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JULIANO – Tu sabe que eu procurei deserdá-lo, né? Sabe disso?

RÉGIS – Lopes me contou.

JULIANO – E foi? Aquele puto já lhe contou? Pois foi mesmo. Eu não queria deixar nada pra ninguém, quem
quisesse ter o que tenho fiasse como eu fiei, lutasse, matasse, pintasse as miséria que eu pintei. Lopes também
lhe disse que cometi muita miséria nesse mundo? E Lopes não sabe da metade, aquele corno de mulher séria.

Silêncio.

JULIANO - Tá pensando o que, seu peçonhento? Bora, abra a gaveta do birô, a do meio, tem um revólver...

RÉGIS – Um revólver?

JULIANO – Sim, não sabe o que é um revólver?

JULIANO recebe o revólver de RÉGIS.

JULIANO – Já brincou de roleta-russa?

RÉGIS – Não, não quero...

JULIANO – Deixe de besteira, tá feito veado? Eu costumava jogar demais com Negobau, nunca aconteceu nada.
Depende da sorte, quem possui a sorte no lugar certo nada sofre. Vou rodar esse tambor aqui, assim, e vou
primeiro. Depois, é sua vez.

JULIANO põe a arma no ouvido, atira, nada acontece.

JULIANO – Sua vez... Não fuja da raia, frangote. Que é? Espere! Se tentar fugir atiro nas suas costas. Pense
mesmo que eu não tenho coragem de fazer isso... Segura o revólver, desgraçado!

REGIS (segurando o revólver) – Se eu morrer, quem vai se vingar de Lopes?

JULIANO - Quem disse que é de Lopes que quero me vingar, seu molóide? É do que ele representa, da sociedade
virtuosa, caprichosa, vitoriosa... Dos canalhas que tão por cima, sempre de cima, da hipocrisia, seu merda.

Silêncio.

JULIANO – Agora, já que tu é putinho frouxo... aponte esse revólver pra mim e pode atirar que eu sou homem
de sorte.

(A partir do romance de Gilvan Lemos, Morcego Cego)