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Aula 01 e Aula 02 (Revisão e Introdução)

Classificação dos materiais que estudaremos na disciplina:


1. Metais:
● São combinações de elementos metálicos, tais como: Fe, Al, Cu, Ti, Au e Ni;
● Existe um grande número de elétrons livres;
● Propriedades: bons condutores elétricos e térmicos, opacos, moderada plasticidade,
alta tenacidade, resistência mecânica moderada a alta.
2. Cerâmicas:
● São compostos formados por elementos metálicos e não-metálicos;
● Na maioria das vezes consistem em óxidos, nitretos e carbetos;
● Atingem suas propriedades após a queima;
● Propriedades: frágeis, isolantes térmicos e elétricos, resistentes a elevadas
temperaturas, apresentam inércia química.
3. Polímeros:
● São compostos basicamente formados por C, H e O e outros elementos como N, S e Cl;
● Alguns polímeros comuns são o PE, PET, PVC, PCL, borracha de silicone;
● Compostos por macromoléculas;
● Propriedades: baixa densidade, dúcteis e flexíveis, baixa condutividade elétrica,
tenacidade, geralmente baixa resistência a altas temperaturas.

OBS:
Existe também uma quarta classe que não é estudada na disciplina em questão:
4. Compósitos:
● São compostos por dois (ou mais) materiais individuais, os quais se enquadram nas
categorias descritas de 1 a 3 (exemplo: polímero + cerâmica);
● Projetados para apresentar as melhores características e cada um dos materiais
envolvidos;
● Exemplo: PRFV, um polímero reforçado com fibra de vidro (uma combinação de
polímero - poliéster - e vidro), utilizado em coletes balísticos.

Ciência dos Materiais vs. Engenharia dos Materiais:

● Ciência dos Materiais: investigação das relações entre composição/estrutura e as


propriedades dos materiais;
● Engenharia dos Materiais: projeto, desenvolvimento ou aperfeiçoamento de técnicas de
processamento de materiais (exemplo: técnicas de fabricação) com base nas relações
composição/estrutura e propriedades; e também: desenvolvimento de formas de
produção de materiais socialmente desejáveis a custo socialmente aceitável.
Tetraedro Fundamental:

Estrutura e Propriedades:

● Estrutura: natureza química dos materiais; arranjo dos componentes do material em


estudo; pode (e deve) ser analisada em diferentes escalas;
● Propriedades: qualidades/características dos materiais, podem ser físicas (quando não
há alteração de composição; exemplo: propriedades mecânicas, elétricas, térmicas,
ópticas e magnéticas) ou químicas (quando há alteração de composição).

Números Quânticos:

● Número quântico principal (n): representa a camada atômica em que o elétron se


encontra. Seus valores são números inteiros positivos, sendo experimentalmente
determinado com variação de 1 a 7. Representa a distância média do elétron em
relação ao núcleo do átomo, sendo assim, quanto maior for o valor de n mais afastado
este elétron estará.
● Número quântico azimutal (l): representa a subcamada, assim, a forma do orbital. Pode
apresentar valores inteiros de zero até n-1. Quando l = 0, tem-se a subcamada s e
forma simetricamente esférica para o orbital, l =1 designa uma subcamada p e um
orbital apresentando uma forma típica de dois lobos de um orbital p. De forma idêntica, l
= 2 representa uma subcamada d e l = 3 uma subcamada f.
● Número quântico magnético (ml): o valor deste número quântico oferece informações a
respeito da orientação de um orbital no espaço. Para a subcamada s apresenta valor
zero, para a subcamada p pode assumir valores inteiros no intervalo de –1 a +1, para a
subcamada d valores de –2 a +2 e para a subcamada f valores de –3 a +3 (ou seja, ele
assume valores de -l a +l).
● Número quântico spin (ms): o quarto número quântico, denominado muitas vezes
apenas de spin, representa o eixo de rotação do elétron no orbital. Possui valor de +½ e
-½, sendo atribuído o primeiro a uma rotação em sentido anti-horário e o segundo em
sentido horário.

Princípio da Exclusão de Pauli:

Estabelece que dois elétrons em um átomo não podem ter todos os quatro números quânticos
iguais. Isto significa que, se escolhermos um conjunto particular de valores para ​n​, ​l e ​ml
correspondente a um orbital particular (por exemplo, ​n = 1, ​l = 0, ​ml = 0; o orbital 1s),
poderemos ter apenas dois elétrons com valores diferentes do número quântico de spin, ​ms
(isto é, s = +½ ou s = -½). Com efeito, isso limita a dois o número de elétrons em um dado
orbital, também requer que os spins destes dois elétrons estejam em direções opostas.

Relembrando:

● Moléculas se formam por meio das ligações químicas;


● A distribuição eletrônica, em um átomo, é a principal responsável pelas ligações
químicas;
● A camada mais externa de um átomo é chamada de camada de valência. Se a camada
de valência está parcialmente preenchida, o átomo se torna reativo;
● O átomo se torna mais estável, ou seja, em seu mais baixo estado de energia, na
medida em que tem a sua camada de valência totalmente preenchida;
● A maioria dos elementos possui uma configuração eletrônica não estável.

Tipos de ligações químicas:

Moléculas consistem de dois ou mais átomos unidos por uma força atrativa chamada ​Ligação
Química​.

● Ligações primárias:
a. Ligação metálica: átomos dos metais possuem de um a três elétrons de valência; os
elétrons de valência passam a se comportar como elétrons “livres”, ou seja, apresentam
a mesma probabilidade de se associar a um grande número de átomos vizinhos, e
formam uma “nuvem eletrônica”; a ligação resultante é não direcional;
b. Ligação iônica: envolve a transferência de elétrons de um átomo para outro; a ligação
é não-direcional; grande diferença de eletronegatividade entre os elementos (exemplo:
Na = 0,9 ; Cl = 3,0); a ligação iônica resulta da atração eletrostática entre dois íons de
cargas opostas;

OBS​: é possível calcular o índice/porcentagem de caráter iônico de uma ligação através


da fórmula:
Onde ΔE representa a diferença de eletronegatividade entre os dois elementos
participantes da ligação.

c. Ligação covalente: envolve o compartilhamento dos elétrons de valência de átomos


adjacentes; a ligação resultante é altamente direcional; menor diferença de
eletronegatividade entre os elementos do que o observado em ligações iônicas.

● Ligações secundárias: ​também chamadas de ligações de van der Waals; são fracas
quando comparadas às ligações primárias; surgem a partir de dipolos atômicos ou
moleculares; essencialmente, um dipolo elétrico existe sempre que há alguma
separação entre as partes positiva e negativa de um átomo ou molécula; o mecanismo
dessas ligações é similar ao das ligações iônicas, porém não existem elétrons
transferidos;
a. Dipolo induzido: ​ocorre em moléculas apolares; há uma assimetria temporária devido
a flutuações da nuvem eletrônica;
b. Dipolo permanente: ocorre em moléculas polares; há uma assimetria permanente de
cargas;
c. Ponte de Hidrogênio: caso especial (e mais forte) de dipolo permanente; ocorre
quando hidrogênio é ligado covalentemente a flúor, oxigênio ou nitrogênio.

Materiais segundo o tipo de ligação:

Portanto:
a. Metais: apresentam ligação do tipo metálica (primária);
b. Cerâmicas: apresentam ligações iônicas (primária) e covalentes (primária);
c. Polímeros: apresentam ligações covalentes (primária) e secundárias.

Os polímeros são formados por macromoléculas. Quando essas macromoléculas são estão
ligadas entre si por ligações secundárias, temos polímeros flexíveis; enquanto que quando a
ligação é primária, temos polímeros rígidos.

Aula 03 (Metais I)

Algumas terminologias importantes relacionadas a cristalinidade de materiais:

● Estrutura:​ organização das partes ou dos elementos que formam um todo;

As duas principais classificações de materiais sólidos de acordo com a distribuição espacial


dos átomos, moléculas ou íons, são:
● Sólidos Cristalinos: compostos por átomos, moléculas ou íons arranjados de uma forma
periódica em três dimensões. A ordem se repete para grandes distâncias atômicas (de
longo alcance);
● Sólidos Amorfos: compostos por átomos, moléculas ou íons que não apresentam uma
ordenação de longo alcance. Podem apresentar ordenação de curto alcance (exemplos:
vidros).

Estruturas dos sólidos:

1. Materiais cristalinos: maioria dos metais e ligas metálicas; grande maioria dos materiais
cerâmicos;

OBS 1: metais, em geral, apresentam estrutura cristalina, por possuírem unidades pequenas,
facilmente ordenáveis.

2. Materiais semi-cristalinos: grande maioria dos polímeros;

OBS 2: materiais semi-cristalinos possuem regiões cristalinas e regiões desorganizadas; a


maioria dos polímeros apresenta esse tipo de estrutura por serem moléculas muito grandes,
apresentando assim uma dificuldade de organização/ordenação.

3. Materiais amorfos: vidros; alguns polímeros.


Modelos de Estruturas Cristalinas:

1. Modelos de esferas rígidas: os átomos ou íons podem ser considerados esferas de raio
fixo; diferentes elementos apresentam diferentes raios das esferas/atômicos (raio
atômico (ou iônico): distância do centro do átomo até seu orbital mais externo); é
modelo que mais usaremos;
2. Modelos de esferas reduzidas;
3. Modelos de agregados de átomos.

Algumas terminologias importantes relacionadas às estruturas cristalinas:

● Reticulado Cristalino: conjunto de pontos, que podem corresponder a átomos ou grupos


de átomos, que se repetem no espaço tridimensional com uma dada periodicidade;
● Célula Unitária: é o menor agrupamento de átomos representativo de uma determinada
estrutura cristalina específica; é a menor unidade de repetição em um sólido;
● Estrutura cristalina: maneira como átomos ou íons se encontram espacialmente
arranjados; as propriedades de alguns materiais estão diretamente relacionadas às
suas estruturas cristalinas (exemplo: grafite e diamante possuem a mesma composição
porém estruturas cristalinas diferentes, o que os confere propriedades diferentes;
grafite: ligações covalentes nas lamelas e ligações secundárias entre elas; diamante:
ligações covalentes em todos os lados);

Idealmente, o arranjo mais estável dos átomos em um cristal (a estrutura cristalina mais
estável) será aquele que minimiza a energia livre por unidade de volume ou, em outras
palavras, aquele que:
a. preserva a neutralidade elétrica;
b. satisfaz o caráter direcional das ligações covalentes;
c. minimiza as repulsões íon-íon e, além disto;
d. agrupa os átomos o mais compactamente possível.
Existe um número grande de estruturas cristalinas diferentes, desde estruturas simples (metais)
até complexas (cerâmicas e polímeros).
● Parâmetro de rede cristalina: c​ ombinação de comprimentos de aresta da célula unitária
(a, b, c) e de ângulos interaxiais (entre eixos; ɑ, β, γ) que define a geometria da célula
unitária.

Existem 7 sistemas cristalinos, ou seja, 7 combinações de comprimentos de arestas e ângulos


interaxiais diferentes que definem a geometria de células unitárias. Na disciplina de Materiais e
suas Propriedades trabalharemos apenas com os sistemas cúbicos, como o representado
abaixo:

Destes 7 sistemas podemos derivar 14 reticulados chamados de reticulados de Bravais.


Entretanto, como estudaremos apenas as células cúbicas, precisamos ter o conhecimento
apenas de 3 reticulados (cúbico simples (CS), cúbico de face centrada (CFC) e cúbico de corpo
centrado (CCC)), como representado abaixo:

Metais metálicos:

Características:
● Ligação não direcional;
● Não existem restrições em relação à quantidade e a posição dos átomos vizinhos mais
próximos: empacotamentos compactos dos átomos na maioria das estruturas cristalinas
dos metais; existe uma distribuição aleatória de vizinhos, por exemplo, em ligas
metálicas (típico de metais);
● Maioria dos elementos metálicos possuem estruturas altamente densas;
● Distribuição das estruturas: 52% - estrutura cúbica; 28% - estrutura hexagonal; 20% -
outros 5 tipos estruturais, ou seja, conhecendo as estruturas cúbicas podemos aprender
sobre mais da metade dos metais.

Fator de Empacotamento Atômico (FEA):

É a fração de espaço ocupada pelos átomos, assumindo que estes sejam esferas rígidas (ou
seja, o espaço ocupado por átomos dentro de uma célula unitária em relação ao espaço vazio).
A expressão utilizada para o cálculo do FEA é:

Onde N​átomos é número de átomos por célula unitária; o V​átomo é o volume de cada átomo; e
V​célulaunitária​ é o volume da célula unitária para a qual estamos calculando o FEA.

● Célula cúbica simples (CS): não maximiza o empacotamento; bastante rara devido a
baixa densidade de empacotamento;
a. A relação entre o raio atômico, R, e a aresta do cubo, a, é dada por: a = 0,5R;
b. O número de átomos por célula unitária é igual a 1 (8 x ⅛ nos vértices);
c. Exemplos de metais CS: apenas o Po;
d. FEA​CS​ = 0,52.

● Célula cúbica de corpo centrado (CCC):


a. A relação entre o raio atômico, R, e a aresta do cubo, a, é dada por: 4R/(3)​1/2​;
b. O número de átomos por célula unitária é igual a 2 (1 átomo central + 8 x ⅛ nos
vértices).
c. Exemplos de metais CCC: Fe-ɑ, cromo, tungstênio, molibdênio;
d. FEA​CCC​ = 0,68.
● Célula de face centrada (CFC): ​estrutura compacta; máximo FEA encontrado em
sólidos;
a. A relação entre o raio atômico, R, e a aresta do cubo, a, é dada por: 4R/(2)​1/2​;
b. O número de átomos por célula unitária é igual a 4 (6 x ½ nas faces + 8 x ⅛ nos
vértices);
c. Exemplo de metais CFC: Fe-γ, cobre, alumínio, ouro, chumbo;
d. FEA​CFC​ = 0,74.

OBS: ​existe outro tipo de célula também considerada compacta (máximo empacotamento
encontrado em sólidos), é a célula hexagonal compacta (HC), que também apresenta FEA​HC =
0,74.

Então, se as células cúbicas e as células hexagonais compactas apresentam o mesmo fator de


empacotamento, o que as diferencia? Por que são classificadas como 2 tipos de células
diferentes (além da diferença na geometria)? A resposta para essas perguntas é: a diferença
entre esses dois tipos de células está na sequência de empilhamento das camadas de átomos
em cada uma.

● Célula CFC:

● Célula HC:

Como é possível observar, no caso da célula CFC as camadas ABC estão deslocadas entre si:
existe a camada A no fundo, a camada B se acomoda nos interstícios da camada A e a
camada C se acomoda nos interstícios da cama B, de forma a estar deslocado em relação a A.
Enquanto que, na célula HC, existe a camada A no fundo, a camada B se acomoda nos
interstícios da camada A e a camada C se acomoda nos interstícios da cama B, de forma a
estar alinhado com A (ocupar a mesma posição que A).

Dessa forma, a sequência de empilhamento de uma célula CFC é ABCABCABC, enquanto a


sequência de empilhamento de uma célula HC é ABABAB.

Exercício:​ slide 28/43.


Densidade teórica ou massa específica (ρ):

O conhecimento da estrutura cristalina de um sólido permite o cálculo da densidade teórica


deste através da fórmula:

Onde n é número de átomos/célula; A é peso atômico; V​C​ é o volume da célula unitária; e N​A​ é
o número de Avogadro (6,023.10​23​ átomos ou moléculas/mol).

Exercício:​ slide 36/43.

Polimorfismo e Alotropia:

● Polimorfismo: ​fenômeno no qual um sólido (metálico ou não metálico) pode apresentar


mais de uma estrutura cristalina, dependendo da temperatura e da pressão (observado
em: SiO​2​, ZrO​2​, SiC, ...);
● Alotropia:​ polimorfismo em elementos puros (observado em: Fe, C, Ti, ...).
Acima, podemos observar um exemplo de alotropia no Fe. À temperatura ambiente o Fe exibe
estrutura CCC. Conforme a temperatura aumenta, ele sofre dilatação, até atingir uma
temperatura em torno de 910º​C, quando sua estrutura, então, muda para CFC e o sólido sofre
contração (CFC possui maior empacotamento atômico). Conforme a temperatura continua a
aumentar, ele continua sofrendo dilatação, até atingir uma temperatura em torno de 1394ºC,
quando sua estrutura, então, muda para CCC e o sólido expande.

OBS: a diferença entre o CCC do Fe-α e do Fe-δ está no comprimento da aresta do cubo, além
da diferença na temperatura de ocorrência.

Aula 04 (Metais II)

Isotropia e Anisotropia:

● Isotropia: as propriedades não mudam com as direções cristalográficas (direções em


que são feitas as medidas); ​exemplo: sólidos amorfos​;
● Anisotropia: direcionalidade das propriedades, ou seja, dependendo da direção em que
uma medida é feita, as propriedades mudam; pode ser induzida por processamento
externo (exemplo: laminação de um metal; transforma o material de isotrópico em
anisotrópico → indução de direcionalidade nos grãos); ​maior anisotropia → menor
simetria estrutural da célula unitária​.

Materiais monocristalinos e policristalinos:

● Monocristalinos: são constituídos por um único cristal em toda a extensão do material


(arranjo periódico perfeito). Todas as células unitárias se interligam da mesma maneira
e possuem a mesma orientação; propriedades físicas de um monocristal são
dependentes da direção cristalográfica deste cristal, ou seja, da direção em que a
medida é feita.
● Policristalinos: são constituídos de vários cristais pequenos (grãos), cada um deles com
diferentes orientações espaciais.

Pontos, Direções e Planos Cristalográficos:

Com frequência torna-se necessário especificar um ​ponto​, uma ​direção ou ​plano cristalográfico
no interior de uma célula unitária. Para isso, são utilizados 3 índices que designam essa
localização, chamados ​índices de Miller.​

● Terminologia:
a. Pontos cristalográficos: a b c;
b. Direções cristalográficas: [ ];
c. Famílias de direções: < >;
d. Planos cristalográficos: ( );
e. Famílias de planos equivalentes: { }.

● Pontos Cristalográficos: múltiplos fracionários dos comprimentos das arestas (a, b e c);
● Direções Cristalográficas: linha (vetor) que une dois pontos da rede cristalina;
● Planos Cristalográficos: planos formados pela união de 3 ou mais pontos da rede
cristalina.

● Família de Direções Cristalográficas: uma família de direções inclui todas as direções


possíveis com as mesmas coordenadas básicas;
● Família de Planos Cristalográficos: conjunto de planos cristalograficamente
equivalentes, ou seja, planos com o mesmo empacotamento atômico (mesmas
coordenadas básicas).

Como determinar os índices de Miller de uma ​Direção Cristalográfica​? (Direção → Índices)

1. Transladar o “vetor direção” de maneira que ele passe pela origem do sistema de
coordenadas (deve iniciar na origem);
2. Determinar a projeção do vetor em cada um dos três eixos de coordenadas;
3. Multiplicar ou dividir esses três números por um fator comum, tal que os três números
resultantes sejam os menores inteiros possíveis;
4. Representar a direção escrevendo os três números entre colchetes: [u v w].

Como determinar uma ​Direção Cristalográfica​ a partir de índices de Miller? (Índices → Direção)

1. Dividir esses três números por um fator comum, tal que os três números resultantes
sejam menores ou iguais a 1;
2. Marcar as coordenadas dos três números na célula unitária;
3. Unir os pontos, lembrando sempre que o vetor direção deve começar na origem.

Aspectos Importantes de ​Direções Cristalográficas:​

1. Como as direções são vetores, determinada direção e seu negativo não são idênticos.
De fato [1 0 0] não equivale a [​1 0 0] (​1 é o negativo; na realidade a barra é em cima do
número mas no Doc não foi possível); eles representam a mesma linha, mas em
sentidos opostos;
2. Toda direção e seu múltiplo são idênticos. De fato, [1 0 0] representa a mesma direção
que [2 0 0]; apenas esquecemos de fazer a redução para menores números inteiros;
3. Certos grupos de direções são equivalentes. Em um sistema cúbico, por exemplo, uma
direção [1 0 0] será a direção [0 1 0] se redefinirmos o sistema de coordenadas;
4. Sempre a referência a grupos de direções equivalentes é uma famílias de direções < >.

Exercícios:​ slide 17/47.


Como determinar os índices de Miller de um ​Plano Cristalográfico​? (Plano → Índices)

1. Determinar os interceptos do plano com os eixos do sistema de coordenadas em termos


dos parâmetros de rede a, b e c. Se o plano passar pela origem, transladar o plano para
uma nova posição no sistema de coordenadas;
2. Obter os recíprocos (inversos) desses três interceptos. Se o plano for paralelo a um dos
eixos, considera-se o intercepto infinito e o seu recíproco zero;
3. Representar na forma (h k l).

OBS: ​às vezes é necessário multiplicar os três números resultantes por um fator comum para
assim obter três índices inteiros.

Como determinar uma ​Direção Cristalográfica​ a partir de índices de Miller? (Índices → Plano)

1. Inverter os números para encontrar os interceptos;


2. Marcar as os interceptos do plano nos eixos da célula unitária;
3. Unir os pontos, para formar o plano.

Aspectos Importantes de ​Planos Cristalográficos​:

1. Os planos e seus negativos são idênticos (o que não ocorre com as direções). Portanto,
(0 2 0 ) = (0 ​2​ 0);
2. Os planos e seus múltiplos não são idênticos (o que também difere do que vimos com
as direções). Podemos demonstrar esse fato definindo a densidade planar;
3. Em cada célula unitária, as famílias de plano representam grupos de planos
equivalentes que têm índices específicos, devido à orientação das coordenadas.
Representamos esses grupos de planos por meio da notação { }.
4. No caso de sistemas cúbicos, uma direção com os mesmos índices de um plano é
perpendicular a esse plano.

Exercício:​ slide 25/47 e 30/47.

Densidade Linear e Planar:

A ​densidade linear é a quantidade de átomos por unidade de comprimento (em uma direção).
Pode ser calculada como:

nº de átomos comprimento ocupado


[átomos/nm] ou [%]
unidade de comprimento comprimento total

Direções equivalentes possuem densidades idênticas. É importante lembrar que, para o cálculo
da densidade linear 2R = 1 átomo (já que estamos considerando apenas
unidimensionalmente).
A ​densidade planar​ é a quantidade de átomos por unidade de área (em um plano).
Pode ser calculada como:

nº de átomos área ocupado


[átomos/nm²] ou [%]
unidade de área área total

Planos cristalográficos equivalentes possuem densidades idênticas. É importante lembrar que,


para o cálculo da densidade planar 1 área de circunferência (πR²) = 1 átomo (já que estamos
considerando apenas bidimensionalmente).

Maiores Densidades e Maior Empacotamento:

No sistema CCC, os átomos se tocam ao longo da diagonal do cubo, que corresponde a família
de direções <111>, sendo assim, as direções dessa família são as de maior empacotamento
atômico para esse tipo de sistema. Quanto aos planos, a família {110} é a de maior
empacotamento/densidade no sistema CCC.

No sistema CFC, os átomos se tocam ao longo da diagonal da face, que corresponde a família
de direções <110>, sendo assim, as direções dessa família são as de maior empacotamento
atômico para esse sistema. Quanto aos planos, a família {111} é a de maior
empacotamento/densidade no sistema CFC.

É importante ressaltar que os planos de maior densidade contém as direções de maior


densidade. Essas associações entre planos e direções compactas recebem o nome de
sistemas de deslizamento​. Esses sistemas de deslizamento estão relacionados a deformação
do material. Quando um material cristalino (anisotrópico) se deforma, isso é devido a um
deslizamento irreversível de certos planos, uns em relação aos outros, ou seja, ocorrerá um
deslizamento em alguns planos e em algumas direções. Na maioria dos metais, os planos de
deslizamento são aqueles de maior densidade, assim como as direções.

Mas por que o deslizamento tende a ocorrer em planos e direções mais densos? Porque a
distância que a rede precisa se deslocar é mínima, necessitando de um menor esforço para
deslizar.
Ligas Metálicas (não foi dada muita importância, mas…):

● Metais Puros: praticamente inviável a obtenção e o uso;


● Ligas Metálicas: as propriedades podem ser totalmente diferentes das substâncias
constituintes; exemplo: ligas de Alumínio (segundo elemento mais abundante na crosta
terrestre, processamento é caro porém é um dos materiais mais utilizados atualmente,
forma ligas com Mn, Cu, Mg, Si, Fe, Ni e outros, algumas ligas possuem resistência
mecânica superior aos aços estruturais), liga de Magnésio (mais leve dos materiais
estruturais, quarto metal mais abundante, processamento caro, fraco em estado puro, forma
ligas com Al, Zn, Mn, Th, Ce e outros), ligas de Titânio (metal “mais recente”, abundante,
custo elevado de processamento, duas fases: muito dúctil (CCC) e pouco dúctil (HC),
formação de ligas afeta as propriedades, forma ligas com Al, Sn, V, Mo, Nb, Mn, Cr, Fe, Co,
Ta);
● Ligas Ferrosas: muito importantes para a engenharia; quantidade abundantes na crosta
terrestre; técnicas de extração, beneficiamento e fabricação econômica; versáteis: ampla
variedade de propriedades físicas; exemplo: aço doce, aço médio carbono, aço alto
carbono, aço inoxidável.

Aulas 05 e 06 (Defeitos Cristalinos I e II)

Por que devemos estudas os defeitos dos sólidos cristalinos? Primeiramente, pois sólidos com
perfeita ordem em escala atômica não existem, sendo assim, todos os materiais contém uma
certa quantidade de defeitos. O tipo e o número de defeitos dependem do material, do meio
ambiente e do processamento afetando muito as propriedades dos materiais.
No curso de Materiais e Suas Propriedades foram estudados os seguintes defeitos:
1. Defeitos Puntiformes ou Pontuais;
2. Soluções Sólidas (um caso específico de defeito pontual);
3. Defeitos Lineares ou Discordâncias;
4. Defeitos Bidimensionais;
5. Defeitos Volumétricos.

Defeitos Puntiformes ou Pontuais:

Podem ser de 3 tipos:


1. Lacunas (vacância ou vazio): ausência de um átomo em um ponto reticulado cristalino;
podem ser formadas durante a solidificação do cristal, durante a deformação plástica ou como
resultado de vibrações atômicas; são ​defeitos intrínsecos​, ou seja, não podem ser totalmente
retirados.

O número de lacunas tende a aumentar com o aumento da temperatura, como pode ser
observado pela expressão do número de lacunas de equilíbrio:

Onde N é o número total de posições atômicas, N​L é o número de lacunas, Q​L é a energia de
ativação para a formação de lacunas, k é a constante de Boltzmann e T é a temperatura
absoluta (em Kelvin).

As lacunas são defeitos de equilíbrio, por isso tendem a aumentar com a temperatura. Sua
presença faz com que haja maior estabilidade, pois a energia é localmente minimizada,
concedendo graus de liberdade ao material.

Execícios: slides 9/53 e 10/53.

2. Auto-intersticial: um átomo da rede que ocupa uma posição que não é uma posição típica da
rede (ocupa um interstício}); os defeitos auto-intersticiais causam uma grande distorção do
reticulado cristalino a sua volta, pois o átomo geralmente é maior que o espaço do interstício; a
formação de um defeito intersticial implica na criação de uma lacuna, por isso este defeito é
menos provável que uma lacuna (exige maior Energia de Ativação); são ​defeitos intrínsecos.​

Assim como as lacunas, os auto-intersticiais também são defeitos de equilíbrio, assim existe
uma concentração de equilíbrio que aumenta com a temperatura.
Agora, ao considerar lacunas e intersticiais em cerâmicas devemos lembrar que deve ser
obedecido o ​princípio de neutralidade das cargas​, a lacuna deve ser compensada pela falta de
um íon de carga oposta ou pela inserção de um íon adicional de carga igual em outra
localidade. Existe uma menor probabilidade de ocorrência em ânions, devido ao maior raio
atômico. São, também, defeitos intrínsecos.

Em compostos estequiométricos, a razão entre o número de cátions e ânions não é alterada,


pois não há presença de outros defeitos.
Já em compostos não estequiométricos, a razão entre o número de cátions e ânions é alterada,
e ocorre em materiais onde existem dois estados de valência (exemplo: sítio de Fe​2+ vazio para
compensar a presença de 2 íons de Fe​3+ - necessidade de se manter a neutralidade elétrica do
sólido iônico cristalino).

Esses defeitos em cerâmicas recebem 2 nomes distintos para duas configurações específicas:
- Defeito Frenkel: cátion intersticial + lacuna catiônica;
- Defeito Schottky: lacuna aniônica + lacuna catiônica.

Execício: slide 14/53 (adicionar um ânion ou retirar um cátion; mais fácil retirar o cátion por ser
menor que o ânion)

3. Impurezas: podem ser intersticiais ou substitucionais; são ​defeitos extrínsecos​, ou seja,


podem ser manipulados e retirados; muitas vezes impurezas são adicionadas propositalmente
para mudar as propriedades do material; é impossível se produzir um material totalmente puro.
Impurezas nas cerâmicas podem formar as chamadas ​soluções sólidas​. A impureza substituirá
o íon de maior semelhança. São, também, defeitos extrínsecos.

Soluções Sólidas:

As soluções sólidas ocorrem quando impurezas são adicionadas de forma intencional. É


composta por 2 partes: o cristal matriz (solvente) e os átomos de impureza (solvente), ou seja,
existe a presença de mais de um tipo de átomo.

Características:
- Os átomos de impureza ocupam posições aleatórias no cristal, similarmente a um soluto em
um líquido;
- As impurezas adicionadas são chamadas de elementos de liga;
- Tem a finalidade de aumentar a resistência mecânica, aumentar a resistência a corrosão e
outros;
- Normalmente são intencionalmente produzidas;
- Estrutura cristalina é preservada e nenhuma estrutura nova é formada;
- Normalmente são homogêneas;
- São formadas mais facilmente quando átomos de soluto e solvente apresentam tamanhos
próximos e estruturas eletrônicas comparáveis.

Podem ser de dois tipos:


1. Substitucional: átomos do solvente são substituídos por átomos do soluto no reticulado; a
estrutura do solvente não muda, mas se deforma (exemplos: latão, bronze, monel).
2. Intersticial: os átomos de soluto “espremem-se” nos vazios (interstícios) da rede cristalina do
solvente; ocorre quando a diferença de tamanho entre soluto e solvente é grande;
normalmente, a máxima solubilidade é menor que 10% (exemplo: carbono em ferro - aço).

Tipos de interstícios:
- Em CCC:
- Em CFC:

Existem algumas “regras” de solubilidade que indicam uma tendência a formação de soluções
substitucionais (caso não siga, quer dizer que a solução será intersticial). Essas regras são:

1. A diferença entre os raios atômicos deve ser < ± 15%;


2. Mesma estrutura cristalina para os metais;
3. Devem possuir eletronegatividades semelhantes;
4. Valência maior = maior solubilidade.

Exercício: slide 24/53.


Defeitos Lineares ou Discordâncias:

Tipos:
- Discordância em aresta ou cunha;
- Discordância em hélice ou espiral;
- Discordância mista.

1. Discordância em aresta ou cunha: adição de um plano extra; cria regiões de tração e


compressão ao redor da discordância;

2. Discordância em hélice ou espiral: o cristal sofre cisalhamento; tensões de cisalhamento


estão associadas aos átomos adjacentes à linha de discordância em espiral;

3. Discordância mista: é uma mistura das discordâncias em aresta e em hélice; inicia-se como
um plano extra e converge para uma hélice.
A deformação em materiais cristalinos está associadas a movimentação de defeitos lineares.

Por que é mais fácil deformar cristais com defeitos lineares do que cristais perfeitos? Porque
em um cristal puro é necessário romper todas as ligações para causar deformação, enquanto
que em um cristal com defeito linear, este se movimenta com esforços menores até completar a
deformação.

Um material é mais resistente se ele apresenta mais ou menos defeitos? Quanto maior o
número de defeito lineares em um material, maior a resistência. Isso porque quanto maior a
quantidade de defeitos, menor a facilidade de movimentação destes dentro do sólido,
ocasionando uma maior resistência (maior a dificuldade de deformação).
Existem diversas técnicas para observação de discordâncias:
- TEM: microscopia eletrônica de transmissão;
- HRTEM: microscopia eletrônica de transmissão de alta resolução;
- SEM: microscopia eletrônica de varredura;
- MO: microscopia óptica.
Sendo as duas primeiras de observação direta e as duas últimas indiretas (após ataque
químico seletivo).

- Considerações finais sobre defeitos lineares:


a. A quantidade e o movimento das discordâncias podem ser controlados pelo grau de
deformação (conformação mecânica) e/ou por tratamentos térmicos;
b. Com o aumento da temperatura há um aumento na velocidade do deslocamento;
c. Impurezas tendem a difundir-se e concentrar-se em torno das discordâncias formando uma
atmosfera de impurezas;
d. As discordâncias geram lacunas;
e. Discordâncias influem nos processos de difusão.

Defeitos bidimensionais:

Dentre todos os tipos de defeito bidimensionais, estudamos:


1. Superfície externa: a superfície externa é considerada um defeito, pois os átomos na
superfície possuem maior energia livre que os átomos sob a superfície; esta energia está
associada com as ligações rompidas ou insatisfeitas; os materiais sempre tendem a minimizar
sua área superficial, para que diminua a energia de superfície.

2. Contorno de grão: materiais policristalinos são compostos por pequenos cristais, os grãos;
os contornos de grão são as fronteiras que separam os cristais de diferentes orientações em
um material policristalino; região defeituosa.

Características dos contornos de grãos:


- Ligações mais irregulares;
- Maior energia superficial;
- Maior reatividade química;
- Influencia as propriedades mecânicas.

3. Contornos de fases: são fronteiras (contornos de grão) entre duas fases diferentes; podem
ser coerentes (menor energia), semi-coerentes ou incoerentes (maior energia).

Os contornos de fase coerentes possuem grande semelhança de estruturas de fases,


contornos semi-coerentes apresentam alguma semelhança de estruturas de fases, enquanto
que os contornos incoerentes não apresentam/apresentam pouca semelhança de estruturas de
fases.

Defeitos volumétricos:

São também chamados de defeitos de massa. São introduzidos durante o processamento do


material e/ou fabricação do componente.

Tipos:
- Inclusões: impurezas estranhas;
- Precipitados (segunda fase): formam-se devido a presença de impurezas ou elementos de
liga (ocorre quando o limite de solubilidade é ultrapassado); também podem ser coerentes,
semi-coerentes ou incoerentes;

- Porosidade: origina-se devido a presença ou formação de gases;


- Trincas: origem no processamento; e outros.

Exercício: slides 48/53, 51/53, 52/53 e 53/53.

Aula 07 (Cerâmicas)

Características gerais das cerâmicas:


- Possuem ligações de caráter misto iônico-covalente (metal + não metal);
- Propriedades atingidas após tratamento térmico (o tratamento térmico diminui a área e
energia superficial e forma ligações primárias entre os grãos/pó);
- Apresentam alto ponto de fusão, pois é necessária muita energia para romper as ligações
primárias entre os grãos;
- São geralmente isolantes elétricos, embora possam existir materiais cerâmicos
semicondutores, condutores e até mesmo supercondutores (estes dois últimos em faixas
específicas de temperatura);
- Quimicamente estáveis sob condições ambientais severas;
- Geralmente são rígidos (duros) e frágeis.

As cerâmicas podem apresentar ligações químicas desde altamente ​iônicas até totalmente
covalentes​. O caráter iônico da ligação depende da eletronegatividade dos átomos e aumenta
com o aumento na diferença de eletronegatividade.
Expressão para o cálculo do caráter iônico:

Cerâmicas Iônicas: formadas por um metal e um não metal; exemplos: NaCl, MgO;
Cerâmicas Covalentes: formadas por dois não metais; exemplos: SiO​2​, B​4​C.

Exercícios: slides 8/68 e 9/68.

Em qual situação teremos uma ligação totalmente covalente? Quando forem ligados dois
átomos iguais.

As estruturas cristalinas das cerâmicas obedecem às estruturas descritas pelas redes de


Bravais. Os ânions, por serem maiores, ocupam posições da rede, enquanto que os cátions,
por serem menores, ocupam posições intersticiais.

Regras das estruturas cristalinas das cerâmicas:


1. Neutralidade das cargas: a carga total na estrutura deve ser zero; reflete na fórmula do
composto; impõe limitações o tipo de estrutura que os íons podem assumir (MX, MX​2​, M​2​X,
M​2​X​3​, ABX​3​, AB​2​X​4​); forma geral: A​m​X​p​, onde m e p são determinados pela neutralidade das
cargas;
2. Ocupação do espaço pelos íons: reflete na razão entre os raios (cátion/ânion), que determina
o número de coordenação (NC); estruturas cerâmicas cristalinas estáveis se formam quando os
ânions que circundam um cátion estão todos em contato com aquele cátion.

[​CONTINUAR]