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Resenha do livro "Dívida: os primeiros 5000 anos" de David Graeber

Working Paper · September 2016

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Tiago Camarinha Lopes


Universidade Federal de Goiás
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Dívida: os primeiros 5000 anos

Tiago Camarinha Lopes

D
ívida: os primeiros 5000 anos, do antropólogo e ativista
social David Graeber, é uma obra de fôlego com identidade
própria. Trata-se de um tratado que busca não só descre-
ver historicamente a trajetória das relações de dívidas entre as
pessoas, em todas as suas variações e tipificações, mas também
de encontrar uma regularidade na mudança dessas relações. Isso
indica uma trilha bem demarcada pela tradição da antropologia
de Marcel Mauss e Marshall Sahlins (temperada com a vertente
em Economia Política chamada mutualismo) que não se apequena
na hora de encarar os desafios de se contrapor ao predomínio do
economicismo em suas diversas variações. A mensagem é ende-
reçada especialmente para todos os leitores sob forte influência
dos ensinamentos da área de economia que resistem em levar
em consideração as múltiplas dimensões das relações humanas
que escapam à lógica da relação social mercadoria. O livro deve
também ser visto como um dos resultados intelectuais da Crise de
2008, momento em que as tensões de dívidas foram externaliza-
das em uma série de acontecimentos, fazendo com que o questio-
namento mais amplo sobre a viabilidade histórica do capitalismo
voltasse ao debate.
Um dos principais ataques desenvolvidos por Graeber é dire-
cionado contra a versão “oficial” sobre origem do dinheiro, que
está intimamente ligada com o “mito do escambo”. O mito faz com
que se pense que o dinheiro foi uma invenção deliberada e harmo-
niosa, quando na verdade ele teria sido o resultado de uma séria
de relações de violência que acabaram criando dois lados muito

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nítidos na relação social normal do mercado. Uma das forças
centrais do livro está, assim, relacionada com um problema
concreto enfrentado pela massa pobre do mundo atual que parece
ser desprezada pela perspectiva economicista rígida: o endivida-
mento. Aqui, estar em dívida é como estar preso, porém de uma
maneira peculiar. A opressão dessa relação se ajusta às condições
variadas de tal forma que ela sempre se volta contra o lado mais
fraco da relação. É assim que se abre o livro com um provérbio
norte-americano que captura com precisão esse raciocínio: “Se
você deve ao banco 100 mil dólares, o banco controla você. Se
você deve ao banco 100 milhões de dólares, você controla o banco”.
A suposição de que dívidas precisam ser pagas é veementemente
contestada por Graeber, que busca demolir pacientemente ao
longo de 12 capítulos recheados com uma vastidão de informa-
ções empíricas acumuladas pela antropologia a naturalização do
contrato entre credor e devedor como o entendemos hoje.
O autor dedica-se inicialmente às confusões e incongruências
da relação chamada dívida. Graeber destaca que esse tipo de rela-
ção não pode ser pensada fora do tempo e do espaço. Ou seja, o
conceito de dívida não pode ser entendido como algo de padrão
único, mas como uma relação entre pessoas que varia muito de
acordo com a época e a sociedade em questão. Para ele, a dívida
referente àquela relação de mercado onde uma das partes é o
credor e a outra o devedor de uma quantia exata de dinheiro, bem
definida, quantificável até os centavos, em toda sua dinâmica
temporal com juros exatos, é apenas uma forma desse tipo de
relação entre pessoas.
Depois de ter dedicado o capítulo 1 a explorar essa amplitude
da noção de dívida, Graeber se volta ao mito do escambo no capí-
tulo 2. Aqui encontramos um estudo sistemático da visão smithiana
sobre a origem do dinheiro. Em poucas palavras, Graeber golpeia
com força a história popularizada por Adam Smith de que o
dinheiro teria emergido a partir do escambo entre pessoas livres
num ambiente de paz e cooperação: nada seria mais equivocado do
ponto de vista histórico imaginar que existiu uma etapa em que os
seres humanos trocavam objetos como se fossem mercadorias
completas. Na verdade, a ilusão é tão gritante que Graeber faz
questão de demonstrar a partir dos livros-texto de economia que
tal etapa sempre é apresentada com o recurso do “suponha que…”.
As autoridades em economia exigem que se imagine uma economia
de escambo justamente porque não existe material empírico que dê
respaldo a este tipo de situação social. Desse modo, o leitor é corre-

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tamente lembrado de que o dinheiro não emerge de um processo
espontâneo apenas, mas da interação desse processo com o forta-
lecimento do Estado, que acompanha toda a evolução e fortaleci-
mento da entidade dinheiro. Com isso, quebra-se com o senso
comum superficial de que o dinheiro nasceu em um contexto de
ausência de violência. Além disso, percebe-se que o dinheiro
também não deve ser conceituado a partir da objetificação dos
elementos transacionadas, mas sim da interação entre os partici-
pantes, que registram suas relações em distintos sistemas de
contabilidade ou crédito, fazendo com que Graeber conclua que
“nós não começamos com o escambo e depois passamos pela desco-
berta do dinheiro, até chegarmos ao desenvolvimento dos sistemas
de crédito, mas sim o contrário. O que hoje chamamos de moeda
virtual veio primeiro.” (Graeber, 2016, p. 57).
Por que então o mito da origem idílica do dinheiro permanece?
Para Graeber, a explicação está no fato de que ele é central para
todo o discurso da economia. Os capítulos 3 e 4 contam, portanto,
uma história diferente das dívidas, onde as relações humanas
criam e destroem posições de obrigação e servidão a partir de
diferentes justificativas extra-mundanas. A intenção, em contra-
posição com o discurso tradicional da economia, é mostrar que o
tipo de dívida predominante em nossa sociedade é específico:
somente em certo contexto a relação de dívida adquire as caracte-
rísticas normais da mercadoria (mercadoria na acepção de Marx).
Ou seja, não é em todo e qualquer ambiente social que se pode
medir com precisão o montante devido (determinação inambígua
da quantidade) ou transacionar o próprio contrato, trocando de
lugar as pessoas ligadas ao mesmo.
Graeber parte do princípio da dívida primordial, a noção de
que todo indivíduo vem ao mundo com uma “dívida” com o
universo, uma “dívida de vida” que jamais pode ser quitada. Essa
é outra característica marcante do tipo de dívida não-comercial
que é abordado nessa parte do livro. Somente na estrutura social
de mercado pleno é que surge a possibilidade de as pessoas
romperem com suas relações dadivosas que se reproduzem inde-
finidamente numa teia infinita de obrigações: ali, os agentes
podem quitar todas as relações, entrando assim em um status de
completa isenção em relação a todos os outros. Há alguma dúvida
de que esse é o agente econômico burguês em estado de equilíbrio
entre as posições de credor e devedor e envolto na névoa do feti-
chismo da mercadoria? Esse é um ponto de partida interessante

Dívida: os primeiros 5000 anos 191


para indagar porque a ilusão isolacionista é tão marcante na
sociedade de mercado.
O capítulo 5 contém o que poderíamos chamar de núcleo duro
do livro, onde Graeber busca organizar seu sistema teórico usado
para dar sentido à vastidão dos dados empíricos sobre as relações
de dívida. Para ele, toda formação social se baseia em três tipos
fundamentais de relações econômicas de ordem moral: comu-
nismo, hierarquia e troca.
Comunismo e troca seriam sistemas de relações econômicas
em que rege o princípio da reciprocidade. Mas enquanto o primeiro
é enquadrado na categoria de reciprocidade ampla (que remete à
ideia de reciprocidade generalizada de Marcel Mauss e Marshall
Sahlins (Graeber, 2016, p. 524), o segundo está circunscrito à
categoria de reciprocidade estreita. O ponto em comum, portanto,
entre comunismo e troca é que nos dois casos as pessoas são
iguais no sentido de escala hierárquica. Onde reside, então, a
diferença entre estes dois tipos fundamentais de relações econô-
micas de ordem moral? Acredito que podemos pensar no sentido
de ligação entre os pontos do sistema social: enquanto no comu-
nismo as ligações são de um ponto com todo o conjunto, quer
dizer, com a totalidade da sociedade, na troca as ligações são do
tipo peer-to-peer, um tipo de conexão que identifica sem ambigui-
dade o par em cada relação de transação. Assim, neste segundo
tipo, temos o nexo de troca mais parecido com aquilo que os
economistas chamam de mercado: troca entre duas partes que
tende ao “equivalente” no sentido de “quitar” a relação crédito-
débito, mas que também contempla a dádiva e as trocas “desequi-
libradas”. O principal é que, neste caso, a relação entre os agentes
pode ser virtualmente eliminada. Um agente “A” que não deve
nada a um agente “B”, mas que também não é credor desse agente
“B”, se imagina completamente livre de relações com esse agente
“B”. Os nexos sociais se esvaziam nesse tipo de relações econômi-
cas. Não é isso o que ocorre com o tipo de relações chamadas
comunismo. Aqui, o princípio moral norteador das relações sociais
é o certeiro enunciado “De cada um de acordo com sua capaci-
dade, para cada um de acordo com sua necessidade”. O desequi-
líbrio aqui nunca é imposto a uma das duas partes de um contrato,
pois a relação do indivíduo é direta com a totalidade da sociedade.
A reciprocidade existe tanto no tipo comunismo quanto no tipo
troca, mas enquanto no primeiro a igualdade é real (no sentido de
que os membros nunca entram na relação devedor-credor com
outro membro em particular, mas com toda a coletividade) e

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nunca pode ser desfeita (a não ser que o indivíduo abandone de
fato a comuna), no tipo troca a igualdade é formal. Neste segundo
caso a assimetria de poder entre devedor e credor sempre recai
sobre um par específico de agentes e não é distribuído por todo o
organismo social.
Em oposição à reciprocidade, há ainda a hierarquia. Aqui as
pessoas são de fato desiguais, estando em castas distintas. Neste
caso, as relações de obrigação e prestação de serviços embutidas
no conceito amplo de dívida, quando conectam pessoas de
degraus distintos, não podem ser liquidadas. Além disso, Grae-
ber destaca que essa modalidade indica um dos passos rumo à
criação de um Estado dentro de uma lógica própria de financia-
mento dessa estrutura.
Nos capítulos seguintes do livro (6, 7 e 8) Graeber busca tratar
das transições entre estes três tipos de relações econômicas de
ordem moral. O aspecto mais interessante da continuação dessa
análise é que Graeber, apesar de mostrar curiosidade em um
eventual padrão regular que explicite como e por que as forma-
ções sociais alteram suas normas econômicas, não se perde na
busca por uma resposta final fechada para isso que seria uma
“teoria total da história”. Na realidade, o conceito de economia
humana aparece como maneira de explicitar que a variedade de
formações sociais é muito extensa, o que ajuda o leitor a captar a
dinâmica fluída tão cara às tradições de investigação das ciências
sociais que são altamente aversa às aproximações com as ciên-
cias naturais enquadradas na filosofia iluminista como guia para
o estudo do fenômeno humano.
Na reta final, o livro aborda cronologicamente a história da
dívida, que também pode ser lida como a história daquilo que os
economistas chamam de sistema financeiro. Nos momentos
iniciais da Crise de 2008, difundiu-se a noção do abalo de alto a
baixo do sistema econômico capitalista, como se o evento tivesse
uma repercussão histórica gigantesca. Graeber buscou capturar
esse sentido da crise ampliando sua análise histórica o máximo
possível. É daí que vem a magnitude do livro e do recorte tempo-
ral: cinco milênios de história econômica dividida em quatro
etapas: a Idade Axial (800 a.C. – 600 d.C) (cap. 9), a Idade Média
(600 d.C – 1450 d.C.) (cap. 10), a Idade dos Grandes Impérios
Capitalistas (1450 d.C. – 1971 d.C.) (cap. 11) e a etapa atual do
sistema econômico iniciado com o fim do padrão ouro-dólar em
1971 (cap. 12).

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Esse ciclo final do livro deve interessar mais aos historiadores e
economistas. Tendo como pano de fundo a base metodológica e os
dados empíricos expostos, Graeber identifica um padrão comum ao
longo dessas quatro etapas: o processo de cunhagem é monopoli-
zado pelo Estado a partir de ações de violência organizada em um
ciclo de financiamento de guerreiros (exército) cujo propósito é a
pilhagem e a conquista. O resultado do sucesso dessa empreitada
é então distribuído em um processo de continuação da expansão,
não só territorial, mas justamente do mercado. Tem-se assim uma
demonstração rica em detalhes sobre como, historicamente, o
mercado e o Estado se originam em uma espiral de determinação
recíproca cujo avanço culmina nos Grandes Impérios Capitalistas
que conhecemos do enfoque histórico eurocêntrico.
Por fim, ao analisar a etapa atual, quer dizer, o sistema finan-
ceiro pós-Bretton Woods, percebem-se pontos de fraqueza que
brotam da audácia do autor. Comparativamente, enquanto a parte
estritamente histórica é de uma riqueza impressionante, as tenta-
tivas de elaboração teórica são muito mais frágeis. A unidade
entre o lógico e o histórico na compreensão do capitalismo como
sistema econômico não é algo trivial de ser construído. Ainda
assim, a conclusão de Graeber é altamente coerente tendo em
vista sua posição filosófica e política. A antropologia, como ele
mesmo explica, tem grandes receios com as tentativas de genera-
lizações teóricas que abarquem um conjunto muito grande de
sociedades humanas. Graeber não se intimida com isso, o que é
altamente salutar, visto que tal manobra é justamente o que
permite ele sair da esfera segura de sua área de formação e abrir
um diálogo sincero com a teoria e a história econômica. Por outro
lado, o impasse teórico não se expressa em uma saída robusta
para a crise. Não se encontra nem uma proposta de reforma, nem
uma indicação de revolução organizada. Graeber se refugia na
rebelião moral contra a dívida que, aparentemente, deveria partir
dos indivíduos afetados negativamente por essa relação social. O
retorno ao enfoque moralista expressa os limites da abordagem,
mas também é, de certa maneira, um de seus aspectos progressi-
tas: diante do fato de que os seres humanos insistem em despen-
der seus recursos na construção de relações sociais de afeto,
amor, amizade, etc., não seria o capitalismo que estaria fora de
lugar? Graeber põe a questão correta ao inverter o primado de
determinação de nossas vidas: ao invés dela existir para servir
uma lógica econômica tal, devemos impor ao sistema econômico
os valores do humanismo que remontaria àquela ideia previa-
mente desenvolvida de comunismo intrínseco.

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Existem muitos outros pontos relevantes na obra omitidos
aqui. Qualquer síntese de uma obra tão extensa com densidade
razoável seria limitada. Contudo, uma coisa é certa: o livro de
Graeber aborda o momento atual de crise de uma maneira diver-
sificada e aberta o suficiente para atrair interessados de variados
matizes a questionarem a inevitabilidade e eternidade do capita-
lismo. Talvez Graeber não goste da força de expressão, mas, nesse
caso, não seria despropositado dizer que estes potenciais leitores
estão em débito com ele.

Sobre a obra: Dívida: os primeiros 5000 anos, de David Grae-


ber. São Paulo: Três Estrelas, 2016. 702 páginas.

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