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Chana de Moura Práticas Cosmovisionárias: a Descolonização da Natureza e o Papel das Narrativas Utópicas

Chana de Moura

Práticas Cosmovisionárias: a Descolonização da Natureza e o Papel das Narrativas Utópicas na Arte Contemporânea

Artigo apresentado à disciplina Seminários de Metodologias de Investigação I Professor: Diniz Cayolla Ribeiro

Porto, 2019

Resumo

Ao longos dos últimos séculos, as atividades humanas passaram a ter um impacto

intensamente destrutivo no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossistemas.

Cientistas apontam para catástrofes ambientais que irão atingir, cada vez mais e com

maior intensidade, o planeta no decorrer dos próximos anos. Tanto nas previsões

científicas quanto na ficção, parece não haver dúvidas: a direção para onde caminhamos

é a de um cenário distópico. Em tempos de crise ambiental, o presente estudo pretende

considerar a relação colonizadora e falida que a espécie humana tem estabelecido com o

planeta ao longo do Antropoceno e seu impacto no campo das artes. Como estudos de

caso, analiso dois trabalhos das artistas Alexandra Daisy Ginsberg e Natalia Bazowska,

exemplos da possibilidade artística de sensibilizar e criar narrativas possíveis capazes de

refletir nosso tempo. Sabe-se que, muitas vezes ao longo da história da arte, o papel dos

artistas foi de sensibilizar, criticar e problematizar as estruturas políticas ou sociais

vigentes. Além de considerar leituras artísticas acerca da modificação, transformação ou

mesmo extinção da biodiversidade terrestre pela espécie humana, busco investigar

diferentes relações das artes visuais com a ecologia, com a sabedoria indígena e

ancestral e, também, a responsabilidade científica perante à atual crise ambiental.

Palavras-chave:

Arte contemporânea Antropoceno Colonização da natureza Sustentabilidade Utopia Sabedoria ancestral

Introdução

A Terra é um lugar. De maneira nenhuma o único lugar, nem mesmo um lugar típico. Nenhum planeta, estrela ou galáxia pode ser típica, pois o Cosmos é, em sua maior parte, vazio. O único lugar típico é o vácuo universal, frio e vasto, a noite interminável do espaço galáctico, um local tão estranho e desolado que, por comparação, planetas, estrelas e galáxias parecem dolorosamente raros e adoráveis. Se estivéssemos aleatoriamente inseridos no Cosmos, a chance de nos descobrirmos em um planeta ou próximo a um deles seria menos de uma em um bilhão de trilhão de trilhão* (1033 , um seguido de 33 zeros). Na vida diária, tais probabilidades são chamadas de "forçadas". Os mundos são raridades preciosas. (SAGAN, 1980, p. 17)

Em termos jurídicos ou de cosmovisão, é possível considerar o sistema

terrestre, um bem. Enquanto bens, pode-se apontar que “são todos aqueles objetos

. Embens, pode-se apontar que “são todos aqueles objetos algum nível há, sem dúvidas, como considerar a

algum nível há, sem dúvidas, como considerar a natureza como um bem útil, pois sem ela

não há vida ou, melhor dizendo, a natureza é a própria vida em sua essência. Mas o que

a maioria das políticas socioeconômicas atuais parecem ter, de diferentes formas,

desprezado, é o fato de que o meio natural trata-se de um bem que não é território, pois a natureza está em todas as partes. Um ecossistema é um algo que apenas é. Trata-se de um “estar-sendo” e não de um estado imutável. Entretanto, para ser um “estar-sendo”, assim como tudo que se manifesta em forma orgânica de vida, um ecossistema necessita de manutenção conservatória (ainda que isso consista em apenas deixar que ele exista organicamente, sem interferência, sem exploração).

materiais ou imateriais que servem de utilidade física ou ideal para o indivíduo”

Alguns estudiosos sugerem que estamos nos encaminhando para o sexto

processo de extinção em massa na Terra. Enquanto pesquisas científicas apontam que

os dinossauros viveram mais de 160 milhões de anos em equilíbrio biodiverso no planeta,

o período reconhecido por alguns cientistas como o “Antropoceno” vem acompanhado de uma grande redução da biodiversidade terrestre. Os efeitos danosos da existência humana no globo se apresentam de forma transtemporal. Ainda que exista cada vez menos perspectiva de manutenção de uma biodiversidade plural bem distribuída,

ironicamente, cada vez mais se pratica a exploração de recursos naturais no planeta.

Inúmeros governantes negacionistas climáticos

2 ao redor do globo, como, por exemplo,

Jusbrasil < ​ https://vwavee.jusbrasil.com.br/artigos/394018532/direito-civil-bens ​ > (consultado em 11 de Jusbrasil <https://vwavee.jusbrasil.com.br/artigos/394018532/direito-civil-bens> (consultado em 11 de janeiro de 2019).

“Negacionista climático” refere-se ao pensamento ​ daqueles que negam a realidade do ​ aquecimento global “Negacionista climático” refere-se ao pensamento daqueles que negam a realidade do aquecimento global ou, ao menos,

negam

(Fonte:

<https://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo_clim%C3%A1tico> acesso em 28 de janeiro de 2019).

que

os

seres

tenham

um

papel

relevante

neste

fenômeno

Donald Trump nos Estados Unidos ou Jair Bolsonaro no Brasil, vêm influenciando diretamente tais explorações de recursos naturais terrestres e pelos mais variados meios, inclusive ao propor flexibilizações nas leis ambientais. O termo “ecologia” também abrange a espécie humana, embora muitas vezes seja esquecido, pois trata-se de um estudo do meio ambiente e dos seres que vivem nele. Embora devesse ser pensada como uma entidade integral, é frequente notar como tem se deixado de pensar a espécie humana como parte do sistema natural (fator possivelmente motivado por uma orientação de cunho neoliberal ou por qualquer outra inclinação intrínseca na natureza humana de ser). Provavelmente, essa sensação despertencimento seja um dos maiores problemas vinculados à colonização da natureza pela espécie humana. Consideremos o termo “colonização” como aquele que designa a prática através da qual a humanidade se espalhou pelo globo ao longo da história civilizacional. Consideremos também que vivemos em um tempo de herança colonial cuja matriz é essencialmente européia. Deve-se lembrar, inclusive, que as grandes concentrações financeiras do globo ainda estão vinculadas às famílias herdeiras de tal expansão colonial. A colonização, como também é sabido, esteve e está quase sempre ligada ao uso da força através da dominação e extermínio de povos, recursos naturais e territórios. Ao decorrer da modernidade, período relacionado ao desenvolvimento do capitalismo, a colonização passou a agir sobre os ecossistemas naturais de forma cada vez mais intensa. A prática colonizadora é geralmente dividida em duas vertentes: de exploração ou de povoamento. Não é preciso analisar muito longe dados históricos para compreender o quanto a colonização dos territórios naturais se deu, majoritariamente, de forma exploratória. Com cada vez mais frequência, povos originários e ambientalistas de diversas partes do planeta apontam para os efeitos catastróficos da ação humana sobre a Terra. Entretanto, quando fala-se em “ação humana”, é de suma importância especificar a origem de tal ação, ou seja, é essencial ponderar quais são as práticas que mais impactam as mudanças climáticas no planeta. Rebecca Solnit, em seu texto “Climate

Change Is Violence”

3 , de 2015, ressalta a importância de compreender as mudanças

climáticas enquanto formas de violência e, em adição, atenta para a necessidade de se usar nomenclaturas específicas que apontem para os principais responsáveis por tais

danos:

3
3

Call

climate

change

what

it

is:

violence.

Rebecca

Solnit

extraído

de

Climate change is global-scale violence against places and species, as well as against human beings. Once we call it by name, we can start having a real conversation about our priorities and values. Because the revolt against brutality begins with a revolt against the language that hides that brutality (SOLNIT, 2015)

Naomi Klein, em seu texto “Why #BlackLivesMatter Should Transform the

Climate Debate”

qual passamos. Segunda a autora, a fase crítica atual trata-se do “resultado de uma série

de decisões políticas que governantes de países ricos fizeram- e continuam a fazer- com

conhecimento total dos fatos e mesmo frente à extenuantes objeções”. Klein, assim como Solnit, observa e complementa a importância do uso de uma linguagem elucidativa e, por isso, correta, uma vez que tais decisões “são informadas com um tipo de linguagem que esconde dados e até mesmo coloca vidas em risco”. Em seu texto, ela menciona, ainda, que não se tratam de “quaisquer vidas, mas particularmente as vidas de pessoas vulneráveis, menos favorecidas financeiramente, mulheres, Indígenas, imigrantes e pessoas negras. Por isso, concordam as autores, especificar e nomear tais agentes pode chamar a atenção para tais processos de invisibilidade”. Motivado pela mesma problematização de nomenclaturas, T. J. Demos, no livro “Against the Anthropocene”, critica justamente a utilização do termo “Antropoceno”. Segundo ele, este termo genericamente abarca a série de danos que a humanidade tem causado aos ecossistemas e seus impactos nas condições climáticas terrestres. E defende que a palavra é indireta e obscurece o direcionamento da responsabilidade pelas mudanças climáticas, podendo ser utilizado como um mecanismo para tornar tais fatos em responsabilidade universal, não direcionada. Ainda segundo Demos, isso ocorre pois

o termo distribui a responsabilidade entre diversos agentes, podendo rejeitar a

responsabilidade das potências militares mundiais pelos diferentes impactos que elas causam nas mudanças climáticas, por exemplo. Fazendo, então, com que mesmo os cidadãos comuns sejam complacentes em projetos destrutivos para o planeta. (DEMOS, 2017, p. 19)

O tipo de colonização exploratória, citada anteriormente, encontra um contraponto em um outro meio de colonização, de povoamento, também brevemente citado anteriormente neste artigo. Como um exemplo de colonização exploratória da natureza, pode-se citar uma das maiores áreas produtoras de soja transgênica do mundo, que encontra-se na região sul do Brasil. Pode-se considerar, em adição, que o

4 , salienta a importância de pensarmos a origem da crise ambiental pela

a importância de pensarmos a origem da crise ambiental pela 4 Disponível em < ​

4 Disponível em <https://www.thenation.com/article/what-does-blacklivesmatter-have-do-climate-change/>. Acessado em 28 de janeiro de 2019.

contraponto desse tipo de ocupação territorial com finalidade extrativista e lucrativa, está na ocupação de territórios com a finalidade de subsistência. Enquanto regimes extrativistas buscam criar a necessidade e o desejo consumista dentro de uma lógica financeira capitalista, a agricultura de subsistência consiste na própria necessidade de produzir alimentos que servem de sustento tanto para o agricultor e sua família, quanto para a comunidade com a qual estão envolvidos. O mesmo também pode-se dizer de certas comunidades indígenas que, além de viverem de agricultura, usufruem de outros bens naturais por motivos de subsistência, tendo como base o respeito pelo ambiente, que vem sendo habitado por seus antepassados há gerações. No decorrer deste artigo, busco ilustrar, através da análise de casos, meios pelos quais a arte contemporânea têm abordado narrativas utópicas capazes de refletir temas ligados à atual crise ambiental do planeta. Sabe-se que a arte pode ter um grande alcance em termos de manifestação política, por isso, apresento neste estudo duas artistas que vêm pensando o questionamento, a delicadeza e a sensibilidade como meios de expressar suas relações e insatisfações com os desafios do período atual do planeta.

Práticas Cosmovisionárias

5 Ancestrais

6 sobre movimentos de

Retomadas promovidos pelos indígenas Guaranis Mbya foi promovido pelo Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB Caminho do Meio). O grupo indígena, que habita regiões sul da América Latina, tem como base cultural os princípios da sabedoria ancestral. Em sua palestra durante o evento, o pensador, educador social e ambientalista de origem indígena Tapuia, Kaká Werá, ao falar sobre os pilares da cultura Guarani, apontou para questões básicas e cruciais não só de respeito ao sistema terrestre, mas de unicidade entre a espécie humana com o sistema natural:

Em 2017, na cidade brasileira de Viamão, um encontro

Não se muda o curso de um rio, não se desagrega, não se derruba uma área extensa de árvores. Por quê? Por conta desse segundo princípio (princípio do cuidado). Primeiro: a terra é nossa mãe. Segundo princípio:

todos nós somos parentes. Todos nós, quem? Todos nós humanos, reino vegetal, reino animal, reino mineral, quer dizer, todos nós somos parentes. O reino animal antecedeu ao reino humano, o reino vegetal antecedeu ao reino animal, o reino mineral antecedeu ao vegetal, eles são os nossos ancestrais. (WERÁ, 2017)

Em termos de conservação harmônica a longo prazo, pode-se aprender muito sobre estilos de vida mais equilibrados com as práticas de povos indígenas como os Guarani Mbya, por exemplo. Os Guaranis se organizam em comunidades cuja cosmovisão considera o futuro diretamente vinculado com uma noção ampliada de ancestralidade. Ou seja, preservar o meio ambiente, para os Guaranis, é uma questão de preservar sua própria cultura (modos de ser). Em razão disso, muitos grupos indígenas tornaram-se grandes conhecedores dos ecossistemas e seus funcionamentos. Se considerarmos o termo “ciência” de forma ampla, enquanto nomenclatura que designa um estudo aprofundado sobre determinado assunto, pode-se considerar que um Guarani é também um cientista, um cientista da terra. Se imaginarmos o tempo enquanto uma força plástica que pode ser alterada, podemos considerar a ciência moderna enquanto uma aliada em termos de reversão da crise ambiental. Embora muitas vezes encontramos a ciência enquanto um agente

Termo cunhado pela autora deste artigo para designar indivíduos cuja cosmovisão é também visionária, que Termo cunhado pela autora deste artigo para designar indivíduos cuja cosmovisão é também visionária, que enxerga o futuro, antecipando tendências benéficas ao planeta.

Palestra transcrita integralmente em < ​ http://bodisatva.com.br/terra-e-de-nhanderu/ ​ >. Acessado em 26 de Palestra transcrita integralmente em <http://bodisatva.com.br/terra-e-de-nhanderu/>. Acessado em 26 de janeiro de 2019.

alargador de fronteiras socioeconômicas, é possível também pensar a ciência enquanto um agente capaz de trazer um futuro mais otimista para a realidade.

Uma tarefa assustadora está por vir para cientistas e engenheiros guiarem

a sociedade em direção à gestão ambientalmente sustentável durante a era do Antropoceno. Isso exigirá um comportamento humano adequado

em todas as escalas e pode envolver projetos de geoengenharia internacionalmente aceitos em grande escala, por exemplo, para "otimizar"

o clima. (CRUTZEN, 2002, 23, tradução livre)

Entretanto, muitas vezes, parece que a questão não é: “deve-se ou não alterar o estado natural das coisas?” e, sim, “como será a participação humana no sentido de alterar sistemas naturais?”. Demos, ao refletir sobre o termo cunhado por Crutzen, atenta para o embate gerado por duas possíveis formas de visualizar e combater a crise climática:

Como o Antropoceno parece inferir a necessidade da geoengenharia - como Crutzen, um dos inventores deste termo, deixa claro-, as linhas de batalha foram traçadas entre aqueles que pensam que "nós" humanos confrontamos uma oportunidade extraordinária de refazer biotecnologicamente o mundo, e outros que optam pela precaução e preferem modificar o comportamento humano em vez do meio ambiente, ao enfrentar a crise climática. (DEMOS, 2017, p.25)

Tendo em vista um dos principais conflitos do então chamado Antropoceno que é o impacto que a ciência exerce sobre a biodiversidade do planeta e sua conservação, debruço-me, primeiramente, sobre o trabalho da artista Alexandra Daisy Ginsberg. Para tal, precisamos retornar à ideia inicial do processo de colonização da natureza pela espécie humana: sabe-se que uma das formas específicas que a humanidade desenvolveu para colonizar a natureza foi através da modificação de certos organismos naturais, com finalidades monetárias majoritariamente. Em termos de modificação biológica para fins monetários, podemos obter como exemplo as sementes geneticamente modificadas. Em teoria, as sementes transgênicas ajudariam a diminuir a fome no mundo, principalmente pelo fato de diminuírem os custos de produção, uma vez que seriam plantas criadas para serem mais resistentes. Também em função da maior resistência, passar-se-ia a utilizar menos

agrotóxicos nas plantações. Porém, o que ocorreu, de fato, foi o aumento de um lobby político e econômico desenfreado, usando a natureza como veículo para monopolização de práticas lucrativas, como é o caso da empresa Monsanto. Este interesse comercial afetou drasticamente os padrões de biossegurança das sementes. Como tais padrões não têm sido respeitados, acabam gerando inúmeros problemas de saúde tanto para seres humanos, quanto para o sistema biodiverso natural. Provavelmente, um dos maiores posicionamentos críticos acerca das sementes geneticamente modificadas é que elas reduzem a biodiversidade do planeta. É fato que as plantas transgênicas são disseminadas no solo pelos agentes transportadores do pólen e são muitas vezes levadas às lavouras tradicionais, extinguindo gradativamente a existência das sementes tradicionais ali presentes (também conhecidas como sementes “crioulas”). Outra frequente crítica ao uso de tais sementes é o mal causado pelo uso de agrotóxicos que, embora aumentem a produtividade agrícola em quantidade, causam enorme dano ao solo, que pode até mesmo se tornar infértil pelo uso abusivo de químicos.

Práticas Cosmovisionárias na Arte Contemporânea

Práticas Cosmovisionárias na Arte Contemporânea Alexandra Daisy Ginsberg, vista da instalação, Museu Stedelijk, 2015.

Alexandra Daisy Ginsberg, vista da instalação, Museu Stedelijk, 2015. Lightbox with colour transparency, accompanied by models, timeline, prints and fictional patent applications for four organisms. Fotografia: Gert Jan van Rooij

Foi justamente pensando sobre a biologia sintética e seu impacto na biodiversidade e conservação dos ecossistemas que Ginsberg criou seu projeto Designing for the Sixth Extinction, que remonta um projeto de estudo científico. A artista projetou um universo futurista ficcional em que um ecossistema alternativo de organismos sintéticos artificiais trabalham para curar, regenerar e proliferar os seres do nosso planeta. O projeto, que pode ser considerado, ao menos aparentemente, utópico e otimista, traz também, segundo a própria artista, um questionamento sobre se a humanidade deve ou não utilizar de meios sintéticos para controlar o sistema natural. Em seu texto descritivo do projeto, ela salienta:

Nesta versão do futuro, novas espécies companheiras projetadas por biólogos sintéticos apoiam espécies e ecossistemas naturais ameaçados de extinção. Financiado por esquemas corporativos de compensação de biodiversidade, espécies patenteadas são lançadas na natureza. Eles compensam a biodiversidade perdida devido à monocultura de biomassa

para produção de biocombustíveis e produtos químicos. Para uma bioeconomia próspera, a preservação da biodiversidade natural vale a pena não apenas por razões sentimentais, mas também é uma valiosa biblioteca de DNA para projetos biológicos futuros. (GINSBERG, 2013, tradução livre)

Ainda, sobre as especificidades do projeto, Ginsberg descreve que os seres por ela idealizados foram “modelados em fungos, bactérias, invertebrados e mamíferos” e que tais espécies projetadas são como “máquinas ecológicas” com a finalidade de “preencher o vazio deixado por organismos desaparecidos ou oferecer uma nova proteção contra espécies, invasoras, doenças e poluição mais nocivas”. (GINSBERG, 2013, tradução livre)

mais nocivas”. (GINSBERG, 2013, tradução livre) ​ Alexandra Daisy Ginsberg, detalhes de "Rewilding

Alexandra Daisy Ginsberg, detalhes de "Rewilding with Synthetic Biology", 2013

Alexandra Daisy Ginsberg, detalhes de "Rewilding with Synthetic Biology", 2013 Retomando às elucidações de
Alexandra Daisy Ginsberg, detalhes de "Rewilding with Synthetic Biology", 2013 Retomando às elucidações de

Alexandra Daisy Ginsberg, detalhes de "Rewilding with Synthetic Biology", 2013

Retomando às elucidações de Kaká Werá (2017), é importante observar que,

segundo a cosmovisão Guarani, a memória fundamental sustenta e tem sustentado todo

o saber ancestral de sua tradição, que descende das matrizes da tradição Tupi. Tal

tradição, segundo o pensador, tem influenciado muitos outros povos, desde a Patagônia

até o Nordeste do Brasil, nos últimos três a cinco mil anos, bem antes da chegada dos

europeus, muito antes mesmo. No Brasil, plantações de sementes transgênicas muitas

vezes avançam justamente sobre territórios em que tais povos tinham como casa

anteriormente. Em contrapartida, Werá explica que a sustentação da sabedoria ancestral

dos Guaranis tem como base quatro princípios fundamentais do ser: a mãe, o cuidado

ancestral, o acolhimento e a cooperação. Tais ensinamentos são geralmente transmitidos

através de narrativa oral:

A manutenção da narrativa desses princípios são importantes de serem compartilhados porque eles não têm tempo, não têm idade, não são simplesmente crenças étnicas. Eles podem nos ajudar independente de civilização, cultura, língua, espaço. Podem nos ajudar na maneira de nos relacionarmos com a vida de um lugar onde o princípio da harmonia, o princípio da vitalidade e o princípio evolutivo são marcantes. (WERÁ, 2017)

Pode-se considerar que as sementes geneticamente modificadas não carregam “memória”, não trazem traços de evolução passados e conservados durante gerações pela agricultura familiar, por exemplo. Sendo assim, seriam o oposto das sementes crioulas transgeracionais, um grande bem para os guaranis. Para Werá, a memória fundamental é o que define e sustenta quem são os Guaranis em um sentido cosmológico. Ele afirma que “o princípio da terra como mãe é fundamental para haver uma troca, uma interação, uma escuta com essa cultura ancestral”. Por isso, para tal povo, é tão importante a preservação da natureza. Pois

consideram que “a terra é uma grande mãe, a terra é uma entidade viva, uma inteligência, uma consciência, não é simplesmente uma metáfora, uma força de expressão” (WERÁ, 2017). Por assim ser, não existe cultura que não esteja vinculada à terra para eles. Sem uma terra saudável, não há condições propícias de manutenção cultural para os Guaranis, ou seja, sem terra não há vida. Se pensarmos que a terra é um organismo vivo

e, como consideram culturas indígenas, é também nossa grande mãe, os organismos

sintéticos podem ser considerados, então, como aberrações de vida. Em termos de conservação, a natureza se regenera e existe em equilíbrio quando desenvolve-se em seu funcionamento orgânico, sem interferência. Nas últimas décadas, tornaram-se cada vez mais comuns as intervenções humanas nos mais

distintos ecossistemas terrestres. É importante refletir a partir de um ângulo que abarque

a ética humana de viver a utopia de “salvar” a natureza através de intervenções

científicas, artificiais. A exemplo do projeto Designing for the Sixth Extinction, pode-se

perceber o papel da arte como um agente gerador de consciência antecipativa, capaz até mesmo de prever catástrofes naturais. O projeto, embora pseudo-científico, pode ser visto, inclusive, como uma maneira de alertar sobre novos mundos possíveis. Observando o cenário atual por um lado mais sensível e otimista, podemos considerar tanto Ginsberg quanto Bazowska, como condutoras de potencialidades particulares. Podemos considerar tal potência como aquela que dinamiza o tempo não para trazer o futuro para o presente, necessariamente, mas como uma força capaz de dar à luz a utopias realizáveis. Neste caso, lanço uma lupa sobre “Luna”, um vídeo-performance da artista polonesa Natalia Bazowska. A artista idealizou e desenvolveu condições em que um cenário e situação reais se converteram em uma narrativa relacional de comunicação interespécie. Em seu vídeo, ela abriu espaço para uma forma de se relacionar com um mundo, o mundo do outro, no caso, de uma outra espécie animal. Em seu trabalho, a

artista passa, gradativamente, a estabelecer uma relação, por fim, harmônica com um animal selvagem, mais especificamente, com uma loba. A animal, afastada da matilha por motivos ocasionais, havia passado a viver em uma cela que limita suas atividades mais básicas. Bazowska, que é também psicanalista, questiona as fronteiras que separam diferentes espécies animais. Assim como Ginsberg, Natalia participou da sétima Bienal de Moscou, em uma parte da mostra voltada para o estudo da alma para além dos seres humanos e no diálogo com seres em zonas específicas de contato e transformação. Em seu texto sobre “Luna”, reflete sobre a zona de contato estabelecida com a loba no desenrolar da performance:

O sentimento de proximidade é mais forte que o instinto de

autopreservação. Aproximar-se de alguém significa rejeitar todos os mecanismos de defesa, e é por isso que todos têm medo da proximidade,

não importando se estão cientes do medo ou não. (BAZOWSKA, 2014)

se estão cientes do medo ou não. (BAZOWSKA, 2014) Natalia Bazowska. Stills de “LUNA”, ​ 2014,
se estão cientes do medo ou não. (BAZOWSKA, 2014) Natalia Bazowska. Stills de “LUNA”, ​ 2014,
se estão cientes do medo ou não. (BAZOWSKA, 2014) Natalia Bazowska. Stills de “LUNA”, ​ 2014,
se estão cientes do medo ou não. (BAZOWSKA, 2014) Natalia Bazowska. Stills de “LUNA”, ​ 2014,

Natalia Bazowska. Stills de “LUNA”, 2014, Videoperformance. Filme, cor, som, loop.

Fonte:

https://www.bazowska.com/luna.html

Natalia Bazowska. Stills de “LUNA”, ​ 2014, Videoperformance. Filme, cor, som, loop. Fonte: ​

Natalia Bazowska. Stills de “LUNA”, 2014, Videoperformance. Filme, cor, som, loop.

Fonte:

https://www.bazowska.com/luna.html

A presença em forma de proximidade física e corpórea é uma maneira recorrente de experienciar o mundo, principalmente quando falamos de mamíferos. Tal apego físico pode ser o equivalente a se comunicar através da linguagem falada. O fator determinante que todos nós, animais, temos em comum é o corpo. Cada corpo tem distintas plasticidades e maleabilidades, mas é através do corpo que enviamos sinais, mensagens que podem ser capazes de exercer comunicação interespécies. O corpo é uma ferramenta que, entre tantas funções, também serve para criarmos laços emocionais. (BAZOWSKA, 2014) Redes de comunicação são maneiras de aumentar percepções de mundo. A força narrativa de “Luna” está na aproximação de espécies, no contato dramático que se desenvolve pelas semelhanças e pela empatia, não só da performer e da loba, mas também da empatia capaz de gerar no espectador. Quando Natalia individualiza tal espécime, ilumina e expande a concepção que o espectador tem em relação ao animal. Nessa relação espelhada, pode-se dizer que a artista estabelece uma relação de

características anti-especistas, recurso que pode ser fundamental para a conservação de

espécies em tempos de crise ambiental. Nicolás Bourriaud (2015), em uma entrevista

à

revista Arte Capital, ressalta sobre o papel re-humanizador da arte: “Mais do que nunca, acho que as práticas artísticas relacionais são vectores de resistência, formas de

7
7
relacionais são vectores de resistência, formas de 7 7 ​ Lachance, M. (2015). Entrevista: Nicolas Bourriaud.

7 Lachance, M. (2015). Entrevista: Nicolas Bourriaud. Fonte: https://www.artecapital.net/ Acesso em 22 de janeiro de 2019

re-humanizar um mundo ao mesmo tempo devastado pela acção dos seres humanos e abandonado pelo indivíduo”. E adiciona, ressaltando a importância de práticas artísticas como formas de resistir à devastação do mundo atual: “A extensão do domínio do humano, parece-me, constitui um coerente programa político e estético”. Embora documental, a artista orquestra uma narrativa que nos apresenta, sutilmente, uma utopia realizável: mesmo em tempos de distopia civilizacional e ambiental ainda há espaço para a delicadeza sensitiva relacional, e até mesmo nas relações mais improváveis. “Luna” não levanta bandeiras especificamente, mas é nas entrelinhas da narrativa que é possível interpretá-lo como uma espécie de apelo. Sabemos que há um tipo de desesperança crônica nas notícias dos nossos tempos, por vezes as respostas do campo artístico à tal desesperança podem estar na sensibilidade de criar imagens que comuniquem efetivamente ao nosso tempo:

Uma questão central é estratégica e representacional: como podemos converter em imagem e narrativa os desastres que são anônimos e

Como podemos tornar as grandes

emergências de violência lenta em histórias dramáticas o suficiente para

atrair o sentimento do público e garantir intervenções políticas, essas emergências cujas repercussões tem dado ascensão para alguns dos mais críticos desafios do nosso tempo? (DEMOS, 2017, apud MORTON, 2012, p.13)

protagonizados por ninguém [

]

Pensando em panoramas de mundo não-especistas como estratégias sensibilizadoras, pode-se dizer que o trabalho de Ginsberg - ao mesmo tempo em que aponta uma saída para a crise ambiental - também critica o avanço humano-tecnológico sobre a vida selvagem, natural. Em seu texto de apresentação do projeto “Designing for the Sixth Extinction” a artista questiona, ao refletir sobre os organismos projetados em sua narrativa: “Eles estão, sequer, vivos”? E adiciona: “Se a natureza for totalmente industrializada para o benefício da sociedade - que é, em algum nível, o sentido lógico da biologia sintética- ainda existirá natureza para a gente salvar?” (GINSBERG, 2013, tradução livre)

Alexandra Daisy Ginsberg. Convergent and divergent interests in biodiversity, 2013. Fonte:

Alexandra Daisy Ginsberg. Convergent and divergent interests in biodiversity, 2013. Fonte:

Conclusão

Não é só a tribo dos guarani que está velha e cansada de viver, mas é toda a natureza. Quando os pajés, em seus sonhos, vão ter com Ñanderuvuçu (nosso grande pai), ouvem muitas vezes como a terra lhe implora: 'devorei cadáveres demais, estou farta e cansada, ponha fim a isto, meu pai'. E assim também clama a água ao criador, para que a deixe descansar; e assim também as árvores, que fornecem a lenha e o material de construção; e assim todo o resto da natureza. (UNKEL, 1987, p. 71)

Como mencionado anteriormente, uma das soluções aos problemas do nosso tempo encontrada pelo campo artístico, ao longo da história e ainda nos dias de hoje, é de habitarmos e mirarmos o mundo de um ponto de vista sensível. Habitar um mundo é também criá-lo, narrá-lo a partir da nossa própria concepção da realidade que vivemos. Pode-se dizer que nossas escolhas moldam nossas narrativas de vida. Quando uma artista opta por contar uma história utópica tão sensível quanto possível, é provável, sim, que esteja também criando narrativas alternativas de um futuro mais equilibrado em termos ecológicos. É possível afirmar que há resistência política quando um trabalho de arte sensibiliza espectadores para com outras espécies, pois pode ser um meio eficaz de desromantizar e desmistificar ideias pré-concebidas que se pode ter do “outro”. Trata-se de compreender o outro ser através do reflexo de nós mesmos. É importante ressaltar que é uma forma de construção de respeito mútuo, inclusive. Familiarizar-se com o outro e individualizá-lo pode e talvez teria evitado grandes catástrofes ambientais a nível global, se pensarmos nos fatores motivantes supremacistas das grandes guerras mundiais, por exemplo.

Existem muitas práticas de vida que podem auxiliar o planeta nesse período crítico pelo qual passamos. Uma delas talvez seja o aprendizado de observação e respeito para com as culturas milenares e originárias, que são portadoras de ciências baseadas em sabedoria ancestral, como é o caso da cultura Guarani, que ensina muito sobre a importância da ancestralidade para a conservação da vida. Outro ângulo otimista de encarar a contemporaneidade ambiental é a existência de um cientificismo autocrítico, utilizado para beneficiar e preservar a biodiversidade existente no planeta, sem visar apenas fins lucrativos. Já no campo das artes, podemos relembrar seu caráter essencial de despertar uma dimensão sonhadora,

assim como criar novas narrativas utópicas que estabelecem perspectivas de um futuro ecologicamente íntegro para todos e todas seres e elementos que habitem a Terra. Entre outras possibilidades, o papel da arte repousaria, então, na sua constituição enquanto um possível meio de gerar uma consciência antecipatória de grandes catástrofes. As práticas artísticas podem não apenas refletir o seu tempo e disseminar a distopia ambiental que já hoje vivemos, e sim apontar para um futuro otimista e possível. Para além dos inúmeros fatores que nos afastam enquanto espécie humana e até mesmo em relação às tantas outras espécies sencientes, há uma coisa que é certa: todos nos inclinamos em busca de calor. Se mundos são raridades cósmicas, não há motivos para não tratarmos como os “milagres” que são.

Referências bibliográficas:

BOURRIAUD N., Radicante: por uma estética da globalização, São Paulo, Martis Fontes,

2009b.

CRUTZEN, Paul J., 2002, Geology of Mankind, Nature 415, número 23 (03 de janeiro, 2002): 23

DEMOS, T. J., Against the Anthropocene, Visual Culture and Environment Today. Berlim, Sternberg Press, 2017.

DEMOS, T. J., Decolonizing Nature: Contemporary Art and the Politics of Ecology. Berlim, Sternberg Press, 2016.

HARVEY, D. A condição pós-moderna. Trad. Adail Ubirajara Sobral & Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 1992.

SAGAN, C. Cosmos. Trad. Maria Auta de Barros. Lisbora: Gradiva, 1980.

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Natalia Bazowska:

https://www.bazowska.com/luna.html(consultado entre 10 e 30 de janeiro de 2019)

Alexandra Daisy Ginsberg:

https://www.daisyginsberg.com/work/designing-for-the-sixth-extinction (consultado entre 10 e 30 de janeiro de 2019)

Pertencer à Terra: Resistência de Saberes e Diversidade da Vida pelos Kaiowá-Guarani:

http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/21034/1/2016_VeronicaMariaBezerraGuimaraes.

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https://www.artecapital.net/entrevista-200-nicolas-bourriaud (consultado entre 23 e 30 de janeiro de 2019)

Wikipédia:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo_clim%C3%A1tico(consultado em 11 de janeiro de 2019)