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ECONOMIA

Incertezas e anos de PIB decepcionante


deixam Brasil menos atrativo para empresas
estrangeiras
Além do menor fluxo de capital estrangeiro, multinacionais têm decidido encerrar
operações no país ou a produção local. Relembre empresas que deixaram o Brasil
recentemente ou que estão indo embora.

Por Darlan Alvarenga, G1


27/05/2019 07h59 · Atualizado há 3 horas

Em meio às dificuldades de reação da economia brasileira e problemas estruturais


de produtividade, o país também tem perdido a atratividade para investidores
estrangeiros. Além do menor nível de fluxo de recursos para investimentos no Brasil
e persistentes incertezas sobre o ambiente de negócios, também tem chamado a
atenção a frequência de anúncios de empresas internacionais indo embora ou
decidindo encerrar operações por aqui.

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· Brasil deixa ranking de países mais confiáveis para investimento
estrangeiro

· Países emergentes investiram o dobro do Brasil em 2018

Entre essas companhias, estão a Ford Caminhões, os laboratórios Roche e Eli Lilly, a
gráfica RR Donnelley, o aplicativo Glovo, a Nikon, a cervejaria Brasil Kirin, e redes de
varejo como Lush e Kiehl's. Relembre mais abaixo empresas que deixaram ou
estão deixando o país nos últimos anos.

Embora as razões apresentadas por elas não sejam necessariamente as mesmas, e


também estejam relacionadas a novas estratégias globais das companhias, em
comum está a dificuldade de conseguir os resultados esperados, a decepção com o
ritmo de crescimento da economia brasileira e a elevada imprevisibilidade em
relação ao médio e longo prazos.

Diante das dificuldades de gerar a receita esperada e de expandir os negócios, a


saída encontrada por essas empresas foi vender a operação para concorrentes já
estabelecidos ou simplesmente fechar as portas. Outras recusaram-se a desistir,
mas decidiram encerrar a produção local, passando a atuar somente com
distribuição de importados. Consequentemente, fecharam postos de trabalho e
colocaram mais pessoas na fila do desemprego.

E se alguns estão indo embora, outros estão desistindo ou adiando a vinda. Segundo
dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento
(UNCTAD), o Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil caiu 12% em 2018, para
US$ 59 bilhões. Com a queda, o Brasil passou da 4ª para a 9ª colocação entre os
principais destinos no mundo. Em 2011, o montante chegou a US$ 96 bilhões. Veja
gráfico abaixo:

Investimento estrangeiro direto no Brasil


Em US$ bilhões
120

100 96,1

83,7
80 76,1
73,3
68
64,2
58 59
60 53,5

40

20

0
10

11

12

3
14

15

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18
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Fonte: Unctad

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5G da Huawei

Huawei

Xinhuanet

O indicador é considerado como o melhor termômetro de "bom investimento", uma


vez que os recursos vão para o capital produtivo (construção de fábricas,
infraestrutura, empréstimos e fusões e aquisições).

Levantamento divulgado neste mês consultoria A.T.Kearney mostrou que o Brasil


deixou o ranking dos 25 mais confiáveis para investimento estrangeiro. Foi a
primeira vez que o país ficou fora da lista desde que o ranking foi desenvolvido, em
1998.

"Embora o Brasil seja uma economia emergente, a taxa de


crescimento nos últimos 10 anos foi muito menor em relação
ao que era projetado. Hoje, o foco no mundo inteiro está no
retorno ao investidor. Então, a empresa acaba
eventualmente preferindo absorver um prejuízo e encerrar
suas atividades no país a correr o risco de uma perda ainda
maior", afirma o economista Ricardo Teixeira, coordenador
do MBA em Gestão Financeira da FGV.

· Brasil caminha para década com crescimento mais fraco em 120 anos

Menor apetite pelo Brasil


O ano de 2019 começou com a expectativa de maior fluxo de capital estrangeiro
para o país, impulsionados pela mudança de governo e reforço da agenda de
concessões e privatizações, mas a percepção dos analistas e economistas é que os
investidores permanecem bem cautelosos em relação ao Brasil, à espera da
aprovação de reformas e de uma sinalização mais clara de uma melhora das
perspectivas para a economia brasileira.

Pelos dados do Banco Central, que utiliza uma metodologia diferente da ONU para
mensurar esse fluxo de aportes, os investimentos diretos no país (IDP) somaram
US$ 21,1 bilhões no 1º trimestre, praticamente o mesmo volume do mesmo período
de 2018 (US$ 20,9 bilhões).

O professor de economia do Insper Otto Nogami afirma que, no Brasil, "o longo
prazo é sempre difícil de ser avaliado", e que nos últimos meses houve uma piora
das expectativas em relação ao ritmo de recuperação da economia diante das
preocupações com a articulação política do governo Bolsonaro para a aprovação de
reformas estruturais como a da Previdência no Congresso.

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"Está tudo nebuloso. À medida em que se tem um cenário
econômico complexo, com piora das expectativas, o
investidor começa a ver que a recuperação da economia
tende a vir só daqui 2, 3, 4 anos, o que pode comprometer
toda uma estratégia que ele tinha em mente", avalia
Nogami.

Participação de estrangeiros em compras de empresas no


Brasil

Investidores nacionais estão a frente dos investidores estrangeiros nas aquisições no Brasil — Foto: Divulgação/PWC

Levantamento da consultoria PWC sobre fusões e aquisições de empresas no Brasil


mostra que o apetite dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil permanece
bem abaixo do registrado no período pré-recessão.

De um total de 228 operações de compras de controle ou de participação em


empresas realizadas de janeiro a abril, apenas cerca de 30% (68 transações) foram
lideradas por estrangeiros. Nos 4 primeiros meses de 2015, o número de aquisições
feita por estrangeiros foi praticamente o dobro (126), com o capital internacional à
frente de 53% dos negócios anunciados (veja gráfico acima).

O indicador é um bom termômetro para o fluxo de investimento estrangeiro no país


uma vez que a compra do controle ou participação de empresas já estabelecidas
costuma ser a principal estratégia de entrada de grandes grupos em um outro país.

"Temos conversado com muitos fundos de investimento


estrangeiros, e o que eles dizem é que têm planos de
investimento no Brasil, mas aguardam algumas mudanças
estruturais importantes, em particular, muito comentada, a
reforma da Previdência", diz Leonardo Dell'Oso, sócio da PwC
Brasil.

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"A partir do momento em que o governo demonstrar um ajuste fiscal nas suas
contas que possa trazer uma estabilidade econômica maior e também a criação de
um marco regulatório mais robusto, o investimento certamente vai voltar a chover
no Brasil", acrescenta.

Para Viktor Andrade, sócio da consultoria EY, afastadas as incertezas, o país tende a
voltar a atrair um fluxo maior de investimentos. "O Brasil continua sendo opção na
mesa dos investidores e tem se mantido um destino consistente dos fluxos globais,
o que é surpreendente diante de todas dificuldades e da perda do grau de
investimento do país. É um país grande, com instituições sólidas, e isso faz com que
acaba se destacando frente a pares como Rússia e índia", afirma.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes — Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Entraves e desvantagens competitivas


Além do baixo crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) nos últimos anos e das
conhecidas desvantagens competitivas do Brasil (complexidade tributária, baixa
produtividade e infraestrutura precária), há outros entraves que fazem com que o
país seja considerado mais difícil e menos atrativo para o investidor estrangeiro.
"A complexidade da operação, com custo de produção muito
alto e qualidade de mão de obra muito ruim
comparativamente, acaba tirando a atratividade do mercado
brasileiro apesar do contingente de consumidores. Por isso,
quando se trata de alta tecnologia, muitas empresas
preferem produzir lá fora e só distribuir aqui", afirma
Nogami.

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5G da Huawei

Huawei

Xinhuanet

Os analistas destacam, entretanto, que em alguns casos o fracasso da operação


decorre mais do erro de avaliação do investidor e da falta de um estudo mais
aprofundado sobre o mercado brasileiro e diferenças regionais.

"O mercado brasileiro do ponto de vista de PIB é grande, mas sob a ótica do PIB per
capita não é tão expressivo quanto parece. Quem olha de fora, se não fizer um
estado detalhado, pode pensar que para o seu produto existe um gap de consumo
que não necessariamente existe", afirma Teixeira.

"A empresa traça uma estratégia para vir para cá, acreditando em alguns casos ter
uma proposta que é imbatível, mas não tem conhecimento de como a renda é
distribuída dentro do país, não consegue entender a cultura e as diferenças entre as
regiões", acrescenta.
Relembre empresas que anunciaram saída do Brasil
Veja abaixo companhias que deixaram o país ou que anunciaram o encerramento
de operações no Brasil de 2017 para cá.

Roche

Sede da farmacêutica Roche na Suiça — Foto: Reuters

O grupo farmacêutico suíço Roche anunciou em março que decidiu encerrar a


produção de medicamentos no Brasil em até 5 anos, citando nova estratégia global
de "concentrar os esforços em produtos inovadores de alta complexidade e baixo
volume de produção".

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5G da Huawei

Huawei

Xinhuanet

Eli Lilly
A farmacêutica americana Eli Lilly anunciou em dezembro do ano passado a
decisão de fechar sua única fábrica no Brasil e concentrar a produção de
medicamentos sólidos em Porto Rico.

Ford Caminhões
Fábrica da Ford em São Bernardo — Foto: Divulgação

A Ford anunciou em fevereiro que fechará sua fábrica de São Bernardo do Campo
(SP) e a saída da marca do mercado de caminhões na América do Sul,
argumentando que a continuidade das operações no continente demandaria um
grande volume de investimentos que não resultariam em "um negócio lucrativo e
sustentável".

Glovo
A startup espanhola de entregas de encomendas Glovo anunciou em março o
encerramento das operações no Brasil, após 12 meses no país. Ao justificar a
decisão, a empresa informou ter percebido que o Brasil é um mercado
extremamente competitivo e que, para obter o sucesso planejado originalmente,
precisaria de mais investimento e tempo para penetrar, liderar e alcançar
rentabilidade.

RR Donnelley

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Fábrica da RR Donnelley em Tamboré, no Barueri (SP) — Foto: RR Donnelley/Divulgação
A gráfica multinacional RR Donnelley, que era desde 2009 responsável pela
impressão das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), entrou em
processo de falência e anunciou em abril o encerramento da operação no Brasil,
culpando "atuais condições de mercado na indústria gráfica e editorial tradicional,
que estão difíceis em toda parte, mas especialmente no Brasil".

Kiehl's
A marca americana de cosméticos Kiehl's, que desembarcou por aqui em 2008,
anunciou no final do ano passado a decisão de fechar suas lojas e, em março,
encerrou suas atividades do Brasil.

Lush Cosmetics
Lush - Shopping Morumbi — Foto: Celso Tavares/G1

A marca britânica de cosméticos feitos à mão Lush anunciou em meados do ano


passado o fechamento de suas lojas e fábrica no Brasil, dizendo não ter conseguido
obter lucro nos últimos quatro anos em que operou no país.

Nikon
Em setembro de 2018, a fabricante japonesa de câmeras fotográficas Nikon
encerrou todas as suas atividades no Brasil. A filial brasileira tinha sido aberta em
2011 como a primeira unidade da multinacional na América do Sul, de olho em
oportunidades de expansão dos negócios após a escolha do Brasil como sede de
eventos esportivos como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

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Häagen-Dazs

Foto de divulgação da marca de sorvetes Häagen-Dazs — Foto: Reprodução/Instagram

A marca de sorvetes premium controlada pela americana General Mills encerrou


em junho de 2018 as operações dos 8 pontos de venda próprios que mantinha
no Brasil, informando que decidiu focar seus investimentos na distribuição dos
sorvetes por meio dos canais de varejo e foodservice.

Walmart
Em junho de 2018, o Walmart vendeu participação de 80% nas operações
brasileiras para a empresa de private equity Advent Internacional, citando buscar
garantir "melhor oportunidade de crescimento de longo prazo" no negócio.

Fnac

Loja da Fnac em São Paulo — Foto: Google Street View

Em julho de 2017, a francesa Fnac vendeu as 12 lojas que tinha no Brasil para a
Livraria Cultura, após a recessão brasileira agravar ainda mais os resultados da
operação, cujo modelo de negócio já enfrentava uma crise estrutural em razão dos
novos hábitos de consumo de livros, música e filmes, em meio ao avanço
tecnológico e do comércio eletrônico.

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5G da Huawei

Huawei

Xinhuanet

Brasil Kirin
Em fevereiro de 2017, o grupo japonês Kirin Holdings anunciou a venda da
operação para a Heineken e a saída do país, após menos de 6 anos da sua
chegada e entrada no mercado brasileiro através da aquisição da Schincariol. Em
meio a prejuízos e dificuldades de logística e distribuição, a Brasil Kirin avaliou que os
riscos associados com a economia brasileira e a competitiva indústria cervejeira do
país limitavam a possibilidade de transformar a operação em um negócio "rentável
e sustentável no longo prazo".

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