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QUEM FOI ELIS REGINA: uma breve biografia

Renato Frossard – Universidade Federal de Minas Gerais - 2018


E-mail: (renatofrossard@gmail.com)

Elis Regina Carvalho Costa nasceu em 17 de março de 1945 e faleceu em 19 de


janeiro de 1982, aos 36 anos. A despeito de sua vida relativamente curta, tornou-se uma
das maiores intérpretes da música brasileira, deixando um vasto legado em forma de
gravações e material audiovisual, tendo realizado um grande número de shows dentro e
fora do Brasil. Gravou inúmeros discos, participou de importantes festivais de música e
apresentou alguns dos maiores programas televisivos de música popular, na década de
60, época florescente para a música brasileira. Sua trajetória foi intensa e coroada de
trabalhos desde o início de sua carreira, aos 12 anos de idade, até o momento de sua
morte.
Elis foi a primeira filha do casal Ercy Carvalho Costa e Romeu Costa. Nasceu e
cresceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, onde passou a infância e a adolescência.
Já adulta, falando sobre seu próprio nascimento, em uma entrevista, a cantora disse:

Eu nasci em Porto Alegre, em 1945, no dia 17 de março, num


domingo, às duas e dez da tarde — estragando o café da mamãe,
aquele lanche maravilhoso... E eu fui a primeira filha, muito esperada,
de um casal de dois anos de vida em comum. Primeira neta e primeira
sobrinha de uma família de sete pessoas que se adoravam muitíssimo
e resolveram me adotar como filha de todos. Eu achei tudo ótimo,
tudo maravilhoso (...) (FARIA, 2015)
Cinco anos após o nascimento de Elis, nasceu Rogério, o segundo e último filho do
casal, que se tornaria o queridinho da irmã e uma das pessoas mais importantes da vida
da cantora.
Desde muito jovem a menina já dera sinais de seu grande talento para a música,
impressionando a todos com sua bela voz que, segundo relatos, mais parecia sair do
corpo de uma mulher adulta. “A voz de Elis criança era um descontrole, uma força
indomável de voz e timbre” (MARIA, 2015). Elis era também uma criança inteligente.
Quando iniciou o ensino primário já sabia ler, escrever e fazer contas, e gostava de
brincar de professora na sala de casa.
De acordo com MARIA (2015), os primeiros sinais de musicalidade de Elis
surgiram aos três anos de idade, influenciada pelas músicas ouvidas no rádio da família,
das quais reproduzia partes. Mais tarde aprendeu a cantar, completa, a canção “Adiós,
Pampa Mia!”, um tango argentino de sucesso lançado no mesmo ano em que nascera,
1945, deixando todos os familiares e amigos encantados (MARIA, 2015;
ECHEVERRIA, 2012). Antes mesmo de saber ao certo o que significavam termos
como vibrato e sustentação, a menina de ouvido apurado percebia que algo diferente
havia acontecido na voz dos cantores que interpretavam suas canções favoritas, e
tentava imitá-los.
Aos nove anos começou a estudar piano. O aprendizado da menina foi muito
rápido. Após dois anos de estudos com uma professora particular, de nome Waleska, os
pais foram aconselhados por esta a matriculá-la num conservatório, para que ela
pudesse continuar seu desenvolvimento, mas, para isso, teriam que comprar um piano.
Porém, como o orçamento da família não alcançava o investimento, o aprendizado do
instrumento parou por ali. “Nada de aulas de piano.”, disse o pai (ECHEVERRIA,
2012; MARIA, 2015; FARIA, 2015). A menina, então, voltou-se totalmente para a
prática do canto, no qual desenvolveria toda maestria pela qual se tornou conhecida.

Capítulo x.2 – O Início da Carreira

A carreira da cantora Elis Regina teve início, oficialmente, quando ela se


apresentou pela primeira vez no programa Clube do Guri, da Rádio Farroupilha em
Porto Alegre, aos doze anos de idade. A menina já havia comparecido ao programa, aos
7 anos de idade, mas, ao ter que encarar o microfone pela primeira vez, diante de
pessoas estranhas e na presença de outros cantores e cantoras mirins, emudeceu e não
conseguiu cantar (MARIA, 2015; ECHEVERRIA, 2012). Ao completar doze anos,
porém, pediu à mãe, Dona Ercy, que a levasse novamente ao programa. Desta vez,
cantou e encantou a todos com seu talento natural.
Elis tornou-se uma das principais atrações do programa e ganhou papel de
destaque nas apresentações do Clube do Guri. Segundo o apresentador Ary Rego, Elis
era extremamente organizada e exigente, preocupando-se com os detalhes e procurando
dar sempre o melhor de si. Por esta razão, a garota destacou-se entre as demais cantoras,
tornando-se a estrela do programa. Passou a comparecer ao programa, quase toda a
semana, dos doze aos treze anos e meio. Tornou-se uma espécie de secretária do
programa, apresentando candidatos, lendo recados dos ouvintes e parabenizando os
aniversariantes do dia. O apresentador relatou, em uma entrevista à revista Veja, em
1976, que a menina Elis tinha personalidade forte e que gostava de tudo muito bem feito.
Relatou também que ela costumava cantar sorrindo e com os olhos fechados. A mãe,
Dona Ercy, relatou que Elis ficava muito nervosa antes de se apresentar e que, em
consequência disto, costumava soltar sangue pelo nariz. Sentia muita insegurança e
medo de errar, de não ser perfeita e de não corresponder às expectativas colocadas sobre
ela. O peso da responsabilidade já pousava sobre os ombros da jovem garota. (FARIA,
2015; ECHEVERRIA, 2012; FARIA, 2015).
Aos treze anos e meio, Elis assinou seu primeiro contrato, deixando a Rádio
Farroupilha e se unindo à Rádio Gaúcha, passando a se apresentar no programa
Maurício Sobrinho, em 1959. Nesta época, a garota já era uma sensação em Porto
Alegre, e fazia grande sucesso ao se apresentar no programa. Maurício Sirotsky contou
à revista veja que costumava anunciar a entrada da cantora aos mais de três mil
espectadores que lotavam o Cinema Castello e que estes iam ao delírio. A menina então
entrava em cena tímida, insegura, mas quando começava a cantar arrebatava a todos
(MARIA, 2015; FARIA, 2015; ECHEVERRIA, 2012).
Mas para poder cantar havia uma exigência a ser cumprida. Elis tinha que
estudar e tirar notas excelentes ou, do contrário, sua mãe não permitiria que ela
continuasse cantando. Por outro lado, o fato de Elis ter começado a trabalhar tão jovem
trouxe dinheiro que, embora ajudasse a solucionar os problemas da família, criava
conflitos, pois a menina, percebendo sua importância, passou a se impor dentro de casa.
A fama não impediu que a menina tivesse problemas na escola e, certa vez, chegou até
sua mãe a notícia de que a professora de francês a havia chamado de “mau elemento”. A
mãe foi até a escola e colocou ameaçou colocar a boca no mundo, caso a diretora não
tomasse providências. Em consequência a professora foi transferida e Elis conseguiu
terminar o ginásio. No ensino secundário, porém, Elis não conseguiu conciliar o
trabalho e os estudos, e acabou abandonando o curso normal da Escola Dom Diogo de
Souza, no segundo ano (MARIA, 2015; FARIA, 2015; ECHEVERRIA, 2012).
Em 1961, aos 15 anos, Elis deixou Porto Alegre pela primeira vez, com destino
ao Rio de Janeiro, para gravar seu primeiro disco: um compacto simples com as músicas
“Dá Sorte” (Eleu Salvador) e “Sonhando”, uma versão de Juvenal Fernandes para
“Dream” (Vorzon/Ellis). As duas músicas fariam parte de seu primeiro LP intitulado
“Viva a Brotolândia”, gravado no mesmo ano pela gravadora Continental, com
produção de Nazareno de Brito. Em 06 de dezembro daquele ano, a cantora foi coroada
Rainha do Disco Clube, em Porto Alegre (ECHEVERRIA, 2012).
Mais tarde, gravou o LP Poema, pela mesma gravadora, em 1962. Em 1963, já
pela gravadora CBS Elis gravou os LPs Elis Regina, e o Bem do Amor. A partir daí, a
garota não parou mais de trabalhar, e continuou numa ascendente carreira que já
demonstrava que a encaminharia para o sucesso. De acordo com ECHEVERRIA (2012),
os quatro primeiros discos da carreira de Elis mostravam uma cantora de afinação ímpar,
timbre de voz claríssimo e muita personalidade vocal. Mas isto ainda era pouco perto do
que a cantora viria a se tornar.

Capítulo x.3 – Elis Explode no Brasil

Em 1964, ao completar 18 anos, Elis embarcou com seu pai para o Rio de
Janeiro, em busca de maiores oportunidades para sua carreira. Deste momento em
diante, a vida de Elis Regina nunca mais seria a mesma. Ao desembarcar no Rio de
Janeiro em 31 de março de 1964, segundo declarações da própria cantora, Elis e seu pai
se instalaram num minúsculo apartamento mobiliado , em Copacabana. Logo procurou
o produtor Armando Pittigliani na Philips, que cumpriu a promessa de contratá-la para
gravar um disco. Assinou também um contrato com a TV Rio, sendo escalada para o
programa Noites de Gala, programa célebre na época e um dos carros chefes da
emissora (ECHEVERRIA, 2012; MARIA, 2015; FARIA, 2015).
Na TV Rio, E lis encantou a todos com a beleza e a singularidade de sua voz. Lá,
ela conheceu o baterista Dom Um Romão que a apresentou ao famoso Beco das
Garrafas, onde Elis se apresentaria num grupo de pequenas boates e onde conheceria
nomes importantes para sua carreira. Dentre os principais personagens com quem ela
entrou em contato estavam Ronaldo Bôscoli e Luiz Carlos Miele. Logo os dois a
convidaram para protagonizar um show, o que, após alguma insistência, foi aceito pela
artista.
Elis, então, começou a desfrutar de grande sucesso no Beco, participando de
apresentações musicais nas quais entraria também em contato com músicos que
influenciariam de maneira significativa a sua carreira, além de contribuírem para que a
fama da cantora se espalhasse rapidamente. Foi também no Beco que Elis conheceu o
ator, coreógrafo e dançarino Lennie Dale, com quem aprendeu a usar o corpo para se
expressar ao cantar. A artista continuou a se apresentar no Beco das Garrafas até se
desentender com Ronaldo Bôscoli que se queixou com a mesma por conta de atrasos e
ausências às apresentações, já que Elis, paralelamente às apresentações naquele lugar,
fazia shows em outros locais (ECHEVERRIA, 2012).
Assim, Elis deixou de se apresentar no Beco das Garrafas e se estabeleceu em
São Paulo, onde iniciaria sua participação em uma série de shows, ainda no mesmo ano
de 1964. Mais tarde, foi convidada para participar do I Festival de Música Popular
Brasileira da TV Excelsior. Elis venceria o festival da TV Excelsior com a música
Arrastão, dando início a uma importante fase em sua carreira. A intérprete também
recebeu o Prêmio Roquette Pinto, na TV Record, como a melhor cantora de 1964. Em
1965 recebeu o prêmio de Melhor Intérprete do I Festival de Música Popular Brasileira.
O sucesso veio rápido para a garota que havia pouco deixara Porto Alegre com destino
ao Rio de Janeiro. A explicação para tamanho sucesso foi uma combinação de trabalho
árduo, talento e eventos afortunados (ECHEVERRIA, 2012).
Logo Elis Regina se tornaria conhecida em todo o Brasil e desfrutaria de um
sucesso avassalador em todo o país. A menina de personalidade forte causava impacto
por onde passava, e veio a ganhar o apelido de Pimentinha, devido a essa mesma
personalidade. Devido aos movimentos dos braços, aprendidos com Lennie Dale, a
cantora ganhou também o apelido de Hélice Regina. Mas até estes movimentos
corporais viriam a compor a interpretação da artista, que seria considerada única
(ECHEVERRIA, 2012; MARIA, 2015; FARIA, 2015).
Depois Elis estrearia um show em parceria com Jair Rodrigues para uma plateia
de duas mil pessoas. O sucesso dos dois foi tão grande que passaram a apresentar o
programa Dois na Bossa, pela TV Record. Pouco tempo depois, em 1965, Elis Regina
foi contratada pela Rede Record para apresentar o programa o Fino da Bossa, passando
a receber um salário que foi o maior pago para um artista na Televisão brasileira, até
então (ECHEVERRIA, 2012).
No mesmo ano de 1965, Elis lançou seu primeiro disco pela gravadora Philips,
Samba Eu Canto Assim. A partir daí foi uma sequência de trabalhos incessantes da
cantora, não só nos estúdios, mas também nos palcos. Foram cerca de 27 álbuns
gravados ao longo da carreira da artista até a sua morte em 1982, isto sem contar
participações em discos, especiais e compactos gravados pela intérprete
(ECHEVERRIA, 2012).

Capítulo x.4 – Uma Vida Pessoal Conturbada

Elis Regina casou-se duas vezes. A primeira, com o próprio Ronaldo Bôscoli,
com quem se reencontraria tempos depois do desentendimento no Beco e com quem
iniciaria um relacionamento intenso e, ao mesmo tempo, conturbado. A segunda, com
César Camargo Mariano, com quem começou a namorar após separar-se de Ronaldo.
Do primeiro casamento, Elis teve um filho, João Marcelo. Do segundo casamento, a
artista teve dois, Maria Rita e Pedro Mariano. Elis tinha 22 anos quando se casou pela
primeira vez. Ronaldo tinha 38 (MARIA, 2015).
O casamento com Bôscoli ocorreu no dia 05 de dezembro de 1967. O
relacionamento com Ronaldo Bôscoli foi conturbado desde o início, com brigas
constantes e desentendimentos. O casal parecia viver em pé de guerra e costumavam
trocar ofensas entre si, constantemente. Depois, se abraçavam e faziam as pazes, mas a
bonança durava pouco. Logo vinha outra tempestade.
No seu relacionamento com Elis, Bôscoli costumava reparar nela aquilo que lhe
desagradava. Criticava sua roupa, seu penteado e seu gestual ao cantar. A única coisa
que ele não tinha como criticar era o incrível talento da cantora. A grande artista que ela
era. Elis também não deixava barato e contra-atacava. Mas parecia ser uma relação de
amor e ódio. Na mesma velocidade com que saiam no tapa, voltavam atrás e retomavam
a relação. Este vai e vem continuou por alguns anos, até o divórcio em 1972
(ECHEVERRIA, 2012).
Enquanto os dois estavam casados, Bôscoli também deixou a desejar como
companheiro, ao ausentar-se de alguns eventos importantes da carreira de Elis Regina,
como a viagem à Cannes para participar do III Miden em 1969, e para gravar um disco
na Suécia no mesmo ano. Também não esteve presente em sua viagem à Holanda, nem
à Paris. Tinha medo de avião e, por isso, quando se tratava de usar este meio de
transporte, preferia ficar em casa.
Já o segundo casamento, com César Camargo Mariano, foi mais longo e durou
até pouco antes do fim da vida de Elis. No início, tudo parecia um mar de rosas e o casal
desfrutou momentos de união e de felicidade. César Camargo era um músico
excepcional e compôs arranjos belíssimos para ela e abriu a possibilidade de uma
harmonia perfeita entre a casa e o trabalho.
No tempo em que Elis e César estiveram juntos, a parceria rendeu belíssimos
shows e gravações. Com a expertise do então marido ao piano, Elis voava sobre as notas,
mostrando todo seu talento vocal e versatilidade. Com o tempo, o relacionamento foi se
deteriorando. Elis queria mudar, renovar, e tanto renovou que os dois acabaram por se
separar em 1976, mas reataram, separando-se definitivamente em 1981(ECHEVERRIA,
2012).
A agenda de Elis Regina era intensa, praticamente desumana. A quantidade de
shows que ela fazia, além de trabalhos em estúdio e participações na TV que ela
realizava não era algo fácil de conciliar. Talvez toda esta intensidade e agitação, ao
mesmo tempo em que vivia conflitos pessoais e de relacionamento, tudo isto somado à
sua personalidade, explosiva por um lado e depressiva por outro, tenham contribuído
para o triste desfecho que culminou em sua morte precoce.

Capítulo x.5 – A Morte de Um Ícone

Nos dias que antecederam a morte da cantora, ela já estava separada do segundo
marido e se relacionava com o novo namorado, Samuel MacDowell, com o qual
pretendia se casar. A agenda, cheia como sempre. Elis cheia de planos para a carreira e
para o futuro. Os dois já estavam planejando comprar uma casa, onde morariam juntos.
Mas não houve tempo para a mudança e nem para o casamento.
Na noite que antecedera a morte da artista, após alguns desentendimentos entre o
casal, os dois se falaram pelo telefone diversas vezes, sempre terminando em uma briga.
Depois, Samuel tentou ligar para ela diversas vezes, mas não foi atendido. No outro dia
bem cedo, Elis telefonou. Estava mais calma, e os dois pareciam estar se entendendo.
De repente, sua voz começou a ficar mais fraca, distante, até que emudeceu. Samuel
desesperou-se e correu para a casa da cantora. Após momentos de confusão e agitação e
duas portas arrombadas, Elis foi encontrada caída no seu quarto, em seu apartamento
em São Paulo. Como a ambulância demorava, Samuel e alguns amigos da cantora a
pegaram nos braços e a levaram para o hospital, em um fusca, totalmente inerte. Elis
Regina foi declarada oficialmente morta por médicos do hospital das clínicas em 19 de
janeiro de 1982 (ECHEVERRIA, 2012).
O legado da cantora representa um verdadeiro tesouro para a Música Popular
Brasileira, por ela ter registrado canções dos maiores compositores da época, e por ter
transitado por diversos estilos como a Bossa Nova, O Samba, O Jazz e a MPB. Elis
também foi a primeira cantora brasileira a bater a marca de um milhão de cópias
vendidas. Sua vida breve, mas não pouco intensa, deixou marcas na música brasileira
que jamais serão apagadas. Ao longo da carreira Elis gravou 28 LP’s 20 Compactos
Simples e 11 Compatos Duplos. Após sua morte foram lançados inúmeros discos com
gravações inéditas da intérprete. Elis também deixou muitos registros em forma de
vídeos de música e participações em outros LP’s.

Capítulo x.6 – A Artista Elis Regina

A artista Elis Regina era dotada de qualidades técnicas e interpretativas notáveis.


De fato, muitos a consideram a maior cantora brasileira de todos os tempos. Tanto isto é
verdade que, ao contrário de muitos outros artistas que foram esquecidos, Elis é
lembrada, tocada, estudada e interpretada constantemente, além de servir como
referência para a formação de cantores e cantoras que desejam adquirir excelência em
sua atuação.
ECHEVERRIA (1985, p.267 apud BORÉM e TAGLIANETTI, 2014) a
considera a “maior porta-bandeira” da música popular brasileira, não apenas pela
maestria com que integrava técnica e expressão vocal, mas também por se revelar uma
performer de palco completa (ACCIOLI, 1995, p.150; MAYRINK, 1995, p.157; Rita
Lee em LEE e REGINA, 2011, em [00:58] e [02:15] 1; Caetano Veloso, citado por
ARASHIRO, 1995, p.51; MOTTA, 2000, p.199, apud BORÉM E TAGLIANETTI,
2014).

Capítulo x.6.1 – Qualidades Técnico-Musicais de Elis Regina


Quanto às qualidades técnico-musicais da cantora, BORÉM e TAGLIANETTI
(2014, p. 39-40) registram diversos depoimentos como o de Flávio RANGEL (p. 39)
que fala do “diferente” na interpretação de Elis, que devido à inquietude de sua
inteligência, tinha a capacidade de renovar sempre, mesmo quando cantava velhos
clássicos; o do crítico, produtor e compositor Nelson MOTTA (p. 39-40) que menciona
o perfeito equilíbrio entre técnica e emoção demonstrado por Elis; e o do músico e
compositor Milton NASCIMENTO (p. 40) que se disse fascinado pelo uso da palavra
por parte da cantora, segundo ele, uma das poucas pessoas capazes de dizer, na medida
exata, o que o termo significava, ao mesmo tempo em que brincava com a música, com
a palavra, com a harmonia e, principalmente, com o ritmo. Uma reunião de coisas que
jamais havia visto em pessoa alguma.
De fato, Elis era dotada de uma grande versatilidade vocal e dominava, com
relativa facilidade, diversos recursos associados à emissão da voz cantada. A cantora
usava, frequentemente, recursos já consagrados na música como glissandos, crescendos,
piano súbitos e forte súbitos além de outros recursos menos comuns como emitir uma
voz rouca, fazer uma pausa inesperada, inspirar de forma ruidosa ou dar um suspiro, rir
e até mesmo chorar em determinadas partes da música. Em uma mesma canção, ela era
capaz de utilizar várias destas soluções a fim de enriquecer o conteúdo expressivo da
letra. A descrição feita por PACHECO da interpretação de “Se Eu Quiser Falar Com
Deus”, de Gilberto Gil, durante o show Trem Azul, em 1981, nos permite ter uma ideia
desta grande capacidade expressiva da cantora ao utilizar a voz.

Em se eu quiser falar com Deus, sobressai a cantora. Naquela


ambiência blues, Elis Regina se lança á corda bamba. Diante do
abismo, um passo adiante, mergulho na incerteza através de um cantar
visceral. Seus guias seriam o improviso e a exploração de variadas
tonalidades de sua voz. Um teste de limites na relação de dosagem
entre emoção e técnica. Vôo arriscado pelo território que tanto
conhecia: a música (PACHECO, 2009, p. 217).

Para Carlos LYRA (apud MARIA, 2015, p. 44), compositor e violonista, Elis
Regina era uma cantora de voz única e brilho incomum, mas de uma personalidade
artística forte. Queria ser o primeiro a aproveitar os talentos da jovem artista, pois
pressentia que ela era “uma pedra preciosa que ele havia garimpado e da qual alguém
logo iria se apoderar”. Já o cantor, compositor e arranjador Edu LOBO (apud MARIA,
2015, p. 52) destacou que Elis tinha um censo harmônico de instrumentista, incomum
aos cantores da época. Segundo ele, ela sabia quais acordes ficariam bons em
determinada música e cobrava de seus músicos que os utilizassem, conforme sua
intuição pedia.
Uma voz potente, para fora, como dizia a própria Elis. No início, a cantora
recebeu críticas por causa do seu estilo de cantar, incontido e sonoro, pois era ainda um
momento em que a Bossa Nova, com seu estilo dolente e suave ainda dominava o
cenário, conforme comenta MARIA (2015, p. 46). Não que Elis Regina não soubesse
cantar com suavidade quando queria, como pode ser testemunhado em várias de suas
gravações, mas naquele momento, sua voz demasiadamente exteriorizada pareceu
exagerada para muitos. Para outros, no entanto, estava ali uma cantora fenomenal.

Capítulo x.6.2 – Qualidades Cênicas de Elis Regina

Além de ter ficado famosa pela bela voz e por suas qualidades técnico-vocais
inquestionáveis, Elis Regina também se destacou por adotar um gestual elaborado, com
a intenção de compor a sua interpretação musical. O pesquisador Mateus Pacheco
afirma que:

Se numa interpretação, a respiração da interprete, o realce à


dramaticidade ou à irreverência dada pela forma de cantar, assim
como as pausas por ela colocadas, surtiam efeitos que acrescentavam
sentidos à canção, Elis ainda queria mais. Juntava se à voz um gestual
que era puro discurso, agregando e reforçando os sentidos. São olhos,
mãos, expressões faciais que informam mensagens. Era o corpo se
expressando em sua totalidade. Nessa exploração de variados recursos,
a intérprete se pôs numa fronteira porosa no campo das artes,
chegando a experimentar linguagens como a do teatro e da dança.
(PACHECO, 2009, p.4).
De acordo com BORÉM e TAGLIANETTI (2011, p.1159), a corporalidade de
Elis destacava os conteúdos emocionais das canções, evidenciando detalhes dos textos
do repertório que escolhia. “Sublinhava o que estava explícito, e antecipava o que
estava para ser revelado nas entrelinhas da letra, respondia com gestos o que acabava de
dizer.”
Em relação à esta maneira como Elis Regina era capaz de usar o corpo e as
expressões faciais, é necessário saber da influência que ela recebeu do ator, bailarino e
coreógrafo americano, Lennie Dale que, por coincidência, vivia no Brasil na mesma
ocasião em que a artista despontava no cenário carioca, paulista e nacional. De acordo
com o Dicionário Cravo Albin Da Música Popular Brasileria (DCAMPB), Dale foi
personagem de destaque no cenário da bossa nova, dirigindo, nos anos 1960, vários
shows no Beco das Garrafas (RJ), inclusive criando uma nova estética para esta, como
registram também BORÉM e TAGLIANETTI (2014):

“No Beco das Garrafas a Bossa Nova mostrou que podia ser
espetáculo, que não precisava ficar eternamente sentada em um
banquinho com um violão. E quem provou que a Bossa Nova podia
ser inclusive dançada foi Lennie Dale” (BLOCH, 2010,
em [00:23]) (Borém e Taglianetti, 2014 p 43).

A atriz e dançarina Betty FARIA (2009) diz que “... [em 38:49] o
Lennie Dale inventou uma dança da Bossa Nova, que era um samba
ponteando ao contrário...” (Borém e Taglianetti, 2014 p 43).

O DCAMPB ainda relata que Lennie inovou a concepção dos espetáculos


musicais, enfatizando a necessidade de produção, ensaio e expressão corporal dos
artistas nos shows. Tinha o hábito de encorajar o desenvolvimento de seus alunos com a
expressão "Cresce, baby!" Criou e dirigiu o grupo teatral Dzi Croquettes, grupo carioca
irreverente, alinhado à contracultura, à criação coletiva e ao teatro vivencial, que fazia
da homossexualidade e da travestilidade uma bandeira de afirmação de direitos. De
acordo com a Enciclopédia Itaú Cultural, o conjunto criou, em 1972, o espetáculo
“Gente Computada Igual a Você”, que se origina de um show de boate, posteriormente
levado para São Paulo, na casa noturna TonTon. Um árduo trabalho de interpretação e
de dança é empreendido por Dale, para transformar o grupo numa trupe artística,
elogiada pela crítica. Em Paris, os Dzi Croquettes conhecem a consagração
internacional. Em 1973 e 1974, fazem longas temporadas no Le Palace e, entre outras
atividades, participam do filme Le Chat et la Souris, de Claude Lelouch.
Lennie Dale tornou-se grande amigo da cantora Elis Regina, por quem ficou
encantado. Com ele, Elis teria aprendido a se soltar no palco, utilizando os braços, o
corpo e as expressões faciais para transmitir emoção e compor sua interpretação musical.
Enquanto alguns autores de biografias garantem que o ato de rodopiar os braços no ar,
usado para defender a canção Arrastão, em 1965, teria sido aprendido com o bailarino.
Outros, dizem que ele não ensinou, mas aprovou (ECHEVERRIA, 2012; MARIA,
2015; FARIA; 2015). Outra lição aprendida com o artista teria sido o hábito de ensaiar
incansavelmente e de se preocupar com o caráter cênico de suas apresentações,
planejando, com antecedência, os gestos e expressões faciais que utilizaria ao interpretar
determinada canção.
Para BORÉM E TAGLIANETTI (2014), a intensa corporalidade de Elis teria,
também, raízes em seu perfil fora do palco, caracterizado por um estilo inquieto de viver,
até mesmo na vida doméstica. Os autores lembram que, no início da carreira, a artista
foi criticada pelo excessos, ganhando apelidos pejorativos como Eliscóptero e Hélice
Regina. Mencionam também CHIDIAC (1995) que comparou os movimentos da
cantora, nesta época, ao movimento de remos. Segundo os autores Elis levou tempo
para aprender a balancear toda sua energia e necessidade de movimento e encontrar, por
fim, “uma organicidade na relação entre música e cena”. Eles relatam que a própria
artista reconheceu seu exagero cênico do início, mas também uma busca de “um
equilíbrio cênico musical”. No trecho reproduzido abaixo ela conta como amadureceu
em relação à integração de sua corporalidade ao uso da voz, numa combinação entre
planejamento e intuição:

De fato, eu quero aprender algumas coisas. Expressão corporal, por


exemplo. Quando comecei a carreira, você se lembra, mexia tanto os
braços que logo ganhei o apelido de ‘Eliscóptero’. Depois, passei a
receber tantas críticas pelo meu, digamos, exagero de movimentação,
que praticamente amarrei as mãos na cintura. Cantava tão dura, tão
rígida, que um show era uma verdadeira angústia. Ficava com dores
terríveis nos músculos dos braços e das costas. Hoje em dia já estou
me portando mais ponderadamente. Mas acho muito importante
aprender a me postar de modo realmente estético. Em todo caso,
acredito muito no meu instinto. E não quero inibi-lo. Não há dúvidas
de que aperfeiçoei minha técnica vocal, de que desenvolvi minha
dicção. Ao mesmo tempo, porém, não desejo cercear o que tenho de
natural – exatamente o que fez de mim uma cantora”
(LANCELLOTTI, 1995, p.79-80 apud BORÉM e TAGLIANETTI,
2014).
O esforço da cantora deu resultado, pois ela se tornou uma artista altamente
expressiva, não só através de recursos vocais, mas também por meio de estratégias
corporais, como podemos ver no exemplo abaixo, extraído da gravação de “Atrás da
Porta” de Chico Buarque e Francis Hime, de 1973, na qual Elis utiliza com maestria a
voz e o corpo para transmitir as emoções evocadas pelo conteúdo semântico da letra da
canção. A performance mostrada no vídeo será analisada detalhadamente, mais adiante,
num capítulo à parte.

Exemplo 1. Cenas do vídeo Atrás da Porta, de 1973.

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