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21/09/2018 A perseguição aos cristãos e o imperador Constantino

História da Igreja Antiga

A perseguição aos cristãos e o


imperador Constantino
A perseguição mais sangrenta enfrentada pelo cristianismo foi a de
Diocleciano. Ela deu início à era dos mártires e, por pouco, não extinguiu
os cristãos. Mas Deus, em sua providência, utilizou-se de Constantino
para pôr um m à violência e fazer nascer um tempo de paz para a Igreja.
Conheça os detalhes dessa importante época do Cristianismo nesta aula
de História da Igreja.

O último grande imperador do Império Romano foi Diocleciano (284-305). Ele governou durante
o período que ficou conhecido como Baixo Império e, embora esse título tenha por objetivo
apenas situá-lo cronologicamente, tem sido utilizado também para fazer referência ao declínio
do Imperio, à sua decadência em todos os aspectos.

Diocleciano percebeu que o Império estava sendo ameaçado por inimigos externos e que
poderia ser esmagado também por seus problemas internos e, com suas habilidades
estratégicas, encontrou a solução mais adequada para o momento. O grande escritor Daniel-
Rops, em cuja obra "A Igreja dos Apóstolos e dos mártires" este curso se inspira, diz a respeito
da ideia de Diocleciano:

Antes de mais, era necessário dar uma base sólida à obra de seus predecessores, os
imperadores ilíricos, e tornar impossível o retorno àquela terrível crise de anarquia
que durante trinta anos ameaçara fazer soçobrar o Império. Ocorreu-lhe que os
territórios confiados à sua guarda eram excessivamente vastos para as forças de um só
homem, e que seriam indispensáveis vários chefes para manter a ordem e defender as
fronteiras. Ao mesmo tempo, esta partilha de autoridade podia servir para resolver de
uma maneira definitiva a sempre delicada questão das sucessões. Dois anos depois de
assumir o poder, em 286, associou a si um colega, Maximiano, um panônio inculto,
soldado aventureiro de pêlo hirsuto e feições obstinadas, mas dotado de uma energia
feroz e que mantinha pelo seu amigo um indefectível respeito. Maximiano adotou o
sobrenome de Hércules, enquanto Diocleciano reservou para si o de Júpiter, o que
marcava bem as distâncias. O Império foi dividido em duas partes, ficando
Diocleciano com o Oriente e Maximiano com o Ocidente. Estava criada a diarquia. O
sistema foi completado em 293 com a criação de dois novos imperadores que, como os
primeiros, exerciam o poder em regiões distintas, ocupando no entanto uma categoria
inferior. Diocleciano e Maximiano detinham os títulos de Augustus, ao passo que os
outros dois eram somente Césares. E assim nasceu a tetrarquia. (p. 387)

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21/09/2018 A perseguição aos cristãos e o imperador Constantino

Nos anos seguintes reinou uma relativa paz , na qual os cristãos puderam exercer a fé de modo
tranquilo, sem perseguições. Ao mesmo tempo, o Império Romano passava por transmutações,
pois, "à medida que progredia no caminho da organização pública e centralizadora, o sistema
tetrárquico podia suportar cada vez menos qualquer espécie de não-conformismo." Os tetrarcas
haviam implementado o que nem os mais loucos de seus predecessores haviam conseguido:
eles se declararam deuses em vida, inclusive com rito de adoração. Diante disso, Diocleciano
entendeu que:

A oposição entre o cristianismo e este regime de coação oficial resultava da própria


natureza dos dois adversários: já então a Igreja, em face do totalitarismo, assumia
uma atitude de recusa e de resistência. Diocleciano acabou por compreender que os
cristãos nunca colaborariam nos seus esforços e que se conservariam
substancialmente, na oposição. (p. 390, 391)

Sendo os cristãos obstáculos a serem vencidos, Diocleciano inicia a perseguição mais sangrenta
e cruel da história do cristinianismo. Contudo ela não aconteceu de modo repentino, pois, como
foi dito, o Império e o cristianismo viveram em paz por cerca de trinta anos. Historiadores
contam que foi graças à instigação de Galeno junto a Diocleciano, afirmando que havia a
necessidade de uma depuração entre os oficiais que ela de fato se iniciou. Após alguns
acontecimentos pontuais envolvendo cristãos, finalmente Diocleciano decidiu-se pela força e
baixou um primeiro edito contra eles (24/02/303) proibindo os cultos, mandando que as igrejas
fossem destruídas, os livros sagrados incinerados e que os funcionários públicos abjurassem.
Todavia, o edito não incentivava a morte e a tortura dos cristãos e isso somente ocorreu após
dois incêndios bastantes suspeitos acontecerem no palácio de Diocleciano. Num deles, Galeno
"abandonou a capital, gritando que não queria ser queimado vivo e insinuando que não teria
dificuldade alguma para encontrar os responsáveis", claramente se referindo aos cristãos.
Diante disso, Diocleciano foi tomado pelo pavor e totalmente alucinado, tomou as seguintes
medidas:

Exigiu que a mulher e a filha abjurassem expressamente, mandou prender o seu


camareiro-mor, o cristão Doroteu, assim como o bispo Antima e grande quantidade de
sacerdotes e fiéis, que pereceram no meio das mais horríveis torturas. Três editos
sucessivos acentuaram passo a passo o rigor das medidas, e pôs-se novamente em
vigor a ordem de Décio pela qual todos os cristãos eram obrigados a sacrificar.
Desencadeava-se a perseguição sangrenta através do Império. (p. 392)

A perseguição continuou cada vez mais violenta e cruel visando sobretudo encontrar os livros
sagrados para queimá-los. Com isso inaugurou-se um novo período da era cristã: a era dos
mártires, pois muitos preferiram dar o sangue e a vida para proteger os livros e se manterem

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21/09/2018 A perseguição aos cristãos e o imperador Constantino

fiéis a Cristo. A perseguição mais cruenta que o cristianismo enfrentou durou dez anos
aproximadamente e contou com toda sorte de atrocidades contra os cristãos, o que gerou
inúmeros e detalhados relatos de martírios.

O homem que poria um fim à perseguição e mudaria os rumos do cristianismo chamava-se


Constantino. Filho de Constâncio Cloro, um dos tetrarcas, a quem coube o Império Romano do
Ocidente, foi proclamado Augusto, após a morte do pai e à revelia de Galeno, que lhe concedeu
apenas o título de César. Após várias vitórias militares, Constantino torna-se o único poder no
Oriente. Esse feito gerou ainda mais inveja em Magêncio, filho de Maximiano, porque já havia
sido rejeitado em favor de Maximino Daia, filho do César Maximiano, e, com a ascensão de
Constantino ficou ainda mais enfurecido. Nesse estado de ânimo, decidiu dar um golpe de
estado em Roma, proclamou-se Augusto, assumindo o poder.

Magêncio declarou-se "o único soberano legítimo, o único descendente dos grandes
imperadores", o que motivou Constantino a empreender uma grande campanha contra ele.
Marchou para Roma com 40.000 soldados, passando incólume pelos Alpes e obtendo inúmeras
vitórias e capitulações do inimigo pelo caminho. Roma, ao saber dessas notícias, trocou o
desdém por Constantino pelo medo e entrou em polvorosa. Magêncio consulta os futurólogos e
ouve do oráculo que não deve sair da cidade, pois caso o faça, morrerá.

Constantino marcha pela Via Flamínia, acampa nas proximidades de Roma no dia 27 de
outubro e, no dia seguinte, após uma grande batalha, vence os exércitos de Magêncio, o qual
perece durante a luta, seu corpo é encontrado boiando no rio, sua cabeça é cortada e exibida
pela cidade espetada numa lança. Além da vitória estratégica de Constantino, essa batalha tem
ainda um outro significado: ela marca a conversão de Constantino ao cristianismo, num
episódio cercado de mistério e interpretações, mas que não pode ser negado historicamente.
Daniel-Rops narra o episódio da seguinte forma:

Uma noite - diz Lactâncio -, pouco antes da batalha, Constantino teve um êxtase
durante o qual recebeu de Cristo a ordem de colocar sobre o escudo das suas tropas
um sinal formado pelas letras CH e R ligadas; é este, com efeito, o monograma que se
encontra nas moedas e inscrições constantinianas. Quanto a Eusébio, informado -
segundo diz - pelo seu herói imperial, que no fim da vida lhe teria contado todos os
pormenores do episódio, eis a sua versão: momentos antes de entrar na luta contra
Magêncio, Constantino apelou para o Deus dos cristãos e então, em pleno dia, viu no
céu, para os lados do poente, uma cruz luminosa com estas palavras em grego: "Com
este sinal vencerás". Na noite seguinte, Cristo apareceu-lhe e mostrou-lhe a cruz,
convidando-o a mandar fazer uma insígnia que a representasse. Esta insígnia é o
Labarum, estandarte em forma de cruz que, a partir daí, acompanhou os exércitos de
Constantino. (p.407)

Muitos historiadores, ainda hoje, afirmam que a conversão de Constantino não passou de uma
manobra política para angariar a simpatia dos cristãos e unificar o Império. Contudo, os dados
históricos demonstram que Constantino era um homem que "acreditava", um crédulo.

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21/09/2018 A perseguição aos cristãos e o imperador Constantino

Anteriormente havia invocado o deus sol, o chamado Sol Invictum, numa outra ocasião
afirmou ter tido uma visão de Apolo. Não era um cético. Além disso, sua mãe Helena, também
era uma devota cristã. A ideia mais plausível é que Constantino de fato converteu-se ao
cristianismo, mas manteve os seus traços supersticiosos.

O Império Romano ainda era pagão. Enquanto a elite era pagã, a classe subalterna era cristã.
Quando Constantino se converteu e foi aceito em Roma como Imperador, a classe dirigente
providenciou os rituais pagãos necessários para sua posse. Ele aceitou submeter-se aos rituais
por uma questão política, mas também porque a superstição fazia parte da sua natureza, em
que pese a conversão. Mais que isso, ele permaneceu catecúmeno durante toda a sua vida,
tendo sido batizado apenas em seu leito de morte. Esta prática era comum naquela época, pois
a Igreja administrava o sacramento da penitência de modo muito rigoroso e, caso a pessoa
tivesse cometido pecados muito graves, deveria passar longos anos em penitência e
mortificações. Esse fato não depõe contra Constantino.

Embora muitos vejam nessa conversão uma grande desgraça, pois a Igreja teria se
"paganizado", é inegável que Deus se utilizou desse homem - com todos os seus defeitos e
mazelas - para dar à Igreja um tempo de paz e de prosperidade, permitindo que ela florescesse,
como de fato, aconteceu nos séculos seguintes.

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