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SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


CENTRO TECNOLÓGICO
DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA ELÉTRICA

CURSO DE ENGENHARIA ELÉTRICA

LABORATÓRIO DE
ELETROMAGNETISMO

6º CADERNO

AQUECIMENTO ELÉTRICO

PROF. DR.-ING. JOÃO TAVARES PINHO


PROF. EDINALDO JOSÉ DA SILVA PEREIRA
Colaboração: Josiane Rodrigues e Fábio Seguins

VERSÃO DE ABRIL DE 1999


AQUECIMENTO ELÉTRICO

Objetivos
Familiarizar o aluno com o aquecimento de materiais, usando correntes elétricas e
microondas e suas aplicações, bem como com os equipamentos e dispositivos utilizados nos processos.

Equipamento
1. 1 Forno de microondas instrumentalizado.
2. 1 Conjunto de amperímetros.
3. 1 Balança analítica de pesagem por baixo.
4. 1 termômetro digital com sensores de termopar.
5. Recipientes de vidro refratário.
6. 2 Fontes de alimentação DC: 30 V/3 A.
7. 1 Transformador Varivolt de 0 a 130 V.
8. 1 Multímetro digital.
9. 1 Bobina com núcleo de ar.
10. 1 Tarugo de aço.
11. Cabos terminados com pinos banana.
12. Cabos terminados com pinos banana de um lado e garra jacaré do outro.
13. Eletrodos de metal.
14. Diversos materiais para testes.

Fundamentos Teóricos
Os processos de transferência de calor conhecidos são basicamente o por condução, por
convecção e por irradiação.
No de condução, o material a ser aquecido é colocado em contato físico direto com a fonte
de calor e este se propaga no material, iniciando a partir do ponto de contato. No processo por
convecção, a transferência de calor da fonte para o material é realizada através do aquecimento e
conseqüente movimentação de um fluido (geralmente o ar), sem que o material tenha contato físico
direto com a fonte de calor. O processo de irradiação se verifica através da emissão contínua de energia
por um objeto (fonte), na forma de ondas eletromagnéticas, sendo o material a elas exposto, aquecido
através da absorção dessa energia.
O aquecimento de materiais utilizando eletricidade pode ser classificado basicamente em
três tipos: resistivo, por indução e dielétrico.
O primeiro tipo baseia-se na circulação de uma corrente elétrica através do material, o que
resulta no seu aquecimento por Efeito Joule. A eficiência do aquecimento depende das características
elétricas do material, principalmente da sua condutividade elétrica.
O segundo tipo tem por princípio a indução de correntes parasitas no material através de
uma corrente alternada circulando por um enrolamento que envolve o material, tal como o
funcionamento de um transformador, onde a corrente do primário induz uma corrente no secundário. O
acoplamento da energia é através do campo magnético e não através de contato elétrico ou mecânico.
A eficiência desse aquecimento está relacionada à corrente total induzida no material. Por esta razão,
obtém-se desempenho satisfatório no aquecimento de materiais com altas condutividades elétrica e
térmica.
O aquecimento dielétrico ou por rádio freqüência, por outro lado, envolve o aquecimento
de materiais dielétricos, que são geralmente maus condutores elétricos e térmicos. Nesse processo não
há necessidade de contato elétrico ou mecânico do material com o aplicador. O material a ser aquecido
é colocado entre dois eletrodos que podem apresentar diferentes formas, dependendo do tipo de
material a ser aquecido.
Nos processos convencionais de aquecimento, a transferência de calor é feita de forma
indireta, sendo o calor gerado externamente ao produto e indo de fora para dentro do mesmo através
do processo de condução térmica. Assim sendo, são aquecidos o ar, o recipiente que contém o material
e as paredes internas do aplicador, o que ocasiona perdas adicionais de energia. No processo por
microondas, o aquecimento é direto, sendo o calor gerado no interior do produto, não havendo,
portanto, aquecimento direto do ar e dos outros objetos, o que torna o processo econômico e eficiente.
A figura 1 ilustra os dois processos.

(a)

(b)

Figura 1 - Comparação dos processos de aquecimento: (a) convencional; (b) por microondas

A conversão da energia de microondas em energia térmica ocorre por um conjunto de


mecanismos em escala atômica e molecular, onde os mais significativos são a condução iônica e a
rotação dipolar. Para materiais com altos conteúdos de umidade, o principal fenômeno responsável pela
geração de calor é a rotação dipolar. A molécula de água apresenta-se como um dipolo elétrico
(molécula polar). Sob ação do campo elétrico externo o dipolo tende a girar e essa rotação encontra
resistência, resultando em dissipação de energia eletromagnética, com conseqüente aumento de
temperatura.
As propriedades elétricas dos materiais são de grande interesse para a engenharia de
microondas, porque delas dependem a distribuição e o acoplamento da energia e, conseqüentemente, as
características de aquecimento do material em processos envolvendo transferência de energia por um
campo eletromagnético.
A propriedade elétrica de interesse básico em microondas é a permissividade elétrica. Essa
propriedade reflete a capacidade do material em armazenar e dissipar energia eletromagnética. Tal
propriedade está relacionada à capacitância e à resistência elétrica e pode ser expressa como:

 =  - j , (1)

onde ” é o fator de perdas efetivo, que é um parâmetro dependente da freqüência, determinado pelas
propriedades elétricas do meio e definido como o produto da constante dielétrica, ’, pela tangente de
perdas, tg.
Define-se a tangente de perdas como

tg = r / r , (2)

que representa as características de perdas de energia do material.


Em geral, o fator de perdas do material úmido é função do conteúdo de umidade, da
temperatura, da freqüência do campo aplicado, da densidade, da estrutura e da composição química.
Já as características magnéticas dos materiais estão relacionadas com a resistência e a
indutância do material e são definidas por um conjunto de propriedades, que podem ser expressas em
termos da permeabilidade complexa,

 =  - j  . (3)

A parte imaginária de  está relacionada à sua resistência e à sua capacidade de dissipar


energia magnética, enquanto que a parte real está relacionada à indutância e à capacidade de armazenar
energia magnética. Contudo, no aquecimento por microondas é geralmente desnecessário considerar os
efeitos magnéticos, principalmente em materiais biológicos, pois suas permeabilidades magnéticas
relativas são próximas da do vácuo, e suas perdas magnéticas são zero.
A potência gerada por unidade de volume do material dielétrico depende das propriedades
dielétricas do mesmo e das características do campo eletromagnético, ou seja, freqüência, f, e
intensidade do campo, E.

P = 2  f E2 0 r = 2  f E2 0 r tg . (4)

Secagem

Um dos processos mais importantes no beneficiamento de produtos é o de secagem.


Através da redução do conteúdo de umidade, os produtos são preservados contra deterioração através
de fungos e germes, podendo ser transportados e estocados por períodos mais longos. Além disso, os
produtos secos ou desidratados são mais concentrados do que qualquer outra forma de produto
preservado, o que reduz os custos de embalagem, transporte e armazenamento.
O processo de secagem por microondas é intrinsicamente diferente de processos
tradicionais de secagem como os convectivos, os pneumáticos, etc. Nestes processos, particularmente
nos convectivos, a umidade superficial é inicialmente eliminada e a água restante difunde vagarosamente
para a superfície. A transferência de calor para o interior do material é devida a um gradiente de
temperatura e a transferência de massa é devida ao gradiente de concentração entre o interior úmido e a
superfície seca. Esses gradientes são direcionados opostamente, resultando em um efeito de
amortecimento na transferência de massa. Com isso, o processo é freqüentemente lento, com taxas de
difusão limitadas, e necessita de altas temperaturas externas, que podem causar efeitos indesejáveis no
material sob secagem, tais como endurecimento do invólucro, decomposição, mudança de cor, etc.
Nos sistemas de secagem por microondas, a geração volumétrica de calor resulta em uma
temperatura interna mais alta, cujo gradiente é orientado na direção da superfície. A transferência de
massa é devida inicialmente a um gradiente de pressão causado pela geração de vapor dentro do
material. Grande parte da umidade é vaporizada antes da saída do interior do material. Se o material
estiver inicialmente com um grande conteúdo de umidade, sua pressão interna aumentará rapidamente e
a parte líquida será removida sob influência de um gradiente de pressão total. Então, quanto maior o
conteúdo de umidade inicial, maior será a influência do gradiente de pressão na remoção da massa total.
Isso pode ser observado como um efeito de bombeamento, que força o líquido para a superfície,
freqüentemente como vapor, proporcionando secagens muito rápidas, sem necessidade do aquecimento
do ar que envolve o material. A figura 2 ilustra a comparação entre os dois processos.

Figura 2 - Processo de secagem convectiva versus dielétrica


(X = conteúdo de umidade, T = temperatura)

Vantagens e Desvantagens do Aquecimento por Microondas

Algumas vantagens do aquecimento por microondas em relação aos métodos convencionais


são: rapidez, limpeza, segurança, necessidade de menores áreas, compatibilidade com outros processos
de aquecimento e uniformidade dos produtos.
Eventuais desvantagens são o superaquecimento localizado, a degradação de produtos
sensíveis às ondas eletromagnéticas, a dificuldade de aquecimento de materiais transparentes às
microondas ou daqueles com alta condutividade elétrica e a ocorrência de avalanche térmica, que pode
ser observada em alguns materiais através da variação acentuada da sua tangente de perdas com a
temperatura.

Sistemas de Microondas

Um sistema de aquecimento por microondas consiste em geral das seguintes partes: fonte
de alimentação, oscilador de microondas, sistema de refrigeração, seção de transmissão, acoplamento
de energia, aplicador, agitador de campo, acessos ao aplicador, blindagem eletromagnética, sistema de
exaustão, sistema de movimentação do produto e controles de operação e segurança. Além disso,
podem ser incluídos outros dispositivos quando da combinação com outros processos como, por
exemplo, os convectivos. A figura abaixo ilustra uma configuração genérica de um sistema de
aquecimento por microondas.
Figura 3 - Diagrama genérico de um sistema de aquecimento por microondas

Procedimentos
Aquecimento por corrente elétrica DC
1. Conectar os cabos com pinos banana/garra às fontes DC (em série) e aos eletrodos.
2. Verificar se as fontes DC estão na posição 0 V e ligá-las.
3. Ajustar os valores das tensões para 30 V em ambas as fontes e desligá-las.
4. Conectar os eletrodos ao material a ser aquecido.
5. Ligar as fontes.
6. Observar a variação da corrente com o tempo, anotando seu valor a cada 5 segundos.
7. Desligar todos os equipamentos.
Aquecimento por corrente elétrica AC
8. Conectar os cabos com pinos banana/garra ao transformador Varivolt e aos eletrodos,
passando pelo amperímetro.
9. Conectar o transformador variável à rede elétrica.
10. Ajustar a tensão do transformador variável para 65 V e desconectá-lo da rede.
11. Conectar os eletrodos ao material a ser aquecido.
12. Ligar o transformador à rede.
13. Observar a variação da corrente com o tempo, anotando seu valor a cada 5 segundos.
14. Desligar todos os equipamentos.
Aquecimento por indução
15. Conectar as extremidades do tarugo de aço aos terminais de saída do Varivolt.
16. Conectar um amperímetro em série.
17. Conectar um voltímetro à saída do Varivolt.
18. Medir a temperatura do tarugo e manter o termômetro conectado ao mesmo, para
observar a variação de temperatura.
19. Regular o Varivolt para que uma corrente de 1 A flua através do circuito.
20. Observar, durante um minuto, a variação de temperatura no tarugo de aço.
21. Conectar a saída do Varivolt aos terminais da bobina com núcleo de ar.
22. Inserir o tarugo de aço como núcleo da bobina.
23. Repetir o item 18.
24. Regular o Varivolt para que uma corrente de 1 A flua através da bobina.
25. Repetir o item 20.
26. Desligar todos os equipamentos.
Aquecimento por microondas
27. Encher um recipiente com água e pesá-lo, determinando a massa d’água contida.
28. Medir a temperatura da água no recipiente.
29. Colocar o recipiente no forno de microondas.
30. Ligar o forno em potência máxima por dois minutos.
31. Abrir a porta do forno e medir a temperatura da água.
32. Calcular a potência absorvida pela água, através da equação:
. m.T
P (W) = , (5)
t
onde
 = 4.193 J/(kg.K), calor específico da água
T – diferença de temperatura em Kelvin
t – intervalo de tempo em segundos
Distribuição de energia
33. Distribuir a sílica-gel saturada sobre a superfície do recipiente.
34. Colocar o recipiente com a sílica no forno de microondas.
35. Ligar o forno em potência máxima por dois minutos.
36. Observar a coloração da sílica-gel.
Secagem por microondas
37. Preparar o material a ser secado.
38. Colocar o material no recipiente apropriado.

Balança Eletrônica

Forno de Microondas
Cesta
Figura 4 - Montagem experimental para testes de secagem
39. Acoplar o recipiente à balança analítica, segundo o esquema da figura abaixo.
40. Anotar a massa inicial indicada.
41. Ligar o forno em potência máxima por 10 minutos.
42. Observar a variação de massa, anotando seu valor a cada 10 segundos.
43. Parar o processo quando não houver mais variação significativa da massa.
44. Repetir os itens 25 a 31 para outro material.
As equações que descrevem o processo são:
Mss = Msi (100 - X%i) / 100 (6)

Msf = Msi [100 - (X%i - X%f)] / 100 (7)

X%(t) = 100 [Ms(t) - Mss] / Msi, (8)

onde

Msi = massa inicial do sólido,


Mss = massa do sólido seco,
Msf = massa final do sólido,
Ms(t) = massa do sólido no instante t,
X%i = conteúdo de umidade percentual na base úmida no inicio do processamento,
X%f = conteúdo de umidade percentual na base úmida no final do processamento,
X%(t) = conteúdo de umidade percentual na base úmida no instante t.
45. Desligar todos os equipamentos.

Questões
1. Comente as diferenças básicas entre o forno convencional e o por microondas!
2. Quais os cuidados que devem ser tomados nos dois casos?
3. Cite algumas aplicações do aquecimento por microondas!
4. Dê exemplos de aplicadores de microondas!
5. No aquecimento por microondas o calor é gerado de forma uniforme no interior do
material? Por que?
6. Comente a diferença básica entre o aquecimento resistivo usando corrente DC e AC!
7. Comente o porquê de alguns materiais serem aquecidos por microondas mas não pela
corrente elétrica direta!
8. Cite duas fontes de erro na medição da potência absorvida pela água no experimento do
item 32!