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SÍNTESE NOVA FASE

V. 1 9 N. 58 (1992):327-359.

O CONFLITO DAS LIBERDADES:


SANTO AGOSTINHO
Newton Bignotto
FAFICHUFMG

Resumo: O conflito das liberdades: Sto. Agostinho. O artigo trata da questão da


liberdade política no pensamento de Santo Agostinho. Tentamos demonstrar
que a descoberta do livre-arbítrío abriu novos horizontes para a reflexão sobre
alguns problemas fundamentais da filosofia política clássica.

Summary: The conflict of liberties: St. Augustine. This article deals with the
problem of political liberty in the thouglh of St. Augustine. We try to
demonsirale that the discovery of "free will" opens a new horizon to the
reflexion about some ímportant problems of classical political phílosophy.

T
alvez pareça-nos hoje m a i s n a t u r a l d i s c u t i r o c o n f l i t o entre
a a n t i g a concep>ção d e l i b e r d a d e política e o conceito d e
Uvre-arbítrio a p a r t i r d e a l g u m d o s autores q u e e s t ã o na
r a i z d o m o d e r n o i n d i v i d u a l i s m o . Pensadores c o m o H o b b e s ,
L o c k e o u Rousseau a b o r d a m o p a r a d o x o das sociedades q u e
desejam f u n d a r a l i b e r d a d e política na l i b e r d a d e d o s i n d i v í d u o s
d e u m a m a n e i r a q u e e m m u i t o s aspectos c o i n c i d e c o m nossas
a p r e e n s õ e s nesse f i n a l d e s é c u l o m a r c a d o p o r u m p r o f u n d o
n i i l i s m o ético. V o l t a r a Santo A g o s t i n h o , nesse c o n t e x t o , é, p a r a
m u i t o s , apenas u m e x e r c í c i o d e h i s t o r i a d o r e s das idéias, s e m
n e n h u m a c o n e x ã o c o m os p r o b l e m a s éticos atuais. Seria m u i t o
l o n g o d i s c u t i r a i n t e r a ç ã o d a t r a d i ç ã o c o m o presente, a n a t u r e -
za das r e l a ç õ e s q u e u m p e n s a m e n t o d o passado p o d e ter c o m
a f o r m u l a ç ã o d e nossos p r ó p r i o s p r o b l e m a s . A c r e d i t a m o s q u e
as obras d e a u t o r e s c o m o M e r l e a u - P o n t y o u C l a u d e L e f o r t ,

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d e d i c a d a s ao e s t u d o d o s l i m i t e s d a h e r m e n ê u t i c a d e u m t e x t o
d o passado, d e l i m i t a m u m e s p a ç o teórico d e n t r o d o q u a l p o d e -
m o s m o v e r - n o s s e m a p r e o c u p a ç ã o d e e x p l i c a r a cada passo a
coerência d e nosso c a m i n h o . Conscientes d e q u e q u a l q u e r " a p l i -
c a ç ã o " d e u m conceito d o passado à nossa r e a l i d a d e destrói a
fecundidade de u m a relação, que exige u m a mediação extrema-
m e n t e c o m p l e x a , v a m o s recorrer a Santo A g o s t i n h o , p o r ter s i d o
o p r i m e i r o pensador d o Ocidente cristão a tratar de maneira
s i s t e m á t i c a o c o n f l i t o entre a l i b e r d a d e e m sua d i m e n s ã o polí-
tica e a l i b e r d a d e e n q u a n t o d e f i n i d o r a da n a t u r e z a d o h o m e m ,
o q u e t r a n s f o r m a sua o b r a n u m p o n t o d e passagem o b r i g a t ó r i o
p a r a t o d o s os q u e se interessam pela q u e s t ã o .

R i g o r o s a m e n t e f a l a n d o , n ã o p o d e m o s d i z e r q u e Santo A g o s t i -
n h o acreditasse ter descoberto a l i b e r d a d e . E n q u a n t o caracterís-
tica d o ser h u m a n o , ela é u m d o m d e D e u s . O q u e c o u b e ao
p e n s a d o r f o i c o n c e i t u a r essa l i b e r d a d e , c o m p r e e n d e r c o m o ela
se relaciona c o m o pecado o r i g i n a l e c o m o processo escatológico,
e e s t u d a r as c o n s e q ü ê n c i a s d e seu e x e r c í c i o p a r a a v i d a e m
c o m u m d o s h o m e n s . O p o n t o d e p a r t i d a dessa i n v e s t i g a ç ã o f o i
a teoria d a v o n t a d e d e s e n v o l v i d a pelos gregos e s i s t e m a t i z a d a
p o r A r i s t ó t e l e s . Nesse caso, n ã o p o d e m o s f a l a r d e influência
d i r e t a , p o i s , c o m o sabemos. Santo A g o s t i n h o teria t i d o p o u c o
c o n t a t o c o m as d o u t r i n a s d o E s t a g i r i t a , m a s p o d e m o s pensar
e m c o n t i n u i d a d e , e m conservação de u m a análise d o problema,
q u e se r e v e l o u essencial p a r a os pensadores m e d i e v a i s q u e t r a -
t a r a m a q u e s t ã o . P o r isso, v a m o s c o m e ç a r n o s s o e s t u d o
r e l e m b r a n d o a l g u n s p o n t o s d a t e o r i a aristotélica d a v o n t a d e ,
p a r a e m s e g u i d a analisar c o m o Santo A g o s t i n h o se a p r o p r i o u
das c o n c l u s õ e s gregas, para a m p l i a r - l h e s r a d i c a l m e n t e o s i g n i -
ficado.

/. Aristóteles e o problema da vontade

E n c o n t r a m o s e m A r i s t ó t e l e s u m a teoria d a v o n t a d e e x t r e m a -
m e n t e c o m p l e x a e b e m - e l a b o r a d a . P a r t i n d o d o fato d e q u e so-
m o s capazes d e escolher entre a l t e r n a t i v a s q u e p o d e m merecer
a l g u m q u a l i f i c a t i v o m o r a l , ele estuda os p r o b l e m a s referentes
ao " a t o v o l u n t á r i o " c o m o p r o b l e m a s f u n d a m e n t a l m e n t e éticos^ 1. ARISTOTE, Élhique ã

A s s i m , é e m sua r e l a ç ã o c o m a justiça, o u c o m a f e l i c i d a d e d a Nicomoífue, 1110 a 15. Ver D.


ALBRECHT, The theoiy of will
c i d a d e , q u e a v o n t a d e a d q u i r e seu estatuto d e c o n c e i t o f u n d a - in classical antiquitif. Ber-
m e n t a l da t e o r i a d a ação^. Essa a s s o c i a ç ã o , n o e n t a n t o , entre a keley, University of C a l i -
fórnia, 1982.
questão da ação e o problema da v o n t a d e exige de Aristóteles
u m a série d e e x p l i c a ç õ e s . 2, Idem. ibidfm, 1110 a 15.

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E m p r i m e i r o l u g a r , n ã o é s u f i c i e n t e d i z e r q u e os h o m e n s p o d e m
escolher e n t r e a l t e r n a t i v a s d i f e r e n t e s . A m u l t i p l i c i d a d e d o s ca-
m i n h o s d e p e n d e m u i t a s vezes d a n a t u r e z a das coisas, d o acaso,
m a s n ã o da i n t e r v e n ç ã o d o agente. U m a p l a n t a , p o r e x e m p l o ,
p o s s u i u m p r i n c í p i o i n t e r n o q u e a g u i a e m sua i n t e r a ç ã o c o m o
m e i o , sem q u e possamos d i z e r q u e exista e m sua c o n s e r v a ç ã o
a m í n i m a p a r t e d e u m a t o v o l u n t á r i o . D a m e s m a f o r m a , os
a n i m a i s a g e m d e a c o r d o c o m o i n s t i n t o , d e f e n d e m - s e d o s ata-
ques e p r o c u r a m os a l i m e n t o s e m u m m u n d o c h e i o d e p o s s i b i -
l i d a d e s , sem q u e isso q u e i r a d i z e r q u e eles e s c o l h a m , o u d e c i -
d a m , d e m a n e i r a consciente. A p r i m e i r a d e f i n i ç ã o a q u e chega
Aristóteles é d e c a r á t e r n e g a t i v o . N o l u g a r d e d i z e r - n o s o q u e
é o a t o v o l u n t á r i o , ele d e f i n e o a t o " i n v o l u n t á r i o " c o m o a q u e l e
q u e é p r a t i c a d o s e m q u e o agente c o n h e ç a a causa externa q u e
3. Idem, ibidem, 1110 b. o d e t e r m i n a ' . D i s s o se segue q u e o c a r á t e r v o l u n t á r i o d e u m a
a ç ã o d e p e n d e d e sua o r i g e m o u , d e sua causa'', mas, s o b r e t u d o ,
4. Idem. ibidem, i n O b 2 0 .
d o c o n h e c i m e n t o q u e o agente t e m d o p r i n c í p i o i n t e r n o q u e a
faz acontecer. C o m o os a n i m a i s e as p l a n t a s n ã o p o d e m conhe-
cer o p r i n c í p i o m o t o r d e seus atos, n ã o p o d e m o s d i z e r q u e eles
tenham vontade.

Esse p r i n c í p i o n e g a t i v o p e r m i t e - n o s u m a p r i m e i r a d e f i n i ç ã o d o
a t o v o l u n t á r i o . S e g u n d o A r i s t ó t e l e s , o a t o v o l u n t á r i o seria p r a -
t i c a d o n u m a c i r c u n s t â n c i a e m q u e o a t o r conhece n ã o s o m e n t e
a m u l t i p l i c i d a d e d e p o s s i b i l i d a d e s , q u e l h e s ã o oferecidas p e l o
5. idem, ibidem, 1110 a 20. m u n d o , mas t a m b é m o princípio m o t o r d a escolha q u e opera^.
D i t o d e o u t r a m a n e i r a , t o d o a t o v o l u n t á r i o i m p l i c a certo c o n h e -
c i m e n t o . Essa d e f i n i ç ã o g e r a l da v o n t a d e esbarra, n o e n t a n t o ,
e m a l g u m a s d i f i c u l d a d e s , q u a n d o passamos a analisar as c o n -
d i ç õ e s concretas de a l g u m a s a ç õ e s . T o m e m o s , c o m o e x e m p l o , a
q u e s t ã o da d o r . D e m a n e i r a g e r a l , n ã o e s c o l h e m o s p r a t i c a r
u m a a ç ã o q u e trará c o m o r e s u l t a d o o s o f r i m e n t o . A s s i m , p o d e -
mos considerar t o d o ato c o n d u z i n d o à d o r como u m ato
i n v o l u n t á r i o , p o i s , se t i v e r m o s o c o n h e c i m e n t o d e seus resulta-
d o s , n ã o a g i r e m o s . Acontece q u e e m certas c i r c u n s t â n c i a s , p o -
d e m o s escolher, p o r h e r o í s m o , sofrer, para a l c a n ç a r u m o b j e t i v o
q u e p a r e ç a - n o s s u p e r i o r à a u s ê n c i a d e d o r . N e s t e caso, o m o -
m e n t o d a escolha d e t e r m i n a o c a r á t e r v o l u n t á r i o d o a t o q u e ,
v i s t o d e u m a m a n e i r a abstrata, d e v e r i a ser c o n s i d e r a d o u m ato
involuntário.

Essa p r i m e i r a d i f i c u l d a d e l e v o u Aristóteles a d i f e r e n c i a r o a t o
não-voluntário — p r a t i c a d o p o r ignorância — d o ato
6. idem. ibidem, 1110 b 25, i n v o l u n t á r i o , q u e p r o v o c a dor^. P o d e m o c o r r e r s i t u a ç õ e s nas
q u a i s o a t o i n v o l u n t á r i o é f r u t o d a i g n o r â n c i a , mas, para q u e
possa ser c o n s i d e r a d o i n v o l u n t á r i o , é preciso q u e p r o v o q u e d o r ,
a l é m d e expressar o e q u í v o c o d o ator. Essa c o r r e l a ç ã o entre a t o

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v o l u n t á r i o e f e l i c i d a d e estabelece o p o n t o d e p a r t i d a da teoria
da v o n t a d e aristotélica.

D i z e r q u e o a t o v o l u n t á r i o visa à f e l i c i d a d e c o r r e s p o n d e a a f i r -
m a r q u e o e x e r c í c i o da v o n t a d e d e v e ser c o m p r e e n d i d o d e n t r o
d o s p a r â m e t r o s m a i s gerais d a é t i c a , baseados na idéia d e
" e u d a i m o n i a " . N ã o basta d e s c o b r i r a n a t u r e z a da a ç ã o v o l u n t á -
ria, é n e c e s s á r i o saber c o m o ela m o d i f i c a o c o r p o político, ao
m e s m o t e m p o e m que p r o m o v e o bem-estar d o agente. Se é
c l a r o q u e as a ç õ e s s ã o i n d i v i d u a i s , q u e n o m a i s das vezes
c o n c e r n e m apenas à q u e l e s q u e a g e m , n ã o p o d e m o s esquecer
q u e o a t o r aristotélico é s e m p r e u m c i d a d ã o q u e d e v e desejar,
e m ú l t i m a instância, o b e m d e t o d o s . N ã o e n t r a r e m o s a q u i na
c o m p l e x a d i s c u s s ã o d a q u e s t ã o das v i r t u d e s e da justiça, d e n t r o
da q u a l faz s e n t i d o , p a r a Aristóteles, p e r g u n t a r - s e pela n a t u r e z a
da v o n t a d e . Para nossos p r o p ó s i t o s , basta l e m b r a r q u e m u i t a s
das d i f i c u l d a d e s q u e e n c o n t r a r e m o s e m nosso e s t u d o s ó p o d e m
ser c o r r e t a m e n t e r e s p o n d i d a s se l e v a r m o s e m c o n s i d e r a ç ã o o
c o n j u n t o da ética aristotélica, q u e será p a r a n ó s u m h o r i z o n t e ,
mas sobre a q u a l p o u c o f a l a r e m o s .

D e p o i s de t e r m o s v i s t o q u e o a t o v o l u n t á r i o p o d e p r o v o c a r a
dor, defrontamo-nos com outra dificuldade. N a vida n o r m a l
d o s h o m e n s , eles a g e m m u i t a s vezes sob o i m p u l s o d o ó d i o o u
sob o i m p é r i o d e u m a p a i x ã o . M u i t a s dessas a ç õ e s c o n d u z e m
ao s o f r i m e n t o e n ã o à f e l i c i d a d e e a i n d a a s s i m d e v e m ser c o n -
sideradas voluntárias''. Essa n o v a o b j e ç ã o leva-nos a c o n c l u i r 7. idem, ibidem, 1111 b.
q u e , p a r a e s t u d a r a q u e s t ã o , n ã o basta estabelecer o c a r á t e r
v o l u n t á r i o o u n ã o d o ato. D e s c o b r i m o s q u e o q u e se passa n o
m o m e n t o mesmo e m que decidimos agir é de f u n d a m e n t a l
i m p o r t â n c i a . Este m o m e n t o , s i t u a d o n u m a sociedade concreta,
m a r c a d o p o r c o n d i ç õ e s p a r t i c u l a r e s , revela-nos u m a d i m e n s ã o
da a ç ã o q u e d e l i m i t a u m a r e g i ã o n o i n t e r i o r d o vasto c o n t i n e n t e
da v o n t a d e . Trata-se d e nossa c a p a c i d a d e d e escolher. Escolher
i m p l i c a a p l i c a r u m princípio racionaP, q u e n ã o se c o n f u n d e n e m 'bidem, 1112 a 15,

c o m o desejo n e m c o m o apetite"^. O desejo visa a u m f i m , a


escolha n ã o . P o d e m o s desejar a s a ú d e , mas apenas " e s c o l h e r " 9, idem. ibidem. i i i i b 30.
os m e i o s p a r a a l c a n ç á - l a . D a m e s m a m a n e i r a , a escolha n ã o t e m
n a d a a v e r c o m a o p i n i ã o q u e temos sobre certos temas. A
o p i n i ã o p o d e c o n c o r d a r o u n ã o c o m a v e r d a d e d o objeto, a
escolha n ã o se m a n i f e s t a a esse r e s p e i t o , e m b o r a possa d e c o r r e r
de u m conhecimento prévio, que mostre q u a l o melhor c a m i n h o
a seguir.

Esse p r i m e i r o e s f o r ç o , para d e f i n i r a c a p a c i d a d e d e escolher q u e


nos é p r ó p r i a , p o d e ser r e s u m i d o e m d o i s p o n t o s . O p r i m e i r o
refere-se ao f a t o d e q u e a escolha o r i g i n a - s e s e m p r e n u m p r i n -

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c í p i o r a c i o n a l e, p o r t a n t o , n o p r ó p r i o p e n s a m e n t o ' " . O s e g u n d o ,
d i z respeito ao f a t o d e q u e a d e l i b e r a ç ã o t e m p o r objeto os
" m e i o s " , n u n c a os f i n s " . O u n i v e r s o " r e a l " d e n t r o d o q u a l d e -
liberamos é sempre u m conjunto finito de possibilidades, o que
dá u m t o m extremamente "realista" à teoria da deliberação e d a
escolha e m A r i s t ó t e l e s .

P a r t i n d o das c o n s t a t a ç õ e s a c i m a , p o d e m o s e x p l o r a r suas i m p l i -
c a ç õ e s éticas. É preciso r e c o r d a r q u e , para Aristóteles, o h o m e m
é u m ser d o t a d o p a r a a f e l i c i d a d e e capaz d e b u s c á - l a , u t i l i z a n -
d o para t a n t o t o d a s as suas f a c u l d a d e s . Nessa busca, n o e n t a n -
t o , as f a c u l d a d e s h u m a n a s têm f u n ç õ e s d i f e r e n t e s . T o m e m o s o
e x e m p l o d o f i m s u p r e m o q u e é o b e m . S e n d o u m f i m , ele p o d e
ser desejado, mas n ã o p o d e m o s e s c o l h ê - l o . M a s se a escolha
está restrita ao d o m í n i o das d e c i s õ e s p a r t i c u l a r e s , d e q u e m a -
neira se relaciona c o m a p r o c u r a d o s fins superiores? D i t o d e
o u t r a m a n e i r a , c o m o p o d e u m h o m e m v i r a ser b o m ? A respos-
ta aristolélica é r e l a t i v a m e n t e s i m p l e s . Se n ã o p o d e m o s escolher
o f i m — apenas d e s e j á - l o — está e m nosso ptoder d e c i d i r sobre
as a ç õ e s q u e nos c o n d u z e m até ele. P o d e m o s escolher v i r t u o s a -
m e n t e e a s s i m usar d e nossa f a c u l d a d e de escolher para execu-
tar a ç õ e s q u e nos p a r e ç a m c o m p a t í v e i s c o m o f i m almejado'^. Se
é n e c e s s á r i o u m "sexto s e n t i d o " ' ^ p a r a e n c o n t r a r o f i m c o r r e t o ,
p o d e m o s , p e l o m e n o s , testar nosso c a m i n h o a t r a v é s d a prática
das v i r t u d e s ' ' ' .

A escolha, q u e é u m a f a c u l d a d e a p l i c á v e l a todas as s i t u a ç õ e s
d a v i d a prática, s ó revela sua e s s ê n c i a q u a n d o t r a n s f o r m a - s e e m
escolha das v i r t u d e s . N ã o q u e nesse m o m e n t o aja a l g o d e n o v o
e m relação à s a ç õ e s m a i s c o r r i q u e i r a s d e nossa e x i s t ê n c i a , mas,
se s o m o s seres d e s t i n a d o s a buscar a f e l i c i d a d e e o b e m , é c l a r o
q u e as a ç õ e s q u e c o n d u z e m - n o s a esses f i n s s ã o m a i s i m p o r t a n -
tes d o q u e a escolha da cor d e nossas vestes. A o escolher entre
v i r t u d e s , e n c o n t r a m o s o n ú c l e o da u n i ã o e n t r e o p r o b l e m a da
m o r a l e a q u e s t ã o da v o n t a d e . É c l a r o q u e essa i d e n t i f i c a ç ã o
entre a v o n t a d e e o exercício das v i r t u d e s — e p o r c o n s e g u i n t e
d o s vícios — n ã o fornece-nos s e n ã o o p o n t o d e p a r t i d a d e u m a
teoria d o a t o m o r a l , m a s desloca d e m a n e i r a d e f i n i t i v a nossa
i n t e r r o g a ç ã o sobre a v o n t a d e . E m A r i s t ó t e l e s , o p r o b l e m a n ã o é
d e p s i c o l o g i a , mas d e ética.

N ã o d e s e n v o l v e r e m o s a q u i t o d a s as i m p l i c a ç õ e s d o q u e acaba-
m o s d e d i z e r . Isso e x i g i r i a q u e f i z é s s e m o s u m l o n g o p e r c u r s o
a t r a v é s d a ética aristotélica, para d e s v e n d a r m o s o s e n t i d o p r o -
f u n d o dessa l i g a ç ã o e n t r e a v o n t a d e e as v i r t u d e s . D u a s obser-
v a ç õ e s p a r e c e m - n o s , n o e n t a n t o , essenciais. E m p r i m e i r o l u g a r ,
é preciso n ã o esquecer q u e o p e n s a m e n t o é t i c o d e A r i s t ó t e l e s

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está t o d o baseado n o s laços q u e u n e m o a t o r à sua c i d a d e . A
v o n t a d e exerce-se a t r a v é s d e a ç õ e s q u e se d e s e n r o l a m na " p o l i s " ,
e o b e m visado confunde-se c o m o b e m d e todos. A s s i m , ainda
q u e exista n o p e n s a m e n t o aristotélico u m a t e n s ã o entre o h o -
m e m v i r t u o s o para a c i d a d e — o p r u d e n t e — e o s á b i o , q u e
e n c o n t r a na c o n t e m p l a ç ã o da v e r d a d e sua r e a l i z a ç ã o , p e r m a n e -
ce v i v a a idéia d e q u e t o d o j u l g a m e n t o m o r a l d e v e reaiizar-se
t e n d o p o r referência os valores d a c i d a d e , e n ã o u m a v e r d a d e
transcendente q u a l q u e r . N ã o existe, p o r t a n t o , a s s o c i a ç ã o entre a
q u e s t ã o d a v o n t a d e e o q u e m a i s t a r d e c h a m a r e m o s d e consci-
ê n c i a . O B e m s ó p o d e ser v i s a d o a t r a v é s d e a ç õ e s concretas na
c i d a d e , sem q u e possamos d e l i m i t a r u m a d i s t â n c i a e n t r e a a ç ã o
e a d e c i s ã o d e praticá-la.

A segunda observação d i z respeito mais diretamente ao tema


c e n t r a l desse a r t i g o . C o m o observa G i l s o n : " A t e o r i a aristotélica
da escolha, concebida c o m o u m a d e c i s ã o d o q u e r e r c o n s e c u t i v a
à u m a d e l i b e r a ç ã o r a c i o n a l , era e x t r e m a m e n t e e l a b o r a d a , mas é
u m fato q u e Aristóteles n ã o fala n e m d e l i b e r d a d e , n e m d e l i v r e
a r b í t r i o " P a r a o p e n s a d o r g r e g o a l i b e r d a d e era f u n d a m e n t a l - 15. Ver; E. G I L S O N , Uesprit
de Ia philosophie médievale,
m e n t e u m conceito político, u m a d e s c r i ç ã o d o r e g i m e d e m o c r á -
Paris, J.Vrin, 1983, p. 287.
t i c o ' ^ q u e n a d a t i n h a a v e r c o m nossas escolhas e a ç õ e s i n d i v i -
d u a i s . Essa será u m a q u e s t ã o d a q u a l se o c u p a r ã o os p e n s a d o - 16. A R I S T O T E , La politique,
1291 b.
res m e d i e v a i s .

//. Os pensadores medievais e o


problema da vontade

O s p e n s a d o r e s m e d i e v a i s p u d e r a m aceitar s e m r e s t r i ç õ e s as
p r i n c i p a i s c o n c l u s õ e s d a t e o r i a d a v o n t a d e grega'^. Para Santo 17. E. G1L50N, op. cil., p. 288.

A g o s t i n h o , p o r e x e m p l o , as c o n s i d e r a ç õ e s sobre a n a t u r e z a d o s
atos v o l u n t á r i o s e r a m quase evidentes para u m o b s e r v a d o r a t e n -
t o d o c o m p o r t a m e n t o h u m a n o , e m b o r a n ã o suficientes p a r a
e x p l i c a r o f u n c i o n a m e n t o da v o n t a d e . A seu v e r , f a l t a v a a f i r m a r
a l i b e r d a d e d a v o n t a d e , o q u e Aristóteles n ã o fizera'*". Para r o m - 18. SANTO AGOSTINHO, De
grafia et libero arbilrio, 1,1 in
p e r c o m a f i l o s o f i a grega, f o i n e c e s s á r i o i n t r o d u z i r u m a n o v a
Obras de San Agustin,
f o n t e d e c o n h e c i m e n t o s : as Escrituras. C o m e f e i t o , p a r t i n d o d a Madrid, Biblioteca de A u -
Bíblia, é possível a f i r m a r q u e a l i b e r d a d e é u m presente d e D e u s , tores Cristianos, 1953, 18
vol. Todas as citações de
q u e e n c o n t r a sua m o r a d a na vontade'^. O g r a n d e passo n ã o f o i , Sanlo Agostinho foram re-
p o r t a n t o , n e m a a c e i t a ç ã o d a t e o r i a aristotélica, n e m m e s m o a tiradas desta edi(;ão e por
nós traduzidas.
r e p e t i ç ã o d a idéia d e q u e o h o m e m p o d e escolher seu p r ó p r i o
c a m i n h o n o m u n d o , mas a e x p l o r a ç ã o d o s i g n i f i c a d o dessa i n - 19. Mt 23, 37.
d e p e n d ê n c i a . Para Santo A g o s t i n h o , a v o n t a d e é l i v r e , p o r q u e
p o d e q u e r e r o u n ã o exercer o d i r e i t o d e escolha, o u seja, antes

332 Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


d e m a i s n a d a , ela é l i v r e e m r e l a ç ã o a si m e s m a . Isso A r i s t ó t e l e s
já sabia, mas n ã o d i f e r e n c i a v a a v o n t a d e das a ç õ e s q u e dela
d e r i v a m . Santo A g o s t i n h o p a r t i u d e u m p o n t o d e v i s t a o p o s t o .
A v o n t a d e o p e r a s e m p r e na a u s ê n c i a t o t a l d a necessidade. O
" q u e r e r " é u m a f a c u l d a d e i n t e r i o r , q u e n ã o precisa se expressar
p a r a p o s s u i r sua e s s ê n c i a . P o d e m o s o b r i g a r a l g u é m a fazer a l -
g u m a coisa, mas n u n c a a q u e r ê - l a .

Para c o n t i n u a r nossa i n v e s t i g a ç ã o , é preciso precisar o s e n t i d o


da "descoberta" agostiniana. Antes de mais nada, devemos ver
q u e a l i b e r d a d e d a v o n t a d e recebeu u m o u t r o n o m e : " l i b e r u m
a r b i t r i u m " . Esta d e s i g n a ç ã o i m p l i c a v a na v e r d a d e u m a m u d a n -
ça de p r o b l e m á t i c a . Para A r i s t ó t e l e s o e x e r c í c i o d a v o n t a d e é
c o n c r e t i z a d o nas a ç õ e s q u e p e r f a z e m o s na c i d a d e , d e t a l f o r m a
q u e n ã o se p o d e falar e m l i b e r d a d e sem se evocar ao m e s m o
t e m p o o m u n d o político e todas suas d e t e r m i n a ç õ e s . C o m Santo
A g o s t i n h o , o p r o b l e m a m u d a d e t e r r e n o . O livre-arbítrio é f u n -
d a m e n t a l m e n t e u m a m a n i f e s t a ç ã o d a v o n t a d e q u e coloca o
h o m e m e m c o n t a t o c o m suas f a c u l d a d e s i n t e r i o r e s . A l i b e r d a d e
d o h o m e m é, a s s i m , e x p e r i m e n t a d a , e m p r i m e i r o l u g a r , e m sua
r e l a ç ã o c o n s i g o m e s m o , c o m seus desejos, c o m suas limitações.
Para q u e ela possa ser pensada, o u v i v i d a , n ã o é n e c e s s á r i o
l e v a r e m c o n s i d e r a ç ã o o m u n d o político. É c l a r o q u e , n u m se-
g u n d o m o m e n t o , a p r e s e n ç a d e o u t r o s h o m e n s , a s s i m c o m o das
leis p o s i t i v a s , coloca-se c o m o u m d a d o essencial. M a s isso ape-
nas n u m s e g u n d o m o m e n t o , p o i s , a q u e s t ã o é t i c a , q u e e m
A r i s t ó t e l e s passa necessariamente pela " p o l i s " , é agora t r a n s f o r -
m a d a p e l o fato d e q u e a referência p r i n c i p a l é u m a v o n t a d e
isolada d i a n t e d e si m e s m a .

D u r a n t e t o d a a I d a d e M é d i a , os pensadores n ã o cessaram d e
d e s e n v o l v e r aspectos d a teoria q u e f o i f o r m u l a d a p o r Santo
20. E . G I L S O N , Jran Ouns A g o s t i n h o . Nesse s e n t i d o , D u n s Scoto^' f o i p a r t i c u l a r m e n t e r a -
Scot. Iniroduction à sfs po- d i c a l ao r e t i r a r as c o n s e q ü ê n c i a s d a a f i r m a ç ã o da l i b e r d a d e da
sitions fondamentales. Paris,
J.Vrin, 1984. v o n t a d e . P a r t i n d o da e s p o n t a n e i d a d e d o " q u e r e r " , ele o p u n h a
a v o n t a d e à o r d e m das coisas n a t u r a i s , c h e g a n d o à c o n c l u s ã o de
que a indeterminação da vontade é tamanha, que nem mesmo
a r a z ã o p o d e ajudá-la o u c o n s t r a n g ê - l a . Exercida e m a b s o l u t a
l i b e r d a d e , a escolha é s e m p r e u m a i n s t a u r a ç ã o d e n o v a s deter-
m i n a ç õ e s , p a r a as q u a i s n e n h u m d a d o d o passado é r e a l m e n t e
21. Idem, ibidem, p. 73, fundamentaP'.

Essa p o s i ç ã o e x t r e m a f o i s u b s t i t u í d a , e m Santo T o m á s , p o r u m a
teoria m a i s e q u i l i b r a d a . T a m b é m para ele a escolha é essencial-
m e n t e u m a t o d o " q u e r e r " , mas o e x e r c í c i o desta f a c u l d a d e n ã o
p o d e p r e s c i n d i r d o c o n c u r s o da r a z ã o . Isso n ã o l i m i t a a l i b e r d a -
de da vontade, simplesmente mostra que, n o m o m e n t o e m que

Síntese Nova Fase, v. 19, n. 68, 1992 333


escolhemos, t e m o s necessidade d e recorrer aos j u l g a m e n t o s d a
r a z ã o prática q u e , i n c a p a z d e o b r i g a r - n o s a escolher e n t r e " a " e
" b " , ajuda-nos a situar o ato q u e praticamos sem n e n h u m a l i m i -
t a ç ã o " . Esta i n t e r p r e t a ç ã o m a n t é m i n a l t e r a d a a i d é i a d a 22. SANT(J TDMAS DE AQUINO,

indeterminação da vontade, mas c o n t r i b u i para a compreensão Suinma lhfolo)(iae, Madrid,


Biblioteca d e A u t o r e s
d e sua indiferença m o r a P . Santo T o m á s sintetiza o q u e s é c u l o s Cristianos, 1957, 5 vols.
d e p e n s a m e n t o cristão p r o d u z i r a m d e p o i s q u e Santo A g o s t i n h o
23. E . GusoN, LEsprit de Ia
m u d o u os t e r m o s d o p r o b l e m a . P o r isso, é n e c e s s á r i o recorrer philosophie médievale, p. 2 9 5 .
ao Bispo d e H i p o n a , p a r a e n t e n d e r a r u p t u r a o p e r a d a c o m a
f i l o s o f i a g r e g a , antes d e q u a l q u e r t e n t a t i v a d e esclarecer as
querelas q u e d i v i d i r a m os p e n s a d o r e s m e d i e v a i s .

///. Livre-arhítrio:
primeira abordagem da liberdade

Segundo H a n n a h Arendt^^ as m u d a n ç a s i n t r o d u z i d a s p o r Santo 24. H . AKENDT, Entre o pas-


sado e o futuro, São Paulo,
A g o s t i n h o na análise d a l i b e r d a d e m u d a r a m para s e m p r e os ter-
Perspectiva, 1 9 7 2 , pp. 188-
m o s d o p r o b l e m a . E m Aristóteles, a liberdade só t e m significado 220.

e n q u a n t o conceito q u e e l u c i d a u m f e n ô m e n o d a v i d a política,
m o s t r a n d o a independência d o indivíduo c o m relação à cidade, e
fornecendo u m a definição d e u m d o s regimes pohticos possíveis.
A s s i m , para d e f i n i r a democracia, Aristóteles d i z : " A p r i m e i r a
espécie d e democracia é a que m e l h o r corresponde à idéia d e i g u a l -
dade, pois, se a liberdade, s e g u n d o alguns, p o d e ser encontrada
p r i n c i p a l m e n t e n o seio d e u m a democracia, e se o m e s m o se dá
c o m a i g u a l d a d e , liberdade e i g u a l d a d e s ó p o d e m realizar-se ple-
n a m e n t e se todos os cidadãos, s e m exceção, p a r h c i p a r e m sem
restrições d o governo"^''. A democracia n ã o existe, para Aristóte- 25, A K I S T O T E , La Politique,

les, e m apenas u m a f o r m a . N a Política, ele e n u m e r a q u a t r o espé- 1291b 3 5 .

cies, que têm e m c o m u m o fato d e estarem todas associadas à idéia


d e liberdade. N ã o p o d e m o s negar q u e o conceito d e l i b e r d a d e
carece p o r vezes d e m a i o r explicitação na obra d o filósofo grego,
mas tal fato é facilmente explicável se l e m b r a r m o s que, n o c o m e ç o
da Ética a Nicõmaco, ele n o s p r e v i n e contra a tentação d e d a r m o s
aos conceitos políticos e éticos o m e s m o tratamento q u e dispensa-
m o s às coisas da natureza. O r a , a liberdade, sendo c o m p r e e n d i d a
essencialmente c o m o conceito d a pohtica, deve padecer das mes-
mas Hmitações que os conceitos destinados a e l u c i d a r o sentido d a
v i d a a t i v a d o s homens.

E m Santo A g o s t i n h o , o p r o b l e m a é b e m d i f e r e n t e . A r i s t ó t e l e s
p o d i a d a r u m t r a t a m e n t o n ã o - s i s t e m á t i c o ao conceito, p o r q u e a
l i b e r d a d e era apenas a d e s c r i ç ã o d e u i p a f o r m a c o l e t i v a d e o r -

334 I Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


g a n i z a ç ã o da v i d a prática, e n ã o sua essência. Q u a n d o Santo
A g o s t i n h o fez d a U b e r d a d e a e s s ê n c i a da v o n t a d e , a q u e s t ã o
g a n h o u u m a nova dimensão. A partir de então, f o i necessário
precisar seu s i g n i f i c a d o , e x p l o r a r seus l i m i t e s e suas i m p l i c a -
ç õ e s . N ã o se p o d i a c o n t i n u a r a pensar c o m o se l i b e r d a d e e l i v r e -
-arbítrio fossem a m e s m a coisa, n e m d e i x a r o h o m e m e n t r e g u e
a seu q u e r e r l i v r e , c o m o se isso n ã o o tornasse f u n d a m e n t a l -
m e n t e d i f e r e n t e d o c i d a d ã o g r e g o , l i g a d o à c i d a d e e às suas
26. J.-C. FHAÍSSE, La
leis^^
subjectivité chez Saint Au-
gusiiii. Boriieaux. S«>dété de
Philosophie, l % 7 . A p r i m e i r a d i f e r e n ç a q u e t o m o u - s e n e c e s s á r i o estabelecer f o i
entre o " q u e r e r " e o " p o d e r " " . D o fato d e q u e r e r m o s u m a coisa
27. SANTO AGOSTINHO, De
SpirUu et littera. X X X I , 5 3 . n ã o p o d e m o s d e d u z i r q u e t e m o s o f ) o d e r d e realizá-la. Isso n ã o
m u d a , no entanto, e m nada a atuação da vontade. O querer é
u m a f a c u l d a d e i n t e r i o r , q u e existe i n d e p e n d e n t e d e t o d a e q u a l -
q u e r m a n i f e s t a ç ã o d o m u n d o " e x t e r i o r " . Nesse s e n t i d o , o " p o -
d e r " p o d e o c a s i o n a l m e n t e p a r t i c i p a r d a v o n t a d e e t o r n a r efetiva
a d e c i s ã o q u e ela t o m o u , mas n ã o p a r t i c i p a d e sua essência. O
livre-arbítrio revela as c o n d i ç õ e s d e n t r o das q u a i s a escolha é
f e i t a , mas nada nos d i z sobre a p o s s i b i l i d a d e d e sua realização.
A s s i m , p a r a Santo A g o s t i n h o , o e x e r c í c i o d a v o n t a d e n ã o exige
u m a a ç ã o , c o m o para A r i s t ó t e l e s . A escolha já é p o r si só u m
poder, mesmo q u a n d o não determina nenhuma transformação
a t i v a d o m u n d o . Essa r e v i r a v o l t a c o m p l e t a da c o m p r e e n s ã o q u e
os gregos t i n h a m d a v o n t a d e , c o m o d e u m a f a c u l d a d e l i g a d a d e
f o r m a i n d i s s o l ú v e l à a ç ã o , só f o i possível p o r q u e Santo A g o s t i -
n h o d e s e n v o l v e u , ao m e s m o t e m p o q u e u m a n o v a teoria d a
v o n t a d e , u m a n o v a c o n c e p ç ã o da a ç ã o . Ele p r o c u r o u m o s t r a r
q u e o ú n i c o j u i z capaz d e v e r e j u l g a r c o r r e t a m e n t e nossos atos
é Deus. O r a , a seus o l h o s nada escapa. O h o m e m q u e d e c i d e
fazer a l g u m a coisa, a i n d a q u e n ã o d ê s e q ü ê n c i a a seu " q u e r e r " ,
já p r a t i c o u u m a a ç ã o , q u e p e l o fato d e n ã o ser c o n h e c i d a d o s
28. A. MANÍMIU/E, Sainl
h o m e n s , n ã o d e i x a d e trazer c o n s e q ü ê n c i a s para sua v i d a ^ . A
Augustin. ravenlure de Ia i n t e r i o r i z a ç ã o d a l i b e r d a d e i m p l i c o u , a s s i m , a interiorização d a
raison et de Ia grãce. Paris,
Études Augustinienncs,
ação, que também p e r d e u o vínculo necessário c o m a cidade e
1968. c o m a política.

Nossas c o n s i d e r a ç õ e s anteriores p o d e m i n d u z i r - n o s a a c r e d i t a r
q u e os pensadores cristãos se f e c h a r a m n u m " i d e a l i s m o a b s o l u -
t o " , f a z e n d o da " v i d a i n t e r i o r " a única f o r m a v e r d a d e i r a m e n t e
h u m a n a d e nosso e x i s t i r n o m u n d o . O a b a n d o n o d e certos c o n -
ceitos d a f i l o s o f i a grega c o r r e s p o n d e r i a , na v e r d a d e , ao a b a n d o -
n o d e t o d a e s p e r a n ç a d e e n c o n t r a r a l g u m s i g n i f i c a d o para nos-
sas v i v ê n c i a s c o l e t i v a s . Essa m a n e i r a d e v e r o p r o b l e m a d a l i -
berdade falsifica inteiramente o sentido d o pensamento
a g o s t i n i a n o e, e m g r a n d e p a r t e , m e d i e v a l . É preciso n ã o esque-
cer q u e os pensadores c r i s t ã o s p a r t i r a m e f e t i v a m e n t e d e u m

Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58. 1992 \ 3351


d a d o n o v o q u e f o i a p r e s e n ç a d o C r i s t o e n t r e os h o m e n s , o q u e
s i t u o u a q u e s t ã o d a s a l v a ç ã o n o c e n t r o d e suas p r e o c u p a ç õ e s .
Ora, a s a l v a ç ã o é a l g o q u e d e v e ser c o n q u i s t a d o neste m u n d o ,
p o v o a d o p o r h o m e n s i m p e r f e i t o s e o r g a n i z a d o s e m sociedades
t u m u l t u a d a s . A s s i m , a i n d a q u e p o s s a m o s desejar n o s afastar
i n t e i r a m e n t e d o m u n d o , este desejo é irrealizável. O q u e Santo
A g o s t i n h o , a s s i m c o m o o u t r o s p e n s a d o r e s m e d i e v a i s , fez, p a r -
t i n d o da d i s t i n ç ã o entre " q u e r e r " e " p o d e r " , f o i a f i r m a r a s u -
p r e m a c i a da v i d a i n t e r i o r e e s t u d a r os m ú l t i p l o s sentidos nos
q u a i s o conceito d e v o n t a d e se d e s d o b r a , a b r i n d o a s s i m o c a m -
p o p a r a u m a n o v a c o m p r e e n s ã o d a l i b e r d a d e . E m Santo T o m á s ,
c o m o m o s t r a G i l s o n , e n c o n t r a m o s a s í n t e s e desse e s f o r ç o d e
elaboração conceituai: "Cada vez que queremos d e t e r m i n a r
c o m p l e t a m e n t e as c o n d i ç õ e s da l i b e r d a d e , s o m o s c o n d u z i d o s a
d i s t i n g u i r , c o m Santo T o m á s , três p o n t o s d e v i s t a diferentes: a
l i b e r d a d e c o m relação ao ato, e n q u a n t o a v o n t a d e p o d e a g i r o u
não; a l i b e r d a d e e m relação ao objeto, e n q u a n t o a v o n t a d e p o d e
q u e r e r t a l objeto o u seu c o n t r á r i o ; a l i b e r d a d e c o m r e l a ç ã o ao
fim, enquanto a vontade pode querer o bem o u o m a l " ^ . 29. E. GILSON, op. cit., p, 300.
Ver: M . CORBIN, " D U libre
arbitre selon St, T h o m a s
A i n t e r i o r i z a ç ã o da l i b e r d a d e , sua a n c o r a g e m nos d o m í n i o s da d ' A q u i n " in Archives de
v o n t a d e , m u d o u - l h e a significação, m a s t r o u x e t a m b é m conse- philosophie, pp. 1 7 7 - 2 1 2 ,
avril-juin, 1 9 9 1 .
q ü ê n c i a s p a r a a v i d a social. H a n n a h A r e n d t já o b s e r v o u q u e o
p r i m e i r o conceito q u e f o i a l t e r a d o pela r e v i r a v o l t a a g o s t i n i a n a
f o i o d e c i d a d a n i a ^ . Isso se d e v e u ao fato d e o c r i s t ã o ser u m 30. H . AKENDT, op. cit., cap.
4.
c i d a d ã o d o u n i v e r s o e não mais d e u m a " p o l i s " p a r t i c u l a r . A s s i m ,
ele d e v e obediência às leis, c o m o o f a z i a m os c i d a d ã o s atenienses
o u r o m a n o s , mas sua pátria n ã o t e m m a i s as m e s m a s f r o n t e i r a s ,
n ã o se l i m i t a a u m e s p a ç o e a u m t e m p o d e t e r m i n a d o s . A s leis
por sua vez n ã o s ã o m a i s as c o n s t i t u i ç õ e s escritas pelos h o m e n s ,
mas a própria l e i d i v i n a , q u e os h o m e n s d e v e m se e s f o r ç a r para
conhecer. Essa e x p a n s ã o d o c o n c e i t o d e c i d a d a n i a f o i , na v e r d a -
de, p r e p a r a d a pelos e s t ó i c o s q u e , sem a b a n d o n a r t o t a l m e n t e o
u n i v e r s o d a f i l o s o f i a grega, p e n s a r a m o h o m e m c o m o u m ser
s u b m e t i d o a u m a l e i u n i v e r s a l d o cosmos. S u b s i s t i u , n o e n t a n t o ,
n o p e n s a m e n t o estóico, u m a t e n s ã o entre o i n d i v í d u o q u e d e v e
buscar a s u b m i s s ã o às leis m a i o r e s d a n a t u r e z a e o c i d a d ã o q u e
d e v e obedecer aos d i t a m e s d a l e i p o s i t i v a . D e s e j a n d o u m a l e i
váHda p a r a t o d o s , os estóicos m u i t a s vezes n ã o f i z e r a m m a i s d o
q u e e x p a n d i r as f r o n t e i r a s das leis r o m a n a s .

E m Santo A g o s t i n h o , essa t e n s ã o n ã o desaparece, mas passa a


ser pensada d e u m p o n t o d e v i s t a t o t a l m e n t e d i f e r e n t e . A sepa-
r a ç ã o entre " q u e r e r " e " p o d e r " c e r t a m e n t e r o m p e c o m a t e o r i a
da a ç ã o aristotélica, m a s n ã o c o m a necessidade d e e l u c i d a ç ã o
d o s e n t i d o d e nossa p r e s e n ç a n o m u n d o . A q u e s t ã o d a v o n t a d e
t r a z c o n s i g o a e x i g ê n c i a de u m a n o v a ética. Santo A n s e l m o f o i

336 Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


p a r t i c u l a r m e n t e a t e n t o a esse aspecto d o p r o b l e m a , q u a n d o d e -
31. I. CHEVALIER, Sainl c l a r o u q u e u m a v o n t a d e s e m p o d e r é u m a v o n t a d e diminuída^'.
Augustin et Ia pensée grecífue,
Fribourg, L i b r a i r i e de Se n ã o há c o m o n e g a r q u e a v o n t a d e é f u n d a m e n t a l m e n t e u m a
Í'Université, 1940. f a c u l d a d e i n t e r i o r , t a m b é m n ã o p o d e m o s d e s p r e z a r a análise
d o s efeitos d e seu e x e r c í c i o . N a m e d i d a e m q u e a a ç ã o reflete
u m m o v i m e n t o q u e c o m e ç o u n o m a i s í n t i m o d e nossa a l m a , ela
32. E. GiisoN, op. cit., p. 299. é u m a f o n t e para o c o n h e c i m e n t o d e nosso ser^^. Disso d e c o r r e
q u e a ética cristã t e m c o m o u m d e seus p o n t o s d e p a r t i d a a
l i b e r d a d e d a v o n t a d e , d a q u a l se o r i g i n a m nossos atos e nossa
q u e d a . O r a , a i n d a q u e o essencial n ã o seja a a ç ã o concreta d o s
h o m e n s e suas relações sociais, é i n e g á v e l q u e elas s ã o f r u t o s d a
l i b e r d a d e e i n f l u e n c i a m a v i d a d e t o d o s ; m e s m o a d o s sábios
q u e desejam f u g i r d a c o r r u p ç ã o d o m u n d o . P o r essa v i a , a re-
flexão sobre a política se i m p õ e a o p e n s a m e n t o cristão, a i n d a
33. G . CoMBts, 1.11 doctrine
q u e d e s p i d a d a i m p o r t â n c i a q u e t i n h a p a r a os gregos e r o m a -
polilique de Saint Augustin,
Paris, L . Plon, 1927, p. 282. nos^\

rV, A vida contemplativa e a vida ativa

A n t e s d e analisar a e s p e c i f i c i d a d e d a c o n c e p ç ã o a g o s t i n i a n a d a
política, p a r e c e - n o s i m p o r t a n t e a p r o f u n d a r nosso e s t u d o d a
questão da ação, q u e até aqui foi tratada de maneira superficial.
Para r e s u m i r nosso p e r c u r s o , d e v e m o s l e m b r a r q u e para Santo
A g o s t i n h o o o b j e t i v o d a v i d a h u m a n a é a v e r d a d e , o u seja, Deus.
Para se a t i n g i r esse o b j e t i v o , n o e n t a n t o , os c a m i n h o s s ã o m ú l -
t i p l o s e c o m p l e x o s . V a m o s e s t u d a r apenas as etapas d o q u e é
p e r c o r r i d o pela v o n t a d e .

A p r i m e i r a d i s t i n ç ã o q u e n o s é n e c e s s á r i o estabelecer é entre o
" h o m e m e x t e r i o r " — l i g a d o a o m u n d o sensível — e o " h o m e m
i n t e r i o r " — q u e realiza na esfera d o p e n s a m e n t o a " e s s ê n c i a d a
34. SANTO AGOSTINHO, De
n a t u r e z a h u m a n a " - " . Se p o d e m o s d i z e r q u e é a t r a v é s d e nossa
Trinilate. X l l , 1 e 2.
a t i v i d a d e m e n t a l q u e a f i r m a m o s p l e n a m e n t e nossa n a t u r e z a , é
preciso buscar a f o r m a p e r f e i t a dessa v i d a , q u e n o s leva a o
35. E . GILSON, Iniroduction à e n c o n t r o d a v e r d a d e e, c o n s e q ü e n t e m e n t e , d e Deus^. A essa
1'étude de Saint Augustin,
Paris,). Vrin, 1969, p. 150.
f o r m a d e v i d a . Santo A g o s t i n h o d á o n o m e d e c o n t e m p l a ç ã o . A
distinção q u e apontamos teria, portanto, u m valor axiomático,
se o " h o m e m i n t e r i o r " pudesse se d e s l i g a r i n t e i r a m e n t e d o
" h o m e m e x t e r i o r " e e x i s t i r nesse m u n d o d e pecado v o l t a d o
u n i c a m e n t e p a r a a p r o c u r a d a v e r d a d e . M a s n ã o é a s s i m q u e as
coisas se p a s s a m . E n q u a n t o b u s c a m o s a v e r d a d e , somos c o m p e -
l i d o s a aceitar a p r e s e n ç a d e nosso c o r p o e d e suas necessida-

Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992 337


des. N ã o é possível, m e s m o ao m a i s s á b i o d o s h o m e n s , escapar
d o s desejos e p a i x õ e s q u e c a r a c t e r i z a m a v i d a na t e r r a . D i t o d e
o u t r a m a n e i r a , p o d e m o s a f i r m a r q u e a v i d a c o n t e m p l a t i v a só
existe ao l a d o da f o r m a de v i d a q u e a ela parece se o p o r : a v i d a
ativa.

Essa t e n s ã o e n t r e v i d a c o n t e m p l a t i v a e v i d a a t i v a já aparecera
na Ética a Nicõmaco, q u a n d o A r i s t ó t e l e s p r o c u r a r a d e f i n i r as
c o n d i ç õ e s d e p o s s i b i l i d a d e da v i d a c o n t e m p l a t i v a própria aos
s á b i o s . N o caso d o p e n s a m e n t o cristão, n o e n t a n t o , o p r o b l e m a
se coloca d e m a n e i r a d i f e r e n t e , u m a vez q u e o b e m p r o c u r a d o
p e l o s á b i o se c o n f u n d e c o m D e u s . D e u m l a d o , d e v e m o s resistir
às t e n t a ç õ e s d o c o r p o , p a r a a t i n g i r u m estado d e c a l m a a b s o l u -
ta, a b e a t i t u d e ; d e o u t r o , e n t r e t a n t o , somos f o r ç a d o s a reconhe-
cer q u e a c o r p o r e i d a d e n ã o é m e r o ' a c i d e n t e ' e m nossas v i d a s .
Para c o n s e r v a r a v i d a é preciso a g i r , e a isso s o m o s l e v a d o s
t a n t o p o r r a z õ e s externas c o m o p o r r a z õ e s i n t e r n a s . A d i f e r e n ç a
entre o h o m e m e x t e r i o r e o h o m e m i n t e r i o r é, desse p o n t o d e
v i s t a , m e r a m e n t e analítica, p o i s a a ç ã o é u m a c o n d i ç ã o f u n d a -
m e n t a l da contemplação-**". 36, " L a pensée ne vague à
Taction qu'afin de rendre
possible rexercice de b o>n-
Esta ú l t i m a a f i r m a ç ã o o b r i g a - n o s a buscar u m a s o l u ç ã o para tomplalion", E. GILSON, op.
duas questões. E m p r i m e i r o lugar, devemos descobrir q u a l é a cit, p. 153. Ver Santo AgtK-
tinho. De TrinilaU: XII, 3,
v i d a q u e u m cristão d e v e escolher e p o r q u e r a z õ e s . E m s e g u n -
d o l u g a r , i n d e p e n d e n t e d a resposta q u e d e r m o s à p r i m e i r a ques-
tão, é - n o s n e c e s s á r i o c o m p r e e n d e r as c o n s e q ü ê n c i a s d o q u e
d i s s e m o s a respeito da a ç ã o , a saber, q u e ela é p a r t e essencial d e
t o d a existência h u m a n a .

A resposta à p r i m e i r a q u e s t ã o já f o i d a d a . Os cristãos d e v e m
escolher a c o n t e m p l a ç ã o c o m o f o r m a d e v i d a , para f u g i r d a
m a l d a d e d o m u n d o e alcançar a plena "visão de Deus". Mas a
s i m p l i c i d a d e dessa escolha esconde p r o b l e m a s m u i t o c o m p l e -
xos. Se " s a b e m o s " q u a l a f o r m a d e v i d a c o r r e t a , n a d a i n d i c a q u e
p o s s a m o s alcançá-la e f e t i v a m e n t e apenas p o r u m a d e c i s ã o da
v o n t a d e . A s Confissões d e Santo A g o s t i n h o s ã o a p r o v a e l o q ü e n -
te das d i f i c u l d a d e s q u e e n f r e n t a m os q u e se l a n ç a m na busca d a
v e r d a d e . M u i t a s vezes, desejando a r d o r o s a m e n t e o b e m , e t e n -
d o d e c i d i d o praticá-lo, c o m e t e m o s os p i o r e s erros e m e r g u l h a -
m o s n o m a l . Se existe clareza q u a n t o à escolha, n a d a garante, a
priori, a l i m p i d e z d o caminho^^. 37. E . GíiíON, op. cil, p. 155.

A resposta ã nossa s e g u n d a q u e s t ã o d e p e n d e da e l u c i d a ç ã o d o
s e n t i d o d a r e l a ç ã o d a v i d a a t i v a c o m a e x i g ê n c i a da c o n t e m p l a -
ç ã o . De m a n e i r a g e r a l , p o d e m o s d i z e r q u e a v i d a a t i v a d e v e se
s u b m e t e r às e x i g ê n c i a s d a v i d a c o n t e m p l a t i v a . M a s q u e m e d i a -
ç õ e s p o d e m g a r a n t i r essa s u b o r d i n a ç ã o ? A s c i ê n c i a s q u e se
o c u p a m d o m u n d o sensível c e r t a m e n t e n ã o r e a l i z a m a p o n t e

338 Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


38. Idem, ibidem, p, 158, entre nossos atos e a v o n t a d e d e Deus^. M a s , ao m e s m o t e m p o ,
não podemos simplesmente contentar-nos c o m a constatação de
nosso fracasso, p o i s é preciso reconhecer q u e o q u e a t i n g i m o s
a t r a v é s d a c o n t e m p l a ç ã o é a v e r d a d e q u e d e v e g u i a r nossas
39. Idem, Ibidem, p. 1 6 8 . ações-''. P o d e m o s f o r m u l a r essa a f i r m a ç ã o d e o u t r a m a n e i r a ,
d i z e n d o q u e os f r u t o s d a c o n t e m p l a ç ã o s ã o leis n a t u r a i s , q u e
para a l é m d o s á b i o q u e as descobre, c o n s t i t u e m as regras a
p a r t i r das q u a i s d e v e m o s g u i a r nossa c o n d u t a p r á t i c a , u m a v e z
q u e " t u d o q u e existe d e l e g í t i m o n o i n d i v í d u o e na c i d a d e é
40. Idem, Ibidem, p, 168. d e r i v a d o d a l e i n a t u r a l " , q u e é a v e r d a d e i r a l e i das leis*'.

O q u e acabamos d e d i z e r , n o e n t a n t o , serve apenas c o m o i n d i -


c a ç ã o abstrata d o q u e d e v e m o s fazer p a r a a l c a n ç a r o a c o r d o
entre nossa existência m u n d a n a e as leis d i v i n a s , p o i s , c o m o
41 SANTO AGOSTINHO, m o s t r a S a n t o A g o s t i n h o * " , o q u e n o s t o r n a h o m e n s é nossa
Coíi/f.ssmiís, Paris, Edilions
v o n t a d e , q u e p o d e escolher, c o n t r a a l e i , retirar-se n o g o z o e n o
Pierre Horay, 1982, VIII, 5 ,
Ver: D. Dt C E L L I L S " D i v i n c p r a z e r , m e s m o ao p r e ç o d a p e r d a d a s a l v a ç ã o . A l e i m o r a l é
prescience a n d h u m a n essencial para nossa v i d a na c i d a d e , m a s n ã o t e m o p o d e r d e
frecdom" in Augiiftinian
Studies. 8 , 1 9 7 7 , pp. 1 5 1 - 1 6 0 . constranger-nos a a g i r s e m p r e d e a c o r d o c o m a v o n t a d e d e Deus.
D e v e m o s , a s s i m , r e f o r m u l a r nossas q u e s t õ e s e tentar d e s c o b r i r
n ã o m a i s os m o d o s d e s u b o r d i n a ç ã o d a v i d a a t i v a à v i d a
c o n t e m p l a t i v a , m a s o q u e faz c o m q u e a v o n t a d e escolha, e n t r e
as m u i t a s p o s s i b i l i d a d e s q u e l h e s ã o oferecidas p e l o m u n d o d o s
h o m e n s , a v i a d e o b e d i ê n c i a à l e i d i v i n a . A p e r g u n t a sobre as
f o r m a s d e v i d a é, p o r t a n t o , u m a q u e s t ã o sobre as f o r m a s d e
ação.

V. o agir e a moral: segunda


abordagem da liberdade

A r i s t ó t e l e s c o n s i d e r a v a o e s t u d o d o c a r á t e r v o l u n t á r i o d e certos
atos h u m a n o s o p o n t o d e p a r t i d a n e c e s s á r i o p a r a q u a l q u e r
a n á l i s e d o p r o b l e m a d a a ç ã o e d e suas c o n s e q ü ê n c i a s m o r a i s .
Santo T o m á s a c e i t o u p l e n a m e n t e essa a f i r m a ç ã o , m a s m u d o u
4 2 . SANTO TOMAS DE A Q U I N O , sua sígnifícação*^. Para A r i s t ó t e l e s a a ç ã o deseurola-se n o s l i m i -
Sumtmtheotogke.iaiUf^,\5. c i d a d e e busca, na r e l a ç ã o d o s h o m e n s , a f o n t e para o
c u m p r i m e n t o d o o b j e t i v o m a i o r d e nossa e x i s t ê n c i a , q u e é a
f e l i c i d a d e . O p e n s a m e n t o cristão s u b v e r t e u a teoria aristotélica,
n ã o p o r a b a n d o n a r a idéia d e q u e a f e l i c i d a d e é o o b j e t i v o d a
e x i s t ê n c i a , m a s p o r identificá-la c o m a b e a t i t u d e q u e , e m ú l t i m a
instância, n ã o d e p e n d e das instituições políticas. Aristóteles t a m -
b é m faz o e l o g i o d o s á b i o c o n t e m p l a t i v o , o u d o h o m e m q u e se
d e d i c a f u n d a m e n t a l m e n t e à pesquisa teórica, m a s o p e n s a d o r

Síntese Nova Fase. v. 19, n. 58. 1992 \ 3 3 9


g r e g o n ã o concebe p a r a ele u m a f o r m a d a a ç ã o q u e possa des-
p r e z a r os v í n c u l o s q u e o u n e m aos o u t r o s h o m e n s na c i d a d e ,
c o m o acontece c o m os cristãos, q u e v ê e m na c i d a d e u m o b s t á -
c u l o à r e a l i z a ç ã o p l e n a da v i d a c o n t e m p l a t i v a .

Sem cair n u m p u r o i d e a l i s m o , os pensadores cristãos c o m p r e -


e n d e r a m q u e é preciso e s t u d a r a v o n t a d e a p a r t i r d e d o i s p o n -
43, "Concluons donc; Ia vo-
tos d e v i s t a d i f e r e n t e s . E m p r i m e i r o l u g a r , d e v e m o s c o n s i d e r á - lonté veut nécessairemenl le
-la e n q u a n t o escolhe e n t r e as d i v e r s a s p o s s i b i l i d a d e s e objetos bien en general; cette neces-
site ne signífie pas autre
q u e l h e s ã o o f e r e c i d o s pela v i d a prática. A esse p r i m e i r o m o v i - chose, sinon que Ia volonté
mento corresponde, no entanto, u m segundo, que a compele a ne peul pas êlre eJle-même,
et CL-tte adhésiun immuable
buscar o B e m U n i v e r s a l " . Essa a t r a ç ã o p e l o B e m n ã o é, e n t r e -
au bien comme tel constitue
t a n t o , capaz d e c o n s t r a n g ê - l a a a g i r s e m p r e d e a c o r d o c o m suas le príncipe premier de lou-
e x i g ê n c i a s , p o i s n ã o lhe é p o s s í v e l d i s c e r n i r n o c a m p o d o s p o s - tes ses opérations". E. G I L -
SON, Le tbomisme, Paris, J,
síveis, q u e c o n s t i t u e m o presente, q u a i s s ã o as escolhas p a r t i c u - Vrin, 1 9 4 2 , p. 3 3 5 .
lares q u e e s t ã o e m p e r f e i t o a c o r d o c o m o Bem**. O r a , se a v o n -
tade n ã o é capaz d e reconhecer o B e m e m suas f o r m a s p a r t i c u - 44, Idem, ibidem, p. 3 3 6 .
Ver; M . DOLBY, " E l proble-
lares, isso q u e r d i z e r q u e ela g u a r d a intacta sua l i b e r d a d e , n o ma dei mal en San Agustin
m o m e n t o e m q u e nos d e t e r m i n a a a g i r . y Ia racionalidad de Io real"
in Revista Agustiniana, sep-
doz, 1989, pp, 437-454,
M a s se a v o n t a d e n ã o é g u i a d a d e m a n e i r a absoluta p e l o B e m ,
c o m o p o d e m o s estar certos d e q u e ela é a t r a í d a p o r sua f o r ç a ?
N ã o p o d e m o s buscar a causa dessa i n c l i n a ç ã o na p r ó p r i a v o n -
tade, p o i s a s s i m t e r í a m o s d e a d m i t i r q u e ela p o d e escolher s e m
conhecer as causas de sua eleição, o u d i t o d e o u t r a m a n e i r a , q u e
ela n ã o é r a d i c a l m e n t e l i v r e . E preciso, p o r t a n t o , d e s c o b r i r u m a
causa e x t e r i o r à v o n t a d e , q u e a t r a i n d o - a p a r a o B e m n ã o i n t r o -
d u z a c o m isso n e n h u m a necessidade ao g u i á - l a . Essa causa,
c o m o l e m b r a Santo T o m á s , só p o d e ser a l g o s u p e r i o r à própria
v o n t a d e : Deus. Isso c o r r e s p o n d e a d i z e r q u e , d o p o n t o d e vista
d o sujeito, n ã o d e s c o b r i m o s n e n h u m a d e t e r m i n a ç ã o necessária
n o seio d a vontade"^'^; d o p o n t o d e v i s t a d o objeto, n ã o há ne- 45, Idem, ibidem, p. 3 4 0 .
n h u m q u e seja capaz d e " m o v e r necessariamente" a v o n t a d e .
D e u s g u i a a v o n t a d e s e m i n t r o d u z i r nessa relação n e n h u m ca-
ráter n e c e s s á r i o .

A e s t r u t u r a d o q u e r e r é, p o i s , s e m p r e a m e s m a e i n d e p e n d e d o s
objetos d o m u n d o , q u e se r e l a c i o n a m c o m a v o n t a d e apenas
pela " i n t e n ç ã o " * " . " Q u a n d o ela faz u m a t o d e i n t e n ç ã o , a v o n - 46. SANTO TOMAS DE AQUINO,

tade se v o l t a p a r a o f i m c o m o para o t é r m i n o d e seu m o v i m e n - Summa Theologiae, Ia Ilae,


17.
to. U m a v e z q u e ao q u e r e r o f i m ela q u e r necessariamente os
m e i o s , disso r e s u l t a q u e a i n t e n ç ã o d o f i m e a v o n t a d e d o s
m e i o s c o n s t i t u e m u m ú n i c o e m e s m o ato"*''. 47. E . GILSON, Le Thomisme,
p. 347,

M a s a v o n t a d e n ã o p o d e saber s e m p r e q u a i s os m e i o s n e c e s s á -
r i o s p a r a se a t i n g i r u m f i m d e t e r m i n a d o e, p o r isso, é o b r i g a d a
a recorrer à r a z ã o , e m sua d i m e n s ã o prática, p a r a p o d e r se o r i -
entar, o q u e n ã o q u e r d i z e r q u e aja s u b m i s s ã o d e u m a à o u t r a .

340 I Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


O a t o é s e m p r e d i r i g i d o pela v o n t a d e , m e s m o q u a n d o as o p ç õ e s
48, SANTO TOMAS DE A Q U I N O , s ã o a p r e e n d i d a s pela razão**. Santo T o m á s t e n t o u e l u c i d a r essa
Summa theologiae. Ia Ilae, 17.
r e l a ç ã o a t r a v é s d a a n á l i s e d o s aspectos f o r m a i s d a ação'*^. Se-
49. Idem, ibidem. Ia Ilae, g u n d o ele, t o d o ato é i n f l u e n c i a d o p o r d o i s fatores: os h á b i t o s
49, I, e as v i r t u d e s . O s h á b i t o s s ã o u m a e s p é c i e d e m e m ó r i a d o c o r p o
e d a a l m a , u m a q u a l i d a d e q u e se j u n t a à n a t u r e z a o r i g i n a l d o
h o m e m e d e t e r m i n a a m a n e i r a pela q u a l ele realiza sua p r ó p r i a
5 0 . Idem, ibidem. Ia Ilae, d e f i n i ç ã o ^ . Nesse s e n t i d o , eles p o d e m ser classificados e m b o n s
49, 4,
o u r u i n s d e a c o r d o c o m sua c a p a c i d a d e d e a j u d a r os h o m e n s a
5 1 . Idem, ibidem. Ia Ilae, se a p r o x i m a r d e seu f i m o u d e dele se distanciar^'.
49, 2.

Q u a n d o os h á b i t o s l e v a m os h o m e n s a p r a t i c a r boas a ç õ e s ,
d e v e m o s c h a m á - l o s v i r t u d e s . M a s , p a r a q u e saibamos q u a i s s ã o
as boas a ç õ e s , é preciso p r i m e i r o c o n h e c ê - l a s . Santo T o m á s se
l a n ç o u na busca d o s i g n i f i c a d o d a boas a ç õ e s classificando-as
e m q u a t r o g ê n e r o s : as q u e s ã o boas p o r r e a l i z a r a n a t u r e z a i n -
trínseca d e u m ser, as q u e se d i r i g e m a u m objeto a d e q u a d o , as
q u e se r e a l i z a m e m c i r c u n s t â n c i a s corretas e as q u e s ã o boas p o r
52. Idem, ibidem. Ia Ilac, causa d e seu p r ó p r i o fim^^ A essa classificação se segue a d i v i -
18. 4,
são d o próprio ato e m dois momentos distintos: a decisão inter-
na d a v o n t a d e , q u e se d i r i g e ao f i m , e o ato e x t e r i o r q u e visa ao
objeto. " E p o r isso q u e se q u i s e r m o s d e s c o b r i r o p r i n c í p i o q u e
d i f e r e n c i a os atos e m b o n s e m a u s , d e v e m o s d i z e r q u e os atos
h u m a n o s s ã o classificados f o r m a l m e n t e a p a r t i r d o f i m ao q u a l
t e n d e o a t o i n t e r i o r d a v o n t a d e , e, m a t e r i a l m e n t e , a p a r t i r d o
5 3 . E. GILSON, op, cit., p, 357, objeto ao q u a l se a p l i c a o a t o e x t e r i o r " " .

A s distinções enunciadas não resolvem, n o entanto, u m proble-


m a f u n d a m e n t a l q u e fora a p o n t a d o p o r Santo A g o s t i n h o . Se
d e f i n i m o s o c a r á t e r d e u m a a ç ã o p e l o f i m a q u e ela visa, é
preciso n ã o esquecer q u e a v o n t a d e n ã o efetua suas escolhas
n u m m u n d o t r a n s p a r e n t e e m q u e l h e é possível conhecer p l e -
n a m e n t e o B e m . M a s se a c o n s c i ê n c i a n ã o p o d e ter u m a v i s ã o
clara d o B e m , c o m o p o d e visá-lo? A resposta q u e a f i l o s o f i a
m e d i e v a l e l a b o r o u , a p a r t i r d e Santo A g o s t i n h o , a essa q u e s t ã o ,
e q u e f o i exposta d e m a n e i r a sistemática p o r Santo T o m á s , i m -
p l i c o u u m a t e o r i a d a r a c i o n a l i d a d e q u e t r a n s f o r m a seus c o n t e ú -
54, SANTO TOMÁS DE A Q U I N O , d o s práticos e m e x i g ê n c i a s a s e r e m c u m p r i d a s pela v o n t a d e ^ . A
op, cit. Ia Ilae, 18, 5 .
r a z ã o n ã o i n v a d e c o m suas d e t e r m i n a ç õ e s a l i b e r d a d e d a v o n -
tade, m a s serve d e m e d i a ç ã o entre a p a r t i c u l a r i d a d e das esco-
lhas isoladas e o B e m . Ela p o d e fazer isso, p o r q u e p o s s u i u m
c a r á t e r p r á t i c o q u e t r a n s f o r m a e m leis o c o n h e c i m e n t o q u e é
55, Idem, ibidem. Ia Ilae, capaz d e ter d a l e i divina^^. É preciso d i z e r q u e essa c a p a c i d a d e
91, 1, d a r a z ã o está l i g a d a ao fato d e q u e a l e i d i v i n a está i n s c r i t a e m
nós, e p o d e s e r v i r d e referência para a c r i a ç ã o das leis p a r t i c u -
lares, cuja f u n ç ã o é l a n ç a r u m a p o n t e e n t r e a i n f i n i d a d e d e atos
i n d i v i d u a i s , q u e c o m p õ e m nossas v i d a s e m c o m u m , e a l e i d i -

Sínlese Nova Fase. 19, n. 58. 1992 341


v i n a . É p r e c i s o o b s e r v a r , n o e n t a n t o , q u e a c r i a ç ã o das leis p a r -
ticulares não é o f r u t o exclusivo d o esforço de u m h o m e m , pois,
se t o d o s p u d é s s e m o s a t i n g i r a v e r d a d e a t r a v é s d o u s o d a r a z ã o ,
n ã o h a v e r i a necessidade a l g u m a d e c r i a r m o s leis. É p o r q u e cada
u m d e nós, t o m a d o e m sua p a r t i c u l a r i d a d e , n ã o p>ode ser c o n -
s i d e r a d o a f o n t e d e u m saber a b s o l u t o da l e i d i v i n a , q u e recor-
r e m o s às leis h u m a n a s , p r o d u t o d a p r u d ê n c i a associada d o s
h o m e n s e d o tempK>.

Para c o m p r e e n d e r m o s , p o r t a n t o , o a g i r é preciso l e v a r e m conta


a e s t r u t u r a q u e acabamos d e descrever e, s o b r e t u d o , c o n s i d e r á -
- l o d o p o n t o d e v i s t a m o r a l . Para os gregos, u m a pessoa só
p o d i a ser j u l g a d a a p a r t i r d o c o n j u n t o d e seus atos, o u seja, p o r
a q u i l o q u e fizera d u r a n t e t o d a sua vida"^. C o m o c r i s t i a n i s m o 56. Ver: H . - ! . M A R R O U , Sainl
Augustin ei Ia fin de Ia culture
t u d o m u d a , p o i s cada a t o resulta d e u m a d e c i s ã o d a v o n t a d e ,
aniique. Paris, Editions de
cujo núcleo é a intenção é não o "fazer". C o m o resume m u i t o Btíccard, 1938.
b e m G i l s o n : " D e n t r e as m u i t a s c o n s e q ü ê n c i a s , p a r a a f i l o s o f i a ,
da l e i t u r a d a Bíblia e d o s E v a n g e l h o s , n ã o existe n e n h u m a m a i s
importante d o que a que podemos chamar de interiorização da
moralidade"*^^. Esta c o n c l u s ã o , de q u e u m a p a r t e f u n d a m e n t a l 57. E. GiisoN, L'esprit de Ia
d a m o r a l é o e s t u d o das d e t e r m i n a ç õ e s d a v o n t a d e , leva-nos a philosophie médievale, p. 325.

q u e s t i o n a r as c o n s e q ü ê n c i a s dessa r e v i r a v o l t a para a c o m p r e e n -
s ã o da política. D o q u e d i s s e m o s até a q u i p o d e m o s d e d u z i r
q u e , para t e n t a r r e s p o n d e r à nossa q u e s t ã o , d e v e m o s p a r t i r d o
e s t u d o d o s i g n i f i c a d o da i n t e n ç ã o para a v i d a e m c o m u m d o s
homens.

P o d e m o s r e s u m i r o p r o b l e m a d a i n t e n ç ã o da s e g u i n t e m a n e i r a :
se ela é boa, mas nos e n g a n a m o s n o m o m e n t o d e a g i r , o a t o é
b o m , p o i s a v o n t a d e escolheu c o r r e t a m e n t e e n t r e as o p ç õ e s
oferecidas pela r a z ã o ; se, ao c o n t r á r i o , nos e n g a n a m o s n o m o -
m e n t o d e escolher, mas p o r u m a c i d e n t e q u a l q u e r p r a t i c a m o s
u m a boa a ç ã o , a i n d a a s s i m o a t o é r u i m , p o i s a i n t e n ç ã o o era.
D a d o q u e a Deus n a d a escapa, Ele é o ú n i c o j u i z d e nossas
a ç õ e s . A m o r a l é u m a m o r a l d a i n t e n ç ã o , suas fontes s ã o i n t e -
r i o r e s e suas leis, transcendentes. A c o n s e q ü ê n c i a desse deslo-
camento da m o r a l para o interior da vontade é a submissão da
política à ética"". 58. idem, ibidem, p, 328,

A política passa a ser vièta c o m o a e x p r e s s ã o m a i s acabada da


q u e d a e d o pecado. F r u t o d o e r r o , d o m í n i o da c o n t i n g ê n c i a ,
n a d a nela l e m b r a o m u n d o d o espírito. D e m a n e i r a g e r a l , n o
e n t a n t o , ela t e m u m a f u n ç ã o p o s i t i v a , p o i s é só a t r a v é s d e leis
q u e se p o d e e v i t a r a i r r u p ç ã o d a b a r b á r i e entre os h o m e n s . Suas
r e f e r ê n c i a s s ã o a s s i m as a ç õ e s concretas, suas leis v i s a m p u n i r

342 I Síntese Nova Fase. v. 19. n. 58. 1992


aqueles q u e a t e n t a m c o n t r a a o r d e m e a p a z . N ã o desaparece,
p o r t a n t o , d a esfera d o p e n s a m e n t o c r i s t ã o a p r e o c u p a ç ã o c o m
os destinos terrenos d o h o m e m , apenas m u d a - s e o s i g n i f i c a d o
d e suas a ç õ e s . Se a a ç ã o d e v e ser, c o m o m o s t r a - n o s Santo A g o s -
tinho, compreendida a partir de dois momentos distintos: a i n -
tenção e o ato, é evidente que a importância atribuída à inten-
ç ã o d i m i n u i a d o s e g u n d o m o m e n t o . Para os gregos, os v í n c u -
los q u e u n i a m os h o m e n s à " p o l i s " e r a m essenciais, p o r q u e a
c i d a d e era v i s t a c o m o o l u g a r d o p l e n o d e s e n v o l v i m e n t o d o ser
h u m a n o . Pelo m e n o s c o m o i d e a l r e g u l a d o r , o b o m c i d a d ã o
d e v e r i a c o i n c i d i r c o m o h o m e m b o m . Para Santo A g o s t i n h o ,
d e v e m o s obedecer e m p r i m e i r o l u g a r à nossa própria c o n s c i ê n -
cia e, q u a n d o h o u v e r c o n f l i t o entre as leis p o s i t i v a s e as d i t a d a s
i, op. cit., pp. pela r a z ã o , d e v e m o s escolher a r a z ã o ^ .

N ã o d e v e m o s , n o e n t a n t o , ceder à s f a c i l i d a d e s d e u m a i n t e r p r e -
t a ç ã o q u e , p a r t i n d o d a idéia d e s u b m i s s ã o d a política à ética,
t e r m i n a p o r esvaziar o p e n s a m e n t o político a g o s t i n i a n o d e t o d o
s i g n i f i c a d o . O q u e acaba c o m Santo A g o s t i n h o n ã o é n e m a
p r e o c u p a ç ã o c o m os n e g ó c i o s h u m a n o s , n e m a i n t e r a ç ã o d a
ética c o m a política ( a i n d a q u e pensada e m m o l d e s t o t a l m e n t e
d i v e r s o s ) , m a s o i d e a l d a " p o l i s " q u e c o n s i d e r a v a os h o m e n s ,
antes d e t u d o , e n q u a n t o e r a m c i d a d ã o s . A p a r t i r d a descoberta
d a i n t e r i o r i d a d e d a m o r a l , passamos a ser m e m b r o s , e m p r i m e i -
r o l u g a r , d e u m a c o m u n i d a d e r a c i o n a l , q u e se constrói a p a r t i r
d e p r i n c í p i o s d e r i v a d o s d a l e i d i v i n a , expressos pela d i m e n s ã o
prática d a r a z ã o , e n ã o m a i s d e u m a c i d a d e terrestre, c o n t e n d o
t o d a s as d e t e r m i n a ç õ e s d e nossa existência e m c o m u m . A pró-
p r i a s u b m i s s ã o n ã o d e v e ser pensada d e f o r m a m e c â n i c a c o m o
s i g n i f i c a n d o t o t a l p e r d a d e a u t o n o m i a , d a esfera política. Se a
política d e v e ser e s t u d a d a d e m a n e i r a d i f e r e n t e , isso se d e v e ao
f a t o d e q u e nossa p r e s e n ç a n o m u n d o é v i s t a c o m o o r e s u l t a d o
d e u m p e c a d o o r i g i n a l , q u e c o n d i c i o n a t o d a a nossa e x i s t ê n c i a ,
e n ã o s o m e n t e nossa v i d a social.

VL A graça: terceira abordagem


da liberdade
C o m o a c a b a m o s d e v e r , os valores c í v i c o s n ã o s e r v e m m a i s ,
para Santo A g o s t i n h o , c o m o referência f u n d a m e n t a l para nossa
existência. D e v e m o s buscar na c o n s c i ê n c i a e e m sua relação c o m
a v e r d a d e o c a m i n h o para a c o m p r e e n s ã o d e nossa l i b e r d a d e ,
e m b o r a saibamos q u e a r a z ã o n ã o é capaz d e a p o n t a r s e m p r e
c o m absoluta l i m p i d e z o c a m i n h o p a r a a l e i d i v i n a , p o i s , se

Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992 \ 3 4 3 |


a s s i m o fizesse, n ã o m a i s p o d e r í a m o s f a l a r e m l i b e r d a d e da
v o n t a d e . O r a , essas c o n c l u s õ e s n o s m o s t r a m q u e a q u e s t ã o d a
v e r d a d e e d a l i b e r d a d e n ã o p o d e ser i n t e i r a m e n t e e l u c i d a d a
apenas a t r a v é s d o e s t u d o d o s m o d o s d e i n t e r a ç ã o d a v o n t a d e e
da r a z ã o . Para t e n t a r e n c o n t r a r o u t r a v i a para s o l u c i o n a r nosso
p r o b l e m a , v a m o s recorrer à a n á l i s e d o t e x t o d e Santo A g o s t i -
n h o , De Libero Arbitrio.

Santo A g o s t i n h o c o m e ç a se p e r g u n t a n d o se a o r i g e m d o m a l
estaria e m Deus**. Sua resposta n ã o c o m p o r t a n e n h u m a a m b i - 60. SANTO AGOSTINHO, De
Libero Arbitrio, 1, 1, 2. V e r
g ü i d a d e : D e u s n ã o está na o r i g e m d o m a l , p o i s Ele é b o m p o r
M. Hui-TiEK, "Libre arbitre,
essência. A t r i b u i r - l h e a p a t e r n i d a d e d o m a l seria n e g a r - l h e a liberte el peché chez Saint
própria d i v i n d a d e . D e v e m o s , p o r t a n t o , v o l t a r - n o s p a r a os h o - Augustin", in Rechercbes de
Théotogie ancienne et médie-
m e n s e buscar na p a r t i c u l a r i d a d e d e seus atos a causa da m a l - vale. 33, 1%3, pp, 187-281,
dade. A p r i m e i r a hipótese que podemos avançar é que o m a l é
a l g o q u e os h o m e n s a p r e n d e m ao v i r ao m u n d o c o m o pecado-
res. M a s Santo A g o s t i n h o n ã o aceita a f a c i l i d a d e desta p r i m e i r a
f o r m u l a ç ã o e a descarta d e m a n e i r a elegante: " O r a , se ensina-
m o s o m a l , e n s i n a m o s a evitá-lo e n ã o a fazê-lo, e p o r conse-
g u i n t e , q u a n d o a g i m o s m a l estamos n o s d i s t a n c i a n d o d a v i a d o
aprendizado"*"'. 61. Idem, ibidem, I, 2, 4,

É p r e c i s o r e c o r r e r à s f o r m a s concretas d o m a l , p a r a t e n t a r a p r e -
e n d e r sua o r i g e m . Santo A g o s t i n h o cita o caso d o adultério:
" U m e x e m p l o p a r a fazer-te c o m p r e e n d e r q u e é a p a i x ã o q u e é
o m a l no adultério: u m h o m e m que não encontrou u m a manei-
ra d e d o r m i r c o m a m u l h e r d e o u t r o , mas q u e sabemos, de
m a n e i r a p e r t i n e n t e , d e u m j e i t o o u d e o u t r o , q u e o deseja e q u e
o faria se tivesse o p o r t u n i d a d e , esse h o m e m n ã o é m e n o s c u l -
p a d o d o q u e se fosse a p a n h a d o e m f l a g r a n t e delito"'"^. D o e x e m - 62. Idem, ibidem, I, 3, 8.

plo utilizado, fxxiemos depreender que o m a l é u m fenômeno


q u e d i z respeito ao e x e r c í c i o da v o n t a d e , e cuja f o n t e d e v e ser
buscada na v i d a i n t e r i o r — o q u e n a d a m a i s faz d o q u e r e a f i r -
m a r a p r e p o n d e r â n c i a da i n t e n ç ã o sobre o ato. M a s , se sabemos
q u e é n o i n t e r i o r d o p r ó p r i o h o m e m q u e se e n c o n t r a a r a i z , n ã o
podemos d e d u z i r d o problema d o adultério que a paixão é a
o r i g e m d o m a l . Se n o caso c i t a d o , ela parece ser o m o t o r , c o n h e -
cemos s u f i c i e n t e m e n t e o a m o r p a r a saber q u e a p a i x ã o p o s s u i
t a m b é m f o r m a s p o s i t i v a s , e q u e seria u m e r r o i m p u t a r - l h e t o -
das as nossas faltas m o r a i s .

A c o n s e q ü ê n c i a desse p r i m e i r o m o v i m e n t o d o t e x t o é q u e Santo
A g o s t i n h o passa a e x a m i n a r c o m c u i d a d o as d i v e r s a s f a c u l d a -
des da a l m a p a r a a l c a n ç a r seu o b j e t i v o . Ele c o m e ç a pela r a z ã o ,
f a c u l d a d e s u p r e m a . " É , p o i s , q u a n d o a r a z ã o d o m i n a os m o v i -
m e n t o s da a l m a q u e p o d e m o s d i z e r q u e a o r d e m reina n o h o -
m e m , porque não podemos falar de o r d e m regular, n e m m e s m o

|344 I Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58. 1992


d e o r d e m s i m p l e s , q u a n d o as r e a l i d a d e s m e l h o r e s e s t ã o s u b m e -
t i d a s às r e a l i d a d e s inferiores"**^. S e n d o a s s i m , fazer d a p a i x ã o a
o r i g e m d o m a l é reconhecer q u e u m a força i n f e r i o r p o d e g o v e r -
n a r u m a força s u p e r i o r . Se é certo q u e a p a i x ã o c o n t r i b u i para
o a p a r e c i m e n t o d e certos males, é na força a q u a l está s u b m e -
t i d a q u e d e v e m o s p r o c u r a r a causa. Santo A g o s t i n h o c o n c l u i :
" U m a v e z q u e t u d o o q u e é s u p e r i o r o u i g u a l ao e s p í r i t o —
m e s t r e d e si m e s m o e d o t a d o d e v i r t u d e — n ã o pode torná-lo
escravo da p a i x ã o p o r causa d a justiça, e q u e t u d o o q u e l h e é
i n f e r i o r n ã o p o d e fazê-lo p o r n ã o p o s s u i r força s u f i c i e n t e , c o m o
a c a b a m o s d e v e r , d e d u z i m o s q u e a única coisa capaz d e t o m a r
o espírito s e r v o d o desejo é a v o n t a d e p r ó p r i a e o livre-arbí-
trio"*^.

U m a c o n c l u s ã o se i m p õ e : o livre-arbítrio é a o r i g e m d e nossos
pecados. O h o m e m recebeu d e Deus essa f a c u l d a d e e p o r sua
causa f o i e x p u l s o d o p a r a í s o . M a s Santo A g o s t i n h o m o s t r a q u e
a v o n t a d e t e m t a m b é m e m suas m ã o s as chaves d e nossa f e l i -
c i d a d e . Para ele, o h o m e m f e l i z é o q u e a m a a " v o n t a d e boa"**,
q u e n ã o é m a i s d o q u e o desejo d e v i v e r c o r r e t a m e n t e c o m
honestidade**. "Segue-se d a í q u e a l g u é m d e s e j a n d o v i v e r c o r r e -
t a m e n t e , a s p i r a n d o a isso m a i s d o q u e aos bens f u g i d i o s , p o d e
a d q u i r i r esse b e m c o m t a l f a c i l i d a d e q u e p o d e m o s d i z e r q u e
possuí-lo n ã o é nada m a i s d o q u e querê-lo"**^. M a s se Santo
A g o s t i n h o a f i r m a q u e o h o m e m deseja antes d e t u d o a f e l i c i d a -
de**, se acabamos d e v e r q u e ela é acessível a t o d o s , o m a l é
i n c o m p r e e n s í v e l . Se t o d o s p o d e m a t i n g i r o b e m , p o r q u e a l g u n s
i n s i s t e m e m p e r m a n e c e r n o erro? N o s s o a u t o r reconhece q u e
p o r vezes os h o m e n s desejam a f e l i c i d a d e e o b e m , mas n ã o s ã o
capazes d e a l c a n ç á - l o s . Eles t ê m a v o n t a d e c o n s t i t u í d a d e t a l
m a n e i r a q u e , m e s m o c o n t r a seu i m p u l s o e m d i r e ç ã o ao m a i s
p e r f e i t o , a i n f e l i c i d a d e acaba v e n c e n d o . Isso c o n d u z - n o s a f o r -
m u l a r d u a s q u e s t õ e s . E m p r i m e i r o l u g a r , p o r q u e Deus d e u aos
h o m e n s o livre-arbítrio, u m a v e z q u e sem ele n ã o p o d e r i a m o s
pecar? E m s e g u n d o l u g a r , existe u m a d i s p o s i ç ã o da v o n t a d e
favorável à f e l i c i d a d e , a s s i m c o m o existe u m a f a v o r á v e l à i n f e -
licidade?

Santo A g o s t i n h o r e s p o n d e a p r i m e i r a p e r g u n t a d e m a n e i r a d i -
reta: " D e fato, se o h o m e m é u m certo b e m , e se ele n ã o p o d e
a g i r b e m s e n ã o q u a n d o o q u e r , é preciso q u e sua v o n t a d e seja
l i v r e , p o i s s e n ã o ele t a m b é m n ã o p o d e r i a a g i r c o r r e t a m e n t e .
N ã o é p o r q u e ela dá o r i g e m ao pecado q u e d e v e m o s a c r e d i t a r
q u e D e u s n o - l a tenha d a d o p a r a isso. Eis u m a r a z ã o p>ela q u a l
ela d e v e ser-nos o f e r t a d a : sem ela o h o m e m n ã o p o d e a g i r
r e t a m e n t e " ^ . T o d a a a r g u m e n t a ç ã o visa p r o v a r q u e a v o n t a d e
l i v r e é u m presente d a b o n d a d e d i v i n a . O pecado, p o r seu l a d o .

Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992 \ 345


d e v e ser e n t e n d i d o c o m o u m a a u s ê n c i a d e ser, u m e r r o d a
v o n t a d e , q u e n ã o p o s s u i e s s ê n c i a a ser definida™. Nesse s e n t i d o 70. Idem, ibidem, II, 20, 54.
a v o n t a d e deseja apenas o b e m se o faz d e f o r m a i m p e r f e i t a , a
falta acontece.

Para r e s p o n d e r à s e g u n d a q u e s t ã o . Santo A g o s t i n h o r e c o r r e a
u m a f o r m u l a ç ã o q u e o c u p a r i a u m l u g a r d e destaque e m t o d o o
p e n s a m e n t o cristão. Ele r e s p o n d e d e f o r m a a f i r m a t i v a à f)er-
g u n t a m o s t r a n d o q u e existe u m a v o n t a d e q u e é s e m p r e capaz
d e v i s a r ao B e m e d e a t i n g i - l o . A esse estado d a a l m a o Bispo
de H i p o n a c h a m a d e graça. T a l c o m o ele a concebeu, ela é u m
presente d e D e u s , q u e d a n d o aos e s c o l h i d o s a p o s s i b i l i d a d e d e
c u m p r i r s e m p r e a lei d i v i n a , p e r m i t e - l h e s a l c a n ç a r a s a l v a ç ã o . O
q u e há d e e x t r a o r d i n á r i o na g r a ç a é q u e n ã o p o d e m o s saber p o r
q u e D e u s a concede a a l g u n s e n ã o a o u t r o s . Essa p o l ê m i c a
d o m i n o u m u i t a s das c o n t r o v é r s i a s e m t o m o d e sua n a t u r e z a ,
mas Santo A g o s t i n h o n u n c a h e s i t o u e m a f i r m a r seu c a r á t e r
g r a t u i t o . Para ele parecia n ã o h a v e r d ú v i d a d e q u e a g r a ç a é o
r e f l e x o d a v o n t a d e d i v i n a , q u e é t o t a l m e n t e i m p e n e t r á v e l ao
e n t e n d i m e n t o h u m a n o . A q u e l e q u e é e s c o l h i d o passa a ter u m
acesso d i r e t o à lei e, p o r t a n t o , n ã o p o d e fazer nada a l é m d e a ela
obedecer. A c o n s c i ê n c i a , d i a n t e da v e r d a d e , conhece apenas u m
caminho: o da submissão.

D i a n t e dessa o b r i g a ç ã o , p o d e m o s nos p e r g u n t a r o q u e resta da


l i b e r d a d e . U m a v o n t a d e c o n s t r a n g i d a a escolher o Bem p o d e
a i n d a ser c o n s i d e r a d a l i v r e ? A v e r d a d e i r a r e v i r a v o l t a q u e a
p r o b l e m á t i c a da g r a ç a o p e r a n o t e x t o a g o s t i n i a n o está e m q u e
ele a f i r m a q u e a graça é a v e r d a d e i r a l i b e r d a d e . " N ã o existe
l i b e r d a d e a u t ê n t i c a s e n ã o para os h o m e n s felizes q u e se u n e m
à l e i eterna, e n ã o para os q u e se a c r e d i t a m l i v r e s apenas p o r
n ã o p o s s u i r u m senhor h u m a n o " ' ' ' . A g i n d o sobre a v o n t a d e , a 71. Idem, ibidem, l, 15, 32.
g r a ç a confere l i b e r d a d e ao livre-arbítrio, r e a l i z a n d o - o p l e n a m e n -
te. Para esclarecer u m p o u c o a c o n f u s ã o q u e essa a f i r m a ç ã o
p o d e ter causado, G i l s o n nos sugere q u e p r e s t e m o s a t e n ç ã o à
d i s t i n ç ã o entre a l i b e r d a d e {libertas) e o livre-arbítrio {liberum
arbitrium)^. A Hberdade é o estado d o q u e f o i " l i b e r a t u s " , q u e 72. E. GiiJiON, Mroduction à
recebeu a c o n f i r m a ç ã o d a v o n t a d e n o Bem, pela g r a ç a . O l i v r e - fétude de Saint Augustin, p.
212. Ver M. BHTKAN, "San
-arbítrio é s i m p l e s m e n t e a c a p a c i d a d e d e escolher e, p o r t a n t o , Aguslin; 1^ nixividad mo-
d e pecar. P o d e m o s t a l v e z d i z e r q u e ele é u m a f o r m a i n f e r i o r da ral dei 'liberum arbitrium'
en 'homo Lapsus'" in R m s -
Uberdade, a q u e se revela apenas na v o n t a d e , m a s n ã o na graça.
la Agustiniana, 98,1991, pp,
O h o m e m e s c o l h i d o p o r Deus é, nessa ótica, o ú n i c o v e r d a d e i - 579-594.
ramente livre.

Somos levados, assim, a formulações ainda mais radicais d o


q u e q u a n d o a f i r m á v a m o s o c a r á t e r i n t e r i o r d a l i b e r d a d e . Se já
s a b í a m o s q u e ela p o u c o t i n h a g u a r d a d o d e seu s e n t i d o político

346 Síntese Nova Fase. v. 19, n. 68. 1992


o r i g i n a l , c o m a p r o b l e m á t i c a d a g r a ç a , ela se d i s t a n c i a até mes-
m o d o m u n d o c o r r i q u e i r o d o s h o m e n s . N a escala d o s valores
cristãos, os q u e s ã o associados à v i d a pública n ã o têm p r a t i c a -
m e n t e n e n h u m a i m p o r t â n c i a , u m a vez q u e e m quase nada c o n -
t r i b u e m para a s a l v a ç ã o . M a s se o h o m e m , p o r p o s s u i r o l i v r e -
-arbítrio, está c o n d e n a d o a pecar, t a m b é m está c o n d e n a d o a
a g i r na c i d a d e , p o i s m e s m o os s á b i o s d e v e m h a b i t a r nosso
m u n d o imperfeito. O espaço público é o extremo oposto da
g r a ç a , mas é u m a d e suas c o n d i ç õ e s , p o r q u e os escolhidos p o r
D e u s s ã o o b r i g a d o s a buscar a paz e a g o z a r o B e m n o t e m p o
d o s o u t r o s h o m e n s . A o p e n s a m e n t o c r i s t ã o n ã o escapou a ne-
cessidade d e repensar a política a p a r t i r d o s n o v o s p a r â m e t r o s
q u e suas descobertas i m p u n h a m .

Vil, Teologia e política

o a c o n t e c i m e n t o q u e d e u o r i g e m à política f o i o pecado. D e p o i s
d a q u e d a , os h o m e n s p e r d e r a m t o d o s os privilégios e passaram
a e n f r e n t a r o m u n d o h o s t i l c o m as a r m a s q u e p o s s u í a m . A
política representava, nesse c o n t e x t o , a esfera da c o n t i n g ê n c i a
d e n t r o d a q u a l devia-se buscar a s a l v a ç ã o . Se ela n ã o p o d e ofe-
recer-nos o c a m i n h o para a v i d a p e r f e i t a , nossa n a t u r e z a peca-
d o r a t a m b é m n ã o nos p e r m i t e s o n h a r c o m u m a v i a n ã o m a r c a d a
pela c o n f u s ã o da v i d a e m c o m u m d e seres d e c a í d o s .

S i m p l i f i c a n d o u m p o u c o , era a s s i m q u e os p r i m e i r o s cristãos
e n x e r g a v a m a c i d a d e d o s h o m e n s e p o r isso se n e g a v a m m u i t a s
vezes, c o m o o p r ó p r i o C r i s t o , a obedecer a certas leis p o s i t i v a s ,
73. Ver: H, A, DEANE, The q u e os i m p e d i a m d e a d o r a r a Deus^^. N ã o é difícil v e r que e m
political and sucial ideas of
seus p r i m e i r o s t e m p o s o c r i s t i a n i s m o t i n h a d a política u m a v i -
wint Augustine, New York,
Columbia University Press, s ã o n e g a t i v a e concebia o Estado c o m o u m i n s t r u m e n t o repres-
1963, p. 7. s i v o , prt>duto da própria s i t u a ç ã o d o s h o m e n s .

Q u a n d o Santo A g o s t i n h o c o m e ç o u a escrever, a Igreja estava


pela p r i m e i r a vez d i a n t e da q u e s t ã o c r u c i a l d o p o d e r t e m p o r a l .
O Bispo d e H i p o n a m a n t e v e de certa f o r m a a visão n e g a t i v a d o
Estado, mas percebeu q u e as f ó r m u l a s a n t e r i o r e s d e recusa d a
v i d a política n ã o e r a m a d e q u a d a s a u m a s i t u a ç ã o na q u a l a
Igreja c o m e ç a v a a ser i n t e g r a d a na esfera da v i d a pública. Sem
a b a n d o n a r i n t e i r a m e n t e suas concef>ções anteriores. Santo A g o s -
t i n h o se l a n ç o u à tarefa d e e l u c i d a r o p a p e l q u e as e s t r u t u r a s
t e m p o r a i s p o d e r i a m ter na v i a d a salvação. Rigorosamente f a l a n -

Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58. 1992 \ 347


d o , ele n ã o p r o c u r o u e l a b o r a r u m a t e o r i a política à m o d a d o s
a n t i g o s , m a s u m a t e o l o g i a política q u e , p a r t i n d o d e conceitos
teológicos, desse conta d o desafio ao q u a l estava c o n f r o n t a d o o
p e n s a m e n t o cristão. Para s e g u i r - l h e os passos é preciso, p o i s ,
estudar a l g u m a s d e suas n o ç õ e s f u n d a m e n t a i s .

O p r i m e i r o p r o b l e m a q u e s u r g e é o d a criação^'*. O u n i v e r s o 74. Idem, ibidem, p. 14.

i n t e i r o é o b r a d i v i n a e p o r isso terá u m f i m , a s s i m c o m o teve


u m c o m e ç o . A história é a d e s c r i ç ã o desse i n t e r v a l o d u r a n t e o
q u a l os h o m e n s h a b i t a r ã o sobre a T e r r a . Se a c r i a ç ã o d i v i n a ,
feita a p a r t i r d o n a d a , é boa p o r n a t u r e z a , c o n t é m t a m b é m o
g e r m e d e sua t r a n s f o r m a ç ã o , p o i s , c o n t r a r i a m e n t e às coisas d i -
v i n a s , o m u n d o h u m a n o , p o r causa m e s m o d e sua i n f e r i o r i d a -
de, n ã o é capaz d e m a n t e r - s e i n a l t e r a d o . N ã o d e v e m o s c o n c l u i r
daí q u e a história seja u m a m o n t o a d o a m o r f o d e a c o n t e c i m e n -
tos. N o m e i o d o t u r b i l h ã o d e fatos que d o m i n a m nossa v i d a ,
a l g u n s s ã o d e alta s i g n i f i c a ç ã o , c o m o o n a s c i m e n t o d o C r i s t o ,
q u e s e r v i u d e baliza para o t e m p o h u m a n o . D e q u a l q u e r m a n e i -
ra, o i n t e r v a l o d a história d e v e ser e n t e n d i d o l e v a n d o - s e e m
c o n s i d e r a ç ã o q u e o h o m e m se e n c o n t r a nessa s i t u a ç ã o p o r c u l p a
exclusiva d e sua p r ó p r i a l i b e r d a d e . P o d e m o s r e s u m i r , a s s i m , o
p o n t o d e p a r t i d a d e t o d a t e o l o g i a política na referência ao pe-
c a d o e ao m a l , e n t e n d i d o p o r Santo A g o s t i n h o c o m o p r i v a ç ã o
d o Bem, e não como u m a essência desdobrada no t e m p o " . 75, "Sin is man's refusal to
accept his status as a crea-
turc, superior to ali earthly
A primeira conseqüência da queda foi a perda da liberdade creatures but subordinate Io
o r i g i n a l , q u e antes d o pecado era idêntica para t o d o s e seme- G o d " , Idem, ibidem, p, 16,

lhante à graça. C o m a queda, a liberdade h u m a n a tomou-se


76. " A I l we know is lhere is
i m p e r f e i t a e só p o d e ser r e a d q u i r i d a p o r i n t e r v e n ç ã o divina^^. E no injustice with God, and
preciso o b s e r v a r , n o e n t a n t o , q u e o q u e f o i t r a n s f o r m a d o c o m o the eleclion of some men Io
salvation is a purely gratui-
pecado f o i a l i b e r d a d e (libertas) e n ã o a v o n t a d e q u e , s e g u n d o tous act, which is not the
Santo A g o s t i n h o , p e r m a n e c e u i n t o c a d a . A l g u n s intérpretes p r e - consequence of their good
deeds or even of God's fore-
f e r i r a m pensar q u e se a v o n t a d e f o i p r e s e r v a d a , ela n ã o o f o i e m knowledgt' of such deeds.
sua boa f o r m a . A s s i m c o n c l u i Deane a f i r m a n d o q u e , m e s m o In fact, their merits are lhe
resull ralher than the cause
q u a n d o o h o m e m deseja o b e m , ele n ã o é capaz d e a l c a n ç á - l o ^ .
of the grace that have re-
" A g o s t i n h o assegura q u e t u d o o q u e o h o m e m d e c a í d o faz p o r ceived". Idem, ibidem, p,
conta p r ó p r i a , o u c o m seus poderes, é c h e i o d e pecado e e r r a - 21,

77. Idem, ibidem. p, 25.

78, Idem, ibidem, p. 26.


M e s m o se e m sua r a d i c a l i d a d e essa tese nos parece c o n t e s t á v e l ,
ela nos p e r m i t e chegar a c o n c l u s õ e s interessantes. O m u n d o da
política s e n d o o da q u e d a , t o d a l i b e r d a d e q u e nele e x i s t i r será
i m p e r f e i t a , seja p o r q u e a política é u m p r o d u t o d o p e c a d o , seja
p o r q u e existe s o m e n t e n u m m u n d o m a r c a d o pela q u e d a . Nesse
c o n t e x t o , p o d e m o s d e d u z i r q u e o i n v e r s o d o h o m e m político é
o santo, capaz d e conhecer a v e r d a d e e d e segui-la. O r a , s e n d o
a graça a capacidade de agir e m plena Uberdade e d e acordo

348 Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


c o m a v e r d a d e , ela é o passaporte p a r a a i n d e p e n d ê n c i a e m
r e l a ç ã o às sociedades h u m a n a s . Isso nos leva a pensar q u e a
l i b e r d a d e é n ã o s o m e n t e n ã o política, mas p e r m i t e a libertação
d o h o m e m das trevas da v i d a social. Santo A g o s t i n h o , n o en-
t a n t o , percebeu o e q u í v o c o dessas c o n c l u s õ e s , q u e p o d e r i a m ser
d e d u z i d a s d e seu p e n s a m e n t o e a f i r m o u : "... q u e a v i d a d o
s á b i o seja u m a v i d a social, c o m o eles o q u e r e m , n ó s o a p r o v a -
79. SANTO AGOSTINHO, De m o s e b e m m a i s d o q u e eles"^. C o m ísso, ele q u e r i a m o s t r a r
Civitaie Dei. XIX, 5, a i n d a q u e o s á b i o alcance a v i r t u d e p e r f e i t a , n a d a p o d e r á
retirá-lo d o m u n d o d o s h o m e n s . Para q u e a g r a ç a seja r e a l , é
preciso q u e seja desse m u n d o e manifeste-se e m seres que co-
n h e c e m as a g r u r a s d e u m a v i d a d e c a í d a . D e a l g u m a m a n e i r a ,
p o r t a n t o , a g r a ç a exige a política, p o i s só d i z respeito aos h o -
m e n s d e carne e osso, q u e n ã o p o d e r ã o excluir-se i n t e i r a m e n t e
d o c o n v í v i o d o s o u t r o s h o m e n s , e n ã o p o d e r ã o v i v e r sem o
c o n c u r s o das leis h u m a n a s .

T e n t a r , p o r t a n t o , fazer d a l i b e r d a d e u m conceito s e m n e n h u m a
i m p o r t â n c i a p a r a a política é desconhecer a r i q u e z a d o pensa-
m e n t o a g o s t i n i a n o . Se o b s e r v a r m o s , p>or e x e m p l o , a c i t a ç ã o se-
g u i n t e , v e r e m o s q u e n ã o só ela é u m conceito político, mas
p o d e ter c o n o t a ç õ e s p o s i t i v a s . " N a q u e l e t e m p o — d i z nosso
a u t o r , r e f e r i n d o - s e a R o m a — a g r a n d e z a estava e m m o r r e r
corajosamente, o u v i v e r l i v r e m e n t e . M a s , q u a n d o a l i b e r d a d e
f o i c o n q u i s t a d a , u m a p a i x ã o a r d e n t e pela glória os i n v a d i u a t a l
p o n t o q u e eles c o n s i d e r a r a m a l i b e r d a d e i n s u f i c i e n t e s e m a c o m -
80 Tdem, ibidem, V, 12. p a n h i a da d o m i n a ç ã o " * ' . É c l a r o q u e ao d a r u m a c o n o t a ç ã o p o -
sitiva p a r a a l i b e r d a d e d o s r o m a n o s . Santo A g o s t i n h o n ã o esta-
va m u d a n d o o c o n t e ú d o de suas a f i r m a ç õ e s sobre a g r a ç a , mas
c r i a n d o as c o n d i ç õ e s p a r a q u e as q u e s t õ e s m o r a i s p u d e s s e m ser
tratadas n ã o só na esfera d o s i n d i v í d u o s , mas t a m b é m d a socie-
d a d e . Isso m o s t r a q u e i n t e r p r e t a ç õ e s c o m o a d e Deane c o n t r i -
b u e m m u i t a s vezes para obscurecer o p e n s a m e n t o a g o s t i n i a n o ,
sem esclarecer o n e x o p r o f u n d o d e seus conceitos.

Q u e p r o b l e m a s essa a b e r t u r a d o p e n s a m e n t o d e Santo A g o s -
t i n h o p e r m i t e - n o s tratar? E m p r i m e i r o l u g a r , d e v e m o s a b o r d a r
a q u e s t ã o d a v i d a m o r a l m e n t e correta na c i d a d e . Se n ã o p o d e -
m o s d e i x a r d e v i v e r e m sociedade, será q u e e x i s t e m valores
sociais c o m p a t í v e i s c o m as e x i g ê n c i a s da fé cristã? Para r e s p o n -
d e r a essa q u e s t ã o , d e v e m o s l e m b r a r q u e o c r i s t i a n i s m o c o n s i -
d e r a o h o m e m u m ser capaz d e a m a r os o u t r o s e a seu c r i a d o r .
Essa p o s s i b i l i d a d e i n d i c a q u e , sem f e r i r nossa l i b e r d a d e , s o m o s
capazes d e obedecer à l e i m o r a l e a t i n g i r a v i r t u d e . M a s nosso
a m o r d e v e escolher seu objeto p a r a se m a n i f e s t a r . Para seguir
o c a m i n h o d a v i r t u d e deve-se a m a r a D e u s antes d e a m a r
os v a l o r e s q u e os a n t i g o s c o n s i d e r a v a m f u n d a m e n t a i s para a

Síntese Nova Fase, v. 19. n. 58. 1992 349


cidade"'. Santo A g o s t i n h o escolhe, assim, o t e r r e n o da p r ó p r i a 81. "We have already seen
that Augustine foilows this
f i l o s o f i a grega p a r a m a r c a r a d i f e r e n ç a e r e s p o n d e r a nossa C h r i s l i a n view when he
q u e s t ã o . D i z ele: " A v i r t u d e , p o i s , e n ã o u m a a m b i ç ã o engana- insists that lhe patriotism.
d o r a , eis o m e i o honesto de se a l c a n ç a r a h o n r a , a glória, o self sacrifice, and devotion
Io lhe common gtxxi shown
p t M i e r , q u e s ã o os o b j e t i v o s c o m u n s d o h o m e m d e b e m e d o
c o v a r d e . M a s (.) p r i m e i r o , o h o m e m d e b e m , se esforça p a r a man Repubhc were not true
s e g u i r o c a m i n h o d i r e i t o . O c a m i n h o é a v i r t u d e e p o r ela ele virlues, allhough they can
bc descritvd as 'civic vir-
a v a n ç a p a r a a t i n g i r seu o b j e t i v o q u e é d e o b t e r a glória, a h o n r a tues' which compared to vi-
e o poder"*". ces of the olher men, were
at least relatively g(x>d". H,
A , D E A N E , op. cit, p. 80.
Para c o m p r e e n d e r as p a l a v r a s de Santo A g o s t i n h o é p r e c i s o
l e m b r a r q u e seus ataques s ã o m u i t a s vezes d i r i g i d o s c o n t r a 82. SANTO AGOSTINHO, De
Civilale Dei, V , 12.
Cícero, para q u e m a v i r t u d e é o " h o n e s t u m " , a vida e m confor-
m i d a d e c o m os v a l o r e s da cidade"^. N o s s o a u t o r a p r o v e i t a a
83, CítEKí), De finibtif Bo
f o r m u l a ç ã o c i c e r o n i a n a , para chegar a c o n c l u s õ e s t o t a l m e n t e norum et Matorum, II, 14,45.
diferentes. A p r i m e i r a , e q u e m u d a r a d i c a l m e n t e o s e n t i d o d a
v i d a m o r a l , a d v é m d o fato d e q u e e m sua busca d e u m a v i d a
m o r a l p e r f e i t a , o h o m e m t e m Deus c o m o referência e n ã o m a i s
a c i d a d e " . B u s c a n d o valores q u e s e r ã o r e c o n h e c i d o s fora d a
84. Para uma visão de con-
c i d a d e , a i n d a q u e suas a ç õ e s se d e s e n r o l e m d e n t r o de seus l i - junto ver: SANTO TOMAS DE
m i t e s , o h o m e m b o m terá sua própria c o n s c i ê n c i a c o m o j u i z . AQUINO, Summa Theologiae,
lia Ilae, 145, 2.
" M a i s v a l e a v i r t u d e q u e se c o n t e n t a n ã o c o m u m a t e s t e m u n h a
h u m a n a , mas c o m a c o n s c i ê n c i a " — d i z i a Santo Agostinho**"^. A
glória, q u e p a r a os r o m a n o s era o o b j e t i v o m a i o r d e nossas
a ç õ e s , t r a n s f o r m a - s e n u m v í c i o a ser e v i t a d o . " É m e l h o r , p o i s , 85, SANTO AGOSTINHO, op, cit,
V, 12.
r e s i s t i r a essa p a i x ã o d o q u e c e d e r a e l a , p o r q u e c a d a u m
é mais s e m e l h a n t e a Deus q u a n t o m a i s l i v r e está dessa
impureza"*^.
86. Idem, ibidem, V, 14,

A r u p t u r a q u e acabamos d e m o s t r a r c o m o p e n s a m e n t o a n t i g o
n ã o q u e r d i z e r q u e Santo A g o s t i n h o tenha s i d o i n s e n s í v e l à
jxilítica. A sua m a n e i r a , ele c o n s i d e r a v a q u e os a n t i g o s s e r v i a m
d e e x e m p l o para os cristãos. "Se n ã o p r a t i c a m o s para a g l o r i o s a
c i d a d e d e Deus as v i r t u d e s q u e p r a t i c a r a m os r o m a n o s d e for-
m a s i m i l a r para a glória da c i d a d e da terra, d e v e m o s s e n t i r
vergonha""*^. A c o m p r e e n s ã o d o s e n t i d o exato desse g ê n e r o d e 87, Idem, ibidem, V, 18,
a f i r m a ç ã o d e p e n d e d e u m a análise m a i s d e t a l h a d a d o c o n t e x t o
n o q u a l ela f o i feita. D e q u a l q u e r m a n e i r a , fica c l a r o q u e a s i m -
ples e x c l u s ã o da política n ã o resolve os p r o b l e m a s q u e o p r ó -
p r i o a u t o r suscita. Se seu p e n s a m e n t o p r o g r i d e p o r v i a s s i n u o -
sas, n ã o p e r d e jamais a referência c e n t r a l : Deus. É e m seu c a r á -
ter t e o c è n t r i c o q u e d e v e m o s buscar a s o l u ç ã o p a r a m u i t a s d e
suas d i f i c u l d a d e s .

R e t o r n a n d o à q u e s t ã o d a m o r a l , d e v e m o s estar atentos p a r a o
fato d e q u e Santo A g o s t i n h o , s e g u i n d o S ã o P a u l o , a c r e d i t a v a na

350 I Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


existência d e u m a l e i n a t u r a l d a c o n s c i ê n c i a , i n s c r i t a e m nosso
c o r a ç ã o , e capaz d e nos g u i a r c m d i r e ç ã o a p r i n c í p i o s m o r a i s
s ó l i d o s . Essa l e i é bastante s i m p l e s e p o d e ser r e s u m i d a n o
p r i n c í p i o d e q u e n ã o d e v e m o s fazer aos o u t r o s o q u e n ã o dese-
j a r í a m o s q u e nos fizessem. A eficácia dessa l e i está e m q u e ela
é a n t e r i o r aos dez m a n d a m e n t o s e p o d e ser descoberta c o m a
88. S A N T O AGOSTÍNHO, Epist.
ajuda d a r a z ã o ^ . Isso s i g n i f i c a q u e m e s m o o p e c a d o r p o d e des-
C L V I I , 15.
c o b r i r a l e i e, a g i n d o d e a c o r d o c o m ela, estar e m c o m u n h ã o
89. S A N T O A G O S T I N H O , De c o m a l g u n s p r i n c í p i o s d i v i n o s * " . Para Santo A g o s t i n h o , esse é o
Trinitate, X V , 21. p o n t o q u e liga sua d o u t r i n a m o r a l à sua teoria d o c o n h e c i m e n -
to, p o i s fica p r o v a d o q u e a v i d a m o r a l t e m as m e s m a s p o s s i b i -
l i d a d e s q u e as c i ê n c i a s , u m a v e z q u e t a m b é m nela p o d e m o s
90. SANTO A G O S H N H O , G J H - recorrer à r a z ã o para d e s c o b r i r a l g u n s aspectos d a verdade**".
tra EauMum, XXIl, 27,

N o p l a n o m a i s i m e d i a t a m e n t e político, p o d e m o s d e d u z i r q u e a
m o r a l p o d e trazer c o n t r i b u i ç õ e s bastante práticas para nossa
v i d a e m c o m u m . E m p r i m e i r o l u g a r , ela nos a u t o r i z a a pensar
q u e as leis h u m a n a s p o d e m r e s u l t a r d o e x e r c í c i o d a r a z ã o , e n ã o
91. Ver: C . BOVHH, Uidée de s i m p l e s m e n t e d o acaso o u d a necessidade**'. E m s e g u n d o l u g a r ,
vérité dans Ia philosophie de
p a r a r e a l i z a r esse-acordo e n t r e a r a z ã o e as leis p o s i t i v a s , é
Sainl Augustin, Paris, G .
Beauchesne, 1921. possível i m a g i n a r u m l e g i s l a d o r q u e , f a z e n d o u s o d e suas f a c u l -
d a d e s n a t u r a i s , a p r o x i m e a l e g i s l a ç ã o h u m a n a das leis divinas**^.
92. SANTO AGOSTINHO, De
Vera Religione. XXXI, 58. C o m b é s c o n s i d e r a q u e s o m e n t e as leis p r o m u l g a d a s p o r esse
l e g i s l a d o r s ã o válidas, s e n d o todas as o u t r a s o m e r o r e f l e x o d o
93. G. CoMBÉs, La doclrine
pecado'*\ D e nossa p a r t e , a c r e d i t a m o s , c o m Deane, q u e Santo
fmlitique de saint Augustin,
Paris, Librairie Pkm, 1927. A g o s t i n h o n ã o teria f e i t o t o d o esse p e r c u r s o p a r a m o s t r a r q u e
a única l e i v e r d a d e i r a é a d i v i n a * * . Se ele recorre a S ã o P a u l o e
94. "In othfrs words, God's
law, the basic principies of ao e s t u d o das p o s s i b i l i d a d e s da c o n s c i ê n c i a , a nosso v e r , é p a r a
moralily and justice, is elcr- m o s t r a r a u t i l i d a d e d e u m a política g o v e r n a d a p o r certos p r i n - °
nal and unchanging, but the
specific, detailed customs
cípios m o r a i s , a i n d a q u e l i m i t a d o s .
and positive laws that go-
vern men's rclalionships Para e n t e n d e r o q u e acabamos d e d i z e r , basta l e m b r a r a idéia
may differ from time to ti-
me and from place to place
q u e o Bispo d e H i p o n a t i n h a d a c o n d i ç ã o h u m a n a : " S u p r i m i d a
in a c c o r d a n c e w i t h c i r - a justiça, o q u e s ã o os r e i n o s s e n ã o a r e u n i ã o d e b a n d o s d e
cumstances and needs, and
criminosos? Pois, os b a n d o s n ã o s ã o p e q u e n o s reinos? N ã o se
these different laws or cus-
toms, may ali conform to trata d e u m g r u p o d e h o m e n s sob o c o m a n d o d e u m chefe,
what is rigth and just", H , l i g a d o s p o r u m p a c t o social e d i v i d i n d o o b u t i m d e a c o r d o c o m
A , D t A N h , op. cit, p. 9 1 ,
a lei aceita p o r todos? Se essa p r a g a crescer c o m a afluência d e
vários m a l f e i t o r e s ao p o n t o d e o c u p a r l u g a r e s , d e estabelecer
postos, d e o c u p a r c i d a d e s e d e s u b j u g a r p o v o s , ela se d a r á
a b e r t a m e n t e o título d e r e i n o , título q u e lhe será c o n c e d i d o aos
o l h o s d e t o d o s n ã o pela r e n ú n c i a da c u p i d e z , mas pela g a r a n t i a
95, SANTO AGOSTINHO, De da i m p u n i d a d e " ^ ^ O r a , t a l g r u p a m e n t o d e h o m e n s t e m neces-
Civitate Dei, I V , 4 . s i d a d e d e p e l o m e n o s u m p o u c o d e justiça para p o d e r s o b r e v i -
ver. O h o m e m , d e p o i s d a q u e d a , se encontra e m u m estado
semelhante a o d e s c r i t o p o r H o b b e s r e f e r i n d o - s e a o estado d e
n a t u r e z a . N a d a o i m p e d e d e m a t a r seus semelhantes, n e m d e

Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992 \ 351


desejar t u d o o q u e os o u t r o s p o s s u e m . E m t a l estado, m e s m o os
santos n ã o p o d e r i a m l e v a r u m a v i d a correta. P o r isso. D e u s ,
depois da q u e d a , deu-nos o p o d e r d e criar instituições q u e e v i t e m
o caos a b s o l u t o . A p r o p r i e d a d e p r i v a d a , o sistema d e leis, a
p o s s i b i l i d a d e d e ser c a s t i g a d o s ã o c r i a ç õ e s d i v i n a s q u e d e v e m
ser respeitadas, p o i s nos i n d i c a m a v i a p a r a u m a v i d a e m p a z ,
e m q u e o a m o r a D e u s p o d e se d e s e n v o l v e r * . C o m p r e e n d e m o s 96. SANTO AGOSTINHO, De
Doclrina Chrisliana, II.
agora m e l h o r p o r q u e a c o n s c i ê n c i a d e v e g u a r d a r p e l o m e n o s
XXXIX, 58.
vestígios d a l e i m o r a l , p o i s , s e m eles, n ã o seria p o s s í v e l f a l a r
nem e m paz, n e m e m ordem'^. 97. "These vestiges, sem-
b l a n c c s , or images of
justice, mutual trust, and
O l u g a r q u e n o p e n s a m e n t o g r e g o era o c u p a d o p e l o desejo d e equity are shadowy, though
glória e p e l o a m o r à c i d a d e passa agora a ser o c u p a d o p e l o essential bases of measure
of peace, harmony, ar\d
desejo d e p a z . N u m m u n d o c o r r o m p i d o p e l o pecado e a m e a ç a - order lhat human society
d o pela violência, a p a z representa a e s p e r a n ç a d e u m a v i d a can achicve". H , A . D E A N E ,
op. cil, p. 97.
q u e seja p e l o m e n o s r a z o á v e P . Essa busca desesperada d e u m
m u n d o m e n o s terrível f a z c o m q u e a p a z seja o ú n i c o o b j e t i v o 98. " E i s por que poderia-
plausível para nossas a ç õ e s coletivas, m e s m o q u a n d o g u e r r e a - mos dizer da paz, o que
havíamos dito da vida eter-
m o s , p o i s , c o m o d i z Santo A g o s t i n h o : " F i c a c l a r o q u e a paz é o na: que ela é o fim de nos-
o b j e t i v o p e r s e g u i d o p>ela g u e r r a , p o i s t o d o h o m e m p r o c u r a a sos beas". SANTO AGOSTINHO,
De Civitate D o , XIX, I I .
paz, mesmo fazendo a guerra, e ninguém procura a guerra,
fazendo a paz"^. A paz tem, assim, u m papel eminentemente 99. Idem, ibidem, XIX, 12.
negativo no pensamento agostiniano, pois é compreendida como
a u s ê n c i a d e c o n f l i t o e m a n u t e n ç ã o d a o r d e m pela c o e r ç ã o e pela
d i s c i p l i n a . C o m isso m u d a r a d i c a l m e n t e o p a p e l d a c i d a d e , q u e
d e i x a d e ser o l u g a r d a f e l i c i d a d e , p a r a t r a n s f o r m a r - s e n o d a
d i s c i p l i n a g a r a n t i d o r a d a a u s ê n c i a d e conflito^"". 100. "The State and peace
lhat it maintains are viewed
as inslruments which mini-
D u a s c o n c l u s õ e s se i m p õ e m . P r i m e i r o é preciso v e r q u e a polí-
mize and regulate overt
tica p e r d e a i m p o r t â n c i a q u e t i n h a p a r a o p e n s a m e n t o a n t i g o na conflict and so allow men
m e d i d a e m q u e d e i x a d e ser busca d a f e l i c i d a d e n o presente, to live an work together".
H . A D E A N E , op, cit, p. 102,
p a r a t r a n s f o r m a r - s e e m p r o c u r a d a p a z , q u e é u m b e m secun-
d á r i o na escala d e valores, i m p o s t o pela q u e d a e p o r nossa
c o n d i ç ã o m i s e r á v e l . Disso d e c o r r e q u e a r e l a ç ã o d a ética c o m a
política t a m b é m se m o d i f i c a , p o i s a m o r a l cristã d e s e n r a í z a a
a ç ã o d a p r a ç a p ú b l i c a , para s u b m e t ê - l a a o i m p é r i o d a s v i r t u d e s
cristãs, q u e a s s i n a l a m u m l u g a r i n f e r i o r p a r a a c a p a c i d a d e d e
b e m a g i r na c i d a d e . A s e g u n d a c o n c l u s ã o d e c o r r e d a p e r d a d e
i m p o r t â n c i a d a c i d a d e . C o m a análise d a política s u b m e t i d a à
t e o l o g i a , c o m o estabelecimento d o q u e m a i s t a r d e c h a m a r í a -
m o s d e t e o l o g i a política, o h o m e m d e i x o u d e ser c i d a d ã o d e
u m a c i d a d e p a r t i c u l a r , para ser c i d a d ã o d e u m a c i d a d e u n i v e r -
sal. A i n d a q u e n ã o seja nosso p r o p ó s i t o e s t u d a r a q u i as conse-
q ü ê n c i a s d e t a l t r a n s f o r m a ç ã o , basta l e m b r a r as c r u z a d a s e a
f o r m a ç ã o d e u m impiério cristão, para v e r q u e n ã o se t r a t a v a d e
u m a simples operação conceituai, mas de u m a mudança q u e
teria grandes repercussões na v i d a política d o s séculos seguintes.

352 I Síntese Nova Fase, v. 19. n. 58. 1992


VIII, A Igreja e o Estado:
a teologia das Duas Cidades

J á d i s s e m o s q u e e m S a n t o A g o s t i n h o n ã o existe u m a t e o r i a
poh'tica c o m o a d e A r i s t ó t e l e s , p o i s suas reflexões d i r i g e m - s e
e m g e r a l para temas q u e se d e f i n e m n o c a m p o da t e o l o g i a e
n ã o n o d a r e f l e x ã o sobre as q u e s t õ e s da " p o l i s " . Isso n ã o q u e r
d i z e r q u e sua o b r a n ã o c o n t e n h a u m p e n s a m e n t o político coe-
rente. D e m u i t o s d e seus p o s t u l a d o s t e o l ó g i c o s depreende-se
u m a v i s ã o acabada d a v i d a e m c o m u m d o s h o m e n s . É preciso,
p o r t a n t o , c o n t i n u a r a t r i l h a r os c a m i n h o s q u e l e v a m d a t e o l o g i a
à política, para e l u c i d a r as r e l a ç õ e s d a Igreja c o m o p o d e r t e m -
poral.

Nesse p e r c u r s o , u m conceito destaca-se: o d e história, e n t e n d i -


d o a q u i n ã o e m seu s e n t i d o m o d e r n o , mas apenas c o m o d e l i m i -
101. Ver: R. A. MABKUS, t a ç ã o t e m p o r a l d a existência da h u m a n i d a d e decaída"^'. A h i s -
Saeculum: Hislon/and societi/
tória é, para Santo A g o s t i n h o , a d e s c r i ç ã o d o p e r c u r s o da h u m a -
in the theolog]/ of saint
Augustine, Cambridge, n i d a d e n o t e m p o , e n t e n d i d o c o m o d o m í n i o da c o n t i n g ê n c i a e
Cambridge University d o pecado. D i s s o resulta q u e nosso a u t o r n ã o faz p r o p r i a m e n t e
Press, 1970, p. 9.
u m a teoria u n i v e r s a l e abstrata sobre o t e m p o , p o i s n e n h u m a
v e r d a d e sobre o q u e é passageiro fKxie ter o m e s m o c a r á t e r das
c i ê n c i a s sobre as coisas eternas. M a s , se n ã o p o d e m o s escrever
u m a ciência d o c o n t i n g e n t e , p o d e m o s p e r g u n t a r - n o s sobre a
i m p o r t â n c i a q u e teria para o processo d e s a l v a ç ã o . F o r m u l a d o
d e o u t r a m a n e i r a , d e v e m o s pensar e m q u e m e d i d a o processo
e s c a t o l ó g i c o desenvolve-se n o t e r r e n o d o q u e a q u i d e n o m i n a -
m o s história.

Para pensar essa q u e s t ã o . Santo A g o s t i n h o c o m e ç o u m o s t r a n d o


q u e existe u m a história h u m a n a e m g e r a l e u m a história sagra-
d a . A história h u m a n a é e n t e n d i d a e m u m s e n t i d o m e r a m e n t e
n e g a t i v o , c o r r e s p o n d e n d o ao v a z i o d e todas as r e a l i d a d e s q u e
expressam o pecado. D a m e s m a f o r m a q u e o m a l é u m n a d a d e
ser, t a m b é m a história h u m a n a n ã o p o s s u i essência. Para desco-
b r i r - l h e o s i g n i f i c a d o , é preciso recorrer a u m a r e a l i d a d e q u e l h e
é s u p e r i o r : a história sagrada. O Bispo de H i p o n a a f i r m o u se-
g u i d a m e n t e q u e n ã o p o d e m o s conhecer a lógica das a ç õ e s d i v i -
nas, o q u e q u e r d i z e r q u e n ã o p o d e m o s d e s v e n d a r os segredos
da história sagrada. M a s se o m u n d o d i v i n o é i m p e n e t r á v e l
p a r a os nossos o l h o s , c o m o a f i r m a r , para a l é m da fé, q u e existe
u m t e m p o das coisas d i v i n a s ? Esse é, s e g u n d o Santo A g o s t i n h o ,
o pap>el d a p a l a v r a profética. D i r e t a m e n t e i n s p i r a d o p o r D e u s ,
o profeta instaura no tempo dos homens u m sentido que v e m

Síntese Noua Fase, v. 19, n. 58, 1992 353


d e fora dele e o i l u m i n a " ' ^ . A s s i m , o q u e c o n h e c e m o s da história 102. " T h e difference bet-
ween 'sacred' and 'secular'
sagrada nos é r e v e l a d o p e l o d i s c u r s o q u e , c o n t e n d o a p a l a v r a
history is therefore to be
d i v i n a , faz d o t e m p o h u m a n o o r e c e p t á c u l o d e sua m e n s a g e m . defined by distinguishing
between two different kinds
Os a r g u m e n t o s anteriores c o n d u z e m - n o s à c o n c l u s ã o d e q u e ao of narrativc: the one pro-
p h e l i c a l l y i n s p i r c d , the
l a d o d a c o m u n i d a d e n o r m a l d o s h o m e n s , existe u m a c o m u n i - other not". Idem, ibidem, p.
d a d e d e p r o f e t a s e santos q u e p a r t i c i p a m da v i d a d e t o d o s os 14.
d i a s , mas q u e h a b i t a m t a m b é m o t e m p o s a g r a d o . Isso é possível
p o r q u e a história sagrada nos é d a d a a conhecer apenas a t r a v é s
d e seus autores, e n ã o d e seus a c o n t e c i m e n t o s , q u e escapam à
c o m p r e e n s ã o h u m a n a " " . Se já sabemos q u e n ã o há teoria d o 103. SATJTO AGOSTINHO, De
Civitate Dei, X V I , 2.
c o n t i n g e n t e , e c o n s e q ü e n t e m e n t e d a política, t a m b é m n ã o p o -
d e m o s negar o p o d e r q u e a p a l a v r a profética t e m d e nos ensi-
nar a l g u m a coisa sobre nossa c o n d i ç ã o d e seres d e c a í d o s , sob
pena d e n e g a r m o s q u e D e u s é capaz d e c o m p r e e n d e r o m u n d o
q u e Ele m e s m o c r i o u . A s s i m , p a r a q u e o d i s c u r s o profético n ã o
seja t o t a l m e n t e e x t e r i o r ao m u n d o d o s h o m e n s , é preciso reco-
nhecer q u e ele i n s t a u r a u m saber sobre a política, a i n d a q u e ela
seja c o n s i d e r a d a s o m e n t e p o r seus aspectos n e g a t i v o s . D e o u t r o
l a d o , n o s é c u l o V , a q u e s t ã o d o Estado t i n h a d e i x a d o d e ser u m
p r o b l e m a abstrato, p a r a se c o n v e r t e r n u m a q u e s t ã o prática, p a r a
u m a Igreja q u e n ã o p o d i a e v i t a r os desafios d o p o d e r t e m p o r a l .
A s s i m , q u a n d o Santo A g o s t i n h o e l a b o r o u sua t e o r i a das d u a s
cidades — a C i d a d e d e D e u s e a C i d a d e T e r r e s t r e — ele cons-
t r u i u , a i n d a q u e p o r vias d i f e r e n t e s d a t r a d i ç ã o grega, u m a teo-
ria d e s t i n a d a a i n f l u e n c i a r d e m a n e i r a d e c i s i v a o p e n s a m e n t o
político d o s s é c u l o s seguintes.

N ã o é nosso i n t e n t o realizar, n o e s p a ç o desse a r t i g o , u m e s t u d o


a p r o f u n d a d o sobre as c o n s e q ü ê n c i a s d a t e o l o g i a das d u a s c i d a -
des'"*. I m p o r t a - n o s s i m p l e s m e n t e d e s c o b r i r a l g u m a s d e suas 104. Ver: J, Guv, Unité et
struclure logiiiue de Ia Cite de
i m p l i c a ç õ e s para a c o m p r e e n s ã o d o p a p e l d o Estado na v i d a Dieu de Sainl Augustin, Pa-
d o s h o m e n s . A n t e s d e m a i s n a d a , n o e n t a n t o , é n e c e s s á r i o fazer ris, Etudes Augustiniennes,
u m a distinção. Contrariamente a M a r r o u , que acreditava que a 1961; ]. CHAIX-RUV, Saint
Augustin, íi'm;w et histoire.
c i d a d e d e D e u s e a Igreja se c o n f u n d e m " ' ^ p e n s a m o s q u e a Paris, E t u d e s A u g u s t i -
c i d a d e d e D e u s é u m a c o m u n i d a d e fora d o t e m p o , d e d i c a d a ao niennes, 1956; |. CurntiN, Le
letnps et rétemité chez Plotin
a m o r , q u e n a d a t e m a v e r c o m as instituições h u m a n a s . N ã o et Saint Augustin, Paris, |.
p o s s u i n d o u m s i g n o visível, e u m a vez q u e n ã o c o n h e c e m o s Vrin, 1959,
c o m p r e c i s ã o os j u l g a m e n t o s d i v i n o s , resulta d a í q u e n ã o p o d e -
105. H.-I. MARROL', L'am-
m o s d i z e r c o m e x a t i d ã o q u e m s ã o seus i n t e g r a n t e s . A c i d a d e d e bivalence du tetnps de
D e u s existe, p o r t a n t o , c o m o u m a referência f u n d a m e n t a l , mas riiisliyire chez Saint Augustin,
n ã o p o d e ser e s t u d a d a c o m o u m objeto q u a l q u e r . Nossa ciência Paris, J. Vrin. 1950. p, 38,

sobre ela é l i m i t a d a p e l o fato d e q u e a r a z ã o h u m a n a n ã o p o d e


conhecer i n t e i r a m e n t e os d e s í g n i o s d i v i n o s .

A c i d a d e terrestre, ao c o n t r á r i o , t e m c o n t o r n o s d e f i n i d o s e p o d e
ser i d e n t i f i c a d a c o m suas instituições. P o r é m , c o m o já v i m o s ,
n ã o p o s s u i u m p a p e l p o s i t i v o n o processo d e s a l v a ç ã o , e d e v e

354 I Síntese Nova Fase, u. 19. n. 58, 1992


ser estudada t e n d o p o r referência a cidade d e Deus. O r a , o Estado
se t o r n a i m p o r t a n t e e x a t a m e n t e p o r q u e p o d e t o r n a r s u p o r t á v e l
a v i d a d o s eleitos d e D e u s e m sua passagem pela t e r r a . Nesse
s e n t i d o , ele t e m a m e s m a d i g n i d a d e d a Igreja visível, e m sua
m i s s ã o d e espalhar a p a l a v r a d e Deus. A m i s s ã o d o Estado é d e
o u t r a n a t u r e z a , certo, mas n ã o m e n o s f u n d a m e n t a l . A ele cabe
assegurar a p a z , r e g u l a r a violência c o l e t i v a e d a r - n o s a t r a n q ü i -
lidade mínima para habitarmos n o m u n d o c o r r o m p i d o pelo
pecado. Seus i n s t r u m e n t o s s ã o a força e a a m e a ç a , mas Santo
A g o s t i n h o frisa q u e seu u s o n ã o é capaz d e m u d a r a n a t u r e z a
h u m a n a , apenas d o m i n á - l a . Para ele, a l é m d o m a i s , e c o n t r a r i a -
m e n t e a Cícero'"^, o Estado n ã o é capaz d e d e s e n v o l v e r a justiça,
HX). Optuno-nos aqui à I f s f n e m os v a l o r e s m o r a i s e f e t i v o s , apesar d e ser essencial p a r a a
ie C. H . MAIILWAIN que c o n s e r v a ç ã o da v i d a , q u e d e o u t r a f o r m a seria s e m p r e a m e a ç a d a
afirma ter Santo Agostinho
aceito a definit;ão cicero-
pela tendência d e s t r u t i v a d o s homens'*"^.
n i a n a da república. A n o s -
so ver Irata-se exatamente
io contrário, uma vez que
A c o n v i v ê n c i a d a Igreja c o m o Estado t e r m i n o u , n o e n t a n t o , p o r
na Cidade de Deus (XIX, 24), levantar problemas diferentes dos que h a v i a m sido enfrentados
tiosso autor mostra q u e
pelas p r i m e i r a s c o m u n i d a d e s cristãs. U m Estado q u e n ã o era
"ícero tinha uma idéia a b s -
Irata d o regime repubhca- m a i s i n i m i g o d i r e t o d a fé p o d i a ter a l g u m p a p e l e m sua d i f u s ã o ,
no, por não levar em conta o u e m sua c o n s e r v a ç ã o ? A p r i m e i r a resposta d a d a p o r Santo
I natureza corrompida dtJs
lomens e sua incapacidade
A g o s t i n h o r e p e t i u o q u e a t r a d i ç ã o patrística já h a v i a a f i r m a d o :
ie bem agir na cidade. o Estado n ã o t i n h a n e n h u m a i m p o r t â n c i a para a fé, l i m i t a n d o -
-se a g a r a n t i r as c o n d i ç õ e s m í n i m a s para seu exercício'***. Essa
107. "The State and its
nstruments of c t x T c i o n and
resposta seria, e n t r e t a n t o , m o d i f i c a d a na m e d i d a e m q u e as
íunishement are, in Augus- a t i v i d a d e s religiosas d e nosso a u t o r m o s t r a r a m - l h e q u e a sepa-
incs views, divinely ração r a d i c a l e n t r e as d u a s instituições d e i x a v a sem resposta
irdained institulions desig-
ifd as remedies as well as u m b o m número d e questões. Concebido como u m a criação
lunishements for the sinful d i v i n a , o Estado era u m a s o l u ç ã o d a p r o v i d ê n c i a para os c o n -
:ondition of falien man". H .
flitos eternos e n t r e os homens'"''. A p a r t i r d o m o m e n t o e m q u e
\ D E A N E , op. cit, p . 143.
Santo A g o s t i n h o c o m e ç o u a i n t e r p r e t a r as heresias c o m o u m a
108. SANTO AGOSTINHO, a m e a ç a à p a z , a idéia d e q u e cabia a o Estado d o m i n a r essa
> s í . , C L i n , V I , 16.
f o r m a de violência se i m p ô s quase n a t u r a l m e n t e . Passou-se e n t ã o
09. R . A. M A R K U S , op. cit, a a t r i b u i r às instituições políticas n ã o s o m e n t e a r e s p o n s a b i l i d a -
>. 133. d e pela c o e s ã o d o t e c i d o social, mas t a m b é m pela c w r ç ã o r e l i -
giosa. Chegou-se, assim, à f o r m u l a ç ã o da união sagrada da Igreja
c o m o Estado, c o m p r o p ó s i t o s e s t r i t a m e n t e r e l i g i o s o s " " .
10. "This horrible doctrine
vith ali its potentialites for
)eing i n s i d i o u s i y a n d
Essa r e v i r a v o l t a d o p e n s a m e n t o a g o s t i n i a n o , n o e n t a n t o , n ã o
i nica II y general ised, d en-
es from Augustine's estava d e s p r o v i d a d e riscos. E m p r i m e i r o l u g a r , era preciso
lotíon of 'disciplina'. This c o n c i l i a r a t r a d i ç ã o cristã d e tolerância r e l i g i o s a c o m a teoria da
vas the seed from which
lis theory of perseculion r e p r e s s ã o da d i f e r e n ç a r e l i g i o s a . E m s e g u n d o l u g a r , era neces-
;rew". Idem, ibidem, p. sário se p e r g u n t a r pela constituição desse Estado m i s t u r a d o c o m
42.
os n e g ó c i o s d a Igreja.

N o q u e concerne à tolerância r e l i g i o s a . Santo A g o s t i n h o m a n t e -


ve u m a p o s i ç ã o bastante r a d i c a l . Para ele a l i b e r d a d e d e escolha
não é incompatível c o m a coerção religiosa. Diante d o " e r r o " , a

Síntese Nova Fase. v. 19. n. 58, 1992 \ 355


Igreja n ã o d e v e hesitar e m usar a força p a r a r e p r i m i r os q u e
c o m seu e n g a n o p õ e m e m risco a s o b r e v i v ê n c i a d a c o m u n i d a d e
c r i s t ã ' " . C e r t a f o r m a d e violência n ã o é, a s s i m , i n c o m p a t í v e l 1 1 1 . " T o the notion —
deeply enough established
c o m a l i b e r d a d e d e escolha. O r a , essa a f i r m a ç ã o era n o m í n i m o
in Christian Iradition, even
p o l ê m i c a . J á v i m o s q u e para Santo A g o s t i n h o a l i b e r d a d e é to the exlent of finding an
essencialmente u m a f a c u l d a d e i n t e r i o r , q u e n ã o p o d e ser c o a g i - echo in Constantine's edit
of loleration — lhe belief is
d a s e n ã o pela v e r d a d e d i v i n a . O p t a n d o pela c o e r ç ã o r e l i g i o s a , a matter of free decision,
somos obrigados a considerar o signo exterior d o exercício da not of compulsion,
Augustine replied by
l i b e r d a d e c o m o a m a n i f e s t a ç ã o d a própria escolha da v o n t a d e ,
rejecting the dichotomy.
p o i s n ã o nos é d a d o saber q u a i s f o r a m os c a m i n h o s p e r c o r r i d o s Free choice and compulsion
pela c o n s c i ê n c i a e n t r e o m o m e n t o d a escolha e o d a a ç ã o . A l é m wcrt? nol incompatible". R.
A. MARKUS, op, cil, p 143.
d o m a i s , se n ã o há c o i n c i d ê n c i a entre a Igreja e a c i d a d e d e Ver; SANTO AGOSTINHO, Con-
D e u s , c o m o p o d e o p o d e r t e m p o r a l estar s e g u r o d e q u e age tra Caudentius, 4 2 1 .
s e m p r e d e a c o r d o c o m os preceitos d i v i n o s ? A o aceitar a i n t e r -
v e n ç ã o d o s p o d e r e s t e m p o r a i s nas q u e s t õ e s religiosas, e, p o r -
t a n t o , da c o n s c i ê n c i a . Santo A g o s t i n h o c a i u e m u m a a r m a d i l h a .
Se a m o r a l capaz d e d a r conta d a l i b e r d a d e da v o n t a d e é u m a
m o r a l da i n t e n ç ã o , n ã o é i n c o e r e n t e q u e r e r r e g u l a r a r e p r e s s ã o
pelas m a n i f e s t a ç õ e s exteriores d a fé? U m a v e z q u e a v e r d a d e só
é c o n h e c i d a p e l o s q u e p o s s u e m a g r a ç a , a intolerância n ã o é
u m a f o r m a d e n e g a ç ã o da i n t e r i o r i d a d e d a escolha religiosa?
Santo A g o s t i n h o teria de conceder u m a i m p o r t â n c i a m u i t o m a i o r
à s a ç õ e s políticas, p a r a sustentar o b e m - f u n d a d o d a c o e r ç ã o
religiosa. T e r i a d e r e p o l i t i z a r o conceito d e l i b e r d a d e , p a r a jus-
tificar, pelo uso de parâmetros próprios da v i d a política, o
e m p r e g o d a vio\ência c o n t r a os q u e p o r suas c o n v i c ç õ e s amea-
ç a m a paz e a e s t a b i l i d a d e d a C i d a d e Terrestre. Esse passo ele
n ã o p o d e r i a d a r , sob pena d e d e s t r u i r t o d a a c o e r ê n c i a d e seu
sistema d e p e n s a m e n t o . A s s i m , ele s e m p r e i n s i s t i u n o c a r á t e r
l i v r e e n ã o político da v o n t a d e e n e g o u q u e a c i d a d e d o s h o -
m e n s pudesse s e r v i r d e referência para o j u l g a m e n t o d e nossas
d e c i s õ e s pessoais. A estratégia d e d i s s o l v e r t o d o s os p r o b l e m a s
e m q u e s t õ e s i n d i v i d u a i s n ã o f o i s u f i c i e n t e para liberá-lo das
c o n t r a d i ç õ e s q u e a teoria da c o e r ç ã o r e l i g i o s a c o n t i n h a . P o r isso,
a q u e s t ã o da n a t u r e z a d o Estado f i c o u p a r c i a l m e n t e sem s o l u -
ção. A i n d a q u e a idéia de u m i m p é r i o cristão estivesse c o n t i d a
n o p e n s a m e n t o a g o s t i n i a n o , ele n u n c a c h e g o u a f o r m u l á - l a , 112. Santo Agostinho acre-
consciente t a l v e z d o p e r i g o q u e c o r r i a d e d e s t r u i r t o d a a c o e r ê n - ditava que o uso do podet
pelos imperadores para a
cia d e seu sistema. Pensar a n a t u r e z a d o Estado s u b m e t i d o à maior glória de Deus faria
Igreja f o i o b r a d e seus seguidores"^. deles homens felizes. R. A.
MARKUS, op, cit, p 148.

IX. Conclusão: do agostinismo político


a Santo Tomás
Santo A g o s t i n h o n u n c a se l i b e r t o u d e u m a v i s ã o pessimista d o
Estado. M e s m o q u a n d o a t r i b u i u m p a p e l i m p o r t a n t e à política.

356 I Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


o faz de um ponto de vista em que o que conta é a queda do
h o m e m e, p o r t a n t o , o c a r á t e r i m p e r f e i t o d e seus atos. É c o m -
p r e e n s í v e l , a s s i m , q u e a i n f l u ê n c i a de suas p o s i ç õ e s t e ó r i c a s se
d e v e u m u i t a s vezes a i n t e r p r e t a ç õ e s p a r c i a i s d e sua obra.
À s sucessivas a d a p t a ç õ e s d e seu p e n s a m e n t o aos p r o b l e m a s p o -
líticos q u e v i r i a m a p r e o c u p a r a Igreja nos s é c u l o s q u e se s e g u i -
r a m à sua m o r t e , A r q u i l l i è r e c h a m o u de " a g o s t i n i s m o políti-
co""^. Se n o t e m p o d o B i s p o d e H i p o n a a r e l a ç ã o d o Estado c o m
a Igreja a i n d a era m a r c a d a p o r u m a f o r t e t e n s ã o , ela t o r n o u - s e
cada v e z m a i s estreita à m e d i d a q u e a Igreja passou a o c u p a r o
l u g a r q u e antes cabia a o u t r a s instituições. O q u e era excepcio-
n a l na é p o c a d e Santo A g o s t i n h o — o u s o d a força para r e s o l v e r
p r o b l e m a s d a esfera r e l i g i o s a — t o r n o u - s e c o r r i q u e i r o n u m
m u n d o e m que o f x x l e r temporal não guardava mais a mesma
l i b e r d a d e e m r e l a ç ã o ao p o d e r e s p i r i t u a l . F o i n e c e s s á r i o , a s s i m ,
para c o n s e r v a r a h e r a n ç a a g o s t i n i a n a , r e i n t e r p r e t a r m u i t o s d e
seus conceitos.

C o m G r e g ó r i o (590-604), a l i n h a rígida q u e h a v i a s i d o t r a ç a d a
e n t r e o Estado e a Igreja c o m e ç a a desaparecer. A n o v a r e a l i d a -
d e da Igreja o b r i g a v a - a a tentar c o n c i l i a r o r e s p e i t o ao I m p e r a -
d o r c o m a o b e d i ê n c i a d e v i d a ao p a p a d o " * . Se n o t e m p o d e
G r e g ó r i o essa a p r o x i m a ç ã o era a i n d a t í m i d a , tornar-se-ia c o m o
t e m p o u m a necessidade. Ele m e s m o d i z i a : "Ser r e i n ã o é n a d a
d e e x t r a o r d i n á r i o , o q u e i m p o r t a é ser u m r e i c a t ó l i c o " " ^ .

D o p o n t o d e v i s t a teórico, assistimos à s u b m i s s ã o d o s p o d e r e s
t e m p o r a i s aos p r i n c í p i o s d a m o r a l cristã. Se a política t i n h a
apenas u m a d i m e n s ã o p r á t i c a , necessitava d e a l g o p a r a g u i a r -
-Ihe os passos. Esse a l g o era a ética, q u e p o d i a ser d e d u z i d a d o s
p r i n c í p i o s eternos, p a s s í v e i s d e s e r e m c o n h e c i d o s pelos h o m e n s .
Jonas d e O r l e a n s , e m seu l i v r o De Institutione regia d i z i a : " T o d o s
os fiéis d e v e m saber q u e a Igreja U n i v e r s a l é o c o r p o d o C r i s t o ,
sua c a b e ç a é o C r i s t o , e q u e , nessa Igreja, e x i s t e m d o i s p e r s o n a -
gens p r i n c i p a i s : o q u e representa o sacerdote e o q u e representa
a realeza". M a i s à f r e n t e , ele c o n c l u i : " O r e i t e m p o r o b r i g a ç ã o
d e f e n d e r as igrejas e os s e r v i d o r e s d e Deus. Seu ofício consiste
e m g a r a n t i r a i n t e g r i d a d e d o s p a d r e s e o e x e r c í c i o d e seu m i n i s -
tério, e p r o t e g e r pelas a r m a s a Igreja d e Deus""*".

O pf\T\c\pw à a svfcmissão d a pòVilica a m o r a \ p o d i a ser d e d u z i -


d o das c o n s i d e r a ç õ e s sobre a l i b e r d a d e q u e e s t u d a m o s a n t e r i o r -
m e n t e , m a s nos e n g a n a r í a m o s p e n s a n d o q u e o processo d e
a b s o r ç ã o das f u n ç õ e s d o Estado f o i a c o m p a n h a d o p o r u m l o n g o
debate teórico. C o m o m o s t r a c o m m u i t a p e r t i n ê n c i a A r q u i l l i è r e :
" O d i r e i t o real f o i a b s o r v i d o p e l o d i r e i t o da Igreja. A realeza
n ã o é m a i s u m a instituição d e d i r e i t o n a t u r a l , i n d e p e n d e n t e e

Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992 357


soberana. N ã o é m a i s o p e n s a m e n t o r i c o e n u a n ç a d o d e Santo
Agostinho, mas o q u e chamamos d e agostinismo poHtico. A
t e n d ê n c i a a g o s t i n i a n a a a b s o r v e r o d i r e i t o n a t u r a l d o Estado n o
d i r e i t o eclesiástico t r a n s f o r m o u - s e e m u m a d o u t r i n a " " ^ . 117. H . X. ARQUILUÈRE, op.
cit, p. 1 5 2 .
N ã o é nosso p r o p ó s i t o neste a r t i g o analisar o processo d e c o n -
v e r s ã o d o a g o s t i n i s m o e m d o u t r i n a política. Isso d e m a n d a r i a
u m o u t r o t r a b a l h o e, s o b r e t u d o , u m e s t u d o d e t a l h a d o das l o n -
gas d i s c u s s õ e s teóricas q u e a a b s o r ç ã o d o d i r e i t o político p e l o
d i r e i t o eclesiástico t e r m i n o u p o r p r o v o c a r . Para c o n c l u i r , gosta-
r í a m o s apenas d e l e m b r a r o p a p e l f u n d a m e n t a l que teria Santo
T o m á s na síntese desse processo alguns séculos mais tarde. C o m
efeito. Santo T o m á s , i n f l u e n c i a d o p o r Aristóteles, t i n h a d a política
u m a visão diferente da de Santo Agostinho'"*. M e n o s p r e o c u p a d o 118. H . A . DEANK, op. cit, p,
c o m o caráter repressivo das instituições políticas, ele p o d e refor- 234.

m u l a r o pensamento a g o s t i n i a n o sem ser o b r i g a d o a a b a n d o n a r ,


por exemplo, o pressuposto d a m o r a l da intenção"''. N ã o tendo 119. E, Cii-SON, ].'espríl de Ia
a q u e d a a m e s m a i m p o r t â n c i a e m seu p e n s a m e n t o , ele fez disso philosophie médievale, cap 7.

o seu p o n t o d e p a r t i d a p a r a u m a v e r d a d e i r a r e v o l u ç ã o teórica.
Baseado na n o v a r e a l i d a d e d a Igreja, Santo T o m á s d e d u z i u q u e
era p o s s í v e l pensar u m a f o r m a d e g o v e r n o q u e , m e s m o n ã o
s e n d o a m e l h o r p o s s í v e l , n ã o d e i x a v a d e se c o n s t i t u i r n u m a
a j u d a aos h o m e n s e m sua c a m i n h a d a e m d i r e ç ã o à s a l v a ç ã o .

Para d e s c o b r i r q u a l o m e l h o r r e g i m e p o s s í v e l . Santo T o m á s t o -
m o u c o m o p a r â m e t r o , s e g u i n d o Aristóteles, a justiça e o b e m
d o s h o m e n s . Nesse processo, a p r i m e i r a f o r m a e x c l u í d a f o i a
t i r a n i a q u e se m o s t r a r a i n c a p a z d e fazer nascer e n t r e os h o m e n s
o s e n t i d o d o q u e é b o m e justo. A d e m o c r a c i a t a m b é m n ã o l h e
pareceu b o a , u m a v e z q u e p e r m i t e a o p o v o a p r o v e i t a r - s e d e
u m a v a n t a g e m n u m é r i c a q u e n a d a t e m a v e r c o m as e x i g ê n c i a s
d e u m b o m g o v e r n o . O r a , o g u i a q u e d e v e a j u d a r os h o m e n s ,
q u a l q u e r q u e seja sua f i g u r a i n s t i t u c i o n a l , d e v e s e m p r e v i s a r a o
b e m c o m u m e n u n c a o p r o v e i t o p r ó p r i o ' ^ . A c o n c l u s ã o deste 120. SANTO TOMÁS DE
r a c i o c í n i o é q u e a m o n a r q u i a é o r e g i m e c o m m a i s chances d e AQUINO, De regiio, I, 1.

r e a l i z a r o i d e a l d e u m b o m governo'^'. A m o n a r q u i a d e S ã o
121. Idem, ibidem, I, 5 .
T o m á s , n o e n t a n t o , assemelha-se m u i t o m a i s à r e p ú b l i c a t e m p e -
r a d a d e Aristóteles d o q u e aos r e g i m e s c o r r o m p i d o s d e seu
t e m p o ' ^ . C o m o m o s t r a G i l s o n , o r e i d e v e executar u m a o b r a
122. SANTO TOMÁS DE
baseada na h o n r a e na justiça e d e v e ter c o m o meta a f e l i c i d a d e AQUINO, Summa theologiae, Ia
d o p o v o q u e g o v e r n a ' " . O r e i , p o r t a n t o , d e v e satisfazer aos Ilae, 105, 1.

anseios d o p o v o e fazer d e sua o b r a u m gesto d e a d o r a ç ã o a 123. E, G I L S O N , he thomisme.


Deus. Nesse s e n t i d o a u n i ã o d o p o d e r t e m p o r a l c o m o p o d e r p. 4 5 3 .

s u p r e m o d a Igreja se faz necessária, p o i s , s o m e n t e sob a c o n d u -


124. M . DEMONGEOT, La
ç ã o d o v i g á r i o d e C r i s t o , os reis p o d e m estar certos d e n ã o Ihéohe du regime mixle chez
i n f l i g i r n e n h u m a e x i g ê n c i a d a fé e d a moral'^*. Thomas d'Aquin, Paris, F.
Alcan, 1927.

358 I Síntese Nova Fase, v. 19, n. 58, 1992


Q u a n d o trata m a i s especificamente da q u e s t ã o da p r e s e n ç a d o
h o m e m n o m u n d o , Santo T o m á s m a n t é m - s e fiel a m u i t o s d o s
p r i n c í p i o s a g o s t i n i a n o s . E m p r i m e i r o l u g a r , ele conserva intacta
125. SANTO TOMAS DF a f r o n t e i r a q u e separa a v i d a c o n t e m p l a t i v a da v i d a ativa'^\ e,
AQUINO, Summa Thmiogiae,
Ilae, 179. 1.
c o m o Santo A g o s t i n h o , a f i r m a ser a v i d a c o n t e m p l a t i v a a v i d a
i d e a l para u m c r i s t ã o , apesar d e v e r na a ç ã o a l g u n s aspectos
p o s i t i v o s , s o b r e t u d o q u a n d o s i g n i f i c a m o d o m í n i o das p a i x õ e s
126. Idem, ibidem, lia Ilae, da alma'^''. M a s essa a b e r t u r a e m d i r e ç ã o da v i d a a t i v a n ã o
182, 3.
altera o privilégio q u e o p e n s a m e n t o c r i s t ã o concede à c o n t e m -
127. Idem, ibidem, lia Ilae, p l a ç ã o c o m o f o r m a d e a l c a n ç a r a verdade'^'. A o reconhecer q u e
180, 4.
a v i d a e m sociedade n ã o é p u r a e x p r e s s ã o d a d e c a d ê n c i a d o
h o m e m . Santo T o m á s a b r i u as p o r t a s p a r a a revitalização da
teoria d o s r e g i m e s e para u m a m e l h o r c o m p r e e n s ã o d e nossa
p r e s e n ç a na t e r r a , s e m ser o b r i g a d o a se o p o r à s p r i n c i p a i s teses
a g o s t i n i a n a s . O c e r t o , n o e n t a n t o , é q u e c o m ele a a ç ã o política
a d q u i r e u m n o v o s i g n i f i c a d o . Se n ã o se trata d e a f i r m a r a s u p r e -
m a c i a da v i d a e m sociedade, c o m o m a i s t a r d e na R e n a s c e n ç a , e
se n o f u n d o nossas a ç õ e s d e v e m se o r i e n t a r p a r a as e x i g ê n c i a s
d a v i d a c o n t e m p l a t i v a , t a m b é m n ã o p o d e m o s esquecer q u e a
a ç ã o política passa a ter u m a i m p o r t â n c i a q u e h a v i a s i d o d e i x a -
d a d e l a d o p e l o a g o s t i n i s m o político. C o m o l e m b r a G i l s o n , a
a ç ã o política " d e v e e v i t a r a t i r a n i a sob todas suas f o r m a s , p o i s
ela é s e m p r e r u i m , e, d a d a s as c i r c u n s t â n c i a s , t o m a r o r e g i m e
d o Estado tão semelhante q u a n t o possível ao q u e a ciência m o r a l
128, E. G I L S O N , op. dl, p.
449. Ver: B, ROLAND- r e c o m e n d a c o m o sendo o melhor"''**. C o m Santo T o m á s , p o r -
doctrine polilique
G o s s E U N , IM t a n t o , renasce a p o s s i b i l i d a d e d e se pensar a d i m e n s ã o p u r a -
de Sainl Thomas d'Aífuin,
Paris, M, Rivière, 1928.
m e n t e política d a l i b e r d a d e . A i n d a q u e isso tenha s i d o obra d o s
filósofos renascentistas, é i n e g á v e l q u e o p e n s a m e n t o político
129, SANTO TOMAS DF,
t o m i s t a teve u m p a p e l f u n d a m e n t a l na e l a b o r a ç ã o d e m u i t o s
'AQUINO, Summa Theologiae,
lia, Ilae, 1 8 3 , 1. t e m a s essenciais à f i l o s o f i a política renascentista'^.

Endereço do autor
R, Bemardino de Lima, 291 / 101
30430-090 — Belo Horizonte — MG

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