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Educando mentirosos, cínicos e ladrões

Posted by Dvorak
Dezembro 5, 2008, PC Magazine

Uma pesquisa feita pelo Center for Youth Ethics, do Instituto Josephson, revela que a juventude de
hoje está se tornando completamente anti-ética sob diversos aspectos. 40% dos jovens acreditam na
impossibilidade de ser bem-sucedido nos Estados Unidos sem que se minta, engane ou roube. Acho
que este número é um pouco alto demais, mas consigo ver por que muitos garotos têm esse tipo de
pensamento. Afinal, quando olham com atenção, vêem ao redor um monte de gente bem-sucedida
que são também desonestas – como provado mais tarde.

O problema origina-se, em parte, na nossa total falta de controle sobre as práticas comerciais atuais:
métodos e vícios monopolistas, sem a menor consideração pelo consumidor, são abertamente
encorajados. Porém, pode ser que a explicação envolva um pouco mais do que isso.

Destaco alguns pontos do press release que anunciou os resultados:

– “ROUBO. Má notícia para o comércio: mais de um em cada três garotos (35%) e um quarto
das garotas (26%) – um total de 30% ao todo – admitiram ter cometido algum tipo de furto
num ponto comercial qualquer no último ano. Em 2006, a taxa total era de 28% (32% para
os meninos e 23% para as meninas).”

– “Alunos de escolas particulares ou de colégios religiosos têm menos propensão ao roubo,


mas, mesmo assim, a taxa entre estudantes de escolas não-religiosas independentes é de
mais de um em cada cinco (21%), enquanto 19% dos alunos de instituições religiosas
admitiram ter roubado um estabelecimento comercial no último ano.”
- “COLA. O hábito da cola nas escolas continua disseminado – e está ficando cada vez pior.
Uma maioria substancial dos alunos (64%) admitiu ter colado em alguma prova ao longo do
último ano (38% admitiram tê-lo feito duas ou mais vezes) – contra 60% e 35%,
respectivamente, em 2006. Não houve diferenciação de sexo na tabulação dos resultados.
Alunos de escolas não religiosas independentes apresentaram a menor taxa neste quesito
(47%), enquanto 63% dos alunos de instituições religiosas admitiram colar.”

– - “Os resultados referentes à prática da cola trouxeram grandes disparidades geográficas:


70% dos alunos residentes no sudeste americano admitiram ter colado, em comparação a
64% no oeste, 63% no nordeste e 59% no meio-oeste. Mais de um em cada três alunos
(36%) disseram ter plagiado artigos da internet em trabalhos escolares. Em 2006, esta taxa
era de 33%.”

– - “É PIOR DO QUE PARECE. Ainda que os números sejam preocupantes, eles parecem
subestimar o grau de desonestidade exibido pela juventude norte-americana nos dias de
hoje. Mais de um em cada quatro dos estudantes ouvidos (26%) confessaram ter mentido ao
responder pelo menos uma ou duas questões da pesquisa. Os experts concordam que mentir
em pesquisas é uma tentativa de esconder um mau comportamento. Apesar dos altos níveis
de desonestidade, estes mesmos garotos possuem uma imagem bastante condescendente de
si mesmos quando se trata de ética. Uma maioria esmagadora de 93% declarou estar
satisfeita com sua ética particular e o seu caráter.”

Estes são os garotos que estarão trabalhando por nós nos anos que se aproximam – um bando
charmoso de indivíduos reprováveis. E o fato de eles acharem que são anjos é apenas a cereja do
bolo. Gostaria de agradecer pessoalmente aos movimentos em prol da auto-estima por esta grande
conquista.

Agora, em defesa desta mesmíssima geração, é preciso apontar que talvez o conceito de ética tenha
mudado. Será que não deveríamos rever a gravidade do ato de colar, por exemplo? Claro, praticar
pequenos furtos em estabelecimentos comerciais é de fato um mau sinal do que vem por aí. Mas
nunca estive inteiramente convencido de que dedicamos a abordagem correta à prática da cola ou de
se pegar trabalhos escolares prontos na internet.

Antes de mais nada, os dias das provas sem consulta, com livros fechados, já deveriam ter ficado
para trás há muito tempo. No mundo de hoje, você não vai a lugar nenhum por ter memorizado os
aniversários de Abraham Lincoln ou Cristóvão Colombo. É o tipo de conhecimento que não prova
coisa alguma – e a maior parte das informações que a molecada tradicionalmente escreve nas mãos
(ou, atualmente, mantém em mensagens de texto) para colar mais tarde é deste tipo.

Na maioria das disciplinas, com exceção de matemática ou física, seria muito difícil colar se as
provas fossem concebidas de formas diferentes, mais originais e bem pensadas.

E aqui vai a polêmica: eu acredito que, em virtude da forma como as coisas são concebidas no
sistema escolar (e tem sido assim há décadas), o hábito da cola acaba sendo encorajado. Inclusive,
em alguns casos, colar se torna inevitável. Além disso, qual é o castigo típico para o ato? Um tapa
no pulso e a mensagem implícita que isto traz: “se colar, não seja pego!”
Com isso, os estudantes acabaram desenvolvendo ao longo do tempo técnicas cada vez mais
elaboradas para colar mais e melhor. Quer acabar com a cola? Ponha os alunos numa sala com
divisórias em que eles não consigam enxergar uns aos outros – e, claro, não permita o uso de
celulares. Deste modo, não há mais cola. Se houvesse uma preocupação séria a respeito dos
alarmantes níveis do hábito de colar (como deveria haver), todas as escolas do país teriam salas
como estas para a aplicação de testes.

O plágio também tem sido abordado incorretamente. A internet deveria ser uma ferramenta para
auxiliar os alunos em seus trabalhos escolares. As pessoas deveriam ser encorajadas a pesquisar
material online e adicioná-lo aos seus trabalhos, mas sempre mencionando de onde veio. Em suma,
pegue o que você quiser da rede, mas diga ao seu professor qual foi a fonte e faça comentários em
cima do material que você achou – exatamente como se faz para se comentar num blog. Eu chegaria
até a encorajar os meus alunos a pegar trabalhos inteiros da internet e adicioná-los aos seus, com
críticas – positivas e negativas – a respeito do material garimpado: “Neste estudo, que está
disponível na internet no endereço www.qualquercoisa.com, o autor diz que a guerra foi planejada
secretamente. No entanto, esta outra fonte afirma que não foi bem assim e…” E assim por diante.

Um trabalho hipotético como este, feito de modo criativo e comparativo, levaria com certeza uma
nota 0 se apresentado no sistema escolar atual. Entretanto, métodos como este é que deveriam ser
adotados, pois os alunos aprenderiam muito mais com ele do que aprendem quando tentam
sintetizar num único texto duas palestras e um artigo acadêmico.

Está mais do que na hora de modernizarmos o ensino. Por que os jovens ainda são obrigados a
estudar utilizando métodos do século 19? Por que ainda são forçados a produzir trabalhos escritos
exclusivamente? Por que eles não podem fazer uma apresentação em PowerPoint? Ou criar um
vídeo? Ou um podcast?

Quando algum estudante se arrisca a produzir um trabalho multimídia, acaba conseguindo, no


máximo aparecer no noticiário das oito (não raro, retratado como um tipo meio esquisito). Os
professores nunca sabem o que pensar de uma apresentação nestes moldes e logo todo mundo é
forçado a voltar aos profundos trabalhos escritos de sempre – que raramente se apresentam de fato
profundos ou sequer dignos de serem lidos.

O resultado disso tudo é a cola, o plágio, e isto pode ser exatamente o que dá origem aos demais
comportamentos reprováveis da juventude.

Devo acrescentar também que este tipo de pesquisa, que indica que legiões assustadoras de
estudantes larápios têm sido despejadas no mundo empresarial todos os dias, deveria abordar o tema
sob outros pontos de vistas. Precisamos descobrir exatamente como os garotos que mentem,
enganam e roubam chegam à conclusão de que tudo isso é positivo – a ponto de estarem satisfeitos
com seus valores éticos.

Há algo muito errado neste cenário e eu mais do que ninguém gostaria de saber o que é.

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