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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E TECNOLOGIA


CAMPUS XXII - EUCLIDES DA CUNHA – BA
CURSO PRESENCIAL – PLATAFORMA FREIRE – EDUCAÇÃO FÍSICA
DEPARTAMENTO / PÓLO – EUCLIDES DA CUNHA
COMPONENTE CURRICULAR – EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR II
PROFESSORA – PRISCILA DORNELLES
ACADÊMICAS – LUCIANA JESUS DA SILVA
RUBENILSA DOS SANTOS ARAÚJO
SIMONE NEVES DE ANDRADE GONÇALVES

BULLYING NA EDUCAÇÃO FÍSICA

Euclides da Cunha/Ba
2012
LUCIANA JESUS DA SILVA
RUBENILSA DOS SANTOS ARAÚJO
SIMONE NEVES DE ANDRADE GONÇALVES

BULLYING NA EDUCAÇÃO FÍSICA

Trabalho solicitado como requisito parcial de


avaliação do componente curricular,
Educação Física Escolar II, do curso
presencial Plataforma Freire, sob orientação
da professora Priscila Dornelles.

Euclides da Cunha/Ba
2012
A “alegoria da caverna” do livro VI de “A República” do filósofo Platão conta a
história de prisioneiros acorrentados desde o nascimento olhando para uma parede
iluminada por uma fogueira, nesta parede vêem sombras de estátuas que
representam sua vida cotidiana: homens, animais, plantas, etc., sendo as únicas
imagens que conseguem enxergar. Em analogia a este mito infere-se que tal qual os
prisioneiros da narrativa, nós, os grupos sociaissó enxergamos aquilo que está a
nossa frente, ou seja, com as noções que estamos acostumados, seguindo tradições
e hábitos. Ainda neste mito, um dos prisioneiros sai da caverna e tem a
oportunidade de conhecer a realidade, maravilhado lembra dos amigos presos e
pensa em ir contar sobre o mundo novo. No entanto, estes não acreditam em outra
realidade, ou seja, tem dificuldade para entender. É o que muitas vezes acontece
com os grupos sociais, não entendem, não compreendem o diferente de si.

Este escrito tão antigo expressa de forma categórica à dificuldade de relação


entre os grupos, com relação à dificuldade de entendimento e aceitação das
diferenças. Questão esta que se arrasta em meio à história, pois, muitos dos
acontecimentos sejam dos mais remotos aos contemporâneos devem-se aos fatores
desencadeados pelas relações entre os grupos. Estes acontecimentos concorreram
e concorrem para vários progressos nas diferentes nações, mas também certos
episódios da nossa tenra e antiga historicidade contribuíram para a formação das
concepções dos povos. E mais especificamente, mesmo uma pessoa que diz “eu
não tenho preconceito”, inconscientemente ela tem devido aos resquícios de uma
história de fatos preconceituosos. Sendo assim, pode-se lembrar de maneira célere
a época escravocrata, a perseguição do povo judeu ou os conflitos e guerras
gerados por motivos religiosos que perduram até hoje.

Toda esta argumentação sobre diferenças e grupos sociais, faz-se necessário


para abordar um fenômeno que vem sendo constantemente discutido: o bullying.
Fenômeno este que não é recente há muito tempo acontece só não tinha esta
denominação e nem estudos específicos, os quais datam a partir da década de
1970. Assim sendo, bullying é uma

palavra de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o


desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e
colocá-la sob tensão; termo que conceitua os comportamentos
agressivos e anti-sociais, utilizado pela literatura anglo-saxônica nos
estudos sobre o problema da violência escolar. (FANTE, 2005, p. 27)

E aindaa partir de algumas leituras, bem como, do senso comum que se tem
acerca do que se enquadra como bullying, este vem a ser mais especificamente
ações que venham a intimidar, fazer trote, ameaçar, colocar apelidos, zoar,
amedrontar, etc.

E é no espaço escolar que o bullying tem ocorrido com maior freqüência, o


que antes eram “brincadeiras de mau gosto”, hoje tem tomado um rumo mais
complexo.Comumente observamos na escola e não apenas nos horários de
intervalo situações constantes de casos de bullying, desde um grau mais leve, como
apelidos ou “zoação” até as mais graves, ocasionando agressões físicas. Percebe-
se ainda que a prática do bullying não ocorre apenas nas áreas externas à sala de
aula, pelo contrário, cada vez mais muitos alunos parecem não reconhecer mais os
limites.Assim,

Testemunhamos diariamente a multiplicação e o aumento da


intensidade dos comportamentos agressivos e transgressores na
população infantojuvenil. As instituições educacionais se veem
obrigadas a lidar com fenômeno como o bullying, que, embora
sempre tenha existido nas escolas de todos o mundo, hoje ganha
dimensões muito mais graves. O fenômeno expõe não somente a
intolerância às diferenças, como também dissemina os mais diversos
preconceitos e a covardia nas relações interpessoais dentro e fora
dos muros escolares. (SILVA, 2010, p. 64)

Neste âmbito, vamos nos ater a questão do bullying na Educação


Física.Indubitavelmente é na prática das aulas de Educação Física em que se pode
identificar efetivamente situações de bullying, uma vez que, nas demais áreas da
escola o aluno tende a disfarçar a ação, muitas vezes falando que “é brincadeira”. Já
nas aulas de Educação Físicaé perceptível situações de exclusão em determinadas
atividades, como na escala/escolha de alunos para jogos, isto evidencia a
discriminação sofrida por eles e por conseqüência estes alunos são apelidados,
vítimas de “risinhos” que acabam intimidando-os na execução de exercícios, dentre
outras situações.
Muitas vezes estes alunos sofrem de algum grau de obesidade ou são
extremamente esguios ou ainda não conseguem um desempenho eficaz como os
outros esperam, e como estes já trazem consigo fatores que dificultam a realização
da prática da atividade esportiva e ainda sofrem situações de bullying é que se
percebe como a Educação Física não deve ser vista como uma disciplina
complementar, pois como vemos envolve situações complexas em que o professor
tem que adotar procedimentos metodológicos adequados para colaborar com a
resolução ou pelo menos consciência por parte dos alunos sobre o que estão
fazendo, pois, para Oliveira e Votre “(...) As identidades de grupo são formas de
comportamento e manifestação próprias do mesmo, sem que necessariamente os
indivíduos se dêem conta do que está ocorrendo.” Destaca-se assim que muitas das
ações dos alunos ocorrem sem que eles tenham a sua real percepção.

Ainda sobre a importância da Educação Física, destaca-se que

foi ressaltada no "Manifesto Mundial da Educação Física"- FIEP/2000


(FédérationInternationale D’ÉducationPhysique), que no capítulo XVI,
tratou da "Educação Física e seu compromisso contra a
discriminação e a exclusão social", concluindo que: " A Educação
Física deve ser utilizada na luta contra a discriminação e a exclusão
social de qualquer tipo, democratizando as oportunidades de
participação das pessoas, com infra-estruturas e condições
favoráveis e acessíveis".(CHAVES)

É válido salientar que abordar o tema bullying com os alunos nas aulas de
Educação Física na intenção de reconhecer que existe esta prática nas aulas
econstruir com a turma a consciência de que isto não deve acontecer não é tarefa
fácil, mesmo diante desta dificuldade observa-se que o ambiente das aulas de
Educação Física é propício para trabalhar este tema,já que envolve as relações
entre os grupose mesmo que cada um seja diferente do outro agem para alcançar
objetivos comuns.Nesta constante,faz-se necessário relembrar o"princípio da
alteridade", pois é no contato com o outro, ou seja, com o diferente que, por
conseqüência construímos nossa identidade. E ter consciência deste princípio é
determinante não somente para as boas relações entre os alunos, mas também com
relação à prática do professor que também deve ter a ciência de que os alunos são
diferentes e devem ser compreendidos na sua totalidade.

Sobretudo, para que o professor de Educação Física possa elaborar uma


intervenção educacional voltada a conteúdos e valores que possam efetivamente
fazer com que os alunos reconheçam que é essencial para o exercício de sua
cidadania, excluindo a prática do bullying nas aulas deve ter a cooperação da
escola, neste contexto acrescenta-se que,

As escolas mais sensíveis e atentas às mudanças globais de nosso


tempo já estão procurando iniciar processos de inovação e de
reforma que poderão dar conta dos novos desafios. É necessário
modificar não somente a organização escolar, os conteúdos
programáticos, os métodos de ensino e estudo, os métodos de
ensino e estudo, mas, sobretudo, a mentalidade da educação formal.
(SILVA, 2010, p. 63)

Observa-se que a escola tem a função de se adequar às mudanças, ou seja,


aos novos fenômenos que surgem e que acabam interferindo no ambiente escolar.
Destaca-se principalmente a necessidade de “modificar a mentalidade da educação
formal”, pois esta é sempre pré-estabelecida, moldada por educadores que muitas
vezes estão distantes das realidades de cada local, de maneira que, deve ser
modificada de forma a atender, a se adequar com estratégias educacionais
específicas às possíveis situações de bullying. Deste modo, Silva (2010) informa
que,

Além de apresentar qualidade de ensino, a boa escola não é aquela


onde o bullying necessariamente não ocorra, mas sim aquela que,
quando ele existir, sabe enfrentá-lo com coragem e determinação. A
omissão é danosa para todos, pois dificulta e até impossibilita as
ações preventivas que poderiam coibir a proliferação do problema.

Diante disso, infere-se que a área do conhecimento Educação Física também


deve ter a responsabilidade de colaborar com a escola na intenção da formação
cidadã destes alunos, já que está tão próxima às situações que envolvem os casos
de bullying. Aqui a intenção não é discorrer acerca dos casos de bullying que se
presenciou, mas sim, deixar registrado que é um fenômeno que não acontece
somente nos grandes centros, como podemos ver a todo instante nos noticiários os
casos de maior repercussão, ou seja, é um fenômeno que acontece também, talvez
de forma mais camuflada nas escolas de cidades interioranas.E ainda não é
intenção somente de comentar este fenômeno, mas, sobretudo, de deixar claro que
nós profissionais, especificamente, da Educação Física, estamos cientes desta
situação real que vem acontecendo com uma freqüência cada vez maior nas
instituições escolares da nossa realidade.
Destarte, observa-se que há a necessidade de se realizar uma intervenção
educacional mais efetiva, organizando estratégias multidisciplinares de combate ao
bullying, numa ação conjunta envolvendo todas as áreas do conhecimento, assim
como familiares e profissionais da escola. Sobretudo, com a promoção de eventos
que abordem esta temática com a presença dos alunos, pois muitas vezes estes
praticam ações sem saber que é bullying e não tendo a consciência de que tais
investimentos contra os colegas podem acarretar prejuízos para toda a
vida.Evidente que não existe uma solução pronta e acabada, todavia o
comprometimento de todos ameniza situações que poderiam chegar ao extremo e
com certeza a educação é um meio eficaz para alcançar resultados no combate ao
bullying. Neste sentido, Fante (2005) contribui sugerindo

que os profissionais que trabalham como educadores sejam


preparados para lidar com suas emoções e educar as emoções dos
alunos, dando lugar, em suas aulas, para a expressão de afeto –
com isso, aprenderão a lidar com seus próprios conflitos e com os
mais diversos tipos de violência, especialmente o bullying.
REFERÊNCIAS

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. 2. ed. rev. e atual. São
Paulo: Moderna, 1996;

Betti, Mauro. Educação Física, Esporte e Cidadania. Revista Brasileira de Ciências


do Esporte. Florianópolis, v.20, n.2, p. 84-92, abr-set, 1999;

CHAVES, WalmerMonteiro.FenômenoBullying e a Educação Física Escolar.


Disponível em:<file:///E:/fenomeno-bullying-e-educacao-fisica-escolar.htm>Acesso
em: 15 de maio de 2012;

FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e


educar para a paz. 2. ed.ampl. Campinas, SP: Verus Editora, 2005;

Movimento, Porto Alegre, v 12. N. 02, p. 173-197, maio/agosto de 2006;

SILVA, Ana Beatriz B. Bullying: mentes perigosas nas escolas. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2010.