Você está na página 1de 10

Gênero e Ideologia

Nildo Viana
Publicado originalmente em: VIANA, Nildo (org.). A Questão da Mulher.
Trabalho, Opressão e Violência. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006.

O objetivo do presente texto é discutir a questão da ideologia do gênero. Não


iremos aqui fazer uma arqueologia do termo gênero, tal como alguns fizeram (Stolke,
2004) e nem buscar suas raízes etimológicas, nem seus usos passados, mas tão-somente
seu uso recente e seu caráter ideológico. A crítica da ideologia do gênero é hoje uma
necessidade, bem como apresentar suas raízes sociais e sua vinculação com um
determinado período histórico.
Antes de começarmos, vamos esclarecer o que entendemos por ideologia, já que
este é um termo polissêmico. Utilizamos aqui a concepção marxista de ideologia,
segundo a qual ela é uma sistematização da falsa consciência. A ideologia é uma forma
sistemática de falsa consciência produzida pelos ideólogos (e/ou ideólogas). O que
denominamos ideologia do gênero é a concepção que coloca o construto1 gênero com o
termo fundamental da análise da questão da mulher e até mesmo da sociedade como um
todo.
Não iremos aqui apresentar as mais diversas obras que abordam e utilizam o
construto gênero. Iremos eleger uma das obras mais citadas e influentes sobre esta
questão para análise, embora outras referências serão apresentadas no decorrer deste
texto. Trata-se do texto de Joan Scott, Gênero: Uma Categoria Útil de Análise
Histórica. A historiadora Joan Scott (1995) realiza em seu texto um apanhado geral de
diversas concepções acerca do pensamento feminista e do uso do construto (que ela
denomina categoria) gênero. As diversas concepções são apresentadas de forma
descritiva, com observações superficiais, e o ponto de vista da autora é apresentado
perifericamente, apresentando uma contribuição mínima para a discussão em torno da
questão que se propõe tratar. Aliás, este defeito de fazer longas descrições de
concepções feministas, consistindo na totalidade ou quase totalidade do texto, é bastante
comum e se repete no artigo de Scott. Ela afirma que o termo gênero em sua utilização
mais recente ocorreu entre as feministas norte-americanas, “que queriam enfatizar o
caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo”. Este uso teria o

1
Um construto é um falso conceito, sendo que este é uma expressão correta da realidade enquanto que o
aquele é uma expressão deformada dela. Cf. Viana, 1997.
objetivo de rejeitar o determinismo biológico que estaria implícito no uso dos termos
“sexo” e “diferença sexual”. O termo gênero apresentaria uma visão relacional e
apresentava homens e mulheres em termos recíprocos, impedindo o estudo em separado
de ambos. Mas a autora ressalta que mais importante que isso é que gênero “era um
termo proposto por aquelas que sustentavam que a pesquisa sobre as mulheres
transformaria fundamentalmente os paradigmas disciplinares” (Scott, 1995, p. 73). Uma
nova metodologia ou epistemologia estaria junto com o termo gênero e lhe dando
sentido. No entanto, esta posição não surgiu de imediato:

“Na sua maioria, as tentativas dos/as historiadors/as para teorizar o


gênero permaneceram presas aos quadros de referência tradicionais das
ciências sociais, utilizando formulações há muito estabelecidas e baseadas em
explicações causais universais. Estas teorias tiveram, no melhor dos casos,
um caráter limitado, porque elas têm tendência a incluir generalizações
redutivas ou demasiadamente simples, que se opõem não apenas à
compreensão que a história como disciplina tem sobre a complexidade do
processo de causação social, mas também aos compromissos feministas com
análises que levem à mudança” (Scott, 1995, p. 74).

Após isto a autora realiza críticas aos usos descritivos daquelas que usam o termo
gênero, bem como analisa as concepções feministas que partem da perspectiva da
origem do patriarcado, do marxismo, até chegar ao pós-estruturalismo e abordagem
norte-americana e inglesa de “relação do objeto”. Ela realiza algumas críticas
pertinentes a algumas destas concepções, mas fica um tanto superficial e não relaciona
mais efetivamente com sua própria concepção. No entanto, o que nos interessa aqui é
justamente a posição de Scott. Neste contexto, é fundamental sua definição de gênero:

“Minha definição de gênero tem duas partes e diversos subconjuntos,


que estão interrelacionados, mas devem ser analiticamente diferenciados. O
núcleo da definição repousa numa conexão integral entre duas proposições:
(1) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas
diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de
dar significado às relações de poder. As mudanças na organização das
relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações de
poder, mas a mudança não é unidirecional” (Scott, 1995, p. 86).

Segundo Scott, esta definição implica em quatro elementos correlacionados: 1) os


símbolos culturalmente disponíveis evocam representações simbólicas; 2) existem
conceitos normativos que apresentam interpretações referentes aos significados dos
símbolos, buscando limitar e conter suas possibilidades metafóricas; 3) a tarefa da nova
concepção é superar a noção de fixidez e intemporalidade da representação binária de
gênero, revelando sua ligação com a política, com as instituições e com a organização
social; 4) a identidade subjetiva ou as “identidades generificadas” são construídas e é
preciso relacioná-la com “uma série de atividades, de organizações e representações
sociais historicamente específicas” (Scott, 1995, p. 88). Ela revela a chave de sua
concepção:

“A primeira parte da minha definição de gênero, então, é composta


desses quatro elementos e nenhum deles pode operar sem os outros. No
entanto, eles não operam simultaneamente, como se fosse um simples reflexo
do outro. De fato, é uma questão para a pesquisa histórica saber quais são as
relações entre esses quatro aspectos. O esboço que eu propus do processo de
construção das relações de gênero poderia ser utilizado para examinar a
classe, a raça, a etnicidade ou qualquer processo social. Meu propósito foi
clarificar e especificar como se deve pensar o efeito do gênero nas relações
sociais e institucionais, porque essa reflexão nem sempre tem sido feita de
maneira sistemática e precisa. A teorização do gênero, entretanto, é
desenvolvida em minha segunda proposição: o gênero é uma forma primária
de dar significado às relações de poder. Seria melhor dizer: o gênero é um
campo primário no interior do qual, ou por meio do qual, o poder é
articulado. O gênero não é o único campo, mas ele parece ter sido uma forma
persistente e recorrente de possibilitar a significação do poder no ocidente,
nas tradições judaico-cristãs e islâmicas” (Scott, 1995, p. 88).

Assim, temos aqui uma determinada ideologia do gênero que será amplamente
utilizada por pesquisadoras de várias ciências humanas e se tornar uma grande
referência tanto do pensamento acadêmico desta área quanto do pensamento feminista.
Assim, esta ideologia parte da recusa do determinismo biológico, do essencialismo, e
acaba propondo transformação paradigmática e apresenta o gênero como uma
construção cultural e que está no campo fundador das relações de poder. Esta concepção
é ideológica, isto é, falsa, embora, como toda ideologia, tenha momentos de verdade. A
recusa do biologismo é importante e necessária, porém, ao extrapolar isto e apresentar
uma recusa do “biológico” (diríamos, da corporeidade e de sua importância), embora
isto não tenha sido afirmado explicitamente, mas foi praticado no restante do discurso,
temos uma produção ideológica. A situação social da mulher na sociedade moderna não
é derivada exclusivamente de sua constituição física/orgânica e isto é verdadeiro, mas é
falso partir daí para recusar sua existência ou relação com este processo. Obviamente
que isto será o ponto de partida para outras ideologias ainda mais equivocadas e que
beiram ao absurdo2. A crítica ao biologismo, no que se refere à questão da mulher, além

2
O exemplo mais explícito desta exasperação ideológica é a tese de Butler (2003), segundo a qual o sexo
é um efeito do gênero e que a sociedade se fundamenta na “heterossexualidade compulsória”. Ou seja,
o determinante é o gênero (construção cultural) e não o sexo (organismo) e as práticas sexuais
dominantes, a heterossexualidade, é compulsória, produto das relações de poder, segundo sua
inspiração em Foucault. Esta tese hiper-culturalista não percebe que se anula a si mesma e cai em
inúmeras contradições. Se é o gênero que produz o sexo (“mulher não tem sexo”, segundo epígrafe de
Irigaray utilizado por Butler) então é mera construção cultural. Sendo assim, qual é o problema? Em
que uma construção cultural é melhor que outra? A resposta é fornecida na segunda tese, a da
“heterossexualidade compulsória” (sem falar no “falocentrismo”...). Ora, se a heterossexualidade é
disso, não é nenhuma novidade, pois nasceu com Simone de Beauvoir (1978) na década
de 40 do século 20 e as referências contemporâneas nada acrescentam e nem
ultrapassam o patamar apresentado por ela, a não ser num sentido retrógrado.
No entanto, o elemento mais problemático da concepção de Scott está na sua
busca de transformação paradigmática que tem como base a idéia de que é o gênero a
forma primária de dar significado às relações de poder. A fundamentação de tal tese não
é realizada em lugar algum. As referências à Eva e Maria (tradição cristã) ou a qualquer
estereótipo da mulher fora do contexto em que ocorre não fundamentam nada. As
citações de pensadores considerados representantes do pensamento conservador,
contrário à revolução francesa, tal como Burke, Bodin, entre outros, também não pode
ser generalizado, mesmo porque se trata de uma crítica ao iluminismo e à revolução
burguesa do ponto de vista pré-burguês. E não deixa de ser interessante como que várias
autoras derivam suas concepções nos discursos de outras autoras (ou autores, em casos
mais raros) e não na realidade concreta (Scott, 1995; Stolke, 2004; Butler; 2003). Estas
concepções partem de um a priori inquestionado e inquestionável, isto é, de um dogma,
que se revela uma abstração metafísica e que não explica absolutamente nada. Tomando
o caso específico de Scott, temos o gênero como “campo primário” no qual ou por meio
do qual “o poder é articulado”. Além da afirmação, nenhuma fundamentação, a não ser
uma breve referência ao sociólogo Pierre Bourdieu. O gênero aqui é um a priori
inquestionado, um dogma, sem nenhuma fundamentação.
O termo gênero é uma abstração metafísica quando se busca transformá-lo de
categoria em conceito3, e assim perde todo o seu valor. E isto é mais grave ainda quando
se quer colocar ele como a determinação das relações de poder. Obviamente que
nenhuma fundamentação convincente é apresentada para tal prioridade ao “gênero”
enquanto conceito instituinte da realidade social e das relações de poder. A autora se
contenta em apelar para Bourdieu e suas reflexões. Bourdieu condena a des-
historicização (“naturalização”, isto é, tornar natural algo que é histórico) e ao mesmo

compulsória, então as pessoas são constrangidas a serem heterossexuais, o que quer dizer que não são
naturalmente assim. Mas se são constrangidas a serem heterossexuais, então é porque são naturalmente
homossexuais... uma inversão (o gênero determina o sexo) é complementada por outra (o normal e
natural é o homossexualismo...). Esta concepção além de não ter nenhuma fundamentação na realidade
concreta, acaba caindo no essencialismo e biologismo que pretendia combater (apenas inverte/troca a
essência heterossexual por homossexual e a única base para tal essencialismo só pode ser biológica...
afinal de contas, por qual motivo a não ser biológico as pessoas seriam naturalmente homossexuais?).
3
Uma categoria é um recurso mental sem existência na realidade concreta enquanto que um conceito é
expressão da realidade, portanto, possui concreticidade. A expressão gênero, tal como relação, causa,
efeito, espaço, direita, esquerda, etc., se enquadra no primeiro tipo e para passar para o segundo tipo
tem que ter um acréscimo de algo real, concreto (Viana, 1997).
tempo a realiza. Isto se deve ao fato de que ele nunca realiza uma análise da realidade
concreta da sociedade capitalista, mas tão-somente apresenta suas abstrações
metafísicas sobre poder simbólico acompanhada de seu empiricismo (Bourdieu, 2003).
Na abordagem de Bourdieu, a abstração metafísica se encontra com a empiria que vem
para confirmá-la, criando uma visão dicotômica mas homóloga, onde fatos isolados da
totalidade servem como exemplos das abstrações metafísicas de violência simbólica e
coisas do gênero.
Não se pode pensar o homem (sexo masculino) e a mulher (sexo feminino) como
construções culturais arbitrárias. As representações, reais ou ilusórias, segundo Marx, se
dão a partir de relações sociais concretas. As representações cotidianas e as ideologias
acerca do sexo feminino (e do masculino) não são produtos arbitrários da “cultura” ou
do “poder”, estas duas entidades metafísicas que dominam o discurso contemporâneo
antropológico ou pós-estruturalista, já que tanto a cultura quanto o poder nesta ideologia
aparece como algo a-histórico, indeterminado, a-social. A visão do sexo feminino é
constituída histórica e socialmente, mas é preciso discutir em que período histórico e em
que contexto social isto ocorre, bem como entender qual é a posição de classe de quem
a apresenta. Vejamos o que diz Bourdieu:

“As divisões constitutivas da ordem social e, mais precisamente, as


relações sociais de dominação e de exploração questão instituídas entre os
gêneros se inscrevem, assim, progressivamente em duas classes de habitus
diferentes, sob a forma de hexis corporais opostos e complementares e de
princípios de visão e de divisão, que levam a classificar todas as coisas do
mundo e todas as práticas segundo distinções redutíveis à oposição entre o
masculino e o feminino. Cabe aos homens, situados do lado exterior, do
oficial, do público, do direito, do seco, do alto, de descontínuo, realizar todos
os atos ao mesmo tempo breves, perigosos e espetaculares, como matar o boi,
a lavoura ou a colheita, sem falar do homicídio e da guerra, que marcam
rupturas no curso ordinário da vida. As mulheres, pelo contrário, estando
situadas do lado do úmido, do baixo, do curvo e do contínuo, vêem ser-lhes
atribuídos todos os trabalhos domésticos, ou seja, privados e escondidos, ou
até mesmo invisíveis e vergonhosos, como o cuidado das crianças e dos
animais, bem como todos os trabalhos exteriores que lhes são destinados pela
razão mítica, isto é, os que levam a lidar com a água, a erva, o verde (como
arrancar as ervas daninhas ou fazer a jardinagem), com o leite, com a madeira
e, sobretudo, os mais sujos, os mais monótonos e mais humildes” (Bourdieu,
2003, p. 41).

Esta citação pode servir de exemplo para analisarmos o procedimento de


Bourdieu e seus riscos. Em primeiro lugar, temos uma generalização: de um lado “os
homens”, de outro, “as mulheres”. Os homens, segundo Bourdieu, estão do lado oficial,
do direito. Ora, todos os homens? Os proletários? Os lumpemproletários? Os
camponeses? E as mulheres estão todas do outro lado e assim não existe mulher que
detém poder, que esteja no estado, etc. As mulheres em geral ficam com o trabalho sujo,
cuidam das crianças. As mulheres da burguesia fazem isso? Elas não contratam outras
mulheres para fazerem isso por elas? Nesta abordagem, fica parecendo que as
trabalhadoras domésticas trabalham apenas para os homens e as mulheres da burguesia
cuidam das crianças, trabalham em “serviços humildes e monótonos”. Não sabemos a
que país e época se refere Bourdieu. Ele se refere a um mundo abstrato-metafísico
inexistente concretamente. “As mulheres”, no plural e no geral, tem como atribuição os
trabalhos “escondidos, vergonhosos”, tal como o cuidado com as crianças. Ora, somente
a partir de determinados valores que o cuidado com as crianças é “vergonhoso”, assim
como os demais exemplos citados por Bourdieu, ou seja, a humildade, vergonha, etc.,
não é um atributo das atividades e sim uma valoração ou desvaloração das atividades.
Mas na análise de Bourdieu questões como classes sociais, valores, acumulação de
capital, luta de classes, etc., não existem. A dominação capitalista e o mundo mercantil,
competitivo e burocrático também inexistem em sua abordagem. A “dominação
masculina” para Bourdieu tem uma estrutura homóloga aos diversos “campos” que ele
diz existir na realidade (campo artístico, campo político, campo econômico, campo
científico, etc.) e assim possui o mesmo isolamento fantástico e lógica semelhante, já
que Bourdieu conseguiu até inventar uma “illusio masculina”4. Mas não cabe aqui uma
crítica geral da sociologia de Bourdieu, que faremos em outra oportunidade, e sim
destacar que seu procedimento metodológico e sua abordagem da questão da mulher é
presa ao seu edifício abstrato-metafísico.
Assim, o complemento de Scott à sua análise apelando para Bourdieu não se
sustenta. Mas não deixa de ser interessante este apelo e como uma abordagem
metafísica do gênero em Scott pode ser complementada com outra abordagem
metafísica, a de Bourdieu.
Podemos concluir esta análise do construto gênero colocando que seu caráter
abstrato-metafísico, oriundo do modismo culturalista e do pós-estruturalismo, apenas é
uma palavra que serve para usos e abusos mas que não explica nada e não se presta à
luta pela transformação social, pois ao invés de desmascarar o poder, o esconde. O
construto de gênero é uma unidade de um discurso ideológico. Este discurso ideológico
ou realiza um isolamento fantástico das relações entre os sexos ou então toma tais

4
O illusio é uma expressão utilizada originariamente por Bourdieu para retratar o “fetichismo da arte”, na
qual os agentes do campo artístico dotam as obras de arte de valor e lhes transformam em fetiches
(Bourdieu, 1996). É uma grande extrapolação utilizar esta expressão para falar da “dominação
masculina”;
relações como fundadoras do social, ou, como dizem, do poder ou o poder concebido
metafisicamente passa a explicar tais relações. Assim, a cultura e o poder são
abstratificados, isto é, transformados em abstrações metafísicas que passam a explicar e
determinar tudo. Neste último caso, o indeterminado (a cultura, o poder) passa a ser o
determinante das relações sociais, e esta ideologia que nada explica se torna
hegemônica em certos círculos. No primeiro caso, as relações entre os sexos (de
“gênero”) é que são determinantes, embora nunca seja fundamentada a fonte desta
determinação. É por isso que a obra de Bourdieu é bem recebida por algumas das
ideólogas do gênero, pois o isolamento destas relações é do mesmo tipo que elas fazem,
por mais que falem de “cultura” ou “poder”, sempre abstratificados.
Outra característica que se reproduz na ideologia do gênero é a falta de referências
a seres humanos concretos, relações sociais concretas. Os livros das ideólogas do gênero
estão recheadas de referências a outras obras, ou seja, ficamos num mundo livresco, no
qual um livro remete a diversos outros livros (não para deles extrair relações sociais
concretas, mas apenas outras teses), e uma tese a diversas outras teses, num círculo
vicioso e auto-referente do mundo ideológico. Sem dúvida, pode haver exceções
(Bourdieu não entra neste grupo, por exemplo, embora sua abordagem da realidade
concreta seja fragmentária e invertida e ele não seja exatamente um dos representantes
desta tendência), mas esta é a regra das ideologias do gênero.
Mas qual é a fonte de Scott e das ideólogas do gênero? Ela mesma revela: “a
preocupação teórica com o gênero como uma categoria analítica só emergiu no fim do
século XX. Ela está ausente das principais abordagens de teoria social formuladas desde
o século XVIII até o começo do século XX” (Scott, 1995, p. 85). O uso da palavra
ocorre num determinado contexto histórico: “O termo ‘gênero’ faz parte da tentativa
empreendida pelas feministas contemporâneas para reivindicar um certo terreno de
definição, para sublinhar a incapacidade das teorias existentes para explicar as
persistentes desigualdades entre as mulheres e os homens” (Scott, 1985, p. 85).
Esta mutação ocorre num “momento de grande efervescência epistemológica”:

“No espaço aberto por este debate, posicionadas ao lado da crítica da


ciência desenvolvida pelas humanidades e da crítica do empirismo e do
humanismo desenvolvido pelo/as pós-estruturalistas, as feministas não
somente começaram a encontrar uma voz teórica própria; elas também
encontraram aliados/as acadêmicos/as e político/as. É dentro desse espaço
que nós devemos articular o gênero como uma categoria analítica” (Scott,
1995, p. 85).
A data dos estudos predecessores é dos anos 60, época da contracultura, do
movimento hippie, do movimento feminista, de Betty Friedam e a Mística Feminina,
bem como as obras de Kate Millet, A Política Sexual e Germaine Greer, A Mulher
Eunuco, que já começariam a usar o termo gênero, mas sem a conotação posterior. É a
partir da contra-revolução cultural iniciada após a derrota da rebelião estudantil de maio
de 1968 expressa no pós-vanguardismo (arte) e no pós-estruturalismo (ciência)5, que se
inicia a produção ideológica que será a base das ideologias do gênero, tal como a obra
de Michel Foucault, o maior ideólogo pós-estruturalista em sua tendência “crítica”, e os
demais representantes desta ideologia (Kristeva, Guatarri, Deleuze, etc.). A ideologia do
gênero se fortalece e sistematiza nos anos 80. A mutação inicia-se nos anos 70: “Em um
artigo de 1973, que documenta a mudança terminológica do sexo ao gênero, Strathern
antecipa sua concepção do gênero como sistema simbólico” (Stolke, 2004, p. 91). Em
1988 ela lança um livro onde aprofunda sua concepção. Mas é nos anos 80 que “se
sofisticam as análises feministas” sobre as relações de gênero. Com a emergência do
neoliberalismo, o pós-estruturalismo se torna hegemônico e dominante e a ideologia do
gênero é um dos seus produtos.
As produções intelectuais a partir da década de 70 denominadas “pós-modernas”
são, na verdade, versões reformuladas e despolitizadas das tendências críticas dos anos
60. As lutas do final dos anos 60 (que vai desde a contracultura até as lutas estudantis na
Alemanha/França, as lutas operárias na Itália, etc.) e da produção intelectual crítica
(Debord e a Internacional Situacionista, Henri Lefebvre, Marcuse, Sartre, etc.). A
mutação do capitalismo ocorre a partir dos anos 60 e que se concretiza nos anos 80, com
a emergência do regime de acumulação integral (Viana, 2003), significa uma
transformação cultural que busca apropriar-se da cultura contestadora anterior para
desarmá-la e fazê-la perder força e efeito.
O pós-estruturalismo tem como ponto fundamental a crítica da abordagem da
totalidade, ou como diz um de seus principais ideólogos, das “metanarrativas” (Lyotard,
1986). É exatamente este aspecto que possibilita a despolitização ou o micro-
reformismo, dependendo da abordagem. Alguns pós-estruturalistas ao negarem a
totalidade, passam a realizar abordagens puramente descritivas (despolitização) de
elementos cotidianos e outros fazem referência ao poder mas tão-somente na escala
cotidiana, isolando as relações de poder em determinado lugar ou relação social e após

5
Ideologicamente chamado de “pós-modernismo”.
este isolamento apresenta as lutas isoladas e faz o seu elogio, recusando toda forma de
articulação e ampliação da luta. Este procedimento é o realizado por Foucault e pelas
ideólogas do gênero, que criam um conjunto de construtos a-históricos e isolados, como
a dita “relações de gênero”, e abordam alguns fenômenos sociais criando um pequeno
mundo reificado que faz referência à cultura e ao poder, mas tomados como entidades
metafísicas e tão-somente ligados a este mundo reificado.
A ideologia do gênero surge neste contexto. E nada mais revelador do que a
peripécia das feministas que adotaram tal concepção e elegem as relações de poder
como fundamental e ao mesmo tempo ocultar ou desconhecer que elas são produtos
desta mesma realidade e, por conseguinte, relações de poder. A “dominação masculina”
revelada por Bourdieu é inofensiva contra ele, talvez pelo motivo de ser um sociólogo,
um intelectual, embora ele mesmo diga que os intelectuais são uma “fração dominada
da classe dominante”. Joan Scott, Judith Butler e todas as outras estão acima desta
realidade “masculinista”, marcada por “relações de poder” e elas são espécimes do
gênero feminino, mas não sofrem as determinações e opressões das demais mortais. Em
poucas palavras, estes ideólogos e ideólogas pensam que são como o Barão de
Münchausen e assim podem se puxar pelo cabelo e se tornarem imunes ao que existe (a
cultura, as relações de poder, o falocentrismo, o illusio masculino, etc.). As referências
também possuem a mesma “imunidade” e por isso Foucault, Deleuze, Kristeva,
Guatarri, são os grandes inspiradores da nova ideologia. Assim, a arqueologia do termo
gênero é apenas uma descrição dos seus usos, mas nunca de sua gênese e seu
entrelaçamento com as mudanças sociais e históricas. E, assim, mais uma vez, repete-se
a visão evolucionista e unilinear do desenvolvimento do pensamento humano, o que
ocorre desde Comte e Hegel, e chega até hoje com as “ingênuas” ideólogas do gênero.
A ideologia não tem história independente, autônoma, a não ser no próprio discurso
ideológico, que inverte a realidade e se apresenta como produto de um avanço e
aperfeiçoamento da idéia anterior ou então como uma ruptura falsa com as concepções
antecessoras, mas sempre indo no sentido da verdade absoluta.
Assim, a ideologia do gênero é tão datada historicamente e determinada
socialmente quanto qualquer outra ideologia, e suas fontes ideológicas (pós-
estruturalismo) tal como seu conteúdo, demonstram os limites de tal abordagem,
revelando-se apenas mais uma forma de falsa consciência sistematizada.
Referências Bibliográficas

BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1978.

BOURDIEU, P. A Dominação Masculina. 3ª edição, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil,


2003.

BOURDIEU, P. As Regras da Arte. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero. Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de


Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.

LYOTARD, J-F. O Pós-Moderno. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986.

SCOTT, Joan. Gênero: Uma Categoria Útil de Análise Histórica. Educação e Realidade.
Vol. 2, no 20, jul./dez. 1995.

STOLKE, Verena. La Mujer es Puro Cuento: La Cultura del Género. Estudos


Feministas. Vol. 12, no 02. maio/agosto, 2004.

VIANA, Nildo. A Consciência da História. Ensaios Sobre o Materialismo Histórico-


Dialético. Goiânia, Edições Combate, 1997.

VIANA, Nildo. Estado, Democracia e Cidadania. Rio de Janeiro, Achiamé, 2003.