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UNINASSAU – UNIVERSIDADE MAURÍCIO DE NASSAU

CURSO: ARQUITETURA E URBANISMO


PROFESSORA: MARIANA
PERÍODO: 6° PERÍODO
DISCIPLINA: TÓPICOS INTEGRADORES II
ALUNOS: RENALY COSTA
RAIFF OLIVEIRA

A importância do programa de
necessidades no Projeto
Arquitetônico

Campina Grande, 02 de março de 2019


Resumo

Visando a uma reflexão teórica do papel do programa de necessidades no


processo de projeto, partiu-se da divisão deste em três etapas - análise, síntese e
avaliação -, em que o foco da abordagem esteve na primeira etapa do processo, e na
sua correlação com as demais. Assim, tendo em vista a pormenorização do objeto de
estudo, neste artigo, foram abordados: o conceito do programa de necessidades, o que
diz as normas técnicas, o seu conteúdo, as metodologias de elaboração e quem deveria
elaborá-lo. E, como resultado desse encadeamento reflexivo, chegou-se a três
conclusões: 1) - O programa não cércea a criatividade do projetista; 2) - A forma de
apresentá-lo é tão importante quanto as informações contidas nele; 3) - O programa de
necessidades deve passar por contínuas revisões durante o processo de projeto.
Palavras chave:
Processo de projeto; análise; programa de necessidades.
Abstract

Aiming at a theoretical reflection on the role of the needs program in the design
process, it started from the division of this into three stages - analysis, synthesis and
evaluation - in which the focus of the approach was in the first stage of the process, and
in its correlation with the others. Thus, in view of the detail of the study object, in this
article, were addressed: the concept of the needs program, which says the technical
norms, their content, the elaboration methodologies and who should elaborate it. And as
a result of this reflexive chain, three conclusions were reached: 1) - The program does
not support the creativity of the designer; 2) The manner of presenting it is as important
as the information contained therein; 3) - The needs program must undergo continuous
revisions during the design process.

Key words:

Project process; analyze; needs program.


1. INTRODUÇÃO
O entendimento do papel do programa de necessidades no processo de projeto está
formulada a partir da subdivisão de três etapas: análise, síntese e avaliação, pois,
mesmo que os processos de projeto sejam muito variados, são essas as sequências
essenciais encontradas na literatura sobre metodologia de projeto, visto que essas
etapas estão presentes em qualquer processo de projeto arquitetônico. A primeira delas,
a análise, começa com as definições dos requisitos do projeto e se formaliza com o
programa de necessidades, que consiste na estruturação hierárquica dos requisitos. Ela
parte de um problema e de um conceito a ele associado. A síntese corresponde à fase
criativa do processo, é quando a forma passa a ser concebida - procurando resolver o
problema colocado pelo programa. Já, na avaliação, a solução proposta é confrontada
com as diretrizes que o projeto deve atender - detectadas na fase de análise. Portando,
as etapas de síntese e avaliação estão intimamente relacionadas com a etapa de
análise – foco desse estudo. A análise, como um processo racional, está relacionada à
obtenção e ao gerenciamento de informações e dados advindo de: pesquisas de
comportamentos e entrevistas aos clientes; casos precedentes; códigos de edificações;
condicionantes culturais, econômicos e ambientais etc. Essas informações não são o
principal objetivo da fase de análise em si, mas sim a maneira como são organizadas,
de modo que possam ser úteis para as etapas subsequentes dos estágios de decisão.
Para isso, a utilização de métodos e procedimentos precisos é importante nesta fase do
projeto. Historicamente, alguns arquitetos como Richard Neutra e Louis Kahn são
conhecidos como precursores em utilizar o programa de necessidades como parte do
processo de projeto. Para Louis Kahn: Um grande prédio deve começar com o
imensurável, passar pelos meios mensuráveis quando está sendo projetado e, no final,
deve ser imensurável... Um prédio tem de começar com uma aura imensurável e ir
através do mensurável para ser concluído. É o único modo pelo qual você pode construí-
lo, o único modo com que você pode fazê-lo ser é através do mensurável. Você deve
seguir as leis, mas ao final, quando o prédio se torna parte da existência, ele evoca
qualidades imensuráveis. (KAHN, 2010, p. 25 e 26). O Papel do programa de
necessidades no processo de projeto arquitetônico julho de 2013 ISSN 2179-5568 –
Revista Especialize On-line IPOG - Goiânia - 5ª Edição nº 005 Vol.01/2013 – julho/2013
Tomando por mensurável os aspectos do contexto que podem ser medidos e
compreendidos por meio do programa de necessidades, podemos entender este como
pré-requisito para o desenvolvimento da atividade projetiva. Desse modo, Louis Kahn
reconhece a importância do programa para que o projetista entenda o problema a ser
resolvido e proponha soluções, mas ele não reduz a atividade do projetista ao simples
cumprimento do programa de necessidades, pois ela deve ir além. Segundo Louis Kahn:
O programa [de necessidades] não é arquitetura – são meramente instruções, assim
como é uma receita médica. Porque no programa há um lobby que o arquiteto deve
transformar em um local de entrada. Corredores devem ser transformados em galerias
[...], áreas devem ser transformadas em espaços (KAHN IN RONNER et al, 1977, p. 325
apud TAVARES FILHO, 2012, p. 5). Sendo assim, o programa, primeira atividade do
processo de projeto a ser realizada, não estabelece diretrizes definitivas, que não
podem ser mudadas, pois, as atividades do processo de projeto - análise, síntese e
avaliação – encadeiam um processo cíclico de revisão, em que por meio por meio da
avaliação pode-se concluir sobre a necessidade de modificações na análise e
consequentemente na síntese. E, as palavras de Piñón (2006) e de Kowaltowski et al
(2011) ilustram bem esse processo de revisão e sua necessidade: A estrutura de
atividade descrita pelo programa estabelece um quadro de possibilidades formais que
se sobrepõem às que o lugar sugere e permite: o juízo do autor atua sobre esses dois
âmbitos de formalidade possível, propondo uma estrutura. Tal proposta se submete à
verificação tanto do programa como das condições do lugar; dessa confrontação surgem
modificações da proposta que podem afetar tanto o modo de estruturar a atividade como
a incidência do edifício no sítio. Dessa revisão pode-se depreender uma modificação da
proposta que sugere um modo diferente de se pensar a atividade, o que, por sua vez,
sugere uma mudança no domínio da síntese formal. E assim sucessivamente, até que
se chegue a uma proposta que satisfaça todas as variáveis em jogo. (PIÑÓN, 2006, p.
48) Com o aumento no numero de restrições ao longo do projeto, ocorre uma redução
das possíveis soluções de projeto. Ao mesmo tempo, com mais restrições, podem
acontecer conflitos entre os parâmetros de projeto. Quando isso acontece, é necessário
rever as soluções e alguns dos problemas de projeto (KOWALTOWSKI ET AL, 2011,
p.95).
2. CONCEITO
Briefing para os Ingleses, pré-design para os norte-americanos, o programa
arquitetônico ou programa de necessidades é o primeiro passo para o
desencadeamento do processo de projeto, porque trata das condições que devem ser
observadas ao longo do processo. O programa arquitetônico não descreve a forma ou
seus aspectos; mas, sim, estabelece o problema a que a forma deverá responder, ou
seja, ele apenas expõe as propriedades funcionais exigidas pelo contexto, pois seu
objetivo é descrever o contexto do projeto, a fim de que o “problema” seja identificado
e compreendido. O programa arquitetônico é o estágio de definição do projeto – o
momento de descobrir a natureza do problema de projeto, em vez de a natureza da
solução de projeto (HERSHBERGER, 1999, p.1 apud MOREIRA, 2007, p.83).
Segundo Piñón: Se entendermos o papel real do programa, fica claro que – por
definição - ele não pode nem determinar a solução nem dificultá-la. Na medida em que
é um sistema de atividades, o programa estabelece o âmbito de possibilidades da
forma e, ao mesmo tempo, atua como elemento de verificação do projeto em diversas
fases do seu processo. (PIÑÓN, 2006 p. 50) Piñón (2006) diz ainda que a concepção
formal de um edifício não pode ser explicada à margem do programa, não porque sua
configuração revele os pormenores funcionais de seus respectivos usos, mas porque
só a consideração das possibilidades organizativas do programa permite conceber
propostas formais que sintetizem os diversos requisitos que o compõem. O Papel do
programa de necessidades no processo de projeto arquitetônico julho de 2013 ISSN
2179-5568 – Revista Especialize On-line IPOG - Goiânia - 5ª Edição nº 005
Vol.01/2013 – julho/2013 Só se pode iniciar a concepção quando se consegue captar
a estrutura da atividade, estrutura que não pode reduzir-se à soma dos requisitos
funcionais particulares, senão que define o âmbito de possibilidade da forma, na
medida em que consegue apreciar as estruturas formais compatíveis com o sistema
de atividades que prevê o programa. Só por meio de um certo distanciamento durante
a consideração do programa - isto é, tratando de entender a atividade em seu conjunto
– pode-se apreciar sua virtualidade formal e propor, portanto, estruturas espaciais que
o satisfaçam em sua totalidade e, ao mesmo tempo, cumpram todos e cada um dos
seus requisitos. (PIÑÓN, 2006, p. 46) Tendo por parâmetro o programa de
necessidades, a partir dele são realizados os primeiro orçamentos e , segundo Moreira
(2007), devido a sua natureza descritiva ele é um documento contratual importante,
uma vez que formaliza o que o cliente quer, e os princípios básicos que o projetista
deverá atender, para que, além de possibilitar o bom desempenho das atividades
propostas, o edifício seja o que o cliente e os usuários esperam dele. As palavras
“desempenhar” e “ser”, por sua vez, fazem referencia aos aspectos quantitativos e
qualitativos contidos no programa. Em que os aspectos quantitativos são aqueles que
podem ser mensurados, medidos e quantificados. Já os aspectos qualitativos são os
conceitos atribuídos ao edifício e os valores que os usuários deverão atribuir a ele.
Alguns desses valores, entretanto, não podem ser totalmente definidos e previstos,
visto que os usuários futuramente o farão, já que, segundo Schenk (2010), o
significado do espaço é uma construção cultural cujos sentidos estão em constante
movimentação, como a própria cultura, isto é, o sentido que qualifica um lugar está
sempre se refazendo, não sendo possível fixá-lo ou tratá-lo como único, pois o espaço
modifica-se de acordo com expectativas culturais, e essas expectativas se alteram no
decorrer do tempo. Firmitatis (solidez), utilitatis (utilidade) e venustatis (beleza), por
exemplo, foram os três valores essenciais estabelecidos para a arquitetura, no séc. I
A.C., por Vitrúvio. Esses são valores primordiais, mas para atender às exigências
contemporâneas essas categorias de valores devem ser expandidas, conforme ilustra
a tabela abaixo. Aspectos humanos Atividades funcionais para ser habitável Relações
a serem mantidas As características físicas e necessidades dos usuários As
características fisiológicas e necessidades dos usuários As características
psicológicas e necessidades dos usuários Aspectos Ambientais Terreno e vistas Cima
Contexto urbano Recursos naturais Resíduos Aspectos Culturais Histórico Institucional
Político Legal Aspectos Tecnológicos Materiais Sistemas estruturais Processos
construtivos e de concepção da forma Aspectos Temporais Crescimento Mudança
Permanência O Papel do programa de necessidades no processo de projeto
arquitetônico julho de 2013 ISSN 2179-5568 – Revista Especialize On-line IPOG -
Goiânia - 5ª Edição nº 005 Vol.01/2013 – julho/2013 Aspectos Econômicos Financeiros
Construção Operação Manutenção Energia Aspectos Estéticos Forma Espaço
Significado Aspectos de Segurança Estrutural Incêndio Químico Pessoal Criminoso
(vandalismo) Tabela 1 - Valores Contemporâneos Fonte: HERSHBERGER apud
(MOREIRA, 2007 p.86) Logo, faz parte do programa determinar os principais tópicos
do projeto, segundo os valores identificados, e apresentá-los de modo claro e preciso,
pois, segundo Moreira (2007), levantar informações, descobrir os padrões dos
problemas e procurar obter as contribuições do cliente são as tarefas envolvidas na
definição do programa. E, caso não seja identificado o interesse do usuário com
relação a determinado tópico, ele pode ser deixado em aberto para ser definido
durante o desenvolvimento da forma. O que demonstra que o programa de
necessidade não deve fazer uma abordagem rígida a respeito das necessidades e
usos que os usuários farão dos espaços edificados, pois é ingênua a convicção de que
os hábitos de uso serão eternos. Exemplificando esse aspecto, Piñón (2006) diz que a
flexibilidade do projeto para adaptar-se a eventuais mudanças de destino a que o
submeterá o proprietário é uma condição implícita da universalidade à qual toda boa
arquitetura deve aspirar. Ele diz também que economia, precisão, rigor e
universalidade são os atributos que Jeanneret definiu como caraterísticos da arte
moderna. E, a esses, em suas aulas, Piñón acrescenta a reversibilidade, que consiste
na capacidade de um edifício para aceitar usos e circunstâncias distintas das iniciais
3. NORMAS TÉCNICAS
Internacionalmente, existe a Norma ISO 9699 (Performance standards in Building –
Checklist for briefing – Contents of brief for building design) que trata do programa
arquitetônico e descreve seu conteúdo. No Brasil, não existe nenhuma norma da ABNT
(Associação Brasileira de Normas Técnicas) que trata somente do programa arquitetônico. A
NBR 13531 (Elaboração de projetos de edificações – atividades técnicas) e a NBR 13532
(Elaboração de projetos de edificações – arquitetura) trazem breves definição e descrição do
seu conteúdo. A NBR 13531 define o programa de necessidades como: etapa destinada à
determinação das exigências de caráter prescritivo ou de desempenho (necessidades e
expectativas dos usuários) a serem satisfeitas pela edificação a ser concebida. Já a NBR 13532
descreve o conteúdo do programa dividindo–o em três partes: Informações de referência a
utilizar, informações técnicas a produzir e documentos técnicos a apresentar
(6) POMPÉIA, Luiz Paulo. Arquitetos x Empreendedores. Revista TEM Construção, São Paulo, ano 12, n.
124, nov./ dez. 2005 p. 3.

(7) Obs.: No Brasil, em função da legislação vigente, muitas vezes o arquiteto é alijado do processo,
considerando a existência de recobrimento legal entre as atribuições do arquiteto e do engenheiro.

(8) BOURDIEU, Pierre. Contrafogos 2: Por um movimento social europeu. Tradução de André Telles. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 81.

(9) FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI – O dicionário da língua portuguesa. 3.
ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

(10) LIMA, Evelyn F. W. Semeando a boa semente. AU, ano 3, n. 14, out./nov. .87, p. 30 ( tradução do autor).
(11) ASBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura). Manual de contratação dos serviços de arquitetura e
urbanismo. São Paulo: Pini, 1992 (grifo nosso).
4 CONTEÚDO DO PROGRAMA ARQUITETÔNICO

Entendendo por atividade a tarefa que se desempenha em certo espaço físico,


o programa identificará as atividades envolvidas na edificação e fará seu
dimensionamento físico. No dimensionamento físico, são quantificados os
equipamentos, os mobiliários, as circulações, as infraestruturas técnicas, os
serviços de apoio necessário e suas consequentes correspondências com as
dimensões humanas, em que são consideradas além das medidas estáticas, as
medidas dinâmicas do corpo humano, pois de acordo com OKAMOTO (2002), o
espaço mínimo em torno dos objetos ou dos equipamentos para realizar as
atividades necessárias de maneira descontraídas, fluente e confortável denomina-
se espaço cinestésico, e a não previsão dele, ao se dimensionar os espaços em
torno dos objetos e equipamentos, pode ocasionar restrições aos movimentos do
individuo, tornando-os cansativos e desgastantes. Desse modo, no
dimensionamento físico, atenção especial deverá ser despendida para com os
aspectos antropométricos e ergonômicos, já que o adequado ajuste das
dimensões do espaço interno com as dimensões do corpo humano é fundamental
para que o espaço seja funcional, confortável e acessível. Para o planejamento
dos espaços, o programa também sugerirá a divisão das atividades, conforme a
natureza da tarefa e a categoria de usuário, em ambientes e setores distintos e
especificará o tipo de ligação que deverá ser estabelecido entre eles. Basicamente
existem dois tipos de ligação: direta e indireta. Os programas costumam
estabelecer apenas se os ambientes e se os setores se ligarão de forma direta ou
indireta, pois qualquer definição da forma espacial, por exemplo, se ela se dará por
um vão ou por uma porta, por um hall ou por um vestíbulo, por uma rampa, por
uma escada ou por um elevador não cabe ao programa, mas, sim, ao projetista
que saberá julgar como ela se desenvolverá melhor, durante a etapa de síntese e
avaliação. Ao programa cabe estabelecer se as atividades e os setores possuem
dependência física, ou seja, se se relacionam diretamente, ou se devem estar
apenas próximos, ou ainda se devem estar totalmente afastados. Littlefield (2011),
entretanto, lembra que ao planejar um espaço público, devem-se considerar as
distâncias mínimas psicológicas e não apenas física, o que o é fundamental para
que o espaço criado não seja opressor. Em termos gerais, Ab’sáber (2008) diz que
espaço opressor é todo aquele que é imposto sem um adequado estudo das
características a que está destinado. É um espaço mal planejado, não importa se
amplo ou pequeno, ele oprime porque incentiva a perda da liberdade e da
individualidade, porque viola o espaço pessoal. Já espaço pessoal, conforme
definição de Robert Sommer apud Ab’sáber (2008), é aquele que se refere a uma
área com limites invisíveis, que cercam o corpo da pessoa e na qual os estranhos
não podem entrar. Assim, nos casos em o espaço opressor é produzido, percebe-
se O Papel do programa de necessidades no processo de projeto arquitetônico
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síntese do projeto, mas principalmente na sua análise, ou seja, no programa de
necessidades, pois as características sociais e psicológicas dos usuários do
espaço foram desconsideradas ou mal definidas. Figura 1 - Espaço pessoal Fonte:
http://meandros.wordpress.com/2007/11/26/espaco-vital/ Além de definir as
distâncias mínimas psicológicas e físicas, o programa também pode recomendar
qual o tipo de contado visual deve ser estabelecido, por exemplo, se as atividades
e os setores devem estar escondidos dos olhos dos usuários, pois requerem
privacidade e sigilo, ou se devem ser mostrados, pois representam a instituição e
são motivos de orgulho. Sendo assim, a maneira como todas estas informações:
princípios, restrições, relações, pré- dimensionamentos e outros são organizados é
fundamental para a inteligibilidade desses dados, pois o objetivo maior do
programa de necessidades não é apenas fazer uma lista de restrições e diretrizes,
mas, sim, codificá-las de forma clara para que o problema a ser atendido seja
compreendido e corretamente assimilado, já que, conforme diz Piñon (2006), o uso
de termos inadequados confunde a percepção da realidade material da arquitetura,
pois esta varia segundo o modo como a descrevemos. Encontrar as palavras
justas para cada caso, portanto, facilita o modo de enfrentar o projeto e,
consequentemente, de encontrar a solução. Esses dados, por sua vez, podem ser
organizados e resumidos por meio de textos, planilhas ou desenhos gráficos,
como: fluxogramas, organogramas funcionais, matrizes de interatividade ou
diagramas. Os fluxogramas servem para planejar a organização dos ambientes e
dos movimentos dos usuários, frequentemente é utilizado para identificar conflitos
a partir da análise da relação entre intensidade e direção de fluxos. Os
organogramas funcionais enumeram os elementos do programa de necessidades
de modo a esclarecer as relações funcionais desejáveis entre eles. Já, os
diagramas têm a função de ilustrar uma variedade de informações, organizadas
para a comparação entre elas. Eles ajudam o projetista a compreender a
variedade e profundidade dos dados, além de instigar diferentes leituras. Não são
soluções de projeto, mas a síntese dos dados coletados para permitir a O Papel do
programa de necessidades no processo de projeto arquitetônico julho de 2013
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Vol.01/2013 – julho/2013 leitura e a comparação desses dados que, de outra
forma, implicariam volumosas listas de relações (KOWALTOWSKI et al, 2011,
p.107). Todo diagrama é visualmente o resultado de um conjunto operatório
simplificado de linhas, traços, manchas etc... É uma estrutura imagética —
acompanhada de ilustrações, esquemas gráficos, textos sucintos (em geral blocos
de informação), medições, valores e elementos gráficos simbólicos — que deriva
de uma ação racional (apoiado ou não por mecanismo lógico de abstração) cujo
propósito é o de reduzir e simplificar: visa deixar o mais claro possível, segundo a
visão daquele que o produziu, uma informação determinada; uma evidência
histórica, um arranjo, projeto, ou proposta; uma interpretação; uma explicação; um
sistema; um mecanismo; uma operação matemática e até mesmo um argumento
lógico ou filosófico (encadeamento de enunciados e conclusão) (BARKI, 2009, p.2
e 3). Enquanto no desenho de arquitetura é fundamental que os recursos gráficos
sejam usados para revelar a maior quantidade possível de informação construtiva
relativa ao edifício que se quer erigir, no diagrama a informação arquitetônica é
simplificada para ser imediatamente entendida e visualmente sedutora para
convencer. É um modo distinto e especial de notação gráfica que envolve análise,
reconhecimento e reflexão de fatores complexos apresentados de forma mínima
(BARKI, 2009, p.9)
O Papel do programa de necessidades no processo de projeto arquitetônico julho de 2013 ISSN 2179-5568 –
Revista Especialize On-line IPOG - Goiânia - 5ª Edição nº 005 Vol.01/2013 – julho/2013 Figura 2 - Exemplos de
diagramas Fonte: (BARKI, 2009, p.11) Percebe-se, então, que cada forma de sintetização das informações
adequa-se a um fim, portanto, é fundamental que os dados sejam apresentados e analisados por meios diversos,
já que nenhum tem o poder de sintetizar e contextualizar todas as questões envolvidas, devido à variedade e à
complexidade das informações. Corona (2000), entretanto, faz um alerta à função reducionista que o
organograma pode desempenhar no processo de projeto. Segundo ele: no processo de projeto, o organograma
tende a induzir à ideia de que a funcionalidade de um edifício se reduz a um dimensionamento apropriado dos
espaços e à criação de circulações adequadas entre uma constelação de lugares dispostos estrategicamente na
planta, de acordo com necessidades de proximidade. Não sendo registradas nele condições como proteção
climática, isolamento acústico e outras, que tornam habitável um espaço interior. Deve-se, portanto, ficar atento
aos reducionismos, pois a funcionalidade de um espaço O Papel do programa de necessidades no processo de
projeto arquitetônico julho de 2013 ISSN 2179-5568 – Revista Especialize On-line IPOG - Goiânia - 5ª Edição nº
005 Vol.01/2013 – julho/2013 compreende muito mais do que uma circulação eficiente e um dimensionamento
físico correto. Além do que, segundo Piñón (2006), a verificação da qualidade do artefato não pode ser reduzida a
mera comprovação do grau de satisfação funcional que ele propicia. 5. Metodologias para a elaboração do
programa de necessidades Não existe uma técnica única para a programação arquitetônica, pois ela é tão
variável quanto as possíveis análises de um contexto, que de forma alguma podem ser esgotado. Portanto, é
possível adotar diversas formas de procedimento. Segundo Kowaltowski et al (2011), quando um projeto envolve
uma grande quantidade de informações ou uma variedade de funções, uma lista de valores ou tópicos não é
suficiente, sendo necessário um procedimento mais organizado, um método que permita analisar as condições,
ou seja, uma estrutura conceitual. Uma estrutura conceitual para o programa arquitetônico é um procedimento
para orientar o raciocínio e estabelecer uma conduta de trabalho no levantamento das informações sobre o
contexto. Não deve ser visto como uma postura hermética e restritiva, pois nenhuma estrutura pode garantir que o
programa tenha êxito. (MOREIRA, 2007 p.90) O método Problem Seeking é um exemplo de uma estrutura
conceitual, em que o objetivo é formular uma abordagem simples o bastante para que possa ser utilizada em
qualquer projeto e abrangente o bastante para cobrir a maior parte dos fatores que irão influenciar o projeto. Nele
a análise das condições do projeto está estruturada em cinco passos e quatro aspectos que deverão ser sempre
considerados. Passos Aspectos a considerar 1 – METAS – O que o cliente quer obter, e por quê? 2 – FATOS – O
que se sabe? O que é dado? 3 – CONCEITOS – Como o cliente quer alcanças as metas? 4 – NECESSIDADES –
Quanto dinheiro e espaço? Qual nível de qualidade? 5 – PROBLEMA – Quais são as condições significativas que
afetam o projeto do edifício? Quais são as direções gerais que o projeto deve tomar? Função - o que vai
acontecer no edifício? As palavras-chaves são: pessoas, atividades e relações. Forma - o que será visto e
sentido? As palavras-chave são: local, ambiente e qualidade. Economia - diz respeito ao orçamento e qualidade
da construção, mas também pode incluir considerações de custos de operação e do ciclo de vida. Palavras-
chaves são: orçamento inicial, custo operacionais e custos do ciclio de vida. Tempo tem tês classificações –
passado, presente e futuro - as quais lidam com influencias da história, as mudanças inevitáveis do presente e as
projeções para o futuro. As palavras-chave são: passado, presente e futuro. Tabela 3 - Metodologia do Problem
Seeking Fonte: (PEÑA; PARSHALL, 2001 [1969], p.30-31 apud MOREIRA, 2007 p.87 a 90) Kumling (1999) apud
Moreira (2007), no entanto, lista o perigo de uma estruturação como essa, pois, segundo ele, ela procura ser
universal e, ao fazer isso, transforma-se em uma situação imposta, em que alguns dados são divididos ou
distorcidos de modo ridículo, apenas para se adequar à estrutura. O que demonstra não existir uma metodologia
ideal, pois nenhuma é capaz esgotar todas as possíveis abordagens do problema. Logo, cada contexto exigirá
uma análise especifica, mesmo que se adote uma estrutura conceitual para orientar o raciocino; pois, mais do que
uma lista de necessidades e diretrizes, o programa deve ser uma ferramenta de compreensão e esclarecimento
do contexto e das condições do projeto. 6. Quem deve elaborar o programa de necessidades Em 1966, com a
publicação do manual Emerging Techniques of Architectural Practice o programa de necessidades passa a ser
entendido pelo American Institute of Architects (AIA) como uma disciplina distinta. O Problem Seeking também faz
essa distinção, isto é, separa as atribuições do O Papel do programa de necessidades no processo de projeto
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Vol.01/2013 – julho/2013 programador das do projetista, pois segundo os autores desse método os problemas de
cada um (programador e projetista) são muito complexos e requerem duas capacidades mentais diferentes, uma
para análise e outra para síntese. Van Der Voordt e Van Wegwn (2005) apud Moreira (2007) citam as vantagens e
desvantagens dessa separação, que estão organizadas no quadro abaixo: Vantagens da separação
Desvantagens da separação “Um programa requer uma abordagem analítica e um arquiteto é mais inclinado à
síntese e, portanto, menos inclinado à tarefa de preparar um programa.” “A característica estática de um
programa, um documento que precede o projeto, resulta em uma desatualização. Quando um consultor externo
prepara o programa, muito da interação entre programa e projeto é perdido.” “A qualidade do programa é
conferida pela polarização, enquanto o projeto é a combinação de diferentes interesses. Se o projetista configura
as normas diante das quais seus projetos são julgados, isso pode levar a desvios do programa, que será definido
após a ideia, limitando as chances de qualquer exame objetivo das alternativas de projeto.” “Um bom programa e
um bom projeto são beneficiados por um diálogo intensivo entre o projetista e o cliente, durante todo o processo
de projeto. O contato com o cliente e com os usuários oferece ao projetista muitas informações que são
impossíveis de serem transmitidas, ou bem transmitidas, por meios indiretos – isto é, pelos meios de um
programa escrito.” Tabela 4 - Vantagens x Desvantagens da separação Fonte: Van Der Voordt e Van Wegwn
(2005) apud Moreira (2007) p.88 É indiscutível que a análise e a síntese envolvem habilidades particulares, por
exemplo, na análise: Existem duas atividades ou habilidades extremamente importantes: a formulação do
problema e a escolha do ponto de vista. A formulação do problema está relacionada com a capacidade do
projetista de compreender e descrever o problema. Para isso é fundamental a identificação dos elementos que
podem tornar o problema explicito. Na formulação do problema, é importante escolher um ponto de vista a partir
do qual o problema será enxergado. O ponto de vista representa uma maneira particular de o projetista expressar
e formular o problema de projeto. (KOWALTOWSKI et al, 2011, p.98). Entretanto, entre os teóricos, não existe um
consenso sobre a necessidade de que o profissional responsável pela análise seja distinto daquele que será
responsável pela síntese. Analisando, assim, as vantagens e desvantagens dessa separação, é possível perceber
que se essas atividades forem divididas, talvez se tenha um resultado mais criterioso e imparcial em ambas as
atividades. Sendo, nesse caso, imprescindível que seja mantida uma estreita comunicação entre os profissionais,
pois uma atividade não pode ignorar a outra, já que elas são interdependentes: Para o cliente, o programa
documenta os termos que o projeto deve cumprir, as prioridades, os custos e os prazos envolvidos na construção
e manutenção do edifício. Para o projetista, o programa é uma referência corrente das informações do
empreendimento, que ele pode completar ou refinar durante o processo de projeto, mas não pode ignorara.
Mesmo que o arquiteto interprete as exigências do programa de um modo diferente, essa conclusão só será
possível porque se estabeleceu uma condição que pode ser questionada. (KOWALTOWSKI, Doris C.C.K. ET AL,
2011 p.108). Portanto, não só o programa de necessidades deve ser atualizado durante a atividade de síntese
para que as sucessivas pesquisas durante o processo de projeto possam levar a uma progressiva compreensão
do problema, mas também o projetista durante a etapa de síntese, caso ele não tenha sido o responsável pelo
programa, não pode deixar de ter contado com o cliente e com o usuário, pois esse contato será fundamental na
atividade de síntese independentemente do quanto preciso e abrangente tenha sido análise desenvolvida pelo
programador. 7. Conclusão Partindo-se de três premissas básicas: O Papel do programa de necessidades no
processo de projeto arquitetônico julho de 2013 ISSN 2179-5568 – Revista Especialize On-line IPOG - Goiânia -
5ª Edição nº 005 Vol.01/2013 – julho/2013 1. O programa é fundamental para a qualidade do processo, porque ele
formaliza o comprometimento das pessoas envolvidas no processo de projeto, já que transforma informações e
dados sobre a edificação em exigências claras que o projeto deve cumprir; 2. A concepção formal de um edifício
não poder ser explicada à margem do programa; 3. A programação deve centrar sua atenção no usuário do
espaço para que as características físicas, psicológicas e culturais desses sejam identificadas por meio de
entrevistas, questionário, dinâmicas de grupo e outros meios técnicos disponíveis. Nesse artigo, que trata do
papel do programa de necessidade no processo de projeto arquitetônico, chegou-se a três conclusões: 1. O
programa não cércea a criatividade do projetista; 2. A forma de apresentá-lo é tão importante quanto as
informações contidas nele; 3. O programa de necessidades deve passar por revisões tanto na etapa de síntese
como na etapa de avaliação, pois apesar de ser documento contratual importante ele não é rígido e imutável.
Tendo em vistas que não é necessário negar as ideias que não possam ser justificadas pelo programa, pois a
atividade do projetista não deve se limitar ao simples cumprimento do programa de necessidades, deve ir “além”,
e levando em consideração que o programa de necessidades não determina as soluções, mas, sim, ajuda a
direcionar o raciocino do projetista para as questões mais relevantes (o que é extremamente produtivo), percebe-
se que as diretrizes estabelecidas pelo programa não limitam a criatividade nem dificultam a síntese. Entretanto,
para realmente facilitar a atividade de síntese projetiva, é preciso que o programa arquitetônico possibilite a
compreensão do “problema”, e para isso é primordial que as informações obtidas pela análise do contexto -
formalizada no programa de necessidade – estejam claras, sejam concisas e coerentes. Assim, ao término desse
estudo, fica claro pela abordagem, que, por ser a primeira atividade de um processo projetivo que envolve outras
atividades, não é possível encarar o programa de necessidade como algo rígido e imutável, pois ao longo do
processo projetivo, que geralmente envolve um bom tempo até sua finalização, imprevistos e necessidades
surgirão, o que, consequentemente, exigirá revisões no programa arquitetônico. Referências AB’SÁBER, Aziz.
Leituras indispensáveis. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008. BARKI, José. Diagrama como discurso visual: uma
velha técnica para novos desafios. Rio de Janeiro: 8º DoCoMoMo BRASIL, 2009. KAHN, Louis. Forma e design.
1˚edição. Tradução Raquel Peev. São Paulo: Martins Fontes, 2010. (Coleção todas as artes) KOWALTOWSKI,
Doris C.C.K. et al. O processo de projeto em arquitetura da teoria à tecnologia. São Paulo: Oficina de Textos,
2011. LITTLEFIELD, David. Manual do arquiteto: planejamento, dimensionamento e projeto. Tradução: Alexandre
Salvaterra. 3˚Edição. Porto Alegre: Bookman, 2011. MARTÍNEZ, Afonso Corona. Ensaio sobre o Projeto.
Tradução Ane Lise Spaltemberg. Brasília: Editora UnB, 2000. MOREIRA, Daniel de Carvalho. Os princípios da
síntese da forma e análise de projetos arquitetônicos. Disponível em: O Papel do programa de necessidades no
processo de projeto arquitetônico julho de 2013 ISSN 2179-5568 – Revista Especialize On-line IPOG - Goiânia -
5ª Edição nº 005 Vol.01/2013 – julho/2013 Acesso em: 28 mar 2012. MOREIRA, Daniel de Carvalho;
KOWALTOWSKI, Doris C. C. K. Discussão sobre a importância do programa de necessidades no processo de
projeto em arquitetura. Disponível em: Acesso em: 26 mar 2012. OKAMOTO, Jun. Percepção ambiental e
comportamento: visão holística da percepção ambiental na arquitetura e na comunicação. São Paulo: Editora
Mackenzie, 2002. PIÑÓN, Helio. Teoria do projeto. Tradução Edson Mahfuz. Porto Alegre: Livraria do Arquiteto,
2006. SCHENK, Leandro Rodolfo. Os croquis na concepção arquitetônica. São Paulo: Annablume, 2010.
TAVARES FILHO, Arthur C. Transições entre os planos conceitual e material da concepção arquitetônica em
Louis I. Kahn. Disponível em: Acesso em: 12 jun.2012

5. Considerações finais

6. Bibliografia
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Renaly Alves e Raiff Oliveira, graduandos em arquitetura e urbanismo pela


Universidade Maurício de Nassau em Campina Grande, Campus Palmeira.
renalyalves@hotmail.com, raiffoliveira20@gmail.com.

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