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CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. TOMBAMENTO.

INSTALAÇÃO DE
BARRACAS E SIMILARES EM PRAÇAS PÚBLICAS DO MUNICÍPIO DE PETRÓPOLIS. IMPEDIMENTO
OU REDUÇÃO DA VISIBILIDADE DOS BENS TOMBADOS. AUTORIZAÇÃO PRÉVIA DO IPHAN.
NECESSIDADE. ART. 18, DECRETO-LEI Nº 25, DE 30.11.1937. RECURSO DESPROVIDO. - Trata-se
de apelação cível alvejando sentença que, em sede de ação civil pública, ajuizada pelo
Ministério Público Federal em face do Município de Petrópolis julgou procedentes os pedidos
sob o fundamento de que o IPHAN é o órgão competente para autorizar a realização de
construções e modificações relacionadas aos bens tombados, com base no art. 18 do Decreto-
lei nº 25/37. - Conforme se depreende dos autos, o Município réu, quando do Festival de
Inverno de Petrópolis, instalou barracas, balões promocionais e outras estruturas em praças da
cidade que são objeto de tombamento. Em ofício de fls. 12, o IPHAN informa que as
instalações ocorreram sem que fossem encaminhados os pedidos de autorização, razão pela
qual a autarquia embargou algumas dessas construções. Com base em tais informações, o
Ministério Público Federal encaminhou ao réu a Recomendação de fls. 14, tendo o Município
silenciado a respeito. - A questão central para a solução da lide consiste na análise do disposto
no art. 18, do Decreto-Lei nº 25/37, que trata da organização e da proteção do Patrimônio
Histórico Brasileiro. - O referido dispositivo legal tem por objetivo proteger a visibilidade da
coisa tombada, preservando a área a ela vizinha. No particular, vale citar o ensinamento de
Paulo Affonso Leme Machado, quando destaca, na obra Direito Ambiental Brasileiro, que “o
monumento histórico, artístico ou natural ensina pela presença e deve poder transmitir uma
fruição estética mesmo de longe”, acrescentando que “não só o impedimento total da
visibilidade está vedado, como a dificuldade ou impedimento parcial de se enxergar o bem
protegido”. (in Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 13º Edição, 2005, p. 949) -
Dessa forma, para se verificar a necessidade da referida autorização, não cabe diferenciar,
como pretende o réu, as construções permanentes das temporárias, uma vez que o objetivo
da norma é resguardar a visibilidade do bem tombado, a fim de que todos a ele tenham acesso
e de que seja preservada a atmosfera ambiental e urbana que confere sentido ao bem
tombado. - Com efeito, segundo o art. 215 da Constituição da República, cabe ao Estado
garantir o acesso às fontes de cultura nacional. Por sua vez, o art. 216 do texto constitucional,
em seu inciso IV, inclui no conceito de patrimônio cultural brasileiro “as obras, objetos,
documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais.”
Nesse sentido o doutrinador acima mencionado ensina que o uso do vocábulo manifestação
deve ser traduzido no “posicionamento jurídico da obrigação de divulgar a cultura ou tudo que
integra o patrimônio cultural, tornando-o acessível a todos.”, concluindo que tal patrimônio
não deve ser “escondido, não classificado, não exposto”. (in Direito Ambiental Brasileiro. São
Paulo: Malheiros, 13º Edição, 2005, p. 949) - Para que esse objetivo se concretize, o
tombamento requer um regime jurídico especial de propriedade, levando-se em conta sua
função social. Tal regime, previsto no aludido Decreto 25/37, institui limitações para os
proprietários de bens tombados, dentre as quais se enquadra a necessidade de autorização do
órgão competente, que, na esfera federal, por força do Decreto 2.807/98, é o IPHAN,
caracterizado como autarquia mediante a Lei 8.113/90, art. 1º. - Em face da especialidade
desse regime, não merece prosperar também a alegação do réu de que a exigência de
autorização prévia viola a independência dos poderes, na medida que permitiria interferência
na discricionariedade municipal, retirando do ente federativo prerrogativas decorrentes de seu
poder de polícia. Na verdade, não se trata de impedir quaisquer construções, permanentes ou
não, mas de se exigir, em conformidade com a proteção conferida aos bens tombados, que
aquelas sejam feitas após a devida autorização. - Assim, ao instalar barracas e similares nas
praças tombadas, o Município, mesmo visando ao bem-estar coletivo, tem o dever
constitucional de preservar e promover o adequado acesso aos aspectos históricos que tais
imóveis possuem enquanto fontes de cultura nacional. Os objetivos buscados pelo ente
federativo, quando promove eventos que demandam tais construções, devem ser conciliados
com a preservação de valores culturais que não se restringem apenas aos interesses locais,
mas que, por força do tombamento, fazem parte do patrimônio cultural brasileiro. - Pelo
exposto, é forçoso concluir que as instalações realizadas ou autorizadas pelo Município réu em
praças públicas tombadas não podem ter o condão de impedir ou reduzir a visibilidade, ainda
que temporariamente, dos bens históricos nelas localizados, cabendo ao IPHAN manifestar-se
previamente sobre tais atividades. - Apelação desprovida.

(TRF-2 - AC: 413308 RJ 2005.51.06.000047-4, Relator: Desembargadora Federal VERA LUCIA


LIMA, Data de Julgamento: 30/04/2008, QUINTA TURMA ESPECIALIZADA, Data de Publicação:
DJU - Data::09/05/2008 - Página::783)

AGRAVO DE INSTRUMENTO. REGISTRO DE IMÓVEL RURAL. RESERVA LEGAL. INEXISTÊNCIA DE


FLORESTA OU VEGETAÇÃO NATIVA. NECESSIDADE DE AVERBAÇÃO. DIREITO DE PROPRIEDADE.
FUNÇÃO SOCIAL. MEIO AMBIENTE. PREVALÊNCIA DO INTERESSE COLETIVO. A exigência de
destinação de reserva legal gera constrição ao direito de propriedade, reduzindo, no imóvel
rural, a área de produção agrícola. Contudo, o que se deve preconizar, na análise da matéria, e
a função sócio-ambiental da propriedade, fazendo-se uma releitura da Lei nº 4.771/64 à luz da
CR/88, devendo-se interpretar as normas de proteção ao meio ambiente da forma mais
abrangente possível, não restringindo onde o legislador não o fez expressamente. Não há se
falar em destinação da reserva legal apenas em imóveis rurais nos quais ainda haja floresta ou
vegetação nativa, visto que, a instituição da reserva legal busca ampliar as áreas de uso
sustentável dos recursos naturais, a conservação e reabilitação dos processos ecológicos, a
conservação da biodiversidade e a proteção da fauna e flora nativas, pouco importando se há,
na área, vegetação original ou não. V.V.P.

(TJ-MG 103430700015510011 MG 1.0343.07.000155-1/001(1), Relator: MOREIRA DINIZ, Data


de Julgamento: 12/03/2009, Data de Publicação: 31/03/2009)

"PROCESSO CIVIL - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - REFORMA AGRÁRIA - ASSENTAMENTO - LICENÇA


AMBIENTAL - LEI Nº 6.938/81 E RESOLUÇÃO Nº 289/2001 DO CONAMA - IMPOSSIBILIDADE DE
O INCRA REALIZAR ATIVIDADES DIRIGIDAS AO ASSENTAMENTO DE NOVAS FAMÍLIAS - TERMO
PRELIMINAR DE COMPROMISSO - SUBSTITUIÇÃO DAS FAMÍLIAS - IMPEDIMENTO. I - A ação
civil pública é o instrumento processual adequado para reprimir ou impedir danos ao meio
ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e
paisagístico, infrações à ordem econômica, à ordem urbanística e à defesa da economia
popular. Seu objetivo é obter a condenação em dinheiro ou o cumprimento de obrigação de
fazer ou não fazer. II - Pretende o Ministério Público Federal impor ao INCRA uma obrigação de
não fazer consistente em não dar andamento ao procedimento de assentamento de famílias
na área da Fazenda São Luiz, localizada no município de Cajamar, Estado de São Paulo,
enquanto não expedida a licença ambiental pelo órgão competente. III - O patrimônio visado
pela ação, qual seja, a preservação do meio ambiente, tem natureza supraindividual e está
consagrado na Constituição da República como essencial à sadia qualidade de vida (art. 225). A
função social da propriedade também encontra respaldo na Carta Magna (art. 186),
inexistindo, portanto, qualquer sobreposição de direitos. Ao contrário, devem ser
interpretados conjuntamente, de forma harmônica entre si e com os demais direitos previstos
no ordenamento jurídico. IV - Há inegável possibilidade de se utilizar imóvel rural que não
esteja cumprindo a sua função social para fins de reforma agrária, todavia, hão que ser
respeitadas normas e procedimentos, notadamente aqueles relacionados a outros direitos
coletivos, como é o caso do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Nesse
desiderato, a Resolução nº 289/2001 do CONAMA (revogada pela Resolução nº 387/2006)
estabelece que para os casos de assentamento decorrente de reforma agrária é necessária a
prévia apresentação da licença ambiental (art. 3º, § 2º), não sendo facultado ao Poder Público
iniciar o procedimento para assentamento de famílias sem que possua a licença. V - No caso
em apreço, é fato incontroverso que o INCRA iniciou o procedimento sem ter obtido a certidão
junto ao órgão competente. Diante dos interesses envolvidos, no curso da ação foi celebrado
perante o E. Juízo um Termo Preliminar de Compromisso no qual a autarquia federal se
comprometia, dentre outras providências, a prover junto ao Departamento de Análise de
Impacto Ambiental (DAIA) as licenças prévia e definitiva e a manter as famílias já beneficiárias
pela reforma agrária dentro de uma área de 20 (vinte) hectares. VI - A saída, voluntária ou não,
de algumas famílias que lá se encontravam não dá ao INCRA o direito de promover a inclusão
de outras, vez que não se trata de uma simples questão numérica. O Termo Preliminar de
Compromisso não garantiu ao INCRA o direito de manter 37 famílias na propriedade, mas tão
só o de manter as famílias já beneficiadas ("ora acampadas", segundo cláusula terceira), o que
não enseja o pretendido direito de substituição, ainda mais se considerado que o provimento
que antecipou a tutela, não recorrido, vedou a autarquia de promover qualquer ato
direcionado a novos assentamentos. VII - Também há que se considerar que se à época do
Termo Preliminar de Compromisso havia a expectativa de que a licença ambiental seria
expedida, atualmente a situação não é mais a mesma porque o DAIA já a indeferiu. Logo, sem
a devida licença ambiental não pode o INCRA dar início ao projeto de assentamento de
reforma agrária. VIII - Não é o caso de se determinar, por ora, a retirada das famílias já
assentadas, uma vez que, ao que consta dos autos, a licença ambiental somente não foi
expedida por questões formais, mais especificamente pela ausência de uma certidão
municipal. Consta ainda dos autos que o INCRA já impetrou mandado de segurança (MS nº
2007.61.00.004849-1) para suprir eventual omissão do município, não tendo havido, ainda,
pronunciamento judicial definitivo. Portanto, seria incôngruo e anacrônico determinar a
retirada de 32 famílias, arcando o Poder Público com todos os encargos materiais e sociais daí
advindos, enquanto ainda existe a possibilidade de obtenção da licença ambiental. Enquanto
essa situação não é resolvida, as 32 famílias que já ocupam área da fazenda devem lá
permanecer, não havendo, porém, qualquer direito de substituição ou de assentamento de
outras. IX - Apelação e remessa oficial improvidas."

(TRF-3 - APELREE: 12653 SP 2006.61.05.012653-5, Relator: DESEMBARGADORA FEDERAL


CECILIA MARCONDES, Data de Julgamento: 20/08/2009, TERCEIRA TURMA)