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Nº 12 – JUN. 2006 VOL.

4 ISSN 1645-5576

Estruturas e Construção
Estructuras y Construcción
Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 ISSN 1645-5576

<dp2 /2 <dp3 /2

2 3 4
dp2 60° 1 60° dp3 = dp4
dp1

>dp1 /2 >dp4 /2

Cordão a considerar no cálculo da força de desvio vertical


Cordão a não considerar no cálculo da força de desvio vertical

Pág. 8 Pág. 18 Pág. 26

EDITORIAL
Valter Lúcio
Portugal Pág. 3

RESISTÊNCIA AO PUNÇOAMENTO DE LAJES FUNGIFORMES


PRÉ-ESFORÇADAS - MÉTODO ALTERNATIVO DE CÁLCULO -
António Pinho Ramos, Valter Lúcio
Director: Portugal Pág. 4
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RESISTÊNCIA AO PUNÇOAMENTO
DE LAJES FUNGIFORMES
PRÉ-ESFORÇADAS
- MÉTODO ALTERNATIVO DE
CÁLCULO -

ANTÓNIO PINHO RAMOS VALTER LÚCIO


Professor Auxiliar Professor Associado
DEC/FCT/UNL DEC/FCT/UNL
Portugal Portugal

SUMÁRIO

Neste trabalho é exposto o método proposto pelos autores para determinação do esforço resistente ao
punçoamento em lajes fungiformes pré-esforçadas, sendo igualmente apresentadas algumas recomendações
de projecto aplicáveis ao dimensionamento deste tipo de estruturas.O método proposto foi aplicado a
modelos ensaiados experimentalmente por diversos autores, elaborados com a finalidade de estudar o
fenómeno de resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas. Os valores resistentes
previstos foram comparados com os valores obtidos experimentalmente, utilizando não só o método
proposto, mas também o Eurocódigo 2 [1] (EC2) e o CEB-FIP Model Code de 1990 [2] (MC90),
complementado pelas recomendações da FIP para o dimensionamento de lajes fungiformes
pré-esforçadas [3].

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Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

1. INTRODUÇÃO

Num mercado cada vez mais concorrencial, o engenheiro defronta-se quotidianamente com
novos desafios, tanto tecnológicos como técnicos. Imperativos de ordem estética e económica
levam à concepção e cálculo de estruturas cada vez mais arrojadas.

A utilização de estruturas em laje fungiforme tornou-se corrente nos últimos anos. Este facto
deve-se fundamentalmente à simplicidade, economia e rapidez de execução, assim como à
flexibilidade de utilização dos espaços construídos.

A solução de lajes fungiformes com utilização de pré-esforço é menos frequente, mas permite
alcançar uma série de vantagens em relação a soluções não pré-esforçadas. Relativamente a
estas, torna possível vencer maiores vãos ou adoptar soluções mais esbeltas para vãos da mesma
ordem de grandeza. Por outro lado, permite uma maior eficiência no controlo da deformação e
da fendilhação para as condições de serviço. Ainda pelo facto de serem possíveis soluções mais
esbeltas, necessariamente com menor peso, os efeitos das acções sísmicas são minorados, o que
pode ser um factor importante em zonas de elevada sismicidade.

Apesar do seu aspecto simples, uma laje fungiforme tem um complexo sistema de
comportamento resistente aos esforços de flexão e de corte, especialmente na zona de ligação
laje-pilar. A resistência ao punçoamento é um factor importante no dimensionamento deste tipo
de estruturas, sendo frequentemente o factor condicionante para a escolha da espessura da laje,
ou pelo menos da espessura na zona do capitel, se for esta a solução adoptada.

O punçoamento é uma rotura que ocorre numa zona de descontinuidade (ligação laje-pilar), onde
se verificam elevadas tensões originadas pelos esforços de flexão e de corte. Trata-se de uma das
descontinuidades estáticas mais críticas em estruturas de betão armado, onde se desenvolve um
estado tridimensional de tensões extraordinariamente complexo.

A rotura por punçoamento é pois um fenómeno complicado onde intervêm numerosos


parâmetros, cuja consideração nos métodos de cálculo na sua globalidade não é facilmente
exequível. Além disso, o punçoamento está associado a um modo de rotura frágil e sem
possibilidade de redistribuição de esforços. A ocorrência de uma rotura local por punçoamento
numa laje fungiforme, pode induzir novas roturas em pilares adjacentes, podendo conduzir ao
colapso total dessa mesma laje, ou ainda, a um colapso progressivo de toda a estrutura. Assim
sendo, para se assegurar simultaneamente segurança e economia, é necessário um método fiável
e rigoroso para a quantificação da resistência ao punçoamento.

O problema do punçoamento tem sido tratado analiticamente por vários autores, usando os mais
variados modelos de comportamento e critérios de rotura. No entanto, nenhum destes modelos
analíticos propostos teve larga aceitação. A prova disto é que a grande maioria dos
regulamentos, ou recomendações internacionais, utilizam expressões empíricas para cálculo da
resistência ao punçoamento em lajes fungiformes, baseadas essencialmente em resultados de
ensaios experimentais.

Neste trabalho é proposto um método alternativo para determinação do esforço resistente ao


punçoamento. O método proposto tem a particularidade de separar o efeito da compressão no
plano da laje, do efeito da componente vertical da força de desvio sobre o pilar, provocada pela
mudança de direcção dos cabos de pré-esforço. Os valores resistentes previstos aplicando este
método são comparados com os resultados de modelos experimentais executados por vários
autores, de forma a avaliar o sua fiabilidade.

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Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

2. MÉTODO PROPOSTO PARA CÁLCULO DO VALOR MÉDIO DO ESFORÇO


RESISTENTE AO PUNÇOAMENTO

Os autores propõem que o valor médio do esforço resistente ao punçoamento em lajes


fungiformes pré-esforçadas (VRm) seja obtido através da Expressão (1), segundo a filosofia do
CEB-FIP Model Code de 1990 [2]. Nesse documento o perímetro de referência (u) é definido
por uma linha fechada envolvendo a área carregada, a uma distância desta de 2d, e cujo
perímetro é mínimo.

c1
u
u
u

by
by c2 b c

2d 2d 2d

bx bx b
Figura 1 – Perímetro de referência considerado no método proposto

V Rm = 0.18 ξ ( 100 ρ f cm )1/ 3 u d (1)

Nesta expressão o valor da tensão média da rotura à compressão do betão em provetes


cilíndricos (fcm) deverá ser considerado em MPa, e:

200
ξ =1+ (d em mm)
d (2)

A altura útil é determinada através da média das alturas úteis da armadura aderente nas duas
direcções ortogonais:

dx + dy
d=
2 (3)

Para pré-esforço não aderente, os autores propõem que a percentagem geométrica de armadura
longitudinal (ρ) a utilizar na Expressão (1), seja obtida tendo em conta não só a armadura
ordinária de flexão (ρs), mas também os efeitos da compressão provocada pelo pré-esforço
(ρcomp) e da excentricidade deste (ρexc), através da seguinte expressão, uma vez que, tal como a
armadura ordinária, também os efeitos do pré-esforço contribuem para o controlo da resistência
conferida pelos inertes na fenda de punçoamento e para a definição da posição da linha neutra,
isto é, da quantidade de betão comprimido existente junto à face inferior da laje junto ao pilar:

ρ = ρ s + ρ comp + ρ exc
(4)

A parcela da percentagem geométrica de armadura longitudinal relativa à armadura ordinária de


flexão poderá ser calculada por:

As
ρs =
bd
(5)

Em que, As é a área de armadura ordinária aderente, d a altura útil determinada através da


Expressão (3) e b uma largura igual à dimensão do pilar ou área carregada adicionada de 2d para
cada lado (ou da distância ao bordo da laje, se esta for inferior).

A contribuição da compressão no plano da laje originada pelo pré-esforço, na percentagem

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Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

geométrica de armadura longitudinal, poderá ser determinada através de:

h
σ cp z − d + 2 h
ρ comp =
σs z d
(6)

Nesta expressão σcp é a tensão média de compressão no betão devida ao pré-esforço, σs a tensão
de tracção nas armaduras longitudinais correspondente à carga de rotura ao punçoamento, h a
altura da laje e z o braço do binário. Considerando agora, como simplificações, que σs é
aproximadamente igual ao valor da tensão de cedência da armadura ordinária (fsy) e que para
uma laje fungiforme típica:

h
z−d +
2 h ≈1
z d 2 (7)

vem que:

1 σ cp
ρ comp ≈
2 f sy
(8)

A participação da excentricidade do pré-esforço no cálculo da percentagem geométrica de


armadura longitudinal poderá ser tida em conta através da seguinte expressão:

h
σ p Asp d p − 2
ρ exc =
σs b d z
(9)

Em que, σp é a tensão de tracção na armadura de pré-esforço, Asp a área de armadura de


pré-esforço existente na largura b e dp a altura útil da armadura de pré-esforço. Considerando que
o braço do binário (z) em lajes fungiformes correntes é da ordem de grandeza de 3/4h, vem que:

σ p Asp 2d p − h
ρ exc ≈
f sy b d 1.5h
(10)

Na hipótese da percentagem geométrica de armadura longitudinal ser diferente nas duas


direcções ortogonais, a percentagem geométrica de armadura a utilizar na Expressão (1) pode ser
calculada por:

ρ x b y + ρ y bx
ρ=
bx + b y
(11)

Em que bx e by são as dimensões do contorno de referência nas direcções x e y, respectivamente.

No caso do pré-esforço ser aderente, deverá ainda ser considerado no cálculo da percentagem
geométrica de armadura longitudinal, a percentagem geométrica de armadura de pré-esforço
(ρp):

ρ = ρ s + ρ comp + ρ exc + ρ p
(12)
em que:

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Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

Asp
ρp =
bd
(13)

Nesta situação, as alturas úteis em cada direcção ortogonal serão calculadas através expressão
que se apresenta em seguida, sendo a altura útil resultante determinada através da utilização da
Expressão (3).

As d s + Asp d p
d=
As + Asp
(14)

A componente vertical da força de desvio do pré-esforço sobre o pilar deve ser descontada à
força actuante de punçoamento. Propõe-se que para este efeito sejam considerados apenas os
cabos que se encontrem a menos de dp/2 da face do pilar ou área carregada, em que dp é altura
útil do respectivo cabo.

<dp2 /2 <dp3 /2

2 3 4
dp2 60° 1 60° dp3 = dp4
dp1

>dp1 /2 >dp4 /2

Cordão a considerar no cálculo da força de desvio vertical


Cordão a não considerar no cálculo da força de desvio vertical

Figura 2 – Cone fictício para cálculo da força vertical de desvio devida à mudança de
direcção dos cabos de pré-esforço

Deste modo, a força efectiva média de punçoamento (VSm,eff) poderá ser calculada através da
seguinte expressão:

VSm, eff = VSm − Vdesvio


(15)

Em que, VSm é a força actuante de punçoamento devido às cargas aplicadas (incluindo os efeitos
hiperstáticos do pré-esforço) e Vdesvio a componente vertical da força de desvio do pré-esforço
sobre o pilar, originada pela mudança de direcção dos cordões de pré-esforço.

No cálculo da componente vertical da força de desvio sobre o pilar devida à mudança de


direcção dos cabos de pré-esforço, poderá ser utilizado o desvio vertical final do pré-esforço,
entrando em linha de conta com a deformação vertical induzida pelo carregamento. Numa laje
fungiforme pré-esforçada esta deformação dará origem ainda a um incremento da tensão de
tracção dos cabos de pré-esforço, que poderá igualmente ser considerado.

3. APLICAÇÃO DO MÉTODO PROPOSTO A ENSAIOS EXPERIMENTAIS

O método descrito foi aplicado a alguns ensaios experimentais levados a cabo para estudo do
fenómeno de resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas, nomeadamente os
elaborados por Gerber e Burns [4], Nylander et al [5], Pralong et al [6], Regan [7,8,9],
Shehata [10], Hassanzadeh [11] e Ramos [12]. Os resultados experimentais destes ensaios foram
igualmente comparados com os valores dos esforços resistentes previstos usando o preconizado
pelo Eurocódigo 2 [1] (EC2) e pelo CEB-FIP Model Code de 1990 [2] (MC90), complementado
pelas recomendações da FIP para o dimensionamento de lajes fungiformes pré-esforçadas [3,13].
No Quadro 1 é apresentada uma síntese dos resultados alcançados.

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Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

Quadro 1(a) − Comparação entre a força efectiva de punçoamento e o valor médio do esforço
resistente ao punçoamento

Quadro 1(b) − Comparação entre a força efectiva de punçoamento e o valor médio do esforço
resistente ao punçoamento

(1) força efectiva de punçoamento: Veff = Vexp – Vdesvio (Nesta expressão Vexp é valor experimental da carga de rotura e
Vdesvio a componente vertical da força de desvio do pré-esforço sobre o pilar)
(2) força efectiva de punçoamento: Veff = Vexp – V0 – Vdesvio (Nesta expressão Vexp é valor experimental da carga de
rotura, V0 é o valor da força de descompressão e Vdesvio a componente vertical da força de desvio do pré-esforço sobre o
pilar)
(3) calculado utilizando a Expressão 1 com ρ calculado através das Expressões 4 ou 12
(4) modelos de lajes rectangulares com pré-esforço apenas na direcção longitudinal

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Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

Optou-se pela inclusão do EC2 nesta comparação, porque a nível europeu este regulamento visa
substituir os respectivos regulamentos nacionais. Convém referir, no entanto, que o EC2 se
encontra actualmente em revisão, aproximando-se a formulação do problema do punçoamento a
uma filosofia próxima da do MC90.

Foi feita uma análise estatística dos resultados obtidos tendo sido determinado o valor médio da
razão Veff/VRm, o seu desvio padrão e o coeficiente de variação (Quadro 2). Foram também
elaborados gráficos (Figura 3) em que se analisa a influência da tensão média de rotura à
compressão do betão em provetes cilíndricos (fcm), da tensão média de compressão no betão
devida ao pré-esforço (σcp,médio) e da altura útil da laje (d) no valor de Veff/VRm. Nestes gráficos
representa-se a traço interrompido o valor médio obtido neste universo de resultados
experimentais e a traço cheio a recta de tendência (regressão linear).

Quadro 2− Valor médio, desvio padrão e coeficiente de variação da razão Veff/VRm


Código n (1) Xm (2) σn-1 (3) v (4)
EC2 1.077 0.200 0.186
MC90 47 1.180 0.300 0.254
Método Proposto 1.075 0.176 0.164
(1) número de ensaios considerados (2) valor médio (3) desvio padrão (4) coeficiente de variação

Dos três métodos apresentados o MC90/FIP é o que apresenta piores resultados, tanto em termos
de valor médio como em termos de desvio padrão. A aplicação deste regulamento conduziu a
valores algo conservadores para a razão Veff/VRm. Tal facto deve-se, muito provavelmente, a que
nas recomendações da FIP [3,13] que estendem a aplicabilidade do MC90 a lajes fungiformes
pré-esforçadas, o cálculo da força de descompressão (V0) é feito tendo somente em conta a
tensão média de compressão no betão devida ao pré-esforço. O efeito da excentricidade dos
cabos de pré-esforço não é considerado.

O método proposto neste trabalho obteve um valor médio para a razão Veff/VRm idêntico ao
obtido utilizando o EC2, mas com uma menor dispersão dos resultados (menor desvio padrão).
Além disso, se se proceder a uma análise em separado dos ensaios de Nylander et al [5] e
Regan [7,8,9] (modelos de lajes rectangulares pré-esforçadas apenas na direcção longitudinal),
obtém-se uma média para a razão Veff/VRm de 1.01 usando o método proposto, e de 0.96 com o
EC2. Este último valor é ligeiramente contra a segurança. Nos restantes modelos a média da
referida grandeza é de 1.11 e de 1.14, respectivamente segundo o método proposto e o EC2. O
método proposto conduz a resultados ligeiramente melhores, em ambas as situações.

De referir, no entanto, que os bons resultados apresentados pelo EC2 devem-se com grande
probabilidade à gama de resistências à compressão dos betões utilizados. De facto, num
documento recente da Fib [14], no qual se comparam as cargas de rotura experimentais com os
valores do esforço médio resistente previsto pelo EC2, de 112 modelos de laje fungiforme não
pré-esforçadas submetidas a ensaios de punçoamento centrado, conduzem a valores de Veff/VRm
próximos da unidade para resistências médias à compressão em provetes cilíndricos de cerca de
40 MPa. Para betões com mais alta resistência o EC2 sobrestima o valor médio da resistência ao
punçoamento, enquanto que para betões de menores resistências este valor é subestimado. Como
informação adicional o valor médio de Veff/VRm obtido para os 112 modelos considerados é de
1.28.

O EC2 apresenta ainda uma marcada tendência de sobrestimar a resistência ao punçoamento à


medida que a resistência do betão aumenta (ver Figura 3) chegando mesmo à situação em que a
recta de tendência está abaixo do valor unitário, e portanto contra a segurança.

Nos restantes métodos analisados nota-se de igual forma uma tendência de sobrestimar a
resistência ao punçoamento com o aumento da resistência do betão, mas menos pronunciada do
que a revelada pelo EC2.

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Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

Os três métodos de cálculo analisados revelam uma tendência de subestimar a resistência ao


punçoamento com o aumento da tensão média de compressão no betão devida ao pré-esforço,
tornando-se mais conservadores.

O MC90/FIP e o método proposto denotam uma tendência de aumento do conservadorismo com


o aumento da altura útil da laje. Pelo contrário, o EC2 revela uma ligeira tendência para a
redução da segurança com o incremento desta grandeza.

Veff/VRm EC2 Veff/VRm MC90/FIP Veff/VRm Método Proposto


2,0 2,0 2,0

1,8 1,8 1,8

1,6 1,6 1,6

1,4 1,4 1,4

1,2 1,2 1,2 1,2

1,08 1,08
1,0 1,0 1,0

0,8 0,8 0,8

0,6 0,6 0,6


0 10 20 30 40 50 0 10 20 30 40 50 0 10 20 30 40 50
fcm (MPa) fcm (MPa) fcm (MPa)

EC2 Veff/VRm MC90/FIP Veff/VRm Método Proposto


2,0 2,0 2,0

1,8 1,8 1,8

1,6 1,6 1,6

1,4 1,4 1,4

1,2 1,2 1,2 1,2

1,08
1,0
1,0 1,0 1,0

0,8 0,8 0,8

0,6 0,6 0,6


0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0 0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0 0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0
σcp,médio (MPa) σcp,médio (MPa) σcp,médio (MPa)

Veff/VRm EC2 Veff/VRm MC90/FIP Veff/VRm Método Proposto


2,0 2,0 2,0

1,8 1,8 1,8

1,6 1,6 1,6

1,4 1,4 1,4

1,2 1,2 1,2 1,2

1,0 1,0
1,0 1,0 1,0

0,8 0,8 0,8

0,6 0,6 0,6


0 50 100 150 200 250 0 50 100 150 200 250 0 50 100 150 200 250
d (mm) d (mm) d (mm)

Gerber e Burns Nylander et al Pralong et al Regan Shehata Hassanzadeh Pinho Ramos regressão linear

Figura 3 – Evolução de Veff/VRm em função da tensão média de rotura do betão, da tensão


média de compressão do betão devida ao pré-esforço e da altura útil da laje

4. RECOMENDAÇÕES DE PROJECTO

Na verificação do estado limite último de punçoamento de uma laje fungiforme, e na situação de


não se utilizar armadura específica, o valor de cálculo do esforço resistente ao punçoamento
pode ser obtido pela expressão recomendada pelo MC90 para lajes fungiformes não
pré-esforçadas:

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Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

VRd = 0.12 ξ ( 100 ρ f ck )1 / 3 u d


(17)

O valor do coeficiente ξ é determinado aplicando a Expressão (2), a tensão característica de


rotura à compressão do betão em provetes cilíndricos (fck) deverá ser considerada em MPa, o
perímetro de referência (u) calculado como se esquematiza na Figura 1 e a altura útil calculada
através da Expressão (3). A percentagem geométrica de armadura longitudinal (ρ) a utilizar na
Expressão (17) é calculada através da Expressão (4), na hipótese de pré-esforço não aderente, ou
através da Expressão (12), na situação em que este é aderente. A percentagem geométrica de
armadura ordinária (ρs) é determinada com recurso à Expressão (5), enquanto que a percentagem
geométrica de armadura de pré-esforço (ρp) é calculada através da Expressão (13). As
componentes relativas à compressão provocada pelo pré-esforço (ρcomp) e à excentricidade deste
(ρexc) serão calculadas de forma aproximada pelas seguintes expressões, em que fsyk é a tensão
característica de cedência do aço:

1 σ cp
ρ comp =
2 f syk
(18)

σ p Asp 2d p − h
ρ exc =
f syk b d 1.5h
(19)

Para efeitos de quantificação de ρcomp - Expressão (18) -, é necessário determinar com rigor qual
o valor da tensão de compressão no betão, introduzida pelo pré-esforço na secção da laje em
consideração. A difusão das forças de pré-esforço desde as ancoragens, e a existência de
elementos verticais passíveis de absorver por corte parte da força de compressão, leva a
dificuldades acrescidas na determinação rigorosa deste valor. Será sempre conservador não
considerar o efeito da compressão provocada pelo pré-esforço, nos cálculos de verificação de
segurança ao punçoamento de uma laje fungiforme.

O valor de cálculo da força efectiva de punçoamento é determinado, subtraindo ao valor de


cálculo do esforço de punçoamento actuante (VSd), a componente vertical da força de desvio
(Vdesvio) originada pela mudança de direcção dos cordões de pré-esforço. No cálculo desta última
grandeza só deverão ser considerados os cordões que se encontrem a menos de dp/2 da face do
pilar ou área carregada, sendo dp a sua altura útil respectiva.

VSd ,eff = VSd − Vdesvio (20)

Mais uma vez, não é fácil ao engenheiro projectista na fase de dimensionamento duma laje
fungiforme, determinar duma forma rigorosa a deformação vertical que antecede a rotura ao
punçoamento. Atendendo a que será sempre conservador não considerar esta deformação no
cálculo da componente vertical da força de desvio, é recomendável que este efeito seja
desprezado no dimensionamento, funcionando como segurança adicional. A mesma
recomendação é válida igualmente para o incremento de força nos cordões de pré-esforço,
originado pelo alongamento destes devido à deformação da laje.

Para um melhor comportamento pós-rotura ao punçoamento deste tipo de estruturas, é


recomendável a colocação dos cabos de pré-esforço a passar dentro da armadura longitudinal dos
pilares. Na hipótese de utilização de pré-esforço não aderente, deverá prever-se a existência de
ancoragens intermédias, em média em cada dois vãos. Se necessário, e ainda para este efeito,
poderá recorrer-se à colocação de armadura adicional junto à face inferior da laje, a passar de
igual modo dentro da armadura longitudinal do pilar, e convenientemente amarrada na laje ou no
interior do pilar.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 12


Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

5. AGRADECIMENTOS

Os ensaios experimentais realizados por Ramos [12], foram elaborados no Departamento de


Engenharia Civil e Arquitectura do Instituto Superior Técnico, tendo contado com o apoio da
Fundação para a Ciência e Tecnologia. A estas instituições agradecemos os meios colocados à
disposição.

Manifestamos igualmente reconhecimento às Empresas que deram o seu contributo à realização


destes ensaios, nomeadamente: à Concremat, S.A. pela fabricação de alguns dos modelos e à
VSL, S.A. pelo fornecimento dos monocordões de pré-esforço e respectivos sistemas de
ancoragem.

6 REFERÊNCIAS

[1] Norma Portuguesa NP ENV 1992-1-1: Eurocódigo 2: Projecto de Estruturas de


Betão – Parte 1.1: Regras Gerais e Regras para Edifícios, Abril, 1998.
[2] Comité Euro-International du Betón: CEB-FIP Model Code 1990, Bulletin
d´information nº 213-214, Maio, 1993.
[3] Fédération Internationale de la Précontrainte: Recommendations for the Design of
Post-Tensioned Slabs and Foundation Rafts, Maio, 1998.
[4] Gerber, L. L.; Burns, N. H.: Ultimate Strength Tests of Post-Tensioned Flat Plates,
PCI Journal, Vol. 16, nº 6, Nov/Dez de 1971, p. 40-58.
[5] Nylander, H.; Kinnunen, S.; Ingvarsson, H.: Genomsstansning av Pelarunderstödda
Plattbro av Betong med Spänd och Ospänd Armering, Meddelande nº 123,
Institutionen för Byggnadsstatik, Kungl Tekniska Högskolan (KTH), Estocolmo,
1977.
[6] Pralong, J.; Brändli, W.; Thürlimann, B.: Durchstanzversuche an Stahlbeton und
Spannbetonplatten, Bericht nr. 7305-3, Institut für Baustatik und Konstruktion, ETH
Zurich, Dezembro, 1979.
[7] Regan, P. E.: The Punching Resistance of Prestressed Concrete Slab Bridges, Report
to the Department of Transport, Engineering Structures Research Group, Polytechnic
of Central London, Londres, Abril, 1981.
[8] Regan, P.E.; Chattopadhyay, B.: Shear Tests of Prestressed Bridge Slabs Supported
by Interior Columns, Report to the Department of Transport, Engineering Structures
Research Group, Polytechnic of Central London, Londres, Julho, 1982.
[9] Regan, P. E.: Punching Shear in Prestressed Concrete Slab Bridges, Report to the
Department of Transport, Engineering Structures Research Group, Polytechnic of
Central London, Londres, Janeiro, 1983.
[10] Shehata, I. A.: Punching of Prestressed and Non-Prestressed Reinforced Concrete
Flat Slabs, M.Phil. Thesis, Polytechnic of Central London, Londres, 1982
[11] Hassanzadeh, G.: Betongplattor på Pelare Dimensioneringsmetoder för Plattor med
icke Vidhäftande Spännarmering, Bulletin 43, Institutionen för Byggkonstruktion,
Kungl Tekniska Högskolan (KTH), Estocolmo, 1998.
[12] Ramos, A. M. P..: Punçoamento em Lajes Fungiformes Pré-Esforçadas, Tese de
Doutoramento, Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2003.
[13] Lúcio, V. J. G.; Appleton, J. A. S.; Almeida, J. F.: The U.L.S. of Punching in the New
FIP Recommendations for the Design of Post-Tensioned Slabs and Foundation Rafts,
Structural Concrete - FIP, nº 3, 2000.
[14] Fédération Internationale du Béton: Punching of Structural Concrete Slabs, Bulletin
2, Technical Report prepared by the CEB/FIB Task Group – Utilisation of Concrete
in Design, Lausanne, Abril, 2001.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 13


Resistência ao punçoamento de lajes fungiformes pré-esforçadas - Método alternativo de cálculo -

ANTÓNIO PINHO RAMOS


Professor Auxiliar
Departamento de Engenharia Civil
Faculdade de Ciências e Tecnologia
Universidade Nova de Lisboa
Monte de Caparica
Lisboa

VALTER LÚCIO
Professor Associado
Departamento de Engenharia Civil
Faculdade de Ciências e Tecnologia
Universidade Nova de Lisboa
Monte de Caparica
Lisboa
FEUP

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 14


Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 ISSN 1645-5576

PAVIMENTOS SEMI-PRÉ-
FABRICADOS USANDO ELEMENTOS
DO TIPO PRÉ-LAJE COM
ALIGEIRAMENTO

S. MACEDO PEIXOTO A. SERRA NEVES


Eq. Assistente Professor Associado
Instituto Politécnico de Bragança FEUP
Portugal Portugal

SUMÁRIO

Neste trabalho é apresentado um sistema de construção de lajes realizadas com elementos pré-fabricados pré-
esforçados que incluem um aligeiramento com betão de argila expandida. São descritas as diversas fases
construtivas do sistema, os elementos que a constituem e identificadas as principais verificações a efectuar
tendo em vista o seu dimensionamento.

Palavras-chave: pré-fabricação, pavimentos, painéis pré-fabricados, sistemas construtivos.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 15


Pavimentos semi-préfabricados usando elementos do tipo pré-laje com aligeiramento

1. INTRODUÇÃO

A construção de edifícios em Portugal recorre frequentemente a soluções aligeiradas para a


realização de lajes de pisos, traduzindo-se este facto numa apreciável economia, se tomarmos
como referência as lajes maciças.

Por outro lado, a preocupação com os custos da mão de obra sugere o uso cada vez maior de
elementos pré-fabricados, reduzindo assim os custos e proporcionando uma maior qualidade do
produto final.

Nesta comunicação, após a descrição dos principais sistemas de pré-fabricação ou semi-pré-


fabricação de lajes de pavimentos de edifícios em Portugal e indicadas as principais vantagens e
inconvenientes, apresenta-se um novo tipo de pavimentos, consistindo em uma solução de
painéis do tipo pré-laje com aligeiramento. São indicados os processos de cálculo. Este sistema
foi desenvolvido no LABEST – Laboratório da Tecnologia do Betão e do Comportamento
Estrutural, da FEUP.

2. SISTEMAS DE PRÉ-FABRICAÇÃO DE LAJES MAIS USADOS EM PORTUGAL

2.1 Rugosidade superficial

As lajes pré-esforçadas de vigotas, são o tipo de laje pré-fabricadas mais utilizadas em Portugal.

Figura 1 – Corte tipo de um pavimento em Vigotas pré-esforçadas

As principais vantagens desta solução são:


− em igualdade de vãos e de sobrecargas possuem reduzido peso próprio, o que permite
o aligeiramento das estruturas de suporte de cargas verticais e horizontais dos
edifícios;
− dispensam o uso de cofragens contínuas exigindo apenas um escoramento discreto das
vigotas;
− são de simples e rápida montagem e económicos em termos de mão de obra;
− proporcionam uma grande economia de betão.

2.2 Lajes Alveoladas Pré-Esforçadas

Este sistema possui um mercado crescente em Portugal.

Figura 2 – Corte tipo de um pavimento em laje alveolada sem camada de betão superior

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 16


Pavimentos semi-préfabricados usando elementos do tipo pré-laje com aligeiramento

Figura 3 – Corte tipo de um pavimento em laje alveolada com camada de betão superior

As principais vantagens desta solução são:


− menor peso próprio, o que permite o aligeiramento das estruturas de suporte;
− dispensa de cofragens e escoramentos intermédios;
− montagem simples e rápida;
− economia de mão de obra de execução;
− flechas muito baixas e forte esbelteza;
− bom acabamento da face inferior.

2.3 Pré-Lajes de Betão Pré-Esforçado

As lajes que usam elementos de pré-laje são as que apresentam neste momento um maior
crescimento em termos de utilização em Portugal.

Figura 4 – Corte tipo de um pavimento formado por pré-lajes de betão pré-esforçado

As principais vantagens desta solução são:


− montagem simples, fácil e económica em mão de obra e execução;
− necessita de um escoramento mínimo;
− permite a redução das armaduras complementares a colocar em obra;
− redução da quantidade de betão a colocar em obra;
− a face inferior apresenta-se lisa, pronta a receber uma pintura, depois de tratadas as
juntas entre pré-lajes;
− a qualidade é controlada aquando do seu fabrico;
− bom comportamento no que respeita às deformações.

3. UMA NOVA SOLUÇÃO

3.1 Descrição geral

Conjugando as vantagens do aligeiramento, o efeito favorável da presença de uma “cofragem


perdida” e um comportamento semelhante a uma laje maciça, propõe-se uma nova solução de
pavimento constituído por uma pré-laje em betão pré-esforçada [1].

A pré-laje é composta por uma pequena camada de betão pré-esforçada com fios aderentes e
apresenta uma superfície superior aderente. Sobre a pré-laje é colocado um aligeiramento em
betão de argila expandida que tem uma largura ajustada junto aos apoios.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 17


Pavimentos semi-préfabricados usando elementos do tipo pré-laje com aligeiramento

Na figura 5 apresenta-se uma vista do elemento pré-fabricado final.

Figura 5 – Vista em perspectiva de uma pré-laje

Em obra uma camada de betão armado (betão complementar) com função resistente é colocado,
solidarizando o conjunto.

Na figura 6 apresenta-se um corte do elemento pré-fabricado após a colocação do betão


complementar.

Figura 6 – Corte transversal tipo dos pavimentos propostos

O funcionamento estrutural deste tipo de lajes é comparável ao de uma laje com armadura
resistente unidireccional com aligeiramento na alma da mesma, sendo necessário garantir
aderência entre o betão complementar e o betão das pré-lajes, através da introdução de uma
superfície rugosa na face superior da pré-laje.

O campo de utilização deste tipo de pavimento contempla edifícios habitacionais, escritórios, ou


outros com ocupação e utilização semelhantes, desde que não ocorram situações em que seja
previsível a actuação predominante de acções resultantes de cargas concentradas elevadas.

Como principais vantagens deste sistema, podem-se referir as seguintes:


− permite a redução do tempo de execução em obra;
− montagem simples e mais económica quer em mão de obra quer em tempo de
execução;
− permite a eliminação da cofragem contínua, evitando os trabalhos associados ao
escoramento da mesma;
− escoramento mínimo;
− redução das armaduras complementares a colocar em obra;
− redução da quantidade de betão a colocar em obra;
− a face inferior apresenta-se lisa, pronta a receber uma pintura, depois de tratadas as
juntas entre pré-lajes;
− a qualidade é controlada aquando do seu fabrico;
− bom comportamento à deformação;
− menor peso próprio, o que permite o aligeiramento das estruturas de suporte;
− o aligeiramento é ajustado às necessidades, existindo apenas onde o betão não tem
funções resistentes.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 18


Pavimentos semi-préfabricados usando elementos do tipo pré-laje com aligeiramento

3.2 Materiais

Os materiais utilizados na pré-laje são o betão de classe C40/50 e aço de pré-esforço aderente da
classe 1770, de baixa relaxação, de acordo com a Euronorm 138/79. O aligeiramento é
constituído por betão leve com agregado de argila expandida, com um peso volúmico de
7 kN/m3, uma resistência à compressão de cerca de 1 MPa. A armadura transversal colocada na
pré-laje é da classe A500.

Os materiais utilizados em obra para conclusão da pavimento são o betão complementar da


classe C20/25, armaduras de distribuição a colocar na camada de betão complementar da classe
A500 e armaduras de continuidade sobre os apoios da classe A400 ou A500.

3.3 Dimensões dos painéis

Os painéis propostos possuem uma largura de 80 cm, valor condicionado pelo processo de
transporte. A espessura da base do elemento varia entre 5 e 10 cm, encontrando-se a armadura de
pré-esforço à distância de 2,5 cm da superfície inferior. A altura do aligeiramento varia entre 5 e
40 cm.

A largura do aligeiramento na zona central do vão do painel é de 65 cm, enquanto junto aos
apoios apresenta uma largura variável, dependendo da necessidade em termos de resistência ao
esforço transverso. Junto aos apoios, o aligeiramento é interrompido a 10 cm da extremidade do
painel, de modo a garantir uma melhor solidarização da laje com os elementos de apoio.

3.4 Gama de Produtos

Tendo em conta as características mecânicas e geométricas dos elementos constituintes da laje


foi possível desenvolver tabelas de dimensionamento, em que para cada tipo de elemento pré-
laje e correspondente laje final, são fornecidos o peso próprio da laje, os valores do momento
resistente de cálculo, Mrd, do esforço transverso resistente, Vrd, o valor do momento de
fendilhação longitudinal, Mfctk, o valor da rigidez EI para o cálculo da deformação, bem como as
quantidades necessárias de materiais.

3.5 Armaduras Principais e Secundárias

As armaduras utilizados na pré-laje são as seguintes:


− armadura longitudinal principal, constituída por fios de aço de pré-esforço aderente de
5mm de diâmetro, variando o número de fios com a situação em estudo;
− armadura transversal principal, que é colocada no elemento pré-fabricado entre o
betão de base e o aligeiramento. Esta armadura prolonga-se por 15 cm para o exterior
do aligeiramento, possuindo no final um varão soldado, de modo a melhorar as
condições de emenda de varões. Garante-se assim a continuidade da armadura
transversal na laje final. Esta armadura, da classe A500, proporciona uma resistência
de cerca de 20% da armadura principal, sendo constituída por varões de pequeno
diâmetro e pouco espaçados de modo a melhorar o comportamento transversal;

As armaduras a colocar em obra para a conclusão da pavimento são os seguintes:


− armadura de distribuição, que será colocada em malha de aço A500, ficando
embebida na camada de betão complementar;
− armadura sobre os apoios, de modo a verificar a resistência ao momento negativo
obtido através do cálculo da laje, podendo essas armaduras ser em aço A400 ou A500.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 19


Pavimentos semi-préfabricados usando elementos do tipo pré-laje com aligeiramento

4. TRANSPORTE, LEVANTAMENTO E COLOCAÇÃO EM OBRA

4.1 Levantamento e Manuseamento

O levantamento e manuseamento dos painéis é efectuado através de uma grua, possuindo os


painéis ganchos incorporados, quatro ou seis, de modo que o levantamento e manuseamento
sejam facilitados, como se representa na figura 7.

Figura 7 – Representação do modo de levantamento e manuseamento da pré-laje

4.2. Colocação em Obra

Nos casos gerais, a execução dos pavimentos processa-se da seguinte maneira:


− colocação e nivelamento das fiadas de escoramento junto aos apoios e na zona
central das pré-lajes, no sentido transversal destas;
− para grandes vãos pode prever-se uma contra-flecha;
− assentamento das pré-lajes, justapostas, e seu acerto;
− montagem dos escoramentos complementares necessários, em função do vão e
espessura total do pavimento e das sobrecargas resultantes da sua execução;
− colocação das armaduras de distribuição e das armaduras sobre os apoios;
− limpeza e humidificação da superfície superior da pré-laje, por meio de jacto de água,
com vista a evitar dissecação e melhorar a aderência ao betão complementar;
− lançamento, espalhamento, regularização e compactação do betão complementar,
tendo o cuidado de assegurar a sua perfeita aderência às faces expostas dos painéis e a
manutenção da espessura prevista da camada de betão complementar;
− tratamento das juntas e da superfície inferior dos painéis em função do material de
revestimento a aplicar, após a remoção do escoramento de acordo com os prazos
mínimos regulamentares.

5. COMPORTAMENTO ESTRUTURAL

5.1 E.L. Último de Resistência

5.1.1 Momento Flector Longitudinal

O estado limite último de resistência, no que se refere ao momento flector, é verificado através
da comparação do valor de cálculo do esforço actuante, Msd, com o valor resistente, Mrd, do
pavimento.

De acordo com o EC2 [2], existem duas situações com interesse na aplicação a este tipo de lajes:
− Para lajes analisadas como simplesmente apoiadas, com ligação monolítica no apoio,
é necessário considerar uma armadura superior nos apoios de modo a resistir a um
momento flector de pelo menos 25% do momento flector máximo positivo no vão.
− No caso de lajes contínuas com continuidade sobre os apoios, o EC2 permite uma

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 20


Pavimentos semi-préfabricados usando elementos do tipo pré-laje com aligeiramento

redistribuição de esforços, podendo o momento negativo ser reduzido até um limite de


50%, desde que a ductilidade da armadura seja alta, e a baixa profundidade do eixo
neutro seja verificada (x/d < 0.25). No entanto, a relação entre os momentos nos
apoios contínuos e os momentos no vão deve situar-se entre 0.5 e 2.

5.1.2 Esforço Transverso

Para o cálculo do esforço transverso resistente, os factores mais importantes a considerar são a
altura e largura da secção, e a armadura de esforço transverso existente. Assim, dentro de uma
gama de produtos com uma altura fixa, para aumentar o esforço transverso resistente teria de se
aumentar a largura de betão, reduzindo a largura do aligeiramento, ou aumentar a armadura de
esforço transverso.

Assim, foram consideradas duas soluções:


Na primeira solução, a mais usualmente utilizada, a resistência ao esforço transverso é alcançada
através do aumento da largura das nervuras de betão complementar junto dos apoios, tomando o
aligeiramento uma forma “afunilada” como se representa na figura 8.

Figura 8 – Representação de painéis sem armadura de esforço transverso

A principal vantagem desta solução é a de conduzir a aligeiramento apenas onde é necessário


betão com função resistente e a não colocação de armaduras de esforço transverso. Como
desvantagem pode referir-se a redução do aligeiramento, e consequentemente o aumento do peso
próprio.

Na segunda solução recorre-se a um processo habitual nas pré-lajes, que consiste em introduzir
duas treliças de varões, uma junto de cada bordo lateral do painel, como se representa na
figura 9.

Figura 9 – Representação de painéis com treliças de varões para resistir ao esforço transverso

A armadura em treliça, para além de garantir a resistência ao esforço transverso, melhora a


ligação entre a pré-laje e o betão complementar.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 21


Pavimentos semi-préfabricados usando elementos do tipo pré-laje com aligeiramento

Como desvantagens desta solução, apresenta-se o facto de a existência das treliças dificultar o
processo colocação dos moldes para o aligeiramento, obrigar a um menor aligeiramento e a
necessidade de prever armadura adicional sobre as treliças justapostas, de modo a solidarizar as
pré-lajes.

5.2. Estados Limite de Utilização

5.2.1 Fendilhação Devida ao Momento Flector Longitudinal

A verificação do E.L. de fendilhação devido ao momento flector longitudinal, é efectuada


comparando o valor do momento máximo instalado, com o momento que a secção pode
suportar, de modo que na fibra superior ou inferior não se atinja uma tensão igual a fctk 0.05,
Mfctk.

O momento actuante está dependente da classe de exposição a que a laje está sujeita. Em termos
de fendilhação no vão, são fornecidos em tabelas os valores máximos de Mfctk para cada laje,
bastando por isso comparar o valor do momento actuante com o valor indicado nas tabelas.

Para a fendilhação na zona dos apoios, o processo de verificação é similar ao de uma laje maciça
de betão armado.

5.2.2 Deformação

Como limites para a deformação das lajes foram adoptados os valores previstos no REBAP [3],
em que para combinações frequentes de acções, a deformada da laje deve ser limitada a 1/400 do
seu vão. No entanto, se as deformações afectam paredes divisórias, há necessidade de respeitar
um valor máximo absoluto de 1.5 cm.

Para o cálculo da flecha instantânea, são usados os valores de rigidez EI calculados para a laje,
tomando essa rigidez valores variáveis, devido à variação da forma do aligeiramento.

Após calcular a flecha instantânea, para obter a flecha a longo prazo e ter em conta a fluência
dos betões, multiplica-se a flecha instantânea pelo seguinte factor:

Msg
1+ ⋅φ
Msg + Σψ 1 ⋅ Msq
(1)

em que Msg e Msg + ∑ψ1Msq são os valores dos momentos flectores actuantes devido,
respectivamente, às acções permanentes e à combinação frequente de acções. φ é o coeficiente
de fluência, a que se pode atribuir o valor 2 [4].

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

No presente trabalho apresentou-se uma solução semi pré-fabricada para a realização de lajes de
pavimentos de edifícios.

A solução explora as vantagens da pré-fabricação usada em elementos semi-ligeiros de fácil uso


nas edificações correntes.

O sistema usado prevê aligeiramentos com base na utilização de betão leve nos espaços onde tal
é permitido, dando origem a uma solução que acaba por ter uma distribuição de esforços
longitudinais resistentes muito ajustada aos esforços de cálculo instalados.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 22


Pavimentos semi-préfabricados usando elementos do tipo pré-laje com aligeiramento

Agradecimentos

O LABEST agradece à Pavileca S. A. o apoio dado ao projecto de investigação que


proporcionou o desenvolvimento do sistema apresentado para a construção de lajes recorrendo a
elementos pré-fabricados

7. REFERÊNCIAS

[1] Serra Neves, A.; Macedo Peixoto, S. - "Desenvolvimento de um Sistema de Lajes


Aligeiradas Usando Elementos Pré-fabricados do Tipo Pré-laje", no V Simpósio
EPUSP sobre Estruturas de Concreto, São Paulo – Brasil, 2003, 17p.
[2] REBAP. Regulamento de Estruturas de Betão Armado e Pré-esforçado. Dec. - Lei
nº349-C/83. Imprensa Nacional, Casa da Moeda, Lisboa.
[3] Borchelt, J.; E., P.; Tann, J. Bond Strength and Water Penetration of Low IRA Brick
and Mortar. Proceedings of the 7th North American Masonry Conference, 1996. EC2
– ENV 1992-1-1. Eurocódigo 2 : Projecto de estruturas de betão – Parte 1 : Regras gerais e
regras para edifícios.
[4] José C. A. G. Lello. Dimensionamento de pavimentos aligeirados de vigotas pré-
fabricadas de betão pré-esforçado. Faculdade de Engenharia da Universidade do
Porto.

S. MACEDO PEIXOTO
Eq. Assistente
Instituto Politécnico de Bragança
sandro@ipb.pt

A. SERRA NEVES
Professor Associado
FEUP
asneves@fe.up.pt

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 23


Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 ISSN 1645-5576

ESTUDO COMPARATIVO DA ACÇÃO


DO VENTO EM EDIFÍCIOS EM L E NA
SUA FORMA RECTANGULAR
ENVOLVENTE

Mª GLÓRIA GOMES A. MORET RODRIGUES PEDRO MENDES


Assistente, Eng.ª Civil Prof. Auxiliar, Eng.º Civil Prof. Associado, Eng.º Civil
DECIVIL – IST/ICIST DECIVIL – IST/ICIST DECIVIL – IST/ICIST
Portugal Portugal Portugal

SUMÁRIO

Este artigo apresenta alguns resultados de ensaios experimentais em túnel de vento de determinação de
coeficientes de pressão – importantes para a ventilação interior e dimensionamento de estruturas e
componentes de edifícios – em edifícios irregulares em forma de L, tendo-se analisado a sua variação para
diversos ângulos de incidência do vento e comparado com os valores obtidos pela sua forma rectangular
envolvente. Foram também realizadas algumas simulações numéricas em CFD, que permitiram
complementar o estudo experimental e avaliar a influência da forma dos edifícios e direcção do vento na
distribuição de pressões nas fachadas dos edifícios.

Palavras-chave: edifícios em L, coeficientes de pressão, vento, ensaios em túnel de vento, CFD.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 24


Estudo comparativo da acção do vento em edifícios em L e na sua forma rectangular envolvente

1. INTRODUÇÃO

As pressões induzidas pelo vento constituem uma das acções cuja importância, em termos do
rigor que se deve exigir à sua avaliação, tem vindo a crescer por motivo da inovação que se vem
registando ao nível da forma, dimensão e constituição de edifícios, bem como das crescentes
exigências em termos de conforto térmico e de qualidade do ar.

No entanto, enquanto estudos em estruturas rectangulares e cilíndricas existem em número


considerável, são escassos os que abordam edifícios com formas irregulares e mesmo estes são
muitas vezes puramente qualitativos. Efectivamente, embora os edifícios com formas irregulares
em planta - de que a forma L investigada neste trabalho é um exemplo - sejam muito utilizados,
o seu projecto carece de estudos mais rigorosos e de uma regulamentação mais adequada. De
facto, a complexidade da geometria dos edifícios actuais pode gerar características do vento
significativamente diferentes das produzidas pelas formas rectangulares, que são as únicas
contempladas na regulamentação (RSA, EC1). Na falta de outra documentação mais detalhada, a
maioria dos projectistas dimensiona com base na regulamentação disponível, recorrendo
tipicamente a duas metodologias: (1) aproximar a forma do edifício a uma envolvente
rectangular; (2) decompor o edifício em formas rectangulares mais simples (por exemplo, um
edifício em L em dois paralelepípedos).

Stathopoulos & Zhou [1] determinaram numericamente (com recurso a CFD) os coeficientes de
pressão em edifícios com forma L, em planta e em corte, tendo obtido-se uma boa concordância,
no último caso, com resultados experimentais realizados em túnel de vento para a incidência
normal de vento.

Mais recentemente, e quase em paralelo com o presente estudo, Morse & Letchford [2]
determinaram experimentalmente os coeficientes de pressão segundo o alinhamento médio
horizontal dum edifício em L.

O objectivo principal do presente estudo é avaliar a influência da forma na alteração das pressões
nas faces dos edifícios e a sua variação com o ângulo de incidência do vento, e assim contribuir
para um melhor conhecimento desta acção, fornecendo informação útil para o dimensionamento
de elementos de edifícios - para os quais a acção do vento é crítica - e localização de potenciais
grelhas de ventilação. Embora neste trabalho tenham sido realizados ensaios em túnel de vento
para edifícios com formas em cubo, em L e em U, no presente artigo apresentar-se-ão
unicamente os resultados obtidos nos dois primeiros modelos, por forma a avaliar as diferenças
na distribuição de pressões entre um edifício em L e a sua aproximação a uma envolvente
rectangular. Foram também realizadas algumas simulações numéricas em CFD, que permitiram
complementar o estudo experimental e avaliar a influência da forma dos edifícios e direcção do
vento na distribuição de pressões nas fachadas dos edifícios.

2. PROGRAMA EXPERIMENTAL

Os ensaios experimentais foram realizados em dois túneis de vento distintos: num túnel de vento
de circuito aberto com secção de ensaio de 1.50 × 1.50 m2 situado no Departamento de
Engenharia Civil e Arquitectura (DECivil) do Instituto Superior Técnico (IST); e num túnel de
vento de circuito fechado com 1.25 × 1.00 m2 de secção de ensaio situado no Laboratório
Nacional de Engenharia Civil (LNEC). Mais pormenores sobre as características destes túneis de
vento podem ser encontradas em [3].

Foi ensaiado, numa fase preliminar, o modelo cúbico, que por ter sido já objecto de estudo por
parte de diversos autores, serviu de validação experimental e de comparação para os restantes
ensaios (dado que este cubo é envolvente do modelo em L). Estes ensaios foram realizados em
ambos os túneis de vento. O modelo em L foi unicamente ensaiado no túnel de vento de circuito
fechado.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 25


Estudo comparativo da acção do vento em edifícios em L e na sua forma rectangular envolvente

Todos os ensaios foram realizados em regime uniforme, ou seja, o perfil de velocidades médio é
uniforme em altura, com baixa intensidade de turbulência (inferior a 0.5%), excepto numa
camada muito fina junto ao pavimento do túnel, onde se verifica uma ligeira camada limite.
Optou-se, nos presentes ensaios, por valores de velocidade do escoamento incidente da ordem
dos 10m/s, o que conduziu a números de Reynolds da ordem de Re=2×105. Dado que a partir de
certos limites do número de Reynolds (da ordem de 3×104 [4]), o escoamento não altera a sua
forma de desenvolvimento e interacção com o obstáculo para corpos de arestas vivas, como é o
caso, a violação da semelhança de Reynolds não compromete a representatividade dos resultados
experimentais.

De facto, se esta condição não fosse verificada, a escala geométrica adoptada para os modelos
reduzidos de 1:100 - pretendendo simular edifícios com cerca de 10 andares - conduziria à
necessidade de se gerarem no túnel velocidades cem vezes superiores às do vento atmosférico, o
que produziria um escoamento supersónico impraticável nos túneis de vento correntes.

Ambos os modelos têm como dimensão real característica (lado do cubo e largura e altura total
do L) igual a 30cm, e foram construídos em PVC transparente azulado com 3mm de espessura,
por forma a permitir a visualização das tomadas de pressão e a identificação imediata de
eventuais deficiências de funcionamento durante os ensaios. As faces superiores (tecto) são
aparafusadas, o que permite a sua fácil remoção sempre que necessário. No cubo, só uma das
faces laterais e o tecto contêm tomadas de pressão (35 tomadas de pressão por face), permitindo
a medição de todas as restantes faces por rotação do modelo. No modelo em L, somente as faces
reentrantes foram monitorizadas (também com 35 tomadas em cada uma delas), por se
considerar que as restantes iriam apresentar uma distribuição de pressões bastante semelhante à
da forma rectangular envolvente, neste caso o modelo do cubo. Efectivamente, Stathopoulos &
Zhou [1] e mais recentemente Morse & Letchford [2] chegaram à mesma conclusão, suportando
desta forma a decisão aqui tomada.

A geometria dos dois modelos e a configuração e distribuição das tomadas de pressão nos
modelos estão representadas na Fig. 1. Estas tomadas de pressão estão mais concentradas nas
arestas e cantos dos modelos por ser aí que os maiores gradientes de pressão se encontram.

Fig. 1 – Modelo do Cubo e do L, respectivamente no túnel de vento de circuito aberto (IST) e


fechado (LNEC)

Cada modelo foi testado para uma extensa gama de direcções de vento incidente diferentes (Figs.
4 e 5). O valor da pressão em cada tomada foi medido com recurso a dois Scanivalves
transdutores de pressão (Modelo J e DSA3217). Devido à limitação do número de sensores
disponíveis, não foi possível fazer o levantamento simultâneo de todas as faces monitorizadas
em cada modelo, para cada ângulo de ataque do vento. Desta forma optou por realizar-se para
cada face monitorizada, tantos ensaios quantos os ângulos de ataque previstos, e só de seguida
efectuar-se nova ligação do sistema de aquisição a outra face a ensaiar. A aquisição e análise de
dados (pressões em cada tomada) processou-se com recurso a uma aplicação em LabVIEW,
desenvolvida no âmbito deste trabalho. A frequência de aquisição de dados adoptada foi de 10Hz
dado que apenas se pretendiam avaliar valores médios de coeficientes de pressão. A pressão
dinâmica do vento foi também medida com um tubo de Pitot e anemómetros de fio quente.

É usual reportar todas as pressões medidas na superfície dum obstáculo à pressão dinâmica do

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 26


Estudo comparativo da acção do vento em edifícios em L e na sua forma rectangular envolvente

2
vento ( 1 2 ρU H ) numa zona não perturbada do escoamento incidente à altura do obstáculo.
Este coeficiente adimensional, designado por coeficiente de pressão (Cp) é, por definição, igual
a:

Pi − Pst
Cp =
1 2 ρU H 2
(1)

onde:
− Pi – é a pressão estática num ponto genérico (i) da superfície do obstáculo;
− Pst – é a pressão estática nas condições de referência;
1 2 ρU H 2
− – é a pressão dinâmica do vento não perturbado pelo obstáculo à altura de
referência, tomada usualmente como a altura do obstáculo.

Neste caso concreto, e dado que o escoamento incidente é do tipo uniforme, qualquer altura
poderia ter sido escolhida.

O coeficiente de pressão é largamente utilizado quer para o dimensionamento de estruturas, e de


componentes, quer para o cálculo de ventilação cruzada, pela acção do vento. De facto, o caudal
de ventilação é dado por:

2 ∆P
Q = Cd A
ρ
(2)

em que a variação de pressão é, neste caso, induzida pelo vento. Relembra-se que a pressão do
vento num dado ponto da superfície do edifício (onde se situa uma abertura) é igual a:

1
Pw = Cp ρU H 2
2 (3)

e logo a variação de coeficientes de pressão na abertura de admissão e de extracção de ar é que


irá induzir o sentido e a intensidade do caudal de ventilação.

3. ESTUDO NUMÉRICO

O estudo numérico em CFD do escoamento do vento em torno dos modelos ensaiados foi
realizado com o programa comercial "PHOENICS", baseado no método dos volumes finitos e no
algoritmo SIMPLEST [5]. O modelo de turbulência utilizado foi o RNG k-ε, que utiliza as
equações do modelo k-ε original com valores revistos das constantes e um termo adicional na
equação de dissipação de energia (último termo da Eq. 7). As respectivas equações de
continuidade, quantidade de movimento e de transporte de k e ε, são as seguintes:

∂u i
=0
∂x i
(4)

∂ ⎡ ∂u ⎤ 1 ∂p

∂x j
( )
uiu j = ⎢(ν + ν t ) i ⎥ −
∂x j ⎢ ∂x j ⎥ ρ ∂x i
⎣ ⎦ (5)

∂ ⎡⎛ ν ⎞ ∂k ⎤

∂x j
( )
ku j = ⎢⎜⎜ ν + t ⎟⎟
∂x j ⎢⎝ σk ⎠ ∂x j ⎥
∂u
⎥ + ν tSij i − ε
∂x j
⎣ ⎦ (6)

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 27


Estudo comparativo da acção do vento em edifícios em L e na sua forma rectangular envolvente

∂ ⎡⎛ ν ⎞ ∂ε ⎤

∂x j
( )
εu j = ⎢⎜⎜ ν + t ⎟⎟
∂x j ⎢⎝ σε ⎠ ∂x j ⎥
ε
k
∂u
⎥ + cε1 ν tSij i
∂x j
⎣ ⎦
ε 2 Cµη (1 − η / η0 ) ε 2
3
− cε 2 − (7)
k 1 + βη3 k

em que νt=Cµ k2/ε (viscosidade turbulenta isotrópica), η=Sk/ε, S2=2SijSij e Sij=(∂ui/∂xj+∂uj/∂xi)


(tensor médio de tensão). As constantes turbulentas são, por seu turno, iguais a: σk=0.72;
σε=0.72; Cµ=0.085; cε1=1.42; cε2=1.68, η0=4.38, β=0.012. Estas equações, juntamente com as
condições de fronteira respectivas, são discretizadas num sistema 3-D de malhas desfasadas e
resolvidas numericamente pelo método dos volumes finitos. A solução adoptada para resolver os
campos de velocidade-pressão foi o algoritmo SIMPLEST que é uma variante do SIMPLE. Por
forma a melhorar a estabilidade do processo foram utilizadas técnicas de sub-relaxação. Depois
de algumas tentativas para testar a influência do número de malhas nos resultados, considerou-se
aceitável a seguinte distribuição: 50 malhas em comprimento × 46 em altura × 38 em largura.
Estas malhas têm dimensão variável e são mais apertadas junto às fronteiras do obstáculo (Fig.
2).

Vento
4L

Fig. 2 – Domínio e malhagem adoptada para as simulações numéricas.

Considerou-se também uma velocidade de entrada do escoamento uniforme igual a Ur=10 m/s e
uma intensidade baixa de turbulência (I=(2/3 k)1/2/Ur =0.1%). Por forma a avaliar a adequação da
modelação numérica ao problema em estudo, foi simulado o escoamento em torno dum
obstáculo cúbico e posteriormente comparado com outros estudos anteriores. Na Fig. 3 compara-
se o perfil horizontal de velocidade obtido na zona tardoz do obstáculo com os resultados
experimentais de Castro & Robins [4]) e numéricos de Zhang et al. [6]. A concordância entre
valores obtidos é bastante razoável.

1.2
1.0
0.8
0.6
u/Ur

0.4
0.2 present study
0.0 Zhang et al. [12]
Castro & Robins [11]
-0.2
-3 -2 -1 0 1 2 3
y/L

Fig. 3 – Perfil horizontal de velocidades no plano x=2L e z=0.5L.

4. DISCUSSÃO DE RESULTADOS

Todos os resultados estão expressos em termos de valores médios de coeficientes de pressão. A


Fig. 4 apresenta a distribuição dos coeficientes de pressão médios nas fachadas do Cubo com
orientações ortogonais ao vento (0°, 90°,180°, 270°) sob escoamento uniforme. Tal como seria
de esperar, os coeficientes de pressão tomam valores positivos na fachada frontal, com o seu

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 28


Estudo comparativo da acção do vento em edifícios em L e na sua forma rectangular envolvente

máximo no ponto de estagnação (a cerca de meia altura do modelo, atendendo a que o


escoamento incidente é uniforme). Dado que o escoamento se separa nos cantos, o valor de
pressão sofre aí um decréscimo na fachada frontal. Nas fachadas laterais, de tardoz e no telhado,
as pressões são negativas (sucções), dado que se situam dentro de uma zona de fluido separado.
Na face de tardoz, tal como já era esperado, verifica-se uma distribuição bastante uniforme de
sucções.

Na Fig. 5, que se apresenta de seguida, ilustra-se a distribuição de coeficientes de pressão


médios nas faces interiores reentrantes do modelo L, para diversos ângulos de ensaio:

Fig. 4 – Distribuição de coeficientes de pressão médios no modelo do Cubo.

Fig. 5 – Distribuição de coeficientes de pressão médios nas faces reentrantes do modelo em L.

Da observação da Fig. 5, pode concluir-se que:


− Para a incidência normal do vento (alfa=0º), verifica-se que os valores mais elevados
de pressão já não se situam a meio da face frontal, como no cubo, mas deslocaram-se
para posições mais próximas do canto reentrante, processo que por sua vez afecta a
face direita que apresenta pressões positivas a partir desse canto. Note-se que para a
mesma incidência do vento, as faces laterais do Cubo estariam sujeitas a sucções em
toda a sua extensão (Fig.4);
− À medida que o ângulo de ataque do vento aumenta, os valores de pressão decrescem
na face frontal e aumentam na face direita. No entanto, valores mais elevados de
pressão continuam a concentrar-se no canto reentrante;
− Para ângulos de incidência entre 90º e 180º, as faces reentrantes não estão sob
incidência directa do vento, facto que explica a distribuição quase uniforme de
sucções. No entanto, para alfa=120º existe uma zona concentrada de pressões

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 29


Estudo comparativo da acção do vento em edifícios em L e na sua forma rectangular envolvente

positivas no canto superior direito da face frontal, que denota uma incidência directa
de vento nessa zona.

Tal como já foi referido anteriormente, foram efectuadas algumas simulações numéricas em
CFD. A título de exemplo apresenta-se de seguida os alinhamentos horizontais de coeficientes
de pressão no modelo em L para ângulos de incidência de vento de 0º , 45º e 180º (Figs 6-8).

1.2
1
A B
0.8 H
0.6

Cp
0.4
0.2 L L Wind
A B
0
Num
-0.2 0 0.5 1 1.5 2
Exp
-0.4
x/L
Fig. 6 – Alinhamento horizontal (H/2) de coeficientes de pressão médios nas faces reentrantes do
modelo em L para alfa=0º.

1.2
1
A B
0.8 H
0.6
Cp

0.4
Wind
0.2 L
A B L
0
-0.2 0 0.5 1 1.5 2 Num
Exp
-0.4
x/L
Fig. 7 – Alinhamento horizontal (H/2) de coeficientes de pressão médios nas faces reentrantes do
modelo em L para alfa=45º.

Wind
0.4
0.2
A B
0 A B
H
-0.2 0 0.5 1 1.5 2
Cp

-0.4
-0.6
L L
-0.8
-1 Num
Exp
-1.2
x/L

Fig. 8 – Alinhamento horizontal (H/2) de coeficientes de pressão médios nas faces reentrantes do
modelo em L para alfa=180º.

Os resultados numéricos e experimentais apresentaram em geral uma boa concordância para


todas as incidências de vento. Os maiores desvios ocorreram para alfa=0º junto à aresta livre da
face lateral do L, onde os resultados numéricos sobrestimaram os valores de sucção causados
pela aceleração e separação do escoamento nessa zona. No entanto, as discrepâncias observadas
encontram-se dentro do que seria expectável face à complexidade dos fenómenos envolvidos.

5. CONCLUSÕES

No presente estudo foram efectuados ensaios em túnel de vento de determinação de coeficientes


de pressão em edifícios irregulares para diversos ângulos de incidência do vento. Foram
apresentados os resultados obtidos para um modelo em forma de L, e comparados com os de um
Cubo, correspondendo à forma rectangular envolvente. Observou-se que as distribuições de
pressão induzidas pelo vento são bastante distintas nos dois casos, o que mostra ser

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 30


Estudo comparativo da acção do vento em edifícios em L e na sua forma rectangular envolvente

desaconselhável a prática comum de tomar como equivalentes essas duas formas em termos de
projecto. Complementarmente, foram também realizadas algumas simulações numéricas em
CFD, cujos resultados em termos de coeficientes de pressão mostraram, na generalidade dos
casos, uma boa concordância com os obtidos experimentalmente.

6. REFERÊNCIAS

[1] Y. Q. Zhang, A. H. Huber, S. P. S. Arya and W. H. Snyder, Numerical simulation to


determine the effects of incident wind shear and turbulence level on the flow around a
building, Journal of Wind Engineering and Industrial Aerodynamics, 46 & 47, 1993,
129-134.
[2] D. Spalding and J. Ludwig, PHOENICS 3.4 Documentation, CHAM, 2001.
[3] I.P. Castro and A.G. Robins, The flow around a surface-mounted cube in uniform and turbulent
streams, Journal of Fluid Mechanics, 79(2), 1977, 307-335.
[4] M.G. Gomes, Acção do vento em edifícios. Determinação de coeficientes de pressão
em edifícios em L e U, Dissertação de Mestrado, Instituto Superior Técnico (IST),
Universidade Técnica de Lisboa, 2003.
[5] S.M. Morse and C.W. Letchford, Wind pressures around non-rectangular planform
buildings, Proceedings of the 11th International Conference on Wind Engineering,
Lubbock, USA, June 2-5 2003, 973-980.
[6] T. Stathopoulos and Y. Zhou, Numerical simulation of wind-induced pressures on
buildings of various geometries, Journal of Wind Engineering and Industrial
Aerodynamics, 46&47, 1993, 419-430.

Mª GLÓRIA GOMES
Assistente, Eng.ª Civil
DECIVIL IST/ICIST
mgloria@civil.ist.utl

ANTÓNIO MORET RODRIGUES


Prof. Auxiliar, Eng.º Civil
DECIVIL IST/ICIST
ahr@civil.ist.utl

PEDRO MENDES
Professor Associado, Eng.ª Civil
DECIVIL IST/ICIST
mendes@civil.ist.utl

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 31


Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 ISSN 1645-5576

INDICADORES OBTIDOS COM A


INFORMATIZAÇÃO DO
PLANEAMENTO E CONTROLE DE
PRODUÇÃO PARA O
GERENCIAMENTO
DE OBRAS

ABLA AKKARI CARLOS TORRES FORMOSO


Doutoranda, USP Ph.D., Professor do NORIE/UFRGS
Brazil Brazil

SUMÁRIO

Uma das principais causas da ineficácia dos sistemas de planejamento e controle da produção, apontadas na
bibliografia, é o reduzido impacto de pacotes computacionais. O presente artigo discute um conjunto de
indicadores gerados a partir da utilização de um software de planejamento, que utiliza a técnica CPM como
base. Estes indicadores têm como principal função avaliar a implantação de um modelo de planejamento e
controle da produção, construído a partir do método Last Planner de controle da produção. Entre outros
objetivos, os indicadores propostos visam a monitorar a aderência entre os planos de longo, médio e curto
prazos gerados com o uso de pacote computacional. Foram realizados dois estudos de caso em empresas
construtoras de pequeno porte do Estado da Bahia. Em cada uma das empresas foi implementado um sistema
de planejamento e controle da produção em uma obra, com a utilização do software MSProject. Em ambas as
obras, os indicadores propostos foram testados, sendo propostas algumas diretrizes para a análise dos
mesmos.

Palavras-chave: Planejamento, informatização, indicadores.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 32


Indicadores obtidos com a informatização do planeamento e controle de produção para o gerenciamento
de obras

1. INTRODUÇÃO

Em resposta às necessidades de evolução e mudança gerencial, o setor da Construção Civil tem


procurado desenvolver sistemas e modelos de gestão, que contribuam para a melhoria do
desempenho do processo de construção e de seu produto final. Entre os processos abordados por
estes sistemas de gestão encontra-se o planejamento e controle da produção, cujo papel é
fundamental para alcançar a eficiência e eficácia na execução de um empreendimento. Este
processo tem um papel de grande importância, na medida que tem elevada influência no custo da
obra e na confiabilidade do sistema de produção em termos de cumprimento de prazos.

Nos últimos anos, alguns importantes avanços no planejamento e controle da produção em


empresas de construção têm sido reportados pela bibliografia na área, principalmente através da
aplicação do Método Last Planner de Controle de Produção. Segundo Ballard (2000), através
deste método consegue-se criar uma janela de confiabilidade para o sistema de produção, que
facilita a aprendizagem e contribui para estabilizar o sistema de produção.

O presente estudo se insere neste esforço visando desenvolver métodos de planejamento mais
eficazes, sendo focado na informatização do processo de PCP, através da utilização de um
pacote computacional disponível no mercado. Este tópico de investigação foi escolhido pela
crescente disseminação deste tipo de software e também pelo reduzido impacto da
informatização no PCP, relatada pela bibliografia (Laufer; Tucker, 1987; Bernardes, 2001).

Uma das questões de pesquisa estabelecidas neste estudo foi: que indicadores podem ser obtidos
ao implementar o modelo do PCP desenvolvido por Formoso et al. (1999) utilizando um pacote
computacional para interligar os diferentes níveis hierárquicos de planejamento?

A partir desta questão de pesquisa, definiu-se como objetivo do trabalho propor indicadores para
monitorar o cumprimento de prazo e o gerenciamento dos planos de curto, médio e longo
prazo a partir do uso do MSProject.

Foram desenvolvidos estudos de caso em obras executadas por duas empresas do Estado da
Bahia, uma de Feira de Santana e outra de Salvador. Os resultados integrais destes estudos estão
apresentados na dissertação de Akkari (2003).

2. ETAPAS DO TRABALHO

O estudo de caso 1 foi desenvolvido em uma obra de construção de um prédio universitário para
o Governo do Estado da Bahia, tendo sido dividido em três etapas. A primeira etapa foi
denominada de implementação do modelo de PCP, na qual foi implementado o planejamento de
médio e de curto prazo. Nesta etapa foram obtidos os indicadores: percentual de programação
concluída (PPC) e causas do não cumprimento do plano. Na segunda etapa, foi implementado o
planejamento de longo prazo utilizando o pacote computacional. A partir desta modificação
passou-se a filtrar os planos de médio e curto prazo, que eram revisados nas reuniões de
planejamento. Além do indicador citados, foram também coletados os indicadores de projeção
de prazo (PP) e avanço físico (AF%). Na terceira e última etapa foram processados e analisados
os dados obtidos.

O estudo de caso 2 foi dividido em quatro etapas. Ao contrário da empresa anterior, esta já
utilizava o pacote computacional, implementado por um consultor de planejamento. Na primeira
etapa foi realizado um diagnóstico da empresa, da mesma forma que no estudo de caso 1, a
implementação do PCP e foi obtido o indicador PPC. A segunda etapa foi iniciada após as
modificações feitas no plano de longo prazo que utilizava como pacote computacional o
software MSProject. Como não eram realizadas atualizações semanais, os pacotes de trabalho
definidos no plano de longo prazo se diferenciavam dos utilizados no curto prazo. Por esta razão,
procurou-se adequar o plano de longo prazo à realidade da obra, as alterações continuavam
sendo realizadas pelo consultor. A partir desta modificação passou-se a filtrar os planos de

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 33


Indicadores obtidos com a informatização do planeamento e controle de produção para o gerenciamento
de obras

médio e curto prazo, a exemplo do estudo de caso anterior. Nessa etapa foram obtidos os
indicadores de PPC e análise de causas. A terceira etapa também utilizou o pacote
computacional MSProject. Devido às atualizações, mesmo após as alterações, não refletirem a
realidade de execução e os pacotes de trabalho definidos no plano de longo prazo se
diferenciarem muito dos utilizados no curto prazo, a equipe da obra elaborou um novo plano de
longo prazo, adequando o mesmo à realidade. Nessa etapa foram obtidos os indicadores: PP,
AF% e PPC. A quarta etapa foi semelhante à terceira etapa do estudo de caso 1.

3. INDICADORES ANALISADOS

Os indicadores propostos foram obtidos facilmente a partir da utilização do software MSProject.


A seguir estão descritos três indicadores, os objetivos, os procedimentos para a coleta, as
fórmulas (caso existam), os critérios para análise e as periodicidades de coleta.

3.1 Projeção de prazo (PP)

Objetivo – monitorar o desempenho da obra em relação ao cumprimento de prazo.

Procedimento de coleta – o indicador de projeção de prazo corresponde à duração total estimada,


em dias, para execução da obra, a partir do cálculo do caminho crítico obtido da rede de
precedência atualizada. A análise deste indicador acontece toda vez que a rede é atualizada;

Critério de análise – se o número de dias necessários à execução da obra é maior que o previsto,
a obra está atrasada; se o número de dias necessários à execução da obra é menor que o previsto,
a obra está adiantada.

Periodicidade – semanal ou quinzenal, conforme o ciclo de controle do plano de curto prazo.

3.2 Percentual da programação concluída (PPC)

Objetivo – avaliar a eficácia do planejamento de curto prazo, identificar problemas na execução


e orientar a implementação de ações.

Procedimento de coleta – coleta-se os dados a partir das tarefas planejadas no plano de curto
prazo. No caso da realização de atividades reservas, ou suplentes, estas não são consideradas no
cálculo.

Número de tarefas concluídas


PPC =
Número total de tarefas planejadas

PPC > 80% - bom


Critério de análise – PPC < 80% e > 60% - médio
PPC < 60% - ruim

Periodicidade – semanal ou quinzenal, conforme o ciclo de controle do plano de curto prazo.

3.3 Avanço Físico (AF%)

Objetivo – representa a relação entre a quantidade de trabalho executado e o total previsto no


empreendimento.

Procedimento de coleta – é definido dando-se um peso a cada tarefa. Em geral, considera-se o


esforço para realizar a obra, expressos pelas quantidades previstas de homens-hora. Ao utilizar o
software MSProject, lança-se o número de homens-hora e a duração de cada tarefa e o cálculo é
realizado automaticamente através da formula abaixo. À medida que o controle é efetuado, o
software fornece dados do percentual acumulado de avanço físico realizado da obra. Este
indicador tem como principal dificuldade a necessidade de obter indicies de composição para

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 34


Indicadores obtidos com a informatização do planeamento e controle de produção para o gerenciamento
de obras

todas as tarefas. Tais índices podem ser de difícil obtenção para algumas empresas. Além disso,
sua geração está baseada no método do custo padrão, que traz implicitamente a utilização de
alocações arbitrárias de custos indiretos.

n° de horas de mão - de - obra gastas para realização das tarefas


AF% =
n° de horas de mão - de - obra total do projeto

Critérios de análise - esse indicador deve ser analisado em conjunto com o indicador de desvio
de prazo, pois seu valor elevado não reflete necessariamente o adiantamento da obra, pois as
tarefas antecipadas podem não estar no caminho crítico.

Periodicidade – semanal ou quinzenal, conforme o ciclo de controle do plano de curto prazo.

4. RESULTADOS DO ESTUDO DE CASO 1

Na figura 1 está apresentado o percentual de planos completos (PPC) na primeira etapa da


pesquisa (barras em azul). Observa-se que o PPC ficou, em média, em torno de 80%.

Os valores do PPC observados no inicio da implantação do PCP foram relativamente altos, pois,
em geral, espera-se que em uma empresa, sem experiência em planejamento, os valores do PPC
sejam mais baixos, em torno de 50%. Um dos motivos para estes altos valores foi o sub-
dimensionamento dos pacotes de trabalho.
100% 94% 92%
89% 91%
88%
90% 82%
80% 76% 74%
68%
70% 62%
60%
60% 56%
50% 51%
50% 42%
40%
30%
20%
10%
0%
06

07

07

07

07

08

08

08

08

09

09

09

10

10
8
/0
1/

5/

2/

9/

6/

2/

7/

2/

9/

9/

6/

3/

7/

4/
14
a2

a0

a1

a1

a2

a0

a0

a2

a2

a0

a1

a2

a0

a1
8a
14

22

06

13

20

30

03

16

23

03

10

17

01

08

Média móvel Linha de tendência 1a Etapa 2a Etapa

Figura 1 - PPC (1° etapa)

Também na figura 1 estão apresentados os PPC’s da segunda etapa do estudo (em rosa), após a
implantação do planejamento de longo prazo. Observa-se que os percentuais nesta etapa
reduziram para uma média de 56%. Ao se implantar o plano de longo prazo, o dimensionamento
de cada tarefa passa a ser filtrado desde plano, ou seja, existe um plano de curto prazo elaborado
com informações mais consistentes. Neste caso, não houve um sub-dimensionamento dos
pacotes de trabalho, da mesma forma que na primeira etapa, pois havia um plano de longo prazo
que era utilizado como referência para os planos de médio e curto prazo.

Com relação às causas do não comprimento das tarefas, apresentadas nas figuras 2 e 3,
observou-se que, na primeira etapa do estudo, os problemas de origem no planejamento
representavam cerca de 51% do total e os de suprimentos 22%. Outro problema relativamente
importante era o absenteísmo, apresentando 11% do total. Dos problemas de planejamento,
identificou-se que 74% relacionaram-se com o mau dimensionamento dos pacotes de trabalho,
refletindo, também, a forma intuitiva com que estes eram determinados.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 35


Indicadores obtidos com a informatização do planeamento e controle de produção para o gerenciamento
de obras

Condições
adversas do
tempo Outros
Projeto
4% 3%
9%
Planejamento
Absenteísmo 50%
12%

Suprimentos
22%

Figura 2 - Causas do não cumprimento dos pacotes de trabalho (1ª etapa)

Na segunda etapa do estudo, as causas dos não cumprimentos dos planos sofreram uma alteração
substancial e os problemas mais importantes passaram a ser: suprimentos (39%), absenteísmo
(22%) e projeto (10%).

Outros Retrabalho Planejamento


5% 10% 7%
Condições
adversas do tempo Suprimentos
7% 39%
Projeto
10%

Absenteísmo
22%
Figura 3 - Causas do não cumprimento dos pacotes de trabalho (2ª etapa)

Com relação ao processo de suprimentos da obra verificou-se que 75% dos seus problemas eram
ocasionados por falta de material (compras realizadas em quantidades inferiores às necessárias) e
por materiais fora das especificações. Com relação aos problemas de planejamento, na segunda
etapa verificou-se que estes passaram a representar apenas 7%, concluindo-se com isso que o
dimensionamento dos pacotes de trabalho, calculados com base nas composições apresentados a
partir do plano de longo prazo, foram mais eficazes. Outro fator que colaborou para o melhor
dimensionamento dos pacotes foi o efeito aprendizagem da equipe que participava da elaboração
dos planos.

Outro resultado obtido da implantação do planejamento de longo prazo foi o gráfico de avanço
físico, apresentado na figura 4. Este gráfico foi obtido semanalmente ao se atualizar o plano de
longo prazo, a partir dos pacotes de trabalho que foram executados completamente, ou com um
percentual dos que não foram integralmente concluídos.

100%

90%

80%
%AF

70%

60%

50%

40%
9

0
/0

/0

/0

/0

/1

/1

/1

/1
09

16

23

30

07

13

23

30
9a

9a

9a

9a

0a

0a

0a

0a
/0

/0

/0

/0

/1

/1

/1

/1
03

10

17

24

01

08

14

24

Período

Previsto Realizado

Figura 4 - Gráfico de avanço físico

Um outro indicador obtido a partir do plano de longo prazo é a projeção do prazo para entrega da
obra (Figura 5). Estes dados são obtidos também das atualizações semanais. Da análise desta

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 36


Indicadores obtidos com a informatização do planeamento e controle de produção para o gerenciamento
de obras

figura, observa-se que o prazo da obra era inicialmente de 252 dias. Contudo as informações
obtidas a partir das atualizações apontaram para um atraso da obra, cujo prazo de conclusão
previsto, na última semana do estudo, era de 269 dias.

275
270
265
260
255
250
245
240
03/09a09/09 10/09a16/09 17/09a23/09 24/09a30/09 01/10a07/10 08/10a13/10

Prazo real Prazo da obra

Figura 5 - Projeção de prazo

5. RESULTADOS DO ESTUDO DE CASO 2

Na figura 6 está apresentada a evolução do indicador de PPC no estudo de caso 2. Observa-se


que o PPC ficou, em média, em torno de 62%. Nota-se também uma variação relativamente alta
no PPC (de 43 a 76%), indicando que o processo de planejamento e controle ainda não havia
atingido níveis razoáveis de eficácia. Na segunda etapa observa-se uma tendência de aumento do
PPC (média de 77%). Nota-se também que o PPC não oscila tanto como na primeira etapa,
principalmente nas últimas seis semanas.
100%

90% 86%
82% 83% 81%
77% 75% 79% 78%
80% 74% 76% 76%
71%
70% 65% 67%
64%
60%
60% 56%
53%
49%
50% 43%
40%

30%

20%

10%

0%
7

4
1 8 06

25 06

2 0 07

27 07

0 3 08

1 0 08

1 7 08

3 1 08

0 7 09

1 4 09

08 9

5a 4
30 06

6a 7

2 4 08

01 03
0

0
0

/0

/0
4/
6/

9/
6/

1/

9/

9/

2/

6/

3/

0/

6/

3/

0/

1/

4/
5/

1/
12

a1

11
a1

a2

a0

a1

a3

a0

a1

a2
a2

a2

a1

a0

a2

a2

a3

a0
a0
11

22
13

15

Linha de Tendência Média Móvel 1a Etapa 2a Etapa 3a Etapa

Figura 6 - PPC da Obra (1ª, 2ª e 3ª Etapa)

Na terceira etapa, o PPC da obra apresenta uma média de aproximadamente 67%,ou seja, houve
uma queda de 10% no PPC médio. Isso pode ser atribuído principalmente ao fato de que a obra
entrou em sua fase final, próximo à entrega. Nesta fase tende a aumentar o número de pacotes de
trabalho semanais (46 na 1a etapa, 75 na 2a etapa e 144 na 3a etapa) e o grau de interdependência
entre os mesmos, dificultando o seu controle. Finalmente, nesta etapa, existe o surgimento de
problemas imprevistos, típicos das tarefas de acabamento das obras.

Condições
adversas do Execução
tempo 1%
24%
Planejamento
Projetos 56%
2%

Absenteísmo
7%
Suprimentos
10%

Figura 7 - Causas do não cumprimento dos pacotes de trabalho – 2ª etapa

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 37


Indicadores obtidos com a informatização do planeamento e controle de produção para o gerenciamento
de obras

Com relação às causas do não cumprimento das tarefas, apresentada na figura 7 (2ª Etapa),
observa-se que os problemas com origem no planejamento representavam cerca de 56% do total,
condições adversas do tempo 24%, suprimento 10%, absenteísmo 7%, projetos 2% e execução
1%. Nessa etapa como a atualização do plano de longo prazo (MSProject) ocorria algumas
semanas após a execução, não se pôde colocar em prática todos os indicadores propostos, sendo
necessário retornar à empresa após alguns meses. Apesar da presença da engenheira de
suprimentos nas reuniões de médio e curto prazo, os problemas relacionados à falta de materiais
tiveram um aumento de 10% para 12,1%.

C o n d iç õ e s E xec uç ão
P r o je t o a d ve rs a s d o 1 ,5 %
1 ,5 % te m p o
O u tr o s
0 ,0 %
A b s e n te ís m o 1 ,5 %
9 ,5 %

S u p r im e n t o s
1 2 ,1 %
P la n e ja m e n t o
7 3,9 %

Figura 8 - Causas do não cumprimento dos pacotes de trabalho – 3ª etapa

Com relação à 3ª Etapa (figura 8), observa-se que os problemas com origem no planejamento
aumentaram de 57%, na etapa anterior, para 73,9%. Problemas de absenteísmo, que antes
representavam 7%, aumentaram para 9,5%. Os problemas de projeto reduziram-se em 0,5% (2%
para 1,5%). Problemas com condições adversas do tempo reduziram de 23% para 0% e para os
problemas de execução houve um aumento de 0,5% (1% para 1,5%).

Outro indicador analisado foi a projeção de prazo, cuja evolução está apresentada na figura 9.

800

796

792
P R A Z O EM D

788

784

780

776

772
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13
P ER Í O D O

Figura 9 - Projeção de Prazo

Nas duas primeiras semanas observa-se que não foi indicado atraso da obra. Muitas tarefas
previstas para serem realizadas nesse período já haviam sido concluídas antes da primeira
reunião semanal. Isso pode ser percebido no gráfico de avanço físico (figura 10).

Neste gráfico os percentuais realizados apresentam valores mais elevados que os previstos. A
partir da terceira semana, a obra começa a apresentar atraso, pois as programações elaboradas
não estavam sendo cumpridas, resultando na queda do PPC.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 38


Indicadores obtidos com a informatização do planeamento e controle de produção para o gerenciamento
de obras

10 0 %

9 0%

8 0%

7 0%

6 0%

5 0%

4 0%

3 0%

2 0%

10 %

0%
1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 11
P E R ÍO D O

Figura 10 - Projeção de Prazo

6. ANÁLISE DE RESULTADOS

O conjunto de indicadores propostos está resumidamente apresentado no quadro 1. Este quadro


descreve de forma resumida as conclusões que se pode obter. Dois deles, avanço físico e
projeção de prazo, foram identificados pela gerência das duas obras como os mais importantes
para o gerenciamento e tomada de decisão. Os demais servem como suporte para analisar a
qualidade dos planos e identificar problemas existentes no processo de planejamento e controle
da produção.

A partir da análise dos dados, estabeleceu-se as seguintes diretrizes para a análise conjunta dos
indicadores:

Alto PPC, baixo avanço físico, aumento do prazo da obra – nem todas as tarefas previstas no
plano de longo prazo são inseridas no plano de curto prazo (AF% baixo). Dentre as tarefas não
programadas ou atrasadas estão as que fazem parte do caminho crítico (aumento do prazo da
obra). Mas as tarefas comprometidas no plano de curto prazo são cumpridas em sua maioria
(PPC alto) Isto pode ser atribuído ao sub-dimensionamento dos planos de curto prazo.

Alto PPC, baixo avanço físico, redução do prazo da obra – nem todas as tarefas previstas no
plano de longo prazo são inseridas no plano de curto prazo (AF% baixo). Dentre as tarefas
programadas ou adiantadas estão as que fazem parte do caminho crítico (redução ou manutenção
do prazo da obra). Mas as tarefas comprometidas no plano de curto prazo são cumpridas em sua
maioria (PPC alto) Isto pode ser atribuído ao sub-dimensionamento dos planos de curto prazo.

Alto PPC, alto avanço físico, aumento do prazo da obra – os pacotes previstos no plano de longo
prazo, que fazem parte do caminho crítico, não estão sendo programados ou não estão sendo
realizados no prazo, mas outros pacotes não previstos nesse período e que não fazem parte do
caminho crítico estão sendo programados e executados.

Alto PPC, alto avanço físico, redução ou manutenção do prazo – os pacotes previstos no plano
de longo prazo estão sendo programados e realizados, outros pacotes não previstos no longo
prazo podem também estar sendo comprometidos e cumpridos no plano de curto prazo. As
restrições são sistematicamente removidas, as tarefas do caminho crítico estão sendo realizadas.

Baixo PPC, baixo avanço físico, redução ou manutenção do prazo – nem todos os pacotes
previstos nos planos de longo prazo estão sendo programados, mas aqueles que fazem parte do
caminho crítico são programados, realizados nos prazos pré-estabelecidos e até mesmo
adiantados.

Baixo PPC, baixo avanço físico, aumento do prazo – os pacotes previstos não estão sendo
programados e os pacotes programados não são realizados.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 39


Indicadores obtidos com a informatização do planeamento e controle de produção para o gerenciamento
de obras

7. REFERÊNCIAS

[1] AKKARI, A. Interligação entre o Planejamento de Longo, Médio e Curto prazo com
o Uso do Pacote Computacional MSProject: proposta baseada em dois estudos de
caso. 2003. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil) – Núcleo Orientado para a
Inovação da Edificação, Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil, Escola de
Engenharia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003.
[2] BALLARD, G. The Last Planner System of Production Control Birmingham; School
of Civil Engineering. Faculty of Engineering, University of Birmingham, 2000. Tese
de doutorado.
[3] BERNARDES, M. Desenvolvimento de um Modelo de Planejamento da Produção para
Empresas de Construção de Micro e Pequeno Porte, Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre, Tese de doutorado, 2001.
[4] FORMOSO,C.; BERNADES, M.; OLIVEIRA,L.; OLIVEIRA,K. Termo de
Referência para o Processo de Planejamento e Controle da Produção em Empresas
Construtoras, Porto Alegre: NORIE/UFRGS, 1999.
[5] LAUFER, A.; TUCKER,R. Is Construction Planning Really Doing Its Job? A
Critical Examination of Focus, Role and Process. Construction Management and
Economics, London, 1987.

ABLA AKKARI
Doutoranda USP
Brazil
abla.akkari@poli.usp.br

CARLOS TORRES FORMOSO


Ph.D., Professor do NORIE/UFRGS
Brazil
formoso@vortex.ufrgs.br

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 40


Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 ISSN 1645-5576

PADRÕES INTERNACIONAIS PARA A


TROCA E COMUNICAÇÃO DE DADOS
EM PROJETOS DA INDÚSTRIA DA
CONSTRUÇÃO CIVIL

ANA M.D. ORESTES E. ROBERTO MALIK


TRISTÃO ALARCON LAMBERTS CHERIAF
Doutoranda Prof. Eng.ª Mecânica Prof. Eng.ª Civil Prof. Eng.ª Civil
Universidade Federal de Santa Catarina, Brazil

SUMÁRIO

Melhorar a comunicação, a troca e a integração da informação são desafios técnicos e organizacionais que
devem ser superados. Um desses desafios é a padronização de estruturas de informação para a indústria da
construção. Simplesmente, isto envolve definir a linguagem que pode ser usada para comunicar informação
entre diversas partes. Sob este tópico amplo, muitos esforços de padronização estão atualmente a caminho.
No trabalho apresenta-se um levantamento dos esforços internacionais de padronização na indústria da
construção visando à troca e comunicação da informação. Descreve-se as organizações internacionais
envolvidas neste processo de padronização.

Palavras-chave: padrões, comunicação e troca de dados, construção civil.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 41


Padrões internacionais para a troca e comunicação de dados em projetos da indústria da construção civil

1. INTRODUÇÃO

Numa fase de globalização da economia mundial e com o aumento de competitividade que se


tem verificado no setor da construção civil, urge apresentar soluções para o problema da
comunicação do processo construtivo. As soluções apontadas passam pela troca eletrônica de
informação, através de protocolos padrões, que permitam a transferência de informação
estruturada entre distintas aplicações de diferentes computadores [1].

Historicamente computadores são usados para resolverem problemas muitos específicos dentro
da indústria de Arquitetura, Engenharia e Construção -AEC, lidando com um ambiente
fragmentado que tem sido referido como “Ilhas de Automação” ou “Ilhas de Informação”. Ao
longo do tempo se expôs uma grande extensão de aplicações e uma grande oportunidade para
trocar informação. Entretanto, mecanismos correntes de troca de informação tais como arquivos
de formato DXF1 são inadequados. No futuro, negócios na área de ferramentas de computação,
tecnologias de informação e integração poderão prover uma base forte que una todas as áreas de
computação da AEC [2].

Diferentes segmentos da construção civil e de países distintos têm chegado a um número


coincidente: o uso da tecnologia de informação contemporânea pode reduzir 30% o custo de
projetos na área da construção civil, principalmente no que se refere ao desperdício causado pela
inabilidade no compartilhamento de informações [3].

A industria de Arquitetura, Engenharia e Construção - AEC superou a magnitude e


complexidade dos projetos de construção, em parte, através da divisão do trabalho dentro de
pequenos pacotes tradicionais, bem definidos e especializados. Isto lida com uma diversidade de
especialidades de projetistas e sub-empreiteiros colaborando em um projeto. Embora este
enfoque tem servido bem a indústria, ele lida com sérias dificuldades na comunicação e
transferência de informação entre os participantes. A inexistência de uma linguagem comum
implica na redigitação de dados, baixa integração entre softwares, baixa integração entre agentes
da cadeia produtiva e uso incipiente da tecnologia de informação.

Melhorar a comunicação, a troca e a integração da informação são desafios técnicos e


organizacionais que devem ser superados. Um desses desafios é a padronização de estruturas de
informação para a indústria da construção. Simplesmente, isto envolve definir a linguagem que
pode ser usada para comunicar informação entre diversas partes.

Sob este tópico amplo, muitos esforços de padronização estão atualmente a caminho. Os
sistemas de classificação únicos na indústria são um dos esforços nesta direção. Cabe identificar
e categorizar as informações para viabilizar uma sistemática na organização e projeção desta
estrutura de classificação.

O processo da construção é rico em informação. O fluxo de informação é complexo porque


envolve um grande número de agentes e interfaces. Muitas das barreiras de interface podem ser
superadas pelo uso sistemático de comunicação da informação tais como classificação,
codificação e terminologia controlada [4], conforme observa-se na Figura 1.

1
DXF (Drawing Interchange Format) é o formato mais usado de intercâmbio de dados de softwares CAD para sistemas
de informação pequenos

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 42


Padrões internacionais para a troca e comunicação de dados em projetos da indústria da construção civil

* Linguagem/
Terminologia
* Classificação/
Codificação
* Convenções
gráficas
Conhecimento
Conhecimento Decodificadas Decodificadas Idéias
Idéias Prontas para Prontas para Decisões
Decisões transmissão assimilação
Sinais via vários meios:
Usando gráficos,
descritivos ou meios
numerativos de
expressão

EMISSOR A RECEPTOR B

Figura 1: Instrumentos para facilitar a troca e comunicação de dados

2. SISTEMAS DE CLASSIFICAÇÃO DA INFORMAÇÃO NA INDÚSTRIA DA


CONSTRUÇÃO

Por mais de 50 anos, sistemas para classificar informação na construção civil têm sido usados
com o objetivo de auxiliar a organização racional, o armazenamento e a recuperação da
informação. Foram criados como um meio prático para trocar informações sobre desenhos,
orçamentos, especificações, modelos, catálogos. O primeiro exemplo de uma classificação
formal da construção foi usada na Suécia em suas Especificações. Nacionais da Construção -
Bygg – AMA (General material and work specification for building) publicada em 1950.
Chamado SfB em função do nome do Comitê responsável ( Samarbettskommitten for
Byggnadsfr Cgor), o sistema de classificação era também usado para informação de produto e
informação de custo [5].

Os sistemas de classificação na indústria da construção padronizam as estruturas de informação


para compartilhamento de dados. Eles provêem categorizações detalhadas da informação de
acordo com critérios específicos. Por exemplo, categorizam tipos de obras de acordo com seu
propósito principal (ex. fábricas, hospitais, avenidas), tipos de espaços de acordo com seu uso
(ex.: espaços de escritórios, espaços para dormir, etc..) ou tipos elementos físicos da edificação
de acordo com a forma ou função (ex.: paredes, pisos, elementos de fornecimento de energia).
Essas categorizações se constituem em tabelas de classificação. Sistemas de classificação
padronizados fornecem um mecanismo para estruturar informações de projeto tais como
especificações ou informações de preço de uma maneira consistente através da indústria.

Esforços de organizações internacionais tem sido empreendidos para desenvolver um padrão de


sistema de classificação que suporte os negócios internacionais.

3. ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS DE PADRONIZAÇÃO VISANDO À TROCA


E COMUNICAÇÃO DE DADOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL

O trabalho de padronização para troca e comunicação de dados na construção civil tem sido
conduzido pelo CIB – W78 e pelo comitê da ISO TC 59 – sub-comitê SC-13 que é responsável
pela organização da informação no processo construtivo. Dois documentos importantes foram
publicados, a ISO TR 14117/1994 –Classificação da informação na indústria da construção após
revisada foi publicada numa versão mais resumida como ISO DIS 12006-2 - Organization of
information about construction works — Part 2: Framework for classification of information.
Ambos documentos vêm servindo de linha orientadora para os desenvolvimentos mundiais no
assunto.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 43


Padrões internacionais para a troca e comunicação de dados em projetos da indústria da construção civil

Na ISO o comitê TC 59 Building Construction é responsável pela padronização nos seguintes


campos:
− Terminologia para edifícios e engenharia civil;
− Organização da informação no processo construtivo: projeto, produção, manutenção e
demolição;
− Definição das exigências geométricas gerais para edifícios e engenharia civil,
incluindo coordenação modular (os seus princípios básicos), regras gerais para juntas,
tolerâncias e forma; e,
− Elaboração de regras gerais de desempenho para edifícios e obras de engenharia civil.

Ainda na ISO têm-se outras comissões de estudo envolvidas:


a) ISO TC10 SC1 - dedicando-se às definições básicas, tais como a terminologia do
processo construtivo;
b) ISO TC10 SC8 - responsável pela documentação do processo construtivo, tendo
apresentado uma proposta de norma para a organização e denominação de "layers"
para CAD, com base na definição dos elementos (ISO DIS 15567-1);
c) ISO TC184 -SC4 - desenvolvendo trabalhos na área dos sistemas de automação
industrial e integração, elaborando o protocolo STEP- Standard for the Exchange of
Product Model Data e o STEP Physical File Format (ISO 10303-21) para
transferência eletrônica de dados (EDI), desenvolvendo uma linguagem de
modelagem da informação designada por EXPRESS e uma técnica de notação gráfica
denominada EXPRESS-G. Apresentou ainda o BCCM – Building Construction Core
Model, que é uma proposta de modelo do processo construtivo em EXPRESS. Esta
última não foi ainda aprovada por necessitar de ser integrada com o modelo de
classificação proposto pela ISO TC59/SC13.

3.1.Outros esforços de padronização para troca e comunicação de dados na construção


civil

a) Electronic Data Interchange– EDI

Electronic Data Interchange - EDI é a transferência eletrônica de dados de um sistema de


computador para outro usando padrões de formato de dados acordados. EDI originalmente foca
na troca de operação de negócios comuns tais como compra e seu uso está crescendo
rapidamente nesta área. Agora, EDI está movendo dentro de áreas técnicas tais como dados
CAD e catálogos de produtos. Com objetivo de implementar EDI dentro da indústria, devem ser
bem definidos os padrões e protocolos para cada tipo de mensagem que pode ser trocada.
Organizações têm sido estabelecidas para criar estes padrões, tais como Organização EDIFACT
estabelecida nas Nações Unidas.

Esforços de desenvolvimento de mensagem EDI dentro da indústria da construção incluem uma


lista de elementos individuais da construção, suas quantidades e seus custos. Outra área de
desenvolvimento de mensagens EDI é a troca de dados CAD. A abordagem atual é criar
mensagens EDI que acompanham, referem e descrevem arquivos CAD, mas não contém nem
são combinados com o arquivo CAD.

b) STEP - The STandard for the Exchange of Product Model Data

The STandard for the Exchange of Product model data- STEP - é um esforço internacional na
ISO para produzir padrões de alto nível para troca de informação de produtos (chamado de
modelos de produto) que suportam troca e comunicação de informações técnicas dentro das
indústrias. Modelos STEP de produtos são modelos de dados ricos, estruturados baseados em
objetos de produtos industriais. São projetados para prover descrição bastante completa.
Aplicações cruzadas de dados de produto, e metodologia de modelagem para defini-los são
extensas e formais. Como resultado, modelos STEP são complexos para desenvolver e usar, mas
eles estendem importante ajuda para capacitar troca difundida de informações técnicas
complexas entre aplicações heterogêneas de computadores através da indústria e STEP é
atualmente a área mais ativa de pesquisa dentro da área de padronização da informação na AEC.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 44


Padrões internacionais para a troca e comunicação de dados em projetos da indústria da construção civil

O formato de arquivo físico STEP tem emergido como um formato de arquivo neutro para trocar
dados completos de produtos. Um arquivo STEP é um arquivo texto que contém valores de
dados. Sua estrutura de dados conta com um modelo de dados conceitual o qual define e
explicita as especificações de dados padronizadas para interpretar os dados STEP. É este o
modelo que provê uma explanação do contexto (escopo) e significado (relações) dos dados a
serem trocados. Ele é usado com um algoritmo de decodificação para ler e escrever arquivos
físicos STEP que contém ambos os dados e seu contexto associado, desta maneira possibilitando
comunicação efetiva e flexível entre sistemas de computador [6].

STEP é um padrão internacional para representação e troca de dados de produtos interpretáveis


por computador.

c) Padronização de layers de CAD

Um comitê da ISO (TC10/SC8/WG13) está desenvolvendo um padrão internacional para o uso


de camadas (layers) em desenhos em CAD para construção. Seu propósito é que camadas
individuais deveriam ser identificadas em termos de três categorias de informação obrigatórias –
agente (a parte responsável), elemento construção (tipo de componente), e elemento gráfico
(cores) como também 4 categorias opcionais – status ( ex.: estrutura existente, para ser
demolida, nova estrutura), segmento tempo, segmento espaço (localização) e uma categoria
definida pelo usuário.

BINGUNATH, coordenador da rede The network on Information Standardisation, Exchange


and Management – SIENE [8], compilou uma lista de tipos de padrões disponíveis na indústria
da construção, descritos a seguir:

1) CITE – Construction Industry Trading Electronically. É uma iniciativa para troca colaborativa
de informação eletrônica na indústria da construção – UK. CITE desenvolveu padrões XML
baseado em padrões internacionais existentes de dados, para permitir companhias da industria da
construção acessar os benefícios XML. (http:/www.cite.org.uk).

2) IFCs – Interoperabilidade através de domínios é um produto da IAI (International Alliance


for Interoperability), uma organização que tem, entre seus membros, aproximadamente 600
companhias, entre as quais, Autodesk e Bentley, fornecedores de softwares Autocad e
Microstation respectivamente. A IAI tem trabalhado para definir e implementar uma linguagem
comum para a integração das informações de projeto, que seja válida par todo o ciclo de vida do
produto. O IFC tem dois tipos de documentos de especificação. O primeiro tipo ajuda os
profissionais a entenderem os conceitos específicos de cada disciplina, contidos no modelo de
informação, usando a linguagem Express-G do padrão STEP. O segundo serve como guia para
desenvolvedores de software que pretendam implementar interoperabilidade no seu produto
utilizando o padrão de interface IFC, baseado na linguagem MIDL da Microsoft.

3) DXF – Neutral CAD exchange


O formato de arquivo DXF foi criado originalmente pela Auto Desk para representar modelos e
cenas construídas com o AUTOCAD. O formato DXF é sinônimo com o formato DWG.
Usuários do Autocad tem sempre sido capazes de trabalhar com arquivos DXF através de
comandos familiares que acessam e gravam arquivos de desenho. ( http://www.autodesk.com).

4) bcXML – building construction taxonomy and dictionary

Na comunidade européia foi criado um projeto chamado “E-construct” contendo um esquema de


taxonomia e um dicionário em XML chamado bcXML ( Building Construction eXtensible
Mark-up Language) que é focado em produtos, recursos, métodos de trabalho e regulamentos da
construção.

Esta nova tecnologia de informação ajuda a prover a indústria com uma infra-estrutura de
comunicação de baixo custo que suporta negócios eletrônicos entre clientes, arquitetos,

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 45


Padrões internacionais para a troca e comunicação de dados em projetos da indústria da construção civil

engenheiros, fornecedores (de componentes, sistemas e serviços), empreiteiros e sub-


empreiteiros. Ele integrará com E-commerce e aplicações de projeto e engenharia e suportará
empresas de construção virtuais além da fronteira dos estados europeus
(http://www.econstruct.org)

5) aecXML – linguagem baseada em XML usada para representar informações na indústria


AEC.

A informação pode ser recursos tais como projetos, documentos, materiais, partes, organizações,
profissionais e atividades como propostas, projeto, estimativa e construção. A linguagem
aecXML pretende facilitar a troca de informação de dados da indústria AEC na internet. Esta
iniciativa está aliada a IAI – Associação internacional de interoperabilidade. Sua missão é trazer
a TI para o projeto, construção e operação da edificação e desenvolver um ambiente no qual
programas de computador podem compartilhar e trocar dados automaticamente ( sem
intervenção e tradução humana), independente do tipo de software ou onde os dados possam
estar residindo, ( http://aecxml.org).

6) ebXML- Estrutura global em XML para especificação de negócios – UN/CEFACT


departamento das Nações Unidas para facilitar negócios eletrônicos e Organization for the
Advancement of Structured Information Standards - OASIS ( organização de padrões avançados
de informação estruturada) juntam esforços para iniciar um projeto para padronizar
especificações XML. A iniciativa ebXML foi estabelecida para desenvolver uma estrutura
técnica que capacite XML ser usado de uma maneira consistente para a troca de dados
eletrônico, com o objetivo de criar um mercado eletrônico único global .

7) IFCXML – IFC em formato XML

A meta deste projeto (a extração ifcXML e avaliação de projeto) é a provisão de conteúdo e


estrutura acordados internacionalmente de especificação IFC2x ( e qualquer subconjunto válido)
para a comunidade XML. Os seguintes casos de uso devem ser considerados: - Capacitar a troca
de arquivos de dados IFC alternativamente como exemplo documentos XML; - Capacitar o
reuso de conteúdo e estrutura IFC dentro de iniciativas baseadas em XML para troca e
compartilhamento na construção e indústria FM ( Facility Management).

8) IFD - International Framework for Dictionaries

IFD é desenvolvido e mantido pela ISO TC 59/SC 13/WG 6. IFD é um modelo em Express2
padronizado conforme ISO/DIS 12006-3. Diversos países têm iniciado a construção de
dicionários baseados em IFD: BARBI3 (Holanda), LEXICON4 (Noruega).

A norma “PAS (Publicly Available Standard) 12006-3: Organization of information about


construction works - Part 3: Framework for object-oriented information exchange” implementa a
abordagem básica da DIS 12006-2, mas utiliza as entradas nessas tabelas como as características
para a organização da informação orientada para objetos. Também conhecido como modelagem
de produto, essa abordagem descreve as características dos objetos sem uma preferência de
grupo ou uma ordem de especialização. O objeto aqui é central, concentrando todas as suas
características. Um objeto pode ser agrupado com o auxílio de sistemas de classificação que
utilizam uma ou mais características deste para sua classificação.

2
Express – linguagem parecida com arquivo de texto que permite abrir arquivo tanto no formato texto como modelo 3D
dependendo do sotware utilizado.
3
BARBI- The Norwegian Building Industry’s Reference Data Library- é uma iniciativa da indústria da construção da
Noruega com membros do Conselho Norueguês para padronização na construção, instituto de pesquisa da Noruega,
Associações de engenheiros, arquitetos, proprietários, contratantes, fabricantes de produtores de materiais, produtos e
catálogos de produtos. É uma biblioteca de dados de referência numa linguagem neutra, orientada a objeto e conceitual.
4
Lexicon – desenvolvido pelo STABU ( instituto de Especificações da Holanda) consiste de um conjunto de conceitos,
agrupados em categorias. Os conceitos no Lexicon representam a linguagem da indústria da construção.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 46


Padrões internacionais para a troca e comunicação de dados em projetos da indústria da construção civil

4. CONCLUSÃO

Em síntese, procurou-se nesse trabalho destacar a importância da tecnologia de informação e


suas aplicações para viabilizar o trabalho cooperativo e o intercâmbio de dados padronizados
entre todos os agentes do processo da construção.

Atualmente os dois maiores esforços de padronização na indústria da construção civil são o ISO
STEP e o IFC. No padrão ISO STEP, o critério mais importante, de como manter a integridade
semântica do projeto na base de dados, ainda não está encaminhado. O desafio de se decifrar a
imensa quantidade de informações contidas no padrão é também apontado como responsável
pela grande resistência a sua adoção. O padrão IFC possui um escopo bastante limitado, apenas
para edifícios. Possui poucos recursos financeiros tornando o progresso lento, porém muito mais
ágil do que o STEP. O IFC tem seu foco direcionado quase que exclusivamente para as
aplicações de CAD. (MICALI, 2000).

Os protocolos para transferência eletrônica de dados, tais como o STEP e o EDIFACT que
permitem a troca de informação entre computadores e aplicações distintas sem intervenção
humana são desenvolvidos por organizações importantes como a ISO e a ONU respectivamente,
por serem considerados instrumentos fundamentais na reorganização mundial do comércio.

5. REFERÊNCIAS

[1] MONTEIRO, Miguel. Classificação da Informação na Indústria da Construção.


Dissertação (Mestrado), Porto, FEUP, 1998.
[2] FROESE, Thomas. A summary of: Workshop on the standardization of information
structures in the construction industry. The Royal Institute of Technology,
Stockholm, Suécia, April de 1994. Disponível em:
<www.civil.ubc.ca/~tfroese/pubs/fro94c_stockholm/ fro94c_abstract.html>. Acesso
em março de 2003.
[3] MICALI, Um modelo para integração da indústria da construção civil. São Paulo, Tese
(doutorado). Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, 2000, 146 pg.
[4] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO (1994).
Classification of information in the construction industry: ISO Technical Report
14177:1994 (E). Geneva: ISO. 1994. 1v.
[5] WRIGHT, Terry. Terminology for object modeling of construction information. A
report on some of the issues for ISO/TC59/SC13, 1998. Disponível em:
<http://www.icis.org/Objects/ObjectsTerminology.pdf> . Acesso em junho de 2002.
[6] SUN, M. & AOUD, G. Integration Technologies to Support Organizational Changes
in the Construction Industry. 7th ISPE International Conference on Concurrent
Engineering, Lyon, France, 17-20 July 2000, pp596-604. Disponível em:
<http://www.scpm.salford.ac.uk/siene/france.pdf>. Acesso em: junho de 2002.
[7] BINGUNATH, INGIRIGE. Tipos de padrões disponíveis na indústria da construção.
Compilado por Ingirige Bingunath. Coordenador da rede., maio de 2001. Disponível
em : <http://www.scpm.salford.ac.uk/siene/brainstorm_birmingham.pdf>. Acesso em
julho de 2002.

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 47


Padrões internacionais para a troca e comunicação de dados em projetos da indústria da construção civil

ANA MARIA DELAZARI TRISTÃO


Mestre em Engenharia
Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil
Universidade Federal de Santa Catarina
Brazil
ana@infohab.org.br

ORESTES ESTEVAM ALARCON


Doutor em Engenharia Mecânica
Professor do Departamento de Engenharia Mecânica
Universidade Federal de Santa Catarina
Brazil

ROBERTO LAMBERTS
Professor do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil
Universidade Federal de Santa Catarina
Brazil

MALIK CHERIAF
Professor do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil
Universidade Federal de Santa Catarina
Brazil

Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 48


Revista Internacional Construlink; Nº 12 – JUN. 2006 VOL. 4 49