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Porfirio de Tire

Eicrayc.uyr
lsagoge
Introdução às Categorias de Ari tóteles

introdu ã , tradu ão e e mcntári


B nto ilva Santoç

ntlnr editorial
B. /\ tra<lu<;ão <lo tc ·to g1cgo ba. c >u-sc cm PoHPllHll. /.111,l'll.1!(
F<li<l1t A<lolfBussc ln Cvmmc11taría 111 , l rn101 •/c111 Gmffa .
13crlm: Gc rg Rc1m r. J 87 1 . 1 , pi 1.
' 200 l Bento Silva Santo
Produção edrtorwl
crg10 Rtí'Ck

Editor ass1ste11te
Marcos Martmho dos antos

Capa e Diagramaçcio
ilvana de Barros Panz Ido

Dados lnternac1ona1s de Catalogação da Publicação (CIP}


(Camara Brasileira do Livro, SP. Brasil}

Porfirio de Tiro, 233 Ou 4-ca.305


lsagoge introdução às Categorias d Aristóteles
I Porflno d Tiro , introdução, tradução e com n
tàno Bento Silva Santos. -- São Paulo Attar, 2002

Titulo original · 1 icra1·wyT) (Eisagoge)

1. Filosofia antiga 2 Porflno, 233 ou 4-ca 305


lsagog 1 Santos, Ben to Silva. li Titulo. Ili Titulo:
In trodução as Categorias de Aristóteles

02-1361 CDD·186·4

lndices para catálogo sistemát1 o :


1. Porffno . N oplato111smo Filosof1a antiga 186.4

ISBN 85-85115-15-7

ATIAR EDITORAL E COMERCIAL LTDA.


rua madre mazza rell o 336 são paulo si: 05454-040
fone I fax 3021 2199 www.attarcom.br attar@attar.com br
Porfirio de Tiro
(ca. 233-305)

E:: laaywyÍ)
lsagoge
Introdução às Categorias de Aristóteles

introdução, tradução e comentário

Bento Silva Santos

altar
2002
APRE ENTAÇÃO

DE p RFÍRI

Cerca de 233 d. ., na cidade fenícia de Tiro, nasceu


Malco. Cedo [oi e tudar cm Alexandria, onde foi discípulo
do gramático Apolônio e do retor Minuciano, e de lá passou a
Atenas, onde foi discípulo do filó ofo Cássio Longino. Este,
<!J>ÓS verter-lhe o nome sírio "Malco" para o correspondente
grego "Porfüio '', mandou-o a Roma em 263 estudar com
..
Platino. Como editor, Porfírio publicou as lições deste, orga-
nizando-as em seis novenas ou ennéades. Como comentador,
interpretou a de crição da gruta das ninfa que e lê no "Li-
vro Xlll" da Odisséia, de modo a lá de cobrir, mai que a
alegorias fl ica e ética dos estóicos, os símbolo mi tico
caros aos pitagóricos (cf. papiro Derveni) e aos platônicos
posteriore a Plutarco (cf. Acerca do E de Delfo ). De fato, o
ascetismo pitagórico e a teologia platônicajá se conjugariam
nos en inamento de Amônio Sacas, o antigo mestre de
Plotino. Por isso também, como escritor, Porfirio red igi u o
Acerca da abstin ência da carne, cm que acon clha o
vegetariani mo outrora praticado por Pitágora , o ontra os
cris1ãos, cm qu apregoa o culto dos deu e , que cri, m a

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menos d 1s ou três para Platão. se •undo Numênio. dl.' qm·111
dcp 'nde PI tino.
Vias, e a Pitá, rase a Platão foi bu . cai, rcspc ·t1va111c11-
t , o e . emplo da vida prática e da ·ontcmplat1\.1 , a
Aristóteles, ontud , fi i buscar o da ida lóg1 ·a. As. 1111 , n.:di
g1u dois com ntános às afef!.oria.\, as quais abnam o C'<Jl/JllS
dos cscrit s logic s de Arist )tclcs ou ó1gw1011. as h 'r 1 <'\
posiçi'io das alegorias de 4ri\tÓteles po1 intarogaçcio <' rcw-
posta e a Eisagogé ou fntrocluçüo àquelas 1ai seria. na 'crda-
de , a respo ta de P rfiri a Plotino; p i . ·e este r 'rutar<1 as
ategoria d ~ Aristótcle fundado nas li ões de Platão sobre
o gêneros do ·er, Porfiri , n entanto. prct ndia harmo111/ar
a doutrina lóuica de ri tótelc e a teol ' g1 a de Plat5o. J\ 1sm
rc peitaria. enlim, a que tão que Porfirio formula no procm10
da lrn rog , ao perguntar e a categoria: do gêncro c da csp~ ­
cie existem m si me ma como rcalidad sou n.:sidcm 110 int ·•
lccto como conceitos, e ·e, existindo cm st mesmas como r \ 1-
lidad s, se manifestam apenas nas coi as oujú antes dc'>tas
o séc. V-VI , cm R ma, Boécio planeta vert r ao latim
e comentar todos e crit s de Platã e Ari ·tótclcs, a lim de
dcm n trnr o a ord da doutrina. de ambos. om as Cate
gorias de Ari tótclcs. porém. traduz também a l:wgoge d'
P rfírio e, daí. d para, na pergunta de Porfirio, um lugar cm
que Platão e ristótcl poderiam divergir, é que aquele
considerava gêncro e espécie como realidade · que se mani
festam ante da coi a , e e te, com rcalidad s que ·e mani -
fc tam na coi a . écul s ub eqücntcs, platônicos e
ari t télico contenderam obre a me. ma questão. ssim, o
rcali mo platônico de uilhcrmc de hampcaux ( ·éc. 1 XII)
foi revisto pelo conceituali mo de Pedro Abelardo (séc . 1-
XII), e o reali mo ari totélico de lberto o randc ( ·é . XI II),
pelo nominali mo de Guilherme de Ockham ( ' e. Xm- I ).

- 10 -
Ne a querela do universai , o nome do autor da Isagoge é
recorrente e central, de tal modo que se possa dizer, em exa-
gero, que a divergências dos escolásticos dependeram do
modo como cada um re pondcu à pergunta que Porfirio lan-
çara no cabeça lho de eu opú culo

DA lSACOGE

Em Atena , nos éc. V-IV a.C., o sofi ta Górgia de Le-


ôncio propunha três te e capitai : l ª que nada existe; 2" que,
ainda que existi e, cria inapreen ível para o homem; 3ª que,
ainda que fo e aprcen ível, contudo seria improfrível e
intraduzível. Em Pari , no éc. XIII d.C., Tomás de Erfurt
rc ume o preceitos de uma gramática fundada cm modo de
ignifícação. Poi o que di tinguc a palavra " dor", "doer".
"do loroso'' e "ai!" é, não a coisa que significam , que é sem-
pre a me ma, ma o modo como a ign ificam, que é a cada o

vez outro. Tai modo de ignificar, porém, corre pondcm a r


modos de entender, e estes, por sua vez, a modos de ser. A -
sim, para o gramáticos modistas, l" a coisas não ó existem.
mas existem de modo diferentes: 2° a e, ses modos de cr
correspondem modo de entender que permitem à inteligên-
cia apreender o que cxi te; 3° ao modos de entende r
corre pondem modo de significar que permitem à palavra
exprimi r o que e apreendeu. Em suma, Górgia e Tomás
posicionam- e de modo antagônico ante a me ma que tão, a
saber, a das re lações entre a coisa da natureza e a coisas do
homem, ou melhor, entre a f1 ica e a lógica e gramática.
Como, porém, a que tão saiu da Atcna do éc. V-IV
a.C. e chegou à Paris do éc. XIJI d. .? É verdade que Platão,
cm doi diálogo , rc umc as soluções provávei à que tão .
A im , no Teeteto trata a relação entre a coi as da natureza e

11
a ciência do homem. l " a c1ên ia ' que apre n<lcmos das
coi ·as p la ·cnsaçâ , que <l pende d sentidos,_ .. a c 1ên · ia ·.
o que apreendemos das e isa p lo julgamento, que depcnd ·
da alma; "a iência é o qu apreendem s das c01sa'> pd.1
razão, que depcnd ' do bom sens . As im também, no 'níti/o.
trata a r•laçã ntrc a 01sa as pala ras 1 a imp s1 ·ao
1

do n mcs à coi as é orrcta, porque algum lcgislado1 criou


o s n e ílaba · dos n mcs d acord com a cssên ·ia e natu -
reza da isa não passa
hom n mudam os nomes das ·01sas
u ·o. o entanto, de de o séc. l V d . ' ., o
Tim 'li, v rtid então ao latim por alc1dio, foi o ·ó te to de
Platão que circulou nas e e 1 ocidentai até séc. li d · ,
endo o mai da doutrina platôni a conhecido mdirctam 11lc ,
quer por alguma remini cência daquela, como as muitas qu ·
e liam em í ero (séc. 1a. .), quer por alguma sinopse, como
a qu clab rara Apulcio ( é . I 1 d . .).
ra, para ilcnciar a tran missão indir ta da questão, que
depende, por exemplo, da lógi a do e tóic s gregos d s séc .
TV-111 a . . (Zcnão, lcant ri ipo) e da intaxc d um
gramátic latino d éc. V-VI d . . (Pri ·ciano , pode-se dizi.:r
que te to que contribuiu direta e dccisi a mente para a for-
tuna da que tão foi ums ', rcdigid cm grc lO n séc. lll d .
e ertido ao latim no sé . -VI d. . : a Eisagog ·, e ri ta por
P rfirio e traduzida por écio. Tratava- e, a princípio, de
uma "Introdução'' à alegorias de ristót lc · e, daí, a toda a
doutrina lógica de te. No entanto, logo no cabe alho de seu
opú culo, Porfírio alude a alguma qucstõe r !ativas à dis-
tinção entre gêner e e pécie.
1º) A categoria do gênero e da e pécie e i tem cm · i
mesma como realidade ou re idem no intcl to om
a.--
conceito ?

- 12
2°) Se exi tem em i me mas como realidade , são corpóreas
ou incorpórea ?
3º) um e noutro ca o, manifestam- e apena na coi as ou
já ante das coi a ?
Ora, Boécio, por sua vez, acusa a me ma dificuldade nos
comentários que apõe à ua tradução da !sagoge. Daí, lido
nas escola ocidentai , Boécio é retomado. de um lado, pelos
"nomina li tas", i to ·, por aquele que con ideram que aque-
la categorias sejam conceito , e, de outro lado, pelo " realis-
tas", isto é, por aqueles que crêem que aquela categorias e-
jam realidade e a everam que elas existem ante da coi a ,
ou pelo "reali tas moderado ", i to é. por aqueles que crêcm
que aqu la categoria ejam realidade ma admitem que ela
coexi tam com a coisas. Ora, é a sim que Tomás de Erfurt e
po iciona ante es a "querela do univer ais"; poi , e
nominali ta foi uilhenne de Ockham ( éc. XHI-XIV d.C.).
e se realista, Guilherme de Champeaux (séc. XI-Xlf d.C.).
realista moderado, porém, foi Tomá de Erfurt. De fato. a -
im como admite que o modo de er coexistem com o er
da cai a , assim também admite que, nas pala ras "dor",
''doe r" e "doloro o", há modo de ignifiear vários que coe-
xistem com um significado invariável. Por is o, o gramáticos
modista admitem que e e modos de significar, que seriam,
antes, modos de con ignificar, correspondem ao modos de
exi tir, que criam, ante , modo de coexi tir.
A im, a fsagoge de Porfírio é texto que intere a ao lei-
tor de vário modos: ou como introdução à lógica e, como tal,
à filosofia toda; ou como síntese das soluções à que tão da
relação entre f1 ica, lógica e gramática; ou como transmi sor
do legado da récia antiga às e colas d idente medieval.
Em uma, a lsagoge depara ao lcit r valor prop dêutico, filo-
ófico e hi . tórieo.

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[ .... 11\ 1 1li ()

prcscnt di ã da lsagog<! foi preparada pelo Pr ir.


Dr. B nt ilva ant s. pr fcssordc Í' tlosotia da n1vcrs1da
de 1 deral do Rio d J.111c1ro ( FRJ). a "lntroduçao". B 'nto
situa a Irngoge, primcir , no percurso filo ·ófi de Porfíno
e, dcp i. , na fortuna hi-.lóri a da obra. Assim, mostra, pn
mcir , como P rfírio diverge de <;cu mcs lre, PI tino, ao pr ·
tcnd r con iliar a 1•gica de rist · tele · corn a ontolog1a d~
Platã . Dcp is, as inala, d um lado, os precedentes da:-. Ca
tegoria de Aristóteles, que tariam no nfista d PI< tão , m
que e exp-em os inco gênero do er, do m vim 'n to, do
rep u o, d idêntico e do d1ferent . e, de outro lado, o:-. tr0s
ní e1 de validade das categoria ari ·totélicas, a saber o
ontológ1co, 1•gico e o gramatical. nftm, as. inala, de um
lado, as questões de Porfíri relativa às categorias dos u11i-
ver ·ai , daí, explica como cs as qu tõe ·se e nvcrtcram, a
partir do . éc. L na querela dos uni ersais, acerca da qual
di ·pularam Ans lmo e Rose lm , Alber10 randc e Gu1
lherme de Ockham . De outro lado, lembra que a lsagoge é JÚ
e m ntada pelo~ platôni s gr gos, por exemplo, por Oavi e
Am • nio, e que, além d ter ido traduzida a latim p r Mário
Vit rino e Boé io, foi-o também a iríaco e, daí, ao árabe,
comentada po tcriormente por Alfarabi e Averróis.
A tradução foi fi ita diretamente do texto grcg , a partir
do cotejo de vána · ediçõe crítica , mai · recente , com a A.
de Libera e .-P. egond (Pari : 199 ), e mai antigas, e mo
a d A. Bu e (Berlim : l 7). Os comentário a te'i.t fa -
zem- e por notas marginai . Nesta , Bento
h1do, o termo grego do original, a fim de xplicar o valor
técnico que têm no jargão da lógica. Recupera, ademais. as
explanaçõe do comcntadore mai antig . quer grc •as

14
corno as de Elias, quer latinas, como as de Boécio, o que per-
mite ao Leitor moderno compreender como o texto foi recebi-
do por aqueles. Enfim, faz a recensão da crítica moderna, re-
correndo às opiniões de A. de Libera, C. Panaccio, J. Pinborg e
outros, o que pennite ao leitor moderno entender como a Isagoge
de Porfirio é boje apreciada pelos lógicos e lingüistas.

Os editores

15
lNTTu DUÇÃO

Porfirio na ceu em Tiro em 233/234 d. ., antiga cidade da


Fenícia, como se deduz de ua obra Vila Pfotini (capítulo 4 e
7), tendo ido primeiramente discípulo de Longino cm tcna .
Em 263 d. . e teve cm Roma para cguir o en inamento de
P lotino, período em que seu pen amento atingiu a maturidade.
O estudio os as ina lam que Porfirio e teve ujeito a profun-
da cri e de dcpres ão , o que o teria levado a de ejar o uicí-
dio. Aconselhado por Plotino, Porfirio deixou Roma para ins-
talar-se na icília, em Li libeu (hoje Mar ala), onde teria reen-
contrado seu equilíbrio e piritual. É durante o pcrí do iciliano
que Porfirio produz grande parte de sua obra. cgundo o e tu-
do de f 1. O. afTrey, a dcprc · ão de Porfiri cria na verdad
uma cnsc intelectual que e originou do seguinte fato 7 : o ata-
que à filosofia de Ari tótele , ou mai preci amente, a crítica à

1 obre a "cnfcnnidadc" de Porfírio, cf. R. Goulct, Variationç romanes-


queç sur la 111é/a11 olie de Porphyre, Herm s 11 O ( 1982) 443-457.
2 f. 11 . D. affrcy. Pourq1101 Pmphyre a-t-il édité Plo1i11 ?, cm Bris ·on,
L.; hcrlonncix cl al11 (cd .) Pmphyre. la v1e de Plotin li : Études
d 'i11trod110011, te.\ te grec el lraductlon fi-lmçaise, ('0111me11ta1r1:, notes
complémentaires. hihliograpltie. Paris, J. Vrin, 1992, 38.s .

- 17 -
doutrina das Ca1egorim3 fçita ror Plot1110, seu ml!shc que
1
as considerava só do ronto de vi-;ta onto lógi · çm seu
ensinamento obre os gêner<J\' cio ser, condu/lram-no a um
po. 1cionamcnto de defesa da obra aristoté lica: neste sentido,
Porfírio repropõe a doutrina das Categorias e as discute do
ponto de v i ta lógico, considerando-a~ de grande utilidade nesta
e fera. A im, cm Li libcu, Porfírio compôs dois comentários
à ategorias, no quai defende "tudo aquilo que Plotino
criticara cm cu tratado" obre os gêneros do ser e, nesse
me mo e pírito, redige a fsagoge. Nc te entid , este opúscu-
lo é um texto que e insere no c lima coletivo de rcai;ão dos
dj cípulos de Plotino à sua crítica da Categorias de An-;tótclc".

~tratado sobre a~ ategona1· contém algo que corresponde apro-


"\imadamcnte ao c:,,tudo do elemento mais simples da lól!1ca h.tc tra-
tado fa7 parte do conjunto dos escritos lógicos de Aristótcb designa-
do sob o nome de Orga11011 ( i11str11111e1110). que ~e compõe das se-
guintes obras: Sohre a fnlerprdaçiío (acerca do JUÍ/O e tl:i propos1 ·
çâo). A11alí11cos 111tenores (sobre a teoria e as prop11edacl ·s dos
ilogismos). Analíticos Posteriore~ (trata da dcmonstiação c1cntí fica e
da teoria da definição e da ausa), Tópicos (o método da argumentação
geral, aplicável cm todos os setores, na~ discLhSÕ~s. prát ea~ e no cam-
po científico), Elenco.\ wji\t1cos (tipos principais de argumentos cap-
ciosos). A Categorias, obra sobre a qual Porfino dedica sua fsa~oge,
são. do ponto de v1 ta da lógica, os supremos gcncros aos quais dc\C
ser remis ·ível qualquer termo da proposição, como a~~cvcra o próprio
Ari tótelc : "Das coisas ditas sem combinação alguma, cada uma de-
la significa ou a suhstâncw (ousía). ou a q11a1111dade (JJ01ú11), ou a
qualidade (poion), ou a relaçüo (JJrós ti), u o onde (poli), ou o qucm-
do (poté), ou o ~er 1111111a posição (keistlwi), ter (ékhein). ou o fazer
(poiei11), ou o padecer (páskhei11)" ( alegorias 4, 1 b 25-27).
4 Acerca do sistema aristotélico das catego1ia~ cm Plounu, \Cr . Reale,
História da Filosofia Antiga 4: As Escolas da Era Imperial. ão Pau lo.
Loyola.1994, 47 ls: "O sis1ema aristotélico dascmegoria.rn<io rale para
o incOJpóreo". Plotino estabelece. portanto, a · cinc ldéias gencra J íss i rnas
do Sofista de Platão como tábua das categorias do incorpóreo.

- 18 -
E te aspecto não platônico da lsagoge é paradoxal e corresponde
a um projeto intelectual evidenciado por Ch. Evangcliou, S.
Ebbe en e Alain de Libcra 5•
Ainda que Porfirio tenha escrito muita obra na inten-
ção de conciliar Platão c Ari tótele , ua importância reside
na "recepção" medieval da lsagoge, onde cm uma célebre
passagem dá origem a conhecida querela dos Univer ai . O
principal responsável desta di puta filosófica são a tradu-
çôe latina e o comentários de Boécio (ca. 480-524) 6• a
última fa e de ua vida. conduziu uma á pera po lêmica con-
tra os cristãos, da qual e originou o tratado Contra os cris-
tãos (cm 15 livro , do quai existem apenas poucos frag-
mento ). m suma, o e pírito e pcculativo de eu me trc
Platino foi predominante em Porílrio, mesmo que cm sua

5 Cf. h. vangcliou . Ar11to1/e :\· ategories and Porpfnn·. Lcidcn.


E.J. Brill. 1988 (2 J 996), 164- 181; S. 1-bbc-;i:!n. Porpf11rv :\ l egac:r to
Logic: a Recomtr11ctio11, cm Sorabji (cd.) Aristorle Tnmsformed. Th e
Ancient Commentarors and Their J11flue11ce. lthaca /Ncw YorJ..., Corncll
Univcr~ity Prcss. 1990, 141 - 171. A. De Libera & A.-Ph . 5cgond~.
Porphy rc fsagoge . Pan!., J. Vrm, 1998. Vil-XI 1.
ti A propósito da íntcsc de P. LEITE JU IOR. O problema dos U11i-
1·ersais 1 per.\ pectiva de Boécio. Abelardo e Ocklwm. Porto Alegre,
Ed1pucr~. 200 1, 3 l-39 : quando trata da questão dos Uni ver ais cm
Boécio, o autor não menciona o fato de que as distinções de Porfirio
sobre o termo '"communis" constituem as fontes do próprio di cur o
de Boécio. Ora, o mérito de Boécio consi. tirá precisamente cm ter
aplicado diretamente tais distinções ao problema dos Uni ver. ai . Além
d1s o, não há qualquer ênfase acerca do argumento do regresso ao in-
finito . Não obstante esta observação crítica. o autor soube disaticamcnte
articular a principais fases da Qucrda do!. L niversais na Idade Média
Latina . Além disso, deve-se loU\ ar a excelente tradução dos textos la-
tinos traduzido~ para o português.

1<) -
juventud este tenha feito uma concessão à tcurgia' cm sua
obra obr a rolra da alma~. Morre cm Roma provavelmente
no ano de 305.
Uma vez coo idcrada brevemente a v1c.la de P rfirio, pa -
emo ao exame sucinto da ua obra cm que tão : a Irngoge.

1. fsagoge: introdução à Categorias de Aristótcl s


A obra intitulada lsagoge da autoria de Porfirio de Tiro
foi e crita com toda probabilidade na Sicília entre os ano
26 e 270 d. . durante o período ucessivo à sua permanên-
cia cm Roma, junto à escola neoplatônica de PI !1110 para
re ponder à olicitações de ri aório, enador romano, que
encontrara dificuldades na leitura das Categorias c.lc Aristó-
te le . O breve opú cu lo é igualmente conhcc1c.lo sob o título
Sobre as cinco vozes, em referência à cinco noções

7 A teurgia é a "sapiência" e a "arte" da magia utili/ada para finalida-


de~ místico-relig1osas. Diferentemente do "teólogo", que se l1111ita\<1 a
falar da divindade, o "teurgo" evoca os Deu · e~ e age sobre eles at1avcs
do uso de s1mbolos. orno prática. a tcurgía foi estabelecida no~ Orúrn-
/01 aldaicos por Juliano. cognominado "o Teurgo". filho de Juliano,
dito "o aldeu", que viveu no sécu lo II d.C. Através do~ Orâ ulos
Caldaicos, a prática teúrgica espalhou-se amplamente na Anugüidade
tardia. Um dos cu principai defensores foi Jámblico de 'álc1de . filó-
ofo neoplatônico, que nasceu em tomo da metade do século !1 1 d . e
morreu no terceiro decênio do éculo IV Sua célebre obra "Os mistérios
dos Egípcios" é um tratado de caráter filo ófico-tcológico-tcúrg1co-re-
ligio o em favor da teurgia contra as objeções de Porfirio consignadas
na Carta a Anebo ( acerdote egípcio).
8 Segundo a revalorização dada ao Porfirio filósofo no âmbito da
metafisica. ele admitiu a eficácia da tcurgia em ni\ cl inferior, embora
a tenha criticado à luz do princípio da impassibi 1idade divina e da 1nd 1-
ferença dos deu e a qualquer tipo de ação humana (cf. G. Reale, llis-
tória da Filosofia Antiga 4 , 55 ss. 546 ).

20
ari totélicas considerada : gênero, e pécie, diferença especi-
fica, próprio e acidente. Ao termo lsagoge traduzido como
"introdução'', Porfirio não deu um significado técnico, ma o
con iderável influxo exercido no âmbito da lógica ucessiva
fez com que o vocábulo adquiri e um significado e pecífico
no cursus st11diorwn filo ófico. O comentadore antigo
(Amônio, Elia , Davi) ugeriram que a lsagoge podia a u-
mir uma função bem mais ampla em relação às próprias in-
tençõe de Porfírio: uma introdução à categoria pode ervir
como uma introdução ao método dialético e à lógica cm ge-
ral ; além di o, como uma propedêutica à filo ofia cm geral.
Todavia, a importância da Jsagoge, considerada em i me -
ma, pode ser rc umida cm quatro ponto : a) a codificação da
doutrina do prcd1cávci ; b) a inequívoca po ição em relação
ao univcr ais; c) o remetimento aos nexo metafí ico
ontológico e hcnológico ; d) a construção da árvore lógica.
Quanto ao termo kategoría, dcvemo fazer alguma ob-
ervaçõe . Ante. de tudo, o termo como tal é polivalente. O
ignificado lógico que e deduz sobretudo do Organon de
Ari tótcles, e parti cu larmente do tratado que traz j u tamente
o título alegorias, é muito parcial. Embora ri tótcle eJa
o criador do termo e do conceito "categoria", a gênese da
problemática encontra- e na ontologia e na dialética de Platão,
e pccialmente na doutrina do Sofista obre os cinco gênero
uprerno do er, do Movimento, do Repouso , do Idêntico e
do Diferente. A tradução latina de Boécio, obre a qual e
fonnou o pensamento medieval, impô , porém, a interpreta-
ção de "categoria "como "prcdicamento "e induziu ao erro
hcrm nêutico d crer qu e te eja pr ci amente o seu igni-
ficado principal. Desde a antigüidade tardia, pa ando pela
Idade Média e pelo Rcna-,cimcnto, até a Idade Mod rna,
categoria a sumiram três nívci d validez:

- 21
1. primeiro é o TOL óc11co no sentido de que a dc7 cate-
gorias constituem as divisões orig111úrias do ser e, por-
tanto, aquilo pelo qual o ser originariamente se distin-
gue: antes de tudo, a ub ·tância e os modos de ser que se
referem à substância.
2. egundo nível é LOC,rco que, e treitamcnte ligado por
Ari tótele àquele ontológico, interpreta a dei categoria..,
como as noçõe upremas e o gêneros upremos aos quais
devem er referido os termos no quai decompõem o
juízo lógico, ou seja, a propo ição : ujeito e predicado.
3. O terceiro pode er qualificado como ur-.c,u1s·r1nHIRAMo\-
ncAL e vê nas categoria a modalidades segundo as quai'i
e e trutura uma determinada língua, e que correspondem,
segundo Adolf Trcndelcnburg, a partes do discurso: a) a
categoria da "substância" (ousía) corre ponde ao substan-
tivo; b) o "quanto" (posón) e o "qual" (poíon) correspon-
dem ao adjeti,o; c) a " relação'' (prós ti) tem um significa-
do mai amplo daquele que pode exprimir o comparativo
relativo, ma traz seguramente cm i traços de inflexões
gramaticai : d) o "onde" (poú) e o "quando" (poté) corres-
pondem, ao contrário, ao advérbio de lugar e de tempo;
e) as última quatro categorias e encontram no verbo: o
"agir" (poie1i1) e o" ofrer" (pávkhein) exprimem a voz. ativa
e a voz pa iva do verbo, o "jazer" (keístlwi) xprime, ao
menos, parte do intran itivo , e o "ter" (ékhein) as particu-
laridade do 'perfeito grego'.

Em resumo, a interpretação que se deduz dos textos


aristotélico , e particularmente da Metafisica, é preci a mente
a dimensão ontológica: a categorias são, em primeiro lugar,
as upremas figura do er e, em egundo lugar. ão suprema
predicaçõe e, po11anto, figura lógica ; em terceiro lugar, e
necessariamente, têm uma relevância gramatical preci a.

22
Como e depreende do limiar da lsagoge, a interpretação ló-
gica é ponto de partida de Porfirio, pros eguindo com Boécio
na Idade Média mediante uma complexa articulação e uma
rica gama de matize 9 .

II. A querela do univer ai


objeto, pre upo to e paradoxo
A querela dos Univer ai é um tema privilegiado para
conhecer a Filo ofia Medieval, já que a disputa vai de de o
éculo III d . . com Porfírio de Tiro (ca. 233-305) até Gui-
lherme de ckham (ca. 12 5-1347) no século XIV. proble-
mática é a .. az complexa e origina- e das três que tõe colo-
cadas por Porfirio no limiar da lsagoge acerca da contradi-
çõc que minam o platoni mo e o ari totcli mo 10 :
1. Se o gênero e as e pécie ão realidade sub i tentes
em i me ma ou se consistem apenas cm imple con-
ceito mentais;
2. ou, admitindo que ejam realidades ub i tent , se são
corpórea ou incorpórea. ;
3. neste último ca o, e são cparada ou e cxi tem na
coisa cn íveis e dependem dela .

egundo a abordagem tradicional, tai que tõc remeteriam


a po ições filo óticas preci a designada como "realismo" e
"nominalismo" com a ua re pectivas di tinçõe fo1jadas na

9 f. . Reale. Guida a/la leitura dei/a "Afeta(lsica di An\/otele.


Roma-Bari, Latcrza, 1997, 123-125.
1O f. A. De Libera, La querei/' deJ 11111\"ersaux De P/ato11 á lafi11 du
Moven Age. Pans. cud, 1996, 11-65 .

- 23 -
ldade Média : realismo exagerado 1 e n.:alJsm modcrado 1';
conceptualismo e nominali mo pur 1'. primeira qucstà ( t ·')
contrapõ a alução realista a uma solução 110111í1w/i.\ta (ou,
e quiscrmo ', na forma moderada <lo co11ceptua!is1110 14 ). A
primeira solução se liga originariamente à te ·e platônica, se-
gundo a qual os gêncros e a espécie · existem cm si mesmos,
acima e fora do indivíduos 1 ~; a egunda, aos sofistas e aos
cético 16 . A egunda que tão (2ª) contrapõe, por ua ve/, a

11 Esta po ·ição, cara a Platão e aos platônicos, sustenta a C'\istência


das realidade universais, que existem como tais indepcndcntcmcnte
da atividade cogno citiva humana.
12 cgundo esta po. ição, os termos universais referem-se ú n:alidad
concreta e singular, na qual, p rém, existe alguma co1,.11calmen1c um
versai. Csta é a posição de Anstótele ·,dos anstotélicos, e de 1 omás de
Aquino no século XIII.
13 Para os nominalistas a universalidade não se encontra nas nossas
idéias, ma~ somente nos "nomes", isto é, nas palavras, nos signos e
ímbolos; cm suma, na linguagem . O representante mais conhcc1do
desta posição é uilhcm1e de Ockham : o universal cm ato só C.\.1stc no
intelecto, ou cja, ele é gerado diretamente das coisas na mente do
' UJeito cogno ccnte. Cf. A. Gh1 alberti, Guilherme de Odham (1rad.
Luís A. de Bom). Porto Alegre, Ed1pucrs, 1997, 79.
14 Associar o concepwalismo à te ·e "aristotélica" afirmando que "as
idéias gerais existem somente no e. pínlo" significa desconhecer o fato
de que a posição de Ari tóteles não é tão homogênera como sempre. e
pensou; ora, um aristotelismo "autêntico" permaneceu por muito tem-
po como uma doutrina egundo a qual o Universais são, ao contrano,
fonnas "fundadas na coisas" (cf. a ambigüidade conceituai sobre "os"
univer ais no De 111tetpretalione 7, 17 a 39-40).
15 Esta identificação não consubstancia, porém, a gêncse do realismo
medieval, que é construído contra a imagem indireta e até mesmo
caricatural que tem da doutrina platônica das ldéias separadas.
16 Ainda que corretamente se relacione o nomi11alis1110 à tes de
Anlístenes ("eu vejo o cavalo; cu não vejo a cavalidade"), o 11omi11afis1110
medieval como po ição filo ótica de conjunto introduz a problcmátt-

24
po ição platônica, por a sim dizer, realista espiritualista àque-
la realista materialista do e tóicos. nfim, a terceira ques-
tão (3ª) contrapõe expres amente a posição reali ta exagera-
da do platônicos ao realismo moderado de Aristótele .
Metodo logicamente. não devemo a ociar diretamente
o conjunto da problemática do Univer ai à três questôc de
Porfirio. Sendo a sim, de onde proviria então o "problema"
que os Medievais designaram como "Querela do Univer ai "?
Terá ido o texto fundador da 1 agoge de Porfirio no século
llI d.C. que fez eclodir te es forte chamada "nominali mo"
e "reali mo"? upondo, porém, que o "problema dos Univer-
ai " cja um corpus estranho à lsagoge, o movimento com-
plexo da exegese do conjunto do corpus ari totélico, que vei-
cula um platoni mo rc idual, terá id então o rc pon ávcl
pelo emaranhado de conceito , de objeto teórico e de pro-
blemas dos quais o pen amcnto medieval extraiu, como uma
de ua figura po sívci , o problema dos Universai ? É pos-
sível "ilu trá-lo" intuitivamcntc? 17 Enfim, o problema se re-
duz à entidades historiográfica de ignada ob a formas

ca da pcrccpção no âmago da problemât1ca dos Universais, e essas


dua. problemáti a se recn ontram preci amcntc só no nommali mo
do . é ulo . IV.
17 fala é a te e de P. V. pade, J111roductio11, cm J. Wycli f. 011 Unil'ersals
(Tractatus de 1111i1·ersalih11s) (tr. . Kenny). Oxford, larendon Pre s, 1985,
XV-XVII 1. a realidade, a "ilustração" do autor reflete uma problemática
já con-;utuída e uposta filo. oticamente no sentido do nominali mo. Exis-
te tão somente um só problema: o nominalismo de Guilherme de Ockham,
que não é uma filosofia da semelhança. nem sua teoria dos Universais é
uma antecipação do empirismo clâss1co. A propó. ito do nominalismo de
Ockham. cf. T. Andn!s, E/ 110111inafim10 de Guillermo de Ockha111 como
filosofia dei le11g11aje. Madrid, rcdos, 1969; C. Michon, Nomi11alisme.
la théorie de la sig11ijkatio11 d 'Occam Paris, J. Vnn, 19 4 .

- 25 -
de "r alismo" e "n minalismo" ou rcm1,:tc a div1.:rsos domíni-
os u di ·ciplinas mai · fundamentais que concernem às rela-
ções entre er, linguagem e pensamento, tai~ corno teoria da
pcrccpção, ontologia do, qualia. teoria da cogn ição, semânti-
ca e filosofia da linguagem?
egundo a conclusões a que chegou Alain de Libera, o
problema dos Univer ai é uma figura de debate que, desd~ a
antigüidade tardia, opô e uniu ao me mo tempo platonismo
e aristoteli mo. Po ições historiográficas re tringiram a ques-
tão ao conflito entre realistas, conceptuali tas e nomrnalisla'>
e, as improcedendo, fizeram com o que o problema dos ni-
ver ais e toma e um problema eterno, uma que tão qu atra-
ve saria a história para além "das rupturas epistemológicas,
da revoluções científica e outras mudanças da ep1sté111e" .
e de cerni os, porém, à esfera do corpus filo 'ófíco e aos pro-
cedimentos das tradições interpretativas, verificaremos que a
estrutura problemática imposta ao Universais pela tríplice
po ição doutt;nal do reali mo, do conceptualismo e do nomi-
nalismo é a que a e colá tica neoplatônica tardia (séculos V c
Vl), impô , primeiramente, como chave de leitura, às ale-
goria de Ari tótelc . A que tão que se coloca, portanto, é a
seguinte: como e por quai razõc esta chave de leitura pa -
ou das categoria ao Univer ai ?
orno dizíamos anteriormente, entre o com ntadorc an-
tigos de Ari tótele , existiam três teorias acerca da natureza
da categorias: em primeiro lugar, a categorias ão conside-
radas como phonaí, isto é, ons vocais; cm egundo lugar,
como ónta, eres ou ente ; em terceiro lugar, como noémata,
noemas ou noçõe , ou, como diríamo hoje, "objeto s de pen-
samento". Esta tríplice definição dada à categoria reapare-
ceu na ldade Média, e a evolução desta tríade - mediante a
adaptação de vocabulário e da ílutuações terminológica (sob

26
a fonna de palavras/nome , conceito e coi a ) 1R - sugere que
por trá das entidades historiográficas (realismo, conceptua-
lismo, nominali mo) existem escolha e articulaçõe disci-
plinare (ontologia, p icologia, emântica) que condensam
todas as que tões conexas e verdadeiras do problema dos
Universais: da teoria da percepçâo à teoria da cognição. O
problema do Univcr ai e desenvolve à base da exegese da
Jsagoge cm liame com a exegese das Categorias, desde a
Antigüidade tardia até o final da Idade \1édia. A grandes
opções filosóficas obre os niver ais e decidem na teoria
da Categorias e cm cu texto atélitc como, por exemplo,
o comentário de cverino Boécio, que fez com que o Uni-
ver ais entra cm na esfera ontológica da filosofia 19 •
e Porf1rio e absteve de abordar a que tões mai ele-
vada , e pccialmcntc daquela que ver ava sobre a natureza
dos igni ficado dos Predicáveis, o projeto teórico da Jsagoge

18 O termo plwnaí, traduzido ao latim por mccs (sons vocais) deu lu-
gar progre sivamentc a outros termo : ser1110. 110111e11 (cm Abelardo).
ter11111111s (com a lógica "termm1 ta" do século Xlll) e rcrmi1111s 1·ocalis
(com os nominalistas do sécu lo IV) ; o termo noémata foi substituído
por co11nptm. i11te11tumes ou por outras expressões mais próximas de
Aristóteles, tai · como a[!i!ctio11es ou passiones ww11ae, ou term11111s
111e11tali~· no sécu lo XIV; enfim, o próprio vocábulo ó111a deu lugar, por-
tanto, ares (coisa). Cf A. De Libera, la querei/e des 1111iversa11x... , 48 .
19 Um exemplo pm ileg1ado do liame entre a problemática dos Univer-
sais e a doutrina da categorias é a controvérsia entre Abclardo e Albcri-
co obre a categoria de .rnhstâncw. Ambos interpretam diferentemente o
texto de Boécio, e a posição que cada um assume mo. tra a ambigüida-
dcs do complexo aristotélico-neo-p latonico na história medieval dos Uni-
versai!>. f. J. \llarcnbon, Ví>cali.\111, Nominaltsm am/ tlw Co111111entane.1
011 the · aregorics 'jirm1the Ear/1er fo ef/t/1 Ce11111ry, Virnriw11 301 1( 1992)
51-6 l ; cf. também do mesmo autor, The Philvsophy of Peter Ahelard
ambndgc, ambndgc 111vcrsity Press, 1997.

27
veiculava, antes de tudo , uma te e vocalt ta (n minalista), ten-
dência confinnada pelo neoplatonismo tardio. problema
d Univcr!>ai não emerge, portanto, do projeto teórico da
1 agoge, que con i tia cm uma prop dêutica às Categoria de
Ari tólele , isto é, às cinco voze : gêncro (gé11os) , e pécic
(eidos) , diferença (diaphorá), próprio (ídio11) e acidente
( y mbebekó ). cndo as im, a célebre querela medieval do
Univcr ·ai abrange um complexo de qucslÕe!> que, ao longo
do movimento da exegese do conjunto do corpu~ aristo télico,
e concentraram em torno da J. agoge de Porfírio, cujo texto
foi apena um pretexto da "prob lemática". ão cria oca"º·
então de encontrar a contribuição específica de cada doutrina
- a de Platão, a de Ari tóteles e a de Porfírio cm uma rcd
complexa na qual, a partir de Boécio, cada posição filo ófica
perde paulatinamente seu teor originalr0

III. A fortuna da lsagoge na hi tória da lógica


da Antigüidade tard ia, árabe e medieval21
A Isagoge de Porfirio foi traduzida ao latim (por Boécio ),
ao siriaco, ao árabe e ao armênio, tendo influenciado não só
a Antigüidadc ma também a Idade Média. O primeiro co-
mentário da Isagoge deve-se provavelmente ao filó ofo
neoplatônico do éculo V-VI d.C. , Amônio, filho de I lcnn iasn

20 Cf. A. De Libera, A Filosofia Medieval. ão Pau lo, Loyola, 199 , 436


21 Para um desdobramento desta temática na Idade Média, cf.
Krctzmann, N. ; Kenny, A. & Pinborg, J. (ed.) La logica nel medioevo.
Dai/a riscoperta di Aristotele alia dissoluzione dei/a Scolastica (1100-
1600) . Milano. Jaca Book, 1999.
22 Cf. Amônio, Ammonii in Porphyrii lsagogen sil'e quinque voces
(ed . A. BUSSE, "Commentaria in Aristote lcm Gracca", volume IV.
parte 3) . Berlin,Georg Reimer, 1891.

- 28 -
(discípulo de Proclo), que justapôs o opúsculo de Porfirio ao
estudo geral da lógica aristotélica. Nesta linha colocaram-se
também os comentadores gregos sucessivos: Olimpiodoro de
Alexandria do século VI d.C. (cujo comentário à Isagoge per-
deu-se) e seus discípulos Davi 23 , fíló ofo neoplatônico da se-
gunda escola de Alexandria que viveu entre os éculos VI e
VII d.c. , e Elia 24 , filósofo pertencente também à egunda es-
cola de Alexandria que viveu na segunda metade do século
VI d.C. Acre cente-se ainda um ulterior comentário à Isagoge,
atribuído por alguns a Elia , por outros a Davi. Daí o nome de
P eudo-Elias ou P eudo-Davi 25 .
A filo ofia árabe apreciou a interpretação unitária de Platão
e Aristótele feita por Porfirio em sua Isagoge: a pru1ir das tra-
duçõc de lbn al-Muqaffa e Al-Dima qi, aparecem numerosos
comentários arábc , do quai o mais importantes são os de
Al-Kindi, Al-Farabi eAvcrróis 2". Alsagog foi traduzida, como
dissemos, na Antigüidade tardia, ao siriaco e ao armênio.

23 Davi , Davidis Profegomena el in Porphyrii lsagogen Commentarium


(cd. A. Bus e, "Commentaria in Aristotelem Gracca", volume XVUI ,
parte 2). Bcrlin, G . Rcimcr, 1904.
24 · lia , Eliae i11Porphyrii1 agogen et A ristotelis Co111me11taria (ed.
A. Bus 'C, "Commentaria in Aristotclem Graeca", volume XVlll, parte
1). Berlin, G. Reimer, 1900.
25 Cf. L. G. Westerink, Pseudo-Elia (Pseudo-David). Lecture 011
Potphyry slsagoge. Jn1roduction , Text and lndices. Amstcrdarn ,North-
Holland Publishing Company, J 967.
26 Cf. h. Evangcliou, The Aristotelianism o/Averroes and the Prob-
lem of Porphyry' fsagoge, Pliilosophia 15-16 (1985-1986) 318-33 1;
K. Gyekyc, A rab1c Logic. lbn al-Tayyib s Co111111e11tary 011 Porphyrius'
Eisagoge ( tudics in lslarnic Philosophy). Albany, Ncw York, 1979; R.
Ramón , Al-Farahi lógico: ua exposición de la Jmgoge de Porftrio,
Revista de.filosofia nº 3 (l 990) 4 -67.

29
No idenle latino-medieval, a lwgoge de P rfirio cxcr-
c u considerável influxo. Foi graças a Porfirio, através de seu
egundo tradutor latino, Boécio' 7 (o primeiro foi Mário
Vi torino, 370 d. .)28 , que o princípios da lógica penetraram
de de o século V, ant me m do renascimento do filosofia
d Aristótelc , no âmbito d pen ament medieval. . bbcsen
evidenciou que toda a obra lógicas pós-porfirianas, mt: -
mo quando e referem à obras lógica pré-porfírianas, de-
pendem e truturalmcnte de Porfirio 29 • No entrecruzamcnto de
duas tradi õe - platonismo e ari toteli mo Porfírio recu-
sará no limiar da lsagoge empenhar- e em uma pesquisa difi-
cil e formula questões que Pedro Abelardo conhecerá através
da tradução e dos comentários latinos de Boécio. Apre cu-
pação medieval acerca do tatus ontológico e.los Universais
deve-se às ob crvaçõe de Boécio ao t xto da I.<wf?;o ~e. e foi o
comentúrio de Boécio que produziu fundamentalmente na
Idade Média latina a querela do Univcrsai ·.

27 O programa enciclopédico de Boé io (ca. 4 0-524), exposto cm


seu Co111m e11atarii in librum Aristotelis Perihenne11eias, consistiu cm
traduzir ao latim e comentar toda a obra de lógica, moral e fí~ica de
Ari tóleles e, cm seguida, fazer o mesmo com a obra de Platão para
demonstrar, a partir de urna per pectiva fortemente marcada pelo
neoplatonismo . a compatibilidade ubstancial entre platonismo e
aristotelismo no quadro de um projeto unitário do saber humano . Nes-
te sentido, em seu Segundo Comentário sobre a 'fMgoge ·de Po1jirio,
Boécio formula uma teoria que ele atribui a Alexandre de Afrodisia,
segundo a qual os gêncros e as espéc ies " só exi tem nos indivíduos,
mas são pensados como univer ais". Cf. L. M. De Rijk, Boece logicien
et philosophe: ses positions sémantiques et sa méwphy sique de/ "étre,
cm Obertello, L. (ed .) Atti. Congresso i11ternazio11ale di studi boeziani
(Pavia, 5-8 ottobrc 1980). Roma , Hcrder. 1981 , 141-156.
28 Cf. P. Hadot, Porfirio e Vittorino . Milano, Vitae Pensiero, 1993.
29 Cf. nota 5.

- 30 -
Se existe, portanto, acordo unânime em dizer que Porfirio
exerceu grande influxo na posteridade, o mesmo não acontece
nos tempos modernos. Ora, excetuando o trabalho de A. C.
Uoyd 30 , pouco foi feito para reconstruir o Porfüio lógico. Pres-
supondo que Porfirio tenha sido um pensador coerente, é pos-
sível integrar as observações de sua breve Isagoge e de seu
comentário às Categorias (que chegou até nós, exceto a últi-
ma parte, aquela concernente aos capítulos 10-15) com as dou-
trinas consignada cm obras mais vastas, infelizmente perdi-
das, porquanto cja possível recuperá-las através de autore
posteriorc . As obras perdidas tiveram influxo decisivo na in-
terpretação posterior de Ari tótele , mesmo que muito cedo
se tenha abandonado a leitura da obras de Porftrio, exceto
aquela que chegaram até nó . Quando autorc da Antígüida-
dc tardia e medievais e perguntavam " Que coisa pensa
Porfírio?" entravam freqücntemcntc em desacordo poi pro-
curnvam a respo ta ó nas obra concisas, onde os argumen-
tos eram deliberadamente mais implificados.
Porfirio considerou o Organon como um cur o si te-
mático de lógica c julgava que as Categorias diziam respei-
to à cxpressõe simples enquanto significativa , isto é, à
estrutura da realidade que no sa linguagem pres upõe, que
poderia não ser a estrutura que aceitamos enquanto pensado-
res metaff icos. A linguagem é fundamentalmente um instrn-
mento de comunicação que concerne ao mundo da experiên-
cia, e a lógica e tuda o modo pelo qual funciona esta comuni-
cação; cria errôneo criticar a lógica ari totélica por ser uma
má metafísica, já que nunca foi entendida ab olutamente como

30 Cf. A . C. Lloyd , Neoplatonic fog ic c111d Aristotehan logic, Phronesiç


[ {J 956) 58-72. 146- 160.

31
uma meta 11. ica; por essa ratão, ·ustcnta Portirio, Ar istótelc ·
não errou cm con idcrar os indivíduos anlcri rcs aos uni-
vcr ai quando estabelecia a catcgona da substância, e bem
que um metafísico teria eguid a ordem invcr ·a. :
irrelevante, ao me m tempo, ·aber se e'Xrstem u não reali-
dade mctafí icas que correspondam aos universais da lóg,i-
ca. Porfírio julgava que cxi tiam tais realidades , ma<> pensa-
va também que a lógica funciona e cm ambos o<> casos.
ta epara ão radical entre lógica e ontologia não fi i devi-
damente compreendida ou aceita pelo autores cscolá<;tico
po teriores 31 •
Em re umo, a/. agoge é mai do que uma 'iimplc teHe-
munha da hi tória da doutrina , na qual encontraríamos um
quadro relativamente preci o acerca da evolução dos intcrc -
ses filosóficos da Idade Média, das mudança de estilo, dos
métodos e da linguagem teórica . etc .. Trata-se, enfim, de
um ''ob ervatório da· mentalidades teóricas. um revelador Jos
paradigmas cpistêmicos" 37 •

31 Cf. S. Ebbesen. La logica scolastica de// 'a111ichità come fonte dei/a


/ogica scolastica medievale, em Kretzmann , N.; Kcnny, A. & Pinborg,
J. (ed .) La logica nel medioe10, 22-25.
32 A. De Libera & A.-Ph. cgonds, Porphyre. Isagoge, CXL.

32