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ESPIRITUALIDADE, DIÁLOGO E SOCIEDADE

0. Introdução
a) Mundo atual: pressa em julgar, radicalismos, fundamentalismo
b) Incapacidade de se relacionar com o que é divergente gera segregação,
guetos..
c) a diversidade de pontos de vista é uma riqueza e precisa ser bem
compreendida nas mais diferentes instituições e segmentos da sociedade
– do partido político à empresa, da instituição educacional à religiosa;
d) a chave para superar esses limites e distanciamentos é o diálogo.
Diálogo chave para conhecer o outro e romper preconceitos.
e) «a Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos se possam
sentir acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a
vida boa do Evangelho» (n.º 114).

1. Espiritualidade missionária e diálogo

1.1 Jesus, Missão e diálogo:


A samaritana
5 Assim, chegou a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, perto das terras que
Jacó dera a seu filho José.
6 Havia ali o poço de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço.
Isto se deu por volta do meio-dia[27].
7 Nisso veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: “Dê-me um
pouco de água”.
8 (Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. )
9 A mulher samaritana lhe perguntou: “Como o senhor, sendo judeu, pede a mim,
uma samaritana, água para beber?” (Pois os judeus não se dão bem com os
samaritanos. [28])
10 Jesus lhe respondeu: “Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está
pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva”.
11 Disse a mulher: O senhor não tem com que tirar água, e o poço é fundo. Onde
pode conseguir essa água viva?
12 Acaso o senhor é maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual
ele mesmo bebeu, bem como seus filhos e seu gado?
13 Jesus respondeu: Quem beber desta água terá sede outra vez,
14 mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário, a
água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.
15 A mulher lhe disse: “Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha mais
sede, nem precise voltar aqui para tirar água”.
16 Ele lhe disse: “Vá, chame o seu marido e volte”.
17 “Não tenho marido”, respondeu ela. Disse-lhe Jesus: “Você falou
corretamente, dizendo que não tem marido.
18 O fato é que você já teve cinco; e o homem com quem agora vive não é seu
marido. O que você acabou de dizer é verdade.
19 Disse a mulher: Senhor, vejo que é profeta.
20 Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que
Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.
21 Jesus declarou: Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não
adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém.
22 Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que
conhecemos, pois a salvação vem dos judeus.
23 No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros
adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que
o Pai procura.
24 Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e
em verdade.
25 Disse a mulher: “Eu sei que o Messias (chamado Cristo) está para vir. Quando
ele vier, explicará tudo para nós”.
26 Então Jesus declarou: “Eu sou o Messias! Eu, que estou falando com você”.
27 Naquele momento os seus discípulos voltaram e ficaram surpresos ao
encontrá-lo conversando com uma mulher. Mas ninguém perguntou: “Que
queres saber?” ou: “Por que estás conversando com ela?”
28 Então, deixando o seu cântaro, a mulher voltou à cidade e disse ao povo:
29 “Venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito. Será que ele
não é o Cristo?”
30 Então saíram da cidade e foram para onde ele estava.
[...]
39 Muitos samaritanos daquela cidade creram nele por causa do seguinte
testemunho dado pela mulher: “Ele me disse tudo o que tenho feito”.
40 Assim, quando se aproximaram dele, os samaritanos insistiram em que ficasse
com eles, e ele ficou dois dias.
41 E por causa da sua palavra, muitos outros creram.
42 E disseram à mulher: “Agora cremos não somente por causa do que você
disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do
mundo”.

Paulo: estar com o outro:

20 E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que
estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que
estão debaixo da lei.
21 Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei
para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem
lei.
22 Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para
todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns.
23 E eu faço isso por causa do evangelho, para ser também participante dele.
(1 Cor. 9, 20-23)

Ad Gentes 11: Assim como o próprio Cristo perscrutou o coração


dos homens e por meio da sua conversação verdadeiramente
humana os conduziu à luz divina, assim os seus discípulos,
profundamente imbuídos do Espírito de Cristo, tomem
conhecimento dos homens no meio dos quais vivem, e conversem
com eles, para que, através dum diálogo sincero e paciente, eles
aprendam as riquezas que Deus liberalmente outorgou aos povos;

Somente através do diálogo inter-religioso e intercultural um missionário pode


apalpar o outro, o desconhecido, onde a Igreja ainda não chegou, nem Cristo foi
anunciado ou compreendido. A permanente dinâmica de dar e receber deve
prevalecer. Somente quando você se aproxima, enxerga a beleza do outro, admira o
diferente. Devemos ter a mesma reciprocidade com o mundo em que vivemos. O
missionário deve facilitar e ajudar nesse diálogo.

1.3 De saída...

2. O diálogo intraeclesial

No essencial, a unidade; no não essencial, a liberdade e, em tudo, o amor


Sto Agostinho.

A diversidade na Igreja:
Unitatis Redintegratio, 4. Guardando a unidade nas coisas necessárias, todos na Igreja, segundo
o múnus dado a cada um, conservem a devida liberdade tanto nas várias formas de vida espiritual
e de disciplina, como na diversidade de ritos litúrgicos e até mesmo na elaboração teológica da
verdade revelada. Mas em tudo cultivem a caridade. Por este modo de agir, manifestarão sempre
melhor a autêntica catolicidade e apostolicidade da Igreja.

3. O diálogo inter-religioso

Unitatis Redintegratio 4: Por «movimento ecuménico» entendem-se as actividades e


iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e
oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro,
todos os esforços para eliminar palavras, juízos e acções que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem
à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o «diálogo»
estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas
em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta
com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais
verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão.

Ateus. Gaudium et spes, 21,: Ainda que rejeite inteiramente o ateísmo, todavia a Igreja proclama
sinceramente que todos os homens, crentes e não-crentes, devem contribuir para a recta
construção do mundo no qual vivem em comum. O que não é possível sem um prudente e
sincero diálogo. Deplora, por isso, a discriminação que certos governantes introduzem entre
crentes e não-crentes, com desconhecimento dos direitos fundamentais da pessoa humana. Para
os crentes, reclama a liberdade efectiva, que lhes permita edificar neste mundo também o templo
de Deus. Quanto aos ateus, convida-os cortêsmente a considerar com espírito aberto o
Evangelho de Cristo

Evangelii Gaudium:

250. Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os
crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo
particular os fundamentalismos de ambos os lados. Este diálogo inter-religioso é uma
condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos
e também para outras comunidades religiosas. Este diálogo é, em primeiro lugar, uma
conversa sobre a vida humana ou simplesmente – como propõem os Bispos da Índia –
«estar aberto a eles, compartilhando as suas alegrias e penas».[194] Assim aprendemos
a aceitar os outros, na sua maneira diferente de ser, de pensar e de se exprimir. Com
este método, poderemos assumir juntos o dever de servir a justiça e a paz, que deverá
tornar-se um critério básico de todo o intercâmbio. Um diálogo, no qual se procurem a
paz e a justiça social, é em si mesmo, para além do aspecto meramente pragmático, um
compromisso ético que cria novas condições sociais. Os esforços à volta dum tema
específico podem transformar-se num processo em que, através da escuta do outro,
ambas as partes encontram purificação e enriquecimento. Portanto, estes esforços
também podem ter o significado de amor à verdade.

251. Neste diálogo, sempre amável e cordial, nunca se deve descuidar o vínculo essencial
entre diálogo e anúncio, que leva a Igreja a manter e intensificar as relações com os não-
cristãos.[195] Um sincretismo conciliador seria, no fundo, um totalitarismo de quantos
pretendem conciliar prescindindo de valores que os transcendem e dos quais não são
donos. A verdadeira abertura implica conservar-se firme nas próprias convicções mais
profundas, com uma identidade clara e feliz, mas «disponível para compreender as do
outro» e «sabendo que o diálogo pode enriquecer a ambos».[196] Não nos serve uma
abertura diplomática que diga sim a tudo para evitar problemas, porque seria um modo
de enganar o outro e negar-lhe o bem que se recebeu como um dom para partilhar com
generosidade. Longe de se contraporem, a evangelização e o diálogo inter-religioso
apoiam-se e alimentam-se reciprocamente.[197]

Diálogo com os ateus:

Evangelii Gaudium, 257. Como crentes, sentimo-nos próximo também de todos aqueles
que, não se reconhecendo parte de qualquer tradição religiosa, buscam sinceramente a
verdade, a bondade e a beleza, que, para nós, têm a sua máxima expressão e a sua fonte
em Deus. Sentimo-los como preciosos aliados no compromisso pela defesa da
dignidade humana, na construção duma convivência pacífica entre os povos e
na guarda da criação. Um espaço peculiar é o dos chamados novos Areópagos, como o
«Átrio dos Gentios», onde «crentes e não-crentes podem dialogar sobre os temas
fundamentais da ética, da arte e da ciência, e sobre a busca da
transcendência».[204] Também este é um caminho de paz para o nosso mundo ferido.

4. O diálogo com o mundo e a sociedade


"A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se
palavra, a Igreja toma-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo" (Enc. Ecclesiam
suam, 67).

4.1 As repercussões comunitárias e sociais do querigma


Confissão da fé e compromisso social
Confessar um Pai que ama infinitamente cada ser humano implica descobrir que «assim
lhe confere uma dignidade infinita».[141] Confessar que o Filho de Deus assumiu a nossa
carne humana significa que cada pessoa humana foi elevada até ao próprio coração de
Deus. Confessar que Jesus deu o seu sangue por nós impede-nos de ter qualquer dúvida
acerca do amor sem limites que enobrece todo o ser humano. A sua redenção tem um
sentido social, porque «Deus, em Cristo, não redime somente a pessoa individual, mas
também as relações sociais entre os homens».

A inclusão social dos pobres

ORAÇÃO FINAL

Virgem e Mãe Maria,


Vós que, movida pelo Espírito,
acolhestes o Verbo da vida
na profundidade da vossa fé humilde,
totalmente entregue ao Eterno,
ajudai-nos a dizer o nosso «sim»
perante a urgência, mais imperiosa do que nunca,
de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.

Vós, cheia da presença de Cristo,


levastes a alegria a João o Baptista,
fazendo-o exultar no seio de sua mãe.
Vós, estremecendo de alegria,
cantastes as maravilhas do Senhor.
Vós, que permanecestes firme diante da Cruz
com uma fé inabalável,
e recebestes a jubilosa consolação da ressurreição,
reunistes os discípulos à espera do Espírito
para que nascesse a Igreja evangelizadora.

Alcançai-nos agora um novo ardor de ressuscitados


para levar a todos o Evangelho da vida
que vence a morte.
Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos
para que chegue a todos
o dom da beleza que não se apaga.

Vós, Virgem da escuta e da contemplação,


Mãe do amor, esposa das núpcias eternas
intercedei pela Igreja, da qual sois o ícone puríssimo,
para que ela nunca se feche nem se detenha
na sua paixão por instaurar o Reino.

Estrela da nova evangelização,


ajudai-nos a refulgir com o testemunho da comunhão,
do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres,
para que a alegria do Evangelho
chegue até aos confins da terra
e nenhuma periferia fique privada da sua luz.

Mãe do Evangelho vivente,


manancial de alegria para os pequeninos,
rogai por nós.

Amen. Aleluia!