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A mediação cultural como suporte da arte enquanto espelho simbólico.

Caroline Silva Souza 1

Resumo

O presente artigo busca explanar o papel da Mediação Cultural enquanto


exercício possibilitador de maior fluidez dos diálogos artísticos em um espaço de
fruição. Como objeto de estudo, será utilizada a experiência de mediação em um espaço
conhecido como Acervo da Laje, localizado na cidade de Salvador – Bahia, cuja gênese,
fundamentada em aspectos sociais, é profundamente ligada à atividades mediadoras.

Palavras-chave: Mediação Cultural; Acervo da Laje; Arte na periferia; Terceira Bienal


da Bahia.

Introdução

A palavra Mediação significa intervir, estar presente no instante da culminação


de algo, do encontro, do choque. Já a palavra Cultura carrega não só a significação
figurada do trabalho intelectual, mas também significações relacionadas ao cultivo e
operações necessárias para que a terra produza. O cruzamento de todos esses sentidos
revela a essência da chamada Mediação Cultural, especialmente daquela presente no
Acervo da Laje desde o seu início – pautada na intervenção e preservação da cultura,
intelectual, de sua terra – Salvador.

1
Graduada em Artes pela Universidade Federal da Bahia e graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela
mesma universidade. E-mail: 6carolinesouza@gmail.com
A experiência do Acervo da Laje durante a Terceira Bienal de Artes Plásticas da
Bahia2.

Um espaço que a princípio fora desenvolvido para abrigar elementos da


produção artística e cultural produzidos no Subúrbio Ferroviário de Salvador (SFS) o
Acervo da Laje atualmente recebe, paulatinamente, obras artísticas das mais variadas
partes do Brasil. Localizado no bairro São João do Cabrito, o acervo é uma iniciativa do
mestre em psicologia, pedagogo e pesquisador cultural, José Eduardo Ferreira Santos. O
pesquisador afirma que o Acervo da Laje tem como proposta social a reconstrução do
mosaico simbólico da periferia de Salvador, de maneira a restituir dignidade, cultura,
acesso às obras de arte e à beleza (SANTOS, 2014).

O SFS é uma área na metrópole soteropolitana formada por 22 bairros com vasto
histórico de abandono por parte de autoridades políticas carente de políticas de
intervenção dentro da cidade em que estão inseridos, ou seja, trata-se de uma área
historicamente posta às margens da grande Salvador, onde pontos negativos há anos em
evidencia acabam por impedir o dialogo desta com demais áreas da cidade – afastando-a
– tornando este um território que está ali, mas não é visualizado, como se não
correspondesse a uma realidade sensível.

Neste bojo nasce, a partir de 2009, a pesquisa etnográfica “Arte invisível dos
trabalhadores e a beleza das periferias de Salvador”. À frente desse trabalho, estavam o
professor e pós-doutor em Cultura Contemporânea José Eduardo Ferreira Santos e o
fotógrafo Marco Iluminatti. A pesquisa, não acadêmica e custeada pelos próprios
pesquisadores, teve por objetivo revelar aspectos positivos que compõem o Subúrbio
Ferroviário de Salvador que são frequentemente sobrepujados pela pobreza e violência
que apesar de se fazer presente, não anula a possibilidade de beleza daquele lugar, por
vezes evidenciada através das produções artísticas e culturais de qualidade. Nesse
ínterim, José Eduardo passou a colecionar obras de artistas residentes no SFS e, da
reunião das produções artísticas desses profissionais, é originado em 2011 o Acervo da
Laje.

2
Após o fechamento da 2ª Bienal de Artes Plásticas da Bahia pelo regime militar, o Museu de Arte
Moderna da Bahia (MAM-BA), junto a Secretaria de Cultura do Estado (SECULT-BA), lançou a 3ª
Bienal da Bahia, que aconteceu entre os dias 29 de maio e 07 de setembro de 2014, quebrando então o
intervalo de 46 anos desde a sua segunda edição.
A origem do nome Acervo da Laje faz referência ao fato de todo o conjunto
patrimonial ou acervo, estar localizado na Laje de uma residência. Por conta da
localização do acervo – uma residência familiar, a recepção de visitas funciona de
maneira diferente de muitos espaços expositivos, ocorrendo principalmente através de
agendamento, via e-mail ou por telefone. No entanto, essa dinâmica fora quebrada
durante a Terceira Bienal da Bahia que, entre 11 de junho a 07 de setembro de 2014,
enviou ao acervo duas Mediadoras Culturais e uma Guarda De Acervo.

Os quarenta e dois dias de bienal no Acervo da Laje contabilizou 3.045 visitas


ao espaço que, aberto ao público durante cinco dias na semana – das 9 às 17, recebia
visitas de maneira cada vez mais crescente sendo que a grande maioria dessas visitas
eram moradores de variados pontos das áreas periféricas de Salvador, sobretudo do
próprio bairro onde está o Acervo da Laje que, por se sentirem abraçadas e animadas
com aquela novidade, divulgavam, em paralelo a jornais televisivos, redes sociais e sites
da internet, o que estava acontecendo no bairro, ou seja, adicionar o trabalho de
Mediação Cultural à rotina do espaço proporcionou ainda mais visibilidade, ao projeto
do professor José Eduardo.

A participação da Mediação Cultural na circulação e fluidez do sistema cultural


é bem explanada pelo professor Leonardo Costa, que se baseando em estudos e
experiência francesa relacionada a atividades profissionais no âmbito cultural, explica
que, historicamente a produção e recepção de objetos culturais têm os mediadores como
conjunto de intermediários pelos quais as obras ou objetos poderiam se tornar
conhecidos e compreendidos. Mas temos uma crescente distinção social da organização
da cultura, reflexos do processo de complexidade das relações humanas e produtivas
que resultou numa maior divisão social do trabalho, momento no qual carecemos de um
“mediador” para este sistema (COSTA, 2011).

[…] Podemos entender esse mediador como aquele


profissional que na cadeia produtiva da cultura trabalha com
diversas linguagens, sabendo dialogar com as fontes de
financiamento, os artistas e os públicos, para que tenhamos
algum movimento na área cultural. De fato, essa figura faria
uma mediação por estar envolta de diversos atores diferentes
que de algum modo precisam entrar em comunhão num
momento (COSTA-LEONARDO, 2011, p. 39).

Baseado nesta abordagem de Costa pode-se analisar que, a prática da Mediação


Cultural não chegou ao Acervo da Laje com a Terceira Bienal da Bahia, mas que a ele –
o Acervo da Laje – estava atrelada por essência, uma vez que esse espaço nasceu não só
como meio de recuperação da memória artística do Subúrbio Ferroviário de Salvador,
mas também como mediador entre pessoas de qualquer parte do mundo e a arte
produzida no SFS. Quer dizer, o Acervo da Laje existia, se mantinha viva e producente
antes da chegada da bienal, no entanto, exercia a mediação à sua maneira; a nova
dinâmica trazida com o evento estadual – bienal – através de diferentes atividades
mediadoras, propiciou outra maneira, até então inédita naquele espaço, de alcançar
novos públicos, e provocar relações e diálogos entre estes, as obras ali reunidas, os
artistas, produtores e cada ideia originadora daquela conjuntura.

“A visita ao acervo foi de suma importância. Os educandos


ficaram encantados em ver e conhecer de perto o acervo. Ali
puderam ver o outro lado da comunidade, que mostra a
beleza escondida. Entenderam que a comunidade não tem só
o lado negativo. Eles ficaram tão radiantes! Isso porque
foram instigados a fazer várias perguntas sobre as fotografias
e as artes em geral. Ficaram a vontade para fazer
questionamentos. O acervo é uma importante fonte de
pesquisa”.
Iraildes Souza, professora do projeto MOVA-BRASIL ao descrever a reação
dos seus alunos.

O trabalho conjunto das pessoas envolvidas diretamente com o Acervo da Laje –


pesquisador, sua família e amigos – atreladas às pessoas relacionadas à bienal, mais as
visitas, gerou resultados que fizeram repercutir a importância daquele ambiente de
valorização artística e de fomentação cultural por várias partes da cidade. Ou seja, todas
as partes envolvidas no processo de fruição de arte no Acervo da Laje comunicavam-se,
interagiam entre si e, sendo a comunicação um sustentáculo durante o processo, o
resultado fora uma Mediação Cultural com aspecto menos instrutivo e mais interativo.
Enquanto o Acervo da Laje seguia reunindo a materialização da cultura baiana sob o
olhar dos artistas do Subúrbio Ferroviário de Salvador, as mediadoras culturais davam
ideias, acompanhamento e suporte para maior diálogo e envolvimento do indivíduo com
as obras. No período em que ali permaneceram, as mediadoras auxiliaram e fomentaram
diversas atividades para apropriação e reverberação de cultura, sendo algumas
atividades:

 O primeiro Bate Papo na Laje, em 26 de julho de 2014. O curador-chefe da


bienal foi até o Acervo da Laje discutir, juntamente com José Eduardo e alguns
artistas do subúrbio como Ray Bahia e Perinho Santana;
 Em 22 de agosto de 2014 a oficina de Samba de Roda e Culturas Populares
acompanhado de aprendizagem sobre roda, os instrumentos e o samba com a
artista Natureza França e parte do projeto Bate Papo na Laje;
 Em 09 de agosto a oficina itinerante de desenho ministrada pela professora Olga
Gómez chega à bienal.

Sabendo da realidade de que as áreas periféricas da cidade de Salvador é conhecida


por abrigar muitas pessoas que, geralmente permanecem distantes inclusive do circuito
artístico soteropolitano, o professor e idealizador do Acervo da Laje explica que isso
acontece por diversas questões, entre elas, a pobreza que as obriga a lidar com
problemáticas ligadas ao aqui e agora das situações – a falta de dinheiro que ao
lançarem-nas em situações críticas, acabam por privá-las da beleza e da arte, pois esses
aspectos da vida acabam por ser excedente, luxo, que a essas pessoas foi e é negado a
todo tempo já que esses indivíduos são levados a escolher o que consumirão: arte ou
comida (SANTOS, 2014). No entanto, essa realidade conflituosa não reprimiu a
produção artística naquela localidade. Uma vez que infortúnios da vida geram diferentes
respostas, a luta pela sobrevivência origina reações criativas e materializações
resultantes das necessidades cotidianas logo, na autêntica materialização das
necessidades é forte a presença da ideia de utilidade e necessidade, por consequência,
ocorre a afirmação da identidade local, agora visível, palpável, sensível.

A autenticidade da elaboração estética nascida da realidade de um determinado


território, cuja matéria prima é pedaços de lugar, como madeira, argila ou ferro, ganha
fundamento no conceito de aura, teorizado pelo filósofo Walter Benjamin. Benjamim
defende que a autenticidade de uma obra de arte está sujeita a sua materialidade, as suas
marcas deixadas a partir do desenrolar de sua história e, por fim, as relações de
propriedade que envolve essa obra. Para ele, a partir do momento em que ocorre
reprodução da obra, o testemunho cravado no substrato original desta perde-se – o
autêntico é embaçado e, esse processo repleto de perdas, termina com o sacrifício do
peso tradicional da obra de arte. Portanto, a obra de arte de caráter aurático é a única
que não pode ser reproduzida (BENJAMIN, 1987). O conceito de aura descrito por
Benjamim é constantemente potencializado no Acervo da Laje, uma vez que as obras,
em sua maioria não passam por nenhuma reprodutibilidade técnica, sendo resultados do
fazer manual.

Conclusão

Em suma, o Acervo da Laje está estabelecido como espaço de fruição legítimo e


autêntico, onde cada obra presente funciona como partes formadoras de um espelho
simbólico – reflexo de cada personagem quando este a encara, ao entrar em contato com
esses fragmentos que transcendem a condição de objeto e tornam-se símbolos daquele
lugar e daquelas pessoas, refletindo-as.
Referências

BENJAMIN, Walter. "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica". In:
Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1987.

COSTA, Leonardo F. Um estudo de caso sobre a mediação cultural. Disponível em


<http://www.cult.ufba.br/enecult2009/19356.pdf> Acesso em 15 de agosto de 2015

SANTOS, J. E. F. Acervo da Laje: Memória estética e artística do Subúrbio


Ferroviário de Salvador, Bahia. 1. ed. São Paulo: Scortecci, 2014.