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Determinação experimental da

condutividade e difusividade térmica de


grãos em regime permanente1

Kil Jin PARK2,*, Luís Felipe Toro ALONSO2,


Alexandre Sznelwar NUNES2

RESUMO
Foram determinadas experimentalmente em
regime permanente a difusividade e a
condutividade térmica de materiais biológicos. O
equipamento com termopares de Cobre-
Constantan dispostos radialmente no interior do
cilindro conectados a uma unidade registradora
de dados acoplados a um microcomputador
fornece a leitura das temperaturas dos
termopares. Os valores obtidos de difusividade
(1,12x10-4 m2/s) e condutividade térmica
(0,138W/moC) para o trigo (Triticum aestivum) e
os valores de difusividade (1,67x10-4 m2/s) e
condutividade térmica (0,122W/moC) para o
arroz em casca (Orysa sativa)concordam com os
valores encontrados nos ASAE STANDARTS
[1], demonstrando a funcionalidade do
equipamento.
Palavras-chave: condutividade, difusividade,
propriedade térmica.

SUMMARY
Steady state determination of thermal
conductivity and thermal diffusivity for
grains. In this paper the thermal diffusivity and
the thermal conductivity of some biological
materials were determined. The device has six
thermocouples type ‘T’ radially distributed in a
cylinder connected to a data acquisition system
registering the temperature change. The values of
thermal diffusivity (1,12x10-4 m2/s) and thermal
conductivity (0,138W/moC) obtained for wheat
(Triticum aestivum), and the values of thermal
diffusivity (1,67x10-4 m2/s) and thermal
conductivity (0,122W/moC) obtained for shelled
rice (Orysa sativa) match to those found in the
ASAE STANDARTS (1990), certifying the
usefulness of the equipment.
Keywords: conductivity, diffusivity, physical
properties.

1 – INTRODUÇÃO
O presente trabalho apresenta um equipamento de baixo custo
de construção, instalado na Fac. de Eng. Agrícola/UNICAMP
para a determinação experimental da difusividade e
condutividade térmica de materiais biológicos.
O conhecimento das propriedades térmicas de grãos e sementes
é essencial para o desenvolvimento das ciências agrícolas e de
alimentos podendo ser empregadas a uma grande variedade de
objetivos, tais como: predição da taxa de secagem ou
distribuição de temperatura em grãos úmidos sujeitos a
diferentes condições de secagem, aquecimento ou resfriamento,
otimização do desempenho de equipamentos de transferência de
calor, reidratação, aparatos de esterilização, etc.
De acordo com SHARMA e THOMPSON [9], há muitos
métodos para avaliar as propriedades térmicas de grãos e
sementes úmidos, os quais fornecem aproximações grosseiras
dos resultados, o que indica a necessidade de pesquisa sobre
esse assunto, bem como sua contribuição em processos de
secagem e estocagem de grãos e sementes.
O método mais usual atualmente adotado é o método de estado
transiente. É adotado devido a grande vantagem de requerer
menor tempo de teste. Algumas dificuldades são associadas a
este método, tais como: medir a temperatura, localização dos
termopares, transferência de calor convectiva em medições de
propriedades térmicas de materiais granulares [2].
A determinação em regime estacionário contrapõe-se à
determinação em regime transiente. Embora o regime transiente
seja vantajoso no curto período de experimento e na precisão da
determinação, os detalhes construtivos de equipamento
experimental para o regime transiente são maiores e mais
dispendiosos que os de um equipamento experimental em
regime estacionário [8].
É propósito deste artigo, descrever a construção de um
equipamento de baixo custo, para a determinação experimental
da difusividade e condutividade térmica de materiais biológicos.
As propriedades térmicas, tais como difusividade e
condutividade térmicas, variam segundo a natureza do produto,
variedade, teor de umidade e temperatura [5].
Segundo FREIRE [2], os métodos de estado estacionário podem
ser divididos em: método das placas paralelas, método do
cilindro concêntrico e método da esfera concêntrica. Estes três
métodos requerem uma solução de equações de transferência de
calor para um regime de estado estacionário em coordenadas
retangulares, cilíndricas e esféricas, respectivamente.
O método de placas paralelas foi utilizado por JIANG e
JOFRIET [4] para silagem de alfafa. OXLEY [7], utilizou o
método da esfera concêntrica para determinação da
condutividade térmica para diferentes grãos como trigo, milho e
aveia.
No método de estado estacionário, a temperatura constante é
mantida em cada superfície da amostra teste. A razão constante
de fluxo de calor, obtida após o equilíbrio, é medida para uma
dada área seccional perpendicular ao fluxo e um gradiente de
temperatura. Aplicando-se a 1a Lei de Fourier de transferência
de calor, a condutividade média pode ser calculada. Devido a
sua simplicidade, este foi um dos primeiros métodos a serem
utilizados para materiais biológicos. [2]
1.1 – Primeira e Segunda Lei de Fourier
A transferência de calor é o processo que se identifica pela
transferência de energia entre dois sistemas diferentes como
resultado da diferença de temperatura entre eles.
Há três meios distintos de transferência de calor, denominados
condução, radiação e convecção, que atuam de forma
combinada.
A convecção é o processo de transporte de calor decorrente da
movimentação do fluido por diferença de densidades ou
agitação.
Na radiação o calor é transferido mesmo quando os corpos estão
separados. Neste caso o calor é transmitido pela propagação de
ondas eletromagnéticas e luminosas.
A condução é um processo pelo qual o calor flui de uma região
de alta temperatura para outra de mais baixa temperatura dentro
de um meio (sólido, líquido ou gasoso) ou, entre meios
diferentes em contato físico direto. O calor passa através do
corpo sólido pela transferência física de elétrons livres e pela
vibração de átomos e moléculas, e cessa quando a temperatura
em todos os pontos do sistema atingem o equilíbrio térmico. [3]
A condutividade térmica inserida nesse contexto é uma
propriedade termo-física do material e descreve a taxa com que
o fluxo de calor escoa sob influência de um gradiente térmico.
O estudo analítico da transmissão de calor foi proposta pelo
cientista francês J.B.J. Fourier, em 1822. Fourier descreve que
um gradiente de temperatura distribuído ao longo de uma
espessura gera um fluxo de calor por unidade de área
diretamente proporcional ao gradiente, definindo a constante de
proporcionalidade, conhecida como condutividade térmica. A
primeira Lei de Fourier pode ser expressa como [3]:

onde:
dT/dx = gradiente de temperatura ao longo da espessura; Q =
fluxo de calor;
A = área de transferência; k = condutividade térmica
O sinal negativo da equação indica que o calor é transferido em
sentido contrário ao do gradiente de temperatura. Deste modo,
qualquer método para determinar o valor da condutividade
térmica (k), em regime permanente, requer o conhecimento do
perfil de temperatura bem como a quantificação simultânea do
fluxo de calor.
A difusividade térmica é utilizada em situações onde a
transferência de calor ocorre em regime transiente e é expressa
pela 2a lei de Fourier, unidirecional :
onde:
T = temperatura; x = comprimento ou espessura;
θ = tempo; α = difusividade térmica
A difusividade térmica também pode ser descrita em função de
outras três propriedades, a condutividade térmica, a densidade e
o calor específico.

onde:
Cp = capacidade calorífica; α = difusividade;
ρ = densidade; k = condutividade térmica

2 – MATERIAL E MÉTODOS
2.1 – Equipamento
O equipamento utilizado para a determinação experimental da
condutividade e da difusividade térmica foi projetado e
construído na Faculdade de Engenharia Agrícola e consiste de
um cilindro de PVC com 25cm de diâmetro e 60cm de altura,
fechado em suas extremidades, sendo a extremidade superior
removível para a colocação do material a ser estudado (Figura
1).
No interior do cilindro há uma resistência elétrica fixa em seu
eixo geométrico, conectada a um regulador de tensão localizado
no exterior do cilindro.
O equipamento dispõe de 6 termopares de Cobre-Constantan
dispostos radialmente no interior do cilindro e distantes 2cm
entre si. As extremidades dos termopares estão conectadas a
uma unidade registradora de dados acoplados a um
microcomputador para a realização das leituras das temperaturas
dos termopares (Tabela 1).

2.2 – Materiais
Para a determinação experimental da condutividade e
difusividade térmica foram utilizados os seguintes produtos:
● Arroz em Casca ( Orysa sativa )
● Trigo (Triticum aestivum )

2.3 – Procedimento Experimental


Inicialmente preencheu-se o cilindro com o material até 2cm da
borda superior de modo a permitir a acomodação da tampa na
extremidade superior. Para essa operação foi utilizado um funil
ligado a um cano de PVC de 1,5 polegadas para diminuir o
impacto entre os grãos e as pontas dos termopares para que estes
não sejam danificados.
A unidade registradora de dados conectada aos termopares foi
programada para realizar as leituras dos 6 termopares em graus
Celsius a um intervalo de tempo de 10 minutos,sendo a primeira
leitura realizada antes de se ligar o regulador de tensão obtendo-
se a temperatura inicial dos termopares. A unidade registradora
de dados conecta-se a um microcomputador que armazenou os
dados das leituras das temperaturas obtidas pelos 6 termopares
ao longo do experimento.
A chave do regulador de tensão foi ajustada para a posição 10%,
isto é a resistência elétrica recebe a tensão de 11V (com a rede a
110V). Sendo o valor da potência dissipada pela resistência ‘Pr’
é o fluxo de calor ‘Q’, considerando que o calor flui
homogeneamente pelo cilindro, portanto Pr = Q.

onde:
Pr = potência na resistência; U = tensão; i = corrente
De posse dos dados experimentais coletados pela unidade
registradora de dados e armazenado no microcomputador foi
realizado o cálculo da condutividade e difusividade térmica dos
materiais.
O cálculo da condutividade pelo regime permanente para a
coordenada cilíndrica, é dado por [3]:
onde
Te = temperatura externa; Ti = temperatura interna; k =
condutividade
re = raio externo; ri = raio interno; L = comprimento; Q = fluxo
de calor
A umidade dos materiais foram determinadas pelo método do
MAREA [6] em que amostras em triplicata do material
permanecem a 105° C por 24 horas dentro da estufa.

3 – RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 – Umidade das amostras
A umidade das amostras foi medida com o intuito de melhor
caracterizar fisicamente as matérias-primas utilizadas, já que a
umidade afeta as propriedades térmicas dos grãos. A umidade
média para o trigo foi de 11,74% e a do Arroz em Casca foi de
12,93% (Tabela 2).
3.2 – Potência da resistência
A corrente elétrica na resistência, medida em um amperímetro
durante o experimento foi de 1A.
3.3 – Arroz em Casca
3.3.1 - Resultados
Na Tabela 3 estão os dados de temperatura registrados para o
arroz em casca.
3.3.2 - Cálculo da Condutividade e
Difusividade pelo Regime Permanente
Para o cálculo da condutividade térmica pelo regime
permanente foram considerados os últimos valores da leitura da
temperatura nos termopares como sendo os valores de equilíbrio
do material no experimento (Tabela 4).

Dados de condutividade e difusividade de literatura encontrados


para o arroz em casca [1]:

● Condutividade térmica: 0,100W/m° C


● Calor específico: 1,269kJ/kg° C

● Densidade: 579kg/m
3
● Difusividade térmica: 0,000136 ou 1,36 × 10
-4 m2/s
Utilizando a Equação (5) para obter o valor da condutividade
térmica em regime permanente (Tabela 5).
O valor da difusividade térmica para o regime permanente
calculado pela Equação (3) da difusividade térmica utilizando
os valores de condutividade da tabela 5, de densidade e
capacidade calorífica (Tabela 6).

3.3 – Trigo
3.3.1 - Resultados
Na Tabela 7 estão os dados de temperatura registrados para o
trigo.
3.3.2 - Cálculo da Condutividade e
Difusividade pelo Regime Permanente
Para o cálculo da condutividade térmica pelo regime
permanente foram considerados os últimos valores da leitura
(Tabela 8).
Dados de condutividade e difusividade de literatura encontrados
para o trigo [1]

● Condutividade térmica: 0,1402W/m° C


● Calor específico: 1,59kJ/kg° C

● Densidade: 772kg/m
3
● Difusividade térmica: 0,0001142 ou 1,142 × 10
-4 m2/s.
Os valores da condutividade térmica para o regime permanente
obtida pela Equação (5) estão na Tabela 9.

O valor da difusividade térmica obtida pela Equação (3) estão


apresentadas na Tabela 10.

4 – CONCLUSÕES
A análise dos valores obtidos de difusividade (1,12x10-4 m2/s) e
condutividade térmica (0,138W/moC) para o trigo e os valores
de difusividade (1,67x10-4 m2/s) e condutividade térmica
(0,122W/moC) para o arroz em casca concordam com os valores
encontrados nos ASAE STANDARTS [1] (difusividade
1,14x10-4 m2/s e condutividade térmica 0,1402W/moC para o
trigo e os valores de difusividade 1,36x10-4 m2/s e
condutividade térmica 0,100W/moC para o arroz em casca).
Estes valores mostram que o equipamento é muito útil devido à
sua simplicidade, construção de baixo custo e facilidade de
obtenção de dados experimentais confiáveis.

5 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] ASAE STANDARS, American Society of Agriculture
Engineers. p. 348-350, 1990
[2] FREIRE, E. S. Thermal properties of dry cocoa beans. In:
Cranfield Institute of Technology. National College of
Agricultural Engineering, 122p., 1981. (M. Sc. Thesis).
[3] HOLMAN, J. P., Transferência de Calor. Mcgraw-Hill do
Brasil Ltda., São Paulo, 1983.
[4] JIANG, S.; JOFRIET, J. C.; MITTAL, G. S. Thermal
properties of hayalage. In: Transactions of the ASAE, v. 29, n.
02, p. 601-606, 1986.
[5] KAZARIAN, E. A.; HALL, C. W. Thermal properties of
grain. In: Transactions of the ASAE, v. 08, n. 01, p. 33-37, 48,
1965.
[6] MAREA, Ministério da Agricultura e Reforma Agrária,
Regras para análise de sementes (RAS), Brasília, 365p., 1992.
[7] OXLEY, T. A. The properties of grain in bulk. III. The
thermal conductivity of meat, maize and oats. In: Society of
Chemical Industries Transactions, 63:53, p. 53-55, 1994.
[8] PARK, K. J., MURR, F. E. X., SALVADEGO, M.,
Medição da condutividade térmica de milho triturado pelo
método da sonda. Ciênc. Tecnol. Aliment., 17(3): 242-247,
1997.
[9] SHARMA, D. K., THOMPSON, T. L., Special heat and
thermal condutivity of sorghum. Transaction of the ASAE, v.
16, n. 01, p. 114-117, 1973.

1 Recebido para publicação em 05/01/99. Aceito para


publicação em 24/05/99.
2 UNICAMP/Fac. Eng. Agrícola - depto. de Pré Processamento
de Prod. Agropecuários. Caixa Postal 6011 CEP: 13083-970
Campinas-SP email: kil@agr.unicamp.br
* A quem a correspondência deve ser enviada.