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CURSO DE FILOSOFIA DO DIREITO • Bittar / Almeida (Introdução)

Em muitas línguas (hibou, no francês, owl, no inglês, Eule, no alemão), a


coruja é a ave que simboliza a sabedoria. Isso se deve ao fato de, na
tradição grega, a coruja (koukoubagía) ter sido vista como a ave de Athena
(Minerva, para os romanos), ou seja, como símbolo da racionalidade e da
sabedoria (sophía), como a representação da atitude desperta, que procura e
que não dorme, que age sob o fluxo lunar e que, portanto, não dorme quando se
trata da busca do conhecimento.[...] Os grandes olhos voltados para a
compreensão, para a observação, são suficientemente significativos para
traduzirem a ideia de que a busca da sabedoria pressupõe um olhar atento para
a compreensão do mundo. O amor à sabedoria implica em uma atitude perante
o mundo de busca incessante pelo conhecimento. Isso significa o cultivo à
vontade de descobrir, investigar, desbravar, escarafunchar a história, procurar,
se embrenhar, enfim, os diversos universos e horizontes do conhecimento. De
toda forma, não há pensamento se não houver curiosidade intelectual.
A sabedoria demanda uma peculiar atitude perante o mundo, quando se
quer conquistá-la. Certamente, ela tem a ver com a experiência de mundo e com
a experiência de vida; no entanto, uma longa experiência que seja não refletida,
mas mecanicamente vivida, não é sinônimo de sabedoria adquirida. A sabedoria
realmente evoca experiência e capacidade de absorção reflexiva da experiência
mundana, esta predisposição de voltar-se para o processo de convívio com o
espanto diante do mundo.
É, portanto, pela forma com a qual interage com o entorno que se
distingue a coruja. A coruja que plana e que observa à distância, com grandes
olhos, retira das alturas sua vantagem na observação. O alcance de sua visão
se soma ao fato de que se distancia para enxergar mais.
[...]
De início, deve-se dizer que o homem é capaz de ação e de pensamento.
Entre os gregos, essa dicotomia expressava-se por meio da relação entre
práxis e theoría. Na tradição latina, a dicotomia foi incorporada como actio e
contemplatio.
De qualquer forma, o que se quer acentuar, para os fins desta discussão
é que, de certa maneira, quando se age, se imediatizam forças que
comprometem o raciocínio, as atividades corpóreas, os estímulos sensoriais
para responder a uma necessidade da ação (construir um barril; lapidar um
diamante; socorrer uma pessoa em perigo; assinar um decreto…); com essa
canalização de esforços, o manancial reflexivo é drenado para sustentar a
carência e a necessidade da ação. Quando se reflete, procura-se um
distanciamento que isola o homem da atividade, da operosidade, da
fenomenologia e dos acontecimentos para que possa observar (theoría =
observação) e analisar (ana-lisis = quebra, ruptura, dissolução para resolver);
com essa canalização de esforços, agora direcionados para a reflexão acerca
de algo, prioriza-se o alcance de uma proposta coerente de entendimento,
explicação e busca das causas do fenômeno investigado.
[...]
Ação, representa um comportamento mecanizado diante de determinado
estímulo, ou ainda, a cristalização ou o acomodamento do homem diante de
situações que reclamam decisões. Aqui, aparece a palavra decisão (decisio,
decisionem), querendo significar que se põe fim a determinada necessidade
mediante uma ação humana; a decisão é uma tomada de posição, é o epílogo
de algo que poderia delongar-se na ausência da mesma. Decidir (decidere), às
vezes, figura no vocabulário como ato de coragem, como intrepidez diante das
situações; arrostar o perigo da indecisão, ou mesmo preencher o vácuo da
incapacidade de dar uma resposta a uma demanda, representa o conteúdo de
toda decisão. Todavia, se é isto que se entende por decisão, então decidir não
é o problema.
O problema está em re-pensar constantemente a capacidade humana de
decidir. Se decidir é apresentar respostas, ainda que falhas e insuficientes, ainda
que equívocas, então re-pensar o porquê, o como, o para que se decide é que
parece representar o maior desafio, e isto com vistas ao revisionismo perene de
todas as possíveis escolhas destinadas a todas as situações que demandem
decisões.
Ação está intimamente ligada à decisão. O comprometimento daquela
com esta é intrínseco. Não há ação sem decisão; ainda que o conteúdo da
decisão seja mínimo, toda ação pressupõe uma decisão. Nesse sentido é que
se pode dizer que a investigação sobre os fundamentos da decisão, tarefa da
filosofia, reclama a atitude do observador externo.
Agir é responder por condutas positivas ou negativas a estímulos de
diversas naturezas (morais, econômicos, jurídicos, afetivos, religiosos…). Daí se
poder falar em ação com estímulo moral, em ação jurídica, em ação afetiva… O
que há de comum a todas é o fato de necessitarem de decisões e reclamarem
respostas. Como todas as demais espécies de ação, a ação jurídica reclama
decisão. Ater-se à ação jurídica, no entanto, é deter-se e bastar-se com a simples
decisão, com a resposta. E, de fato, o que se pode dizer desde já é que a ação
é uma resposta, positiva ou negativa, a um estímulo (externo ou interno). Uma
ação colérica que, por vingança a um mal sofrido anteriormente, se desdobra em
um assassínio, é uma decisão de tirar a vida de outrem, com base em
sentimentos pessoais e relacionais de simpatia, antipatia…
Todavia, investigar as causas, buscar os fundamentos, postular acerca
dos balizamentos… enfim, partir da superfície em direção à profundidade, nesse
sentido, conflita com o decisionismo que marca o campo da ação, da vida ativa
(vita activa). Por vezes, parece necessário que essa resposta seja colocada em
questão. Está aberto o campo para a filosofia. A atitude que pensa os
fundamentos, que reclama os princípios, que analisa as consequências, que
destaca as origens, que resgata as incongruências… é a atitude tipicamente
filosófica. Em suma, trata-se daquela atitude que absorve pela observação, que
demanda especulação, onisciência do fenômeno, e não ação, ou mesmo
decisão. Trata-se de uma atitude tipicamente racional, que, por ligações lógicas,
dedutivas, indutivas e dialéticas, estabelece relações e atribui sentidos aos
fenômenos analisados.
O próprio estremecimento dos fundamentos da ação impede a
estruturação de respostas imediatas. É nesse terreno de incertezas, mais de
perguntas que de respostas, que deve desfilar o pensamento. A filosofia não
pode estar plenamente comprometida com a ação, sob pena de converter-se ao
tecnicismo decisório.
[...]
Uma proposta franca e declaradamente humanista, no sentido de reverter
a re-flexão a favor do próprio homem. Nesse sentido, é o homem que se coloca
no laboratório para ser dissecado, ao lado do mundo, ou ainda é o homem que
investiga a si mesmo, em suas características intrínsecas, ou em suas projeções
sociais. Com vista a quê? A preencher de sentido a existência, a vida, a
insaciável busca humana pela descoberta. Como afirma Aristóteles no livro 1 de
Metafísica (980a, 20), todos os homens desejam por natureza o conhecimento.
[...]
A capacidade de crítica retira o véu que encobre os olhos humanos
atrelados às miudezas do quotidiano, ao procedimental, ao ritual, ao que é
facilmente aceito, ao dogmático, ao unilateral, ao acidental, ao qualitativo, ao
quantitativo, ao monodimensional… A filosofia permite o questionamento,
abrindo espaço para outros horizontes, introduzindo novas possibilidades,
rediscutindo premissas e princípios, fundando um sentido explicativo para as
coisas, reavaliando o que parece sólido e consensual, abrindo abordagens
diferenciadas para questões antigas… Enfim, no lugar de decidir, sua proposta
é a de investigar, no lugar de agir, sua proposta é a de especular, no lugar de
aceitar, sua proposta é a de questionar.
vive-se em uma sociedade de controle, com forte predominância da razão
instrumental, na acepção da Escola de Frankfurt (Adorno/Horkheimer), ou seja,
da razão orientada a fins imediatistas (razão técnica, para a produtividade, para
a economia, para a eficiência, para o mercado), o que, certamente, reduz o
índice de aceitação e abertura para a reflexão.
[...]
Se o Iluminismo introduziu alguma contribuição definitivamente importante
para a história contemporânea, esta contribuição foi a ideia de que não
há indivíduos autônomos se não houver espaço para o desenvolvimento
da razão emancipatória, se não houver espaço para a razão e para a crítica.
Razão e crítica significam liberdade. Ora, se estas ideias encontram sua
consagração em Kant, não é de menos importância ressaltar que fora da razão,
ou se está à pura mercê do determinismo natural, ou se está à pura mercê da
promessa teológica. A autonomia significa emancipação pela produção de
cultura, de saber e de domínio das explicações sobre os fenômenos, das forças
naturais (heteronomia causal) ou das forças supranaturais (heteronomia
teológica). Um indivíduo autônomo é aquele que guarda o distanciamento
necessário para se tornar autor de si mesmo, e, por isso, legislador pela sua
racionalidade de sua própria condição.
Não há autonomia sem capacidade de reflexão. Nossos tempos, pós-
modernos. [...]
se o pensamento significa autonomia, ele incomoda, ele provoca, ele
modifica, ele desestabiliza, ele causa distúrbios e produz a perda de
hegemonias. Onde está o pensar está também o princípio da renovação e da
mudança. Nem sempre a mudança é bem-vinda, especialmente para aqueles
que se arvoram na condição de conservadores das estruturas reinantes.
[...]

a recuperação da subjetividade depende sobretudo de um fortalecimento


da autonomia do indivíduo, plenamente tragado para dentro das exigências da
sociedade de controle, da sociedade pós-moderna.
No lugar de promover a adaptação, a reação somente pode vir das mentes
capazes de veicularem a resistência. Por isso, se deve repetir o que se lê em
“Educação – para quê?”: “Eu diria que hoje o indivíduo só sobrevive enquanto
núcleo impulsionador da resistência” (Adorno, Educação e emancipação, 3.
ed.,2003, p. 154). Aqui está o gérmen da mudança, somente possível se fundada
numa perspectiva semelhante à incentivada por Michel Foucault, em seus
últimos escritos sobre ética, de criação de uma ética da resistência como forma
de enfrentamento da microfísica do poder.
[...]
Os conhecimentos são inexauríveis, enquanto a vida é finita. Os
horizontes do saber se dilatam à medida que a dinâmica da realidade se altera.
O famoso adágio clássico, ars longa vita brevis, retrata precisamente a sensação
de impotência humana diante da imensa árvore dos conhecimentos. Se
considerarmos ainda que as culturas são muitas, o conhecimento se amplia
ainda mais. É vão o esforço humano de tudo saber, assim como é fútil a tentativa
de controlar, deter e dominar o conhecimento. O conhecimento se renova, o
conhecimento se reinventa, o conhecimento se multiplica, o conhecimento se
modifica. Especialmente, a tendência inaugurada pela modernidade de reduzir
todo o conhecimento a ciência, e de pretender com o método moderno produzir
uma vida fundada em certezas e evidências estritamente científicas.
A ciência é, sem dúvida, a base de uma série de progressos materiais na
relação do homem consigo mesmo e do homem com a natureza. No entanto, os
conhecimentos não se reduzem às evidências científicas, nem pode a ciência
avançar a ponto de comprometer a própria existência humana. A ciência não é
um fim para si mesma. Se a ciência permite que se espantem as ilusões e as
ideologias falsas, ela também produz o desencantamento do mundo, na acepção
weberiana do termo. Apesar disso, percebe-se que quanto mais especialidades
científicas surgem, como fruto da ramificação dos saberes, também maior é o
leque de variedades dos conhecimentos que vão se desdobrando, a ponto de
produzir-se uma dilatação que caminha em direção a horizontes cada vez mais
avançados. Atrás de cada avanço científico, parece restar ainda mais para
conhecer. Parece sempre restar um contingente do que pode ser considerado o
não desvendado atrás das ciências.
Se esta questão parece dilemática, é exatamente ela o motor de
propulsão para o permanente processo de busca, que é este “estar sempre no
caminho” (méthodos), pois o fim é difícil de ser alcançado. Daí a abertura do
conhecimento. Todo novo conhecimento parte da base de pressupostos
anteriormente conquistados ou construídos, que vão se acumulando
processualmente na história, a partir de onde surgem novas formulações,
proposições, que vão se alternando na explicação dos fenômenos estudados e
se substituindo na linha de uma progressiva expansão das formas do
conhecimento existentes, como afirma Kuhn. O horizonte inexplorado do
conhecimento anterior é sempre considerado um ponto de partida para novas
investidas em direção a visões e versões mais aprimoradas do conhecimento,
que geram paradigmas diferentes e novas formas de entendimento sobre os
fenômenos estudados. Daí, valer para o conhecimento sempre uma certa dose
de relatividade, pois quando se alcança um conhecimento “dito absoluto”, no
fundo, se alcançou mais um novo paradigma, que se renova assim que outro,
mais coerente e sustentável, se colocar em seu lugar.
Quando se projeta esta discussão no plano da filosofia, é muito difícil falar
em superação de paradigmas, como ocorre no interior do conhecimento
científico. Os filósofos e seus sistemas filosóficos respondem a questões e a
dilemas caracteristicamente humanos, e suas ideias não morrem com seu tempo
e muito menos com sua morte física. As ideias filosóficas de Aristóteles sobre a
amizade são tão válidas hoje como o eram na Grécia do século IV a.C.
Claramente, suas reflexões sobre a biologia não se encontram intactas,
diante dos avanços da biologia moderna. As ideias das tradições filosófico-
cristãs de origem agostiniana e aquiniana continuam a fundamentar as bases
das doutrinas religiosas contemporâneas. As ideias de Hobbes não destronam
as de Rousseau na dimensão do conhecimento sobre a sociedade, pois ambos
os sistemas partem de pressupostos diversos. As recentes teses de Habermas
não sufocam as de Kant, mas reinventam seus pressupostos à luz de recentes
concepções filosófico-linguísticas, renovando sua utilidade e perspectiva.
Nietzsche reavalia e resgata a significação de grandes tradições filosóficas pré-
socráticas, tornando-as base de muitos de seus postulados, dos quais se extrairá
a força do pensamento de Foucault. Portanto, se a ciência trabalha com a ideia
de superação, a filosofia é um saber que se desenvolve e, claramente, dá passos
adiante, não necessariamente lidando com a ideia de superação.
A filosofia é, atualmente, uma forma de saber que se inscreve em meio a
uma larga teia de outros conhecimentos. É considerada, mesmo, a matriz de
todas as ciências (mater scientiae), pois a ela remonta o princípio fundador de
todo o saber. A busca do conhecimento racional se dá na Grécia antiga, com os
filósofos pré-socráticos, a partir da pergunta que coloca a nu a ignorância
humana e inaugura a busca da razão: o que é o ser? A partir daí, se sucedem
diversas correntes e escolas de pensamento, que de suas interpretações e
questões vão dando fomento ao surgimento do questionar sistemático, do
perguntar organizado, que paulatinamente vai dando origem às especializações
científicas. [...] O senso comum, a religião, a técnica, a ciência e a filosofia são
as principais formas de projeção do homem, formas que acabam por compor as
mais evidentes e as mais destacadas categorias culturais humanas.
[...]
Antes de se projetar na leitura de cada um destes universos conceituais,
vale fazer uma pergunta filosófica acerca do olhar que se projeta sobre a história
do próprio pensar, sobre a história da filosofia, questionamento este inaugurado
por Hegel, a partir de seus ensinamentos contidos em Lições sobre a história da
filosofia (Vorlesungen uber die Geschichte der Philosophie), no século XIX. Para
Hegel, se o pensamento é colhido pela história, se torna inescapável a reflexão
sobre a história do pensamento, pois ela é, em verdade “...este desenvolvimento
no tempo”.
Os sistemas filosóficos que se sucedem no tempo se superam entre si? A
temporalidade histórica atravessa os sistemas filosóficos? A noção de justiça dos
antigos é inadequada para avaliar a noção de justiça com a qual se opera hoje?
Um sistema filosófico atravessa e ultrapassa o seu tempo, podendo ser
reconquistado em outro contexto? O que guia a história do pensamento? Qual
A relação entre os sistemas filosóficos acumulativamente reunidos na
história? Estas e outras questões se acotovelam quando se trata de pensar o
tema da filosofia da história da filosofia, e, por consequência, a filosofia da
história da filosofia do direito.
A primeira forma de se abordar essas complexas questões é apontar para
uma advertência: não se pode ler a história da filosofia como se lê a história das
ciências. Se assim fosse, Aristóteles, macedônio do séc. IV a.C., teria proposto
um sistema de interpretação da ideia de justiça, na Ética a Nicômaco, que teria
sido liquidado por um autor contemporâneo como John Rawls, em sua obra Uma
teoria da justiça. Não, diferentemente do que sucede nas ciências, as filosofias
sobrevivem ao seu tempo, e, por isso, a história não enterra no passado o valor
dos questionamentos filosóficos. Em razão disso, é hoje possível desenvolver
pensamentos neokantianos e neoaristotélicos, sem com isso incorrer em
contrariedade com relação a nenhuma lei da história. No entanto, e certamente
neste ponto, Galileu e Kepler deram acertados golpes no geocentrismo da
astronomia de tradição aristotélica, assim como a física de Albert Einstein supera
a de tradição newtoniana.
Por isso, vale seja feita a advertência de que a história da filosofia não
pode ser lida como uma história ascensional, do menos desenvolvido ao mais
desenvolvido, mas que ela é toda entrecortada por ideias que se reciclam no
tempo, que ganham nova atualização e novas feições, e, mais ainda, refletem
contextos cujas necessidades incorporam problemas os mais diferenciados ao
longo da própria história da humanidade. Nietzsche relê os pré-socráticos em
pleno século XIX, Foucault incorpora Nietzsche em suas investigações e Marx é
relido permanentemente por diversas correntes do marxismo ocidental ao longo
do século XX, de Gramsci a Lukács, de Adorno a Horkheimer, de Pachukanis a
Althusser. O que se percebe é que há superações e há continuações, e,
sobretudo, há linhas diversas que permitem leituras também muito diferenciadas
dos fenômenos.
Assim, se deve perceber que o fluxo do devir contingencia os
pensamentos filosóficos, mas nunca ao ponto de sua total revogação. O
pensamento novo não é necessariamente melhor que o pensamento antigo; há
muito no novo que já estava no antigo, e o novo pressupõe o antigo para se
afirmar. Hegel, nas suas lições, afirma: “Os conceitos concretos da razão se
aperfeiçoam sem que os sistemas de pensamento anteriores desapareçam nos
posteriores.” Ainda, mais adiante, afirma: “Da mesma maneira, se conserva o
precedente na história da filosofia. Nada se perde.” Ainda, toda vez que o novo
se afirma, mesmo a superação também vem acompanhada de manutenção e
restauração. É também certo que o novo sempre contém maior capacidade de
representar e expressar os problemas de seu tempo, muitas vezes imprevisíveis
para o pensamento anterior, mas isso não indica que os sistemas se sucedem
num ritmo progressista entre si – nada impede que a filosofia de um tempo
decadentista tenha o condão de representar um espelhamento temporal de um
retrocesso com relação a filosofias anteriores, porém, mais avançadas.
Também, não há nenhuma linearidade na forma como os sistemas filosóficos
são relidos e reinterpretados na história, pois recuperações e expurgos são
comuns conforme as expressões contingenciais de poder numa determinada
sociedade. A vitória do platonismo de Avicena sobre o aristotelismo de Averróis
tem suas consequências práticas para o mundo árabe. Kant (séc. XVIII) é a base
para Hegel (sécs. XVIII-XIX), mas é rejeitado pela crítica de Marx (séc. XIX), e,
posteriormente, restaurado, ainda que em outros termos, por Habermas (sécs.
XX-XXI).
Se a filosofia significa esta dança nupcial com a sabedoria, então é
forçoso reconhecer que a sabedoria humana que se expande a cada nova
irrupção filosófica indica a inexauribilidade da busca do saber. As ideias
filosóficas não brotam da pura e simples criação do sujeito-histórico-filósofo; elas
são, sim, atividade de criação humana, mas são, ao mesmo tempo, reação à
literatura de um tempo, aos estímulos ou desestímulos sociais, às ideologias
reinantes e ao conjunto das pressões culturais predominantes.
Por isso, nenhum sistema filosófico consegue reter toda a verdade; as
verdades (parciais) podem ter sido decifradas em pensamentos antigos
(Heráclito, Parmênides ou Sócrates), e a atualidade destas ideias pode repousar
exatamente na capacidade que tiveram de retratar com fidedignidade uma forma
de interpretação do mundo. Nenhum sistema filosófico consegue ser
completamente trans-histórico, e se a história é movimento, não haveria um
pensamento que não se tornasse, até certo ponto, datado. Daí a dificuldade de
operar com os sistemas de pensamento, pois, muitas vezes, aderimos a certas
partes de um pensamento, fundindo uma tradição teórica com outra, a ponto de
criarmos novas frentes de leitura da realidade que decorrem da riqueza destes
encontros, como ocorre no interior da Escola de Frankfurt, que funde a reflexão
freudiana com a reflexão marxista, dando origem ao pensamento crítico. De toda
forma, um sistema filosófico pode ser a melhor chave para a compreensão e
estudo, pesquisa e aproximação, de problemas de um determinado tempo
histórico. Com Hegel: “Cada filosofia deveria ter aparecido em seu tempo, como
apareceu. Toda filosofia apareceu assim no tempo conveniente, nenhuma
poderia ter saltado sobre seu próprio tempo, mas todas as filosofias
compreenderam conceitualmente o espírito de sua época.”
Mas, ainda aí, não se pode ser categórico em considerar que a história
sepulta o pensamento, pois certo caráter dos ensinos próprios do campo das
filosofias aponta para um certo grau de trans-historicidade; como toda filosofia
implica numa visão de mundo, nada impede que o tomismo, em determinados
círculos de adeptos, sobreviva ao lado do marxismo, e que o pensamento
rousseauniano continue a ser retomado. A sobrevida das sentenças filosóficas
se deve à sua força conceitual, à força elocutória do modo como se pode, pela
cultura humana, fundar de sentido o mundo. Pretender a vitória de um sistema
filosófico sobre todos os demais, ou pretender a plena identidade entre o eu-
pensante e o mundo-ao-derredor é agir contra a liberdade, e, exatamente por
isso, cercear o espaço da diversidade das formas de interpretar o mundo.
Instaurar o purismo das ideias na dinâmica da vida social é sempre temerário,
uma vez que isto contraria a forma como a diversidade do próprio espírito
humano se distende na história, por vezes pela convergência, por vezes pela
divergência, pelo consenso ou pelo dissenso. Por isso, não é raro que as
filosofias se misturem a sistemas políticos, se convertendo em instrumentos
perigosos, especialmente quando se trata de por elas impor sobre os demais
uma vontade única e homogênea, decantada como verdade universal.
Além disso, deve-se perceber que a relação entre autor e história é uma
relação tensa e sempre muito desigual; há aqueles que foram relegados ao
ostracismo, banidos ou perseguidos. Platão é vendido, em determinado
momento de suas viagens, como escravo, da mesma forma como Sócrates foi
morto pela cidade. Nietzsche é, na esteira de Schopenhauer, um crítico da
modernidade e do racionalismo moderno. Nietzsche reage ao seu tempo, da
mesma forma como o tempo reagiu a Aristóteles, dogmatizando-o ou rejeitando-
o, como se sucedeu ao longo dos expurgos de suas obras no século XIII, para
sua aceitação, se consagrar como base dos ensinamentos da Igreja com a
releitura operada por São Tomás. Por sua vez, Rousseau haverá de ser
incorporado à história--ela-mesma, e terá algumas das premissas de seu
pensamento acolhidas para se tornarem, revolucionariamente, parte do
processo de sublevação social de 1789, na França. Os filósofos e a história
estão, portanto, em tensa relação, mas são reciprocamente determinados.
Nietzsche morreu no esquecimento, mas tornou-se a força centrípeta dos
olhares do contexto pós-moderno, de Foucault a Gianni Vattimo.
Por isso, para enxergar no conjunto dos sistemas filosóficos um processo
de permanente relação dialética do homem com as ideias, é necessário perceber
que há fluxos de avanço e retrocesso, de conservação e restauração, ou de
rechaço e abandono, assim como há fluxos de interrupção e ciclos de modismo
acadêmico, ao sabor de uma série de variantes contingentes da história e de
acordo com cada referencial tomado para avaliação. Por isso, como dificilmente
um único sistema filosófico consegue expressar a totalidade da verdade – esta
pretensão seria demasiada para a própria razão – deve-se admitir que diversas
verdades circulam no interior dos sistemas filosóficos, e de superações e
retrocessos convivem as filosofias entre si.
[...]
A epopeia do pensamento grego, que se afirma paulatinamente na Grécia
antiga, numa luta impressionante entre mito e razão, entre a busca do uno e a
concretude do múltiplo, entre aspectos da aparência e a essência das coisas, é
a raiz da constituição dos saberes, crenças e visão de mundo ocidentais. Esse
legado nos persegue e nos constitui, nos atravessa e nos reveste, mesmo no
mundo moderno, e aparece para nós como um dado inconteste de nossa
civilização e de nossa cultura. E esse legado se vincula sobretudo a um período,
relativamente curto, da história da Grécia, período de pujança, riqueza,
expansão e cosmopolitismo, conhecido como o Século de Péricles (séc. V a. C.),
em que Atenas e Esparta disputam poder, mas se iconizam por seus valores
como cidades-estado (pólis) predominantes entre as demais. O século seguinte
(séc. IV a. C.) será de declínio, mas após a invasão macedônia, durante o
imperialismo de Alexandre Magno (discípulo de Aristóteles), conhecido como o
período do helenismo, a cultura dos gregos será levada como ideal de beleza e
perfeição, para todos os domínios, e admirada por muitos povos e culturas, como
ponto de apoio, como exemplo e como forma de afirmação, nos planos da
arquitetura, da filosofia, das artes cênicas, das ciências, da política. O helenismo
é responsável pela força que a cultura grega terá no mundo antigo, que levará
os romanos a nela buscar uma fonte inesgotável de inspiração, seja pelas
maravilhas de suas artes aplicadas, seja pela cultura erudita e a sabedoria de
seus pensadores. Do imperialismo romano ao mundo medieval, o
distanciamento será cada vez mais acentuado, mas as raízes serão sempre
gregas. Para o pensamento medieval de Santo Agostinho, Platão será
inspiração, e para a retomada de Tomás de Aquino, Aristóteles será a referência.
No Renascimento, as formas, o belo, as técnicas, o cultivo do corpo, a devolução
do homem como “medida de todas as coisas”, base do antropocentrismo
ocidental moderno, a retomada da razão se fará invocando os antigos gregos.
Assim, de fragmento em fragmento nos percebemos sempre devedores dos
gregos.
[...]

O mundo ocidental é legatário de uma longeva tradição, que também não


observa um movimento cumulativo, mas sinuoso, em seu interior, pois não há
linearidade na história da filosofia ocidental; há dissonâncias e rupturas, em
todos os períodos, e, muitas delas se revelam como reaproximações entre o que
é oriental e o que é ocidental. De toda forma, existem laços e continuidades,
descontinuidades e rupturas, dentro dessa complexa tradição, que se quer ver
uma, dos antigos, aos medievais, e destes aos modernos e
contemporâneos. Não se pode compreender Platão, sem compreender
Pitágoras, nem se pode compreender Aristóteles sem Sócrates, e muito menos
Marx, sem Hegel; apesar de suas filosofias apontarem para caminhos próprios,
estes laços internos formam ligações e distensões, que os vinculam de uma
forma ou de outra. Mas, esse legado não se vinca somente nos nomes dos
grandes autores e não se restringe à figura individual de nomináveis pensadores.
Esse legado se estende um pouco mais além, para também atravessar a
formação de marcas irreversíveis nos legados arquitetônico e artístico (modelos
de beleza e formas de demonstração do trágico e do cômico), linguístico (línguas
neolatinas têm evidentes raízes no latim), religioso (o monoteísmo judaico-
cristão), institucional (política, democracia, técnica, são todos termos de origem
grega), filosófico (racionalismo, empirismo, método são todos legados europeus
modernos).
Isso não obscurece a existência e a importância de filósofos, práticas
ético-filosóficas, sistemas de pensamento, muitos dos quais preexistentes à
formação da filosofia, e até mesmo da cunhagem do termo filosofia entre os
gregos (philosophía), que se deu mais recentemente como se pôde já estudar.
Assim, as filosofias orientais, sejam laicas, sejam religiosas, envolvem
uma multiplicidade não conciliável de culturas muito diversas entre si, que quase
nos impede de falar de “filosofia oriental”, como se houvesse uma unidade sob
todas elas, como a chinesa, a persa, a japonesa, a babilônica, a coreana, a
hindu, a árabe. Confúcio, Avicena, Mao Tsé-Tung, não poderiam ser colocados
num mesmo grupo. Em verdade, essa forma de qualificar a relação que
dicotomiza Oriente e Ocidente, que divide, que separa, que demarca, a partir de
um geocentrismo etnocêntrico, as relações entre as culturas, em verdade,
decorre de uma visão europeia de mundo, de um lado, fruto da forma como os
gregos se cindiram historicamente com o império persa, no século V a. C., a eles
se opondo como a povos bárbaros, e, de outro lado, fruto da forma como a
Europa, tornada centro das forças econômicas e culturais a partir do século XIII
d. C. em diante, especialmente, após os idos da modernidade, fará coroar os
seus próprios cânones, paradigmas filosóficos e culturais, bem como seus
preceitos axiomáticos.
Somos descendentes de tradições ocidentais, e nossas instituições
políticas, racionais e jurídicas são basicamente derivativas dessas matrizes, e,
portanto, de nossa forma de enxergar a realidade.
[...]

Immanuel Kant (1724-1804) – Sem dúvida, o maior representante


da filosofia do século XVIII, fundou o criticismo filosófico e trouxe notáveis
contribuições aos temas da lógica, da ética, da metafísica. Suas três Críticas e
seu opúsculo À paz perpétua são obras de definitiva influência sobre o
pensamento ocidental. A ideia de a priori que governa sua moral funda uma série
de discussões que dominam o espaço da ética e do direito, perdurando
acentuadamente no panorama das discussões até meados do século XX.
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) – O filósofo alemão,
que chegou à titularidade da Universidade de Berlim, é o maior representante do
idealismo filosófico do século XIX. Em seu sistema de ideias, a razão domina
tudo, pois o saber é a verdadeira sede ontológica das coisas, sendo a dialética
a forma pela qual as coisas entram em movimento. A ideia de Estado é algo
semelhante a uma necessidade social de transformação do anárquico da
vontade livre em racional da estrutura burocrática e pensada na ordem estatal.
Karl Marx (1818-1883) – Em parte influenciado por Feurbach e em
parte por Hegel, incrementa o materialismo, tornando-o dialético e histórico,
sabendo entrever na história humana a sucessão de regimes econômicos de
exploração e de alternância de classes dominantes. Identifica estrutura e
superestrutura. Sua leitura dos métodos capitalistas de acumulação primitiva é
apuradíssima. Juntamente com Engels, consegue dar início, bem como
acompanhar, os principais movimentos de trabalhadores do século XIX,
ideologia engatilhada sobretudo a partir do Manifesto comunista. Sua doutrina
traz fortes influências sobre os movimentos sociais dos séculos XIX e XX.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) – Representante do voluntarismo,
lança as fundações do niilismo. A filosofia de Nietzsche irrompe com uma crítica
cética à tradição metafísica ocidental, e discorre sobre a vontade de poder. Para
ele, a constituição da realidade decorre de uma explosão multifária de formas
desordenadas, e a ética dos tempos deve ser posta em dúvida pelo método
genealógico.
Edmund Husserl (1859-1938) – Inicia seus estudos pela
matemática, passando à lógica e à filosofia, para tornar-se o fundador da
fenomenologia, corrente de pensamento que projeta na busca da essência das
coisas-em-si a verdadeira meta do saber. Nenhum juízo sobre as coisas deve
estar contaminado pela visão que comumente se tem sobre elas, pois se torna
desde já obscuro; a identidade de algo decorre de sua natureza e constituição
mais íntimas, e é nisso que consiste a pesquisa fenomenológica, que haverá de
fazer nascer de dentro de si também o existencialismo.
Martin Heidegger (1889-1976) – Filósofo alemão e autor de Ser e
tempo, dedicou-se à fenomenologia. Deteve-se na pergunta sobre o ser, com
especial atenção para o tema do dasein (ser-aí). Apesar das polêmicas ligações
políticas iniciais com o nacional-socialismo alemão pré-Segunda Guerra
Mundial, soube distanciar-se de um papel partidário ativo, a ponto de não se
envolver nos crimes do regime nazista.
Theodor W. Adorno (1903-1969) – Filósofo alemão, de importante
inserção dentro da chamada Escola de Frankfurt, na qual se incluem nomes
como os de Horkheimer, Marcuse, Benjamin, que inicia, numa linha marxista,
uma filosofia crítica, de cunho social, que irá produzir uma das mais impiedosas
análises críticas da razão e dos desvios da modernidade, conduzindo o
pensamento contemporâneo a uma importante revisão do estado atual da
liberdade, propalada, porém não realizada, pelo Iluminismo.
Hannah Arendt (1906-1975) – Sua dedicação à filosofia política e
sua franca oposição à intolerância antissemita e ao nazismo tornam sua obra o
mais fiel retrato dos dilemas do homem inserido no século XX. As causas do
poder e de seus desvios são temas recorrentes nas referências de filosofia
política de Hannah Arendt, judia alemã que teve de expatriar-se quando da
disseminação do nazismo alemão, dando continuidade a seus cursos e
publicações nos EUA. Suas contribuições para a temática da condição humana
também são de extrema valia.
Jean-Paul Sartre (1905-1980) – A peregrinação sartriana é uma
vivência entre a militância marxista e o existencialismo filosófico, por ele muito
bem representado em meio aos intelectuais franceses. Prescinde de tratar de
temas ontológicos e de grandes questões da filosofia para construção de uma
obra inteiramente focada sobre a figura frágil do homem enquanto ser-aí,
enquanto ser-no-mundo. Dedica-se a temas existenciais, psicológicos, literários,
filosóficos e teatrais. Sua ampla obra revela uma incontestável defesa da
liberdade do espírito e certo tônus humanista.
Jürgen Habermas (1929-) – Centrando-se na análise da
comunicatividade e na análise do discurso, Habermas destaca-se como
pensador contemporâneo ligado à teoria crítica da Escola de Frankfurt, com
escritos de substancial influência sobre o pensamento de vanguarda filosófica,
na busca de uma base ético-discursiva para a legitimação da Democracia e do
Direito.
[...]
O pensar é sempre uma atividade histórica, e que não pode prescindir de
compreender seu tempo com todos os desafios congênitos a este.

[...]
O que é a preocupação com a harmonização, senão: “meditar, e cuidar
para que o homem seja humano e não des-humano, inumano, isto é, situado fora
de sua essência”, como afirmou Heidegger (Sobre o humanismo, 1973) [...]
pensar a tarefa da Filosofia do Direito é pensar, neste momento, sobretudo, o
seu papel social no meio em que se encontra, vale dizer, pensar a sua inserção
na “realidade fenomenal”, como modo e método de, se imiscuindo na realidade
social, se possa, na fluidez heraclitiana dos fatos, perceber a possibilidade de
ação que se possui, ao atuar criticamente sobre uma realidade marcada pela
injustiça social. Se clima e atmosfera conspiram contra o aparecimento deste
compromisso, pouco importa, porque, mais uma vez (de Sócrates a Nietzsche,
de Platão a Foucault), trata-se de se resistir a simplesmente viver condicionado
pelos fatos, para, como ensina Celso Lafer, insculpir um modo de vida em que
se vive o próprio pensar, para inventar (e inventariar) pelo pensamento, novos
horizontes de possibilidades e ações contra-fáticas.
Se são muitos os desafios destes tempos, no entanto, as metas da
disciplina