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CRISE CAPITALISTA E AS CONFIGURAÇÕES DO ESTADO NEOLIBERAL NA

CONTEMPORENEIDADE

1
Juliana Carla da Silva Gois

Resumo
O objetivo desse artigo é expor a discussão acerca das configurações
do Estado no neoliberalismo, enquanto instância política e
administrativa, atrelado ao contexto da crise capitalista pós anos
1970, bem como a forma a qual o Estado, nessa conjuntura,
assegura os interesses políticos e econômicos da burguesia.
Também serão problematizados os impactos do modelo neoliberal
nas relações de trabalho e nas políticas sociais direcionadas à classe
trabalhadora, no contexto de ineficiência do Estado neoliberal em
face da resolução dos problemas sociais oriundo da sociedade
burguesa.

Palavras-chave: Estado, neoliberalismo, crise do capital.

Abstract
The objective of this article is to expose the discussion about state
configurations in neoliberalism, as a political and administrative
instance, linked to the context of the capitalist crisis after the 1970s,
as well as the way in which the state assures political and economic
interests Of the bourgeoisie. The impacts of the neoliberal model on
labor relations and on social policies aimed at the working class will
also be problematic in the context of the inefficiency of the neoliberal
state in the face of the resolution of social problems arising from
bourgeois society.

Keywords: State, neoliberalism, capital crisis.

1
Aluna regular do doutorado no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte. E-mail: juh-carla@hotmail.com
I. INTRODUÇÃO

No universo da ontologia marxiana, é possível afirmar que o Estado emerge num


determinado período histórico em que houve a necessidade de um aparato para exercer o
papel da administração da propriedade privada e garantir os privilégios e riquezas de uma
determinada classe em detrimento de outra. Por isso, para Engels (2010, p.213), o Estado
não pode ser caracterizado como “um poder que se impôs à sociedade de fora para dentro”.
Ou seja, o Estado não é um poder acima da sociedade, não é imparcial e não é neutro; ele
emerge para conter os antagonismos de classes e garantir a manutenção da propriedade
privada. Na análise de Mascaro (2013) é no surgimento do trabalho assalariado que se
estabelecem as bases da forma política estatal, em que a reprodução desse trabalho
assalariado irá depender intensamente do espaço político estatal para sua reprodução.
Desse modo, “o aparato estatal é a garantia da mercadoria, da propriedade privada e dos
vínculos jurídicos de exploração que jungem o capital e o trabalho” (idem, p.15).
Tendo em vista essas premissas, o presente estudo buscará problematizar as
configurações do Estado num dado momento específico da trajetória do capitalismo
contemporâneo: a conjuntura neoliberal. Resultante de uma pesquisa bibliográfica, orientada
à luz da tradição marxista, objetiva-se primeiramente demonstrar a conjuntura da crise
capitalista imersa na dissolução do chamado Estado de bem-estar social e as origens do
pensamento neoliberal na contemporaneidade, bem como suas incidências nos planos
político, econômico e ideológico na reprodução da sociedade. Seguidamente, demostra-se
as configurações do estado neoliberal na contemporaneidade e os impactos nas políticas
sociais e nas relações de trabalho.
Considerando a importância que esse debate assumiu no decurso do século
XX, buscará se apontar, de modo geral, como o Estado se reconfigura no período posterior
à década de 1970, num contexto de crise mundial, para assegurar o funcionamento do
sistema do capital e para amortecer os períodos de crise, atendendo as necessidades
reprodutivas do sistema do capital. Por fim, pretende-se contribuir com o debate a partir das
seguintes indagações: quais os determinantes da crise do capital dos anos 1970? Em
que bases se erigem o neoliberalismo? Quais as configurações do estado neoliberal
na contemporaneidade e os impactos nas políticas sociais e nas relações de
trabalho? Esses são os questionamentos que norteiam essa reflexão e que, nos seus
limites intrínsecos, buscamos investiga-los sem, obviamente, termos qualquer pretensão de
esgotá-los, haja vista sua complexidade.
II. CRISE DO CAPITAL E AS ORIGENS DO NEOLIBERALISMO

O modo de produção capitalista, desde sua origem, vem passando por


crises 2 , que são constitutivas à natureza de seu sistema. Diferente das crises das
sociedades pré-capitalistas, que eram de subprodução de valores de uso, as crises
capitalistas caracterizam-se como crises de superprodução. Um claro exemplo foi a crise de
1929-1932, que provocou a redução do comércio mundial e o aumento do desemprego.
Como resposta a esta conjuntura, foram implementadas políticas macroeconômicas com o
intuito de reduzir os impactos da crise. Assim, “a partir da crise do capitalismo de 1929, o
Estado passou a assumir um destacado papel de regulação, dando origem ao Estado
Social” (SALVADOR, 2010, p.55). Vê-se então o surgimento de estratégias como o New
Deal e o Welfare State, apoiadas pela intervenção do Estado, que aspiravam ao
aquecimento do consumo e a revitalização da economia.
De modo peculiar, o Estado exerceu um papel fundamental para que esse “pacto
social” se sustentasse, auxiliando no incorporamento das massas a esse novo padrão
capitalista de produção. “A legitimação do poder do Estado dependia cada vez mais da
capacidade de levar os benefícios do fordismo a todos e de encontrar meios de oferecer
assistência médica, habitação e serviços educacionais em larga escala [...]” (HARVEY,
2005, p.133). O Estado promovia políticas sociais garantindo aos trabalhadores o acesso a
serviços públicos. Tais políticas sociais eram direcionadas para áreas que eram
fundamentais para o consumo de massa e o crescimento da produção capitalista. Elas
forneciam um complemento salarial aos trabalhadores para gastos com suas necessidades
sociais básicas, como saúde, educação, habitação, etc.
Convém salientar que nem todos os trabalhadores eram beneficiados com esses
serviços sociais, o que acabou gerando uma série de descontentamentos por uma parte da
classe trabalhadora. Como os trabalhadores se reuniam todos num mesmo lugar – nas
fábricas – isso proporcionou que os mesmos iniciassem suas lutas no sentido de retomar o
controle sobre o processo de trabalho. “O acúmulo de trabalhadores em fábricas de larga
escala sempre trazia, no entanto, a ameaça de uma organização trabalhista mais forte e do
aumento do poder da classe trabalhadora [...]” (HARVEY, 2005, p.129). Aliado a esses
fatores tem-se o crescimento lento da economia e a queda da produtividade do trabalho,

2
“A análise teórica e histórica do MPC comprova que a crise não é um acidente de percurso, não é
aleatória, não é algo independente do movimento do capital. Nem é uma enfermidade, uma anomalia
ou uma excepcionalidade que pode ser suprimida no capitalismo. Expressão concentrada das
contradições inerentes ao MPC, a crise é constitutiva do capitalismo: não existiu, não existe e não
existirá capitalismo sem crise”. (NETTO; BRAZ, 2010, p. 157).
levando parte dos trabalhadores a se desinteressarem pelo processo produtivo. Todavia, os
“anos de ouro” do capitalismo “regulado” começam a dar sinais de exaurimento no final da
década de 1960. Isso porque as taxas de crescimento, a capacidade do Estado de exercer
suas funções “reguladoras”, a absorção das novas gerações no mercado de trabalho não
serem as mesmas, contrariando as expectativas do pleno emprego.
Nessa circunstância, há a aceleração das taxas de inflação, redução da
produtividade e dos níveis de crescimento, aumenta-se o desemprego e diminui-se o
mercado consumidor, havendo assim, queda nos investimentos. Um fator também muito
relevante para o favorecimento da crise do fordismo foi a crise do petróleo, assim como as
altas taxas de juros americanas. Harvey (2005) chama atenção ao fato de que essa crise do
petróleo, juntamente com a recessão vivenciada em 1973, influenciou o fim deste padrão
fordista. Advoga o autor que, o período de 1965 a 1973 tornou bem evidente a incapacidade
do padrão fordista/keynesiano de conter as contradições intrínsecas ao capitalismo.
Se for correto afirmar que as estratégias utilizadas nos “anos dourados”
possibilitaram o aumento das taxas de lucro e marcaram uma ampla expansão da economia
capitalista, é igualmente verdadeiro, e em contraste, que elas apresentaram, a certa altura,
alguns limites. Já no início dos anos de 1970 eclodem claramente seus sinais de
esgotamento, de estagnação, não possibilitando as mesmas condições favoráveis à
expansão ininterrupta do capital. Não é à toa que desde esta década, até os dias de hoje,
desencadeia-se um quadro crítico irreversível e diferenciado.
Na análise de Salvador (2010, p.93) a crise não nasce da falta de mercado, mas
trata-se de uma crise de valorização de capitais, sendo “resultado de um conjunto de
elementos, não podendo ser reduzida a uma única causa como a superprodução ou
subconsumo”. Nesta referência analítica,

Entre o final dos anos 1960 e o começo da década de 1970, o


desenvolvimento fordista, as políticas keynesianas e o projeto de
Estado Social, que vigorou nos países centrais, são postos em
xeque, juntamente com os direitos derivados da relação salarial. A
exploração sobre a força de trabalho com as novas técnicas
produtivas elevou a extração da mais-valia relativa à égide do
Welfare State, ainda que o Estado Social tenha assegurado avanço
aos trabalhadores, como a redução do desemprego e a garantia de
direitos sociais. A ofensiva do capital vai trazer sérios riscos à
proteção social e às conquistas sociais do período após a Segunda
Guerra. Anova fase de acumulação capitalista vai ser capitaneada
pela esfera financeira, e no campo ideológico o velho liberalismo se
veste com a “nova” roupagem, rebatizado de neoliberalismo
(SALVADOR, 2010, p. 91-92).
É possível afirmar que o neoliberalismo instaura-se no final da década de 1970,
após a Segunda Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte. Nascido
como uma resposta econômica e política contra o Estado de bem-estar social, visa
implementar propostas de redução de gastos sociais, com o objetivo de manter a “ordem da
sociedade” e equilibrar a economia, garantindo assim o pleno funcionamento do sistema
capitalista. Para Salvador (2010, p. 92) a crise instaurada nessa conjuntura é manifestada
em conjunto com a reação do capital contra o Estado Social, além de solapar o pacto de
anos de crescimento “com o pleno emprego e o arranjo da social democracia” para com as
políticas sociais.
Diferente do liberalismo 3 , em que o Estado tinha funções restritas, no
neoliberalismo o Estado tem o dever de garantir aos indivíduos seus direitos básicos, a
liberdade para os agentes econômicos agirem livremente, assim como fornecer bens e
serviços públicos imprescindíveis para a manutenção da ordem da sociedade. Nessa
perspectiva, o neoliberalismo “defende a promoção da liberdade das forças impessoais e
neutras do mercado na alocação e distribuição eficiente dos recursos produtivos entre os
agentes sociais”. Contudo, a doutrina neoliberal não implica na defesa da ausência total do
Estado no controle da vida social, mas sim uma ação “seletiva e focalizada em esferas vitais
para o pleno funcionamento da ordem capitalista, como a defesa dos múltiplos regimes de
propriedade privada” (CASTELO, 2011, p. 226).
Nessa fase do desenvolvimento do capitalismo são identificadas diversas
mudanças na configuração do Estado e na dinâmica da sociedade que incidem de forma
direta e objetiva nas condições de vida da classe trabalhadora. Como bem sintetiza Harvey
(2008):

O neoliberalismo é em primeiro lugar uma teoria das práticas político-


econômicas que propõe que o bem-estar humano pode ser melhor
promovido liberando-se as liberdades e capacidades
empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura institucional
caracterizada por sólidos direitos a propriedade privada, livres
mercados e livre comércio. O papel do Estado é criar e preservar
uma estrutura institucional apropriada a essas práticas; o Estado tem
de garantir, por exemplo, a qualidade e integridade do dinheiro. Deve
também estabelecer as estruturas e funções militares, de defesa, da
polícia e legais requeridas para garantir direitos de propriedade
individuais e para assegurar, se necessário pela força, o
3
Laski (1973, p.11) deixa claro que o liberalismo “surgiu como o inimigo dos privilégios conferidos a
qualquer classe, na comunidade, em virtude de nascimento ou credo”. No entanto, é importante frisar
que “a liberdade que procurou não tinha foros de universalidade, visto que sua prática estava limitada
aos homens que tinham propriedade a defender” (idem). Destarte, nota-se que com as
transformações ocorridas no advento do capitalismo, possibilitando o capital a acumular-se
imensamente, foi necessária a doutrina do liberalismo para permitir o acúmulo da propriedade privada
sem limites.
funcionamento apropriado dos mercados. Além disso, se não
existirem mercados (em áreas como a terra, a água, a instrução, o
cuidado de saúde, a segurança social ou a poluição ambiental),
estes deverão ser criados, se necessário pela ação do Estado. Mas o
Estado não deve aventurar-se para além dessas tarefas. As
intervenções do Estado nos mercados (uma vez criados) devem ser
mantidas num nível mínimo, porque, de acordo com a teoria, o
Estado possivelmente não possui informações suficientes para
entender devidamente os sinais do mercado (preços) e porque
poderosos grupos de interesse vão inevitavelmente distorcer e viciar
as intervenções do Estado (particularmente nas democracias) em
seu próprio benefício. (p. 12)

Para Harvey (2008) o neoliberalismo associa-se à restauração do poder das


elites econômicas, ao aumento da concentração de renda em vários países e ao
recrudescimento da desigualdade social a partir dos anos 1980, tendo como protagonistas
desse processo os organismos multilaterais, divulgando e implantando do fundamentalismo
do livre mercado e da ortodoxia neoliberal. Assim, “os países endividados tiveram de
implementar reformas institucionais como cortes nos gastos sociais, leis dos mercado de
trabalho mais flexíveis e privatização. Foi inventado o chamado ‘ajuste estrutural’ “(idem, p.
38).
Inevitavelmente, acontece, mediante isso, que para concretizar as premissas do
neoliberalismo, o Estado deve beneficiar os direitos individuais à propriedade privada, o
regime de direito e as instituições de mercados de livre funcionamento e do livre comércio,
usando o monopólio dos meios de violência para resguardar essas. Inúmeros setores que
eram geridos pelo Estado, são desregulados e passam à iniciativa privada. Outro aspecto
que merece ser suscitado é o estimulo à competição (seja entre indivíduos, empresas ou
territórios), que é considerada como virtude primordial. Por essa razão, cada individuo é
responsabilizado tanto pelas suas ações, como também pelo seu próprio bem-estar, em que
sucesso e fracasso individuais são compreendidos como falhas pessoais liberdades
(HARVEY, 2008, p.75).
Interessante mencionar que os defensores dos princípios neoliberais
protegem e valorizam a desigualdade econômica de renda, no sentido desta ser funcional à
sociedade “livre”. Sob a égide do capital, as desigualdades estimulariam “a produtividade do
trabalho e a geração de riquezas, tendo em vista a competição entre massas e elites”, além
de favorecer os altos índices de produtividade do capitalismo, “o que geraria uma riqueza
exponencial em ritmo acelerado, supostamente demonstrando a superioridade deste modo
de produção sobre qualquer outro”. Além disto, há o incentivo ao consumo de bens de luxo,
que é compreendido como algo bom para todas as camadas sociais, visto que, na ótica
neoliberal, “a concentração de renda nas mãos de um pequeno grupo de milionários ociosos
permitiria a criação de uma indústria de bens de luxo, de alta inovação tecnológica,
impulsionando o progresso técnico”. Tais bens de luxo em alguma medida também estariam
disponíveis para as classes mais baixas. Desse modo, “a concentração de renda e riqueza
criaria dinamismo a uma economia de livre mercado” que no decorrer do tempo instituiria um
estabilização entre a oferta e a demanda, havendo equilíbrio para todos os indivíduos
(CASTELO, 2011, p. 226).
Castelo (2011, p. 227) nos alerta que a valorização de forma positiva “da
desigualdade social não resistirá à força dos fatos”, pois “os neoliberais irão mais tarde
descartar a apologia aberta da desigualdade social como algo natural e positivo de uma
economia de mercado, e passarão a adotar uma apologia indireta”. Isso porque a partir da
década de 1990 há impactos mais intensos da ampliação da concentração de renda nas
mãos da classe dominante, quando emerge “uma onda de subversivismo espontâneo e
elementar das classes subalternas, em especial nas periferias”. Em decorrência destas
tensões, a ideologia neoliberal irá incorporar em suas ações políticas a chamada questão
social, visando “neutralizar as proposições igualitaristas representativas da esquerda”
(idem).
No panorama mais geral, Harvey (2008) sintetiza que a “virada neoliberal” foi
uma resposta à crise de 1970, adotando novas práticas de possibilitassem a continuidade
do capitalismo, por meio de medidas de cunho neoliberais, no intuito de recuperar o poder
da classe capitalista. O neoliberalismo, como nova estratégia hegemônica, implica
necessariamente em redução de políticas sociais, aumento da desigualdade social, novas
formas de flexibilização do trabalho, entre outras medidas que permitem a superexploração
do trabalho como um todo. Não podemos deixar de mencionar que a conjuntura de
implementação das medidas neoliberais está inserida no contexto da “reestruturação
produtiva do capital”, onde se passa a descobrir ambiente efetivo para ideias difundidas a
partir da crise mundial dos anos 1970. As desregulamentações das políticas sociais e das
relações de trabalho tornam-se a “questão do dia” para serem efetivadas com muito mais
rigor. É o que tentaremos demostrar a seguir.

III. AS CONFIGURAÇÕES DO ESTADO NEOLIBERAL NA CONTEMPORANEIDADE


E OS IMPACTOS NAS POLÍTICAS SOCIAIS E NAS RELAÇÕES DE
TRABALHO

Na análise de Castelo (2011, p. 229) até a década de 1970 o neoliberalismo


ainda constituía-se em uma doutrina ideológica sem grande força substantiva “pois não
havia se materializado em mandatos políticos ou sido incorporado como teoria das massas
via um projeto hegemônico das classes dominantes”. As condições propícias para a difusão
do neoliberalismo foram dadas no fim da década de 1970, que estava imersa numa
conjuntura de crise do capital. Para os neoliberais, a crise da década de 1970 ocasionou
uma ineficiência por parte do Estado na alocação dos recursos públicos o impossibilitando
de angariar o “bem-estar social”. Diante disso, para os neoliberais, o Estado não seria capaz
de promover o bem-estar social por meio de mecanismos de intervenção direta, uma vez
que ele está “sempre suscetível à corrupção e à nefasta ingerência das classes dominadas
nos interesses privados” (idem).
Castelo (2011, p.230) é bem incisivo ao dizer que “a ideologia neoliberal
materializa-se pela primeira vez em um projeto político sob os auspícios da autocracia
burguesa, e não dentro das regras do jogo formal da democracia representativa”. Outro
elemento que merece ser destacado pelo autor é o uso da coerção, que foi decisivo na
conversão “do neoliberalismo de uma ideologia para uma estratégica política das classes
dominantes”, que estavam preocupadas com as sequelas da crise (idem, p. 231). As ideias
motrizes da doutrina neoliberal demoraram a se concretizar como um consenso, vindo
acontecer apenas na década de 1990 com o Consenso de Washington (CASTELO, 2011,
p.232). Desse modo:

Por diferentes meios e caminhos o neoliberalismo, atendendo as


especificidades de cada uma das formações econômico-sociais, foi
sendo desigualmente efetivado em todas as regiões do planeta –
tanto em questão de ritmo como de profundidade –, configurando-se
em uma autêntica estratégia político-cultural mundial da burguesia,
respeitando-se, como dito acima, as particularidades nacionais e as
tensões entre a ideologia e sua materialização como projeto político
das classes dominantes (CASTELO, 2011, p.233-234).

O neoliberalismo ganha materialidade a partir das vitórias eleitorais de


candidatos das alas conservadoras e finca seu sucesso por meio de “de um consenso
construído e moldado segundo a imagem e semelhança da burguesia rentista, com
diferentes variações nos diversos países”. Consenso esse muitas vezes consolidado nos
pleitos eleitorais com a participação dos trabalhadores e da classe média, que legitimaram
com seus votos o consubstanciamento do projeto neoliberal. Vale destacar que o uso de
métodos coercitivos de repressão4 também é uma estratégia do projeto neoliberal, seja por

4
“A repressão e o uso da violência aconteceram e foram marcantes nos centros imperialistas
difusores da doutrina neoliberal. Reagan e Thatcher estiveram envoltos, logo nos primeiros anos dos
seus mandatos, em longas greves de setores combativos da classe trabalhadora, e recorreram aos
gendarmes para acabar com o movimento operário. Nos EUA, a greve dos controladores do trafégo
aéreo; no Reino Unido, a greve dos mineiros, dos trabalhadores gráficos e da imprensa, dos hospitais
e das ferrovias” (CASTELO, 2011, p.235).
meio da desmobilização da classe trabalhadora, como também através da criminalização da
pobreza e dos movimentos sociais (CASTELO, 2011, p.234).
Convém salientar que, na esfera ideológica, a doutrina neoliberal propõe a
“desregulamentação dos mercados financeiros, de produtos e do trabalho”. A partir disto, a
esfera financeira conduz as deliberações das empresas, a partir dos países centrais do
capitalismo, na medida em que os países periféricos “passam a depender cada vez mais de
sua capacidade de pagamento de investimentos e de empréstimos externos absorvidos
domesticamente”. Os países periféricos submetem-se aos ditames dos países centrais, os
quais definem “a circulação do capital, sobretudo a partir das decisões das matrizes das
empresas transnacionais”. (SALVADOR, 2010, p. 104-105).
É a partir do início da década de 1980 e no espraiar da década seguinte que o
neoliberalismo ganha visibilidade no cenário mundial, em conjugado com o contexto da
reestruturação produtiva. O neoliberalismo “agora como doutrina de governo, é portanto o
processo de reestruturação do capital, sob hegemonia financeira, para devolver ao capital,
face à crise, as taxas de lucro anteriores” (SIQUEIRA, 2013, p.67).
Na perspectiva de Falleiros, Pronko e Oliveira (2010, p. 66) a chamada
neoliberalização operou significativas mudanças na esfera econômica, “envolvendo
principalmente aspectos monetários e financeiros”, o que implicou, no contexto dos anos
1980, na expansão da finança, afetando a economia mundial. Os autores ainda mencionam
que uma importante transformação que ocorreu nesse período foi em relação ao mundo do
trabalho, em que cresceu o desemprego e adotou-se o processo de reestruturação
produtiva. Por um lado assistia-se o declínio do operariado fabril clássico e por outro se
tinha o crescimento do trabalho precarizado.
Para Harvey (2008) o neoliberalismo associa-se à restauração do poder das
elites econômicas, ao aumento da concentração de renda em vários países e ao
recrudescimento da desigualdade social a partir dos anos 1980, tendo como protagonistas
desse processo os organismos multilaterais, divulgando e implantando do fundamentalismo
do livre mercado e da ortodoxia neoliberal. Assim, “os países endividados tiveram de
implementar reformas institucionais como cortes nos gastos sociais, leis dos mercado de
trabalho mais flexíveis e privatização. Foi inventado o chamado ‘ajuste estrutural’ “(idem, p.
38).
Harvey (2008) nos mostra que duas instituições se destacaram dentro da
implementação das ideias neoliberais: O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco
Mundial5. Ambas, financiavam projetos e constituíram-se como núcleos de propagação da

5
“Os organismos internacionais lançam mão de novas estratégias de ação, tanto na condução da
política econômica quanto na conformação social dos países. As "novas funções do Estado"
ortodoxia neoliberal. Merece também destaque a conjuntura do final dos anos 1990 onde
entra em cena o Consenso de Washington, que implementa medidas macroeconômicas
para os países em desenvolvimento, a exemplo dos países da América Latina. Com adoção
desses mecanismos e medidas, o neoliberalismo passa “a afetar amplamente os modos de
pensamento que se incorporou às maneiras cotidianas de muitas pessoas interpretarem,
viverem e compreenderem o mundo” (HARVEY, 2008, p. 13).
O Consenso de Washington tem papel decisivo neste cenário de
desregulamentação no mundo do trabalho e da produção, juntamente com a reestruturação
produtiva, na conjuntura de financeirização do capital. Com a reorganização sóciotécnica da
produção, para assim obter-se maior elevação da produtividade do capital, decorreram
diversos fatores, como intensificação da jornada de trabalho, e também a redução do
número de trabalhadores na produção. É nesse contexto mais geral que se constata um
claro aumento de modalidades de trabalho desregulamentadas.
De modo peculiar, as políticas sociais nessa conjuntura assumem “um sentido
claramente pejorativo”. Isto porque, a doutrina neoliberal “admite até mesmo um conjunto de
serviços sociais fornecidos pelo Estado”, desde que “a oferta de tais serviços não torne
ineficaz o mecanismo de concorrência”. (SIQUEIRA, 2013, p. 75). Para os neoliberais, a
concorrência entre os indivíduos deve ser amplamente estimulada, pois é através dela que
os sujeitos encontrarão seu fracasso ou seu sucesso por meio de suas ações. Cabe ao
indivíduo buscar o provimento de seu sustento a partir do seu próprio esforço.
A emergência do neoliberalismo acentuou os elementos da precarização do
trabalho que já são intrínsecos ao modo de produção capitalista. O modelo neoliberal e a
reestruturação produtiva afetaram as relações de trabalho no mundo inteiro. Os direitos
sociais são transferidos do âmbito do Estado para esfera do mercado, o que impacta
também na privatização dos benefícios da seguridade social. Nessas condições:

Nos últimos anos, este modelo aprofundou os abusos contra os


trabalhadores em contextos recessivos que potencializam o temor e
a miséria. A desigualdade social alcançou níveis sem precedentes, a
pobreza expandiu-se nas economias centrais e a precarização do
trabalho foi massificada em todo planeta (KATZ, 2016, p.80).

Testemunha-se o emergir da intensificação da flexibilização e fragilização das


condições de trabalho, com redução dos direitos, incentivo à terceirização entre outras
regressivas medidas que incidem nas condições de vida e de trabalho dos trabalhadores.
Com tal posicionamento do Estado, além da fragilização das condições de reprodução da

envolvem desde a gestão das pequenas reformas para implantar as grandes reformas (BANCO
MUNDIAL, 1997) até a formulação de uma nova conformação social”. (MELO, p.73, 2005)
classe trabalhadora, há também de políticas e serviços sociais de cunho universal,
preconizando a transferência de responsabilidades por parte do Estado para a esfera
privada e para organismo da sociedade civil.
Nessa perspectiva, Behring e Boschetti (2008) afirmam que a política neoliberal
defende que a estabilidade monetária só será assegurada mediante a contenção dos gastos
sociais e a manutenção de uma taxa “natural” de desemprego, associada a reformas fiscais.
Além do corte nos gastos sociais implementa-se um amplo programa de privatização de
setores importantes do Estado. As políticas sociais perdem o seu caráter universalista e
seguem na direção de sua restrição, seletividade e focalização.
Tem-se, assim, o desencadear avançado de um processo que precariza as
condições de trabalho e de vida dos indivíduos, em que se “contraiu os rendimentos da
população, afetou a capacidade de consumo, aumentou a superprodução de mercadorias e
agravou várias modalidades de superacumulação do capital”. É um cenário marcado pelo
retrocesso imposto à classe trabalhadora. “Sustenta-se do cansaço político gerado pela
alternância de conservadores e sociais-democratas na administração do mesmo modelo”
(KATZ, 2016, p.81). Sob este aspecto, sem espaço para dúvidas, caberá aos trabalhadores
a luta pela reversão deste contexto adverso, marcado por retrocessos nos campos político,
social e econômico e que exigirá lutas radicais no sentido de subverter a ordem imposta,
que assola diariamente a classe trabalhadora em seu conjunto geral.

IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A exposição que aqui foi realizada apontou que na conjuntura dos anos 1970
eclodem claramente sinais de esgotamento e de estagnação do padrão produtivo fordista e
consequentemente do chamado Estado de bem-estar social, não possibilitando as mesmas
condições favoráveis à expansão ininterrupta do capital. Também demonstramos diversas
mudanças na configuração do Estado e na dinâmica da sociedade, traduzidas na
implementação das medidas neoliberais. Apreendemos que a configuração neoliberal do
Estado é imbricada às propostas de expansão do capital e como nova estratégia
hegemônica, implica necessariamente em redução de políticas sociais, aumento da
desigualdade social, novas formas de flexibilização do trabalho, entre outras medidas que
permitem a superexploração e a precarização do trabalho.
No panorama mais geral, pode-se concluir que a hegemonia neoliberal
implementada pós anos 1970 não foi capaz de dá uma resolutividade para a crise ali
instalada, tampouco deu respostas eficientes para alteração dos índices de declínio
econômico e de recessão, como defendia em seu discurso. A reconfiguração da ação
estatal no neoliberalismo implicou necessariamente em efeitos destrutivos para classe
trabalhadora, em seu conjunto geral, traduzidos no aumento do desemprego, na
precarização das condições de trabalho e na redução de políticas sociais.
Destarte, independente da forma a qual o Estado venha a tomar ou do
direcionamento de suas ações, ele sempre será instrumento de repressão da classe
dominada a fim de garantir a manutenção da sociedade capitalista. Numa sociedade sem
dominação de classe não será necessária a presença do Estado. A luta de classes deve ir
ao sentido de destruir o Estado6 e não melhorá-lo.
Assim, fica claro que o Estado, independente da forma que ele tome, representa
e defende os interesses da burguesia, constituindo-se como opressor da classe
trabalhadora. Frente aos problemas oriundos dessa relação entre exploradores e
explorados, o Estado atua no amortecimento e camuflagem dos problemas sociais. O
Estado, através de sua administração pública, é ineficiente para resolver esses problemas,
pois a raiz da desigualdade social reside na forma a qual a sociedade burguesa está
estruturada. Vale dizer que o Estado em nada pode alterar os conflitos sociais, pois estes se
encontram estruturados na base material da sociedade capitalista.

6
Engels (1975, p.95) ressalta que o Estado só se torna necessário numa sociedade em que haja
antagonismos de classes, para que sejam sustentadas “as condições exteriores de produção”.
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FALLEIROS, Ilaê; PRONKO, Marcela A. e OLIVEIRA, Maria T. Cavalcanti. Fundamentos


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