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L I B E R TA N D O O

P O D E R C R I AT I V O

A chave para o crescimento pessoal


e das organizações

Sir Ken Robinson, PhD


Sumário

Sobre o autor, 9
Prefácio à edição brasileira, 11
Prefácio, 13

Libertando seu poder criativo, 17


Diante da revolução, 33
A questão da educação, 59
A ilusão acadêmica, 87
Como funciona a mente humana, 111
O que é ser criativo?, 137
Sensações de melhora, 163
Não estamos sozinhos, 189
Como ser um líder criativo, 209
Como aprender a ser criativo, 233

Posfácio, 267
Notas bibliográficas, 269
Referências, 287
Índice, 293
Agradecimentos, 299
Prefácio À EDIÇÃO BRASILEIRA

I maginação, criatividade e inovação são os elementos que fazem da mente a


mais poderosa e efetiva força transformadora na sociedade. Para que esses
recursos naturais e riquíssimos sejam potencializados, deve-se pensar na for-
mação do indivíduo durante todo seu percurso escolar, trabalhando a educa-
ção criativa de forma séria, abrangente e sequencial para que o Brasil venha a
concretizar o sonho de uma educação sólida, ambicionada por tantos.
O despertar criativo necessita, antes de mais nada, da livre possibilida-
de de expressão, tanto de ideias quanto de atitudes. Nesse cenário, torna-se
possível o terreno que irá estimular as inovações de um país -- situação
essa que sir Ken Robinson, PhD, nos apresenta em sua obra Libertando o
poder criativo.
Permitir que um indivíduo siga seu próprio horizonte de pensamento,
sua intuição, propicia a criação de novas oportunidades onde jamais se
imaginava que pudessem existir. Com a educação, a capacidade cerebral
de criar, recriar, desenvolver e aplicar novas ideias é encorajada, e o pro-
cesso criativo sistêmico é introduzido na cultura das universidades, esco-
las, empresas e dos organismos públicos, criando com isso uma sociedade
sustentável em sua mais justificada razão de ser: ética, social, econômica,
ambiental e cultural.
O Brasil tem os mais variados recursos, abundantes e contemplados por
uma etnografia diversa e vibrante. Eles nos diferenciam de outras nações e
transmitem aos outros povos uma ideia de cultura brasileira alegre, colorida
e feliz, cheia de sorrisos. Isso nos encoraja a levar adiante o nobre desafio
que temos, o de incentivar as novas gerações para que criem bens simbólicos
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com valores inspirados nesses valiosos recursos e qualidades: nossa criativi-


dade, nossa música, nossa dança, nossas cores.
Entre muitos atributos que fazem da inovação um valor a ser aplicado,
pode-se citar o design. Ele é concreto e passível de percepção por todos os
que têm alguma espécie de contato com suas diferentes linhas. É democrá-
tico e estabelece uma ligação afetiva com o prazer do olhar, do admirar, do
buscar os traços de identificação com aquele que o vê. Design é ato criativo
e estímulo de criação.
Porém, como é destacado em Libertando o poder criativo, para realizar
o ato criativo de um design evoluído faz-se necessária a soma dos atributos
ressaltados pelo autor, que desvenda a sistematização e os meios imprescin-
díveis para que se consiga, em conjunto com a sociedade, potencializar o
recurso que se pode chamar de vantagem criativa do brasileiro.
Mais do que em qualquer outra nacionalidade, percebe-se na atitude do
brasileiro um “fazemos sentindo” e não um “sentimos fazendo”. Aplicam-se
aqui os termos “ginga” ou “jeitinho brasileiro”, quando não analisados sob
a ótica do antropólogo Roberto Da Matta. A “ginga” e o “jeitinho” têm na
criatividade seu lado positivo.
O Brasil possui uma economia forte – é um líder mundial, como produtor
ou consumidor, em diversos segmentos –, mas pensar em cultura, no ato de
criar, é algo maior que toda a quantificação monetária que se possa mensu-
rar. É o brasileiro, criativo e bonito por natureza.
Que se faça a lição de casa estudando, aplicando e multiplicando o con-
teúdo desse grande pensador da atualidade que é Ken Robinson, pois é pre-
ciso refletir fora da caixa de maneira assertiva, ordenada e produtiva, mas
também provocadora, transformando, criando e cocriando uma sociedade
na qual pensamos o design como inovação absoluta que gera, em seu ápice,
a felicidade.

Luciano Deos
Presidente
ABEDESIGN – Associação Brasileira de Empresas de Design
Prefácio

“Não conseguiremos desvendar o complexo ambiente do futuro explorando


insistentemente o que vemos pelo espelho retrovisor. Para sermos bem-sucedi-
dos, temos de libertar nosso poder criativo.”

A criatividade é a maior habilidade da inteligência humana. Conforme


a complexidade do mundo aumenta, cresce a necessidade de agirmos
de forma criativa para superar os desafios. E, no entanto, muitas pessoas se
perguntam se sabem fazer isso. O livro Libertando o poder criativo trata da
importância da criatividade, dos motivos que levam as pessoas a achar que
não têm essa habilidade, de como chegamos a essa percepção e do que pode
ser feito nesse sentido. A primeira edição deste livro foi publicada em 2001,
e a que chega agora às mãos do leitor é uma edição revista e atualizada. Mas
por que lançar uma nova edição e o que ela, de fato, traz de novidade?
Escrevi a primeira edição de Libertando o poder criativo em 2000. O
primeiro motivo para criar uma nova versão é que muita coisa aconteceu
desde então, tanto no mundo quanto no meu universo. O ritmo das trans-
formações acelerou-se muito e as questões abordadas neste livro ganharam
mais urgência. Vejamos o que aconteceu no campo da tecnologia. Há dez
anos, a internet era uma novidade para a maioria das pessoas. Não existiam
smartphones, iPods, Facebook, Twitter, YouTube ou a maioria das redes so-
ciais que está transformando a cultura e a economia do mundo todo. Houve
também um impacto global provocado pelos atentados às torres gêmeas do
World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, e consequências da crise
econômica mundial – que simplesmente não tinham como ser previstas uma
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década antes. O mesmo vale para setores como política, economia, cultura
e meio ambiente. A absoluta imprevisibilidade das questões que envolvem
o ser humano constitui a essência de minha tese de que é preciso cultivar
a criatividade, seja na escola, no mundo dos negócios ou na vida cotidiana.
O segundo motivo para ter revisado e atualizado o texto original é que
hoje tenho mais a dizer sobre muitas das ideias deste livro e sobre a forma
como devemos colocá-las em prática. Nos últimos dez anos, apresentei e dis-
cuti essas teorias com pessoas de todos os campos, inclusive com presiden-
tes de multinacionais e de organizações sem fins lucrativos, e com políticos,
artistas, cientistas, estudantes, pais e educadores. Esses contatos aprofun-
daram minha convicção sobre a importância e a urgência dos argumentos
apresentados em Libertando o poder criativo, e sobre a necessidade de levar
essas ideias a um número ainda maior de pessoas.
A terceira razão é que, assim como o mundo mudou nos últimos dez
anos, eu também passei por transformações. Literalmente. Quando escrevi
a primeira edição, minha família e eu morávamos em Stratford-upon-Avon,
pequena cidade inglesa e terra natal do escritor William Shakespeare. Escre-
vi a nova edição em Los Angeles, onde vivo atualmente. O arquiteto Frank
Lloyd Wright disse que, se algum dia alguém sacudisse o planeta, tudo o que
estivesse solto iria parar em Los Angeles. Logo depois da primeira edição de
Libertando o poder criativo entramos nesse movimento, em uma transição
repleta de desafios. Desde então, tenho viajado pelos Estados Unidos, con-
versado com muitas pessoas extraordinárias e assistido a iniciativas fasci-
nantes. Todas essas experiências contribuíram para esta nova edição.
Em 2006, fui um dos palestrantes da famosa conferência TED (Technolo-
gy, Entertainment, Design) realizada em Monterrey, na Califórnia, e abordei
alguns dos temas centrais deste livro. O vídeo com essa palestra foi visto
mais de 5 milhões de vezes, em mais de cem países¹. Para ter uma ideia, meus
filhos James e Kate me mostraram um vídeo do YouTube de 30 segundos
com dois gatinhos que parecem conversar, e que foi objeto de mais de 30
milhões de downloads. Sempre tenho esses números em mente. No entanto,
sei muito bem que, ao contrário do vídeo com os felinos, minha palestra na
TED foi exibida em pequenas e grandes conferências, encontros e eventos de
treinamento em todo o mundo. Por isso, até agora foi vista por cerca de 100
milhões de pessoas, o que dá uma estimativa do interesse que o tema suscita.
p r e fá c i o 15

Voltei a falar durante a TED em 2010, e a palestra também tem apresentando


alto índice de buscas².
Em 2008, escrevi O elemento-chave: descubra onde a paixão se encon-
tra com seu talento e maximize seu potencial, publicado nos Estados Unidos
em janeiro de 2009 e traduzido para vários outros países a partir de então.
Esse livro analisa a natureza dos talentos e da criatividade pessoais, além das
condições para que esses fatores floresçam. De diversas formas, Libertando
o poder criativo é um complemento para O elemento-chave. Esta última obra
avalia com bem mais profundidade por que é tão essencial desenvolver os
talentos naturais (em especial a criatividade), e como e por que as empresas
em geral e as instituições de ensino em particular tendem a sufocá-los. Por
isso, fiquei maravilhado quando minha editora inglesa sugeriu um novo lan-
çamento de Libertando o poder criativo, como comemoração dos dez anos
da primeira edição. Tenho de admitir que inicialmente eu pensava em uma
revisão menos ampla do material original. Imaginei que bastaria passar um
final de semana prolongado com algumas garrafas de um bom vinho tinto e
um corretor automático de texto, atualizando o texto original. Acabei prati-
camente reescrevendo o livro inteiro, com o objetivo de incluir novos mate-
riais, dar mais consistência às minhas teses e deixar o tom mais acessível. Por
isso, se você leu a primeira edição, não se sinta desestimulado a comprar (ou
pegar emprestada) e ler também esta nova versão. É bem diferente sob diver-
sos aspectos e acredito que as novidades compensem uma segunda leitura.
Caso esteja folheando esta obra pela primeira vez, não importa sua área de
atuação (negócios, educação, terceiro setor), ou se estiver procurando apenas
o autoaprimoramento, acredito que estas páginas irão oferecer atrativos su-
ficientes para entretê-lo e envolvê-lo na leitura.
Meus objetivos com este livro são ajudar as pessoas a compreender a
extensão de sua capacidade criativa e o que as levou a duvidar delas; es-
timular as empresas a acreditar em seu potencial de inovação e a criar as
condições ideias para que ela se desenvolva; e promover uma revolução
criativa na educação.
Na introdução original eu disse que escolhi o título do livro por três mo-
tivos, que ainda permanecem os mesmos. Em primeiro lugar, a inteligên-
cia humana é profunda e especialmente criativa. Vivemos em um mundo
moldado pelas ideias, pelas crenças e pelos valores da imaginação e cultura
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humanas. O universo humano é produto tanto de nossa mente como do am-


biente natural. Pensar e sentir não se limita a ver o mundo como ele é, mas
ter ideias sobre ele e interpretar as experiências de forma a chegar a um sig-
nificado. Diferentes comunidades vivem de maneira distinta de acordo com
as ideias que têm e com os significados que vivenciam. Em um sentido literal,
nós criamos o mundo no qual vivemos. Também somos capazes de recriá-lo.
As grandes revoluções na história humana diversas vezes surgiram de novas
ideias: novas formas de ver as coisas derrubaram antigas certezas. Esse é o
processo essencial de mudança cultural.
Em segundo lugar, a percepção de nosso potencial criativo em parte está
associada ao encontro de nosso meio, ou à presença em nosso elemento. A
educação deveria nos ajudar a conquistar isso, mas muitas vezes não é o que
acontece e, ao contrário, muitas pessoas se afastam de seus talentos. Estão
longe de seu elemento e de suas mentes nesse sentido. Finalmente, existe
uma espécie de “moda” conduzindo a atual política educacional. Em vez de
um debate racional sobre as estratégias necessárias para lidar com mudanças
tão extraordinárias, ouvimos um cansativo mantra sobre os padrões acadê-
micos tradicionais. Esses padrões foram criados para outras épocas e outros
objetivos – como explicarei oportunamente. Não conseguiremos desvendar
o complexo ambiente do futuro explorando insistentemente o que vemos
pelo espelho retrovisor. Para seguirmos esse caminho, precisamos libertar
nosso poder criativo em sentido mais literal.

Ken Robinson
Capítulo 1

Libertando seu poder criativo

“Quando as pessoas me dizem que não são criativas, concluo que ainda não
entenderam o que é criatividade.”

V ocê é criativo? O quanto acha que é? Qual o grau de criatividade das


pessoas que trabalham com você? E de seus amigos? Na próxima vez
que tiver uma oportunidade, faça essas perguntas a eles. Trabalhei com pro-
fissionais e empresas em todo o mundo. Em todos os lugares, encontro o
mesmo paradoxo: a maioria das crianças se considera altamente criativa, ao
contrário de grande parte dos adultos. Trata-se de uma questão mais com-
plexa do que pode parecer.

CRIAÇÃO DO FUTURO

Vivemos em um mundo que muda mais rapidamente do que no passado e


enfrentamos desafios completamente novos. Como essa complexidade cres-
cente irá nos atingir na prática é algo impossível de ser antecipado. As mu-
danças culturais nunca são lineares e raramente podem ser anunciadas. Se
fosse assim, uma legião de profissionais da mídia e de “adivinhos” culturais
estaria sem emprego. Provavelmente, foi com essa dinâmica em mente que o
economista J.K. Galbraith disse que “o principal objetivo da previsão econô-
mica é tornar a astrologia uma ciência respeitável”.
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Conforme a velocidade de mudança do mundo aumenta, as empresas


querem pessoas capazes de pensar de forma criativa, de se comunicar e de
trabalhar em equipe; precisam de profissionais flexíveis e com facilidade
de adaptação. Mas, frequentemente, apontam que não conseguem encon-
trar pessoas com esses atributos. Por que não? Meu objetivo neste livro é
responder a três perguntas para todos que se interessem por criatividade
e inovação, ou simplesmente queiram compreender o próprio potencial
criativo.
• O que é preciso para estimular a criatividade? Líderes empresariais, po-
líticos e educadores enfatizam a importância de promover a criatividade
e a inovação. Por que isso é tão essencial?
• Qual é o problema? Por que as pessoas precisam de ajuda para ser criati-
vas? Crianças esbanjam ideias originais. O que nos leva a achar, quando
crescemos, que essa habilidade se perdeu?
• O que está envolvido nesse processo? O que é criatividade? Todos são
criativos ou apenas algumas pessoas o são? É possível desenvolver essa
habilidade? Como?
Todas as pessoas têm ideias novas em alguns momentos, mas como esti-
mular a criatividade para que se torne um elemento constante e confiável na
vida cotidiana? Se você dirige uma empresa, uma organização ou uma es-
cola, como fazer desse atributo uma presença sistemática e rotineira? Como
estimular a cultura de inovação?

REPENSAR A CRIATIVIDADE

Para responder a essas perguntas, é importante saber o que é criatividade e


como ela se expressa na prática. Existem três ideias relacionadas, que pre-
tendo desenvolver ao longo deste livro. Uma delas é imaginação, processo de
trazer à mente coisas que não estão presentes em nossos sentidos; outras são
criatividade, processo de desenvolver ideias originais que contenham valor,
e inovação, processo de colocar essas ideias novas em prática. Sobre a criati-
vidade, existem vários entendimentos equivocados.
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Pessoas especiais? “Todas as pessoas


Há quem acredite que somente pessoas especiais são têm uma imensa
criativas – ou seja, que a criatividade deriva de raro ta- capacidade criativa,
lento. Essa crença ganha força com relatos de ícones da consequência natural
criatividade como Martha Graham (1894-1991), Pablo da condição humana.
Picasso (1881-1973), Albert Einstein (1879-1955) e Tho- O desafio está em
mas Edison (1847-1931). As empresas dividem sua for- desenvolver essa
ça de trabalho em dois grupos: os “criativos” e os “que capacidade. A cultura
vestem terno e gravata”. Em geral, é fácil identificar os da criatividade
criativos graças a uma característica bastante clara: eles precisa envolver a
não usam terno e gravata. Vestem jeans e chegam tarde todos e não apenas
no trabalho, porque passaram horas a fio gerando uma alguns eleitos.”
ideia. Não estou dizendo que os criativos não são cria-
tivos, pois podem ser altamente capazes de desenvolver
coisas novas – assim como todas as pessoas, se estiverem em condições pro-
pícias, mesmo trajando terno e gravata. Todo mundo tem imenso potencial
de criação e o desafio está em desenvolvê-lo. A cultura da criatividade preci-
sa envolver a todos e não apenas alguns eleitos.

Atividades especiais?
Há quem acredite também que a criatividade se restrinja a iniciativas especiais,
como artes, publicidade, design ou marketing. Todos esses campos podem ser
criativos, mas nada impede que essa característica esteja presente também em
áreas como ciência, matemática, pedagogia, medicina, para além de contato
com pessoas, liderança de um time esportivo ou gestão de um restaurante. As
escolas costumam ter setores de “artes criativas”. Sou um defensor do desenvol-
vimento de artes nas escolas, e vou explicar minhas razões mais adiante, mas
não considero a criatividade um privilégio exclusivo de quem atua no campo
artístico. Existem diversos motivos para ensinar arte nas escolas, entre eles a ca-
pacidade de estimular a criatividade, mas há outros igualmente convincentes.
Outras disciplinas, como a ciência e a matemática, podem ser tão criati-
vas como a dança e a música. Sempre é possível agir de forma criativa quan-
do usamos a nossa inteligência.
No mundo dos negócios, empresas diferentes podem ser criativas em
áreas distintas. A Apple, por exemplo, ficou famosa pela capacidade de de-
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senvolver produtos inovadores. Outras organizações, como o Wal-Mart, não


criaram nenhuma novidade em produto, mas inovaram nos sistemas, como
a gestão da cadeia de fornecimento e a estratégia de precificação. A rede de
café Starbucks, por exemplo, revelou-se criativa na prestação de serviços. A
Starbucks não inventou o café; criou somente um tipo especial de cultura
relacionada ao consumo da bebida. Inventou a xícara de café a cinco dólares,
o que não deixou de ser uma inovação, sob o meu ponto de vista. A inovação
em qualquer setor de uma empresa pode alterar seu destino.
Todas as pessoas têm uma imensa capacidade criativa, consequência
natural da condição humana. O desafio está em desenvolver essa capacida-
de. A cultura da criatividade precisa envolver a todos e não apenas alguns
eleitos.

Aprenda a ser criativo


Quase sempre pensamos que as pessoas criativas nascem com esse talento
ou não, como se tivessem olhos azuis ou castanhos, e que não há muito a ser
feito a partir desse fato. Mas existem muitos mecanismos que podem ajudar
uma pessoa a ser mais criativa. Se alguém revela que não sabe ler ou escrever,
não é porque não tenha capacidade para realizar essas tarefas, mas porque
não teve oportunidade de aprender. Com o pensamento criativo acontece
a mesma coisa. Quando alguém me diz que não é criativo, eu concluo que
ainda não percebeu do que se trata.

Processo de libertação
Podemos associar a criatividade à livre expressão, o que explica em parte por
que algumas pessoas se preocupam com a criatividade na educação. Os mais
críticos logo pensam em crianças correndo sem controle e derrubando os
móveis em vez de alunos dedicados a um trabalho sério. Ser criativo envolve
brincar com ideias e fazer as coisas de forma divertida, com liberdade e imagi-
nação. Mas a criatividade também inclui trabalhar com dedicação em ideias e
projetos, para realizá-los da melhor forma possível, ao mesmo tempo avalian-
do o processo todo para saber o que funciona melhor e por quê. Em todas as
disciplinas, a criatividade requer habilidade, conhecimento e controle. Não se
trata apenas de soltar a imaginação, mas de saber dar continuidade a algum
projeto.
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TRÊS TIPOS DE INFORMAÇÃO

Ao longo deste livro, você vai encontrar basicamente três tipos de infor-
mação:
• vivemos em uma época de transformações;
• se quisermos sobreviver e triunfar, precisamos pensar de maneira dife-
renciada sobre as nossas próprias habilidades e usá-las da melhor forma
possível;
• para fazer isso, temos de organizar nossas empresas e, principalmente,
nossos sistemas educacionais em estruturas diferentes.
Nos capítulos seguintes, cada aspecto acima será abordado de forma mais
detalhada, mas eu gostaria de resumir a minha teoria.

Diante da revolução
Não importa quem você é nem o que faz, se está vivendo no planeta Terra
está em meio a uma revolução global. Falo isso no sentido literal e não meta-
fórico, pois hoje encontram-se em ação forças inéditas até aqui. Pode parecer
exagero, mas é verdade. A trajetória humana sempre foi turbulenta, mas o
que diferencia o processo atual é a escala e a velocidade das mudanças. As
duas grandes forças que movem essa dinâmica são a inovação tecnológica e
o crescimento populacional. Juntas, elas vêm revolucionando nossa forma
de viver e de trabalhar; esgotam os recursos naturais do planeta e mudam a
natureza da política e da cultura.
As novas tecnologias revolucionam a natureza do trabalho em toda par-
te. Nas antigas economias industriais, o número de profissionais em setores
e profissões relacionadas com o aspecto operacional está cada vez menor.
Novas formas de trabalho dependem de altos níveis de conhecimento es-
pecializado, de criatividade e de inovação. Em particular, as novas tecno-
logias exigem capacidades totalmente diferentes das que eram valorizadas
na economia industrial. A produção vem se transferindo para as economias
emergentes, sobretudo na Ásia e na América do Sul, o que também ocorre
com novas formas de trabalho que dependem de altos níveis de habilidade
em design e em tecnologias da informação. Considerando a velocidade da
mudança, empresas e governos reconhecem que a educação e o treinamento
são as chaves para o futuro, e enfatizam a crucial importância de desenvolver
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a capacidade criativa e inovadora. Em primeiro lugar, é essencial gerar ideias


para produtos e serviços novos e para a manutenção da competitividade. Em
segundo lugar, precisamos que a educação e o treinamento capacitem as pes-
soas a um maior grau de flexibilidade e de adaptação, de forma que as empre-
sas consigam acompanhar as mudanças dos mercados. Finalmente, todas as
pessoas terão de se ajustar a um mundo no qual, para a maioria, permanecer
a vida inteira em um mesmo emprego será coisa do passado.
Essas mudanças tecnológicas, combinadas com as modificações demo-
gráficas e climáticas, afetam a vida de cada morador do planeta, com conse-
quências imprevisíveis. O que se pode afirmar é que, nos próximos cinquen-
ta ou cem anos, nossos filhos terão de enfrentar desafios únicos na história
da humanidade. Na primeira parte deste livro, relaciono onde essas forças se
manifestam e alguns dos desafios que elas acarretam.¹

Potencial em nova escala


Em dezembro de 1862, Abraham Lincoln fez o segundo discurso anual no
congresso norte-americano. Ele foi escrito um mês antes da assinatura da Pro-
clamação de Emancipação, e na mensagem o presidente estimulava a institui-
ção a encarar a situação que o país enfrentava com olhos atentos. Lincoln disse
que “os dogmas do passado tranquilo não são adequados ao presente tumul-
tuado. O momento agora é marcado pela dificuldade. Como nossa realidade é
inédita, precisamos pensar de maneira nova e agir de modo igualmente novo.
Precisamos nos libertar primeiro e depois salvar nosso país”.²
Adorei o uso da palavra “libertar”. O que Lincoln queria dizer era que
todos nós vivemos seguindo as ideias nas quais acreditamos, mas que talvez
não façam mais sentido, ou não tenham mais a mesma importância. Fica-
mos hipnotizados ou presos a elas. Para sair do lugar, precisamos deixá-las
para trás.
Considerando a magnitude dos desafios que enfrentamos hoje, a mudan-
ça mais profunda precisa ocorrer na forma como encaramos nossas próprias
habilidades e as de nossos filhos. Segundo minha experiência, muitas pessoas
(talvez a maioria) não têm uma percepção real de suas capacidades e de seus
talentos. Muita gente até acha que não possui nenhuma habilidade. Minha
teoria é de que todos nós nascemos com imensos talentos naturais, mas pou-
quíssimos descobrem quais são essas habilidades, e menos pessoas ainda as
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desenvolvem de maneira adequada. Ironicamente, uma das principais ra-


zões para o grande desperdício de talento está justamente na instituição que
deveria desenvolvê-lo: a escola.
Talvez “educação” não seja uma boa palavra para o uso no contexto social.
Se eu estiver em uma festa e disser para alguém que trabalho com educação,
percebo às vezes a contrariedade no rosto dela. Parece que ela diz: “Mas por
que comigo? Encontrar um educador bem na noite que tenho para me diver-
tir...”. Porém, quando pergunto sobre a formação que ela teve, ou sobre a ins-
tituição que os filhos dela frequentam, a conversa muda de rumo, e ela quer
falar sobre suas experiências. Todos têm opiniões muito sólidas. A educação
é um dos assuntos, assim como política, religião e dinheiro, que tocam fundo
nas pessoas. E isso faz sentido, uma vez que se trata de um elemento essencial
para o sucesso profissional de cada um, para o futuro de nossos filhos e para o
desenvolvimento global em longo prazo. Além disso, educação é um tema que
nos marca com impressões de difícil remoção por toda a vida.
Muitas das pessoas mais bem-sucedidas do mundo não se destacaram
nos bancos escolares. Não importa o êxito que atingiram, carregam uma
suspeita secreta de que não desenvolveram totalmente o que tinham para
desenvolver. Esse grupo inclui professores de todos os níveis, altos funcio-
nários públicos, profissionais do mundo dos negócios, músicos, escritores,
artistas, arquitetos e muitos outros. Vários encontram o sucesso somente
depois de superar os efeitos da educação que tiveram. É claro que também
existem aqueles que adoram lembrar a época de formação e acreditam que se
beneficiaram com o processo. Mas como ficam os que não se sentem assim?
Abordagens atuais sobre educação e treinamento falham em aspectos
relacionados à inteligência e à criatividade, que limitaram os talentos e aba-
faram a confiança criativa de várias pessoas. Esses desperdícios em parte
derivam de uma obsessão por certos tipos de capacidade acadêmica e de uma
preocupação com avaliações padronizadas. O desperdício de talento não é
intencional. A maioria dos educadores se esforça para ajudar os alunos no
que podem. Da mesma forma, os políticos fazem discursos entusiasmados
sobre a necessidade de estimular o que os alunos têm de melhor. Trata-se de
um desperdício não deliberado, porém sistêmico – e é assim porque a edu-
cação pública é um sistema baseado em crenças profundamente arraigadas,
mas que não fazem mais sentido.
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Até meados do século 19, poucas pessoas tinham algum acesso à edu-
cação formal. Aprender era um privilégio de poucos que tinham recursos
para isso. Os sistemas públicos de educação em massa foram concebidos
para atender às demandas da Revolução Industrial e, sob vários aspectos,
refletiam os princípios da produção industrial, com ênfase na linearidade,
submissão e uniformização. Um dos motivos de o modelo não se aplicar hoje
é que a vida real tornou-se orgânica, adaptável e diversificada.
Algumas semanas antes que meu filho começasse as aulas em uma uni-
versidade de Los Angeles, fomos participar de um dia de orientação. Em
determinado momento, os estudantes foram reunidos para receber infor-
mações sobre as opções de matérias e os pais seguiram para o departamento
financeiro, para ouvir os conselhos de um dos professores sobre como deve-
ríamos agir em nosso papel de pais de estudantes. Em resumo, o acadêmi-
co nos aconselhou a tentar não interferir nas escolhas educacionais e citou
como exemplo a trajetória do próprio filho, aluno da mesma universidade
algum tempo antes. Inicialmente, o rapaz manifestou interesse em estudos
clássicos, mas o professor e sua esposa não se empolgaram com as possibili-
dades profissionais que tal diploma abriria para o filho. Por isso, sentiram-se
aliviados quando, no final do primeiro ano, o jovem anunciou que estava
pensando em algo mais útil. O casal perguntou qual era a nova opção e ouviu
como resposta: filosofia. O pai alertou que nenhuma das grandes empresas
do setor filosófico estava contratando profissionais naquele momento. Ape-
sar da ressalva paterna, o rapaz cursou algumas disciplinas em filosofia e
acabou se formando em história da arte.
Depois de terminar o curso, o filho do professor conseguiu um emprego
em uma casa de leilões internacionais. Viajou, conquistou um bom padrão
de vida e atua em uma área da qual gosta. Conseguiu o emprego graças aos
conhecimentos de culturas antigas, ao preparo intelectual em filosofia e a seu
amor pela história da arte. Nem o jovem nem seus pais haviam previsto esse
caminho na época das escolhas profissionais. O princípio é o mesmo para
todo mundo: a vida não é linear. Quando uma pessoa segue o seu próprio
norte cria novas oportunidades, encontra pessoas diferentes, tem vivências
distintas e constrói uma nova vida.
A hierarquia das disciplinas nas escolas se baseia em parte nas percepções
de oferta e demanda do mercado de trabalho. As novas economias exigem

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