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IV Congr. Bras. Gestão e Desenv.

de Produtos - Gramado, RS, Brasil, 6 a 8 de out de 2003

Processo de desenvolvimento de produtos na indústria de biscoitos:


Estudos de casos em fabricantes de médio porte

Antonio Roberto Giriboni Monteiro (UNOPAR / UFSCar) antonio.monteiro@unopar.br


Manoel Fernando Martins (UFSCar) manoel@power.ufscar.br

Resumo
Durante a década de 90, a cadeia agroindustrial do trigo passou por profundas
transformações devido à desregulamentação do setor, abertura de mercado e início do plano
real. Tais transformações apresentaram grandes reflexos no importante segmento de
produção de biscoitos, fazendo com que novos produtos sejam constantemente lançados. Com
o objetivo de caracterizar o processo de desenvolvimento de produtos neste setor, foram
realizados estudos de caso em duas empresas, fabricantes de biscoitos de médio porte. O
principal resultado obtido foi à caracterização destas empresas como enfocadas em custo
total de acordo com a classificação de Porter (1986), atendendo principalmente um mercado
de classes sociais mais baixas, onde a diferenciação e a qualidade apresentam uma
importância muito menor que o custo. Conclui-se que estas empresas buscam a diferenciação
de seus produtos para agregar maior valor a suas atividades e a expansão de mercado,
porém, investimentos em desenvolvimento são cautelosos, para evitar aumento de preço dos
produtos ao consumidor.
Palavras-chave: Processo de desenvolvimento de produtos, Indústria de biscoitos,
Agroindústria.

1. Introdução
Na primeira metade da década de 90, o setor moageiro e dos produtos derivados da farinha de
trigo no Brasil passaram por grandes transformações. Nunca, na história do setor,
transformações tão importantes ocorreram em espaço de tempo extremamente curto
(JACOBSEN 2001a).
Em 1990, o país abria o mercado para produtos importados, com taxa de importação muito
abaixo das quais o mercado nacional praticava até então. Produtos de diversas nacionalidades
invadiram o país. No setor de biscoitos, os produtos vinham principalmente da Argentina,
uma vez que este país tinha tradição na produção dos mesmos.
De acordo com Jacobsen (2001b), mesmo antes de a indústria ter algum tipo de reação à
entrada dos produtos importados, ainda em 1990, o governo desregulamentou o mercado
nacional do trigo. Até aquele momento este grão só podia ser comercializado por intermédio
do Banco do Brasil, o qual controlava desta forma, o preço do produto retardando o processo
de melhoria de qualidade dos grãos. Tanto que, durante o monopólio, o Brasil produzia 75%
do trigo consumido, poucos anos após a queda do monopólio o país produzia apenas 25% do
total que consumia. Isto devido, principalmente, a várias décadas de um mercado fechado,
controlado por uma empresa estatal, que priorizava o volume de produção nacional e deixava
de lado a produtividade agrícola e a qualidade do produto. Segundo o IBGE (2002),
atualmente, a produção nacional está próxima a um terço do consumo.
Com estas mudanças, as empresas aqui instaladas puderam conhecer melhor a principal
matéria-prima da fabricação dos biscoitos, e, aos poucos, exigir dos moinhos produtos
adequados aos seus processos de fabricação.

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Segundo Monteiro (1996), a indústria encontrava-se em um mercado em que a concorrência


internacional aumentava com a abertura de mercado, por outro lado, abria-se a possibilidade
de melhorar sua performance, com a compra de farinha de trigo que melhor se adaptava a seu
processo, a preço regido pelo mercado. Em 1994, o plano Real é colocado em prática, e há um
aumento significativo da parcela da população Brasileira com poder de compra para o
mercado de biscoitos.
Neste novo cenário, empresas nacionais e multinacionais aqui instaladas investiram algumas
centenas de milhões de dólares na modernização e ampliação de seus parques industriais.
Empresas que ainda não produziam no país também passaram a adquirir fábricas para
participar deste mercado que, nos primeiros três anos do plano Real, teve um crescimento
total próximo a 50% em volume de produção, e muitas indústrias só não vendiam quantidades
maiores por falta de capacidade de produção instalada.
Segundo dados da SIMABESP (2002), após os primeiros anos do plano Real, o aquecimento
da economia foi diminuindo, frustrando algumas previsões de crescimento de mercado.
Porém, os investimentos em ampliação de capacidade produtiva já estavam sendo concluídos,
e as empresas teriam, neste novo contexto, que trabalhar em um mercado muito competitivo.
De acordo com a ABIMA (2002), a principal conseqüência desta expansão dos parques
instalados, somado aos acontecimentos do início da década de 90, foi um grande avanço de
qualidade nos biscoitos fabricados no Brasil. Fechando, desta forma, o mercado aos produtos
importados. Fechamento ocorrido pela produtividade industrial e não mais por legislações
protecionistas, ou seja, atualmente o Brasil tem o mercado de biscoitos totalmente aberto,
porém, o volume de importações é bastante inexpressível, não chegando sequer a 1% do
consumo nacional.
Ainda segundo a ABIMA (2002), a segunda conseqüência, bastante perceptível pelo
consumidor neste mercado, foi à necessidade de as empresas lançarem novos produtos, uma
vez que, com suas capacidades instaladas ociosas, começaram a buscar alternativas para
conquistar o mercado. O consumidor pôde perceber esta alteração ao comparar as gôndolas
dos supermercados nos setores de biscoitos, que atualmente, conta com diversas marcas,
tipos, formatos e tamanhos de embalagens, e, há menos de dez anos, tinha-se poucas
variedades, tais como laminados (Maria e Maisena), Crakers e poucos sabores de recheados.
Em função destas situações, segundo SIMABESP (2002), os preços do produto ao
consumidor vêm sofrendo uma redução ao longo dos últimos cinco anos, quando avaliado em
dólar. As matérias-primas gordura e farinha de trigo, representam mais de 80% do valor dos
ingredientes e têm suas cotações fixadas no mercado internacional em dólar, portanto elas não
tiveram redução neste período, isto indica que as empresas trabalharam com margens
apertadas e com maior produtividade.
Diante deste quadro, as empresas aqui instaladas buscaram no processo de desenvolvimento
de novos produtos uma estratégia, de longo prazo, para se manterem competitivas neste
mercado. Entretanto, os modelos para desenvolvimento de produto que algumas das maiores
organizações adotaram são, segundo Mizuta (2000), adaptações às condições brasileiras.
Por outro lado, de acordo com Carvalho & Romano (1999), as empresas fabricantes de
biscoito de médio e pequeno porte, caracterizadas por serem de estrutura familiar e com
reduzida estrutura administrativa, respondem por 50% do volume produzido de biscoitos no
Brasil. Entretanto, pouco se sabe sobre o processo de desenvolvimento de produto – PDP -
destas empresas.

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Portanto, a caracterização do PDP das empresas de médio porte poderá servir para um melhor
entendimento do setor e também para compreender o desenvolvimento de produto de um setor
onde se tem pouco estudo a respeito do assunto.
O objetivo deste trabalho é apresentar dois casos estudados sobre o processo de
desenvolvimento de produtos (PDP) dos fabricantes de biscoitos de médio porte,
comparando-os com um modelo de desenvolvimento de produto proposto pela literatura.
A estrutura do trabalho foi estabelecida para, em um primeiro momento, caracterizar a
indústria de biscoito no Brasil. Em seguida um modelo de gestão de desenvolvimento de
produto para indústria de alimentos é apresentado. Posteriormente, são apresentados a
metodologia utilizada para o desenvolvimento do trabalho e os resultados dos casos
estudados. Finalmente são tecidas as conclusões do trabalho.
2. Caracterização da indústria de biscoitos
O biscoito é um produto composto principalmente por farinha de trigo, gordura e açúcar, com
teor de umidade bastante baixo o que lhe proporciona uma longa vida de prateleira, se
acondicionado em embalagem com eficiente proteção à entrada de umidade (MONTEIRO,
1996). A tabela 1 mostra o comportamento do mercado nacional de biscoitos no final da
década de 90.

1995 1996 1997 1998 1999 2000


Produção e Vendas (mil tonelada) 850 952 1.003 1.068 1.089 1.012
Consumo per capta (kg/ano) 5,5 6,0 6,3 6,7 6,6 6,1
Preço médio ao mercado (R$/kg) 2,15 2,25 2,35 2,57 2,59 2,78
Faturamento Brasil (milhões R$) 1.827 2.142 2.357 2.744 2.800 2.837
Fonte: SIMABESP 2002
TABELA 1 - Perfil do Setor de Biscoitos.

De acordo com a SIMABESP (2002), o Brasil conta atualmente com 876 fábricas de
biscoitos, mais de 200 estão instaladas no Estado de São Paulo. A concentração no setor de
biscoitos está cada vez mais acentuada. Três grandes marcas detêm mais de 25% da produção
nacional em um mercado que consome mais de um milhão de toneladas por ano do produto.
A suíça Nestlé, com as marcas São Luís, Tostines e Ailiran, é a líder no setor, com quase 13%
da produção nacional, seguida pela francesa Danone, com as marcas Aymoré, Danone e
Triunfo que representam pouco mais de 12% da produção.
Seguindo as grandes Multinacionais, quatro empresas nacionais detêm uma produção
equivalente: M. Dias Branco, Marilan, Mabel e Bauducco. Segundo a revista Food
Ingredients (2002), o grupo argentino Macri, que recentemente adquiriu as marcas Zabet,
Isabela e Adria, pretende consolidar-se a partir de 2002 entre os cinco principais fabricantes
do país.
Segundo a SIMABESP (2002), atualmente, o Brasil é o maior produtor mundial de biscoitos,
com mais de um milhão de toneladas ao ano, que representa mais de um bilhão de dólares. Os
valores de importação e exportação do produto são pouco significantes, portanto, a produção e
consumo nacional se equilibram.
Apesar desse grande consumo, existe um potencial de aumento de produção. Ao se comparar
o consumo brasileiro per capita com outros países como Holanda, Inglaterra, Irlanda, Bélgica

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e Suíça, percebe-se que estes consomem mais de 10 kg do produto por habitante por ano,
enquanto, este número chega a quase seis no Brasil, tendo sido pouco superior a
6kg/habitante/ano no final da década de 90.
Segundo El-Dash, Camargo & Diaz (1980), existem basicamente seis categorias para os
produtos desta indústria, esta divisão dá-se em função de diferentes processos de fabricação,
inerentes a cada produto. Não é possível produzir outro tipo de biscoitos numa mesma linha
de produção, sem que esta passe por modificações, em alguns casos é até mesmo impossível.
Para estes autores, os biscoitos são divididos em recheados, semidoces (Maria / Maizena),
doces (moldados / estampados), crakers (cream craker / água e sal), wafers (alguns autores
não consideram wafers como biscoitos) e outros (snaks e extrusados). Atualmente, está é a
divisão mais empregada para caracterização de fabricantes de biscoitos.

Produtos % mercado % valor


Recheados 31,6 32,4
Maria / Maizena 10,4 8,5
Secos e doces 15,7 14,3
Crakers 22,5 18,0
Wafer 7,0 11,2
Outros 12,9 15,6
Fonte: ACNielsen 2002
TABELA 2 - Segmentação por classe de Biscoitos em 2000.

De acordo com a SIMABESP (2002) e ACNielsen (2002), os dois grupos que vêm
aumentando sua participação no mercado nos últimos anos são recheados e wafers, produtos
de valor agregado maior que a média dos demais, como é possível verificar na tabela 2, a
porcentagem de valor (R$) destes setores é maior que a porcentagem em volume de vendas
(kg).
3. Processo de desenvolvimento de produtos
As empresas estão constantemente desenvolvendo novos produtos para manter sua
competitividade, uma vez que, os produtos apresentam ciclos de vida. Estes podem ser
extremamente curtos ou durarem muitos anos, no entanto, a tendência é em um dado
momento do produto, as vendas entrarem em declive até não ser mais viável economicamente
sua produção.
Para a permanência da empresa no mercado, quando um produto entra em declínio, é
necessário existir produtos em outras etapas do ciclo de vida, inclusive produtos sendo
desenvolvidos, para o processo manter-se ao logo do tempo.
Para as empresas da indústria de biscoito, investir no processo de desenvolvimento de
produtos, ganhou importância para a sobrevivência no mercado Por um lado, este apresenta
melhores condições tecnológicas para a produção, com possibilidade de especificações de
matérias-primas, aquisições de equipamentos importados de produção com taxas
alfandegárias menores e grande avanço no setor de produção de embalagens, permitindo a
flexibilização de produção a custo baixo.

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Por outro lado, com o mercado competitivo, os consumidores estão mais acostumados com
novos produtos, em todos os setores da economia, e não aceitam consumir tanto tempo o
mesmo produto, encurtando muito o ciclo de vida dos produtos desta indústria.
De acordo com a ABIMA (2002) as empresas fabricantes de massas e biscoitos podem ser
divididas em grupos, com os quais se pode criar uma relação entre as estratégias competitivas
de Porter (1986) e os ciclos de vida dos produtos:
– Empresas inovadoras: lançam produtos constantemente para atender clientes específicos
cada vez mais. Podem ser relacionadas à estratégia de enfoque, e seus produtos têm ciclos
de vida curtos.
– Empresas tradicionais: os lançamentos de produtos ocorrem, porém, com uma
freqüência menor. Apresentam características semelhantes às descritas na estratégia de
diferenciação, e o ciclo de vida do produto é maior.
– Empresas de produção de baixo custo: as características são as mesmas das empresas
que utilizam a estratégia de liderança no custo total. Neste caso, o ciclo de vida dos
produtos tende a ser longo.

Dentre as diversas metodologias que podem ser utilizadas como referência para gerenciar o
processo de desenvolvimento de produtos, entre elas pode-se destacar os modelos de Fuller,
Pugh (1996) e Wheelwrigth & Clark (1992). A de Fuller será utilizada como referência neste
trabalho por atender ao setor alimentício.
Fuller (1994) estabelece seis etapas para o desenvolvimento de produtos alimentícios:
concepção de idéias, conceituação, desenvolvimento, produção, avaliação por consumidores e
teste de mercado. Esta metodologia é bastante difundida na indústria de alimentos pela
especificidade de sua elaboração para este setor.
– Concepção de idéias. Nesta etapa trabalha-se com idéias surgidas das mais diversas
fontes, desde opiniões e sugestões obtidas nos serviços de atendimento ao consumidor ou
diretamente nos pontos de venda e, até mesmo, opiniões pessoais de gerentes e
proprietários da empresa. Porém, as necessidades do consumidor sempre deverão ser
conciliadas com os objetivos e estratégias da empresa.
– Conceituação. As idéias que se mostrarem interessantes passam por um processo de
conceituação, no qual boa parte dos processos de desenvolvimento de novos produtos são
finalizados, devido a alguma inviabilidade do projeto, seja ela mercadológica ou
técnica.São realizadas, nesta etapa, pesquisas de mercado, estudos de viabilidade
financeira e de manufatura do produto.
– Desenvolvimento. A fase de desenvolvimento requer a maior quantidade de recursos e
tempo, em todo processo, pois nela projeta-se o processo e criam-se as especificações do
produto. Uma fase de desenvolvimento mal conduzida pode gerar custos acima do
previsto nas fases subseqüentes, e, até mesmo, o fracasso do produto antes ou após o
lançamento. Segundo Maffin & Braiden (2001), mais da metade dos processos de
desenvolvimento implicam mudanças nos processos de fabricação, ou aquisição de novos
equipamentos ou tecnologias, e mais de 80% dos casos envolvem o desenvolvimento de
novos fornecedores ou ampliação do mix de produtos fornecidos pelos atuais.
– Produção. Inicia-se a produção em escala piloto, porém, com as mesmas especificações
de uma futura produção industrial, para não ocorrer alterações organolépticas no produto
planejado. Nesta etapa, podem surgir necessidades de adaptação do processo produtivo,

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devido a falhas no projeto ou no desenvolvimento. Quanto menor a atenção nas fases


anteriores, maiores serão os gastos com tais mudanças.
– Avaliação por consumidores. Na indústria de alimentos, o teste com consumidores é
feito através de avaliações sensoriais, com uma amostragem estatística de pessoas que
potencialmente podem vir a consumir o produto.
– Teste de mercado. Finalmente, é realizado um teste de mercado. Normalmente, utiliza-se
uma cidade ou região como referência e, em caso de sucesso, o produto passa a ter a
distribuição planejada inicialmente para ele. Caso contrário, volta-se às etapas anteriores
do processo para corrigir eventuais erros e, em casos mais extremos, o produto fracassa.

Geralmente, entre cada fase do processo de desenvolvimento de produtos existe um momento


de avaliação e decisão sobre a continuidade do projeto. Isto pode ocorrer de forma mais ou
menos informal, no entanto, Cooper (1990) estabelece etapas bem formalizadas, chamando-as
de Stage-gates®. Ou seja, paradas formais, para a decisão sobre a continuação ou não do
projeto, são fatores decisivos para o sucesso do processo de desenvolvimento.
4. Metodologia de pesquisa
De acordo com a SIMABESP (2002) o Brasil em 2002 tinha quase 900 fábricas de biscoitos,
aproximadamente 250 moinhos de trigo, diversas fabricas de insumos para a indústria de
biscoito, e algumas empresas prestadoras de serviços tecnológicos para este setor.
As fábricas de biscoitos apresentam-se nos mais diversos portes e avanço tecnológico, tendo
desde empresas com apenas 8 funcionários, fornecedora de biscoitos para uma grande rede de
fast food, até indústrias com quase de 2000 funcionários apenas no setor produtivo, com
distribuição dos produtos em todo o país. A diversidade de acesso à tecnologia destas
empresas também é bastante grande, tendo no país fábricas instaladas, totalmente controladas
por PLC (Controladores Lógicos Programáveis), onde poucos operadores conseguem obter
um grande volume de produção, até empresas onde a fonte de energia para os fornos ainda é a
lenha, e toda a operação ocorre de forma bastante manual.
Diante a este cenário escolheram-se os estudos de caso como melhor forma de caracterizar o
segmento dos médios fabricantes de biscoitos.
Os resultados foram obtidos através de entrevistas, realizadas com funcionários envolvidos
diretamente como o processo de desenvolvimento de produto, das organizações estudadas.
O roteiro composto por 25 perguntas abertas, visou responder questões relativas a:
caracterização da empresa; caracterização do processo do desenvolvimento de produtos
dentro da empresa; envolvimento de fornecedores no PDP e comportamento e tendências do
setor sob o ponto de vista da empresa.
5. Resultados e análises
Estudo de caso 1 - Empresa A
Foi possível observar como principais características da empresa A e seu processo de
desenvolvimento de produtos:
– Empresa de médio porte, fabricante de biscoitos.
– 250 funcionários produzindo 700 toneladas de biscoitos por mês (capac. 1000 ton).
– Distribuição em todo país, principalmente Norte.
– Não existe um PDP formalizado na empresa.

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– O crivo decisório do PDP está focado no proprietário.


– É possível identificar 5 etapas no PDP.
– A empresa considera o PDP importante, desde que não consuma muitos recursos,
diminuindo a competitividade de seus produtos.
– O PDP é bastante limitado devido à falta de acesso as novas tecnologias de fabricação.
Algumas atividades de desenvolvimento em parceria com fornecedor de aroma vem sendo
realizadas.

Estudo de caso 2 - Empresa B


Foi possível observar como principais características da empresa B e seu processo de
desenvolvimento de produtos:
– Empresa de médio porte, fabricante de biscoitos, macarrão, doces.
– 400 funcionários produzindo 1500 toneladas de biscoitos por mês (cap. 2000 ton).
– Distribuição em todo país, principalmente Norte e Centro-oeste.
– Crivo decisório do PDP está focado nos proprietários.
– Não existe um PDP formalizado na empresa.
– Um novo modelo de PDP, formal, será implantado em 2003.
– É possível identificar 6 etapas no PDP proposto.
– Pretende-se dobrar o portfólio de produtos em 2003.
– Processos de desenvolvimento em parceria poderão ocorrer.

A tabela 3 resume as características das empresas e entrevistados e suas ligações com o


processo ou departamento de desenvolvimento de produtos.

Características Empresa A Empresa B


porte médio médio
origem do capital nacional nacional
entrevistado gerente industrial gerente fabricação
volume produção 700 ton/mês 1500 ton/mês
mercados atendidos nordeste / norte centro-oeste / norte
número de funcionários 250 400
responsável pelo D. P. Gerente industrial Gerente fabricação
existência de depto. D. P. não não

TABELA 3 – Caracterização das empresas fabricantes de biscoito

Em relação ao processo de desenvolvimento de produtos nas empresas pesquisadas, os


fabricantes de biscoitos de médio porte acreditam na importância do desenvolvimento de
produtos para a expansão dos negócios da empresa, porém, não contam com metodologias
formalizadas para tal processo, e nem com departamentos de desenvolvimento. Porém, foi

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possível observar a existência de um líder, responsável pela condução do processo, entretanto,


dependendo constantemente da decisão dos proprietários sobre a continuidade ou não do
projeto.
Outro fator possível de observar nas empresas é que os funcionários do setor passam cada vez
mais por treinamentos. Os convênios com instituições de ensino e pesquisa vêm tornando-se
mais freqüentes e as empresas procuram aprimorar seus sistemas internos da qualidade,
principalmente em função de fiscalizações sanitárias.
Outro fato observado nas empresas entrevistadas, é a idéia de desenvolvimento de novos
produtos, na maioria das vezes, a partir da concorrência. Através da análise das características
e das vendas dos produtos, principalmente, dos grandes fabricantes, tenta-se reproduzir algo
semelhante. Outra fonte importante de informações para a criação de novos produtos são os
vendedores e distribuidores pois trazem sugestões de produtos consumidos por determinadas
regiões.

TABELA 4 – Fases do PDP nas empresas comparadas ao modelo de Fuller (1994)


De uma forma geral, as empresas trabalham com o processo de desenvolvimento de produtos
dividido em três ou quatro fases.
A tabela 4 mostra as diversas fases do desenvolvimento de produtos nas empresas
pesquisadas. Estas fases foram descritas a partir das informações obtidas nas entrevistas, não
existindo de forma documental nestas organizações. Estas etapas são comparadas ao modelo
proposto por Fuller (1994)
6. Conclusões
É possível observar, nas empresas fabricantes de biscoitos de médio porte estudadas, que o
modelo de desenvolvimento proposto por Fuller (1994) ou os demais identificados na
literatura, não são seguidos no PDP, porém, nota-se algum tipo de seqüência, mesmo não
formalizada, neste processo.
Outra deficiência bastante comum nas empresas estudadas, de médio porte, é uma certa
indefinição das responsabilidades e poderes do líder de desenvolvimento de produtos. Por este
motivo as atividades costumam consumir tempos maiores que os necessários, ou, em alguns
casos, etapas importantes como avaliação da capacidade de produção e fornecimento não são
adequadamente realizadas, podendo desta forma se chegar a bons produtos, mas com
produção inviável.

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Para estas empresas o desenvolvimento de produtos não tem a mesma importância na


estratégia de negócios como ocorre com as de grande porte, uma vez que trabalham mais
próximas à liderança no custo total, com produtos denominados commodities (crakers, Maria,
Maisena e rosquinhas), cujo fator mais importante é a oferta de preço baixo a uma qualidade
razoável. Os mercados Norte e Nordeste são grandes consumidores destes produtos, além de
existir uma demanda significativa para atender programas governamentais, como merenda
escolar.
As empresas fabricantes de biscoitos de médio porte têm como objetivo, em longo prazo,
melhorar o processo de desenvolvimento de produtos, por visualizarem isto como alternativa
para mudar o tipo de mercado e, conseqüentemente, agregar maior valor ao produto.
Um forte fator limitante às empresas de médio porte, no desenvolvimento de uma maior
quantidade de produtos, está relacionado ao acesso as tecnologias de processo. Estes
fabricantes, normalmente, adquirem equipamentos usados dos grandes fabricantes, desta
forma, trabalham com as tecnologias disponíveis neste mercado, dificultando o
desenvolvimento de produtos inovadores.
O método utilizado, nas empresas consultadas, de avaliação sensorial, pode ser um dos fatores
de limitação do desenvolvimento de produtos, pois é utilizado de forma parcial, normalmente,
sem grande atenção para a representatividade da amostragem e com avaliações estatísticas
pouco precisas. Ou seja, é feita uma degustação por algumas pessoas e, se a maioria aprovar,
o produto é considerado adequado. No entanto, muitas vezes, neste processo, além de não
existir significância estatística, os pesos das opiniões são diferentes, em função do nível
hierárquico ocupado pelos avaliadores dentro da empresa.
Uma avaliação sensorial feita em condições inadequadas pode apresentar resultados falsos,
por estarem aparentemente baseados em metodologias reconhecidas, inclusive
estatisticamente, a empresa pode fazer investimentos em projetos pouco viáveis.
As parcerias entre fabricantes de médio porte, fornecedores e prestadores de serviços podem
ser consideradas como potenciais, ou seja, existe disposição de fornecedores e prestadores de
serviços em trabalhar com estas parcerias, mas os fabricantes ainda utilizam pouco esta
vantagem oferecida, e provavelmente, este é o grande diferencial que os grandes fabricantes
possuem.
Em relação ao tempo médio de desenvolvimento de produtos, a grande maioria dos projetos
desenvolvidos pelos fabricantes de biscoitos estudados, ocorre em poucos meses, desde a
concepção da idéia até o lançamento do produto final, fato este bastante compreensível tendo
em vista que boa parte dos lançamentos consiste em extensões de linha.
A expansão de mercado depende basicamente do aumento de renda da população e
exportação. No primeiro caso o empresário tem menos controle, no entanto, em relação às
exportações, a infra-estrutura existente nestas empresas, se somado aos serviços e suprimentos
disponíveis, tornam bastante viável a expansão deste setor.
Diante do quadro apresentado, as empresas de médio porte do setor de produção de biscoitos,
estudadas, visualizam a importância do processo de desenvolvimento de produtos, porém,
devido aos vários anos que este mercado foi fechado à concorrência internacional, ao difícil
acesso às tecnologias e à estratégia focada no custo total, este processo deverá ser gradual, a
medida que estes fabricantes busquem agregar maior valor aos produtos tentando sair pelo
menos com parte de suas linhas de produtos dos denominados commodities do setor.
De uma forma geral conclui-se que este setor vem amadurecendo bastante, entretanto, há
muito ainda a ser feito. As empresas fornecedoras e prestadoras de serviços, com pessoal

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bastante qualificado, deverão ser as que profissionalizarão este importante segmento da


economia nacional, agregando maior valor aos produtos dos médios fabricantes.
7. Referências bibliográficas
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4 CBGDP LOPP/PPGEP/UFRGS 10