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RELATO DE CASO

Vertigem: relato de caso


Vertigo: case report
Dárley Ferreira Procópio1, Diene Almeida Seixas1, Flávia Carvalho Botelho1, Gustavo Henrique Silva1,
Hellen de Andrade Bianchi1, Kleyton Willian Pereira Tomaz1, Moara Lins Filgueiras1,
Natália de Paula Lopes e Silva1, Saulo Luiz Carvalho Silva 2

1
Acadêmicos do 10º período do Curso de Medicina da
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas RESUMO
Gerais (UFMG). Belo Horizonte, MG – Brasil.
2
Médico Plantonista da Clínica Médica do Hospital Risoleta
Tolentino Neves (Orientador). Belo Horizonte, MG – Brasil. A vertigem consiste em falsa sensação de movimento ou de rotação ou na impressão
de que os objetos se movem ou giram, acompanhada, habitualmente, de náuseas e
de perda do equilíbrio. A vertigem pode ter sua causa no sistema nervoso central ou
periférico e, algumas vezes, a sua diferenciação é difícil, apesar da importância de sua
definição para a abordagem terapêutica. Este relato mostra a relevância do diagnóstico
acertado da vertigem e discute sobre as dificuldades práticas existentes de sua aborda-
gem.
Palavras-chave: Vertigem/etiologia; Vertigem/diagnóstico; Vertigem/terapia; Sistema
Nervoso Central; Sistema Nervoso Periférico.

ABSTRACT

Vertigo consists of a false sensation of movement or rotation or the impression that the
objects are moving or turning, accompanied usually by nausea and loss of balance. The
vertigo may have its cause in the central nervous system or peripheral, and sometimes
their differentiation is difficult, despite its importance for defining the therapeutic appro-
ach. This report shows the importance of the right diagnosis of vertigo and discuss the
practical difficulties of their approach.
Key words: Vertigo/etiology; Vertigo/diagnosis; Vertigo/therapy; Central Nervous Sys-
tem; Peripheral Nervous System.

introdução

A vertigem é a sensação que o paciente tem de estar girando em torno do am-


biente, ou vice-versa. A sensação pode ser caracterizada, raramente, por movimento
em báscula no plano horizontal, de movimento ascendente e descendente ou ilusão
de rotação horária ou anti-horária no plano frontal.1
Na maioria das vezes, decorre de lesão ou disfunção unilateral do aparelho vesti-
bular ou da porção vestibular do oitavo par craniano.2 É comum em todas as idades,
Instituição:
Hospital Risoleta Tolentino Neves sendo na maioria das vezes o médico da atenção primária (MAP) procurado para
Belo Horizonte, MG – Brasil.
esclarecer essa sintomatologia.
Endereço para correspondência:
Kleyton Willian Pereira Tomaz
É frequente a subvalorização dessa queixa em atenção primária à saúde, em
Rua Camões, 390/601
Bairro: São Lucas
que a causa nem sempre é desprezível, como tumor do ângulo ponto-cerebelar po-
Belo Horizonte, MG – Brasil tencialmente fatal se não diagnosticado oportunamente.3 A identificação da causa
CEP: 30240-270.
Email: kleyton_tomaz@yahoo.com.br ou de fator desencadeante é maldefinida e por isso a abordagem é inadequada.

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Vertigem: relato de caso

É sempre importante avaliar a necessidade de inter- Gram-positivos em cachos. Os resultados de hemo-


nação prolongada dos pacientes, porque pode trazer culturas posteriores orientaram quando à antibioti-
complicações potencialmente graves. coterapia.
Evoluiu sem recuperação completa do nível de
consciência e com piora progressiva de função renal.
Relato de caso O valor da creatininemia variou em dois dias de 1,58
para 4,4 e uremia para 130 mg%. A realização de hemo-
JL, masculino, 70 anos de idade, admitido no Hos- diálise foi necessária por três vezes consecutivas. Evo-
pital Universitário Risoleta Tolentino Neves com quei- luiu com deficiência motora em dimídio direito, plegia
xa de vertigem e vômitos iniciados ao despertar. Histó- em membro superior direito e força grau dois em mem-
ria pregressa de labirintite e tabagismo. A tomografia bro inferior direito, ausência de reflexo córneo-palpe-
computadorizada (TC) de crânio era normal. Recebeu bral bilateral e de reflexo de tosse, o que sugeriu o AVE
alta hospitalar com encaminhamento para a otorrino- isquêmico de tronco cerebral. Foi mantido em ventila-
laringologia devido à suspeita de vertigem periférica. ção mecânica controlada, monitorizado com pressão
Retornou ao hospital cinco dias depois com in- intra-arterial (PIA) e pressão venosa central (PVC).
tensificação da vertigem nas últimas 24 horas, prin- Apresentou dependência de aminas por tempo
cipalmente à movimentação com limitação das ativi- prolongado e pelo menos oito tentativas foram feitas
dades, vômitos e intolerância à alimentação. Negava de extubação e desconexão da ventilação mecânica.
hipoacusia e o surgimento de diplopia. Foi detectado Numa tentativa de extubação desenvolveu parada
nistagmo horizontal à manobra de Dix-Hallpike, mo- cardiorrespiratória com cinco minutos de duração,
vimentação extrínseca ocular preservada e ausência após bradicardia. Submetido à traqueostomia. Desen-
de diplopia. Suspeitada vertigem posicional paroxís- volveu escara sacral grau IV com áreas de necrose e
tica benigna, prescrita droga sintomática e solicitada odor fétido, sendo realizado debridamento cirúrgico.
avaliação laboratorial. Apresentou leucocitose sem Em um mês de internação evoluiu com trombose
desvio à esquerda. Foi internado. Em 24 horas sur- venosa profunda das veias gastrocnêmicas, identifi-
giram, além das queixas prévias, lipotimia, vômitos cada pelo duplex-scan sob ventilação mecânica, e
incoercíveis, disfagia e dificuldade de deambulação. estável hemodinamicamente.
Detectaram-se nistagmo espontâneo vertical, paresia
facial central esquerda, alteração do reflexo cutâneo
extensor à direita, impossibilidade de sentar-se sem Discussão
apoio e dismetria importante à direita. Foi suspeita-
do acidente vascular encefálico (AVE) isquêmico de A evolução clínica desse paciente revela a dificul-
fossa posterior. dade potencial na abordagem da vertigem e de como
Evoluiu com parada cardiorrespiratória (PCR) manter o cuidado de paciente acamado por longo
em atividade elétrica sem pulso (AESP), não se con- período de tempo.
seguindo estabelecer causa, e revertida após dois Há dificuldade em afirmar se a queixa inicial de-
minutos de manobras de suporte básico de vida e a correu de vertigem central ou periférica. Poderia ter
administração de duas ampolas de adrenalina pela apresentado vertigem periférica e posteriormente
via venosa. Foi submetido à intubação orotraqueal. central, hipótese reforçada pela ausência de sinto-
A TC de crânio foi realizada após a sua estabilização matologia central e TC normal. A outra possibilidade
hemodinâmica, que evidenciou hipodensidade em poderia ser de vertigem central com sintomatologia
núcleos da base à esquerda, compatível com infarto pouco expressiva. Nistagmo horizontal, apesar de ser
lacunar, ateromatose bicarotídea e sinusopatia etmoi- mais sugestivo de vertigem periférica, não exclui a
dal. A troponina encontrava-se abaixo de 1. Foram forma central e a TC normal não exclui lesão, sendo
mantidos os cuidados intensivos, tendo apresentado de baixa sensibilidade para lesões de fossa posterior.
labilidade hemodinâmica e hipotensão responsiva à O AVE isquêmico de tronco muitas vezes só é visível
administração de aminas vasopressoras. à ressonância nuclear magnética (RNM).4
Prescritos amoxicilina e clavulanato por suspeita O cuidado com o paciente acamado e o risco
de sinusite. Administrada vancomicina após a obten- de internação prolongada representa outro desafio
ção de resultado de hemocultura positiva para cocos para a Medicina atual. O surgimento de escaras de

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pressão e de trombose venosa profunda é comum Conclusão


em paciente que permanece imobilizado por lon-
go período. A maneira de se evitar o surgimento de A abordagem da vertigem deve sempre requerer
escaras é a mudança periódica de decúbito. Entre- valorização da possibilidade de causa central em
tanto, a estrutura do atendimento de pronto-socorro que a abordagem inicial poderá impedir agravamen-
impossibilita que essa medida seja realizada com a to e impossibilidade de recuperação do paciente.
periodicidade necessária. Em geral, o número de
pacientes por enfermeiros é muito elevado, o que
provoca sobrecarga de trabalho e impossibilidade de Referências
eficácia da atenção de enfermagem. Para prevenir a
TVP, medidas básicas como a movimentação passi- 1. Furman JM. Pathophysiology, etiologu, and differential diagnosis
of vertigo. Up to date 2011.
va dos membros podem ajudar a reduzir o seu risco
de desenvolvimento. Muitas vezes são necessários 2. Fernandes JM.Vertigens e tonturas. In: Duncan BB. Medicina Am-
bulatorial: condutas na atenção primária baseadas em evidên-
a tromboprofilaxia e o acompanhamento periódico
cias. 3a ed. Porto Alegre: Artmed; 2004.p.1174-80.
dos marcadores de coagulação. O risco de infecção
3. Fortini I. Urgências Neurológicas: Síndromes vertiginosas agu-
é também mais alto em pacientes que permanecem das. In: Netrini R, Bacheschi LA.A neurologia que todo o médico
longo período hospitalizado. As medidas que podem deve saber. 2a ed. São Paulo: Atheneu; 2003,p.376-8.
ajudar a conter a disseminação de infecção no hos- 4. Furman JM, Barton J. Approach to the patient with vertigo. Up to
pital são: lavar as mãos antes e depois de entrar em Date, 2011. Cited 2011 jun 12. Avaliable from: http://www.upto-
contato com o paciente, promover correta assepsia date.com/online.
dos materiais e instrumentos médicos e uso correto e 5. Furman JM, Barton J.Tratament of vertigo. Up to Date, 2011. Cited
consciente de antibióticos. 2011 jun 12. Avaliable from: http://www.uptodate.com/online.
De tudo, fica o cuidado com a valorização das
queixas, nunca subestimar a sintomatologia apresen-
tada pelo paciente. Em idoso esta máxima contém
imensa importância, tanto que uma queixa pode es-
tar relacionada a várias entidades clínicas e várias en-
tidades clínicas podem se limitar a poucas queixas,
além de que uma sintomatologia pode se associar a
multiplicidade de fenômenos fisiopatológicos.

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