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Recorribilidade ou irrecorribilidade da parte do despacho de pronúncia do Juiz de

Instrução que decide questões prévias ou incidentais (incluindo nulidades


anteriormente arguidas na instrução)
Assento STJ 6/2000 VS Acórdão 216/99 TC

Assento STJ – recorribilidade (19 de Janeiro de 2000)


Acórdão TC – irrecorribilidade (21 de Abril de 1999)

TESE DA RECORRIBILIDADE
1) No assento do STJ
• A decisão instrutória é composta de duas partes: a decisão de fundo (a pronúncia sobre os factos) e a
decisão de forma (nesta se inserem as questões prévias incidentais)
• O contido no citado artigo 310º/1, respeita unicamente à decisão instrutória de fundo, não
contemplando a referida decisão de forma, esta abrangida pela regra geral da recorribilidade,
estabelecida no artigo 399º do CPP
• STJ 7/4/94 – Concluiu que «O regime da irrecorribilidade da decisão instrutória aludida no artigo
310º/1, do CPP não se estende à decisão das questões prévias ou incidentais a que se refere o artigo
308º/3, do CPP. → a irrecorribilidade do mencionado despacho não cabe na previsão do citado artigo
310º/1. Este normativo apenas declara irrecorrível o despacho que pronunciar o arguido pelos factos
constantes da acusação do MP, nada nos diz sobre a recorribilidade da decisão instrutória 'de forma', e
bem se vê que seria insuportável a solução de não admitir o recurso de tal decisão. O legislador do
novo CPP não pode ter querido uma tal solução. O que quis foi remeter-se-nos para o regime do Código
de Processo Civil. E nem isso seria necessário, dado o princípio geral (artigo 399º do CPP) de que, em
processo penal, toda a decisão não declarada irrecorrível por lei é recorrível.»
• J. SOUTO DE MORA citado por M. MAIA GONÇALVES, Código de Processo Penal Anotado, «O
CPP estipula também que antes de se proferir despacho de pronúncia ou de não pronúncia o
juiz decida todas as questões prévias ou incidentais de que possa conhecer (artigo 308º/3). Nesse
saneamento preliminar se abordarão antes de mais os pressupostos processuais, a começar pela
competência do tribunal. Conhecer-se-ão aí as nulidades ou eventuais questões incidentais. Se
nada obstar ao conhecimento do mérito da causa, decidirá o juiz de instrução criminal a
pronúncia ou a não pronúncia. daí que a falência de um pressuposto processual não dê origem a
uma não pronúncia. Rigorosamente, originará uma decisão instrutória de forma que não aborda
o fundo da questão. Implicará em regra a absolvição da instância, sem mais.»
• A norma do artigo 310º/1 estabelece a irrecorribilidade da decisão instrutória que pronunciar o arguido
pelos factos constantes da acusação do MP, e é uma norma que surge na sequência da orientação da
comissão encarregada de elaborar o CPP, tendo manifestamente por escopo uma preocupação
de aceleração processual.
• A celeridade processual, como objectivo, só deve prevalecer quando o direito do arguido não
possa ser afectado de forma injustificada e definitiva, sendo este o limite de qualquer opção
legislativa no sentido de introduzir excepções ao princípio geral da recorribilidade, que resulta do
artigo 399º do CPP.
2) No Acórdão do TC – não se dedica muito na defesa da posição da recorribilidade, centrando a discussão
principalmente na argumentação de que a tese da irrecorribilidade não é inconstitucional
• “A interpretação dos Artigos 310º, nº 1 e 308º, nº 3 do Código de Processo Penal no sentido de que a
Decisão sobre questões incidentais ou questões prévias, fazem parte da própria decisão Instrutória,
sendo que esta é irrecorrível, e assim não tomando conhecimento do Recurso, é inconstitucional, por
violação dos Artigos 32º nº 1 e 9; 20º e 34º, todos da Constituição da República Portuguesa”
• “A irrecorribilidade consagrada no artigo 310º, nº 1, do Código de Processo Penal refere-se tão
somente à parte da decisão instrutória que pronuncie o arguido pelos factos constantes da acusação
deduzida pelo Ministério Público e não aos despachos que decidam questões prévias ou incidentais de
que se possa conhecer. A estes despachos deveria reconhecer-se autonomia, de modo a permitir a sua
recorribilidade.”
• “São violados os princípios do acesso à justiça (artigo 20º/1 CRP) e das garantias de defesa (32º/1
CRP) na medida em que esta disposição determina que o juiz de instrução decida, no despacho de
instrução, todas as questões incidentais que serviram de base à sua decisão.”

TESE DA IRRECORRIBILIDADE
1) No Assento do STJ
Prof. GERMANO MARQUES DA SILVA → “A acusação pode não ser recebida por razões meramente
processuais, prévias à apreciação da acusação, como acontece também com o arquivamento, nos termos do
artigo 277º, mas resulta claro do artigo 308º/3, que a decisão sobre as questões prévias ou incidentais faz
parte da própria decisão instrutória. A decisão instrutória abrange a decisão das questões prévias e
incidentais, porque também estas são necessárias para a decisão sobre se o processo há-de prosseguir
ou não para a fase seguinte. A decisão destas questões inere à decisão instrutória. A decisão sobre as questões
prévias e incidentais faz, em regra, parte integrante da decisão instrutória, de pronúncia ou de não pronúncia.
É o que resulta expressamente do 308º/3. A não pronúncia pode ter por fundamento precisamente um vício
processual, pode ser resultado da apreciação de uma questão prévia ou incidental. Também quando a decisão
das questões prévias conduza à anulação total ou parcial do processo, com consequente anulação da acusação,
poder-se-ia entender que o juiz não chegaria a proferir despacho de não pronúncia, uma vez que não chegaria
sequer a apreciar a acusação, mas não é assim. O tribunal recusa a acusação e o fundamento da recusa, da não
pronúncia, é precisamente a sua inadmissibilidade em razão daqueles vícios.”
→ “Se a decisão instrutória de pronúncia não admitir recurso, a decisão sobre essas questões não tem efeito
de caso julgado, pelo que poderão ser novamente objecto de decisão pelo tribunal de julgamento. Poder-se-ia
entender que a decisão sobre questões prévias e incidentais que tem lugar na decisão instrutória só
formalmente faz parte do despacho de pronúncia ou não pronúncia e, consequentemente, relativamente à
decisão sobre essas questões seria sempre admissível o recurso. A decisão sobre questões prévias e incidentais
inere à decisão instrutória e, consequentemente, está também sujeita ao regime de recursos para ela
estabelecido.”
→ Jurisprudência:
• Da RL de 23/11/1994: «O despacho de pronúncia só é recorrível (quando pronuncie) no caso
previsto no artigo 309º»;
• Da RL de 3/2/1998: «Durante a instrução só é recorrível o despacho que não declare a nulidade,
tempestivamente invocada pelo arguido por não ter sido interrogado, apesar de o ter requerido»;
• Da RL de 28/7/1998: «I - As questões incidentais e prévias devem ser consideradas parte
integrante da decisão instrutória. II - Logo, se o arguido quiser impugnar a decisão relativa à
validade de escutas telefónicas, terá que recorrer da própria decisão instrutória»;
• Da RL de 10/2/1999: «I - O despacho de pronúncia é irrecorrível. II - Consequentemente não é
admissível dele recorrer-se não só na parte em que tenha acolhido os factos da acusação, mas também
naquele em que tenha conhecido de questões prévias ou incidentais».
→ “Segundo os defensores desta posição doutrinária e jurisprudencial, o sentido da solução apontada -
irrecorribilidade do despacho de pronúncia também no concernente às nulidades - não ofende o princípio
constitucional do direito ao recurso como garantia de defesa do arguido.”

2) No Acórdão do TC
• Seguindo o entendimento do Prof. GERMANO MARQUES DA SILVA, “a decisão sobre as
questões prévias ou incidentais faz parte da própria decisão instrutória."
• Esta condensação em tudo concorre para a salvaguarda das garantias de defesa (artigo 32º/1 CRP) e
de celeridade, aconselhável nos processos em geral e especialmente exigível em processo penal (artigo
32º/2 CRP).
• "A CRP não estabelece a garantia de existência de um duplo grau de jurisdição para todos os processos
das diferentes espécies. É certo que a CRP garante a todos o «acesso ao direito e aos tribunais, para
defesa dos seus direitos e interessas legítimos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência
de meios económicos, e, em matéria penal, afirma que «o processo criminal assegurará todas as
garantias de defesa», mas destas normas, porém, não retira a jurisprudência do TC a regra de
que há-de ser assegurado o duplo grau de jurisdição quanto a TODAS as decisões proferidas
em processo penal. A garantia do duplo grau de jurisdição existe quanto às decisões penais
condenatórias e ainda quanto às decisões penais respeitantes à situação do arguido face à
privação ou restrição da liberdade ou de quaisquer outros direitos fundamentais. Sendo embora
a faculdade de recorrer em processo penal uma tradução da expressão do direito de defesa, a verdade
é que se há-de admitir que essa faculdade de recorrer seja restringida ou limitada em certas
fases do processo e que, relativamente a certos actos do juiz, possa mesmo não existir, desde que,
dessa forma, se não atinja o conteúdo essencial dessa mesma faculdade, ou seja, o direito de
defesa do arguido.”
• A lei assegura que o arguido tenha possibilidade de recorrer de uma decisão condenatória. Multiplicar
as possibilidades de recurso ao longo do processo seria comprometer outro imperativo constitucional:
o da celeridade na resolução dos processos-crime.
• A intenção do legislador constituinte não foi "significar que haveria de ser consagrada, sob pena de
inconstitucionalidade, a recorribilidade de todas as decisões jurisdicionais proferidas em processo
criminal, mas sim que do elenco das garantias de defesa que tal processo há-de assegurar se contará a
possibilidade de impugnação das decisões judiciais de conteúdo condenatório.
• O arguido pode sempre, pois, recorrer da decisão condenatória que lhe seja dirigida, e aí contestar
todos os vícios que derivem de uma má apreciação de qualquer questão interlocutória.
• A celeridade não só é compatível com as garantias de defesa, como é instrumental dos valores últimos
do processo penal – a descoberta da verdade e a justa decisão da causa.
• Ora, este regime especial não é arbitrário, encontrando fundamento na existência de indícios
comprovados, de modo coincidente, em duas fases do processo: pelo Ministério Público, dominus do
inquérito, e pelo juiz de instrução.
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A MINHA OPINIÃO
A minha opinião vai no sentido da tese da irrecorribilidade, defendida pelo Tribunal Constitucional e pelo
Prof. Germano Marques da Silva.
Acho que faz mais sentido assumir que a decisão instrutória abrange já a decisão das questões prévias e
incidentais, uma vez que a decisão sobre elas é necessária para a decisão de pronunciar ou não pronunciar,
pelo que não faz sentido separar estes dois actos para efeitos de recorribilidade.
O artigo 308º/1 dispõe mesmo que no despacho de pronúncia ou de não pronúncia, “o juiz COMEÇA por
decidir das nulidades e outras questões prévias ou incidentais de que possa conhecer”. A decisão sobre esta
questão permite ao juiz “continuar” a sua ponderação.
Assim, o facto de o juiz decidir que não se verificam quaisquer nulidades ou outras questões prévias ou
incidentais, e assim tornar essa decisão irrecorrível nos termos do artigo 310º/2 não me parece violar os
princípios do acesso à justiça (artigo 20º/1 CRP) e das garantias de defesa (32º/1 CRP), uma vez que o
arguido pronunciado continua a ter o direito de recorrer das decisões condenatórias e das decisões que
impliquem privação ou restrição da liberdade ou de quaisquer outros direitos fundamentais.
Ainda por mais, parece-me descabido afirmar que haja aqui uma limitação injustificada e definitiva do direito
de defesa do arguido, uma vez que a questão não deixou de ser analisada por um juiz, e o arguido continua a
poder recorrer de decisões que enventualmente resultem na sua condenação ou na privação ou restrição da
sua liberdade ou de quaisquer outros direitos fundamentais.
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Problema de igualdade suscitada pela questão de o despacho de não pronúncia ser sempre recorrível, e o de
pronúncia não o ser: não há aqui uma violação do princípio da igualdade uma vez que o despacho de não
pronúncia implica sempre o fim do processo, o mesmo não se passando com o despacho de pronúncia.
A tese da irrecorribilidade quanto às questões formais pressupõe que o despacho de pronúncia não faz caso
julgado formal, e que estas questões vão poder ser novamente conhecidas em julgamento. 311º vs 338º. Se o
legislador no 388º previu expressamente que só pode pronunciar-se sobre “questões prévias ou incidentais
susceptíveis de obstar à apreciação do mérito da causa acerca das quais não tenha havido decisão e que possa
desde logo aperciar”, os autores que defendem esta tese dizem que, uma vez que o mesmo não acontece no
311º (não se diz que só pode pronunciar-se sobre as questões sobre as quais não tenha havido já decisão), o
tribunal de julgamento pode pronunciar-se sobre todas questões prévias ou incidentais, isto é, o despacho de
pronúncia não faz caso julgado formal.