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O QUARTINHO SOLITÁRIO

Eliana Gavioli

Erro! Argumento de opção desconhecido.


DEDICATÓRIA

AOS PEQUENOS

HEBER, ARNON E HANNA

PERSONAGENS DE SONHO

QUE ENCHERAM DE VIDA

A MINHA REALIDADE

ELIANA GAVIOLI

Erro! Argumento de opção desconhecido.


ERA UMA VEZ...

Era uma vez um planeta. Nesse planeta havia um país. Nesse país havia uma cidade.
Nessa cidade havia uma rua. Nessa rua havia uma casa. Nessa casa havia um quarto e é
nesse quarto que começa a nossa estória.
Acontece que esse quarto era muito sozinho e não podia entender como, numa casa
tão bonita e tão bem cuidadinha como aquela podia haver um quarto tão esquecido como ele.
Conseguia perceber na casa um movimento, uma coisa boa, da qual gostaria de fazer parte,
mas não sabia como, não dependia dele.
Havia naquele quarto um bom armário. Tinha quatro portas, gavetas, prateleiras,
cabideiros, enfim, tudo o que um bom armário deve ter. Mas para que? Estava absolutamente
vazio e neste caso totalmente inútil. Para que um armário então?
Havia naquele quarto uma boa janela. Era ampla, bem protegida da chuva e permitia,
durante algumas horas do dia, a entrada do sol benfazejo. Através daquela janela se
descortinava uma paisagem bem urbana e, no entanto, muito agradável. Nela, disputavam o
campo de pouso da aeronáutica, com um discreto movimento de pequenas aeronaves; o
quartel com suas belas palmeiras; a biblioteca municipal, instalada num castelo em miniatura;
a vila ferroviária do início do seculo, toda construída em tijolinhos à vista; e uma grande
variedade de sobrados de tamanhos, cores e formas variadas. Mas para quê? Nunca
ninguém se debruçava naquela janela para contemplar o quer que fosse. Para que uma
janela então? Havia naquele quarto quatro paredes. Eram construídas com bons tijolos
duplos, daqueles antigos. Havia sido dado um acabamento com massa corrida e aplicada
uma tinta clara, cor de pétala de rosa. Mas para quê? Nunca ninguém instalou prateleiras que
pudessem ser entulhadas de objetos, ou pendurou quadros que pudessem fazer viajar a um
observador qualquer. Para que paredes então?
Havia naquele quarto um teto. Sem rachaduras, sem goteiras, um bom teto para se
estar em baixo. Mas para quê? Nunca ninguém se esqueceu da vida, perdido, olhando para
aquele teto, pois nunca havia ninguém ali. Para que um teto então?
Havia naquele quarto um piso. Um belo piso de ardósia verde, rústica, com desenhos
em relevo. Não era daqueles pisos lisos, sem graça. Não. Era um piso em que se pode ficar
um tempão observando as formas e descobrindo figuras de tudo quanto há. Estava sempre
muito limpo e brilhoso. Mas para quê? Nunca ninguém colocou ali uma cama que fosse, uma
cômoda, um criado mudo. Para que um piso então?
Uma vez por semana entrava ali uma mulher que, muito rapidamente, fazia uma
faxina. Aquele quarto nem sujar sujava. Era bom, dava uma arejada. A porta ficava aberta por
um pouco e a mulher por calada que fosse, sempre era alguma companhia.
Incomparavelmente melhor que nada. Nessas ocasiões, ele também aproveitava para bater
um papinho com o outro quarto lá do fundo do corredor. Nesses rápidos encontros é que o
nosso quartinho percebia o quanto era injusta a sua condição.

O QUARTÃO
O quarto maior, o que ficava na frente da casa, tinha tudo o que um quarto deseja
para ser feliz. Uma cama de casal, uma poltrona confortável, um armário (semelhante ao do
quarto menor, só que entulhado de roupas e objetos pessoais), uma sapateira, prateleiras
presas à parede (com alguns livros e fitas de vídeo) e suporte para televisão e vídeo cassete.
O que dava ao quarto um ar muito aconchegante era a estampa floral que aparecia nas
cortinas, na colcha da cama e no revestimento da poltrona, uma poltrona daquelas meio
fofas, que só de olhar dá vontade de afundar-se e esquecer-se do mundo. O toque final era
dado por dois bonitos quadros, na verdade gravuras de Mucha e um abajur de cada lado da
cama. Pegado ao quarto havia um banheiro muito espaçoso, que dava ao quarto o status de
suíte. Mas muito mais importante do que todo o resto é um detalhe ainda não mencionado:
pessoas moravam nele.
O quarto da frente não podia saber o que era tédio. Jogava conversa fora o dia inteiro
com o banheiro, que tinha a sua porta aberta constantemente. Quando não estava a fim de
papo, ficava olhando o movimento da rua. À noite tinha a companhia dos seus moradores,
que segundo o nosso quartinho, pelo pouco que conhecia, considerava como pessoas muito

Erro! Argumento de opção desconhecido.


interessantes. Vez por outra assistia a algum bom filme. O que mais aquele quarto poderia
querer da vida?

TUDO PODE EMBOLORAR


----Quartinho, você reparou que de um tempo para cá eles tem deixado a sua porta
aberta por mais tempo?
----Quartão! Eu não estou nem acreditando...Não só a porta, mas também a janela.
Estou até mais animadinho. É que parece que eu estava com cheiro de bolor. Sabe aquela
que você chama de Lili, ficou toda preocupada quando entrou aqui outro dia. Agora toda
manhã vem, abre tudo e à noite torna a fechar. Sabe que esse negócio de bolor é uma coisa
séria, seríssima. Quem pensa que só coisa é que embolora está muito enganado. Tudo o que
fica parado e abafado embolora. Se alguém guardar uma roupa úmida, depois de alguns dias
bau,bau. A roupa já vai estar toda estragada. Se de repente um de nós dois tiver uma
umidade, sabe, um vazamento, uma calha entupida, o que acontece? Nossas paredes vão
ficar horrivelmente manchadas e malcheirosas. Mas as pessoas, quando emboloram, ficam
muito pior do que roupas ou paredes.
----Acho que de tanto ficar sozinho, você pirou. Onde já se viu falar de gente que
embolora, Quartinho?
----Embolora, uai. Pessoas que ficam muito solitárias, sem amizades, pessoas que
não saem de casa, não tem muita atividade, que não lêem, nem conversam, nem vêem
coisas diferentes, emboloram. E emboloram da pior maneira possível, emboloram por dentro.
Por fora são até normaizinhas, mas por dentro... fummm. Por isso eu me queixo tanto da
solidão.
----Sabe que agora que você falou, me lembrei de algumas coisas e acho que você
tem razão em dizer que todas as coisas emboloram. Lembrei-me de um filme que vi uma
certa noite. Havia um sítio com um lago muito bonito. Era um lago pequeno, mas fazia a
alegria da criançada que morava ali nas redondezas. O certo é que uma das crianças
inventou de desviar a água que alimentava esse lago. Pura falta do que fazer. Sendo assim,o
nível do lago abaixou um pouco e a água também não tinha vazão. Ficou uma água parada.
Passado um tempo, as crianças começaram a ficar doentes e então alguém se deu conta do
estado daquele lago. É como se uma nata tivesse se formado na sua superfície, tirando todo
o seu brilho. A água, antes cristalina, agora estava escura e malcheirosa. Pobre laguinho!
Embolorou.
----E ficou por isso mesmo?
----Não. Alguém descobriu o que havia acontecido e corrigiu o curso da água. Depois
de algum tempo voltou tudo ao normal.
----Puxa! Que bom. Mas como eu ia dizendo, há muitos tipos de bolor que atinge as
pessoas, o piores são a mágoa e a culpa. As pessoas se magoam, ficam ressentidas, deixam
crescer dentro de si uma raiz de amargura, que as sufoca lentamente. E a culpa rouba das
pessoas a chance de acertar de uma próxima vez, forçando que se carregue um peso morto
muitas vezes por toda uma vida...
----E como é que as pessoas se livram desses bolores? Elas precisam ventilar que
nem eu?
----Não tolinho, basta uma simples palavrinha que para muitos parece impossível
exercitar. É o perdão.
----Ah... É aquela palavra que faz que o que aconteceu nunca tivesse acontecido...
----Isso...isso...isso...

COMEÇA UMA AMIZADE


----Quartão... Falando nisso eu precisava dizer uma coisa para você, mas estou meio
sem jeito.
----Que isso, Quartinho? Nós agora somos amigos e temos que ter liberdade um com
o outro.
----É que eu estava um pouco aborrecido com você.
----Nossa! Que é que eu fiz, sô?

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Você não fez nada. É que eu via você com esta vida regalada, sempre me
contando sobre todas as coisas boas que acontecem com você e eu aqui sem nada. Sabe, dá
a impressão de que você não me entende, não percebe as minhas dificuldades, não se
importa comigo. Eu sei que é chato estar com alguém insatisfeito, que se queixa e se
lamenta, mas, às vezes, eu não posso evitar.
----Ah... Quartinho! É claro que eu me importo com você. Eu só não consigo te
entender. Você é um quarto tão bonito! É simpático, inteligente, sensível. A sua janela tem
uma vista lindissima. Você mesmo me contou que dá para ver uma rua movimentada ao
longe. Veja: a minha janela dá para a rua, no entanto, o que eu vejo: nada mais que meia
duzia de sobrados sem graça. A rua não tem movimento algum, mas eu nunca me queixo.
Parece que você não sabe valorizar o que tem. Tem muito quartinho por ai, que ficaria muito
feliz em estar em seu lugar.
----Ai, Quartão! Também não é assim. É claro que eu sou agradecido por ser como
sou e te digo uma coisa: de agora em diante eu não vou mais me lamentar. Tenho certeza de
que logo vou ser habitado.
----É claro que vai. Um casal não fica muito tempo sem filhos e o Kim e a Lili parecem
que já estão casados há um tempão. Em breve você vai ter um bebê chorão te esquentando
os ouvidos.
----Para mim seria a glória. Eu teria companhia o dia inteiro. Ganharia uma bela
mobília. Me sentiria útil. Por falar em Kim e Lili. Me conta. Eu sou curiosíssimo a respeito de
uma coisa. O nome deles é esse mesmo?
----Imagina! Você é bobinho mesmo. É só apelido. Para dizer a verdade eu nem sei os
nomes deles. Quando se mudaram para cá, já se chamavam assim. Kim... Kilôco Chimboco.
Lili... Lilica Chimbica. É de carinho.
----Sabe, eu já havia reparado numa coisa: esses dois têm alma de criança. Tem
adulto que tem aspecto de adulto, trabalha, estuda, dirige, paga contas, compra coisas, faz
tudo como adulto, mas se você reparar bem, vai achar uma criança ali. É o caso desses dois
e por isso é que esta casa é tão feliz, apesar de não haverem crianças.
----É, Quartinho. Mas eu acho que em todo adulto, lá no fundo, no fundo mesmo, se
você procurar bem, vai achar uma criança. Muitas vezes abafada, sufocada, machucada e
assustada e é isso que faz do homem um bicho tão infeliz.
----Puxa, Quartão! Agora você foi fundo!

O QUINTAL
O verão estava chegando. O Quartinho estava com a porta fechada e, portanto, não
podia ficar conversando com o Quartão. Pensava em como o Pai do Céu tinha feito tudo tão
certinho. Quando estava todo mundo que não agüentava mais de calor, vinha aquele friozinho
gostoso. Quando estava todo mundo que não agüentava mais de frio, vinha aquele calor
delicioso. E foi justamente num dia desses que aconteceu uma coisa marcante na vida do
nosso amiguinho. Os dias já vinham sendo bem quentes, mas à noite ainda fazia um friozinho
chamando para dormir. Estava entardecendo. O quartinho olhava para o quintal lá fora. Era
um belo quintal. Não muito grande, não muito pequeno. Era grande o suficiente para ter um
gramado bem verde, uma árvore frondosa, uma área (toda revestida em ardósia onde eram
colocadas mesas e cadeiras para um almoço ao ar livre) e ao fundo uma edícula. Esta era
composta pelo salão de festas no andar térreo e por um quarto e banheiro no andar superior,
onde morava a mãe do Kim, uma senhora com um nome difícil, que ele nunca conseguia
lembrar. Apesar de morar ali desde que ficara viúva, nunca era vista. Tinha também uma
churrasqueira que, aliás, raramente era usada, pois Kim e Lili não comiam carne vermelha e
raramente carne branca. No entanto, era pequeno o bastante para ser bem cuidado.
Realmente estava impecável. A grama bem aparadinha, tudo muito limpo e arrumado. De
repente o Quartinho se viu com dó do quintal. Percebeu que aquele quintal era tão ou mais
solitário que ele mesmo. Acontece que a casa era cercada por muros muito altos, dos dois
lados, de forma que o pobre não podia conversar com os quintais vizinhos. Foi nesse
momento que algo mágico aconteceu.

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O SONHO DO QUARTINHO
O Quartinho sonhou. Sonhou, como se diria, de janelas abertas. Sonhou como nunca
havia sonhado antes. Viu no quintal três alegres crianças. Um menino que aparentava não
mais de seis anos, um outro menino de quatro ou cinco e uma menininha de uns três anos
talvez. Os meninos tinham o cabelo encaracolado e a menina o cabelo bem lisinho, mas eram
muito parecidos um com o outro. Na árvore tinha sido colocada uma balança e o garotinho
menor balançava a irmãzinha. Também havia uma escada de cordas que o mais velho havia
usado para se encarapitar no primeiro galho da árvore. O interessante é que o sonho, além
de tudo, era sonoro. Podia-se ouvir a conversinha tranqüila daquela turminha e, de vez em
quando, gostosas gargalhadas. No gramado havia sido armada uma piscina de lona, que
explicava a cor bronzeada dos pequenos. Cor de saúde. À sombra da árvore, sentada numa
cadeira, cerzindo meias,estava a mãe do Kim.
Foi então que reparou como estava tudo mudado. O salão de festas, antes tão
arrumadinho, estava cheio de tonguinhas, bicicletas, skates, caixas de brinquedos e
tranqueiras. Uma mesinha com três cadeirinhas formava uma espécie de sala de aula, por
causa de uma enorme lousa que tinha sido presa à parede. Havia também uma estante em
completa desordem, cheia de livros, albuns para colorir e potes de sei lá o quê. Na área de
ardósia ficava uma cesta de basquete e algumas bolas espalhadas.
Naquele momento o Quartinho desejou com todas as suas forças que o sonho se
tornasse realidade. Não só por ele. Não só pelo quintal. Mas pelo Kim e pela Lili também. De
alguma forma sabia que eles se sentiam solitários. Pensou também naquela senhora de
nome incomum. E desejou tanto e tão profundamente, que não sabia mais dizer se já tinha
acontecido realmente ou não. Pensou que se a casa agora tinha crianças, com certeza
estariam morando no pequeno quarto, o mais indicado para tal fim. Resolveu verificar as
mudanças ocorridas em si mesmo. Que decepção! Estava tudo exatamente como sempre foi.
Totalmente vazio! Voltou-se imediatamente para o quintal e viu que estava igualmente vazio.
O encanto havia se desfeito! Nunca em toda a sua vida de quartinho tinha sonhado daquele
jeito! Ficou bestificado. Não via a hora de ter a sua porta aberta novamente para contar ao
seu amigo do fundo do corredor sobre aquele acontecimento.
----Ai, Quartão! Preciso te contar. Em breve teremos crianças nesta casa. Dois
meninos e uma menina.
----Uai! De onde você tirou isso, Quartinho?
----Eu sonhei, sô.
----Do jeito que você falou, eu até achei que você soubesse de alguma novidade.
Parece que está de miolo mole. Você sonhou. E daí?
----Daí que não foi um sonho qualquer. Foi um sonho mágico. Um sonho que durante
alguns momentos foi realidade. Uma antecipação do futuro.
----Que estória é essa?
----Pense bem. Quando o Criador, lá no inicio de tudo, criava algo: uma planta, uma
fruta, um bicho, uma flor... Como é que você acha que Ele fazia?
----Eu sei lá. Você me faz cada pergunta!
----Vejamos: uma mexerica. Primeiro Ele pensava na forma e no tamanho. Se Ele
simplesmente jogasse todo aquele caldo lá dentro, ia vazar tudo antes que alguém pudesse
saboreá-lo. Por isso imaginou garrafinhas minúsculas cheias do saboroso líquido. Estas
garrafinhas seriam arrumadas cuidadosamente em gomos, e esses gomos encaixados um a
um dentro da casca. Para terminar, escolhia o sabor, o aroma e a cor. Ao escolher um nome
para a sua criação, determinava: faça-se a mexerica! Pronto.
----Pronto o que, Quartinho?
----Pronto, uai. Aquilo que já havia sido arquitetado na mente de forma conceitual era
construído na realidade, de forma física, paupável, através do poder da palavra.
----Quartinho, você tem certeza que está bem?
----Eu nunca estive tão bem em toda a minha vida!
----Então me explica que negôcio é esse poder da palavra?
----Todas as palavras que são pronunciadas causam um profundo impacto no
universo, mas geralmente as pessoas não se dão conta disso e usam este poder de forma
negativa. Dizem coisas realmente nefastas, com grande poder de destruição para os outros e

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para si mesmas, criticando, desanimando, desacreditando. Por outro lado quando alguem
utiliza esse poder de forma positiva, elogiando, animando e acreditando, muita coisa pode
acontecer. E quer saber de uma coisa? Vou determinar isso que eu sonhei agora mesmo:
faça-se!
----E agora?
----Agora é esperar, uai. Vamos supor que eu estivesse com vontade de comer
manga. Eu sei que quartos não comem. É só uma suposição. Primeiro eu teria que arrumar
uma semente de boa qualidade. Procuraria um lugar com terra bem fofa e úmida, livre de
pedras. Eu já teria de pensar que aquela árvore ficaria imensa, portanto, o lugar deveria ser
bem espaçoso. Faria um buraco fundo e colocaria aquela semente. Agora, você acha que no
dia seguinte eu já poderia saborear mangas no café da manhã? Claro que não. É preciso
esperar pacientemente. E é o que eu vou fazer.

O SONHO DA LILI
----Já que você falou em sonho, eu me lembrei de uma coisa que a Lili falou certo dia.
Ela disse que esta casa era a fotografia dos seus sonhos. Durante a vida toda, ela foi
recolhendo elementos para o seu sonho. Um dia foi com seus pais visitar uns amigos.
Quando entrou na casa, reparou que as janelas eram de vitrais. Ela achou aquilo a coisa mais
linda! Conforme foi passando o dia, a intensidade da luz foi se alterando, as cores também.
Uma janela com uma determinada combinação de cores se mostrava totalmente diferente de
outra janela com a mesma combinação, só pelo fato de se encontrarem em posições
diferentes em relação à luz do sol. Ficou fascinada e pensou consigo mesma: um dia eu
ainda vou ter uma casa com vitrais.
----Que interessante! Esta casa também tem vitrais.
----Deixe-me continuar. Um dia o Kim e a Lili foram viajar lá para Rio das Ostras, no
litoral do Rio de Janeiro. Um casal amigo havia se mudado para lá, e como a região é muito
bonita, resolveram passar ali alguns dias hospedados num hotel. Quando chegaram na casa
dos amigos, a Lili logo notou a beleza do contraste das pedras de ardósia com as paredes de
tijolinho à vista. Lili não conseguia tirar os olhos do chão. Imagine, o Kim até deu uma
cotovelada nela. Ficou fascinada e pensou consigo mesma: um dia eu ainda vou ter uma
casa de ardósia, tijolinho à vista e vitrais.
----Que interessante! Esta casa também é toda de ardósia e tem algumas paredes de
tijolinho à vista.
----Posso continuar? Pois é, um dos grandes sonhos do Kim era comprar uma casa.
Os seus pais infelizmente nunca puderam comprar uma, de forma que estavam sempre
mudando, de aluguel em aluguel. Kim sentia que devia ser bom não mudar tanto. Saber que o
chão onde pisava era propriedade sua, devia trazer segurança. Saber que fosse o que fosse,
aquele pedaço de chão lhe pertencia e ninguém poderia tirá-lo dele. Por menor que fosse,
nada mais justo a um homem possuir o seu pedacinho de chão, onde pudesse ter uma casa,
modesta que fosse, mas sua, construir uma família, criar raízes. Por isso, apesar de contar
com poucos recursos, antes de casar, Kim e Lili, vira e mexe estavam xeretando um imóvel
qualquer, em alguma imobiliária, em geral muito além de suas posses. Era só algum deles ver
uma casa interessante, que lá iam os dois com a maior cara-de-pau procurar o corretor para
uma visita descompromissada. Foi numa dessas visitas que a Lili conheceu uma casa de que
gostou muito. Era em estilo colonial. Tinha floreiras nas janelas e estavam todas floridas!
Tinha o mesmo azulejo na cozinha, nos banheiros e na área de serviço. Todos os armários
eram confeccionados na mesma madeira: cerejeira. As portas também. A casa era pintada
toda de uma só cor: cor de pétala de rosa. Era de uma uniformidade muito agradável. Ficou
fascinada e pensou consigo mesma: um dia eu ainda vou ter uma casa em estilo colonial,
com floreiras nas janelas, um só azulejo, uma só madeira, toda pintada de cor de pétala de
rosa, toda em ardósia, tijolinhos à vista e vitrais.
----Que interessante! Esta casa é em estilo colonial, tem floreiras nas janelas, com um
só azulejo, uma só madeira e toda pintada de cor de pétala de rosa.
----Quartinho! Você precisa mesmo ficar me interrompendo todo o tempo? Ô, trem...
Isso chega a irritar! Onde é mesmo que eu parei? Ah, já sei. Quando a Lili era pequena foi
brincar na casa de uma amiga da rua de cima. Ela nunca tinha entrado na casa daquela

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amiga. Era uma menina muito bonita, sempre muito limpinha, muito bem arrumada. A Lili
ficava pensando que um dia queria ser como ela. Quando entrou no quintal, nem acreditava.
Havia um gramado lindo, todo bem aparado. Tinha uma árvore de um lado, e nessa árvore
estava preso um balanço e uma escadinha de cordas. A amiga deixou que a Lili se
balançasse enquanto ela subia na árvore pela escadinha. Fascinada, pensou consigo
mesma: um dia eu vou ter uma casa com gramado no quintal, árvore com balanço e
escadinha de corda, em estilo colonial, com floreiras nas janelas, um só azulejo, uma só
madeira, pintada toda de cor de pétala de rosa, toda em ardósia, tijolinhos à vista e vitrais.
----Espera aí, uai. Você vai me desculpar, mas desta vez eu não posso deixar de
interromper. Um pedaço do sonho dela está invadindo o meu! Isso não é fantástico? --
--Que pedaço?
----Ah... Eu não te contei. No meu sonho, as três crianças estavam brincando no
balanço e na escadinha de corda da árvore.
----Só que na verdade foi o teu sonho que invadiu o dela. Ela sonhou muito antes de
você.
----É verdade. Mas de qualquer forma é muito interessante. Esta casa tem gramado
no quintal e árvore. Só ficou faltando o balanço e a escadinha.
----Naquele mesmo dia, na casa daquela amiga, depois de brincarem um pouco, as
duas entraram dentro da casa. Lili achou tudo tão lindo. A Lili nunca foi de muita frescura,
mas quando entrou no quarto da amiga quase teve um troço. Vendo aquele quarto, sentiu até
vergonha de lembrar do próprio quarto, sempre tão bagunçado. Nunca imaginou que pudesse
haver um quarto tão bonito. Não havia absolutamente nada fora do lugar. As camas não
tinham uma ruga sequer. As colchas, a poltrona e as cortinas eram revestidas por um lindo
tecido em estampa floral. Ficou fascinada e pensou consigo mesma: um dia eu ainda vou ter
uma casa com um quarto sempre muito arrumado (todo decorado com estampa floral), com
um lindo gramado no quintal, uma árvore com balanço e escadinha de corda, em estilo
colonial, com floreiras nas janelas, um só azulejo, uma só madeira, pintada de uma só cor,
toda em ardósia, tijolinho à vista e vitrais.E antes que você me interrompa novamente: Que
interessante! Esta casa tem um quarto decorado em estampa floral! Que aliás, sou eu!
----Olha, eu sei que os sonhos podem tornar-se realidade, se realmente acreditarmos,
mas nunca havia sabido de uma história como essa. É demais!
----Demais é o Pai do Ceu que realizou o sonho.
----É mesmo. Ao contrário do que muita gente pensa, Ele tem um prazer imenso em
realizar os nossos sonhos. Agora, mais do que nunca, sei que o meu sonho vai realizar-se -
disse o Quartinho com o olhar perdido no nada.
Depois desse dia o Quartinho nunca mais foi o mesmo. Invadiu-lhe uma alegria tão
grande, que parecia estar com febre. Uma vibração interior parecia querer fazê-lo estourar.

AS DUAS NOTÍCIAS
----Quartinho! Eu tenho duas notícias para te dar.
----Nossa Quartão! Você está com um ar tão solene. O que foi?
----É que são duas notícias que vão com certeza influenciar toda a nossa existência.
----Você está conseguindo me deixar curioso. Fale logo.
----Vamos à primeira. Esta é mais amena. O Kim e a Lili vão viajar.
----Para sempre? - perguntou o Quartinho.
----Não tolinho. Só por um mês. É férias. Só que sem eles aqui, deve ficar tudo
fechado, num isolamento total. Só espero não embolorar.
----Ah... Isso não é nada. Eu já estou acostumado. Vai ser sopa. E a outra notícia,
Quartão? Manda que eu traço.
----Eu estou até sem jeito de te contar, Quartinho.
----Não pode ser tão ruim assim. Vamos, coragem.
----Coragem vai ter que ter você de agora em diante. Para mim foi uma grande
decepção.
----Quartão, agora você está conseguindo me assustar. Fale logo, quarto!

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Eu não havia te contado antes, para não te preocupar, ainda mais que você era tão
tristinho. Agora você anda alegre e animado, e eu não posso mais esconder de você alguns
fatos. Sabe porque o Kim e a Lili não tem filhos?
----Querem curtir um pouco mais a vida de casados?
----Não, não é isso...
----Estão fazendo um pezinho de meia?
----Não, Quartinho, não é esse o caso.
----Ah, então...
----Então o que?
----Não vai me dizer que eles não podem ter filhos!
----É exatamente isso, Quartinho. Eles não podem ter filhos.
----Mas, Quartão, eu pedi para você não me dizer...
----Você está mesmo impossível!
----E daí? Não existem tantos tratamentos por ai? A medicina não é tão avançada? -
perguntou o Quartinho.
----Sim, eles já tentaram de tudo nesses anos todos, mas até agora não conseguiram
resultado algum com esses tratamentos. Acontece que ontem à noite o Kim disse que não
queria mais nem pensar neste assunto, e a Lili, coitada, disse que também não queria. Estava
cansada de tudo aquilo. Promessas e mais promessas, tratamentos e mais tratamentos,
exames e mais exames. Se fosse preciso mais uma única visita ao médico para que
pudessem ter filhos, então ficariam sem mesmo. Tinham um ao outro e isso é que importava.
Tantos casais enchiam a casa de filhos, mas não se amavam, eram infelizes. Eles não. Não
precisavam de crianças. Se amavam, se entendiam, se completavam. Eram felizes.
----Será mesmo? - perguntou o Quartinho.
----Que eles são felizes?
----Não! Será que é isso o que eles querem realmente?
----Espera... Mais tarde eu escutei a Lili chorando baixinho no banheiro. Ela
murmurava: ô Paizinho, não deixa que isso aconteça comigo! Esse é o meu sonho mais
precioso. Eu creio que podes realizá-lo. Não vou desistir. Não vou aceitar isso como derrota.
Continuarei esperando confiantemente. Sei que tens prazer em me atender em todas as
coisas e ainda mais nesta! Lili se levantou, pois estava prostada ao chão. Lavou o rosto,
passou um batonzinho, um lápis nos olhos, penteou o cabelo e se pôs a cantar alegremente.
----E é exatamente o que eu vou fazer, Quartão, tirando, é claro, a parte de lavar o
rosto, passar um batonzinho, etc...
----Ai... Quartinho! Você às vezes é tão besta!
----Quartão, vou sacudir a poeira e dar a volta por cima. Essa história ainda não
terminou e em breve teremos grandes notícias.
----Eh... Quartinho. Gostei de ver! Senti firmeza! É isso ai, rapaz!

CONFIDÊNCIAS DA LILI
Passados uns dias, Lili entrou correndo no Quartão, fechou a porta e se jogou na
cama aos prantos. Chorou, chorou, chorou até não poder mais. O Quartão não se agüentava
de vontade de consolá-la, mas não podia, não havia o que fazer. Por que será que ela
chorava assim daquele jeito? Justo ela que era uma pessoa tão alegre.
Depois de um tempo, Lili se levantou, foi até o banheiro e lavou o rosto. É bom lavar o
rosto quando se está chorando, ajuda a parar. Chorar pode ser saudável de vez em quando,
mas não sempre e não muito. Lili pegou o telefone e discou para alguém.
----Aninha? Tudo bem? Estava... Estou me sentindo muito infeliz. Precisava tanto falar
com alguém. Pensei em você. Eu sei, eu sei... Afinal você é a minha melhor amiga. Espera
um pouco. Vou pegar um lenço.
Lili foi até o banheiro pegou um pedaço de papel higiênico, deu uma rápida olhada no
espelho e voltou para o telefone.
----Ana, não tem ninguém no mundo que fique tão feia como eu quando chora. Até eu
me assusto quando passo pelo espelho. Acho que é por isso que eu não choro muito
freqüentemente. Hoje a Cecila levou a filhinha dela lá no serviço. Está com dois meses. É
uma boneca. Estava toda de cor de rosa. Gente: como é que em um rostinho tão minúsculo

Erro! Argumento de opção desconhecido.


podem caber dois olhinhos, um narizinho e uma boquinha tão perfeitos? Parece que alguém
pegou um pincel finissimo e desenhou aquele rostinho com todo o cuidado. Já está de
brincos! Brincos de pérola! Que nem eu queria pôr na minha menina quando tivesse uma. A
Cecila está tão feliz! Ana, ela se casou outro dia e já está de nenê nos braços, enquanto eu...
Eu sei Ana... Não vou chorar mais. Só quero te dizer uma coisa. Todas as minhas amigas,
muitas bem mais novas que eu, já tem filhos. Só eu que não, Ana. Isto não é justo. Ana
espera um pouco que a janela está batendo muito.
Havia começado um vento forte, desses que antecedem um temporal. Lili se levantou
e fechou a janela. Voltou ao telefone.
----Aninha, justo eu que sempre fui tão maternal... Eu era daquelas meninas que só
brincava de boneca. Quando a gente brincava de casinha, eu sempre queria ser a mãe. Dava
banho nas bonecas, trocava a roupa, penteava, dava mamadeira, cantava para dormir. Eu
tinha uma vizinha da mesma idade que eu. O nome dela era Neuza, mas todos a chamavam
de Neuzão. Ela jogava futebol, empinava pipa, jogava bolinha de gude com a molecada.
Nunca, nunca ela quiz brincar de casinha comigo... Que é que tem? Que é que tem é que ela
já tem quatro filhos, um mais lindo que o outro. Dois meninos e duas meninas... Não é justo,
é? Ana você está rindo ? Mas é para chorar, criatura... Ana, às vezes eu penso que estou até
meio xarope com esta história... Sabe, ultimamente, quando eu vou ao shopping e entro
naquelas lojas grandes de departamentos, dou a volta, só para não ter que passar pelo setor
de artigos para bebê. Mais um pouco, é perigoso eu sair por ai roubando bebê... Aí, você vai
ligar a televisão à noite, e eu lá no noticiário das oito dando entrevista: Não... Eu não queria...
Foi mais forte que eu.... Eu só queria um bebê para mim... Quaaaah... qua... qua...
Quaaaah... qua...qua... Eu sei... aaah ha ha ha. Eu sou besta mesmo! Ai, ai, o Kim sempre
me diz isso. Ana, espera aí que eu quero ver uma coisa.
Lili deu uma rápida olhada no relógio, foi até a janela, abriu novamente. Não estava
chovendo, afinal. Pegou novamente o telefone.
----Ana, é que eu quero te falar uma coisa e queria ver se o Kim ainda não tinha
chegado. É sobre adoção. Sabe, quando eu era menina sempre ficava fascinada com esse
assunto. Eu fiquei sabendo de uma menina adotiva e enquanto não fiquei sabendo tudo sobre
ela não sosseguei. Achei aquilo tão bonito... Ah... Ana, como é que você sabia que eu ia falar
isso... aaah ha ha ha. É isso mesmo. Pensei comigo mesma: um dia eu ainda vou adotar uma
criança. Então, quando ficamos sabendo sobre a esterilidade, eu disse para ele que isso para
mim não tinha a menor importância. Eu não estava nem aí com a barriga. Barriga para mim
nada mais é do que a embalagem. O que vale é o conteúdo. O meu negôcio era o bebê e
isso era fácil: só adotar. Ele disse então que preferia continuar o tratamento. Agora, depois de
tantos tratamentos inúteis, nem sei o que pensar... Ana, eu preciso arrumar um jeito para falar
com ele sobre isso, mas não sei nem como... O Pai do Céu? Claro. Não tenho dúvida
nenhuma. Ana, você me conhece muito bem e sabe que sempre foi assim toda a minha vida.
Realmente... Ah... Ana, foi tão bom falar com você. Era isso que eu estava precisando... Te
gosto muito também... Sabia que eu vou passar o mês todo fora? ... Férias. E das
quentes...Vamos até Jericoaquara... Ceará. Com a Toyotinha, é claro. Com quem mais
poderia ser? Vai ser uma aventura!... Eu estava mesmo precisando. Tenho me dedicado
muito ao serviço nos ultimos tempos e estou precisando de um descanso. Ana, tenho de
desligar, preciso preparar o jantar... Um beijo, então... Até a volta.

A AUSÊNCIA
Aquele foi o mês mais comprido na existência dos dois amigos, mas muito mais para
o Quartão. Acostumado à tantas mordomias, não sabia mais o que fazer. O tempo não
passava. Aquele silêncio pesava sobre toda a casa. Parece que o mundo todo havia parado.
Algumas noites, quando o silêncio era maior, podia escutar ao longe o som da televisão
daquela senhora que nunca ninguém lembrava o nome. E era só. Ficava imaginando o que o
seu pobre amigo tinha passado durante tantos meses de isolamento e percebia o quanto
tinha sido injusto ao julgá-lo. No início do relacionamento chegara a pensar que o Quartinho
só sabia se queixar e se lamentar. Um chato! No entanto, que grande sujeito era aquele e que
saudade sentia dele. Não via a hora de reencontrá-lo.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


ADOÇÃO
Mas para o Kim e a Lili o tempo voou. Subiram até Jericoaquara direto, num fôlego só.
Passaram alguns dias naquela paisagem de sonho e depois foram descendo com calma, na
intenção de conhecer os locais mais bonitos. Em Canoa Quebrada, uma praia linda lá do
Ceará, fizeram amizade com um casal muito simpático. Eles eram do Rio Grande do Sul.
Depois de muita conversa vai, muita conversa vem, eles começaram a falar do filho. Ele é
isso para cá, ele é isso para lá. Ficou claro que os dois eram absolutamente apaixonados
pelo garoto! O menino mais maravilhoso sobre a face da Terra. Contaram que tinham ficado
muitos anos sem filhos e a chegada daquela criança na vida deles tinha trazido uma grande
alegria que se renovava sempre.
----Se um dia tivéssemos filhos, gostaria que fosse assim também - disse Kim.
----E por que vocês não tem? - perguntou o rapaz.
----Infelizmente nós não podemos - respondeu o Kim.
----E por que vocês não adotam? - perguntou a moça desta vez - O nosso filho é
adotivo, e como vocês podem ver, somos muito felizes.
Lili estava exultante. Ali mesmo, naquele momento, agradeceu intimamente ao Todo
Poderoso, a forma como Ele havia respondido à sua oração. Passaram horas conversando
sobre o assunto. Seus novos amigos explicaram como era importante adotar legalmente, pois
daria uma segurança maior. A lei estaria sempre do lado deles. Muitos casais fazem a adoção
à brasileira, que é quando se registra a criança declarando que nasceu em casa e por isso
não possuem a documentação do hospital. Muitas vezes esses pais ficam à mercê de
pessoas inescrupulosas que não hesitam em tirar proveito da situação e podem até perder o
bebê, que muitas vezes já é a sua maior riqueza.
----Ah... Isso você pode estar certo que não faríamos. Como poderíamos começar
algo tão importante em nossas vidas, com uma mentira? Passaríamos a vida inteira
ensinando a essa criança a importância de dizer sempre a verdade. Estaríamos sempre
dizendo sobre a maneira maravilhosa pela qual ela havia chegado à nossas vidas e então
quando ela ficasse mais velha, poderia perceber que havíamos mentido no cartório para
ficarmos com ela. Seria uma incoerência! Não, isso não.
----Está certo que seria uma possibilidade muito remota, que a criança soubesse um
dia como se deu a adoção.
----Mas eu jamais correria esse risco - acrescentou Kim.
----E realmente é o melhor mesmo.
A conversa estava boa, mas já era tarde e precisavam todos descansar bastante, pois
no dia seguinte, logo cedo, sairiam para continuar a viagem: Kim e Lili descendo rumo a
Natal, no Rio Grande do Norte e o casal amigo, na direção contrária, subindo rumo à
Jericoaquara.

EM MEIO ÀS DUNAS
Ficaram em Natal alguns dias, na praia de Genipabu. Não podiam deixar de fazer o
famoso passeio de buggy pelas dunas. Lili gritava muito todas as vezes que parecia que o
buggy ia virar e Kim ficava morrendo de vergonha, mas não conseguia fazê-la parar.
Chegaram a um lugar no meio das dunas, onde havia um lago de águas cristalinas, cercado
de arbustos. Eles estavam com roupa de banho e não resistiram à tentação de se refrescar
um pouco. Deram umas poucas braçadas e saíram para continuar o passeio, pois o motorista
do buggy estava aguardando.
Quando voltaram, Lili inventou de descer pela duna com uma espécie de skate de
duna que os garotos alugam por ali. Kim não teve dúvida. Ficou com a câmera prontinha para
registrar o tombo fenomenal que a Lili levou. Ela terminou de descer a duna, rindo feito uma
doida e cuspindo areia, pois havia mergulhado com tudo de cabeça.
----Lili, você parece que não tem juízo.! Onde já se viu uma coisa dessas? Qualquer
dia você se mata.
----Ah, meu querido...Foi tão divertido! Se eu não fosse, nunca iria saber como era. E
depois, não foi tão ruim assim... Vamos comigo? A gente desce junto.
----Sua doida! Não. Vamos tomar uma água de coco, antes que você se arrebente
toda...

Erro! Argumento de opção desconhecido.


Natal era um lugar muito aprazível, mas não muito indicado para quem gosta de nadar
e mergulhar. A água é turva e tem muitas algas trazidas pelas ondas. Lili ficava invocada com
aquelas coisas toda hora se enroscando nos seus pés. Sendo assim, pé na estrada.

LILI ADOECE
Recife parecia ser uma cidade muito bonita, mas os dois nem puderam conhecê-la
direito. Lili adoeceu. Deu-lhe uma desenteria daquelas. Vinham se alimentando muito mal
desde que saíram de São Paulo. É interessante notar que no Nordeste, em geral, encontra-se
uma grande variedade de verduras e legumes nos supermercados, mas nos restaurantes é
só peixe.
----Peixe no café da manhã, peixe no almoço, peixe no lanche da tarde, peixe no
jantar... Kim: eu não agüento mais. Parece que eu já estou cheirando peixe. Dá uma fuçada
no guia e vê se acha um restaurante descente, com uma grande variedade de saladas.
Kim fuçou, fuçou e acabou achando uma delícia de restaurante. Encheram a cara de
saladas e mais saladas. Fazia tempo que não comiam tão bem! Ficaram alguns dias ali só
para se recompor um pouco e tocaram viagem rumo a Maceió.

A POUSADA
Conforme indicação de alguns amigos, hospedaram-se em uma pousada muito
gostosa, propriedade de paulistas. A pousada tinha dois pavimentos, sendo que a área social
ficava no andar térreo, com restaurante, sala de jogos e sala de televisão e no andar superior
ficavam as acomodações de hóspedes, suítes com varandas, os da frente com vista
belíssima para o mar e os do fundo com vista para a piscina, uma ilha azul no meio do
gramado.
----Olha, Bem. Ardósia com tijolinho à vista. Que nem lá em casa.
----Lili, se você não dissesse exatamente isso neste exato momento, eu ia pensar que
não era você!
----Chato!

PASSEIO DE JANGADA
Logo no dia seguinte foram fazer o tão badalado passeio de jangada na principal praia
de Maceió. Esta praia tem recifes de corais, depois do quebra mar. Os turistas embarcam em
jangadas que os levam aos recifes. Aquela faixa de mar fica coalhada de jangadas. Kim e Lili
colocaram nadadeiras, máscara, snorkel, uma faca presa à perna e...tchibum. Divertiram-se
bastante, mas não era exatamente o que esperavam. A região estava muito pobre em vida
marinha e os recifes muito depredados. Mais interessante estava a jangada restaurante com
sucos deliciosos e espetinho de camarão frito alí mesmo.

A EXPECTATIVA DE KIM
Voltaram para o hotel exaustos. Tomaram um gostoso banho, almoçaram e foram tirar
uma soneca, que ninguém é de ferro.
Lili ainda dormia, quando Kim saiu. Ele nunca conseguia dormir tanto quanto ela.
Desceu as escadas. Não havia ninguém no saguão. Resolveu ir até a praia, andar um pouco.
Aquela praia era afastada do centro da cidade e estava deserta. Exatamente do jeito que Kim
apreciava. O céu havia se acinzentado, mas o mar continuava com aquele verde profundo. E
interessante: no limite entre o céu e o mar havia uma faixa azul, de um azul real, como se
alguém tivesse feito um traço usando régua e caneta de ponta porosa. Ao contemplar aquele
cenário, Kim foi invadido por uma estranha sensação. Um arrepio percorreu-lhe a espinha e
inundou todo o seu ser. Naquele momento teve consciência da magnificência da criação e
como ele como indivíduo, fazia parte de tudo aquilo. Sentiu a presença suprema do Criador.
Kim lembrou-se da sua infância e de como se sentia na véspera do seu aniversário. Sabia
que no dia seguinte ganharia um belo presente. Era exatamente assim que se sentia naquele
momento: na expectativa de que algo grande ia acontecer.

A DECISÃO

Erro! Argumento de opção desconhecido.


Foi procurar por Lili. Precisava estar junto dela. Mas ao chegar ao quarto encontrou-o
vazio. Onde estaria ela? Foi até a sacada e a viu perto da piscina. Olhava para cima e parecia
aflita. Foi então que notou que havia um pássaro voando em círculos, enquanto enchia o ar
de gritos estridentes. O seu filhote ficara preso entre dois fios da rede elétrica. Estava imóvel.
Não se podia dizer há quanto tempo ele estaria alí, mas imaginou que estivesse morto.
Resolveu descer e ver o que podia ser feito. Quando chegou ao local, Lili tentava
desesperadamente soltar os dois fios com uma longa vara de bambú. Sentiu que Kim a
abraçava pelas costas e sustentava a vara. Assim ficou bem mais fácil e rapidamente
conseguiram que os fios se soltassem. Automaticamente olharam para o chão à procura do
corpinho do pobre bicho. Mas não havia nada alí. Agora mãe e filho voavam exultantes, numa
alegria louca. Ficaram alí por um pouco, gritando e voando, como que agradecendo ao casal,
que se mantinha abraçado. Lili chorava deslavadamente, presa a uma grande emoção. Kim
acariciava ternamente os cabelos da esposa.
Ao fundo daquela área havia uma árvore, onde se sentaram. Lili procurou pelo abraço
do marido. Queria ficar assim aninhada. Quando Kim a abraçava assim, é como se ela
estivesse no ventre materno. Nestes momentos não podia acreditar em coisas como ódio,
injustiça, miséria, dor, abandono... Ficaram em silêncio por algum tempo, usufruindo a doce
paz daquele ambiente tão sereno.
----Lembra, minha querida, daquele inverno que eu achei um filhote de pardal perdido
no nosso quintal?
----Como é que eu podia me esquecer. Foi ao escurecer e ele teve que passar a noite
com a gente. Você ficou tão envolvido. Cuidou dele direitinho! Deu comida, arrumou uma
caixa toda forrada. Você até o cobriu antes de deitar.
----É, mas, no entanto...
----No entanto, ele acordou duro como uma pedra. Você chorava feito uma criança.
----Eu não podia imaginar...
----Você não teve culpa. Não tinha experiência com esses bichos. Como lá em casa, o
papai criava galinhas e muitas vezes haviam pintinhos, eu já sabia que é preciso acender
uma lâmpada para que não morram de frio. É que na hora eu não me lembrei. Ainda bem que
no inverno seguinte você pode se redimir com aquele outro filhote...
----Eu não sei se você se lembra que pela manhã eu pulei da cama e fui correndo ver
como ele estava. Voltei aos pulos gritando: Ele está vivo. O filhote está vivo!
----Faz muitos anos, mas eu me lembro muito bem quando nós o soltamos. A
mãezinha dele estava por ali e voava feliz com a volta do seu pimpolho. Mas por que você se
lembrou disso agora?
----Por causa da adoção. Eu tinha receio de não gostar do bebê... Que bobagem!
Estes acontecimentos vieram à tona, e agora eu não tenho dúvida de que vou amá-lo muito.

MERGULHANDO
Ficaram mais alguns dias em Maceió e aproveitaram para fazer um passeio de barco
muito conhecido em Barra de São Miguel. Mas o período de férias já estava chegando ao fim
e precisavam se apressar. Passariam apenas mais um dia em Búzios para matar as
saudades e fechar com chave de ouro essas férias que com certeza seriam inesquecíveis.
A água do mar em Búzios sempre era mais fria do que em outras regiões, talvez pelas
correntes marítimas, mas em compensação era claríssima. A areia muito branca, a ausência
de ondas e a grande profusão de vida marinha faziam destas praias as preferidas do casal.
----Olha querido, a nossa Ferradurinha! Exatamente como a deixamos na ultima vez
que estivemos aqui.
----Não é uma beleza?
----Nunca me esquecerei da primeira vez que estivemos aqui. Esse lugar vai ser
sempre muito querido. Foi aqui que eu mergulhei pela primeira vez.
----Nós mergulhamos, Lili.
----E depois disso nunca mais paramos. É o lugar mais bonito que existe.
----De qualquer forma Recife de Fora, em Porto Seguro, é um lugar muito especial para
mim e foi uma pena não termos passado por lá. Mas realmente ficaria muito cansativo.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----O colorido das algas é esplêndido! Sabe o que é interessante ali? O movimento da
água faz com que as algas ao se movimentarem, ganhem matizes variados. Eu ficava parada
por sobre elas só observando a mudança do colorido.
----E a quantidade e variedade de peixes, estrelas, polvos e outros que a gente nem
sabe o nome.
----Chega de conversa e vamos mergulhar...
----Sim, mas vamos ficar sempre juntos. Eu não gosto quando você some. Se você achar
alguma coisa interessante você me chama e eu faço o mesmo.
Colocaram seus equipamentos e entraram na água aparentando uma grande má
vontade por causa da temperatura da água. Mergulharam por um pouco e logo Kim viu algo que
merecia a atenção de Lili. Uma esquadrilha de lulas. Esquadrilha, pois elas se movimentam
como se fossem aviões voando juntos. O movimento de uma, reflete o movimento das demais,
num sincronismo perfeito. Acompanharam aquela turminha por longo tempo, sem se cansar de
observar como aquele bichinho debaixo dágua parece uma nave espacial, com pequenas luzes
multicoloridas.
De repente Lili se viu cara a cara com um peixe grande, de lábios muito grossos e olhos
imensamente redondos. O susto foi enorme dos dois lados, fazendo com que nadassem em
direções opostas. Kim tinha assistido à cena e precisou sair a tona. Tirou a máscara e o snorkel
para poder rir à vontade.
----Bobo! Queria ver se com você ia ser diferente!
----Coitado do peixe! Ele teve muito mais medo de você do que você dele. Ou você acha
que fica linda com essa máscara?
----Ah, Kim... E você que fica melhor de máscara do que sem...
----Vem cá meu docinho. Ficou zangadinha? Malcriada, vem cá que eu vou te acalmar...
E Kim nadava tentando pegar a Lili que fugia gritando:
----Longe de mim seu malvado! Você em vez de me acudir, ficou se divertindo às minhas
custas...
----Mil perdões... Não está mais aqui quem riu. Vem cá para eu te dar umas bitoquinhas
salgadas.
----Não quero bitoquinha nenhuma. Quero te lembrar daquela vez que você veio branco
de susto, contando da moréia que veio roubar os peixes que você havia pescado.
----Ah, espera aí, Lili. Você não vai querer comparar esse pobre peixinho com aquela
horrorosa moréia. Isto é até covardia.
----Então está bem. Nem eu falo da moréia e nem você do peixão. Agora vamos às
bitoquinhas...Humm...Kim. Estão muito salgadas. Melhor deixar para depois.
----Você viu que linda a lula?
----Vi. Quem vê lulas em algum documentário exibido na televisão, não tem idéia de
como é imensamente mais interessante ao vivo, desde que estejam vivas, é claro, porque
aquelas de feira são horriveis, pobrezinhas. Vamos mergulhar que eu estou começando a
tremer de frio.
Assim que mergulharam se viram envolvidos por um turbilhão. Era um cardume de
peixes cinza, tão finos que conforme a luz batia, ficavam transparentes, e então somente os
olhos e um acabamento preto em forma de vírgula podiam ser vistos. Kim e Lili perseguiram o
bando por longo tempo, só para apreciar aquele rebuliço de pontos e vírgulas em movimento.
Esta foi a despedida definitiva daquelas férias memoráveis. De certa forma estavam
ansiosos por chegar em casa. Sabiam que grandes acontecimentos aguardavam por eles.

O REENCONTRO
----Quartão!
----Quartinho! Ah... Que grande alegria, amiguinho! Não via a hora de chegar esse
momento. Sabia que senti muito a sua falta? Preciso lhe dizer que aprecio muito a sua
amizade.
----É claro que eu também senti muito a sua falta, mas como eu havia dito antes, para
mim foi moleza.
----Tenho certeza que aprendi muitas coisas durante essas férias e sei que daqui por
diante serei um quarto muito mais compreensivo.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Legal! E então, alguma novidade?
----Sim e muitas. A Lili não saiu do telefone desde que chegou, de forma que já estou
sabendo de tudo que aconteceu nesta viagem.
----Eu vi os dois. Estão tão bronzeados! Devem ter aproveitado.
----Ih, Quartinho, mas eu nem te conto. A Lili ficou doente... Desenteria.
----Também, Quartão! Quem mandou pessoal metido à naturalista, que come só mato,
ir lá para o Nordeste? Tem que passar mal mesmo.
----Ai, não fala assim! Coitada da Lili.
----Desculpe, Quartão. Não foi por mal. Eu estava só brincando.
----Ainda bem. Lembra daquele dia em que a Lili entrou chorando? Lembra que ela
disse que precisava falar com o Kim sobre adoção e não sabia como? Então... ela nem
precisou falar.
----Uai, ela nem precisou falar? Sabe, Quartão, às vezes eu fico me perguntando, por
que a gente fala tanto: uai, sô, aquilo assim tá um trem de bonito... Quedê o trem que estava
aqui? Quem fala assim é mineiro e que eu saiba a gente é paulista. E paulista mesmo.
----Quartinho, você às vezes é tão infantil! Eu estou falando de um assunto sério e
você me vem com uma pergunta dessas?
----Ah? É assim que você vai ser mais compreensivo? Muito bonito! Eu perguntei
porque sempre tive curiosidade e nunca lembrava de te perguntar. Agora se você sabe e não
quiser falar, paciência. Que é que se vai fazer?
----Desculpe, Quartinho. Acho que estou um pouco ansioso com toda essa história.
----Quem devia estar ansioso, era eu, uai.
----Olha o uai aí outra vez. Você não se lembra de que os pedreiros que construíram
essa casa eram de Minas? Acho que é por isso, sô.
----Uai, mas não é que é, sô. Mas que trem! Como é que eu não me lembrava mais
disso? Onde é que eu estava com a cabeça? Mas que trem! Quá... quá, quá, quá... quá...
----Ah aaah aaah. Quartinho, cada dia que passa você esta mais bobo! Eu não sei
quem é mais bobo: você ou a Lili. Agora é sério. Vamos parar de brincadeira? Ah, Quartinho,
se você não parar de rir, eu também não consigo...
----É que estou contente. Tenho certeza que você tem ótimas notícias. Você tinha dito
que a Lili não havia precisado falar nada...
E o Quartão narrou pacientemente tudo o que acontecera durante a viagem, tim-tim
por tim-tim, uma vez que tinha acompanhado todos os telefonemas da Lili e a cada um deles
mais detalhes haviam sido acrescentados à historia.
----Ai, Quartão...Acho que eu vou chorar.
----Não faz isso não. Não é hora de chorar, é hora de rir.
----É que eu estou tão emocionado...
----Ora, que é isso quarto. Desse jeito eu também vou chorar...
----Não. Continua. Quando é que vai chegar o nenê? Os móveis? As cortinas? As
roupinhas?
----Calma, Quartinho! Eles primeiro tem que se inscrever nos foruns, procurar
instituições que mexem com isso, falar com as pessoas, enfim, espalhar a notícia de que
querem adotar. E depois, aguardar.
----E demora?
----Às vezes sim. Mas se eu conheço bem o Kim, a Lili e o Pai do Céu deles, vai ser
rapidinho.
----Iupiii!

O SEGRÊDO DE LILI
Lili entrou no quartinho de um jeito estranho. Parece até que estava fazendo coisa
errada. Fechou a porta e começou a abrir um pacote que tinha nas mãos. Tirou de lá uma
manta, dois macacões de recém-nascido, duas caixas de fraldas, duas calças plásticas, dois
conjuntos de pagões, dois mijões e um par de meias minúsculo. Arrumou tudo numa gaveta,
fechou o armário, e assim como entrou, saiu.
----Quartão. Que é que está havendo com ela, afinal? Está com uma atitude suspeita -
e contou o que Lili guardara no armário.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Psiuuu... Ela está no telefone. Vou tentar apurar o que está acontecendo.
----Oi, Aninha... Tudo bem?... Aqui tudo em paz. Sabe o que eu acabei de fazer?...
Comprei algumas roupas de bebê... Não e nem vou mostrar. Só você é que vai ficar
sabendo... Porque não quero. Quando eu era pequena tinha uma vizinha, que a gente
chamava de Tia Dinda. Era um amor de pessoa, gostava muito da gente. Ela teve um berço
armado por anos e anos, na esperança de ter um bebê. Eu, hein? Ficar alimentando a dor de
não ter filhos desse jeito... Aqui vai ser o seguinte: a hora que o bebê chegar, eu saio e
compro tudo o que ele precisar...
Houve uma pequena pausa.
----Ah, porque eu não quero estar desprevenida no caso de me chamarem... Já... Já
me inscrevi em alguns fóruns, e outras instituições que mexem com isso. Agora estou
iniciando uma pesquisa nos fóruns dos estados do sul, para ver quais os que tem tempo de
espera menor. Quando eu descobrir quais são, vamos fazer inscrição nestes também... É
claro que precisa... Aqui em São Paulo os fóruns tem tempo de espera mínimo de dois anos,
pois existe muita procura. Você nunca ouviu ninguém falar que esperou quatro, cinco anos?
Então, é gente que se inscreveu em um fórum só e cruzou os braços. Eu vou me mexer. Ana,
quem esperou como eu esperei, não tem estrutura emocional para esperar nem dois anos,
nem um ano, nem seis meses. Eu quero o meu bebê agora! Senão, você já sabe, corro o
risco de aparecer no noticiário das oito... Claro... Prometo... Pode ficar sossegada, você vai
ser a primeira a saber. Beijão... Até mais.
----Você escutou, Quartinho?
----Palavra por palavra, Quartão.
----E aí?
----E aí que está tudo indo às mil maravilhas. De vento em pôpa.
O Quartinho estava eufórico! Já tinha algumas coisas guardadas no armário. Já não
era totalmente inútil. Isso já lhe dava um grande alívio.

O GRANDE DIA
Como havia trabalhado até muito tarde no dia anterior e fazia dois dias que estava
com uma tosse seca, Lili viera do serviço mais cedo aquele dia. Não era gripe ou resfriado,
era só uma tosse enjoada que não queria parar. Pensou que já começava a esfriar aquela
época do ano e talvez por isso a razão daquela tosse chata. Tomou um banho, vestiu um
camisetão, que é como gostava de ficar em casa, dobrou cuidadosamente a colcha da cama,
tirou as capas dos travesseiros, deitou-se puxando as cobertas para cobrir-se. Ajeitou-se no
travesseiro e pensou na falta que fazia Kim nesta hora. Havia muitas coisas que Lili gostava
no casamento, e uma delas era dormir juntinho. Como apreciava o calor do corpo do
companheiro! Aquele aconchego chamava o sono rapidamente. Mas não se sabe se a falta
do Kim ou a tosse que não dava sossego, Lili revirava de um lado para o outro e nada de
conseguir dormir. Foi quando o telefone tocou.
Pronto! Só faltava esta.
Como nunca estava em casa a esta hora imaginou que não fosse para ela, deixou
tocar algumas vezes, esperando que a sogra ou a Nina, que fazia faxina naquele dia,
atendessem. Nada.
----Alô... Oi, Telma, é você... Não estava muito bem... Por que?... Sério?... Claro...
Espera, deixa eu pegar papel e lápis... Me passa o telefone... Confirme... Está certo. Com
quem é que eu falo? Ah, Telma, obrigada! Depois eu te ligo. Tchau.
Desligou e ligou imediatamente para o número que havia anotado.
----Alô... Eu quero falar com a Magali.
Lili estava muito nervosa. Sentia-se trêmula, suas mãos estavam transpirando.
----Magali, oi, tudo bem? É sobre um bebê para adoção... Menino... Onze dias...
Quero. Como é que eu faço?
Consultou o relógio.
----Agora são quatro e meia. Cinco e quinze estaremos aí, meu marido e eu.
Desligou o telefone e ligou novamente.
----Benhê, ligaram do Fórum. Tem um bebê, um menino de onze dias... Combinei com
eles às cinco e quinze... Tudo bem? Eu sei. É claro que eu não vou me empolgar... Eu sei

Erro! Argumento de opção desconhecido.


que estas coisas não são resolvidas assim de uma hora para outra... Eu sei que pode ser que
não dê certo... Estou calma. Pode ficar sossegado. Beijinho. Não vai se atrasar, hein... Tchau.
Lili deu um salto da cama. Vestiu a primeira roupa que achou e ainda enfiando o cinto
no passante da calça, gritou:
----Nina, é hoje Nina. Onde é que está você?
----Estou aqui na cozinha.
----Me ligaram do fórum. Tem um bebê lá esperando por mim. Marca esse dia Nina. É
hoje que eu vou ter o meu bebê.
Corria de um lado para outro feito uma doida, hora catando documentos, hora
arrumando as roupas de bebê numa sacola de plástico. Nina subiu para ver se podia ajudar
em alguma coisa.
----Avisa a minha sogra, por favor. Ah, Nina... Estou tão feliz! Não estou nem
acreditando. Eu tenho que estar lá às cinco e quinze. Será que vai dar tempo?
----Se acalma. Você está muito agitada. O bebê não vai fugir...
----Eu estou calma,Nina... Está tudo aqui... Eu estou bem?
----Está ótima.
----Então, tchau, Nina.
----Tchau. Vai devagar. Calma.

A CAMINHO
Lili voou escada abaixo, saiu feito um furacão pelo portão da frente, despencou
ladeira abaixo, até chegar na rua principal, e mergulhou no primeiro táxi que apareceu.
----Moço, me deixa no Metrô, rápido!
Àquela hora o trânsito estava tranqüilo, de forma que em um instante, Lili estava em
frente o Metrô. Pegou o tiquet que tinha na bolsa, enquanto corria para o interior da estação.
Passou pela roleta, subiu a escada rolante correndo e voou pelo corredor entrando no vagão
bem na hora em que a porta estava se fechando. Sentou-se.
Lili sentia que todo mundo estava olhando para ela e perguntava-se por quê. Os
quinze minutos que separavam uma estação da outra foram intermináveis. Mil indagações
vinham à sua mente. Ficou em pé muito antes de chegar à estação em que haveria de
descer.
Kim esperava por ela. Abraçou-se a ele.
----Está tudo bem com você? Está calma?
----Estou. Muito calma.
----Então vamos.
Atravessaram a estação. Passaram pela roleta e saíram finalmente à rua.
----Não dá para a gente andar mais depressa, Kim?
----Calma. Vai dar para chegar na hora.
----Está um vento frio. Será que a manta que eu trouxe vai ser suficiente para
agasalha-lo?
----Querida... Você sabe que talvez não dê certo... Ou que muito provavelmente nós
não fiquemos com o bebê hoje. Essas coisas são demoradas. Você sabe, existe toda uma
burocracia...
----Claro que eu sei... Eu só trouxe essas coisas no caso de precisar. Se de repente a
gente já puder ficar com o bebê hoje...
----Acho muito difícil. Por isso se acalme.
----Eu estou calma.

O BEBÊ
Lili não se continha. Entraram pelo fórum adentro e se encaminharam diretamente
para o gabinete do juiz. Procuraram pela tal de Magali.
----Oi, tudo bem? Viemos por causa do bebê.
----Ah, sim. Aguardem um minuto.
Vinte intermináveis minutos se passaram. Lili controlava o relógio nervosamente. De
dois em dois minutos esticava o pescoço, procurando ver se vinha alguém pelo corredor.
----Quer ficar quieta, por favor. Você chega a me incomodar.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Ai, bem... É que eu estou ansiosa. Não sei por que eles fizeram a gente correr
daquele jeito, se agora nos deixam aqui esperando, nesta agonia.
Magali chegou neste momento e encaminhou-os à sala do juiz. Era uma sala
espaçosa, com uma espécie de tablado onde ficava uma grande e pesada mesa. O juiz, um
homem alto e forte, possuidor de um rosto bondoso, parecia ainda mais alto em cima do
tablado. Ele tinha um bebê nos braços. Com um sorriso fez sinal para que nos
aproximassemos.
----Na verdade, eu o queria para mim, mas como a minha esposa não concordou,
podem ficar com ele.
Kim e Lili se inclinaram para ver a criança.
----Vocês o querem?
----Eu quero e você querida?
Lili não conseguia responder. Parece que o mundo tinha se aberto a seus pés. Olhava
para tudo aquilo como num sonho. Olhava para Kim que por sua vez olhava embevecido para
o bebê. Tinha esperado tanto tempo por aquele momento que não conseguia acreditar que
era real. Não conseguia articular uma palavra.
----Responde querida: você quer ficar com o bebê?
----Quero. Eu quero sim. Claro que quero - respondeu finalmente.
----Então o bebê é de vocês. Agora é cuidar da papelada.

E O NOME?
Kim e Lili estavam radiantes.
----Como vai ser o nome? - perguntou o juiz.
----Nome?
----Sim. O bebê precisa de um nome.
----Mas, agora?
----Já. Para que a Magali providencie a papelada e vocês possam sair com o bebê.
----Vocês nos dão cinco minutos?
----Sim, mas só cinco. Nem um minuto a mais.
O casal se sentou num banco que havia por ali e começaram a árdua tarefa.
----Mas Kim, assim, de estalo. Os outros pais tem pelo menos nove meses. Se pelo
menos já tivéssemos uma lista...
----Façamos uma. Fica mais fácil. Pega papel e lapiseira na sua bolsa. Nos queremos
um nome bíblico, certo?
----Sim. Mas não quero desses muito comuns.
----Mas também não queremos um nome esquisito, certo?
----Certo. Que tal João Lucas?
----Não, Lili. Não quero nome composto.
----Então, vamos ver: Jairo.
----Vou anotar.
----Natan...Israel...Tinha um filme. O filho do Daniel Boone era Israel.
----Tem Heber. Também é bonito e não é comum.
----Adoro Thiago, Mateus, Lucas, Davi, Daniel...Mas são tão comuns...
----Benhê, vamos logo. Lembra de mais algum?
----Tem Jonathan.
----Vamos votar? Qual você mais gostou?
----Ah, Kim... Eu não sei...
----Eu gostei de Heber.
----Então vai ser esse.
Levantaram e dirigiram-se à mesa de Magali que solicitou que lhe entregassem
alguns documentos.
----E então, como é o nome do bebê?
----Heber. Heber com H - informou o pai.

A PRIMEIRA TROCA
----Você por um acaso trouxe alguma coisa para vestir o bebê? - perguntou Magali.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Trouxe - informou Lili.
----Que ótimo. Então se você quiser trocá-lo, esteja à vontade.
----Eu quero sim. Aonde?
----Pode ser naquela mesa alí.
Lili pegou o bebê com todo o cuidado e colocou-o sobre a mesa. Kim a observava
calado. Escolheu um macacão cheio de estrelas e arco-íris. Separou um pagãozinho, um
mijãozinho, uma meia, uma calça plástica e uma fralda, que dobrou cuidadosamente.
----Kim, será que ele vai se resfriar se ficar peladinho em um lugar aberto como esse?
----Troca primeiro a parte de baixo, depois a de cima. E eu fico segurando a manta
para evitar qualquer ventinho.
Kim abriu a manta e ficou segurando cada ponta em uma mão com os braços abertos.
----Está feliz, querida?
----Muito.
Lili trocou o bebê com uma desenvoltura que espantou até a ela mesma. Está certo
que já cuidara de dois irmãos bem menores que ela, mas isso já fora há muito tempo.
----Pronto. Não está lindo?
----Uma belezinha. Como é que você não me contou que já tinha estas roupas?
----Era surpresa. Quer segurar um pouco?
----Pensei que você não ia deixar.
E Lili entregou o pequeno nas mãos do marido.
----Nossa Papai! Não é que você leva jeito? Nem parece que é pai de primeira
viagem!
----Ah, Mamãe. Depois do teu desempenho em trocá-lo, eu não podia fazer feio, de
jeito nenhum.
----Olha, a Magali está nos chamando.
----Magali. Estão aqui as roupas que eu tirei do bebê. A fralda molhada eu pus em um
saco plástico. Está tudo junto.
----Obrigada. Mas não é que ele ficou bonitinho? Aqui estão os seus papéis. A semana
que vem vocês devem comparecer novamente a este fórum para regularizarmos toda a
papelada. Por hora desejo felicidades ao pequeno Heber e aos seus pais.
----Muito obrigada por tudo e tchau - disse Lili.
----Até mais e obrigado - disse Kim.

O COMEÇO DE UMA GRANDE HISTÓRIA DE AMOR


Saíram do Fórum e foram até uma farmácia do outro lado da rua, onde compraram
material de higiene, mamadeiras, leite em pó, enfim, tudo o que imaginaram que o bebê
precisaria.
Sem que dissessem uma palavra, daquele momento em diante passaram a chamar
um ao outro de Papai e Mamãe. Intimamente não queriam que o pequeno Heber os
chamasse de outra forma.
----Vamos pegar um taxi, Papai.
----Claro, Mamãe. Não vejo a hora de chegar em casa.
No caminho de volta, em meio a tanta emoção, não podiam imaginar que aquele
pacotinho que lhes fora entregue, sem que por ele nada precisassem pagar, já se lhes tornara
tão valioso, que nem por todas as riquezas do mundo poderiam entregá-lo. Só um pouco
mais tarde vieram a saber que se preciso fosse, dariam tudo o que possuiam em seu favor,
até mesmo as próprias vidas. Não cabiam em si de contentamento. Sabiam que estava
começando ali uma grande história de amor que uniria aquelas vidas para sempre.

EM CASA
----Vovó, cheguei!
----Gente, mas o que é isso? Deixe que eu olhe para você, meu querido... Mas é a
cara da Vovó! Quem diria?
----Você gostou dele, Vovó? - perguntou Lili.
----E quem é que não haveria de gostar?

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Então segure um pouco, que eu vou fazer a mamadeira. E você, Papai, por favor,
vá até o supermercado e compre uma banheira de plástico.
Lili pôs a chaleira com água no fogo e enquanto esperava pela fervura, leu
cuidadosamente as instruções da lata de leite. Esterilizou a mamadeira, onde colocou uma
certa quantidade de água fervida. Ápos esfriar um pouco, colocou as medidas de leite em pó
exatamente como estava indicado. Estava pronta.
----Hum...Que delícia! Aposto que estava morrendo de fome. Você é tão bonzinho,
querido. Tão compreensivo!
E o bebê tomou quase todo o leite.
----Agora é hora de trabalhar. É... aqui, cada um faz a sua parte. Eu preparo o rango,
você toma tudo e depois... arrota.
E Lili batia levemente nas costas do pequeno.
----Pronto. Não é que esse menino cumpre direitinho com as suas obrigações? Agora
vamos subir que você vai conhecer o quarto do Papai e da Mamãe.
Lili subiu as escadas, entrou no quarto e fechou a porta delicadamente. Colocou o
pequeno na cama.
----Então, você gostou?
Neste momento Kim entrou com a banheira.
----Que bom que você chegou. Enquanto eu dou banho nele, você poderia buscar
aquele colchão do sofá da saleta para que ele passe a noite.
Lili deu-lhe um gostoso banho e depois o acomodou no colchão que Kim havia
colocado ao lado da cama de casal.
----Agora você fique aí quietinho, que nós vamos tomar banho. Mamãe e Papai já
voltam.
----Gozado. Sua tosse passou.
----É mesmo! Depois que me ligaram sobre o bebê, eu não tossi mais...
Tomaram banho, rapidamente. Parece que não queriam ficar um minuto longe do
pequeno.
----Olha...dormiu! Também, pobrezinho! Depois de tantas emoções...

O SIGNIFICADO DE HEBER
----Está feliz, Mamãe?
----Sim. Muito.
----Eu pesquisei o nome do bebê, enquanto você dava o banho.
----E aí?
----Heber quer dizer companheiro.
----Que lindo! Está ouvindo meu querido?
----Muito provavelmente, desse nome é que se originou o termo hebreu, no Velho
Testamento.
----Olha, que importante!
----Mas não é só isso. Pela chave bíblica descobri o relato da vida de um homem
chamado Heber. Ele não era hebreu, mas tinha uma tão grande admiração pela cultura
hebraica, que passou a viver com eles. Vivia como eles, comia como um deles, falava como
um deles. Era ainda mais zeloso das tradições judaicas do que qualquer outro judeu poderia
ser. Enfim, era mais judeu do que qualquer judeu.
----Mas, bem... Isto é realmente extraordinário! Como é que poderíamos imaginar uma
coisa dessas hoje lá no fórum, quando escolhíamos o nome tão apressadamente? Está
ouvindo, filhinho? Você é mais nosso filho do que se realmente fosse!

ABENÇOANDO HEBER
Lili estava emocionada. Pegou numa das mãozinhas. Kim segurou a outra
cuidadosamente. A emoção quase não o permitia falar.
----Filhinho. Tua vida começa agora, neste momento. Nós rejeitamos tudo o que se
passou antes disso. Fazemos uma aliança com o Deus Eterno, que te reservou para que
fosse nosso filho. Que Ele coloque anjos ao teu redor para te guardar de todo o mal. Que dê

Erro! Argumento de opção desconhecido.


sabedoria para que nós o ensinemos a andar nos seus caminhos. Que Deus te abençoe,
Heber. Que Deus sobre ti levante o rosto e te dê paz e te guarde para sempre. Amém.
----Amém. Em nome de Jesus. Amém. Ah, querido... Esse momento será inesquecível
para mim. Eu te amo tanto, tanto.
----Eu também te amo muito.

A PRIMEIRA NOITE
Lili dormia profundamente, quando foi acordada por um chorinho. De imediato, sentiu
uma forte fisgada no peito direito. Que estranho. Que seria aquilo? Lembrou-se de um artigo
que lera numa revista, sobre uma avó que amamentara a netinha e pensou que poderia ser
importante para o Heber estar um pouco em seu seio. Descobriu-se e aninhou o bebê em seu
colo. Ofereceu-lhe o seio como se não fizesse outra coisa na vida além disso. O pequeno não
se fez de rogado, e se pôs a sugar sofregamente.
---Kim! Olha... Eu pus o Heber no peito e ele está sugando!
Kim nem tomou conhecimento. Dormia feito uma pedra. Lili sempre ouvira falar que o
movimento de sucção era importante para o desenvolvimento do bebê. Portanto deixou que
ficasse mais um pouco. Depois foi buscar a mamadeira. Assim que saiu do quarto, o bebê
aprontou um berreiro tal, que Kim teve de acordar e acalmar o esfomeado. Quando Lili
voltou, Kim estava aflito.
----Ah, finalmente... Vai ser toda noite assim? - perguntou Kim.
----Só até acertarmos o horário, não é querido? Mas isto vai ser rapidinho.
Lili deu a mamadeira, meio dormindo, trocou a fralda molhada e finalmente desmaiou
de cansada. Quando acordou, foi novamente com um chorinho.
----Mas de novo? Ai, ai... Mas nem amanheceu!
E foi logo saindo do quarto rumo à cozinha. Voltou logo depois. Deu a mamadeira ao
menino, torcendo para que terminasse o mais rápido possível.
----Arrota, querido... Arrota...
E nada do pequeno arrotar. Resolveu trocá-lo primeiro. Terminada a operação
pegou-o novamente no colo e de imediato o bebê cumpriu a sua obrigação.
----Que bom! Agora quietinho!
Lili abraçou-se ao marido mal acreditando que podia dormir novamente. Era mais de
nove horas, quando se acordou.
----Arre, dorminhoca!
----Dorminhoca, uma pinóia! Esse pirralho não me deixou dormir. Estou um bagaço.
Será que vai sobrar alguma coisa de mim, quando esta história terminar?
----Ah... Justo você que adora dormir.
----É só que esta noite nós vamos dividir.
----Não senhora. Você vai ficar de férias e eu vou continuar trabalhando, portanto...
----Chi... É mesmo... Estou ferrada.

O ENXOVAL
Lili foi tomar uma chuveirada fria. Isso a reanimava. Quando se enxugava sentiu uma
sensacão estranha no peito direito. Lembrou-se que tinha posto o bebê no seio durante a
madrugada. Deu uma apertadinha e para seu espanto, saiu uma gotinha de aspecto leitoso.
----Benhê, corre aqui!
----Mas que foi criatura?
----Você não vai acreditar. Saiu leite do meu peito.
----Imagina... Como pode ser uma coisa dessas? Leite não aparece assim de uma
hora para outra.
----Então, veja...
----Gente, mas não é que é mesmo?
----Agora vou coloca-lo sempre no peito. Vai ser bom para ele.
Deixaram o Heber com a Vovó e foram às compras. Andaram pelas lojas todas até
que tivessem tudo o que precisavam.
----Bem, eu nem imaginava de quanta coisa um bebê precisa.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Sabe que eu estou te estranhando. Estamos há horas andando de um lado para
outro com esse monte de pacotes e você ainda não reclamou nem uma vez. Justo você que
nunca suportou fazer compras...
----É mesmo. Nem eu havia reparado. Sabe que estou doido para chegar em casa e
mostrar tudo a ele...
----Você está curtindo demais esta história de ser pai, não é mesmo? Está com cara
de Papai babão.
----Falando em cara, desde ontem você está parecendo que está de máscara. Sabe
aquela máscara com um sorriso de orelha a orelha que o pessoal coloca no Carnaval, para
fingir que está feliz?
----Ai, Bem... Que comparação!
----Mas é mesmo. Você desde ontem está com uma expressão só. Não consegue tirar
esse sorriso bobo da cara.
----Isso é jeito de falar com a sua esposa, mãe do seu filho? Mas pensando bem é
mesmo. Eu estou tentando ficar séria mas não consigo. Será alguma paralisia facial? Olha...
acho que isso é contagioso. Você também está apresentando o mesmo sintoma. Vamos fazer
um teste. Fica sério. Vamos, concentre-se. Você vai conseguir... Pense em algo triste... Nada.
É, meu caro. Sinto informar-lhe que após cuidadoso exame, foi constatado um grave caso de
felicidade. Meus parabéns!
----Quanta abobrinha!

A REVOLTA DO QUARTINHO
Foi um mês movimentado naquela casa. Assim que a notícia se espalhou os amigos e
parentes começaram a chegar trazendo presentes os mais diversos. Estavam todos muito
felizes ao perceber o bem que aquela criança proporcionara aos queridos amigos.
Lili conseguira uma licença adoção, válida por dois meses, e mais um mês de férias.
Quando voltasse a trabalhar o bebê estaria com três meses. Nada mais justo ao se
considerar todos os cuidados que um recém-nascido exige.
Era um bonito dia de sol. Lili resolveu levar o bebê para tomar sol no quintal. Deixou
tudo bem aberto na parte de cima da casa, para que ventilasse.
----Arre, Quartão. Não agüentava mais ficar nesse isolamento. Que está acontecendo
nesta casa afinal? Eu pensei que quando o bebê chegasse, fosse ficar aqui comigo. Esse
mundo é injusto, mesmo. Uns com tantos e outros com tão pouco. Eu estou inconformado.
----Calma, Quartinho! Nossa, como você está azedo!
----Queria ver você no meu lugar. Você sabia que eu ainda nem vi o bebê?
----Ele é lindo!
----Além de tudo, virei quarto de despejo. Veja só a bagunça que está aqui. Cheio de
caixas e pacotes. Triste sina a minha.
----Quartinho, escuta. O bebê não vai ficar aqui para sempre. É só nos primeiros dias.
Depois ele vai ter que ir para um lugar só dele.
----É? Só quero ver se eles gostarem tanto do bebê, que não queiram se separar nem
um minuto dele? Você é espaçoso. É só colocar um bercinho aí e pronto. Eu me ferro de vez.
----Quartinho, se eles gostarem muito do bebê vão querer que ele tenha o seu próprio
espaço.
----Você acha mesmo, Quartão?
----Não só acho. Tenho certeza. Portanto paciência. Agora se acalme que eu vou
aproveitar para te colocar a par de todos os acontecimentos.
E o Quartão relatou detalhadamente tudo o que acontecera naqueles dias, desde a
chegada de Heber naquela casa.
----Eu só não sei te explicar o que é que a Lili some lá para baixo o dia todo. Só sobe
para cuidar do bebê e desaparece novamente.
----E o pobrezinho fica sozinho, Quartão?
----Ele nem percebe. Dorme o dia todo.
O Quartão sabia que Lili passava horas na máquina de costura preparando a
decoração do Quartinho, mas ficou bem quieto. Queria fazer uma surpresa ao amigo.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


UMA SURPRÊSA PARA O QUARTINHO
Era sábado logo cedo. Lili cuidou do bebê. Kim sumiu lá para baixo, para fazer não sei
o quê. Tomaram um rápido café e invadiram repentinamente o Quartinho. Vinham armados
até os dentes. Ele com as mais diversas ferramentas. Ela com balde, vassoura, rodo, pano de
chão.
----O que estaria acontecendo? - pensou ele.
Abriram as caixas e tiraram de dentro delas peças de madeira que não se pareciam
com nada. Foram encaixando umas nas outras até que apareceu um lindo berço, com uma
comôda embutida, que fazia as vezes de trocador. Depois, fizeram o mesmo com outras
peças, e apareceu uma cama. Tiraram as caixas vazias, que já estavam atrapalhando.
Lili ficou segurando a galeria de tecido listado de azul, rosa, amarelo e verde,
enquanto Kim a prendia na parede em cima da janela.
Depois foi a vez das prateleiras, que foram fixadas nas paredes. Três delas acima da
cama e duas acima do berço na direção do trocador.
Kim guardava as ferramentas enquanto Lili limpava tudo.
----Ih, Papai. Está na hora do nenê mamar. Ainda bem que ele dormiu bastante. Que
tal você prender os bichinhos na parede, enquanto eu cuido dele?
----Onde eu os prendo?
----Não sei... Que tal em cima do berço? Assim ele pode se distrair observando as
formas e cores.
----Vai ficar ótimo.
----Olha, querido. Estão aqui as cortinas. Se der tempo você pode ir colocando nos
trilhos. Cuidado para que todas as roldanas estejam engatadas.
Lili foi cuidar do bebê. Não via a hora do quartinho ficar pronto. Assim que terminou
voltou depressinha.
----Que lindo, querido!
Kim havia prendido os baby's Disney um pouco acima do suporte do cortinado. Eram
eles o Mickey, a Minie, o pato Donald, a Margarida e o Pluto. Todos eles na versão bebê. A
cortina também trazia os mesmos personagens.
----Fala baixo... Eu tenho bom gosto, hein?
----É, não é dos piores não.
----Chato! Deixa eu ir colocando os terminais em cada trilho para que a cortina não
escape.
E Lili colocou um terminal no final de cada trilho apertando bem cada parafuso com
uma chave de fenda.
----Pronto. Vamos almoçar?
----Vamos.
Antes de sair do quarto, deram um olhadinha em tudo.
----Mamãe, esta começando a pegar forma. Acho que ele vai gostar muito deste
quartinho.
Engoliram a comida e retomaram o trabalho. Lili, após ter colocado o colchãozinho
dentro do berço, arrumava o lençol azul claro com elástico. Estendeu a pequena colcha, um
edredom dupla face, de um lado azul claro como o lençol e do outro listado como a galeria da
cortina. Kim fazia o mesmo com a cama, que fazia as vezes de sofá. Lili prendeu cada protetor
de berço com o lado listadinho para fora. Depois trouxe o forro do trocador.
----Eu deixo do lado listado ou do lado liso?
----Ah, deixa de frescura, Mamãe... Qualquer lado fica bom.
----Chato! Não te pergunto mais nada...
Para completar o sofá, foi trazido um rolo imenso, que seria usado como encosto. Estava
forrado do mesmo azul claro e nele descansavam três almofadimhas com os baby's.
----Puxa, Mamãe. Você caprichou mesmo, hein?
----Sorte sua você ter se casado com uma mulher prendada. Senão você teria gasto uma
fortuna...
----Sabe, quando você chegou com aquele monte de pacotes e disse que havia
comprado cinqüenta metros de tecido, imaginei que você tivesse enlouquecido...

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----É, mas saiba que não sobrou um metro sequer. Reservei três metros para a colcha do
outro bebê, pois de repente não acho mais desse tecido...
----Está animada, hein?
----Se estou... Quero mais meia dúzia.
----Vai querendo...
Lili começou a guardar as roupas nas gavetas. Kim tirava bichinhos de todas as espécies
de dentro de uma sacola e ia dispondo nas prateleiras que ficavam acima do sofa. Depois foram
os potes de louça também em forma de bichos com algodão, cotonete, etc. Havia uma casinha
de louça, que tinha o telhado como tampa. Ali colocou fita crepe, hipoglos e outras coisas.
Arrumou alguns livros de puericultura na prateleira de cima.
----Está bom assim, Mamãe?
----Está ótimo. Que tal trazer a cadeira de vime. Está lá no banheiro. O forro está em
cima da cama. É só amarrar essas tiras. Eu também já terminei aqui. Agora vou trazer a mesa.
Buscou a mesa lá do banheiro. Forrou com uma toalha azul clara redonda que ia quase
até o chão. Por cima jogou uma toalha quadrada listada.
----Uau...Tudo combinando! Isto é que é capricho. Ainda está faltando alguma coisa?
----Falta o cortinado...
----Ah é?.
----Está aqui... Me ajuda?
----Claro. Nossa é diferente...
----É de voal. Eu vi numa revista e resolvi fazer igual. Agora falta o laço de fita para dar o
acabamento. Vê se você consegue fazer um laço bem bonito.
----Deixa eu ver...
----Cuidado para não amassar. Eu engomei para ele ficar bem armado.
----Assim está bom?
----Dá mais uma puxada assim... Está ótimo!
Sentaram no sofá e ficaram contemplando aquele quartinho de sonho.
----Benhê... Sabe que eu não imaginava que ia ficar tudo tão bonito?
----Este quarto não fazia parte dos seus sonhos?
----Engraçado... Não... Eu nunca imaginei que um dia fosse ter um quarto de bebê
assim... Acho que foi uma surpresa do Pai do Céu. Acho que Ele de alguma forma sabia que se
eu um dia tivesse sonhado, o sonho seria exatamente assim...
----Falando em surpresa, vou buscar o Heber para ele ver a surpresa. Será que ele está
acordado?
----Boa ideia!

A HORA CERTA
Kim voltou com a criança nos braços.
----Olha, meu querido, é o seu quartinho... Veja os bichinhos que o Papai comprou
para você. Este é o cachorrinho. É aquele sujeito que faz au,au... au,au. Este aqui é o
gatinho. Quando ele conversar com você vai ser assim: miau... miau...
Lili estava largada sobre o sofa.
----Benhê...Se soubesse que ia ser tão bom, você teria adotado antes?
----Não. De jeito nenhum.
----Mas por quê?
----Porque não seria o Heber.
----É mesmo... Então adotamos na hora certa...
----Nem um minuto antes, nem um minuto depois...
----Benhê... Estou tão cansada...
----Eu também. Que tal descansarmos um pouco?
----Ótimo, mas primeiro tenho que cuidar do Heber... De novo.
Lili trouxe a mamadeira e sentou-se na cadeira de vime do Quartinho. Parecia um
sonho! Enquanto amamentava, começou a pensar no número de mamadeiras que um bebê
toma durante a vida. Vamos ver. Até os cinco meses: oito mamadeiras por dia. Cinco meses
vezes trinta dias corresponde a cento e cinqüenta dias, que vezes oito mamadeiras dá um
total de um mil e duzentas mamadeiras. Supondo que dai em diante o bebê passe a tomar

Erro! Argumento de opção desconhecido.


somente três mamadeiras por dia e que mame até os dois anos...Vamos ver...São dezenove
meses. Vamos arredondar: vinte meses. Vinte meses vezes trinta dias são seiscentos dias
vezes três mamadeiras: são um mil e oitocentas mamadeiras. Somando com os cinco
primeiros meses temos um total final de três mil mamadeiras. Mamamia!

DE PORTA ABERTA
----Ei, Quartão!
----Fala.
----Sabe o que aconteceu hoje?
----Claro que sei...
----Você estava com a porta fechada o tempo inteiro... Como é que sabia?
----Eu sei de tudo o que se passa nesta casa.
----Você já sabia antes?
----Claro que já sabia.
----E por que não me contou?
----Ora, Quartinho...Queria fazer uma surpresa. Você está lindo! Está feliz?
----Muito e principalmente por saber que agora sou útil. Sinto-me realizado!
----Também estou feliz... Agora que o bebê vai ficar com você, acho que nossas
portas vão ficar abertas e poderemos voltar a ter as nossas conversas.
----Por que voce acha que as nossas portas vão ficar abertas?
----Ora, eles vão querer escutar o bebê...
----Quartão! Como você é inteligente!
----Elementar meu caro Quartinho.
----Nossa! De onde você tirou isso?
----Foi de um filme que eu assisti outro dia. Um tal de Sherlok Holmes...
----Um dia, quando o Hebinho crescer, eu também vou ter uma televisão. Vou assistir
uma porção de desenhos animados...
----É. Mas não pense que você vai ficar assistindo a esses programas bobos que
passam o tempo inteiro.
----Ai, Quartão! Eu nunca assisti televisão! Nem sei se tem programa bobo ou não. Tudo
o que sei é o que você me conta.
----Está bem. Desculpe, vou te explicar. Tem muita coisa boa por aí. Desenhos
maravilhosos, muitos dos quais eu até já te contei. Os da Disney, da Warner Bros, o Snoopy,
Asterix, os nossos brasileiros Mônica e Cebolinha... Desenhos bem produzidos, que levaram
anos para serem feitos. A televisão não passa esses normalmente.
----Por que?
----São desenhos caros. A televisão prefere passar uma produção bem mais barata. São
desenhos de má qualidade, que enchem a cabeça dessa criançada você sabe do que...
----Mas que pena!
----Tem um outro aspecto da programação infantil na televisão, que me desagrada muito.
Ela desrespeita profundamente a criança, quando não considera os aspectos psicológicos dos
baixinhos.
----Como assim? Explica.
----Tudo tem seu tempo. Veja uma árvore. Nasce uma flor. Depois se transforma em um
brotinho. Esse brotinho vai tomando a forma de uma fruta. Esta fruta é pequena e verde no
início, mas depois vai crescendo e amadurecendo, até o momento em que está pronta para ser
saboreada. Seria uma tolice querer consumir a fruta quando ainda está verde... Se você
observar a natureza, vai ter sabedoria para compreender todo o resto.
----Você quer dizer que a criança também tem seu tempo?
----Tem e é preciso haver respeito à esse tempo. Veja só. O Heber está tomando leite. E
vai tomar leite até que esteja preparado para digerir outros alimentos. Pouco a pouco, conforme
for amadurecendo, vai comendo outros alimentos até que poderá comer de tudo. Você já
imaginou se a Lili em vez de trazer a mamadeira agora, trouxesse uma bela feijoada?
----Seria o mesmo que envenená-lo. Ela com certeza mataria o coitado
----Com certeza... Todo mundo sabe disso e ninguém sai por aí oferecendo feijoada à
recém-nascidos... Mas não é apenas o corpo de uma criança que precisa ser alimentado de

Erro! Argumento de opção desconhecido.


forma apropriada para que cresça forte e saudável. O seu espírito também. O que muita gente
não percebe é que as crianças são envenenadas continuamente e ninguém faz nada. Ficam
horas e horas em frente da televisão recebendo agressões de toda a espécie e quando
começam a imitar o que vêem no vídeo são criticadas severamente. Posso até escutar algumas
mães gritando: "Onde é que você aprendeu uma coisa dessas? Menino impossível! Nem parece
que eu me mato para te dar educação!"
----Ai, Quartão... Eu estou ficando escandalizado com essa história...
----Sossega, Quartinho... Pode ficar certo de que você vai assistir aos melhores e
mais divertidos desenhos produzidos no mundo. O Kim é fissurado em desenho e tem uma
coleção enorme que você com certeza vai adorar!
----Ôba!

UMA BABÁ PARA HEBER


Os três meses da licença da Lili voaram e ela precisava voltar a trabalhar. Arrumou
uma babá para cuidar do Heber durante as seis horas que estivesse fora.
----Quartão, você sabe quando é que a Lili vai voltar ao trabalho?
----A semana que vem.
----Já? Como passou rápido!
----É. Coitada... Ela não queria, mas sabe que é o melhor.
----Vou sentir sua falta. E o Heber? Vai ficar com a Vovó?
----Não. Eles não querem. Para a Lili e o Kim, as vovós tem uma função muito
especial, que muitas vezes não é possível cumprir pois acabam envolvidas com outras
ocupações.
----Como assim?
----As avós e os avôs já não possuem aquela doidura dos adultos de fazer uma
porção de coisas ao mesmo tempo e dar conta de tudo. Já perderam a pressa. Sentam-se e
escutam paciente e atenciosamente tudo o que a criança tem a dizer. Esclarecem suas
dúvidas e dão explicações detalhadas sobre os acontecimentos da vida.
----É verdade...
----Querem que a Vovó tenha liberdade de estar com o Heber quando desejar e se
sentir disposta para isso. Assim o Heber vai ficar sob a responsabilidade de uma babá até ir
para a escolinha.
----E já tem alguém em vista?
----Tem. Parece que é uma garota de quinze anos. Veio recentemente da Bahia.
---Como é que ela é?
----Ah, não sei... A mãe veio para fazer um tratamento e enquanto isto está
trabalhando para a Telma, aquela amiga da Lili e trouxe a menina junto. Ela quer ficar por
aqui...
----Bom, vamos ver o que é que dá...

NEIDE, A BABÁ
No dia seguinte, Lili veio atender a porta.
----Você que é a filha da Leonor?
----Sou.
----Teu nome é Neide, não é?
----É.
----Pode me chamar de Lili. Vamos entrando...
Subiram até o quarto.
----Este aqui é o Heber. Heber, esta é a Neide. Ela vai cuidar de você enquanto a
mamãe estiver fora. O Heber tem três meses, e é o meu maior tesouro. Tenha amor por ele e
tudo vai dar certo. A Telma disse que você cuidou dos seus irmãozinhos quando a sua mãe
precisou vir a São Paulo há dois anos atrás.
----Foi...
----Quantos irmãos você tem?

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Somos em nove. Eu sou a segunda.
----Então você não vai encontrar dificuldade em cuidar do Heber, não é?
----É...
Neide aprendeu o serviço rapidamente e gostava muito de cuidar do Heber.
O retorno ao trabalho, apesar de tudo foi doloroso para Lili. Sentia muita falta do
Heber durante aquelas horas. Precisava se concentrar no trabalho, mas o seu pensamento
teimava em se voltar para o que estaria se passando em casa com o seu querido.
----Quartão! Que é que você está achando desta tal de Neide?
----Ela é bastante quieta. Quase não abre a boca. Mas percebi que é bastante cuidadosa
e procura fazer tudo exatamente do jeito que a Lili gosta. Está assim meio judiada...
----É falta de trato. Lá na Bahia a miséria é muito grande.
Ter o que comer já é uma grande coisa.
----Se ela ficar aqui, em dois tempos a Lili deixa ela nos trinques...
Lili chegou toda esbaforida do serviço. Como é que estaria o seu pequeno? Subiu as
escadas correndo e precipitou-se quartinho adentro.
----Ah, meu querido... Como é que está você? Mamãe estava morrendo de saudade.
Tudo bem, Neide? Como é que foi o seu dia?
----Foi bem...
----Parece que está tudo em ordem. Acho que vamos nos dar muito bem.
----Posso ir?
----Claro. Eu vou abrir a porta para você.
Lili desceu as escadas com o Heber no colo e foi abrir o portão para a Neide sair.
----Tchau, Neide. Obrigada.
----Tchau. Tchau Hebinho.
Neide foi descendo a ladeira e Lili ficou observando aquela menina. Quinze anos,
tímida, franzina, com aquele jeito humilde. Mal sabia ler e escrever. Não imaginou, porém,
que começava ali uma grande amizade.

UMA SURPRÊSA PARA NEIDE


----Quartão, você viu a farra que eles fazem?
----Do que é que você está falando?
----Da Neide e do Heber, uai!
----Ela é muito jeitosa com crianças. Dá a impressão que ela já gosta bastante dele.
Quando ele está enjoadinho, ela o distrai com a maior paciência. Lili parece bastante
satisfeita.
----Quartinho, a Lili pediu para ela vir morar aqui. A mãe dela deixou. Logo ela volta
para a Bahia e fica mais tranqüila sabendo que a filha está em companhia de um casal assim
que nem o Kim e a Lili. Mas final de semana ela fica com os tios, para se distrair um pouco,
que ninguém é de ferro.
Dois dias depois, Lili chamou a Neide até o quarto de costura, no andar inferior da
casa.
----Neide, hoje você já vai dormir aqui?
----Já. Eu trouxe as minhas coisas.
----Bom, então, de hoje em diante, este é o seu quarto. A máquina de costura vai
continuar aqui, mas eu prometo não te incomodar muito freqüentemente. O armário do lado
direito é meu e o do outro lado é seu. Espero que você mantenha tudo em ordem.
Abriu as portas do armário esquerdo.
----Lili, você não falou que esse armário é meu? Onde é que eu ponho essas roupas?
----Deixe aí mesmo. Essas roupas são suas.
----Minhas?
----Neide, eu vi que você estava precisando de roupa e arrumei algumas lá no serviço,
com a Elisa, minha colega, que é assim pequena que nem você. Ela foi muito atenciosa. São
usadas, mas ainda estão como novas.
Neide estava paralisada.
----Experimenta pelo menos uma calça para a gente ver. É tudo de um tamanho só.
Neide não cabia em si de felicidade. A calça caiu como uma luva.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----E os sapatos? Experimenta esse tênis. Qual o teu número?
----Trinta e cinco.
----Então deve servir... Que tal? Não está apertando?
----Está ótimo!
----Que bom. Gostou da surpresa?
----Adorei. Minhas roupas estavam tão feiosas...
----De agora em diante eu quero ver você sempre bem arrumada. Qualquer coisa que
você precisar é só me pedir. No banheiro ao lado tem um armário com espelho, onde você
pode guardar objetos de higiene e uso pessoal. Agora deixa eu subir que parece que o
Hebinho está acordando.
----Lili... obrigada...
----Por nada.
Neide estava muito feliz. Quando chegou a São Paulo ficou assustada com aquela
cidade enorme, com trânsito tão carregado. Como seriam as pessoas de uma cidade como
aquela?
Deus tinha sido bom para ela. Tinha achado uma boa casa para ficar, um salário no
final do mês, um quarto e banheiro só para ela. Abriu o armário novamente. Tirava as roupas
dos cabides e ia experimentando peça por peça. Naquele momento fez uma promessa a si
mesma. Tudo que fizesse daí por diante faria sempre da melhor maneira possível.

O PRIMEIRO NATAL DE HEBER

O Natal foi comemorado com grande emoção. Resolveram abandonar a tradicional


árvore artificial e em seu lugar armaram um pequeno pinheiro natural com lindos enfeites, que
encheu a casa com o seu delicioso aroma.
Com a chegada do Heber e da Neide, a família estava bem maior do que no Natal
anterior. Estavam todos muito alegres e gratos. Heber batia os bracinhos e as perninhas
encantado com o pisca-pisca. Lili preparou uma bonita mesa onde todos se acomodaram. Antes
de mais nada agradeceram ao Pai Celestial tudo quanto receberam no ano que se passara,
sobretudo o maior presente: a chegada do Heber aquela casa.

UM IRMÃOZINHO PARA HEBER


Com o novo ritmo da casa parece que o tempo voou e logo chegou o aniversário do
Heber. Fizeram uma linda festa, com muitos palhaços de enfeite. Lili e Kim convidaram seus
amigos e parentes mais queridos. Precisavam compartilhar a grande alegria que aquela
criança havia trazido às suas vidas.
----Quartão, você reparou como a Neide está mais bonita?
----Nossa Quartinho! Como você repara nestas coisas... Aposto que se você fosse
gente ia ser do tipo namorador.
----É. Eu gosto mesmo. Eu acho as mulheres muito interessantes. Fazer o que? Não
vejo a hora do Heber ter uma irmãzinha.
----É, mas vai tirando o cavalinho da chuva, porque ele vai ganhar um irmãozinho.
----Ah, é? Pensei que viesse uma menina.
----Para o Heber é melhor um companheiro. A garota fica para mais tarde.
----E quando é que ele chega?
----Não sei... Amanhã eles vão até o Paraná fazer inscrição em um fórum de uma
cidade que eu não lembro o nome.
----Puxa, Quartão! Ainda bem que tem a Neide para ficar com o Hebinho. Eles podem
viajar sossegados.
----É bom eles aproveitarem esse ano que ela não está estudando. O ano que vem já
fica mais difícil.
----Eu não sabia dessa novidade.
----Quartinho! Por enquanto quem sabe de tudo nesta casa, sou eu. Você só entende
de gugu, dadá.
----Que nada... Já sei de uma porção de músicas infantis e brincadeiras... Mas conta
da Neide.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Então. A Lili descobriu que metade do que ela fala, a Neide não entende.
----Por que?
----Quartinho! Porque de onde ela veio, o vocabulário é muito reduzido. Ela
simplesmente não conhece as palavras.
----E daí?
----Daí que a Neide tem anotado do jeito que pode as palavras que não entende
durante o dia, e à noite a Lili explica e anota o sentido de cada uma delas. Com o passar do
tempo, a Neide terá o seu vocabulário bem mais extenso e também estará mais preparada o
ano que vem, quando entrar na escola.
----E ela quer estudar?
----Não sei. Parece que não. Ela só fez até o segundo ano do primeiro grau. Ficou
muito tempo fora da escola. Deve se sentir insegura em voltar...
----Ah, Quartão! Mas se eu conheço bem a Lili...
----Enquanto não botar a menina na escola não vai sossegar.
----Eu vou mais longe. Se a Neide der certo aqui, quero dizer, se ela ficar muitos anos,
eu acho que a Lili não sossega até ela se formar no segundo grau.
----Quartinho, é verdade... Você não viu que ela cismou que a menina tinha que
arrumar os dentes. Enquanto não levou a menina ao dentista e deixou tudo nos trinques não
sossegou.
----Ah, mas valeu a pena. Você viu que sorriso bonito a Neide anda exibindo por ai?
----Outro dia eu escutei a Lili comentando com o Kim, que a Neide depois que foi ao
dentista, fica meia hora escovando os dentes e depois ainda passa fio dental dente por dente.
Acho que ela não vai precisar de tratamento por muito tempo.
----Quartão, por que a Lili faz tanta questão que a Neide estude? Para ela não era
melhor que ela ficasse em casa?
----Na verdade não. Se a Neide ficar em casa dia e noite, uma hora vai se encher...
Indo na escola, vai se distrair, fazer amizades e no outro dia vai estar mais disposta para
cuidar do Heber.
----É mesmo...

O NOME OUTRA VEZ..


Era agosto e o tempo estava bastante frio e úmido. Kim e Lili voltaram muito
contentes do Paraná. Vieram com a notícia que o Papai Noel aquele ano poderia ter um
presente especial de Natal: um irmãozinho para o Heber.
----Quartão, o Heber ainda não é muito novinho para ganhar um irmão? Ele só tem um
ano e quatro meses.
----A Lili não quer esperar muito. Quer criar os três de uma vez só.
----Você acha mesmo que eles vão querer três filhos? Um só já dá tanto trabalho...
----Sem a garotinha eu te garanto que a Lili não fica.
----Bem, para mim tanto melhor... Quero ver na hora do vamos ver...
A hora do "vamos ver" veio rapido. Vinte e seis dias depois ligaram do fórum, no
Paraná.
----Mas Kim... Não falaram que ia demorar mais de quatro meses?
----Essas coisas são imprevisíveis...
----Que bom! Quanto antes melhor.
Lili corria feito uma louca preparando a viagem. Numa sacola arrumou roupas e
objetos pessoais. Preparou as coisas do bebê, tentando não esquecer de nenhum detalhe.
----Ai... Será que está tudo aqui?
----Lili, o rapaz da agência de turismo precisa do nome do bebê para fazer as
reservas...
----Não vai me dizer que ele quer o nome já?
----Quer o quanto antes...
----Kim, eu falei para você não me dizer...
----Disse que ligava daqui cinco minutos.
----Só se você me prometer que a gente vai escolher os nomes dos nossos outros
filhos com muita antecedência.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Que outros filhos?
----A meia dúzia que ainda está faltando.
----Lili, pare de gracinha. Nós já estamos perdendo tempo. Vamos fazer uma lista que
nem da outra vez.
----Eu gostei tanto de Aaron... Pena que eu deixei a Lela usar o nome no bebê...
----Pelo menos ficou tudo em família. Vamos Lili, não vamos perder mais tempo.
----Eu achei um nome parecido: Arnon.
----Arnon... É bíblico?
----É. É o nome de um rio em Israel.
----Está anotado. Que mais?
----Lembra do significado do nome do Heber?
----Como é que eu poderia esquecer?
----Que tal se acontecesse algo parecido com o outro bebê? Quero dizer, se o nome
dele já trouxesse em si uma história ligada à adoção?
----Seria ótimo.
----Então já achamos o nome.
----E qual é?
----Arnon. Pense comigo. Um rio vem de longe e se une a outro rio. Passa a fazer
parte do outro rio. Nenhum dos dois jamais é o mesmo depois que isso acontece. O rio que
chega dá mais força. Dá mais vida ao outro rio. Quem traçou o curso desses rios para que se
encontrassem foi o Criador.
----Lili... Nem em mil anos eu ia pensar numa coisa assim.
----Mas o interessante é que me ocorreu agora, assim de estalo. O bebê vem de longe
e vai se unir a nós. Jamais seremos os mesmos depois que isso acontecer. Vai nos dar força.
Vai encher de vida esta casa. Nós não o escolhemos e nem ele a nós, mas o próprio Deus
assim o quis. Kim... Não vejo a hora de tê-lo em meus braços.
----Lili... Eu gostaria de poder entender que magia é essa que faz com que a gente
sinta tanto amor por uma criança que nem ao menos sabemos quem é ou como é.
----Vamos pensar que é a magia do amor e que está começando aqui mais uma linda
história deste mágico amor.

LILI SENTE MEDO


Chovia torrencialmente quando saíram para a rodoviária. Viajaram até Curitiba de
ônibus leito, onde chegaram enregelados, tal o frio que fizera à noite. Era mais de seis horas,
e ainda estava escuro quando pegaram o outro ônibus. Fazia um frio cortante. Lili se
enroscou toda em Kim e começou a chorar.
----Lili... Mas o que é isso agora?
----Eu estou apavorada. Como é que a gente vai conseguir levar esse bebê tão
novinho para São Paulo? Ele só tem dois dias... Está tão frio... E se ele ficar doente?
----Lili... Você que é tão valente. Que sempre confia tanto em Deus...
----Eu sei... É que de repente bateu um medo tão grande... O frio, esse ônibus caindo
aos pedaços, esse cheiro esquisito... Eu não sei se vou poder lidar com as mamadeiras...
Como é que eu vou trocar o bebê?
----Ah, Lili... Você usa o seu jeitinho e o resto...
----Fica por conta do Pai do Céu...
----Vamos dormir um pouco?
----Vamos. Assim chega mais rápido...

O ENCONTRO
Quando acordaram já estavam quase chegando. O céu estava muito azul e o dia
ensolarado.
----Quem diria que ia fazer um dia tão lindo?
----Realmente. Já são mais de onze horas. O fórum já fechou e agora só abre à uma
hora. Vamos almoçar e depois cuidamos do resto.
----Que bom! Estou faminta...

Erro! Argumento de opção desconhecido.


O almoço estava ótimo e comeram muito bem. Foram direto ao fórum. Em uma hora
estava tudo resolvido. Lili foi com a assistente social até o hospital pegar o bebê enquanto o
Kim ia até o cartório cuidar do registro.
Chegaram quase ao mesmo tempo de volta ao fórum.
----Kim... Prometo não deixar ninguém falar mal de fórum.
Lili trazia na mão um cesto azul celeste todo bordado.
----Deixa eu ver...
----Claro Papai. É todo seu.
----Você o vestiu com aquele macacão de estrelas e arco-íris.
----Ele é lindo, não é?
----É.
Ficaram olhando para aquele rostinho por alguns minutos. Intimamente sabiam que
aquela criança seria mais uma grande bênção em suas vidas e que jamais seriam os mesmos
depois daquele momento.
Lili preparou a mamadeira em uma lanchonete da rodoviária e quando o ônibus
chegou, que surpresa! Um ônibus novinho em folha. O frio se fora, o céu estava azul. Lili
agradeceu ao Pai Celeste. Como era bom ter a quem confiar cada uma de suas
necessidades!

O RETORNO
Embarcaram exatamente às quinze horas, de forma que às oito já estavam em
Curitiba. Lili precisou trocar o bebê no banheiro da rodoviária. Enquanto isso Kim foi preparar
outra mamadeira.
----Tudo bem, Lili?
----Que sufoco trocar o bebê naquele banheiro sujo!
----Agora vamos pegar um táxi para o aeroporto.
O trânsito estava tranqüilo e chegaram rapidamente ao aeroporto. Só que tiveram de
esperar mais de uma hora pelo embarque e enquanto isso, Arnon tomou todo leite. O avião
era bastante pequeno e após a decolagem perceberam que balançava muito. Lili teve um
pouco de enjôo. Os passageiros se mostravam bastante curiosos em relação ao bebê. Muitas
vezes Lili precisou descobri-lo para que pudessem vê-lo. Ele no entanto não tomava
conhecimento de nada. Dormia feito um anjinho em seu cesto.

ABENÇOANDO ARNON
Era quase onze horas quando chegaram em casa. Estava tudo muito quieto. Todos
dormiam.
----Que ótimo estar em casa!
----Lili, eu estou moído...
----E eu? Parece que passou um caminhão em cima...Vai tomando banho primeiro.
Enquanto Kim tomava banho, Lili ia colocando cada coisa em seu lugar rapidamente.
Não queria acordar no dia seguinte com bagunça de viagem para arrumar. Em um instante
estava tudo em ordem. Assim que Kim voltou, não perdeu tempo:
----Benhê, faz a mamadeira?
----Por quê não faz você?
----Eu estou guardando as coisas...
----Você com essa mania de guardar tudo antes... Está bem, eu faço. Mas ainda não
está na hora dele mamar.
----Não. É só para adiantar.
----Está vendo? É a mania de fazer tudo antes...
----Mas, Kim...
Mas, era tarde, Kim já havia saido do quarto em direção à cozinha. Quando Lili saiu
do banho, Kim já esperava por ela. O bebê estava na cama e Kim segurava uma de suas
mãozinhas. Lili deitou-se e segurou a outra. Apesar de já terem vivido esta experiência uma
vez, a emoção não era menor.
----Filhinho, nós rejeitamos todo o teu passado. Você agora é nosso filho amado,
nascido do nosso amor. Sabemos que será uma grande bêncão nesta família. Confiamos a

Erro! Argumento de opção desconhecido.


tua vida ao cuidado do Pai Celeste. Pedimos que Ele nos dê sabedoria para que o ensinemos
nos seus caminhos. Que Deus te abençõe, Arnon. Que Deus sobre ti levante o rosto, te dê
paz e te guarde para sempre. Amém.
----Amém. Em nome de Jesus, Amém. Ah, Kim...Que bom!
----Agora já temos nossos dois moleques.
----Nossa família está aumentando rapidamente.
----É verdade...

HEBER DESCOBRE O BEBÊ


Lili antes de oferecer a mamadeira pôs o bebê em seu peito. Por mais sacrificado que
fosse, sabia que para o Heber tinha sido bom amamentar, por menos leite que tivesse.
Gostaria que o Arnon também tivesse o mesmo beneficio.
----Benhê, você vê como o Heber não ligou para chupeta. Eu acho que é porque eu
amamentei.
----Eu também acho.
----Dentro do possível eu também vou amamentar o Arnon.
----Faz bem. Você ainda vai precisar de alguma coisa?
----Não. Está tudo em ordem. Pode dormir.
----Boa noite.
----Boa noite.
Era quatro horas da manhã, quando o Heber chorou lá no outro quarto. Kim foi buscá-
lo.
----Que saudade, meu querido... Olha a mamãe...
----Filhinho! Você vai dormir aqui com a gente? Que bom. Bem abraçadinho...
Já estavam quase dormindo, quando ouviram um resmungo. Heber sentou-se
apontando para o lado de onde tinha vindo o ruído.
----Heber, isso não é nada. Deita e dorme.
Heber deitou-se novamente aninhando-se na mãe. Estavam todos dormindo, quando
ouviu-se um chorinho. Já estava clareando. Heber deu um salto na cama, olhos arregalados,
apontando insistentemente para o cesto.
----Calma filhinho. Nós vamos te mostrar...
Kim ascendeu a luz do abajur enquanto Lili pegava o cesto.
----Este é o Arnon. Presente do Papai do Céu para todos nós. É o seu irmãozinho.
Rapidinho ele vai crescer e brincar com você. O Papai vai fazer o tetê dele e a mamãe vai
trocá-lo. Você quer ver?
Heber apontava para o bebê admirado. Assistia a tudo interessadíssimo. Não quis
voltar a dormir enquanto Lili não terminasse. Queria que o bebê ficasse na cama com eles.
----Não meu querido. Ele é muito pequeno. É mais seguro que fique no cesto.
Finalmente voltaram todos a dormir. Quando acordaram já estava na hora da próxima
mamadeira.
Passaram o dia arrumando as coisas no Quartinho.
----Quartão, você viu? Ganhei mais um berço...
----Hum... Nojento! Está todo, todo.
----E não era para estar?
----Você viu o bebê?
----Claro! Ele já veio me conhecer. Não vejo a hora dessas crianças crescerem. É tão
emocionante!
----Calma. Aproveite cada fase do desenvolvimento deles ao máximo, pois acontece
uma vez só.
----É verdade...

O CIÚME DE HEBER
Os dias se passavam. Lili estava exausta. O Heber estava tão diferente. Chorava
muito. Estava agressivo. Aquele dia quando Kim chegou do serviço, Lili foi recebê-lo na porta.
----Oi Kim - e deu-lhe um beijo.
----Oi Lili. Que cara é essa?

Erro! Argumento de opção desconhecido.


Lili se pôs a chorar feito uma criança. Kim a abraçou tentando acalma-la.
----Que foi minha querida? Que é que está acontecendo?
----Ah, Kim... É o Heber. Nem parece o mesmo menino. Ele hoje arranhou todo o
rostinho do Arnon. Chora o tempo inteiro. Não quer dormir. Eu não sei mais o que fazer...
----Você tem dado bastante atenção à ele?
----Tenho. Até demais. Ele não me deixa um minuto. Quando eu estou cuidando do
Arnon, fica procurando chamar a minha atenção, mexendo onde não deve. Ele tem feito
coisas que nunca teria feito antes.
----Paciência, querida. Isso vai passar. Ele está passando por uma fase muito difícil.
Está aprendendo a dividir o seu espaço com outro alguém. Isso é complicado. Vamos dar
tempo a ele, certo?
----Certo.

UMA VISITA AO MÉDICO


Estava todo mundo nervoso naquela casa. O Heber que antes dormia a noite inteira,
agora ao menor ruído acordava e queria vir para a cama do casal. Durante o dia só dormia
quando estava no limite de sua resistência. Lili havia marcado consulta para os dois no
pediatra. Neide foi junto para ajudar.
O Dr.Osvaldo examinou os dois com toda a atenção. Estavam perfeitamente bem.
----Você está de parabéns. As crianças estão ótimas. Você é que não parece muito
bem.
----Neide, leve o Heber para se distrair um pouco lá fora, por favor.
----Doutor. Eu estou péssima. Me sinto a pior mãe do mundo. Não estou conseguindo
lidar com estas crianças. O Heber está com um ciúme doentio do irmão. Tem estado muito
nervoso e agressivo e eu sinceramente, tenho estado muito impaciente. Não sei o que fazer.
Lili lutava desesperadamente com as lágrimas que teimavam em escorrer pelo seu
rosto.
----Desculpe doutor, mas eu estou muito nervosa. Você me conhece. Normalmente eu
sou muito calma...
----Eu sei. Escuta: o Heber, até a chegada do Arnon, era a criança ideal para você.
Dócil, obediente, comportado, calmo, alegre. Ele era a criança que você sempre sonhou. Uma
perfeição.
----Realmente...
----Só que de repente ele se sentiu ameaçado e está reagindo a isso. Está
simplesmente se defendendo. Ou ele age assim agora, ou vai ser um adulto infeliz, incapaz
de defender e conquistar espaços. Você está infeliz porque o Heber está mostrando um lado
da sua personalidade que não te agrada, não faz parte do seu ideal. Desculpe mas, isto não é
amor...
----Mas doutor, e o Arnon?
----Me responda sinceramente: Você está aborrecida com o fato do Arnon ter sido
agredido ou está decepcionada com o Heber?
----É claro que eu não suporto ver o Arnon machucado... Mas com certeza o que tem me
deixado arrasada, é o comportamento do Heber.
----Você consegue entender que é preciso que o Heber se manifeste a respeito do que
está acontecendo?
----Claro...
----Agora, não faça concessões para compensá-lo. O que antes era certo, continua
certo. O que antes era errado, ainda é errado. Senão você vai dar um nó na cabeça dele.

PEQUENOS AJUSTES
Lili saiu do consultório, se sentindo mais leve. Via tudo com clareza agora. Sabia
exatamente o que fazer. Ao chegarem em casa, depois do jantar, Lili cuidou do Arnon,
enquanto o Papai brincava com o Heber.
----Hebinho, agora está na hora de dormir. De agora em diante, o teu irmãozinho
também vai dormir aqui no seu quartinho.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


Se ele chorar à noite, é porque está com fome. Mamãe vai amamentá-lo e você vai
continuar a dormir. Mesmo que você chore muito, nós não vamos levá-lo para o nosso quarto.
O teu lugar é aqui no seu berço, no seu quarto. Estamos entendidos?
Heber olhava espantado para a mamãe, apontando para o bebê lá do outro lado do
quarto.
----Vamos fazer Papai do Céu? Fique quieto.
----Papai do Céu muito obrigado pelo dia de hoje. Obrigado pelo teu cuidado. Dá-nos
uma noite de paz e descanso. Em nome de Jesus, Amém.
----Amém.
Aquela noite foi meio agitada. Heber experimentou chorar um pouco para ver se
conseguia ir para a cama do casal. Nada feito. Quem sabe na noite seguinte.
Lili estava firme nos seus propósitos. Após o almoço, os dois devidamente
alimentados, foram colocados cada um em seu berço.
----Filhinho, você já brincou bastante hoje e agora é hora de descansar. Mesmo que
você chore muito, a mamãe não vai pegar você. Só depois que você tirar uma boa soneca.
Beijinho mamãe? Humm... Gostoso.... Beijinho Arnon? Humm... Gostoso...
Lili fechou a porta e imediatamente começou um côro no Quartinho. Lili fechou a porta
do Quartão, pegou um livro de educação infantil para ler. O choro se prolongou por dez
minutos. Lili se continha para não ir até o Quartinho. Bateram de leve na porta. Era a vovó.
----Nossa! O que é que está acontecendo com esses dois?
----Um está cantando para o outro dormir...
----Pensei que você estivesse com algum problema e subi para ver se eu podia fazer
alguma coisa.
----Na verdade os dois estão de barriga cheia e precisam descansar. A mãe deles
também. Eles só precisam se acostumar com a idéia.
----Ah bom. Então vê se a hora que acabar a sinfonia você dorme um pouco. Estou te
achando um pouco abatida.
----Está bom. Olha, parece que está diminuindo.
----Ótimo.
Lili aproveitou o conselho da vovó e tirou um bom sono. À noite quando o Papai
chegou estava todo mundo calmo.
----Como foi o seu dia?
----Ótimo! Acho que esta casa está voltando ao que era.
----Que bom!
Aquela noite foi bem mais tranqüila. No dia seguinte Lili estava bem mais animada. O
dia estava radiante e passaram boa parte da manhã no quintal.
----Quartão, esses últimos dias fiquei atordoado com o choro desses dois. Cheguei
sentir saudade dos velhos tempos...
----Quartinho... Você está falando isso da boca para fora...
----Claro que estou. Mas eles realmente conseguem tirar qualquer um do sério.

O PRIMEIRO NATAL DO ARNON


Logo chegou o Natal. Agora a família estava ainda maior. Depois de jantar, sentavam-
se todos na sala e ficavam por ali conversando ou contando histórias, enquanto apreciavam a
beleza da árvore de Natal. Todas as noites, o Heber pedia para cantar a música dos sininhos
de Natal.
----No ano que vem eu quero fazer um lindo presépio de papel de sêda, Kim.
----Aquele que você me mostrou em uma revista?
----Aquele mesmo. Você me ajuda?
----Claro.
Finalmente chegou a tão esperada noite de Natal! Kim e Lili estavam como duas
crianças! Não viam a hora de verem os pequenos ganharem os seus presentes. É claro que o
Arnon não ia nem perceber o que estava acontecendo, mas para o Heber seria importante ver
que o irmão tambem tinha direito aos presentes.

O CUIDADO DO HEBER

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Quartinho, você já viu como o Heber é cuidadoso com o irmão?
----Eu vejo ele sempre avisando para o Arnon para não fazer isso ou aquilo para não se
machucar.
----Então. A Lili estava contando para a Vovó que outro dia quando sairam de carro, o
Heber apontou o dedinho bem no nariz do Arnon e disse muito seriamente: Arnon. Cabeça fora
janela, carro vem e tum na cabeça.
----Mas não é uma graça? E o Arnon?
----Ora, o que pode um bebê de seis meses fazer diante de uma recomendação dessas?
----Não por a cabeça para fora da janela, uai!

SACO DE RISADA
Arnon, com o passar do tempo revelou ser uma criança alegre e expansiva.
Gargalhava ao menor motivo e o Heber descobriu um enorme prazer em provocar aquelas
risadas.
Quando iam ao supermercado, levavam os dois. Cada um punha uma criança em um
carrinho de compras. Um dia o casal se distraiu por uns momentos examinando um produto.
Enquanto isso o Heber se pôs a provocar o riso do Arnon. O Arnon ria tão alto e tão
expontaneamente que começou a despertar a curiosidade das pessoas que por ali passavam.
Quando Kim e Lili deram pela coisa, os carrinhos estavam cercados de pessoas.
----Olha só aquele bebê como dá gargalhadas!
----Eu estava certa que se tratava de um saco de risadas...
----Gente eu nunca vi um bebê rir desse jeito!
Kim e Lili se sentiram até um pouco constrangidos com a situacão. A maioria das
pessoas estava rindo, mas algumas demonstravam até uma certa preocupacão.
----Será que não faz mal rir desse jeito? Se continuar por mais tempo, é capaz dele
ficar sem ar.
----Dá licenca um pouquinho - Lili tentava chegar até as crianças - Oi queridos! Agora
chega Heber. Tudo que é demais, sobra. Essas crianças são tão alegres...
----Vamos querida...
----Kim, esse supermercado ficou tão cheio de repente...
Mais tarde o casal se matava de rir contando a história para a Neide e a Vovó.
----Mais um pouco eu ia começar a cobrar ingresso daquele povo - e Lili imitava um
apresentador de circo - Venham ver o bebê gargalhante... Você nunca viu nada igual! Compre
já o seu ingresso. Não deixe de ver esta espetacular atração.
----A gente podia registrá-lo no livro dos recordes. Na categoria de bebê, eu tenho
certeza que ele seria o vencedor.

NEIDE VAI À ESCOLA


As aulas começaram e lá se foi a Neide para o seu primeiro dia de aula. Lili ficou
aguardando ansiosa pela sua volta.
----E então, Neide, como foi?
----Foi ótimo. O pessoal é muito legal. Tem algumas pessoas bem mais velhas do que
eu.
----Não te falei... E a professora?
----Gostei dela. Acho que vamos nos dar bem...
Neide se tornou uma ótima aluna. É claro que sentia uma certa dificuldade, mas
nunca faltava ou chegava atrasada. Procurava sempre fazer todas as tarefas e qualquer
dificuldade pedia ajuda à Lili.

AS FÉRIAS
O mês de abril estava reservado para as férias. A família passou na praia. Neide não
foi, pois não podia perder as aulas. E a Vovó preferiu ficar em casa.
As crianças adoraram a praia. Não demonstravam o menor receio. Lili e Kim ficavam
pulando onda, cada um com uma criança, até cansar. Depois Kim levava o Heber para atirar
pedrinhas no rio enquanto o Arnon brincava na areia. Logo estavam todos bem bronzeados.
O que mais apreciavam era poder estar assim, o tempo inteiro juntos.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


Lili ficava reparando o marido. Era incansável. Cavava verdadeiras lagoas na areia.
Depois contruía estradas para que os caminhõezinhos pudessem passar. Levavam areia de
um lado para o outro, incansavelmente. Realmente, Kim era o pai que toda a criança
desejaria ter.
----Ih, filho. Um carro atolou ali. Pega o guincho. Será que vamos conseguir tirá-lo?
E ajudava o Heber prender o caminhão-guincho no carrinho atolado.
----Agora força filho!
----Brumm Brummmm... Força papai, força.
E Lili se deliciava observando seus três rapazes. Logo, logo teria a sua menina
também.

ARRUMANDO MALAS
Aquele ano passou voando, sem grandes novidades. Arnon completou um ano,
comemorado com uma linda festa. Lili preparou um lindo painel de onde saia um rio, que
passava em cima da mesa e acabava em uma cachoeira que ia até o chão. No painel, todo
em cartolina, também haviam três árvores que observavam o cenário, todo pontilhado de
flores vermelhas e amarelas. Foi uma linda festa e Arnon encantou a todos com a sua
simpatia. O Heber brincava com os maiores, sem exigir muita atenção dos pais.
Arnon vestido com um lindo macacão estilo marinheiro, participou do parabéns
estusiasmado, batendo palminhas com energia enquanto exibia a gengiva com os seus dois
primeiros dentinhos.
Logo em seguida veio o dia das crianças. Quando as crianças se levantaram, Kim e
Lili as levaram para o quintal. Havia sido instalado um balanço e uma escadinha de corda na
árvore. Bexigas de todas as cores enfeitavam a árvore.
Lili tinha uma semana livre no trabalho e pensou que seria interessante passar com a
irmã em Minas. Seria na semana anterior ao Natal.
----Mas, Kim. Tem o Aaron e a Sara. Eles precisam deste contato com os primos...
----Mas Lili... Que é que vai ser de mim sem vocês?
----Mas, Kim... É só uma semana... Passa rápido.
----Está bem, mas você volta para o Natal?
----Claro! Você acha que eu deixaria de passar o Natal com você?
----Não sei... De repente você não me quer mais...
----Ah... seu bobo. Eu sou louca por você! - e Lili enchia o marido de beijos.
----Que tal você ir de carro?
----Mas, Kim... São sete horas de viagem. Você acha que eu dou conta?
----Claro que dá. Que tal você chamar o Duda para ir junto e olhar as crianças.
----É... Só se for. A Neide vai estar de férias e sozinha eu não posso ir. Vou ver com
ele.

NA CASA DA TIA LELA


Daí quinze dias Kim se despedia da família, quase arrependido de ter concordado
com tudo aquilo. Ficou olhando do portão até o carro dobrar a esquina. Entrou em casa. O
silêncio era desolador. Era sábado. Enfiou a cara no serviço. Fez uma porção de reparos na
casa. Arrumou armários. Organizou pastas. Fez de tudo para que aquela semana passasse o
mais rápidamente possível.
Enquanto isso, Lili se divertia na casa da Tia Lela e do Tio Cá. Eram quatro crianças.
O mais velho era o Heber com dois anos e oito meses. O Aaron e o Arnon com um ano e
quatro meses. A Sara com quatro meses. Que festa! O Tio Duda, coitado, era o preferido nas
brincadeiras. Na hora do banho, era usado o sistema de linha de montagem. Lili dava banho,
Tio Duda enxugava e Tia Lela vestia. Na hora de comer a coisa complicava. Parecia que um
terremoto tinha passado por aquela cozinha.
Lili levou muitos brinquedos, fantoches de dedos para contar histórias, massinhas de
modelar e outras coisas para distrair os pequenos. Heber e Arnon preferiram brincar com os
brinquedos do primo. Aron por sua vez, adorou os brinquedos levados pela Lili.
Um dia que Lili estava mais desocupada resolveu brincar de massinha de modelar
com as crianças. Cada criança escolheu uma cor de massa.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Que tal fazermos uma cobrinha? É o mais fácil... É assim, olha...
E Lili ia rolando a massinha no chão.
As crianças ficaram bastante animadas com o resultado e se puseram a rolar suas
massinhas.
----Que lindo! Muito bem!
----Que tal fazermos um palhacinho?
----Obâ! - responderam com entusiasmo.
----Só que para isso precisamos dividir nossas massinhas. Cada um dá um pouco de
massa para o outro e assim faremos um palhaço bem colorido.
----Ah, eu não quero dividir a minha massinha vermelha - disse o Heber.
----Nem eu, Tia. Eu quero ficar com a minha mesmo.
----Eu também...
----Ah, já entendi... Vocês ainda não aprenderam a trabalhar em grupo, mas quanto
antes aprenderem melhor será.
----Mamãe ensina a fazer o palhacinho com uma cor só mesmo.
----Tá bom...
E foi trabalhando com a massa azul, tentando dar a forma do rosto de um palhaço.
----Bom, está pronto... Foi o melhor que eu pude fazer.
----Palhaço feio...
----É, tá feio...
----Tia, eu tenho um palhacinho muito mais lindo que este.
----Aron, responde para a titia: por que o seu palhaço é mais bonito?
----Porque tem muitas cores.
----Ah, mas vocês não quiseram dividir a massinha...
As crianças olharam umas para as outras e sem que ninguem precisasse dizer nada
começaram a distribuir pequenos pedaços de suas massas aos companheiros. Lili fez o
mesmo, desmanchando o palhaço de uma só cor. Puseram-se a trabalhar com a massa e
quando finalmente terminaram, havia uma coleção de tentativas de palhaços coloridas que
muito agradou aos pequenos.
----E ai pessoal, que vocês acharam de trocar as massinhas?
----Ficou bonito, Mamãe!
----Eu pensei que ia perder a minha massinha...
----Mas no entanto você ganhou...
----De muitas cores. Ficou muito melhor.
----É assim mesmo meus queridos. Tem muita gente que se fecha no seu cantinho
com medo de sair perdendo. Não que se misturar. Depois não sabe dizer porque está tudo
tão sem graça.
----Tia, eu gosto de dividir os meus brinquedos os priminhos...
----Que bom, querido...Fica muito mais divertido, não é?
Lili sempre que podia conversava com as crianças explicando através de
acontecimentos banais, a importância de valores que considerava essênciais. Muitas vezes
se perguntava se não era cedo demais para que entendessem certas coisas, mas percebia
claramente que muito do que conseguia ensinar se manisfestava em atitudes positivas..
A maior parte do tempo quem distraia as crianças era o tio Duda. Faziam gato e
sapato dele. Um colchão era colocado no chão e ali passavam um tempão rolando como se
fossem um bando de gatinhos. Lutavam e brincavam de circo, inventando e reinventando
brincadeiras até não querer mais. De vez em quando tio Duda vinha todo descabelado até a
cozinha tomar um copo d'agua e voltava à carga.
Ainda bem que essa brincadeira na casa da tia Lela durou apenas uma semana,
senão o pobre Tio Duda que não era acostumado com esse tipo de vida, certamente não teria
sobrevivido.

DE VOLTA
A volta foi super tranqüila. Lili estava ansiosa por estar em casa. Nem acreditava que
tinha feito uma viagem como aquela. Para ela tinha sido um grande desafio.
Kim veio correndo recebê-los. Não sabia a quem abraçar primeiro.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Papai! Papai! Mamãe olha o Papai!
----É meu querido, o Papaizinho!
----Vocês me matam de saudade... Lili nunca mais faz isso comigo. Essa casa vazia,
não tem a menor graça! Quase que eu largava tudo e ia atrás de vocês.
----Nós tambem sentimos muito a sua falta. Mas foi um ótimo passeio. Vamos guardar
o carro e depois a gente conversa.
Lili pôs o carro na garagem.
----Entra, você deve estar cansada. Depois eu e o Duda descarregamos a bagagem.
----Está bem. Estou muito cansada mesmo. Morrendo de calor... Kim! Que lindo! Ah,
meu querido...Voce fez o presépio! Vejam meninos. Onde Jesus nasceu... Não é lindo?
----Olha, tem vaquinha, Arnon...
----Nenê... nenê...
----É o nenê Jesus, Arnon. Depois a mamãe vai contar a história do menino Jesus.
Agora vamos dar um jeito em tudo, que a mamãe precisa descansar.
Com cansaço ou não, Lili não sossegou até deixar tudo em ordem.
----Arre! Acho que agora já posso tomar meu banho e descansar. Ainda bem que você
já cuidou das crianças.
----Lili, como voce é atacada! Por que não deixou para amanhã? Você com essa
mania de botar tudo no lugar antes...
----Amanhã eu tenho muito o que fazer. Preciso preparar a ceia de Natal. Que pena o
Duda não ficar com a gente...
----Eu gostaria muito, mas prometi passar com o papai e a mamãe.
----Está bom. Duda eu quero te agradecer. Você foi incrível, indo comigo nesta
viagem. Você não só é um irmão maravilhoso. É também um tio fantástico!
Depois do banho, tomaram um lanche e Lili aproveitou para dar maiores detalhes da
viagem ao Kim.
No outro dia logo cêdo foram todos levar o tio Duda até à rodoviária. As crianças
estavam muito animadas em ver todo aquele movimento de pessoas e ônibus e o Tio Duda
recebeu muitos abraços e beijos, prometendo que logo voltaria para brincar com os
sobrinhos. Finalmente o ônibus partiu debaixo de muitos gritos de adeus e beijinhos jogados
das pequenas mãos.

AS SEMENTES PRECIOSAS
Enquanto isso em casa os dois amigos começaram uma conversa bastante
interessante.
----Quartão, você não acha que se todas as pessoas adotassem pelo menos uma
criança, uma boa parte dos problemas desse mundo estariam resolvidos?
----Quartinho, não seja simplista... A coisa não é bem assim. A adoção é uma grande
coisa. Um grande benefício para a criança e para seus pais adotivos, mas não é a solução
para o problema do menor abandonado. É apenas uma boa saída para um grande problema.
----Mas, Quartão...
----A paternidade responsável é a única solução... Quartinho, deixa eu te contar um
lance de um filme que eu assisti há muito tempo atrás, e que talvez possa te ajudar a
entender esta questão. Havia um lavrador que tinha um filho adolescente. Esse filho
trabalhava com ele e estava acostumado a lidar com a terra. Sabia tudo sobre plantio e
colheita. Sabia reconhecer uma semente de qualidade. Um dia o lavrador chamou seu filho
para conversar. Perguntou-lhe:
----Filho, o que você faria se ganhasse de presente sementes especiais, sementes da
melhor qualidade?
O filho respondeu-lhe sem titubear:
----Pai, eu procuraria pela melhor terra. Prepararia cuidadosamente aquele plantio,
arando bem a terra, livrando-a de pedras, tocos e ervas daninhas. Depois eu aguardaria
pacientemente pela época adequada para o plantio. Colocaria as sementes na profundidade
correta e me certificaria de que a terra estivesse sempre úmida, a fim de que eu conseguisse
o melhor resultado possível na colheita. Finalmente, apôs a colheita, separaria novas
sementes, as melhores que houvessem, para que fossem utilizadas em um novo plantio.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----E aí? - perguntou o Quartinho.
----E aí, que o lavrador disse ao seu filho:
----Muito bem filho! Você realmente tem aprendido o que eu tenho lhe ensinado. Deixa
eu te ensinar uma coisa que é ainda muito mais importante. Você traz em seu corpo
sementes valiosíssimas, da melhor qualidade. Pense bem onde vai depositá-las. Dependendo
de como você tratá-las pode obter ótimos resultados ou conseqüências lastimáveis. Pode ter
muitas alegrias ou muitas tristezas. Não se esqueça: a forma como você tratar essas
sementes vai reverter em bênção ou maldição de gerações futuras. Eu posso dizer que estou
muito feliz em ter cuidado das minhas sementes, como cuidei. Tenho em você e em seus
irmãos uma grande recompensa. Espero que você, no futuro, possa ter essa mesma alegria.
----Puxa, Quartão! Eu nunca tinha visto a coisa por esse lado...
----Eu nunca pude esquecer desta estória. Quartinho, veja a situação do nosso país.
Por que é que você acha que as nossa ruas estão cheias de marginais, menores
delinqüentes e crianças mendigando? Crianças abandonadas, crianças exploradas, crianças
sedentas de amor e de carinho? Quartinho, para mim, é claro como o dia. É o resultado de
uma herança maldita. São homens que não têm a mínima responsabilidade gerando filhos e
os abandonando, sem nem saber que existem. São mulheres que aceitam se encher de
filhos, sem que possam cuidar nem sequer de si mesmas. Tudo em nome do amor.
O Quartão estava exaltado.
----Tenha santa paciência! Será que ninguém percebe o que está acontecendo? Para
onde você olha tem alguem dizendo: Está tudo certo, desde que haja amor. Uma óva. Eu
estou farto disso. Estou farto de ver esses frutos do amor, pendurados nas janelas dos carros,
implorando pelos restos. Isso não é amor. Arriscar-se, por menor que seja o risco, a colocar
uma criança no mundo, quando não existe a mínima possibilidade de que essa criança tenha
um pai e uma mãe que a ámem, um lar onde possa ser educada, enfim, um mínimo de
condições para que cresça saudável física e emocionalmente, é altamente criminoso. Eu não
me conformo...
Quartão estava totalmente descontrolado.
----Quartinho, você me desculpe... É que todos os dias somos bombardeados com
essas notícias sobre os menores. Olho para aquelas carinhas assustadas... Gente, o que é
que se vai fazer com um menino de treze anos, que já matou não sei quantos? Que já está
com o cérebro cozido de tanto cheirar cola? Que traz pelo corpo toda uma história de
violência? Que se aparecer morto vai trazer alívio à uma porção de gente? Isto não é justo.
Ele foi condenado muito antes de nascer. A sua sentença foi escrita no dia em que aquele
homem e aquela mulher, que chamamos de pais biológicos, se viram no direito de, em nome
do amor, condená-lo à uma vida miserável, sem esperança.
O Quartinho estava perplexo. Não tinha o que dizer.
----Eu gostaria de saber o que esses garanhões, que ficam se gabando de dormir com
tudo o que é mulher se sentem em relação ao menor abandonado. Será que só uma vez na
vida não lhes passa pela cabeça, que um daqueles pequenos molambentos poderia muito
bem ser seu filho? E vou mais longe. Eu gostaria de saber o que as cabeças pensantes
desse país acham disso tudo que está acontecendo. Todos sabem perfeitamente bem, o
poder que a televisão, o rádio e as revistas têm para influenciar pessoas. Por que então
insistem em sugerir que tudo termina em festa? Quartinho, na realidade não há festa alguma.
O clima desse país não é de festa, é de funeral, e quem perde com isso somos todos nós. Já
não podemos sair às ruas com tranqüilidade. Crianças são mortas por causa de um par de
tênis. Todos os dias você liga o noticiário e vê a sua casa invadida por violência e mais
violência. Neste passo onde é que nós vamos parar?
----Mas, Quartão, o que pode ser feito à respeito de tudo isso?
----Quartinho, o homem tem que resgatar a sua verdadeira vocação. O homem foi
criado para dominar e não para ser dominado. Ele pensa que está no domínio de todas as
coisas. Mentira. Eu vejo no Universo duas forças. Uma delas cria, constrói, organiza,
restaura, agrega. A outra pelo contrário imita, destrói, desorganiza, desagrega. Uma é
verdadeira, outra é mentirosa. Uma se manifesta através do amor, do entendimento, do
respeito, da confiança. Outra através do ódio, do desentendimento, do desrespeito, da
desconfiança, do ciúme, da inveja. Todos os dias acontecem verdadeiros atentados à

Erro! Argumento de opção desconhecido.


integridade do homem em forma de crimes, assaltos, brigas, doenças, agressões, seqüestros,
acidentes. O homem se colocou totalmente à mercê desta força, esquecendo-se de que
existem armas poderosíssimas à sua disposicão. Esse mundo precisa ser restaurado e isso
só vai acontecer quando o homem se rebelar contra essas forças desvastadoras e tiver de
volta a dignidade um dia perdida.
Quartão agora já estava bem mais calmo.
----Quartinho, vamos supôr que você comprou um eletro-doméstico, e percebe que do
jeito que está tentando operar o aparelho não está dando muito certo. O que você faz?
----Eu consulto o manual do fabricante.
----Por que?
----Uai, quem fabricou é que deve saber a melhor forma de operação. E se existe um
manual, a melhor coisa a fazer é consultá-lo.
----O homem tem com ele um completo manual de instruções. O Criador teve o
cuidado de passar todas as especificações do produto à pessoas que tiveram o cuidado de
anotar tudo, tim-tim por tim-tim. Basta ao homem consultá-lo. Se as coisas não estão indo
bem, muito provavelmente é porque algumas das instruções pre-estabelecidas não estão
sendo respeitadas.
----Quartão, eu acho que o homem tem que consultar o seu manual de instruções
urgentemente, senão, não sei não....

MAIS UMA PEÇA NO QUEBRA-CABEÇAS


O Natal como sempre foi muito alegre. As crianças ganharam uma piscina de lona,
que foi armada e estreada no mesmo dia. Aquela noite, reunidos na sala enquanto cantavam
e contavam estórias, sentiam-se imensamente gratos não só por Jesus ter nascido um dia lá
em Belém. Estavam gratos por Jesus ter nascido também em seus corações.
----Quartãooo...
----Fala, Quartinho.
----Sabe o que eu estou vendo da minha janela, lá em baixo no quintal?
----Daqui não dá para ver nada...
----Claro que não, mas eu vou te contar. Eu vejo uma árvore. Nesta árvore tem um
balanço e uma escadinha de corda.
----E daí? Isso eu já sabia.
----Sabe que mais? Uma piscina de lona bem no meio do gramado.
----Foi presente de Natal?
----Se foi eu não sei. Só sei que foi armada hoje, portanto deve ser. Sabe o que isso
significa?
----Não.
----Quartão, você não se lembra do meu sonho?
----Lembro, uai.
----Então. É mais uma peça no quebra-cabeça. Está quase completo! Só falta a
garota. Não é fantástico?
----Se é!
----Falando nisso, outro dia a Lili ligou para o fórum lá do Paraná para informar que já
quer a menina. A qualquer hora eles podem ser chamados.
----Ah, seu tratante! Acontece uma coisa destas e você nem me conta?
----Desculpa, Quartinho. Eu não pude falar na hora e acabei esquecendo.
----Está desculpado, mas que isso não se repita.

TOTALMENTE APAIXONADOS
Heber e Arnon foram para uma pré-escola perto de casa. No começo estranharam
bastante, mas depois se adaptaram muito bem. As tias se encantaram com os pequenos, que
eram sempre muito elogiados.
Março chegou e lá se foi a familia de férias novamente. Não é preciso dizer que as
férias foram fantásticas.
----Kim, eu não quero ir embora. Me deixa ficar aqui para sempre. Kim, eu não
consigo mais ficar vestida. O meu corpo não aceita mais do que um biquini ou um maio. No

Erro! Argumento de opção desconhecido.


máximo um camisetão. O que vai ser de mim se tiver que calçar um sapato? Misericórdia!
Não me faz voltar para São Paulo.
----E você acha que eu estou com muita vontade de voltar? Queria ficar assim,
brincando o dia inteiro com os nossos moleques. Como é que eu vou fazer a hora que tiver
que ficar o dia inteiro longe desses pimpolhos?
----É mesmo... Estão tão lindos! Estou Totalmente apaixonada por eles.
----Eu também...

CARNEIRINHOS DE TODAS AS CORES


Quando voltaram, o tempo começou a esfriar e Lili quiz fazer um pulôver para cada
um dos meninos. Foi com eles a uma loja com uma grande prateleira cheia de rolos de lã.
Heber estava maravilhado olhando para aquela grande variedade de cores.
----Mas, Mamãe...
----Que foi Heber?
----Mas quantas cores! Eu não pensava que pudesse ser assim...
----Agora você já sabe.
----Mas, Mamãe é demais...
----O que é demais filho?
----Mamãe, carneirinhos de todas as cores!
Lili riu de se matar. Riu tanto que nem conseguia fazer o pedido à balconista.

O NOME DO OUTRO BEBÊ


Os dias se passavam e Lili não conseguia deixar de pensar no bebê que estava por
chegar. Quando andava pela rua, ficava olhando as garotinhas que passavam por ela e
imaginando como seria a sua menina.
Finalmente julho chegou e com ele a notícia tão esperada. Havia um bebê à espera
no fórum do Paraná. Dessa vez iriam de carro. Lili, como sempre, correndo de um lado para
outro, feito uma doidinha, para arrumar a viajem.
----Quartão, dessa vez eles já têm o nome?
----Já. A menina vai se chamar Hanna.
----Gostei. Qual o significado?
----Cheia de graça.
----Que nome mais esquisito!
----Esquisito por quê? Não estou vendo nada de esquisito. Acho que é até muito
bonito.
----Uai, quer dizer que a menina vai ser engraçada? Vai fazer todo mundo rir?
O Quartão caiu na gargalhada.
----Qual é a graça agora?
----Quartinho você é muito bobo!
----Bobo é você!
E o Quartão ria cada vez com mais vontade.
----Quer fazer o favor de parar com isso!
----Quartinho, não precisa ficar enfezado... É que você as vezes parece tão sabido e
as vezes é tão ...tão...
---- Pode parar...
---- Eu vou te explicar. Uma pessoa cheia de graça é uma pessoa com muitas
dádivas. É uma pessoa que recebe coisas boas sem ter que dar nada em troca. De graça.
Grátis.
----Quartão, eu sou cheio de graça!
----Quartinho, você tem uma mania de achar que é gente...
----Ah... é quase como se fosse...
----Bom deixa eu terminar de explicar o nome. Hanna é Ana em hebraico. Ana foi uma
mulher, muito amada pelo marido, mas que se sentia muito infeliz por não poder lhe dar
filhos. Um dia Ana foi até o templo, e tanto chorou, e tanto clamou, que o sacerdote quiz
repreendê-la julgando que ela estivesse embriagada. Pobre Ana, tudo o que ela queria era
um filho!

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----E então?
----Então, um tempo depois, ela teve um filho que consagrou ao trabalho do templo
em agradecimento ao fato de Deus ter-lhe concedido a graça de ter aquela criança. Samuel
foi educado no templo e mais tarde se tornou um grande sacerdote. Lili quer usar esse nome,
porque assim como Ana, sofreu muito pelo fato de não ter filhos, mas confiou que o Pai do
Céu atenderia ao desejo do seu coração. E hoje o desejo de Lili é consagrar cada uma
dessas crianças ao Pai Bondoso, pois em tudo viu a sua mão poderosa.
----Quartão, como é esse negócio de consagrar?
----É ensinar essas crianças a conhecer esse Deus e se relacionar com Ele, assim
como um filho se relaciona com o Pai.
----Quer dizer, assim como o Heber e o Arnon se relacionam com o Kim?
----Exatamente.

O CAFÉ DA MANHÃ
A viajem foi bastante tranqüila, apesar do frio intenso. Saíram de madrugada e
chegaram em Curitiba às sete horas. Estavam doidos de vontade de tomar um café bem
quente, mas não achavam uma padaria na cidade que servisse café.
----Gozado, Lili. As padarias aqui não servem café, e agora?
----Agora o jeito é comprar pão e comer no carro.
----Sem aquele café com leite bem quentinho para acompanhar?
----Fazer o que?
----Está bem. Vamos parar aqui mesmo. Essa padaria tem um jeito simpático.
A padaria era bem servida de pães, mas Kim olhava, olhava e não se sentia nem um
pouco animado a comprar os pães.
----Lili, eu estou inconformado.
Lili dirigiu-se à balconista.
----Bom dia! Nós somos de São Paulo e estamos curiosos a respeito de uma coisa.
----Pois não.
----Aqui no sul, as padarias não servem café com leite no balcão?
----Não, não existe esse hábito por aqui.
----Que pena... Com esse frio, viajamos a noite toda, e tínhamos esperança de nos
aquecer um pouco com um bom café, antes de continuarmos.
----Espera um pouco, sim?
A moça dirigiu-se a um rapaz que estava no caixa e conversou com ele durante
alguns instantes. Entrou por uma porta lateral e pouco depois estava de volta. Com um
sorriso nos lábios, convidou o casal para acompanhá-la.
----Por favor, vocês não reparem. Nós não estamos preparados para visitantes, mas
como chegamos muito cedo, tomamos café aqui mesmo. Eu deixo o café e o leite numa
garrafa térmica, de forma que ainda está tudo quentinho. Espero que vocês gostem.
----Puxa! Não poderia ser melhor. Onde podemos lavar as mãos?
----Aqui ao lado.
Kim e Lili lavaram as mãos e depois sentaram-se à mesa.
----Eu não estou nem acreditando! - disse Kim.
Enquanto comiam conversaram com a moça, que se encantou de saber que o casal
tinha vindo ao Paraná para buscar um bebê. Terminaram rapidamente, pois não podiam se
demorar muito. Despediram-se muito agradecidos.

A BONEQUINHA
Chegaram à cidade pouco depois das onze horas, como da outra vez e tudo
transcorreu da melhor maneira possível. Lili não cabia em si de felicidade. Vestiu a sua
garotinha com um lindo macacão de plush cor-de-rosa com aplicações em cetim da mesma
cor.
----Kim, eu nem acredito que estou com a minha garotinha nos braços. Ela não é
linda?
----É uma bonequinha!

Erro! Argumento de opção desconhecido.


Lili não cabia em si de felicidade. Finalmente, tinha ali mesmo em seus braços, o seu
sonho em forma de gente.
Pouco antes da meia-noite, estavam em casa.
----Kim. Eu estou exausta, exaurida, exangue, extenuada, esgotada, espedaçada,
estourada, estropiada, esbudegada, estressada, estafada...
----Ai, Lili! E eu que dirigi o tempo todo...
----É verdade... Espera aí que eu vou procurar no dicionário uma palavra que consiga
expressar a tua condição e que comece com ‘E’. Humm...
E Lili percorria o teto com os olhos como se fosse encontrar ali a tal da palavra.
----Acho que não tem... Já esgotei todas...
----Lili, deixa de lezeira! Vamos tomar um banho logo e dormir.
----Vai você. Eu vou botar tudo no lugar primeiro. Depois tomo banho e cuido da
Hanna. Só então eu vou dormir.
----Você com essa mania de botar tudo no lugar antes... Eu vou tomar o meu banho
que eu ganho muito mais. Estou totalmente entregue.
----ENTREGUE! Você descobriu a palavra! Não precisou nem olhar no dicionário!?!

ABENÇOANDO HANNA
Depois do banho, Kim chamou a esposa.
----Larga tudo e vem cá. Não existe nada mais importante do que isso que vamos
fazer agora.
----É verdade, Kim - pois Lili sabia o motivo pelo qual Kim a chamava.
Como num ritual já bem conhecido do casal, cada um pegou uma das minúsculas
mãozinhas.
----Sabe, meu querido... Eu me sinto privilegiada de viver esses momentos...
----Eu também. Saber que essa criança através desta cerimônia que é tão nossa, se
vê livre de uma maldição e se vê revestida de uma grande bênção, é uma grande alegria.
----É como se ela estivesse nascendo agora, fruto do nosso amor.
----Meu Pai Querido...Obrigado por essa criança. Nós neste momento rejeitamos todo
o passado da Hanna. Declaramos que é nossa filha, fruto do nosso amor, e fruto do teu amor
em nós. Confiamos esta vida aos teus cuidados. Pedimos sabedoria para educá-la nos teus
caminhos. Que Deus te abênçõe, Hanna. Que Deus sobre ti levante o rosto e te paz, e te
guarde para sempre. Amém.
----Amém. Em nome de Jesus, Amém.

HANNA É APRESENTADA À FAMÍLIA


Eram duas horas da madrugada quando finalmente Lili foi dormir. Abraçou-se ao
marido, sentindo o gostoso calor daquele corpo que tanto apreciava. Sentia-se
profundamente feliz.
----Nossa! Que invasão é essa no meu quarto?
----Levanta Mamãe! Levanta Papai! Pega o cestinho, que eu quero ver a minha irmã.
Lili não conseguia nem abrir os olhos de tanto sono.
----Espera, Hebinho. Deixa eu sintonizar primeiro.
----Depressa, Mamãe. Você já dormiu bastante. Levanta.
----Nenê... nenê... Cadê o nenê?
----Oi, Non. Você está ai também queridinho. Também quer conhecer sua irmãzinha?
Está bom, então vamos ver.
Levantou-se e pegou o cesto cuidadosamente enquanto o Heber gritava no corredor.
----Neide, vem ver a minha irmã.
Neide veio correndo.
----Oi, posso entrar?
----Entra. Que remédio? Já perdemos toda a nossa privacidade mesmo - respondeu
Kim ainda meio sonolento.
----Hanna, acorda preguiçosa... Vem conhecer seus irmãozinhos. Olha, ela já estava
acordada. Também está na hora de mamar... Como é boazinha... Dormiu a noite toda. Este é
o Heber e este é o Arnon. E está é a Neide. Ela vai ajudar a Mamãe a cuidar de você.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Binho... Binhoco Peroco.
----E o Arnon?
----Non... Nonoco Pitoco.
----E a Neide, fala da Neide - pediu o Papai.
----Babá... Babaca Panaaaca - Gritaram os dois.
E todos caíram na risada.
----Ah, meninos... Quem foi que te ensinou isso?
----É brincadeira, Mamãe.
----Fala direito.
----Neide... Neidoca Dondoca.
----Ah, bem melhor...
----Fala da Vovó.
----Vovó... Vococa Coroooca.
Nova explosão de risadas.
----Vocês não tem jeito. Deixa a Vovó saber disso...
----Alguém falou de mim? Bom dia! Posso entrar?
----Bom dia! Claro, fica à vontade. Já fomos invadidos mesmo.
----Os meninos estão apresentando a família toda para a Hanna.
----Hanna, está e a Vovó.
----Vovó... Vovoca Bitoca.
----Oi, Hanna. Que belezinha! Fizeram boa viagem?
----Graças à Deus.
----Mamãe, e a Hanna? Como é que vamos chamá-la?
----Não sei. Pergunta para o seu pai.
----Vamos ver... Que tal: Nana... Nanoca Pipoca.
----Eu gostei...
----Eu também... Vem minha pipoquinha... Mamãe vai cuidar de você...

PILIUS E XOROCAS
Desta vez não houve ciúme. Todos estavam muito felizes com a chegada da Hanna.
Os meninos se sentiam responsáveis pela irmã. Faziam questão de contar a todo mundo que
tinham uma irmã. Na hora do banho vieram correndo assistir, e ficaram muito interessados
em saber por que a Hanna não tinha piliu.
----Porque ela é menina. Menina não tem piliu. Tem xoroca.
----Que nem a Mamãe?
----É. Que nem a Mamãe. Mulher e menina não tem piliu.
----O Papai tem piliu.
----O Papai tem. Homem e menino tem piliu.
----E a Vovó tem piliu?
----Não. A Vovó tem xoroca.
----E o Tio Duda?
----O tio Duda tem.
----Mamãe, deixa eu ver direito que a Hanna não tem piliu? ----Podem ver à vontade.
E os dois treparam no berço para conferir direitinho como é que era essa história de
não ter piliu.

BETO E CLARA
À noite pediram para contar a estória do coelhinho.
----Puxa! É mesmo. Faz tempo que a Mamãe não conta essa estória.
----Então conta.
----Fiquem quietos. Era uma vez um coelhinho e uma coelhinha. O nome dele era
Beto e o dela era Clara, pois era muito branquinha. Eles se gostavam muito. Se gostavam
tanto que resolveram que era tempo de deixar a casa de seus pais e formar uma família.
Então o Beto se pôs a procurar uma árvore oca, onde pudesse fazer a sua casa. E tanto
procurou que acabou achando.
Chamou os seus amigos e os amigos da Clara e fizeram um mutirão.

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Que é um mutirão, Mamãe?
----Mutirão é quando se reúnem uma porção de amigos, para fazerem alguma coisa,
que poderia ser muito difícil fazer sozinho. E nesse mutirão, conseguiram deixar aquele oco
de árvore prontinho para ser mobiliado. Tiraram todo o lixo para fora e limparam tudo. Uma
turma fez o banheiro, enquanto a outra cuidava da cozinha. Puseram uma bonita porta na
entrada da casa. No meio do dia fizeram um gostoso lanche, estendendo toalhas por sobre a
grama. Estavam todos felizes em poder ajudar os seus amigos. No final do dia estavam todos
muito cansados, mas satisfeitos com o trabalho realizado. Beto e Clara passaram mais alguns
dias trabalhando. Beto fez alguns móveis e Clara costurou cortinas, colchas e toalhas, que
deram à casa um ar bastante aconchegante. Por fim plantaram um bonito jardim na frente da
casa. Reuniram-se com seus parentes e amigos, que trouxeram uma porção de presentes
para o casamento. Daquele dia em diante passaram a morar juntos na nova casa. Beto e
Clara não viam a hora de terem coelhinhos bebês.
----E então, Mamãe?
----O tempo foi passando e nada de bebê. Beto levava Clara para passear em uma
porção de lugares bonitos. Levou-a para conhecer uma linda cachoeira. Sentaram-se em uma
pedra e ficaram apreciando a beleza daquele lugar. A água caia branquinha pelas pedras,
formando um lindo poço, lá em baixo, cheio de espuma. Estavam ansiosos pelo dia em que
trouxessem o seu filhinho, para conhecer aquele lugar. Mas o tempo passava e nada de
bebê. As vezes Beto percebia que a Clara estava triste, mas não podia fazer nada à respeito.
Os seus amigos já tinham uma porção de coelhinhos barulhentos, que lhes davam bastante
trabalho, mas também muita alegria, e o casal de coelhos esperava ansioso pelo dia em que
o seu desejo fosse realizado. Um dia Beto chamou Clara para que subissem em um lugar
muito alto de onde poderiam ver o pôr-do-sol. Realmente o passeio foi muito bonito. O sol
enquanto se escondia, inundava o céu de uma combinação magnífica de cores, e o casal
assistia ao espetáculo, maravilhado com tanta beleza.
----Mamãe, por que o sol se esconde?
----Ele também vai descansar. Toda a natureza precisa descansar. Todo mundo na
mesma hora. Se eu ponho você para dormir e não apago a luz, o que acontece?
----A gente não dorme. Fica fazendo bagunça.
----A Mamãe apaga a luz e vocês ficam quietos até dormir. Então. Na natureza é a
mesma coisa. Quando o sol começa a se esconder todo mundo já sabe que está na hora de
dormir. Cada bicho procura o seu lugar e vai se acomodando. Quando fica escuro já está tudo
quieto. E só dormir. Beto e Clara vinham pela floresta andando rapidamente, pois já estava
bem escuro. De repente, escutaram um chorinho. Pararam e ficaram prestando atenção.
----Beto, você tambem escutou? Parece o chorinho de um bebê.
----Eu escutei...
----Olha! De novo. Hei! Quem está aí?
----Sou eu...
----Saia do mato, para que possamos ver você. Fica sossegado. Nós não vamos
fazer-lhe nenhum mal.
----Olha, Beto! É um bebê coelhinho! O que você está fazendo aqui sozinho?
----Eu não tenho mamãe nem papai.
----Oh, querido! Mas o que é que aconteceu?
----Eu não sei. Só sei que não tem ninguém para cuidar de mim.
----Você quer ser nosso filhinho?
----Eu quero. Vocês querem ser meu Papai e minha Mamãe?
----Sim. Nós queremos muito.
----Que bom!
Heber e Arnon tinham os olhos arregalados.
----Mamãe, por que o coelhinho estava sozinho na floresta?
----Não sei querido. Alguma coisa de muito grave deve ter acontecido para que o bebê
tenha ficado sozinho. Nós não sabemos. Mas sabemos que agora ele tinha uma família e
estava em segurança. Beto e Clara deram-lhe um lindo nome. Beto fez uma cama para ele e
Clara costurou muitas roupas bonitas. Seus amigos levaram muitos presentes, demonstrando
uma grande alegria em conhecê-lo. Quando Nandinho estava mais crescido, Beto e Clara

Erro! Argumento de opção desconhecido.


levaram o pequeno para conhecer aquela cachoeira tão bonita. Nandinho não quiz nem
saber, ficou peladinho e entrou na água espumante. Não sossegou enquanto o papai e a
mamãe não entraram para brincar com ele.
----E depois, Mamãe?
----Depois voltaram para casa e viveram felizes para sempre.
----Que nem nós, não é Mamãe?
----É fillhinho, que nem nós.

O JUIZ
----Mamãe, a Hanna não nasceu da sua barriga?
----Não, meu querido. Nem a Hanna, nem o Arnon e nem você.
----A Beatriz nasceu da barriga da mamãe dela, não foi?
----Foi.
----Um barrigão, Mamãe. Deste tamanho...- e Arnon esticava a barriguinha para frente
tentando demonstrar o tamanho da barriga da mãe da amiguinha.
----Foi sim, Arnon. Todos os bebês nascem da barriga.
----Nós também?
----Também meu querido. Eu vou contar uma outra estória esta noite. Vocês querem
ouvir?
----Quereeemos...- gritaram os dois.
----Então silêncio. Era uma vez uma moça. Esta moça estava muito, muito triste. Ela
tinha um bebê crescendo dentro da sua barriga e não sabia o que fazer quando ele nascesse.
----Por que?
----Porque bebês precisam de muito cuidado. Eles precisam de um lugar muito limpo e
arejado. Precisam de roupas sempre muito limpas. As mamadeiras precisam ser fervidas.
Precisam de alguém que possa cuidar deles o tempo inteiro. Então essa moça pensava:
----Eu não tenho uma casa, não tenho berço, não tenho roupas, não tenho nem um
papai para esse nenê. O que é que eu vou fazer? - então alguém falou para essa moça procurar
um homem a quem chamam de juiz, pois ele poderia ajudá-la.
----Ô, seu Juiz. Será que você pode me ajudar?
----Pode falar. Estou aqui para isso mesmo.
----Eu estou muito triste. Estou esperando um bebê e sei que não posso cuidar dele.
Logo, logo está na hora dele nascer e eu não sei o que fazer.
----Então, pode ficar sossegada. Eu tenho um papai e uma mamãe para o seu bebê.
Eles estão querendo muito um bebê e vão ficar muito felizes quando souberem. Tenho certeza
de que eles serão pais maravilhosos para esse bebê.
----Ah, seu Juiz. Eu estou muito contente. Então faz assim, quando o bebê nascer eu
trago ele aqui, combinado?
----Combinado. Até breve.
Heber e Arnon não falavam nada, mas prestavam muita atenção. Lili continuou.
----Passado um tempo, a moça voltou ao juiz com um pacotinho nos braços.
----Pronto, seu Juiz, aqui está o bebê. Você pode entrega-lo para o papai e a mamãe
dele?
----Claro, com o maior prazer - então o juiz pegou o telefone e ligou para a casa de
alguém - Seu Kim, Dona Lili? Oi! Aqui quem está falando é o Juiz. Tudo bem? Eu estou
ligando porque o bebê que vocês estavam esperando acabou de chegar. Podem vir buscá-lo.
----Mamãe, esta é a minha história?
----Sim, é a história de cada um de vocês. Do Heber, do Arnon e da Hanna.
----Mas, Mamãe, porque você não tem bebê na barriga?
----A barriga da Mamãe tem um defeito e não consegue fazer bebês.
Heber veio examinar a barriga da Lili. Levantou a camiseta. Arnon veio atrás.
----Mamãe, eu não consigo achar nada de errado.
Lili caiu na risada. Heber estava um pouco preocupado.
----A sua barriga doi, por causa do defeito?
----Não meu querido, só não consegue fazer bebês.
----Você gostaria que ela pudesse fazer bebês?

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----O que eu queria, meu amor, era ter filhos como vocês. Eu adoro vocês. Vocês são
os filhos mais maravilhosos que alguém poderia ter. Mamãe é maluca com vocês!
E Lili abraçava e beijava os dois pequenos.
----Amanhã eu quero fazer uma brincadeira diferente.
----Que brincadeira, mamãe?
----Vamos plantar feijões.
----Plantar feijões?
----Sim. A gente pega alguns grãos de feijão, e põe em um copinho forrado com
algodão molhado. Com o passar dos dias, vamos ver as sementes brotar e vai aparecer uma
linda planta. Quem quer participar dessa brincadeira?
----Eeeeeu - gritavam as duas crianças.
----Então, agora vamos dormir. Mas antes me digam uma coisa: vocês estão felizes
com a chegada da irmãzinha?
Os dois fizeram que sim com a cabeça.
----Eu quero assim de irmão.
----Eu também.
E os dois mostravam os dez dedinhos das duas mãos abertas.
----Já pensou? Onde é que a gente ia botar tanta criança?
----Eles podem ficar na minha cama.
----Vocês iam deixar que eles brincassem com os seus brinquedos?
----A gente brincava com os deles também.
Lili estava muito feliz. Se pudesse pegava todas as crianças sem mamãe e sem papai
do mundo e fazia deles seus filhos.

PLANTANDO FEIJÕES
No dia seguinte Lili e as crianças plantaram dez feijões. Cinco para cada uma das
crianças.
----Só que todo dia é preciso olhar e ver se estão precisando de água. Vamos fazer
isso toda manhã antes do café, combinado?
Secretamente Lili mergulhou por um instante dois dos feijões em água fervendo.
----Mamãe...Um dos meus feijõezinhos não quer crescer. O Arnon também tem um
assim.
----Vamos aguardar um pouco. Quem sabe eles resolvem brotar?
No dia sequinte correram logo de manhã para verificar os feijões.
----É, Mamãe...Não tem jeito. Esses feijõezinhos estão que nem a sua barriga. Estão
com defeito.
----É verdade querido. A natureza tem dessas coisas. Nem sempre as coisas
funcionam conforme o esperado.

A DOENÇA DA VOVÓ
Vovó não vinha passando muito bem e estavam todos preocupados com o seu estado
de saúde. Era uma pessoa muito querida, sempre tão atenciosa com as crianças e todos
queriam tê-la por perto durante muito tempo ainda.
Naquele tarde de sábado estavam todos sentados à mesa fazendo um lanchinho.
Heber e Arnon já se sentavam à mesa e tinham um desempenho bastante razoável. Hanna,
sentada no caldeirão, ainda exigia maiores atenções.
----Quer mais miolo, filhinha?
----Quero Mamãe...
----A Hanna só come miolo.
----Ela saiu à mãe. Eu também quando era pequena só comia o miolo do pão.
----Pelo menos nada é disperdiçado.
Lili ia recolhendo os miolos dos pratos espalhados pela mesa, passava manteiga em
cada um e os dava à Hanna, que ia mergulhando um à um na caneca de café com leite. Com
uma colher recolhia um por um, comendo-os gulosamente.
----Você está melhor Vovó?
----Assim...assim... De agora em diante é só canseira e enfado...

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Que é isso, Vovó. Nem fale uma coisa destas. Precisamos muito desta Vovó
inteirona.
----É verdade...Tem uma amiga que ficou de passar o nome de um médico muito bom.
Quem sabe a gente acerta com esse?
Neste momento tocou o telefone. Lili foi atender logo ali no hall. Da cozinha podia-se
ouvir claramente a conversa.
----Oi querida! Tudo bem...Graças à Deus... Não. Está bem encrencada. Eu já não sei
mais o que fazer... Não sei... Pensando melhor acho que não vale a pena... Está muito velha.
Afinal são muitos anos. Acho que chegou a hora... Paciência... Acaba dando muita despesa.
Um transtorno. A gente vai ter que dar um jeito.
Na cozinha a perplexidade tomara conta de todos. Até as crianças estavam
assombradas. A pobre da Vovó tinha se encolhido toda e nem ousava levantar a cabeça.
----Olha eu agradeço muito pelo seu interesse, mas não vou nem anotar o endereço.
Seria gastar dinheiro à toa... De qualquer forma muito obrigada pela atenção... Pode ficar
sossegada... Eu não deixo de avisar. Tchau querida.
Lili foi recebida na cozinha com uma carga de indignação.
----Lili, como você pode fazer uma coisa dessas.
----Mamãe você foi muito malvada.
Até a Neide ficou descontrolada.
----Sinceramente, eu não sei se vou poder viver nesta casa depois disto.
Lili não tinha idéia do que estava acontecendo.
----Mas pelo amor de Deus, o que está acontecendo. Enloqueceram todos?
----Lili, é melhor a gente ter uma conversinha lá no quarto...
----Conversinha lá no quarto!?! Vocês quase me trucidam coletivamente e agora você
quer ter uma conversinha lá no quarto. Não. Eu quero saber exatamente o que está
acontecendo. E já! Vovó, você que tem um pouco mais de juizo e que até agora não falou
nada. Que é que está acontecendo?
A pobre senhora torceu as mãos, tentou timidamente expressar algo que Lili não
conseguiu decifrar.
----Kim, fale claramente o que foi que eu fiz?
----Lili, como é que você pode falar assim da minha mãe no telefone. Eu nunca podia
imaginar uma coisa dessas...
Lili caiu numa gargalhada totalmente descontrolada.
Todos se olharam espantados. Será que ela realmente tinha enloquecido? Kim não
pode deixar de se lembrar naquele momento que a avó da Lili por parte de mãe havia
enlouquecido, tendo que passar o resto de sua vida em uma instituição para doentes mentais.
Lili não se continha. Ria feito uma doida mesmo, ora curvando-se para frente ora
levantando a cabeça para tomar fôlego.
----Gente... Ah... Ah... Ah... Será possível? Eu estava falando com Solange sobre a
maquina de lavar que está estragada de novo... Ah... Ah... Ah....
A cozinha inteira explodiu em risadas. Até a Vovó, pobrezinha, se matou de rir, e eu
não sei se em conseqüencia disso ou não, ficou boa e não teve mais nada por muito tempo.

O QUEBRA-CABEÇAS SE COMPLETA
O verão vinha chegando, mas já fazia bastante calor. Fazia exatamente seis anos que
o Quartinho tinha tido aquele sonho. Lembrou-se disso e instintivamente olhou pela janela. Lá
em baixo, no quintal, estava reproduzida a cena do sonho. Só que agora era real.
----Quartão! Você nem imagina o que eu estou vendo lá no quintal.
----Não imagino mesmo!
----O Arnon está balançando a Hanna, enquanto o Heber acaba de se encarapitar no
primeiro galho da árvore, subindo pela escadinha de corda. A Vovó está sentada numa
cadeira, cerzindo meias.
----Mas, Quartinho! O que há de extraordinário nisso?
----Mas, será o Benedito? Quartão, você já se esqueceu do sonho que eu tive há seis
anos atrás, quando ainda era um pobre quartinho solitário?
----Claro que não, uai! Mas já faz seis anos?

Erro! Argumento de opção desconhecido.


----Que eu saiba o Heber faz seis anos em abril.
----É mesmo... Como o tempo passa...
----Pense nas peças de um quebra-cabeças que se juntam para formar a imagem
impressa na embalagem. Essas crianças foram chegando uma a uma para formar na
realidade o que eu um dia vi estampado em forma de sonho. Quartão, logo, logo, essas
crianças vão crescer e cada uma vai pegar o seu rumo. O que será de nós então? O que será
do Kim e da Lili?
----Quartinho... Nós ficaremos com as lembranças. Esta casa vai estar impregnada
com as vozes, os gritinhos, as gargalhadas e os chorinhos também, é claro. As nossas
mentes e corações estarão preenchidos por essa história de amor, que tanto nos enriqueceu.
Estaremos cientes da grande experiência que foi acolher essas vidas em nosso meio, e que
na verdade, os maiores beneficiados não foram eles, mas nós mesmos. Você nunca mais se
sentirá solitário.
O Quartinho olhou mais uma vez para aquela cena lá embaixo.
----É verdade... Eu fico pensando se todos os quartos, de todas as ruas, de todas as
cidades, de todos os paises deste planeta se abrissem para acolher vidas... Teriamos um mundo
bem melhor. Muito mais feliz...
E é aqui que termina a nossa estória.

Erro! Argumento de opção desconhecido.