Você está na página 1de 20

Universidad de Medellín

Hermenêutica e interpretação constitucional


sistemática axioteleológica*
Edihermes Marques Coelho**

Recebido: 21 de junho de 2016 • Aprovado: 18 de julho de 2017


DOI: 10.22395/ojum.v16n32a7

RESUMO
Os processos hermenêuticos são processos comunicacionais em que a
linguagem é a ferramenta de condução de mensagens, cujos sentidos
são redefinidos constantemente. No âmbito do direito, os enunciados
linguísticos são organizados especialmente em normas jurídicas a serem
interpretadas. A atividade hermenêutica jurídica organiza-se em torno de
possibilidades argumentativas que se destinam a definir a mais adequada
interpretação para a solução dos problemas concretos da vida. Entretanto,
essa definição não fica à livre disposição do intérprete, pois há referências
normativas prévias, cujo conteúdo axiológico e teleológico há de ser
respeitado de forma que se preserve a sistematicidade constitucional.
Palavras-chave. Hermenêutica constitucional; princípios e regras; sistema
jurídico.

*
Trabalho elaborado no âmbito do projeto de pesquisa em fluxo contínuo sobre a eficácia dos Direitos
Fundamentais no sistema jurídico, sob a coordenação do autor, vinculado ao Programa de Mestrado em Direito
Público da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Uberlândia, Minas Gerais, Brasil.
**
Mestre e doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor do curso de Direito
da Faculdade de Direito e do mestrado em Direito Público da UFU. E-mail: edihermescoelho@gmail.com.

Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
170 Edihermes Marques Coelho

Hermeneutics and constitutional systematic


axiotheological interpretation
ABSTRACT
Hermeneutical processes are communication processes in which language is the
toll used to pass messages on; messages which senses are constantly redefined.
In a legal framework, linguistic utterances are specially organized on legal norms to
be interpreted. The legal hermeneutic activity is organized around argumentative
possibilities intended to define the most appropriate interpretation for the solution
of concrete daily-life problems. However, this definition is not freely available to
the interpreter, as there are previous normative references, whose axiological
and theleological content must be respected so as to preserve constitutional
systematicity.
Keywords: constitutional Hermeneutics; legall system; principles and rules.

Hermenéutica e interpretación constitucional


sistemática axioteleológica

RESUMEN
Los procesos hermenéuticos son procesos comunicacionales en los que el lenguaje
es la herramienta de conducción de mensajes, cuyos sentidos se redefinen
constantemente. En el marco del derecho, los enunciados lingüísticos se organizan
especialmente en normas jurídicas a interpretarse. La actividad hermenéutica
jurídica se organiza alrededor de posibilidades argumentativas que se destinan a
definir la más adecuada interpretación para la solución de problemas concretos
de la vida. Sin embargo, esta definición no queda a disposición del intérprete,
pues hay referencias normativas previas, cuyo contenido axiológico y teleológico
se deben respetar de forma que se preserve la sistematicidad constitucional.

Palabras clave: hermenéutica constitucional; principios y reglas; sistema jurídico.

Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín


Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 171

INTRODUÇÃO relevantes da teoria jurídica contemporâ-


nea. As discussões vão desde qual é o real
Num mundo de relações humanas bali- objeto da interpretação jurídica, passam
zadas por normas jurídicas que transitam pela seleção do(s) método(s) adequado(s)
entre o efetivo e o não efetivo, há um Di- para a atividade interpretativa e chegam
reito em crise. O cenário atual caracteriza- às possibilidades e aos limites da inter-
-se por crises diversas, embora interliga- pretação jurídica.
das: crise econômica, crise de identidade
cultural, crise política, crise ambiental. Os processos interpretativos das normas
O Direito, enquanto matriz funcional de jurídicas são condicionados por parâme-
normatização das relações humanas, tros hermenêuticos para a compreensão.
acompanha seu objeto de regulação, e A hermenêutica jurídica pode ser definida,
ele próprio precisa se reconstruir nesse então, como a parte da ciência jurídica
contexto. Tal reconstrução passa pela que tem por objeto o estudo e a sistema-
reconstrução de aspectos normativos e tização dos processos que devem ser uti-
dogmáticos que dependem de operações lizados para a realização da interpretação.
interpretativas e hermenêuticas para que A partir dela, delineiam-se os mecanismos
suas funções jurídico-regulatórias sejam interpretativos. Com isso, a interpretação,
efetivadas. por sua vez, consistiria na utilização dos
critérios hermenêuticos para a definição
No âmbito da comunicação humana, a eti- de sentido(s) para os textos jurídicos —
mologia da palavra hermenêutica reporta ao legislados ou não (França, 1994, pp. 21-22;
verbo grego hermeneuein e ao substantivo Peixinho, 2003, pp. 14-15).
hermeneia (Alberti, 1996). O deus Hermes
tinha como função traduzir as mensagens Tais preocupações têm sua razão de ser.
dos deuses aos humanos, fazendo com Como o Direito é construído a partir do
que a linguagem divina fosse compreen- uso da linguagem ordinária em enuncia-
sível pela inteligência humana. Os gregos dos comunicativos de caráter prescritivo
creditavam a Hermes a descoberta da (contidos em normas, que em sua maioria
linguagem e da escrita, com a função de são legisladas), o sentido que a linguagem
mensageiro dos deuses. possui, ao ser utilizada em tais enuncia-
dos, passa a ser uma questão decisiva
A hermenêutica, assim, tem como origem para se dimensionar a atuação dos pro-
a necessidade de interpretação de men- fissionais do Direito e, por consequência,
sagens, para torná-las compreensíveis. para se dimensionar a própria efetividade
Ora, o Direito configura-se como um das normas jurídicas. Por um lado, trata-
conjunto de comunicações normativas, -se de firmar o conteúdo com o qual o
cuja definição de sentido é complexa e, Direito intervém na realidade regulada;
por vezes, é contraditória culturalmente. por outro, trata-se de indicar as diretri-
Desse modo, a interpretação dos textos zes a serem seguidas pelos profissionais
jurídicos tem sido uma das questões mais jurídicos nessa tarefa.
Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
172 Edihermes Marques Coelho

O Direito não está limitado à lei e consiste que dispõem os operadores do Direito;
num conjunto complexo de conteúdos, (c) pela prevalência dos valores constitu-
dos quais a lei é a face mais aparente cionais superiores no plano interpretati-
e importante, mas não a única. Tal im- vo, com destaque para a essencialidade
portância está sediada, sobretudo, na funcional da interpretação sistemática
circunstância de que é através da lei que axioteleológica.
o Estado propaga comandos diretos para
condutas pessoais e comportamentos 1. OS SIGNOS E A TRANSMISSÃO DE CONTEÚDOS
institucionais, além de fixar parâmetros
para isso. Assim, em virtude da importân- Em normas, textos jurídicos, decisões
cia operacional que a legislação possui, a judiciais, como em quase qualquer esfera
atividade interpretativa é pensada a partir da vida, os seres humanos se comunicam
dos parâmetros para a interpretação legal. através da utilização da linguagem escrita.
Não é admissível, entretanto, que a inter- Esta consiste num meio de transmissão
pretação fique limitada a isso. de conteúdos, um meio de comunicação
— o meio de comunicação por excelência,
Enfim, no que respeita às possibilidades já que se caracteriza como atemporal.
e aos limites interpretativos, há dois âm-
bitos: um é aquele que se refere à siste- A linguagem pode ser definida, pois,
maticidade do Direito e sua vinculação como o conjunto de instrumentos de
normativa à Constituição; outro é aquele comunicação, que possibilitam a trans-
que se refere aos limites do papel políti- missão articulada de mensagens entre
co cultural do hermeneuta, especialmen- os seres humanos. Nesse sentido, ensina
te na atividade judicial. Desse modo, não Vanoye (1986) que a linguagem é
se deve desprezar que a interpretação
dentro do jurídico está relacionada a di- [...] um sistema de signos social-
versas condicionantes não jurídicas, de izado. “Socializado” remete clara-
mente à função de comunica-
caráter ideológico e cultural — mas este
ção da linguagem. A expressão
trabalho aqui apresentado se refere ao “sistema de signos” é empregada
problema da sistematicidade do Direito para definir a linguagem como um
e sua vinculação hermenêutico-normati- conjunto cujos elementos se de-
va à Constituição. terminaram em suas inter-relações,
ou seja, um conjunto no qual nada
Numa abordagem dedutiva, como fruto significa em si, mas tudo significa
em função dos outros elementos.
de pesquisa bibliográfica e exploratória,
Em outras palavras, o sentido de
o estudo aqui desenvolvido sobre os um termo, bem como o de um
parâmetros hermenêuticos de interpre- enunciado, é função do contexto
tação jurídica sistemática passa: (a) pela em que ele ocorre. (p. 29)
compreensão do papel da linguagem na
comunicação humana; (b) pelo estudo A comunicação humana ocorre, portanto,
dos principais métodos interpretativos de através de mecanismos simbólicos aos
Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín
Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 173

quais atribuímos significados específicos, Numa mesma cidade, convivem pessoas


os signos. Estes se caracterizam como de diferentes camadas culturais, com di-
unidades de linguagem, meios de comuni- ferentes formas de ver e viver a vida, e de
cação que traduzem sentidos. Cada signo conviver com as demais pessoas. Isso faz
linguístico carrega um potencial significa- com que as pessoas tenham diferentes
do, o que é decisivo para a comunicação matrizes culturais e que gerem variações
quando são agrupados. Assim, a palavra no padrão de uso da linguagem, especial-
cadeira, enquanto signo linguístico, indica, mente da linguagem ordinária, cotidiana.
a quem a lê ou a ouve, um sentido, desig- Embora a linguagem culta seja relevante
na para nossas mentes um objeto. Vanoye na comunicação qualificada (a jurídica
(1986) explica que o incluída), em larga escala, a linguagem
ordinária determina as possibilidades
[...] signo é a menor unidade dot- comunicacionais.
ada de sentido num código dado.
Decompõe-se num elemento ma- [...] alguns dos seus termos po-
terial, perceptível, o significante, dem ser entendidos de várias
e num elemento conceptual, não maneiras. Mas o significado ap-
perceptível, o significado (por ropriado é definido pelo contexto
exemplo, a palavra “mesa” pode verbal e factual, do qual cada pa-
ser ouvida ou vista, conforme seja lavra é uma parte, se bem que, se
pronunciada ou escrita: o som forem tomadas separadamente,
“mesa” e a forma gráfica “mesa” elas equivalem a uma pura abstra-
são significantes que remetem ao ção e não, em absoluto, a uma lin-
mesmo significado, o conceito guagem. (Aranguren, 1975, p. 79)
de mesa, “objeto constituído por
uma superfície plana sustentada
por um ou mais pés”). O referente
Além disso, não se deve menosprezar
é o objeto real ao qual remete o a circunstância de o uso da linguagem
signo numa instância de enuncia- poder ocorrer de forma pretensamente
ção. (p. 59) denotativa (o sentido real) ou de forma
pretensamente conotativa (o sentido figu-
Agrupados, os signos nos possibilitam rado ou decorrente de interpretação). Em
apresentar concepções sobre as coisas virtude de tais aspectos, nenhum tipo de
corpóreas e incorpóreas, com maior ou comunicação é exata, perfeita. Pelo mes-
menor complexidade. Os significados mo motivo, pode-se dizer que a verdade é
potenciais dos signos se multiplicam de sempre, em algum grau e de algum modo,
acordo com as combinações que fazemos relativa, dependente do ato de interpretar
entre eles. Desse modo, a uma palavra (Gadamer, 2003) No Direito, o modo como
podem ser agregadas outras, dimensio- são articulados os signos é próprio, espe-
nando e especificando diversos sentidos. cífico da comunicação jurídica. É inegável,
aliás, que o modo como articulamos os
Além disso, a utilização da linguagem signos nas frases já implica uma maior
não é linear nos agrupamentos humanos. ou menor capacidade individual de trans-
Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
174 Edihermes Marques Coelho

missão de conteúdos (comunicação) e de um fenômeno basicamente normativo, a


expressão de pensamentos, correlaciona- teoria já opera sobre a legislação, a juris-
da às próprias intenções subjacentes de prudência e os princípios jurídicos gerais,
quem formula o discurso (no caso, norma- que seriam a matéria-prima da dogmática
tivo). Não obstante, independentemente jurídica. Os artigos de lei, os julgamentos,
dessas variações no padrão de uso da os mandamentos principiológicos pos-
linguagem e das intenções subjacentes, suem enunciados de comunicação dirigi-
existe uma forma culta de utilização dos dos a outros seres humanos. Para tanto,
signos e de construção das expressões utilizam-se da linguagem e dos recursos
linguísticas (entende-se por forma culta atinentes à linguagem e à comunicação
de utilização da linguagem o emprego humana, condicionadas por parâmetros
dos padrões gramaticais e ortográficos ideológicos e interesses sociais.
consagrados como adequados à correta
expressão linguística). Como afirma Larenz (1989),

O ideal, em termos de comunicação hu- [...] que o significado preciso de


mana — e em termos de comunicação um texto legal seja constante-
prescritiva jurídica —, é procurar otimizar mente problemático depende, em
primeira linha, do fato de a lin-
a comunicação utilizando-se da lingua-
guagem corrente, de que a lei se
gem com o máximo potencial comuni-
serve em grande medida, não uti-
cativo permitido pelas circunstâncias de lizar, ao contrário de uma lógica
seu uso. axiomatizada e da linguagem das
ciências, conceitos cujo âmbito
Assim também o é no plano jurídico, esteja rigorosamente fixado, mas
embora a especificidade da comunicação termos mais ou menos flexíveis,
jurídica, baseada em enunciados normati- cujo significado possível oscila
dentro de uma larga faixa e que
vos, exija parâmetros específicos de uso
pode ser diferente segundo as
da linguagem e parâmetros específicos na circunstâncias, a relação objetiva
formulação dos enunciados linguísticos e o contexto do discurso, a colo-
normativos. cação da frase e a entonação de
uma palavra. (p. 375)
2. A LINGUAGEM NO DIREITO
Ocorre que os signos linguísticos não têm
A legislação, a jurisprudência e os princí- um sentido unívoco quando utilizados na
pios jurídicos são formas (institucionais construção de enunciados — não há um
ou não) de comunicação humana, e as único sentido e uma única interpretação
formas principais de comunicação dentro possível para cada palavra ou conjunto de
do Direito. Não se está desprezando aqui palavras. As palavras podem ser harmoni-
o papel dos textos doutrinários como zadas com diferentes sentidos, de acordo
fontes do Direito. Apenas se ressalta o com o que se quer comunicar (na hora em
fato evidente de que, sendo o Direito que é elaborada a lei, por exemplo), de
Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín
Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 175

acordo com aquele que interpreta o texto, — ou agravar — um encastelamento do


de acordo com as convenções históricas e Direito, distanciando o mundo jurídico
culturais (Pereira, 2006, pp. 50-54). do mundo real.

A expressão capacidade civil, por exemplo, Juridicamente, entretanto, há um constan-


tem sentido diverso quando se referem te caminhar no sentido da compreensão
à pessoa jurídica e à pessoa física; sua e da definição de sentido das formas
grafia, porém, não muda. Além disso, especificamente jurídicas de comunica-
seja através dos enunciados normativos ção humana. Caminhar este que objetiva
da legislação, seja através dos enuncia- tanto quanto possível uma definição de
dos normativos da jurisprudência, seja sentido jurídico dos enunciados, focando
através dos enunciados normativos dos nas situações da vida que haverão de ser
princípios, não há como se definir previa- atingidas pelo conteúdo de tais formas
mente — na elaboração do texto legal, na comunicantes (legislação, jurisprudência,
elaboração da sentença, na concepção do princípios).
princípio jurídico — todas as questões e
os problemas que hão de se resolver com Esse processo de definição de sentido
sua utilização. logicamente precede as decisões jurí-
dicas. E, para que ele ocorra da forma
Assim como a realidade da vida não é mais coerente e universalizável possível,
meramente objetiva (pois, felizmente, recorre-se a parâmetros sistematizados
não existem axiomas de verdade que que auxiliam a realização de tal operação
se impõem sobre todas as coisas), tam- intelectual.
bém uma norma jurídica não possui um
sentido único intrínseco a ela, imponível 2.1. A hermenêutica e a atividade judicial
indistintamente sobre todos os casos
conflituosos da sociedade. A definição de sentido dos textos jurí-
dicos, sobretudo os normativos, ocorre
A utilização do discurso prescritivo, ca- através de um processo de interpretação
racterístico das normas jurídicas, é por si de cunho hermenêutico. Sua aplicação se
só um aspecto condicionante do tipo de dá, por vezes, de modo geral e prévio, com
definição de sentido a que se deve proce- objetivo de generalidade — uma súmula
der. Ocorre que tal definição de sentido de um tribunal ou os textos doutrinários,
não ocorrer de forma descompassada da por exemplo. Ordinariamente, no entanto,
realidade social regulada. A linguagem ju- os processos interpretativos são aplica-
rídica possui, pois, uma dimensão técnica dos em situações jurídicas específicas,
específica, marcada pelo uso de expres- caso a caso, sobretudo no desenvolvi-
sões da linguagem ordinária com uma mento processual das ações judiciais.
intenção de sentido própria do mundo
jurídico; contudo, tal aspecto não deveria Entendida primariamente uma norma
ser supervalorizado, sob pena de causar como um mandamento de dever ser, o seu
Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
176 Edihermes Marques Coelho

sentido específico — seja ela norma cons- pelo âmbito possível de aplicação. Ou
titucional, seja infraconstitucional — só seja, seria tarefa específica da atividade
pode ter uma definição na sua efetiva apli- jurisdicional o exercício de adequação
cação (ou exclusão de aplicação), numa normativa à realidade social subjacente,
situação da vida, a uma relação sociojurí- sempre respeitando os parâmetros pre-
dica regulada — direta ou indiretamente dispostos pela teoria do Direito. Não se
— em abstrato pela própria norma. O que deve menosprezar aqui o problema que
vem a permitir tal definição de sentido, representam as idiossincrasias possíveis
como momento prévio do aplicar, é a in- — mas indesejáveis — na hermenêutica
terpretação jurídica. Com isso, afirma-se judicial (Streck, 2014b, passim).
que a interpretação de uma norma — ou
de um conjunto normativo específico — Tem-se, então, que a atividade interpre-
é um momento prévio necessário para a tativa, para o Direito, é uma atividade de
sua aplicação. definição de conteúdo, uma atividade
que possibilita concretizar a abstração
Não se quer, com isso, dar a entender que das normas em face das circunstâncias
uma norma jurídica seja vazia de sentido de aplicação e em face das conexões
até que haja uma manifestação interpre- axiológicas da regulação jurídica. Este
tativa concretizadora. Desde sua elabora- é um aspecto operacionalmente rele-
ção, estará presente no texto normativo vante: as normas estão encadeadas no
um conjunto de signos de linguagem plano formal e material, pois a vigência
que imprimem uma significação mínima e a validade de cada uma condicionam
apreensível normalmente por todos que a vigência e a validade das demais. Além
a interpretarem — aqui a referência se disso, toda norma traduz, em alguma
faz à mais ampla noção interpretativa, medida, uma opção valorativa de quem
qual seja, a interpretação coloquial, feita a formula — e será interpretada em igual
por cada possível destinatário da norma. medida através de opções valorativas de
quem a interpreta.
Ocorre que há uma esfera de interpre-
tação — qualificada e jurídica — que Nesse ponto, pode-se dizer que, no Di-
intermedia a aplicação institucional da reito, interpretar é, assim, definir o con-
norma. O locus competente para tal é o teúdo de uma norma jurídica (legislada
institucional/estatal, através das autorida- ou não) visando sua efetiva aplicabilidade
des administrativas (no mais amplo signi- a realidades concretas. Ainda, é ativida-
ficado do termo: órgãos governamentais, de com conexão axiológica e teleológica
autoridades policiais etc.) e, principal- com todo o conjunto normativo, e é co-
mente, através das autoridades judiciais. nexão de adequação e razoabilidade com
Especialmente neste último nível — o a realidade social abrangida pela previsão
judicial —, a determinação de sentido es- normativa. Como afirma Bonavides (1993)
pecífico da norma pode correlacionar-se sobre a interpretação, ela “mostra o Di-
com os fenômenos concretos cobertos reito vivendo plenamente a fase concre-
Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín
Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 177

ta integrativa, objetivando-se na realida- Morin (2011) que “compreender significa


de” (p. 357). intelectualmente aprender em conjunto,
comprehendere, abraçar junto (o texto e seu
A hermenêutica traduz a mutabilidade contexto, as partes e o todo, o múltiplo e
histórica e a abertura semântica dos con- o uno). A compreensão intelectual passa
teúdos jurídicos. Vincula-se à realidade pela inteligibilidade e pela explicação.”
social, pois: (pp. 94-95). Já a compreensão humana

[...] a condicionalidade histórica [...] comporta um conhecimento


do ordenamento jurídico revela- de sujeito a sujeito. [...] O outro
lhe uma de suas características não apenas é percebido obje-
básicas: a dinamicidade. Carac- tivamente, é percebido como
terística esta que não se limita outro sujeito com o qual nos
à questão da criação-revogação identificamos e que identificamos
de normas jurídicas; abrange conosco, o ego alter que se torna
fundamentalmente o problema alter ego. Compreender inclui,
da mutação das significações necessariamente, um processo
normativas, o que se manifesta de empatia, de identificação e de
através dos atos de interpreta- projeção. Sempre intersubjetiva,
ção e aplicação jurídicas. (Neves, a compreensão pede abertura,
1988, p. 20) simpatia generosidade. (Morin,
2011, pp. 94-95)
Portanto, a linguagem representa a ma-
téria bruta sobre a qual a hermenêutica Ao se formular os discursos jurídicos,
atua, de forma que os atos interpretantes portanto, é necessário se preocupar com
sejam construídos argumentativamente, a interação que pode ser gerada com
caso a caso. aqueles a que se destina o discurso, e
isso não apenas no plano da satisfação,
2.2. Linguagem e argumentação mas também no plano da compreensão
e da reflexão.
No âmbito do Direito, seja no plano nor-
mativo (discursos prescritivos), seja no Obviamente, isso sempre dependerá do
jurisprudencial (discurso analítico-pres- tipo de comunicação que se pretende ob-
critivo), seja no da teoria do Direito (dis- ter, do meio utilizado para tanto e, claro,
curso analítico), não basta transmitir as dos objetivos que se pretende atingir.
informações, não basta o entendimento Deve-se ter claro, entretanto, que a pres-
pessoal ou coletivo de quem formula o crição e a argumentação construídas têm
discurso jurídico — embora este seja, de um potencial singular a ser aproveitado.
qualquer forma, indispensável. Mais do Através delas são potencializadas ou limi-
que isso, é necessário tentar se propiciar tadas as possibilidades de comunicação
uma efetiva compreensão daqueles a que efetiva entre o legislador e a população
o discurso de destina. Nessa linha, ensina em geral, entre os profissionais jurídicos
Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
178 Edihermes Marques Coelho

e a população, entre o Direito enquanto [a] interação social por intermé-


instância político-normativa e a socieda- dio da língua caracteriza-se, fun-
damentalmente, pela argumen-
de como um todo.
tatividade. Como ser dotado de
razão e vontade, o homem, con-
Pode-se dizer que uma boa argumen- stantemente, avalia, julga, critica,
tação num discurso jurídico busca, de isto é, forma juízos de valor. Por
algum modo, causar ou ampliar a ade- outro lado, por meio do discurso
são das pessoas às teses que a elas se — ação verbal dotada de inten-
apresentam. Por consequência, quanto cionalidade — tenta influir sobre
o comportamento do outro ou
mais se conseguir transmitir o conheci-
fazer com que compartilhe deter-
mento e aumentar a intensidade dessa minadas de suas opiniões. (p. 17)
adesão das pessoas, possibilitando que
se desencadeie nos receptores a ação A construção do discurso jurídico, como
pretendida (ação positiva ou abstenção) texto articulado, deve sempre considerar
ou, ao menos, possibilitando que se crie a intenção de fazer o ouvinte entender sua
neles uma disposição para a ação — que mensagem, persuadindo, seduzindo, con-
se manifestará no momento oportuno —, vencendo. Incluam-se, nesse plano do en-
mais eficaz se tornará a argumentação tendimento (persuasivo, sedutor ou con-
realizada (Perelman & Olbrechts-Tyteca, vincente), os mecanismos argumentativos
2014, p. 50). Isso naturalmente envolve expressos, situados no nível fundamental
que as pessoas acreditem no que está de uso das frases, em suas significações,
sendo comunicado (informações), pac- e os mecanismos argumentativos implí-
tuem com isso (opiniões) ou obedeçam citos (não propriamente linguísticos), as
a mandamentos (prescrições normativas). manobras discursivas que dão a entender
(insinuam) ou subentendem significações
O discurso jurídico, portanto, pode ser (Koch, 2011, pp. 150-151). Nessa perspecti-
prescritivo (normativo) ou argumentati- va, os recursos argumentativos são vários
vo. Evidentemente, no plano normativo, e possibilitam a utilização de diversos me-
busca-se a persuasão tanto quanto no canismos a serem priorizados de acordo
plano argumentativo. O legislador pre- com as condições do texto. Assim, pode
tende, primeiramente, que as pessoas se se recorrer primariamente à ironia, à alu-
convençam da conveniência e do mérito são, a graus de destinação do discurso,
de se obedecer ao conteúdo prescritivo à pressuposição. Especial importância
da norma. Da mesma forma, na argumen- possuem, entretanto, a seleção lexical e
tação, ainda quando aparentemente o a argumentação por autoridade.
texto seja descritivo, busca-se convencer
as pessoas da correção e/ou adequação A seleção lexical diz respeito à escolha e
dos argumentos. combinação das expressões verbais (lé-
xico é o conjunto de palavras de uma lín-
Nesse sentido, ensina Ingedore Koch gua). Através dela são construídas amar-
(2011) que rações discursivas e figuras de linguagem.

Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín


Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 179

Com a seleção lexical, são estabelecidas Para proceder ao suprimento das incom-
oposições, jogos de palavras, metáforas, pletudes e limitações do Direito, o her-
hipérboles etc. Já a argumentação por meneuta há de realizar a adequação das
autoridade consiste em fazer sua própria previsões abstratas legais às situações
afirmação retomando a afirmação de ou- concretas do mundo da vida que sejam
tra pessoa como reforço. O argumento postas sob seu poder de decisão. Não faz
por autoridade pode também ser chama- isso, porém, sem base anterior: a doutrina
do de argumento por prestígio. e a jurisprudência constroem uma gama
de interpretações prévias de sentido para
O reforço do próprio argumento que uti- os enunciados normativos e o sistema
liza o argumento de outro pode se dar jurídico, e os juízes evidentemente se
tanto positiva quanto negativamente — valem disso.
tanto na concordância de argumentos
quanto na discordância e na crítica deles. Mesmo assim, tal adequação se mostrará,
É de se frisar, ainda, que a argumentação muitas vezes, deficiente e/ou insuficien-
por autoridade pode se dar de forma in- te. Por um singelo motivo: a realidade
direta, quando se recorre a provérbios, concreta do mundo da vida é dinâmica,
ditos populares, expressões consagradas movimenta-se, redimensiona-se cons-
pelo uso. tantemente. Enquanto isso, as previsões
legais, por mais que possam ser alteradas
Seja como for, a construção dos discur- e revisadas com frequência, são original-
sos jurídicos, através da linguagem, não mente estáticas. O “mundo da vida” no
tem como transmitir mensagens exatas e plano do cotidiano real não se conforma
inequívocas, pois, por serem realizadas ao “mundo do Direito” — plano do ser
através da linguagem, sempre estarão versus plano do dever ser. No entanto,
sujeitas à diversidade de interpretação e, deve-se ter como meta minimizar as dis-
em decorrência, ao recurso à argumen- tâncias entre os dois.
tação. Novamente aqui fica ressaltada a
importância da atividade hermenêutica, Para tanto, o intérprete jurídico precisa
com critérios e métodos que possibilitem galgar horizontes interpretativos novos,
a mais adequada interpretação possível. há de avançar em relação ao texto legal,
numa direção que, por um lado, inove a
A análise da atividade de interpretação norma legal abstrata em seu sentido estri-
jurídica mostra, por si só, que o Direito, to (conectando-a com os valores superio-
enquanto previsão de situações, é incom- res constitucionais) e, por outro, supere a
pleto, é carente, limitado em abrangência moldura legal do Direito para conectá-lo
e finito temporalmente (Canaris, 1995, pas- efetivamente à realidade social. O uso dos
sim). Mostra que as incompletudes do sis- métodos interpretativos deve ser visto,
tema jurídico precisam ser supridas para assim, como meio para um fim: alcançar
que ele cotidianamente tenha eficácia a definição de sentido hábil a justificar a
jurídica e, sobretudo, efetividade social. aplicação do Direito.
Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
180 Edihermes Marques Coelho

As zonas de separação entre interpre- 2014a). Aqui sobressai a importância da


tação jurídica e criação de novos con- Constituição enquanto sistema normativo
teúdos são bastante vagas no Direito. A axioteleológico.
interpretação será sempre um processo
intelectual de concretização de sentidos 3.1. O paradigma sistemático para a hermenêutica
normativos, em face de argumentações
preexistentes. Nessa concretização, será Interpretações semânticas são necessá-
definido o sentido adequado de uma nor- rias juridicamente, mas insuficientes, pois
ma ou um conjunto de normas jurídicas, têm limitada abrangência. Interpretações
pensadas em relação à sua possibilidade teleológicas são necessárias, mas igual-
de aplicação a um determinado fato. E mente insuficientes, pois as finalidades
tal definição de sentido acaba tendo al- somente ganham corpo através da con-
gum grau de criação de novos conteúdos, formidade com outras finalidades e va-
pois o próprio processo hermenêutico é lores. Interpretações devem sempre ser,
argumentativo. explícita ou implicitamente, sistemáticas,
para que se permita o encadeamento dos
Ocorre que tal possibilidade real de cria- diversos mecanismos hermenêuticos, ora
ção de novos conteúdos no processo enfatizando um, ora enfatizando outro.
hermenêutico de concretização do Di-
reito não pode ser ilimitada. O ponto de A interpretação sistemática possibilita
equilíbrio e referência para tanto está no encarar a norma aplicada como parte de
papel singular que a Constituição — e, um contexto maior — possibilita encarar
por óbvio, a interpretação constitucional a norma como um fenômeno complexo,
— pode exercer em termos sistemático- uma parte de um todo. Por decorrência,
-valorativos. a leitura da norma constitucional deveria
sempre ser feita com atenção ao conjunto
3. A INTERPRETAÇÃO SISTEMÁTICA normativo da Constituição, com o todo
CONSTITUCIONAL da Constituição.

Os conteúdos do Direito aplicáveis para Isso impulsionaria o hermeneuta no sen-


a solução dos problemas da vida real não tido da adoção de um critério axiológico
nascem do nada: há um nível normativo principiológico, que consagre o papel
mínimo que açambarca todos os setores hierárquico das normas constitucionais.
da vida social. Entretanto, para além des- Conduz, pois, à imprescindibilidade da
se mínimo, as situações da vida pedem interpretação sistemática do texto nor-
concretizações hermenêuticas que, em mativo constitucional, calcada em valores
alguma medida, são inovadoras. Ocorre e intencionalidades finalísticas. Afinal,
que as inovações de conteúdo não podem
decorrer de subjetivismos do intérprete [...] toda a interpretação de uma
que desvirtuem os parâmetros normati- norma tem de tomar em consid-
vos mínimos do sistema jurídico (Streck, eração, como vimos, a cadeia de

Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín


Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 181

significado, o contexto e a sede uma mera dedução formalista. Não há


sistemática da norma, a sua fun- imperativos hierárquicos de sentido que
ção no contexto da regulação
imponham uma direção absoluta e exclu-
em causa. [...] o ordenamento
jurídico no seu conjunto, ou pelo
siva para o intérprete. Existem, sim, impe-
menos grande parte dele, está rativos dialéticos — embora normativos
subordinado a determinadas ide- — que indicam os caminhos justificados
ias jurídicas diretivas, princípios pela principiologia constitucional do sis-
ou pautas gerais de valoração, a tema jurídico.
alguns dos quais cabe hoje o es-
calão de Direito Constitucional.
Tem-se, assim, uma perspectiva que: (a)
[...] A descoberta das conexões
de sentido em que as normas e por um lado, parte dos valores consa-
regulações particulares se encon- grados normativa e constitucionalmen-
tram entre si e com os princípios te no sistema; (b) por outro lado, parte
diretivos do ordenamento ju- das intenções e objetivos reconhecidos
rídico, e a sua exposição de um (finalidades normativas) para se apon-
modo ordenado, que possibilite a
tar novas valorações derivadas, seja em
visão de conjunto — quer dizer,
na forma de um sistema — é uma
termos generalizadores, seja em termos
das tarefas mais importantes da concretizadores. Em outras palavras, se-
Jurisprudência científica. (Larenz, ria feita a leitura valorativa normativa da
1989, pp. 531-532) Constituição, agregada de uma busca de
racionalização valorativa calcada sobre as
É em tal esteira que Canaris se refere à finalidades constitucionais (também nor-
capacidade de derivação teleológica ou matizadas), buscando adequar as diversas
valorativa do sistema, em que, através de áreas do Direito às matrizes constitucio-
procedimentos interpretativos sistemáti- nais, resultando que, “em seus pontos
cos, se desdobra a norma constitucional fundamentais, se toca, por assim dizer,
em diversos sentidos específicos, possi- a interpretação conforme a Constituição
bilitando que os valores superiores nela com a interpretação sistemática, vez que
consagrados sejam aplicáveis em todas ambos os métodos têm em vista a ma-
as esferas possíveis de sua regulação ju- nutenção da ausência de contradição no
rídica (Canaris, 1989, passim). Isso permite interior do sistema” (Freitas, 1995, p. 530).
a junção da força normativa hierárquica
com a derivação hermenêutica concreti- A interpretação jurídica se efetiva pelo
zadora e reforça o papel condicionante da esclarecimento/definição/escolha do
Constituição em relação a todo o sistema significado adequado das enunciações
jurídico. e das proposições jurídicas normativas,
para que se tornem aplicáveis a outras
O termo derivação dirige-se para as pos- proposições ou aplicáveis diretamente
sibilidades de ordenação de sentido que aos casos concretos, e para que possam
a interpretação sistemática de caráter se constituir como determinantes jurídi-
axioteleológico possibilita, e não para cas (novamente, ressalva-se que existem
Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
182 Edihermes Marques Coelho

condicionantes não jurídicas) de soluções elaborados novos conteúdos jurídicos ou


de problemas. A interpretação será tão dar partida a novos intuitos valorativos.
sistematicamente satisfatória quanto as
proposições dela decorrentes puderem O sistema jurídico, reafirma-se, não é
ser incluídas como conformadas “no todo completo, finito, imutável, nem infenso a
pré-existente da ordem jurídica” (Canaris, limitações. Pelo contrário: as limitações
1989, p. 173). O sistema, assim, funciona lhe são naturais. O sistema é, mesmo sob
como referência localizante da ligação de o propugnado prisma axioteleológico, um
sentido da ordem jurídica, de modo que ponto de referência, destinado a dar um
se possa apurar a sua aceitabilidade for- sentido direcionador e um ponto de liga-
mal e material, ponderando a prevalência ção geral para o objeto Direito.
de valores no intuito de evitar contradição
insolúvel entre eles. Mas seria ilusório imaginar que, com isso,
se pudesse dar respostas imediatas a to-
Na obtenção do Direito aplicável, a in- das as necessidades práticas do universo
terpretação constitucional sistemática jurídico social, pois estas se renovam
apresenta para o sistema jurídico dois constantemente, devendo o Direito ade-
papéis especialmente significativos no quar-se a elas. A ideia de sistema jurídico,
âmbito hermenêutico: um papel negativo, mesmo quando concebida nesse prisma
consistente na prevenção de contradições axiológico e teleológico, tem, pois, seus
absolutas de valores — superação de limites, embora sejam eles mais operacio-
antinomias —, e um papel positivo, con- nais do que necessariamente estruturais.
sistente na determinação e na integração
das lacunas. 3.2 A interpretação constitucional sistemática

A determinação e integração de lacunas A partir da metade do século XX, con-


trazem à luz um aspecto primordial do sagrou-se definitivamente a ideia de que
sistema: a sua função positiva de “de- a Constituição, no âmbito do estado de
senvolver o Direito de acordo com o peso Direito, é o referencial básico no orde-
interior dos seus princípios constitutivos namento jurídico de um país, já que nela
ou ‘gerais’” (Canaris, 1995, p. 178). está a base política e jurídica da estrutu-
ração dos poderes democráticos.
Significa, basicamente, que há uma so-
bredeterminação de sentido que implica a O texto normativo constitucional com-
retirada de uma solução jurídica para um preende uma diversa gama de normas.
caso não regulado a partir de um princípio Existem normas transitórias, destinadas a
geral. O que gera um processo de movi- regular situações de acordo com (ou até)
mentação de conteúdo, pois, se o princí- o advento de certas circunstâncias; outras
pio geral “injeta” uma direção valorativa podem ser postas como normas constitu-
na apreciação do caso lacunar, a partir cionais ordinárias (num sentido lato); por
das previsões singulares, poderão ser fim, pode-se falar em normas-princípios.
Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín
Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 183

Estas resguardam normativamente os mite, designadamente, conferir o


valores centrais da regulação social, for- devido relevo, em sede interpre-
tativa, aos princípios jurídicos e
mando princípios axiológicos referenciais.
políticos fundamentais da Con-
stituição. (p. 53)
A Constituição configura, assim, um sis-
tema normativo articulado em torno de
Ora, se privilégio valorativo foi dado a
princípios — sistema axiológico e teleo-
ideais que formam princípios temáticos
lógico. Sua base é normativa (centrada em
prevalentes para o Direito em sentido
mandamentos de dever ser) e serve como
axiológico, e ímpares normativamente, o
fonte dos princípios do sistema jurídico,
intérprete há de vislumbrar a ordenação e
consagrando seus valores superiores e
proceder a uma adequação valorativa dos
finalidades a serem atingidas na opera-
casos concretos aos valores e às finali-
cionalização do Direito.
dades do texto constitucional. Com isso,
deve também ter presente a unidade de
No reconhecimento do estatuto especial
sentido a ser perseguida, concatenando
concedido pelo legislador constituinte a
as normas em geral às normas-princípios
determinados valores básicos, reside a
— diretrizes de conteúdo do sistema ju-
prevalência principiológica da Constitui-
rídico. Por exemplo, não basta se afirmar
ção. Essa prevalência vincula axiologica-
que prevalece na Constituição o princí-
mente (valorativamente) o próprio con-
pio da dignidade da pessoa humana. É
junto normativo constitucional, formando
necessário que sejam interpretados os
conexões de sentido. E a operacionaliza-
diversos dispositivos constitucionais,
ção vinculatória de adequação valorativa,
sobretudo para a discussão e a solução
que busca atingir finalidades, forma uma
de casos reais, vinculados entre si e em
globalidade potencialmente ordenada e
conformidade com tal princípio (Alexy,
unitária: o sistema constitucional.
1993, passim).
Canotilho e Moreira (1991) posicionam-se
O caráter axiológico e sistemático da
em sentido semelhante, quando afirmam
Constituição se impõe, assim, precisa-
que
mente como ponto de partida da inter-
[...] ao considerar-se essencial na
pretação constitucional. A Lei Maior traz
interpretação da Constituição as normas com características especiais
conexões de sentido, pretende-se para o sistema jurídico como um todo. E
sobretudo pôr em relevo que um o faz — reafirma-se — exatamente por
preceito constitucional não deve consagrar e exaltar os valores basilares
ser considerado isoladamente definidores de conteúdo da ordem do
e interpretado apenas a partir
Direito e do Estado.
dele próprio. É que, formando
a Constituição uma unidade de
sentido, deve tomar-se em conta Como bem acentua Enterria (1982), é
o seu conteúdo global, o que per- essencial
Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
184 Edihermes Marques Coelho

[...] o valor específico da Con- substituição, o que se tem é uma constru-


stituição não como uma norma ção hermenêutica fragmentária, marcada
qualquer, de qualquer conteúdo,
por influências ideológicas e valorativas
mas sim precisamente como por-
tadora de alguns determinados
daqueles que interpretam os conteúdos,
valores materiais. Estes valores de forma a (re)defini-los.
não são simples retórica, não são
[...] simples princípios “programáti- Em função disso, deve-se preservar a
cos”, sem valor normativo de apli- unidade de conteúdos da Constituição
cação possível; pelo contrário, através da interpretação sistemática.
são justamente a base plena do
Sobressai aqui a importância da cons-
ordenamento, a que há de dar a
este seu sentido próprio, a que tante atenção às normas constitucionais
há de presidir, portanto, toda sua consagradoras de direitos fundamentais,
interpretação e aplicação. (p. 98) enquanto diretrizes de conteúdo para
qualquer sistematicidade constitucional
A interpretação constitucional, assim, (Coelho, 2003; Barcellos, 2002).
há de ser prioritariamente interpretação
sistemática. Com força nas normas-prin- O texto constitucional como um todo
cípios e salientes os elementos de orde- deve ser entendido nas múltiplas vincu-
nação e unidade. A interpretação sistemá- lações com os seus princípios gerais, cuja
tica relaciona-se com a busca da melhor denominação constitucional específica é
significação sistemática, aos princípios, variável: fundamentos, objetivos, direitos
às normas e aos valores jurídicos, numa fundamentais, princípios.
hierarquia teleológico valorativa destina-
da à solução de casos concretos (Freitas, Na Constituição, cada tema normativo
1995, passim). específico tem submissão valorativa aos
princípios temáticos (formando um sub-
A ação do intérprete constitucional deve sistema constitucional). Tome-se como
se pautar num primeiro plano, portanto, exemplo, na Constituição brasileira de
na adequação valorativa, para então bus- 1988, o princípio da igualdade entre ho-
car a ordenação de sentido, a racionaliza- mem e mulher como centro da organiza-
ção ordenadora, o que se faz organizando ção familiar, sediado no artigo 226, que
o pensamento sistemático em função das deve ser compreendido em consonância
finalidades a serem atingidas. com o inciso I do artigo 5º da mesma
Constituição Federal, mas que, ao mesmo
3.3. Unidade sistemática tempo, serve de diretriz valorativa para
todo o ordenamento civil das relações
Voltando-se à afirmação inicial, o Direito familiares.
existe numa constante crise dialética, em
que os conceitos passados morrem aos Unidade principiológica (valorativa) e or-
poucos sem que sejam de pronto subs- denação teleológica (finalística) deveriam,
tituídos por conceitos novos. Em vez de pois, ser os guias hermenêuticos essen-
Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín
Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 185

ciais, de forma a resguardar o caráter dispositivos normativos são mais aber-


sistêmico da Constituição. Afinal, como tos, já que não se destinam à regulação
afirma Bonavides (1993), direta de condutas e procedimentos. Há
de se entender, porém, que as valorações
[...] a Constituição é basicamente principiológicas de problemas a partir da
unidade, unidade que repousa so-
Constituição guardam algumas nuances
bre princípios: os princípios consti-
tucionais. Esses não só exprimem tópicas, sem que, no entanto, prescindam
determinados valores essenciais da sua remissão ao sistema, à ordenação
— valores políticos ou ideológicos valorativa global. Com o que fica patente
— senão que informam e perpas- que a tópica e o sistema — este enquanto
sam toda a ordem constitucional, axioteleológico — não se excluem, mas
imprimindo assim ao sistema sua
sim se complementam (Canaris, 1995, pp.
feição particular, identificável, in-
confundível, sem a qual a Consti-
243-277).
tuição seria um corpo sem vida, de
reconhecimento duvidoso, se não Como exemplo, é inviável discutir-se coe-
impossível. (p. 110) rentemente a função social dos contratos,
erigida a princípio explícito pelo Código
Ora, a linha configurante da aplicação Civil brasileiro (em seus artigos 187 e 421),
constitucional — do que a interpretação sem contextualizá-la com as diretrizes
é o passo mais importante, mais decisivo constitucionais para as relações entre
— passa pela submissão de conteúdo e particulares, e entre estes e a Administra-
sentido da abordagem normativa (geral ção Pública. A ação do intérprete ganha
e temática) a uns poucos princípios re- corpo, vê-se na conjugação da ordenação
ferenciais, sustentáculos das valorações de sentido com a unidade principiológica,
preponderantes para cada situação jurí- conjunção esta direcionadora do sentido
dica problemática nas sociedades orga- jurídico-valorativo a prevalecer. Ação in-
nizadas constitucionalmente (Viehweg, terpretante que, assim, se faz necessaria-
1986, passim). mente sistemática.

A referência às valorações imponíveis em CONCLUSÕES


cada caso problemático nos remete à tó-
pica. Definida como técnica hermenêutica A interpretação constitucional siste-
do pensamento problemático, ela é ba- mática, assim, há de se pautar pela
seada nos tópicos — que seriam pontos hierarquização normativo-valorativa. O
de vista de grande utilização e aceitos interpretante deve operar com o con-
em geral, constitutivos de premissas teúdo normativo constitucional, material
aplicáveis aos problemas jurídico-sociais constituído por normas formal e mate-
concretos. rialmente reconhecidas como especiais
para a organização social. Seu ponto
Isso ganha especial significação no cam- de referência há de ser, pois, o conjunto
po do sistema constitucional, em que os normativo constitucional. Isso reduziria
Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
186 Edihermes Marques Coelho

a pessoalidade ideológica (solipsismo) princípios (partindo-se das disposições


do intérprete em benefício da unidade gerais constitucionais para a solução de
axiológica do sistema. problemas através ou com a aplicação de
princípios), reafirmam-se ou formam-se
A operação interpretativa constitucional, novos pressupostos valorativos. Assim,
porém, deve respeitar às características na concretização das normas, por meio
específicas e intrínsecas desta — já que de sua interpretação e aplicação, a di-
ela é supremamente um complexo de nâmica dialética principiológica vai mo-
valores, sediados em princípios, com vimentando e remodelando as cadeias
estrutura e imperatividade normativas. valorativas do Direito. Isso possibilita
Para o intérprete atingir essa dimensão evitar, no plano da fundamentação teó-
dos valores constitucionais, procede- rica, a assunção de contradições efetivas
-se à adequação valorativa, nos moldes insanáveis.
de Canaris (1995), pensando os valores
jusfundamentais reconhecidos consti- Com isso, estaria se satisfazendo o pres-
tucionalmente em todas as suas con- suposto de unidade valorativa do siste-
sequências, mas buscando solucionar ma, ou, nos termos de Canaris, “unidade
suas eventuais contradições correlatas e axiológica” constitucional. De um modo
possíveis contradições com novos valores aberto, dinâmico e atento às mutabilida-
ascendentes. des jurídico-sociais, a tarefa do intérprete,
então, estaria justificada na perspectiva
Com isso, seria atendido ao pressuposto de hierarquização axiológica e principio-
de ordenação do sistema, antes aborda- lógica, sobrepondo as normas constitu-
do. Mais precisamente, nos termos de cionais jusfundamentais (portadoras dos
Canaris, seria atingido o pressuposto de valores superiores do sistema jurídico) a
uma ordem teleológica constitucional. todas as áreas do Direito.

A fim de atender aos reclames principio- O conjunto reflexivo aqui exposto culmi-
lógicos, o intérprete deve buscar a con- na, assim, num imperativo interpretativo
cretização das normas constitucionais teleológico de duas faces: (a) por um
jusfundamentais, formando vinculações lado, a busca constante da superação
efetivas — de aplicação em concreto — (sem negar sua existência) das eventuais
entre regras em geral e princípios cons- contradições de sentido jurídico, suas
titucionais. Isso se justifica em torno da antinomias existentes no sistema jurídico
necessidade de as regras em geral serem como um todo; (b) a busca hermenêutica
acordes com os princípios gerais e espe- de diretrizes valorativas sistemáticas para
cíficos da Constituição, facilitando uma solucionar os casos concretos em geral,
concretização valorativa. a partir do conteúdo e da direção de
sentido prevalentes constitucionalmente
A partir da abordagem que parte da análi- sob a ótica de um sistema constitucional
se do conjunto para a singularização dos axioteleológico.
Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín
Hermenêutica e Interpretação Constitucional Sistemática Axioteleológica 187

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Gadamer, H. G. (2003). Verdade e método I: traços


fundamentais de uma hermenêutica filosófica (5
ed.). Petrópolis: Vozes.
Alberti, V. (1996). A existência na história: revela-
ções e riscos da hermenêutica. Revista Estudos
Koch, I. G. V. (2011). Argumentação e linguagem (13
Históricos, 9(17), 31-58. Recuperado de http://
ed.). São Paulo: Cortez.
bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/
issue/view/283. Larenz, K. (1989). Metodologia da ciência do direito
(2 ed.). Trad. José Lamego. Lisboa: Calouste
Alexy, R. (1993). Teoría de los derechos fundamentales. Gulbenkian.
Madri: Centro de Estudios Constitucionales.
Morin, E. (2011). Os sete saberes necessários à educação
Aranguren, J. L. (1975). Comunicação humana: uma do futuro (2 ed.). São Paulo: Cortez.
sociologia da informação. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar; São Paulo: Edusp [Editora da Univer- Neves, M. (1988). Teoria da inconstitucionalidade das
sidade de São Paulo]. leis. São Paulo: Saraiva.

Barcellos, A. P. de. (2002). A eficácia jurídica dos Peixinho, M. M. (2003). A interpretação da constituição
princípios constitucionais: o princípio da dignidade e os princípios fundamentais: elementos para uma
da pessoa humana. Rio de Janeiro: Renovar. hermenêutica constitucional renovada (3 ed.). Rio
de Janeiro: Lúmen Júris.
Bonavides, P. (1993). Curso de direito constitucional
(4 ed.). São Paulo: Malheiros. Pereira, R. V. (2006). Hermenêutica filosófica e consti-
tucional. Belo Horizonte: Del Rey.
Canaris, C. W. (1995). Pensamento sistemático e
conceito de sistema na ciência do Direito. Lisboa: Perelman, C., & Olbrechts-Tyteca, L. (2014). Tra-
tado da argumentação: a nova retórica (3 ed.). São
Calouste Gulbenkian.
Paulo: Martins Fontes.
Canotilho, J. J. G., & Moreira, V. (1991). Fundamen-
Streck, L. L. (2014a). Hermenêutica jurídica e(m)
tos da constituição. Coimbra: Coimbra Editora.
crise. Uma exploração hermenêutica da construção
do Direito (11 ed.). Porto Alegre: Livraria do
Coelho, E. M. (2003). Direitos humanos, globalização Advogado.
de mercados e o garantismo como referência jurídica
necessária. São Paulo: Juarez de Oliveira. Streck, L. L. (2014b). Jurisdição constitucional e deci-
são jurídica (4 ed.). São Paulo: Editora Revista
Enterria, E. G. de. (1982). La constitución como norma dos Tribunais.
y el tribunal constitucional (2 ed.). Madri: Civitas.
Vanoye, F. (1986). Usos da linguagem: problemas e
França, R. L. (1994). Hermenêutica jurídica (3 ed.). técnicas na produção oral e escrita (7 ed.). São
São Paulo: Saraiva, 1994. Paulo: Martins Fontes.

Freitas, J. (1995). Interpretação sistemática do direito. Viehweg, T. (1986). Tópica y jurisprudencia. Madri:
São Paulo: Revista dos Tribunais. Taurus.

Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 32, pp. 169-187 - ISSN 1692-2530 • Julio-Diciembre de 2017 / 272 p. Medellín, Colombia
Copyright of Opinión Jurídica is the property of Universidad de Medellin and its content may
not be copied or emailed to multiple sites or posted to a listserv without the copyright holder's
express written permission. However, users may print, download, or email articles for
individual use.