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Boletim 45 / dezembro 2009 1

BOLETIM DA CMF Nº 45 DEZEMBRO 2009 ISSN: 1516-1781


SUMÁRIO

Editorial ............................................................................................................................................ 2

Santa Barbara no Tambor de Mina ...................................................................................................... 2


Mundicarmo Ferretti

Projeto Natal 2009 .............................................................................................................................. 3


SCP/SECMA

No rastro do Tambor de Mina da Casa de Nagô .................................................................................. 4

Reisado Careta: uma visão da brincadeira ............................................................................................ 5


Paloma Sá de Castro Cornélio

Bambaê: subsídios para a história de um baile popular ......................................................................... 9


Adriana, João Paulo e Menzair

O movimento e o gesto na dança do Tambor de Mina ....................................................................... 13


Patricia Karla M. Mota

Jurema, õ Juremê Juremá ................................................................................................................... 16


Mundicarmo Ferretti

JANELA DO TEMPO – O Baralho vai passar .................................................................................. 17


Nonnato Masson

RESUMOS E RESENHAS: Monografias, dissertações e teses defendidas ....................................... 17


GPMina

NOTICIAS – Roza Santos ................................................................................................................................ 18

PERFIL POPULAR: Prenda de valor – dona Jaci ............................................................................. 20


Keyla Santana

COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE - CMF


CNPJ 00.140.658/0001-07 CONSELHO EDITORIAL EDIÇÃO
rlos Orlando de Lima
Carlos
Ca Mundicarmo M.R. Ferretti
DIRETORIA 2009-2011 L enir PPereira
ereira dos SS.. Oliveira Roza Maria dos Santos
Presidente: Lenir Pereira dos S. Oliveira Maria Michol PP.. de Carvalho
Vice-presidente: Maria da Glória G. Correia DIAGRAMAÇÃO:
1ª Secretário: Nizeth Aranha Medeiros Mundicarmo M.R. Ferretti
Riba Silva
2ª Secretário: Mundicarmo M. R. Ferretti Roza Maria dos Santos
1ª Tesoureiro: Eliane Gaspar Leite Sergio Figueiredo Ferretti VERSÃO INTERNET:
2ª Tesoureiro: Roza Maria dos Santos Zelinda de Castro Lima www
w.. c m f o l c l o r e . u f m a . b r

Correspondência
As opiniões publicadas em
COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE
CASA DE NHOZINHO artigos assinados são de
Rua PPortugal,
ortugal, 185 – PPraia
raia Grande inteira responsabilidade de
CEP 65010-480 – São Luís-Maranhão seus autores, não comprome-
Fone: (0xx98) 3218-9952; (0xx98) 3218-9951 tendo a CMF
2 Boletim 45 / dezembro 2009

Editorial SANTA BARBARA NO


O numero 45 do Boletim da
Comissão Maranhense de Folclore
elegeu como temo tema central a
TAMBOR DE MINA
Mundicarmo Ferretti1
religiosidade popular. Começa com uma
noticia do culto a Santa Barbara nos Santa Bárbara,
terreiros de São Luis e com a
festejada no calendá-
programação natalina da SECMA,
elaborada pela Superintendência de
rio católico no dia 4
Cultura Popular para o período de 07 de de dezembro, tem
Dezembro a 06 de Janeiro, com múltiplas grande importância
atividades em vários pontos da capital. nas religiões afro-bra-
Noticia, a seguir, o lançamento de sileiras devido a sua
importante estudo fotográfico e histórico associação a Iansã –
da Casa de Nagô coordenado pelo entidade guerreira,
fotógrafo Marcio Vasconcelos e esposa do orixá Xan-
participado pelo jornalista Paulo Melo gô, que reina sobre os
Sousa e pela antropóloga Mundicarmo
ventos e as tempesta-
Ferretti.
Mudando o foco para o interior, o
des. No Maranhão,
Boletim 45 apresenta um texto de Paloma onde é invocada
Cornélio sobre o Reisado Careta de Caxias como padroeira do
baseado em dissertação de mestrado por Tambor de Mina e do
ela defendida na UFMA no ano de 2009. Terecô, abre o calen-
Traz em seguida um estudo realizado em dário litúrgico, daí
Penalva, por três universitários, sobre o porque na noite de 4
Bambaê - uma dança de caixa ligada a Festa de dezembro cente-
do Espírito Santo -, durante estagio nas de tambores eco-
extracurricular na Superintendência de
am até altas horas.
Cultura Popular: Adriana Nascimento,
João Paulo Soares Junior e Menzair
Segundo a pesquisa-
Azevedo. dora Rosário Carva-
Continuando na tematica lho, grande conhece-
religiosidade popular maranhense, o dora das tradições re-
Boletim 45 divulga um trabalho de ligiosas de matriz
Patrícia Mota sobre a dança do Tambor africanas no Mara- Museu de São Bento - Salvador-BA

de Mina, baseado em pesquisa realizada nhão, no Terreiro de


na Casa Fanti-Ashanti e um texto de
Mamãe das ondas do mar
Belém, no antigo bairro do Apea- Ô Bárbara vem rolando no rolo do mar
Mundicarmo Ferretti sobre cabocla douro, Vó Severa iniciava o toque
Jurema.. Ô lá vem Barbara nas ondas do mar
de mina cantando para Santa Bár- Ô Bárbara vem rolando no rolo do mar
Em “Perfil Popular”, Keila Santana
apresenta Dona Jaci, caixeira-régia do
bara e para Maria Barba Soeira as
Divino Espírito Santo na Casa das Minas doutrinas apresentadas a seguir: Raiou mamãe Bárbara (bis).
e de muitas outras Festas do Divino em
São Luís. Na seção “Noticias” foi Oh mãe da casa De acordo com a mesma pesquisa-
registrada a realização em São Luís, entre Ajunta teu povo dora2, Vó Severa foi dançante da cen-
os meses de Setembro e de Dezembro, de Mamãe da casa tenária Casa de Nagô e do seu terreiro
vários eventos na área de cultura por Ajunta teu povo saíram importantes mães-de-santo ma-
instituições governamentais e não ranhenses como: Maximiana, que re-
governamentais. E, em “Resumos e Divina Santa Bárbara cebeu, em 1938, em seu terreiro do João
Resenhas”, o Boletim 45 da CMF divulga Paulo, a Missão de Pesquisa Folclóri-
Venha ver seu mundo, ai céu,
dois trabalhos acadêmicos defendidos ca, criada em São Paulo por Mario de
sobre reisado, a dissertação de Paloma
Venha ver seu mundo
Andrade, e Maria Lopes, fundadora do
Cornélio e a monografia de Flavia E olha vem na carreira
Terreiro da Trindade (as tres já faleci-
Andresa Menezes, e a dissertação de Venha ver seu mundo, ai céu, das), que preparou o conhecido pai-de-
mestrado de Juliana Manhãs sobre Venha ver seu mundo santo João Gualberto, o Joãozinho da
bumba-meu-boi. Na seção “Janela do Vila Nova, que realiza uma bonita fes-
Tempo”, abrindo a temporada Bárbara Soeira, ta para Santa Bárbara e Barbara Soei-
carnavalesca, Nonnato Masson relembra Barbara Soeira ra quando costuma receber muitas pes-
o Baralho, brincadeira que saia em São Barbara Soeira, soas de Codó ligadas ao terreiro de Ie-
Luís durante o Carnaval. Maria Barbara Soeira manjá, de Mestre Bita da Barão.
Esperando estar de volta em 2010,
desejamos a todos um Feliz Natal e um
1 Dra. em Antropologia; pesquisadora de religião afro-brasileira e membro da CMF.
ano novo pleno de realizações. 2 SANTOS, Maria do Rosário C. e SANTOS NETO, Manoel. Boboromina, São Luís: SECMA/
SIOGE, 1989, p. 37; 159
Boletim 45 / dezembro 2009 3

H á aproximadamente 2009 anos nas


cia, na cidade de Belém da Judéia,
um menino muito especial, descendente
OFICINAS FARINHADA SOLI-
DÁRIA
Oficina de Produção de Farinha de
do Rei Davi, filho de Maria, esposa de José. Mandioca
Nascia o messias, tão esperado pelo povo, DE 14, as 18:00h – Espetáculo Baile
Jesus: um Deus que se fez carne e habi- das Lavandeiras
tou entre nós, para nos trazer a paz, a ale- Dia 15, as 18:00h – Auto de Natal –
gria e a luz. Nunca um nascimento foi LABORARTE
tão bendito e louvado pela humanidade, Dia 16, as 18:00h – Tambor Tijupá e
as vozes dos anjos, dos pastores e dos Reis Pastor Y-BACANGA
Magos ressoam ate hoje, em todas as lín-
guas e em todas as extremidades do mun- OFICINA PRESEPIOS
do. O Natal tornou-se sinônimo de festa, Oficina de Confecção de 3 Presépios
é a festa do Menino Jesus, é a festa de com membros da Comunidade do Cen-
alegria, é festa de luz. No Maranhão en- tro Histórico
contramos muitas manifestações popu- Data: 16 a 18/12 das 09:00 as 12:00h
lares que expressam a festa do Natal de Local: Casa da Festa
diversas formas: os Pastores e Pastoras, os
Reis e os Reisados Caretas, os Bois de Reis, AUTO-MARANHÃO DE NATAL
as peças e autos de Natal e os corais, que Espetáculo Musical e Teatral com
encantam e acalantam nossa noites e nos- tema natalino com participação do CO-
sos dias de Dezembro, os Presépios e as TEATRO Natalina da Paixão e convida-
Ladainhas, as Queimações de Palhinhas dos
que falam do ser maranhense, das tradi- Data: 17, 18 e 23 de Dezembro as
ções dos nossos avós e dos nossos pais e 19:00h – Maiobão, Praça Nauro Macha-
que nos abrem horizontes de paz, de amor do e São José de Ribamar
e de fraternidade, o que podemos deixar
de herança para as novas gerações. É nes- XI CANTATA NATALINA
sa perspectiva que o Governo do Estado, Concerto de Corais nas Igrejas Histó-
através da Secretaria de Estado da Cultu- ricas e Cortejos de Corais e Grupos Po-
ra, promove o Projeto Natal 2009, dando pulares até a Praça Nauro Machado com
de mensagens e gestos de amor e paz, de
ênfase as manifestações tradicionais de alegria e luz. 10 corais e 3 grupos populares
Natal com eventos relacionados a essa. Posto de arrecadação de alimentos para
PROGRAMAÇÃO entidades beneficentes
NATAL DE JESUS, FESTA DE Data: 19 de Dezembro a partir das
ALEGIA E LUZ VII CONCERTO PARA O MENINO 16:00h
Concerto de corais infantis com a par-
O Governo do Estado do Maranhão e ticipação de 12 corais nas sacadas e em CORTEJOS POPULARES
sob a coordenação da Secretaria de Estado frente a Associação Comercial na Praça Cortejos e apresentação de grupos po-
da Cultura/SECMA, através da Superin- Benedito Leite. pulares de Reis, Pastores de todo o Mara-
tendência de Cultura Popular/SCP vem Posto de arrecadação de alimentos para nhão
apresentando um diversificado conjunto entidades beneficentes. Data: 21 de Dezembro a partir das
de atividades artístico-culturais, momen- Data: 07 de Dezembro, às 18:00h 17:00h – Praça. Deodoro ate a Praça. Nau-
to de profundo sentimento de confrater- ro Machado com apresentação de todos.
nização e convivência, neste período onde EXPOSIÇÃO LAPINHA “FESTA DE Data: 22 de Dezembro a partir das
toda humanidade renova seus votos de ALEGRIA E LUZ” 17:00h – apresentação na Praça. João Lis-
amor, fraternidade e devoção Exposição de presépios na Galeria Ze- boa e Cortejo até a Av. Roseana Sarney –
linda Lima do Centro de Cultura Popular Passarela do Samba, onde haverá uma cele-
O Projeto tornou-se grandioso a pon- Domingos Vieira Filho, Passos da Quares- bração natalina ecumênica.
to de ser considerado um dos pontos cen- ma, Museu Histórico e Artístico do Mara-
trais da programação das famílias mara- nhão, Palácio dos Leões, sede da Secreta- QUEIMAÇÃO DE PALHINHAS
nhenses no final do ano, assim tem-se al- ria de Estado da Cultura e Mix Mateus e Cerimônia tradicional de Queimação
cançado grandes resultados em termo de Igrejas Históricas. de Palhinhas com Ladainha em latim
receptividade e participação popular, con- Participação especial: Grupo Passapor- Data: 06 de Janeiro de 2010 as 19:00h
tribuindo, assim, para a preservação e di- te – Museu Histórico e Artístico do Mara-
namização das nossas festividades natali- Data: 09 de Dezembroooo às 18:00h nhão com a participação do Auto de Natal
nas. Este ano com o tem: “Natal de Jesus, Local: CCPDVF São Pantaleão, Grupo Câmera da EMEM
Festa de Alegria e Luz”, o Projeto preten- e Sebastião Junior.
de dar ênfase as manifestações de grupos e CONCURSO E EXPOSIÇÃO ARVO- Data: 08 de Janeiro de 2010 as 19:00h
artistas populares que dão um caráter todo REDO XII “VIVAS AO MENINO- no Centro de Cultura Popular Domingos
especial ao Natal do Maranhão: os Reis de DEUS” Vieira Filho.
São Luís, os Pastores da Baixada, o Reisa- Concurso e Exposição de Arvores de Participação Auto de Natal da Vila
do Careta dos Cocais, os Presépios, as Pa- Natal com Fabricação Artesanal na Gale- Maranhão, Orquestra Popular e Rezadei-
lhinhas e outras tantas manifestações ma- ria da Secretaria de Estado da Cultura ras “Reis das Nuvens” de Maracanã.
ranhenses que celebram a chegada do Cris- Participação especial: Pastor Estrela do Apresentação de Pastores e Reis na Pra-
to ao Mundo, um mundo tão necessitado Oriente do Sacavém – D. Elzita ça. Nauro Machado as 20:30h.
4 Boletim 45 / dezembro 2009

No rastro do Tambor de Mina da Casa de Nagô


F oi lançado em São Luís, no último
dia 17 de dezembro, na Casa de
Nagô (rua das Crioulas, 799 – Centro),
se
mergulho
de um
na
religiosidade afro-
o livro ‘Nagon Abioton: Um estudo maranhense,
fotográfico e histórico sobre a Casa de tendo como
Nagô’. A obra foi aprovada em 2007 pelo lastro os trabalhos
Programa Petrobras Cultural, e que já foram
demorou dois anos para ser concluída. realizados
O trabalho possui fotografias em cores anteriormente,
de autoria de Márcio Vasconcelos, adotando como
idealizador do projeto, e textos da base essa
professora e antropóloga Mundicarmo importante Casa
Ferretti, com varias obras publicadas de culto.
sobre religião afro-brasileira, e do poeta, E x i s t e m
jornalista e pesquisador de cultura referências
popular Paulo Melo Sousa, que históricas sobre o
também se responsabilizou pelas terreiro em
entrevistas e pela revisão do livro, que questão, que nos
nesta primeira edição contou com foram deixadas
tiragem de mil exemplares. por Pierre Verger,
A Casa de Nagô é um dos terreiros Roger Bastide e
de Tambor de Mina mais antigos e Nunes Pereira, dentre tantos outros. Por com terreiros de outras religiões afro-
significativos do Maranhão. Apesar de ouro lado, talvez o componente mais brasileiras, tem se mantido
esse espaço de culto afro-maranhense significativo desta nossa incursão seja a independente do modelo de ‘pureza
já ter merecido estudos anteriores, prospecção da oralidade atualmente ali nagô’ e alheia ao movimento de ‘anti-
inclusive sendo alvo de duas existente, princípio básico da sincretismo’, continuando a receber
monografias de conclusão de curso da comunicação da Mina, lançando mão entidades caboclas e a cultuar santos
Universidade Federal do Maranhão – de depoimentos dos atuais integrantes católicos juntamente com orixás e
UFMA, esta é a primeira vez que uma do terreiro”, explica Paulo Melo Sousa. voduns de nomes nem sempre
obra específica sobre o terreiro vem a No livro, caminham juntos a conhecidos fora da Mina”, declara a
lume. Segundo relatos de antigas contribuição textual e as imagens professora Mundicarmo Ferretti.
vodunsis (dançantes, que recebem as fotográficas captadas durante os rituais Márcio Vasconcelos assina as
entidades que baixam na Casa), Nagon que ainda resistem ao tempo, além de fotografias da obra. Ao longo do
Abioton seria o espaço que ficaria cenas cotidianas da Casa, o que trabalho, o livro foi evoluindo e
distante dos centros urbanos, no qual fornece um material informativo que assumindo uma feição ampliada, com
servirá de apoio a pesquisas ulteriores a devida contribuição textual. “As
os nagôs implantaram seus rituais,
sobre o universo da Casa de Nagô, que fotografias representam a minha visão
mantendo a tradição cultural de sua
já sofreu considerável subtração de pessoal sobre o terreiro, constituindo
religiosidade, além de se resguardarem um ensaio à parte; há mais de 15 anos
dos olhares dos curiosos e das incursões grande parte do conhecimento
ancestral inicialmente ali assentado, frequento ambientes de casas de culto
da polícia, que perseguia o culto, no afro-maranhense e a nossa intenção ao
devido à perda de transmissão
passado. A expressão foi legada pela fazer esta obra foi registrar o cotidiano
completa dos rituais a partir de
pesquisadora Maria do Rosário de um terreiro fundamental para a
determinado momento da história do
Carvalho Santos, que capturou o termo cultura maranhense. Trata-se de um
terreiro, fundado, segundo alguns
a partir da informação oral de algumas livro de arte, munido de importantes
depoimentos, no final do século XVIII.
integrantes da Casa de Nagô. ensaios textuais sobre a Casa de Nagô”,
Além da necessária averiguação
A importância desse terreiro para a explicou Márcio Vasconcelos. O livro
histórica, o acompanhamento dos
difusão da religiosidade de matriz possui 181 páginas, foi impresso na
rituais que ainda são realizados ali,
africana a partir do Tambor de Mina é Gráfica Santa Marta, na Paraíba, e
evidenciando o atual formato em contou com design gráfico, tratamento
inegável. Ao lado da Casa das Minas, relação ao que era feito no passado irá
é um dos centros de culto afro mais de imagem e produção gráfica de
contribuir para que a sobrevivência do
importantes do Estado, e dele saíram Mauro Privado.
culto seja garantida, no caso de futuros
vários outros terreiros de Tambor de resgates das manifestações mais
Mina espalhados pelo país. tradicionais do terreiro, e ainda hoje
Segundo o pesquisador Paulo Melo ali existentes. “Apesar da importância
Sousa, que já trabalhou prestando da Casa de Nagô para o Tambor de
assessoria para o movimento negro Mina e para a cultura afro-brasileira
nacional, através da Coordenação do Maranhão, poucos são os trabalhos
Nacional de Articulação das realizados e publicados sobre ela. O
Comunidades Negras Rurais terreiro tem assumido ao longo dos anos
Quilombolas – CONAQ, como uma identidade múltipla, mas bastante
voluntário das Nações Unidas, o forte, contendo um pouco de outras
trabalho se baseia na ideia de que é ‘nações’ da Mina maranhense (Jeje,
extremamente importante registrar o Cambinda, Taipa) sem se reduzir a elas
momento atual da Casa de Nagô. “Trata- e sem perda de prestígio. Sem ligação
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REISADO CARETA:
UMA VISÃO DA BRINCADEIRA3
Paloma Sá de Castro Cornelio4

E fetivado no período natalino, os


Reisados estão relacionados ao
mito de origem cristã dos Três Reis
Formas de dramatização do cotidiano ou
de transposição para a forma dramática de
romances e xácaras, formas literárias po-
raldo; Natal Medina dos Santos; Walli-
son; Francisco França Aquino, todos ca-
retas; Chico, “careta-véio e fazedor de
pulares tradicionais em verso. Cada assun-
Magos. Na Bíblia Sagrada, Novo Tes- to dá origem a um só entremeio conciso cantiga”; Antônio Rodrigues dos San-
tamento, Mateus (2,1-12) relata que os que é representado em meio a uma série de tos, também “careta-véio”; Sirilo, que
reis Gaspar, Baltazar e Melchior foram entremeios que vem a constituir o folgue- coloca a burrinha; Fernando, que ves-
do. (BENJAMIN, 2007)
do oriente a Jerusalém levar presentes te o boi e o babau; Flávio, que brinca
para o menino Jesus que acabara de no jaraguaia e na burrinha; Cristina
No Brasil, encontramos manifesta-
nascer tendo como guia uma estrela. Regina, que brinca na cabeça de fogo;
ções em louvação aos Reis Magos e ao
Levavam ouro, incenso e mirra. Che- Natanael, que brinca no galo; Jamil-
nascimento do menino Jesus, com va-
garam a Belém da Judéia no dia 06 de da, que toca triângulo e faz a segunda
riadas formas e nomenclaturas, espa-
janeiro, data em que se comemora até voz; Lindomar Ribeiro da Silva que é
lhadas por diversas regiões. Temos como
hoje o dia dos Santos Reis do Oriente, cantador; Luís Abreu, que toca bum-
exemplos as Folias de Reis, no Rio de
ou como é denominado em nosso cam- bo e Luís Valério Duarte tocador de
Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Goi-
po de estudo: Santo Reis. Os Reisados banjo. Alguns vizinhos participam
ás, as Companhias de Reis em São Pau-
acontecem principalmente por paga- como “noitante”, pessoas responsáveis
lo, o Terno de Reis na Bahia, a Tiração
mento de promessas ou herança fami- pela organização e despesas de cada
de Reis e Boi-de-Máscara no Pará, o
liar. São rituais onde o profano e o sa- noite do festejo que ocorre nesse gru-
Presépio, as Pastorinhas, os Pastoris, o
grado andam juntos, festas que acon- po entre 24 de dezembro a 06 de janei-
Pastor e o Bumba-meu-boi do nordes-
tecem para a comunicação das pesso- ro com pausa nas noites de 25 e 31 de
te brasileiro oriental, o Boi-de-Mamão
as entre si e com o sobrenatural. Mar- dezembro. No dia 06 de janeiro acon-
em Santa Catarina e Paraná, o Boi de
cam a passagem de um ano para ou- tece o que eles chamam de “a grande
Reis no Espírito Santo, o Reis de Bois,
tro, renovando a esperança de dias festa” com missa, batizados, procissão,
Reis de Careta ou Reisado no sertão
melhores, na fé do catolicismo popu- leilão e a derradeira brincadeira do
do Ceará, o Cavalo-Marinho em Per-
lar veiculado aos cultos afro-brasileiros Reisado fechando o ciclo deste ano.
nambuco e na Paraíba, os Reisado e
e ameríndios. Nas outras noites, antes de sair para
Guerreiros e Boi Calemba em Alago-
Mário de Andrade (1934) declara em brincar na porta das casas do próprio
as, no Ceará, Sergipe e Rio Grande do
seu livro “Danças Dramáticas do Bra- bairro ou nos vizinhos, o grupo se con-
sil”, que a palavra Reisado deriva evi- Norte, o Reisado Careta ou Caretas na
região do sertão que engloba o Mara- centra na sede do grupo. Geralmente,
dentemente de “Reis” e foi uma mascu- reza-se o terço, tiram-se benditos, can-
linização brasileira da palavra portugue- nhão, Tocantins, Ceará e Piauí, entre
outros. Porém, tam ladainhas em frente a santidade (
sa. Em Portugal existe o termo “Reisa- maneira como é denominado o altar na
da”, como quem diz “rapaziada” e “pa- região). Ao terminarem é servido bolo
É necessário lembrar que, dentro do ciclo
tuscada” (coisas próprias de rapazes ou natalino, existem manifestações que ape- com café para os presentes. Então, os
de patuscos. Farra ou ajuntamento fes- sar de serem habitualmente chamadas de músicos vão preparar seus instrumen-
tivo de gente que se reúne para dançar Reisados, não possuem temática dos Reis
tos, os brincantes vão vestir suas far-
e cantar). Edison Carneiro (1974) em Magos e do Menino Jesus, o que não im-
possibilita a participação desses grupos nas das, os bonecos são colocados em um
“Folguedos Tradicionais” coloca que: carrinho improvisado, para dar início à
Festas de Santos Reis. Como por exemplo,
temos a Chegança e a Marujada (temática jornada (caminhada até as casas que
O Reisado e, modernamente, o Guerreiro, náutica, envolvendo a luta dos Mouros con-
ligam-se ao Natal. Um e outro são rapsódi- recebem a brincadeira). Alguns vizi-
tra os Cristãos), a Taieira e o Ticumbi (te-
as populares, reunião de cenas e episódios mática afro-brasileira). (CAVALCANTE e nhos partem junto aos brincantes e o
sem ligação entre si, alguns específicos da TORRES, 2007:18). resto da assistência vai se juntando ao
representação, outros tomados à vontade a
grupo na medida em que vão se dando
outros autos, desfiles e diversões tradicio-
nais. São, num e noutro caso, um bando de A sede do grupo “Reisado Encanto as “abrições de porta”.
foliões que bate à porta dos amigos para da Terra” está localizada no bairro Cam- A jornada não é acompanhada por
brindá-los com um espetáculo que se cons- pos de Belém, cidade e município de música. É ali que se dá a conversação
trói com “entremeios” cômicos, “peças”
Caxias, na casa de dona Zélia e seu amigável entre os integrantes do grupo
cantadas e “embaixadas” declamadas. (CAR-
NEIRO, 1974:169). esposo Sebastião Chinês, dono, canta- e as pessoas que os acompanham na
dor e idealizador dos brinquedos e visita às cerca de dez a quinze casas
Em seu “Pequeno Dicionário do Na- músicas. Os integrantes do grupo no que serão visitadas naquela noite. A
tal”, Roberto Benjamin (2007), qualifi- ano de 2007 eram Francisco Ferreira bandeira, feita de tecido branco e pin-
ca Reisado como: de Souza, artesão dos brinquedos; Ge- tada com a imagem de Santo Reis é

3 O presente artigo é parte integrante da dissertação – “Reisado Careta: brincadeira para louvar Santo Reis”: – adaptado para se adequar ao espaço desta
publicação.
4 Mestre em Ciências Socias- UFMA; membro da CFF.
6 Boletim 45 / dezembro 2009

CONTINUAÇÃO

aberta bem encostada à porta da fren- aliza, mais comunicação e audiência con- Barra do Inhinga, no município de
te da casa visitada e os quatro canta- segue, liberando ainda que momentanea-
Matões alterna: um ano contrata san-
mente, assuntos proibidos ou abafados pela
dores começam a entoar seus cânticos. consciência em estado de sentinela. (PRA- foneiro e no outro rabequeiro.
Eles são os responsáveis pelo “pé” (no- DO, 2007:216, grifo nosso) A bandeira é levada para dentro da
menclatura local para designar os “ver- casa pela devota que abriu a porta. Em
sos”). Um primeiro puxa, um segundo Os caretas são os palhaços da festa, algumas ocasiões, os caretas também
repete; outro primeiro puxa, outro se- costumam dizer todo tipo de piada entram para sapatear e dizer versos,
gundo repete, da seguinte forma: entre si, em relação à assistência, aos assim como para beber alguma coisa,
músicos, até mesmo sobre um animal antes de brincarem no terreiro. Dada
Santo Reis do Oriente - 1º : 1 que esteja por ali; todos os presentes
Me mandou que eu cá viesse -1º : 1 a permissão cada personagem (brinque-
Me mandou que eu cá viesse – 2º : 1 podem ser vítimas de suas mungangas5. do, bicho ou passarinho) vai dançar
Santo Reis na sua porta -1º: 2 Afinal, o humor exime o palhaço da dentro do círculo formado pelos care-
Quem mandou foi São José -1º: 2 responsabilidade de seus atos. E ape- tas e pelos músicos em frente a casa
Quem mandou foi São José – 2º: 2 sar de direcionar críticas de todas as visitada, onde se desenvolve a manifes-
formas e maneiras, jamais é acusado tação. A assistência se posiciona ao re-
O dono da casa abre a porta e os
de heresia, não importa o que afirme dor deles. Cada brinquedo tem sua
caretas começam a fazer graça, dizen-
desde que se exprima de modo bufo. música específica, algumas recebidas
do tudo errado, tudo ao contrário. Al- E é com toda picardia que os caretas
guns exemplos são: “Bom dia! A luz através dos “antigos” e outras inventa-
vão “tirar as esmolas”, “negociar a brin- das pelos atuais brincantes. Os músi-
estava acesa e nós não quisemos bater”; cadeira”. Perguntam para o dono (a) da
“Esse branquinho veio para atrapalhar cos puxam a “dança dos caretas”:
casa se podem “botar” todos os bichos
nossa festa”, referindo-se à um para dançar. Se o dono (a) da casa não Senhora dona da casa
tocador negro do grupo; “Ah, você tiver quase nada para oferecer ao gru- Eu mandei foi te chamar
não veio não? Não trouxe o seu amigo, po, o Reisado brinca com menos brin- Senhora varre o terreiro
né?”; “Ainda bem que tá com seu pai quedos, poupando assim tempo e dis- Que o careta quer brincar
no braço, no braço não, nas pernas” Careta-Véio
posição dos músicos e brincantes. Não Tu pisa o milho
para uma mulher com o filho no colo; existe um valor estipulado para ser Tu pisa o milho
“Aqui tá fazendo um frio danado”; con- pago. Inclusive, é mais comum o uso E a poeira a voar
vidam para a “grande festa” mas dão o da palavra “agrado” ao invés de paga-
endereço e o dia trocado. Como os ca- Um careta canta:
mento. Ele pode ser em forma de mo-
retas simbolizam os Reis Magos que edas de dinheiro ou algum tipo de be- Careta-Véio
estavam querendo despistar Herodes ao bida ou alimento. O dono da casa en-
Mais o caretinha
retornarem à Judéia, o fato deles fala- Tú vai lá fora
trega a “jóia do santo” que fica com a Buscar farinha
rem nesses termos trocados pode ser senhora que carrega a bandeira e que
visto como um meio de disfarce, mais se destina, junto ao dinheiro arrecado Todos cantam:
óbvio quando referente ao uso das ca- no leilão que acontece no dia 06 de Ê,ê,ê/ Ê,ê,ê
retas (modo comum de designar más- janeiro e ao auxílio dos “noitantes”, Ê,ê,ê/ Macumbambá
caras no Maranhão). para cobrir as despesas com o festejo.
Além disso, é comum encontrarmos Outro careta canta:
Cada brincante depois da apresen-
referências ao uso da inversão como for- tação de seu bicho joga um lencinho6
Tenho uma prima
ma de comédia nas culturas populares. Que se chama Marilu
no ombro do dono da casa para esse Ela tá com o dedo fino
Em seu estudo sobre o Cavalo Mari-
depositar seu “agrado”, que varia geral- De tanto botar no olho
nho, Acselrad (2002) declara que o gos-
mente entre cinco centavos a um real.
to pelo jogo, pela festa, pela farra, mas Todos cantam:
Os músicos recebem, geralmente, do
também pelo trocadilho, pela inversão, Ê,ê,ê/ Ê,ê,ê
dono da brincadeira, pois não tem len-
pela denúncia caracterizam a nature- Ê,ê,ê/ Macumbambá
cinho para jogar aos donos da casa. Isso
za do humor nas brincadeiras popula-
pode ocorrer pela profissionalização E assim, cada careta entoa o seu
res.
desses artistas, que muitas vezes deixam verso. Mas nem todos necessariamen-
Aliás, é esta obrigação fundamental ine-
de estar trabalhando em outras festas te cantam. E o mesmo careta pode
rente ao papel do palhaço, aquela que o para dedicarem-se todas essas noites à cantar mais de uma vez, versos diver-
grupo espera que seja por ele desempenha- Santo Reis. Os instrumentos do Reisa- sos. Cada careta tem um nome, um
da: comportar-se e falar erradamente. Nes- do Careta que acompanhei eram pan- apelido de careta, usado como disfar-
te momento, uma reconversão de negativo deiro, bumbo, banjo e triângulo mas ce. Aí no “pé” (verso) chamam pelo
em positivo se opera. Nele o erro e a ma- geralmente o grupo dos músicos tam- nome que pode ser Mocotó, Jatobá,
neira é que são o certo e o verdadeiro, pois
bém é composto por violão, cavaquinho, Macaúba, Savasquara, Come ovo,
“quanto mais ele faz feio, mais é o bonito,
mais faz graça pro pessoal”. Quanto mais rabeca ou sanfona. Dona Nair, dona do Avião de frango, etc. Na verdade, quem
foge dos padrões, quanto mais inversão re- grupo de Reisado Careta do povoado da tem a maior responsabilidade em di-
5 Trejeitos, caretas, movimentos bruscos, sugerindo comicidade [...] (CASCUDO, 2002:404).
6 Objeto entregue ao dono da casa durante a apresentação e devolvido a cada brincante ao final da encenação, acrescido de poucas moedas ou um bocado de
alimento como farinha ou arroz.
Boletim 45 / dezembro 2009 7
CONTINUAÇÃO

zer versos e comandar o grupo é cha- pedaço de cordão esfiapado, que provo- É o careta que chama a burrinha,
mado de “Careta-Véio”. Ele veste a ca fortes estalos” (Corrêa,1977:10) ou também chamada de burrinha-de-
mesma farda que os demais acrescido uma taca, um pedaço de pau. Tem por meu-amo, com um punhado de farinha
de um objeto que o diferencia, como função assustar a assistência junto ao ba- no papeiro para atraí-la para o meio da
um lenço amarrado na cintura. Há rulho que os caretas fazem com a voz e roda. Os cantadores
uma música chamada “Sanharó” com também são usados na dança chamada chamam: “Lá na minha casa tinha
o seguinte refrão: “sanharó, me mordeu “Corta Jaca”, feita em alguns grupos. um pé de qualquer nome de um pau,
mas não doeu”. É mais um momento Ela se desenvolve da seguinte forma: Os que falar um nome de um careta para
onde os caretas falam da assistência e caretas colocam suas tacas no chão e trazer a burra”. O brincante vem nela
fazem piadas com seus nomes. Fazem vão dançar por cima delas, pulando de montado. Ele usa camisa de manga
“trufia” (apostas e desafios) entre si e um lado para o outro em um sapateado comprida, calça e chapéu vistosos. A
ficam dizendo “belas” (trocadilhos) tudo que levanta poeira, mas não podem tocá- burrinha é feita com uma armação que
em forma de verso. Costumam dizer pode ser de madeira ou cipó, coberto
las. Se algum esbarrar nas tacas do chão,
coisas engraçadas e pornográficas. com peças de pano colorido. Sebastião
apanha dos outros caretas, de brinca-
Os caretas nunca são menos de três, Chinês me explicou as transformações
deira. Essa dança desperta o riso da as-
porque representam os Santos Reis do que ocorreram sobre a música da bur-
sistência, assim como o “Sanharó” e a
Oriente. E podem ser mais. No grupo rinha da seguinte maneira: “de primei-
“morte do careta” que só ocorrem algu-
ro agente cantava assim”:
“Reisado Encanto da Terra”, de Caxias, mas vezes, podendo passar um noite toda
variam em torno de oito. A explicação sem acontecer. Tome, tome minha burrinha
do dono Sebastião Chinês é que assim É possível observarmos alguns gru- Vem beber mingau
fica mais bonito, mais animado. Suas pos que fazem “a morte” ou “a palha- Tem açucar, tem mantega
fardas, isto é, indumentária genérica Na colher de pau
çada” ou “a comédia” do careta. Con-
para diferenciar do vestir cotidiano, são forme Sebastião Chinês, “A morte do “Mas aqui nós já botamo ela assim”:
feitas de palha de buriti, já os formatos careta não tem nada a ver com a mor-
O Careta-Véio
variam de Reisado para Reisado. Em te do boi”. No seu grupo a morte pode Mais o Caretinha
Vargem Grande, só usam a saia com um acontecer no final ou no meio da brin- Tú vai lá fora
cofo pequeno pendurado na cintura, cadeira. Um careta cai no chão, se fa- Buscar farinha
cheio de lata para fazer zoada quando O Careta- Véio
zendo de morto. Os outros caretas vão E o careta novo
eles sapateam. Em outros lugares, eles tentar lhe reanimar com todo tipo de Faz a alegria
vestem também um colete feito de pa- palhaçada e só conseguem quando Pro meio do povo
lha. Segundo Corrêa, o careta ameaçam enfiar a taca ou o chicote no Lá vem aurora
Lá vem o dia
anus do careta morto, como se fosse Chegou burrinha
Apresenta-se de maneira peculiar, usando
uma longa saia entrançada feita de imbira uma injeção. Então, o careta que esta- Que nós queria
(palha de tucum esfiapada); seu tronco fica va desacordado levanta e sai correndo.
coberto por uma espécie de peitoral, mais Depois desta cena é a vez do “baião Apesar do gosto pela inovação que
ou menos do mesmo feitio da saia, que lhe notamos neste grupo, há outros que
dos caretas”. Baião é festa bem popu-
fica preso ao pescoço. O seu modo de ves-
tir lembra guerreiros africanos e índio da lar nas cidades que abarcam a frontei- preferem fazer “como do jeito antigo”.
tribo dos Canelas do Maranhão (COR- ra do Maranhão com o Piauí. Quando Porém, uma coisa todos me disseram:
RÊA, 1977: 9). a população local fala em baião, está “que hoje tá tudo muito violento, não
se referindo à música, à dança e a fes- se pode mais roubar nada da casa de
As máscaras podem ser feitas com ta em si. Nesta região, é comum ter ninguém”, costume que fazia parte da
qualquer tipo de material como latão, brincadeira. Para fazer graça, os care-
baião nos finais de semana.
papelão, tapete, plástico, couro de ani- tas entravam na casa, pegavam algum
A sequência de aparição e as própri-
mal, etc. No grupo que acompanhei,
as personagens mudam de um Reisado objeto, entregavam para o babau que
elas são feitas de couro de boi, possu-
para outro e até mesmo dentro de um chegava a quebrá-lo, o que hoje em dia
em uma coroa embutida feita com te-
mesmo grupo, ao decorrer do tempo. torna-se inadmissível. Mas o babau con-
cido brilhoso e são semelhantes entre
Cada uma tem sua música específica tinua sendo o brinquedo mais violento
si. O nariz tem geralmente um forma-
to comprido e cilíndrico, a boca pode que é entoada na hora que elas devem e também o que desperta mais euforia
ter dentes e língua e a barba é feita entrar em cena. As formas de dançar e na assistência. Ele é feito com uma car-
com crina de cavalo. São costuradas em os passos são também exclusivos de cada caça de cabeça de cavalo ou jumento,
um pano que é vestido na cabeça do personagem, assim como a vestimenta com a queixada que abre e fecha fin-
brincante ou pode ser fixadas por um e o boneco. No “Reisado Encanto da gindo estar tentado morder os caretas,
fio, conforme o grupo achar mais pre- Terra”, no ano de 2007, tinham duas que fogem se jogando em cima das
ferir. Servem para esconder a cara do burrinhas, um boi, um jaraguaia, um pessoas, causando grande alvoroço. O
brincante, que fica a vontade para di- babau, uma nega-véia ou cabeça de fogo careta tenta dominar o babau, montan-
zer todo tipo de pilhéria para a assis- ou pião, uma ema e um galo. Para o pró- do em cima de sua garupa. Quando
tência, aos músicos e entre si. ximo ano eles já estavam programando isso acontece saem de cena, ou seja,
Os caretas sempre levam algum de colocar a sariema. No grupo de Rei- do meio da arena sob o aplauso de to-
objeto na mão. Pode ser um “chicote sado Careta de Timon, há também a dos. Babau é o nome que se dá para o
de couro, comprido tendo na ponta pomba e a caipora. jegue na região. Antigamente os care-
8 Boletim 45 / dezembro 2009

CONTINUAÇÃO

tas quebravam a cabeça do babau com O nega marvada Para cada personagem que aparece
Tu matou meu gavião no Reisado Careta, Sebastião Chinês
suas tacas no último dia de brincadei- Foi tu nega
ra mas hoje isso já não acontece, pois Não fui eu tem uma explicação lógica. Diz que os
está cada vez mais difícil achar a car- Não fui eu não caretas são os Reis Magos e os bichos os
caça. A cantiga do babau que eu escu- A Nega-Véia animais que estavam presentes no está-
Quando vem das aroeiras bulo onde nasceu Jesus Cristo. O boi, a
tei com o grupo “Reisado Encanto da Ela vem com o pé ligeiro
Terra” faz referência ao Piauí e ao Pará, Deixando a poeira voar burrinha e o galo aparecem tradicional-
estados limítrofes com o Maranhão: Se despede minha nega mente nos presépios. A ema estava lá
Dá um paço e vai simbora para catar os carrapatos da pata do boi,
Eu botei meu milho no coxo segundo ele. O babau representa um
Pra chamar cavalo véio O boi do Reisado Careta é maior e cavalo velho. A nega-véia, ou cabeça de
Meu cavalo, velho
Tome,tome,tome,tome
mais desengonçado que o do Bumba- fogo, é a encarnação de Satanás e o ja-
Careta-Véio tem cuidado meu-boi. Alguns chamam de “boi espa- raguaia o representante das almas.
Senão o bicho te come lha merda”, pois é mais lento e anda como Tentei esboçar neste artigo alguns
Ele vem com a boca aberta se estivesse nadando. Em alguns grupos elementos do Reisado Careta do Ma-
Ele vem danado de fome ranhão, me baseando principalmente
o tecido de seu corpo é feito de chita, já
Meu cavalo veio
Tome,tome,tome em outros tem um couro de veludo pre- na observação do grupo “Careta Encan-
Meu cavalo vem de longe to bordado com o nome do grupo. to da Terra”, da cidade de Caxias. En-
Ele vem lá do Pará tretanto, é preciso ter em mente que a
Meu careta vem do lado Chegou meu boi visão aqui relatada é apenas uma das
Que tá na hora de brinca Vamo vadiá várias maneiras que existem de brin-
Meu cavalo vem de longe Boi do sertão
Ele vem do Piauí
car o Reisado Careta. Não representa
Vamo vadia
Meu careta vem do lado Chegou meu boi
nenhum tipo de modelo de como é ou
Tá na hora de subir Na minha cama como deve ser esquematizada a brin-
Chegou meu boi cadeira. Foi construída no período na-
Já o jaraguaia, também é feito com a O de baixo da rama talino de 2007 para 2008, e certamen-
carcaça de cavalo ou jumento mas sem a te vem sofrendo alterações, inclusive
queixada. Porém, um grupo de Timon o A ema tem o corpo parecido com o dentro do próprio grupo estudado. Isto
fez de madeira, “porque está muito difí- do boi, onde o brincante também se deve ao fato do dinamismo presente
cil de localizar a cabeça do animal”. Ele como um miolo, fica por baixo da ar- nas culturas populares, que vão se mo-
tem os passos mais lentos, um pescoço mação. A ema tem um pescoço fino e dificando com o passar do tempo sem
comprido coberto por um pano geralmente comprido e um bico que pode ser de necessariamente perder suas raízes
de chita que cobre o corpo todo do brin- verdade ou de qualquer material que com tais transformações orgânicas.
cante. Olha de cima como se fosse uma
o imite. Ela vem tentando bicar os ca-
assombração mas não mete medo nem nos Referências:
retas.
caretas nem na assistência. Sua música
faz referência à viagem para Bahia, pro- Ô ema, Ô ema ACSELRAD, Maria. “Viva Pareia” – a
vavelmente por ser um destino bem co- Vou dançar a sariema arte da brincadeira ou a beleza da safa-
mum no ciclo do gado sertanejo. Olha o passo da Ema deza uma abordagem antropológica da
Vou dançar a Sariema estética do Cavalo-Marinho. Dissertação
Jaraguai vou me embora Olha o bico da Ema (Mestrado em Antropologia), IFCS –
Que eu já disse que vou Vou dançar a Sariema UFRJ, 2002.
Vou me embora pra Bahia Olha a canela da Ema ANDRADE, Mário de. Danças Dramáti-
Cidade de Salvador Vou dançar a sariema
Sacode minha Ema
cas do Brasil. Ed. Itatiaia Limitada, 1934.
Vou me embora , vou me embora
Olha a asa da ema BENJAMIN, Roberto. Pequeno Dicioná-
Como eu já disse que vou
Eu volto para o ano Se despede minha ema rio de Natal. Recife: Secretaria Estadual
Se lá eu ainda vivo for Para o ano vou voltar de Cultura, 2007.
CARNEIRO, Édison. Folguedos Tradici-
A personagem Nega-Véia ou cabe- O brincante do galo dança como se onais, Etnografia e Folclore/Clássicos 1.
ça de fogo é feita com uma cabaça ou estivesse ciscando. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1982.
cumbuca, onde o artesão desenha e CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do
corta a boca, olhos e nariz. O brincan- Senhora dona da casa Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2002.
Careta está na porta CAVALCANTE, Raphael e TORRES,
te acende uma vela dentro da cabeça E o galo dança no terreiro
quando vai entrar na roda pra brincar. Lúcia Beatriz. Festas de Santos Reis.
IN:Salto para o Futuro. Aprender e Ensi-
O brincante fica por dentro do pano, A caipora é feita com uma quibane
nar nas festas populares. Boletim 2. TV
com um buraco localizado na barriga (peneira de palha) na cabeça e um pau Escola. Ministério da Educação, 2007.
da boneca comprida apenas para colo- atravessado como se fosse o braço, com CORRÊA, José Ribamar Guimarães. Festa
car os olhos para fora. Em alguns gru- um lençol branco por cima e a língua do Reisado em Caxias. São Luís: Fundação
pos, são vestidas por homens que levan- é feita com um lenço vermelho, caído Cultural do Maranhão, 1977.
tam a saia para fazer graça. É a única para fora da boca. É feito geralmente MATEUS, São. Evangelho de São Mateus.
figura feminina que eu pude observar. por uma criança, pois é uma figura bem IN: A Bíblia Sagrada. Novo Testamento. Rio
Segundo os brincantes, mulheres po- baixinha. Se é o neto do dono do gru- de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1990.
dem brincar em qualquer bicho mas po que faz, quando esse cresce, muda PRADO, Regina de Paula Santos. Todo ano
ainda não tive notícia de nenhuma ves- de brinquedo e é preciso arrumar ou- tem: as festas na estrutura social campo-
tindo careta nos Reisados da região. tra criança para vestir a caipora. nesa. São Luís: EDUFMA, 2007.
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Bambaê: subsídios para história de um baile popular7


Adriana Sousa do Nascimento8
João Paulo Soares Júnior9
Menzair de Jesus Ferreira de Azevedo10

(...) “Nada me detém. populares como o bumba-meu-boi e a fes- Carlos de Lima, pesquisador das coisas
Entrego-me a uma verdadeira orgia sagra- ta do Divino Espírito Santo. A idealização do Maranhão, aponta a origem da devoção
da.
parte da Srª. Raimunda dos Santos Cam- ao Paráclito19 à construção da Igreja do
Os dados foram lançados.
O livro foi escrito. pos, conhecida como “Dona Zuquinha”, Espírito Santo, na Villa de Alenquer em
Não me importa que seja lido agora ou que após observar as apresentações da tur- Portugal no ano de 1223, realizada pela
apenas pela posteridade.” (...). ma17 de dona Quintina Quaporá, montou Rainha Santa, Isabel de Aragão (LIMA,
(Kepler) a sua própria, com eles fabricando seus 1988).
instrumentos e logo após estruturando sua Nos festejos ao Espírito Santo realiza-
A brincadeira cultural e artística bam- sede. dos no Maranhão há uma diversidade bas-
baê situa-se num vasto ciclo de folguedos Zuquinha aprendeu a tocar caixa com tante significativa no que tange as carac-
manifestados a partir da fé no Divino Es- a irmã, Maria dos Santos Gonçalves, ain- terísticas particulares de cada festividade,
pírito Santo11, dentre os quais estão o ca- da na infância, e aprimorou sua sabença isto vai depender das relações sociais e do
roço12, cacuriá13, corêro14, carimbó das cai- ao longo da vida. sincretismo cultural ocorridos ao longo da
xeiras15 e outros que utilizam a caixa do história do estado. É por isso que, observa-
Divino Espírito Santo, (instrumento de 1. Maranhão: formas múltiplas de fé no se, por exemplo, uma marcante presença
percussão) como base destas expressões. Espírito de Deus de mulheres tocando caixas nas festas do
Segundo o folclorista maranhense Domin- Divino em Alcântara e São Luís20; situa-
gos Vieira Filho apud Câmara Cascudo Uma das mais ção que ocorre inversamente diferente na
(CASCUDO, 1972), o bambaê seria: “dan- significativas Região dos Cocais Maranhense – Parnara-
ça ou batuque de caixas, típicas da região expressões da ma, Caxias, Aldeias Altas, Matões, Codó,
de Cajapió e São Bento, também chamada religiosidade etc., onde notamos, em vários grupos, ape-
de farra-de-caixa (...)”. A exemplo de tantas e da cultura nas o homem21 tocando esse instrumento.
outras manifestações folclóricas, é deveras popular do
comum encontrarmos nos grupos que rea- povo do Mara- 2. Caixa: instrumento que percute fé,
lizam o bambaê variações significativas da nhão são as alegrias, tristezas e farras
mesma manifestação de um lugar para ou- festas devoci-
tro e até de uma turma para outro do mes- onais a Ter- É a partir do toque das
mo lugar. Isso ocorre devido a motivações ceira Pessoa baquetas 22 no couro
variadas que vão desde pagamento de uma da Santíssima das caixas do Divino
promessa, um batizado, alegria de um nas- Trindade: o Espírito Santo que se
cimento, até festejos como os do Divino Divino Espírito Santo. Tradição vinda, produz um som com
Espírito Santo. (SOUSA, 2009). possivelmente, com imigrantes açorianos intuito devocional, de
A turma que realiza o bambaê em foco no inicio do séc. XVII. Constitui-se numa regozijo, de lamento e
é o “Lião16 do Norte” (União das Caixeiras das mais remotas e expandidas práticas do de profundo contenta-
Lião do Norte), também conhecida como catolicismo popular brasileiro. Suas ori- mento.
Turma de Zuquinha, originário do muni- gens primevas reportam-nos às celebrações No Maranhão a utilização deste instru-
cípio de Penalva – Ma, que além deste bai- realizadas em Portugal a partir do séc. XIV18 mento tem amplo sentido, podendo-se, in-
le, realiza diversas outras manifestações (PACHECO, GOUVEIA, ABREU 2005). clusive, traçar um ciclo da caixa, por assim

7 Este artigo faz parte do macro-projeto DANÇAS DA CAIXA: Diversidade rítmica e folclórica da caixa do Divino Espírito Santo no Maranhão.
8 Graduanda de Teatro - Licenciatura - UFMA, estagiária extracurricular da Superintendência de Cultura Popular.
9 Graduando de Pedagogia - UEMA e História - UNIASSELVI, estagiário extracurricular da Superintendência de Cultura Popular. Membro da Comissão
Maranhense de Folclore.
10 Graduando de Engenharia de Produção – UniCEUMA.
11 No entanto, podemos situar o bambaê apenas como uma dança, uma festa, pois nem todos os participantes da farra do bambaê participam ou tem fé no
Divino Espírito Santo (Entrevista com Jandir Silva Gonçalves, 1/3/2009).
12 Dança que mescla elementos de origem portuguesa, africana e indígena; de formação livre, onde há a presença de 4 caixas e alguns grupos utilizam a cuíca e
a cabaça, acompanhados de toadas improvisadas. Há a presença da “rainha do caroço” (em Tutóia), uma espécie de líder da brincadeira. Todavia, em outras
cidades do estado, como Penalva e Viana existe outra forma de caroço, com marcação e dança diferente.
13 Dança de roda que é brincada nas ruas e praças; tem sua origem no culto ao Espírito Santo. Seu Lauro (Alauriano Campos de Almeida), baseou-se na
musicalidade e nos versos feitos ao Divino para criar o cacuriá, trazendo-o do povoado de Baiacu, interior de Guimarães em 1972.
14 Ritmo e dança, de cunho popular, espécie de baile espontâneo, que ocorre principalmente em Peri-Mirim e Palmeirândia, ao som de caixas, tendo versos de
duplo sentido e cantigas animadas. Talvez o nome corêro provenha de couro (côro na linguagem popular).
15 O carimbó de caixeira (ou de caixa) é parte integrante da festa do Divino, porém não existe caráter de obrigação religiosa. É um toque feito para o
divertimento, há distribuição de bebidas e comidas para as caixeiras e todas as pessoas que ajudaram no festejo.
16 É com esta grafia que o grupo se denomina.
17 Designação popular de grupos; conjunto de pessoas que participam de uma manifestação popular.
18 Mas os pesquisadores maranhenses OLIVEIRA, Lenir e GONÇAVES, Jandir, em texto presente na Coletânea de textos de cultura popular, vol.II, discordam
quanto ao séc. XIV como o de início a devoção do Espírito Santo, propondo o séc. XIII como a gênese dos festejos. Também concordam com isto, a equipe
técnica do Projeto Sabença – Museu Escola, em cartilha produzido pela SECMA (Secretaria de Estado da Cultura), SCP(Superintendência de Cultura
Popular) e CMF(Comissão Maranhense de Folclore).
19 Grafia de Espírito Santo em grego, podendo ser paracleto também.
20 Porém em algumas casas de culto afro da ilha de São Luís, encontram-se homens tocando caixa para o Divino. Como exemplos, citamos o Terreiro de Iemanjá
e a Casa Fanti-Ashanti.
21 Aos devotos da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade dessa Região, dar-se o nome de foliões da divindade, geralmente dupla de homens que tocam caixas
saudando o Espírito Santo com versos cantados, conf. Coletânea de textos de cultura popular, vol.II.
22 Pares de varetas de madeira rígida, usados para percutir a superfície de tambores (BARBOSA, 2002), também denominadas bastonetes, vaquetas ou cambitos.
10 Boletim 45 / dezembro 2009

CONTINUAÇÃO

dizer, visto ser possível encontrá-la em si- liza-se, ainda, semi-aros, os quais podem ser Castelo, quiçá, terra natal do oficial ou do
tuações bastante paradoxais; indo desde em madeira ou ferro, de espessura 1,5cm, governador.
um toque com sentido de “reunificar” (do sobre o qual se estica o couro ainda úmi- O lugarejo, por circunstâncias de um
latim re-ligare, religião) o homem a Divin- do, costurando suas bordas, formando, certo crescimento econômico, passou a ca-
dade, passando pelo encontro do êxtase com isso, uma superfície plana. tegoria de Vila pela Lei Provincial e Imperial
numa alegria festiva, ou a inevitável e der- Caixeiras e foliões têm o habito de pin- Nº955 promulgada no dia 21/06/1871, por
radeira situação do homem sobre a terra: a tar as suas caixas. Muitas vezes a pintura ato de José da Silva Maia. Mas foi só no séc.
morte; até o puro entretenimento de uma tem símbolos do Divino, isto é, a coroa e a XX, isto é, em 10/09/1915, por ato do go-
folgança, a festa, a farra. Durante a aber- pomba, outras vezes, pode haver uma úni- vernador Herculano Parga que o lugar ad-
tura da festa do Divino Espírito Santo a ca cor viva – branco, vermelho, azul, verde quiriu estatos de município. No entanto, só
caixa é utilizada, com a batida de três to- – ou varias cores multi-listadas, triângulos mais tarde,com a promulgação das Leis Es-
ques, para sinalizar a chegada do Tempo ou losangos. Algumas caixeiras batizam seu taduais Nº45 (29/03/1938) 28 e Nº159 (09/
do Divino, momento, segundo algumas instrumento e, logo após, estes recebem 12/1938) que tornou-se cidade de fato e de
caixeiras, do “pouso” do Espírito de Deus nomes. Há, portanto, uma relação muito direito. O nome atual só veio com a Lei
sobre os homens. próxima, de verdadeira afetividade, das to- Provincial Nº510 de 27/07/185829.
De origem indefinida, as caixas são tam- cadeiras27 de caixa com o instrumento (PE- Quanto a origem da cidade, há uma
bores do ponto de vista organológico, isto REIRA e FERRETTI, 2005) e (BARBO- outra vertente, de cunho popular, com ca-
é, instrumentos musicais de percussão SA, 2002). No entanto, é comum que cai- racterísticas indígenas, que nos falam de
pertencentes à família dos membranofo- xeiras antigas não possuam seu instrumen- uma grande quantidade de garças brancas
nes, tocadas com mãos ou baquetas (BAR- to particular de toque, utilizando caixas no lago Cajari e que uma índia, possivel-
BOSA, 2002). Apesar das referências quan- pertencentes à casa do festeiro. mente gamela, teria pego uma pena alva,
to às origens serem incertas, encontram- daí, acredita-se: Penalva.
se registros desse instrumento como sen- 3. Penalva: em terra de índio, tem festa A população do município é estimada
do uma Caixa Renascentista. Reconheci- para o Divino. em 34.505hab. (2008, IBGE). Há vestígios
das como tambores militares nos seus pri- desde os tempos pré-colombianos de ocupa-
mórdios, foram incorporadas a várias tra- ção do território penalvense por tribos neo-
dições folk de muitos povos europeus e líticas lacustres construtoras de aldeias so-
mediterrâneos, incluindo algumas regiões bres palafitas. Aos vestígios dessa ocupação
do norte da África, como Marrocos. São neolítica dar-se o nome de estearias (cente-
tambores cilíndricos, com diâmetro em nas de esteios30). O principal sitio de estea-
média de 0,30m a 0,35m e altura de 0,40m rias está localizado no lago Cajari, mais exa-
a 0,45m, no entanto, há variações de tama- “A cultura de Penalva tamente, na enseada do Quebra-Coco31.
nho23. São fabricadas de madeira (RIBEI- Alegra meu Coração O município é produtor de agricultura
Eu já cantei em Penalva
RO, 1988), e de metal (PEREIRA e FER- Vou Cantar no Maranhão.”.
de subsistência, existe também farta ativi-
RETTI, 2005). As de madeira podem ser (Cantiga do Bambaê) dade pesqueira, no entanto não há um
construídas com compensados vergados manejo ordenado, no sentido de escoar o
progressivamente com vapor e mantidas Penalva está situada à margem direita pescado da região.
em estruturas que irão moldá-los à enver- do rio Cajari, na Baixada Ocidental Mara- Em termos culturais o município apre-
gadura e tamanho desejados. Nos municí- nhense, pertencente à Mesorregião Norte senta significativas expressões da cultura
pios de Caxias e Aldeias Altas, por exem- do Estado. Povoação que inicia-se, possi- popular como Bumba-Meu-Boi, Festas do
plo, é possível encontrar caixas construí- velmente, com missionários da Compa- Divino Espírito Santo, Corrida de Ascen-
das a partir do tronco da Macaúba24. As nhia de Jesus no séc. XVIII, num povoado são, Casa de Curadores, Bailes de São Gon-
caixas de corpos de metal são construídas denominado de São Brás. No século seguin- çalo, dentre outras.
nas medidas adequadas, usando-se, para te, o contingente populacional que habi-
isso, latas cilíndricas, originalmente usa- tava São Brás, mudou-se para as margens 4. E surge o bambaê, uma festa popular
das para embalagens de óleo combustível do Rio Cajari, criando o povoado São José
(BARBOSA, 2002). do Cajari. Anos mais tarde, por iniciativa Entende-se por bam-
A superfície a ser percutida é recober- do oficial Luis de Albuquerque e ordem baê32 um baile popular
ta com pele de animal25, comumente de do governador José Teles da Silva (no ano que acontece a partir do
cabra ou de bode26 (BARBOSA, 2002). As de 1785), este povoado sofreu alteração de toque de caixas, com in-
peles precisam ser curtidas ao sol, e quan- nome, passando a chamar-se São José de tuito de puro diverti-
do estão prontas, é necessário que sejam Penalva, pelo que tudo indica, em decor- mento, ocorrendo de
molhadas, para se tornarem maleáveis. Uti- rência da cidade portuguesa Penalva do forma espontânea, para

23 No entanto, há discordância quanto a estas dimensões, pois o estudo Divino toque do Maranhão (catálogo da exposição homônima), escrito pelos pesquisadores
PEREIRA e FERRETTI dizem que as medidas das caixas são cerca de 0,70 m de altura por 0,50 m de diâmetro.
24 Espécie de palmeira típica da região dos Cocais Maranhenses.
25 Existem caixas para as quais as peles utilizadas são sintéticas, também denominadas de napa.
26 Há, no entanto, uma variedade muito grande de peles de animais utilizadas, como por exemplo, cotia, cobra, e outras.
27 Forma popular para tocadora.
28 Conforme IBGE.
29 Conforme Wikipédia.
30 Pedaços de madeira.
31 Ver BALBY.
32 Para o Tesauro do Folclore e Cultura Popular Brasileira, o bambaê pode ser entendido como uma “dança de conjunto com formação em círculo e
acompanhamento de instrumentos de percussão. Ao centro colocam-se um ou dois pares, exibindo coreografia complicada. Os da roda também executam
passos rápidos e variados, ora ficando os casais frente a frente, ora dando-se as costas”.
Boletim 45 / dezembro 2009 11
CONTINUAÇÃO

alivio de tensões provenientes da labuta setores culturais mais inferiores da socie- pos, mas conhecida como Dona Zuqui-
diária. Dança33 comum na Baixada Ociden- dade. Observe-se o exemplo abaixo de uma nha, cidadã complexa e paradoxalmente
tal Maranhense, particularmente nos mu- valsa popular. simples. Nos seus afazeres diários, revela-
nicípios de Guimarães, São Bento, Caja- nos a engenhosidade da cabocla ribeirinha
pió, Matinha, Viana e Penalva. Há mani- Eu canto valsa morena que trabalha cotidianamente para suprir,
festação rítmica diversa, podendo ocorrer Eu não vendo eu não dou do mais elementar, sua família. Trabalho
Essa valsa se parece
valsa, xote, baião, carimbó34 e outros, de- que cansa, labuta da gente do povo, porém,
Com menino dançadô
pendendo da variação de compasso35 utili- que a impulsiona, como se algo dentro cha-
zada, hora binário36, hora ternário37 ou Eu só toco essa valsa masse:
hora quaternário38, os quais determinam à Pra quem sabe dançar - Vá, a vida é combate, viver é lutar, o
marcação e a pulsação desta dança. E quem não sabe dançar fracasso (a falta do lutar) abate.
O bambaê que é feito pela Turma de Deixa seu par no lugar
Zuquinha acontece com a utilização de Menina vamô comigo É assim que, dia
Que eu já pedi paro seu pai
duas caixas do Divino que são tocadas por Só falta sua mãe dizer
após dia, segue
duas mulheres, onde uma canta e outra Pega sua roupa e vá41 na quebra do
responde, numa espécie de disputa. coco, no limpar
Diferentemente dos toques e das mú- No bambaê também se observa à pre- da roça, nos ser-
sicas feitas para o Divino Espírito Santo sença rítmica do baião, ritmo originário viços domésti-
(haja vista que muitas mulheres e homens do nordeste do Brasil, cadenciado pela uti- cos ou na casa
que participam do bambaê também fazem lização dos instrumentos agogô, triângulo alheia ou na
parte de festividades do Divino), no bam- e sanfona e de grande penetração no meio sua própria. É
baê não se toca e nem se canta para o Espí- popular. este o dia-a-dia
rito Santo39, constituindo-se, única e ex- desta penalven-
clusivamente, em festa para dançar. Eba eba baião se, com ares
Essa diversidade rítmica, que sinaliza Eba eba baião que só a autori-
uma das características da festa, pode ser Menina chega pra perto dade do tempo
observada nos seguintes versos de um ca- Descansa meu coração dá. Esta é Dona
rimbó40, ritmo de origem indígena, acresci- Se tu não sabe eu te ensino Zuquinha, fa-
Como se dança baião
do com diversas outras influências cultu- zedora de bambaê, tocadeira de caixa, in-
Eba eba baião
rais, nascido possivelmente na zona do sal- ventadeira de coisas.
gado, próximo a Belém, nos lugares Mara- Vou me embora vou me embora Dona Maria, irmã de Zuquinha, foi a
panim, Curuça, Algodoal e na Ilha de Ma- Como eu já disse que vou responsável pelos ensinamentos da arte de
rajó. Pra campina ver meu gado tocar caixa. As duas sentiam a necessidade
Pro sertão ver meu amor de aplicar os seus conhecimentos, com isso
Carimbó no Bambaê Lião do Norte elas reuniram suas amigas mais próximas e
Se tu não sabe eu te ensino
as ensinaram a tocar caixa; as primeiras
Olelê olala Como dança o baião
apresentações foram na vizinhança, e com
Só se vê carimbó Siriá (?)
Carimbó é bonito é gostoso Tem um anel no meu dedo as indicações por amigos, logo estavam to-
É gostoso em Belém do Pará Um cordão no meu pescoço cando nos povoados e municípios próxi-
Senhora dona...(o nome de alguém) mos; nessa época o grupo tinha mais de
Vá buscar Sinhá Pureza Eu já fiz o seu gosto42 trinta caixeiras, entre elas dona Maria
Pra dançar o meu carimbó Grande, Maria Bata, Maria Barros, Maria
Carimbó que mexe, mexe 3.5Raimunda dos Santos Campos: uma
Carimbó da minha vovó de Canzin, Cocota e outras.
mulher que dá no couro. Dona Zuquinha sente necessidade de
Outro ritmo bastante utilizado no um nome para aquela união; Seu França43
“Ai eu disse, quer saber de uma coisa, eu
bambaê é a valsa, dança criada na Europa inventei outra, eu sempre fui inventadeira
propõe “Lião do Norte”, uma homenagem
(Alemanha) no séc. XV, de gênero ternário, de coisas!” a um grupo de amigos seus, batucadores
dançada por pares enlaçados. Inicialmente de bumba-boi; grupo já extinto.
dança nobre, a valsa adquiriu nos países Nascida no dia 09 de março de 1938, A turma de Zuquinha a 30 anos vem
colonizados gosto popular, adentrando os batizada de Raimunda dos Santos Cam- trazendo alegrias, colhendo sorrisos e bus-

33 Entende-se aqui por dança q uaisquer movimentos, não importando a “qualidade” do movimento. Dançar (ou dança) pode ser considerado todo o movimento
que você quiser que seja; não é aptidão para alguns “escolhidos”, é a mais pura, natural e simples expressão da raça humana. Ver. PREGNOLATTO
34 Segundo Daniela Dini.
35 É um trecho musical dividido em partes iguais de tempo, é a sucessão de dois ou mais tempos de valores iguais entre si que serve para determinar a duração

mais ou menos exatas das figuras.


36 Formado de dois tempos;
37 Formado de três tempos;
38 Formado de quatro tempos;
39 Contrariando essa informação, o Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, através do folder da Semana da Cultura Popular 2001: Outras Danças

Maranhenses, afirma que o bambaê pode acontecer “[...] como pagamento de promessa ou em festejo para o Divino Espírito Santo [...]”.
40 Wikipédia.
41 Exemplo de bambaê, no ritmo valsa, coletado por Daniela Dini.
42 Exemplo de bambaê, no ritmo baião, coletado por Daniela Dini.
43 Raimundo Gregório Campos
12 Boletim 45 / dezembro 2009

CONTINUAÇÃO

cando entendimento das coisas do povo, e depois disso é que nós nos casamos45, ai cultura. Esta brincadeira, o bambaê, pode
de sua gente. Essa mulher, a qual todos em eu comecei, não tocando caixa, misturava também ser situada dentro de um contex-
volta aprenderam a respeitar, mantém uma no meio porque tinha que ajudar ela” to de resistência às entradas de contingen-
relação quase que matriarcalista com to- O estudo desta singular manifestação tes culturais recolonialistas impostos por
dos aqueles que fazem parte de sua turma. de alegria e fé destas pessoas do interior do um mundo onde cada vez mais se valoriza
Este sentido de zelo é observado na seguin- Maranhão possibilita uma sensibilização a estética e a ética do outro, do de fora, em
te fala: “achava tão bonito ficar disputan- dos fazeres daqueles que, muitas vezes, são detrimento dos valores que nos identifi-
do nos versos, botado versos umas para expurgados dos processos de visibilidade cam como indivíduos singulares e produ-
outras, cantando tudo certinho”. empreendidos pelas políticas públicas da tores de nossa própria cultura.
Em sentido quase religioso, todos os
anos a turma Lião do Norte, além de ou-
Referências
tras Turmas como o a de Jacaré, Saubeiro
e Nova União, fazem festas nos bairros de
ALMEIDA, Alauriano Campos de. In: MARANHÃO, Fundação Cultural; VIEIRA FI-
Penalva, nos derredores ou em plagas mais
LHO, Centro de Cultura Domingos. Memorias de Velho. Depoimentos: Uma contri-
distantes como o Maranhão (maneira mui-
buição à memória oral de cultura popular maranhense. São Luís: Lithograf, 1999. V. 5.
to particular que alguns do interior se re- P. 73-93.
ferem a São Luís). O cuidado com as apre- BALBY, Raimundo. A Cultura Neolítica de Penalva, 1985
sentações do grupo e a manutenção da tra- BARBOSA, Marise Glória. Umas mulheres que dão no couro: As caixeiras do Divino
dição são observados nesta fala de Seu no Maranhão. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2002. p. 224-
França, marido de Dona Zuquinha: “eu 227. Dissertação (Mestrado)
acompanho por que sou obrigado a acom- CAMPOS, Raimunda dos Santos. Entrevista concedida em 20 de março de 2009.
panhar, como ela não vem, eu tenho que CAMPOS, Raimundo Gregório. Entrevista concedida em 20 de março de 2009.
acompanhar o grupo, o pessoal que faz CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário de Folclore. Coleção Terra Brasilis, Rio de
parte”. Janeiro: Ediouro, 1972.
Existe no bambaê, assim como em ou- CD, Cacuriá de Dona Teté, encarte. Laborarte, 1993
tras expressões da cultura popular, um sen- DINI, Daniela. Entre São Paulo e Maranhão: Processo de criação em dança a partir do
timento de melancolia, uma certa tristeza, dialogo do corpo criador interprete com as manifestações populares do estado mara-
que mesmo dentro da alegria se manifesta nhense. 2008. São Paulo.
na musicalidade, na dança, na fala. Seu FILHO, Domingos Vieira. Revista de Geografia e História: A linguagem popular do
França nos diz que: Maranhão. São Luís: SN, 1958.
“quando vejo o movimento e não es- GONÇALVES, Jandir Silva. Entrevista concedida em 01 de março de 2009.
tou lá por dentro, parece que agente ta GOVERNO FEDERAL, Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Bambaê. Dis-
doente, porque essa é a emoção que gosto, ponivel em: <http://www.cnfcp.gov.br/tesauro/00001705.htm>. Acesso em 16 de
maio de 2009.
agente num se sente bem se não tiver lá
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística . Município de Penalva. Disponí-
junto do pessoal, eu não sei se todo mun-
vel em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>. Acesso em 11 de out.
do é assim, tem vez que dá aquela emoção,
de 2008.
que dá até vontade da gente chorar, quan- LIMA, Carlos de. Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara (Maranhão). 2ª Ed.
do agente não faz parte do movimento lá Brasília: Fund. Nac. Pró-m
que ta tocando.”44 Memória/ Grupo de Trabalho de Alcântara. Brasília, 1988.
Em sentido muito parecido com o ex- MARANHÃO, Governo do Estado do. Projeto Sabença – museu escola: nossa cultura
pressado por Seu França, dona Zuquinha para a juventude.(cartilha referente ao Divino Espírito Santo). São Luís: SECMA, 2007.
nos mostra também este sentimento de tris- p. 07
teza e dor do povo ribeirinho, trazendo re- MARANHÃO, Governo do. Semana de Cultura Popular: outras danças maranhenses
cordações da extinta turma que fazia bam- (folder). 2001.
baê, pertencente a Quintina Quaporá: NUNES, Izaurina Maria de Azevedo (org.). Coletânea de textos de cultura popular.
“aquilo me doía e me deu vontade de fazer Vol. II 2005. Superintendência de Cultura Popular. São Luis.
uma festa de caixa, ai eu fui em frente”. PACHECO, Gustavo. GOUVEIA, Claudia. ABREU, Maria Clara. Caixeiras do divino
Comumente os bailes de bambaê são Espírito Santo de São Luís do Maranhão. 2005. Ed 1ª. Associação Cultural Caburé
percutidos por mulheres, no entanto há Rio de Janeiro.
participação de homens dançando, distri- PEREIRA, Carla Rocha e FERRETTI, Sérgio F. Divino Toque do Maranhão. 2005.
buindo cachaça ou na confecção da caixa. IPHAN, CNFCP. Catálogo da exposição realizada na Galeria Mestre Vitalino no perío-
do 16/06 a 04/09/2005, Rio de Janeiro.
Na ilha de São Luís e em cidades da Baixa-
PREGNOLATTO, Daraína. Criandança: uma vista a metodologia de Rudolf Laban.
da Maranhense, como Cajapió,Viana e
Brasília: L.G.E, 2004, p.25.
Penalva é costume dizer que homem não RIBEIRO, Berta G. Dicionario do artesanato indígena. 1988. 3ª Ed Editora da Univer-
toca caixa do Divino, talvez daí a origem sidade de São Paulo. Belo Horizonte, Itatiaia, São Paulo
das turmas que realizam bambaê serem di- SOUSA, Adriano Carvalho. Bambaê de Caixa. Disponível em: <http://
rigidas e tocadas somente por mulheres. www.culturapopular.ma.gov.br/artigos2.php?id=17>. Acesso em 20 de maio de 2009.
Seu Raimundo Gregório Campos diz: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Penalva. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/
“é um trabalho de mulher, da minha wiki/Penalva_(Maranh%C3%A3o)>. Acesso em dia 15 de jan. de 2009.
esposa, ela é que iniciou essa programação, MÉD, Bohumil. Teoria da Música. Brasília: Musicamed. 1996

44 Em entrevista colhida em 13/05/2008.


45 Seu França considera casamento o registro oficial em cartório, ele esteve ao lado de Dona Zuquinha desde a formação do grupo.
Boletim 45 / dezembro 2009 13

O movimento e o gesto na
dança do Tambor de Mina 46
Patrícia Karla Medeiros Mota47

INTRODUÇÃO as corporais simbólicas que se afir- (1996, p. 8) são como “terapia gru-
mam como ritos de convívio, em re- pal de base popular, onde os fracos
Nas religiões, assim como em vári- lações sociais de trabalho, obrigações parecem fortes e o aprendizado da-
as áreas do conhecimento, o homem religiosas e produções coletivas que se ao pé do ouvido, conjunto com
recria através de organizações e com- “ ainda que não sejam identificadas movimentos, gestos e sinais de olhar”.
portamentos sociais, sistemas simbó- como proposições de ordem univer- Constituindo-se como manifestação
licos de seu imaginário e crenças, ba- sal podem ser generalizadas e, por- que se perpetua na transmissão oral
seados em signos própios, valores es- tanto, verdades à espera de novos de conhecimentos, no uso de medi-
téticos e hierarquias. desvelamentos”(SILVA NETO,1997, das educativas, orientadoras e disci-
Relacionando variadas formas de p.85). plinadoras (FERRETTI, 1996, p. 8).
fazer e arte, as religiões apresentam Teóricos como Laban (1978) já des-
movimentos e gestos, capazes de pro- 1. MINA, RELIGIÃO QUE DAN- creviam a religião como forma efeti-
duzir imagens, ações e estéticas con- ÇA va de integração e conhecimento, em
vergentes da participação individual que a dança ocupa lugar social para
em produções coletivas. A religião de origem africana é per- melhorar a vida das pessoas e da so-
Parte ritualística em todas as ma- meada de símbolos, coloridos, carac- ciedade, aperfeiçoando a consciência
nifestações religiosas e populares, a teres remanescentes, sincretismos48, em nível individual e na partilha do
dança se faz presente na religião afri- rituais e gestuais significantes. Acon- coletivo. Como cita é “fonte de do-
cana remetendo seu complexo voca- tecendo, em geral, em barracão de mínio e da perfeição do movimento
bulário gestual e coreográfico à afir- ambiente simples e colorido que reu- é a compreensão daquela parte da
mação de identidade sociocultural, à ne visitantes, iniciados, curiosos, co- vida interior do homem de onde se
signos da linguagem mítica, à memó- munidade e a irmandade da casa em originam o movimento e a ação, apro-
ria ancestral e a estados subjetivos do estímulos sonoros tocados e cantados fundando, o fluxo espontâneo e a
gesto social (MARTINS, 2001). por ogãs49, músicos que chamam a agilidade de mover-se”.
Elementos cênicos, musicais e ex- divindade com sua música ritmada, Garaudy (1980) assinala que a dan-
pressivos, enriquecem de intenções e cíclica e contagiante. ça nas sociedades africanas é um con-
imaginário as variadas manifestações E tudo parece ser necessário ao densador de energia, capaz de reu-
ritualísticas das diversas religiões bra- rito: a palavra, os movimentos, os nir forças da natureza e da comuni-
sileiras, assim como no Tambor de banhos de purificação, o capricho na dade, de seus vivos e mortos, crian-
Mina. Tornar visível o invisível é por brancura e no colorido das roupas do núcleos mais densos de realidade
tanto, o objetivo de uma celebração dos filhos e filhas de santo, a decora- e energia, que implicando em parti-
(LELLOUP & BOFF, 1997). ção. Assim, com fundamentos, ora- cipação, mobilização e emoção, eli-
A dança no Tambor de Mina tra- ções e obrigações simbólicas, todos mina o individual na busca coletiva
duz comportamentos culturais, cren- se voltam à dança, momento mais so- da natureza sobrenatural.
ças, memória e oralidade, de aspec- cializado dos rituais de festa. Na dança, “através do prazer no
tos simbólicos, sociais e performáti- Bastide (1978) infere que, o mun- corpo, o entendimento da consciên-
cos, que apresentam perceptível lin- do reconstituído em sua realidade cia cultural é possibilitado frente a
guagem artística e popular. mística, é sua verdadeira realidade. um universo material que torna-se
Desta forma, hábitos, concepções Segundo o ele, o salão de dança é repleto de impressões psicológicas
e culturas podem transmitir valores, então o microcosmo. refletidas …e memórias impressas
educar, evangelizar, perpetuar ele- Praticados ao longo de uma vida (MEYER, 2000, p. 83).
mentos da ancestralidade afro-descen- de aprendizado, as religiões afro-bra- Segundo Laban (1978) é o pensar
dente e se projetar na história das sileiras são consideradas “moderado- por movimento, coexistindo corpo-
mentalidades como verdades conce- ras de conflitos internos” (SIMMEL, ralmente frente ao mundo, que aper-
bidas por se tratarem de experiênci- 1988, p. 7), que segundo Ferretti feiçoa o homem quanto ao seu mun-

46 Versão resumida de texto encaminhado para publicação nos anais do GEPPEF - grupo científico do curso de Educação Física da UFMA. Apresentado no VII
Colóquio Internacional de Etnocenologia promovido pela UFBA e Universidade Paris 8 e no X Encontro Humanístico da UFMA. Relata pesquisação em
dança do Tambor de Mina, desenvolvida nos anos de1999 a 2001 com campo de estudo situado na Casa Fanti-Ashanti em São Luís/Maranhão. Enfatizando
a espetacularidade da dança na religião, a partir de gestuais simbólicos, nos movimentos e desenhos coreográficos na Mina, remete à transmissão de crenças
identitárias e a mobilização socio-cultural através do corpo nesta religião de matriz africana maranhense.
47 Bacharel em Dança; Professora substituta da UFMA – Dep. de Ed. Artística.
48 Ver Ferretti, Sérgio. Repensando o Sincretismo. São Paulo: ED. EDUSP: São Luís: FAPEMA, 1995.
49 Ogãs são homens iniciados no culto para a função de pai cujo fazer se dará na habilidade de prover o culto da presença dos orixás, voduns ou encantados.
Através dos toques e cantos ritualísticos são como mensageiros e mestres de cerimônia junto com a as ekedis e pais-de-santo.
14 Boletim 45 / dezembro 2009

CONTINUAÇÃO

do interior e à realidade que o cerca. próprios seres espirituais, em que ticipação transcendente em espetá-
Dançar é então, exercício menos de um aparenta dar passagem ao outro, culo popular, artístico e religioso com
esforço que de representação. segundo sua hierarquia, dinâmica e desenho espacial que comumente
A dança constitui-se para o afri- musicalidade. descreve roda (xirê) “em percurso anti-
cano, resultado de movimento evolu- Os gestos apresentados refletem horário, fazendo referência de retor-
tivo, conexão entre terra e espaço, ob- precisão e leveza, envolvendo em no à ancestralidade” (MARTINS,
servador e observado, ocupado por grande parte dançarinos ou baiantes 2001, p. 67).
forma e conteúdos intensionais de idosos que parecem deslizar, balan- É possível também estabelecer in-
energia, precisão, eficácia e transcen- çando braços e cantando em compas- ferências e projetá-las a partir dos
dência, na arte de exprimir em movi- sos cadenciados que as vezes se in- percurso das coreografias da Mina às
mentos, complexidade e valores alti- tercalam com alegros e estacatos, tal- danças dramáticas brasileiras, encon-
vos (VIEIRA, 2000). vez em menção ao fluxo da terra, do trando semelhança em gestuais e mo-
Assim, com elementos ideológi- mar, e dos planetas, seguindo dese- vimentos observáveis em danças co-
cos, festivos, tradicionais, bem como nhos espaciais descritivos, reverênci- nhecidas como no Tambor de Criou-
o estado emocional do dançarino e as ao solo e ao cosmo que incluem la, no Bumba-meu-boi, na Ciranda e
de todos presentes, a religiosidade movimentos de braços, cabeça, olha- no Coco, e outras danças que se de-
Mina traz cadência anunciada cons- res, foco, giro de pés e jogo virtuoso senvolveram em vários estados do
truída desde os primeiros toques, de saias. Brasil, locais em que as religiões de
iniciados pelo ferro ou pelo canto São registrados os elaborados mo- matriz africanas organizaram-se di-
específico dedicado a cada Vodum50, vimentos de dança que podem ser ferenciadamente das do Maranhão.
se desenvolvendo em dança crescen- classificados e catalogados segundo As organizações sociológicas en-
te e contagiante que interfere na re- os estudos de Laban (1978) que se de- contradas no Tambor de Mina são
alização do movimento e envolve em senvolvem com domínio e plasticida- variadas e incluem a participação
cartase o ambiente, a música e o de admiráveis com características de coletiva e a inserção na irmandade
momento de dança. peso, fluidez, intensidade, força, di- que a constitui em ritualística que
De repente as expressões se mo- reção, forma e dinâmica, reunidos à precede o rito espetacular e transcen-
dificam e a força ancestral ou cósmi- discretos gestuais indicativos de tra- de os salões, em comportamentos
ca (MARTINS, 2001) vem á tona. O balho e festa, deslocamento e altivez, perceptivelmente orientados em pre-
rito cresce em energia e emoção, pro- ou mesmo à transcendência incorpo- ceitos, fazeres, condutas e resguar-
movendo o contato com o sagrado e rativa. dos de acordo com a natureza do se-
hierarquias de seres espirituais (BAS- O ritmo volta ao normal, dançan- nhorio e do vodun (orixá) de cada in-
TIDE, 1978), toalhas são envoltas em tes incorporados se intercalam entre divíduo do culto e a linhagem da casa
cinturas demarcando a incorporação os que continuam dançando no sa- de culto.
em pessoas consagradas a esse traba- lão e outros que se sentam, tomam Há no transe princípios de rup-
lho e ritualística, estabelecendo com chá, conversam com a assistência e tura que se apresentam juntamente
estas estreita relação de coopartici- retornam à roda, onde a dança sem- com elementos do imaginário popu-
pação, simbolismo e significância51. pre continua até o horário do térmi- lar, incluindo memórias, transmissão
Com Voduns, Encantados, Gen- no previsto. Prolongando sua estada de conhecimento e oralidade que re-
tis, e Caboclos que “vem á guma para em bate-papos, rimas, cantorias e fletem participação e constatação de
baiar” a saia gira, surpreendendo em desafios que por vezes amanhecem. contínua coodependência entre as
frenesi, velocidade e eixo. O umbigo Neste diálogo de fé e beleza dos divindades e os seus instrumentos de
é o centro e eixo e parece até brincar aspectos estéticos do corpo, as dan- incorporação, denominados médiuns
entre equilíbrio e desequilíbrio. ças, gestos e movimentos se combi- ou cavalos.
Com dinâmica coreográfica vari- nam com elementos do espaço, in- Segundo Bastide (1978) refletimos
ável que desponta em desenhos cir- dumentária e adereços, como bas- simbolicamente o mundo mítico (ori-
culares, filas, fileiras, movimento de tões, fios de conta, lenços, que asse- xá) e somos donos da nossa própria
pequenos coices, rodopios, de onda guram e afirmam a identidade, a per- existência, o que se confirma com
e alternância que parecem imitar o sonalidade e a performance dos ele- citação de caboclo de encantaria, cer-
mar, movimentos são repetidos e al- mentos e seres evocados. ta vez durante o estudo de campo ao
ternados promovendo tranze de con- A dança do Tambor de Mina re- dizer que o dançante precisa estar
tínuas cíclicas de incorporação aos mete a elementos simbólicos de par- consciente da sua aprendizagem, res-

50 Termo que designa divindade de origem Jeje, de mais alta hierarquia, geralmente ligada a uma família de reis africanos cultuados nos terreiros e irmandades.
Nota-se a presença dos Gentis, que representam ancestrais divinizados ligados á origem de reis e personalidades européias e os caboclos, ligados aos primeiros
índios encontrados pelos portugueses e escravos quando da sua chegada.
51 Conceito que rege as unidades simbólicas ligadas à identidade e às referências ancestrais. Também encontrasse no conjunto de pesquisas fenomenológicas as
noções interpretativas de unidades de significados, que dar-se-ão na compreensão e interpretação hermenêutica do fenômeno segundo uma dada intencionalidade
e situacionalidade (SILVA NETO, 2001).
Boletim 45 / dezembro 2009 15
CONTINUAÇÃO

ponsabilidade e atuação, afirmando psíquica, como podemos observar no Referências


que este capta seus cantos, denomi- transe por incorporação. Assim, cor-
nados na Mina de pontos, e conhe- po, pensamento e saberes são inse- BASTIDE, Roger. O Candomblé da
cimentos de dança e música da cabe- paráveis, não havendo pensamento Bahia. São Paulo: Ed. Nacional,
ça do médium cuja consciência e de- sem corpo, pois segundo Pradier et 1978.
senvolvimento cognitivo possibilita al. (1998) o pensamento, é uma for- BOFF, Leonardo; LELOUP, Jean-
performance apurada. ma dilatada no espaço. Yves. Terapeutas do Deserto. Rio de
Cada encantado possui seus pon- Descrevendo a variedade de ele- Janeiro: Vozes,1997.
tos, músicas características, que des- mentos cênicos, musicais e expressi- FERRETTI, Sérgio F. Querebetã de
crevem a personalidade e a história vos, que enriquecem de intenções e Somadonu: etnografia da Casa das
de vida do encantado ou caboclo du- imaginário os aspectos ritualísticos Minas do Maranhão. São Luís: EDU-
rante sua passagem pela terra antes desta religião, é possível testemunhar FMA, 1996.
que os mesmo houvessem se encan- variadas manifestações corporais den- ________ Repensando o Sincretis-
tado52. Curiosamente com o óbito do tro da organização ritual e das fes- mo. São Paulo: Edusp. São Luís: Fa-
médium esses pontos se perdem e tas, que tem presença constante da pema, 1995.
com eles grande legado artístico mu- dança e importância na presença da GARAUDY, Roger. Dançar a Vida.
sical deixam de ser reproduzidos, fi- incorporação, como fator de elabo- Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
cando apenas na memória dos pró- ração e designação espetacular e per- LABAN, Rudolf. Domínio do Mo-
prios dançantes, caboclos e encanta- formática. vimento. São Paulo: Summus, 1978.
dos que comentam saudosos. Capaz de transcender as condi- MARTINS, Susana. O Gestual das
A transmissão de conhecimentos ções sociais cotidianas e preservar a iabás iemanjá, Oxum e Inhansã na
no Tambor de Mina se dá no conví- transmissão da identidade cultural, festa publica do Candomblé da
vio com os mais velhos e experien- como fator de mobilização sociocul- Bahia. Salvador: UFBA/
tes, em contínuo exercício de orali- tural e produção simbólica, a dança PPGAC.Repertório, Nº 5, 2001.
dade e resolução dos conflitos coti- e os rituais simbólicos da Mina são MARTINS, Suzana. A Dança do
dianos inerentes à participação em referência viva e dinâmica do poten- Candomblé: Celebração e cultura.
grupo social organizado, reafirman- cial criativo e do comportamento fes- Salvador: UFBA/PPGC. Repertório,
do a teoria da Sociação de Simmel tivo dentro das religiões de matrizes Nº 1, 1998.
(1988) sobre a natureza de superação africanas maranhenses. MEYER, Sandra. O Corpo e as
presente no conflito sociológico. Este emoções. Cultura. VIEIRA, Jorge de
afirma que “na religião, o objetivo é CONCLUSÃO Albuquerque. Formas de conheci-
mento: Arte e Ciência. Salvador:
sua própria realização, o indivíduo é
UFBA/PPGC. Repertório, Nº3,
julgado por suas obras, mediadas por O referido estudo resultou de pes-
2000.
normas transcendentais”. quisação em dança do Tambor de
PRADIER, Jean-Marie. Etnocenolo-
Nos culto de matrizes africanas, Mina, desenvolvida ao longo de tres
gia, A carne do espírito. In: Armin-
como a Mina, as atuações detém de- anos de participação e envolvimento
do Bião. Salvador: UFBA/PPGAC.
finições específicas a cada participan- nas irmandades e festejos que com-
Repertório, nº 1,1998.
te, seja ao iniciado ou ao público em põe o calendário de atividades da
SANTOS, Inaicyra Falcão dos. Cor-
redor, sendo que, mesmo o iniciado Casa Fanti-Ashanti em São Luís-MA.
po e ancestralidade. Uma proposta
no transe é consciente de que está Constatou-se, com isso, a comple- pluricultural de dança-arte-educação.
diante de um público que o cerca xidade das organizações sociais pre- Edufba, 2002.
(BIÃO, 1998). sentes e a espetacularidade resultan- SANTOS, Maria do Rosário Carva-
Religiões e danças como as do te, observadas na dança e rituais da lho. O Caminho das Matriarcas Jeje-
Tambor de Mina possibilitam resis- religião do Tambor de Mina. Nagô. São Luís: 2001.
tência à uniformização cultural, re- A partir de gestuais simbólicos, SILVA NETO, Mateus Antonio de.
presentação de experiência e saber, presentes nos movimentos e dese- Das concepções de universidade:
e dos esforços organizados das mino- nhos coreográficos na Mina, utilizou- Uma perspectiva Fenomenológico-
rias que participam de grupos soci- se do arcabouço teórico da Sociolo- Existencial Hermenêutica, São Luís,
ais e artísticos. gia, da Dança, dos estudos do Movi- 1999.
A religião, assim como a arte não mento de Laban e da Etnocenologia, SIMMEL, Georg. A natureza soci-
concebem a existência de atividades ciências que se ocupam de práticas ológica do conflito. In: Moraes Fi-
simbólicas sem corpo e atividades espetaculares e performáticas, artís- lho, E. (org.). Simmel- Sociologia.
corporais sem implicação cognitiva e ticas e sociais. São Paulo: Ática, 1988.

52 Segundo os mesmo eles não morreram, mas se encantaram, desaparecendo do mundo físico diferenciadamente da forma do óbito, só retornando depois
como encantados e caboclos.
16 Boletim 45 / dezembro 2009

Jurema, ô Juremê Juremá Mundicarmo Ferretti

J urema – arbusto, religião e entidade espiri-


tual cabocla - muito encontrada no Nordes-
te e também muito conhecida no Norte e em
pertencia a ‘linha de encruzilhada’, e que tam-
bém participou da festa. Aos mestres incorpora-
dos era servido um cálice de jurema e entregue
da e terecô, é um dos pontos de união no Ma-
ranhão entre as religiões afro-brasileiras.
Tal como anunciado em um ponto de
todas as regiões brasileiras que receberam mi- um cachimbo com o qual faziam defumação co- Umbanda, os “filhos da Jurema” podem con-
grantes nordestinos ou que integraram a Um- locando a boca no fornilho, soprando, o que fa- tar com a sua proteção para o que “der e vier”.
banda à sua cultura tradicional. Em comuni- zia a fumaça sair pelo cabo. Não houve toque, Ela pode ser invocada tanto para restaurar a
dades indígenas nordestinas o arbusto jurema mas se sacudiu maracá dando salvas à ‘Jurema saúde e satisfazer as necessidades de quem
tem grande importância no culto aos antepas- sagrada’ e, invocando Nossa Senhora e algumas nela confia e quanto para a sua defesa contra
sados, pois com partes dela se prepara uma entidades, as entidades recebidas cantaram ou inimigos, em caso de demanda:
bebida que facilita a comunicação do grupo foram homenageadas com cânticos.
com as gerações passadas, que é consumida Embora o ritual de Jurema observado em Jurema, a tua folha cura, a tua flecha mata.
durante o ritual do Toré (GRUNEWALD, Natal tenha sido uma “mesa de folguedo” - Eu sou filho da Jurema, não posso viver
2005). A ingestão de bebida preparada com para beber, brincar e agradecer as orientações sem a mata.
suas folhas, cascas e raízes da jurema é tam- recebidas, várias entidades se aproximaram da
bém encontrada no Catimbó, principalmente assistência indagando como as pessoas esta- A Cabocla Jurema, representada no pon-
no NE, e às vezes também em cultos aos cabo- vam passando, para saber se precisavam de to citado como integrada à mata, é também
clos realizados em terreiros de religião afro-bra- alguma coisa, fazendo alguns comentários e/ associada às águas e recebida na Umbanda
sileira e de umbanda que integraram elemen- ou reforçando a confiança nelas depositada como a Jurema da Praia e a Jurema da Cacho-
tos do Toré indígena e do Catimbó (ASSUN- pelo grupo: “tu é capaz de tirar a roupa do eira. E, divido a sua relação com a natureza
ÇÃO, 2006). No Catimbó a bebida sagrada feita corpo para dar, por isso estamos sempre do teu pode ser apresentada como símbolo da har-
com a jurema é muito apreciada pelos mestres lado”, falou uma delas a um dos visitantes. monia homem-natureza.2
– antigos catimbozeiros ou juremeiros, conhe- A Cabocla Jurema, ao contrário dos boia-
cedores das propriedades terapêuticas das er- deiros, vaqueiros, turcos, cigano, marinheiros
vas e de produtos naturais e detentores de e muitos caboclos recebidos em transe mediú- Referência
poderes mágicos. Fala-se que alguns deles, nico nos terreiros brasileiros, liga-se aos primei-
alem de grandes curadores, eram também ca- ros habitantes do Brasil, aos “verdadeiros do- ALVARENGA, Oneida. Registros sonoros do
pazes de atacar e até de matar por meios mági- nos da terra”, como se costuma falar. É repre- folclore musical brasileiro: catimbó. São Pau-
cos os inimigos, daí a má fama conquistada sentada como uma cabocla de pena (índia, fi- lo: Discoteca Municipal, 1949.
pelo Catimbó entre os que não o conhecem de lha de tupinambá), morena, bonita, flecheira, ASSUNÇÃO, Luiz. O reinado dos mestres: a
perto (CASCUDO, 1978). A jurema arbusto tradição da jurema na umbanda nordestina.
invencível – “nunca atirou para errar”, confor-
tem várias espécies, algumas delas com pro- Rio de Janeiro; Pallas, 2006.
me declarado em um de seus pontos cantados CAMARGO, Maria Thereza L. de Arruda.
priedades alucinógenas atestadas pela ciên- em rituais realizados em terreiros. Como é re-
cia, capazes de provocar um estado especial As plantas do catimbó em Meleagro de Cama-
cebida e homenageada na mina, cura, umban- ra Cascudo. São Paulo: Humanitas/FFLCH/
de consciencia necessário à comunicação com
USP, 1999.
os antepassados (CAMARGO, 1988; 1999).
————. Plantas medicinais e rituais afro-bra-
A jurema religião também conhecida como
sileiros I. São Paulo: ALMED, 1988.
Catimbó tem em Alhandra, na Paraíba, a sua CASCUDO, Luiz da Câmara. Meleagro. Rio
“Meca” (SALLES, 2004). Fala-se que ali vive- de Jneiro: Agir, 1978.
ram grandes mestre como Zé Pilintra e Maria CONCONE, Maria Helena Vilas Boas. Um-
Açaís, que abriram as primeiras mesas (rituais) banda uma religião brasileira. São Paulo: USP/
de Jurema e que depois de desencarnados, FFLCH/CER, v. 4, 1987.
dela participam, atendendo a chamado de GRUNEWALD, Rodrigo de Azevedo (org.).
outros catimbozeiros, curando e ajudando a Toré: regime encantado do índio do Nordeste.
população na solução de problemas diversos. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2005
É mais difundida no Nordeste e entre popula- PRANDI, Reginaldo (org.) Encantaria Brasi-
ções rurais, mas foi levada por migrantes a ou- leira: o livro dos mestres, caboclos e encanta-
tras regiões e, depois de absorvida pelas religi- dos. Rio de Janeiro: Pallas, 2001.
ões afro-brasileiras e pela Umbanda, passou SALLES, Sandro Guimarães de. À sombra da
jurema: um estudo sobre a tradição dos mes-
também a ser mais conhecida nas capitais e
tres juremeiros na Umbanda de Alhandra –
nas grandes cidades, tornando-se mais públi- PB. DISSERTAÇÃO. UFRN/PPG CS, 2004.
ca e ganhando ali uma dimensão mais festiva.
Em maio de 2004 tivemos oportunidade (Footnotes)
de assistir em Natal (RN) a um ritual realizado 1
Dra, em Antropologia; Professor Emérito da
anualmente em homenagem a entidades da UEMA; Profa. do Programa de Pós-Gradua-
Jurema, em um terreiro de Candomblé. A mesa ção em Políticas Publicas e em Ciências Soci-
estava repleta de comidas a eles oferecidas ais da UFMA; membro da CMF.
cada uma em um recipiente diferente. Havia
2
Segundo Pai Eduardo d
também ali um berimbau, talvez porque nela ’ Oxossi, “toda cabocla Jurema tem vibração
comiam também os pretos velhos. Segundo originária de Iansã, mas poderemos encontrar
a mesma entidade trabalhando em outras vi-
nos foi explicado pelo pai-de-santo, eles foram
brações como Jurema da Praia, na vibração de
também curadores, benzedeiras e rezadeiras Iemanjá; Jurema da Cachoeira, na vibração de
e são conhecidos como os responsáveis pela Oxum; Jurema da Mata, na vibração de Oxos-
ligação do índio com o negro. Havia também si, e assim sucessivamente. É a mesma entida-
no chão, em outra parte do salão, uma mesa de, com vibração originária de Iansã, penetran-
para caboclos e, em um dos cantos, um altarzi- do em outras vibrações de Orixás” (
nho iluminado que, como soubemos depois, www.eduardoxossi.com
era o ponto da cigana recebida pelo pai-de-
santo que, segundo nos foi esclarecido, não – acesso em 02/12/2009).
Boletim 45 / dezembro 2009 17

Janela do Tempo
O Baralho vai passar53
Nonnato Masson54

O cordão vai passar. É o “baralho”, o - Viva o Baralho das Barrocas, viva o dios, e o rabo do cordão se arrasta ainda
Brilho das Barrocas, vai gente de todo tipo nosso cordão, viva a nossa brincadeira! pela Praia do Caju.
e tamanho. - Hoje é carnaval, hoje o dia é nosso! Quem vai, vamos, que é carnaval, o dia é
Na frente vai a porta-bandeira faceira, Vale tudo como fantasia, roupas de nosso!
fuzarqueira, rameira, reboladeira, vestida de marinheiro de chegança, de Caninha Ver- Vai gente de toda laia e de todo ofício,
azul cintilante, estrelado de branco , a sara- de, Dança de São Gonçalo, Terço, Bumba- até mesmo a súcia dos sevandijas.
cotear, a agitar o verde pendão do cordão meu-boi, roupas do Divino e dos terreiros Um pique de cavalaria da Força Públi-
Brilho das Barrocas, pendão verde-bonan- de mina, fofão, dominó, cruz-diabo. E la- ca, cada megalha com seu chanfalho, vê o
ça que a brisa de São Luís beija e balança. vai o cordão. brilho das Barrocas passar serpenteando,
O mestre-sala vai de fraque amarelo e Lá vai o cordão com a patuléia, a saran- em frenética algazarra, pela Rua dos Re-
calça verde apertada na regada; brilha o lu- dalha, a fina flor da escumalha. Só gente médios, no rumo da Rua do Passeio.
minoso do cetim. Na cabeça, um despro- plebéia, agitada, destrambelhada, excitada, De vez em quando cessa o som da cor-
pósito de cartolina alviazul de papelão. suada, a pular, a gingar, a cantar, a baralhar, da e de sopro, o cordão para e faz roda.
A música é de flauta e clarinete, violão a multidão encachaçada, saída das Barro- Desta feita foi no Largo do Quartel. Os
e cavaquinho, pandeiro e reco-reco, har- cas coloando, serpenteando, ziguezaguean- crioulos ajoelhados, esmurram os tambo-
mônica e maracá de folha de flandres. do, volteando pela cantaria e cabeças-de- res e as crioulas cantam e dançam. As cri-
Os crioulos dos tambores vão só de ce- negro da Rua da Alagadeira. oulas reboladeiras rebolam, quebram, re-
roulão, nus de cintura para cima. As criou- Vai o Brilho das Barrocas em três colu- quebram, seios duros bulindo, o cabeção
las, não. Cada crioula veste cabeção de ren- nas por um, podia ser de mais, mas vai sacudindo. Rebola crioula. E tome punga!
da e saia de veludo, com anágua engoma- mesmo assim, para se esbaldar, para brin- Tome umbigada!
da, prá não aparecer o bicho cabeludo. car, amar e gozar, cada um segurando com É o Baralho, cordão de muita gente,
Rebola bola, você diz que dá, que dá, e as mãos a bunda do outro para não sair da gentinha, animando o Carnaval de Rua de
tome punga! E tome umbigada! linha nem perder o ritmo, a porta-bandei- São Luís, no começo do século XX, com
Eta, crioulas inzoneiras, metedeiras, ra na frente já está lá em cima na Rua dos tambores de crioula e música como o “ma-
parideiras! Afogados, quase saindo na Rua dos Remé- xixe”.

RESUMOS E RESENHAS
DISSERTAÇÃO MANHÃES, Juliana Bittencourt. MONOGRAFIA
2009 Memórias de um corpo brincante: a brinca- 2008
CORNELIO, Paloma Sá de Castro. deira do cazumba no bumba-boi maranhen- MENEZES, Flávia Andresa Oliveira de.
Reisado Careta: brincadeira para salvar San- se. DISSERTAÇÃO. Mestrado em Artes Espacialidade e gestualidade: a prática perfor-
to Reis. DISSERTAÇÃO. Mestrado em Ci- Cênicas – UFRJ. 2009. Orientador: José Luiz mativa dos caretas e dos brinquedos da reisada.
ências Sociais. São Luís, UFMA. 2009, 82 p. Ligiero Coelho. MONOGRAFIA. Graduação em Educação
Orientador: Dr. Sergio F. Ferretti. RESUMO Artística. São Luís, UFMA, 2008, 120 p. Orien-
RESUMO A brincadeira do cazumba dos bois da
Análise do folguedo Reisado Careta, com tadora: Profa. Tânia Cristina C. Ribeiro.
Baixada Maranhense constitui o principal RESUMO
música, dança, canto e poesia; realizado por objeto deste estudo. Fazendo uma reflexão
agricultores da região do Médio Itapecuru, Através de estudo sobre a reisada de Na-
sobre a sua movimentação e funções dentro zaré do Bruno, brincadeira do ciclo natali-
sertão leste do Maranhão, especialmente na
da manifestação, agregando uma diversida- no, faz um estudo eucinético e coreológico
cidade de Caxias. O Reisado Careta é uma
de de sentidos sobre o personagem. Além da gestualidade e da movimentação espaci-
festa para louvar Santo Reis e acontece em
de buscar significados sobre o uso de sua al dos brinquedos da reisada e destaca a
forma de jornada que simboliza o caminho
indumentária, bata, cofo e careta. Este tra- forma como tais elementos são aprendidos.
feito pelos Três Reis do Oriente desde a noite
do dia 25 de dezembro, data do nascimento balho procura identificar o que é um corpo Aborda elementos históricos a respeito do
de Cristo Jesus até o dia 06 de janeiro, quan- brincante e fluido, onde o jogo e a esponta- culto aos reis magos, na Europa da Idade
do os Reis chegaram a Belém. As persona- neidade trazem a marca da performance do Média, posteriormente focando a Penínsu-
gens representadas na brincadeira variam en- cazumba, buscando contribuir para os estu- la Ibérica e o Brasil, dando enfoque as con-
tre seres animais (burrinha, boi, galo, ema, ba- dos das culturas populares e sua relação com cepções dos participantes que residem no
bau), humanos (Nega-véia) e fantásticos (jara- o corpo, ampliando possibilidades nos estu- Povoado Nazaré do Bruno. Descreve a brin-
guaia, os caretas), entre outros conforme cada dos do teatro, da dança e suas relações com cadeira situando seu período de aconteci-
grupo de brincantes apresentar. Os instru- as manifestações brasileiras. A principal fon- mento, a forma como acontece e os motivos
mentos também variam entre sanfona, rabe- te de pesquisa foi o Boi da Floresta, através que levam os indivíduos a dela participar.
ca, banjo, viola, pandeiro, triângulo e tambor. do seu fundador mestre Apolônio e o mestre Deixa registro sobre a brincadeira e se ca-
Criação cultural de uma comunidade é base- cazumba e artesão Abel Teixeira, além de racteriza como contribuição para a corren-
ada em suas tradições. depoimentos de cazumbas da Baixada. te de estudo da etnocenologia.

53 Transcrito do Suplemento Cultural do SIOGE – VAGALUME. São Luís. Março/abril de 1994, p.23. O original trazia uma foto de Biné Morais com a
legenda: Na Madre Deus, o Baralho de Zé Garapé não perde o rebolado e guarnece a tradição passada de geração em geração.
54 Nonnato Masson, da Academia Maranhense de Letras, é jornalista e cronista do jornal “o Estado do Maranhão”.
18 Boletim 45 / dezembro 2009

Notícias – Roza Santos


Comunicações Científicas distribuídas
PRAIA GRANDE II CONFERENCIA em 22 Mesas temáticas a partir de
DAS ARTES MUNICIPAL DE
trabalhos aceitos e em cinco Mesas
especiais com trabalhos de
A Superintendência de Ação e CULTURA – CULTURA E pesquisadores convidados. Além
posteres – comunicação de trabalhos
Difusão Cultural/SECMA realizou o
Praia Grande das Artes, de 27 a 30 de
CRISE, de estudantes e mestres da cultura
popular -, simpósios, conferências,
outubro. Foram quatro dias de mostra
da diversidade da cultura maranhense A Prefeitura Municipal de São Luis assembléias, apresentações,
– cortejo do divino, cortejo de tambores, realizou dias 28, 29 e 30 de outubro a exposições, lançamentos de livros,
cortejo junino e cortejo carnavalesco da Segunda Conferência Municipal de apresentações de grupos folclóricos,
Praça Deodoro à Praia Grande; Cultura. N a abertura a representante oficinas e feiras. A Mostra de Vídeos
lançamentos de livros na Praça da Casa Regional do MinC para o Nordeste, Documentários em que se destacou a
do Maranhão; instalações de artistas Tarciana Portela falou sobre Cultura e retrospectiva da produção do cineasta
plásticos ao longo do Largo do Comercio Crise. No dia 29 realizou-se a leitura e Orlando Bonfin com os filmes “Cantos
e em torno do Mercado das Tulhas; e aprovação do Regimento; apresentação da Liberdade- a festa do Tucumbi”,
mais shows, canto coral, apresentações dos eixos temáticos definidos na Pré- “Mestre Pedro de Aurora”, “Dois Reis
de grupos folclóricos, espetáculos de conferencia e aprovação dos pontos Magos dos Tupininquim” e “As
teatro e dança e cinema que se discutidos. E no terceiro dia, Cultura: Paneleiras do Barro”. O Congresso
concentraram no Centro Histórico ao direito e cidadania – o papel dos também abriu a mostra para cineastas
longo da Rua Portugal, Largo do Conselhos Municipais de Cultura; amadores com documentários na área
Comércio, no Mercado das Tulhas, na formação do Conselho Municipal de do folclore. Da Comissão Maranhense
Praça Nauro Machado, no Teatro de cultura; indicação de nomes para de Folclore participaram: Maria
Arena Beto Bittencourt- anexo ao Odylo composição do mesmo; eleição e Michol Pinho de Carvalho, que
Costa Filho, no Canto das Culturas e apresentação da Delegação para a ministrou aula no Curso de Folclore
no Pátio interno do CCPDVF. O Baile Segunda Conferência Estadual de sobre “Festa do Divino”; Sérgio Ferretti,
do Bicho com o grupo Bicho Terra, Na Cultura. que participou da Mesa Redonda “O
Praça Nauro Machado, encerrou o Praia Folclore Brasileiro e a Convenção
Grande das Artes. CONGRESSO Internacional de Proteção e Promoção
da Diversidade das Expressões
BRASILEIRO DE
SEMANA NACIONAL Culturais”, como coordenador; Flávia
FOLCLORE Andresa Oliveira de Menezes, que
DE CIENCIA E participou do Simpósio Temático com
TECNOLOGIA A Comissão Nacional de Folclore e o trabalho “A pratica performativa dos
a Comissão Espiritosantense de Caretas e brinquedos da ‘reisada’ de
Folclore, com o apoio das outras Nazaré do Bruno – Caxias-MA”; e a
A Secretaria de Estado de Ciência
e Tecnologia e o Centro de Pesquisa Comissões Estaduais, realizaram o XIV presidente Lenir Oliveira, que
de História Natural e Arqueologia do Congresso Brasileiro de Folclore, em participou do Seminário para discutir
Maranhão, com o tema “Caminhos da Vitória, Espírito Santo, com o objetivo o Regimento da Comissão Nacional de
Pré-História do Maranhão”, realizaram integrar mestres da cultura popular e Folclore e compromissos
a Semana Nacional de Ciência e mestres do saber erudito num mesmo administrativos relativos às Comissões
Tecnologia 2009. Discutir a ciência, patamar de conhecimento, em busca Estaduais. Nas atrações culturais a
transformando-a em um bem público, de caminhos conjuntos para uma atração especial foi o II Desfile da
e atrair principalmente a juventude sociedade de respeito à cultura popular, Identidade Capixaba e Brasileira
através de oficinas, palestras, mini- aos criadores e aos seus estudos. Um
dos pontos centrais de discussão foram
cursos, painéis itinerantes, exposições
as políticas públicas que estão sendo
PREMIO CULTURAS
de projetos, mostras de vídeos, filmes,
documentários, atrações culturais e desenvolvidas para o folclore no país. POPULARES 2009 (I)
feira de ciências foi um dos objetivos. Dentro desse tema a Secretaria de
Tudo em função da riqueza de sítios Identidade e Diversidade – SID/MinC Como resultado das discussões sobre
arqueológicos e fossilíticos que o estado teve dois representantes : Ricardo Lima projetos habilitados no edital para o
possui e que precisam ser mais , Diretor de Políticas Públicas da Prêmio Culturas Populares - Edição
conhecidos para que sejam melhor Diversidade e Identidade, que Mestra Dona Izabel durante o XIV
preservados. Outro objetivo é discorreu sobre O Estado Brasileiro e Congresso Brasileiro de Folclore, a
movimentar o estado para que seja as Políticas Públicas para o Folclore e Comissão Nacional de Folclore enviou,
criado um museu de ciência. A Marcelo Manzati, Coordenador Geral dia 28, carta ao Secretário da
abertura contou com a apresentação da de Fomento à Identidade e Identidade e Diversidade-SID/MinC,
Infinity Jazz Band da Escola de Música Diversidade, sobre Políticas Públicas Américo Córdula, solicitando uma
do Maranhão. para o Folclore Brasileiro. Foram 102
Boletim 45 / dezembro 2009 19
CONTINUAÇÃO

semana a mais do prazo concedido (dia na prevenção e tratamento de doenças; e Silva) e Mestre Arapiagha (Rivas
26 ao dia 30 de novembro) Projetos sociais e ações de Saúde Neto), lança CD histórico. Os estúdios
considerando que, para que a realizada nos Terreiros; Intolerância da Ayom Records fizeram recuperação
documentação chegue no prazo Religiosa: desafios e avanços para no áudio, limpeza nas freqüências e
solicitado os participantes pré garantia do direito da liberdade chiados dos pontos gravados com Pai
habilitados terão que enviar por sedex religiosa; Poder público: projetos de Rivas, num gravador de mão, e
sua documentação e que o mesmo incentivo e valorização da cultura e transformaram num registro imperdível
custa caro de acordo com o perfil dos religiosidade dos afro-descendentes. para que o povo da Umbanda possa
participantes a qual o premio se Definição dos Terreiros responsáveis conhecer o modo de se cantar e de se
destina. Solicitação votada favorável pelo VI EMCAB. Oficinas sobre: Ervas louvar os ancestrais nas tradições da
pelos presentes na plenária final do Medicinais; Gênero e sexualidade nos Umbanda Esotérica e na Umbanda de
Congresso. terreiros; Elaboração de Projetos e Síntese. Este é o primeiro volume de
Documentação jurídica necessária uma série de cinco discos em que os
para os terreiros. Grupos de Trabalho: principais cânticos e invocações de
Pretos-Velhos, Caboclos, Exus e
PRÊMIO CULTURAS Educação e Cultura; Saúde, Meio
Crianças são registrados pela primeira
ambiente, Juventude e geração de
POPULARES 2009 (II) renda. O Documento de vez. Para adquirir este disco escreva:
Reivindicações elaborado no referido ayom77@gmail.com ou ligue (011)
encontro será entregue aos 3499-6152 ou 9761-8058.
Dos projetos habilitados 1.113 são de representantes do Poder Público dia 10
mestres; 601 de integrantes de grupos/ de dezembro, às 15 horas, no Auditório
comunidades informais e 263 de do Sindicato dos Bancários, Rua do LANÇAMENTOS DO
integrantes de grupos/comunidades Sol, nº413-Centro. IPHAN
formais. A Comissão de Seleção conta
com 32 membros e é formada por
antropólogos, pesquisadores, EXPOSIÇÃO ZELADORAS A Superintendência do Instituto do
representantes de fóruns do segmento e Patrimônio Histórico e Artístico
técnicos/dirigentes do Sistema MinC, DE VODUNS Nacional-IPHAN/Maranhão lançou o
além de três mestres que tiveram suas livro/CD “Caixeiras do Divino de
iniciativas contempladas em editais Alcântara” dia 25 de setembro, no
anteriores. A Comissão Nacional de O fotógrafo Márcio Vasconcelos CCPDVF, Rua do Giz, 221. O outro
Folclore está representada por Aglaé abriu Exposição Zeladoras de Voduns lançamento “Inventário do Patrimônio
D’Avila Fontes de Alencar, vice- e outras entidades – Do Benim ao Ferroviário no Maranhão – rede
presidente da Comissão Nacional e Maranhã . O fotógrafo maranhense ferroviária São Luis-Teresina”, livro
membro da Comissão Sergipana de traça paralelo entre a religião afro- voltada para dar conhecimento desse
Folclore, e por Luis Cláudio M. Ribeiro, maranhense e a beninense através de patrimônio e chamar a atenção para a
da Comissão Espiritosantense de Folclore. fotografias. Na abertura Márcio falou necessidade de medidas urgentes para
sobre a experiência de fazer o caminho a sua preservação. Dia 18 de novembro,
de volta – São Luís/Benin – para no auditório do IPHAN. Também na
V ENCONTRO responder aos seus questionamentos Rua do Giz, 235-Centro.
enquanto maranhense que revela e
MARANHENSE DE perpetua com suas lentes a cultura
CULTOS popular maranhense em sua CONFERENCIA
AFROBRASILEIROS –
diversidade. Para realização desse ESTADUAL DE CULTURA
trabalho contou com a ajuda do
EMCAB antropólogo beninense, radicado no
A II Conferência Estadual de
Brasil, Hippolyte Brice Sogbossi, que
por várias vezes esteve em São Luís Cultura do Maranhão, aconteceu dias
estudando a Casa das Minas. A 2, 3 e 4 de dezembro, no Centro de
A Tenda São Jorge Jardim de Oeira
Convenções Pedro Neiva de Santana,
da Nação Fanti-Ashanti, mais exposição encontra-se na Casa de
em São Luis, com a participação de
conhecida como Casa Fanti-Ashanti, Nhozinho, térreo - Rua Portugal 185-
gestores públicos e privados da cultura,
realizou de 06 a 8 de novembro o V Praia Grande.
artistas, produtores, conselheiros,
Encontro Maranhense de Cultos Afro-
empresários, patrocinadores,
brasileiros. Durante o Encontro foram
pensadores, ativistas e de mais atores
discutidos: A ancestralidade e CÂNTICOS DE da sociedade civil organizada.
globalização: o resgate, preservação e
evolução da religião de matriz africana;
UMBANDA EM CD Durante a fase de conferências
municipais e intermunicipais, 51
Medicina Popular versus Medicina
cidades participaram do processo de
Tradicional - a importância e o Lançamento histórico! O Terreiro da debates e escolhas de delegados em
reconhecimento das ervas medicinais Aruanda, com Mestre Yapacani (Matta todo Estado.
20 Boletim 45 / dezembro 2009

PERFIL POPULAR
Dona Jaci - Prenda de Valor Keyla Santana 55

J aci Gomes Santos, a Dona Jaci, é uma das


mais importantes e conhecidas caixeiras-
régias de festa do Divino Espírito Santo em
e falar pouco. Outra característica que
considera importante é o equilíbrio, a calma e
a educação no trato com as pessoas, atributos
São Luís. Na função de caixeira-régia – aquela indispensáveis para enfrentar com serenidade
que, junto com a caixeira-mor, comanda o grupo os muitos conflitos existentes entre as
de caixeiras que tocam em festas do Divino - é caixeiras, principalmente na relação destas
responsável pelo andamento do ritual de 26 com a caixeira-régia.
festas, como a festa do Divino na Casa das
Minas e de D. Célia Castro, no Maracanã. CAIXEIRA ONTEM E HOJE
Devota de Espírito Santo e também de São
Benedito, faz do ofício de caixeira-régia a sua “As caixeiras antigamente tocavam por
principal ocupação ao longo de todo o ano. prazer hoje as caixeiras tocam por dinheiro”.
Dona Jaci, como é mais conhecida, nasceu em De acordo com D. Jaci, o “agrado” em dinheiro
São Luis, no dia 2 de outubro de 1942, filha de dado às caixeiras tem se tornado um dos
Creuza Cardoso e Matildo Ramos. Não chegou principais responsáveis pela inimizade dentro
a conhecer o pai, que a entregou para a avó do grupo, porque se uma caixeira ganha uma
materna com quem morou durante toda a sua quantia maior que as outras, ou então não
vida até se casar. Sobre esta etapa de sua vida divide com todas o “agrado” recebido é logo
recorda da casa animada e da personalidade recriminada. D. Jaci, a respeito desse
divertida da avó, Maria Santos Cardoso, que comportamento, diz: “nasci e me criei tocando
promovia muitas festas, como: Divino Espírito de graça para Espírito Santo. Se eu quisesse
Santo, Reis, Bloco Carnavalesco e Bumba- ir na festa, arranjava meu trocado para pagar
meu-boi, no bairro da Macaúba. D. Jaci não meu transporte, arrumava minha roupa, meu
gostava dessa animação que, segundo diz, “era o sapato... Mas hoje não, se não tiver o pano
festeiros estavam em sua casa solicitando-a para fazer a roupa, o “agrado”, a cerveja, a
mês inteiro de incômodo; eu querendo dormir, e
no ritual. Novamente pediram ao Sr. Veríssimo caixeira não quer tocar”.
o barulho não deixava”. Quando era a época das
A disputa por caixeiras, que são poucas, é
festas do Divino Espírito Santo, por exemplo, para que deixasse a esposa participar. Para
o que faz com que os donos de festa do Divino,
chegava mesmo a se zangar com as caixeiras novo espanto, ele deixou e D. Jaci pode, já
queiram agradá-las para que possam sempre
pelo barulho que faziam ao tocar e cantar. pelo segundo ano, participar da festa, sempre
retornar a festa, já que como a própria D. Jaci
Na escola, D. Jaci não chegou a concluir como caixeira-régia. Porém, apesar da
diz: “sem caixeira não tem festa”.
os estudos e cursou até o 7º ano Ginasial. A permissão, as brigas em casa se agravavam Além desses conflitos, outra lamentação
falta de incentivo foi a principal responsável pelo fato de o Sr. Veríssimo achar que era a que D. Jaci faz é sobre a falta de jovens
pela interrupção. Da união, aos 32 anos, com própria D. Jaci quem pedia para os festeiros mulheres ou meninas que queiram aprender
Veríssimo Serra, teve cinco filhos, além destes irem convencê-lo a deixá-la participar da o ofício da caixeira. Diz que poucas se
D. Jaci tinha dois filhos frutos de celebração ao Divino. Nessa época, estava interessam e conseguem participar do ritual,
relacionamento anterior com outra pessoa. grávida da primeira filha com o marido. que exige muita dedicação e não se aprende
No período em que esteve casada, teve Segundo conta, as brigas com o marido eram rapidamente, mas leva anos até que se consiga
pouco contato com Festas do Divino Espírito terríveis e com muitas “trocas de palavras”. aprender os versos e toques executados em
Santo, pois seu marido a proibia de freqüentar Ele fazia questão de mostrar sua autoridade cada etapa do ritual da festa. Lembra-se de
o ritual e, como diz, “tinha muito medo dele”. na casa. Mesmo assim, D. Jaci sempre sua época de menina, em que ninguém a
Passou, então, a se dedicar integralmente às conseguia um jeito de revezar seus afazeres ensinava e também não tinha caixa para tocar.
tarefas do lar e aos cuidados com os filhos. A domésticos com a Festa do Divino. Assim a Como diz, aprendeu “prestando atenção e
retomada de sua ligação com o Divino situação foi se prolongando até a morte do ouvindo as antigas. Porque as caixeiras de hoje
aconteceu quando ainda era casada. Foi no marido em 1994. A partir daí, segundo diz, não são como as de antigamente”. Preocupa-
ano de 1974, quando apareceram em sua casa “foi a libertação”. Ela pode participar de se com esta situação por considerar que a festa
donos de uma Festa do Divino que lhe quantas festas desejasse, sem que houvesse do Divino fica ameaçada com a falta de
convidaram para fechar a tribuna. D. Jaci nenhum tipo de proibição por parte de alguém. caixeiras.
alegou não poder ir por que o marido não Depois da morte do marido, os convites para Na despedida, D. Jaci faz questão de
deixava e que só poderia ir com a permissão participar das festas do Divino, não apenas mostrar o seu talento de caixeira entoando o
dele. Os festeiros, pediram ao marido de D.Jaci como caixeira, mas como caixeira-régia, verso:
e, para espanto dela, este permitiu que aumentaram. Os conhecimentos adquiridos
fechasse a tribuna da casa. D. Jaci então na infância, observando os festejos na casa “Meu Divino Espírito Santo
cumpriu com sua palavra e participou da de sua avó, vieram com toda a força em sua Prenda do meu coração
festa, fechando a tribuna, como diz, “sem mente, fazendo-a “relembrar os versos, o Cadeado do meu peito
muitos requintes, mas deu pra quebrar o andamento do ritual, a habilidade em Chave do meu coração”
galho”. Terminada a cerimônia, D. Jaci se improvisar no cantar”, atributos que considera
antecipou em avisar que não voltaria ali no indispensáveis para uma caixeira, E finaliza resumindo em uma frase o que
ano seguinte para não contrariar o marido. principalmente se esta for régia. E além destas pensa sobre a caixeira: “A caixeira é uma
Contrários ao seu pedido, no ano seguinte os qualidades, a principal de todas: olhar muito prenda de valor”.

55 Atriz, arte-educadora, pesquisadora, caixeira e membro da Comissão Maranhense de Folclore.

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