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Escola de Medicina - Disciplina Saúde, Trabalho e Ambiente

Resumo do artigo "Condições de trabalho e saúde dos médicos: uma questão


negligenciada e um desafio para a Associação Nacional de Medicina do
Trabalho" de Elizabeth Costa Dias

06 de junho de 2019

O artigo tem a intenção de mostrar e questionar as condições de trabalho e de


saúde dos profissionais médicos, por entenderem que a profissão e seus riscos
trabalhistas são poucos explorados na literatura acadêmica em comparação
com outros profissionais da saúde.

O texto inicia com um breve apanhado histórico da visão da medicina e como,


ao longo do tempo, ela foi se transformando. Se antes a medicina tinha
aspirações espirituais que lhe conferiam um lugar hierarquicamente alto, hoje,
com a mercantilização da saúde, ela tem se tornado uma profissão sem o
status anterior.

Também discorre sobre a visão de diferentes pesquisadores sobre o processo


do trabalho médico, avaliando os efeitos da inserção tecnológica, da
proletarização, da prestação de serviço e do vínculo com as pessoas, incluindo
a apresentação de conceitos criados por esses estudiosos, como o de "trabalho
morto" e "trabalho vivo".

Comenta sobre uma gama de motivos que dificultam a atuação do profissional


médico seja saudável, como o excesso de carga horária e os múltiplos e
fragilizados vínculos empregatícios, que se aliam à diminuição do prestígio
social do qual costumavam gozar. Além das más condições de trabalho, que
acumulam riscos tradicionais (físicos, químicos e biológicos), precarização da
estrutura física, perda da autonomia enquanto carregam a responsabilidade
pelo cuidado, o que acarreta um custo afetivo alto. Somado a tudo isso, há
também o desbalanço entre o trabalho e vida pessoal, gerando uma enorme
carga de trabalho.

Em seguida, propõe-se a analisar porque, apesar de tudo isso, tantas pessoas


ainda investem dinheiro e tempo na formação e profissão médica. Também
analisa perfil atual dessa população, que tem se tornado cada vez mais
feminina, focada em grandes centros e com um caráter quase "hereditário". Os
profissionais também tem começado a trabalhar mais cedo, mas isso não se
refletiu em aposentadoria prévia, pois continuam trabalhando além do tempo.

Há concentração de vagas universitárias no setor privado, cuja maioria está


localizada nos grandes centros urbanos, refletindo numa posterior
desigualdade na distribuição geográfica deste profissional. Isso afeta
diretamente o acesso da população aos médicos, pois, apesar do aumento
exponencial do número de profissionais formados e em formação, ainda há
várias áreas do país descobertas. Enquanto nas regiões metropolitanas, há
excesso de médicos e graduandos, limitando o espaço de prática dos mesmos.
Isso se reflete de forma negativa, contribuindo para aumento do número de
vínculos empregatícios por salários menores, obtendo uma remuneração
abaixo da expectativa criada.

A soma de todos esses fatores resulta em um notável desgaste na saúde dos


profissionais médicos, com consequências referentes à saúde mental e física
deles, por meio de diversos sintomas e doenças, como insônia, fadiga crônica,
síndrome de Burnout, ansiedade, etc. Ao unir isso, com a questão de gênero,
tem-se um esgotamento ainda maior, com uma carga horária de trabalho triplo,
onde a inserção da mulher no mercado de trabalho formal não significou a
diminuição de suas atribuições domésticas e na criação dos filhos, mas criou
um componente conflitante extra para essas profissionais no balanço entre
trabalho e família.

Tudo isso tem um reflexo direto no cuidado oferecido às pessoas, levando até
um quadro de despersonalização em relação às pessoas e ao trabalho em si.
Além de se refletir na qualidade de vida, com altos índices de suicídio, divórcio
e abuso de substâncias psicoativas por esses profissionais em comparação
com outras profissões.

Outro ponto são os estudantes de medicina e residentes, que lidam com muitas
dessas questões, como o desbalanço entre vida acadêmica/profissional e a
vida pessoal, que também gera um grande sofrimento mental, com índices de
uso de substâncias psicoativas e suicídio além da média.

Ao final, o artigo cita algumas políticas públicas voltadas para melhora da


saúde dos trabalhadores da saúde, contudo, pontua as limitações e
dificuldades da aplicabilidade dos mesmos, como baixa adesão a dispositivos
que minimizem à exposição à riscos biológicos. Cita também a CTL como
norteadora de alguns aspectos de proteção ao trabalhador da saúde.

Enfim, conclui a complexa dicotomia do trabalhador da saúde que não cuida de


sua própria saúde. Dessa forma, há uma urgente necessidade de tornar a
formação e processo de trabalho menos adoecedores, com resultados
positivos individuais e coletivos, incluindo para as pessoas atendidas por esses
profissionais. Sendo a figura do médico do trabalho importante neste contexto,
para pesquisar, avaliar e modificar essa realidade.