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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

SETOR DE CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA, LETRAS CLÁSSICAS E
VERNÁCULAS

FERNANDA MARCONCIN RODRIGUES


MARIA CAROLINA DE ALMEIDA AMARAL

ANÁLISE DO POEMA “ESPELHO” DE SYLVIA PLATH

CURITIBA
2014
O presente trabalho tem como objetivo analisar o poema “Espelho”,
originalmente em inglês, “Mirror”; de Sylvia Plath. Para que a análise seja realizada de
maneira eficaz e para facilitar o entendimento do leitor, foram numerados os versos do
poema original e do poema traduzido como se observa abaixo:

MIRROR
Sylvia Plath

1 I am silver and exact. I have no preconceptions.


2 Whatever I see I swallow immediately
3 Just as it is, unmisted by love or dislike.
4 I am not cruel, only truthful---
5 The eye of a little god, four-cornered.
6 Most of the time I meditate on the opposite wall.
7 It is pink, with speckles. I have looked at it so long
8 I think it is a part of my heart. But it flickers.
9 Faces and darkness separate us over and over.

10 Now I am a lake. A woman bends over me,


11 Searching my reaches for what she really is.
12 Then she turns to those liars, the candles or the moon.
13 I see her back, and reflect it faithfully.
14 She rewards me with tears and an agitation of hands.
15 I am important to her. She comes and goes.
16 Each morning it is her face that replaces the darkness.
17 In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
18 Rises toward her day after day, like a terrible fish.

ESPELHO
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício A. Mendonça

1 Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.


2 Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
3 Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
4 Não sou cruel, apenas verdadeiro —
5 O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
6 O tempo todo medito do outro lado da parede.
7 Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
8 Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
9 Escuridão e faces nos separam mais e mais.

10 Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,


11 Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
12 Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
13 Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
14 Me retribui com lágrimas e acenos.
15 Sou importante para ela. Ela vai e vem.
16 A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
17 Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
18 Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.
Escrito por Sylvia Plath em 1961 e publicado somente após sua morte, em 1971
no livro Crossing the Water, o poema “Espelho” confirma\salienta\reforça, do início ao
fim, o simbolismo que esse objeto representa: a medida da verdade, da exatidão e do
contínuo curso humano em direção ao envelhecimento. O poema apresenta dezoito
versos livres que se dispõem em duas estrofes de nove versos cada. Essa disposição já
cria de imediato uma impressão ao leitor: As duas estrofes parecem se refletir entre si,
assim como faz um espelho.

A primeira estrofe do poema inicia-se com a auto caracterização do eu-lírico:


“Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos. / Tudo o que vejo engulo no mesmo
momento / Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.” Percebe-se já no início
que a palavra “sou” logo recupera o título do poema e indica que quem está falando é o
próprio espelho. Nos dois versos seguintes, o espelho continua sua caracterização:
“Não sou cruel, apenas verdadeiro — / O olho de um pequeno deus, com quatro
cantos.” É notável que o eu-lírico toma para si a ideia de legitimidade quando diz ser
“exato” e “verdadeiro” ao mesmo tempo em que reforça não “manchar” nada de amor,
desprezo e preconceitos. Ou seja, ao longo dos primeiros cinco versos do poema, o
espelho reivindica constantemente que não se baseia em nenhum tipo de juízo de valor.

Nos versos que se seguem, ainda na primeira estrofe, o espelho revela uma
relação que tem com outro objeto: Ele se encontra o tempo todo do outro lado de uma
parede “cor-de-rosa [e] malhada”. Entretanto, há um afastamento entre essa relação,
como nota-se no verso oito e nove: “[...] Mas ele falha. / Escuridão e faces nos separam
mais e mais”. Tal afastamento fica mais claro no poema original em inglês quando se
refere ao verbo " to flick"(" I think it is part of my heart. But it flickers") que pode ser
traduzido como "piscar", gerando assim uma imagem de flashes entre o espelho e a
parede, no momento que "faces" ou a "escuridão" os separam. Percebe-se,
intrigantemente, que quando o espelho fala sobre o outro lado da parede, ele também
pode estar falando sobre si mesmo, pois reflete a parede cor-de-rosa de tal forma que a
interioriza dentro de si, unificando-se a ela, como nota-se no verso nove: “[...] Há tanto
tempo olho para ele [o outro lado da parede] que acho que faz parte do meu coração”.

As características expostas no início do poema, bem como a capacidade de se


definir e de estabelecer relações com o outro, dão ao espelho qualidade humana, ele é
claramente personificado: fala, pensa, sente e conhece os sentimentos humanos. Isso se
manifesta na escolha de palavras como “cruel”, “verdadeiro”, “amor”, “desprezo” e
“preconceito” – vocábulos que dizem respeito somente ao caráter humano. Essa
humanização se evidencia ainda mais quando, no verso nove (já citado anteriormente), o
espelho revela ter um coração.

Passamos a segunda estrofe do poema que, pela disposição que se encontra,


como citado acima, cria a impressão de estar “refletindo” a primeira estrofe. E assim
como um espelho, pode criar uma visão “espelhada”, ou seja, contrária àquilo que
realmente é. Dito isso, tentamos estabelecer um paralelo entre as duas estrofes,
procurando aquilo que é refletido “inversamente”, e aquilo que se mantém em ambas.

A segunda estrofe inicia novamente com a auto declaração do espelho - “eu sou”
- mas nesse momento há uma quebra na imagem anteriormente construída de um objeto
com quatro cantos que permanece estático na parede. Há uma mudança, uma
transformação que já se anuncia no primeiro verso da segunda estrofe: “Sou um lago,
agora”. A escolha da palavra “agora” dá ao espelho essa capacidade transformadora. É
como se dissesse “de agora em diante escolho ser um lago”, o que não corresponde à
sua então capacidade humana. Aqui, o espelho se distancia de sua humanidade,
diferentemente de como faz em toda a primeira estrofe do poema. Dada essa
transformação, notamos que ainda permanece a ideia de “reflexo”, pois um lago, mesmo
que imperfeitamente, pode refletir aquilo que vê.

Ainda nos primeiros versos, o eu-lírico nos apresenta mais uma figura com quem
ele estabelece relação. No entanto, essa figura não é mais um objeto inanimado como
era na primeira estrofe. Agora é uma mulher que o espelho nos introduz: [...] Uma
mulher se debruça sobre mim, / Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira”.
Notável que, mais uma vez, encontramos a palavra “verdadeiro” no poema, mas que
dessa vez não se refere mais ao espelho, e sim à mulher, que busca sua verdadeira
identidade por meio daquilo que se julga também verdadeiro.

No verso doze, enquanto que no poema original fica explícito a ação da mulher
se virar para a lua ou para as velas: "Then she turns to those liars, the candles or the
moon", na tradução em português essa ação não está clara: "Então olha aquelas
mentirosas, as velas ou a lua.". Então, partindo da interpretação do poema original,
pode-se construir a imagem da mulher olhando para aquilo que o espelho chama de
"mentirosas", isto é, "as velas" ou a "lua". Estas, por sua vez, são julgadas mentirosas
por não possuírem iluminação intensa e ofuscarem a imagem real da mulher.
No verso treze, fica evidente que a mulher está de costas para o espelho ou para
o lago ("Vejo suas costas, e a reflito fielmente"). Nota-se também que o espelho
continua enfatizando sua "personalidade" verdadeira e transparente quando diz que
reflete as costas da mulher "fielmente". Já no verso quatorze, a mulher se vira
novamente para o espelho [ou para o lago] e o retribui com lágrimas ou acenos. Neste
verso, a palavra "lágrimas" pode se referir a uma insatisfação em relação ao que a
mulher enxerga diante do espelho, uma vez que, comumente, tal palavra denota
sentimento de tristeza.

Nos versos quinze e dezesseis o leitor é surpreendido com a revelação de que há


uma relação duradoura entre o espelho e a mulher: " Sou importante para ela. Ela vai e
vem. / A cada manhã seu rosto repõe a escuridão." É possível notar que a mulher
recorre ao espelho todos os dias e essa rotina diária a qual ela se sujeita, leva o espelho a
acreditar que ele é realmente importante para ela. Dito isso, é relevante perceber no
verso dezesseis a reincidência das palavras "escuridão" e "face" que aparecem
anteriormente na primeira estrofe, no verso nove. Essa repetição, no entanto, não
exprime o mesmo significado. Enquanto que a primeira incidência desses vocábulos
remete a um afastamento entre o espelho e a parede, a segunda alude a aproximação
entre o espelho e a mulher, uma vez que "seu rosto repõe a escuridão".

No verso dezessete, o eu-lírico inicia uma ideia usando, pela única vez, um
verbo no passado, e termina a mesma ideia somente no verso dezoito, quando retoma a
utilização de verbos no presente, "Ela afagou uma menina em mim, e em mim uma
velha / Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível". Esse
encavalgamento de versos que falam do passado e também do presente representa a
passagem de tempo. Percebe-se também nos dois versos finais do poema a aparição das
palavras "menina" e "velha" que, quando colocadas juntas, acusam quase que
instintivamente a ideia de "envelhecimento", o que reforça mais ainda a "passagem do
tempo" citada acima. É central atentar-se ao fato de que a noção de temporalidade se
manifesta ao longo de todo o poema não somente pela escolha dos vocábulos, mas
também pelo uso de diversas expressões que reforçam essa ideia: "o tempo todo", "há
tanto tempo", "mais e mais", "vai e vem", a cada manhã" e "dia a dia".

A relação de "reflexo" entre as duas estrofes do poema também se manifesta


quanto a aproximação ou afastamento do espelho e o "outro" com quem ele se
relaciona. Na primeira estrofe, o espelho fala da parede, mas há uma distância
ininterrupta entre eles. Essa estrofe marca a ideia de imobilidade. É o inanimado
refletindo o inanimado. Já na segunda estrofe, quando o espelho fala da mulher, a
maneira como ele se refere a ela é completamente diferente. Aqui o espelho é um lago,
tem movimento, não permanece nunca estático: é o animado refletindo o animado.

Nesse sentido, embora haja uma considerável relação de dependência entre o


espelho e a parede, com a mulher essa relação se intensifica ainda mais. Ela se mantém
próximo dele a todo o momento, quase que durante sua vida inteira. Há movimento,
ação: na segunda estrofe é o animado refletindo o animado. Na verdade, há quase uma
junção entre a imagem do lago e a imagem da mulher explicitada no verso dezessete:
"ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha / [...]". O uso da expressão “em
mim” configura essa ideia de fusão entre as duas partes.

Quanto ao tom do poema, verifica-se a existência de assonância da vogal “o” na


primeira estrofe. Segundo Edgar Allan Poe, em “A Filosofia da Composição”, essa
vogal é a mais sonora e dá um tom calmo e melancólico ao poema. Sendo assim, o eu-
lírico parece permanecer no mesmo estado de espírito ao longo de toda a primeira
estrofe: descontente, estático e reflexivo.

Nota-se a presença de algumas metáforas ao longo do poema. A primeira refere-


se ao momento em que o espelho se compara com o olho de um deus, como está
descrito no verso quinto: “O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.” Essa
paridade criada pelo espelho entre ele e a figura de um “deus” simboliza a
grandiosidade que o eu-lírico acredita possuir devido a sua então dita legitimidade.

A segunda metáfora se encontra no verso doze quando o espelho se refere às


velas ou a lua como mentirosas: “Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.”.
Esses dois elementos, comumente encontrados na poesia de Plath, como demonstra
Eileen Aird em seu livro “Sylvia Plath” (AIRD, 1973, p. 110), relacionam-se à figura do
feminino. Eles podem fazer alusão aos cosméticos usados pelas mulheres para disfarçar
imperfeições, os elogios que as mulheres recebem hipocritamente, ou qualquer outro
elemento que não reflita a verdadeira imagem da mulher.

A terceira metáfora está nos últimos versos quando o eu-lírico se refere à


mulher, já envelhecida, como um peixe terrível: “Ela afogou uma menina em mim, e em
mim uma velha/Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.”. Ou seja, o
envelhecimento é colocado como algo negativo, quase que como um monstro que
persegue aquela que está envelhecendo. Essa depreciação da imagem envelhecida,
principalmente a feminina, ganhou destaque na década de 60 quando o emergente
movimento feminista passou a contestar o machismo, o patriarcado e os padrões
vigentes de beleza e perfeição encontrados, por exemplo, nas Pinups - mulheres
altamente sexualizadas que eram retratadas sempre em posições provocantes e roupas
curtas. No entanto, evidentemente esse estereótipo de beleza feminina que preza a
juventude não se restringe apenas àquela época, prevalecendo até os dias de hoje.

É importante salientar que a poesia de Plath utiliza-se muito de sinestesias no


seu nível semântico. Isso significa dizer que “sugerem associação de diferentes
impressões sensoriais” (GOLDSTEIN, 1985). No que se refere ao poema “Espelho”,
encontramos muitas sinestesias que criam impressões visuais ao leitor. De fato, a
construção de imagens se dá ao longo de todo o poema, caracterizando-o nitidamente
como uma fanopeia, segundo o paradigma de Pound, em “ABC da Literatura”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AIRD, Eileen M. Sylvia Plath. Oliver and Boyd, 1973.

CASAGRANDE, Sarah; SOUZA, Adalberto de Oliveira. Sylvia Plath e pós-


modernidade: “Lady Lazarus”, na sua tradução para o português. In: CELLI –
COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007, Maringá.
Anais... Maringá, 2009, p. 910-922.

GOLDSTEIN, Norma Seltzer. Versos, sons, ritmos. Editora Ática, 1985.

PLATH, Sylvia. Poemas. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Mauricio Arruda


Mendonça. São Paulo: Iluminuras, 2005.

POE, Edgar Allan; DE CASTRO, LEA VIVEIROS. Filosofia da composição. 7Letras,


1997.

POUND, Ezra. Capítulo IV (p. 40 - 50). In: ABC da literatura. Editora Cultrix, 2001.