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Notas: Drogado como estranho, estrangeiro Camus, crackudo (mestrado Iacã).

CORPO SEM ÓRGÃOS DROGADO

DROGA: UM CONCEITO, UMA SUBSTÂNCIA OU UM ATOR? ABSTINÊNCIA VS


REDUÇÃO DE DANOS

REPRESENTAÇÃO DO DROGADO NA ATUALIDADE

Guedes, Lidiane de Fátima Barbosa. Encontros de olhares: ensaiando carto(foto)grafias com


usuários de drogas / Lidiane de Fátima Barbosa Guedes; orientador José Maurício
Mangueira Viana. – São Cristóvão, 2014. 130 f.; il.

Imargem do corpo drogado nas sociedades de consumo OK

Na atualidade a mídia exerce grande influência na produção de diferentes modos de vida,


contudo, certos elementos são sistematicamente reproduzidos de modo repetitivo, imperativo e
absolutamente eficientes para o que propõem como ideal de vida a ser apreciado socialmente: Um
certo vício exibicionista, necessidade de aprovação do que se faz, consome, pensa e deseja
(GUEDES, 2014). Desse modo, conjugado a diferentes aparelhos midiáticos o bombardeio de
difusão de imagens operam como dispositivo de poder indispensável para as sociedades de
consumo capitalísticas.
No que compete aos usuários de drogas qual seria o lugar que estes ocupam nessa
propagação infindável de imagens? Frente ao imperativo capitalista de consumo certos valores
acabam tendo efeitos ambíguos na incidência de seus vetores determinantes sobre esses sujeitos. A
priori, concebendo a publicidade como dispositivo que busca excitar o consumo massivo e eficiente
fabricador de desejos (GUEDES, 2014), o corpo que se relaciona com as drogas, em suas diversas
variáveis de expressão, experimentação, modos de viver, se encontra capturado numa estranha
lógica de exclusão por inclusão e vice-versa. Estranho, pois, trata-se de um corpo que é afundado na
margem bastante ubíqua entre a forte incitação do consumo intermitente, do prazer imediato e da
criminalização e iminente condenação legal, moral, científica.
Diante das mídias, dos meios de comunicação, dos telejornais, dos veículos de transmissão
de informações predominantes do cotidiano a constatação mais frequente sobre o corpo do usuário
de droga é de sua saída do anonimato para a fama, a notoriedade, uma retirada momentânea da
miséria para os holofotes desveladores de sua existência. Uma certa fama que é adquirida por meio
da infâmia. São usuários de drogas que passam a existir de outro modo, isto é, se no dia-a-dia eles
estão invisibilizados pelo desprezo alheio, aqui ele emerge justamente no que possui de miséria,
precariedade (GUEDES, 2014). Mas este é apenas um tipo de corpo drogado, que é o estereótipo de
usuários aglomerados em "cracolândias", doentes, aviltados, caquéticos; tamanho é o impacto de
tais imagens que as notícias que iluminam essas vidas se tornam um discurso predominante, uma
espécie de verdade atemporal, como se a única existência possível para aquele sujeito fosse o da
infâmia. Guedes (2014, p. 59) sobre essas vidas comenta: "vida infame que “nasce e morre na luz e
pela luz” dos flashs da fotografia midiática em composição com os poderes vigentes, jurídicos,
científicos."
Ainda sobre a mídia em relação ao tema das drogas a publicidade produz um papel
fundamental nos modos de subjetivações capitalísticas. Afetando, determinando e constituindo os
modos de viver, sentir, pensar, desejar, perceber a si e o mundo de cada sujeito atravessado pelos
diferentes meios de profusão de imagens. Cabe ressaltar, por exemplo, a competência da
publicidade de destacar a capacidade aquisitiva e a classe social do usuário de drogas definindo que
tipo específico de consumidor ele é e onde deverá ser disposto na dinâmica do consumo capitalista.
É seguro afirmar, portanto, que assim como há a imagem estereotipada do drogado-infame,
haverão outras imagens referentes ao usuário de drogas, contudo, a questão é como que a mídia
detém um considerável poder de produzir efeitos de subjetivação. Guedes (2014, p. 60) a respeito
da mídia pondera: "Elementos ora estimulantes e paralisantes compõem as imagens que nos
espreitam, que nos invadem, e que ordenam a olhar de forma viciosa aquilo que a mídia produz e
induz a reconhecer como molde de saber, percepção e representação do mundo ideal." São tecidas
tecnologias e dinâmicas que promovem inclusão, exclusão, inclusão por exclusão daqueles que são
desejados pelo capitalismo ou não, de qualquer modo, trata-se de mecanismos de sujeição
econômica e subjetiva (GUEDES, 2014). Todo aquele que for julgado e assujeitado a ocupar a
margem do sistema capitalista será retratado como perigoso, infame, passível de ser alvo das
instituições responsáveis pela ortopedia social e os drogados ocupam um lugar bastante especial em
toda essa dinâmica, haja vista que para além da mídia, estes quando emergem como categoria
social, nas notícias, nas pesquisas, na produção de políticas públicas, sobretudo no que compete ao
controle social do Estado, sempre estão sob a égide dos discursos da psiquiatria, da polícia, da
medicina e da justiça.
É um mecanismo relativamente recente, mas que tem suas raízes no fim do século XVIII e
ganhou solidez do século XIX em diante.

Guattari e Rolnik produção de subjetividades capitalísticas. Serialização.

O corpos sem orgãos drogado. p. 38-44 in: Micropolítica dos corpos: As drogas como linhas de
fuga. Peccioli, 2011.

Delezeu e Guattari. Corpo Drogado esquizo-experimental. E experimentação das drogas


modificou o mundo, tanto para as que pessoas que fizeram uso, como as que não fizeram. Mudança
de percepção, distorção da dimensão espaço-tempo, referência ao devir molecular.
Droga como agenciamento, percepção do imperceptível. Operação da percepção de modo
molecular e desejo investindo na percepção e no percebido.
Citação direta: "A droga dá ao inconsciente a imanência e o plano que a psicanálise
repetidamente deixou escapar." [???Que plano é esse???]
Citação direta: "Como afirmam Deleuze e Guattari (1996), é preciso saber fazer o Corpo
sem Órgãos, pois se trata de uma questão de vida e morte. O drogado tangencia o perigo de esvaziá-
lo ao invés de preenchê-lo. Os perigos inerentes a tal experiência podem levar à dependência,
buracos negros. Linha de fuga que vira linha de morte. A prudência necessária para chegar ao ponto
no qual a questão não é mais drogar-se ou não; o ponto em que a droga tenha mudado
suficientemente as condições gerais da percepção do espaço e do tempo, de modo que os não-
drogados consigam passar pelos buracos do mundo e sobre as linhas de fuga, por outros meios que
não a droga. Distinguir em Corpo sem Órgãos aquilo que é componível ou não sobre o plano. Há
um uso fascista da droga16, um uso suicida, mas não haveria a possibilidade de um uso em
conformidade com o plano de consistência? Em uma entrevista concedida a jornalista Claire
Parnet17, Deleuze, que gostava de beber, declara ter a impressão de que o uso do álcool o auxiliava a
criar conceitos filosóficos. Entretanto, posteriormente, percebeu que já não o ajudava mais, que
quando bebia não tinha mais vontade de trabalhar. Para o filósofo francês, quando o álcool e as
drogas impedem a produção, encontra-se o perigo absoluto, devendo-se parar ou privar-se disso."
(Peccioli, 2011, p. 39-40)
O que seria a saúde mental para aqueles que fazem coro as cantilenas da temperança e da
vida abstêmia? Um apego à rotina psíquica? (Peccioli, 2011)
Citação Direta: "Drogar-se até o ponto em que não seja mais necessário a droga; é o plano
de consistência que deve destilar suas próprias drogas, permanecer senhor das velocidades e das
vizinhanças" (Peccioli, 2011, p. 43)
LER: Deleuze Guattari, Mil Platôs vol 3 e4

Difusão das drogas na cultura urbana. p. 38-44 in: Micropolítica dos corpos. Peccioli, 2011.

Algumas palavras remetem aos significados mais antigos de droga. Escohotado (2002)
afirma que o uso de substâncias psicoativas para alcançar o estado de ebriedade foi acontecimentos
frequentes desde os primórdios da civilização humana. Para expressar este uso temos a palavra
"fármaco". Do grego antigo, pharmakós, tinha sentido para remédio e veneno. Para os gregos não
havia juízo moral de valor, classificação que determinasse fármaco como agente bom ou agente
mau por si mesmo, vindo a classificar os benefícios ou malefícios a partir da dosagem a ser
utilizada.
Peccioli (2011) defende que outra palavra, com sentido mais recente, já conotaria a clivagem
no discernimento que compete ao juízo mais pejorativo referente a palavra, narcótico, hoje, teria
outro sentido bem diferente de sua origem grega. Narkoun significava "adormecer", "sedar",
representando as drogas que teriam efeito sedativo capazes de induzir ou provocar sono.

A contrução da toxicomania e a proibição das drogas p. 52 in: Micropolítica dos corpos: As


drogas como linhas de fuga. Peccioli, 2011.

De acordo com Carneiro (apud Peccioli) foi no século XIX que a patologia do vício foi
criada por psiquiatras da época, como Esquirol e Emmanuel Régis. Destarte o vício, a adicção foi
referendada ao álcool e posteriormente a outras drogas, assim a construção da identidade drogada
passou a receber os holofotes tanto dos dispositivos de "saúde" (controle sanitário) como de
segurança (controle policial). O conceito de "dependência surgiu quase que simultaneamente a
outros conceitos comos os de homossexualidade, erotômato, ninfomaníaca, onanista, etc.
Surgimento do Biopoder. Racismo institucional. Vida nua vida besta, vidas matáveis, morríveis.
Pessoas não doentes, mas imorais, desviantes, anormais na sociedade disciplinar tendo a psiquiatria
como poder normativo.

Foucault, final do século XVIII e início do século XIX, psiquiatria muito mais instrumento
especializado em higiene pública do que ramo da medicina. Políticas higienistas dos estados de são
paulo, rio de janeiro e rio grande do sul. Psiquiatria como domínio particular da proteção social.
Loucura como doença, perigo, submissão ao saber médico. Medicalização da vida. Início do século
XIX, psiquiatria assumindo outros domínios para si: controle da família, intervenção necessária no
domínio penal. Psiquiatria como poder normativo, mecanismo disciplinar, regulador, controlador
em constante expansão.
Criação da toxicomania pela psiquiatria, codificação do uso de drogas como transtorno,
doença, dependência patológica. Drogado como desviante. Psiquiatria como saber absoluto,
detentora do melhor modo de tratamento, discurso de verdade. Denunciar ineficácia da psiquiatria
em tratar convivendo com a droga. Abstinência vs redução de danos. Normatização, higienização
da sociedade. Internação compulsória.
Políticas internacionais, EUA, responsável pelo controle das drogas. Al Pacino, atualidade,
legalização da maconha, estatísticas. Causas genéricas: Substituição do estado mínimo pelo
assistencialismo, descobrimento de novos fármacos psicoativos. Causas específicas: Aspirações do
estamento médico, movimentos proibicionistas puritanistas moralistas, regiosos [???fé puritana???]
que exerceram influência na colonização norte-americana, tensão social vinculada e minorias,
imigrantes e marginalizados. Associação do uso de determinadas substâncias com finalidades
religiosas, recreativas e medicinais a grupos minoritários e estigmatização negativa destes e do
próprio uso. Estigmatização de grupos nos EUA: Irlandeses, judeus, italianos, chineses, negros,
mexicanos, etc. Estigmatização de drogas: Álcool, ópio, cocaína, maconha, etc.
Lei seca, proibicionismo, ineficiência, criação do narcotráfico, associação deste a outros
gêneros de criminalidade. Narcotráfico crime de maior lucratividade dentre todas atividades
voltadas para o mundo do crime. [???buscar referência???] Adulteração de drogas, mais potentes,
perigosas, danosas para a vida. Revogação da lei seca em 1933, reconhecimento dos danos causados
pela proibição: injustiça, criminalização de grandes setores sociais, criação do narcotráfico, crime
organizado.
Pressão dos EUA para que outros países adotassem a mesma abordagem proibicionista que
adotava internamente. Conveções e conferências, Haia 1912, 1913, 1914, Genebra 1925, 1931,
1936. EUA maior potência mundial, consideravelmente bélica.

Uso de drogas capturada legalmente como ação proibida, interditada, vedada, construindo
sociohistoricamente a valoração moral e pejorativa do ato de dopar-se. Insuportabilidade social das
drogas, "a droga é má", droga como objeto endemoniado, pecaminoso, codificado como delito,
transgressão, crime. Droga caracterizada como capaz de enlouquecer o homem, tornando-o doente
mental, pecador e deliquente, até mesmo criminoso. Entorpecer-se como crime contra Deus, o
Estado e a sociedade. Droga como peste moral merecedora de forte controle social, repressão,
opressão.

Citação direta: "O exercício do controle baseia-se na concepção de que qualquer utilização
de substâncias psicotrópicas prejudica forçosamente a saúde de seu usuário e necessariamente a dos
demais, além de trair as esperanças éticas que os cidadãos depositam no Estado, responsável por
fomentar soluções sadias ao stress, à neurose da vida moderna." (Peccioli, 2002, p. 56)
Citação de citação:"A ideia da erradicação do consumo de certas substâncias é uma
concepção fascista que pressupõe um papel inquisitorial extirpador para o Estado na administração
das drogas, assim como de outras necessidades humanas." (Carneiro, 2002b, p. 127). Poibicionismo
como expressão fascista [???referência a Reich???] Regulamentação da vida sexual e dos hábitos
cotidianos, regulamentação da ingestão de drogas álcool.

Imposição da sobriedade a todos que estiverem sobre a tutela do Estado, este se


responsabiliza em cuidar dos saudáveis e afastar os indesejados. Ao Estado cabe punir, encarcerar e
cuidar dos drogados, punindo também aqueles que se envolvem com o narcotráfico lucrativo.
Constituição de um mercado clandestino em que muitos governos e quase todas as polícias
especializadas participam de modo suspeito tendo como plateia assídua do espetáculo o resto da
população, passiva e alienada na superficialidade da temática (Escohotado, 2002). Citar notícias de
corrupção no Brasil, helicoca, Bope corrupto.
Escohotado (2002) As drogas podem possibilitar alteração da percepção ordinária, utilitária
do dia-a-dia, podem constituir meio de sentir e pensar modos não convencionais, destarte, pode-se
considerar os condutores, agenciadores ilícitos da ebriedade como capazes de alterar o cotidiano,
principalmente, num contexto onde a vida é cada vez mais teleguiada pelos ditames imperativos do
microfascismo cotidiano. Citar "introdução a vida não fascista", Foucault. Ainda com Escohotado
(2002) qualquer mudança na percepção dessa realidade pode constituir uma revolução, ou de
repente uma linha de fuga, uma revolução molecular. De fato, não é apenas uma questão de
segurança pública, mas também de saúde, mas essencialmente política: Não se trata apenas de uma
questão de saúde, mas de um conjunto de sistema de garantias jurídicas.
Citação direta: "O que se nota é uma tendência das legislações penais que se aparta dos
princípios gerais de direito: requer exército em áreas civis, presunção de culpa ao invés de
inocência, validez para mecanismos de indução ao delito, suspensão da inviolabilidade de domicílio
sem mandato de busca etc.. O combate às drogas tem sido caracterizado como o desafio mais
ostensivo que o Estado tem assumido" (Peccioli, 2011, p. 58).
Rodrigues (2002) proibicionismo reforça governamentabilidade sobre conduta individual,
sustentada em normas internacionais a respeito das drogas.
Citação direta: "A criminalização do desejo torna-se fundamental para que a engrenagem do
controle social se movimente" (Peccioli, 2011, p. 59).
Rodrigues (apud Peccioli, 2011, p. 59) "Para Rodrigues (2002, p. 162), as drogas
proporcionam ao Estado a capacidade de construir o inimigo sem rosto necessário para a
manutenção da guerra permanente contra o indivíduo e a sociedade. Ele se apropria da condenação
moral às drogas e a reproduz, institucionalizando-a. Assim ele recebe o aval para reprimir um mal
com faces sociais e morais. Sequestra a vontade dos indivíduos e a autonomia para interferir na
própria química do corpo."

FOUCAULT, M. A vida dos homens infames. Resenha publicada em Paris, em 15 de janeiro


de 1977 na revista “Les cahiers du chemin, nº26”. In: MOTTA, M. B. (Org). Michel Foucault:
estratégia, poder-saber. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. (Ditos e escritos).

Foucault afirma ser "uma antologia de existências", "vidas breves" (203)


"... tal, é, nesses textos, a condensação das das coisas ditas, que não se sabe a intensidade que os
atravessa deve-se ao clamor das palavras ou à violência dos que neles se encontram. Vidas
singulares, tornadas, por não sei quais acasos, estranhos poemas, eis o que eu quis juntar em uma
espécie de herbário." (204)
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. 13 ed. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1999.

FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. Curso no Collège de France, 1975-1976. São


Paulo: Martins Fontes, 2005.
Centralidade do discurso médico, exigência da norma como elemento fundamental na
execução da disciplinarização dos corpos e regulamentação da população. Poder de matar,
ressurgimento do poder soberano.
O biopoder tal como concebeu Foucault (1999) se desenvolveu a partir dessas duas formas
distintas, porém não excludentes, mas que sobretudo tomariam a vida como seu objeto de
intervenção. O poder sobre a vida, portanto, resultaria no agenciamento, na articulação do poder
disciplinar, da anátomo política dos corpos – tendo sido implementada inicialmente a partir do
século XVII – com a biopolítica, as regulações da população – por sua vez formada da segunda
metade do século XVIII em diante (FOUCAULT, 1999).
Em suma, por um lado haveria um poder disciplinar que teria como alvo o corpo, o
organismo biológico na dimensão individual em que determinadas instituições seriam encarregadas
de todo o processo de disciplinarização; por outro lado, o poder de regulamentação da população e
seus processos biológicos teria o Estado como principal encarregado. Assim "Um conjunto orgânico
institucional: a organo-disciplina da instituição, se vocês quiserem, e, de outro lado, um conjunto
biológico e estatal: a bio-regulamentação pelo Estado" (Foucault, 2005, p. 298).
Foucault, porém, alerta que não se deve fazer oposição entre Estado e instituição, haja vista
que as disciplinas tendem a superar o campo institucional e local, ademais, elas atingem facilmente
dimensões estatais, por exemplo, quando a polícia faz valer seu poder que é ao mesmo tempo
disciplinar e regulamentar, institucional e estatal. A respeito do campo institucional:

[...]se o desenvolvimento dos grandes aparelhos de Estado, como instituições de poder,


garantiu a manutenção das relações de produção, os rudimentos de anátomo e de bio-
política, inventados no século XVIII como técnicas de poder presentes em todos os níveis
do corpo social e utilizadas por instituições bem diversas (a família, o Exército, a escola, a
polícia, a medicina individual ou a administração das coletividades), agiram no nível dos
processos econômicos, do seu desenrolar, das forças que estão em ação em tais processos e
os sustentam; operaram, também, como fatores de segregação e de hierarquização
social, agindo sobre as forças respectivas tanto de uns como de outros, garantindo relações
de dominação e efeitos de hegemonia; o ajustamento da acumulação dos homens à do
capital, a articulação do crescimento dos grupos humanos à expansão das forças produtivas
e a repartição diferencial do lucro, foram, em parte, tornados possíveis pelo exercício do
bio-poder com suas formas e procedimentos múltiplos (FOUCAULT, 1999, p. 131-132,
grifo nosso).

O biopoder não serviu apenas de tecnologia de administração da vida e instrumento


facilitador do funcionamento do Estado, não obstante, foi crucial para o desenvolvimento do
capitalismo servindo de tecnologia de suporte para o mesmo "que só pôde ser garantido à custa da
inserção controlada dos corpos no aparelho de produção e por meio de um ajustamento dos
fenômenos de população aos processos econômicos" (FOUCAULT, 1999, p. 132). Assim, as
instituições de poder concebidas como aparelhos do Estado, pois seus modos de operar
performariam a continuidade do bipoder, foram marcadas pela grande versatilidade que tiveram em
favor da amplificação do capitalismo como política de hegemonização, organização e
implementação dos corpos para seus próprios fins, sendo necessário para a manutenção de tais
processos mecanismos de segregação social, hierarquização, relações de dominação e
hegemonização dos modos de existência.
O crucial nessas novas tecnologias de disciplinariazação dos corpos e da regulamentação das
populações esta na articulação entre elas constituindo um poder massivo sobre a vida, buscando a
todo custo alongá-la e aprimorá-la para chefiar um corpo que emergia ao mesmo tempo como
econômico, político e biológico. Cabe mencionar que os séculos XVII e XVIII registraram o
momento que as sociedades passavam por um intenso processo de explosão demográfica e
industrialização progressiva.
É neste contexto que a sexualidade se tornará objeto de intervenção privilegiado do biopoder
e critério absoluto nos futuros mecanismos de exclusão social. A sexualidade é um comportamento
necessariamente corporal, portanto, depende de um manejo disciplinar, individualizante, exigindo
vigilância constante – As cruzadas antimasturbatórias* são um grande exemplo da vigilância da
sexualidade infantil – não obstante, a sexualidade é situada como atividade procriadora, neste
sentido não é apenas um comportamento que concerne exclusivamente à dimensão individual, mas
também num elemento que é coletivo e que se refere à população. Desse modo: "A sexualidade está
exatamente na encruzilhada do corpo e da população. Portanto, ela depende da disciplina, mas
depende também da regulamentação" (Foucault, 2005, p. 300).
É em virtude desta posição privilegiada que a medicina exercerá seu poder de controle e
superestimação da sexualidade surgindo a ideia médica de que uma sexualidade indisciplinada,
desregulada, terá sempre duas ordens de efeitos (FOUCAULT, 2005): No campo dos processos
individuais o corpo indisciplinado seria punido por todas as patologias individuais atraídas,
justamente, por essa sexualidade desviada, por exemplo, a criança que se masturbasse demais seria
doente por toda a vida, deste modo, constituindo punição disciplinar sobre o corpo do desviante
(FOUCAULT, 2005); a nível da população, aquele que foi sexualmente doente, por assim dizer,
possuiria uma hereditariedade, uma descendência que por sua vez também seria perturbada,
patológica e que se replicaria de geração em geração produzindo cada vez mais indivíduos doentes.

* Os anormais – Michel Foucault, buscar referência.


Dispositivos de repressão e varejo do tráfco de drogas: reflexões acerca do Racismo de Estado.