em competição como são aquelas que servem de mote a este trabalho?
Assim, e porque neste caso considero que a prudência é melhor conselheira do que
a ousadia, defini dois objectivos na realização deste trabalho que considero básicos e
fundamentais:
- Entender de que forma e com que frequência competem os valores associados às
duas construções em estudo i.e., gerúndio e perifrástica constituída por
«preposição a + infinitivo»;
- Tentar definir uma regularidade no emprego das referidas formas tendo em conta
os factores geográficos que determinam a existência das duas construções nas
variedades actuais do padrão e da variedade dialectal do sul do país.

Definidos que estão os objectivos passarei, pois, a falar sobre o objecto do estudo.
Mais do que perceber o estado da língua no período correspondente ao
denominado português antigo (séculos XII, XIII e XIV) o objecto deste trabalho prende-se
essencialmente com a análise das formas já anteriormente citadas para atingir os
objectivos propostos. Observar o estado da língua no Português Antigo é uma tarefa de
muito maior exigência e demanda que não se compadece com faltas de rigor e de
conhecimentos, os quais não me arrogo de possuir. Logo, não posso deixar de notar que,
de certa forma, o objecto deste estudo reside na observação da produtividade daquelas
construções tendo em conta que os documentos analisados são, ainda assim, ilustrações
do estado de língua relativo ao período em questão.
No entanto, as dificuldades inerentes que se prendem com a fidelidade e a
fidedignidade das fontes colocam também em risco a «reconstrução das fases pretéritas da
língua» (Cardeira, 1999: 48). Tornar os documentos testemunhas perante um juiz que tem
de avaliar, interpretar e finalmente decidir, seria fácil se as testemunhas pudessem
responder imediatamente às nossas dúvidas e interrogações. Mas tal não é exactamente o
que se passa. O que se passa é que somos nós, os juízes, quem tem de escolher os
testemunhos que, por um lado, existem unicamente enquanto registos escritos, sem
sabermos de que forma esses registos correspondem também a uma realidade oral e real
do tempo a que pertencem. Por outro lado, esses testemunhos podem ser, eles próprios,
vítimas da passagem do tempo, quer pelos danos que o tempo causa, quer pelas mãos que
tentam evitar que a corrupção dos anos se instale nos documentos, sendo essas mesmas
mãos quase sempre a fonte de toda a corrupção. Surge, deste modo, o problema
metodológico e de constituição do corpus aos quais passarei já de seguida.
3. O Corpus

3.1. A Constituição do Corpus


Quando pensei em constituir o corpus a minha primeira ideia foi a de percorrer os
textos disponíveis em português que abarcassem o período de tempo que decorre entre os
séculos XII e XVI porque assim poderia analisar com maior detalhe e cuidado a evolução
das duas estruturas que servem de base a este estudo. Mas à medida que ia investigando
os textos disponíveis no CIPM (corpus informatizado do Português Medieval) percebi que
iria alienar uma infinidade de problemas.
O primeiro problema com que me deparei foi o de seleccionar entre documentos
não literários e documentos literários. Se os primeiros, e de acordo com Cardeira (1999;
48), deixam melhor transparecer a linguagem oral, por outro lado, pelo facto de não serem
literários, nomeadamente no caso dos documentos notariais, podem possuir
inerentemente uma linguagem baseada em fórmulas de tipo jurídico por exemplo que a
meu ver não ilustram a língua corrente da época.
Também os documentos literários não são completamente abonatórios enquanto
instrumentos de análise linguística, já que, em primeiro lugar apresentam normalmente
problemas de datação tornando-se nem sempre precisos do ponto de vista cronológico e
deixando constantemente uma dúvida ao estudioso sobre em que século tal documento
deveria ser incluído. Isto porque se tivermos em conta que o Português Antigo
compreende o intervalo entre os séculos XII a XIV é evidente que se torna frequentemente
complicado decidir se tal documento pertence ao século XIII ou XIV. Além disso, os
documentos literários aos quais temos acesso são frequentemente resultado de cópias e,
ainda assim, muitas vezes tardias e consequentemente sujeitas a variadas interpretações e
reinterpretações por parte daqueles que os copiaram podendo, por isso, apresentarem
problemas ao nível da fidedignidade no que toca aos seus conteúdos linguísticos.
Por outro lado, a tipologia das fontes acarreta também decisões. Originais, cópias,
traduções são reveladores de diferentes estados de língua que deverão ser tomados em
consideração influenciando, sem dúvida, o estudo a realizar.
Enfim, o corpus acabará por possuir sempre, tal como refere Mattos e Silva (1989:
16), «um carácter necessariamente diversificado, já que atravessa séculos, se estende por
amplo território e provem de emissores de natureza as mais distintas e, na maioria das
vezes, desconhecidos.»

3.2. A Metodologia

Por tudo o que acabou de ser referido decidi que o corpus que teria de constituir
deveria por um lado abarcar as variedades próprias que se encontram nos textos não-
literários e nos literários traduzidos e não traduzidos, sem no entanto ter considerado
relevante para este estudo o fragmento de língua contido nos textos poéticos por vários
motivos:
Primeiro, porque a poesia por questões de rima e de ritmo tende a ser desviante
face aos estados de língua vigentes tornando difíceis as análises linguísticas;
Segundo, porque no que se refere à edição que me foi disponibilizada (Cantigas de
Escárnio e Maldizer edição de Graça Videira Lopes) sendo o único texto em poesia de que
dispunha, senti que não poderia servir como elemento do corpus constituído por não
haver outro material em forma poética que pudesse servir de termo de comparação, o que
me fez recuar no meu já relativo propósito de as incluir.
Incluo apenas um documento relativo ao século XII constituído por dois textos por
não estar certa da existência real em Português de outros documentos relativos a este
período. Pensei que fosse talvez mais científico não incluir nenhum documento para este
século, dado o enorme desvio na proporção do número de textos face aos outros
documentos incluídos nos dois séculos seguintes mas, não pude deixar de incluir a Notícia
de Haver e o «Finto» dos casais de Eligoo editados por Ana Maria Martins em edição
digitalizada de 1999, por achar que, de algum modo, estaria a dar uma amostra do estado
de língua deste século.
Assim, optei por seleccionar um corpus constituído, para além dos já referidos, por
alguns dos textos não literários datados do século XIII e que são:
1 - Notícia do Torto (NT) 1214? - Editado por Luís F. Lindley Cintra;
2 - Testamento de D. Afonso II (TL e TT ) 1214? - Editado por Pe. Avelino J. da Costa (dois
manuscritos);
3 - 61 Documentos notariais da Galiza e do Noroeste de Portugal (HGP) 1262 a 1300
editados por Clarinda de A. Maia;
4 - 34 Documentos portugueses da Chancelaria de D. Afonso III (CA) 1255 – edição
paradiplomática de Luís F. Duarte;
5 - 68 Documentos notariais (CHP) sd. de 1260 a 1300 - editados por Ana M. Martins;
6 - 73 Textos notariais (DN) sd., 1243-1300 in Docs. Notariais dos Séculos XII a XVI (1255) –
editados por Ana M. Martins;
7 - 6 Textos dos Foros de Garvão (FG) – 1280? - Editados por M. H. Garvão;
8 - 20 Textos Notariais do Arquivo de Textos do Português Antigo (Oxford) – editados por
Stephen Parkinson.

Pretendi também incluir documentos que são resultado de traduções como sejam
para o século XIII:
1 - Foro Real (FR) – 1280? - Editado por J.A. Ferreira, documento traduzido e
provavelmente adaptado do Fuero Real de Afonso X;
2 - Tempos dos Preitos (TP) – 1280? - Edição crítica de J. A. Ferreira a partir de Summa de
los Nueve Tiempos de Los Pleitos editado por Jean Roudil.

Em relação aos documentos não-literários surgiu um problema com o documento


denominado Vidas de Santos que, para além do facto de não estar datado, é editado a partir
de cópias tardias do século XV datadas entre 1431 e 1446. Possuindo uma linguagem
muito conservadora quanto ao que se consideram os indicadores que delimitam a fase
entre os séculos XIII e XV (Bechara, 1991:68-9) vou considerar que possa ter sido escrito
nos finais do século XIII, princípios do século XIV e considerá-lo como ponto intermédio
entre os dois séculos.
Vidas de Santos (VS) – sd (cópias tardias de um ms. alcobacense - século XV) – edição
crítica de Ivo Castro et alli.

Para o século XIV foram seleccionados os seguintes documentos não-literários:


- 79 Textos notariais in Clíticos na História do Português;
- 62 Textos notariais (1301-1399) in História do Galaico-português;
- 79 Textos notariais (1304-1397) in Docs. Notariais dos Séculos XII a XVI;
- 2 Textos dos Foros de Garvão (sd) – editados por M. H. Garvão;
- Dos Costumes de Santarém (CS) – 1340-1360 – editado por Maria Celeste
Matias;
- 13 Textos Notariais do Arquivo de Textos do Português Antigo (Oxford).

E como texto traduzido seleccionei

- Afonso X, Primeyra Partida (PP) – 1350? Editado por José A. Ferreira.

Apresentado que está o corpus julgo que, não só é representativo do estado de


língua relativo ao período escolhido, como também das variedades dialectais que
pudessem já ocorrer no país pelo facto de ter procurado integrar textos do Norte e do Sul
de Portugal.

3.3. Os Problemas

Para além de alguns problemas já referidos como o caso do documento das Vidas de Santos,
dos problemas de datação e das questões relativas à pouca produtividade da escrita
portuguesa no século XII outros problemas foram surgindo ao longo da pesquisa.
Um dos maiores problemas prendia-se com a superioridade numérica de documentos do
Norte face a documentos do Sul do país.
Com efeito, a maior parte da documentação centrava-se nas províncias portuguesas do
Douro Litoral e da Estremadura abarcando sobretudo a linha a Norte do rio Tejo.
Assim, a quantidade de documentos pertencentes ao Sul é desproporcionada face aos que
se encontram entre a margem direita do rio Tejo e a fronteira que separa o país da Galiza.
Esta constatação levou-me a abdicar de qualquer análise com vista à procura de razões e
de explicações para os factos encontrados, já que, em consciência, tais justificações
estariam à partida viciadas.
No entanto, considero que, ainda assim, é possível ter uma noção da competição que
existiria entre a estrutura de gerúndio e a de perífrase do infinitivo.
Outro problema que me surgiu foi o facto de que os documentos que serviram de base ao
Foro Real e à Primeyra Partida estivessem em Castelhano podendo influenciar assim,
quando da tradução, as estruturas sintácticas dando, desse modo, uma maior preferência
ao gerúndio face à perifrástica.
Aquele que considero o maior problema prende-se com a representatividade do corpus ao
nível da periodização. A meu ver, o corpus representativo para o tipo de análise a que me
proponho realizar aqui deveria incluir também, pelo menos, o século XV e XVI. Embora,
deste modo, fosse ultrapassada a periodização referente ao Português Antigo, a verdade é
que no caso deste estudo, em particular, gostaria de ver essa barreira eliminada pois, só
assim, seria possível observar com maior clareza a evolução da perifrástica face ao
gerúndio e vice-versa. O que está aqui em causa não é a periodização da língua senão a
questão da mudança linguística, i.e., a partir de quando é que começa a surgir duas
estruturas com localização geográfica bem definida como são o gerúndio nas zonas que
comportam o Alentejo e o Algarve e a perifrástica nas restantes zonas do país?
Depois surgiram problemas de outro teor e que dizem respeito à existência de
trabalhos já realizados sobre este tipo de questões. Não só foi muito difícil encontrar
publicações relativas a este estudo como diria mesmo impossível.
Por outro lado, quando encetei a tarefa de recolher os dados percebi que era
necessário não só olhar para os gerúndios mas, também, para os particípios presentes já
que as formas em -ndo que etimologicamente representavam o ablativo do gerúndio latino
são também herdeiras dos empregos sintácticos do particípio presente latino.
Também no caso das perífrases tornava-se evidente que a preposição a não era,
única e exclusivamente, o elemento que deveria procurar junto dos verbos no infinitivo
mas também possíveis contracções da preposição com o artigo definido o. Tornava-se,
pois, uma tarefa de muita pesquisa que deveria exigir outro detenimento.
Assim, apesar de consciente das limitações a que estou sujeita passo a entrar, de seguida,
na descrição das estruturas em estudo e na análise dos dados que recolhi.

4. Os Dados

4.1. A Variação Diacrónica

Para uma eficaz análise é necessária uma boa descrição.


A questão do gerúndio vs perífrase do infinitivo traz consigo o problema dos
valores que estão inerentes a cada uma das estruturas e, por consequência, das suas
origens.
Em primeiro lugar dever-se-á definir o conceito de perífrase:
Perífrases são construções que se empregam para exprimir um conceito único,
formando um sistema secundário bastante amplo, que completa a conjugação verbal,
indicando os matizes de tempo, modo e aspecto. (Souza Campos, 1980: 82)
Desde os primeiros tempos da língua portuguesa observam-se perífrases com verbos de
estado e de movimento. A distribuição entre esses tipos provavelmente irá divergir de
acordo com a época de que se trata.
No que respeita ao infinitivo, em primeiro lugar o infinitivo precedido da
preposição a pode assumir os mesmos valores de duração que normalmente são
atribuídos ao gerúndio.
Assim:
- Com os verbos andar/estar e o gerúndio (ou o particípio presente) ou o infinitivo
precedido da preposição a, representa-se a acção como objecto de acção
prolongada.
- Com o verbo ir e o gerúndio (ou o particípio presente) ou o infinitivo precedido
da preposição a, pode representar-se a acção como iterativa, mas também com um
valor associado a futuro relativamente à perifrástica.

A questão fundamental tem que ver com o facto de esta estrutura complexa poder
ser ou não uma locução verbal ou se existem duas orações. A locução comporta uma
unidade sintáctico-semântica entre os dois verbos que já existia no latim tardio – «stat
spargendo medelas» (Mattos e Silva, 1994: 65).
Assim, à medida que ia avançando no meu percurso pelos textos dos documentos
procurava determinar se o valor inerente às perífrases que ia encontrando era equivalente
ao valor do gerúndio. Deste modo, procurava substituir a perífrase contida no exemplo
por um gerúndio sem alterar o sentido nem o significado da frase.
Logo, em:

& esse co~ue~to acustumaro~ quando a dita iglleia ou a dita meyadade della uagou
ou esteue uaga a guardar os be´e´s della & outrossj por que fforo~ & son en jur
<S13><D1290><PGPo><TSal><EHGP106>
o valor associado à forma em negrito manter-se-ia se a mesma forma fosse substituída por
guardando. Este foi, pois, o teste utilizado para proceder à avaliação dos valores das duas
estruturas.
Depois de analisar todo o corpus detectei para o século XII apenas 1/3 ocorrências
de perífrase exclusivamente na região de Lisboa e nenhum gerúndio ou particípio
presente, o que torna pouco consequente e paradigmática a análise ao nível deste século.
Quanto ao século XIII foram detectadas 11 construções perifrásticas em
documentos relativos ao Norte do país, 7 referentes ao Sul, 3 em Lisboa. Nas Vidas de
Santos, surgem 21 ocorrências de perífrase e 171 ocorrências de gerúndio. Por outro lado
surgem 26 ocorrências de gerúndio em documentos situados no Norte, 30 formas de
gerúndio no Sul, 13 em Lisboa e 59 ocorrências de gerúndio no Foro Real, embora neste
documento não se tivesse registado qualquer ocorrência de perífrase com valor
equivalente ao do gerúndio.
No entanto, para o século XIV, não há qualquer registo tanto de perífrase como de
gerúndio em documentos do Sul talvez porque já exista um menor número de
documentos relativos a essa zona mas, por outro lado, contabilizam-se 21 ocorrências de
perífrase e 109 de gerúndio em documentos relativos ao Norte, 1 ocorrência de perífrase e
47 de gerúndio em documentos de Lisboa e 30 ocorrências de perífrase e 1390 de gerúndio
no Primeyra Partida, que como é sabido deriva de tradução de um documento castelhano.
4.2. Os Dados Estatísticos

perífrases no século XIII

25

20

15

10

0
NORTE LISBOA SUL LOCAL.
INDEFINIDO

perífrases do infinitivo

perífrases no século XIV

30

25

20

15
perífrases do infinitivo
10

0
NORTE LISBOA SUL LOCAL.
INDEFINIDO
formas de gerúndio no século XIII

250

200

150

100 formas de gerúndio

50

0
NORTE SUL

formas de gerúndio no século XIV

1400

1200

1000

800

600 formas de gerúndio

400

200

0
NORTE SUL
total de formas de gerúndio em Portugal

1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
Século XIII Século XIV

total de formas de gerúndio

total de perífrases do infinitivo em Portugal

60

50

40

30

20

10

0
Século XIII Século XIV

perífrases do infinitivo
5. Conclusões

A partir da análise feita pode-se, então, partir para conclusões embora ainda
bastante relativas de que no Português Antigo a estrutura perifrástica tinha já uma
existência reconhecida a Norte do país. O gerúndio, por sua vez, tinha uma maior
preponderância tanto a Norte como a Sul criando, assim, um paradigma preferencial face
à construção perifrástica. Não foi possível, deste modo, satisfazer todos os objectivos, já
que, a heterogeneidade proporcional do corpus não me permitiu avaliar da real frequência
das formas de gerúndio no Sul do país durante o século XIV mas, há, sem dúvida, uma
tendência para o crescimento das formas gerundivas em detrimento das perifrásticas com
infinitivo. É importante mencionar que a perífrase não era de todo improdutiva mas era,
sobretudo, realizada com formas do gerúndio e não com as do infinitivo. Talvez, por isso,
se tenha tornado cada vez menos frequente esse tipo de conjugação perifrástica ganhando
o gerúndio «a corrida» linguística. Além disso, como já foi anteriormente referido, os
documentos resultantes de traduções do castelhano poderiam, eventualmente também
eles, relativizar os dados porque, à semelhança do que acontece hoje, há uma tendência
durante o processo de tradução para alienar estruturas linguísticas da língua da qual se
traduz para a língua de destino. Muitas dúvidas ficam por colmatar. No entanto, uma
certeza fica também; o interesse que estas questões merecem é incontornável e a busca
dever-se-á manter ainda que às vezes possa parecer infrutífera.

6. Referências
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Primeira Metade do Século XV - Elementos para uma caracterização do Português Médio.
Dissertação de Doutoramento em Linguística Portuguesa. Lisboa. Faculdade de Letras da
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MAIA, Clarinda de Azevedo. (1994). O Tratado de Tordesilhas: Algumas Observações


Sobre o Estado da Língua Portuguesa em Finais do Século XV. Coimbra, Separata de
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gramática do Português Arcaico. Maia. Imprensa Nacional - Casa da Moeda.

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Contexto.