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TIMOTHY

ZAHN

CanalhaS

TRADUÇÃO

ANDRÉ GORDIRRO
SUMÁRIO

Capa
Folha de rosto
Dramatis Personae
Nota do Editores
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Créditos
Dramatis Personae

Han Solo, contrabandista (humano)


Chewbacca, contrabandista (Wookiee do gênero masculino)
Lando Calrissian, apostador (humano)
Bink Kitik, ladra-fantasma (humana)
Tavia Kitik, especialista em eletrónica, assistente de ladra-fantasma
(humana)
Dozer Creed, ladrão de naves (humano)
Zerba batedor de carteiras, especialista em prestidigitação Cber’dak,
(Balosariano)
Winter, registradora de carne e osso (humana)
Rachele Ree, aquisições, informações (humana)
Eanjer Kunarazti, vítima de roubo, financiamento (humano)
Avrak Villachor, chefe de setor do Sol Negro (humano)R2-D2: droid
astromech
Qazadi, vigo do Sol Negro (Falleen do gênero masculino)
Dayja, agente da Inteligência Imperial (humano)
Nota dos editores
O universo de STAR WARS é infinitamente rico e criativo. Desde 1977,
inúmeros planetas, raças alienígenas e personagens vêm despertando a
imaginação de fãs do mundo inteiro. A ideia de expandir um universo ficcional,
embora não seja nova, ganha novas proporções com STAR WARS. O livro STAR
WARS: from the adventures of Luke Skywalker, novelização do Episódio IV da
saga, foi lançado em 1976, antes mesmo da estreia do filme no cinema. E, antes
do final da trilogia clássica, já existiam diversos quadrinhos e romances, que
muitas vezes davam sinais dos caminhos a ser seguidos depois nas telas, ou
mesmo, como no caso do livro Splinter of the mind’s eye, de Alan Dean Foster,
diferiam completamente da trajetória seguida nas continuações. Esse era apenas
um prelúdio da força que o Universo Expandido de STAR WARS acumularia
nas décadas seguintes.

Embora outras rarefeitas obras tenham sido lançadas no início dos anos 1980,
dois marcos importantes deram impulso à saga, projetando-a ao atual ousado
projeto transmídia: em 1987, veio o lançamento do RPG STAR WARS: The
Roleplaying Game; em 1991, a publicação de STAR WARS: Herdeiro do Império,
de Timothy Zahn. Enquanto a importância do RPG foi estabelecer novos
cenários e trazer detalhes do universo de STAR WARS, o livro de Zahn fez
história ao ser o primeiro com autorização oficial da Lucasfilm para abordar os
acontecimentos posteriores ao Episódio VI. Os personagens e as histórias do
livro foram aproveitados por toda uma nova geração de autores, que escreveram
centenas de obras a fim de complementar cada vez mais esse universo e saciar a
sede dos fãs, especialmente durante o intervalo de quinze anos entre os
lançamentos das duas trilogias no cinema – e também depois.

Em 2014, a Lucasfilm lançou o novo conceito de STAR WARS, aplicável a


filmes, HQs, livros, videogames e séries televisivas relacionados à franquia,
formando um só cânone. Juntos, todos esses registros contam uma única história
no universo de STAR WARS, complementando e continuando os filmes
lançados no cinema entre 1977 e 2005, além de servirem como preparação para
os tão esperados novos filmes, a começar com STAR WARS: O despertar da
Força em 2015. Todas as obras publicadas antes de 2014 passam a ser
classificadas como Legends: histórias que não serviram como base para o
cânone estabelecido pela Lucasfilm para STAR WARS, mas cuja importância e
cuja qualidade continuam sendo apreciadas.

Participando dessa nova e empolgante fase de STAR WARS, a Editora Aleph


pretende lançar todos os romances adultos do novo cânone, bem como uma
seleção dos títulos Legends mais relevantes. Convidamos os leitores a embarcar
conosco nessa jornada rumo a uma galáxia muito, muito distante.

E trata-se de uma viagem que não tem ponto de partida nem direção definidos.
Não importa por qual obra você decida começar, seja por uma das novas ou uma
das Legends. Temos a certeza de que viverá uma grande aventura.

Que a Força esteja com você.

EDITORA ALEPH
CAPÍTULO

Os traços de luz viraram estrelas, e o destróier estelar imperial Dominador


chegou. Parado no passadiço de comando, com as mãos rigidamente
entrelaçadas às costas, o capitão Worhven olhava intensamente para o planeta
brumoso que flutuava na escuridão diretamente em frente e se perguntava que
raios ele e sua nave faziam ali.
Porque aqueles não eram bons tempos. A súbita dissolução do Senado
Imperial por parte do imperador disparara ondas perigosas de incerteza pela
galáxia, que serviram aos propósitos de grupos radicais, como a suposta Aliança
Rebelde. Ao mesmo tempo, organizações criminosas como o Sol Negro e os
sindicatos dos Hutts desafiavam a lei abertamente, comprando e vendendo
especiaria, mercadorias roubadas e autoridades locais e regionais da mesma
forma.
Pior ainda, o novo brinquedo de Palpatine, a arma que deveria Iinalmente
convencer tanto os msurgentes quanto quem descumpria as leis de que o Império
estava falando seríssimo sobre acabar com eles, fora inexplicavelmente destruído
em Yavin.
Worhven ainda não tinha ouvido uma explicação oficial para aquele incidente.
Tempos malignos, realmente. E tempos malignos exigiam uma resposta forte e
sólida. No momento em que a notícia chegou de Yavin, o Centro Imperial
deveria ter ordenado um desdobramento completo da frota, concentrando seus
esforços nos sistemas mais importantes, mais insubordinados e instáveis. Era a
resposta clássica à crise, e segundo as regras e a lógica, o Dominador deveria ter
estado na vanguarda de qualquer desdobramento do tipo.
Em vez disso, Worhven e sua nave haviam sido obrigados a servir como
burros de carga.
– Ah... capitão - trovejou uma voz alegre atrás dele.
Worhven respirou fundo para se acalmar.
– Lorde D'Ashewl - respondeu ele, fazendo questão de manter as costas
voltadas para o outro enquanto se forçava a fazer uma expressão mais
politicamente adequada à ocasião.
Foi bom Worhven ter começado a mudar o rosto naquele momento.
Praticamente cinco segundos depois, D'Ashewl se encontrava parado ao lado
dele, em vez de a dois passos, como o capitão exigia até mesmo dos oficiais
mais graduados, até que gesticulasse para que avançassem.
Mas aquilo estava longe de ser uma surpresa. O que um integrante gordo,
estúpido e acidentalmente rico da corte superior do Centro Imperial saberia a
respeito do protocolo de uma nave?
Uma pergunta retórica. A resposta, obviamente, era nada.
Mas se D'Ashewl não tinha o mínimo de educação, Worhven tinha. E trataria
o convidado com o devido respeito. Mesmo que isso o matasse.
– Meu senhor — disse ele educadamente, ao se voltar para encará-lo. - Espero
que tenha dormido bem.
– Dormi sim - respondeu D’Ashewl, com os olhos no planeta adiante. - Então
aquilo lá é Wukkar, não é?
– Sim, meu senhor - falou Worhven, resistindo à vontade de perguntar em voz
alta se D’Ashewl imaginava que o Dominador poderia ter se desviado da rota de
alguma forma, durante a noite na nave. - Conforme suas ordens.
– Sim, sim, é claro - disse D’Ashewl, dobrando um pouco o pescoço. - Só é
muito difícil de dizer a esta distância. É desagradável como a maioria dos
mundos lá fora são parecidos.
– Sim, meu senhor — repetiu Worhven, novamente contendo as palavras que
queriam tanto sair. Aquele era o tipo de comentário feito apenas por pessoas
inexperientes ou completamente idiotas. E D'Ashewl era um ou outro.
– Mas se o senhor diz que é Wukkar, então eu acredito - continuou D'Ashewl.
— O senhor compilou a lista de iates vindouros que pedi?
Worhven conteve um suspiro. Não apenas servia de burro de carga, como de
aia também.
– O oficial de comunicações está com ela - respondeu o capitão enquanto
gesticulava com a cabeça para o fosso de estibordo da tripulação. Pelo rabo de
olho, Worhven agora via que ele e D'Ashewl não estavam sozinhos: o jovem
criado de D'Ashewl, Dayja, acompanhara o superior e estava parado a uma
respeitosa meia dúzia de passos no passadiço.
Pelo menos um dos dois sabia alguma coisa sobre o protocolo correto.
– Excelente, excelente — disse D'Ashewl, esfregando as mãos. - Corre uma
aposta, capitão, sobre qual de nossos grupos chegará primeiro e qual chegará por
último. Graças ao senhor e à sua magnífica nave, estou prestes a ganhar um
dinheirão.
Worhven sentiu o lábio se contorcer. Uma aposta ridícula e sem sentido, para
fazer par com a missão ridícula e sem sentido do Dominador. Era bom saber
que, em um universo à beira da loucura, ainda era possível encontrar uma
simetria irónica.
– Mande seu oficial repassar os dados para meu flutuador - continuou
D'Ashewl. - Meu criado e eu sairemos assim que o Dominador entrar em órbita.
- Ele inclinou a cabeça. - Suas ordens foram para permanecer na região caso eu
precisasse de mais transporte, não foram?
O capitão permitiu que as mãos, ao lado do corpo e longe da vista de
D'Ashewl, se cerrassem em punhos frustrados.
– Sim, meu senhor.
– Ótimo — respondeu D'Ashewl alegremente. — Lorde Toorfi é conhecido
por mudar de ideia subitamente a respeito de onde os jogos devem continuar, e
caso ele mude, eu preciso estar pronto para novamente chegar antes dele ao novo
destino. O senhor nem sempre estará a mais do que três horas de distância,
correto?
– Sim, meu senhor - falou Worhven. Gordo, estúpido e trapaceiro ainda por
cima. Certamente, todos os outros envolvidos naquele vago torneio de jogatina
de alto risco chegaram a Wukkar nas próprias naves. Apenas D'Ashewl tivera o
supremo desplante de convencer alguém no Centro Imperial a lhe emprestar um
destróier estelar imperial para a ocasião.
– Mas, por agora, tudo que preciso é que seus homens se preparem para lançar
meu flutuador - continuou D'Ashewl. -
Depois disso, o senhor pode tirar o resto do dia de folga. Talvez o resto do
mês também. Nunca se sabe o quanto vão durar os créditos e o vigor dos velhos,
não é?
Sem esperar por uma resposta - e ainda bem, porque Worhven não tinha
nenhuma que estivesse disposto a dar —, o homem roliço deu meia-volta e
percorreu o passadiço bamboleando, na direção da ponte de popa. Dayja esperou
que ele passasse, depois acompanhou D'Ashewl à distância determinada de três
passos.
Worhven observou até que a dupla tivesse passado pela arcada e entrado no
turboelevador da ponte de popa, só para garantir que eles realmente haviam
saído. Então, após descerrar os dentes, o capitão se voltou para o oficial de
comunicações.
– Avise o comando do hangar - ordenou ele. — Nosso passageiro está pronto
para partir.
Worhven lançou um último olhar feio para a ponte de popa. Tirar o dia de
folga, é? Um pouco mais da condescendência idiota daquele tipo vindo da classe
dominante do Império, e Worhven estaria muito tentado a se unir à Rebelião.
– E diga para que andem rápido — acrescentou ele. - Eu não quero lorde
D'Ashewl ou sua nave a bordo um único milissegundo a mais do que o
necessário.

– Eu provavelmente deveria mandar açoitar você - comentou D'Ashewl
inconscientemente.
Dayja virou meio corpo no assento de comando do flutuador a fim de olhar
para trás.
– Perdão? - perguntou ele.
– Eu disse que provavelmente deveria mandar açoitar você - repetiu
D'Ashewl, olhando para o datapad enquanto relaxava confortavelmente no sofá
suntuoso na área de estar logo atrás da cabine.
– Algum motivo especial?
– Não, realmente — respondeu D'Ashewl. — Mas está se tornando uma moda
entre o alto escalão da corte hoje em dia, e eu odiaria ficar de fora das tendências
realmente importantes.
– Ah — disse Dayja. — Eu suponho que esses rituais não sejam feitos em
público.
– Ah, não, as sessões são bastante privadas e sigilosas - garantiu D'Ashewl. -
Mas é uma boa questão. A não ser que nós por acaso encontremos outras pessoas
da mesma elevada estatura que a minha, realmente não haveria propósito algum.
- Ele pensou na possibilidade. - Pelo menos não até nós voltarmos ao Centro
Imperial. Talvez seja melhor tentar na ocasião.
– Falando apenas por mim, eu ficaria contente em protelar o açoite - falou
Dayja. - Ele realmente parece muito sem sentido.
– É porque você tem uma atitude de classe baixa - ralhou D’Ashewl. - O
açoite é uma espécie de ostentação. Uma demonstração de que a pessoa tem
tamanha abundância de criados e escravos que ela pode se dar ao luxo de deixar
um deles inativo por alguns dias, por um mero capricho.
– Ainda parece sem sentido - disse Dayja. - Arrancar a pele do corpo de
alguém dá muito trabalho. Eu prefiro ter um bom motivo para passar por
tamanho esforço. - Ele apontou o datapad com a cabeça. - Deu sorte?
– Infelizmente, os cubos de risco não estão caindo a nosso favor – falou
D’Ashewl ao jogar o instrumento ao lado dele, no sofá. - O aviso chegou um
pouco tarde demais. Ao que parece, Qazadi já está aqui.
– Tem certeza?
– Havia apenas oito possibilidades, e as oito pousaram e seus passageiros se
dispersaram.
Dayja voltou a olhar para frente, viu o planeta correr na direção deles e tentou
calcular distâncias e tempos. Se o iate que levava o alvo deles tivesse acabado
de pousar, talvez ainda houvesse uma chance de interceptá-lo antes de ele se
esconder.
– E a mais recente foi há mais de três horas - acrescentou D’Ashewl. - Então é
melhor você relaxar o manete e aproveitar a viagem.
Dayja conteve um lampejo de irritação.
– Então, em outras palavras, nós tiramos o Dominador de serviço para nada.
– Não totalmente - disse D’Ashewl. - O capitão Worhven teve a oportunidade
de trabalhar seu nível de paciência.
Apesar da frustração, Dayja teve que sorrir.
– Você interpreta mesmo o papel do sujeito pomposo muito bem.
– Obrigado - falou D’Ashewl. - Fico contente que meus talentos ainda tenham
alguma serventia para o departamento. E não fique chateado demais por termos
perdido Qazadi. Teria sido bem dramático arrancá-lo dos céus como
esperávamos. Mas um triunfo desse tipo teria provocado certos custos. Antes de
mais nada, teríamos que nos abrir com o capitão Worhven, o que custaria a você
uma identidade secreta muito boa.
– E possivelmente a sua?
– Muito provavelmente - concordou D’Ashewl. - E embora o diretor tenha
muitas identidades de pilantras e criados para distribuir, ele não é capaz de
introduzir tanta gente assim na corte imperial sem que outros integrantes
percebam. Eles podem ser arrogantes e pomposos, mas não são estúpidos.
Levando tudo isso em conta, provavelmente é melhor que as coisas tenham
acontecido dessa forma.
– Talvez - disse Dayja, não totalmente disposto a entregar os pontos. - Ainda
assim, vai ser mais difícil tirá-lo da mansão de Villachor do que teria sido se
tivéssemos capturado Qazadi ao longo do caminho.
– Mesmo assim, será mais fácil do que arrancá-lo de um dos complexos do
Sol Negro no Centro Imperial — contra-argumentou D’Ashewl. - Isso
presumindo que conseguiríamos encontrá-lo naquele buraco de rato, em primeiro
lugar. - Ele gesticulou para a vigia. - E não pense que teria sido tão fácil assim
arrancá-lo do espaço. Imagine a Virago de Xizor, só que em uma escala
cinquenta ou cem vezes maior, e você terá uma ideia do tipo de osso duro que
teríamos que roer.
– Todos os ossos podem ser roídos — falou Dayja dando de ombros. - Basta
dar o tipo de mordida certa.
– Desde que os dentes em si não se quebrem no processo — disse D'Ashewl,
com um tom de voz subitamente sombrio. — Você nunca se envolveu com o Sol
Negro neste nível, Dayja. Eu, sim. Qazadi é um dos piores, com toda a
engenhosidade e manipulação de Xizor.
– Mas sem o charme do príncipe?
– Brinque, se quiser — resmungou D’Ashewl. — Mas tome cuidado. Se não
por si mesmo, por mim. Eu tenho fantasmas de agentes perdidos demais
circulando na minha memória, do jeito que as coisas estão.
– Compreendo - disse Dayja baixinho. - Tomarei cuidado.
– Ótimo. - D’Ashewl bufou, um cacoete que Dayja imaginou que ele tivesse
adquirido de outros integrantes da elite do Centro Imperial. - Tudo bem. Ainda
não sabemos o motivo de Qazadi estar aqui: se está em missão, agindo
discretamente, ou se caiu em desgraça com Xizor e o resto do escalão superior.
Se for a terceira opção, estamos com azar.
– Bem como Qazadi - murmurou Dayja.
– Realmente - concordou D’Ashewl. - Mas se for uma das duas primeiras... -
Ele balançou a cabeça. - Aqueles arquivos podem tirar o Centro Imperial de
órbita.
O que era motivo suficiente por si só para eles agirem com muito cuidado,
como Dayja sabia.
– Mas temos certeza de que ele ficará na mansão de Villachor?
– Eu não vejo Qazadi vindo a Wukkar e ficando em qualquer lugar que não
seja a mansão do chefe de setor - respondeu D’Ashewl. - Mas pode haver outras
possibilidades, e não fará mal que você sonde um pouco por aí. Eu baixei tudo
que temos sobre Villachor, seu povo e a Mansão Marblewood. Infelizmente, não
há muita coisa.
– Acho que terei que entrar e ver o lugar por mim mesmo - disse Dayja. - O
próximo Festival das Quatro Honrarias deve ser a melhor aposta.
– Se Villachor seguir sua rotina habitual de promover uma das comemorações
da Cidade de Iltarr em Marblewood - alertou D’Ashewl. - É possível que, com a
visita de Qazadi, ele passe este papel para outra pessoa.
– Acho que não - disse Dayja. - Agentes de alto nível do Sol Negro gostam de
usar comemorações sociais para mascarar reuniões com contatos fora do planeta
e armar futuras oportunidades. Na verdade, dado o momento da visita de Qazadi,
é possível que ele esteja aqui para observar ou dar assistência quanto a algum
problema especialmente complicado.
– Você fez seu dever de casa - falou D’Ashewl. - Excelente. Tenha em mente,
porém, que o afluxo de gente também significa que a segurança de Marblewood
estará em alerta elevado.
– Não se preocupe - disse Dayja calmamente. - E possível entrar em qualquer
porta caso se saiba a maneira certa de bater. Eu simplesmente continuarei
batendo até encontrar o ritmo.

De acordo com as maiores e mais influentes revistas de moda de Wukkar, que


adoravam fazer longas reportagens sobre Avrak Villachor sempre que ele as
pagasse para isso, a famosa Mansão Marblewood de Villachor era uma das
verdadeiras vitrines da galáxia. Essencialmente, era um casarão de campo no
meio da Cidade de Iltarr: uma extensão murada de terreno ajardinado que
cercava a antiga mansão de um governador construída no clássico estilo da
suprema imperatriz Teta.
Os comentaristas mais emocionados gostavam de lembrar os leitores dos
muitos prémios e feitos filantrópicos e comerciais de Villachor, e previam que
haveria mais honrarias do gênero no futuro. Outros comentaristas, os que não
eram pagos, contra- argumentavam com insinuações mais sombrias que o feito
mais provável de Villachor seria sofrer uma morte prematura e violenta.
Ambas as previsões provavelmente estavam corretas; o pensamento passou
pela mente de Villachor enquanto ele estava parado na entrada principal da
mansão e via a fila de cinco landspeeders de aparência comum passar flutuando
pelo portão e entrar no pátio. Na verdade, era bem possível que ele estivesse
prestes a encarar um ou outro daqueles eventos exatamente agora.
A única questão era qual deles.
A etiqueta em Wukkar mandava que um anfitrião esperasse ao lado da porta
de um landspeeder quando um convidado importante saísse. Nesse caso, porém,
isso seria impossível. Os cinco landspeeders tinham janelas escuras, e não havia
como saber em qual o misterioso visitante estava vindo. Se Villachor adivinhasse
errado, não apenas ele violaria os costumes estabelecidos, como também
pareceria um tolo.
E assim ele esperou no último degrau até que os landspeeders executassem
uma parada em uníssono bem ensaiada. As portas de todos, menos as do
segundo veículo, se abriram e começaram a evacuar passageiros, a maioria
formada por humanos de expressão carrancuda que teriam se encaixado
perfeitamente no próprio grupo de guardas e agentes de Villachor. Eles se
espalharam em um círculo improvisado e de aparência casual em volta dos
veículos, e um dos sujeitos murmurou algo no pequeno comlink preso no
colarinho. As portas do último landspeeder se abriram...
Villachor sentiu um aperto na garganta ao primeiro vislumbre de escamas
verde-acinzentadas acima de uma túnica de contas coloridas. Aquilo não era um
humano. Aquilo era um Falleen.
E não apenas um, mas um landspeeder inteiro cheio deles. No momento em
que Villachor foi em frente, dois Falleens saíram de cada lado do veículo, com as
mãos nas armas de raios que estavam nos coldres, e seus olhos foram para
Villachor e depois para a mansão que se agigantava atrás dele. Guarda-costas
especiais, que só poderiam ser para um convidado igualmente especial. Villachor
apertou o passo, tentando correr sem parecer que corria, com o coração
disparado em uma expectativa desagradável. Se fosse o príncipe Xizor naquele
landspeeder, aquele dia provavelmente acabaria muito mal. Visitas não
anunciadas do chefe do Sol Negro quase sempre acabavam assim.
Realmente foi outro Falleen que saiu para a luz do sol no momento em que
Villachor chegou ao local devido, ao lado do veículo. Mas, para seu alívio
contido, não era Xizor. Era simplesmente Qazadi, um dos nove vigos do Sol
Negro.
Foi apenas quando Villachor se ajoelhou e abaixou a cabeça em reverência ao
convidado que lhe bateu o significado daquele pensamento, com atraso. Apenas
um dos nove seres mais poderosos no Sol Negro?
Só porque o Falleen parado diante dele não era Xizor, não significava que o
dia ainda não pudesse acabar em morte.
– Eu o saúdo, Vossa Excelência - disse Villachor, abaixando ainda mais a
cabeça. Se ele estivesse em apuros, uma demonstração a mais de humildade
provavelmente não o salvaria, mas pelo menos poderia garantir uma morte
menos dolorosa. - Eu sou Avrak Villachor, chefe das operações deste setor e seu
humilde criado.
– Eu o saúdo de volta, chefe de setor Villachor - respondeu Qazadi. A voz era
suave e melodiosa, muito parecida com a de Xizor, mas com uma pontada mais
sinistra de ameaça por baixo. - Você pode se levantar.
– Obrigado, Vossa Excelência - falou Villachor voltando a ficar de pé. - Como
posso servi-lo?
– Você pode me levar a um quarto de hóspedes — respondeu Qazadi, cujos
olhos pareciam brilhar com uma satisfação particular.
– E depois você pode relaxar.
Villachor franziu a testa.
– Perdão, Vossa Excelência? - perguntou com cuidado.
– Você teme que eu tenha vindo julgá-lo - falou Qazadi, com o tom de voz
ainda sombrio, mas ao mesmo tempo estranhamente casual. As escamas verde-
acinzentadas do rosto também estavam mudando e mostravam apenas um toque
rosado nas maçãs do rosto. - E tais pensamentos jamais devem ser simplesmente
descartados - acrescentou o Falleen -, porque eu não saio do Centro Imperial sem
um grande motivo.
– Sim, Vossa Excelência - disse Villachor.
A sensação de incerteza sombria ainda pairava sobre o grupo como o nevoeiro
do início da manhã, mas, para sua leve surpresa, Villachor sentiu o coração
desacelerando e uma calma inesperada começando a fluir. Algo na voz do
Falleen era mais reconfortante do que ele percebera.
– Mas, neste caso, o motivo não tem nada a ver com você - continuou Qazadi.
- Com a ausência de Lorde Vader do Centro Imperial deixando seus espiões
temporariamente sem liderança, o príncipe Xizor decidiu que seria prudente
embaralhar as cartas um pouco. - Ele deu um sorrisinho para Villachor. - Neste
caso, uma metáfora bastante apropriada.
Villachor sentiu a boca ficar subitamente seca. Será que Qazadi estava
realmente falando sobre...?
– Minha caixa-forte está completamente à sua disposição, Vossa Excelência -
ele conseguiu responder.
– Obrigado - disse Qazadi, como se Villachor tivesse escolha no caso. -
Enquanto meus guardas trazem meus pertences e arrumam o quarto, nós
investigaremos a segurança de sua caixa-forte.
A brisa que estivera batendo no rosto de Villachor mudou de direção, e de
repente a calma que havia se instalado apenas outro daqueles malditos truques de
química corporal que os Falleen gostavam de aplicar nas pessoas.
– Como quiser, Vossa Excelência - falou ele, fazendo uma mesura novamente
e apontando para a porta da mansão. - Por favor, siga-me.

O hotel que D’Ashewl arrumara ficava no meio do distrito mais exclusivo da


Cidade de Iltarr, e a Suite Imperial era a melhor acomodação que o hotel tinha
para oferecer. Mais importante, do ponto de vista de Dayja, era que o alojamento
dos humildes criados, enfiado em um canto da suite, tinha uma porta privativa
que abria bem ao lado de uma das escadas de serviço do hotel.
Uma hora após D’Ashewl terminar seu grande jantar do meio da tarde e se
recolher na suite, Dayja trocou o uniforme de criado por roupas mais discretas e
foi para a rua. Alguns minutos de caminhada o tiraram do enclave dos ricos e
poderosos e o levaram para uma seção mais pobre e desagradável da cidade.
Operações modernas de inteligência geralmente começavam na mesa do
oficial de campo, com um resumo completo das comunicações, finanças e redes
sociais do alvo. Neste caso, porém, como Dayja sabia, uma abordagem desse
tipo seria menos do que inútil. Os chefes do alto escalão do Sol Negro eram
excepcionalmente competentes em esconder os rastros e enterrar todas as
conexões e pontos que podiam ser usados para capturar criminosos inferiores.
Além disso, muitas dessas conexões escondidas tinham sinalizadores embutidos
para alertar o líder criminoso da presença de uma investigação. A última coisa de
que Dayja podia se dar ao luxo era levar Qazadi a se embrenhar ainda mais no
submundo ou, pior, mandá-lo correndo de volta para o Centro Imperial, onde ele
novamente estaria sob a proteção direta de Xizor e dos enormes recursos do Sol
Negro de lá.
Assim sendo, Dayja agiria da forma tradicional: cutucando e sondando os
limites das operações do Sol Negro na Cidade de Iltarr, incomodando até atrair a
atenção da pessoa certa.
Ele passou o resto da noite apenas perambulando, observando as pessoas e
absorvendo a sensação e os ritmos da cidade. Conforme o céu escurecia ao cair
da noite, Dayja retornou a um dos traficantes que vira mais cedo, comprou dois
cubos de especiaria nyriaana e comentou casualmente sobre a qualidade superior
da droga a que ele estava acostumado.
Quando estava pronto para retornar ao hotel, Dayja comprou amostras de mais
dois traficantes e fez comentários igualmente depreciativos em ambas as vezes.
O Sol Negro traficava muita especiaria nyriaana, e havia uma boa chance de que
os três traficantes fossem ligados pelo menos perifericamente a Villachor. Se
desse sorte, a notícia sobre esse estranho desdenhoso começaria a subir pela
cadeia de comando.
Ele estava próximo da estação de segurança particular do enclave da classe
alta quando foi atacado por três jovens valentões.
No primeiro momento de esperança, Dayja pensou que talvez a rede local de
inteligência do Sol Negro fosse melhor do que esperava. Porém, ficou
rapidamente evidente que os valentões não estavam trabalhando para Villachor
ou qualquer outra pessoa, mas apenas queriam roubar os cubos de especiaria que
Dayja levava. Os três jovens portavam facas; um deles tinha uma pequena arma
de raios, e um fogo ardente nos olhos deles dizia que o trio levaria a especiaria a
qualquer preço.
Infelizmente para eles, Dayja tinha uma faca também, uma que ele havia
retirado do corpo de um criminoso com planos similares. Trinta segundos
depois, Dayja estava novamente voltando para casa e deixava três corpos
pingando sangue na sarjeta que acompanhava a calçada.
Ele decidiu que sugeriria no dia seguinte que D’Ashewl visitasse
ostensivamente alguns dos centros culturais locais, onde Dayja teria uma chance
de avaliar melhor a classe dominante da cidade. Depois, faria outra incursão
solitária às periferias e provocaria mais do mesmo tipo de confusão sutil.
Somando as classes alta e baixa, mais cedo ou mais tarde Villachor ou seus
agentes deveriam notá-lo.
Dayja já tinha passado há muito tempo da estação de segurança, com visões
da cama macia dançando diante dos olhos, quando a polícia finalmente chegou
para recolher os corpos que ele deixara para trás.
CAPÍTULO

Han Solo nunca estivera na Cantina Reggilio antes, porém já havia visitado
centenas de lugares exatamente como aquele e conhecia muito bem o tipo. Era
razoavelmente silenciosa, embora por precaução, e não por boas maneiras;
ligeiramente animada, mas com a moderação que surgia da necessidade de
manter a discrição; e tinha uma decoração decadente, que não pedia e nem
esperava por desculpas.
Era, em resumo, o lugar perfeito para uma armadilha.
A um metro de distância, na outra metade do assento circular da cabine,
Chewbacca deu um rosnado de aborrecimento.
– Sem brincadeiras - Han rosnou de volta, tamborilando inquieto a caneca de
cerveja corelliana com especiaria que ele ainda não tinha tocado. - Mas se
houver uma chance de esse lance ser legítimo, nós temos que aproveitá-la.
Chewbacca grunhiu uma sugestão.
– Não — respondeu Han categoricamente. - Eles estão organizando uma
rebelião, lembra? Não têm nada sobrando para dar.
Chewbacca rosnou de novo.
– Claro que a gente vale - concordou Han. - Só por ter derrubado aqueles TIEs
que estavam na cola de Luke, a recompensa deveria ter dobrado. Mas você viu a
expressão na cara de Dodonna; ele não estava tão contente assim por nos dar o
primeiro lote. Se Sua Alteza Real não estivesse bem ali se despedindo, tenho
certeza de que ele teria tentado nos convencer do contrário.
Han Solo encarou a caneca. Além disso, ele não acrescentou, pedir para a
princesa Leia uma substituição dos créditos da recompensa significaria ter que
contar para ela como ele perdera o primeiro lote. Não para jogatina, maus
investimentos ou mesmo para a bebida, mas para um pirata desgraçado.
E aí ela teria lhe dado um daqueles olhares.
Havia coisas piores, Han decidiu, do que estar na lista de assassinatos de
Jabba.
Por outro lado, se a oferta de serviço que ele tinha recebido durante a entrega
em Ord Mantell fosse verdadeira, havia uma boa chance de Leia jamais ter que
saber.
– Olá, Solo. — A voz desagradável surgiu pela direita de Han. — Olhe para
frente, com as mãos espalmadas sobre a mesa. Você também, Wookiee.
Han trincou os dentes ao soltar a caneca e espalmar as mãos sobre a mesa. Lá
se foi a chance de o serviço ser legítimo.
– É você, Falsta?
– Ei, boa memória — disse Falsta em tom de aprovação ao entrar no campo de
visão de Han e se sentar na cadeira do outro lado da mesa.
Falsta estava exatamente como Han se lembrava dele: baixo e esquelético,
com uma barba por fazer de quatro dias e usando a jaqueta de couro de sempre,
sobre mais uma camisa de pássaro flamejante saída de sua coleção. A arma de
raios era ainda mais feia do que a camisa: uma DT-57 da época das Guerras
Clônicas, muito modificada.
Falsta gostava de dizer que a arma antigamente tinha pertencido ao próprio
general Grievous. Han não acreditava naquilo, nem ninguém.
– Ouvi dizer que Jabba está furioso com você - continuou Falsta, enquanto
apoiava o cotovelo na mesa e apontava o cano da arma de raios bem na cara de
Han.
– Ouvi dizer que você expandiu os negócios para assassinatos — respondeu
Han de olho na arma e cuidadosamente reposicionando a perna embaixo da
mesa. Ele só teria uma oportunidade.
Falsta deu de ombros.
– Ei, se é isso que o cliente quer, é isso que o cliente recebe. Eu posso lhe
dizer uma coisa: o Sol Negro paga muito mais por um assassinato do que Jabba
paga por uma captura. - Ele sacudiu um pouco o cano da arma de raios. — Não
que não me importe em pegar alguns créditos de graça. Desde que eu
simplesmente esteja aqui, por acaso.
– Claro, por que não? - concordou Han, franzindo a testa. Aquele foi um
comentário estranho. Será que Falsta estava dizendo que não foi ele quem
passou aquela mensagem para Han?
Não — que ridículo. A galáxia era um lugar imenso. Não havia possibilidade
de um caçador de recompensas simplesmente ter entrado por acaso em uma
cantina qualquer em uma cidade qualquer em um mundo qualquer no mesmo
momento em que Han estivesse ali. Não, Falsta estava apenas sendo
engraçadinho.
Tudo bem. Han também sabia ser engraçadinho.
– Então você está dizendo que, se eu lhe desse o dobro do que Jabba está
oferecendo, você se levantaria e iria embora?
Falsta deu um sorriso maligno.
– Você tem essa quantia com você?
Han inclinou a cabeça para Chewbacca.
– No terceiro energipente, descendo do ombro.
Os olhos de Falsta foram para a bandoleira de Chewbacca...
E em uma única contorção, Han deu uma joelhada para cima, fez a mesa bater
no cotovelo de Falsta e tirou a arma de raios de perto, ao mesmo tempo em que
pegou a caneca e jogou a cerveja corelliana com especiaria nos olhos do homem.
Houve uma breve onda de calor quando o tiro de reflexo do caçador de
recompensas passou pela orelha esquerda de Han.
Um tiro foi tudo que Falsta conseguiu dar. Um instante depois, a arma estava
apontada inofensivamente para o teto, paralisada pela pegada firme de
Chewbacca em volta da pistola e da mão que a empunhava.
Aquilo deveria ter sido o fim da situação. Falsta deveria ter concedido a
derrota, entregado a arma e saído da cantina, um pouco humilhado, porém ainda
vivo.
Mas Falsta nunca tinha sido do tipo que concedia alguma coisa. Mesmo
enquanto piscava furiosamente por causa da cerveja que ainda escorria para
dentro dos olhos, a mão esquerda se enfiou como uma faca no interior da jaqueta
e saiu com uma arma de raios de pequeno porte.
Ele estava no processo de mirá-la quando Han disparou em Falsta por baixo
da mesa. O homem desabou para frente, com o braço direito ainda erguido na
mão de Chewbacca, e a arma de pequeno porte quicou na mesa até parar.
Chewbacca manteve aquela pose por mais um instante, depois abaixou o braço
de Falsta até a mesa, ao mesmo tempo que agilmente recolhia a arma de raios da
mão do morto.
Por meia dúzia de segundos, Han não se mexeu, ficou segurando a arma de
raios embaixo da mesa e vasculhando a cantina com o olhar. O lugar ficara em
silêncio, e praticamente todos os olhos agora focavam nele. Até onde Han podia
ver, ninguém sacara uma arma, mas a maioria dos frequentadores nas mesas
mais próximas tinha as mãos sobre ou perto de coldres.
Chewbacca rosnou um alerta.
– Todos vocês viram - falou Han, embora duvidasse de que mais de algumas
poucas pessoas realmente tivessem visto. - Ele atirou primeiro.
Houve outro momento de silêncio. Então, quase que despreocupadamente,
mãos se ergueram das armas, cabeças se viraram, e a conversa baixa voltou.
Talvez esse tipo de coisa acontecesse o tempo todo na Reggilio. Ou talvez
todos eles conhecessem Falsta suficientemente bem para saber que ninguém
sentiria falta dele.
Ainda assim, com certeza era hora de partir.
– Vamos — murmurou Han enquanto guardava a arma de raios no coldre e
saía pela lateral da mesa.
Eles teriam que voltar à área do espaçoporto, decidiu Han, sondar as cantinas
de lá e ver se conseguiriam pegar algum frete. Certamente não renderia o
suficiente para quitar a dívida com Jabba, mas pelo menos tiraria os dois de
Wukkar. Ele ficou de pé e verificou a cantina uma última vez...
– Com licença!
Han deu meia-volta e abaixou a mão para a coronha da arma de raios, por
reflexo. Mas era apenas um homem comum correndo em sua direção.
Quer dizer, quase um homem. Metade do rosto estava coberta por um medselo
cor de pele que tinha sido esticado sobre a face e o cabelo, com um olho
prostético que quicava no lugar onde o olho direito normalmente estaria.
E também não era simplesmente qualquer olho. Era algo com design
alienígena, que brilhava como uma versão menor do olho multifacetado de um
Arconiano. Mesmo na luz difusa da cantina, o efeito era impressionante,
perturbador e estranhamente hipnótico.
Com um choque, Han se deu conta de que o ficara encarando fixamente e
afastou o olhar. Não apenas era falta de educação, mas uma isca visual como
aquela era exatamente o tipo de truque que um assassino esperto poderia usar
para atrair a atenção das vítimas em um momento crítico.
Mas as mãos do homem estavam vazias, sem arma de raios ou faca visíveis.
Na verdade, a mão direita não teria sido de muita utilidade, de qualquer forma.
Retorcida e deformada, estava embrulhada no mesmo medselo da face. Ou ela
tinha sido seriamente danificada ou então havia uma mão prostética embaixo
daquilo que tinha vindo dos mesmos alienígenas que lhe forneceram o olho.
– Melhor você tentar arrumar um olho diferente — sugeriu Han, relaxando um
pouco.
– Eu preciso tentar arrumar muitas coisas — disse o homem ao parar alguns
metros atrás. O olho remanescente se voltou para a arma de raios de Han, depois
se ergueu com um esforço de volta para o rosto dele. — Meu nome é Eanjer...
bem, meu sobrenome não é importante. O que é importante é que me roubaram
uma grande quantidade de dinheiro.
– Lamento ouvir isso — falou Han recuando para a porta. — Você precisa
falar com a polícia da Cidade de Iltarr.
– Eles não podem me ajudar - disse Eanjer dando um passo à frente para cada
passo de Han para trás. — Eu quero meus créditos de volta e preciso de alguém
que saiba se virar e não se importe em trabalhar fora da lei e dos costumes. É por
isso que estou aqui. Estava torcendo para encontrar alguém que se encaixasse em
ambos os critérios. — O olho se voltou para o corpo de Falsta. — Após tê-lo
visto em ação, está claro que você é exatamente o tipo de pessoa que procuro.
– Foi legítima defesa — contra-argumentou Han, aumentando o passo. O
problema do homem provavelmente era uma desprezível dívida de jogo, e ele
não tinha intenção de se envolver com algo do gênero.
Mas fosse lá o que mais Eanjer fosse, o homem era determinado. Eanjer
acelerou para manter o passo de Han e ficar ao lado dele.
– Eu não quero que você faça isso de graça - falou Eanjer. - Eu posso pagar.
Posso pagar muito, muito bem.
Han foi parando, relutante. Provavelmente ainda era algo desprezível, e ouvir
o cara seria uma completa perda de tempo. Mas ficar sentado em uma cantina de
espaçoporto também provavelmente seria.
E se ele não ouvisse, havia uma boa chance de a peste segui-lo pelo caminho
inteiro até o espaçoporto.
– De quanto estamos falamos? - perguntou Han.
– No mínimo, as suas despesas - respondeu Eanjer. - No máximo... — Ele
olhou em volta e abaixou o tom de voz para um sussurro. - Os criminosos
roubaram 163 milhões de créditos. Se recuperá-los, divido com você e com
quem mais chamar para ajudá-lo.
Han sentiu um aperto na garganta. Isso ainda poderia ser nada. Eanjer poderia
estar simplesmente inventando histórias.
Mas se estivesse falando a verdade...
– Beleza - disse Han. - Vamos conversar, mas não aqui.
Eanjer voltou a olhar para o corpo de Falsta e sentiu um arrepio no corpo.
– Não — concordou baixinho. — Qualquer lugar, menos aqui.
– O nome do ladrão é Avrak Villachor - falou Eanjer. O único olho vasculhou
a lanchonete que Han escolhera, um lugar mais refinado do que a cantina e a
uma distância prudente de três quarteirões. - Mais precisamente, ele é o líder do
grupo específico envolvido. Sei que também está associado a alguma
organização criminosa maior... não sei qual.
Han olhou para Chewbacca do outro lado da mesa e ergueu as sobrancelhas. O
Wookiee deu de ombros e balançou a cabeça. Aparentemente, ele também nunca
tinha ouvido falar em Villachor.
– E, tem um monte dessas para escolher - falou Han para Eanjer.
– Realmente. - Eanjer abaixou o olhar para a bebida como se a percebesse
pela primeira vez, depois continuou a vasculhar
nervosamente o ambiente. - Meu pai é... era... um importador muito bem-
sucedido. Há três semanas, Villachor veio ao nosso lar com um grupo de
capangas e exigiu que passássemos o negócio para a organização de Villachor.
Quando ele se recusou... - Ele sentiu um arrepio pelo corpo. - Eles o mataram -
disse Eanjer, com uma voz baixa, quase impossível de ouvir. — Eles
simplesmente... Nem usaram armas de raios. Foi alguma espécie de granada de
fragmentação. Ela apenas o destroçou... - Ele foi parando de falar.
– Foi isso que aconteceu com seu rosto? - perguntou Han.
Eanjer pestanejou e ergueu o olhar.
– O quê? Ah. - Ele ergueu a mão medselada para tocar delicadamente o rosto
medselado. - Sim, eu peguei a rebarba da explosão. Houve tanto sangue. Eles
devem ter pensado que eu estava morto. - Eanjer estremeceu, como se tentasse
se livrar da memória. — De qualquer forma, eles levaram tudo do cofre e foram
embora. Todos os registros corporativos, os dados de nossa rede de transporte, as
listas de terceirizados... tudo.
– Incluindo 163 milhões de créditos? - indagou Han. - Devia ser um cofre bem
grande.
– Não, na realidade - respondeu Eanjer. - Cabe uma pessoa, mas nada
especial. O dinheiro estava em fichas de crédito, um milhão por ficha. Caberiam
todas em uma pochete. — Ele puxou a cadeira um pouco mais próximo à mesa. -
Mas o problema é este: fichas de crédito são associadas ao proprietário e aos
agentes designados pelo proprietário. Com meu pai morto agora, eu sou o único
que consegue retirar o valor completo delas. Para qualquer outra pessoa, as
fichas valem não mais do que um quarto, talvez metade de 1% do valor nominal.
E isso apenas se Villachor encontrar um sheer que consiga passar pelo código de
segurança.
– Isso ainda o deixaria com 800 mil créditos - argumentou Han. — Nada mal
para uma noite de trabalho.
– É por isso que não tenho dúvidas de que ele está atrás de um slicer para o
serviço neste momento. - Eanjer respirou fundo. - O problema é este: os registros
de negócios que Villachor roubou não importam. Todas as pessoas que
trabalhavam para nós estavam lá específica e pessoalmente por causa do meu
pai, e sem ele, elas vão sumir na bruma. Especialmente uma vez que as fichas de
crédito estavam à mão porque estávamos nos preparando para pagar pelos
serviços feitos. Se você não paga a um transportador, ele não trabalha mais para
você.
Especialmente se o transportador fosse na verdade um contrabandista, que era
a forte suspeita que Han tinha sobre o que estava por trás do pretenso negócio de
importação da família. Ele ainda não tinha certeza se o próprio Eanjer sabia
disso, se suspeitava ou estava completamente alheio ao fato.
– Deixe-me entender direito - alou Han. - Quer que a gente invada a casa de
Villachor... você por acaso sabe onde fica?
– Ah, sim - respondeu Eanjer, concordando com a cabeça. - Fica bem aqui na
Cidade de Iltarr. E uma propriedade chamada Marblewood, um terreno de quase
um quilómetro quadrado que cerca uma grande mansão.
– Ah - disse Han. Provavelmente era o grande espaço aberto na zona norte da
cidade que ele vira ao se aproximar com a Falcon. Na ocasião, Han tinha achado
que fosse um parque. - Você quer que a gente entre lá, invada onde quer que ele
esteja guardando as fichas, roube os créditos e saia novamente. É mais ou menos
isso?
– Sim - respondeu Eanjer. - E fico muito agradecido...
– Não.
O único olho de Eanjer pestanejou.
– Como é que é?
– Você escolheu o homem errado - falou Han. - Nós somos transportadores,
como seu pai. Não sabemos nada sobre invadir caixas-fortes.
– Mas certamente você conhece pessoas que sabem - disse Eanjer. - Pode
chamá-las. Eu divido os créditos com elas também. Todo mundo pode ter uma
parte igual.
– Você mesmo pode chamá-las.
– Mas eu não conheço nenhuma pessoa assim - reclamou Eanjer, com a voz
suplicante. - Não posso simplesmente pegar um comlink e chamar o ladrão mais
próximo. E sem você... - Ele parou e se esforçou visivelmente para recuperar o
controle. - Eu vi como você cuidou daquele homem na cantina. Você pensa
rápido e age com convicção. Mais importante, você não o matou até não ter
escolha. Isso significa que posso confiar que você fará o serviço e será justo ao
negociar comigo quando acabar.
Han suspirou.
– Veja bem...
– Não, veja bem você - disparou Eanjer, com uma pontada de raiva surgindo
na frustração. - Eu tenho sentado em cantinas há duas semanas inteiras. Você é a
primeira pessoa que encontrei que me deu absolutamente alguma esperança.
Villachor já teve três semanas para encontrar um sheer para aquelas fichas de
crédito. Se eu não pegá-las antes dele, Villachor vai ganhar. Vai ganhar tudo.
Han olhou para Chewbacca. Mas o Wookiee estava sentado calado, sem dar
pistas do que pensava ou sentia. Claramente estava deixando a decisão para Han.
– São os créditos que você realmente quer? - perguntou ele para Eanjer. - Ou
está atrás de vingança?
Eanjer abaixou o olhar para a mão.
– Um pouco dos dois - admitiu.
Han ergueu a caneca e tomou um grande gole. Ele estava certo, obviamente.
Ele e Chewbacca realmente não eram as pessoas adequadas para o serviço.
Só que Eanjer também estava certo. Os dois conheciam um monte de gente
que era.
E com 163 milhões de créditos em jogo...
– Eu preciso fazer uma ligação - disse Han enquanto abaixava a caneca e
pegava o comlink.
Eanjer concordou com a cabeça, sem fazer menção de ir embora.
– Certo.
Han fez uma pausa.
– Uma ligação particular.
Por outro segundo, Eanjer continuou sem se mexer. Então, abruptamente, ele
arregalou o olho.
– Ah - falou ele, rapidamente ficando de pé. - Certo. Eu, hã, eu volto.
Chewbacca emitiu uma pergunta.
– Não faz mal perguntar por aí - respondeu Han enquanto digitava um número
e tentava manter a voz calma. Cento e sessenta e três milhões. Mesmo uma
pequena fatia disso quitaria a dívida com Jabba uma dezena de vezes. E não
apenas com Jabba, mas com todo mundo que queria um pedaço da cabeça de
Han rodeada de cebolas em uma travessa. Ele poderia pagar para que todos
saíssem de sua cola, e ainda haveria o suficiente para ele e Chewie seguirem
livres para onde quisessem. Talvez pelo resto da vida. - Só espero que Rachele
Ree não esteja em alguma viagem qualquer.
Para a leve surpresa de Han, ela de fato estava em casa.
– Ora, olá, Han - respondeu Rachele alegremente quando ele se identificou. -
Que bom que você ligou, para variar. Está em Wukkar? Ah, sim... vejo que está.
Cidade de Iltarr, é? A melhor comida corelliana no planeta.
Chewbacca grunhiu um comentário baixinho. Aborrecido, Han concordou
com a cabeça. O comlink deveria estar programado para evitar rastreamento,
mas defesas eletrónicas nunca pareciam deter Rachele.
– Eu tenho uma pergunta - disse ele. - Duas perguntas. Primeiro, você ouviu
alguma coisa sobre uma invasão de alto nível e um assassinato há mais ou menos
um mês? Teria acontecido em uma importadora.
– Você está falando da Importadora Polestar? - perguntou Rachele. - Claro; foi
o assunto nos bares há três semanas. O proprietário foi assassinado, e o filho
aparentemente se escondeu.
– Bem, ele surgiu novamente - falou Han. - O nome do filho é Eanjer, e ele se
feriu no ataque?
– Deixe-me verificar... sim, Eanjer Kunarazti. Quanto a ter se ferido... a
reportagem não diz. Deixe-me verificar com outra fonte minha... sim, parece que
sim. O sangue dele foi encontrado na cena, de qualquer forma.
– Já está bom - disse Han. Ele não tinha imaginado realmente que Eanjer
estivesse armando um golpe, mas não custava verificar. – Quero dizer, não está
bom, mas...
– Eu sei o que você quis dizer - respondeu Rachele, com o que Han imaginou
que fosse um sorriso maroto. - E a segunda pergunta?
– Pode procurar por uns nomes e ver se algum deles está perto de Wukkar
neste momento? - perguntou Han. - Eanjer me ofereceu o serviço de recuperar os
créditos que foram roubados.
– É mesmo? - disse Rachele, parecendo intrigada. - Você anda expandindo os
negócios desde a última vez que te vi?
– Não exatamente - respondeu Han. Lutar uma batalha ou duas para a Aliança
Rebelde não era considerado expansão de negócios, disse ele para si mesmo com
convicção. - Eanjer apenas gosta da maneira como faço as coisas.
– E por acaso todo mundo não gosta? - contra-argumentou Rachele
secamente. - Sem problema. Quem você está procurando?
Han passou todos os nomes em que conseguiu pensar, gente que era ao
mesmo tempo competente e razoavelmente confiável. Considerando quantos
anos ele havia passado nadando na periferia da galáxia, era uma lista
surpreendentemente curta. Han adicionou mais três nomes sugeridos por
Chewbacca e ignorou explicitamente a quarta sugestão do Wookiee.
– E isso - disse ele para Rachele. - Se pensar em mais alguém, eu te ligo de
novo.
– Claro - respondeu Rachele. - Seu amigo mencionou o ganho provável?
Algumas dessas pessoas vão querer saber logo de saída.
Han sorriu por dentro, desejando que estivesse lá para ver a expressão dela.
– Se conseguirmos mesmo, dividiremos 163 milhões.
Houve um momento de silêncio estupefato na outra ponta.
– Sério? - disse Rachele finalmente. - Uau. É praticamente possível contratar o
próprio Jabba por essa quantia.
– Obrigado, mas nós dispensamos - falou Han. - E esse valor parte do
princípio de que Eanjer sobreviva durante toda a operação. É melhor você deixar
isso claro também.
– Deixarei - respondeu Rachele. - Então está tudo em fichas de crédito, hein?
Faz sentido. Ok, farei algumas ligações e retornarei. Ele faz alguma ideia de
onde as fichas de crédito estejam?
– Eanjer diz que estão com alguém chamado Villachor. Você o conhece?
Houve outra pausa curta.
– Sim, eu ouvi falar dele - falou Rachele, com um tom de voz subitamente
alterado. - Ok, vou começar com a sua lista. Onde vocês estão hospedados?
– No momento, estamos apenas alojados na Falcon.
– Bem, vocês vão acabar precisando de algum lugar na cidade - disse Rachele.
- Obviamente, tudo em vista já foi reservado para o próximo Festival. Mas verei
o que consigo arrumar.
– Obrigado, Rachele - falou Han. - Eu te devo uma.
– Pode apostar. Nos falamos depois.
Han desligou e guardou o comlink.
Chewbacca emitiu uma pergunta.
– Porque eu não o quero, é por isso - respondeu Han. - Duvido que ele
apareceria mesmo que eu pedisse.
Chewbacca rosnou novamente.
– Porque ele disse que nunca mais queria me ver de novo, lembra? Às vezes,
Lando é sincero sobre o que diz, sabe?
Um movimento chamou-lhe a atenção no rabo do olho, e Han ergueu o olhar
para ver Eanjer se aproximando deles hesitante.
– Está tudo bem? - perguntou o homem, enquanto o olho pulava de um para o
outro.
– Claro - disse Han. - Eu coloquei alguém para juntar uma equipe.
– Maravilha - falou Eanjer terminando de se aproximar da mesa e se sentando.
Ele devia ter visto o fim da breve discussão, decidiu Han, e provavelmente
pensou que tinha sido mais séria do que foi, na verdade. - Essa pessoa é alguém
confiável?
Han concordou com a cabeça.
– Ela é uma integrante do baixo escalão da velha aristocracia de Wukkar.
Conhece tudo e todo mundo, e não está exatamente empolgada com as pessoas
que comandam a situação no momento.
– Se você diz - respondeu Eanjer, que não parecia completamente convencido,
mas ficou claro que ele não estava pronto para forçar o assunto. - Acho que
descobri um momento perfeito para a invasão. Daqui a duas semanas ocorre o
Festival das Quatro Honrarias.
Han olhou para Chewbacca e recebeu um gesto de ombros.
– Nunca ouvi falar - disse ele para Eanjer.
– É a versão de Wukkar da Semana do Carnaval - respondeu ele torcendo o
lábio. - Tudo que o Centro Imperial faz, alguém aqui tem que fazer melhor. Seja
como for, é um evento de sete dias, com cada dia dedicado à pedra, ao ar, à água
e ao fogo, com um dia de preparação entre cada uma das Honrarias. E o evento
mais importante em Wukkar, com pessoas vindo de lugares tão distantes como
Vuma e o Centro Imperial para participar.
– E provavelmente batedores de carteira de lugares tão distantes como Nal
Hutta - murmurou Han.
– Eu não teria como saber - respondeu Eanjer. - A questão é que Villachor
organiza uma das maiores comemorações da cidade no terreno dele.
Han se ajeitou um pouco mais na cadeira.
– No terreno dele? Você quer dizer que Villachor deixa as pessoas
perambularem bem ao lado da casa?
– É mais uma mansão do que uma casa - explicou Eanjer. - Ou talvez mais
uma fortaleza do que uma mansão. Mas, sim, milhares de pessoas entram e saem
livremente naqueles quatro dias.
Chewbacca emitiu a conclusão óbvia.
– É claro que ele terá aumentado a segurança - concordou Han.
– Mas pelo menos não teremos que passar por cima de muros e através de
uma linha externa de sentinelas. Como conseguimos um convite para esse troço?
– Não é preciso convite - disse Eanjer. - A comemoração é aberta a todos. A
metade da boca que era visível estava curvada para cima, em um sorriso amargo.
- Villachor gosta de bancar que é um filantropo e amigo da cidade. Também
gosta de ostentar a riqueza e o estilo.
– Isso é bom. Alguns dos meus melhores negócios surgiram de pessoas que
achavam que eram melhores e mais espertas do que todas as outras. Isso pode
realmente dar certo.
– Então você vai me ajudar? - perguntou Eanjer, esperançoso.
– Primeiro vamos ver o que Rachele arruma - falou Han. - Eu tenho algumas
ideias, mas como disse antes, essa não é a nossa especialidade. Mas se
conseguirmos as pessoas que preciso, nós devemos pelo menos ter uma chance.
– Garanta que elas saibam o que está envolvido - disse Eanjer. - Cento e
sessenta e três milhões.
– É, essa parte eu entendi - respondeu Han. - Me dê o número de seu comlink,
e eu ligo quando tivermos mais para conversar.
– Tudo bem - falou Eanjer com um pouco de incerteza ao pegar um datacard e
entregar. - Quando vai ser isso?
– Quando - falou Han com uma paciência exagerada - tivermos mais para
conversar.

Eles estavam de volta à Falcon quando chegou o relatório de Rachele.


Como sempre acontecia na vida, os resultados foram ambíguos. Muitas das
pessoas com quem Han tinha esperança de entrar em contato estavam
incomunicáveis, fora da área próxima ou temporariamente fora de circulação.
Outras que normalmente teriam sido possibilidades levariam tempo demais para
ser contatadas, especialmente com a contagem regressiva de duas semanas para
o Festival que Eanjer considerava.
E duas estavam indisponíveis, mas tinham pessoas que poderiam recomendar.
Mazzic, em especial, tinha tomado a iniciativa e informado Rachele de que
enviaria dois novos recrutas que possuíam as mesmas habilidades que aqueles
que Han havia pedido.
Chewbacca não tinha muita certeza de que havia gostado daquilo.
– É, eu também não - concordou Han, franzindo a testa para a mensagem
enviada por Rachele. Ainda assim, ele conhecia Mazzic há muitos anos, e Han e
Chewbacca tinham feito transportes ocasionais para ele e sua pequena
organização de contrabandistas. Mazzic havia se mostrado tanto confiável
quanto competente.
Mais precisamente, ele era famoso por não confiar em ninguém até ter
verificado o candidato nos mínimos detalhes. Se Mazzic concordava com esses
recrutas, eles provavelmente eram seguros o suficiente.
A não ser que ele estivesse tentando se vingar de Han por algum motivo. Mas
isso era improvável. Han não tinha feito nada para Mazzic, não que ele se
lembrasse. Certamente não ultimamente.
Chewbacca grunhiu uma pergunta.
– Acho que vamos caçar - respondeu Han ao ficar de pé. - Vá ligando a
Falcon. Eu vou arrumar uma vaga de decolagem para nós.
CAPÍTULO

As defesas do telhado eram intrigantes.


A longa descida pela sinteticorda foi divertida.
A segurança da janela era uma piada.
Bink Kitik balançou a cabeça ao concentrar o raio laser de uso medicinal no
transparaço até o conector do alarme. Ela sabia que a maioria dos ladrões
amadores que chegassem àquele ponto usaria o laser para cortar toda a conexão,
o que desconectaria o alarme primário, mas ao mesmo tempo ativaria o circuito
de impedância que acionaria o secundário. A abordagem mais sutil de Bink -
queimar o conector apenas o suficiente para derreter os fios e provocar um curto-
circuito - deixaria todos os alarmes intactos, mas gastaria a energicélula do
alarme de maneira rápida e contínua, e ele ficaria inutilizado.
Ela terminou o corte e guardou o laser enquanto media o tempo. Vinte
segundos, não mais do que isso, e o alarme seria desativado.
– E aí? - A voz cansada da irmã surgiu no comlink preso ao ombro.
Bink deu um sorriso afetuoso. Tavia odiava o trabalho de Bink
– odiava cada minuto, cada aspecto, cada serviço. Mas, mesmo com tudo isso,
ela ainda era de longe a melhor olheira com quem Bink já havia trabalhado.
Tavia também se preocupava como uma mãe zelosa - aquela era a quarta vez
que ela verificava a situação desde que Bink surgira no telhado.
– Tudo ok - garantiu Bink. - Vinte para abrir.
Ela esperou trinta segundos, só para garantir. Depois, ativou o vibrobisturi e
começou a cortar delicadamente o transparaço, enquanto se perguntava se as
pessoas que criaram esses instrumentos médicos tão maravilhosos um dia
imaginaram como seriam úteis para uma ladra-fantasma. Provavelmente não.
Bink Kitik terminou o corte e trocou o vibrobisturi por uma sonda, introduziu
o instrumento pela nova abertura e cutucou a tranca da janela. O fecho abriu e
quase pegou a sonda no momento em que Bink a puxou rapidamente. Ela entrou
e ergueu o corpo sobre o peitoril, com cuidado para não prender o arnês...
– Uau! Mas o quê...?
Por reflexo, Bink meteu a mão na arma de raios de pequeno porte.
– Tav? - sussurrou ela persistentemente.
– Está tudo bem - respondeu Tavia, com a surpresa quase ausente da voz.
Quase. - Eu apenas... está tudo bem - repetiu ela.
– Tudo crankapacky. Apenas continue em frente.
Bink franziu a testa. Crankapacky era o código particular para sem problemas.
Mas o quê, pela galáxia, teria feito sua irmã normalmente fria e extremamente
crítica levar um susto daqueles sem que fosse um problema?
– Devo cair fora?
– Não, está crankapacky - repetiu Tavia. - Apenas ande rápido.
O cofre foi mais difícil de arrombar do que a janela, mas não tanto assim.
Bink teve que abri-lo em dois minutos cravados, reclamando baixinho o tempo
todo. Algumas pessoas simplesmente não mereciam ser ricas.
O plano tinha sido reservar alguns minutos para avaliar o conteúdo do cofre,
escolher quais gemas valia a pena pegar e quais seriam fáceis demais para o
futuramente furioso diretor de contabilidade do governador localizar. Mas com a
exclamação assustada de Tavia reverberando na mente, Bink decidiu que
simplesmente pegaria o que fosse possível em uma contagem de vinte gemas e
daria a noite por encerrada. Ela abriu as caixas de gemas aleatoriamente,
sabendo que tais caixas geralmente tinham rastreadores e não podiam ser levadas
como estavam, e começou a enfiar o conteúdo na pochete. Uma das caixas de
aparência mais interessante possuía um fecho próprio, em que as
microferramentas presas à parte inferior das unhas deram um jeito rápido.
A contagem de vinte chegou a zero. Bink fechou o cofre, correu para a janela
e saiu.
O plano tinha sido retornar ao telhado e ir embora como ela havia chegado,
pela escadaria do prédio. Mas os ganchos do telhado eram dispensáveis, o ejetor
de sinteticorda tinha mais do que o suficiente para alcançar a rua, e de repente
Bink não sentiu vontade de permanecer naquela vizinhança mais do que o
necessário. Ela fechou a janela ao sair, soltou a trava do ejetor de sinteticorda e
desceu por rapei pela lateral do prédio.
A meio caminho do chão, Bink sacou a arma de raios. Apenas por precaução.
Tavia, como se esperava, tinha visto a descida não planejada e estava
esperando quando Bink desceu calmamente na calçada.
– O que aconteceu? - perguntou ela com ansiedade. - Achei que você voltaria
para o telhado.
– Você e seu grito assustado aconteceram - respondeu Bink. - Achei melhor
acelerar o passo.
– Eu disse crankapacky.
– Eu ouvi você dizer crankapacky - concordou Bink olhando em volta. Uma
figura aparecera na porta onde Tavia estivera exercendo a função de olheira e
vinha a passos largos na direção das duas. Era um humano, e mesmo com as
sombras provocadas no rosto pela iluminação da rua, ele parecia conhecido. O
homem continuou a aproximação, e a cada passo, a mão balançando roçava em
uma arma de raios dentro de um coldre. Bink apertou a própria arma...
E então, quando o sujeito passou pela luz de uma lâmpada de segurança
doméstica, Bink viu bem o rosto dele. Ela soltou um suspiro e sentiu a tensão
amolecer o corpo, de alívio. Não era de admirar que Tavia tivesse levado um
susto. E não era de admirar que ela tivesse dito crankapacky.
– Oi, Solo - ela saudou o recém-chegado. - O que está fazendo em Kailor?
– Procurando por você, Bink - respondeu Solo calmamente. - Bom ver que
tem se mantido ocupada.
– Estamos nos mantendo - falou Bink. - Só que eu sou Tavia,
não Bink. Nós decidimos que eu finalmente precisava aprender a parte suja do
negócio.
Por um longo instante, Han pareceu que ia acreditar na história. Os olhos
pularam entre os rostos das mulheres, à procura de uma pista de que face
pertencia a que gêmea.
Ele não encontraria, obviamente. Nem mesmo se as duas estivessem em um
ambiente intensamente iluminado, em vez de uma rua da cidade à noite. Bink e
Tavia tinham pregado a mesma peça inúmeras vezes ao longo dos anos, e o
passado delas estava repleto das caras vermelhas daqueles que caíram no truque.
Mas Solo era mais esperto do que a maioria. E se não conseguisse encontrar
nenhuma prova visual de que Bink estava mentindo, ele a conhecia bem o
suficiente para dar um palpite.
– Boa ideia - disse Han, encarando os olhos dela. - Eu preciso de você e de
Tavia para um serviço em Wukkar. Interessada?
– Pode ser - respondeu Bink. - Recompensa decente?
– Muito decente - confirmou Solo. - Venha para a Falcon e nós conversaremos
a respeito.
– Vamos nos encontrar na nossa nave, em vez disso - sugeriu Bink. - Doca 22.
Vão e fiquem à vontade. Nós estaremos lá em breve; temos uma parada para
fazer primeiro.
– Sejam rápidas - alertou Solo. - Estamos com um cronograma apertado.
Ele deu meia-volta e foi embora noite adentro. Ao chegar ao fim do
quarteirão, outra figura, essa mais alta e peluda, apareceu. Chewbacca, sendo seu
reforço de sempre.
Parcerias entre contrabandistas não duravam para sempre, Bink sabia, e
quando terminavam, geralmente tinham um fim violento. Era bom ver que essa
ainda estava durando.
– Devemos ir - falou Tavia, com um tom de voz ainda mais crítico do que o
normal.
– Certo. - Bink usou as microferramentas para cortar a sinteticorda do arnês, e
elas foram para o ponto onde estacionaram o landspeeder.
– Você vai aceitar o serviço? - perguntou Tavia enquanto as duas caminhavam.
– Provavelmente - disse Bink. - Vamos ouvi-lo primeiro, é claro. Mas
provavelmente.
– Você sabe que a recompensa provavelmente não é tão grande quanto ele
insinuou - alertou Tavia. - Coisas assim praticamente imploram para ser
exageradas.
– Eu sei, mas não temos mais nada planejado, e serviços de coleta podem ser
divertidos. - Bink deu de ombros. - Além disso, é Solo. O que pode dar errado?
Tavia deu um muxoxo de desdém.
– Você quer que eu te dê uma lista?
– Não é preciso - falou Bink com pesar. - Eu tenho a minha própria.

A grande feira de Jho-kang’ma era conhecida principalmente por duas coisas:


os produtos agrícolas e animais mais frescos do planeta - por causa do exército
de fazendeiros e pastores mantidos sob domínio por contrato logo após os
morros na fronteira da feira – e o número e a qualidade de artistas que
perambulavam pelo terreno para divertir os clientes.
Havia muitos artistas naquele dia, Han notou enquanto ele e Chewbacca
andavam pelos corredores cobertos por palha entre as barracas. Havia
malabaristas, músicos, dançarinos de flâmulas, e um grande ser que parecia estar
comendo e cuspindo tiros de baixa potência de uma arma de raios. Essa era uma
atração que Han não tinha visto antes.
Mas os números mais populares, certamente aqueles que pareciam atrair a
maior plateia de crianças animadas, eram os mágicos.
Alguns tinham pequenas barracas móveis que eram armadas em cantos
afastados para shows de cinco ou dez minutos. Outros simplesmente
perambulavam com o show inteiro no bolso ou na pochete, faziam moedas
aparecer e desaparecer, criavam plantas vivas que cresciam e floresciam em
vasos que também surgiam do nada, criavam e soltavam passarinhos, ou faziam
truques simples, porém desconcertantes, com baralhos de cartas de sabacc.
Os dois encontraram Zerba Cher'dak no meio de uma das maiores plateias,
vestindo um traje amarelo berrante parecido com uma roupa de palhaço, com um
colete marrom por cima, girando pequenos bastões entre as mãos e fazendo com
que mudassem de cor ou comprimento aparentemente à vontade. Como a
maioria dos Balosarianos que Han tinha visto em mundos governados por
humanos, Zerba havia retraído e escondido as antênulas entre as ondas do cabelo
felpudo e com muita pomada, a fim de melhor se misturar com a população
dominante.
Chewbacca rosnou um comentário.
– Um dos melhores — concordou Han enquanto Zerba continuava a brincar
com os bastões. Às vezes, ele transformava um dos bastões em uma gema
cintilante, o que arrancava risinhos alegres da plateia. - Pelo menos, o melhor
que conseguimos arrumar.
Chewbacca rosnou outra vez.
– Não, não vou dizer isso a ele - prometeu Han pacientemente. Ele sabia ser
diplomático, apesar do que Chewbacca parecia achar.
O show terminou, e com um floreio de duas mãos cheias de bastões, Zerba se
despediu das crianças e as mandou de volta para os pais. A plateia foi indo
embora, e Zerba enfiou as mãos nos bolsos do colete e andou até Han e
Chewbacca.
– Se não é o notório Han Solo - falou Zerba enquanto inclinava a cabeça para
cumprimentá-lo. - Eu estava pensando em você agora mesmo. - Ele tocou o
ponto do cabelo petrificado onde as antênulas estavam escondidas. - Nós somos
muito sensíveis a pensamentos maus e criminosos, sabe.
– Eu ouvi falar disso - disse Han. - Imagino que suas orelhas funcionem muito
bem também. Deixe-me adivinhar: Jabba aumentou a recompensa por mim?
– Basicamente - respondeu Zerba soando um pouco desanimado. - Se está
procurando um esconderijo, este lugar é uma escolha excelente. - Ele olhou Han
de cima a baixo. - Porém, sem qualquer talento para entretenimento, você
provavelmente trabalharia com os rebanhos. Ainda assim, eu conheço pelo
menos três outros Wookiees que ajudariam a conseguir...
– Não estamos aqui para nos esconder - interrompeu Han. - Estamos aqui para
lhe oferecer um serviço. Dos grandes.
– Sério? - perguntou Zerba, claramente surpreso. - Você me quer?
Por meio segundo, Han ficou tentado a ir em frente e contar para Zerba que
ele na verdade era o número oito em sua lista de habilidades específicas, apenas
para ver como o sujeito reagiria. Mas ele deixou a ideia de lado. Zerba
provavelmente não possuía uma nave própria, e Han não desejava ter um
Balosariano deprimido no meio do caminho, durante todo o retorno a Wukkar.
– Com certeza - disse ele ao contrário. - Eu andei trabalhando em alguns
planos diferentes para esse serviço, e todos eles precisam de um prestidigitador,
de um artista que mude rápido de roupa, ou que tenha algo a mais no seu
repertório de truques. Então, está interessado?
– Sim, claro. - Zerba olhou furtivamente ao redor. - Esse serviço é, hã, fora do
planeta?
Han concordou com a cabeça.
– Wukkar, para ser exato.
– Ah. - Zerba franziu os lábios. - O problema é que, como devo ter insinuado
antes, eu estou evitando agir no momento. Mas essa segurança tem um certo
preço.
Han revirou os olhos.
– Deixe-me adivinhar. Seus atuais patrões não permitem que você vá embora.
– Vamos dizer apenas que eles gostam de saber onde estou. - Zerba passou a
mão pelo traje amarelo. - Daí a roupa ridícula. Eles são muito sérios em relação
à natureza do contrato de seus artistas.
Han olhou para Chewbacca, viu o mesmo pensamento refletido no rosto do
Wookiee. Eles já tinham descido e chegado ao número oito na lista; realmente
não podiam se dar ao luxo de descer ainda mais.
– Quanto vai custar? - perguntou ele.
– Ah, não é uma questão de créditos - disse Zerba ao tirar o traje. - Mas
obrigado pela oferta. Aqui, fique com isso, pode ser? É possível você me dar
uma carona? Eu não tenho nave.
– Claro. - Han franziu a testa ao pegar o traje. Era mais pesado do que parecia.
Provavelmente com todos os bolsos cheios dos apetrechos mágicos de Zerba. -
Mas você acabou de dizer...
– Maravilha - interrompeu Zerba. Ele tirou o cinto cheio de bolsos que estava
escondido embaixo do traje e entregou para Chewbacca. - Deixe-me pegar
minhas coisas e encontro com vocês no espaçoporto.
Chewbacca grunhiu uma pergunta.
– Ah, não se preocupe - respondeu Zerba. - Eles não me observam tão de
perto assim. E estou preparado para este dia há algum tempo. - Ele olhou ao
redor. - Apenas preciso garantir que nenhum deles está aqui...
– Outra coisa - falou Han. - As coisas que você vai pegar incluem aquele
velho sabre de luz que você costumava ter, certo?
Zerba virou o rosto imediatamente, e os olhos pularam entre Han e
Chewbacca.
– Espere um pouco - disse ele desconfiado. - Essa é a questão? Tudo que você
precisa é do meu sabre de luz?
– Não, precisamos de você também. - Han se apressou para tranquilizá-lo. -
Além disso, se eu quisesse um sabre de luz de verdade, conheço outro sujeito
que possui um.
– O que você quer dizer com um sabre de luz de verdade? - Zerba bufou. - O
meu corta tão bem quanto qualquer outra coisa que você encontre por aí.
– Eu quero dizer um sabre de luz com uma lâmina maior do que isso -
respondeu Han segurando as mãos afastadas por 20 centímetros. - O seu está
mais para adaga de luz. Ou faca de pão de luz.
– No entanto, ele parece valer o suficiente para você vir até aqui pegá-lo -
contra-argumentou Zerba. - Por quê? O que você quer com o sabre de luz?
– Quero cortar uma coisa - falou Han lutando com a impaciência. Aquele não
era exatamente o lugar ou ocasião certos para aquela conversa. - Eu não sei
ainda. Mas sempre há alguma coisa que precisa ser cortada.
Por um longo momento, Zerba encarou Han em silêncio. Ele devolveu o olhar
e tentou se lembrar onde exatamente o número nove da lista estava no momento.
Então, para seu alívio, Zerba concordou com a cabeça.
– É claro - disse ele. - E sim, eu ainda tenho o sabre de luz, só que a lâmina
está com 15 centímetros agora. Eu não sei por que ela não para de encolher.
– Deve servir - tranquilizou Han. Então Zerba não ficaria deprimido, mas
provavelmente faria a viagem de volta paranoico e desconfiado. - Você está com
a gente ou não?
– Estou com vocês — respondeu Zerba. Ele deu uma última olhada ao redor,
depois meteu a mão no bolso e tirou algo do tamanho e formato de um pequeno
ovo...
E num piscar de olhos, o traje amarelo virou um casaco vermelho-escuro
comprido, uma blusa azul estampada, e uma calça bag bege.
Chewbacca latiu uma imprecação de susto.
Zerba sorriu e inclinou a cabeça em um gesto curto.
– Como disse, eu estava preparado - disse ele. Zerba deu meia- volta e
desapareceu na multidão de fregueses.
Chewbacca rosnou de novo.
– Não tinha visto esse truque antes, hein? - perguntou Han ao ir embora
através da multidão, na direção contrária. - Alguém me disse uma vez que é
apenas um traje de seda com costuras rasgáveis e linhas que arrancam todas as
peças e cabem dentro daquela coisa tipo um ovo que ele segurava.
Chewbacca pareceu pensar sobre aquilo por um momento, depois rosnou
novamente.
– Bem, sim, tenho certeza de que soa mais fácil do que realmente é — falou
Han. - Se resumirmos, tudo que nós fazemos é transportar carga de um lugar
para outro.
Chewbacca grunhiu.

– Certo — admitiu Han. - Sem sermos capturados.


O sujeito corpulento estava longe demais do outro lado do campo de pouso do
espaçoporto para Han conseguir ouvir o que ele dizia. Porém, pelo jeito que
agitava os braços ao encarar o Rodiano durante metade da conversa, ele não
estava contente.
A julgar pela maneira como a mão de escamas verdes do Rodiano estava
apoiada na coronha da arma de raios no coldre, também não parecia que ele
estava muito contente.
Ao lado de Han, Chewbacca grunhiu uma pergunta.
– Porque nós precisamos de um testa de ferro - respondeu Han.
— Alguém que saiba contar uma boa história e fazer o ouvinte acreditar. —
Ele apontou com a cabeça para a dupla que discutia. - Dozer tem a presença, a
confiança, e até um pouco de sotaque corelliano.
Chewbacca rosnou uma objeção.
– Sim, mas mafioso é o visual que procuramos - lembrou Han.
— Ele é um pouco rústico, mas dá para passar como alguém que progrediu
nas fileiras. Além disso, nenhuma de minhas outras escolhas estava disponível.
Chewbacca rosnou novamente.
Han manteve a calma. Será que Chewie nunca abandonaria o assunto?
– Claro que Lando provavelmente faria melhor — disse ele com paciência
forçada. - E não, não vamos chamá-lo. Fim de papo. - Han olhou feio para a
expressão teimosa do Wookiee. — E estou falando sério quando digo fim de
papo. Entendeu?
Com a cara amarrada, Chewbacca resmungou uma afirmativa emburrada. Han
voltou a atenção para a conversa distante e, pelo visto, cada vez mais turbulenta.
A parte realmente irritante era que Chewbacca estava certo. Lando Calrissian
seria o testa de ferro perfeito para o esquema que ele tinha em mente - não tinha
sotaque corelliano, mas era mais afável e urbano do que Dozer Creed
conseguiria ser mesmo nos seus melhores dias. Porém, depois do incidente em
Ylesia, Lando disse categoricamente para Han que nunca mais queria vê-lo outra
vez. O fiasco com a estátua de Yavin Vassilika não fez nada além de aumentar a
animosidade.
Talvez Lando se acalmasse com o passar do tempo. Talvez não. Apenas o
tempo diria, e Han não estava com pressa para descobrir.
A conversa do outro lado do campo de pouso estava ficando mais alta. Han
viu Dozer balançar freneticamente os braços e se perguntou se era hora de ele e
Chewbacca intervirem. Se qualquer uma das partes decidisse tornar a situação
mais séria ao sacar a arma, a coisa iria para o brejo em tempo recorde.
E então, de repente, a discussão acabou. O Rodiano entregou uma bolsinha
para Dozer, Dozer pegou uma pasta atrás de si e entregou para o Rodiano, e
ambos deram meia-volta e seguiram seus caminhos.
– Viu só? - falou Han gesticulando para o grandalhão. - Sem problema. Ele
resolveu a situação na lábia. Ande, vamos ver se ele está livre. - Ele começou a
ir na direção de Dozer...
E parou imediatamente quando sentiu algo duro lhe cutucar as costas.
– Não se vire - disse uma voz em tom baixo atrás dele, só para o caso de o
cano da arma de raios não ter sido mensagem suficiente.
Han parou e soltou um breve suspiro. Ele deveria ter imaginado que não seria
tão simples assim.
– Calma - ele tranquilizou o homem atrás dele enquanto lentamente afastava
as mãos da lateral do corpo. — Estamos apenas passando.
– Talvez - respondeu o sujeito. - É assim que vamos fazer. Vamos esperar,
bem quietinhos, até que aquele ladrão filho de um Ranat venha aqui. E nem
pense em tentar alertá-lo.
– Ei, sem problemas — assegurou Han. Do outro lado do campo de pouso,
Dozer tinha visto os visitantes e mudado de direção até eles. - O que acontece
então?
– Então ele devolve a minha nave - disse o homem. - Ou eu o mato.
– Justo — falou Han, examinando a expressão de Dozer. Este, por sua vez,
observava Han e Chewbacca (mais Chewbacca, na verdade) com o cenho
ligeiramente franzido. Mas era uma expressão curiosa, sem susto ou
desconfiança misturados.
O que significava que ele não tinha notado o pistoleiro atrás dos dois.
– Tem certeza de que ele é o cara que fez seja lá o que for com sua nave? -
perguntou Han prestando atenção.
– Se eu fosse você, não faria muitas perguntas - aconselhou o homem. - Se eu
tiver a mínima suspeita de que você está trabalhando com ele, talvez você não
saia vivo dessa.
– É, saquei - rosnou Han. Ele estava certo: a voz com certeza vinha da
esquerda e de alguns centímetros acima da orelha. O que
significava que o homem era alto demais para estar se escondendo
atrás de Han.
O que significava que ele estava se escondendo atrás de Chewbacca.
– E pega leve nas ameaças, ok? — continuou Han. — O Wookiee tem um
coração fraco, e empolgação não faz bem para ele. Muito agito e ele pode ter um
ataque.
– Sei, sei — disse o homem com sarcasmo. - Eu ouço falar sobre Wookiees
com problemas no coração o tempo todo.
– Não estou brincando - insistiu Han. - Ele teve febre seumádica quando era
criança. - Ele ergueu o braço e tocou no de Chewbacca. - Você está bem?
Chewbacca deu um trilado melancólico e balançou um pouco o corpo. Ótimo
- ele tinha sacado o plano.
– Aguente firme, parceiro, aguente firme — encorajou Han. - Eu posso pelo
menos dar o remédio para ele? - Sem esperar pela resposta, Han enfiou a mão no
bolso lateral do colete.
E parou quando a arma de raios outra vez cutucou as costas.
– Mãos nas laterais — disparou o homem. - Você, Wookiee, parado. Droga,
fique parado!
– Ele não consegue evitar - falou Han enquanto apertava o braço de
Chewbacca com força. O Wookiee realmente estava entrando no papel, se
balançando como uma tenda em um furacão. Se Han não soubesse, teria jurado
que o companheiro estava à beira de um colapso.
O agressor também pensou assim. Han ouviu o homem dando vazão à
frustração ansiosa com xingamentos enquanto seu escudo ambulante ameaçava
se mover o suficiente, para um lado ou para o outro, a ponto de revelá-lo para
Dozer. Han ouviu o leve arrastar de botas no permacreto conforme o sujeito
tentava acompanhar os movimentos de Chewbacca.
E com a atenção total do pistoleiro voltada para se manter escondido, Han
virou meio corpo, girou o braço esquerdo para trás a fim de desviar a arma de
raios e enfiou o punho direito na barriga do homem.
Com uma tosse agonizante, o pistoleiro dobrou o corpo e caiu de joelhos.
Chewbacca deu meia-volta, pegou o outro braço do agressor e imobilizou o
homem enquanto Han arrancava a arma de raios da mão frouxa. Ele era muito
mais jovem do que Han imaginara, apesar da altura. Não muito mais velho do
que Luke, com muito do mesmo ar de inocência deslumbrada.
– Quer explicar isso aqui? — perguntou Han brandamente ao erguer a arma de
raios diante dos olhos do moleque.
Ele olhou feio, mas permaneceu calado.
– Vamos tentar de novo - sugeriu Han. Ele mudou a pegada na arma de raios a
fim de apontá-la para o rosto do moleque. — Você acabou de sacar uma arma
para dois completos estranhos. Eu quero saber o motivo.
– Ora, ora. — A voz confusa surgiu por trás de Han. Ele deu meia-volta,
tenso, e depois relaxou ao ver que era apenas Dozer, que vinha calmamente na
direção deles. O grandalhão estava com a mão na coronha da arma de raios, mas
não fazia menção de sacar. - O que temos aqui?
– Temos alguém que não está muito contente com você — respondeu Han. -
Ele está muito engasgado para explicar. Quer tentar?
Dozer sacudiu a cabeça com tristeza.
– Jephster, Jephster - ele ralhou com o moleque. - Eu já lhe disse: sua nave
está no Quadrante Norte.
– Eu procurei - falou o moleque a duras penas; as palavras saíram com um
esforço óbvio. - Doca 62, exatamente como você disse.
– Sessenta e dois? — Dozer suspirou exageradamente. — Jephster, eu disse
72. Setenta e dois.
O moleque ergueu os olhos, com uma expressão aflita no rosto.
– Setenta e dois? - repetiu com a voz fraca.
– Setenta e dois - falou Dozer com firmeza. — Sinto muito; eu realmente
achei que você tinha ouvido corretamente. Mas está tudo bem, não é? - Ele
puxou o comlink. - Tenho uma sugestão: eu ligarei para o supervisor do portão,
direi que você se confundiu e pedirei que ele confirme para você. Certo?
– Não - disse o moleque rapidamente enquanto se esforçava para se levantar.
— Não, tudo bem. Eu simplesmente vou lá e... encontro a nave sozinho. - Ele
olhou para Han e acrescentou: - Foi mal.
– Dá próxima vez, tente saber o que está fazendo antes de começar a apontar
sua arma por aí - alertou Han ao virá-la e recolocá-la no coldre do moleque. -
Outras pessoas não se preocupam em fazer perguntas antes de começar a atirar.
– É - sibilou o moleque. - Foi mal. - Ele acenou debilmente com a cabeça, deu
meia-volta e foi embora mancando.
Dozer esperou até que o moleque não pudesse escutar.
– Belo serviço - murmurou ele. - Essa situação podia ter ficado feia. É Solo,
certo?
– Sou eu - confirmou Han. - Já nos esqueceu?
– Ah, eu nunca esqueço um rosto - assegurou ele. - Só tenho problemas em
associá-los aos nomes corretos. O que o traz a este canto da galáxia?
– Eu tenho um serviço - falou Han. - Não é contrabando desta vez. Mais no
sentido de um assalto a uma caixa-forte.
– Sério? — disse Dozer. — E então, você precisa de uma nave ou duas para o
esquema? - Ele gesticulou para o campo em volta. - Tudo que você vir aqui, eu
posso roubar para você.
– Eu estava mais pensando em ter você como testa de ferro - explicou Han. —
Você tem a presença e a lábia que precisamos.
– Ah... então há algum golpe envolvido também? — perguntou Dozer. -
Interessante. Estou dentro.
Han franziu o cenho.
– Não quer ouvir sobre a recompensa primeiro?
– Você não teria vindo até aqui se não fosse decente — ressaltou Dozer. O
olhar pulou para o moleque. - Além disso, sair dessa rocha por um tempo
provavelmente seria uma boa ideia.
– Provavelmente — concordou Han. - Imagino que você já tenha vendido a
nave dele?
– Na verdade, nunca foi dele para início de conversa - admitiu Dozer. — Eu
considero que minha margem de lucro é muito mais satisfatória quando consigo
vender a mesma mercadoria duas vezes.
– Mais fácil fazer isso na sua profissão do que na minha - disse Han. - Só por
curiosidade, o que teria feito se ele tivesse deixado você falar com o supervisor
do portão?
– E deixar que as pessoas soubessem que ele foi suficientemente estúpido para
apontar armas para completos estranhos após ter ouvido errado um número? -
Dozer balançou a cabeça. — Sem chance. Jovens da idade dele não medem
esforços para evitar passar vergonha.
– Sorte sua.
Dozer deu de ombros.
– Vocè já estava com a arma de raios dele — ressaltou Dozer. — Ainda assim,
como creio que um grande poeta tenha dito uma vez, a discrição é a base de uma
existência prolongada. Estou pronto assim que você estiver.
– Otimo - falou Han, gesticulando para outra parte do campo.
– A Falcon é por ali. A não ser que você prefira levar sua própria nave.
– Na verdade, eu nunca tive uma nave própria — falou Dozer. — Os custos de
manutenção são caros demais.
– Pois é - disse Han com pesar. - Ande, vamos sair do sol antes que o moleque
volte.
CAPÍTULO

Eanjer estava esperando na baia do Espaçoporto da Cidade de Iltarr enquanto


Han, Chewie, Zerba e Dozer saíam em fila da Falcon. Han cuidou das
apresentações e, embora Eanjer tenha sido suficientemente educado, Han teve a
nítida impressão de que ele ficou um pouco assustado com o tamanho do grupo.
Possivelmente estava começando a imaginar quantas vezes a pilha de créditos
seria dividida antes que ele ficasse com uma parte para si.
Felizmente, caso ele estivesse ou não esperando uma galera, Eanjer tinha
vindo preparado. Em vez do landspeeder padrão de quatro lugares, ele trouxera
uma speeder van de dez passageiros.
– O restante do pessoal está aqui? - perguntou Han.
Ele torceu um pouco o rosto quando Eanjer manobrou para fora do
estacionamento e entrou na rua lotada. Han ainda não sabia se Eanjer enxergava
pelo olho prostético, e dirigir no trânsito de uma cidade com só uma mão já era
complicado com tudo a
a favor. Mas ele foi direto para o banco do motorista no momento
em que eles chegaram ao veículo, e Han ainda não tinha pensado
em um jeito diplomático de tirá-lo de lá.
– Não faço ideia — respondeu Eanjer —, uma vez que não sei quem mais
viria. Até agora temos três: Rachele, mais o rapaz e a mulher que Mazzic
mandou. Ah, e as gêmeas... Bink e uma outra? Elas chegaram assim que eu
estava saindo para pegar vocês.
– O nome da irmã de Bink é Tavia - disse Han.
– Isso... Tavia - falou Eanjer concordando com a cabeça. - Então isso é tudo?
– É - tranquilizou Han observando o trânsito. Rachele havia alertado que, com
a cidade ficando lotada para o Festival das Quatro Honrarias, ela talvez tivesse
dificuldade em arrumar acomodações. - Então, Rachele conseguiu arrumar um
quarto para nós?
– Sim. — Eanjer deu um sorriso tímido. — E não.
Realmente Rachele não tinha conseguido arrumar um quarto para eles.
Ela arrumou uma enorme suite de dois andares.
– Estou impressionado — comentou Dozer, olhando de um lado para o outro
para vários elementos da decoração enquanto Rachele apresentava a suite. Um
dos ambientes tinha vários tons de marrom, com piso de tábuas corridas,
cadeiras ajustáveis e reclináveis em volta de uma mesa de tampo de vidro,
equipada com um holovídeo. Outro cômodo era decorado em azul-claro, com
uma mesa de jogos redonda, um bar e quadros do piso ao teto. - E Han pode
confirmar que isso não é fácil. Eu sou capaz de roubar naves o dia inteiro. Mas
como, pelo Império, você rouba imóveis?
Rachele deu de ombros.
– Não é difícil quando se sabe.
– Isso não me diz nada - falou Dozer.
– Não era para dizer - assegurou Rachele.
Dozer inclinou a cabeça.
– Justo.
– Bink e Tavia chegaram há mais ou menos duas horas - disse Rachele
enquanto conduzia o grupo para uma escada em espiral larga que levava ao
andar de cima. - Estão desfazendo as malas e arrumando o equipamento em um
dos quartos. O pessoal de Mazzic está aqui desde ontem.
– Foi Mazzic quem os trouxe pessoalmente? - perguntou Han.
– Na verdade, ninguém os trouxe; eles vieram em voo comercial. - Ela deu um
leve sorriso. — Podemos jogar cubos de risco para ver quem de nós dará carona
para eles quando for a hora de partir. Vamos, o pessoal de Mazzic está na sala de
estar do andar de cima. Eu vou apresentá-los.
Rachele começou a subir as escadas. Han foi atrás, mentalmente balançando a
cabeça. Não era apenas uma suite, mas uma com visão da Mansão Marblewood
de Villachor.
A loucura, na verdade, era que aquilo era apenas um hobby para Rachele, algo
que ela fazia como favor para amigos ou para se divertir. Se um dia Rachele
decidisse desistir da vida normal e investir na carreira criminosa, o Império
jamais seria o mesmo.
Dado o tipo de gente que Mazzic costumava contratar, o homem e a mulher
que conversavam tranquilamente em volta de um datapad foram uma certa
surpresa. Por um lado, eles eram mais jovens do que Han esperava, não tinham
mais do que uns vinte anos, possivelmente menos. Por outro, nenhum tinha
expressões e olhares desconfiados e embrutecidos, como a maioria dos
criminosos com quem Han tinha esbarrado ao longo dos anos. Seja lá como for
que passaram a trabalhar para Mazzic, os dois provavelmente não faziam isso
por causa de berço ou por obrigação.
– Você deve ser Han - falou a mulher conforme o grupo surgia na escada atrás
dele e de Rachele. Apesar da juventude, o cabelo tinha um tom branco quase
reluzente, e Han imaginou se era natural ou artificial. - Meu nome é Winter.
– Winter de quê? - perguntou Zerba.
A mulher disparou um olhar para ele e respondeu:
– Apenas Winter.
– Ela está certa - concordou Han antes que mais alguém falasse.
– Vamos nos ater a prenomes de agora em diante. É mais seguro assim. Estes
são Chewie e Rachele, Zerba e Dozer. Rachele disse que vocês já conheceram
Bink e Tavia.
– A ladra-fantasma e sua irmã - disse Winter concordando com a cabeça. -
Sim, conhecemos. Um par impressionantemente idêntico.
– Eles também conheceram nosso contratante - acrescentou Rachele.
– Otimo. — Han gesticulou para o moleque sentado ao lado de Winter. - E
você?
Han não conseguiu identificar se o moleque estava encarando o restante do
grupo com fascinação ou repulsa. Agora, subitamente trazido ao centro das
atenções, ele pareceu voltar à realidade e respondeu:
– Sou Kell.
– E o que você faz...? — perguntou Dozer.
Kell franziu a testa.
– O que eu faço? - repetiu ele.
– Qual é a sua especialidade? - explicou Dozer. — O que você faz que o torna
digno de estar aqui entre toda essa grandeza? — Ele gesticulou para o ambiente.
– Ah - disse Kell com a expressão voltando ao normal. Ele ficava facilmente
perplexo, decidiu Han, mas se recuperava igualmente rápido. - Eu sou muito
bom com explosivos: fazer, instalar, disparar. Entendo muito de droides também.
– É claro — falou Dozer secamente. - Conhecimento de droides é essencial
para qualquer bom roubo.
– Na verdade, neste caso, é sim - concordou Rachele. - A segurança da caixa-
forte de Villachor inclui um conjunto de droides de guarda.
– Ah — disse Dozer meio impressionado. Porém, como Kell, ele se
recuperava rápido. - Bem, isso é bom saber. E quanto a você, Winter?
– Eu sei muito sobre sistemas de segurança - respondeu ela. - Também tenho
um bom olho para detalhes.
Kell deu um risinho irónico.
– Um olho e um cérebro — disse ele. - Winter se lembra de tudo que vê ou
escuta. Tudo.
– Isso pode vir a calhar - comentou Han observando Winter. Ele tinha ouvido
falar de pessoas com esse tipo de memória, mas eram raras.
– Já veio a calhar - falou Rachele. - Andamos observando a mansão de
Villachor... - Ela interrompeu quando uma campainha suave tocou do outro lado
do cômodo. - Ah, ótimo, ele chegou — disse Rachele ao correr para a porta.
Han franziu a testa enquanto fazia uma conta mental. Ele e Chewbacca, Zerba
e Dozer, Kell e Winter e Rachele, com Bink, Tavia e Eanjer em outro lugar
qualquer na suite. Aqueles eram todos os convidados.
Então quem Rachele esperava?
Ele deu meia-volta e desceu a mão à arma de raios. Rachele chegou à porta e
abriu.
E, passando por ela como se fosse o dono do lugar, veio Lando Calrissian.
– Olá, todo mundo - disse ele dando aquele seu sorriso fácil enquanto
observava o ambiente. O olhar passou por Han e rapidamente se desviou. - Então
que serviço é esse, exatamente?

Han levou um segundo para recuperar a voz.


– Rachele, posso falar com você um minuto? - perguntou ele, forçando um
tom casual à voz.
Com o cenho levemente franzido, ela concordou com a cabeça e foi para uma
alcova na lateral, que havia sido decorada como um escritório. Han foi atrás,
ouvindo sem prestar atenção enquanto Lando e os demais começaram a rever os
conhecidos ou a se apresentar, conforme a necessidade.
Rachele parou assim que entrou no escritório e deu meia-volta.
– Sim?
– O que ele está fazendo aqui? - Han exigiu saber em voz baixa.
Rachele franziu mais a testa.
– Você me disse para convidá-lo.
Han encarou Rachele.
– Quando?
– Eu recebi a mensagem há três dias — respondeu ela, com um tom de voz
subitamente mecânico quando finalmente entendeu a situação, com atraso. -
Logo depois de você ter mandado a mensagem de que pegou Bink e Tavia. -
Rachele fez uma cara feia.
— Você não mandou, não é?
Han suspirou. Chewbacca. Ou mesmo Bink — ela sempre tivera uma queda
por Lando. Talvez até mesmo Mazzic, que imaginou que emprestar Winter e
Kell lhe daria o direito de ajudar com o restante da lista de convidados.
– Não, não mandei - falou Han. - Por acaso mencionei que ele me odeia?
– Acho que ele não odeia - disse Rachele. - Não de verdade. Lando me disse
que andou pensando, que talvez o que aconteceu não tenha sido completamente
culpa sua.
– Completamente? — retrucou Han sentindo a raiva crescer dentro de si. Nem
um único micrograma de qualquer um daqueles fiascos tinha sido culpa dele. -
Beleza. Que bom que não precisamos dele. Você o trouxe, então pode voltar lá
dentro e dizer para ele...
– Lando precisa dos créditos — falou Rachele rapidamente.
Han deu um muxoxo de desdém.
– Lando sempre precisa de créditos.
– Estou falando sério - disse ela. - Acho que desta vez ele está genuinamente
desesperado.
Suficientemente desesperado para até mesmo trabalhar com um homem que
odiava? Han se virou e olhou para o grupo, ainda no meio de um papo amigável.
Se Lando estava desesperado, com certeza não demonstrava pela expressão.
Por outro lado, ele nunca demonstrava. Se havia uma coisa em que Lando era
bom, era esconder sejam lá quais segredos sombrios se agitavam dentro dele. Era
justamente isso o que o tornava um apostador e golpista tão bom - e tão irritante.
E, como Han admitiu relutantemente, era o motivo de Lando ser um testa de
ferro tão bom para o serviço. Bem melhor do que Dozer.
– Você pode tirar o pagamento de Lando da minha parte - ofereceu Rachele.
— Como você disse, ele está aqui por minha causa.
Por um momento, Han ficou tentado. Mas não era realmente culpa de
Rachele.
Além disso, se o roubo desse certo, haveria muito para distribuir.
– Não - disse Han. - O que quer que a gente consiga, nós dividiremos
igualmente. Foi esse o acordo. — Ele respirou fundo. - Você ia dizer alguma
coisa sobre a mansão de Villachor?
– Sim - falou Rachele, e Han notou o alívio na voz dela. Aquela tinha sido
uma situação muito embaraçosa para Rachele. - Ele andou recebendo visitas...
– Não conte para mim — interrompeu Han. Ele colocou a mão nas costas de
Rachele para delicadamente levá-la de volta à sala de estar. - Conte para todo
mundo.
Levou um minuto para as conversas serem interrompidas e todo mundo se
sentar, e mais dois minutos para chamar Bink, Tavia e Eanjer de outras
extremidades da suite.
– Como eu comecei a dizer antes - falou Rachele quando todo mundo estava
finalmente reunido -, Winter, Kell e eu andamos observando o movimento de
veículos entrando e saindo do terreno de Villachor, e notamos um padrão
interessante. Primeiro, um grupo de três landspeeders pesados entra pelo portão
oeste e todos eles estacionam na entrada privativa da ala sul. Uma pessoa sai de
um dos veículos, que parece ser aleatório, e entra.
– Você sabe dizer quem é? — perguntou Dozer.
– Quem ou o quê? - acrescentou Bink.
– Ele era humanoide, mas foi tudo que conseguimos saber — disse Kell. - O
toldo da entrada está sempre esticado, e o landspeeder passou bem embaixo dele.
Tudo que conseguimos enxergar deste ângulo foram sombras, e elas não foram
suficientemente nítidas para vermos além da silhueta básica.
– Dá para usar um sensor de pulso? - sugeriu Tavia. - Se o toldo for fino o
bastante, isso pode nos dar uma visão melhor.
– Sensores de pulso são rastreáveis - disse Dozer. — Não queremos que
Villachor nos rastreie até aqui.
– Estamos bem longe, e no meio de arranha-céus - argumentou Tavia. - Desde
que o pulso seja curto, as chances de ele nos descobrir são mínimas.
– Não importa, porque sensores de pulso não vão funcionar - explicou Winter.
— Marblewood tem um escudo abrangente que se estende até um pouco acima
do muro externo. Se turbolasers não conseguem penetrar, sensores de pulso
certamente não conseguirão.
Dozer abanou a mão.
– Claro que não conseguirão — disse ele em tom de desculpas. - Foi mal, eu
deveria ter calculado que Villachor teria algo do tipo instalado. - Dozer acenou
com a cabeça para Rachele. - Por favor, continue.
– Dez a trinta minutos depois de esses landspeeders chegarem, outro surge,
cada vez é um landspeeder diferente - falou Rachele. - Uma única pessoa sai e
passa pela entrada principal. Esses visitantes nós vimos bem, e até agora têm
sido sempre autoridades importantes ligadas ao governo, à indústria ou ao
mercado financeiro. Cerca de uma hora depois, aquele visitante sai e vai embora
dirigindo. Dez ou quinze minutos depois, o passageiro do outro landspeeder sai
pela entrada privativa, e o comboio também vai embora.
– Isso vem acontecendo três a quatro vezes por dia - acrescentou Kell. —
Geralmente ocorre uma visita de manhã cedo, depois outra por volta do meio-
dia, uma à noite, e em uma ocasião houve uma visita logo antes da meia-noite.
– O ponto interessante é que sempre são os mesmos três landspeeders - disse
Winter. - Os identificadores são diferentes, mas os landspeeders são os mesmos.
– Assim como os passageiros, estamos presumindo - falou Rachele.
– Como você sabe que são os mesmos landspeeders? - perguntou Zerba.
– Eles têm os mesmos pequenos arranhões, mossas e outras marcas -
respondeu Winter.
– Tem certeza? — indagou Dozer.
– Muita certeza - disse Winter. - Rachele tem bons eletrobinóculos, e esses
detalhes ficaram claramente aparentes.
– Parece que Villachor está sendo o anfitrião de uma série de reuniões —
sugeriu Bink.
– Ele está tentando encontrar um sheer para roubar meus créditos - disse
Eanjer em tom sombrio. - Provavelmente trouxe alguém de fora do planeta que
tirou vantagem das multidões do Festival para entrar escondido na cidade. Se
não chegarmos lá rápido, vamos perder tudo.
– Calma - tranquilizou Bink. — Correr antes de estar pronto é uma receita
para o desastre. Além disso, se o visitante é o slicer pessoal de Villachor, por que
ele não está hospedado na mansão em vez de ficar indo e voltando?
– E por que o desfile de autoridades locais indo vê-lo? - acrescentou Tavia. -
Não, tem alguma coisa acontecendo.
– Como essas autoridades parecem quando saem? - perguntou Lando. -
Felizes, furiosas, deprimidas?
Winter e Kell se entreolharam.
– Nada, na verdade - respondeu Kell. - Elas parecem apenas... sei lá, normais.
– Você disse que geralmente há uma visita no meio do dia? - indagou Lando,
enquanto se levantava e ia à janela. - De que direção eles vêm?
– Noroeste, geralmente - falou Winter, que se levantou e ficou ao lado dele. —
Eles surgem em uma daquelas ruas ali, depois prosseguem pela avenida larga
que acompanha o muro externo e entram naquele portão, que fica na
extremidade sudoeste.
– E saem pelo mesmo lugar?
– Saem pelo mesmo portão, mas tomam várias rotas a fim de voltar para onde
eles vão no fim das contas, seja lá onde for.
– Já tentou segui-los? — perguntou Han.
– Não achei que fosse seguro - disse Rachele. - Creio que eles tenham alguém
dando cobertura, e nós precisamos ter mais do que apenas alguns rastreadores se
formos segui-los sem sermos vistos.
– Bem, temos um grupo com um tamanho decente agora — falou Han indo à
cadeira ao lado de Bink e Tavia e se sentando. — Winter, fique de olho: veja se
eles mantêm o cronograma de sempre. O resto de vocês, venham aqui e vamos
ver o que Rachele descobriu sobre a casa de Villachor.
– Vai ser uma demonstração curta, infelizmente - disse Rachele conforme os
demais voltavam à sala de estar e se sentavam.
Han achou graça ao notar que Lando se dirigia ao assento entre Bink e Tavia,
até que Tavia percebeu e foi depressa na direção da irmã para fechar o espaço.
Lando nem hesitou, simplesmente mudou de direção e, em vez disso, se sentou
ao lado de Zerba.
– Vamos ao básico - falou Rachele quando todo mundo estava sentado. Ela fez
alguma coisa no datapad, e uma grande planta de vários andares apareceu no ar
sobre o holoprojetor. - A mansão de Villachor foi construída originalmente há
150 anos como o novo lar do governador do setor. Vocês notarão o leve formato
aurek do prédio: alas norte e sul retas voltadas para o oeste, com alas nordeste e
sudoeste brotando do centro atrás delas.
– Deixe-me adivinhar - disse Dozer. - O nome do governador começava com
essa letra?
– O nome da esposa, na verdade - explicou Rachele. — A sede do governo foi
transferida novamente oitenta anos depois, e a mansão passou por uma série de
proprietários até Villachor comprá-la há onze anos.
– Essa planta está atualizada? — perguntou Bink.
– Em grande parte — falou Rachele. - Até onde eu sei, nenhum dos antigos
proprietários fez algo drástico no prédio. A maior renovação foram essas
clarabóias sobre o átrio e as alas, que foram instaladas há cinquenta anos. Mas
nada da estrutura básica ou do desenho foi mudado até Villachor assumir o lugar.
— Ela acionou o datapad novamente, e a imagem deu zoom para um salão no
térreo na extremidade sul da ala sul da construção. — Esse é o salão de baile
menor. A primeira e maior renovação de Villachor foi transformá-lo em sua
caixa-forte.
Lando assobiou baixinho.
– O que ele guarda ali, pequenas espaçonaves?
– Pelo que eu sei, a maior parte ainda é tomada por espaço vazio
– respondeu Rachele. - Sabemos que ele blindou as paredes e o teto de alguma
forma. Não tanto assim; eu examinei antigos pedidos de material e creio que não
haja mais do que 4 ou 5 centímetros de blindagem de casco de espaçonave de
guerra no lugar. Nada desprezível, mas nem tão ruim quanto poderia ser.
Infelizmente, a caixa-forte inteira também é selada magneticamente, e
provavelmente há uma camada ou duas de defletor de sensores.
– Você disse que a blindagem é apenas nas paredes e no teto? - perguntou
Dozer. - Nada no piso?
– Pode haver algo ali embaixo também - falou Rachele. - Mas uma vez que
toda a ala sul fica em cima de 10 metros de rocha sólida, duvido que Villachor
tenha se dado ao trabalho.
– As paredes não devem ser um problema — disse Zerba, pensativo com um
dedo cutucando o lábio inferior. — Mesmo com sua melhor estimativa, não deve
levar mais do que alguns minutos para eu abrir uma porta para nós.
– Mesmo com selagem magnética? — perguntou Kell.
Zerba concordou com a cabeça.
– Não deve ser um problema.
– O que pode ser um problema é se a blindagem tiver uma armadilha de mel
— alertou Bink. — Mesmo algo tão fino assim tem muita espessura para se
trabalhar.
– O que é uma armadilha de mel? — indagou Eanjer.
– Uma armadilha parecida com favos de mel — explicou Bink. — A pessoa
coloca favos de explosivos, ácido ou gás venenoso pressurizado dentro das
paredes, para que quem estivesse atrás de um maçarico tivesse uma supresa
mortal no meio do caminho.
– É a última moda entre a classe alta de chefões do crime paranoicos -
acrescentou Dozer secamente. - E quanto a isso, Kell? Tem experiência com
essas armadilhas? Ou simplesmente explode as coisas e deixa que os outros
desarmem?
– Não, eu consigo fazer as duas coisas - disse Kell com a testa franzida,
pensando. - Eu provavelmente dou conta de quaisquer armadilhas explosivas que
nós encontrarmos, desde que Zerba não as dispare antes de eu chegar lá. — Ele
franziu o nariz. — Não tenho tanta certeza sobre o ácido e o gás, porém.
– Na verdade, eu duvido que as paredes sejam nosso maior problema - falou
Rachele. - Parece que o que Villachor tem dentro da sala é que será o verdadeiro
desafio.
– E o que seria isso exatamente? - perguntou Lando.
Rachele fez uma careta.
– Este é o problema - admitiu ela. - Ninguém sabe. Pelo menos, ninguém com
quem consegui falar.
Houve um momento de silêncio.
– Sem problema — disse Han. - Isso apenas significa que o primeiro trabalho
é colocar alguém lá dentro para dar uma olhada.
– Sim — falou Rachele vagamente. — Só que ninguém pode entrar ali. Há
guardas de prontidão nas portas da caixa-forte o tempo todo, armados e de
armadura, e Villachor é o único que eles deixam entrar.
– Ou Villachor e um amigo — disse Han. — A segurança tem que estar
programada para que ele possa entrar com outra pessoa, caso queira.
– Só há uma maneira de descobrir - falou Dozer. - Qual de nós vai ser o novo
melhor amigo de Villachor?
– Sem discussão — disse Lando, sorrindo para as gêmeas. - Eu indico Bink.
– Ora, muito obrigada, senhor - respondeu Bink sorrindo com doçura para ele.
- Eu simplesmente amo fazer novos amigos.
– Vocês realmente acham que Villachor vai cair nessa? - perguntou Eanjer,
parecendo confuso.
– Tenho certeza de que não cairá — falou Tavia duramente, combatendo o
sorriso de Lando com um olhar gelado. — Em vez disso, posso sugerir que
enviemos Zerba e seu sabre de luz para cortar um orifício na parede? Podemos
instalar um gravador e ver o que exatamente acontece lá dentro.
– Como iremos colocá-lo assim tão no interior da mansão? — indagou Kell
apontando para a planta. - Estou vendo o muro externo da mansão e outro no
interior antes de sequer chegar à caixa-forte.
Chewbacca rosnou.
– Chewie está certo - concordou Han. - Mesmo que a multidão que Villachor
está recebendo por causa do Festival não possa entrar na mansão, a segurança
deve estar mais sobrecarregada do que o normal. Nós encontraremos um buraco.
– Ou faremos um — falou Dozer.
Han concordou com a cabeça.
– Ou faremos um.
– Pelo menos, nós saberemos onde começar a procurar por esses buracos —
disse Rachele. — Marblewood tem sido um local do Festival pelos últimos seis
anos e recebido grande cobertura, tanto oficial quanto informal. Eu examinei
vários registros, e há muitas coisas que Villachor parece fazer da mesma forma
todo ano.
– Eu achei que o padrão e a ordem das Honrarias fosse sempre o mesmo, de
qualquer forma - observou Dozer.
– Estou falando dos detalhes - explicou Rachele. - Tipo onde ele posiciona as
tendas com comida, ou como veste todos os droides de serviço e manutenção
com capas temáticas para cada dia do Festival. Coisinhas assim.
– Padrões são bons - disse Lando. - Como no sabacc, quando alguém sempre
faz a mesma aposta...
Ele interrompeu quando, do outro lado da sala, Winter subitamente estalou os
dedos.
– Lá vêm eles - anunciou ela.
Houve uma agitação louca quando todo mundo pulou dos assentos e correu
para as janelas.
– Onde? - perguntou Zerba.
– Aqueles três landspeeders a dois quarteirões de distância - respondeu Winter
apontando. - Não, não faça isso — acrescentou ela quando Dozer começou a
abrir a porta que levava para o varandão. - Se alguém estiver observando,
ficaremos muito visíveis lá fora.
– Onde estão aqueles eletrobinóculos? - indagou Lando.
– Aqui. — Kell colocou um par de visores na mão dele. — Rachele?
– Vou pegar o outro - Rachele respondeu e saiu correndo.
A sala ficou em silêncio. Han observou os landspeeders enquanto eles
manobravam, passavam pelo portão e entravam no terreno de Villachor, e notou
que os veículos mal diminuíram a velocidade antes de os guardas acenarem para
que entrassem.
– Aqui — murmurou Rachele no ouvido dele.
– Obrigado. - Han pegou os eletrobinóculos e colocou nos olhos. Os
landspeeders eram ainda mais impressionantes de perto do que a distância:
pretos, de aparência pesada, obviamente blindados, com janelas escuras que
escondiam os passageiros.
– Equipado com foguetes de impulsão, ao que parece - murmurou Lando. -
Viu a blindagem reforçada na borda inferior?
– É, estou vendo - confirmou Han.
Os veículos podiam parecer landspeeders normais, porém, com foguetes
escondidos, eles poderiam se transformar em airspeeders instantaneamente, a
qualquer momento que quisessem.
– Então por que estão perdendo tempo com as ruas? — indagou Zerba. - Por
que simplesmente não chegar voando?
– As vias áreas da Cidade de Iltarr não são mais rápidas do que as terrestres -
explicou Rachele. - Além disso, eles teriam que vir pelo solo para entrar, de
qualquer maneira. O escudo abrangente, lembra?
– E se a pessoa é do tipo paranoico, é bom ter uma direção de onde não possa
levar tiros - acrescentou Lando.
Os veículos seguiram pela trilha entre a sebe, os arbustos e pequenas árvores e
finalmente pararam na entrada coberta, na ala sul da mansão. Han prendeu a
respiração, segurou os eletrobinóculos com a maior firmeza possível e se
perguntou se aquele seria o dia em que o misterioso visitante cometeria um erro.
Ele não cometeu. O toldo sobre a entrada bloqueou completamente a visão do
visitante quando ele saltou do landspeeder e entrou na mansão. E com a luz do
sol batendo praticamente de cima, não havia sequer as sombras provocantes que
Kell mencionara.
– Eles são malandros, com certeza — comentou Lando. - Quando você disse
que vem a próxima leva?
– Entre dez e trinta minutos — respondeu Winter.
– Então dá tempo suficiente para um lanche - concluiu Lando.
– Por acaso eu senti o cheiro de chips de carni e molho demiglacê vindo de
algum lugar?
– Sim - respondeu Eanjer, parecendo um pouco abalado pela súbita mudança
de assunto. - E também palitinhos de kamtro. Mas não deveríamos ficar vigiando
Marblewood?
– Eu estou observando — garantiu Lando, que se voltou para a janela. -
Winter, diga-me quando vir um provável landspeeder. Bink, pode fazer o favor
de trazer um pratinho daqueles chips de carni?
Bink deu um sorriso sardónico para Tavia. Elas conheciam Lando muito bem.
– Claro - respondeu Bink e foi para a cozinha.
Han começou a dar meia-volta e parou quando uma mão pegou seu braço.
– Uma palavrinha? - falou Dozer baixinho.
Eles se afastaram alguns metros dos outros.
– Algum problema? - indagou Han.
– Está mais para uma pergunta. - Dozer acenou com a cabeça na direção de
Lando, que puxara uma cadeira para a janela e se sentara. — Você me disse que
eu seria o testa de ferro neste esquema. Agora que Calrissian está aqui, eu
presumo que isso tenha mudado.
– Provavelmente - respondeu Han. - Mas não se preocupe: vai haver outras
coisas para você fazer.
– A-hã — concordou Dozer. — E a partilha?
– A mesma de antes — garantiu Han. - Todo mundo recebe a mesma parte.
Dozer franziu os lábios, e não foi difícil ler o cálculo que ocorria
por trás do olhar. As partes podiam ser distribuídas igualmente, mas uma
partilha igual entre onze ainda era menor do que uma partilha igual entre dez.
– Isso vai ser um problema? - pressionou Han.
Dozer abrandou a expressão.
– Não. Estava apenas pensando.
Com um pequeno aceno de cabeça, ele deu meia-volta e foi para o lugar onde
estavam Tavia e Rachele.
Houve um rosnado atrás dele, e Han se virou para ver Chewbacca parado ali.
– Você ouviu?
O Wookiee rosnou novamente.
– Ele vai ficar bem - tranquilizou Han. - Dozer não deixaria o orgulho
atrapalhar um serviço pago. Além disso, tenho certeza de que ele sabe que
Lando será um testa de ferro melhor do que ele.
Chewbacca soltou um último grunhido e se afastou.
– Ele vai ficar bem - murmurou Han para si mesmo ao se voltar na direção de
Dozer. - Confie em mim.

Dez minutos depois e na metade da primeira porção de chips de Lando, o


visitante esperado passou pelo portão e entrou nas dependências de Marblewood.
Han, que já tinha devolvido os eletrobinóculos para Winter, observava ao lado
enquanto mastigava mecanicamente um prato de palitinhos de kamtro. Alguma
coisa grande estava acontecendo lá, muito maior do que Eanjer e um lote de
fichas de crédito roubadas.
As duas grandes questões eram se eles conseguiriam descobrir o que Villachor
estava aprontando e se aquilo afetaria a operação.
Han tinha saído da janela e estava no canto, discutindo minúcias sobre
arrombamento com Bink, quando Lando deu um
assovio de alerta.
– Ele está saindo - informou Lando.
Novamente, houve uma breve confusão conforme o grupo se reunia nas
janelas. Han apertou os olhos, mas àquela distância, tudo que ele conseguiu
enxergar foi um homem descendo os degraus em direção ao landspeeder que
aguardava. O sujeito entrou, a porta se fechou, e o veículo deu meia-volta e
percorreu a trilha.
– Interessante - murmurou Lando ao abaixar os eletrobinóculos. — Aquele
homem acabou de perder alguma coisa.
– O que ele perdeu? - perguntou Dozer.
– Eu não sei - respondeu Lando. - Podem ter sido créditos, prestígio ou poder.
Mas as mudanças na expressão e linguagem corporal são muito claras. O que
quer que ele tenha perdido, era algo que queria manter.
– Não houve tempo suficiente para uma partida de alto risco de sabacc —
falou Zerba pensativo.
– Mas tempo suficiente para uma conversa séria - observou Han. —
Especialmente se um lado foi o que mais falou.
– Você acha que Villachor o ameaçou? — perguntou Tavia.
– Ou chantageou ou extorquiu - disse Dozer. — Essas são as três maneiras
principais de controlar alguém sem ter que gastar créditos para subornar a
pessoa.
Chewbacca emitiu uma pergunta.
– Não faço ideia — falou Winter. — Ele não estava no grupo de holos que
Rachele me deu.
– Só passei para ela as figuras do alto escalão da estrutura de poder da Cidade
de Iltarr — explicou Rachele.
– Talvez devamos descer um nível ou dois - sugeriu Zerba.
– Concordo - disse Rachele. - Eu verei o que posso arrumar.
– E enquanto você faz isso - falou Dozer —, vamos ver se conseguimos
descobrir quem é o outro visitante. Acho que temos agora gente suficiente para
uma sombra. Devo sair e arrumar alguns landspeeders para a gente?
– Não é necessário - disse Rachele. - Eanjer conseguiu descolar créditos
suficientes para arranjar alguns landspeeders alugados. Temos três deles lá
embaixo, mais a speeder van, e mais dois airspeeders no estacionamento do
telhado.
– Ótimo - falou Dozer. - Provavelmente está tarde demais para nos
posicionarmos antes que ele vá embora, então teremos que pegá-lo mais tarde,
hoje à noite.
– Presumindo que o drama ganhe uma reprise - disse Bink.
– Vai ganhar - garantiu Winter. - Essas pessoas gostam de pensar que são
espertas, mas curtem seguir padrões.
– Ótimo - disse Dozer. - Quem está a fim de dar uma voltinha?
– Você deve perguntar para Han - falou Eanjer. - Ele é que está no comando.
Dozer pestanejou, depois deu um sorriso sardónico.
– Claro que está - reconheceu ele ao se virar para Han e inclinar a cabeça. -
Desculpe. Muitos anos trabalhando sozinho. Então, quem vai?
Han olhou em volta e fez uma rápida avaliação.
– Você, Bink, Zerba e eu nos landspeeders — decidiu ele. — Lando e Chewie
coordenam do airspeeder.
– Parece bom - disse Dozer.
– Eu gostaria de ir junto também, se puder - falou Eanjer. - Quero ajudar. - Ele
olhou para a mão medselada. - Embora eu não tenha certeza de que conseguirei -
acrescentou desapontado.
Han hesitou. Eles tinham um monte de motivos para manter Eanjer feliz.
Cento e sessenta e três milhões de motivos, para ser exato.
Mas Eanjer era um elemento desconhecido, e Han não fazia ideia de como ele
reagiria em uma situação de crise. Se algo desse errado, uma pessoa em pânico
poderia fazer tudo ir para o brejo.
Para alívio de Han, Chewbacca acompanhou o mesmo raciocínio e já estava
cuidando do problema com uma sugestão diplomática.
– Boa ideia - disse Han. - Chewie diz que um par de olhos a mais seria útil no
airspeeder.
Dozer deu um pequeno muxoxo sarcástico.
– Um par de olhos?
– Eu quis dizer um observador a mais - corrigiu Han olhando feio para o
ladrão de naves. Eanjer tinha noção da desvantagem sem precisar que ninguém
chamasse atenção para o fato. - Você pode ir com ele e Lando, Eanjer.
– Obrigado - falou Eanjer. Ele encarou Dozer com uma pontada de fogo no
único olho. - E meu prostético atual funciona muito bem, obrigado - disse
friamente. - Eu planejo conseguir algo esteticamente mais agradável quando
recuperar meus créditos roubados e puder pagar para resolver o resto dos
ferimentos que Villachor me causou.
– Está resolvido então - falou Lando alegremente no que poderia ter sido o
começo de um longo e embaraçoso silêncio. - Chewie pilota, você e eu
observamos, e quando nos recolhermospara a noite, teremos resolvido esse
pequeno mistério. - Ele deu um sorriso radiante para a sala. - Enquanto
esperamos, alguém topa uma partida de sabacc?

O nome do sujeito era Crovendif, e ele se considerava um chefe do crime em


ascensão.
Ele não era, obviamente, e jamais seria. Na verdade, Crovendif dominou a
roupa e o estilo, e até fez o esforço de alterar o ritmo e o tom da voz para ser
igual aos notórios criminosos de holodramas. Mas o que ele não tinha era o olhar
vazio e a completa insensibilidade que Dayja frequentemente enxergava nos
humanos e alienígenas que ele dedicara a vida a derrotar.
Não, Crovendif era apenas um moleque perdido que se apaixonara pela ideia
de ser um chefe do crime, ou talvez tivesse encarado isso como o caminho para a
satisfação, a segurança e o respeito. Mais cedo ou mais tarde, esses sonhos mal-
acabados desapareceriam, e Crovendif aceitaria o fato de que gerente de asfalto
de um chefe do crime era tudo que ele seria na vida.
Tudo isso presumindo, obviamente, que Crovendif sobrevivesse aos próximos
minutos.
– Você vem lançando um desafio no meu território por quase duas semanas -
disse o aspirante a chefe do crime, em tom baixo e ameaçador, com a cabeça
levemente erguida de maneira a encarar o prisioneiro por cima do nariz.
Crovendif tinha até dominado o olhar de intimidação dos holodramas, Dayja
notou. - Me dê uma razão para eu não matá-lo aqui e agora.
– Eu não estou pretendendo tomar seu território - falou Dayja suavemente. -
Sinto muito se passei essa impressão.
A expressão de Crovendif se desmanchou, quase visivelmente.
Como esperava por fanfarronice e revolta da parte do prisioneiro, ele não
estava preparado para uma resposta calma e conciliatória.
– Sério? - falou ele com sarcasmo. - E que impressão eu deveria ter tido?
– Estou à procura de um sócio - explicou Dayja. - Eu tenho um produto que
vale muitos créditos. Mas não tenho tempo ou recursos para organizar a parte de
distribuição do negócio.
– E o que lhe faz pensar que eu estaria interessado em um negócio assim? -
desdenhou Crovendif.
– Não você - corrigiu Dayja. - Seu chefe. Eu tenho uma quantidade bem maior
de produto do que seus seis ou sete quarteirões conseguiriam dar conta.
Crovendif fechou a cara. Talvez ele tivesse tido uma breve esperança de que
aquilo seria sua passagem para a grandeza.
– Se você acha que vou incomodar mais alguém com uma história tão ridícula
assim...
– Ele vai querer uma amostra, é claro - continuou Dayja suavemente. - Posso?
Crovendif hesitou, depois acenou com a cabeça para os dois homens que no
momento prendiam os braços de Dayja.
– Esquerda - ordenou ele.
Em silêncio, o capanga à esquerda de Dayja soltou aquele braço. Dayja meteu
dois dedos no bolso lateral, retirou um pequeno frasco e jogou para Crovendif. O
outro o pegou com uma agilidade que indicava que ele começara como
esgrimista antes de entrar para o Sol Negro. Mais um motivo para Crovendif
provavelmente nunca ascender mais do que já havia ascendido.
– Brilhestim, obviamente — falou Dayja enquanto Crovendif examinava
atentamente o frasco. - Mas com uma diferença. O meu é artificial.
– Então não é brilhestim - disse Crovendif.
– Você tem razão - reconheceu Dayja inclinando a cabeça. - Eu me expressei
mal. O que eu deveria ter dito é que isso é brilhestim legítimo, criado por
legítimas aranhas de Kessel. Mas não por aranhas vivendo em Kessel no
momento.
Houve uma pausa enquanto Crovendif aparentemente analisava aquela
informação.
– Você tem aranhas aqui em Wukkar?
– Digamos que elas estão próximas e criando brilhestim neste exato momento
- falou Dayja. - O ponto é que eu posso fazer o produto por uma fração do que
custa fazer em Kessel, e isso nem leva em conta o valor mais baixo do
transporte.
– E você espera que eu simplesmente acredite em sua palavra sobre tudo isso?
– De maneira alguma - disse Dayja. - Leve o frasco para seu chefe, faça minha
oferta para ele e peça que realize alguns testes. Se ele estiver interessado, ótimo.
Caso contrário, não houve prejuízo; há muitos outros peixes no rio. De qualquer
maneira, ele pode ficar com a amostra, com meus cumprimentos.
– E se eu recusar?
– Você quer dizer se decidir ficar com o frasco, vender o produto e ganhar um
dinheirinho extra? - perguntou Dayja. - Se é o que quer fazer, eu certamente não
posso impedi-lo. Tudo que posso dizer é que você não é o único gerente de
asfalto de seu chefe. Se não quiser levar esta oportunidade para ele, tenho
certeza de que outra pessoa qualquer levará.
Por alguns segundos, Crovendif continuou encarando o prisioneiro, com o
cenho franzido como se considerasse as possibilidades e tomasse uma decisão.
Mas era tudo uma encenação. Dayja tinha convencido Crovendif, e ambos
sabiam disso.
– Muito bem - disse o sujeito finalmente, para oficializar a questão. - Como eu
encontro você para dar a resposta dele?
– Eu entrarei em contato. - Dayja indicou o capanga à direita com a cabeça. -
Agora, se não se importa...
Crovendif gesticulou de novo, e o homem que segurava o braço direito de
Dayja o soltou.
– Obrigado - disse Dayja. - Eu procuro você.
Ele estava sentado em um landspeeder genérico a meio quarteirão de distância
quando Crovendif e dois capangas saíram do quartel-general em um armazém e
entraram no próprio veículo. Dayja deu um quarteirão de vantagem para eles,
depois começou a seguir. Ele tinha 90% de certeza de que Crovendif estava
levando o frasco para o chefe e tinha ainda mais certeza de que o chefe era
Villachor. Mas nunca fazia mal verificar.
Não deu outra: Crovendif cruzou a Cidade de Iltarr até o portão sudoeste de
Marblewood. Não era a atitude mais inteligente se ele estivesse tentando
esconder sua associação, mas Dayja já concluíra que Crovendif não era a estrela
mais brilhante da galáxia.
Ainda assim, o objetivo era aguçar o interesse de Villachor, e desde que ele
pegasse o frasco de brilhestim, os detalhes da entrega não eram importantes.
Tudo que Dayja tinha que fazer agora era relaxar, esperar que os químicos do Sol
Negro analisassem o presente e depois aceitar o convite inevitável de Villachor
para uma reunião.
Uma vez dentro da mansão, obviamente, começariam os verdadeiros desafios.
Mas Dayja lidaria com eles quando surgissem.
Crovendif ainda estava sentado no portão, provavelmente tentando convencer
os guardas de que trabalhava para Villachor e de que o assunto era
suficientemente importante para pular a fila. Dayja passou dirigindo casualmente
e olhou por entre os vários airspeeders.
Ele parou, e o olhar voltou uma segunda vez para um landspeeder azul-escuro
estacionado logo no início de uma das ruas transversais. Ao contrário da maioria
dos veículos estacionados na área, aquele não estava vazio. Havia um homem no
banco do motorista, tentando parecer espontâneo.
E ele estava observando o portão sudoeste. Com muita atenção.
Dayja continuou passando sem diminuir a velocidade e virou na próxima
esquina. Provavelmente o homem era mais um dos guardas de Villachor, postado
ali como uma barreira, caso houvesse algum problema.
Mas ele não parecia ser o tipo de gente do Sol Negro. E a última coisa que
Dayja queria era que outra pessoa chamasse a atenção de Villachor.
Especialmente alguém de uma gangue rival.
E então, em vez de retornar ao hotel como havia planejado, ele achou uma
vaga onde pudesse ver o observador misterioso e se pôs a esperar. Se o homem
fosse um guarda, provavelmente haveria uma mudança de turno dentro de
algumas horas.
Se não fosse, Dayja não tinha intenção de permitir que uma guerra entre
gangues começasse. Não ali, e certamente não naquele momento.
Ele tirou o termojarro de chá de Karlini que sempre levava em passeios como
aquele, apenas por precaução, serviu uma caneca e se pôs a esperar.
CAPÍTULO

Oito minutos depois de o visitante do início da noite ir embora de


Marblewood, o agora conhecido comboio de três landspeeders também se
retirou. Han e seu landspeeder azul estavam logo atrás deles.
Ao lado de Lando, Chewbacca rugiu baixinho.
– Tenho certeza de que ele sabe - tranquilizou Lando enquanto estudava o
mapa da área que havia acessado no datapad. O comboio tinha ido para o sul, o
que significava que eles seguiam pela Avenida Packrist...
– O que ele sabe? - perguntou Eanjer do banco traseiro. — O que Chewie
disse?
– Ele estava alertando Han para não se aproximar demais — explicou Lando. -
Eu disse que Han já sabia disso.
– Ah - disse Eanjer parecendo nervoso. — Não deveríamos ir?
– Ir aonde?
– Seguir os landspeeders - falou Eanjer. - Eu achei que era por isso que
estávamos aqui em cima.
– Não, estamos aqui para ficar de olho no reforço deles — disse Lando,
ouvindo sem prestar atenção ao comentário em andamento transmitido pelo
comlink. Han havia interrompido a perseguição agora, exatamente como deveria
fazer, e Bink estava com o comboio em vista e se preparava para assumir a
sombra.
– Ah. Certo. — Houve um assobio baixo enquanto Eanjer se ajeitava no
assento. — Foi mal. Infelizmente esta não é minha especialidade.
– É por isso que você nos contratou — lembrou Lando pacientemente.
Ainda assim, se o homem tinha que estar em algum lugar, era melhor estar
estacionado ali com eles e fora do caminho.
O comboio fez a curva, e Bink assumiu a sombra, passou por eles e alertou
Zerba sobre a mudança de direção.
– Posso fazer uma pergunta? - indagou Eanjer.
Lando conteve um suspiro. Talvez ele devesse enviar Eanjer para a beirada do
telhado e mandá-lo observar o comboio de lá.
– Vá em frente.
– Por que você odeia Han?
Lando franziu o nariz quando a resposta óbvia surgiu na mente. Mas óbvia
não necessariamente significava correta.
– Eu não odeio Han - respondeu ele escolhendo as palavras cuidadosamente,
bem ciente de que Chewbacca escutava com atenção a meio metro de distância. -
Não exatamente. Houve um negócio, alguns negócios, em que ele acabou não
me pagando o que havia prometido.
– Não me parece correto - murmurou Eanjer. — Não admira que você o odeie.
– Eu não odeio Han - disse Lando irritado. - Eu já falei. Além disso, quanto
mais eu penso a respeito, mais considero que provavelmente não foi culpa dele.
Que Han foi enganado como o restante de nós. Mas isso não muda o fato de que
foi ele quem nos chamou e fez todas as grandes promessas. — Lando olhou de
lado para Chewbacca e imaginou como ele estava encarando aquela situação.
Mas o Wookiee olhava pela janela lateral, com o rosto virado. - Eu não odeio
Han, mas não quero mais trabalhar com ele– concluiu Lando. - Se ele não tivesse
pedido especificamente a minha presença para este serviço, eu não teria vindo.
– Entendo - falou Eanjer. - Bem, eu, por exemplo, estou contente que você
tenha vindo. Sei que será de grande ajuda para a equipe. E, pelo sim, pelo não,
sua parte na recompensa deve possibilitar que você jamais trabalhe com Han
novamente.
– Vou manter isso em mente - disse Lando, que afastou os pensamentos sobre
Han, promessas quebradas e futuras riquezas para concentrar a atenção na
conversa em andamento pelo comlink.
– Eles viraram outra vez - relatou Zerba com a voz apreensiva. - Na mesma
direção.
– Abandone a perseguição.
– Já abandonei - falou Zerba. - Eu não sei, Han... tem algo estranho aqui. Se
eles perceberam a gente, um dos landspeeders da escolta não deveria ter se
separado para nos investigar?
– Talvez estejam protelando - sugeriu Dozer em tom sombrio.
– Levando a gente para passear enquanto trazem mais reforços.
Chewbacca grunhiu e bateu no braço de Lando com uma mão enquanto
apontava com a outra.
Lando olhou pelo dedo estendido para outro estacionamento de telhado, a três
quarteirões.
– Vamos descobrir - disse ele enquanto pegava os eletrobinóculos e apontava
para o veículo que Chewbacca destacara, um landspeeder estacionado bem na
porta do telhado.
O Wookiee estava certo — era o mesmo tipo dos outros landspeeders do
comboio que Han e os demais seguiam no momento. Havia dois humanos
sentados dentro daquele veículo, ambos com eletrobinóculos colados aos rostos,
e as cabeças iam de um lado para o outro enquanto varriam o trânsito de
airspeeders que passava acima deles. A alguns metros de distância, havia um
terceiro homem agachado na beira do telhado, com eletrobinóculos focados na
rua lá embaixo.
Lando deu um sorriso contido ao acionar o comlink para transmissão. Mais
cedo, ele havia considerado mandar Eanjer vigiar a rua. O par lá fora
aparentemente teve a mesma ideia.
– Todo mundo, abandonem a perseguição - ordenou ele. - Repito, abandonem
a perseguição.
– O que foi? - Han exigiu saber.
– Nós encontramos o olheiro deles - respondeu Lando, vendo os homens no
landspeeder. Eles pareciam instalados com tanto conforto quanto ele, Chewbacca
e Eanjer. E se não estavam esperando para decolar a qualquer momento...
– Novas posições - continuou Lando ao colocar os eletrobinóculos no colo e
pegar o datapad. O estacionamento era... bem ali. O que significava... - Han, vá
para R-7 no mapa. Bink, entre na rua transversal a um quarteirão dele. Zerba: S-
7. Dozer: S-8. Encontrem vagas e esperem.
– A caminho - respondeu Bink.
– Eu também - disse Zerba. — Espero que você não esteja com pressa; o
trânsito aqui embaixo está horrendo.
– Qual é o plano? - indagou Han.
– Os olheiros estão posicionados a mais ou menos três quarteirões, parados e
sem parecer que estão prestes a se mexer - explicou Lando. - Creio que estejam
observando o fim do trajeto, para garantir que ninguém estará por lá à espera de
emboscar o chefe.
– Tem certeza de que os olheiros fazem parte dessa equipe e não da de outra
pessoa? - perguntou Bink.
– Certeza absoluta - falou Lando. - Estão no mesmo modelo de airspeeder,
com o mesmo sistema de foguetes de impulsão instalado.
– Vale a tentativa — disse Han. — Se não der certo, sempre podemos tentar
de novo amanhã.
– A não ser que já tenham percebido a gente - alertou Dozer. - Nesse caso, eles
terão aprontado algumas contramedidas sinistras.
– Então vamos nos esforçar para fazer isso direito - falou Lando.
Os minutos se passaram. Han e os demais relataram suas respectivas chegadas
aos pontos designados, depois ficaram em silêncio.
Chewbacca grunhiu uma sugestão.
– Boa ideia - concordou Lando. Ele escorregou no banco de maneira que a
cabeça ficasse abaixo do nível das janelas.
– O que ele disse? - perguntou Eanjer.
– Chewie disse que deveríamos nos encolher e ficar fora do campo de visão -
traduziu Lando enquanto apoiava os eletrobinóculos no suporte de ombro do
banco. Usando o reflexo das janelas do prédio a um quarteirão de distância, ele
deveria conseguir acompanhar o que os olheiros faziam. — Até agora não parece
que eles tenham verificado esta direção, mas se verificarem, não queremos que
eles nos vejam.
– Ah - disse Eanjer, e Lando ouviu o leve assobio de tecido sobre couro
quando o outro também se encolheu para não ser visto. - Sim. Boa ideia.
Lando virou o pescoço até conseguir enxergar Eanjer de rabo de olho.
– Vocês não têm Wookiees em Wukkar?
– Claro que temos - falou Eanjer um pouco na defensiva. - Mas a maioria
deles é de trabalhadores, guarda-costas ou capangas. Eu nunca... - Ele parou de
falar.
– Pensou que valesse a pena aprender a compreendê-los? — sugeriu Lando.
A metade da boca de Eanjer que não estava escondida pelo medselo se
contorceu em uma careta de incomodo.
– Creio que sim — disse ele relutantemente. - Não que eu... bem, não. Acho
que simplesmente... Acho que deveria ter aprendido.
Lando olhou para Chewbacca, cujo físico mais alto o obrigou a se encolher
ainda mais e de maneira mais desconfortável do que Lando e Eanjer. Havia um
pouco de mágoa brilhando nos olhos, mas, essencialmente, ele parecia apenas
resignado. Era muito comum hoje em dia seu povo ser tratado como pouco mais
do que trabalhadores acessíveis ou guerreiros sacrificáveis.
Ou como escravos descartáveis e esquecíveis.
Os minutos se passaram. Lando começou a imaginar se havia feito uma
estimativa errada e já trabalhava em um plano alternativo, caso o comboio do
chefe estivesse ciente sobre eles, quando o veículo dos olheiros subitamente
ativou os foguetes de impulsão e levantou voo.
– Avistei os caras - falou Han. — O comboio acabou de aparecer.
– Olheiros em movimento — disse Lando erguendo a cabeça para ver melhor.
O homem que estava na beirada do telhado continuava em posição, observando a
rua lá embaixo. - Todo mundo, fiquem em seus lugares; o olheiro está alerta.
– Perdi os caras - rosnou Han. - Fizeram uma curva, rumo ao norte. Mais
alguém?
– Não aqui — relatou Bink.
– Nem aqui - falou Zerba.
– Mesma coisa — disse Dozer. — Lando? Parece que é com você.
– Certo - respondeu Lando. Ele fez uma careta ao se ajeitar no banco e
gesticulou para Chewbacca e Eanjer fazerem a mesma coisa. Se os olheiros lá
adiante fossem dignos do nome, no minuto em que Chewbacca decolasse e fosse
naquela direção, eles chamariam instantaneamente uma atenção inamistosa.
Mas se não havia outro jeito, não havia outro jeito.
– Ok, Chewie...
– Espere um instante... eu avistei os caras - falou Bink subitamente. - Indo
bem na direção... raios, aqueles foguetes são bons... parece ser o beco de serviço
entre a vigésima e a vigésima- primeira, na extremidade oeste.
As palavras mal saíram da boca de Bink quando Lando teve que segurar firme
o datapad no momento em que Chewbacca ligou o airspeeder e disparou na
direção do fluxo de trânsito acima deles. O Wookiee virou o veículo para a
direita...
– Espere... esse é o caminho errado - alertou Eanjer. — O beco fica a dois
quarteirões para a esquerda.
– E os olheiros estão vigiando qualquer um que vá naquela direção - explicou
Lando. — Ele está fazendo certo. — Lando girou no banco e ergueu os
eletrobinóculos.
Lá estavam eles: três landspeeders pretos, subindo suavemente ao longo de
um prédio alto e maciço.
– Estou vendo os caras - disse Lando. - O que é aquele prédio, um hotel?
– Sim, o Lulina Crown — confirmou Bink.
– Há uma garagem coberta para airspeeders no último andar - falou Rachele. -
Entrada restrita para residentes e hóspedes. Deixe- me ver se consigo acessar a
lista atual de ocupantes.
– Bink, consegue enxergar a frente? — perguntou Han. — Talvez a gente
tenha sorte e eles acendam as luzes ao entrarem nos quartos.
– E se os quartos forem nos fundos? - indagou Eanjer. - Ela não será capaz de
vê-los da rua.
Novamente, Lando segurou firme o datapad no momento em que Chewbacca
ofereceu uma sugestão e fez uma curva acentuada para cima, passando o
airspeeder habilmente entre dois outros veículos na próxima via acima.
– Chewie disse que vamos vigiar os fundos - disse Lando enquanto olhava
para baixo, a fim de se orientar após tantas mudanças rápidas de direção. O
Lulina Crown... lá estava o hotel.
— Rachele, tem alguma maneira de aumentar o alcance deste troço?
— perguntou ele ao abaixar os eletrobinóculos para dar uma olhada rápida
no controle de zoom.
– Tente girar o controle de claridade até o máximo e aumentar o contraste -
sugeriu Rachele. - Isso deve ajudar.
– Provavelmente um jardim NinhoSelvagem - disse Eanjer. - E um parquinho
com vários tipos de árvores e outras plantas, geralmente silvestres, que não se
costuma ver dentro de cidades, e a coisa toda é cercada por árvores crescentes
altas ou de caule torcido. Hotéis com vários prédios gostam de colocá-las no
centro dos complexos.
– Verificando o sexto andar agora - falou Rachele. — Vejamos... sim, toda
aquela seção no centro é uma suite de oito quartos. Bink, está vendo alguma
coisa?
– Nada - relatou Bink. - Nada no sexto ou em qualquer outro lugar. Se eles
têm alguns quartos neste lado, estão sendo discretos quanto a isso.
– Eles realmente devem gostar de parques - comentou Dozer. - Eu achava que
os quartos externos teriam uma vista melhor.
– Não acho que a vista seja o que eles têm em mente - disse Bink pensativa.
— Rachele, há chance de conseguir um quarto para nós em algum lugar perto
daquela suite?
– Vou tentar - respondeu Rachele. — Mas não prometo nada: com a chegada
do Festival, praticamente todos os quartos na cidade foram reservados há
semanas.
– Acabamos aqui fora? - indagou Lando.
– Sim, acabamos - confirmou Han. - Todo mundo de volta. Hora de calcular
nosso próximo passo.

Para a total falta de surpresa de todo mundo - exceto talvez da própria Rachele
-, ela de fato conseguiu um quarto para eles.
Embora o quarto não fosse exatamente o que Bink esperava quando
despachou Rachele para fazer o serviço. Ela imaginara uma suite que pudesse
usar como base de operações para invadir o lugar. Um quarto vizinho ou, melhor
ainda, diretamente em cima ou embaixo. Mas havia limites mesmo para a magia
de computadores de Rachele e uma rede de contatos de alto nível.
Ainda assim, se o lugar não era perfeito, poderia ter sido bem pior.
– É aquilo ali? — perguntou Tavia ao chegar à janela ao lado dela e colocar
uma mecha solta do cabelo preto atrás da orelha.
– É aquilo ali — confirmou Bink enquanto olhava para o parquinho no outro
pédio. Duas das janelas da suite estavam bloqueadas pelos troncos das grandes
árvores que cercavam a vegetação, mas o resto era claro e visível.
– Pelo menos você não vai descer de rapei até o parque - disse Tavia. - Não
daqui.
– Quanto a isso, você está certa — concordou Bink. De todos os aspectos do
trabalho de Bink que Tavia odiava, ver a irmã descer pela lateral de um prédio
em uma sinteticorda fina era provavelmente a parte que ela mais detestava.
Não que esse serviço fosse muito melhor, pelo menos não do ponto de vista de
Tavia. Ainda assim, pular de árvore em árvore em um gancho não era tão ruim
quanto aquela longa queda mal e porcamente controlada de um telhado.
– Uau — falou Kell baixinho em algum ponto atrás das duas mulheres. - E
você simplesmente nos colocou aqui?
– Não foi tão difícil assim - garantiu Rachele. - Eu notei que o casal que
deveria se hospedar aqui hoje à noite estava registrado na Ordem da Selva, então
consegui que eles recebessem a oferta de um safári grátis na Reserva Megrast, na
província de Ancill. Foi simples, na verdade.
Kell balançou a cabeça, admirado.
– Eu ainda digo: uau.
Bink sentiu o lábio tremer. Kell podia ficar impressionado o quanto quisesse,
mas ele realmente deveria parar de verbalizar tanto. Já havia egos inchados
demais naquele ramo.
Ela olhou para trás casualmente e viu os demais perambulando pelo ambiente.
Talvez Winter estivesse disposta a dar algumas lições para Kell de como manter
a frieza. A mulher de cabelos brancos estava claramente tão impressionada com
o feito de Rachele quanto Kell, mas escondia bem melhor.
– Algum problema? - murmurou Tavia.
– Não, tudo bem - murmurou Bink de volta.
Teoricamente, estava tudo bem. Solo era um bom avaliador de cárater, na
maioria das vezes. Assim como Mazzic, mesmo que nem sempre Bink
concordasse com ele. Se Mazzic dissera que Winter e Kell eram gente boa, e
Solo aceitara aquela avaliação, então provavelmente era verdade.
Mas havia algo a respeito dos dois recrutas que a incomodava. Kell lhe
parecia ser jovem demais, não apenas em idade, como em experiência e
resistência mental. Ao mesmo tempo, Bink enxergava fantasmas anónimos à
espreita, por trás do olhar de Kell. Alguma coisa desagradável em seu passado o
movia, talvez para mais longe do que Kell estava realmente preparado para ir.
Winter, estranhamente, era quase o extremo oposto. Não era muito mais velha
do que Kell, mas o olhar tinha uma profundidade surpreendente de idade e
maturidade. Winter também possuía um equilíbrio natural, o tipo de elegância e
autoconfiança que Bink também enxergava em Rachele. Será que aquilo
significava que Winter fazia parte da aristocracia de um mundo qualquer, assim
como Rachele? Em caso positivo, o quê, em nome do Império, ela estava
tazendo com uma gangue de ladrões? Será que estava ali por ingança?
– Aqui. - A voz de Solo interrompeu as reflexões de Bink. Ela pestanejou para
afastar os pensamentos e viu Han oferecendo um dos eletrobinóculos
sofisticados de Rachele. - Rachele disse que temos até amanhã à tarde para
sairmos daqui. Acha que consegue nos colocar para dentro até lá?
– É claro — respondeu Bink enquanto pegava os eletrobinóculos da mão dele.
Se ela tinha aprendido uma coisa naquele ramo, era jamais dizer para o cliente
que não era possível realizar alguma coisa.
Ela se voltou para a janela, colocou os eletrobinóculos nos olhos e começou a
trabalhar.
Não havia muita coisa para ver ali. E o que havia não era muito animador.
Mas seria possível. Não seria fácil, mas possível.
Bink baixou os eletrobinóculos e deu meia-volta. Nos últimos minutos, o
restante do grupo encontrara cadeiras e sofás para se sentar e estava conversando
em voz baixa entre si.
– A situação é a seguinte. - Ela foi até o lugar livre ao lado de Rachele e se
sentou.
O ambiente ficou subitamente em silêncio.
– As janelas do hotel possuem sistemas de segurança embutidos, mas parece
que foram desabilitados pelos ocupantes — falou Rachele. - Isso significa que...
– Eles desabilitaram os sistemas de segurança? - perguntou Kell franzindo a
testa.
– Sistemas de segurança central são muito fáceis de invadir - explicou Tavia.
— Especialmente sistemas de hotéis, que não são conhecidos pela sofisticação.
Nossos amigos lá provavelmente estavam com medo de que alguém assumisse o
controle e usasse os sistemas para espioná-los.
– Que era exatamente o que teríamos feito — concordou Bink. — Vocês
também notarão que eles escolheram uma suite no sexto andar, no lado do prédio
que dá para o jardim, com árvores grandes que impediriam qualquer tentativa de
chegar às janelas via airspeeder. Ambas as atitudes indicam uma certa paranoia.
– Parece apropriado para pessoas que lidam com Villachor - murmurou
Eanjer. Ele estava sentado a alguns metros dos demais, olhando o parque com
uma expressão taciturna, e a mão esquerda massageava distraidamente a direita
por cima das bandagens de medselo.
– E após ter desabilitado o arremedo de segurança do hotel - continuou Bink -,
o que seria mais natural do que instalar a própria segurança? — Ela gesticulou
para a suite. — A primeira linha de defesa foi pregar uma série de placas de
transparaço no lado interno do vidro normal das janelas. A boa notícia é que as
placas não são muito grossas, então eu devo conseguir usar uma serra monofio
para cortar a que eu quiser.
– Ou você pode simplesmente usar o sabre de luz de Zerba — sugeriu Dozer. -
Será bem mais rápido.
– Bem, só há um pequeno probleminha com isso — disse Bink.
– A segunda linha de defesa é um conjunto de sensores de energia.
– Tem certeza? - perguntou Lando. — Geralmente, sensores de energia são
instalados escondidos.
– Certeza absoluta - respondeu Bink. — A onda de pulso no vidro é
inconfundível. Quem chegar a 5 metros de qualquer uma das janelas com
alguma coisa que tenha uma energicélula vai acionar alarmes de uma ponta a
outra da suite.
– Que gracinha - resmungou Dozer. — Não há jeito de desabilitá-los,
imagino?
– Não daqui de fora — falou Bink. — Mas acho que tenho um motor manual,
à manivela, para a serra monofio. - Ela olhou para Tavia. — Certo?
– Sim — respondeu a irmã com a boca crispada em uma expressão
descontente. - Como você planeja chegar suficientemente perto para usá-la,
exatamente?
Bink se preparou. Tavia não gostaria da resposta.
– Vai ter que ser de galho em galho — disse ela. - Um arnês e ganchos
manuais.
Os lábios finos de Tavia ficaram ainda mais crispados.
– Ganchos manuais não se prendem com tanta firmeza quanto os elétricos.
– Vou ficar bem — garantiu Bink. - Só preciso garantir que estarei bem presa
na árvore onde vou me balançar. Se o gancho falhar, eu posso simplesmente
voltar e tentar novamente.
– Que tal usar ganchos elétricos até o meio do caminho e depois trocar por
manuais? — sugeriu Rachele. - Você deve conseguir usar os elétricos ao longo
deste prédio e pelo menos até a metade do conjunto lateral de árvores. Desde que
você troque para os manuais antes de se aproximar da suite, não deve ter
problema.
– Não vale o esforço - explicou Bink. - Ganchos elétricos são um sistema
integrado. Eu teria que tirar o arnês, deixá-lo pendurado em um galho ou coisa
assim e pegá-lo ao voltar. Além disso, aquele alcance de 5 metros que mencionei
sobre os sensores de energia é apenas um palpite. Eles podem ter sensores
concentrados, apontados para direções aleatórias, que tenham duas ou até três
vezes aquele alcance. Eu faria um papel de idiota se alcançasse a janela e
encontrasse meia dúzia de homens com armas de raios esperando pacientemente
que eu chegasse lá. Não se preocupe: o sistema manual funcionará muito bem.
– Vamos dizer que funcione - falou Lando. - Assim que você estiver lá, o que
vem a seguir?
– Ah - disse Bink levantando um dedo. - Na verdade, essa é a parte fácil. —
Ela abaixou o dedo erguido para apontar para trás, pela janela. - Bem no meio
daquele quarto lá está um cofre de chão Jaervin-Daklow. Provavelmente foi
comprado aqui na cidade, pois parece novo. Eles são grandes, pesados,
praticamente impossíveis de arrombar, e têm um codificador touchpad que é
virtualmente impossível de penetrar.
– A não ser? - falou Han.
– A não ser que a pessoa veja o touchpad enquanto o código está sendo
digitado — respondeu Bink com um sorriso maroto nos lábios. - Nossos amigos
lá podem ser muito espertos a ponto de instalar o cofre virado para longe da
janela, de maneira que ninguém consiga ver, ah, digamos, daqui. — Ela colocou
o dedo na testa. — Mas não foram tão espertos assim a ponto de perceber que a
parede interna do quarto está voltada para o cofre a menos de 3 metros de
distância. E essa mesma parede tem uma camada de tinta fresca, branca e
reluzente.
Por um momento, o ambiente ficou em silêncio.
– Você está brincando - disse Zerba.
Bink deu de ombros.
– Você transforma bastões em borboletas e muda de roupa mais rápido do que
um piscar de olhos - argumentou ela. - Os Jedi supostamente erguiam pedras
com a mente e faziam as pessoas esquecerem o próprio nome. Todos nós temos
nossas especialidades. A minha é essa.
– Os botões luminosos individuais em um touchpad nunca são exatamente os
mesmos — explicou Tavia. — A diferença dos emissores, mais as partículas de
poeira e gordura dos dedos, tudo isso altera um pouco a cor e a textura óptica.
Quando um botão é apertado, aquela luz é bloqueada e o padrão na parede atrás
é mudado.
– Do que você precisa para dar certo? - perguntou Solo.
– Preciso estar na janela quando eles começarem a digitar o código -
respondeu Bink. - O resto é apenas a leitura dos reflexos.
– E das sombras - acrescentou Tavia. - Se pudermos calcular se o operador é
canhoto ou destro, e geralmente podemos, a forma como as sombras mudam
quando ele aperta as teclas individualmente também pode ser lida.
Bink revirou os olhos.
– Tavia, não é para você contar para as pessoas como o truque funciona - falou
ela em tom de bronca de mentira. - Eles vão perder todo o respeito se souberem
como é fácil.
– É, isso vai acontecer — disse Solo secamente. - Quando vai estar pronta?
Bink olhou para Tavia.
– Duas horas?
A irmã não pareceu contente, mas concordou com um leve aceno de cabeça.
– Duas horas - confirmou Bink ao se voltar para Solo. - Se Villachor tiver
outro visitante tarde da noite, e se nossos amigos lá do outro lado forem
convidados, eu consigo estar na janela antes de eles voltarem. Depois disso,
talvez meia hora para entrar e arrombar o cotre, ver o que está dentro que nos
diga quem eles são e o que querem com Villachor, e a seguir mais dez minutos
para fechá-lo novamente.
– E se Villachor já tiver encerrado as atividades hoje? - perguntou Zerba. - Se
ele mantiver a agenda, não terá outra reunião até amanhã de manhã.
Bink deu de ombros.
– Então fazemos amanhã de manhã.
– Em plena luz do dia?
– Não é problema - garantiu Bink. — Há folhagem suficiente lá fora pra me
esconder da maioria das pessoas.
– São aquelas que não fazem parte da maioria das pessoas que me preocupam
- murmurou Zerba.
– Eu talvez consiga reservar outra noite para nós aqui, se realmente for
necessário — disse Rachele em tom de dúvida. - Vai ser complicado, porém.
– Um momento - falou Lando. Ele subitamente se endireitou na cadeira, de
olho na janela. - Parece que eles vão sair.
Bink virou o corpo e o pescoço. A luz do quarto estava ligada, e havia
sombras suficientes na parede dos fundos para mostrar que alguém estava lá
abrindo o cofre. Ela levou os eletrobinóculos aos olhos e focou na sombra.
Sim, daria certo, Bink decidiu. Ela teria que estar encostada na janela para ler
os movimentos e decifrar os toques nas teclas, mas já planejava estar ali de
qualquer forma. A luz e as sombras se alteraram e marcaram a abertura e o
fechamento da porta do cofre. O homem lá atrás apareceu...
Bink ficou rígida. Só que não era um homem. O rosto que apareceu
brevemente pelo campo de visão tinha escamas verdes, com uma massa de
cabelo negro preso, que descia pelas costas.
De algum ponto na área onde Kell e Zerba estavam sentados veio um gritinho
contido.
– Aquilo é...
– Aquilo é um Falleen — confirmou Eanjer em tom soturno. - O que, pelo
Império, um Falleen está fazendo aqui?
– Calma - aconselhou Solo. Mas ele não parecia tão mais empolgado do que
Eanjer.
Ou tão mais empolgado do que Bink se sentia, por falar nisso. Havia Falleens
pelo Império inteiro, obviamente, assim como havia Rodianos, Duros e até
mesmo Wookiees. Mas tão perto assim do Centro Imperial, as chances eram
desagradavelmente altas de que qualquer Falleen estaria trabalhando para...
– Calma? - reclamou Kell. - Falleen significa Sol Negro.
– Não necessariamente — disse Winter. Dentre todos, ela parecia manter a
melhor aparência de calma. — Além disso, príncipe Xizor não é a única voz dos
Falleens na galáxia hoje em dia. A maioria deles não tem nada a ver com o Sol
Negro. Na verdade, há grupos que estão efetivamente tentando restaurar a honra
do nome dos Falleens por meio de sua derrocada.
Chewbacca rosnou.
– Bem, claro, a maioria desses grupos provavelmente está na folha de
pagamentos de Vader - concordou Solo. - Mas isso não quer dizer que não
estejam atuando.
– E aposto que eles deixaram Xizor realmente preocupado — murmurou Kell.
– Fique à vontade para cair fora, se quiser - ofereceu Zerba.
Kell contraiu o maxilar.
– Não, obrigado.
– óe isso ajuda, acho que só existe um haileen na suite — disse Rachele
olhando o datapad. - Examinando os registros do serviço de quarto, vejo apenas
um pedido por hora de refeição que um Falleen provavelmente escolheria. O
resto da comida é mais adequada para humanos.
– Quantos humanos? — perguntou Lando. - Com que quantidade estamos
lidando?
Os lábios de Rachele se mexeram enquanto ela fazia a conta silenciosa.
– Eu diria dez a doze, mais nosso Falleen.
– Talvez o Falleen não esteja no comando - sugeriu Tavia.
– Não se engane — falou Dozer. — Se é o Sol Negro, o Falleen com certeza
está no comando.
– Pelo que ouvi, o Sol Negro tem um monte de humanos em suas fileiras
também - observou Eanjer. - Então, se ele for do Sol Negro, o que isso significa
para nosso plano?
– No momento, nada - respondeu Han. - Ainda temos que descobrir qual é a
conexão dele com Villachor, e para isso precisamos dar uma olhada naquele
cofre. Bink?
– Estou dentro — assegurou Bink ao ficar de pé. — E agora, estão todos
convidados a sair e conversar em outro lugar.
– Nós não vamos a lugar algum - insistiu Kell.
– Ah, vão sim — disse Bink com firmeza. — Eu preciso espalhar e testar meu
equipamento e não quero um monte de pezões nervosos pisando em cima.
– Além disso, todos nós temos um trabalho a fazer - acrescentou Solo ao se
levantar. — Rachele, como é a segurança do hotel?
– Não é das piores — respondeu ela novamente manipulando o datapad. -
Parece que tudo que a pessoa precisa fazer é pegar um cartão no lobby. E
também não parece que haja holocâmeras de segurança, a não ser no lobby e nos
locais de reunião.
– Isso vem a calhar. - Solo olhou para Zerba. — Você acha que consegue
arrumar um cartão para nós?
Zerba deu um muxoxo de desdém.
– Com hóspedes entrando e saindo o tempo todo? Com um pé nas costas.
– Ótimo - disse Solo. - Rachele, quero que você volte à suite e vigie o
complexo de Villachor. Informe quando o Falleen e seu comboio chegarem e
quando eles partirem.
– Parece que eu peguei o serviço chato - falou Rachele.
– Não se preocupe, eu tenho outro trabalho que deve mantê-la ocupada —
garantiu Solo. — Winter, Eanjer, vocês vão com ela. Chewie, você e Lando
fiquem aqui com Bink e Tavia. Zerba, Kell, Dozer, vocês estão comigo.
– Eu gostaria de ficar aqui em vez de ir com Rachele, se puder - Winter se
manifestou.
– Algum motivo especial? - perguntou Solo.
– Como disse antes, eu conheço muito sobre sistemas de segurança. — Winter
inclinou a cabeça para Bink. — Não tanto quanto Bink e Tavia conhecem, é
claro. Mas três pares de olhos são melhores do que dois, e eu posso notar algo
que elas deixarem passar.
Solo olhou para Bink e ergueu a sobrancelha em uma pergunta silenciosa.
– Por mim, tudo bem - respondeu Bink encarando Winter. A mulher de
cabelos brancos estava certa sobre a correlação entre sucesso e o número de
olhos bem-informados em cena.
Além disso, Bink não gostava de trabalhar com gente enigmática. Manter
Winter ali poderia lhe dar a oportunidade de conhecê-la melhor.
– Ok, então — falou Solo. - Chewie e Lando: fiquem de olho em qualquer
problema. Todo o resto, temos lugares a ir. Vamos a eles.
CAPÍTULO

O céu havia escurecido e já era noite plena, embora as ruas e os prédios da


Cidade de Iltarr estivessem radiantes como sempre.
O que, pensou Winter enquanto permanecia bem afastada da janela, podia ser
um problema.
Não que Bink em camuflagem completa fosse especialmente fácil de ver. Na
verdade, mesmo sabendo onde ela estava, Winter tinha dificuldade para
acompanhar sua posição. Na maior parte do tempo, ela estava encostada em uma
das árvores altas lá fora, e o traje que Bink escolhera se misturava quase que
perfeitamente às manchas e sombras da iluminação da cidade. Apenas quando
ela se balançava entre as árvores era que Bink ficava realmente visível, e aqueles
momentos passavam rápido.
Mas os momentos ainda estavam lá. E havia algo na intensidade das luzes da
cidade, combinada ao medo instintivo da noite, que
tornava aquela mistura especialmente perigosa.
– Parece que vai bem - murmurou Tavia ao lado dela.
Winter concordou com a cabeça. Por fora, Tavia parecia tão controlada quanto
Bink quando saiu pela janela e começou a jornada pela beirada do parque.
Porém, por baixo do exterior calmo, Tavia estava preocupada com a irmã.
Winter notou a preocupação nos olhares nervosos que ela dava pela janela, no
tamborilar silencioso dos dedos, e no leve balanço do corpo mesmo quando
Tavia tentava se manter parada.
Os demais notaram também. No outro lado da suite, Chewie soltou um ronco
em tom confortador, e Lando tirou os olhos do datapad.
– Ela vai ficar bem - Lando tranquilizou Tavia. - Ela já fez isso milhares de
vezes.
– Eu sei - disse Tavia firmemente. - Mas geralmente eu estou bem ali com ela.
Não com ela, mas... você sabe o que quero dizer. Conectada e vigiando para
garantir que tudo dê certo. - Ela balançou a cabeça. - Eu me sinto impotente
apenas vigiando. Impotente e inútil.
– Vocês duas fazem isso há muito tempo? - perguntou Winter.
– Desde que tínhamos dez anos de idade - falou Tavia. - Não o lance de ladra-
fantasma, não de início, mas toda essa coisa da vida marginal. - Ela olhou de
lado para Winter. - Não tivemos escolha - acrescentou Tavia, com um tom
defensivo na voz. - Nosso pai foi morto nas Guerras Clônicas, e mamãe morreu
alguns anos depois. Não tínhamos outros parentes ou amigos. Era isso ou morrer
de fome.
– Felizmente, Bink mostrou ter alguns talentos escondidos no ramo -
murmurou Lando.
Winter observou Tavia e notou o canto da boca franzida.
– E ela também descobriu que gostava disso?
Tavia abaixou o olhar.
– Por que ela não deveria? Todo mundo gosta de fazer aquilo em que é bom. -
Tavia deu um sorriso fraco para Winter. - Tenho certeza de que você gosta
também.
– Creio que sim - respondeu Winter voltando a olhar para a janela. Houve um
vislumbre de movimento, e Bink avançou por mais uma árvore em direção ao
objetivo.
Sim, Winter gostava do trabalho. Ou, pelo menos, chegou a gostar um dia.
Mas houve satisfação, houve paixão e houve dever. No momento, tudo que
havia sobrado para Winter era o dever. Dever e um ódio ardente que ela não
queria e não podia se dar ao luxo de sentir.
Alderaan. Seu lar, seus amigos, uma vida inteira de memórias. Tudo aquilo,
todos eles se foram.
Uma neblina vermelha atravessou a sua visão, cintilando com milhares de
rostos que Winter não conseguia esquecer e um milhão de memórias que agora
estariam para sempre manchadas com fogo e sangue. A princesa Leia e os
demais líderes da Aliança Rebelde ficavam sempre deslumbrados com a
memória perfeita de Winter, com sua habilidade de memorizar manifestos de
frete com uma olhadela e de reproduzir detalhes das mais complexas plantas e
operações de transferência sem fazer esforço. Nenhum deles realmente
compreendia o horrível inconveniente de ser incapaz de esquecer qualquer coisa.
Antigamente, Winter tentava explicar, de vez em quando, a realidade de seu
dom para algumas pessoas ao redor. Agora, ela sequer se dava ao trabalho.
A única exceção àquela regra fora Leia. A princesa possuía tantas memórias
perturbadoras que talvez fosse realmente capaz de compreender e reconhecer o
fardo de Winter.
Se ainda estivesse viva.
Mais imagens passaram pela memória indelével de Winter, retratos e eventos
de todas as vezes em que ela e Leia trabalharam ou brincaram ou se meteram em
confusão com o pai de Leia, Bail, enquanto cresciam juntas.
Será que Leia estivera em Alderaan quando aquele monstro insano, Tarkin,
destruiu o planeta? Aquela era a pergunta horrível e crucial. Leia estivera pela
área naquela época, mas poderia ter sido enviada em alguma missão qualquer
antes de seu mundo ser destruído. Winter precisava saber desesperadamente a
verdade, de uma forma ou de outra, para que tivesse algum alívio ou adicionasse
o rosto de Leia à coleção de imagens manchadas de sangue em sua mente. Para
ela, a incerteza era uma assassina, uma inimiga que sugava foco, força e
determinação.
O problema era que Winter não tinha como descobrir a verdade. Tudo que ela
sabia era que Alderaan fora destruído, que havia rumores de que a Estrela da
Morte fora destruída, e que nem os imperiais, nem a Aliança descobriram como
reagir àquela situação duplamente inesperada.
Mas quem morreu e quem sobreviveu, Winter não tinha como saber. As
pessoas com quem ela trabalhava na logística fora propositalmente isoladas da
estrutura de comando da Aliança e de todas as linhas diretas de comunicação.
Até que viesse alguma espécie de declaração oficial do Centro Imperial, ou até
que Winter recebesse uma informação menos oficial, porém geralmente mais
precisa, do QG da Aliança, tudo que ela podia fazer era torcer, se preocupar e
rezar.
E continuar a fazer o serviço que recebera. Por enquanto, isso significava
manter o disfarce como assistente de contrabandista e fazer o que quer que
Mazzic mandasse. Mesmo que a tarefa não tivesse nada a ver com derrubar o
Império que Winter aprendeu a desprezar.
Quando Rachele relatou que o comboio de três landspeeders havia saído de
Marblewood novamente, Bink chegou à outra extremidade do parque. Quando
Han relatou, do lado de fora do Lulina Crown, que o comboio chegara, ela
estava a três árvores da janela que era seu alvo.
Bink estava apoiada mais ou menos confortável na árvore que escolhera, a 3
metros da janela, quando as luzes na suite se acenderam, e o Falleen que eles
viram antes entrou no quarto a passos largos.
– Não se preocupe, ela vai conseguir. - A voz de Lando surgiu suave por trás
de Winter.
Ela olhou em volta. Lando tinha vindo do outro lado do quarto e estava entre
Winter e Tavia. Mais perto do que ele precisava estar, bem mais perto do que ela
gostava que estranhos chegassem.
Mas os olhos de Lando não estavam em Winter, e sim nas janelas do outro
lado do parque.
– Eu já vi Bink realizar façanhas mais loucas do que essa - continuou ele. -
Como disse antes, ela tem talento. - Lando desviou suficientemente o olhar a fim
de dar um sorriso charmoso, ligeiramente maroto para Winter. - Ambas têm —
ele se corrigiu ao colocar a mão no ombro de Tavia.
– Sim - concordou Winter, que virou o olhar de volta para janela.
Era irritante, embora longe de ser uma surpresa, que Han tivesse sido esperto
o bastante para insistir que o grupo usasse apenas prenomes. Havia nada menos
do que quinze Landos nos registros de antecedentes criminais que ela
memorizou com o passar dos anos, e a maioria desses arquivos infelizmente não
possuía hologramas decentes. Brevemente, Winter se perguntou se este Lando
era um daqueles quinze ou alguém que ainda não havia chamado a atenção dos
imperiais.
O Falleen lá do outro lado retirou o paletó e revelou embaixo dele uma túnica
de aparência cara que descia até as coxas. Winter examinou o pescoço dele, na
esperança de que houvesse uma tatuagem de clã ou de lealdade em algum lugar,
capaz de dar alguma pista sobre a identidade ou associação. Alguns grupos de
Falleens gostavam de fazer isso.
Mas não havia nada, pelo menos nada que ela pudesse ver à distância em que
estava. O Falleen pousou o paletó em uma mesa baixa ao lado da porta do
quarto, depois meteu a mão em uma pochete e retirou um datapad de aparência
estranha, que colocou ao lado do paletó. Ele encolheu os ombros uma vez, como
se tirasse o peso residual do paletó, foi até o cofre e desapareceu na lateral do
objeto.
Winter franziu a testa ao ver o datapad. Algo nele parecia conhecido.
Abruptamente, ela ficou rígida.
– Eletrobinóculos - disparou Winter ao arrancar o olhar do datapad e procurar
ao redor freneticamente. Onde o aparelho tinha ido parar?
– Aqui - disse Tavia ao colocar um par de eletrobinóculos na mão dela.
Winter enfiou o aparelho nos olhos, e os dedos acionaram o controle do foco.
A imagem se ajustou; então uma mão alienígena apareceu da lateral e arrancou o
datapad de seu campo de visão. Antes que ela pudesse reajeitar o foco, o Falleen
havia desaparecido novamente pela lateral do cofre, levando com ele o datapad.
– O que foi? - perguntou Tavia tensa. - O que houve?
– Aquele datapad - respondeu Winter enquanto abaixava os eletrobinóculos e
olhava para o local no piso onde Bink e Tavia haviam espalhado seu
equipamento. - Preciso ver melhor para ter certeza. Mas se for o que penso que
é, estamos com um problema.
– Mas Bink não consegue trazê-lo até aqui - contestou Tavia. - Os sensores de
energia...
– Eu sei - interrompeu Winter ao devolver os eletrobinóculos para Tavia e
correr ao equipamento. - Eu terei que ir até ela.
– Como? - perguntou Lando. - Bink tem o único arnês que funciona sem
energia.
– Então vou ter que improvisar. - Winter pegou o arnês com ganchos elétricos
e avaliou rapidamente. Se ela removesse a estrutura central, depois desplugasse a
mira telemétrica de ombro...
O Wookiee rosnou uma pergunta.
– É mais do que apenas importante - respondeu Winter. - É absolutamente
vital. - Ela segurou firme a estrutura e olhou ao redor, à procura de uma faca...
E se virou assustada quando o Wookiee chegou ao lado dela e arrancou o
arnês de suas mãos. Três segundos depois, ele tinha arrancado a estrutura, a mira
telemétrica e uma parte do equipamento que Winter não percebeu que era
elétrica. Chewbacca passou o arnês para ela, gesticulou para que o vestisse e
soltou a bandoleira do ombro.
– Tem certeza de que sabe o que está fazendo? - perguntou Lando. - É um
longo caminho.
Chewie soltou um rugido impaciente.
– Ok, ok - respondeu Lando às pressas, com as mãos espalmadas levantadas. -
Tavia, abra a janela.
A luz tinha se apagado no quarto do outro lado do parque no momento em que
eles ficaram prontos. Chewie e Winter ficaram diante um do outro na janela
aberta; ela estava presa ao arnês, e as alças externas do equipamento estavam
presas aos ombros enormes do Wookiee.
Chewbacca abaixou o olhar para Winter e murmurou uma última chance para
ela.
– Estou pronta. - Winter concordou com a cabeça, e ele devolveu o gesto.
Um instante depois, Chewbacca pulou pela janela no ar da noite.
Winter soltou um gritinho sem querer, e as mãos seguraram firme no pelo em
volta das costelas de Chewie, por reflexo. Um longo segundo depois, ela quase
se soltou quando as mãos e pés do Wookiee se chocaram na árvore mais
próxima. Por outro instante, pareceu que eles iriam deslizar e despencar no
parque lá embaixo. Aí houve outro solavanco quando Chewbacca de alguma
maneira conseguiu se segurar. Winter começou a tomar um longo fôlego
assustado...
E com outro solavanco e um giro violento do corpo, o Wookiee se lançou com
ela na direção da próxima árvore da fila.
Winter se equivocara. Ela não estava, de maneira alguma, preparada para
aquilo.
Mas um dos efeitos colaterais de uma memória perfeita era a capacidade de se
ajustar rápido a novas experiências, especialmente as repetitivas. Quando os dois
chegaram ao fim do prédio onde estavam e dobraram a esquina, Winter já sabia
se segurar, o momento de agarrar o arnês e a bora de deixar o corpo mole. Ela
também já sabia exatamente quantas árvores estavam entre eles e Bink, o que
significava que Winter era capaz de fazer uma contagem regressiva até o fim do
suplício. Psicologicamente, conhecer a linha de chegada ajudava muito.
Mesmo assim, na maior parte do trajeto, ela manteve os olhos bem fechados.
Obviamente, Bink viu os dois vindo. E ficou rapidamente evidente que ela não
estava contente com aquilo.
– O que vocês estão fazendo? — Ela exigiu saber em um sussurro alto quando
Chewie parou na última árvore.
– O datapad ali dentro - respondeu Winter, lutando para se virar nas restrições
do arnês. Bink, notou ela, havia aberto a janela externa e estava cortando um
buraquinho circular na barreira de transparaço atrás da janela. Era difícil
enxergar daquele ângulo, mas parecia que Bink tinha feito a maior parte do
serviço. - Você viu?
– Sim, eu vi - falou Bink. - E daí?
– Eu preciso ver mais de perto - disse Winter. - É importante.
Os lábios de Bink tremeram, mas ela concordou com a cabeça,
relutantemente.
– É melhor que seja - alertou Bink. - Ok. Me dê dois minutos assim que eu
entrar, depois você entra. Pode colocá-la na janela, Chewie?
O Wookiee rosnou uma afirmativa.
– Tudo bem - disse Bink. - Só não faça nenhum barulho assim que entrar. E
não quebre nada.
Ela se virou novamente e retomou o serviço na janela.
Winter já tinha feito muitas invasões durante os anos em que estava na
Aliança Rebelde, mas a maioria dessas investidas havia sido em áreas de pouca
segurança, como armazéns de comida e de peças sobressalentes, e na maior parte
das vezes, Winter tinha ido com alguém mais experiente para ajudar. Ela jamais
havia tentado invadir um local com esse tipo de segurança.
Lando estava certo. Bink definitivamente era talentosa.
Abrir um buraco na barreira de transparaço foi apenas o primeiro passo.
Depois veio o uso de uma substância grudenta para retirar o círculo do lugar. Um
par de sondas compridas foi introduzido pela abertura, desviando de um par de
rastreadores, enquanto um cabo de bateria na ponta de uma sonda ainda maior
contornou algum tipo de detector que Winter não reconheceu.
Finalmente, quando todos os sensores e detectores de reserva haviam sido
contidos, confundidos ou distraídos, uma última sonda acionou o fecho e soltou
a placa de transparaço do lugar. Bink se agarrou ao peitoril, soltou o arnês dos
apoios adesivos que fixara à parede externa e entrou agilmente no quarto pela
abertura. Ela fechou quase toda a janela e a placa de transparaço, disparou um
olhar para Winter e foi para a lateral do grande cofre de chão.
– Como resolvemos isso? - murmurou Winter para Chewie.
Como resposta, ele indicou o galho mais próximo.
– Eu temia isso - disse Winter enquanto fazia uma careta ao segurar firme no
galho.
Chewie esperou até ela estar pronta, depois tirou as alças do arnês, um ombro
de cada vez. Winter se mexeu com cuidado, de um jeito estranhamente
desajeitado para ela, deu a volta e subiu nas costas do Wookiee. Winter passou as
mãos pelos ombros dele e se agarrou nos tufos de pelo sobre as clavículas.
Ela tinha lido uma vez que aquele era o jeito mais seguro e menos doloroso de
se agarrar a um Wookiee. Winter torceu com fervor para que o autor daquele
artigo em especial não estivesse errado.
A contagem regressiva de dois minutos de Bink passou. Chewie rosnou um
alerta, depois se lançou da árvore para a janela. As mãos agarraram a beirada
inferior, e o corpo bateu na lateral do prédio com um solavanco que quase fez
Winter se soltar.
Felizmente, o Wookiee já havia previsto aquele perigo. Enquanto Winter
lutava para se segurar, Chewbacca dobrou os joelhos e ergueu os pés embaixo
dela, a fim de dar um apoio para Winter pisar. Ele esperou que ela se agarrasse
com firmeza novamente, dobrou os cotovelos e ergueu os dois até beirada
inferior da janela, que ficou no nível de seu rosto.
Winter havia agarrado a janela e começado a abri-la quando, do outro lado do
quarto, um sujeito grandalhão e de aparência bruta entrou a passos largos.
Ela travou, ciente de que estava completamente exposta, mas também de que
qualquer movimento atrairia o olhar do homem de imediato. Aparentemente,
Chewie também estava ciente disso e travou da mesma forma. O homem passou
por trás do cofre e retirou um datapad enquanto caminhava até um par de
poltronas em volta de uma mesinha. Ele começou a se sentar, dando as costas
para a janela brevemente...
Um instante depois, Winter não viu mais nada, pois Chewie se aproveitou que
o homem havia se virado de costas e desceu o corpo para ficar pendurado,
deixando apenas as pontas dos dedos visíveis.
Mas Winter tinha visto o suficiente. A boa notícia era que o homem
claramente não desconfiara. A má notícia era que, pelo jeito, ele ficaria ali por
um tempo, fosse para ler, trabalhar um pouco ou talvez apenas cochilar.
Em todo caso, Bink ficaria presa do outro lado do cofre.
Winter torceu o pescoço a fim de olhar para trás. Àquela distância, com as
árvores bloqueando a vista parcialmente, não dava para dizer se Tavia ou Lando
tinham percebido o problema ou não. Ela só podia torcer com fervor para que
tivessem visto.
E para que pudessem pensar em alguma solução.

– Consegui - afirmou Dozer.


Ele desligou o comlink, abriu a porta da escadaria, trocou acenos de cabeça
com Zerba e entrou no corredor do sexagésimo andar do Lulina Crown, que
tinha um cheiro de perfume delicado.
Enquanto andava, Dozer deu um sorriso contido para si mesmo. Calrissian
podia ter a aparência, o sorriso e o charme conquistador, e talvez isso fosse tudo
o que Solo queria para o serviço. Ou pelo menos tudo o que ele pensava que
queria.
Mas Calrissian não era nada mais do que um contrabandista e um apostador
ocasionalmente sortudo. Roubar naves é que era o serviço que realmente exigia
as habilidades de um vigarista.
Hora de mostrar como um profissional fazia o serviço.
As portas do Hotel Lulina Crown tinham campainhas bonitinhas ao lado para
os visitantes usarem, campainhas que com certeza emitiam zunidos e pios
fofinhos no interior da suite. Dozer evitou a campainha e preferiu bater na porta
com a lateral do
– Olá? - chamou ele. - Entrega.
Nada. Dozer bateu novamente, na esperança de que a falta de resposta não
significasse que Bink tinha sido descoberta e que todo mundo lá dentro estava
ocupado demais para atender.
– Olá? - chamou ele outra vez, agora aumentando para valer o volume da voz.
- Quer atender à porta? Eu não tenho a noite toda. - Dozer ergueu o punho
novamente...
Com uma brusquidão que o pegou de surpresa, a porta foi escancarada, e ele
se viu encarando os canos de um par de armas de raios bem grandes e sinistras.
– Ei, ei, ei... calma aí — falou Dozer rapidamente, abrindo a mão para mostrar
que estava vazia. Os homens atrás das armas, notou ele, eram tão grandes e
sinistros quanto elas.
– O que você quer? - um deles exigiu saber.
– Serviço de Entregas Quickline - respondeu Dozer, acenando com a cabeça
para a plaquinha dourada presa à jaqueta. - Eu tenho uma entrega para Mencho
Tallboy. - Cuidadosamente, ele ergueu o pequeno estojo de segurança que estava
na mão esquerda. - Ele está?
O homem franziu os olhos, e Dozer fez um esforço para manter a respiração
sob controle. Tallboy era o nome que Rachele havia puxado dos pedidos do
serviço de quarto, mas ela não tinha como saber se era uma pessoa de verdade ou
simplesmente um pseudónimo conveniente que o Falleen e sua tropa usavam
para questões mundanas. Uma suposta entrega para uma pessoa que não existia
não faria nada para apaziguar as suspeitas de qualquer um, e este era exatamente
o rumo errado que Dozer queria que a conversa tomasse.
– É, ele está aqui - disse o homem enquanto recolhia a arma de raios em
alguns centímetros e esticava a outra mão. - Eu pego.
– O senhor é o mestre Tallboy? - perguntou Dozer, fazend uma careta como
quem sabe que está prestes a dar más notícias a um homem armado. — Eu sinto
muito, mas a ordem foi bem específica. Eu preciso entregar a encomenda
pessoalmente ao mestre Mencho Tallboy.
– Encomenda de quem? - indagou o homem com a mão ainda esticada.
– Do remetente - falou Dozer, com mais nervosismo e um pouco de confusão
no tom de voz. - Sou apenas um entregador. Faço o que me mandam.
Por alguns segundos, os dois homens continuaram a se encarar. Então, o
sujeito com a mão estendida mexeu os dedos.
– Datapad - ordenou.
– Sim, senhor - disse Dozer.
Ele passou o estojo de segurança para a mão direita de maneira desajeitada e
puxou o datapad com a outra. O segundo homem guardou a arma de raios no
coldre, pegou o datapad e franziu a testa enquanto começava a teclar.
Pelo rabo de olho, Dozer viu uma pequena esfera negra surgir através da porta
semiaberta da escadaria e rolar pelo corredor na direção dele a uma velocidade
bem maior do que um objeto daquele tamanho conseguiria em um carpete tão
grosso assim. Ela quicou na parede dos fundos e ajustou o ângulo na direção de
Dozer.
E um segundo depois, a esfera explodiu em um jato brilhante de fogo e uma
nuvem de fumaça negra.

Bink estava quase terminando a combinação do cofre quando a porta do outro


lado do quarto se abriu.
Seu primeiro pensamento foi óbvio e aterrorizante: que o serviço tinha
acabado de ser interrompido abruptamente e que ela estava prestes a lutar pela
vida. Bink se encostou no cofre, enfiou a mão direita na pochete e pegou a serra
monofio. Não era lá aquelas coisas como arma, mas era o melhor que ela tinha.
Para alívio de Bink, o barulho da porta se abrindo foi acompanhado apenas
por um par de passos, e ainda por cima relaxados. Alguém simplesmente
entrando no quarto com outro objetivo que não fosse golpear uma ladra-
fantasma indesejável?
Ela sentiu uma nova pontada de tensão ao se dar conta, subitamente, de que
Winter deveria estar entrando pela janela mais ou menos naquele momento. Mas
os passos não indicaram que a outra mulher tinha sido vista. O visitante passou
tranquilamente pelo outro lado do cofre, e Bink ouviu o barulho suave de tecido
no couro quando ele se sentou em uma das poltronas de leitura.
O que a deixava então oficialmente presa.
Ela lambeu os lábios subitamente secos. Ser flagrada era um dos perigos
sempre presentes do ramo, mas até então Bink conseguira evitar tais incidentes.
Com um Falleen e possivelmente o Sol Negro envolvidos, um confronto ali
deveria ser evitado a todo custo.
Ela torceu para que Tavia tivesse algo muito especial na manga.
Oitenta segundos se passaram. Bink contou e examinou cada um deles,
enquanto a mente dava piruetas ao tentar desesperadamente inventar sozinha um
plano de fuga caso Tavia não fizesse o esperado.
Então, no silêncio do ambiente, veio o sussurro suave de uma voz distante,
como se saísse de um comlink de colarinho. Bink não conseguiu distinguir as
palavras, mas subitamente houve outro rangido de tecido no couro quando o
visitante ficou abruptamente de pé. Ela segurou firme a serra monofio, mas os
passos simplesmente passaram correndo pelo quarto até a porta. Outro abrir e
fechar...
Com cautela, Bink espiou pela beirada do cofre. Houve um movimento no
rabo de olho, mas era apenas Chewie erguendo o corpo novamente e Winter
terminando de abrir a janela quebrada. Ela soltou um suspiro silencioso de alívio
momentâneo, muito ciente de que o que estava acontecendo em outro lugar da
suíte não prenderia a atenção do capanga para sempre, e se abaixou novamente
diante do cofre a fim de retomar o trabalho.
Bink tinha quase acabado quando Winter apareceu ao lado dela.
– Quase - sussurrou Bink, um pouco surpresa de que a outra tivesse passado
pela janela e pelo quarto sem fazer barulho algum. Talvez Winter fosse mais
experiente em atividades criminosas do que ela imaginara.
Ela digitou o último número, e o mecanismo emitiu um clique suave. Bink
cruzou os dedos mentalmente, torcendo para que não houvesse um alarme
escondido que ela não tivesse visto, e girou a alavanca...
De um ponto distante veio o som baixo de uma explosão. Bink virou a cabeça
na direção da porta...
– Deve ser a nossa distração - sussurrou Winter. - Rápido.
Bink trincou os dentes, jogou o corpo para trás e aplicou todo o peso do corpo
na alavanca. A porta pesada abriu-se lentamente.
Ela sentiu os olhos se arregalarem. O cofre estava vazio.
Não, não exatamente. Na prateleira do meio havia um datapad de aparência
estranha.
– Mas quê...
Bink parou de falar quando Winter esticou a mão e pegou o aparelho. Ela deu
um passo para o lado, foi para a luz e virou rapidamente o datapad nas mãos.
Então, ao voltar, recolocou o datapad no cofre.
– Hora de partir - sussurrou Winter e retornou para a janela.
– Só pode ser brincadeira — murmurou Bink para si mesma, em tom amargo.
Um datapad. Ela arriscou a vida por um maldito
datapad.
Bink fechou o cofre, trancou a porta e acompanhou Winter até o outro lado do
quarto.
Um longo minuto depois, ela estava em segurança do lado de fora, com a
placa de transparaço de volta ao lugar, a janela fechada, e os tampões que ela
cortara em ambas recolocados. Por enquanto, os tampões estariam visíveis,
porém, mais três minutos e o adesivo que Bink usara para colá-los teria juntado
tudo, não deixando sequer um sinal de que a vidraça e a placa foram cortadas.
Os apoios de betume que ela prendera à lateral do prédio para fixar o arnês
foram os últimos a serem retirados, após derreter o adesivo com alguns jatos do
spray de solvente.
Feito isso, Bink estava de volta, seguindo Chewie e Winter, disparando os
ganchos e balançando de árvore em árvore o mais rápido possível. Ela tinha
sobrevivido a mais uma operação, e quanto mais cedo estivesse de volta à suite
em segurança, mais feliz ficaria.
Só restava a Bink torcer para que a pessoa do grupo de Solo que tinha criado a
distração explosiva também retornasse ilesa.

A bomba era minúscula, um pequeno estalinho que Kell havia montado para a
ocasião, com muita fumaça e som e pouca fúria de fato. Não era suficientemente
poderosa para derrubar Dozer.
O sujeito com a arma de raios, por outro lado, foi derrubado. Dozer caiu de
costas no carpete espesso, com a mão esquerda do homem espalmada contra o
peito até os dois atingirem o chão, e a arma pressionada com a mesma força na
bochecha esquerda de Dozer. Em algum momento, o som da explosão teve como
eco o barulho da porta da suite sendo fechada com força.
Dozer teve a intenção de gritar alguma coisa em tom de medo, algo que se
encaixasse no personagem de um espectador inocente. Mas o impacto com o
piso o deixou quase sem ar para ofegar. De rabo de olho, embaixo dos anéis de
fumaça e atrás das pernas do sujeito agora ajoelhado ao seu lado, ele viu mais
dois homens armados correrem na direção da escadaria, com as armas de raios
fora dos coldres e de prontidão.
Mentalmente, Dozer fez um gesto negativo com a cabeça. Homens corajosos,
e sem dúvida muito durões. E também muito estúpidos. Eles não faziam ideia se
havia um ou vinte homens à espreita na escada para onde avançavam. Se Dozer
estivesse no comando, ele teria enviado um esquadrão de cinco integrantes ou
nenhum.
Mas era um Falleen que mandava ali, e os Falleens eram conhecidos por não
se importarem com nenhuma outra raça que não fosse a própria.
No fim do corredor, a porta da escadaria fez um baque ao abrir quando os dois
homens avançaram, preparados para matar ou morrer a mando do chefe.
Felizmente para eles, desta vez os dois não tinham com que se preocupar, de
uma forma ou de outra. Após o estalinho de Kell e o lançador-relógio a mola de
Zerba, aquela escada estava deserta há muito tempo.
– Não se preocupe, nós vamos pegar seu amigo — disse o homem inclinado
sobre Dozer. — Será bem mais fácil para você se
íaiai agora.
– Sou apenas um mensageiro — Dozer conseguiu colocar uma boa tremedeira
na voz, como um homem realmente assustado faria.
– Só vim aqui entregar um pacote.
– E fazer a gente abrir a porta para que seu amigo rolasse uma bomba em cima
de nós?
– Eu não sei nada sobre bomba alguma - reclamou Dozer, colocando um
pouco mais de tremedeira na voz. Não foi tão difícil assim, não com uma arma
de raios pressionada contra a bochecha.
– Veja bem, eu estava bem ali com você. Acha que eu quero ser explodido?
O homem resmungou.
– Gorkskin? Fale comigo.
– Parece verdade — respondeu alguém fora do campo de visão de Dozer,
relutantemente. - Tem uma marca de empresa aqui que bate com o banco de
dados da Cidade de Iltarr. E há um pedido de entrega para Mencho, com hora e
lugar.
O guarda de Dozer resmungou de novo.
– Abra. - Ele ergueu as sobrancelhas. - Algo contra, mensageiro?
Dozer considerou salientar que a caixa só poderia ser legalmente aberta pelo
próprio destinatário. Diante das circunstâncias, ele decidiu que isso fugiria
totalmente ao personagem. Sem falar que seria uma estupidez perigosa.
– Não - respondeu Dozer.
– Ótimo. Gorkskin?
– Está trancada - disse Gorkskin.
– Tem certeza?
Houve uma rápida sucessão de dois disparos de armas de raios, e Dozer fez
uma careta quando a onda de calor bateu no rosto.
– Acho que não - respondeu Gorkskin sarcasticamente. Houve outro barulho
quando ele quebrou o estojo de segurança danificado para abri-lo. — Ora, ora.
Você vai adorar isto aqui, Wivi. A caixa está cheia de dinheiro. Quinhentos ou
seiscentos créditos, no mínimo.
A arma de raios na bochecha de Dozer se afundou um pouco mais.
– Ora, ora — disse Wivi, com a voz em um falso tom casual. - Estou curioso
para saber quem gosta tanto de Mencho a ponto de enviar créditos para ele.
– Todo em moedas também - falou Gorkskin. - Não em uma ficha de crédito
bacana, facilmente rastreável.
– Claro que não - disse Wivi. — Vamos tentar de novo, mensageiro. Quem
mandou você?
– Eu lhe disse - respondeu Dozer, com o máximo de medo e confusão no tom
de voz, se perguntando, preocupado, se dera um passo maior do que as pernas.
Eles viram o cenário falso que Rachele plantara no datapad e nos registros da
cidade, e ainda assim não estavam acreditando. Se Solo tinha mais provas, era
melhor se apressar e exibi-las.
– Sou apenas um mensageiro... - repetiu Dozer.
– Do Serviço de Entregas Quickline - completou uma nova voz calmamente.
Dozer sentiu um nó no estômago. Na superfície, a voz era tranquila, pacata e
bem civilizada. Mas aquele ar de civilidade tinha a espessura de uma molécula...
e por baixo havia algo frio, sombrio e muito, muito maligno.
– Com todo respeito, lorde Aziel, o senhor não deveria estar aqui — disse
Wivi, em um tom de voz subitamente respeitoso. — Não até que tenhamos
protegido a área.
– Não há perigo - falou a voz.
Dozer notou que havia algo de diferente no cheiro do corredor, e então, para
sua surpresa, ele sentiu o coração desacelerar e foi tomado por uma nova onda
de calma. Talvez o recém-chegado, esse tal de lorde Aziel, pudesse fazer algo a
respeito de sua enrascada.
– O agressor, seja lá qual for seu objetivo ou plano, foi embora há muito
tempo - continuou a voz. - E este homem é o que alega: um mero mensageiro.
– Senhor, nós não confirmamos isso ainda - falou Gorkskin.
– Então vamos confirmar — disse a voz. - Deixem que ele fique de pé.
Wivi deu um último olhar frustrado de desprezo para Dozer. Então,
relutantemente, ele tirou a arma de raios da bochecha de Dozer e se levantou.
Após outro segundo de hesitação, Wivi estendeu o braço e ofereceu a mão.
Dozer também hesitou, apenas a fração de segundo que um transeunte ainda
assustado hesitaria, depois pegou a mão oferecida e deixou que Wivi o erguesse
de pé.
E quando ele começava a ajeitar o casaco, Wivi virou Dozer de lado, e ele se
viu cara a cara com o Falleen que eles observaram do outro lado do parque, mais
cedo.
Só que o alienígena não era tão ameaçador como aparentara naquela ocasião.
Na verdade, conforme Dozer encarava o rosto de escamas verdes e os olhos
azul-escuros, ele não conseguia sequer se lembrar por que Solo e os demais
pensaram que o Falleen era alguém com quem eles deveriam se preocupar, antes
de mais nada. Aquele era um cavalheiro da mais alta estirpe, longe de ser alguém
que se envolveria em algo tão vulgar quanto atividades criminosas.
– Você é mesmo um mensageiro? — perguntou Aziel.
Dozer engoliu em seco e foi tomado por uma onda de culpa e arrependimento.
O Falleen diante dele era tão honorável e carinhoso. Sequer pensar em mentir
para uma pessoa assim pareceu ser uma traição de tudo que era correto e decente
sobre o universo.
E, no entanto, uma pequena parte insistente de sua mente lembrava que havia
uma razão para Dozer estar ali. Havia alguma coisa sobre aquela situação que
era vital que ele mantivesse em segredo, mesmo deste esplêndido Falleen. Vital
para as vidas de outras pessoas, bem como a própria vida de Dozer.
Talvez ele conseguisse agradar a ambas as partes. Dozer certamente trouxera o
estojo de segurança ali a pedido de Solo. Então...
– Sim - respondeu ele. - Eu sou um mensageiro.
– Do Serviço de Entregas Quickline?
Dado que a empresa não existia de verdade e que Dozer era literalmente seu
único funcionário:
– Sim.
– Você teve algo a ver com aquela explosão?
O estalinho tinha sido obra de Kell, o sistema de ativação fora de Zerba, e o
plano tinha sido de Solo.
– Não - disse Dozer.
– Muito bem - falou Aziel.
O Falleen olhou para os dois brutamontes - porque era isso que todos eles
eram, Dozer se dava conta então: criaturas da ralé que mal podiam ser
consideradas sencientes quando comparadas à nobreza de seu chefe - e fez um
pequeno gesto.
– Devolvam o estojo e deixem que ele siga seu caminho.
– E os créditos? - perguntou Wivi.
– A ordem de entrega diz que eles devem ir para Mencho Tallboy — frisou
Aziel. — Então eles devem ser entregues. — Os olhos brilharam. — E ele pode
explicar então a origem e o propósito. Seja como for, o mensageiro pode seguir
seu caminho.
Dozer sentiu uma onda de gratidão quando Wivi entregou o estojo danificado
em silêncio. Havia tão poucas pessoas verdadeiramente gentis no Império
naqueles dias. Fora uma honra ter conhecido uma delas.
Foi só quando ele estava no turboelevador, a caminho do nível da rua, que a
sensação começou a desaparecer, e Dozer lentamente começou a perceber o que
acabara de acontecer com ele.
E como, com um pouquinho menos de cuidado da parte dele, Dozer poderia
ter entregado todo o plano.
Ele ainda estava tremendo quando Han levou o airspeeder novamente para o
trânsito do fim de noite.
CAPÍTULO

– Chama-se cryodex — disse Winter quando o grupo estava novamente


reunido na suite com vista para a Mansão Marblewood.
– Era um antigo aparelho de encriptação alderaaniano, montado dentro de um
datapad especialmente modificado. Ao contrário dos métodos normais de
encriptação, que usam software e camadas, os padrões giratórios de ativação
singular eram montados diretamente no interior da máquina.
– Parece complicado - comentou Lando.
– Sem falar que é ineficiente - acrescentou Tavia. - Se a encriptação se torna
obsoleta, a pessoa tem que jogar fora o aparelho inteiro e montar um novo.
– Na teoria, sim - disse Winter. - Mas o sistema tinha duas vantagens.
Primeiro, uma mensagem encriptada por um cryodex só poderia ser lida por
outro cryodex. Isso significa que a pessoa podia manter um aparelho em cada
ponta do canal diplomático, sem se preocupar em transmitir uma chave de
encriptação de um lado para o outro, ou confiar que um mensageiro a entregasse.
– Um ladrão ainda seria capaz de interceptar a mensagem em si – salientou
Tavia.
– Verdade - concordou Winter. - Mas não serviria de nada... porque a segunda
vantagem é que a mensagem encriptada por um cryodex não pode ser decriptada.
Por ninguém. Jamais.
– Sério? - perguntou Lando, com um leve tom de ceticismo educado na voz.
– Sério - disse Winter, em um tom incisivo que Han ainda não tinha ouvido
antes. - Em duzentos anos de uso, nenhuma encriptação de cryodex jamais foi
quebrada.
Elan aquiesceu para si mesmo quando uma parte da aura de mistério de
Winter ficou clara, e ele subitamente compreendeu o ar de tensão e tristeza que
ela tinha.
– Você sabe disso por experiência própria? - perguntou Han.
Winter se virou para encará-lo, e por um momento os dois sustentaram o
olhar. Han observou Winter travar uma breve batalha consigo mesma e chegar a
uma decisão relutante.
– Sim - respondeu ela baixinho. O breve momento de contundência passou e
deixou apenas a tristeza. - Eu estava envolvida com o palácio real de Alderaan.
Houve um momento de silêncio enquanto os demais assimilavam aquela
informação. Os detalhes oficiais a respeito do único tempo de serviço da Estrela
da Morte ainda eram incompletos, Han sabia, mas a destruição de Alderaan
estava por toda a HoloNet.
– Eu sinto muito - murmurou Rachele finalmente.
– Obrigada - respondeu Winter, novamente equilibrada.
Brevemente, Han se perguntou como ela conseguira tirar o assunto da mente
tão rápido. Ele tinha visto como a princesa Leia e os demais em Yavin foram
afetados, e mesmo que Han não tivesse perdido um bando de amigos ou
familiares, ainda fora um forte soco no estômago ter voado atrás de um enxame
de rochas que antes havia sido um mundo próspero. Ou Winter tinha um
tremendo autocontrole, ou era realmente boa em reprimir memórias.
– Eu não contei isso para provocar empatia - continuou ela. - Eu contei, como
Han disse, para que vocês entendam que eu sei pessoalmente do que estou
falando.
– Então, de onde vem esse cryodex em especial? - perguntou Zerba. - Alguma
ideia?
Winter contraiu os lábios levemente.
– Havia 137 cryodexes cujas existências eram conhecidas até... - Ela se
interrompeu. - Todos, menos oito, estavam em Alderaan - continuou Winter. -
Desses oito, sete estavam em mãos de autoridades diplomáticas do alto escalão. -
Ela hesitou. - O oitavo sumiu há quatro anos, supostamente roubado.
– Três chances para adivinhar qual dos oito é este aí - murmurou Kell.
– Você faz alguma ideia de quem roubou o cryodex? - perguntou Bink.
– Um possível ladrão foi identificado - falou Winter. - Mas jamais
descobrimos se ele de fato roubou e, se roubou, para quem entregou o cryodex.
– Eu presumo que os demais foram desligados quando aquele sumiu? -
indagou Lando.
Winter concordou com a cabeça.
– Eles continuaram sendo usados ocasionalmente para objetivos menores, mas
toda a encriptação diplomática de alto nível foi imediatamente mudada para
outros métodos.
– Espere um pouco - disse Tavia, subitamente franzindo a testa.
– Você disse que apenas um único criodex foi roubado?
– Ela está certa - falou Zerba endireitando um pouco mais as costas. - Você
acabou de dizer que são necessários dois cryodexes para enviar uma mensagem.
Que uso alguém teria para apenas um?
– Talvez a pessoa já tivesse acesso a um dos instrumentos diplomáticos -
sugeriu Bink sem muita certeza. - Não, não é isso. Se ela já tinha um, por que
perder tempo roubando outro? A pessoa simplesmente poderia decriptar
qualquer fofoca diplomática que quisesse ler e enviar a mensagem para quem
mais quisesse a informação.
– Eu não sei a motivação por trás do desaparecimento do cryodex - disse
Winter. - O motivo por nunca termos sabido o que aconteceu foi que o suposto
ladrão morreu pouco tempo depois de ter sido preso.
Kell sentiu um arrepio.
– Que beleza.
– O que você esperava? - murmurou Dozer.
O tom de voz era sombrio, os olhos melancólicos encaravam fixamente o
copo alto de cerveja que ele se serviu no momento em que eles chegaram à suite.
Até onde Han se lembrava, aquelas eram as primeiras palavras que o homem
falava desde que haviam voltado lá do Hotel Lulina Crown.
– O que você quer dizer? - perguntou Tavia.
– Quero dizer que obviamente o ladrão morreu sob custódia - rosnou Dozer,
olhando feio para ela. - Estou surpreso de que não tenha morrido a caminho da
custódia. Essas pessoas são más, Tavia; um mal puro e sem limites. Eles matarão
qualquer um que se intrometa. - Ele abaixou o olhar de volta para a bebida.
Incluindo nós.
– Uau - falou Bink ao observá-lo com atenção. - É aquele Dozer ex-ladrão de
naves corajoso que estou ouvindo?
Dozer balançou a cabeça.
– Você não estava lá, Bink - disse ele. - Você não o encarou. Não o ouviu.
Você sabe que eu estive a uma rodada de sabacc de entregar todo o plano? E sem
motivo algum, só porque ele perguntou com educação.
– Você não nos entregou, não foi? - perguntou Zerba, ansioso.
– Você acha que eu estaria sentado aqui se tivesse entregado? - disparou
Dozer. - Mas eu cheguei perto. Perto demais. E vou dizer outra coisa. - O olhar
passou pela sala e finalmente parou em Eanjer. - Não tenho mais certeza se esta
operação vale a pena. Se eles descobrirem quem somos e o que estamos
tramando, estamos mortos. Simplesmente mortos.
– Eles não são Jedi, Dozer - disse Eanjer em um tom reconfortante. - Você
esbarrou com feromônios de um Falleen, só isso. Eles usam os feromônios para
manipular a pessoa e torná-la...
– Ele gesticulou com a mão boa. - Sei lá, a melhor amiga deles, escrava, o que
for. A questão é que você não cedeu, e agora que sabe o que está enfrentando,
você consegue combater.
– E se eu não conseguir? - disparou Dozer. - Ou se um de vocês for pego e
não conseguir?
– Ainda estamos falando de 163 milhões de créditos — salientou Bink. - Por
esse tipo de recompensa, eu, por exemplo, sou perfeitamente capaz de resistir a
uma sala cheia de Falleens.
– Tem certeza disso? - reagiu Dozer. - Porque eu não tenho.
Chewbacca rosnou.
– É, não vamos pular do telhado aqui - concordou Han. - Dozer está certo: ter
um Falleen envolvido pode significar problemas. Mas Bink também está certa:
há muitos créditos em jogo. O suficiente para todos nós mudarmos de vida se
quisermos.
– É igual quando se recebe a mão perfeita - murmurou Lando.
– É preciso enxergá-la, reconhecê-la e apostar alto.
Han franziu a testa e se perguntou se aquilo fora alguma espécie de indireta
para ele. Mas Lando apenas olhava pensativo para a mesinha de centro.
De qualquer forma, Lando era a menor das preocupações agora. Toda a lenga-
lenga de Dozer sobre seu nervosismo novinho em folha estava começando a
afetar o resto do grupo. Se o sujeito não calasse a boca, o plano todo poderia
desandar...
E se o grupo desmoronasse, a missão também desmoronaria. Cada um voltaria
à sua própria vida, e qualquer chance de Han e Chewbacca se livrarem de Jabba
sumiria.
Ele não deixaria isso acontecer. Não apenas porque um Falleen estava
envolvido. E certamente não porque Dozer havia descoberto a covardia.
– Vamos parar por alguns minutos - sugeriu Han. - Andar pela suite, admirar a
cidade, beber, fazer o que vocês quiserem. Pensem a respeito, e nós voltaremos
aqui em uma hora. Ok?
– Para mim, parece ótimo - disse Lando ao se levantar.
– E se alguém tiver um contato com a polícia, é uma boa acioná-lo — sugeriu
Rachele enquanto o restante do grupo se levantava das poltronas e sofás. - Agora
que sabemos que estamos lidando com um Falleen, pode haver alguma
informação oficial por aí sobre quem ou o que estamos encarando.
– Boa ideia — concordou Han. - Você vai acionar algumas pessoas também?
Ela deu um sorrisinho.
– Eu já tenho uma lista.

O plano de Dayja, assim que chegou à sacada, era prender uma sonda à janela,
ouvir o que as pessoas lá dentro diziam e tentar entender quem ou o que elas
eram.
Ele não esperava chegar ao destino justamente quando o grupo estava se
desfazendo.
Mas era o que estava acontecendo. O grupo inteiro — nove humanos, um
Wookiee, um quase-humano, provavelmente um Balosar - estava de pé, indo em
direções diferentes dentro da sala de estar, aparentemente a caminho de cantos
diferentes da suíte.
Dayja murmurou um xingamento ao recuar para a lateral da sacada, fora do
campo de visão das janelas. O veículo que ele notara andara vigiando
Marblewood, sim, e seguiu um comboio não identificado de lá até o Hotel
Lulina Crown. O rastreador voltara para lá, e depois ele e a maioria do grupo, se
não todo, tinha ido embora e se reunido no hotel do outro lado do parque, em
frente ao Lulina Crown. Alguns saíram, outros foram para a frente do hotel, e
finalmente o grupo inteiro retornou para a suíte, que Dayja temporariamente
identificara como o principal quartel-general.
Tinha sido muita correria para um dia só, especialmente considerando que não
tinha dado nenhum resultado aos olhos de Dayja. E não fosse pela explosão tarde
da noite no Lulina Crown, Dayja teria decidido que tinha coisas melhores a fazer
e deixado o grupo e suas atividades aos cuidados da polícia local.
A explosão, porém, colocara aquela decisão fora de cogitação. Atentados à
bomba geralmente eram associados a roubo, sequestro, assassinato ou grave
dano à propriedade. Mas aquela explosão não estava ligada a nada dessa lista. O
fato levava inexoravelmente à conclusão de que o incidente tinha sido uma
distração.
Mas uma distração para quê? Naquele momento, D’Ashewl estava sentado na
suíte do hotel examinando as informações da polícia, mas até então não havia
detectado nenhum crime que a explosão pretendesse confundir, distrair ou
abafar.
Ainda assim, Dayja não tinha dúvida de que aquelas pessoas estavam
envolvidas. Então ele descobriu a suíte do grupo, encontrou um quarto vazio três
andares acima deles e desceu por rapei até a sacada.
Só para descobrir que seus pseudoinformantes inocentes estavam encerrando
o expediente.
Dayja ainda estava tentando decidir o que fazer a seguir quando notou que um
dos ocupantes da suíte, aquele com a mão e metade do rosto medselados, vinha
para a porta da sacada.
Dayja levou a mão à faca escondida enquanto a mente disparava. Ele podia
correr, se esconder ou atacar.
Ou podia fazer o que foi ali fazer.
Dayja esperou até que o homem percorresse todo o caminho até a sacada e se
instalasse com os cotovelos no parapeito, olhando as luzes de Marblewood do
outro lado. Então, de olho na janela ao lado para garantir que eles não fossem
interrompidos, Dayja deu alguns passos na direção do recém-chegado.
– Boa noite - disse ele baixinho.
Por uma fração de segundo o homem não reagiu, como se os ouvidos tivessem
dificuldade em mandar um alerta para o cérebro. Jzntao, como uma súbita lutada
de vento, um arrepio passou pelo corpo do sujeito. Ele virou meio corpo para
Dayja, e o único olho perfeito se arregalou. Ou o homem tinha as reações mais
lentas da galáxia, ou tinha tanto remédio para dor dentro do organismo que vivia
em um nevoeiro permanente. Considerando o tamanho da área de medselo em
questão, Dayja achou que provavelmente fosse a segunda opção.
– Quem é você? - exigiu o homem, com a voz tensa. - Não... fique aí.
– Calma, eu não vou machucar você - disse Dayja em tom reconfortante,
dando mais alguns passos à frente. - Só quero conversar.
O único olho do sujeito lançou um olhar para a janela, e o olho prostético
implantado no medselo brilhou hipnoticamente na confusão das luzes da cidade.
– Sobre o quê?
– Sobre você. - Dayja gesticulou para a sala de estar vazia. - Sobre eles. Seu
interesse em Avrak Villachor. Esse tipo de coisa. - Ele ergueu as sobrancelhas. -
Você está interessado em Villachor, não é?
A língua do homem surgiu brevemente no lábio superior.
– Você é um dos homens de Villachor?
– Longe disso - garantiu Dayja em um tom seco. - Meu nome é Dayja. Qual é
o seu?
O olho do homem se voltou para a janela novamente.
– Eanjer.
– Vejo que é um nome local — comentou Dayja. — Interessante. E quanto aos
seus amigos? A maioria não é da cidade, correto?
Eanjer franziu a testa, e o olho percorreu a sacada como se ele subitamente
tivesse se lembrado ae onae os dois estavam.
– De onde você veio? - perguntou Eanjer. - Como chegou aqui em cima?
– Ah, não vamos falar sobre mim - repreendeu Dayja. - Vamos falar sobre
você e seus amigos. O que todos vocês estão fazendo na Cidade de Iltarr?
O rosto de Eanjer ficou sério.
– Procurando justiça.
– Isso é bom - falou Dayja em tom encorajador. - Isso é muito bom. Veja bem,
eu também procuro justiça. - Ele encarou a pupila do olho remanscente de
Eanjer, sabendo que a primeira e mais honesta reação viria dali. - Eu sou da
Inteligência Imperial.
Novamente, Eanjer arregalou o olho. Desta vez, Dayja estava suficientemente
perto para ver a pupila crescer junto com o olho.
Ela cresceu, mas rapidamente voltou ao tamanho normal. A revelação
assustara o sujeito, mas ele tinha se recuperado rapidamente.
– Você tem como provar? - perguntou Eanjer.
– Sim - respondeu Dayja, ele próprio lançando um olhar para a janela.
Mais cedo ou mais tarde, um dos outros acabaria voltando. Não seria bom que
ele e Eanjer estivessem conversando ali quando aquilo acontecesse.
– Diga-me - continuou Dayja -, você está confinado a esta suíte? Ou pode sair
e entrar quando quiser?
Eanjer deu um muxoxo baixinho de desdém.
– Eu saio e entro quando quero, é claro. Você pensou que eu fosse um
prisioneiro?
Dayja foi evasivo ao dar de ombros.
– Você joga sinuca?
Novamente, a única pupila de Eanjer se arregalou brevemente antes de voltar
ao normal.
– Sim, por quê?
– Há uma mesa na biblioteca lá embaixo, no segundo andar, logo na saída do
tapcaf - informou Dayja. - Será um lugar bacana e reservado para conversarmos.
– Tenho certeza de que será - falou Eanjer com um toque de nervosismo na
voz.
– Não se preocupe, eu só quero conversar - garantiu Dayja. - Talvez comparar
algumas anotações. Eu tenho a impressão de que você tem informações úteis
para mim. - Ele deu um sorriso matreiro. - Eu sei que tenho informações úteis
para você.
Eanjer respirou fundo e chegou a uma decisão.
– Tudo bem - respondeu ele. - Temos uma hora antes de nos reunirmos
novamente.
– Ótimo - disse Dayja, voltando ao fim da sacada e ao arnês de gatuno que o
esperava. - Eu encontro você em cinco minutos. Se chegar antes, arrume as bolas
e escolha um taco.

Ao longo dos anos, Dayja passara um bom tempo em salões de sinuca e bilhar
como aquele ao lado do tapcaf do hotel. Porém, dado que a maioria das visitas
havia sido para obter informação ou vigiar um suspeito em vez de realmente
tentar dominar o jogo, ele nunca se tornara um jogador muito bom.
Ainda assim, contra um homem com um braço medselado e provavelmente
com uma prótese alienígena, Dayja calculou que teria uma boa chance.
Para sua surpresa, ele não teve. Nem mesmo com Eanjer joganao com a mao
esqueraa e tenao que equiiiDrar a ponta ao
taco atabalhoadamente sobre o pulso enfaixado.
Mas tudo bem. Na verdade, estava tudo ótimo. Dayja aprendera há muito
tempo que esportistas competitivos falavam mais livremente quando estavam
ganhando.
E o que Eanjer falava valia muito a pena escutar.
– 163 milhões, hein? - comentou Dayja enquanto observava Eanjer se preparar
para outra tacada. - São muitos créditos. E você disse que o valor vai ser
dividido entre onze pessoas?
– Eu disse que seria dividido igualmente - corrigiu Eanjer. Ele deu uma tacada
de leve na bola branca. Dayja observou-a bater na bola três, que caiu
perfeitamente na caçapa da quina. - Eu nunca disse que éramos onze.
– Erro meu - disse Dayja. - Ainda assim, me parece que você deveria ficar
com mais do que apenas uma parte, uma vez que as fichas de crédito eram suas,
antes de mais nada.
Eanjer deu de ombros.
– Cem por cento de nada é nada - disse ele ao dar a volta para o fim da mesa.
Eanjer alinhou o taco contra a bola branca e mirou na bola seis desta vez.
Puxou o taco para a tacada, mas antes disso a bola seis piscou e ficou preta
abruptamente.
Eanjer praguejou baixinho.
– Que pena - Dayja se compadeceu. - Mas poderia ter sido pior. Eu já vi a bola
ficar preta justo quando o jogador ia dar a tacada na branca, sem poder parar a
tempo. A essa altura, tudo que o jogador pode fazer é praguejar ao dar sequência
à jogada e ver a própria tacada lhe custar a partida.
– E a seguir ouvir a risada do oponente, imagino eu - falou
Eanjer, dando um olhar maligno para Dayja ao reposicionar a tacada. - Vamos
ao que interessa, que tal? Você quer que o acordo seja uma divisão em doze
partes?
– De maneira alguma - garantiu Dayja. - Eu não estou interessado em
Villachor e seus créditos adquiridos de forma ilícita. Só estou interessado no
convidado de Villachor... e no pequeno tesouro do convidado.
– E o que seria esse misterioso tesouro exatamente?
Dayja franziu os lábios. Isso seria arriscado, mas não tão arriscado quanto
encarar Villachor e Qazadi sozinho.
– Farei um acordo com você - ofereceu ele. - Eu lhe conto tudo sobre o
tesouro e dou qualquer apoio sigiloso de que você precisar, desde que você o
traga para mim assim que invadir a caixa-forte de Villachor. Em troca, você me
promete que não contará para os demais onde conseguiu a informação e me
manterá informado sobre seu andamento.
Eanjer o encarou com atenção.
– E você nos deixará seguir com o plano? Você, um agente da lei, nos deixará
simplesmente entrar lá e roubar Villachor?
– Sim, porque eu estava planejando fazer exatamente a mesma coisa -
respondeu Dayja. - Dessa maneira, seremos capazes de juntar nossos recursos e
informações, e tomara que possamos nos ajudar.
– Com meu grupo correndo todos os riscos.
– E levando a maior parte das recompensas - salientou Dayja. - Além disso,
após o golpe de vocês no Lulina Crown na noite de hoje, eu poderia prender todo
o grupo agora mesmo se quisesse. Como você disse, cem por cento de nada é
nada.
Por um momento, os dois se encararam em silêncio.
– Tudo bem - disse Eanjer finalmente. - Vamos ouvir.
– Certamente - falou Dayja. Ele pousou o taco na borda da mesma e
gesticulou para uma fileira de assentos ao lado. - Vamos nos sentar, e eu contarei
a respeito de uma organização criminosa conhecida como Sol Negro. E sobre a
coleção secreta e altamente lucrativa de arquivos de chantagem que eles
mantêm.
CAPÍTULO

Han deu um olhar de surpresa, sentindo um nó forte no estômago.


– Você está brincando — disse ele categoricamente.
– Eu pareço estar brincando? - reagiu Eanjer. - Eu sei que isso parece
inacreditável, e admito agora mesmo que eu não sei se é realmente verdade. Mas
meu informante definitivamente acredita nisso, e até agora nunca se enganou.
– E o nome de seu informante é...? - perguntou Tavia.
– Desculpe — falou Eanjer. - Por enquanto eu tenho que manter essa
informação confidencial.
– E ele realmente tem certeza de que Villachor trabalha para o Sol Negro? -
perguntou Dozer com um tom de voz sombrio.
– Tem sim - respondeu Eanjer. — Embora, de novo, eu não tenha provas.
– Você não precisa de provas - disse Rachele baixinho. — É verdade.
Han se voltou para ela, ciente de que todos os demais no ambiente estavam
fazendo o mesmo.
– Você sabia? — reclamou Han. — E não nos contou?
– Eu não sabia — respondeu ela, um pouco na defensiva. - Mas como todo
mundo na elite de Wukkar, eu suspeitava de uma ligação há anos. Quando você
veio a mim com o problema de Eanjer... - Rachele encolheu os ombros. - Eu
torcia para que todos nós estivéssemos errados, creio eu. Que Villachor fosse
apenas um criminoso nojento normal, aqui do local.
– Na verdade, isso faz muito sentido - disse Lando, pensativo. - Não quem
Villachor é, mas sim que o cerne do poder político do Sol Negro advenha da
chantagem de autoridades do alto escalão. Muito mais fácil e barato do que
suborná-las.
– E manter esses arquivos em um conjunto portátil de datacards é
simplesmente perfeito — concordou Bink. — Mesmo que um dos inimigos de
Xizor conseguisse passar por todas as autoridades assustadas que o ajudam e
conseguisse pegá-los, o sujeito nem saberia por onde começar a procurar.
– Você faz ideia de quantos datacards há no conjunto? - perguntou Han.
– Meus contatos dizem que devem ser cinco, enfiados em alguma espécie de
caixa de madeira chique, laqueada à mão, que ninguém de fora do Sol Negro
jamais viu - respondeu Eanjer. — A coisa toda deve ser suficientemente pequena
para caber em uma bolsa ou mesmo em uma pochete. Como Bink disse,
facilmente – Isso explica o cryodex também - disse Winter. — Encriptação
perfeita e ilegível, e o único momento em que é necessário juntar os dois é
quando você quer mostrar para uma pessoa o segredo específico que sabe sobre
ela.
– Então por que manter o cryodex em um hotel no centro da cidade em vez de
dentro da caixa-forte de Villachor com os arquivos em si? - perguntou Zerba. —
Bink acabou de provar que lá é bem menos seguro.
– Como eu disse: mantê-los separados significa que ninguém sabe onde
procurar - falou Bink. - É sempre melhor manter a chave e a fechadura afastados,
se possível.
– E, neste caso, ninguém sequer sabe o que está procurando - acrescentou
Eanjer. - Tenho certeza de que meu informante não faz a menor ideia de que há
um cryodex envolvido.
– Pode haver outro motivo para manter o cryodex aqui - disse Han, com uma
ideia nova e interessante começando a se formar na mente. Se o cryodex estava
sendo mantido longe da casa de Villachor porque o Falleen não confiava no
sujeito, uma nova abordagem podia estar surgindo diante deles. - Winter, você
consegue fazer um cryodex para nós? Não um cryodex que funcione, apenas
algo parecido?
– Certamente — disse Winter, olhando pensativa para Han. - Seria uma
modificação relativamente simples de um velho datapad CompóOO, presumindo
que nós consigamos arrumar um.
– Deve haver alguns pela cidade, em algum lugar — falou Rachele. - Eu vou
atrás de um para você.
– Esperem um instante - Tavia se manifestou em tom de alerta.
– Se você está pensando o que eu acho que está pensando, a resposta é não.
Bink não vai voltar lá. Não depois do joguinho com bolas saltitantes de Kell e
Zerba lá fora no corredor.
– Pena que ela não pegou o cryodex quando teve a chance - murmurou Kell.
– Ela não podia — disse Tavia. - Os sensores de energia, lembra?
– Bink poderia ter retirado a energicélula.
– Nós não sabíamos, é tarde demais agora, e não vamos falar sobre isso —
falou Han com firmeza.
– E não teria feito diferença se ela tivesse pego o cryodex - disse Lando. -
Meia hora depois de ele desaparecer, os arquivos teriam saído de Wukkar a
caminho do Centro Imperial.
– Pelo menos eles não teriam conseguido usar os arquivos contra qualquer
outra pessoa - salientou Kell.
– Claro que teriam - desdenhou Lando. — Você acha que Xizor é burro de
guardar todos os ovos na mesma cesta? Ele deve ter um cryodex de reserva
enfiado em algum lugar.
– Apenas um cryodex foi registrado como roubado - lembrou Winter.
Lando deu de ombros.
– E daí?
– Por isso nós vamos nos concentrar nos arquivos, e não no cryodex — disse
Han. - Tavia, quanto tempo você levaria para montar um cuspidor, do menor
tamanho possível?
Tavia deu de ombros.
– Uns dois dias. De que tamanho você precisa?
– Do tamanho de um datacard - respondeu Han.
– Isso é bem pequeno - falou Tavia, franzindo a testa para o nada. - Mas acho
que consigo. Obviamente, para uma coisa desse tamanho, o receptor terá que
estar bem perto. Cem metros, talvez menos.
– Não deve ser um problema - garantiu Han. — Agora...
– O que é um cuspidor? — indagou Eanjer.
– Um grupo de sensores de amplo espectro com um gravador e
um transmissor intermitente integrados - explicou Bink. — A pessoa enfia o
aparelho no lugar que quer roubar, e ele cospe os detalhes relevantes sobre a
segurança, postos de vigia e tudo mais. Se a escolha da frequência for correta, o
sinal vai penetrar pelos campos de bloqueio de sensores do alvo.
– E ao enviá-lo por um sinal intermitente, não é preciso se preocupar com ele
ser detectado por uma rede transmissora — acrescentou Tavia, com o olhar fixo
em Han. - Obviamente, o cuspidor tem que estar dentro da caixa-forte para ter
alguma utilidade. Você tem alguma ideia de como realizar esse plano?
– Estou trabalhando nisso - garantiu Han. - Ok, a primeira tarefa é descobrir a
aparência desses datacards. Rachele, você disse que conhecia algumas das
pessoas que vêm entrando e saindo de Marblewood nos últimos dias. Você
consegue que alguém ali fale?
– Acho que não - disse Rachele torcendo o nariz. - A maioria eu só conheço
de vista.
– Eu talvez conheça uma delas - sugeriu Eanjer. - Quais eram alguns dos
nomes?
– Bem, havia Tark Kisima — respondeu Rachele, cujo olhar perdeu um pouco
do foco ao raciocinar. - Ele foi um dos primeiros. Eu também vi Alu Cymmuj,
Donnal Cuciv...
– Donnal Cuciv eu conheço - interrompeu Eanjer.
– Quem é ele? - perguntou Dozer.
– O homem no comando geral das listas de passageiros e remessas que
chegam ao Espaçoporto da Cidade de Iltarr - explicou Rachele. - Supostamente é
um cidadão bem honesto. Fico imaginando o que Villachor tem contra ele.
– Não importa — falou Eanjer. — Eu o conheço e tenho certeza de que
consigo fazer Donnal conversar comigo.
– Você consegue que ele fale sobre os datacards sem alertá-lo? — perguntou
Han.
– Especialmente sem que ele vá direto contar para Villachor? — acrescentou
Lando.
– Deixem isso comigo - disse Eanjer ao se levantar.
– Beleza - falou Han franzindo a testa. Não poderia ser assim tão fácil, ou
poderia? - Chewie, Dozer, vocês vão com ele.
– Não — respondeu Eanjer balançando a cabeça. - Desculpe, mas preciso
fazer isso sozinho. Donnal é uma pessoa muito reservada. Ele não dirá uma
única palavra se houver alguém lá além de mim.
– Você ao menos deveria levar alguém como acompanhante - disse Rachele.
— Você provavelmente ainda está na lista de procurados de Villachor.
– Não se preocupe, eu sei ficar longe de Villachor — falou Eanjer com um
tom de amargura na voz. - Eu ficarei bem.
Han olhou para Chewbacca, mas o Wookiee apenas soltou um rosnado
relutante concordando.
– Só tenha o cuidado de manter o comlink ligado - disse Han.
– E ligue se você sequer pensar que possa haver um problema. Você disse que
esse seu informante não sabe sobre o cryodex?
– Correto - respondeu Eanjer. - Na verdade, eu não creio que ele faça a menor
ideia de como o sistema funciona. Tudo que ele sabe é que os arquivos
provavelmente estão aqui e, se estiverem, então estão com Qazadi.
– Ótimo - falou Han. - Vamos manter assim.
– Certo. - Eanjer deu meia-volta e foi para a porta.
– Espere um minuto - disse Dozer subitamente. — Antes de ele ir, quero
esclarecer uma coisa.
– Claro - falou Han gesticulando para Eanjer parar. - O quê?
Dozer franziu os lábios.
– Quero garantir que ainda estamos todos juntos nessa missão — disse ele. -
Quero dizer, estamos falando do Sol Negro. Não foi para isso que nenhum de nós
veio.
– Justo - concordou Han olhando ao redor do ambiente. E aquele era o ponto
em que tudo permaneceria unido ou desmoronaria. — Alguém quer dizer alguma
coisa?
Houve um breve silêncio.
– Ainda há 163 milhões na caixa-forte, certo? - perguntou Bink finalmente.
– É claro - disse Eanjer.
– Então estamos todos dentro — disse Bink, que cutucou a irmã.
– Certo?
Tavia não pareceu muito contente, mas deu um aceno submisso com a cabeça.
– Certo.
– Mais o valor dos arquivos de chantagem, seja qual for - Winter se
manifestou. — Dependendo de quem atrairmos como comprador, eles podem
facilmente triplicar nossa recompensa final.
– Por mim está ótimo - falou Zerba.
– Por mim também — aprovou Kell.
Han olhou para Lando, que aquiesceu silenciosamente.
– Só sobrou você, Dozer. Se está com problemas quanto à missão, agora é a
hora de dizer.
O olhar de Dozer disparou pela sala. Depois, ele abaixou o olhar e soltou o ar
entre dentes cerrados.
– Não - respondeu relutante. - Se todo mundo está dentro, eu só trabalhei uma
vez, naquele lance de Tchine. Winter e Kell eu não conhecia mesmo.
– Mazzic recomendou os dois.
– Mazzic já se equivocou antes.
– Eles são aceitáveis - insistiu Han. — Você não precisa ficar se não quiser.
– Eu gosto daqui. - Lando sorriu um pouco. - Além disso, você precisa de
mim.
Han pensou em negar, mas, infelizmente, era a verdade.
– Então, o que você andou aprontando ultimamente?
– Não muita coisa - respondeu Lando gesticulando vagamente.
– Ganhando algumas, perdendo outras. E você?
Han deu de ombros. Eu peguei uns passageiros malucos, resgatei uma
princesa, lutei com stormtroopers e caças TIE, ajudei a salvar a galáxia e tive
minha recompensa levada embora por piratas.
– Não muita coisa - falou ele em voz alta. - Por que você está aqui?
– Rachele disse que você me convidou.
– Sei. Por que você está aqui?
Lando franziu os lábios.
– Para ser sincero, eu andei pensando sobre... você sabe. Tudo que aconteceu
entre nós. Venho pensando que talvez a culpa não seja toda sua como achei na
época. Que você não deu um calote proposital na gente, mas sim que você tem
um dedo podre para escolher as pessoas em quem confiar.
Han torceu a cara.
– É, eu tenho esse problema algumas vezes - admitiu.
– Eu notei. - Lando apontou para a porta com a cabeça. — Você conhece bem
esse tal de Eanjer?
– Eu o conheci há oito dias. Mas Rachele pesquisou a história dele. Parece
suficientemente genuína.
– Ele mencionou que Villachor era do Sol Negro em algum momento? -
perguntou Lando incisivamente. — Ou essa parte foi esquecida de alguma
forma?
– Ele não disse nada a respeito — respondeu Han. — Mas você ouviu o que
Rachele disse. Até mesmo os mandachuvas locais não sabiam. Eanjer
provavelmente também não.
– Talvez — disse Lando. - Mas sabemos agora. Você ainda quer cumprir a
missão?
– Seria bom tirar Jabba da minha cola para variar — falou Han. — E só os
créditos vão dar um jeito nisso.
– Então você vai trocar Hutts furiosos por Falleens furiosos. — Lando
balançou a cabeça. — Não tenho certeza se é um bom negócio.
– A pessoa joga com a mão que tem da melhor maneira possível - disse Han
franzindo a testa. - Você está tentando me fazer cair fora da missão?
– Estou tentando garantir que você não está dando um passo maior do que as
pernas — respondeu Lando. - Você é um contrabandista, Han. Eu sou um
apostador. Nós não somos golpistas ou ladrões. - Ele apontou com o polegar para
a outra ponta da suíte. - Até onde sei, nenhum deles fez algo nessa escala
também.
Han sabia que Lando estava certo. A coisa toda estava rapidamente
alcançando uma seriedade com que ele nunca sonhara quando a colocou em
andamento. O fato de que ele tinha que confiar que tantas pessoas assim
soubessem o que estavam fazendo só piorava a situação.
Ainda assim, não era a primeira vez que ele tinha que confiar nas pessoas.
Geralmente tudo dava certo.
Geralmente.
– Talvez não - admitiu Han. - Mas juntos temos todas as habilidades
necessárias para realizar a missão. Tudo que precisamos é do plano certo e de
um pouco de confiança.
– E você vai fornecer ambos?
– Com a ajuda de Chewie, Rachele e Bink - respondeu Han. - E de você, se
quiser contribuir com sua opinião.
– É claro - falou Lando com uma daquelas expressões inocentes que ele fazia
tão bem. - Somos velhos amigos aqui para fazer um serviço juntos, certo? - Ele
ergueu um dedo. - Mais uma coisa, antes que eu esqueça. Supondo que tudo
ocorra de acordo com o planejado, quero os arquivos de chantagem como minha
parte.
Han olhou espantado.
– Você quer o quê?
– Você me ouviu - disse Lando. - Eu conheço um cara que vai pagar um bom
dinheiro por eles.
– Não teremos um cryodex para adicionar ao acordo - alertou Han.
– O cara não vai se importar - garantiu Lando. - Mas ele se irrita fácil. É
melhor eu me aproximar do cara sozinho do que com o grupo.
– A-hã - falou Han quando as peças se encaixaram. - Então, qual é o Hutt?
Lando torceu a cara.
– Durga, se quer saber - respondeu ele relutantemente. - Ele ainda está bem
zangado com Xizor e o Sol Negro sobre todo o lance de Ylesia.
– Isso aconteceu muito em Ylesia.
– Foi o que eu ouvi dizer - disse Lando com apenas um toque de sarcasmo. -
Combinado?
Han pensou a respeito. Mesmo com a humilhação de Durga em Ylesia, ele
duvidava muitíssimo de que o Hutt pagaria mais do que algumas centenas de
créditos por um conjunto de datacards ilegíveis.
Mas era bem possível que Lando soubesse mais a respeito do atual estado de
espírito e situação de Durga do que ele. Se Lando achava que as suas chances
eram grandes o suficiente para abrir mão da partilha dos milhões de Eanjer, não
havia problema em tentar. Han certamente não tinha interesse em adicionar outro
Hutt à própria lista de clientes potencialmente insatisfeitos.
– Claro, por que não? - falou Han. - Datacards em vez de créditos.
– Obrigado - disse Lando, que tomou um último gole da caneca e se recostou.
- Então, me fale do seu plano.

Havia sido um longo dia, e como era de seu costume, Villachor saiu para a
varanda da suíte particular para alguns minutos de silêncio e relaxamento.
Era uma noite calma e agradável, sem nuvens e com apenas uma brisa
inconstante. As luzes da Cidade de Iltarr brilhavam em volta de Villachor - em
volta e acima, uma vez que a maioria dos prédios ao redor de sua propriedade
era muito mais alta do que a própria mansão modesta de quatro andares. Na
maioria das noites, ele se deleitava com a vista, imaginando que estivesse em
algum palanque da Velha República, dando ordens para um exército de criados
em volta dele, em silêncio humilde.
Naquela noite, porém, as torres escuras com pontinhos de luz pareciam
encará-lo com um olhar sombrio. E em vez de um soberano altivo, Villachor se
sentia um alvo no meio de um estande de tiro.
Algo estava acontecendo lá fora. Algo espreitava pelas ruas da cidade, talvez
estivesse de olho em um de seus portões neste exato momento. Algo que
potencialmente poderia acabar com tudo que ele havia criado naquele mundo e
naquele setor subornando, chantageando e assassinando.
E Villachor não fazia ideia do que era.
O painel no parapeito piscou indicando uma solicitação: Sheqoa, seu chefe de
segurança, estava na porta da suíte pedindo para entrar. Villachor girou o topo do
braço da cadeira, apertou o botão para que Sheqoa entrasse e fez uma aposta
particular consigo mesmo de que daquela vez ele ouviria a entrada do sujeito por
trás, na varanda.
Novamente Villachor perdeu a aposta. Os ex-soldados imperiais da tropa de
choque, afinal de contas, não eram famosos por fazer barulhos desnecessários.
– Eu recebi um relatório de Riston, senhor - falou Sheqoa, cuja voz vinha de
menos de 2 metros de distância. Ele havia entrado na varanda e andado um
bocado. - Ele diz que o brilhestim de Crovendif é legítimo e tem muita certeza
de que não veio de Kessel.
– Muita certeza? - reagiu Villachor. - Que porcaria é essa de muita certeza?
– Desculpe, senhor - disse Sheqoa, em tom respeitoso, porém firme. - Mas
Riston diz que não há como ter 100% de certeza, não com uma coisa criada
organicamente. Há muita variação nas próprias aranhas. O máximo que ele
consegue é ter 85% de certeza.
Villachor fez uma expressão de desdém - seu primeiro impulso foi se levantar,
marchar até o precioso laboratoriozinho de Riston e balançar o pescoço fino do
analista até que ele produzisse algo mais útil.
Mas aquilo não lhe renderia nada mais que uma satisfação momentânea. O
principal trabalho de Sheqoa era proteger Villachor, contudo, com o passar dos
anos, o grande ex- comandante também assumira a tarefa informal de agir como
um escudo entre o chefe e o resto do corpo de funcionários.
O que provavelmente era uma boa coisa. Quando havia algo a ser conquistado
com ameaças de violência, Sheqoa estava logo ali ao lado de Villachor,
entregando armas ou cuidando ele próprio da tarefa. Mas quando não havia,
Sheqoa também estava ali para evitar que o chefe matasse as pessoas.
Especialmente pessoas competentes.
Se Riston dissera que não havia algo a ser apurado da amostra de Crovendif,
ele provavelmente estava certo.
Com algum esforço, Villachor afastou as ideias sobre matar o analista.
– E quanto ao próprio Crovendif? - perguntou ele.
– Crovendif trabalha para nós há dez anos, oito como vendedor, dois como
gerente de asfalto - respondeu Sheqoa. - Desempenho decente. Nada espetacular.
– Esperto o bastante para dar um golpe como esse sozinho?
Ele sentiu a cara feia de Sheqoa.
– A inteligência de Crovendif mal dá conta de conseguir a porcentagem
correta de vendas - respondeu o grandalhão. - O senhor acha que é um golpe?
– Acho que a escolha do momento é altamente suspeita - rosnou Villachor. - O
vigo Qazadi aparece; e então, mal sepassaram nove dias, alguém surge e nos
oferece brilhestim abaixo dos valores do Sol Negro?
Sheqoa ficou calado por um momento, aparentemente tentando digerir aquela
informação.
– Tem que ser o golpista mais azarado da galáxia - disse ele devagar. - As
chances de isso acontecer são... bem baixas.
Villachor olhou para as luzes da cidade ao redor, novamente contendo a
vontade de esganar. Ele não esperava que Sheqoa entendesse as sutilezas da
situação, e o chefe de segurança cumpriu exatamente suas expectativas.
Isso não era coincidência. Não mesmo. Ou alguém estava provocando Qazadi
e o Sol Negro, o que era uma coisa extraordinariamente idiota de se fazer... ou
então o estranho misterioso era alguém do pessoal de Qazadi, e a oferta de
brilhestim era um teste.
Um arrepio subiu pelas costas de Villachor. Um teste. Mas um teste de quê?
Da lealdade de Villachor? Tudo bem - ele era capaz de passar num teste assim.
Mas em que direção Villachor deveria pular? Deveria contar para Qazadi
sobre o vendedor de brilhestim e esperar que o vigo lhe dissesse o que fazer?
Isso poderia demonstrar fraqueza e indecisão da parte de Villachor, qualidades
que nem de longe o príncipe Xizor queria ver em um de seus chefes de setor.
Será que, em vez disso, ele deveria examinar a questão pessoalmente e levá-la à
atenção de Qazadi apenas depois que a investigação fosse concluída? Mas se
Qazadi o flagrasse no meio do processo, poderia parecer que Villachor planejava
fazer um acordo sem que o Sol Negro soubesse. Esse seria o caminho rápido
para uma cova de indigente.
E se não houvesse uma resposta certa? E se Xizor já o tivesse julgado e esse
teste do brilhestim não fosse nada mais do que uma maneira de deixar Villachor
escolher o caminho para a própria armadilha? Xizor dificilmente precisava de
uma desculpa para eliminar um de seus subordinados, mas ele poderia fazer
daquela forma apenas pelo prazer de ver o condenado se debater dentro de uma
rede da qual não havia escapatória.
E tais pensamentos jamais devem ser simplesmente descartados, dissera
Qadazi sobre os receios de Villachor no primeiro encontro entre os dois, porque
eu não saio do Centro Imperial sem um grande motivo.
Villachor fez uma expressão de desdém. Qazadi explicara que sua visita tinha
três motivos: retirar os arquivos de chantagem do Centro Imperial e assim
despistar Vader e os outros inimigos de Xizor; tirar o próprio Qazadi do alcance
de várias intrigas que aqueles mesmos inimigos estavam se preparando para
lançar; e usar os arquivos para gerar mais alguns escravos relutantes dentre a
elite da Cidade de Iltarr e os dignatários que em breve chegariam a Wukkar para
o Festival das Quatro Honrarias.
Três motivos para sair do Centro Imperial. Se havia três, por que não quatro?
Será que o quarto motivo não seria armar a destruição de Villachor?
E ainda havia o incidente no Hotel Lulina Crown, onde o assistente de Qazadi,
Aziel, estivera no centro de um estranho semiataque.
– Alguma novidade sobre o incidente no Lulina Crown? - perguntou ele.
– Não, senhor - respondeu Sheqoa em um tom estranhamente relutante. - Não
exatamente.
– Não exatamente? - repetiu Villachor incisivamente. - O que significa não
exatamente?
– A polícia deu o caso como encerrado - falou Sheqoa, soando aflito. - Eles
descartaram como se fosse um trote.
Villachor girou o corpo na cadeira e ergueu um olhar furioso para o outro.
– Um trote? - reclamou ele. - Uma bomba explode num corredor de hotel e
vira um trote?
Villachor deu as costas novamente e encarou fixamente as luzes da cidade
enquanto puxava o comlink. Aparentemente era hora de lembrar ao comissário
de polícia Hildebron o nível de serviço que os créditos do suborno do Sol Negro
haviam comprado.
– Foi ordem do comissário Hildebron - informou Sheqoa evasivamente. -
Após ele ter recebido uma ligação do mestre Qazadi.
Villachor ficou paralisado, com o comlink a meio caminho dos lábios.
– O mestre Qazadi suspendeu a investigação?
– E o que parece.
Lentamente, Villachor devolveu o comlink ao cinto. Mas aquilo era loucura.
Por quê, pela galáxia, Qazadi suspenderia a investigação? Aziel era um agente
do Sol Negro como ele, um colega próximo, e - até onde Villachor era capaz de
saber - um amigo tão íntimo quanto era possível um Falleen ter. Pela lógica,
Qazadi deveria estar na delegacia naquele exato momento, enchendo o gabinete
de Hildebron com feromônios e insistindo que a ameaça contra seu colega e os
códigos do cryodex fosse neutralizada...
Villachor sentiu um nó na garganta. É claro. Os códigos do cryodex.
Porque o fato de estar no bolso do Sol Negro não significava que Hildebron
não fosse um profissional competente. Ele era. E uma investigação realmente
correta poderia revelar facilmente que Aziel estava na Cidade de Iltarr como
guardião da metade dos códigos que ativavam o cryodex que Qazadi havia
trancado em sua suíte.
Obviamente, uma investigação incorreta poderia levar ao roubo daqueles
mesmos códigos se quem quer que estivesse tentando roubá-los decidisse tentar
de novo. Mas aparentemente Qazadi estava disposto a arriscar que isso
acontecesse.
Talvez ele estivesse certo em agir assim. Aziel viera a Marblewood para
ajudar Qazadi a ativar o cryodex antes de cada sessão de chantagem de
Villachor, mas o cryodex e os arquivos em si jamais correram risco algum. Se os
códigos de Aziel fossem roubados ou destruídos, isso simplesmente significaria
que Villachor não poderia usar os arquivos contra possíveis alvos. Uma
inconveniência, mas longe de ser um problema de verdade.
Mas tivesse o ataque falhado ou sido um trote, a questão é que um agente do
Sol Negro tivera sua noite arruinada no meio do território de Villachor. Isso não
era algo que poderia simplesmente ser ignorado ou varrido para longe.
E se o brilhestim fosse um teste, talvez essa situação também fosse.
– Nós temos alguém no hotel? - perguntou ele.
– Não - respondeu Sheqoa. - Eu achei que o mestre Qazadi tivesse ordenado
que ficássemos afastados.
– Isso foi antes de o pessoal dele ser atacado - rosnou Villachor.
– Eu quero um esquadrão postado lá até a meia-noite. Coloque pelo menos
dois homens no mesmo andar, e os demais em qualquer quarto que eles
consigam em cima e embaixo da suíte de lorde Aziel.
– Sim, senhor - disse Sheqoa com hesitação. - Posso lembrá-lo, senhor, de que
estaremos sobrecarregados controlando a multidão do Festival nas atuais
circunstâncias? Retirar um esquadrão inteiro da nossa escala de serviço só vai
piorar a situação.
– Eu não me importo - falou Villachor rispidamente. - Desde que
mantenhamos um contingente completo na caixa-forte, isso é tudo que importa.
Se alguém quiser usar o Festival para entrar de mansinho na casa e roubar
algumas colheres, que fique à vontade para tentar. Qualquer coisa assim pode ser
resolvida mais tarde.
– Entendido - disse Sheqoa, ainda nitidamente insatisfeito, mas sabendo que
não deveria continuar discutindo a questão. - O senhor não poderia convencer o
mestre Qazadi a trazer Aziel e os demais para cá em vez disso? Tornaria a
segurança bem mais fácil.
Villachor sentiu um nó no estômago. Sim, certamente tornaria. Na verdade,
Villachor havia salientado esse mesmo argumento para Qazadi no primeiro
encontro entre os dois.
Mas Qazadi dispensou a sugestão ao invocar uma política do Sol Negro de
manter os arquivos de chantagem e os códigos do cryodex separados, a não ser
que um dos arquivos estivesse para ser lido. Villachor ouviu o argumento,
aquiesceu educadamente e fingiu aceitá-lo, embora tivesse ficado tão insatisfeito
quanto Sheqoa. Aquilo sempre lhe parecera mais uma desculpa com uma
blindagem furada do que uma explicação.
Talvez houvesse outro motivo para Qazadi manter Aziel longe de
Marblewood. Talvez Aziel não estivesse ali apenas para cuidar dos códigos, mas
também estivesse esperando nos bastidores para avançar e assumir como
sucessor de Villachor no momento em que ele falhasse no teste de Qazadi.
Se fosse esse o caso, dificilmente seria do interesse de Villachor fazer um
grande esforço e sobrecarregar seus recursos a fim de proteger Aziel.
Testes dentro de testes dentro de testes. E Villachor ainda não sabia em que
direção Qazadi queria que ele pulasse.
Mas havia uma coisa de que Villachor tinha certeza: se Qazadi esperava por
uma transferência de poder tranquila e civilizada, era melhor esquecer.
– Volte a falar com Riston - ordenou ele para Sheqoa. - Diga- lhe que quero
que continue a fazer testes até poder me dizer com certeza de onde vem aquele
brilhestim.
– Não acho que haja mais testes que ele possa fazer, senhor - respondeu
Sheqoa.
– Então é melhor que Riston invente alguns - disparou Villachor. - Vá.
– Sim, senhor.
Sheqoa não pareceu satisfeito, mas ele sabia o que era uma ordem.
– E você não deve contar para o mestre Qazadi ou para o pessoal dele sobre
nada disso aqui - acrescentou Villachor. - Não até termos certeza.
– Sim, senhor - disse o grandalhão. - Boa noite, senhor.
Ele deu meia-volta e saiu de mansinho, tão silencioso quanto chegara.
Villachor também se virou e observou até a sombra de Sheqoa passar pela porta
na outra extremidade da suíte. Então, com um suspiro pensativo, ele se voltou
para a vista da cidade.
Obviamente, Riston não descobriria nada de novo. Mas ordenar mais testes
garantiria algum tempo para Villachor - o suficiente, ele esperava, para examinar
as possíveis armadilhas colocadas de maneira tão tentadora diante de si.
Enquanto isso, o Festival das Quatro Honrarias começaria em três dias, e com
ele viriam multidões de pessoas importantes e insignificantes da Cidade de Iltarr
para suas dependências e pátio. Villachor tinha uma exposição para montar,
entretenimento para preparar, comida e bebida para coordenar, e um grande
número de autoridades para levar discretamente ao interior da mansão a fim de
suborná-las, ameaçá-las ou chantageá-las.
Ele prometeu a si mesmo que, quando o Festival acabasse, até mesmo Xizor
teria que admitir que Villachor, e apenas Villachor, sabia a melhor forma de gerir
as operações do Sol Negro naquele setor. Se o plano de Qazadi ainda fosse
derrubá-lo, ele descobriria que Villachor era um alvo muito mais difícil do que
imaginara.
E se a isca de brilhestim fosse outra pessoa tentando avançar em seu
território...
Villachor arreganhou os dentes para as luzes altas. Se alguém lá fora fosse
mesmo tolo o suficiente para enfrentá-lo, aquela pessoa se arrependeria. Muito,
muito amargamente.

A tranca fez um clique e a porta se abriu, e com um cansaço que Dayja não se
permitira sentir até aquele exato momento, ele entrou na suíte.
D’Ashewl estava à espera de Dayja, sentado à mesa do escritório.
– Como foi lá?
– Deu certo - respondeu Dayja.
Ele arrastou os pés no tapete espesso até a cadeira confortável mais próxima e
se permitiu desabar nela. Tinha sido um dia muito, muito longo.
– O mestre Cuciv nem percebeu minha chegada e neste momento está
dormindo para passar o efeito da droga língua-solta.
D'Ashewl resmungou.
– Espero que você saiba o risco que está correndo com aquilo - alertou ele. -
Uma chance de 80% de ataque cardíaco é algo para ser levado a sério.
– Eu sei - disse Dayja, torcendo o rosto ao se lembrar de ter visto o velho
agente do espaçoporto sobreviver à onda inicial da droga antes de o coração
finalmente se estabilizar. - Mas não havia escolha. Nós precisávamos saber a
respeito dos datacards dos arquivos de chantagem e não podíamos deixar Cuciv
com nenhuma memória de ter sido interrogado a respeito. O que significa que os
droides de interrogação estavam fora de cogitação, juntamente com a Bavo Seis,
a OV 600 ou qualquer outra droga de nosso repertório.
– E se ele tivesse morrido?
Dayja deu de ombros.
– Eanjer tinha dois outros nomes. Um deles provavelmente sobreviveria ao
procedimento.
D’Ashewl resmungou de novo.
– Mas você pegou?
– Sim - respondeu Dayja. - Datacard de tamanho padrão, preto fosco, com o
símbolo do Sol Negro gravado na frente em preto reluzente.
– Sutil - ironizou D’Ashewl. - Artístico também. Não o que se esperaria dos
capangas de Xizor. De que tamanho é o símbolo?
– Bem, esse é o pequeno problema - admitiu Dayja. - Cuciv foi um pouquinho
vago quanto a isso. Eanjer vai ter que mandar a equipe dele criar duas ou três
versões e torcer para que uma delas seja suficientemente parecida para passar.
– Não é o ideal - falou D’Ashewl. - Mas você provavelmente consegue fazer
isso funcionar.
Por um momento, o ambiente ficou em silêncio. Dayja retirou a faca, o
comlink, a arma de raios de pequeno porte dos bolsos e pousou na mesinha baixa
ao lado da cadeira, tentando decidir se estava cansado demais para comer ou
faminto demais para dormir. Faminto demais para dormir, concluiu ele. Dayja se
levantou e foi para a estação de comida ao lado da central de entretenimento na
outra ponta do escritório.
– Teve sorte identificando meus novos melhores amigos a partir dos
holovídeos que mandei para você? - perguntou ele de costas.
– Na verdade não - respondeu D’Ashewl. - Sempre me surpreendo que poucos
criminosos tenham algo mais do que apenas os nomes nos registros policiais.
Mesmo os registros do DSI não têm muita coisa.
– Os criminosos do alto escalão aparentemente contratam slicers com tempo
livre demais - concordou Dayja.
– Ao que parece - disse D'Ashewl. - Ele já fez a pergunta óbvia?
– Por que não assobiamos para chamar uma legião de stormtroopers e
invadimos Marblewood com tudo? - perguntou Dayja em tom ácido. - Não com
essas mesmas palavras, mas Eanjer deu a entender a pergunta. Eu tentei passar a
impressão de que temos que nos manter dentro dos procedimentos legais. Todo
aquele lance de liberdades e direitos civis.
D’Ashewl deu um muxoxo de desdém.
– Liberdades e diretos, Sei. - Ele suspirou, um som que foi audível até a
estação de comida. - Eu espero que você se dê conta de que estamos na corda
bamba, Dayja. O Diretor está tendo problemas sérios com a corte neste momento
e pode estar de saída, quer a gente consiga ou não os arquivos de chantagem para
ele. Se estivermos ligados a ele quando cair, e até nove dias atrás nós estávamos,
não será agradável para nenhum de nós.
– Ainda há tempo - disse Dayja com firmeza. - Se ele conseguir descobrir
quais de seus inimigos estão na folha de pagamentos do Sol Negro, o Diretor
pode virar essa ligação contra eles.
– Talvez - disse D’Ashewl, não parecendo convencido. - Mas ele conseguindo
ou não escapar da queda, nosso futuro ainda está por um fio. Se pegarmos os
arquivos, seremos heróis. Se não conseguirmos, a questão de o Diretor cair ou
não pode ser insignificante. Xizor ficará furioso que sequer tenham feito uma
tentativa e, com suas capacidades de chantagem ilesas, ele será um inimigo
formidável.
– A vida é uma aposta - frisou Dayja enquanto apertava botões para pedir algo
que fosse rápido de preparar e igualmente rápido de comer. - Trabalho de
espionagem é ainda mais. Não se preocupe, vai dar certo.
– Espero que você esteja certo - falou D’Ashewl. - O que você vai fazer com a
jogada do brilhestim? Isso já está em andamento, não?
– Sim, mas pode ser pausado por alguns dias - respondeu Dayja. - Ninguém
além daquele gerente de asfalto, Crovendif, sabe como eu sou. Desde que eu
fique longe da rua, estarei bem.
– Então você vai deixar Eanjer e a equipe dele assumirem a dianteira?
– Por enquanto - disse Dayja. - Eu presumo que Qazadi estará aqui para o
festival inteiro. Se Eanjer não conseguir pegar os arquivos de chantagem, eu
devo ter tempo de voltar ao plano original.
– Vamos colocar nossas vidas em um conjunto de mãos extremamente sujas -
alertou D’Ashewl.
– Vai ficar tudo bem - garantiu Dayja, se permitindo um sorriso contido.
A preocupação de D’Ashewl era tocante e certamente não era inapropriada.
Mas ambos sabiam que falar em “nossas vidas” era meramente uma cortesia.
D’Ashewl estava na carreira havia tempo suficiente e amealhara muitos amigos
e aliados, a ponto de até mesmo Xizor hesitar enfrentá-lo. Certamente não por
causa de uma tentativa de espionagem que tinha fracassado, no fim das contas.
Não, a vida de D’Ashewl não estava nas mãos de Eanjer. Porém, Dayja não
tinha costas tão quentes assim. O que acontecesse nos próximos dias faria ou
encerraria sua carreira. Permanentemente.
Mas era preciso correr o risco. O Sol Negro era um mal que vinha roendo as
raízes da galáxia havia muito, muito tempo, e precisava ser detido. Se o
Imperador não estava inclinado a agir e Lorde Vader estava preocupado demais,
então o serviço caberia a homens menos importantes.
E se esses homens menos importantes também perecessem... ainda assim,
como ele dissera, a vida era uma aposta.
Os dados estavam lançados. Dayja simplesmente teria que esperar para ver
que resultado eles dariam.

Por alguns minutos depois de Lando ir embora arrastando os pés até o quarto,
Han permaneceu onde estava, olhando pela janela para o conjunto de luzes da
mansão de Villachor. Envolta na escuridão das dependências de Marblewood, a
mansão quase parecia um pequeno agrupamento de estrelas à deriva no espaço,
completamente sozinho. E todo piloto na galáxia sabia como agrupamentos de
estrelas eram perigosos.
Lando estava certo, obviamente. Han era um piloto e um contrabandista. O
que ele conhecia a respeito de golpes?
Nada, na verdade. Mas Han conhecia as pessoas. Sabia como elas pensavam e
reagiam, especialmente aquelas levadas pela ganância e sede de poder. Tinha
visto isso com Jabba e Batross, tinha visto acontecer com oficiais imperiais e
sentia uma pontada em si próprio de vez em quando.
Talvez fosse isso o que ele mais gostava a respeito de Leia. Como uma
princesa de Alderaan, ela tivera muito poder, mais do que a maioria das pessoas
sonharia ter um dia na vida. No entanto, Leia tinha deixado aquilo de lado pelo
que considerava ser uma causa maior e mais nobre.
Se aquilo era uma causa maior, obviamente, ou apenas um jeito chique de
cometer suicídio em massa, ainda levaria um tempo para saber. Mas isso não era
problema de Han. O problema era que ele mais ou menos prometera justiça para
Eanjer e a partilha de 163 milhões de créditos para todos os outros.
E Lando estava certo sobre outra coisa. Às vezes a confiança que Han
depositava em outras pessoas se revelava muito inapropriada.
Ele pensou a respeito da situação por um pouco mais de tempo. Então se
arrancou da cadeira e foi à procura de Dozer. Considerando como o outro andara
agindo ao abandonar a sala de estar mais cedo, só havia um local provável para
começar a procurar. Han encontrou Dozer na cozinha, mastigando um enorme
sanduíche.
– Estou interrompendo? - perguntou Han ao entrar e se sentar.
– Não - disse Dozer. - Você veio falar sobre Lando ser o testa de ferro? Porque
se for o caso, esqueça tudo o que eu disse antes. Até onde eu sei, ele pode ficar
com a vaga.
– Bom ouvir isso - falou Han. - Porque tem outro serviço que eu quero que
você faça para mim. Uma coisa que talvez leve alguns dias.
Dozer franziu os olhos.
– Está tentando se livrar de mim?
– Claro que não - garantiu Han.
– Porque se for por eu ter ficado preocupado com o Sol Negro mais cedo, eu
estou de boa com isso agora - insistiu Dozer.
– Eu sei - disse Han. - O serviço é apenas uma coisa que eu pensei que vamos
precisar, só isso.
– A-hã - concordou Dozer, ainda parecendo desconfiado. - O serviço envolve
encarar aquele Falleen novamente?
– Sem Falleen - respondeu Han. - Será um pouco complicado, mas deve ser
seguro o bastante.
Por mais alguns segundos, Dozer continuou examinando o rosto de Han.
Então ele pousou o sanduíche cuidadosamente no prato e tirou as migalhas das
mãos.
– Ok - disse ele se recostando na cadeira. - Conte-me tudo a respeito do
serviço.
CAPÍTULO

Nos três dias seguintes, a equipe permaneceu perto da base. O quarto das
gêmeas rapidamente virou uma oficina eletrónica enquanto Bink, Tavia,
Chewbacca e Winter trabalhavam em montar cuspidores que coubessem no
espaço limitado dentro de um datacard. Infelizmente, o amigo de Eanjer, Donnal
Cuciv, não fora capaz de informar o tamanho correto do símbolo do Sol Negro
impresso no datacard que Villachor lhe mostrara, o que significava que eles
precisariam de pelo menos três e possivelmente uns cinco para cobrir todas as
possibilidades com segurança. Com Winter e Chewbacca também construindo
um cryodex falso, o prazo seria apertado.
Ainda assim, Chewbacca estava com a mão na massa, e até então o Wookie
jamais o decepcionara. Han não esperava que essa fosse a primeira vez.
Os demais tinham muito trabalho também. Kell instalou uma oticina de
explosivos no quarto adjacente ao das gémeas e passou três dias montando
cargas de vários tamanhos e formas. Zerba se ocupou com os trajes rasgáveis
para troca rápida que Han lhe passara, com pausas frequentes para descansar os
olhos e praticar prestidigitação. Eanjer, em contrapartida, tinha pouco a fazer
além de perambular pela suíte, fazer perguntas e, de resto, atrapalhar os outros.
Lando e Han passavam a maior parte do tempo na sala de estar, longe dos
olhos dos demais e lendo o volume cada vez maior de material que Rachele
conseguia recolher sobre Villachor, seus funcionários, a mansão e as pessoas
com quem ele mais lidava, muitas das quais também eram possivelmente
associadas ao Sol Negro.
Tinha vezes que Han considerava toda aquela quantidade de dados um pouco
avassaladora. Villachor estava com as mãos em praticamente todos os aspectos
da vida da Cidade de Iltarr, com metade da polícia e provavelmente mais da
metade das autoridades do governo aparentemente prontas para largar tudo sob
seu comando. Era uma confirmação preocupante de que a equipe tinha montado
acampamento no meio de um território seriamente hostil.
Lando, previsivelmente, não parecia incomodado com aquilo. Talvez, como
um apostador, ele estivesse mais do que acostumado a encarar mesas cheias de
inimigos. Talvez ele fosse apenas melhor em esconder seu nervosismo. Ele
examinava os dados de Rachele rápida e metodicamente, às vezes fazendo
comentários sobre alguma informação especialmente reveladora ou útil. Às
vezes experimentava vários sotaques que achava que poderiam ser úteis quando
finalmente encarasse Villachor cara a cara.
Era um pouco irritante vê-lo assim tão calmo, mas Han tinha que admitir que
talvez Lando encarasse a situaçao de uma maneira melhor. Jabba e os outros
Hutts não eram assim tão diferentes de Villachor e do Sol Negro, a não ser pelo
fato de que a influência deles era mais ou menos descarada e óbvia, em vez de
estar enterrada em um labirinto de raízes subterrâneas. Han havia sobrevivido às
intrigas e à inimizade dos Hutts. Ele também sobreviveria a qualquer coisa que
Villachor jogasse contra ele.
Dozer era a principal exceção do comportamento geral de ficar em casa,
adotado pelos demais. Desde a primeira vez que Tavia pedira a ele que saísse
para comprar algumas energicélulas, Dozer tomara para si o papel de menino de
recados, indo pegar tudo, de peças de detonador a novas bandagens de medselo
para Eanjer e comida rodiana quando Zerba subitamente tinha uma vontade
louca.
Houve um momento em que Rachele brincou que Dozer passava mais tempo
fora da suíte do que dentro, e se perguntou em voz alta se conseguiria um
desconto referente à parte dele do aluguel. Foi um exagero, obviamente, mas
todo mundo notou que Dozer geralmente se ausentava por horas a fio, em busca
de seu objetivo no momento.
Han apenas torcia para que nenhum deles suspeitasse do verdadeiro motivo da
ausência do sujeito.
Enquanto eles trabalhavam, as dependências de Villachor lá embaixo estavam
sendo transformadas em alguma coisa que era meio feira livre e meio exposição.
Do céu, telas e pavilhões acenavam com a promessa de um retorno do esplendor
da Velha República.

Do chão, a promessa estava mais do que cumprida.


– Isto é sensacional — comentou Bink enquanto o grupo seguia
pelo caminho que levava à mansão. - Eu jamais vi algo parecido. E eu já
estive em todos os lugares.
– Este também é apenas o primeiro dia — comentou Kell, parecendo mais
boquiaberto do que Bink. - Quem diria que havia tantas maneiras de deslocar
rocha e terra?
– Pedra - corrigiu Dozer em tom ácido. - É a Honraria à Pedra em Movimento.
– Rocha, pedra, dá no mesmo - falou Kell ainda olhando ao redor.
– Não, um está certo, o outro, não - insistiu Dozer. - Você quer parecer um
turista deslumbrado?
– Nós somos turistas deslumbrados - salientou Lando calmamente. - Assim
como metade das pessoas aqui, provavelmente.
– Se não as desse grupo, então aquelas que estarão aqui mais tarde -
concordou Han ao olhar para o fluxo de pessoas em ambos os lados do grupo.
Nem era ainda meio-dia, e o evento sequer estaria oficialmente aberto nas
próximas duas horas, e já havia centenas ou até mesmo milhares de pessoas ali,
com mais gente passando pelos portões, todos olhando boquiabertos com o
mesmo deslumbramento de Bink e Kell.
Sendo sincero, Han não podia culpá-los. No alto, sistemas solares em
miniatura se deslocavam pelo ar, com planetas, luas e asteroides se movendo
rápida ou lentamente em volta de sóis reluzentes. Alguns sistemas eram
percorridos por naves minúsculas e brilhantes, e de vez em quando uma delas
piscava como se pulasse para o hiperespaço e reaparecia em um sistema
diferente a dezenas de metros de distância. Ao longo do caminno, presos perto
de grupos de árvores esculpidas, tornados de areia serpenteavam, com suas
formas compridas e afuniladas girando com uma fúria cuidadosamente contida.
Han tinha visto atrações mais impressionantes nas viagens pela galáxia. Mas
raramente tinha visto uma atração feita com esse tipo de talento. Era fácil se
deixar envolver pelo encanto e pelo clima de festa.
Era bem mais fácil resistir à atração quando Han se lembrava de que tudo
aquilo era bancado por créditos sangrentos.
– Beleza - resmungou Dozer. Ele, pelo menos, não corria perigo de se deixar
envolver pelo espírito do Festival. - Tanto faz. Eu só quero que ele demonstre
um pouco de dignidade. Sabe como é... dignidade?
– Desculpe — falou Kell, com a empolgação anterior visivelmente contida.
Han olhou de lado para Lando. O outro devolveu o olhar e deu de ombros.
Dozer não queria ir com eles a Marblewood naquela manhã, mas, ao mesmo
tempo, se recusava a ser deixado para trás.
– Aqui está um — disse Bink, acenando com a cabeça para o lado.
Han olhou naquela direção e viu um droide imóvel ao lado do caminho,
provavelmente colocado ali para dar orientações ou conselhos para os visitantes
de primeira viagem. Ao contrário de praticamente todos os outros droides que
Han já vira na vida, aquele usava roupas: ele trajava um longo vestido com
padronagem de pedra até os pés, mangas e até luvas soltas nas mãos. A cabeça
estava coberta por um capuz drapeado com buracos apenas para os olhos e a
boca. Para todos os efeitos, ele parecia uma pilha de pedras que por acaso foram
equilibradas na forma de um droide, o que provavelmente era a ideia.
– Impressionante - murmurou Lando. - Meio ridículo, mas ainda assim
impressionante.
– Mal posso esperar para ver os trajes da Honraria ao Ar em Movimento -
comentou Bink. — Algo frágil e delicado, sem dúvida. Rachele tem razão: não
há como adivinhar que tipo de droide é aquele embaixo de tudo aquilo.
– Pelo formato, eu diria que é um SE 4 ou SE 6 - falou Kell. - A voz do droide
pode dar uma pista. Quer que eu tente?
Dozer soltou um muxoxo de desdém.
– A-hã, boa sorte - disse ele dobrando o pescoço para ver acima da multidão. -
Eu estou vendo uma dezena de droides daqui, e esse número nem conta os
criados nos pavilhões e quem quer que esteja alimentando os vulcões e géiseres.
Você quer brincar de pergunte- ao-Quarren com todos eles?
– Vamos simplesmente nos ater ao plano - disse Han.
– Então qual será a nossa programação aqui? - perguntou Lando. — Suponho
que seja interessante perambular um pouco e sentir o ambiente antes de
partirmos para nossas respectivas ações?
– Parece ótimo — concordou Han. - No momento em que você encarar
Villachor, vai se tornar o centro das atenções. É melhor usarmos nosso
anonimato enquanto ainda o temos. Vamos tirar uma hora, reconhecer o terreno e
depois começamos a trabalhar. E lembrem-se de que alguns daqueles planetas
flutuantes lá em cima provavelmente são droides-câmera. Ajam como se
tivessem plateia, porque é provável que tenham.
– E fiquem de olho em Villachor - acrescentou Lando. - Não há garantia de
que ele vá estar aqui fora cuidando dos afazeres tão cedo assim, óe ele não
aparecer, essa viagem inteira será à toa.
– Eu não sei se chamaria de à toa — disse Bink farejando o ar. — Ainda há as
barracas de comida.
– Concentre-se no serviço, Bink — ralhou Han. — Uma hora. E cuidado.

O complexo da suíte de hóspedes de Marblewood ocupava praticamente um


terço do último andar da ala nordeste da mansão e estava equipado com as
melhores comodidades e decoração que o Império tinha para oferecer. Sob vários
aspectos, a suíte era até mais suntuosa do que a do próprio Villachor, uma vez
que o objetivo do quarto de Villachor era o conforto, enquanto a suíte de
hóspedes fora projetada para dar conforto e impressionar os ocupantes. Ela tinha
recebido dezenas de autoridades e colegas do Sol Negro no decorrer dos últimos
onze anos e, pelo que se dizia, tinha sido bem-sucedida em ambos os objetivos.
Só que até então, nenhum dos hóspedes de Villachor tinha se impressionado
tanto com a suíte a ponto de se recusar a ir embora.
Como sempre, havia dois guardas Falleen flanqueando a porta da suíte quando
Villachor chegou.
– Chefe de setor Villachor, solicitando uma audiência com Sua Excelência -
disse ele formalmente ao parar a 2 metros de distância.
– Qual é o objetivo da audiência? - perguntou um dos guardas.
Villachor conteve um rosnado. Era a mesma resistência arrogante e
humilhante que ele vinha tolerando havia três dias consecutivos. Sim, Qazadi era
um vigo, mas não havia motivo para um simples guarda-costas ser tão
obviamente desrespeitoso ao falar com um chefe de setor do Sol Negro. Nem
mesmo quando o guarda-costas era um dos preciosos Falleens do príncipe Xizor.
– Eu quero convidar Sua Excelência à sacada de apresentação para a grande
cerimónia de abertura do Festival, mais tarde - respondeu ele com os dentes
cerrados. - De lá ele terá uma visão muito melhor da erupção dos géiseres.
O guarda tirou um comlink do cinto e falou brevemente no aparelho. Houve
uma resposta, e ele devolveu o comlink à presilha.
– Sua Excelência lhe agradece a oferta - informou o guarda- costas. - Ele
considera que pode observar os eventos da Honraria à Pedra em Movimento
muito bem da própria sacada.
– Compreendo - falou Villachor, conseguindo manter um tom de voz
civilizado com um esforço extremo. — Por favor, agradeça a ele pelo tempo e
pela consideração.
Sheqoa estava esperando ao lado do turboelevador onde Villachor o deixara.
– Ele vai sair, senhor? - perguntou o chefe de segurança.
– Não, não vai — disparou Villachor. - Aparentemente, ele não tem interesse
algum além do próprio quarto e do próprio pessoal.
Sheqoa resmungou baixinho.
– Talvez ele não tenha interesse algum, mas o pessoal de Qazadi com certeza
tem. Dorston e sua patrulha flagraram mais dois deles ontem à noite, na cozinha.
Villachor engoliu um xingamento. Os guardas de Qazadi haviam se espalhado
pela mansão inteira nos últimos três dias, metendo o nariz e os dedos em tudo. Já
haviam acontecido vários confrontos tensos entre eles e o pessoal de Sheqoa, e
uma dessas altercações quase chegou ao ponto de armas de raios serem sacadas.
E, assim como o isolamento autoimposto de Qazadi, as ações às escondidas e
as intromissões começaram na mesma noite em que Crovendif trouxera a
misteriosa amostra de brilhestim.
– Eles disseram o que estavam fazendo?
– Apenas que queriam dar uma olhada - falou Sheqoa. - Mas acho que era
mais do que isso. O sujeito disse que eles estavam na ponta centro-oeste, perto
do elevador de cozinha, e que um deles tinha uma sonda.
Villachor fez uma expressão de desdém. O elevador de cozinha era algo que
sobrara do período do antigo proprietário da casa, um duto estreito e vertical que
levava comida e outros itens da cozinha do primeiro andar para o quarto andar,
onde a cesta ou a bandeja podia ser transferida para um dos dois dutos
horizontais que levavam à suíte principal de hóspedes ou à própria suíte de
Villachor na ala sudeste. Aparentemente, o proprietário queria uma maneira de
receber refeições sem ter que abrir portas para criados ou droides.
– O que eles estavam fazendo com a sonda?
– Não acho que eles realmente tivessem começado alguma coisa — respondeu
Sheqoa. - Como de costume, eles alegaram que a liberdade de movimento que o
senhor concedeu a Qazadi também se aplicava a eles.
– Claro que alegaram - disse Villachor.
Era uma desculpa com a espessura de uma molécula, e tanto ele quanto
Sheqoa sabiam disso. Mas não havia nada que os dois pudessem fazer a respeito.
Qazadi tinha que receber o direito de andar livremente pela mansão - ele era um
vigo, afinal de contas. E uma vez que recebera essa autonomia, não havia como
Villachor restringir seus guarda-costas sem parecer mesquinho ou suspeito.
Se havia uma coisa de que Villachor tinha certeza absoluta era que mesquinho
e suspeito não eram alcunhas que ele poderia se dar ao luxo de receber agora.
– Quero que as patrulhas noturnas sejam dobradas — ordenou Villachor para
Sheqoa. - E coloque um guarda a mais na cozinha, em algum ponto onde ele
possa vigiar tanto a despensa quando o elevador. Com todos os preparativos de
comida que estamos fazendo para o Festival, nós devemos ter mais um homem
lá de qualquer forma.
– Sim, senhor.
Sheqoa estava tão insatisfeito com a situação quanto Villachor, mas era óbvio
que ele não tinha ideias ou sugestões melhores.
– Depois que você fizer isso, quero que entre em contato com aquele gerente
de asfalto, Crovendif - continuou Villachor. — Quero que ele esteja aqui, todos
os dias do Festival, perambulando de olhos bem abertos. Se o vendedor de
brilhestim aparecer, eu quero esse sujeito.
– Sim, senhor - repetiu Sheqoa. - Quando o senhor estiver pronto para sair,
Tawb e Manning estão esperando no pórtico oeste.
Villachor olhou por uma das clarabóias no momento em que passava um dos
sistemas solares flutuantes. Ele não estava muito empolgado para sair naquele
momento, entre as pessoas simplórias e estúpidas, ser forçado a sorrir e
conversar com centenas de concidadãos da Cidade de Iltarr e fingir que
realmente se importava que eles existissem. Especialmente não em seu atual
estado de espírito.
Mas o novo Ministro de Relações Comerciais chegaria em menos de meia
hora. Villachor precisava estar presente para cumprimentá-lo, convidá-lo
informalmente para um aposento mais silencioso e reservado dentro da mansão,
e explicar para o ministro a realidade do serviço público em Wukkar.
– Estou pronto - disse Villachor. - É melhor você sair também. Este é um ano
em que não queremos problemas ou incidentes.
– Entendido, senhor - respondeu Sheqoa com a cara fechada. - Não se
preocupe. Nada vai acontecer.
Como sempre, a multidão já estava entrando aos borbotões nas dependências,
embora a maioria dos espaços do Festival na cidade e no planeta ainda nem
estivessem abertos. Mas apesar da quantidade de gente e do fato de que a comida
só estava realmente começando a ser servida naquele momento, a multidão
parecia contente e educada. Conforme cada visitante ou grupo avistava a
aproximação do anfitrião, eles paravam as atividades ou a conversa, faziam
gestos de respeito, agradecimento e saudação, e depois educadamente davam
passagem.
Cordeiros, cada um deles. Mas pelo menos eram educados e amigáveis
enquanto Villachor e o Sol Negro arrancavam a lã e a carne de seus ossos.
Villachor cumpriu o primeiro circuito em volta do pátio interno e estava
seguindo um grupo de pessoas na direção das barracas de comida quando Tawb
se aproximou e tocou em seu braço.
– Senhor?
– O que foi? - perguntou Villachor enquanto trocava acenos de cabeça com
um Koorivariano que usava um capuz de mercador, fazendo uma anotação
mental para que alguém verificasse a condição e o itinerário de viagem do
alienígena. Muitos comerciantes Koorivarianos também contrabandeavam
armas, e sempre era útil ter outro canal de distribuição do gênero.
– Acabei de receber um relatório de um dos guardas do mestre Qazadi - disse
Tawb em voz baixa. — Ele acha que avistou o homem do Serviço de Entregas
Quickline, que esteve na suíte do lorde Aziel durante o incidente no Lulina
Crown.
– É mesmo? - falou Villachor, franzindo a testa.
Na manhã seguinte ao acidente, Aziel disse que estava convencido de que o
mensageiro era uma testemunha inocente. Então por que o pessoal de Qazadi
estava de olho no homem?
– Onde está ele? - perguntou Villachor.
– Perto da barraca noroeste e do vulcão.
Que era também a atração pública mais próxima da entrada da ala norte da
mansão. Coincidência?
Na verdade, provavelmente era. Os vulcões de lava fria já eram um sucesso
comprovado entre o público, e aquela barraca em especial servia salsicha branca,
um petisco favorito entre muitos dos nativos. Certamente a presença de um
pobre mensageiro ali não era nada que pudesse levantar suspeitas - uma das
grandes tradições do Festival era que o evento estava aberto tanto para a família
real quanto para o reles trabalhador.
Ainda assim, Villachor não tinha intenção de correr riscos.
– Mande que a segurança fique de olho nele - falou Villachor para Tawb. —
Sem se aproximar ou detê-lo, apenas observando.
– Sim, senhor - respondeu Tawb, que, enquanto voltava para a posição de
guarda no flanco, já falava baixinho no comlink de colarinho.
Com um esforço, Villachor recolocou o sorriso no lugar. Qazadi e Aziel
estavam jogando um jogo qualquer por baixo da mesa — disso, Villachor tinha
certeza. Fosse qual fosse o jogo, ele estava determinado a participar. Quer eles
quisessem ou não.

Dozer estava de olho na salsicha branca na barraca azul de comida,


imaginando se as ordens de Solo para dar uma olhada no ambiente podiam ser
ampliadas para incluir uma turnê gastronómica pelas dependências, quando se
deu conta de que estava sendo observado.
Os primeiros sinais foram sutis, como sempre são. Houve a olhadela de um
homem de expressão carrancuda que se demorou um pouco demais. Outro
sujeito carrancudo matando tempo perto da barraca olhou na direção de Dozer e
depois virou o rosto, enquanto os lábios se mexiam como se ele falasse consigo
mesmo. Um dos dois seguranças uniformizados perto da entrada principal da
mansão, que estavam ali provavelmente apenas pelas aparências, cutucou o
companheiro e indicou a direção de Dozer com a cabeça.
Dozer fora visto.
Com um esforço, ele se obrigou a continuar perambulando casualmente,
enquanto o coração pulsava nos ouvidos. Ele fora visto, mas o que isso
significava? Será que os homens de Villachor procuravam por uma oportunidade
para tirá-lo da multidão às escondidas e levá-lo para dentro a fim de ser
interrogado? Talvez até encarar o lorde Aziel novamente? Dozer sobrevivera ao
último interrogatório de Aziel por pura sorte, pela capacidade de Rachele de
criar uma história falsa, e pelo fato de que Aziel já estava convencido de sua
inocência antes de eles começarem a pequena conversa. Não havia garantias de
que ele escaparia tão facilmente da próxima vez.
Calma, alertou Dozer a si mesmo. Para começo de conversa, não havia motivo
para um reles funcionário de uma empresa de entregas não estar ali. Na verdade,
provavelmente havia dezenas ou centenas de cidadãos da Cidade de Iltarr que
Villachor e seus homens conheciam de nome ou de vista ou pela reputação nas
dependências de Marblewood naquele exato momento.
Depois, este era um festival alegre e contente, de alcance planetário.
Certamente Villachor não faria nada para estragar o clima até que tivesse - e se
tivesse - provas concretas de que Dozer planejava alguma travessura.
E se eles tivessem tais provas, certamente já teriam avançado contra ele.
Dozer respirou fundo e sentiu a tensão ir embora. Pois então, eles sabiam que
ele estava ali, sabiam que ele era alguém que interagira com Aziel sob
circunstâncias fora do normal, e ficariam de olho nele, apenas por precaução.
Isso era tranquilo. Dozer não planejava fazer nenhuma travessura. Pelo menos
não ali e naquele momento.
Mas já que eles estavam observando mesmo assim...
No meio do caminho entre Dozer e a porta guarnecida, havia dois rapazes
trajando conjuntos bonitos, porém modestos, de túnicas e calças que os
identificavam como proletários que vestiram suas melhores roupas para visitar a
festa de Villachor. Ambos tinham copos nas mãos e, pelo jeito com que
conversavam e gesticulavam, provavelmente haviam provado mais do que
algumas bebidas das barracas. Observando o máximo da área que foi possível,
Dozer se encaminhou para a porta.
A reação foi instantânea, habilmente sutil e extremamente reveladora. Tanto
os guardas uniformizados quanto o trio à paisana que Dozer notara subitamente
pareciam ter olhos apenas para ele. Dozer viu um dos guardas da porta falar
alguma coisa para o parceiro ou para o comlink de colarinho, mas nenhum dos
demais sequer mexeu os lábios.
O que não significava que eles não estavam se comunicando. Pelo contrário,
enquanto Dozer continuava indo na direção da porta, ele viu os três homens
passarem pela multidão em um movimento bem coordenado que colocaria dois
deles entre Dozer e a porta, e um imediatamente atrás dele em uma posição de
reserva. Àquela altura, os guardas teriam várias opções de como lidar com ele, e
nenhuma delas provavelmente seria agradável.
Eles estavam perto das posições escolhidas quando Dozer alcançou os dois
rapazes.
– Ei! - disse ele de um jeito afável ao parar ao lado dos dois e erguer a mão
para cumprimentá-los. - Acho que reconheço vocês. São amigos de Cadger, não
é?
Os rapazes se voltaram para ele, e os sorrisos alcoolizados ganharam um ar de
perplexidade.
– Cadger? - perguntou um deles.
– É - respondeu Dozer. De rabo de olho, ele viu os dois seguranças fazerem
uma pausa; um deles ficou em posição, enquanto o outro se aproximou um
pouco mais da conversa. - Bem, nós o chamamos de Cadger. Sempre pegando
coisas emprestadas, nunca lembrando de devolver... a pessoa praticamente tem
que chamar a guarnição de Tweenriver para recuperá-las.
O rosto de um dos rapazes fez uma expressão de compreensão.
– Ah — falou ele conscientemente. - Você quer dizer Esmon.
– Isso, Esmon — confirmou Dozer. - Nós sempre o chamamos de Cadger.
Escutem, essa é a minha primeira vez neste espaço. Vocês sabem quando essas
barracas param de servir? Eu não consegui me aproximar de ninguém para
perguntar.
– Não se preocupe com isso - garantiu o sujeito. - Você vai dar o fora daqui
bem antes de eles fecharem.
– Só fique de olho para não beber tanto a ponto de levar mais de um dia para
se recuperar - acrescentou o outro rapaz, erguendo o copo para enfatizar. —
Porque depois de amanhã é a Honraria ao Ar em Movimento, e Villachor serve
as melhores batidas de Wukkar. É melhor você estar aqui sóbrio e cedo para isso.
– Pode apostar - concordou Dozer, dando um tapinha cordial no ombro do
outro. — Obrigado. Quando vocês virem Cadger... Esmon... digam que Blather
mandou um oi.
Dozer deu meia-volta e se afastou dos dois rapazes e da porta. Deu uma
olhada casual e viu que os seguranças também retornavam às posições
anteriores, e o alerta aparentemente fora reclassificado como alarme falso.
Ainda assim, Dozer não tinha dúvidas de que os seguranças continuariam a
vigiá-lo enquanto ele estivesse ali.
O que era tranquilo. Na verdade, era perfeito.
Dozer nunca ficara completamente à vontade com a ideia de ser o testa de
ferro daquela missão. Um certo nível de trapaça era necessário em qualquer
ramo de ladroagem, obviamente, e o roubo de naves não era exceção. Se
necessário, ele poderia ter feito um bom trabalho com essa missão também.
Mas teria sido um bom trabalho, não um trabalho espetacular. Dozer sabia que
enfrentar um homem como Villachor exigiria algo além de simplesmente bom.
Embora ele jamais admitisse, especialmente não para Solo, Dozer ficara
secretamente aliviado quando Calrissian surgiu inesperadamente na porta da
suíte.
Então que Calrissian ficasse com a glória e o perigo de ser o testa de ferro.
Dozer tinha suas próprias habilidades, habilidades que nenhum dos demais
conseguiria igualar nem nos melhores dias.
Ele virou para o sul e foi na direção de outras barracas, atrás das quais, não tão
coincidentemente assim, havia outras portas da mansão. Quando a equipe se
reagrupasse na suíte, Dozer prometeu para si mesmo, ele teria uma noção
completa da distribuição da segurança de Villachor para o Festival, do padrão de
cerco e da rota de alerta dos guardas.
Que Calrissian e seu sorriso metido a besta superassem isso.
Trombar com as pessoas era uma arte e uma ciência. Felizmente, Bink
dominava ambas havia muito tempo.
– Ah! - exclamou ela, erguendo os braços e arregalando os olhos de vergonha
e constrangimento enquanto se virava para encarar o homem em cujo peito ela
acabara de esbarrar. — Sinto muitíssimo. O senhor está bem?
– Estou sim - garantiu o sujeito ao oferecer um sorrisinho ligeiramente gelado.
– Sinto muitíssimo - repetiu Bink, olhando o homem de cima a baixo como se
de alguma forma esperasse que os enormes hematomas que ela pudesse ter
causado fossem visíveis através da roupa. — Eu machuquei o senhor? Não
derramei sua bebida, não foi? Por favor, que eu não tenha derramado sua bebida.
– Nem uma gota - garantiu o homem, perdendo um pouco da frieza; como
deveria, aliás, pois aquele era o melhor golpe de moça desastrada de Bink, com
garantia de provocar sentimentos de satisfação, simpatia ou proteção na maioria
da população masculina. — Viu? — acrescentou ele ao erguer o copo para que
ela verificasse.
– Graças aos céus — suspirou Bink, que notou que o copo estava meio cheio
de conhaque de Cariem, no nível certo para alguém que estivera saboreando
lentamente pela última meia hora, mais ou menos. - Isso realmente parece
gostoso. Eu odiaria que alguém desperdiçasse essa bebida, especialmente se eu
fosse essa pessoa.
– Está gostoso, e você não desperdiçou — garantiu ele novamente.
– Fico tão contente - respondeu ela.
O homem estava mentindo, obviamente, pelo menos sobre a primeira parte. O
copo podia estar apenas meio cheio, mas não havia gotas ou outros traços de
líquido na borda do copo ou nas laterais. Ele estava meio cheio desde o início, e
o sujeito não dera nem sequer um gole.
Ele também tinha um comlink de colarinho, o leve volume de uma arma de
raios escondida embaixo da lateral direita da túnica e o igualmente sutil volume
de uma faca presa ao antebraço esquerdo, embaixo da manga. Só o fato de não
estar bebendo já o teria identificado como alguém do pessoal de Villachor. O
olhar inflexível e as armas fecharam o pacote.
Obviamente, também havia o fato de que o rosto dele batia com o holovídeo
que Rachele tinha acessado sobre Lapis Sheqoa, o chefe da força de segurança
da mansão de Villachor.
Os holovídeos realmente acabavam com a graça desse jogo.
– Apenas tente tomar mais cuidado - disse ele, oferecendo um sorriso
ligeiramente mais genuíno agora. - Olhar para trás quando se está andando é uma
péssima ideia, especialmente em uma multidão como essa. - Sheqoa ergueu um
dedo de alerta. - Além disso, na próxima vez você pode trombar com o garfo de
frutos do mar de alguém.
– E seria bem feito - declarou Bink em um tom de falsa seriedade, combinado
com um sorriso sardónico enquanto se afastava dele. - A gente se vê.
Ela passou a próxima meia hora passeando pelas dependências, admirando as
atrações, puxando conversa fiada com outras duas mulheres na multidão,
pegando um copo de alguma coisa frutada para beber e tomando cuidado para
não ter a mínima noção de onde Sheqoa estivesse. Era praticamente certo que ele
estaria de olho em Bink, pelo menos de vez em quando, e ela não poderia dar a
impressão de estar fazendo o mesmo.
Quando chegasse o momento, Bink não esperava ter problema algum em
localizá-lo novamente.
Ela julgou ter esperado tempo suficiente e deu mais dez minutos. A seguir,
Bink se juntou aos celebrantes em uma das mesas que serviam comida, encheu
um pratinho com petiscos variados, com cuidado para criar um desequilíbrio
capaz de tornar o prato difícil de controlar, sem deixar evidente tal desequilíbrio.
Com o prato em uma mão e o copo na outra, ela foi atrás de Sheqoa.
Como Bink previra, não houve problema. Praticamente dois minutos depois
de sair da barraca, ela o avistou na multidão, ainda perambulando casualmente
enquanto ficava de olho em qualquer confusão.
Hora de aumentar a pressão.
O primeiro passo foi parar bruscamente, com os olhos no prato e na pilha
subitamente oscilante de biscoitos confeitados. A seguir vieram os pedidos de
ajuda aos transeuntes, e todas as solicitações cada vez mais frustradas foram
completamente ignoradas por todos que passavam.
Obviamente, o motivo para isso era que Bink estava mexendo os lábios sem
emitir som algum, o que significava que nenhum dos transeuntes fazia a mínima
ideia de que ela estava em dificuldades. Mas Sheqoa não tinha como saber disso,
não à distância em que estava e com o leve rugido da multidão e as atrações das
pedras em movimento em volta deles.
Bink continuou com a mímica dos pedidos de ajuda por vários segundos, até
que o instinto disse que aquela parte da farsa já tinha dado o que tinha que dar.
Ainda se desviando de transeuntes, ela começou a examinar o chão em volta dos
pés, como se tentasse calcular se havia um lugar seguro para pousar o copo...
Abruptamente, e alguns segundos antes do que Bink esperava, um braço
apareceu no limite da visão e arrancou o copo de sua mão.
– Aqui, deixe-me ajudar - ofereceu Sheqoa.
– Ah, obrigada - disse Bink, deixando que a ansiedade e a frustração fingidas
fossem embora em uma onda de alívio enquanto arrumava os biscoitos em uma
configuração mais estável. - Obrigada — repetiu ela, erguendo o olhar. — Eu
estava... ah. Você.
– A gente parece estar se esbarrando, não é? - disse ele, oferecendo um sorriso
mais genuíno desta vez.
Mas ainda era um sorriso reservado, com uma grossa camada de cautela por
trás.
– Pelo menos, desta vez, eu não tentei transformar seu sabe-se- lá-o-quê em
um daqueles vulcões - falou Bink. - Obrigada pela ajuda. Esses biscoitos
confeitados são demais para desperdiçar como lixo no chão. Eu sou Katrin, por
falar nisso.
– Lápis - respondeu Sheqoa. - Este é seu primeiro Festival?
– O primeiro aqui - disse ela. - Eu fui ao Festival em Barrange duas vezes
quando morava em Opolisti.
– Ouvi dizer que é bem bacana — falou ele.
– Não tanto quanto esse Festival aqui - disse Bink em tom de pesar. - Não que
eu tivesse muita chance de curtir. Na época eu
tinha o mesmo tipo de chefe que você tem.
– O que você quer dizer com isso? - perguntou ele franzindo a testa.
– Seu comlink — respondeu Bink apontando para o colarinho de Sheqoa. -
Você está de sobreaviso, não é? De folga, mas ainda assim de sobreaviso, e ele
poderia tirá-lo daqui em meio piscar de olhos.
– Algo assim — disse ele. - E como você conhece esse equipamento? É da
polícia? Militar? Técnica de medicina?
Bink conteve uma risada.
– Você vai morrer de rir com essa. Sou uma contadora.
– Uma contadora?.
– Não é uma loucura? — concordou ela. — Ora, vamos... quando foi a última
vez que alguém ligou para um contador depois do horário comercial e disse —
ela abaixou o tom da voz e imitou um chefe severo e carrancudo - “precisamos
que você venha correndo e examine umas contas neste mesmíssimo minuto?”.
Ele riu, e um pouco da circunspecção sumiu.
– A maioria das contas que eu conheço não tem problema em esperar até o
horário comercial - concordou ele.
– E a doideira é que ele realmente fez isso - disse Bink. - Meu chefe realmente
me arrastou duas vezes para coisas que poderiam ter sido deixadas para o dia
seguinte sem que ninguém no universo se importasse, a não ser ele. Uma das
vezes eu recebi a ligação bem no meio de uma ópera. - Ela balançou a cabeça ao
se lembrar. — A expressão na cara das pessoas enquanto eu passava por elas,
tropeçando. Se o Império quiser matar rebeldes, eles devem falar com aquelas
pessoas. Alguns daqueles olhares podiam fritar banthas a 50 metros.
– Ópera, é? - falou Sheqoa. - Eu jamais teria achado que você era dessas.
– Ah, não sou - disse ela. - Mas o cara com quem eu estava na época
realmente gostava de ópera. Sou mais do tipo glitz de três acordes. E você?
Presumo que não seja um contador, a não ser que meu ex-chefe tenha aberto uma
sucursal na Cidade de Iltarr.
– Não, não, sou algo bem menos interessante — respondeu Sheqoa. - Eu
trabalho com a segurança da mansão do mestre Villachor.
Bink arregalou os olhos.
– Ah. Uau. Eu... eu não falei algo de ruim sobre alguma coisa, falei?
– Você disse que o mestre Villachor organiza um Festival melhor do que o
mestre Barrange, que minha bebida parece gostosa e que não queria derrubar
biscoitos confeitados no chão - falou Sheqoa. - O pessoal da limpeza vai ficar
especialmente contente com essa última.
– Ah, que bom - disse Bink. - Porque eu realmente estou curtindo o evento. Eu
odiaria ser banida do resto.
– Só tente não esbarrar em mais ninguém que você vai ficar bem. — Sheqoa
devolveu o copo dela. - E agora tenho que voltar ao dever.
– Ah, sim, claro - falou Bink recebendo o copo de volta. - Obrigada
novamente. Uma pergunta rápida: uma vez alguém me disse que o mestre
Villachor tem os instrumentos originais de glitz de Sunright Feinhomm. É
verdade?
– É, sim - confirmou Sheqoa. — Talvez eu consiga mostrá-los para você
algum dia.
– Isso seria tão sensacional - disse Bink dando o sorriso mais reluzente. —
Bem, foi um prazer conhecer você, Lapis. A gente se vê por aí, provavelmente.
– Eu estarei aqui — respondeu Sheqoa sorrindo e dando um breve aceno.
Ele ainda estava sorrindo quando deu meia-volta e entrou na multidão.
Bink tomou um gole da bebida e foi na direção de uma das arquibancadas.
Sim, tinha dado certo. Ele estava completamente a fim dela.
E também tinha sacado completamente qual era a dela.
Bink sorriu para si mesma. Perfeito.

A multidão já era enorme, e parecia que uma em cada três pessoas que
avistava Villachor queria vir cumprimentá-lo, agradecer pela hospitalidade ou
conversar um momento com ele como se fosse de fato um amigo.
Mas se havia uma coisa que Lando aprendera na mesa de sabacc era
paciência. Ele exercia aquela paciência naquele momento, passeando pela borda
do séquito de Villachor, examinando o homem e seus guarda-costas. Os nativos
usavam determinados gestos e palavras nas saudações, que ele percebia ao
mesmo tempo que tentava identificar os sinais de interesse, impaciência ou tédio
da parte do próprio Villachor.
Finalmente, houve uma calmaria. Villachor fez uma pausa e olhou em volta
enquanto murmurava alguma coisa para um dos guarda-costas. Lando deu a
volta por um par de Ithorianos de cabeça de martelo e foi atrás do grupo.
Villachor notou a aproximação dele, e Lando notou um leve tremor no lábio
antes de o rosto do anfitrião dar mais um de seus sorrisos falsos.
– Boa tarde - disse Villachor, provavelmente na esperança de que, ao falar
primeiro, pudesse controlar a duração da conversa. - Curtindo o Festival?
– Muito - respondeu Lando, dando um educado aceno de cabeça que parecia
ser condizente com os cidadãos da elite da Cidade de Iltarr. — Eu imagino que
algo do gênero seja extremamente caro de organizar.
O sorriso de Villachor diminuiu um pouco. Aparentemente, a maioria das
pessoas com quem falava tinha o bom senso de não abordar um assunto tão
grosseiro.
– Vale muito o custo — respondeu ele calmamente. — O prazer que o Festival
dá ao cidadão comum é algo que não pode ser medido.
– É verdade — concordou Lando. - E, obviamente, eu suponho que o Festival
ofereça oportunidades únicas de conhecer pessoas. Algumas das quais podem
trazer ofertas interessantes.
O sorriso de Villachor cresceu, ao mesmo tempo que esfriou alguns graus.
– Eu sinto muito, mas todas as discussões sobre novos negócios estão
interrompidas durante o Festival, mas fique à vontade para entrar em contato
com meu gabinete após o fim da Honraria ao Fogo em Movimento. - Ele
inclinou a cabeça e começou a dar as costas.
– Eu compreendo - disse Lando dando um longo passo para se aproximar,
ciente de que os dois guarda-costas já se moviam para interceptá-lo. - Deixe-me
dizer apenas uma palavra: Cryo...
Lando foi interrompido quando os dois guarda-costas o seguraram, e um
colocou o antebraço em sua garganta como um gesto de advertência enquanto o
afastavam de Villachor.
– Um momento - falou Villachor, detendo os homens com um dedo erguido.
— Muito bem — continuou ele com um tom de voz casual ensaiado. - Uma
palavra.
O guarda tirou milimetricamente o braço da garganta de Lando, pronto para
esganá-lo se necessário. Lando pigarreou.
– Cryodex — disse ele.
Lando contou seis batidas do coração antes de Villachor falar novamente.
– Tragam-no - disse ele abruptamente.
Villachor deu meia-volta e retornou a passos largos para a mansão, indo na
direção de uma das menores portas de serviço. Os guarda-costas soltaram Lando,
e um deles o cutucou nas costas, dando uma ordem silenciosa.
Não que ele precisasse de qualquer incentivo. Lando ia atrás de Villachor a
passos rápidos, ajustando o ritmo para alcançá-lo aos poucos. Ele sabia que
havia dezenas ou possivelmente centenas de pessoas e droides entrando e saindo
da mansão naquele dia, para reabastecer as barracas com comida e bebida e
cuidar de outros afazeres. Seria instrutivo ver exatamente como Villachor havia
arrumado as trancas das portas para permitir um vaivém deles e, ao mesmo
tempo, impedir que estranhos aleatórios entrassem na mansão.
Foi, na verdade, um completo anticlímax. Villachor simplesmente percorreu a
trilha de lajotas até a porta, pegou e virou a maçaneta, e abriu a porta sem
problemas, incómodos ou contestação.
Lando conteve um sorriso quando ele e os dois guarda-costas entraram atrás
de Villachor. Como um dos truques de mágica de Zerba, as aparências
enganavam. Villachor pegara a maçaneta, mas, imediatamente antes de virá-la,
curvou-se levemente na cintura. Havia então um disparador eletrónico, com o
receptor no mecanismo da maçaneta e o ativador escondido em algum lugar na
área do pescoço ou ombro de Villachor. Possivelmente o pingente retangular
com uma minúscula pedra esmaltada que Lando notara em uma pequena
gargantilha em volta do pescoço de Villachor.
E que também estava no pescoço dos guarda-costas, Lando percebia então.
Eles haviam arrumado um jeito de entrar. Talvez.
Villachor parou depois de alguns passos perto da porta e esperava por eles ao
lado de mais dois guardas.
– E agora - disse ele, sem sequer a falsa cordialidade na voz -, vamos a um
lugar calmo para conversar um pouco.
CAPÍTULO

10

Desde o início da caminhada solitária pelas dependências, Han achou que as


várias atrações que Villachor reunira para a Honraria à Pedra em Movimento
eram uniformemente impressionantes. Mas, para ele, os tornados de areia eram
as mais interessantes, mais fotogênicas e, no fim das contas, as atrações com
maior potencial de uso. Han foi de tornado em tornado, ficou parado por alguns
minutos diante de cada um, admirando as formas serpenteantes e fingindo tirar
inúmeras fotos com a holocâmera falsa que Chewbacca havia montado para ele
na noite anterior.
Han também não estava sozinho em suas atividades. Muitas pessoas faziam
exatamente a mesma coisa, ele geralmente se via no meio de uma pequena
aglomeração enquanto batia holofotos falsas.
A multidão era formada em sua maioria por famílias com crianças, e todas
elas encaravam as tempestades em miniatura com um misto de deslumbramento,
alegria e seriedade que apenas as crianças muito pequenas eram capazes de
expressar. As mais aventurescas ousavam chegar perto, tocavam — algumas
com mais ousadia, outras com mais cautela - a borda do redemoinho de areia e
depois voltavam correndo para os pais, rindo. Os pais, por sua vez, pareciam
confiar na engenharia de Villachor e presumiam que os projetistas dos tornados
tinham garantido que o suporte e o campo repulsor evitariam que a areia vazasse
e ameaçasse os filhos.
Eles estavam certos, em grande parte. Os primeiros quatro tornados que Han
verificou estavam tão isolados e protegidos como se fossem apenas hologramas
flutuando acima do chão. As crianças ainda conseguiam tocar no redemoinho de
areia, mas cada toque soltava apenas alguns grãos dos campos, que caíam
inofensivamente e se espalhavam pelo chão. Han passava o mínimo de tempo
possível diante de cada tornado daqueles, considerando seu papel como turista
louco por tirar holofotos, antes de ir para o próximo.
E foi no quinto tornado que Han sacudiu a areia e deu a volta por cima.
Literalmente.
Algo tinha dado errado com o campo de contenção da atração. Nada
gravemente errado, nem mesmo tão obviamente errado assim. Mas enquanto o
chão perto dos outros tornados tinha apenas uma leve camada de areia solta pelo
toque de mãos humanas e alienígenas, aquele ali tinha um anel evidente de
material que se soltara e se acumulara a cerca de um metro da beira do tornado.
Han sabia que o anel não ficaria ali por muito tempo, não com droides-câmera
flutuando no alto e seguranças perambulando pelas
dependências. Mais cedo ou mais tarde, alguém notaria o problema e o
relataria, e droides de manutenção, vestidos naqueles trajes ridículos de pedras
em movimento, correriam para consertar o vazamento e limpar a areia.
Mas o anel estava ali naquele momento, e era tudo de que Han precisava.
Ele fez questão de marcar o tempo que passara nas outras atrações e não tinha
intenção de chamar atenção ao passar mais ou menos tempo naquela ali. Porém,
desta vez Han se aproximou um pouco mais do tornado enquanto tirava as
holofotos falsas, ouvindo atentamente o barulho da conversa ao redor.
Logo à esquerda havia uma criança do ensino fundamental pedindo aos pais
permissão para tocar no tornado. Ainda tirando holofotos com a holocâmera,
Han se aproximou dela. Os pais discutiram o assunto brevemente, depois deram
permissão. A menina correu audaciosamente à frente...
E ao passar pelo cotovelo de Han, ele virou a mão como se a criança tivesse
esbarrado no seu braço e soltou a holocâmera, que foi cair bem no meio do anel
de areia.
– Meelee! — berrou a mãe da menina. - Olhe o que você fez!
– Tudo bem - Han se apressou a acalmá-la enquanto se aproximava e se
ajoelhava ao lado da holocâmera.
A garota, por sua vez, já tinha parado e dado meia-volta, claramente confusa
pelo resultado bizarro do que ela sabia ter sido apenas um toque de uma manga
na outra, e igualmente confusa pela bronca que estava levando por isso.
– Não se preocupe - acrescentou Han -, essas coisas duram bastante. - Ele
estendeu a mão e pegou a holocâmera.
E ao fechar os dedos em volta do aparelho, Han apertou discretamente o botão
escondido.
Ele havia pedido para Chewbacca fazer um aspirador silencioso, e como
sempre o Wookiee seguira à risca sua instrução.. Mesmo estando ajoelhado
diretamente acima do aparelho, Han mal conseguia ouvir o barulho da areia
raspando ao ser sugada pelo duto, e o aspirador em si era completamente
inaudível. O restante da multidão, a 3 metros ou mais de distância, não poderia
ter ouvido nada.
– Viu só? - disse ele ao pegar o aparelho e se voltar para os pais ansiosos. Ao
fazer isso, passou o pé sobre a areia como quem não quer nada, para apagar
todos os traços da pequena cratera que o aspirador tinha feito no anel perfeito. —
Sem problema. Está inteiro.
E com um sorriso amigável para a menina ainda confusa, Han se enfiou na
multidão e foi embora casualmente.
Ele visitou mais dois vulcões, apenas para apagar os rastros, e depois foi se
encontrar com Kell.
Ele encontrou o rapaz esperando em uma área de estar entre duas barracas,
perto da extremidade norte da mansão e da garagem enorme de Villachor para
landspeeders e airspeeders.
– Algum problema? - perguntou Kell quando Han surgiu e se sentou diante
dele à mesa.
– Nenhum - respondeu Han, batendo no bolso do colete onde guardara a
holocâmera. - Você está pronto?
Na opinião de Han, Kell ainda não parecia pronto para arrombar o cofrinho de
uma criança, quanto mais a caixa-forte particular de um chefão do crime. Mas o
aceno de cabeça foi suficientemente firme.
– Vamos nessa.
– Ok - disse Han, se lembrando mais uma vez de que Mazzic recomendara o
garoto.
Ele olhou em volta e viu um par de droides ocupados em recolher pratos e
copos usados de cima de uma mesa próxima.
– Conte até cinco - instruiu Han. - E fique de olho no momento de agir.
Os droides ainda estavam limpando a mesa quando ele chegou lá.
– Ei - disse Han ao abordar um dos droides. - Você sabe me dizer quando
param de servir o almoço e trocam para o menu de jantar?
– Não há hora marcada para a troca de comida — respondeu o droide ao virar
o rosto encapuzado para Han enquanto continuava a recolher a louça. O capuz
que cobria a face tremulou na brisa, o que deu uma atmosfera perturbadora de
baile de máscaras à conversa. — Os vários pratos são trocados em horários
diferentes no decorrer do dia. Se o senhor quiser, os serventes nas barracas
podem lhe fornecer um cronograma para cada troca.
– Bem, o que eu mais queria saber é se vocês terão kiemple à caçarola —
falou Han, que viu, pelo rabo do olho, Kell se aproximando da mesa pela direita.
- Sabe o que é? Deixa para lá - respondeu ele antes que o droide pudesse
responder. - Eu tenho um holovídeo aqui em algum lugar do Festival do ano
passado - Han continuou falando enquanto puxava a holocâmera e resistia a uma
súbita onda de incerteza.
Eu dou conta disso, Han disse para si mesmo com firmeza. O tempo seria
apertado, mas ele e Chewbacca corriam contra o tempo todas as vezes que
voavam na Falcon. Aquilo seria como um dia normal de contrabandismo.
– Aqui está - continuou Han, enfiando a holocâmera na frente da máscara do
droide.
Ao lado dele, Kell chegou à mesa. E quando o garoto passou pelo prato que o
droide pretendia pegar, Han apertou o obturador da holocâmera e derramou a
areia que ele havia coletado bem na luva do droide. Quando a mão se fechou no
prato e no pulso de Kell, houve um leve som de esmigalhamento...
– Ei! - reclamou Kell. - Solte.
Ele pegou a mão do droide, como se tentasse soltá-la, mas em vez disso
apertou mais os dedos mecânicos em volta do pulso. Kell puxou o braço, e o
droide veio com ele.
– Solte.
– Oh, céus - falou o droide com uma voz sofrida. - Sinto muitíssimo, mas
aparentemente eu estou preso.
– Que beleza — rosnou Kell. — Ei... você.
– O quê? Eu? - perguntou Han.
– Sim, você - disse Kell. - Pode chamar alguém para tirar esse troço de mim?
– Há algum problema aqui? - falou uma nova voz.
Han se virou. Um dos seguranças de Villachor vinha a passos largos na
direção deles, com os olhos observando a cena.
– Sim, há um problema - disparou Kell. — Eu estava tentando chegar ao meu
copo ali e esse troço me agarrou e não quer soltar.
– Sinto muitíssimo - repetiu o droide. - Minhas engrenagens aparentemente
estão emperradas.
– Sim - disse o segurança, enquanto afastava gentilmente a manga da luva do
braço do droide e examinava. - Provavelmente entrou areia ali dentro; com
certeza tem muita voando por aí.
– Que beleza - murmurou Kell. - Então, o que a gente faz?
– A gente tira fora — falou o guarda calmamente e gesticulou para a mansão. -
Venha, tem uma oficina de droides bem ao lado da garagem.
Os dois foram embora, com Kell resmungando, o droide se desculpando, e o
guarda provavelmente desejando que seu turno tivesse acabado meia hora mais
cedo. Han viu o trio ir embora, com uma onda de satisfação pelo corpo.
Como ele sempre dizia, tudo era questão de tempo.

Lando foi levado para Villachor até um aposento pequeno e sem janela, que
continha possivelmente a mesa de trabalho mais intimidante que Lando já tinha
visto na vida. Mais dois guardas esperavam do lado de dentro, bem perto da
porta, o que elevava para seis o número de homens armados.
– Sente-se - disse Villachor, indicando uma enorme cadeira acolchoada em
frente à mesa enquanto ele dava a volta por trás dela. - Talvez você queira algo
para beber?
Lando sabia que aquela provavelmente era uma oferta sincera. Mas também
era um teste. Villachor estava sondando Lando, tentando perceber a fala, as
reações, os modos e padrões. Era a mesma dança refinada que também
acompanhava toda partida de sabacc, e Lando estava acostumado àquilo.
– Não, obrigado — disse ele se acomodando na cadeira.
Ela era ainda mais confortável do que aparentava; os braços macios e as
almofadas cederam ao peso de Lando e o envolveram. Ele estaria sem sorte se
estivesse planejando uma saída rápida e inesperada. Provavelmente era esse o
motivo por trás do design da cadeira, na verdade.
– Eu sei que seu tempo é valioso.
– É mesmo - concordou Villachor, que se sentou na própria cadeira.
– Porém, mais valioso ainda do que o tempo é a informação — continuou
Lando. — E tenho certeza de que o senhor não quer que o que estou prestes a lhe
dizer seja ouvido por ninguém além do seu pessoal mais próximo e mais
confiável.
Villachor deu um sorrisinho.
– Se eu não confiasse nestes homens, eles teriam ido embora há muito tempo.
– É claro — falou Lando. - Mas existe confiança e confiança.
Por um instante, Villachor o encarou pensativo. A porta se abriu do outro lado
da sala, e o homem que a pesquisa de Rachele identificara como o chefe de
segurança, Sheqoa, entrou. Villachor olhou de relance para o sujeito e retornou o
olhar para Lando.
– Muito hem — disse ele. — Tawb, Manning, esperem lá fora. Os demais,
voltem para seus afazeres. Sheqoa, você fica comigo.
Tão silenciosamente quanto Sheqoa entrara, o restante dos guardas saiu.
Villachor esperou que a porta estivesse fechada novamente, depois gesticulou
para Sheqoa ficar atrás de Lando.
– Muito bem, você tem a privacidade que queria - falou ele. - Fique sabendo
que, se isto for alguma espécie de piada ruim, meu rosto será a última coisa que
seus olhos verão na vida.
– Sem piadas - garantiu Lando, que estava acostumado a ser ameaçado, mas
havia algo na voz de Villachor que lhe provocou um arrepio na espinha. — Vou
começar contando algumas coisas que o senhor já sabe. O senhor é um
integrante do alto escalão do Sol Negro, está recebendo um integrante ainda
mais elevado, um vigo chamado Qazadi, e o mestre Qazadi possui um conjunto
de arquivos de chantagem que o senhor está usando para ganhar ou sedimentar
vantagens contra vários cidadãos de Wukkar e provavelmente alguns visitantes
de fora do planeta que vieram para o Festival.
Ele fez uma pausa para tomar ar.
– Você é um contador de histórias divertido, no mínimo — comentou
Villachor, sem revelar nada na expressão. — Por favor, continue.
– Os arquivos de chantagem estão, obviamente, super encriptados - disse
Lando. - O aparelho usado para decifrá-los é chamado de cryodex, de design
alderaaniano, e apenas poucos deles ainda existem.
– Ou possivelmente nenhum - sugeriu Villachor.
– Não, existem pelo menos dois - garantiu Lando. - O mestre Qazadi tem um.
- Ele inclinou a cabeça. - Eu tenho outro.
O olhar de Villachor foi para Sheqoa, depois se voltou para Lando.
– Eu calculo pelo seu tom excessivamente dramático que você espera que isso
tenha algum significado para mim.
– Sim - concordou Lando. - E uma vez que ambos concordamos que o tempo
é precioso, deixe-me colocar as cartas na mesa. Eu represento um grupo de
pessoas que assumiu a tarefa de vasculhar o Império em busca de gente que
pense da mesma forma, cujos talentos e ambições estejam sendo subutilizados
ou, em alguns casos, completamente desperdiçados. Quando pessoas assim são
encontradas, esse grupo oferece melhores condições para elas. Às vezes, isso
envolve um posto em uma organização diferente, uma que as valorize mais. Em
outras ocasiões, significa dar ajuda para que elas caminhem sozinhas. Às vezes,
indicamos uma solução intermediária, um trabalho temporário ou talvez uma
autonomia tutelada.
– E se a pessoa está plenamente contente onde está? — perguntou Villachor.
Lando deu levemente de ombros.
– Pela minha experiência, ninguém que esteja trabalhando abaixo de suas
capacidades está plenamente contente.
– A não ser que a pessoa saiba que a atual situação é a melhor que
provavelmente terá.
– Sempre há algo melhor - falou Lando. - É simplesmente uma questão de
reconhecer a oportunidade quando ela chega.
– Você faz parecer tão fácil - disse Villachor secamente. - E tão desprovido de
um provável perigo. Fale sobre este seu suposto cryodex.
– Como eu disse, o cryodex é a chave para ler os arquivos de chantagem que
estão guardados em sua caixa-forte neste momento
– explicou Lando mantendo a voz firme. O plano inteiro de Han dependia de
que essa história fosse convincente. - Esses arquivos teriam um valor
imensurável para as pessoas que eu represento.
O sorriso de Villachor foi sombrio e irritadiço.
– E tudo que eu tenho que fazer é entregar os arquivos, e oportunidades
maravilhosas cairão do céu?
– Oportunidades maravilhosas, exatamente - confirmou Lando.
– O senhor seria capaz de literalmente cobrar o próprio preço, à sua escolha. -
Ele fez que não com a cabeça. - Mas nós dois sabemos que não cairiam apenas
oportunidades. O príncipe Xizor em pessoa provavelmente lideraria a expedição
atrás de sua cabeça.
– E da sua - salientou Villachor. - Porque eles certamente arrancariam todos os
nomes, rostos e memórias de mim antes que eu tivesse permissão para morrer.
– Ah, eu não tenho dúvida — concordou Lando em tom sombrio. — Por isso
o senhor seria um tolo se roubasse os arquivos, e por isso eu seria um tolo se
sugerisse tal coisa.
Villachor franziu levemente a testa.
– Neste caso, por que você está aqui exatamente?
– Para oferecer uma alternativa mais segura — disse Lando. — Não para
roubar os arquivos, mas para copiá-los.
Novamente, o olhar de Villachor se voltou para Sheqoa.
– Copiá-los - repetiu ele categoricamente.
– Exatamente - falou Lando. - O senhor tem os arquivos; eu tenho o cryodex.
Nós nos encontramos na caixa-forte, deciframos os arquivos e copiamos em
datacards padrão, talvez protegidos por nossas próprias encriptações, escolhidas
por nós.
– Nossas encriptações?
Lando ergueu a mão.
– Um ato falho. Suas encriptações, obviamente.
– Ótimo — disse Villachor em uma voz que novamente provocou um arrepio
nas costas de Lando. - Porque qualquer tentativa da sua parte de fazer uma cópia
exigiria que eu lhe matasse ali mesmo. Vamos dizer que eu tenha cópias dos
arquivos. O que acontece a seguir?
– Eu apresentaria o senhor aos cavalheiros dos quais lhe falei - Lando
conseguiu responder, com a garganta subitamente seca. - Vocês chegarão a um
acordo mutuamente satisfatório, e a ascensão à plenitude de seu potencial terá
começado.
– Sim - falou Villachor pensativamente. - Deixe-me lhe dizer o que eu acho.
Acho que você nunca viu um cryodex na vida, muito menos possui um. Acho
que você não tem organização alguma por trás, certamente nenhuma com algum
poder. Acho que está aqui simplesmente como um teste para ver se minha
lealdade ao Sol Negro pode ser subvertida por uma história tão ridícula e obtusa.
E acho que, só por cautela, eu terei que matá-lo.
Villachor se recostou novamente na cadeira.
– Vamos tentar de novo. Quem é você, e para quem você trabalha?
– Não há necessidade de ameaças — reclamou Lando brandamente, sentindo
um pouco da tensão ir embora.
A ameaça era real; porém, estranhamente, aquilo era um bom sinal, na
verdade. Se Villachor não estivesse interessado, ou pelo menos intrigado pela
oferta, ele simplesmente teria mandado Sheqoa expulsá-lo.
– Meu nome não é importante, mas o senhor pode me chamar de Kwerve. E
quanto aos meus empregadores... - Lando deu de ombros. - Por enquanto eles
devem permanecer anónimos.
– Que pena — falou Villachor. Talvez ele tivesse contraído a sobrancelha ao
ouvir o nome, mas a reação foi suficientemente pequena a ponto de Lando ter
apenas imaginado. - Teria sido útil saber para onde enviar seu corpo.
– E claro que o senhor não precisa se comprometer agora - continuou Lando.
— Eu não esperaria por isso. Daqui a dois dias é a Honraria ao Ar em
Movimento. Na ocasião, trarei meu cryodex para mostrá-lo. O senhor pode
selecionar um dos datacards de chantagem, e eu decifrarei um dos arquivos para
o senhor. Depois disso, conversaremos mais.
– Considerando que nós dois ainda sejamos capazes de conversar?
– Por que não seríamos? - contra-argumentou Lando com bom senso. — O
senhor não fez nenhuma declaração e não tomou nenhuma atitude que seja de
alguma forma desleal aos chefes do Sol Negro. Tudo que o senhor concordou em
fazer foi ver se um estranho que alega possuir um artefato valioso realmente o
possui. Se eu possuir, é possível que sua intenção seja comprar o artefato e
enviá-lo para o Centro Imperial como um presente para a coleção de raridades
do príncipe Xizor.
– Talvez - disse Villachor enquanto sondava o rosto de Lando com o olhar.
Lando ficou sentado calado, esperando Villachor analisar a proposta. Quando
veio a decisão, ela veio subitamente.
– Depois de amanhã, na quinta hora após o meio-dia - disse ele abruptamente.
- A tempestade presa será apresentada nesse horário e atrairá a atenção dos
visitantes para a seção noroeste das dependências. Você virá à porta por onde
está prestes a sair e esperará até que seja aberta. Você trará, obviamente, o
cryodex.
– Obviamente — concordou Lando, que começou a se levantar, mexendo os
quadris para soltar-se dos braços extremamente estofados da cadeira.
E abruptamente caiu sentado de novo quando a mão de Sheqoa empurrou
Lando para baixo com força.
– Se você planeja uma traição - continuou Villachor, em um tom de voz baixo
e mortal -, eu sugiro veementemente que, em vez disso, você saia de Wukkar no
transporte mais próximo.
– Compreendido. Eu verei o senhor depois de amanhã, às cinco horas após o
meio-dia. - Lando virou o pescoço a fim de olhar para Sheqoa. - Posso?
Por um momento, o grandalhão apenas o encarou com uma cara inexpressiva.
A seguir, ele soltou o braço de Lando. Com mais esforço e remelexo, Lando
finalmente se soltou da cadeira.
– Os homens do lado de fora vão acompanhá-lo à saída - falou Villachor, que
permaneceu sentado. — Até lá, mestre Kwerve.
– Até lá - confirmou Lando. — Uma observação final, se for possível. Nada
neste universo dura para sempre. Nem o poder, posto ou aliados. - Ele inclinou a
cabeça. — Nem mesmo o Sol Negro. - Lando transformou a inclinação de
cabeça em um aceno educado. - Bom dia, mestre Villachor.
Sheqoa o acompanhou até a porta e murmurou algumas palavras para os
guarda-costas que esperavam do lado de fora. Um deles gesticulou
silenciosamente para Lando, e sem dar uma palavra, eles o acompanharam por
um corredor largo, passaram por um par de portas entalhadas à mão e chegaram
a uma porta modesta em uma parede grossa, mas também modesta. Lando foi
conduzido através dela e se viu na extremidade sul da ala sul da mansão.
A mesmíssima porta, na verdade, por onde Aziel sempre entrava.
O que significava que, presumindo que a planta de Rachele estivesse correta,
Lando acabara de passar pelo salão de baile menor e pela caixa-forte de
Villachor.
Talvez em dois dias ele conseguisse ver o interior daquela caixa- forte, onde
Rachele e sua incrível teia de contatos e fontes ainda nem tinham conseguido
entrar.
Talvez em dois dias ele estivesse morto.

– Sim, é areia - disse o técnico com nojo, enquanto conduzia Kell e o droide,
ainda preso ao punho dele, por um labirinto de bancadas e armários de
ferramentas que batiam na cintura, na direção de um banco vazio perto dos
fundos. - É o terceiro hoje, e a Honraria mal começou. - Ele virou Kell de costas
e o sentou. — Você, curve-se - falou o técnico para o droide.
Obedientemente, o droide dobrou o corpo na cintura e colocou o punho e o
braço de Kell em um ângulo mais confortável.
– Pelo menos é só um dia - comentou Kell. - O resto das Honrarias deve ser
mais fácil para eles.
– Não creia nisso - resmungou o técnico, que repuxou o topo da luva do
droide e espiou a junta emperrada. - O ar em movimento levanta terra, poeira e
qualquer areia que os droides EG não tenham recolhido, a água em movimento
chega a lugares aonde a areia não chega, e nem me faça falar sobre o fogo e os
fogos de artifício. - Ele estalou a língua. - É, estou vendo. Espere... vou soltá-lo
num instantinho.
O técnico foi até um armário de ferramentas aberto e espiou lá dentro,
murmurando baixinho. Enquanto ele fazia isso, Kell olhou a oficina como quem
não quer nada.
Era um lugar impressionante, mais bem equipado até do que a maioria das
instalações de reparos de droides onde Kell estivera no decorrer dos anos. Em
uma das paredes laterais só havia equipamento de manutenção de ponta da
Cybot Galáctica, com máquinas intercaladas com armários de peças
sobressalentes e suportes de ferramentas. Plugadas às máquinas ou espalhadas
sobre bancadas próximas, havia partes parcialmente desmanteladas de personal
chefs 434-FPC, droides de trabalho EG e droides protocolares das séries PD e
3PO. O equipamento na outra parede lateral parecia ser dedicado a produtos da
Industrial Automaton, SoroSuub, Changli e GlimNova, com alguns droides
serviçais SE4 e trabalhadores ASP-15 em cima das mesas. Enfiado num canto,
parecendo um pouco esquecido, estava um droide garçonete WA-7 que
certamente era uma sobra da época da República, provavelmente esperando por
peças sobressalentes que Kell julgava estarem esgotadas havia muito tempo.
Mais agourenta, uma seção inteira da parede dos fundos era dedicada a
equipamentos dos droides policiais 501-Z. Um Z parcialmente desmontado
estava espalhado sobre uma das mesas, e Kell prestou atenção à estranha placa
do braço, coxa e cintura.
– Lá vamos nós - disse o técnico ao tirar uma sonda comprida e fina de um
armário.
Ao voltar para Kell, ele enfiou a sonda dentro da luva do droide. Após alguns
segundos mexendo aqui e ali, de repente a força no pulso de Kell diminuiu. O
técnico afastou os dedos mecânicos alguns centímetros, e Kell soltou a mão.
– Maravilha - falou Kell enquanto massageava o pulso. - Muito obrigado. Eu
temia passar toda a Honraria preso aqui.
– Não, quem vai passar sou eu - disse o técnico em tom amargo. - Da próxima
vez que o senhor vir um droide tentando pegar alguma coisa, faça-me um favor e
fique longe dele, ok?
– Pode deixar - prometeu Kell. - Aquela é a saída, certo?
– Certo - respondeu o técnico. - O guarda do lado de fora irá levá-lo de volta
ao pátio.

A grande erupção do géiser foi o clímax do dia inteiro, tão espetacular quanto
os projetistas e técnicos prometeram que seria. Várias torrentes de areia e
pequenos seixos irromperam do maior dos vulcões de lava fria e se misturaram
às luzes e brasas e aos fogos de artifício que brilhavam entre eles, tudo isso
acompanhado por música especialmente encomendada para o evento. A multidão
estava tão animada quanto o próprio géiser, e as pessoas vibravam, batiam
palmas e urravam a cada nova nuance ou reviravolta. Era o apogeu da Honraria à
Pedra em Movimento, visto por milhares de pessoas e que certamente seria
comentado por outras milhares nos próximos dias e meses.
Sozinho na sacada de apresentação, Villachor mal notava o espetáculo.
Kwerve. Era assim que o misterioso visitante se chamara. Um nome inócuo,
certamente. Um nome que a enorme maioria das pessoas não acharia nem um
pouco incomum ou interessante.
Mas Villachor não era a maioria das pessoas. Ele era um chefe de setor do Sol
Negro, e as pessoas em sua profissão sinistra ficavam de olho umas nas outras.
Bidlo Kwerve fora um dos principais agentes de Jabba, o Hutt, até que Jabba
decidiu torná-lo a primeira vítima oficial de seu novo rancor de estimação. Uma
criatura que, se as histórias fossem verdade, o próprio Kwerve encontrara e
ajudara a dar ao gângster corpulento.
Então por que o visitante de Villachor escolhera aquele nome? Será que estava
dizendo que trabalhava para os Hutts? Que não estava trabalhando para os
Hutts? Que o objetivo principal daquela operação era derrubar os Hutts?
Se fosse o caso, parte do objetivo seria colocar Villachor no vácuo da
organização que seria deixado pela morte de Jabba?
O detalhe maluco era que isso realmente seria possível. Os arquivos de
chantagem de Xizor estavam longe de ser a única arma do Sol Negro, mas
certamente eram uma das mais potentes. Ser capaz de atingir aquela população
do exército silencioso de Xizor daria uma imensa vantagem para um rival, quer
esse rival escolhesse afastar uma das pobres vítimas ou simplesmente expô-la, e
desse modo eliminar sua utilidade para o Sol Negro.
Kwerve também estava certo a respeito de outra coisa. No momento, o Sol
Negro estava no ápice de seu poder, mas aquela posição não duraria para
sempre. Senhores do crime e organizações subiam e desciam como as marés,
destruídos por rivais gananciosos ou corrompidos e implodidos pela própria
ganância. Essa mesma combinação de caos e morte havia derrrubado Sise
Fromm, Alexi Garyn, Jorj Car’das e inúmeros outros. Algum dia Jabba também
cairia.
Assim como o próprio príncipe Xizor. Provavelmente até mesmo antes de
Jabba, considerou Villachor, dada a intensa rivalidade de Xizor com Lorde
Vader. Muitos senhores do crime menosprezavam Vader ou o descartavam como
um mero lacaio de Palpatine. Villachor sabia que não devia fazer isso.
E quando Xizor caísse, como ficaria Villachor?
Vivo, bem e em algum lugar seguro, ele se prometeu com firmeza. Villachor
se certificaria disso. Ele sobreviveria ao Sol Negro, e se possível até prosperaria
durante o processo.
Será que a oferta de Kwerve era a porta para aquela liberdade? Ou era
simplesmente outro teste sádico, e a suposta porta não levaria a lugar algum, a
não ser à morte súbita?
Villachor ainda não sabia, mas descobriria.
De uma forma ou de outra, ele terminaria o Festival em uma posição melhor
do aquela que em que estava no início. Villachor teria poder e liberdade ou teria
um cryodex sobressalente para oferecer a seu senhor no Centro Imperial. Um
cryodex e muito provavelmente uma cabeça recém-cortada.
Deixe Qazadi ousar testá-lo então.

Ao longe, o grande encerramento da Honraria à Pedra em Movimento de


Villachor era pouco mais do que uma nuvem
ligeiramente difusa de luzes piscantes.
– Provavelmente é mais impressionante do chão - comentou
Eanjer.
– Provavelmente - concordou Han. - Você já foi a um desses eventos?
– Do Villachor? - Eanjer balançou a cabeça. - Não. Só estou supondo. Eu
tenho uma pergunta.
– Vá em frente.
Eanjer fez uma pausa, como se escolhesse as palavras com cuidado.
– Eu sei que você e os demais sabem mais dessas coisas do que eu. Mas me
parece que há sérios problemas com esse plano que vocês aparentam estar
ignorando.
– Tais como?
– Como o fato de que esse sujeito Sheqoa parece ter sacado qual é a da Bink -
disse ele. - Ela praticamente admitiu que ele percebeu seu golpe.
– Sheqoa é um chefe de segurança - salientou Han. - Ele não seria muito bom
em sua função se caísse em algo tão óbvio.
– Sim, mas...
– Não se preocupe, a situação está controlada - falou Han. - Caindo no golpe
ou não, Sheqoa ainda assim vai cooperar. É tudo de que precisamos.
– Mas por quê? - reclamou Eanjer. - Por que ele faria isso?
– Porque até agora Bink não fez nada ilegal ou sequer ameaçador - explicou
Han pacientemente. - Sheqoa vai dar corda suficiente para que ela se enforque,
na esperança de descobrir com quem Bink está trabalhando enquanto isso.
Eanjer balançou a cabeça.
– Parece arriscado.
– vnaro, mas e assim que nomens como ele pensam - disse nan. - Próximo?
– Próximo o quê?
– Próximo problema. Você disse que havia vários.
– Ah. Certo. - Eanjer fez novamente uma pausa, aparentemente reorganizando
os pensamentos. - Há também os droides. Não vejo por que Kell está tão feliz
por saber como desligar todos os modelos simples quando ele admite que não
podemos tocar nos droides policiais. Quer dizer, nós não vamos brigar contra
uma falange de 3POs ou algo assim.
– Eu espero que não - falou Han secamente, se lembrando da primeira viagem
com Luke e seus dois droides. - 3POs conseguem ser bem irritantes.
– Estou falando sério - rosnou Eanjer. - Aqueles Zs devem ser a primeira linha
de defesa de Villachor na caixa-forte. Como vamos pegar os arquivos e as fichas
de crédito com eles no caminho?
– Calma - tranquilizou Han. - Ainda estamos nas primeiras jogadas, lembra?
Em dois dias devemos ter uma ideia melhor do que vamos enfrentar. Aí, se você
quiser entrar em pânico, vá em frente.
Eanjer virou-se para encará-lo, com uma expressão sinistra no olho.
– Você está incrivelmente confiante, sabe? - disparou ele. - Especialmente
para um contrabandista insignificante que nunca deu um golpe como esse na
vida.
– Quem disse que eu nunca fiz isso antes? - contra-argumentou Han, que não
tinha feito, obviamente, mas aquilo não vinha ao caso. - Além disso, a questão
não sou eu, e sim conseguir as pessoas certas para o serviço. - Ele deu um sorriso
torto para Eanjer. - E liderá-las bem.
– Brinque o quanto quiser - rosnou Eanjer. - Você não vai arrombar a caixa-
forte de Villachor com charme. O seu ou o de Bink.
– Também não é uma questão de charme - disse Han, olhando para o rosto
meio enfaixado enquanto as dúvidas de Lando sobre o sujeito lhe vinham à
mente. Eanjer procurava informações e garantias. Quantas Han deveria dar para
ele?
Nenhuma, decidiu Han.
– É questão de informação - continuou ele. - Dozer e Kell conseguiram
algumas na tarde de hoje. Lando e Zerba conseguirão mais em alguns dias.
Vamos apenas relaxar, sem entrar em pânico, até enxergarmos todo o quadro.
Ok?
Por um longo momento, Eanjer continuou a encará-lo. Depois, lentamente, ele
se voltou para a janela.
– Não estou convencido - murmurou ele. - Mas o espetáculo é seu. Veremos se
você consegue realizá-lo.
– Eu agradeço pelo voto de confiança - falou Han, tentando evitar ao máximo
o sarcasmo na voz.
Eanjer indicou Marblewood com a cabeça.
– Parece que eles terminaram.
Han se virou para olhar. Realmente, o espetáculo de luzes ao longe terminara,
e os visitantes começavam a sair aos borbotões pelos portões.
– É - concordou ele. - Então amanhã é a desmontagem e o recomeço, e depois
temos a Honraria ao Ar em Movimento?
– E o momento da verdade - disse Eanjer com a cara fechada. — Eu só torço
para que Winter e os demais estejam prontos a tempo.
– Eles estarão - prometeu Han. - Como eu disse, as pessoas certas para o
serviço.
CAPÍTULO

11

A Honraria à Pedra em Movimento fora impressionante. A Honraria ao Ar em


Movimento, na opinião ligeiramente surpresa de Lando, foi ainda mais.
Pela lógica e bom senso, não deveria ter sido. A primeira Honraria do Festival
incluíra um monte de materiais diferentes para Villachor trabalhar: poeira, areia,
rochas, lava fria e várias esculturas animadas que Lando acabara concluindo que
eram droides com camadas de pedras. Era difícil visualizar como simplesmente
mover o ar de um lado para o outro pudesse competir com uma mão como
aquela.
Mas os engenheiros de Villachor conseguiram. Parte do truque foi tornar o ar
visível, com minúsculas partículas reluzentes que eram leves o bastante para
ficarem suspensas nas brisas forçadas dos géiseres de ar, chafarizes de
redemoinhos e cascatas. Várias instalações básicas dos géiseres e vulcões
estavam sendo reutilizadas para essas atrações, recursos que Lando considerou
que também seriam utilizados para as outras duas Honrarias.
Mas a abordagem principal que os engenheiros usaram foi também envolver
os outros sentidos. Aromas deliciosos eram trazidos pela brisa através das
dependências ou saíam dos géiseres e chafarizes de redemoinhos, com misturas
que mudavam constantemente, sempre complementares. Sons também foram
acrescentados: pios agudos de pássaros acompanhavam os jatos de ar das
cascatas, compilações complexas de música saíam dos vários géiseres, e o
volume e o balanço dos instrumentos mudava dependendo de onde a pessoa
estava. O tato não foi esquecido, e enquanto Lando andava com Zerba na direção
da casa, lufadas de ar inesperadas de vez em quando roçavam os pelos da nuca
ou faziam carinho nas bochechas e mãos.
Os trajes de droides não pareciam nem de longe tão impressionantes quanto os
de pedras em movimento que eles haviam usado dois dias atrás. Mas isso foi
compensado com pequenos jatos de ar e aromas próprios.
O espetáculo inteiro era tão obviamente projetado para humanos que Lando se
viu imaginando como os diferentes alienígenas na multidão crescente estavam
absorvendo. Mas, até onde ele sabia, os alienígenas estavam curtindo tanto
quanto ele. O punhado de Wookiees mais altos do que todo mundo, em especial,
parecia se divertir com os jatos de ar que passavam entre os pelos.
Só mais tarde ocorreu a Lando que provavelmente havia padrões de cores e
aromas na mistura feitos especialmente para alienígenas, adornos a que seus
sentidos humanos estavam completamente alheios. As informações de Rachele
sobre Villachor alertavam que ele valorizava a pontualidade nos parceiros e a
exigia dos subordinados, e Lando havia calculado a chegada com cuidado para
ocorrer precisamente na marca das cinco horas que Villachor especificara. Os
dois estavam quase lá, e o público na outra ponta da mansão havia explodido
subitamente em comemoração, quando a porta se abriu e revelou um Sheqoa
silenciosamente irritado.
Ele não permaneceu em silêncio por muito tempo.
– Quem é esse? - exigiu saber o grandalhão, com o olhar em Zerba enquanto
saía da porta para barrar a entrada de Lando.
– Meu assistente - explicou Lando gesticulando atrás de si. - Ele leva o objeto
para mim.
O olhar de Sheqoa foi para o estojo de aparência pesada, pendurado na mão de
Zerba.
– Eu levarei - disse Sheqoa dando um passo à frente.
Lando deu um passo rápido para o lado, barrando a passagem de Sheqoa por
sua vez.
– Ele leva o objeto - disse Lando com firmeza. - Eu explicarei assim que
entrarmos.
Por um longo momento, os dois ficaram se encarando. Então, relutantemente,
Sheqoa deu um passo para o lado.
– Tudo bem - disse ele, gesticulando para que fossem em frente. - Por
enquanto.
Lando olhou novamente para Zerba e acenou com a cabeça para que ele fosse
adiante, e os dois passaram pela entrada. Sheqoa fechou a porta assim que eles
entraram, isolando a comemoração distante, e depois passou pelos dois para
conduzi-los pelo corredor onde os outros guardas haviam escoltado Lando dois
dias atrás. Desta vez, porém, eles mal tinham percorrido 20 metros quando
Sheqoa virou para a direita, abriu outra porta e gesticulou para que entrassem.
Era uma sala grande, do tipo que Lando já tinha visto milhares de vezes antes:
larga e espaçosa, com paredes curvas e decoradas com primor, lustres
pendurados no teto alto e piso de madeira formando mosaicos. Era uma
antessala, o tipo de lugar que os ricos e poderosos construíam do lado de fora
dos salões de baile. Era o local ideal para os convidados darem um tempo da
música e da dança para conversar com amigos, renovar relacionamentos ou
talvez ir a uma das salas laterais para conversas particulares e acordos
sussurrados. Praticamente todos os grandes torneios de sabacc de que Lando
participara haviam acontecido no salão de baile de alguém, e 90% deles incluíam
uma antessala como aquela.
A maioria das antessalas, porém, não incluía uma falange de dez droides
policiais 501-Z blindados, dispostos lado a lado em duas fileiras, diretamente na
frente da única porta no interior da antessala. Na verdade, agora que Lando
pensava a respeito, nenhuma delas incluía.
– Quem é você? - disse a voz ríspida de Villachor, vindo pela lateral.
Lando virou o rosto e viu o senhor do crime vindo a passos largos na direção
deles, saindo de outra porta na extremidade norte da antessala, acompanhado
pelos dois guias de Lando da visita anterior.
– Mestre Villachor - disse ele ao abaixar a cabeça. - Sua pontualidade é...
– Quem é esse? - interrompeu Villachor, olhando feio para Zerba. - Você
recebeu ordens para vir sozinho.
– Perdão, mestre Villachor, mas não recebi - disse Lando
respeitosamente, porém com firmeza. - E meu parceiro é uma parte importante
da demonstração. - me ergueu um dedo em
advertência. - E eu não me aproximaria dele se fosse o senhor.
– Esta é a minha casa - respondeu Villachor. - Eu dito as regras e dou as
ordens, não você.
– É claro - falou Lando, que notou que, apesar da ameaça vã, Villachor e sua
escolta decidiram parar a cautelosos 5 metros de distância. - A questão
simplesmente é que eu quero garantir que meu estojo não saia daqui sem mim.
Pelo menos, não inteiro.
Em retrospecto, Lando achou que provavelmente deveria ter introduzido o
assunto de uma maneira mais diplomática. As palavras mal tinham saído da sua
boca, e Sheqoa e os dois seguranças de Villachor já tinham sacado as armas de
raios e as apontavam para os visitantes.
– Calma - disse Lando às pressas. - É apenas uma pequena carga, apenas o
suficiente para detonar o estojo e seu conteúdo. Nada mais. - Ele franziu os
lábios e acrescentou: - Pelo menos, a teoria é essa. É por isso que mandei alguém
carregá-lo.
Por um instante, ele encarou o olhar de Villachor, tentando ignorar as armas
apontadas para ele. Então Villachor se mexeu.
– E é também por isso que você não está tão próximo a ele, imagino?
– Exatamente - respondeu Lando. - São as vantagens de subir na vida.
– De fato - murmurou Villachor. Ele ergueu um dedo e, para alívio de Lando,
as armas de raios foram relutantemente abaixadas. - Abra o estojo. Eu quero ver
o cryodex.
Lando se voltou para Zerba e acenou com a cabeça. Zerba respondeu ao gesto
e pousou o estojo delicadamente no piso de mosaico. Ele fez algo aparentemente
complicado com os fechos, depois abriu a tampa e virou o estojo na direção de
Lando e Villachor.
Ali, em toda sua singela glória, estava o cryodex falso.
Lando prendeu a respiração e fez um esforço para ficar calmo. Ele nunca tinha
visto um cryodex antes - nem mesmo Rachele fora capaz de encontrar qualquer
holovídeo sobre os aparelhos. Lando apenas tinha a garantia de Winter de que a
versão deles era até parecida, jamais uma cópia perfeita.
Para seu alívio, aparentemente o cryodex era parecido.
– Muito bem - falou Villachor após dar alguns passos cautelosos à frente e
dobrar o pescoço para ver melhor. - Obviamente, qualquer um pode falsificar a
caixa. O que importa é o que está dentro.
– Que estamos prontos para demonstrar - disse Lando gesticulando para a
porta atrás dos Zs. - Vamos?
– “Vamos” não, mestre Kwerve - corrigiu Villachor. - Eu pegarei o datacard.
Vocês esperam aqui fora.
– Minhas ordens são para não perder o cryodex de vista - disse Lando.
– Vocês esperam aqui fora - continuou Villachor com a paciência no limite -
enquanto eu pego um dos datacards e trago para vocês.
Ele foi para a porta e deixou os dois guarda-costas para trás.
– Seria mais simples se todos nós entrássemos juntos - sugeriu Lando. - Acho
que é muitíssimo improvável que qualquer um de nós tentasse roubar alguma
coisa.
– Vocês podem esperar aqui vivos ou podem esperar aqui não vivos - falou
Villachor. - A escolha é de vocês.
– Compreendido - disse Lando, sentindo uma pontada de irritação.
Dozer e Bink insistiram que um vigarista realmente bom não teria dificuldade
em convencer Villachor a entrar na caixa-forte, especialmente com o cryodex
como isca. Bink até chegou a apostar cinquenta créditos com Lando que ele seria
capaz, com Zerba agindo como juiz sobre o quanto Lando se esforçara.
Lando não aceitara a aposta, mas naquele momento queria ter aceitado.
Ainda assim, embora uma olhada dentro da caixa-forte tivesse sido útil, não
era necessária. Han presumira que Villachor manteria os dois do lado de fora, e o
plano levou esse fato em consideração. Pelo menos ele e Zerba veriam o
procedimento de entrada de Villachor.
A maioria dos proprietários de caixas-fortes usava alguma combinação de
teclados, reconhecimento de voz e imagem para ter acesso às posses. Mas
Villachor imaginou um empecilho a mais. Ele foi até o Z mais próximo, ergueu a
mão diretamente em frente ao rosto do droide e esperou. O droide olhou
fixamente para a mão por um momento, depois deu um leve aceno de cabeça e
saiu da frente. Seguindo a deixa, o restante dos droides também saiu da frente e
deixou a passagem livre. Villachor passou pelo grupo e foi à porta, abaixou um
teclado na parede ao lado e digitou uma série de números. Um som de fundo
praticamente inaudível parou quando o selo magnético foi interrompido, e a
porta se abriu para dentro com um baque pesado. Villachor entrou pela abertura,
tocou em algo na parede ao passar, e a porta foi na direção oposta para se fechar
pesadamente.
Lando encarou os guardas, considerando se uma ou duas perguntas casuais
poderiam fornecer uma pista sobre o que o Z havia procurado com a varredura,
mas nenhuma delas soaria como uma conversa informal.
Obviamente, Lando também não podia perguntar aos próprios Zs. Na verdade,
àquela altura até mesmo se aproximar dos droides estava fora de cogitação.
Juntamente com as armas pesadas de raios nos coldres do lado direito da cintura,
cada um deles também portava um chicote neurônico enrolado no cinto com tiras
para saque rápido.
Lando torceu a cara quando surgiram as memórias. Ele já havia topado com
chicotes neurônicos antes - algumas vezes literalmente -, e embora eles fossem
usados principalmente como equipamento de interrogatório e controle de
escravos, também eram ótimas armas de médio alcance. Lando sabia que aquele
modelo em especial tinha um cérebro droide primitivo no cabo, que tiraria uma
rápida amostra eletrónica da pele ou do couro que o chicote tocasse para
instantaneamente ajustar a descarga elétrica para aquele padrão de frequência e
pulsação, a fim de causar o máximo de dor no sistema nervoso do ser em
questão.
Lando não sabia qual era a regulagem máxima do chicote. Nem estava ansioso
para descobrir.
Eles ficaram ali por mais ou menos cinco minutos. Lando estava
acompanhando com o olhar o arabesco complexo em volta de um espelho na
parede para ver se ele realmente tinha sido trançado a partir de um único
filamento, quando Villachor voltou com um datacard preto na mão.
– Excelente - disse Lando enquanto andava na direção dele com a mão
estendida. - Como combinamos, eu decifrarei um único arquivo, escolhido
aleatoriamente...
Lando parou quando Villachor fez um gesto e tirou o datacard do alcance.
– Tenha uma coisa em mente - disse o outro calmamente. - Eu conheço o som
que o cryodex faz quando está simplesmente lendo e decifrando um arquivo.
Também conheço o som que ele faz quando está copiando um datacard inteiro.
Se eu ouvir esse segundo som, eu matarei vocês dois, entendeu?
– É claro - respondeu Lando.
Winter havia insinuado que tinha visto cryodexes em operação na época em
que trabalhava no palácio real de Alderaan, mas Lando não fazia ideia se tinha
lhe ocorrido adicionar os devidos efeitos sonoros no datapad modificado.
– Eu não tenho intenção de copiar o datacard ou tentar qualquer outro truque -
disse ele com o máximo de sinceridade possível. - Por que eu correria um risco
tão tolo assim quando há lucros muito maiores esperando no futuro?
– Se eu concordar em trabalhar com você.
– O senhor concordará - garantiu Lando. - Também existem lucros maiores
para o senhor.
Villachor encarou Lando por mais um instante, depois ofereceu o datacard.
– Um único arquivo - instruiu ele. - E eu quero ver o mostrador. Você tem que
digitar um código de acesso primeiro?
– Sim, e já está em vigor - respondeu Lando, se perguntando, preocupado, se
aquilo tinha sido um teste.
Winter não mencionara nada sobre um código de acesso. Obviamente, ela
também não dissera que não havia um código. Supostamente, aquilo era algo que
uma ferramenta diplomática teria por padrão.
Ele voltou para Zerba e olhou casualmente para o datacard enquanto andava.
Preto fosco, com a marca do Sol Negro no tamanho certo em preto lustroso no
meio. Perfeito.
– Algum registro em especial que o senhor queira? - perguntou Lando ao
entregar o datacard para Zerba e depois se afastar dele.
– Surpreenda-me - falou Villachor secamente.
Lando gesticulou para Zerba.
– Surpreenda-o.
Zerba concordou com a cabeça e digitou no cryodex. Houve um som baixo,
quase como uma risadinha, e após um breve tremeluzir, o mostrador ligou e
exibiu a cabeça ossuda e a papada flácida de um Houk. Zerba tirou o cryodex do
estojo e mostrou para Lando.
– Lá vamos nós - disse Lando ao olhar o mostrador. As armas dos guardas
ainda apontavam para o chão; Winter devia ter acertado ao colocar os efeitos
sonoros. - Um Houk chamado Morg Nar. Atualmente empregado por um senhor
do crime chamado Wonn Ionstrike, responsável por uma operação na Cidade das
Nuvens, em Bespin.
– O que tem ele? - perguntou Villachor.
– Ionstrike parece que está de olho em Jabba - respondeu Lando, tentando
ignorar os alarmes que dispararam na mente. Houve algo de estranho na voz de
Villachor naquele instante. - Ele é paralítico, se desloca em uma cadeira
flutuante e aparentemente tem se dedicado a levar Jabba à falência. Nar é o
sujeito forte que faz o trabalho pesado.
– E?
– E parece que Nar é bancado por Jabba, na verdade - disse Lando, cruzando
os dedos mentalmente enquanto percorria o documento que o falso cryodex
estava fingindo ler no datacard ilegível. Han dera a dica sobre Nar e fornecera
algumas fofocas que ouvira no palácio de Jabba em Tatooine, e Racbele usara
suas fontes para preencher algumas das lacunas. Mas não havia como saber se as
fofocas ou a afirmação de Han eram precisas. - Ele supostamente está ajudando
Ionstrike a expulsar os Hutts, mas, por trás dos panos, está ajudando Jabba a
encerrar algumas operações de maneira organizada, enquanto transfere o resto
para outros lugares que Ionstrike desconhece.
– E o interesse do Sol Negro nisso tudo?
– O arquivo não diz, mas eles obviamente estão interessados em jogar a
terceira mão da partida - respondeu Lando. - Parece que o príncipe Xizor ainda
não agiu em relação a Nar, mas provavelmente está esperando pelo momento
certo.
– Interessante - disse Villachor. - Há apenas um problema.
Lando se preparou para o pior e se virou.
– O que é?
– Não há motivo possível para que este arquivo em especial esteja neste
datacard em especial - falou Villachor calmamente. - Ele vai de osk a usk, e nem
Nar, Ionstrike, Jabba, Hutt, Bespin ou Cidade das Nuvens começam com essa
letra.
E, subitamente, as armas de raios não estavam mais apontando para o chão.
– E agora - continuou Villachor baixinho -, você vai me dizer o que realmente
está acontecendo.

Pelos assovios e barulhos de agitação vindos da extremidade norte das


dependências de Marblewood, Dayja conjeturou que o espetáculo da Grande
Tempestade, que deveria ser o destaque do início da noite, estava ocorrendo a
pleno vapor. Pelos berros de aprovação da multidão, parecia que a atração estava
correspondendo às promessas de Villachor e às expectativas do público.
Para Dayja, porém, o espetáculo bem mais interessante estava ocorrendo atrás
da porta sudoeste da mansão, a 50 metros de distância.
Só que ele não fazia ideia de como estava o espetáculo. Ou até mesmo como
ele era.
Dayja fez uma expressão de desdém para si mesmo enquanto tomava um gole
de uma bebida ácida que andara bebericando na última hora. Eanjer tinha sido
extremamente evasivo sobre a identidade dos colegas conspiradores naquele
pequeno golpe que estavam armando. Ele se recusou a informar para Dayja
qualquer nome ou até mesmo as áreas de especialização dos participantes.
Mas Dayja tinha visto todos eles na noite em que invadiu a sacada, então pelo
menos ele conhecia os rostos.
E dois integrantes do grupo haviam passado por aquela porta fazia quinze
minutos. Sob escolta do chefe da segurança de Villachor.
Ele encarou a porta, imaginando se havia alguma maneira de entrar na base da
conversa ou da sabotagem, ou se sequer deveria tentar. A última coisa que Dayja
queria era descobrir que ele próprio havia sido vítima de um golpe, que Eanjer e
sua gangue estavam na verdade trabalhando para Villachor e o Sol Negro.
A penúltima coisa que ele queria era que a gangue fosse morta. Especialmente
se eles mencionassem Dayja e seu interesse em Qazadi antes de morrerem.
– Ei - disse uma voz atrás dele. - Você.
Dayja se virou. Os dois homens que vinham em sua direção tinham a
aparência de guarda-costas, com expressões desconfiadas e passos largos e
confiantes que Dayja havia muito passara a associar a homens em missão,
portando armas de raios escondidas.
Mas nenhum dos dois usava os pingentes de pedra esmaltada que ele tinha
visto em todos os seguranças oficiais de Marblewood. Seriam capangas extras
que Villachor contratara para a ocasião? Ou alguma coisa completamente
diferente?
Dayja tinha uma fração de segundo para decidir qual personalidade adotaria.
Ele decidiu que, nas atuais circunstâncias, um visitante ligeiramente distraído
seria a melhor abordagem.
– Eu? - perguntou ele com uma expressão delicadamente alegre.
– Sim, você - respondeu um dos homens, que deu mais alguns passos adiante
e deixou o parceiro como reforço atrás. Se eram capangas, pelo menos eram bem
treinados. - O que você está fazendo aqui? Está perdendo o grande espetáculo. -
Ele apontou para os sons da multidão.
– Eu sei - disse Dayja com um suspiro. - Mas minha amiga precisou usar o
banheiro. Estou esperando que ela saia.
O homem olhou ao redor.
– Que banheiro?
– Ali - falou Dayja ao apontar para a porta da mansão. - O banheiro ali dentro,
certo?
O homem encarou Dayja, provavelmente pensando como alguém podia ser
tão estúpido.
– Os banheiros ficam no pátio oeste - disse ele, novamente apontando para o
barulho ao longe. - Ao norte e ao sul das principais barracas de comida.
Dayja ficou ligeiramente boquiaberto. Ele deu um olhar espantado para a
mansão, depois se voltou.
– Mas ela disse o banheiro do sul... - Uayja parou de talar e olhou novamente
para a porta. - Em Cowher, os banheiros são sempre no interior.
– Aqui não é a mansão Covv’ter - o homem informou Dayja pacientemente. -
O banheiro sul fica a mais ou menos 150 metros naquela direção.
– É melhor você chegar lá antes que ela desista e arrume outra pessoa para
curtir a Honraria - acrescentou o segundo homem.
– Ah, não - suspirou Dayja, que arregalou os olhos. - Não. Ela não... ai, droga.
Com licença.
Ele deu meia-volta e saiu correndo na direção da multidão e dos banheiros,
fazendo questão de usar o passo mais trôpego de seu repertório. Um tropeço
cuidadosamente controlado permitiu que Dayja olhasse para trás e visse se
estava sendo seguido.
Não estava. Os guardas não estavam interessados em Dayja. Estavam
interessados naquela porta.
E fosse qual fosse a razão daquele interesse, ele suspeitava que a equipe de
Eanjer não gostaria do motivo.

Um par de seguranças havia espantado um visitante solitário da área ao redor


do jardim normalmente deserto ao lado da porta sudoeste, mas, tirando isso, não
tinha havido qualquer atividade ao sul dos chafarizes de redemoinhos desde que
Lando e Zerba tinham entrado na mansão havia vinte minutos. Winter reajustou
os eletrobinóculos contra o rosto e mirou nas clarabóias mais próximas do prédio
- onde não havia nada para ver -, se virou para a imensa multidão assistindo à
Grande Tempestade - onde havia muita coisa para ver - e depois se voltou para a
porta.
– Você viu Bink? - perguntou Tavia ao surgir ao lado dela, na janela.
– Sinto muito... eu perdi Bink na multidão - Winter se desculpou. - Mas ela
parecia bem há meia hora quando Sheqoa a deixou para ir à reunião com Lando
e Zerba.
– Tem certeza? - perguntou Tavia. - Você se lembra dos sinais de perigo de
Bink, certo?
– Sim - garantiu Winter, deixando de dizer o óbvio: que ela levaria a lista de
gestos sutis para a cova. - Não houve sinais. Na verdade, pelo que eu observei da
linguagem corporal, os dois pareciam estar se dando muito bem.
– Claro que estavam - disse Tavia com um suspiro. - Outro dos muitos talentos
de Bink é conseguir que as pessoas façam o que ela quer.
Incluindo você?
– É uma habilidade útil em nosso ramo - comentou Winter, em vez de dizer o
que havia pensado.
– Eu sei - falou Tavia. - E eu não quis bancar a irritada. Só estou... as pessoas
dizem que é possível se acostumar com qualquer coisa. Mas eu nunca me
acostumei com isso. Acho que nunca me acostumarei.
– Talvez esta seja a última vez que tenha que fazer isso - sugeriu Winter. —
Os créditos deste serviço devem permitir que vocês larguem o ramo de uma vez
por todas.
– Devem - disse Tavia com a voz cansada. - Mas não irão. Bink prometeu
largar uma centena de vezes, praticamente todas em que pensou estar de olho no
grande prémio. Porém, de alguma maneira, os créditos nunca são tão bons
quanto pareciam de início, ou o receptador rouba o dinheiro, ou temos que
abandonar a maior parte do ganho, ou há outras complicações. Sempre há
complicações.
– Às vezes, a própria vida parece não ser nada além de uma série de
complicações interligadas - concordou Winter, afastando a mente das horríveis
complicações que Palpatine e seu Império impuseram a ela e a Leia e a tantos e
tantos outros. - Todas fazendo o melhor possível para atrapalhar o que a pessoa
esperava ou queria. - Ela abaixou os eletrobinóculos e deu um tempo para os
olhos descansarem. - O que você esperava da vida, Tavia?
– Para ser sincera, apenas mais do mesmo. Mais pobreza, mais dessa vida de
andar com uma mão na frente e outra atrás, mais de nós duas correndo, lutando
contra o universo e tentando sobreviver mais um dia. O que eu queria... - Ela
subitamente sorriu. - Lembra quando eu disse que Bink gosta do que faz porque
é boa nisso? É a mesma coisa para mim, com relação a trabalhar com eletrónica.
– Você pode viver bem fazendo isso - murmurou Winter.
– E eu tentei - disse Tavia, e seu sorriso desapareceu. - Tentei sem parar. Mas
toda vez que consigo me estabelecer em algum lugar, Bink consegue descobrir
algo de errado com o emprego. Ou não paga o que deveria, ou o chefe é rude, ou
os serviços que pego são indignos e ofensivos, ou meus colegas tomam sopa
fazendo muito barulho. Sempre há alguma coisa.
– Às vezes, a vida também é uma série de concessões.
– E eu estou disposta - falou Tavia. - Eu tento dizer para Bink que tudo vai dar
certo, que eu posso solucionar o problema. Mas você conhece Bink. Antes que
eu me dê conta, nós já estamos na rua, e ela está invadindo o gabinete particular
de alguém, à procura do próximo grande golpe.
Winter concordou com a cabeça tristemente. Ela conhecia muitas pessoas
assim, homens e mulheres que só se sentiam vivos se estivessem arriscando tudo
e desafiando as probabilidades.
Elas tinham seu lugar, com certeza. Na verdade, sem essas pessoas a Rebelião
provavelmente teria sido interrompida com sangue e agonia há muito tempo.
Porém, ao mesmo tempo, Winter não podia deixar de sentir muitíssimo por elas.
Um dia aquela guerra acabaria. Talvez algum dia todas as guerras acabassem.
Friamente, ela imaginou o que pessoas assim fariam então.
– Mas pelo menos não precisamos mais viver um dia após o outro - continuou
Tavia com um toque de sarcasmo. - Agora está mais para um mês após o outro.
É uma melhora, definitivamente. Talvez depois deste serviço seja uma década
após a outra.
– Só podemos torcer - concordou Winter ao se voltar para a janela e erguer os
eletrobinóculos novamente aos olhos.
Ainda nada.
Ela também só podia torcer para que, o que quer que estivesse acontecendo,
Lando tivesse tudo sob controle.

Lando refletia que havia ocasiões em que a pessoa estava em desvantagem


numérica e de armas, com todas as saídas bloqueadas e uma mão perdedora. Em
situações como essa, só havia uma opção.
Blefar.
– Interessante - disse ele calmamente. - O senhor tem certeza?
– Está me chamando de mentiroso? - reclamou Villachor.
– Estou? - contra-argumentou Lando, com um tom de ameaça na voz. Ele era
um integrante do alto escalão de uma misteriosa organização do crime, afinal de
contas. Homens assim não eram facilmente intimidados. - Eu vi aquele datacard,
mestre Villachor. Eu não me lembro de ter visto nenhuma letra nele.
– Elas não estão no datacard em si - disse Villachor. - E você está ganhando
tempo.
– Então o que o faz pensar que este datacard tem algo a ver com essas letras?
– O mestre Villachor é quem faz as perguntas - rosnou Sheqoa.
– O mestre Villachor é que está tentando conseguir uma segunda amostra
grátis - respondeu Lando sem meias palavras. - Para começar, não há motivo
para o príncipe Xizor organizar os arquivos de chantagem de acordo com um
sistema tão óbvio. Na verdade, eu sou capaz de pensar em uma dezena de razões
para ele não fazer isso. Uma pessoa não autorizada poderia procurar um arquivo
específico até o Centro Imperial ficar sem luz sem encontrá-lo.
Ele endureceu a expressão.
– E segundo, por acaso eu sei que uma das gírias que os Falleens usam para os
Hutts é slivki. Que começa com a letra senth, que fica entre osk e usk.
O olhar de Villachor disparou para Zerba e voltou para Lando. Ainda havia
desconfiança nos olhos, mas também havia uma incerteza crescente.
– Slivki - repetiu ele. - Você tem certeza disso.
– Muita certeza - respondeu Lando em tom gélido. - Eu estava lá quando um
Falleen chamou um Hutt disso, na cara dele. O dono do lugar precisou de três
dias para limpar os destroços. - Ele gesticulou para a porta. - Vá em frente e
verifique se quiser. Eu espero.
Villachor olhou para Zerba novamente.
– Talvez mais tarde — falou ele. — Morg Nar, você disse.
– Sim. E isso é tudo que direi. O senhor tem a amostra que eu prometi. Fique à
vontade para verificá-la também. Mas o momento da decisão chegou.
Villachor encarou Lando por outro instante, com o rosto inexpressivo. Parecia
ser a pose favorita do homem, feita provavelmente para desestabilizar o
destinatário enquanto ele refletia sobre alguma coisa.
– Uma decisão, pelo menos, é imediata - retificou Villachor. Ele ergueu o
dedo, e novamente as três armas de raios foram apontadas para o chão. - Não
estou mais pronto para matá-lo aqui e agora.
– Acho que esta é uma decisão que todos nós podemos apoiar - concordou
Lando.
– Mas a decisão de continuar ou não negociando com você ainda está no
futuro — continuou Villachor. - Antes de dar qualquer passo do gênero, preciso
saber mais sobre sua operação e como eu me encaixaria nela. — Ele franziu os
olhos. — Em primeiro lugar, preciso saber o que você ganha com um acordo
desses.
– Eu sou o que o senhor poderia chamar de caça-talentos - respondeu Lando
com um gesto despreocupado. - Eu analiso o mercado e encontro aqueles que
acho que poderão se sair melhor em outros lugares. Se eu estiver certo e a pessoa
entrar para o grupo, recebo uma pequena comissão.
– Essa comissão depende do valor do cliente?
– Mais ou menos - disse Lando.
– E esse valor aumentaria se o cliente levasse objetos ou conhecimentos
valiosos para seus superiores?
– Muito provavelmente.
– Ótimo - disse Villachor animadamente. — Então você não vai se importar se
eu falar diretamente com seu superior. Afinal de contas, quem melhor para
definir o valor destes arquivos?
Lando conteve um sorriso. Han o alertara de que a conversa provavelmente
acabaria ali.
– Meu superior geralmente não gosta de fazer contato assim tão no início das
negociações - falou ele. - Eu lhe garanto que tenho plena autoridade para
responder a qualquer pergunta e fazer qualquer negócio.
– Tenho certeza disso - respondeu Villachor. — Mesmo assim, você o trará até
mim.
Lando fingiu refletir, depois deu levemente de ombros.
– Muito bem. Eu entrarei em contato com ele hoje à noite, farei seu pedido e
trarei a resposta amanhã.
– É melhor que essa resposta seja sim.
– Trarei a resposta amanhã - repetiu Lando.
O lábio de Villachor tremeu.
– Amanhã, não. Traga a resposta em dois dias, durante o Festival da Água em
Movimento. Sua visita será menos chamativa assim.
– Novamente, o que o senhor quiser - disse Lando, inclinando a cabeça em
uma mesura.
Então Villachor realmente queria que as visitas de Lando se perdessem na
multidão do Festival? Talvez ele genuinamente estivesse começando a
considerar desertar do Sol Negro.
Ou então apenas queria que Lando achasse isso. Jogos psicológicos,
infelizmente, eram uma rota espacial de várias direções.
– Uma última pergunta, se possível - falou ele. — Simplesmente para a minha
própria curiosidade. Se o datacard não estava marcado, como o senhor soube
qual era?
– Veio daquele escaninho na caixa de arquivos - respondeu Villachor.
– Ah - disse Lando com um aceno de cabeça.
E uma amplitude de sete letras por datacard também implicava que havia
cinco, exatamente como o contato de Eanjer dissera. Até então, aquele
informante misterioso acertara em cheio sobre tudo que dissera.
– Novamente, isso faz sentido. Os seus outros convidados supostamente veem
o datacard enquanto seus futuros bastante sombrios são lidos para eles, e o
senhor não quer que saibam como a informação é organizada. Falando nisso... —
Lando virou meio corpo e estendeu a mão. — Bib?
Obedientemente, Zerba retirou o datacard e deu um passo à frente. Ele o
entregou para Lando, depois imediatamente recuou de novo e colocou o cryodex
cuidadosamente de volta no estojo.
– Isto é seu, mestre Villachor — falou Lando formalmente ao oferecer o
datacard para Villachor.
Villachor pegou o datacard em silêncio e manteve a atenção em Zerba
enquanto ele manipulava o estojo com uma bomba engatilhada.
– Você o chamou de Bib? - perguntou Villachor.
Lando deu de ombros.
– Uma pequena brincadeira. Reconhecível apenas por aqueles que já
conhecem a história de Jabba.
– Sim - concordou Villachor. - Kwerve e Bib, juntos novamente.
– Isso mesmo.
Bib Fortuna e Bidlo Kwerve haviam sido dois dos mais altos funcionários de
Jabba, sempre disputando poder e cargo até a morte de Kwerve e a subsequente
promoção de Fortuna a administrador. Han havia sugerido que incluir a história
do Hutt em suas identidades falsas daria à mentira de Lando uma camada a mais
que Villachor poderia achar intrigante. Pela expressão de Villachor, parecia que
Han estava certo.
– Fico contente que tenha gostado - disse Lando.
– Gostei. Dois dias, mestre Kwerve.
– Dois dias - prometeu Lando, que fez uma nova mesura de leve.
Noventa segundos depois, eles estavam novamente lá fora no ar fresco, com a
barulheira da multidão do Festival muito bem-vinda após o silêncio
perigosamente tenso na antessala da caixa-forte.
– E então? - perguntou Lando baixinho.
– Então o quê? — respondeu Zerba. — Se eu troquei os datacards ou se os
dados já vieram?
– A primeira — rosnou Lando, chateado a contragosto com a leviandade do
outro, afinal de contas, o pescoço de Zerba correra tanto risco quanto o dele.
Ou talvez não. Era possível que os sentidos extras que os Balosarianos
afirmavam possuir tivessem dado a Zerba alguma noção naquela disputa que
Lando não havia percebido. Será que a ameaça de Villachor tinha sido puro
blefe, nada mais do que uma sondagem para ver se Lando cederia sob uma
pressão inesperada?
– Sim, eu troquei os datacards - respondeu Zerba calmamente.
– Na verdade, a resposta à outra pergunta também é sim. Se Bink ou Rachele
conseguirão extrair algo de útil é outra história completamente diferente.
Lando deu de ombros.
– Vamos descobrir em breve.
– Então slivki é realmente um termo ofensivo para Hutt?
– Não que eu saiba — disse Lando. — Mas essa é a grande vantagem das
gírias. Há tantas versões e variedades, na língua de qualquer um, que nunca é
possível ter certeza se a pessoa sabe todas. Villachor pode pesquisar os arquivos
pelo resto do mês sem jamais ser capaz de provar que eu estava blefando.
– Bacana — respondeu Zerba. - Tenho que me lembrar dessa. Pronto para
voltar?
Lando concordou com a cabeça.
– Vamos.
– Acho que não — murmurou uma voz grave no ouvido dele ao mesmo tempo
que dedos fortes inesperadamente pegaram o braço direito de Lando. - Calado e
sem confusão.
Lando virou a cabeça e se viu olhando para um rosto humano esburacado,
mais alto que o dele, com um chapéu de aba larga enterrado quase até as
sobrancelhas.
– Quem é você? - indagou ele. - O quê...
– Ele disse calado — outra voz o interrompeu.
Lando se voltou para a outra direção e viu que um segundo homem pegara o
braço de Zerba da mesma forma.
– Quem quer que vocês sejam, eu sugiro que nos soltem imediatamente - falou
Lando friamente. - Somos convidados especiais do mestre Villachor em pessoa.
Um grito meu para qualquer um dos seguranças que patrulham as
dependências...
– Ah, é melhor você não fazer isso — ralhou o primeiro homem.
– Meu amiguinho odeia barulhos altos.
Lando fez uma careta quando o cano duro de uma arma de raios cutucou as
costelas embaixo do braço direito.
– Creio que a gente deva tentar mantê-lo contente — murmurou ele.
– Esse é o espírito da coisa — disse o primeiro homem em tom encorajador.
— Iremos ao extremo sul da casa e sairemos pela entrada de serviço do sudeste.
Muito mais tranquilo por aquele caminho. Folx, seja gentil e alivie o nosso
amigo daquele estojo pesado, pode ser?
– Eu não faria isso - falou Lando rapidamente quando o segundo homem
esticou a mão para o estojo do cryodex. — Especialmente se seu amiguinho
odeia barulhos altos.
O segundo homem fez uma pausa, enquanto a mão tocava a alça do estojo.
– Wolv? — perguntou ele.
Wolv hesitou, e Lando sentiu o homem dar de ombros.
– Ele pode ficar com o estojo. A gente dá um jeito nisso no fim do passeio. —
Wolv enfiou a arma de raios com um pouco mais de força na lateral do corpo de
Lando. - Vamos, ande rápido. Nós não temos a noite toda.
– Vamos dar um passeio, hein? - perguntou Lando quando o grupo apressou o
passo.
– Um passeio bacana para uma sala bacana e tranquila - respondeu Wolv. -
Onde teremos uma conversa bacana.
– E depois disso? - indagou Lando.
– Depois disso... - Wolv deu de ombros novamente. - Bem, aí depende de
você.
– Sim - concordou Folx, com um tom de voz sinistro. - Em grande parte.
– Eles estão a caminho do portão sudeste - disse a voz tensa de Rachele no
comlink de Han. - Eles já estão dando a volta no fim da mansão.
– É, entendi — disse Han, indo a passos largos pela borda da multidão que
assistia à Grande Tempestade, desviando das pessoas reunidas em volta das
barracas de comida e tentando desesperadamente chegar a um equilíbrio entre
velocidade e cautela.
Se aquilo fosse uma verdadeira tentativa de sequestro, ele precisava chegar lá
o mais rápido possível. Mas se não fosse verdadeira - se a tentativa de sequestro
fosse um truque de Villachor para revelar qualquer aliado que Lando e Zerba
tivessem escondido na multidão —, então chegar correndo a toda velocidade
para o resgate não seria nada além de fazer perfeitamente o jogo dele.
– Eles estão abrindo distância - alertou Winter do alto do ponto de observação
na suíte. - Se você não correr, jamais vai alcançá-los antes que cheguem ao
portão.
– Não podemos ir mais rápido - rosnou a voz de Dozer no comlink de Han. O
ladrão de naves parecia ainda mais frustrado do que Han. - Se formos, eles vão
nos marcar com certeza.
– Que ideia maravilhosa — falou Bink suavemente no comlink, com um tom
de voz que combinava perfeitamente com sua persona avoada apesar do perigo
que eles encaravam no momento. — Eu não faço compras lá há séculos. Quando
você quer que eu o encontre?
– Apenas fique onde está - ordenou Han. — Você está longe demais para
ajudar, e não queremos que você arruine seu disfarce. Sheqoa está aí?
– Não, não - disse Bink, ainda suavamente. — Eu mal posso esperar para lhe
contar sobre esse novo cara que conheci.
– É, nós mal podemos esperar também - rosnou Dozer. — Vamos, menina, nós
precisamos saber se ele e o resto do pessoal de Villachor estão sabendo disso.
– Opa, eu tenho que ir — respondeu Bink, com um pouco mais de
empolgação na voz. - Lá vem ele agora. Você vai adorá-lo, Jessie... ele é tão
tranquilo. E tão atencioso.
Han rosnou baixinho um velho xingamento. O código verbal improvisado de
Bink era difícil de compreender, mas tão tranquilo e tão atencioso só podiam
significar que ela não sabia dizer se a reação de Sheqoa era capaz de indicar que
a abdução fosse ideia de Villachor.
Mais atraso e mais incerteza. E, enquanto isso, Lando e Zerba estavam
ficando cada vez mais fora de alcance.
E então, de repente, era tarde demais.
– Diminua o passo — veio a voz de Rachele novamente pelo comlink. —
Você jamais chegará a tempo agora, não sem correr por campo aberto, onde
certamente vão marcá-lo.
Relutantemente, Han trocou o passo ligeiro por um lento e mudou de direção
para o portão sudoeste.
– Pelo menos me diga que Chewie está cuidando da situação.
– Está - confirmou Rachele. — Ele foi para o telhado no minuto em que os
dois foram capturados. Talvez Chewie consiga decolar em um dos airspeeders a
tempo de segui-los.
– Lá vão eles — interrompeu Winter. - Parece ser um airspeeder Incom PT-81:
vermelho-escuro, com pontinhos amarelos na frente e no canopi.
– Indo em que direção?
– Leste - respondeu Winter. - Estão subindo... estão na aeropista inferior.
Subindo novamente...
– Chewie? - indagou Han.
Até alguém como Eanjer, que não compreendia Shyriiwook, não teria
problemas em reconhecer a raiva e a frustração no rugido de Chewie. Ele havia
decolado, mas os sequestradores já tinham ido embora.
– Tarde demais - disse Rachele, que parecia estar quase chorando. — Nós os
perdemos.
CAPÍTULO

12

– Bem? — perguntou Han.


– Nada - respondeu Rachele, com a cabeça quase tocando a de Winter
enquanto as duas olhavam juntas o monitor do computador de Rachele. - Há
simplesmente um excesso de PT-81s vermelho-escuros nos registros da cidade.
– E os pontinhos provavelmente são acessórios não oficiais - murmurou
Dozer, que estava afundado em uma das cadeiras, encarando as pontas das botas,
mal-humorado.
Han olhou em volta do aposento. Tavia espiava outro monitor, com uma
expressão séria. Kell estava sentado diante de Dozer, tamborilando em silêncio
com a mão esquerda no braço estofado da cadeira e mexendo no energipente da
arma de raios com a mão direita. Eanjer se encontrava na janela, emoldurado
pelas luzes da cidade, olhando para a noite como se o olho alienígena prostético
fosse capaz de penetrar a escuridão e enxergar o airspeeder perdido.
– Eu vou reconhecê-lo quando o vir - disse Winter em tom
hesitante. - Se é que isso vale alguma coisa. Eu notei alguns arranhões e
mossas nas laterais.
– Mas esse tipo de dano menor não estará em nenhum registro oficial - falou
Rachele.
Como se Han já não soubesse disso.
– Tavia?
– Desculpe - respondeu ela balançando a cabeça. - Aqueles chapéus estavam
tapando a maior parte do rosto deles. As partes que consegui ver simplesmente
não eram suficientes para realizar uma pesquisa. E a placa tinha algum pó
brilhante que tornava impossível a leitura a essa distância.
Han acenou com a cabeça pesadamente enquanto digitava no comlink. Becos
sem saída por todos os lados. Quem quer que fossem aqueles caras, eles sabiam
o que estavam fazendo.
– Chewie? Alguma coisa?
O relatório do Wookiee foi curto, frustrado e tão negativo quanto o dos
demais.
– Bem, continue procurando - disse Han. - Porque com toda certeza nenhum
de nós vai conseguir ver o airspeeder daqui.
Chewbacca concordou e desligou.
– Talvez nós devêssemos sair - sugeriu Rachele hesitante. — Temos outro
airspeeder no telhado, e Dozer provavelmente conseguiria roubar mais alguns na
rua.
– E aí o que faríamos? - indagou Han. - Sairíamos voando a esmo na
esperança de vê-los?
– Seria melhor do que ficar aqui esperando que eles venham nos pegar -
murmurou Dozer.
– Quem virá nos pegar? - perguntou Kell.
– Essa é a questão, não é? - disparou Dozer. - JNão temos a menor ideia de
quem eles sejam. E até sabermos, não temos sequer esperança de localizá-los. -
Ele apontou para Han. - Se quer saber, o que temos que fazer agora é fugir daqui.
E digo que é agora mesmo. Mais cedo ou mais tarde, um deles vai ceder.
Precisamos estar em outro lugar quando isso acontecer.
– Não - disse Han com firmeza antes que algum outro desse uma opinião. - Se
fugirem, eles virão para cá. Nós ficamos.
– Se fugirem? - retrucou Dozer. - Não seja ridículo. Quem você acha que eles
são, Revan e Malak? Estou dizendo, os dois estão ferrados. E nós também, se
ficarmos aqui.
– Então vá - falou Han gesticulando para a porta. - Mas se passar por aquela
porta, você está fora.
– Ah, é mesmo? - rosnou Dozer.
Ele ficou de pé de supetão e levou a mão à arma de raios...
E parou, com metade da pistola para fora do coldre, de olhos arregalados ao se
ver encarando o cano da arma de raios de Han, totalmente sacada.
– É mesmo - garantiu Han baixinho.
Dozer disparou um olhar pelo aposento. Seja lá o que tenha visto na expressão
dos demais, aparentemente não foi muito encorajador.
– Beleza - murmurou ele enquanto abaixava a arma dentro do coldre e
desmoronava na cadeira. - Então, qual a nossa próxima ação?
Han sabia que aquela era uma tremenda de uma boa pergunta. Em um único
piscar de olhos, todo o grande plano havia degringolado, e de repente ele estava
voando às cegas. Han nem conseguia imaginar como aquilo terminaria.
A não ser por uma coisa: eles resgatariam Lando e Zerba com vida. Era
garantido. Han já tinha perdido gente demais na vida. Ele veria Villachor no
inferno antes de perder mais alguém.
– Podemos alterar o rumo - respondeu Han enquanto guardava a própria arma
de raios. - Rachele, esqueça o airspeeder. Lando e Zerba estavam conversando
com Villachor. Comece a fazer uma lista de pessoas que possam não gostar
disso.
– Pode deixar - disse Rachele, que se voltou para o computador.
Han olhou para as luzes enganosamente alegres da cidade. Em algum lugar, de
alguma forma, eles precisavam dar sorte.
E era melhor que isso acontecesse logo.

– Vocês com certeza andaram bem ocupadinhos - comentou Wolv enquanto o


airspeeder costurava pelo trânsito noturno. - Eu sei que esta foi sua segunda
audiência com o mestre Villachor. - Ele inclinou a cabeça. - Ou foi a terceira? O
vendedor de brilhestim era um de vocês, não era?
– Eu não sabia que a lista de convidados do mestre Villachor estava sob
tamanha análise - falou Lando, sentindo a testa franzir.
Um vendedor de brilhestim? Desde quando um vendedor de brilhestim tinha
entrado na história?
– Tudo que o mestre Villachor faz está sob análise — disse Wolv.
– Especialmente se a coisa interferir em suas atividades comerciais
propriamente ditas. - Ele apontou para o estojo no colo de Zerba.
– Então, isto é o brilhestim especial? Ou o pagamento?
– Eu não faço ideia do que você está falando - respondeu Lando com o
máximo de arrogância possível. - Mas garanto que, quando o mestre Villachor
souber disso, ele não vai ficar contente.
– Ah, eu concordo - falou Wolv com um breve sorriso cruel no rosto. - A
umca questão e se voces dois vao cair junto com ele ou não.
– Eu ainda não o descartaria se fosse você - alertou Lando.
– E eu não contaria com ele para tirá-los desta situação - disparou Wolv. - Sua
melhor jogada no momento é abrir aquele estojo e entregar o que houver dentro.
Faça isso, e eu prometo que vocês vão embora.
Lando balançou a cabeça.
– Eu tenho minhas ordens.
O outro deu um muxoxo de desdém.
– Beleza, como queira. Mas eu já digo que quando chegarmos onde estamos
indo, vamos encontrar alguém que é capaz de abrir essa coisa sem espalhar o
brilhestim ao vento. Minha oferta dura até lá, e apenas até lá. Pense a respeito. -
Ele olhou incisivamente para Zerba. - Pensem vocês dois.
Wolv manteve a pose por mais alguns segundos. Quando ficou evidente que
nenhum dos prisioneiros diria alguma coisa, ele balançou a cabeça com repulsa e
virou o corpo de volta para frente.
Lando olhou de lado para Zerba. Zerba mexeu a sobrancelha e abaixou o olhar
para as algemas. Lando acompanhou os olhos do Balosariano e viu um pequeno
vão na ligação das algemas.
Então Zerba já conseguira abri-las. O que não era surpresa.
Infelizmente, com as algemas ligadas a correntes presas ao piso do airspeeder,
não havia como Zerba alcançar as de Lando sem que os sequestradores
notassem.
Zerba também tinha percebido isso, obviamente. Ele abriu a mão de leve,
mostrou para Lando uma pequena gazua de três pontas que mantivera escondida
em algum lugar e mexeu a sobrancelha novamente para fazer uma pergunta
silenciosa.
Lando suspirou. Mais uma vez infelizmente, ele nunca dominara aquela
habilidade específica de arrombamento. Lando balançou a cabeça e abaixou os
ombros levemente. Zerba franziu o nariz em solidariedade e fechou a mão
novamente em volta da gazua.
Mesmo assim, o dia ainda não estava perdido. Se Zerba pudesse tirar
vantagem de sua liberdade para pular do airspeeder no momento em que
pousassem e conseguisse escapar com o cryodex para um lugar seguro, Lando
talvez pudesse blefar ou barganhar um indulto pelo menos temporário. Qualquer
espaço de manobra que conseguisse arrumar lhe daria tempo para criar algo mais
permanente.
Ou daria o mesmo tempo para Han e os demais.
Lando torcia para que eles estivessem trabalhando em um plano de resgate.
Torcia muitíssimo.

– Eles podem levá-los até você? - veio a voz de D’Ashewl no comlink de


Dayja.
– Eu não sei - respondeu Dayja com uma cara feia para o PT- 81 que voava
oito veículos à frente. Alguma coisa no jeito como o airspeeder se deslocava
indicava que eles estavam prestes a fazer uma nova curva. - Acho que não, mas
esta não é a questão. A questão é que se Eanjer e sua equipe caírem do
precipício, provavelmente toda a operação cairá com eles. Eu posso não
conseguir recomeçar meu próprio jogo a tempo de entrar em Marblewood antes
de o Festival terminar.
– Não há indicação de que Qazadi pretenda ir embora imediatamente após o
encerramento - salientou D’Ashewl.
– Não há indicação do contrário — contra-argumentou Dayja.
Adiante, de Fato, o airspeeder virou à direta e rumou para umaaerovia mais
abaixo, de menor velocidade. Dayja fez a mesma manobra, depois caiu mais um
nível. Ele ainda não sabia se tinha sido visto ou se todas aquelas voltas pela
cidade eram apenas cautela da parte deles. De uma forma ou de outra, não faria
mal deixar que eles abrissem um pouco mais distância.
– Se a operação cair, caiu - disse D’Ashewl com um pouco de impaciência. -
Sinto muito, mas não posso deixar que você prossiga. E absolutamente não
posso deixar que chame qualquer autoridade imperial.
Dayja rangeu os dentes. Mas D’Ashewl estava certo. Se Qazadi sequer
desconfiasse de que estava sendo seguido pela Inteligência Imperial, o grupo
inteiro se espalharia, e ele e D’Ashewl voltariam ao Centro Imperial com as
mãos abanando.
Mas já que Dayja não podia interferir diretamente...
– Tive uma ideia - disse ele. - Eu ligo de volta para você.
Ele interrompeu a conexão antes que D’Ashewl pudesse responder. A placa do
airspeeder tinha uma camada sutil de pó brilhante que era muitíssimo eficiente
em esconder os números e letras de eletrobinóculos normais. Mas os
eletrobinóculos de Dayja estavam longe de ser normais.
Se ele e D’Ashewl eram os únicos agentes da Inteligência na Cidade de Iltarr,
isso não significava que estivessem completamente sozinhos. Não exatamente.
Enquanto pilotava com uma mão, tentando julgar o melhor momento para
voltar à aerovia dos sequestradores, ele digitou no comlink.

– Onith três besh - repetiu Eanjer gesticulando para Rachele. - Mais alguma
coisa?... Certo. Obrigado. - Ele desligou.
– Era o seu contato? - perguntou Han.
– Sim - respondeu Eanjer, sustentando o olhar de Han com o único olho por
apenas um segundo antes de se virar para Rachele.
E se virou com o que pareceu estranhamente um lampejo de culpa e incomodo
no rosto.
Han também não foi o único que notou.
– Engraçado como ele por acaso testemunhou aquele airspeeder decolar -
comentou Dozer com a voz cheia de desconfiança. - E suficientemente perto
para ver a placa com os próprios olhos nus.
– Porque não havia outro jeito de ter visto aquele número - concordou Tavia. -
Não todo coberto por pó brilhante.
– Ele tem acesso a determinados recursos - explicou Eanjer. - Do que vocês
estão reclamando? Nós temos a placa, não temos?
– Esta não é a questão, é? - contra-argumentou Dozer. - Podem me chamar de
paranoico, mas eu gosto de saber um pouquinho a respeito das pessoas com
quem estou trabalhando. Especialmente uma vez que informação de graça
geralmente vem com ganchos.
– Ah, eu não consegui de graça - disse Eanjer em tom pesaroso. - Acredite.
Vou pagar o olho da cara por essa pequena gema.
– Aqui está - falou Rachele. - Ora, ora. Parece que nossos sequestradores estão
passeando em um veículo policial da Cidade de Iltarr, sem identificação.
– A polícia está atrás de nós? - perguntou Kell, soando espantado. - Ah, que
beleza.
– Talvez não - disse Tavia. — Lembrem-se de que muitos policiais locais
estão na folha de pagamento do Sol Negro. Isso pode ser alguma manobra de
Villachor para tirar mais informações de Lando.
– Mas por que tirá-lo da mansão em vez de simplesmente mantê-lo lá dentro e
apertá-lo? - perguntou Winter. - A não ser que Han esteja certo sobre Villachor
estar tentando ver quem mais pode estar com Lando.
– Eu não sei - interrompeu Rachele, cujos dedos ainda dançavam sobre o
teclado. - Mais eis aqui a parte interessante. Eu ouvi rumores sobre um
interrogatório policial sigiloso e muito extraoficial que ocorre em uma fábrica
abandonada na área industrial a cerca de 10 quilómetros a leste do espaçoporto.
Aposto que é para lá que eles estão indo.
– Não sei - falou Eanjer incrédulo. - Meu contato disse que eles estão apenas
voando a esmo. Se eles têm um lugar para ir, por que simplesmente não vão lá?
– Porque precisam garantir que não estão sendo seguidos - respondeu Tavia.
– Melhor ainda - disse Han com uma ideia começando a se formar na mente.
Se eles realmente soubessem aonde os sequestradores estavam indo, e se ele e os
demais tivessem tempo para se preparar antes que os sujeitos chegassem lá... -
Eles precisam chamar um especialista em bombas para abrir aquele estojo.
– Você tem razão — falou Kell, com um toque de empolgação crescendo na
voz. - Se eles estiverem esperando pelo especialista antes de pousar, talvez a
gente consiga chegar antes à fábrica.
– Faz sentido - disse Rachele. - Assim que pousarem, eles estarão vulneráveis.
Desse jeito, eles ficarão em movimento durante o tempo todo até estarem
prontos para resolver o caso.
– Eu não sei - alertou Dozer olhando para os demais no aposento. - Sem
querer ofender, mas mesmo com uma vantagem de sete contra dois, eu não gosto
de nossas probabilidades.
– Está mais para três contra dois - disse Han. - Eu, você e Chewie.
– Espere - reclamou Rachele. - Se você acha que o restante de nós vai
simplesmente ficar de fora, está muitíssimo enganado.
– Rachele tem razão - falou Winter com firmeza.
– Não sobre ela - retrucou Han com a mesma firmeza. - Rachele é muito
conhecida na cidade. Se alguém a vir, ela está ferrada, com certeza. - Ele
gesticulou. - O mesmo vale para Eanjer. E com Bink ainda no terreno de
Villachor, não podemos arriscar que alguém descubra que ela tem uma gêmea,
Tavia, o que deixa você de fora.
– Ainda sobram Kell e eu - salientou Winter.
– Certo - falou Dozer sarcasticamente. - E suas especialidades em combate
são?
– Eu conheço o bastante para saber que seria bom termos algum poder aéreo -
disse Kell. - Se você conseguir alguma espécie de atmocaça, eu sei pilotar.
Dozer franziu a testa para Han, depois voltou a encarar Kell.
– Você está brincando.
– De maneira alguma - respondeu Kell.
– Ele sabe - apoiou Winter - Eu já o vi voar.
– A não ser que você ache que não consegue roubar algo do gênero a tempo -
disse Han. O plano nebuloso começava a se formar...
Dozer empertigou os ombros.
– Onde você quer que eu entregue?
– Apenas roube e mantenha o atmocaça em algum lugar no espaçoporto até eu
ligar para você. - Han digitou no comlink. - Chewie? Preciso que você volte
aqui. Você vai pegar Dozer e Kell e ir ao espaçoporto. Temos um plano.
Ele recebeu uma resposta afirmativa e desligou.
– Rachele, preciso que você descubra algumas armas automáticas pesadas
para mim. Tavia, preciso que você arme alguns disparadores remotos para elas.
– Sem problema, eu já tenho um bando de controles remotos - respondeu
Tavia ao se levantar e correr na direção de seu quarto.
– Ótimo — falou Han. — Rachele, você consegue localizar algumas armas?
– Não há necessidade - disse Winter. - Eu já sei onde há um depósito.
Han olhou fixamente para ela.
– Sério? Como?
Winter deu de ombros.
– Eu cheguei aqui um dia inteiro antes de você — salientou ela. — Não fiquei
sentada apenas, sem fazer nada.
– Creio que não — admitiu Han. — Que tipo de segurança tem o depósito?
– Nada que não possamos encarar — respondeu Winter. — E o mostruário de
um Rodiano que se acha um contrabandista de armas em franca ascensão. É
pequeno, mas devemos conseguir encontrar o que precisamos.
Tavia reapareceu com uma pochete preta na mão.
– Aqui estão oito disparadores remotos - disse ela ao entregar a pochete para
Han. — Espero que sejam suficientes.
– Obrigado - falou ele enquanto espiava o interior da pochete. Disparadores
padrão, acionáveis por comlink. - Winter?
– Oito devem servir — confirmou ela.
– Ótimo - disse Han ao fechar a pochete novamente. - Vamos, pegaremos o
outro airspeeder. Rachele, veja se consegue acessar alguma planta daquela
fábrica. Se conseguir, mande para mim e Chewie.
– Pode deixar. - Rachele se debruçou novamente sobre o computador.
– Todos vocês têm o que fazer - falou Han para os demais. - Ao trabalho.

A fábrica era velha, estava caindo aos pedaços, tinha três andares com tinta
descascando e janelas com camadas de poeira de décadas e arranhões
provocados pelo vento. Era o tipo de lugar que ninguém olharia duas vezes, onde
ninguém gostaria de entrar e que absolutamente ninguém jamais gastaria suados
créditos para alugar.
O que o tornava o lugar perfeito para uma força policial instalar uma sala de
interrogatório por baixo dos panos.
– Você sabe que vai disparar esses troços às cegas - alertou Winter quando
eles armaram o quinto dos seis fuzis de raios de repetição E-Web que foram
roubados do depósito do contrabandista de armas. - Se você tentar conectar esses
gatilhos aos eletrobinóculos e ao sistema de mira, o fluxo de dados será óbvio
demais para o outro lado deixar de notar. Eles vão rastreá-lo até você, e aí será o
fim.
– Eu sei - falou Han. - Ainda bem que eu não me importo se a gente realmente
acertar alguma coisa.
Winter fez uma longa pausa e olhou feio para ele.
– Você não planeja acertar alguma coisa? Então por que trouxemos as armas,
afinal?
– Porque elas são ótimas para fazer barulho - respondeu Han ao se abaixar
para prender um dos gatilhos de Tavia ao mecanismo de disparo. - Algo para
fazer todo mundo olhar para as direções erradas. Chewie e Kell vão infligir todo
o dano de verdade.
– Tomara que seja apenas onde eles devam infligir - murmurou Winter.
– Chewie dá conta do recado. - Han olhou para Winter pelo cano do E-Web. -
A pergunta é: e Kell?
– Eu disse que já o vi voar.
– Sim, mas você não disse que o viu voando em combate - salientou Han. -
Você o conhece bem, afinal de contas?
Winter deu de ombros ao terminar de firmar o tripé do E-Web e subir
novamente no airspeeder.
– Ele se juntou a Mazzic há mais ou menos seis meses, dois meses depois de
mim. Kell parece competente e leal o bastante, mas tenho a impressão de que ele
tem alguma história por trás. Um lance de família, provavelmente.
– É, bem, quem não tem? - resmungou Han ao entrar no airspeeder ao lado
dela.
Ele ligou os repulsores, decolou e foi para o ponto que escolhera para colocar
a última arma.
– E ele não falou especificamente - acrescentou Winter com hesitação -, mas
acho que Kell também é Alderaaniano.
Han sentiu o lábio se contorcer. Leia fingira não se abalar, tanto durante a fuga
da Estrela da Morte quanto depois. Porém, durante tudo aquilo, mesmo quando
ela estava dando parabéns a ele e a Luke pela vitória em Yavin, Han notara o
sofrimento profundo e duradouro por trás dos olhos dela.
Ele tinha reconhecido o mesmo sofrimento em Winter. E agora que pensava a
respeito, Han se dava conta de que ela tinha razão. Kell carregava o mesmo
fardo na memória.
Han tinha provado daquele sofrimento, embora não no mesmo nível que Leia,
Winter e Kell, e sabia muito bem que aquilo provocava alguns efeitos nas
pessoas. Às vezes o sofrimento as deixava deprimidas, indiferentes ou letárgicas.
Às vezes as deixava permanentemente furiosas e incapazes de se importar com
alguém ou alguma coisa por muito, muito tempo.
Às vezes o sofrimento as tornava temerariamente suicidas.
– Não se preocupe, ele vai se sair bem - assegurou Winter. - Kell sabe o que
está em jogo e compreende seu dever. O que quer que você tenha dito para ele
fazer, Kell fará.
– Bem, se não fizer, ele vai se entender com Lando - disse Han. O comlink
tocou, e ele o tirou do cinto. - Chewie? E aí?
Desta vez, as notícias eram boas.
– Ótimo - respondeu Han olhando o céu.
O trânsito de airspeeders nas principais rotas do centro da cidade ao sul e a
oeste estava intenso como sempre, e havia um fluxo constante de veículos indo e
vindo nas áreas interurbanas menos populosas, ao norte e a leste. Mas nada
parecia estar vindo na direção deles naquele momento.
– Você e Kell, esperem pelo meu sinal - falou Han. - E mande Dozer vir aqui
imediatamente; é melhor que ele ajude com os E- Webs.
Han recebeu uma confirmação e desligou.
– Dozer provavelmente preferiria ficar esperando no espaçoporto - comentou
Winter.
– Eu não dei escolha para ele.
– Talvez devesse dar - disse Winter. - De todo mundo no grupo, ele é quem
mais me preocupa.
– Ele não tem problema - falou Han. - Só está se sentindo um pouco fora do
que sabe fazer, apenas isso.
– Um ladrão de naves que não teve que roubar nave alguma até agora - disse
Winter acenando com a cabeça. - Então por que você o trouxe?
– Ele seria o testa de ferro até Lando aparecer - respondeu Han enquanto dava
a volta com o airspeeder e parava ao lado do motor quebrado e coberto por
poeira de uma esteira rolante.
– Isso significa que ele guarda mágoa de Lando? - insistiu Winter ao sair e
pegar o cano do último E-Web.
– Dozer, não - garantiu Han ao pegar a outra ponta e ajudá-la a tirar a arma do
porta-carga do airspeeder. - Pague a Dozer os mesmos créditos por metade do
serviço, e ele voltará para casa rindo. Vamos colocar essa aqui do outro lado
daquele regulador.
Eles estavam na metade da montagem do E-Web quando Han notou um
airspeeder saindo do céu da noite e vindo na direção dos dois. Por um instante
ruim, Han achou que eles tivessem estourado o tempo, mas assim que o veículo
se aproximou, ele viu que era um airspeeder do grupo.
O veículo pousou, e Dozer saiu.
– Como estamos aqui? - perguntou ao se aproximar a passos largos.
– Quase terminando - respondeu Han. - Chewie disse que você conseguiu
alguma coisa para Kell?
– Melhor do que apenas alguma coisa — disse Dozer enquanto protegia os
olhos da massa de luzes da cidade a oeste ao olhar para a fábrica. - Encontrei um
Z-95 Headhunter para ele. Uma versão AF-4 ainda por cima, com todos os
recursos de que a pessoa precisa para transformar prédios antigos em pilhas de
poeira. — Ele gesticulou. - Porém, se aquele é o alvo, eu provavelmente teria
dado duas pistolas sónicas para Kell e encerrado o assunto. Onde você me quer?
– Ali - falou Han apontando na direção de um barracão meio desmoronado. -
Deve ter espaço suficiente para você e o airspeeder ali dentro. Você cuidará dos
dois E-Webs deste lado. Winter e eu estaremos no outro lado, com quatro.
– OK — respondeu Dozer hesitante. - Então vamos atacar quando eles
entrarem?
– Não - disse Han. - Vamos esperar que eles entrem.
– Ah - falou Dozer com mais hesitação ainda. - E assim que abrirmos fogo,
como nós vamos evitar que tudo isso desabe em cima deles?
– Na verdade - respondeu Han -, nós não vamos.

– Lá - disse Wolv apontando para a direita. - Devem ser eles agora.


Lando acompanhou o dedo do sujeito. Ao longe, dois airspeeders haviam
saído do trânsito das aerovias principais e estavam descendo, indo a algum lugar
um pouco à esquerda.
– Já não era sem tempo - resmungou Folx, que fez uma curva fechada com o
airspeeder e foi na direção do local de pouso apontado pelo outro.
Lando se debruçou à frente no meio do banco e virou o pescoço para olhar
entre os dois captores. Eles voavam sobre uma área industrial, e apenas a metade
dela parecia ainda estar sendo utilizada. Diretamente em frente, o destino mais
provável era um prédio monstruoso de três andares, completamente sozinho no
meio de pilhas de entulho, e que parecia ter sido abandonado no primeiro dia das
Guerras Clônicas.
– Cuidado com o que fala - alertou Wolv em tom ameaçador e bateu no
parceiro com as costas da mão para dar ênfase. - Quando o chefe parece com
medo, estamos falando de alguém com quem você não quer se meter.
Folx deu um muxoxo de desdém.
– O chefe é um velho Ugnaught - disse ele em tom de deboche. - Um chefão
do crime é basicamente igual ao outro.
– Se você quiser dizer alguma coisa errada e deixar com que fritem seu
cérebro, vá em frente - contra-argumentou Wolv. - Só me faça o favor de fazer
isso quando estiver com Cran ou Barr em vez de mim, ok?
Folx deu outro muxoxo de desdém.
– Você é um velho Ugnaught também.
– Talvez - disse Wolv. - Mas um Ugnaught chega à velhice sendo esperto.
Então me faça um favor: seja esperto.
Folx balançou a cabeça, e Lando conseguiu imaginá-lo revirando os olhos.
– Beleza. Se isso faz você se sentir melhor.
Tirando alguns buracos nas janelas superiores da fábrica, o lugar não parecia
ter abertura alguma, e por um momento Lando teve a esperança de que o
encontro ocorreria do lado de fora. Não havia muitos lugares para onde correr
ali, mas pelo menos correr seria uma opção.
No entanto, ao se aproximarem do prédio, uma porta larga, atrás de um cais de
carga parcialmente desmoronado, começou a subir pesadamente. Os outros dois
airspeeders já estavam se dirigindo para o interior, e o primeiro mal esperou que
houvesse espaço suficiente para passar e entrou pela abertura com uma
indiferença que beirava a arrogância. O segundo airspeeder deu mais alguns
segundos para a porta e depois acompanhou o outro.
Lando olhou para Zerba. O primeiro airspeeder está com os guarda-costas,
disse ele sem emitir som.
Zerba concordou com a cabeça e encolheu os ombros. Onde estão eles?,
respondeu ele da mesma forma.
Lando deu uma piscadela para Zerba e virou o rosto. Não havia, afinal de
contas, razão para que o outro também ficasse preocupado.
Porque Zerba estava certo. Han e os demais deveriam estar ali àquela hora.
Chewie deveria estar agachado ao lado de um daqueles barracões de
equipamentos desmoronados com sua balestra, disparando cuidadosamente no
agrupamento de repulsores para obrigar Folx a fazer um pouso rápido, porém
ainda sob controle. Han deveria estar em algum ponto próximo ao cais de carga,
disparando com aquele BlasTech DL-44 superaquecido que ele tinha e mantendo
os outros dois airspeeders ocupados. Outra pessoa do grupo, talvez Dozer ou
Kell, deveria estar dando fogo de cobertura para Han e Chewie, enquanto outro
integrante - qualquer um - deveria vir a toda velocidade em um airspeeder para
pegá-los e fugir rapidamente.
Mas não havia nada. Não havia ninguém lá fora atirando. Não havia sequer
alguém visível. Nenhum veículo de qualquer tipo, em parte alguma. Havia
muitos barracões e esconderijos onde alguém poderia estar à espreita, mas
nenhum deles com o tipo de recurso para ataque e desaparecimento que um
resgate como esse exigia.
Porque somente uma manobra de ataque e desaparecimento daria jeito naquela
situação. Assim que ele e Zerba estivessem no interior do prédio, tudo poderia
acontecer. Lando não era engenheiro de estruturas, mas mesmo ali de fora era
muito evidente que começar um tiroteio naquele lugar poderia facilmente fazer
tudo desmoronar em cima de quem quer que estivesse no interior.
Lando olhou para a porta adiante, que ainda se abria com esforço. Seria
possível que não houvesse resgate porque o grupo não sabia onde ele e Zerba
estavam?
Ridículo. Winter e Tavia certamente testemunharam o sequestro lá da suíte, e
Rachele certamente conseguira rastrear o airspeeder de alguma forma. Folx
andara voando com eles pela cidade por mais de uma hora, tempo mais do que
suficiente para Han bolar um plano.
A não ser que não houvesse resgate porque Han decidira não perder tempo
com isso.
Lando tomou fôlego cautelosamente. Não - aquilo era loucura. Han não faria
algo assim. Sim, Lando tinha dito poucas e boas para Han da última vez que os
dois se despediram; e sim, ele mencionara algo a respeito de jamais querer ver
Han novamente. Mas Han o convidara para aquele serviço, e Lando já tinha
desistido daquele lance de jamais-encontrá-lo-novamente. E Han certamente
parecia ter aceitado o pedido de desculpas de Lando.
Além disso, mesmo que Han não estivesse pronto para perdoá- lo, com certeza
Chewie não daria as costas para dois colegas de equipe em apuros. Não era do
feitio dele.
No mínimo, alguém no grupo deveria se importar com Zerba para tentar um
resgate.
Então, onde estavam eles?
– Dê uma boa olhada - alertou Wolv com um gesto amplo.
Lando despertou dos pensamentos sombrios para notar que estavam perto da
porta aberta. - Pode ser a última visão que você terá do mundo exterior.
– Não se preocupe - respondeu Lando o mais calmamente possível. Homens
como ele, Lando se lembrou com firmeza, não se intimidavam facilmente. —
Nós vamos sair numa boa. A questão é: você vai?
Wolv apenas deu um muxoxo de desdém.
E então eles passaram pela porta e cruzaram a vastidão impressionante de um
espaço aberto parcialmente iluminado, e o som dos motores do airspeeder ecoou
no teto alto. Adiante, os dois airspeeders estavam pousados, cercados por meia
dúzia de grandalhões com fuzis de raios de prontidão. Folx desceu o airspeeder
gentilmente até o chão, a uma distância respeitosa de 50 metros, e a seguir ele e
Wolv saltaram, deixando Lando e Zerba sozinhos.
– Agora? — murmurou Zerba, que mexeu os dedos e revelou a gazua de três
pontas.
– Ainda não — sussurrou Lando enquanto os sequestradores caminhavam até
o grupo que os aguardava. - Os outros guardas estão observando a gente.
– Certo — disse Zerba, com a voz um pouquinho trémula. — Vamos precisar
de uma distração, não é? - Ele deu um tapinha expressivo no estojo sobre o colo.
- Calculo que a gente só tenha uma, mas ela é uma belezinha.
– Calma - alertou Lando. - Ainda não estou pronto para recolher os frutos do
jogo.
Um dos guardas gesticulou para o segundo airspeeder. A porta se abriu, e um
velhinho baixo saiu do interior. O especialista em bombas, provavelmente. Ele
deu um passo para o lado a fim de abrir espaço para uma segunda figura...
Lando se contraiu. Atrás do velho, saiu um Falleen do airspeeder.
– Lando? - perguntou Zerba urgentemente.
– Ainda não - respondeu Lando, se indagando por que ainda se dava ao
trabalho. Ele não sabia se aquele era o mesmo Falleen com quem Dozer se
envolvera no Lulina Crown, mas aquilo quase não importava. Ele era um
Falleen, era quase certo que fosse do Sol Negro, e de repente uma morte súbita
por detonita não parecia mais tão absurda.
Lando era um apostador. Um verdadeiro apostador jamais descartava a mão
quando ainda havia cartas sobrando para jogar.
– Ainda não — repetiu ele. - Han ainda pode aparecer.
Atrás deles houve um baque surdo. Lando olhou para trás e viu que a porta de
enrolar se fechara e isolara a fábrica do resto do universo.
Han não tinha aparecido.
Ele e Zerba estavam por conta própria.

Do outro lado do campo veio um estrondo suave quando a porta da fábrica se


fechou.
– Agora? - perguntou Winter.
Han ligou o comlink.
– Chewie? Kell? Dozer? Agora...
CAPÍTULO

13

Finalmente, finalmente, a ordem fora dada.


Praticamente antes de aquela única palavra tão esperada terminar de soar pelo
comlink, Kell já colocara o Z-95 no ar. Os repulsores e os motores se
combinaram para jogá-lo contra o assento, e as luzes do painel ficaram parecidas
com o rastro das estrelas acima e das luzes da cidade em ambos os lados.
A espera chegara ao fim. Ele entraria em combate. Talvez não com a
intensidade que assombrava tanto seus sonhos quanto seus pesadelos, mas era
combate ainda assim.
E com o fim da espera, vinha o fim de pelo menos algumas de suas dúvidas.
Kell temera hesitar ou, pior, congelar. Ele não fez isso. Kell temera que talvez
não fosse capaz de pilotar uma nave com a qual tinha pouca experiência fora dos
simuladores, apesar de todas as garantias que ele dera mais cedo. Parecia estar
dando certo. Kell temera que pudesse virar as costas e abandonar a missão. Até
agora isso também não tinha acontecido.
Kell temera que talvez não fosse capaz de encarar a morte pelo bem dos
companheiros de equipe. Essa decisão, infelizmente, ainda estava por vir. E se -
e quando - chegasse a esse ponto, ele ainda não fazia ideia de como reagiria.
Mas Kell não tinha que saber. Não ainda. Coragem não era uma questão de
passar por cima de uma montanha em um pulo só. Coragem era dar um passo de
cada vez, fazer o que fosse necessário no momento certo, se preparar para o
próximo passo e se recusar a preocupar-se se algum passo no futuro fosse aquele
que acabaria com ele.
Kell estava no ar, pilotando o caça com competência e indo na direção certa.
Três passos dados. Um de cada vez.
Ele ligou o comunicador do Z-95.
– Chewie?
Houve um rugido em resposta, uma confirmação sem palavras de que o
Wookiee estava de prontidão atrás dele.
E Kell se deu conta subitamente de que talvez aquele fosse o verdadeiro
segredo para a coragem: ter o apoio de alguém e a garantia de que não estava
encarando a montanha sozinho.
Ele endireitou os ombros. Bastava de filosofia. Kell tinha um caça embaixo de
si, um conjunto de armas ao alcance dos dedos e companheiros de equipe que
precisavam de resgate.
– Venha comigo - disse ele para Chewie; Kell não sabia se era uma ordem ou
um apelo. - Eu vou entrar.

Wolv e Folx tinham sido liberados pelos capangas do Falleen, e a conversa


tinha passado a abordar o próprio Falleen, quando um grupo de janelas do térreo
explodiu para o interior do prédio, e a fábrica inteira foi iluminada pelos
múltiplos clarões de um tiroteio de raios prolongado.
– Não, não, não - gemeu Zerba, com o corpo encolhido como se tentasse
desaparecer dentro do banco do airspeeder. - Lando, o que ele está fazendo?
– Tirando a gente daqui - respondeu Lando com os dentes trincados. - Aqui...
arranque isso de mim.
– Tirando a gente daqui como? - indagou Zerba enquanto arrancava as mãos
das algemas e se debruçava para trabalhar nas de Lando. - Em sacos mortuários?
Ele vai derrubar o lugar todo em cima de nós.
– Ele tem um plano - insistiu Lando olhando para o teto.
Até então o tiroteio de raios estava apenas destruindo as janelas e passando
por cima da cabeça de todo mundo, de maneira inofensiva. Será que todo aquele
barulho e fúria eram uma distração, enquanto Han esperava que eles pegassem o
airspeeder e tentassem fugir?
Porque se esse fosse o plano, era um plano péssimo. Nenhuma das janelas
quebradas era suficientemente grande para o airspeeder passar. E mesmo que
fosse, aquele modelo específico de veículo obrigaria Lando ou Zerba a sair do
banco traseiro e dar a volta até a porta do motorista para chegar aos controles, e
ele duvidava que Wolv, Folx ou o Falleen simplesmente ficariam parados e
deixariam aquilo acontecer.
Falando nele...
– Rápido com isso — disparou Lando ao dobrar o pescoço para olhar pelo
canopi do airspeeder.
Na primeira salva de tiros, o especialista em bombas e o Falleen mergulharam
de volta para o interior do veículo deles, e o restante do grupo assumiu posições
de defesa. Wolv e Folx se juntaram aos dois, mas já estavam olhando de volta
para o próprio veículo.
E mesmo a 50 metros de distância, com todos aqueles clarões reluzindo no
canopi do airspeeder e obscurecendo a visão de Wolv e Folx, Lando notou que
eles haviam percebido que um dos prisioneiros estava sem algemas e o segundo
estava prestes a se soltar.
– Por quê? - reclamou Zerba. - Você tem outro lugar para ir?
– Sim, qualquer lugar menos aqui - disparou Lando.
Wolv estava olhando de um lado para o outro entre os diferentes vetores dos
raios que lhe passavam sobre a cabeça, provavelmente à procura de um padrão.
Lando suspeitava que, assim que ele calculasse o momento seguro, Wolv viria na
direção deles.
Do outro lado da fábrica, um dos arrimos no meio da parede do prédio
abruptamente se soltou quando os tiros da janela adjacente cortaram a borda. O
trecho do teto imediatamente acima desabou alguns metros, e a súbita mudança
de pressão quebrou dois arrimos menores e lançou estilhaços de metal pelo
espaço aberto, que caíram a poucos metros dos três airspeeders.
– Qualquer lugar menos aqui parece ótimo - rosnou Zerba. - Mas como
chegaremos lá? Este lugar é... - Ele parou quando outro arrimo se quebrou e se
espalhou pelo cenário. - É uma armadilha. O que Han está tentando fazer, nos
matar?
Lando ainda tentava arrumar resposta para aquela pergunta quando, com um
baque ensurdecedor, um grupo de janelas embaixo do teto explodiu. O lugar
estava desmoronando, sem dúvida, e embora os airspeeders do Falleen
provavelmente fossem blindados, o dele e de Zerba certamente não era. Lando
ergueu o olhar para a explosão, imaginando se algum dos destroços viria na
direção dos dois, curioso para saber se veria o pedaço de parede ou viga que
acabaria por matá-lo.
A bola de fogo da explosão ainda girava dentro da nuvem de fumaça quando
um Z-95 Headhunter disparou pela abertura e entrou na fábrica.

Kell fez uma careta quando pedaços da parede que ele acabara de explodir
bateram e quicaram no canopi do Z-95. Ele definitivamente passara raspando por
essa. Algo a se lembrar para a próxima vez.
Considerando que haveria uma próxima vez. Kell mal tinha acabado de passar
pelos destroços da explosão quando subitamente a parte de baixo do Z-95 foi
alvejada por um intenso tiroteio de raios. A primeira hipótese automática foi que
a mira de Han e Dozer dera defeito, mas um segundo depois Kell se deu conta de
que o ataque vinha dos homens ao lado dos outros dois airspeeders lá embaixo.
Um ataque intenso também. As armas de raios que eles disparavam eram
extremamente poderosas, muito além da capacidade de um equipamento civil.
Mesmo a blindagem do Z- 95, feita para combate espacial pleno, estava
rangendo e estalando sob o assalto furioso.
Teria sido extremamente satisfatório voar a toda velocidade até a outra ponta
da fábrica, virar o caça e acertar todos eles com um contra-ataque dos canhões
laser KX5. Mas Kell não podia arriscar. O ataque dos E-Webs havia mostrado
que a fábrica era perigosamente instável. E o escapamento do motor e o calor
osaquecimento imediato necessário para montar tal ataque, poderia ser
derrubado em todo o lugar. Seria um resgate bastante patético se Lando e Zerba
fossem esmagados até a morte por terem ficado presos na casca de um
hovercraft.
Felizmente, esse problema estava prestes a ser resolvido.
– Homens maus aos sessenta e cinco e setenta e seis anos — ele gritou,
enquanto o lutador girava alguns graus enquanto disparava a distância para ter
uma visão melhor do chão da fábrica. Ele levou um momento para olhar para a
tela, para a planta que Rachele lhe enviara e para a rede de orientação que
Chewbacca havia sobreposto. Amigável aos cinquenta e oito. Alvo para o
bombardeio: sessenta e sete. Eu repito: branco para bombardeio, sessenta e sete.
A parede dos fundos estava se aproximando rapidamente. A parte do plano
projetada para ele contemplava disparar outra explosão, fazer um novo buraco e
partir antes que pudesse ser abatida. Em vez disso, ele soltou o pé no acelerador,
deslizou para o lado para fazer uma curva rápida, a fim de matar o impulso da
inércia que o estava levando para frente e finalmente parar. Era arriscado, e
Chewie provavelmente teria algo a dizer sobre isso depois, se eles
sobrevivessem.
Mas o plano de Han era tão insano, e sua execução tão impossível, que ele só
teria ficado vagando por aí, para ver por si mesmo se realmente tinha alguma
chance de trabalhar.
Para algumas coisas na vida, valeu a pena arriscar tudo. Para o resto... bem,
sempre foi uma questão de critérios.

Kell já tinha fundido a parede para abrir um furo, se tinha infiltrado no


interior, delimitado tinha a Blitz zona para Chewie, e cobertura fogo E-Webs
ainda não tinha feito toda a fábrica em colapso. Até agora, as coisas estavam
indo conforme o planejado.
E então, saindo da escuridão e atravessando o céu noturno, o Falcão apareceu.
Han apertou seu punho. Chewie foi um dos melhores pilotos que eu nunca
tinha visto, mas este foi o tipo de jogo que mesmo Han, geralmente descarta
plana.
Mas quando você não tem outra opção, você não tem escolha a não ser fazê-
lo.
– Vamos lá, Chewie — ele murmurou baixinho quando o navio se dirigiu
diretamente para o buraco na parede que Kell tinha feito. Claro, a abertura era
muito pequeno para o Falcon poderia caber, e não havia nenhuma maneira que
qualquer um deles poderia tentar estendê-lo, pelo menos não com as condições
em que o prédio estavam. Mesmo ter deixado Kell entrar e sair tinha sido um
risco calculado.
Mas Chewie não precisava fazer o maior buraco. Tudo o que ele precisava
fazer era jogar uma única rodada do jogo mais popular da galáxia, o "Hits-al-
Hutt".
E eu tive exatamente uma chance de fazer isso direito.
Naquele momento, o Falcon começou a ganhar um pouco de altitude, e Han
pôde ouvir Chewbacca tirar o pé do acelerador enquanto afiava sua trajetória.
Um crescente sentimento de frustração e culpa começou a perfurar a
humanidade de Han enquanto ele observava; sob qualquer circunstância,
corresponderia a ele estar lá em cima. Ele deve ser o único a voar seu navio e
fazer esse trabalho.
Mas se ele tivesse assumido essa tarefa, quem teria sido deixado para
organizar as ações no nível do solo? Dozer Inverno?
Não. Para o bem ou para o mal, fazia sentido ou não, ele era o líder desse
grupo. Aqui embaixo, onde a maioria dos tiros a laser explodiu, era onde deveria
estar.
Você está quase lá. Um pouco mais de altitude... um pouco menos...
desacelera mais do que uma fração... modifica o vetor de aproximação em
apenas alguns graus...
E então Chewbacca já estava lá, saindo do caminho traçado com uma fração
de segundo, e a nave subiu pela borda do prédio e disparou para o espaço.
E só porque Han estava focando especificamente naquilo foi que ele viu o
atarracado cilindro de metal que saiu da popa da nave e entrou perfeitamente na
fábrica pelo buraco fumegante.

O primeiro pensamento horrível de Lando foi que o estrondo que se


aproximava do lado de fora era um míssil, vindo para destruir o prédio e
desintegrar todas as provas do que acontecera ali. Mas, no último milissegundo,
a massa escura passou voando pela abertura irregular que o Z-95 tinha feito,
virou para cima e passou roncando pelo telhado. Lando sentiu o local inteiro
tremer com o recuo da nave, e uma nova chuva de destroços começou a cair
sobre eles. Um pedaço bem grande das lajotas do teto acertou e quebrou o lado
do canopi onde Lando estava, e voaram cacos de transparaço.
Sem aviso, algo grande e sólido bateu no piso diretamente entre o airspeeder
de Zerba e Lando e o veículo dos homens do Falleen. O impacto levantou uma
imensa nuvem de poeira e lascas de permacreto. Lando recuou e imaginou se
aquilo era de fato a ponta cónica do míssil que ele estava esperando alguns
segundos atrás.
Não era um míssil. Era uma cápsula de fuga CEC Classe 1.
Do tipo que havia a bordo da Falcon.
E diante daquilo, ele finalmente compreendeu.
– Vamos! — disparou Lando para Zerba.
Ele abriu a porta do airspeeder à força e disparou para fora, entre a poeira, as
lajotas que caíam e os cacos de metal. Correu curvado para se manter longe dos
raios que ainda entravam aos borbotões pelas janelas e foi na direção da cápsula
de fuga.
Lando estava no meio do caminho quando Zerba o alcançou, segurando o
estojo do cryodex contra o peito, com força.
– Aonde nós vamos? - perguntou ele ofegante.
– Aqui dentro - informou Lando. Ele se ajoelhou ao lado da cápsula e girou a
escotilha. - É a ideia que Han faz de um santuário blindado.
– Mas é uma cápsula para apenas um passageiro.
– Vai ser apertado - concordou Lando quando a escotilha se abriu. - Você pode
ficar aqui fora se preferir.
Zerba nem se deu ao trabalho de responder.

– Eles entraram! - berrou Kell no comunicador. - A cápsula está selada.


– Ótimo - respondeu Han, e pela primeira vez em horas Kell ouviu um pouco
de alívio verdadeiro na voz dele. - Kell, Dozer, derrubem o prédio.

E com uma rapidez que pegou Dayja completamente de surpresa, os tiros


múltiplos dos E-Webs que martelavam a fábrica passaram de fogo de cobertura
para demolição.
O comlink dele apitou.
– Dayja, o que está acontecendo aí? - indagou D’Ashewl. - A rede policial está
em alerta daqui até Grackelton com relatos de um tiroteio na sua área.
– Ah, com certeza é um tiroteio - confirmou Dayja enquanto espiava a fábrica
de uma distância que ele esperava que continuasse a ser segura. - Mas, no
momento, é um tiroteio seriamente unilateral. E-Webs do lado de fora, um Z-95
Headhunter no interior.
É um tipo qualquer de cargueiro leve corelliano, ele nao acrescentou, com o
cenho franzido enquanto observava o céu. O cargueiro havia feito uma única
investida contra o local e desviado só no último segundo, depois se afastara e
não voltara mais. Ou a nave estava fazendo um retorno realmente muito grande
ou tinha dado as costas e fugido.
A primeira opção não fazia muito sentido. A segunda parecia fora de sintonia
com o que Dayja tinha visto do grupo de Eanjer.
E aí ele compreendeu. O piloto do cargueiro não tinha se acovardado. Ele
tinha feito o que quer que tivesse que fazer pela operação - distração,
reconhecimento, qualquer coisa - e depois ido embora porque estava correndo
para voltar ao espaçoporto antes que a polícia e as autoridades portuárias
reagissem a todo aquele barulho e começassem a prestar atenção ao que
acontecia no céu acima delas.
O que significava que o cargueiro era o único item trazido pela equipe de
Eanjer que eles não pretendiam abandonar após o resgate.
Interessante. Naquele momento, Dayja queria ter conseguido ver melhor a
nave.
Com um estrondo ao longe, uma parte do telhado da fábrica desmoronou,
seguida imediatamente por um colapso parcial da parede norte. Os agressores
pareciam estar derrubando o prédio de propósito, o que levantava a questão:
como eles esperavam que os companheiros sequestrados sobrevivessem?
Talvez eles já estivessem mortos. Talvez fosse isso que o cargueiro e o Z-95
tinham vindo confirmar. Outra parte do telhado cedeu, e esse pedaço
aparentemente acertou um velho tanque ao cair e levantou um jato de gás que
parencia esverdeado e que parecia vagamente maligno na luz refletida do fogo
de laser. Uma segunda parte da parede norte desmoronou.
E com isso, aparentemente, os sequestradores já tinham o suficiente. Mesmo
com o laser queimando, Dayja observou os três hovercrafts voar pelos buracos
recém-abertos e tentar ganhar altitude.
Desta vez ele estava pronto e capturou uma boa imagem com seus poderosos
eletrobinóculos. Quem quer que fossem, ele seria capaz de rastreá-los.
– Dayja? O que está acontecendo?
– Parece que, na maior parte, isso acabou agora, disse Dayja enquanto o fogo
das E-Webs parou. O Z-95 já havia emergido do interior, e estava olhando para
pousar no chão próximo, e podia ver três figuras correndo em direção ao prédio
destruído de diferentes direções. Mas não faria mal deixar a polícia fora da área
por mais alguns minutos. Você poderia consertar isso sem ser notado que você
está furando suas mãos?
– Minhas mãos vão ficar de fora - disse d'Ashewl. Mas não as mãos do seu
time; eles já podem ser considerados mortos. De fato, se os sequestradores eram
policiais corruptos, não sei como eles vão compor esse incidente sem que
Villachor e Qazadi concluam que Eanjer está oficialmente ligado a outra pessoa.
– Eu também não sei - disse Dayja. – Mas estou ansioso para descobrir isso.
Lando já estava com a escotilha aberta e estava saindo da nave de fuga,
quando Han e os outros chegaram até eles.
– Se encontra bem? Han perguntou, oferecendo uma mão.
Pareceu-lhe que Lando hesitou uma fração de segundo a mais do que
precisava antes de pegar a mão estendida. Mas ele apertou a mão bem
solidamente.
– Obrigado - ele rosnou quando Han o ajudou. Bom movimento, a propósito.
Devo entender que foi Chewie quem estava a bordo do Falcon?
– Sim - disse Han, olhando em volta. O aspecto da devastação parecia ser
ainda pior aqui, do que o que era apreciado de fora. Eu imaginei que se você
tivesse sido esmagado pela cápsula, você não ficaria tão bravo com ele quanto
você estaria comigo.
– Provavelmente não.
– Lando se virou. Zerba?
– Estou aqui. Uma mão fina e fina emergiu pela escotilha. Você poderia me
dar alguma ajuda, por favor?
– Passe-me o recipiente - instruiu Dozer, agachando-se ao lado da cápsula.
A mão desapareceu e reapareceu com o recipiente cryodex. Dozer pegou-a e
passou-a de costas, na direção de Winter, e depois ajudou Zerba a sair.
– Obrigado - Zerba respirou. Ele atirou em Han um olhar assassino. – Nunca
faça isso de novo.
– Que parte? - Han perguntou. – Para atirar nos bandidos para se livrar deles,
ou para salvar sua vida?
Zerba pareceu reconsiderar.
– Ok, bom ponto - ele admitiu, soando um pouco menos agressivo. –
Podemos sair daqui agora?
– Claro - disse Han. – Dozer, levante-os em seu hovercraft e leve-os de volta
para a suíte. Kell também pode ir com você.
– Nós deixamos o equipamento? - Dozer perguntou.
– Tudo completamente - Han confirmou. – O inverno e eu vamos para o
espaçoporto e esperamos Chewie.
Algumas ordens, ele refletiu, só precisavam ser dadas uma vez. Dozer já
estava trabalhando nos escombros, com Lando e Zerba logo atrás dele.
– Uma tática interessante - disse Winter.
Han se virou. Ela estava assistindo a cápsula de fuga, com uma expressão
estranha no rosto.
– Eles são projetados para lidar com o espaço profundo, penetração
atmosférica e aterrissagens turbulentas - ele lembrou. Achei que poderia lidar
com qualquer coisa que os sequestradores tivessem com eles. Ele apontou para
as estrelas que apareciam no teto rachado. E isso também.
– Parece que ele cumpriu sua tarefa - concordou Winter. – Mas eu estava
pensando mais sobre o que teria acontecido se Chewbacca falhasse no
lançamento.
– Lando provavelmente nunca teria querido me ver de novo - disse Han. –
Ok, vamos ver se o Chewie já completou tudo mais uma vez.
Han se virou. Ela estava assistindo a cápsula de fuga, com uma expressão
estranha no rosto.
– Eles são projetados para lidar com o espaço profundo, penetração
atmosférica e aterrissagens turbulentas – ele lembrou. – Achei que poderia lidar
com qualquer coisa que os sequestradores tivessem com eles. Ele apontou para
as estrelas que apareciam no teto rachado. E isso também.
– Parece que ele cumpriu sua tarefa - concordou Winter. – Mas eu estava
pensando mais sobre o que teria acontecido se Chewbacca falhasse no
lançamento.
– Lando provavelmente nunca teria querido me ver de novo – disse Han. –
Ok, vamos ver se o Chewie já completou tudo mais uma vez.
– Então você não tem ideia de quem eles eram? Tavia perguntou enquanto ele
dava uma bebida a Lando.
– Só que havia uma falleen no grupo - disse Lando, tomando um gole
delicado. Cognac era uma bebida notoriamente imprevisível, porque seu sabor e
qualidade variavam muito entre diferentes sistemas e muitas vezes, mesmo entre
diferentes regiões do mesmo mundo. Felizmente, Tavia havia escolhido uma
muito boa e muito suave. Não faço ideia se foi esse amigo de Dozer, Lorde Aziel
ou talvez do próprio Qazadi, que o contato de Eanjer afirma que ele está
escondido na fazenda de Marmol.
– Não tenho certeza se importa quem é — disse Kell. – Ambos estão no
mesmo time, certo?
– Não foi nenhum dos dois — disse Zerba. – Ele estava segurando seu próprio
copo de conhaque com as duas mãos, e evidentemente ele ainda estava chocado
com os acontecimentos da noite. Provavelmente foi o guarda-costas de alguns
deles.
– Como sabes? — Lando perguntou, pensando sobre isso novamente. – Ele
não havia notado nenhuma arma particular ou qualquer armadura que pudesse
induzir Zerba a chegar a tal conclusão.
Ele era jovem — disse Zerba. Jovem demais para ser alguém com esse tipo de
proeminência.
– Ele correu para o hovercraft quando o tiroteio começou — Lando apontou.
– Ele conseguiu o especialista em bombas dentro do hovercraft quando o
tiroteio começou — Zerba o corrigiu. – Então ele se apresentou. No entanto, ele
deixou a porta aberta.
– Para poder dirigir o fogo de resposta — Winter murmurou. – Além disso,
ele fez um trabalho decente sobre isso. Mesmo atirando às cegas, eles
conseguiram desmantelar uma das E-Webs antes que Kell pudesse entrar.
– Bem, quem quer que fosse, eles não estavam com Villachor — disse Bink
com convicção. – Nem Sheqoa, nem qualquer outro tipo de segurança que vi lá,
mostrou a menor indicação de que eles sabiam que algo grande estava
acontecendo.
– Então, eles não deveriam estar monitorando as comunicações policiais —
ressaltou Tavia. – Toda a rede estava ficando louca com a enorme quantidade de
relatórios. Estou um pouco surpresa por eles não terem desistido de você antes
que pudessem sair de lá.
– O que você gostaria de interferir em um interrogatório do Sol Negro? Lando
respondeu. É improvável.
– Em conclusão, o que tudo isso significa para a missão? — Eanjer perguntou.
Ele parecia calmo, mas o tremor de seus dedos inquietos traiu sua tensão.
– Nada, na verdade — Han disse. – Quem está por trás de tudo isso, só sabe
que Lando tem uma organização impressionante por trás dele. Essa é a história
que estávamos mostrando em primeiro lugar.
– Só que agora que Lando foi marcado, ele precisa manter um perfil
baixo — disse Bink. – Eu acho que Dozer é o próximo que deve enfrentar. Ou
você, Han.
Pareceu a Lando que os lábios de Han estavam se contorcendo, mas apenas
ligeiramente.
– Provavelmente — Han concordou. – Nós podemos falar sobre isso mais
tarde. Ele se virou para Rachele. Está pronta?
– Sim — disse Rachele, enquanto seus olhos estavam confusos. – Mas eu não
acho que você vai gostar.
– Pronto com o que? — Zerba perguntou.
– A análise dos dados do sensor no cartão que você infiltrou — disse Han,
olhando em volta. Dozer
– Estou bem aqui — disse Dozer, saindo do corredor da cozinha com um
grande sanduíche na mão. – Resgate funciona me deixa com fome. Ele caiu no
sofá ao lado de Tavia, forçando-a a se afastar para abrir espaço para ele. Pronto
Han gesticulou para Rachele. Ela digitou no datapad, e a imagem de uma sala
quase completamente retangular apareceu no ar acima do projetor holográfico.
– O cofre de Villachor, ele disse. – Como dissemos, foi construído no salão de
baile júnior; olhe os cantos curvos e as caixas de conversa.
– Provavelmente armazene lugares agora, murmurou Lando.
– Principalmente - confirmou Rachele. – Também leve em conta o telhado
alto e ondulado. Esse é o salão de baile, com a camada original de gelo lá em
cima e, a propósito, a camada de armadura que discutimos anteriormente é
colocada no espaço entre os andares que estão acima dela.
– Uma camada de gelo, né? — Bink perguntou mal humorado. – Que ótimo.
– O que é uma cobertura cintilante? - perguntou Kell.
– A decoração de interiores preferida do homem de bom gosto - informou
Bink. - Bonita, elegante, resistente, cintilante em qualquer tipo de iluminação.
Você entendeu. O problema é que é impossível cortá-la sem espalhar nuvens de
flocos brancos e reluzentes por toda parte.
– O que significa que não dá para entrar, pegar o tesouro e sair sem ninguém
notar - acrescentou Tavia. - Assim que começarmos a operação, nossas pegadas
estarão por todos os lados.
– Que tipo de segurança ele tem dentro da caixa-forte? — indagou Bink.
– Ah, vocês vão adorar isso - disse Rachele. Ela tocou no datapad novamente,
e uma dezena de figuras surgiu em volta das bordas da caixa-forte. - Vocês se
lembram daqueles droides políciais Z que Kell disse que Villachor tinha? É aqui
que eles ficam.
– Mais os dez que ficam de guarda do lado de fora da porta - falou Lando. -
Com armas de raios e chicotes neurônicos TholCorp OT-7, só para tornar as
coisas interessantes. Passar por aquele grupo é o primeiro passo no procedimento
de entrada.
Chewbacca se voltou para Han e grunhiu uma pergunta.
– Não sei - respondeu ele. - Kell? Sabe de alguma maneira de derrubar um Z?
– Eu teria que pesquisar, mas tenho certeza de que é possível. — Kell abanou
a mão. — É claro que tudo é possível. É na execução que a coisa empaca.
– Uma descarga alta no motivador ou no núcleo de memória resolve para a
maioria dos droides - observou Bink.
– Mas é difícil de passar pelo tipo de blindagem que os Zs têm - disse Kell.
– E não se esqueçam dos chicotes - acrescentou Lando. - Aqueles troços têm
uma tremenda energia, e Villachor dificilmente daria os chicotes para os guardas
se pudessem ser usados contra eles. Isso implica em mais blindagem contra
descarga elétrica.
– Na verdade, é pior do que isso - falou Kell. - Você lembra que eu disse que
os Zs que vi tinham placas nos braços, coxas e cinturas? Essas peças são onde os
droides têm finos cilindros paralelos em vez de uma única peça mais larga, e a
cintura também fica mais estreita.
– E daí? - perguntou Bink.
– Daí que, com aquelas placas no lugar, não dá para dizer se eles possuem os
cilindros paralelos originais e o tubo do torso, ou algo mais largo - respondeu
Kell. - Em outras palavras, não dá para dizer se aquilo é ou não um Z de
verdade.
– Uau - exclamou Dozer, esquecendo momentaneamente o sanduíche. - Você
está dizendo que alguns daqueles Zs podem ser na verdade guardas humanos
blindados?
– Exatamente - disse Kell. - É realmente muito inteligente. A pessoa golpeia
com um motivador de curto espectro como Bink disse, programado para
derrubar um droide. Só que o humano dentro da blindagem nem se abala e
derruba você de bunda no chão.
– Enquanto isso, algo feito para atordoar ou paralisar um humano não
funciona em um droide — falou Han.
– E somente Villachor sabe qual é qual - disse Kell.
– Falando em droides, há alguma maneira de lidar com aqueles droides-
câmera flutuantes do lado de fora? — perguntou Dozer. -
Eu não gosto da ideia de que alguém, em uma sala, esteja observando tudo o
que fazemos lá em um monitor.
– Isso não é um problema, assegurou Tavia. Temos um dispositivo projetado
para embaçar seu dispositivo de visão. Não é suficiente para ativar alarmes ou
sequências de autodiagnóstico, mas o suficiente para impedir o reconhecimento
facial. Com toda a poeira, o calor extra do corpo e os campos de contenção dos
repulsores que eles têm lá fora, você deve assumir que isso é tudo o que está
interferindo em seus holocams.
– Isso vai ser bom o suficiente? Dozer perguntou, olhando para Han.
– Deveria ser - disse Han. Teremos que nos certificar de que não seremos
notados na multidão.
– Até que seja necessário, murmurou Lando.
– Certo, Han concordou.
– Então, como nos infiltramos no complexo? Kell perguntou.
– Está feito — Bink disse calmamente. Eu plantei há dois dias, em nossa
primeira incursão.
– Você poderia ter nos dito - Dozer rosnou.
Bink encolheu os ombros.
– Eu assumi que seria óbvio.
– Vamos voltar para os Zeds, disse Zerba. Temos alguma ideia se aqueles que
estavam fora do cofre eram droides ou seres humanos? E mais importante, temos
alguma ideia de que tipo de código de acesso eles estavam usando? Como pude
ver, não era usual.
– Você está certo, não foi usual, Rachele concordou. Acontece que havia
algum cheiro nos dedos de Villachor que o Zed estava farejando.
– Algum cheiro? Lando repetiu quando sentiu a boca permanecer aberta. Você
quer dizer algo como um perfume?
– Colônia, na verdade - disse Rachele. Ou o Rezi-Oito ou o Rezi-Diez, as duas
fórmulas são muito semelhantes na realidade.
Kell olhou para Tavia.
– Você tem que estar brincando. Você usou um analisador de odores?
Tavia encolheu os ombros.
– Han nos disse para analisar todo o espectro - ela lembrou a ele. Bem,
analisamos o espectro total.
– Apesar de estarmos principalmente à procura de partículas de materiais
transportados pelo ar - acrescentou Winter -. Não esperávamos poder demarcar
as preferências de Villachor em relação aos enfeites de banheiro.
– Como eles fizeram, disse Rachele. Infelizmente, eu acho que a chave
aromática muda todos os dias, e se não podemos entrar em seu armário de
banheiro privado, eu não sei como vamos descobrir qual deles precisamos.
Kell sacudiu a cabeça.
– Isso está ficando melhor e melhor.
– Nós nem sequer começamos, avisou Rachele. Ele digitou seu datapad, e
uma grande esfera conectada por um pequeno pilar a uma larga plataforma plana
apareceu no centro da sala. Este é o seguro em si — disse ele. É uma esfera de
seis metros de diâmetro, com a parte externa feita de duracrete, vertida sobre
uma malha de metal que serve de suporte.
– Uma esfera? Winter perguntou. Soa um pouco demente.
– Tão enlouquecido quanto um Twi'lek — disse Zerba amargamente. Um
quadrado ou retângulo tem cantos que podem ser cortados para obter uma
entrada rápida. Uma esfera não as possui. Mesmo com um sabre de luz
completo, levaria uma eternidade para quebrar material suficiente para poder
entrar.
– E, provavelmente, encontraríamos armadilhas doces ao longo do caminho,
acrescentou Tavia. O duracreto derramado é perfeito para deixar no meio, sacos
de gás e cargas escondidas de detonite.
– Você disse que a parte externa foi conformada pelo duracreto - disse Han-. O
que acontece com a parte interna?
– Isso é ainda pior, disse Rachele. No centro da esfera está o verdadeiro cofre:
um armário retangular, do tamanho de um armário, feito inteiramente de pedra
Hijnana.
Lando olhou em volta. Das expressões de perplexidade refletidas nos rostos
dos outros, ele percebeu que os outros não estavam mais familiarizados com o
termo do que ele.
– Que tipo de pedra é essa? Dozer pediu.
– Uma pedra dura e preta, que é excepcionalmente difícil de cortar e absorve o
fogo a laser, mesmo sem um arranhão, disse Rachele. O exemplo mais
proeminente é uma fortaleza parcialmente arruinada no planeta Hijarna. O ponto
é que, mesmo com o sabre de luz de Zerba, não vamos passar por isso. Não no
espaço de tempo que teremos.
– Bem, Villachor não sofre com todas as penalidades a cada momento, Bink
apontou. Por que devemos fazer isso?
– Exatamente - ele concordou, Tavia. Landó percebeu que seu rosto mantinha
sua desaprovação habitual por esse tipo de coisa. Mas, ao mesmo tempo, ele
podia apreciar um certo tipo de interesse profissional que estava começando a
surgir no meio de tudo. Este foi um desafio tático, e se havia algo que Tavia
gostasse, isso era um desafio. Você pode explicar como você executa sua rotina?
– Claro, disse Rachele. Ele entra no cofre depois de ser examinado pelos Zeds
que estão do lado de fora ...
– Ou para os guardas humanos, Lando murmurou.
Por quem ou pelo que está dentro dessas armaduras, concordou Rachele. O
selo magnético da cúpula apaga quando ele abre a porta, é claro. Atravesse a sala
até chegar à plataforma flutuante estacionária e ...
Chewbacca deu um grunhido agudo.
– disse Rachele. Desculpe, esqueci de mencionar essa parte. A caixa de
segurança é colocada nesta plataforma de dez metros de diâmetro, que está
flutuando a cerca de um metro e meio acima do solo, apoiada por repulsores, e
movendo-se lentamente ao redor de toda a sala. Eu não sei se segue um circuito
constante ou executa um caminho aleatório.
– Bem, agora tudo isso está ficando ridículo - disse Dozer.
– Na verdade não, disse Tavia. Anteriormente, quando começamos com essa
coisa, alguém mencionou a possibilidade de tunelamento embaixo. A outra
abordagem óbvia é abrir um buraco no telhado e tentar cair no cofre de cima,
sem que os guardas nos vejam. Neste momento, com o cofre em constante
movimento ao redor da sala, ambas as táticas provaram ser inúteis.
– Esses repulsores devem ser realmente formidáveis, disse Bink. Uma esfera
de duracrete desse tamanho provavelmente pesa mais de cento e cinquenta
toneladas.
– Facilmente - disse Rachele. E sim, os repulsores são extremamente
poderosos, então eles têm seu próprio gerador de fusão integrado, provavelmente
dentro e abaixo daquele pilar de trinta centímetros que segura a esfera na
plataforma.
– O cara é esperto, isso é claro, Bink concordou. Se tivéssemos ficado onde eu
estava caminhando em direção à plataforma flutuante?
– Quando você se aproxima da plataforma, o conjunto mais próximo de
escadas se desdobra abaixo — disse Rachele. De acordo com meus cálculos,
existem cerca de cinquenta deles. Porque enquanto a plataforma está se movendo
ao redor da sala, ela também está girando lentamente.
– Aleatório, suponho? Winter perguntou.
Rachele assentiu.
– Eu observei duas pequenas mudanças de velocidade na rotação enquanto se
movia pela sala. É uma rotação lenta, mas a velocidade não é realmente a coisa
mais importante. A linha inferior é que, por causa da rotação, o intruso médio
não teria nenhuma maneira de saber onde o cofre verdadeiro está localizado.
– Mas podemos descobrir, não é? Bink perguntou.
– Eu acho que sim, disse Rachele. Existem vários grupos de buracos pareados
que são do tamanho de um dedo, espaçados a cerca de quatro centímetros de
distância, distribuídos ao redor do contorno da esfera na altura do peito.
Villachor vai para um determinado conjunto pré-determinado, e insere os dois
primeiros dedos da mão direita e, em seguida, a parte inferior de um dos
segmentos da esfera, desdobra-se na plataforma, abrindo um espaço de
aproximadamente um metro e meio de largura e dois metros de altura através do
duracrete, um espaço que se estende até o fundo do centro da pedra Hijarna.
– O gabinete está exatamente no meio da esfera? Zerba perguntou.
– Não, é cerca de meio metro atrás, disse Rachele, parecendo desnorteada. Por
que você pergunta?
Zerba encolheu os ombros.
– Só é curiosidade.
– Sabemos se os buracos são ativados por suas impressões digitais? Tavia
perguntou.
– Eu não penso assim, disse Rachele. A posição dos dedos parecia casual, e
ele nunca os manteve em silêncio o suficiente para uma boa leitura das
impressões. O melhor palpite é que é um gatilho ativado pelo calor do corpo, e
você só precisa saber qual par de furos você usa.
– Ou talvez todos os usem, disse Zerba.
– Eu não acho que seja o caso; e não há necessidade de experimentá-los todos
— disse Winter, apontando com o dedo. Existem duas pequenas marcas de
desgaste no par de furos, apenas à esquerda das que ele está usando.
– Eu os vejo, disse Bink. O que vem depois?
Rachele digitou novamente, fazendo com que a imagem do holoprojetor
aumentasse na esfera, concentrando-se no segmento que havia sido implantado,
o que indicava o caminho que acabara de descrever.
– Agora temos um pequeno túnel - continuado ... no final do qual está a porta
do armário interior, feita de outro bloco de pedra Hijarna com um teclado
alfanumérico padrão fixado nela.
A imagem do zoom foi ampliada mais uma vez, oferecendo um close-up do
teclado.
– Projetado com a fonte Galactic Alto, pelo que vejo — comentou Zerba.
– As pessoas comuns o chamam de Aurebesh — disse Lando secamente. Os
esnobes, como Villachor, consideram que eles são de um nível muito alto para se
referirem a essas cartas dessa maneira.
– Nós poderíamos pegar o código, certo? Disse Tavia.
– De qualquer forma, nós temos o código de Esta tarde — disse Rachele. Mas
levando em conta o resto de suas medidas de segurança, imagino que os códigos
mudem regularmente.
– Provavelmente duas vezes por dia — disse Bink, levantando-se e avançando
para olhar mais de perto a imagem. Esse modelo específico permite um padrão
pré-estabelecido com alterações duas vezes ao dia.
– O que você quer dizer com "pré-estabelecido"? Kell perguntou.
– Quero dizer que, em vez de um computador em algum outro lugar da casa,
está selecionando um conjunto aleatório de números todos os dias, que tem que
ser enviado para o cofre ...
– Que teria que ser memorizado por Villachor - acrescentou Tavia.
– O que teria que ser memorizado por Villachor ... -Bink concordou ... ele
pode pré-codificar o cofre por semanas ou mesmo por um período de meses.
– Como você mantém tantos códigos memorizados? Dozer perguntou.
– Existem duas alternativas prováveis, disse Rachele. Em primeiro lugar, um
dos Zeds que está dentro, também pode salvar a seqüência e entregar o código
que estava em vigor naquele momento. Eu não vi isso acontecer, mas meu
ângulo de visão pode não ter sido o mais apropriado.
Parece arriscado, disse Kell. Especialmente porque os dróides provavelmente
serão aliviados regularmente para serem recarregados e reparados.
– E também porque transmitir a sequência para um andróide não é melhor do
que transmiti-lo diretamente ao teclado - acrescentou Tavia.
– Tudo bem, disse Rachele. A possibilidade mais provável é que a sequência
se refira a um padrão que Villachor já conhece. Fatos sobre a história de sua
família, os nomes de suas ex-namoradas, os anos das colheitas de vinho em seu
porão. Algo como isso.
– Então agora também temos que ler sua mente - disse Dozer, preocupado.
Ótimo
– Não sua mente," Winter corrigiu-o calmamente. Apenas sua história. E nós
temos um ponto conhecido a partir do qual podemos começar.
Dozer sacudiu a cabeça.
– Para mim ainda soa como acender um canhão com uma vela.
– Isso é verdade, mas é apenas um canyon único — disse Winter.
– E assim que conseguirmos decifrá-lo ... - continuou Rachele - ... parece que
tudo dentro do cofre tem um sensor que será ativado se for removido.
– Que significa isso? Eanjer perguntou.
– Isso significa que se tirarmos alguma coisa das paredes da mansão, isso fará
com que os alarmes sejam disparados por todo o Tesouro de Mármore - explicou
Zerba.
– Mais do que apenas alarmes - explicou Rachele. - Pelos velhos registros de
compras, parece que Villachor instalou uma cerca circular de varas em volta da
mansão. É como uma floresta de postes separados por poucos centímetros que
saem do solo quando acionados - acrescentou ela olhando para Eanjer. — Os
postes geralmente têm corrente suficiente para atordoar ou matar.
– Locais de alta segurança às vezes usam a cerca como última defesa contra
roubo - falou Bink. - É preciso um airspeeder para passar por cima dela, e
mesmo assim não dá para chegar muito perto, ou a corrente subirá até a pessoa e
fritará os repulsores.
– Dependendo da altura dessa cerca, pode ser que esprema a pessoa contra o
escudo abrangente a ponto de ela ficar efetivamente presa lá dentro - falou Tavia.
– Então definitivamente temos que desligar o sistema antes de agirmos -
concluiu Eanjer, concordando com a cabeça.
– O que provavelmente não conseguiremos - disse Rachele. - Esse tipo de
sistema geralmente inclui uma malha fina por todas as paredes, que emite um
campo eletrostático de baixo nível por todas as portas e janelas. É independente
e descentralizado, e a única maneira de desligá-lo é basicamente cortar a parede
mais ou menos 2 metros em volta da porta que se planeja usar. - Ela ponderou. -
Obviamente, depois disso creio que a pessoa de fato não precise mais da porta.
– Então o que precisamos é garantir que, quando o alarme for disparado,
ninguém esteja em condições de reagir — falou Dozer. — Talvez a gente
consiga atacar o lugar com gás.
Bink fez que não com a cabeça.
– Você jamais conseguirá entrar com tanto gás assim sem ser capturado.
– E, de qualquer forma, também não funcionaria nos dróides — acrescentou
Kell. Também precisaríamos de uma quantidade suficiente de detonite para
explodir uma seção da cerca e ter tempo suficiente para plantá-la.
– Então só temos que ter certeza de que todos estão ocupados demais para
responder? Lando perguntou, olhando para Han. Esse é o plano?
– Na maior parte — Han disse. Isso é tudo, Rachele?
Sim, disse Rachele. Ah, exceto que a sala que está diretamente acima do cofre
é a sala onde os guardas estão hospedados, onde os seguranças de Villachor
ficam quando não estão de serviço.
– Felizmente, a maioria deles estará de plantão durante os tributos —
assinalou Han. Obrigado, Rachele. Pelo menos agora sabemos o que estamos
enfrentando.
– Sim, tenho certeza que posso dormir melhor esta noite — rosnou Dozer.
– Fico feliz em ouvir isso — Han disse naquele tom inocente, não
completamente livre de todo sarcasmo, que lhe convinha tão bem. Isso é tudo
por esta noite. É melhor dormirmos um pouco, amanhã vai ser um dia agitado.
Levantando-se, ele se aproximou e sentou ao lado de Rachele, murmurando
alguma coisa e gesticulando em direção ao holograma. Os outros, seguindo a
indicação, levantaram-se e saíram.
Lando esperou até que todos saíssem.
– Posso te contar uma coisa? Ele perguntou.
– Claro — Han disse, ignorando a conversa particular.
– Quer que eu vá? Rachele perguntou.
– Não, eu apreciaria sua opinião, disse Lando. Bink disse há um tempo que
você ou Dozer teriam que tomar o meu lugar.
– Sim, ele fez — Han concordou. Você quer votar em um dos dois?
Lando assentiu.
– Eu voto em mim.
Rachele piscou. O rosto de Han se encolheu como se estivesse diante de um
jogo ilegível de sabacc.
– Você acabou de ser seqüestrado, ele lembrou Lando.
– E eu fui liberado — respondeu Lando. Eu faço parte de uma organização
que não pensa duas vezes antes de querer defecar altos funcionários do Sol
Negro, lembra? Um seqüestro não deve impedir meus movimentos.
Han se virou para Rachele.
– O que você acha?
– Ele tem um bom argumento — admitiu com relutância. Especialmente se
Bink estiver correto que o Villachor não está envolvido em tudo isso. Quem
estava por trás do seqüestro, também teve que lidar com a segurança do Tesouro
de Mármore, e agora eles têm que trabalhar com respeito à segurança da
organização Lando também. E como eles não conhecem o tamanho ou o alcance
desse grupo, eles terão que dar os passos com muito cuidado.
– Mas você certamente precisa de mais segurança. A voz de Eanjer veio do
fundo da sala.
Lando se virou, sentindo uma pontada de aborrecimento. Não era óbvio que
ele foi deixado para trás porque queria falar com Han sozinho?
Aparentemente não foi. Pelo menos não para Eanjer.
– Existe algo que podemos fazer por você? Han perguntou, sendo mais
educado do que Lando poderia ter sido.
– Eu estava pensando na segurança de quem quer voltar para a Fazenda de
Mármore — disse Eanjer, caminhando o resto do caminho até o quarto. Ele
parecia disposto a se sentar, mas olhou para a expressão de Lando e,
aparentemente, pensou melhor. - Me ocorreu que o depósito de armas que Winter
encontrou para vocês também pode ter algumas armas de raios menores que
poderíamos pegar.
– Não precisamos de mais armas de raios - garantiu Han. - Quem quer que
entre na mansão simplesmente levará Chewie junto.
Eanjer arregalou o único olho.
– Chewie?
– Claro, por que não? - disse Han. - Havia um monte de Wookiees lá nos
outros dois dias.
– Existe uma grande demanda por Wookiees como guarda- costas da elite da
Cidade de Iltarr - confirmou Rachele.
– Sim, mas... - Eanjer fechou bem a boca. - Veja bem, eu sei que você tem que
bancar o confiante na frente de - o olho se voltou para Lando - todos os demais.
Mas isso é loucura. Não é possível que você acredite que possamos invadir algo
assim discretamente. - Ele apontou com a cabeça para o holograma que flutuava
no alto.
– Você tem uma ideia melhor? - perguntou Han.
– Um ataque direto e frontal - disse Eanjer sem meias palavras. - Juntamos
mais amigos seus, atacamos o lugar enquanto a segurança está ocupada com as
Honrarias...
– Epa, epa - interrompeu Lando. Ele nunca tinha gostado realmente de Eanjer,
mas não sabia dizer exatamente por quê. Agora Lando sabia. O sujeito era um
idiota. — Quem você pensa que nós somos, a 501a Legião? Um ataque a
Marblewood seria um suicídio instantâneo.
– Claro que seria arriscado - contra-argumentou Eanjer. - Mas
lembre-se da recompensa ao final. É possível contratar muitos mercenários
por 163 milhões de créditos.
– Com créditos na mão, sim - reagiu Lando. - Créditos prometidos não são um
atrativo tão bom.
– Eu sei - falou Eanjer. Ele bufou. - Mas não vejo outra maneira de entrar.
– Eu também não - disse Han. - Para a nossa sorte, nós não precisamos.
– O que você quer dizer? - perguntou Rachele.
– Quero dizer que nós não precisamos entrar - repetiu Han pacientemente. -
Tudo que precisamos é que Villachor traga tudo para fora.
– O quê? - reclamou Eanjer franzindo o olho. - Ora, vamos. Villachor não vai
simplesmente trazer os créditos e arquivos para fora e entregá-los para você.
– Eu não disse que ele iria - falou Han. - Mas se Villachor achar que a caixa-
forte está ameaçada, ele terá um bom motivo para transferir tudo para um local
mais seguro. É aí que roubamos dele.
– Não - insistiu Eanjer. - Não podemos fazer dessa forma.
– Por que não?
O olho de Eanjer se voltou para Lando.
– Porque não vai funcionar - disse ele, falando como se estivesse explicando
alguma coisa para uma criança de cinco anos. — Villachor pode, pode transferir
os arquivos de chantagem se você o deixar suficientemente preocupado, mas não
é provável que ele se dê ao trabalho de transferir os créditos.
– Bem, então a gente simplesmente pega os arquivos — falou Han. - Achei
que tínhamos decidido que eles são mais valiosos no mercado aberto do que
algumas fichas de crédito, de qualquer forma.
– Não, sem um cryodex eles não farão - insistiu Eanjer-. Não, se nós vamos
tirar isso, nós realmente temos que entrar lá. Nós temos que fazer isso.
– Certo Sua opinião foi anotada.
Han olhou para Rachele e Lando.
– Alguém mais tem idéias que você deseja adicionar ao assunto?
Algo em seu tom de voz avisou Lando que a resposta correta era um "não".
– Talvez mais tarde, ele disse. Estou pensando que vou preparar um lanche
rápido, supondo que Dozer tenha deixado algo para o resto de nós e eu vou para
a cama.
– Eu também - disse Rachele, fechando o datapad e desligando o projetor
holográfico. Exceto pela parte do lanche. Boa noite a todos.
Lando quase esperava que Eanjer o seguisse até a cozinha e tentasse
argumentar outra coisa contra o novo plano de Han. Felizmente para Eanjer, ele
não o fez.
Lando e Eanjer desapareceram no corredor. Han esperou alguns segundos, só
para ter certeza, e então se virou para Rachele.
– Podemos estar prontos em dois dias?
– Não poderemos fazer isso, ele disse. Zerba ainda está trabalhando nos ternos
de seda que se rasgam, e Tavia e os outros têm apenas metade dos
decodificadores de que precisam.
– E ainda não temos como prová-los?
– Não, a menos que você queira experimentar um durante o Tributo à Água
em Movimento, depois de amanhã.
Han sacudiu a cabeça.
Muito arriscado. O que nós conseguimos provar, eles verão também.
– Sim. — Rachele observou a expressão dele. - O plano está começando a
desandar, não é?
– Não sei - admitiu Han. - Talvez um pouco. Eu nunca acreditei nessa história
toda que o amigo de Eanjer contou sobre Qazadi, pelo menos não na parte em
que ele era um dos principais agentes de Xizor. Mas se Qazadi realmente estiver
no comando agora, ele talvez ataque mais rápido do que a gente tinha
imaginado.
– Mas também pode forçar Villachor a agir — observou Rachele. - Eu sei que
toda essa oferta para mudar de lado só aconteceu para que a gente conseguisse
colocar o datacard de Tavia dentro da caixa-forte, mas se formos capazes de
realmente convencê-lo a desertar, nós podemos pegar os créditos e os arquivos
com muito menos trabalho.
– Sem chance - disse Han expressamente. - Não agora que um dos Falleens
entrou em cena. Quem quer que seja, ele demonstrou muito bem que pode
requisitar recursos do Sol Negro em Wukkar. Se o Falleen sequer suspeitar que
Villachor está pensando em pular fora do barco, é o fim de Villachor. Ele tem
que saber disso.
– Creio que sim — falou Rachele, ainda observando Han. — O que também
significa que não há jeito de você convencê-lo a transferir os arquivos para outro
lugar, porque essa atitude faria parecer que Villachor estaria fugindo com eles.
– Não, sem chance disso também - concordou Han.
– Então por que você contou para Eanjer que esse era o novo plano?
– Principalmente para ver a reação dele - respondeu Han ao se levantar. - Vou
para a cama. Não deixe Tavia dormir até tarde; temos apenas quatro dias até a
Honraria ao Fogo, e vamos precisar de todos os misturadores que conseguirmos.
– Vou garantir que ela e os demais acordem ao raiar do sol - prometeu
Rachele. - O que você vai fazer a respeito de Villachor? Ele espera encontrar o
chefe de Lando na Honraria à Água em Movimento depois de amanhã.
– Acho que vou ter que enrolá-lo - falou Han. - Podemos ver isso amanhã.
Ele foi na direção do corredor e do quarto.
– E você conseguiu? — perguntou Rachele.
– Consegui o quê?
– Conseguiu descobrir o que estava procurando com Eanjer?
Han fez uma careta.
– É, acho que sim. Apague as luzes ao ir dormir, ok?
CAPÍTULO

14

As preparações para a Honraria à Agua em Movimento estavam durando o dia


inteiro, e, pelo que Dozer conseguia observar ao espiar ocasionalmente pelas
janelas da suíte, parecia que ela seria tão espetacular quanto as duas Honrarias
anteriores.
Mas aquilo era assunto para o dia seguinte. Naquele momento, pelos próximos
minutos, a única coisa na mente de Dozer era o segurança de Marblewood
saindo cansado do landspeeder estacionado na frente da casa dele, em um bairro
de classe média da cidade.
Han garantira que o homem simplesmente não atiraria em Dozer ali mesmo.
Nem mesmo o Sol Negro lidava dessa maneira com pessoas que faziam coisas
estranhas, mas não ameaçadoras. Han prometera que o homem simplesmente
escutaria, pegaria o pacote e deixaria Dozer ir embora.
Han sempre era persuaviso, mas nem sempre estava certo.
Especialmente visto que eles não sabiam nada sobre o guarda, a
não ser que ele trabalhava no turno do início da manhã em Marblewood. Não
sabiam o nome, a história ou qualquer outra coisa sobre ele. Sequer sabiam o
endereço dele até Dozer o seguir até em casa.
Felizmente, com Rachele e seu computador disponíveis para rastrear o
endereço, eles agora também sabiam que o nome dele era Frewin Bromly.
Ele estava tentando tirar uma bolsa a tiracolo do banco de trás, e o cabelo
louro intenso estava sob a sombra do teto do airspeeder. Dozer surgiu pelas
costas do homem e pigarreou.
– Com licença?
Bromly era tão bom quanto era de se esperar de alguém que trabalhava para
Villachor. Ele largou a bolsa novamente sobre o banco de trás e girou num
movimento suave e gracioso que o deixou diante de Dozer com a mão ao alcance
rápido da arma de raios no coldre. Uma única olhadela igualmente graciosa
captou Dozer e toda a área ao redor dele.
– Sim? — perguntou Frewin em tom perfeitamente neutro.
– Serviço de Entregas Quickline — respondeu Dozer tocando na plaqueta. -
Tenho uma encomenda para Frewin Bromly. É o senhor?
– Sim — disse Frewin franzindo os olhos. — Eu não encomendei nada.
– Só o que eu sei é que fui contratado para trazer isto para o senhor - falou
Dozer ao erguer a pasta e abrir a tampa. - Aqui está. - Ele retirou um pequeno
embrulho e ofereceu o pacote.
Bromly não fez menção de pegá-lo.
– O que é isso?
– Como vou saber? — respondeu Dozer. Ele segurou o pacote por mais um
segundo, depois se agachou e deixou o embrulho na entrada da garagem da casa.
- Beleza. Se o senhor não quer, é só deixar aqui. Eu tenho um cronograma a
cumprir. Tenha uma noite tranquila.
Ele endireitou o corpo, acenou educadamente com a cabeça para Bromly,
depois se virou e começou a voltar pela entrada da garagem na direção de seu
landspeeder.
– Ei!
Dozer parou com a garganta contraída.
– Sim?
– Eu não quero essa encomenda - gritou Bromly. — Volte e pegue.
– Não posso fazer isso - disse Dozer. - Se o senhor não quiser, dê para alguém
ou jogue para os peixes. Faça o que bem entender.
Ele voltou a andar, e suas costas se tornaram uma massa de músculos tensos.
Mais cedo ou mais tarde, provavelmente antes de Dozer sumir de vista, a
curiosidade de Bromly levaria a melhor, e ele abriria o pacote.
E embora quinhentos créditos não pudessem ser considerados dinheiro caído
do céu, deveriam ser mais do que o suficiente para atrair muita atenção. Tanto de
Bromly quanto, com o tempo, de Sheqoa e Villachor.
Dozer meio que esperava que Bromly viesse correndo atrás dele até o
landspeeder. Mas, novamente, o homem tinha sido bem treinado. Ou Dozer era
um mensageiro inocente, e nesse caso confrontá-lo não daria em nada, ou então
fazia parte de um grupo profissional de suborno, e qualquer um que tentasse uma
coisa dessas tão abertamente para cima de um guarda do Sol Negro com certeza
teria sido inteligente de ter vindo com reforços.
Não, a melhor atitude de Bromly no momento seria levar o pacote para dentro
e imediatamente ligar para os superiores em Marblewood a fim de reportar o
incidente.
Ou ele podia simplesmente embolsar os créditos. Mas isso realmente seria
esperar demais.
Ainda assim, Dozer tinha outros dois guardas na lista para seguir até em casa
quando os turnos acabassem. Talvez um deles fosse suficientemente gentil e
aceitasse a propina.
Com sorte, nenhum deles seria descortês o bastante e lhe daria um tiro nas
costas.
Sheqoa nunca gostara do Festival das Quatro Honrarias. Mesmo quando era
criança, ele achava o evento longo demais, os locais muito cheios, a comida
esquisita demais, e os espetáculos se alternavam entre bombásticos e chatos.
Como adulto, Sheqoa aprendera a gostar de algumas das comidas, e ainda mais
de algumas das bebidas. Ainda assim, continuava achando os espetáculos longos
e previsíveis.
Como chefe de segurança de Marblewood, Sheqoa aprendera a odiar o evento
completamente.
Ele compreendia por que Villachor gostava de sediar uma das comemorações.
Aquilo elevava seu status no alto escalão de Wukkar, o que por sua vez atraía
mais moscas inocentes para as teias do Sol Negro. O Festival também
proporcionava uma fachada perfeita para reuniões clandestinas com aquelas
moscas que já estavam presas, bem como dava anonimato a possíveis novos
contratos com fornecedores de armas, contrabandistas e vendedores de
especiaria. Se o preço para todas aquelas reuniões fosse simplesmente o custo de
alimentar e entreter uma grande tração da população da Cidade de Iltarr, ele teria
considerado que eram créditos bem gastos.
Mas a comida e os fogos de artifício eram apenas o cume nevado da
montanha. Ter multidões de cidadãos da ralé perambulando pelas dependências
da mansão levava as forças de segurança de Sheqoa ao limite. Os distraídos ou
bêbados batiam em portas trancadas, tropeçavam na mobília, danificavam
droides- garçons e às vezes começavam brigas. Pelo menos uma vez por festival
seus homens tinham que expulsar um batedor de carteira ou dois e retirar itens
tanto valiosos quanto irrisórios de vários ladrões.
Era um esforço e um custo que Villachor nunca considerava. E era um custo
que, se Sheqoa fizesse seu serviço adequadamente, Villachor sequer deveria
notar.
A não ser naquele ano. Aquele ano estava sendo diferente, de uma maneira
ruim e sombria.
O misterioso vendedor de brilhestim. O sujeito do cryodex. O incidente com a
bomba de luz do lado de fora da suíte de Aziel no Hotel Lulina Crown. O
tiroteio ainda não explicado no semiabandonado Complexo Industrial Golavere,
que podia ou não ter algo a ver com um dos outros três.
E então, bem no início da tarde, as tentativas bizarras de subornar três de seus
homens.
Era culpa de Qazadi, obviamente. Sheqoa não tinha dúvidas quanto a isso. Era
basicamente irrelevante se o Falleen e seu séquito tinham feito alguma coisa
diretamente para causar todo aquele caos ou se a mera presença deles tinha
provocado aquilo. De uma forma ou de outra, Qazadi ainda era o foco.

E assim, como fizera na maioria das noites anteriores, Sheqoa adormecera


com pensamentos hostis sobre Qazadi e seu povo flutuando em sua mente.
O que, supôs fracamente, tornou lógico e apropriado que o rosto de Qazadi
fosse a primeira coisa que viu, quando foi violentamente sacudido para arrancá-
lo daquele mesmo sono profundo.
– Você vai ficar em silêncio — Qazadi disse, sua voz suave e ainda
completamente viscosa, enquanto a mão de Sheqoa tentava, reflexivamente,
pegar o blaster que estava sob o travesseiro. Um esforço inútil; seus braços já
estavam firmemente seguros contra a cama. Eu vou te fazer algumas perguntas.
Você vai respondê-las. Ou você vai morrer Você entendeu?
Sheqoa assentiu, com um movimento quase imperceptível de sua cabeça, que
era tudo que podia fazer enquanto uma das mãos do outro agarrava seus cabelos
e, com a outra, segurava uma faca contra sua garganta.
Bem, disse Qazadi-. Conte-me sobre os dois homens que vieram ver o maestro
Villachor ontem em seu cofre.
– Ele não... — Sheqoa se interrompeu, lutando para deixar sua boca úmida e
segurando uma luta ainda mais difícil para evitar que sua voz tremesse de medo.
Uma pequena parte dele reconheceu que seu terror não era real, que estava sendo
liberado pelos feromônios das falleen. Mas esse conhecimento não ajudou muito.
Ele não os deixou entrar no cofre, ele os compôs para respondê-lo. Ele os
manteve apenas na antessala.
– O que eles estavam fazendo lá?
Sheqoa engoliu em seco e sentiu uma nódoa desagradável na lâmina da faca
na garganta, enquanto se perguntava rapidamente o que poderia dizer. Villachor
era seu superior e Villachor ordenara a ele e aos outros que não dissesse nada
sobre tal visita.
Mas eu não tive escolha. Uma mentira, ou mesmo uma meia verdade, e seu
próprio sangue emanando de seu pescoço, seria a última coisa que ele veria.
– Os visitantes disseram que tinham um cryodex — ele engasgou.
Algo na expressão de Qazadi se transformou.
– E eles tinham isso?
– Sim — disse Sheqoa. O Mestre Villachor lhes dissera que tinham que trazê-
lo para ele, para que ele pudesse experimentá-lo e ver se realmente funcionava.
– Tente, como?
Mais uma vez, Sheqoa teve dificuldade em decidir entre sua consciência e
suas ordens. Mas as ordens eram uma coisa. A morte era algo mais permanente.
– Ele extraiu um cartão de dados do cofre — admitiu com relutância. Ele
queria verificar se seu cryodex poderia decifrá-lo.
Os olhos de Qazadi brilharam de raiva e Sheqoa se preparou para a morte.
Mas a lâmina contra sua garganta permaneceu imóvel.
– E ele poderia fazer isso?
– Sim — disse Sheqoa. Eles decifraram o arquivo de um homem chamado
Morg Nar em Bespin. Supostamente, ele estava tentando expulsar o povo de
Jabba, mas secretamente ele estava trabalhando para ele.
– Suponho que você tenha verificado.
Sheqoa estava começando a concordar, quando se lembrou da faca.
Sim
Qazadi olhou brevemente para alguém que estava fora do campo de visão de
Sheqoa e depois olhou para ele.
Diga-me sobre Dorston, Bromly, Uzior e Tallboy.
Sheqoa franziu a testa, tentando desesperadamente imaginar o que os quatro
guardas em particular poderiam ter em comum. Mas ele não conseguia pensar
em nada.
– Bem, os três primeiros receberam subornos que foram entregues a eles esta
tarde — disse ele, tentando ganhar tempo. Mas Tallboy não ... "Ele parou quando
de repente ele entendeu. Ele também foi subornado?
– Possivelmente — disse Qazadi-. Tudo o que sei é que o primeiro suborno foi
enviado para ele.
– Eu não entendo — disse Sheqoa. Ele nunca me informou sobre isso.
– Porque ele nunca soube de nada — disse Qazadi. Pelo menos, não sobre
esse suborno em particular. Sem que ele soubesse, Lorde Aziel se apropriara de
seu nome para usar em suas várias operações no Hotel Corona de Lulina. No
incidente de seis dias atrás, quando a pequena bomba foi lançada em sua suíte,
um mensageiro também estava envolvido na entrega do que parecia ser um
suborno para esse nome.
Sheqoa sentiu os olhos se estreitarem enquanto alguns dos aspectos mais
estranhos daquele evento de repente se tornavam evidentes.
– É por isso que ele fez a investigação parar — disse ele. Você não queria que
a parte do suborno aparecesse no evento em que Tallboy estava realmente
envolvido em parte disso.
– Certo — disse Qazadi, com uma ponta de ameaça implícita em sua voz. E
eu ainda não quero que venha à luz.
– Eu entendo — disse Sheqoa.
Os olhos de Qazadi se estreitaram quando ele olhou brevemente para o outro
lado.
– Mas o próprio Tallboy não tem importância especial — disse ele. A questão
mais importante não é qual dos seus guardas recebeu um suborno e o denunciou,
mas quantos deles receberam propinas e não informaram sobre isso.
– Meus homens são leais, Excelência — disse Sheqoa, mais uma vez lutando
contra o tremor em sua voz. Eu já sabia o que estava acontecendo com as
pessoas do Sol NEgro que traiu sua lealdade.
– Tenho certeza de que estão — concordou Qazadi. Mas eles são leais ao
maestro Villachor, ou são leais ao Sol Negro?
Sheqoa engoliu em seco novamente.
– Sem dúvida, ambas as lealdades são a mesma coisa — disse ele com a maior
firmeza possível.
– Talvez — disse Qazadi-. Talvez não. Agora que o Mestre Villachor
confirmou que o cryodex de estranhos é, de fato, verdade, quais são seus planos
para o dispositivo e para eles?
Finalmente, algum terreno relativamente seguro.
– Ele está deixando que eles realizem seus propósitos, esperando saber para
quem estão trabalhando — disse Sheqoa. Se você não consegue descobrir como
destruí-los, pelo menos você será capaz de obter um cryodex de reposição para o
príncipe Xizor.
– Um objetivo nobre — disse Qazadi-. No entanto, ontem ele tinha o cryodex
à sua disposição em uma mansão cheia de homens armados. Por que você não
levou então?
Sheqoa engoliu em seco novamente antes de lembrar que não deveria.
– O cryodex e seu contêiner tinham uma armadilha — disse ele. Detonite Ele
sentiu os olhos se arregalarem quando outra peça do quebra-cabeça começou a
se encaixar. Que atirando no Complexo Golavere. Você conseguiu abrir o
contêiner?
– Não — disse Qazadi, e o pulsante coração de Sheqoa começou a recuperar
seu ritmo até certo ponto, enquanto o outro olhava para o espaço. Eu pedi os
serviços de dois dos policiais locais para que pudessem interceptar os visitantes
do mestre Villachor, a fim de interrogá-los. Quando ouvi sobre o detonite, pedi
que trouxessem Master Dempsey também.
Então era ali que o especialista em explosivos de Villachor havia desaparecido
e por que ficara tão nervoso e agitado quando retornou ao laboratório na ala
norte algumas horas depois.
– Só que eles interferiram com os amigos deles?
– Pela primeira e última vez - disse Qazadi com a voz cheia de ameaça. - A
única questão pendente é se eles vão morrer rápida ou lentamente. - Ele inclinou
a cabeça para o lado. - Tem mais alguma coisa que queira me contar? Outros,
talvez, que possam estar envolvidos nessa conspiração contra o Sol Negro?
– Há uma garota - falou Sheqoa. - Uma humana. Jovem, cabelos pretos,
muito... bem, atraente para olhos humanos.
– E você acha que ela não seria atraente para olhos não humanos?
– Eu... não sei - respondeu Sheqoa, correndo para mudar de assunto. - Ela
grudou em mim, provavelmente na esperança de que a levasse para o interior da
mansão. O nome é Katrin, mas sem dúvida é um pseudónimo.
– E você acredita que ela esteja com o vendedor do cryodex?
– Não sei - disse Sheqoa. - Ela pode simplesmente ser uma ladra normal
querendo roubar a mansão. Recebemos gente assim todo Festival.
– Você ficará de olho nela. - Um breve sorriso surgiu nos lábios de Qazadi. -
Você cuidará disso pessoalmente.
– É claro - confirmou Sheqoa. - Talvez a gente devesse...
Ele se interrompeu assim que a faca subitamente fez mais pressão contra a
garganta.
– Silêncio, a não ser quando lhe fizer uma pergunta - salientou Qazadi com
frieza.
Ele olhou por cima de Sheqoa novamente e fez um gesto com a cabeça dando
uma ordem velada. Houve o som de movimento vindo daquela direção, vários
pés se arrastando.
E de rabo de olho, Sheqoa viu Villachor surgir no campo de visão, com um
Falleen armado de cada lado.
– Parabéns, mestre Villachor - disse Qazadi em tom irónico de cortesia. -
Como você disse, seu pessoal é de fato leal.
– Assim como eu - respondeu Villachor com a mesma cortesia ferina. Sua
pose era rígida e desafiadora, mas Sheqoa notou uma camada de suor no rosto. -
E o senhor ouviu, novamente, que meu objetivo é e sempre foi descobrir quem
são esses Kwerve e Bib e para quem trabalham. Nada mais.
– Talvez - falou Qazadi com o tom ainda cortês. - Ainda assim, a tentação de
pegar os arquivos de chantagem para si deve ser praticamente avassaladora.
Especialmente quando os arquivos são atualmente acessíveis apenas a você.
Sheqoa pigarreou baixinho.
– Eu acredito que o mestre Sheqoa estava prestes a fazer uma sugestão - disse
Villachor. - Eu gostaria de ouvi-la.
Qazadi ponderou, depois abaixou o olhar para Sheqoa.
– Fale - pediu ele.
A faca aliviou um pouquinho.
– Eu ia sugerir que, se Kwerve e Bib estão tentando roubar os arquivos, talvez
nós devêssemos simplesmente mudá-los de lugar - disse Sheqoa. - Até agora,
todas as atividades deles ocorreram sob a proteção das multidões nas Honrarias.
Se transferirmos os arquivos hoje à noite, quando ninguém estiver olhando,
quaisquer esforços futuros que eles fizerem serão contra uma caixa-forte vazia.
– Você tem uma sugestão de para onde os arquivos devem ir? - perguntou
Qazadi.
– Sua nave foi bastante segura para protegê-los na jornada até aqui - observou
Sheqoa. - Também há a casa de campo do mestre Villachor na província de
Baccha. O cofre de lá não é tão seguro quanto a caixa-forte de Marblewood, mas
os ladrões jamais pensariam em procurar pelos arquivos lá.
– Como você sabe? - contra-argumentou Qazadi. - Como sabe que uma
transferência dessas não é exatamente o que eles estão esperando? Como sabe
que eles já não têm gente de prontidão em Baccha e no espaçoporto da Cidade
de Iltarr, esperando que nós entreguemos os arquivos diretamente nas mãos
deles? Como sabe que eles não têm gente esperando do lado de fora da muralha
de Marblewood neste exato momento, de olho nos airspeeders ou landspeeders
que levariam os arquivos embora?
– Eu... - Sheqoa deu um olhar desamparado para Villachor.
Mas Villachor não estava olhando para ele. Villachor estava olhando para
Qazadi. Pensando, calculando, talvez tramando. Procurando por uma maneira de
voltar às boas graças com o Falleen.
Tentando se salvar.
– Seu argumento é bom e válido, Vossa Excelência - falou Villachor. - Até
sabermos o tamanho do alcance de nossos inimigos, não podemos partir de
pressupostos.
– Ao contrário - disse Qazadi. - Certamente podemos partir de dois
pressupostos. Primeiro, eles lhe ofereceram um cryodex funcional. Portanto,
esperam conquistá-lo para trair o Sol Negro.
– O que não vai acontecer - falou Villachor com firmeza.
– Esperamos que não — disse Qazadi em tom ameaçador, e mais uma vez
Sheqoa sentiu o coração acelerar brevemente. - Segundo, nós sabemos que eles
estão tentando subverter sua segurança. - Ele abaixou o olhar para Sheqoa. - E
isso pode ter acontecido.
Nunca, Sheqoa quis dizer, mas permaneceu em silêncio. Um aviso sobre
comentários não solicitados provavelmente era o máximo que ele receberia.
– Uma vez que não podemos mais confiar em seus homens - continuou
Qazadi -, você vai imediatamente retirar todos os guardas humanos da caixa-
forte. De agora em diante, apenas os droides 501-Z serão postados naquela área.
Sheqoa sentiu um nó na garganta. Aquela era uma ideia horrível. Todo o
objetivo de misturar droides com humanos era que possíveis intrusos não
saberiam o que estariam enfrentando num dado momento.
A SoroSuub alegava que os Zs eram impossíveis de quebrar ou desprogramar.
Mas nada no universo era realmente impossível. Se o pessoal de Kwerve
descobrisse que a caixa-forte era guardada apenas por droides, eles poderiam
descobrir uma fraqueza fatal no mecanismo ou na programação e explorá-la.
Pela expressão no rosto de Villachor, ficou claro que ele pensava a mesma
coisa. Mas também ficou claro que ele não tinha a menor intenção de discutir.
– Como queira - disse Villachor. - Darei a ordem imediatamente.
– Ótimo - falou Qazadi. - Os guardas podem ser transferidos para a segurança
do Festival. Talvez alguns olhos a mais permitam uma visão melhor daqueles
que procuram nos roubar. Você disse imediatamente, não foi, mestre Villachor?
O lábio de Villachor tremeu quando ele puxou o comlink e deu a ordem de
troca de guarda para o agente do turno noturno.
– Mais alguma coisa, Vossa Excelência? - perguntou Villachor ao recolocar o
comlink no coldre.
– Não, por enquanto — respondeu Qazadi, que abaixou o olhar
para Sheqoa e depois voltou a encarar Villachor. - A Honraria à
Água em Movimento começa em oito horas. Vocês dois devem descansar.
Ele deu meia-volta e saiu a passos largos do campo de visão de Sheqoa,
seguido pelos Falleens que flanqueavam Villachor. Alguns segundos depois, a
faca na garganta de Sheqoa e as mãos que seguravam seus braços e cabelo
também desapareceram. Houve o som de uma porta se abrindo e depois se
fechando.
E Sheqoa e Villachor ficaram sozinhos.
Sheqoa ergueu o olhar para o chefe e tentou pensar em algo para dizer. Se
Villachor considerasse as confissões de Sheqoa para Qazadi como uma traição,
ele estava morto.
Mas as palavras não saíram. E mesmo com a ausência de Qazadi e dos truques
causados pelos feromônios do Falleen, o pulso de Sheqoa continuava disparado.
Porque, lá no fundo, ele sabia que as declarações para Qazadi foram uma
traição.
Finalmente Villachor se mexeu. Sheqoa se preparou para o pior.
– Ele está certo quanto à Honraria - disse Villachor calmamente. - Volte a
dormir. Eu vejo você pela manhã.
Sem outra palavra, ele foi embora.
Sheqoa respirou fundo enquanto encarava a porta fechada. Ele sabia que algo
importante havia acontecido. Villachor chegara a uma decisão.
Só que Sheqoa não fazia ideia de que decisão era aquela.
Ele lentamente rolou de lado. Como se realmente fosse conseguir dormir
agora.
CAPÍTULO

15

Já disseram que há apenas três certezas na vida: a morte, os impostos e a


bebida ruim. Mas, ao cruzar as dependências de Marblewood, Lando decidiu que
poderia adicionar uma quarta certeza à lista. Quando se anda com um Wookiee,
as pessoas saem do caminho.
Obviamente, os mais de 2 metros de altura de Cbewie também tornavam os
dois mais fáceis de serem avistados pelos seguranças de Villachor enquanto
passavam pela multidão. Por outro lado, era essa a ideia.
Chewie grunhiu.
– Sim, eu os vi - disse Lando fazendo uma careta.
Ele esperava que toda a segurança de Marblewood estivesse na cola deles
hoje. Só não esperava ser vigiado também por um par de Falleens.
E especialmente não esperava que um daqueles Falleens fosse o pretenso
interrogador do incidente na fábrica duas noites atrás.
Chewie grunhiu de novo.
– Não se preocupe, não vão tentar nada - garantiu Lando. - Não aqui.
Chewie soltou um comentário não muito confiante.
– Claro que devem estar furiosos - concordou Lando. - Mas eles querem nos
interrogar, não nos matar. Pelo menos não de imediato.
Ou assim ele esperava. A lógica certamente fazia sentido, e a maioria das
pessoas que Lando havia encarado nas mesas de sabacc com o passar dos anos
seguia aquele mesmo raciocínio.
Mas havia espécies por aí que não hesitariam em abrir mão de lucro e
interesses por uma vingança imediata. Os Hutts tendiam a agir assim. Talvez os
Falleens tendessem também.
Ainda assim, eles estavam nas dependências de Villachor, e no meio de um de
seus atos favoritos de autopromoção. Certamente Villachor manteria os Falleens
na linha.
O que não queria dizer que ele e Chewie devessem abusar da sorte.
– Ali - disse Lando apontando para longe dos Falleens parados no local. -
Aquela cascata suspensa parece interessante. Vamos até lá para ver melhor.
Chewie rosnou.

– Certo - confirmou Lando com um sorriso contido. - Parece que há um lugar


bem ao lado daqueles dois outros Wookiees.
– Tenho que dizer - comentou Bink ao erguer os olhos para o rosto de Sheqoa
- que você realmente parece cansado.
– Obrigado — disse ele sarcasticamente. — Você está linda também.
– Você é muito gentil - falou Bink com um sorriso alegre. Ela deixou o sorriso
se transformar em uma expressão de preocupação.
– Mas estou falando sério. Acho que as pessoas não têm noção de como uma
coisa dessas é difícil para quem organiza o espetáculo. Há quanto tempo você
não tem uma noite de sono de verdade?
– Faz tempo - admitiu ele. - Como você disse, é uma correria durante o
Festival.
– Bem, você precisa arrumar tempo - disse ela em tom firme enquanto erguia
a mão para pegar o braço direito de Sheqoa. - Se não descansar...
Bink se interrompeu quanto ele torceu o braço para se soltar, ao mesmo tempo
que empurrava a mão dela com a mão esquerda.
– Mão da arma - falou Sheqoa abruptamente. - Jamais faça isso.
– Mil desculpas - disse Bink fazendo a melhor careta de vergonha possível. -
Olha só, eu notei que você não está no clima de simplesmente relaxar e se
divertir. Talvez seja melhor eu ir embora e deixá-lo se concentrar no trabalho.
– Não, tudo bem - falou Sheqoa correndo quando ela começou a recuar. - Só
estou um pouco nervoso agora de manhã, apenas isso. - Ele pegou a mão de
Bink e gentilmente a fez dar a volta para o lado esquerdo. - Venha, vamos ver se
já estão servindo ambrósia cozida.
– Tudo bem - disse Bink, passando a mão de maneira possessiva pelo braço
esquerdo de Sheqoa. Desta vez, ele não a afastou. - Mas só se você prometer
relaxar e comer uma comigo.
– Uma pequena, apenas - falou Sheqoa.
Eles deram dois passos antes de ele mudar de direção subitamente.
– Pensando melhor, deixe-me mostrar uma outra coisa para você primeiro -
disse Sheqoa passando pela multidão. - A cascata suspensa é um dos destaques
da Honraria, e está prestes a começar o espetáculo dos próximos quinze minutos.
Vamos assistir e depois comer a ambrósia.
– Parece interessante - falou Bink com um pequeno alerta ligado no cérebro;
Sheqoa estava armando alguma coisa.
Novas ordens pelo comlink de colarinho? — Provavelmente. Bink mudou a
pegada no braço dele e se aninhou um pouco mais perto. Se o alto-falante do
comlink não estivesse ajustado corretamente, ela talvez conseguisse chegar perto
o suficiente para ouvir o que estava acontecendo.
Infelizmente, os técnicos de Villachor não eram tão descuidados assim. Mas
assim que Bink retornou à posição casualmente, um cheiro estranho lhe tocou as
narinas. Não era o suficiente para ela o identificar, mas sim para informar que ela
já havia sentido aquele odor antes. E isso era algo significativo.
Seria arriscado se aproximar tanto assim novamente, tão rápido. Mas Bink
tinha tempo. O cheiro estava em Sheqoa, e Sheqoa claramente havia recebido
ordens para mantê-la por perto. Haveria oportunidades mais tarde para pesquisar
o cheiro. O mais importante no momento era compreender aquela súbita
mudança no cronograma dele.
E então, logo adiante, um par de Kubazes abriu caminho e proporcionou um
vislumbre momentâneo da cascata suspensa que Sheqoa havia mencionado.
Da cascata e da grande silhueta peluda de Chewbacca, mais alto do que a
multidão.
Aparentemente, quem quer que estivesse vigiando Lando decidira que seria
divertido jogar Bink para cima dele e ver se os dois se conheciam.
Bink balançou a cabeça mentalmente. De todo mundo no grupo de Han, ela e
Lando provavelmente eram os menos propensos a demonstrar qualquer uma das
reações que Sheqoa esperava.
Ainda assim, ele merecia pontos pelo esforço. Enquanto fazia carinho no
braço de Sheqoa e tagarelava da maneira leve e despreocupada que sabia que era
o que ele esperava dela, Bink concentrou a mente na tarefa logo adiante.

– ... ali na cascata suspensa - dizia Villachor no comlink no momento em que


Han se aproximava o bastante para escutá-lo. - Leve a garota para lá, jogue-a
para cima dele, e veja se eles se reconhecem.
Han sentiu um nó na garganta. Ele já sabia de antemão que Villachor
aumentaria a pressão naquele dia. Se ele não aumentasse, então Qazadi ou Aziel
certamente aumentariam. Tentar compreender qual era a conexão entre os vários
recém-chegados às vidas deles era o primeiro passo evidente.
Ainda assim, jogar uma ladra-fantasma para cima de um apostador
profissional provavelmente seria uma completa perda de tempo. Tanto Bink
quanto Lando eram mais do que capazes de controlar seus comportamentos e
expressões.
Então era a vez de Han.
Ele ajeitou os ombros. Ele conseguiria. Havia encarado Jabba, o Hutt, o
comandante imperial Nyklas, o sádico, e um monte de outros capangas e
bandidos. Villachor era apenas o mais recente em uma longa fila. Mais alguns
simpatizantes se aproximaram de Villachor e agradeceram pelo espetáculo sob o
olhar atento dos dois guarda-costas. Han esperou até que fossem embora e foi até
ele.
– Belo espetáculo, mestre Villachor - falou ele.
– Obrigado - respondeu Villachor olhando Han de cima a baixo rapidamente. -
Fico contente de que esteja gostando.
– Eu soube que o senhor tem uma bela coleção de airspeeders e landspeeders -
continuou Han apontando para a garagem na extremidade norte da mansão. -
Alguma chance de trazê-los para fora e exibi-los para nós?
– Não, acho que não - falou Villachor com o mesmo sorriso forçado que dava
para todos os outros. - Não até que uma Honraria aos Veículos em Movimento
seja adicionada ao Festival.
– Creio que não - disse Han, que se aproximou um passo e abaixou o tom de
voz. - E quanto aos arquivos de chantagem? — O senhor vai trazê-los para fora?
O sorriso de Villachor desapareceu, e ambos os guarda-costas levaram as
mãos às armas de raios escondidas.
– Como é que é? - falou Villachor baixinho.
– Calma - tranquilizou Han. - Só vim aqui para conversar.
– Então fale depressa - rosnou Villachor, sibilando a última palavra. - Você
trouxe o item?
– Não, e não vou trazer - disse Han. - Não depois do que aconteceu há duas
noites.
– Aquilo não foi coisa minha - insistiu Villachor. Ele estava começando a se
recuperar, e Han notou que os pequenos chips de computador na mente de
Villachor começavam a girar novamente.
– Você é o chefe que Kwerve prometeu trazer até mim?
– Não, e você também não vai vê-lo - falou Han. - Se não foiplanejado por
você, quem fez isso?
– Um colega mal orientado — disse Villachor. Alguém que sentiu que
precisávamos saber mais sobre você antes de nossas discussões continuou. Se
você não trouxe o artefato, e não vamos discutir os termos do acordo, então por
que você está aqui?
– Na maior parte, como cortesia — disse Han. Eu queria avisá-lo que outro
jogador invadiu o jogo.
– O que quer dizer?
– Você sabe o que eu quero dizer — disse Han. Alguém anda por aí
subornando seus guardas.
O rosto de Villachor mudou, mas apenas o suficiente para mostrar que os
guardas, de fato, o haviam informado sobre as visitas de serviço de Dozer.
– Tentando suborná-los — Villachor o corrigiu. Todos os homens que foram
abordados entregaram os créditos.
– Tem certeza disso? — Han respondeu. Porque, para os números que eu ouvi
mencionados, pelo menos cinco deles receberam os pacotes e mantiveram suas
bocas fechadas.
De repente, o cano de um dinamitador perfurou as costelas de Han.
Quem? — Villachor Exigido. Me dê seus nomes
– Eu não tenho seus nomes — Han rosnou, observando o guarda pressionar o
blaster em seu lado. Eu já te disse, tem mais alguém fazendo isso.
– Uma garota, talvez? — Villachor sugerido. De cabelo preto, altura mediana?
– Eu... eu não... eu... sei — Han disse, cuspindo cada palavra. Nós não
sabemos quem eles são.
– Ou talvez seja você? — O guarda rosnou.
– Use sua cabeça — Han rosnou em resposta. Nosso grupo está tentando
realizar um recrutamento agradável, silencioso e civilizado. Por que teríamos
que arriscar os créditos em funcionários que não têm a menor importância? —
Ele ergueu as sobrancelhas. Sem ofensa.
– Ele não — disse Villachor. Remova essa coisa, Tawb.
Relutantemente, o guarda devolveu o explosivo ao seu esconderijo.
– Chega de conversas inconseqüentes — continuou Villachor. Aqui está o
tema subjacente. Antes de tomar qualquer decisão, devo encontrar alguém que
tenha autoridade suficiente para me oferecer um acordo. E eu quero ver o
cryodex trabalhando mais uma vez.
– Nós já fizemos uma demonstração — Han lembrou a ele. O que você
decodificou não foi bom o suficiente para você?
– Oh, o que ele decodificou foi muito bom — garantiu-lhe Villachor. As
investigações que enviei a Bespin me confirmaram que essa pessoa, Morg Nar,
que seu homem havia identificado, está, na verdade, trabalhando para o Hutt.
Han sentiu o estômago apertar. Se ele soubesse alguma coisa sobre o modo
como o Sol Negro fazia as coisas, a única investigação seria arruinar a cobertura
de Nar, jogando-a diretamente através da eclusa de ar. Jabba não ficaria muito
feliz com isso.
E quando Jabba não estava feliz, todo mundo que estava ligado a ele pagou o
preço. Quanto mais depressa recebessem os cartões de crédito de Eanjer, e Han
pudesse pagar suas dívidas, melhor.
– Porque o que poderia ser atingido uma vez, poderia ser atribuído à sorte -
disse Villachor-. Uma segunda amostra faria a coisa mais definitiva.
– Nós enviaremos seu pedido ao chefe — disse Han. E antes que você me
pergunte, sim, ele já está aqui em Wukkar.
– Então, qual é o motivo do atraso?
Han o olhou diretamente nos olhos.
– Está aguardando a confirmação de que quem quer que tenha seqüestrado
Kwerve e Bib já está sob controle.
– Eu posso garantir que não haverá repetição desse incidente.
– Sem ofensa, Mestre Villachor, mas ele não está esperando por sua
confirmação — disse Han. Ele está esperando por nossa confirmação. Não se
preocupe, já estamos trabalhando nisso.
– Eu vejo — disse Villachor, sutilmente mudando o tom de sua voz. Alguma
idéia de quando ele considerará que é o momento certo para uma reunião nesse
nível?
– Logo — Han prometeu. Eu continuo esperando que eu possa trazê-lo daqui
a dois dias, durante o Tributo ao Fogo em Movimento.
– E se ele não puder?
– Nós vamos — assegurou Han. Se isso não funcionar ...
– Desculpe-me por um momento — murmurou Villachor, seus olhos
brilhando em algum lugar sobre o ombro de Han quando ele puxou o seu link.
Sheqoa? Qualquer coisa? ...Não importa. Fui informado de que um homem, cuja
descrição poderia corresponder à do misterioso mensageiro de ontem, está em
nossos campos... Sim, assim mesmo. Acho que você deveria levar seu
amiguinho para lá e ver se seria bom para eles se cumprimentarem. Ele ouviu
por um momento, depois cortou o comlink e se virou para Han. Sinto muito. Eu
estava dizendo?
– Eu disse que, se não podemos proteger a área para a final do Festival, deve
ser capaz de marcar uma reunião para um ou dois dias depois, Han disse,
mantendo a voz calma e expressão despreocupada. Então, o pessoal da
segurança tinha visto Dozer, ou pelo menos eles pensavam que eles tinham visto,
e Villachor enviara Sheqoa e Bink naquela direção para confrontá-lo. O
problema era que, embora Han confiasse que Bink e Lando dariam conta do jogo
de despistar o reconhecimento, ele não tinha tanta certeza de que Dozer seria
capaz de fazer isso sem dar alguma das pistas que Sheqoa estaria procurando.
Mas não havia nada que Han pudesse fazer. Villachor estava observando, e se
ele fizesse a menor menção de alertar Dozer ou interromper a conversa, o outro
perceberia.
Na verdade, aquele provavelmente era o motivo de ele ter feito a ligação na
presença de Han antes de mais nada. Qualquer reação, e eles teriam a ligação
entre ele e Dozer de que Villachor obviamente suspeitava.
Han não podia fazer nada.
Felizmente, ele não tinha que fazer nada.
– Mas se você tiver um momento - continuou Han com fala mansa -, eu tenho
outra ideia que meu chefe queria que eu lhe sugerisse.
– Certamente - falou Villachor. - Venha. Vamos caminhar.

– Epa - disse Winter baixinho.


Ela pensou ter falado em volume baixo o suficiente para não ser ouvida, mas
os ouvidos de Rachele eram obviamente melhores do que a média. Do outro lado
da sala, montada em cima de um aparador baixo, a outra conseguiu ouvir a
palavra murmurada.
– Problemas? - perguntou Rachele.
– Nada grave — garantiu Winter enquanto mudava um pouco a pegada nos
eletrobinóculos para puxar o comlink. - Parece que a tentativa de Sheqoa de
fazer Lando e Bink reagirem um ao outro não deu em nada. Então ele vai tentar
novamente com Bink e Dozer.
– Com Dozer? - falou Rachele parecendo preocupada. - E você disse que não
era nada grave?
– Fique parada - disse Zerba com irritação. - Você vai abrir as costuras do
braço de novo.
– Eu só estava tentando...
– Tudo bem - tranquilizou Winter enquanto ligava para Kell no comlink.
Dozer estava sendo observado, o que significava que ela não poderia ligar
para alertá-lo sem que a coincidência parecesse suspeita. Mas Kell não estava
sendo vigiado.
– Kell, você precisa tirar Dozer daí - disse Winter quando ele atendeu. - Pode
fazer isso sem alertar os coleguinhas da segurança?
– Claro - respondeu Kell. - Você quer que ele vá embora de vez ou apenas
fique em outro lugar qualquer das dependências?
– Melhor que vá de vez — falou Winter.
Dozer queria dar outra olhada no esquema de segurança de Marblewood, mas
com Sheqoa à espreita, seria mais seguro simplesmente cancelar a operação.
– Tem certeza? - perguntou Kell. - Ele poderia brincar de esconde-esconde por
um bom tempo sem que Sheqoa jamais o alcançasse.
– Para fora e agora - falou Winter com irritação enquanto imagens de todos os
agentes rebeldes que haviam abusado demais da sorte passavam pela memória.
– Ok, ok - disse Kell na defensiva. - Não precisa berrar. Você quer que eu saia
também?
– Apenas se você for visto — respondeu Winter fazendo cara feia para si
mesma. Ela não deveria deixar que as memórias levassem a melhor.
Especialmente não com Kell, que passava pela mesma agonia de perda que ela.
Sinto muito.
– Está tudo bem — disse ele. Não se preocupe, vou tirá-lo.
– Não seja muito duro com ele — disse Rachele no momento em que Winter
manteve o link. Ele ainda é jovem. Os jovens sempre acham que os dados estão
do lado deles.
– Razão mais do que suficiente para ser duro com ele — Winter respondeu,
concentrando os eletrobinóculos em Dozer novamente. Eu quero que ele seja
capaz de viver o suficiente para amadurecer e sair dessa fase.
– Ou tempo suficiente para eu aprender como fazer os dados funcionarem para
você — disse Zerba. Como você vê
O primeiro impulso do inverno foi para lembrá-lo de que ele tinha trabalho a
fazer, que ele não estava exatamente vagando por aqui, que deveria vigiar a
janela. Mas Kell tinha sido alertado com tempo suficiente, Bink tinha sob o
controle razoável de Sheqoa, e Lando, Chewbacca e Han, todos eles pareciam
estar fazendo o seu trabalho bem o suficiente. Eles provavelmente poderiam
fazer sem dar uma olhada na obra-prima de Zerba.
Bem, valeu a pena. A última vez que Winter tinha visto o traje, tinha sido feito
principalmente de uma pilha de delicados pedaços de seda vermelha. Agora,
duas horas depois, Zerba tinha transformado as peças em um vestido vermelho
completamente formal e elegante, que poderia ter atraído a atenção até mesmo
em uma das recepções formais da Rainha Breha.
Na verdade, exceto por uma linha mais profunda na cintura, um pescoço mais
alto e um tom ligeiramente diferente, era idêntico ao que a rainha usara na
comemoração do décimo segundo aniversário da Princesa Leia.
– E bem?
Com um arrepio, Winter percebeu que ela havia olhado para ele quando as
memórias a inundaram.
– É lindo - falou ela. - A cor cai bem em você, Rachele.
– Obrigada - disse ela ironicamente. - Eu faria uma mesura, só que
provavelmente rasgaria mais algumas costuras de Zerba. - Rachele balançou a
cabeça. — Eu ainda não acredito que você me convenceu a isso.
– Tavia está ocupada, Bink está ocupada, e você tem o mesmo manequim
delas - lembrou Zerba.
– Eu sei - suspirou Rachele. - Mas tem algo fundamentalmente errado em
pedir para que uma mulher prove um vestido quando não vai usá-lo.
– Tenho uma sugestão - ofereceu Zerba. - Quando tudo isso acabar, eu farei o
seu próprio vestido.
– Está falando sério?
– Com certeza. - Zerba passou os dedos delicadamente pela seda. - E eu farei
um igual ao vestido de Tavia que você possa usar mais de uma vez.
Rachele riu.
– Isso seria bom — disse ela em tom sarcástico.
Winter se voltou para janela e ajeitou o foco dos eletrobinóculos. Dozer estava
em movimento, passando calmamente pela multidão, e indo na direção do fluxo
de pessoas que saíam e entravam nas dependências. Dois seguranças iam na
mesma direção muito atrás, mas não perdiam Dozer de vista.
Na maior parte do tempo, de qualquer forma. Havia um ponto, logo antes do
portão, onde o posicionamento das árvores e da cerca viva tiraria
temporariamente Dozer de vista. Winter digitou o número de Dozer no comlink
e ficou de prontidão.
– Então, o que você faz exatamente para Mazzic? — perguntou Rachele.
– Contratos, principalmente — disse Winter. Eu posso rastrear através de
manifestos de carga e estoques de armazéns, e eu acho as coisas que você precisa
e as pessoas que estão tentando esconder sua mercadoria. Este último poderia ser
definido como o trabalho de um contrabandista; Primeiro, simplesmente rouba.
– Parece o tipo de trabalho em que você se senta em um computador e não
leva um tiro para fazê-lo — Zerba comentou melancolicamente. Deve estar bem.
– Não é tão fácil assim — Winter disse a ele. Eu também gerencio sistemas de
segurança e alarmes para ele. Isso significa ter que permanecer no local durante
grande parte do dia. Mas você está certo, principalmente você não recebe tiros
para fazê-lo.
– Espero que ele esteja pagando bem — disse Zerba. Você não se parece com
o cara que vive a emoção do desafio.
O inverno se encolheu. A escala salarial de Mazzic era realmente muito
desprezível. O que a mantinha no trabalho era o fato de ela poder usar seus
recursos para encontrar e entrar em armazéns para suprimentos e armas, deixar
os contrabandistas pegarem o que quisessem e deixar o caminho livre para seus
parceiros na Aliança Rebelde. Eles poderiam deslizar atrás deles e pegar o resto.
Eu tinha certeza de que Mazzic, pelo menos, suspeitava da afiliação secreta.
Mas ele nunca dissera nada para ela. Aparentemente, ele era esperto o suficiente
para valorizar as vantagens mútuas de seu relacionamento.
Embora talvez seja por isso que lhe paguei tão pouco quanto ele.
– Na verdade não — disse ele a Zerba. Mas vale a pena.
Dozer estava quase à porta naquele momento, caminhando ao lado de um
grupo de lepi com orelhas compridas e dentes de coelho, cujos braços
gesticulavam enquanto freneticamente enquanto andavam e conversavam entre
si. Winter verificou a posição dos seguranças, depois verificou novamente a
cobertura de vegetação e os alienígenas tagarelas.
Quando Dozer sumiu de vista momentaneamente, Winter tocou no botão de
chamada do comlink. Sem perder o passo, Dozer tirou o casaco marrom, virou
do avesso para exibir a padronagem irregular azul e prata do outro lado, e voltou
a vesti-lo. Ao ajeitar o casaco nos ombros, Dozer tirou um chapéu dobrável do
bolso e enfiou na cabeça.
Um instante depois ele passou pelo portão, deixando para trás dois seguranças
que começavam a parecer confusos ao vasculhar a multidão que marchava diante
deles.
Winter deu um sorriso de satisfação. Sem dúvida ainda havia droides-câmera
flutuando por ali, embaixo do escudo abrangente de Villachor, e alguém no
monitor provavelmente captara a rápida mudança. Mas o atraso inevitável de
comunicação entre o monitor e o portão dera a Dozer tempo suficiente para sair
de mansinho.
Obviamente, agora eles sabiam que Dozer não era simplesmente um
mensageiro inocente, mas um integrante de uma gangue misteriosa que oferecia
propinas ao pessoal de Villachor. Mas tudo bem. Aquela parte do plano estava
encerrada. Tomara que tivesse conseguido cumprir o objetivo de fazer Villachor
duvidar se seus guardas eram confiáveis ou não.
O sorriso de Winter sumiu. Confiança. Essa era realmente a fundação de
permacreto de cada organização. Juntamente com comprometimento, confiança
era o que definia, no fim das contas, se um grupo alçava a vitória ou caía na
destruição.
Ela confiava nos amigos e colegas da Aliança Rebelde. Confiava neles
cegamente. Será que podia dizer o mesmo sobre aquele grupo de ladrões e
vigaristas que Han e Rachele reunira?
Winter sorriu novamente, um sorriso bem reservado desta vez. Sim, ela podia
confiar neles.
Porque Han era mais do que parecia. Muito mais. E Winter prometera para si
mesma que, antes de aquela operação acabar, ela faria questão de saber a história
completa.
– O que está acontecendo? - perguntou Rachele.
– Ele saiu - respondeu Winter. - Eles estão... parece que eles estão enviando
alguém para fora do portão a fim de ver se conseguem avistá-lo.
Zerba deu um muxoxo de desdém.
– Sem chance disso acontecer!
– Não com o zigue-zague que ele fez para voltar — falou Rachele soltando
um suspiro audível. — Essa passou perto.
– E todos estamos contentes por que acabou - disse Zerba começando a soar
irritado novamente. — Agora, por favor, pode fazer a gentileza de ficar parada?

– Pense nisso como uma apólice de seguro - falou Han. - Sua própria coleção
de arquivos de chantagem, já decifrados e prontos para uso pessoal.
– Você quer dizer minha própria execução - disse Villachor em tom sombrio.
— Se eu tivesse tais cópias e o Sol Negro algum dia descobrisse a respeito, eu
estaria morto dentro de horas. Possivelmente dentro de minutos.
– Possivelmente - concordou Han.
Villachor já havia mencionado a rápida retaliação do Sol Negro duas vezes
durante a conversa. Pelos rumores que Han ouvira com o passar dos anos, ele
tinha certeza de que não era um exagero.
Mas Villachor continuava escutando.
– Por outro lado, não há motivo para que algum dia eles descubram -
continuou Han. - Eu trago o cryodex, nós fazemos cópias, e você as coloca em
algum lugar seguro. Talvez misture com todos os outros documentos
criptografados.
– Sim - murmurou Villachor. - Você sabe, imagino eu, que seu colega Kwerve
já fez essa sugestão.
– Eu sei - disse Han. - Pensei que valeria a pena fazer de novo.
– Valeria do meu ponto de vista, talvez — falou Villachor. — Você oferece o
que aparenta ser um negócio atraente, e no entanto não pede nada em troca?
Han deu de ombros e respondeu:
– É um gesto de boa-fé. Claro, nós estamos interessados nos arquivos, mas
estamos muito mais interessados em você pessoalmente. Se esse tipo de acordo
fizer com que você se junte a nós, vamos considerar que é um investimento
válido a longo prazo.
Os dois deram mais alguns passos antes de Villachor falar novamente.
– Deixe-me oferecer um meio-termo — sugeriu ele. - Quando você trouxer
seu chefe, traga também o cryodex. Eu o verei funcionar mais uma vez e
permitirei que façam cópias de cinco arquivos, que vocês poderão levar consigo.
— Ele deu um sorrisinho. — Considere isso meu gesto de boa-fé.
– Parece razoável — disse Han acenando lentamente com a cabeça como se
considerasse a sugestão.
As rachaduras começavam a surgir na determinação de Villachor: Han podia
ouvi-las na voz do homem.
Mas aquelas rachaduras não eram muito grandes. A não ser que algo drástico
acontecesse nos próximos dois dias, Villachor não estaria disposto a desertar do
Sol Negro ou mesmo transferir os arquivos de chantagem para fora da caixa-
forte.
O que significava que eles teriam que seguir com o plano original, afinal de
contas. Eanjer ficaria contente com isso.
– Tudo bem - falou Han. - Deixe-me consultar meu chefe e ver o que ele diz.
Villachor deu um muxoxo de desdém.
– Mais atrasos.
– Não dá para evitar - disse Han. - Se isso ajuda, estamos tão ansiosos para
encerrar essa situação quanto você.
– Tenho certeza de que estão. — Villachor suspirou de modo audível quando
parou. - Posso esperar receber alguma mensagem sua na Honraria ao Fogo em
Movimento, depois de amanhã?
– Com certeza - prometeu Han. - Se eu não puder trazer o chefe para vê-lo na
ocasião, ao menos trarei uma sugestão de quando vocês dois poderão se
encontrar.
– Muito bem - falou Villachor. Ele olhou nos olhos de Han, e por um
momento Han ficou surpreso com a intensidade vista ali. - Estamos no
precipício, meu amigo. Riquezas e poder incomparáveis, ou uma morte lenta e
assustadora. Tenha muita certeza de que deseja continuar.
Com um esforço, Han sustentou o olhar de Villachor. Não, ele não queria a
morte, rápida ou lenta. Mas também não queria riquezas e poder, pelo menos não
do tipo que Villachor estava falando. Tudo que Han queria era ficar livre de
Jabba e depois liberdade para fazer o que bem quisesse.
Mas esse ainda era o caminho para aquele objetivo.
– Eu tenho - respondeu ele com firmeza.
– Ótimo. - O olhar intenso como laser de Villachor sumiu. — Até a Honraria
ao Fogo em Movimento, então.
Han concordou com a cabeça.
– Bom dia, mestre Villachor.
Ele se forçou a caminhar tranquilamente por todo o caminho até o portão. Os
seguranças ali tinham sido obviamente alertados, e eles observaram Han com
atenção enquanto ele passava. Mas nenhum fez movimento algum para detê-lo.
Mesmo assim, ele tomou o cuidado de seguir o caminho em zigue-zague que
Dozer havia criado para voltar à suíte. Só por precaução.
Sheqoa tentou esconder, mas pela mudança de expressão na última hora, Bink
sabia que a tarde tinha sido um fracasso.
Não que ela estivesse realmente surpresa. Bink e Lando haviam interpretado
seus papéis perfeitamente, equilibrando o reconhecimento culposo com a ação
oposta, porém igualmente suspeita, de ignorar completamente um ao outro. Ela
ficara um pouco preocupada de ser jogada contra Dozer por Sheqoa, mas pelo
que percebera ouvindo as comunicações via comlink de Sheqoa, parecia que
Dozer havia saído de Marblewood antes que alguém conseguisse capturá-lo.
Dado o mau humor cada vez maior de Sheqoa, Bink decidiu, enquanto
tagarelava alegremente, que ele provavelmente gostaria de um bom abraço
caloroso.
– Então, aí... ai, minhas estrelas, olha a hora — disse ela olhando o relógio. -
Sinto muito, Lapis, mas tenho que ir. Meu chefe está com alguns clientes
Anomids na cidade e quer que eu o ajude a levá-los para um restaurante de luxo.
Você sabe como Anomids são
curiosos a respeito de novas culturas.
– Se ele quer mostrar a cultura de Wukkar para os Anomids,
deve trazê-los aqui - respondeu Sheqoa, com a mente claramente em outras
coisas.
– Foi o que eu disse - falou Bink, balançando o dedo para enfatizar. - Mas meu
chefe é teimoso e sempre procura uma desculpa para comer comida cara. Você
vai estar aqui para a Honraria ao Fogo em Movimento, não vai?
Com um esforço evidente, Sheqoa voltou o olhar e a atenção para ela.
– Claro - respondeu ele com um leve sorriso. - E você?
– Não perderia por nada na galáxia — prometeu Bink. — Eu vejo você em
dois dias, então.
Ela se aproximou e abraçou Sheqoa, com cuidado para não prender o braço
direito dele, e se espremeu contra seu peito.
– Eu tive um dia maravilhoso — murmurou Bink no pescoço de Sheqoa. -
Obrigada por tudo.
O primeiro reflexo dele foi ficar rígido de surpresa. O próximo, uma fração de
segundo depois, foi começar a relaxar e curtir o toque de Bink. O terceiro, após
uma fração de segundo ainda menor, foi se lembrar de que estava de serviço e
afastá-la delicadamente, mas com firmeza.
E dentro de todas aquelas reações, ela finalmente identificou o cheiro que
sentira antes.
– Vejo você então - falou Sheqoa com as mãos nos ombros dela ao mantê-la
afastada.
Por um momento ele olhou para Bink, depois deu meia-volta e desapareceu na
multidão. Bink também deu meia-volta e foi para o portão. Então, além de
desconfiar dela - o que ele certamente deveria fazer —, Sheqoa também decidira
bancar o espertinho com ela. O cheiro que ele percebera era um traço de tinta,
uma camada invisível de tinta que deixava manchas indeléveis nos dedos da
pessoa que a tocava e que brilhavam com luz ultravioleta.
Não foi surpresa; Sheqoa suspeitou de sua atenção extasiada, era apenas para
ser feito com a chave que ele tinha pendurado na gola em cadeia em torno de seu
pescoço, e ele pretendia obter provas de sua culpa no momento ela tentou agarrá-
lo. Simples, diabólico e praticamente infalível.
Bink sorriu para si mesma. De certo modo, ele quase sentiu pena dele.

Quase o grand finale estava no auge, com saca-rolhas trovejantes agitando e


derramando água em cachoeiras na multidão de espectadores que enchiam os
terrenos da Hacienda de Marmol. Sparks e geada, brilhava e cintilava e irrompeu
em correntes, pressagiar fazer fogos de artifício que aumentaria a Homenaje del
Fuego in Motion, na conclusão do Festival dentro de dois dias. As fontes e as
explosões saltaram a meio caminho do céu, disparadas para os lados e para trás;
mais uma vez, todos cuidadosamente controlados e contidos pelos cambiantes
campos de repulsão que garantiam que nem uma única gota caísse sobre o
público que os observava.
De pé na varanda da apresentação, absorvendo o ruído e as visões, Villachor
permitiu-se um momento de alegria quieta. Então Kwerve e sua organização
secreta decidiram seguir em frente com os pés de chumbo, certo? Esperando,
sem dúvida, que a tentação de seu cryodex, combinada com a pressão de Qazadi,
o forçasse a pular sobre um pântano do qual havia apenas um único meio de
fuga. O que eles ofereceram a ele.
Mas eles estavam errados. Assim foi Qazadi. Villachor não teve que escolher
entre o poder conhecido e a crueldade de Sol Negro, e o poder ambíguo e a
liberdade que Kwerve e seu grupo de estranhos lhe ofereceram.
Porque havia, de fato, um terceiro caminho. Uma estrada que nenhum deles
provavelmente pensaria que ele poderia escolher.
Quanto ao resto, ele mesmo não estava tão convencido a forçar sua escolha,
muito menos se não precisasse. Mas as escolhas faziam parte da vida, e esse era
um caminho que a prudência elementar insistia que, pelo menos, deveria
explorar.
Ele esperou até o clímax final do show da água, quando praticamente todos os
olhares e pensamentos em toda a cidade de Iltarr estavam focados em sua
apresentação e em outros lugares do Festival. Então ele pegou seu comlink e
discou um número.
Demorou quase um minuto para Donnal Cuciv responder. Provavelmente ele
estava ocupado observando uma cerimônia semelhante que ocorreu em um dos
outros locais que estavam por toda a cidade.
– Cuciv.
– Avrak Villachor -Villachor se identificou. Talvez você possa lembrar da
nossa conversa há alguns dias atrás.
O silêncio era apenas o necessário para confirmar que, de fato, Cuciv se
lembrava daquela sessão embaraçosa, dolorosa e constrangedora. Villachor tinha
observado que as vítimas de chantagem respondeu com raiva, vergonha e terror,
mas nunca tinha visto aquele que tinha deixado a Marble Hacienda tão completa
e irremediavelmente quebrado.
Qazadi tinham especulado no momento em que Cuciv voltar para casa e tirar
sua própria vida, embora o Falleen tinha soado como se realmente não se
importam se a situação tinha de alguma forma ou de outra. Villachor o recordara
que o suicídio era um ato vergonhoso entre a cultura de Wukkar e que Cuciv
nunca acrescentaria essa denigração adicional ao seu nome. Até agora, Villachor
estava certo.
– Eu me lembro — disse Cuciv, com a voz tensa, mas firme. Aparentemente,
ele fez as pazes com sua situação e resignou-se ao fato de que passaria o resto de
sua vida sob a ameaça do Sol Negro. Que deseja?
– Algo bem pequeno, asseguro-lhe — disse Villachor. Ouvi dizer que um
membro da Corte Imperial está na cidade de Iltarr. Eu quero tudo o que você tem
sobre ele: seu nome, sua posição e posição precisa, os meios utilizados para
chegada, a sua localização actual, e a melhor maneira de entrar em contato com
ele... em privado.
Houve outra pausa. Do outro lado da sala, formou-se uma gigantesca bica, que
foi então dividida em cinco ramos, cada um com sua própria cor de flashes
intermitentes.
O que você vai fazer com ele? — Cuciv perguntou finalmente.
– Isso não é da sua conta — disse Villachor. Apenas me consiga a informação.
Ele ouviu o suspiro de Cuciv mesmo acima da multidão.
– Você quer por esta noite, certo?
– Seria mais apropriado para amanhã — disse Villachor. Apenas certifique-se
de que é uma informação precisa.
– Tudo o que faço é preciso — disse Cuciv, com orgulho profissional que
momentaneamente eclipsou sua vergonha e ressentimento.
Bem, disse Villachor. Então para amanhã.
Ele pendurou o comlink e o afastou, permitindo um pequeno sorriso. Sim,
Kwerve poderia pensar que seu cryodex era a última tentação. Qazadi podia
pensar que Sol Negro era a última ameaça.
Mas havia outra mão neste jogo. Uma mão quase certamente duraria mais do
que os dois.
Porque, se a situação se resumisse a vida ou morte, Villachor poderia fazer
algo pior do que abandonar o Sol Negro: levar seu conhecimento da organização
para os imperiais e ver que tipo de proteção eles poderiam lhe oferecer.
Era hora de ver que tipo de barganha Lorde Vader estaria disposto a oferecer.
CAPÍTULO

16

A gravação da conversa do comlink terminou, e Dayja tirou os olhos do


datapad.
– Você só pode estar brincando - disse ele categoricamente. - Ele só pode estar
brincando.
– Parece uma brincadeira, não é? - respondeu D’Ashewl pensativo. - Mas se
não for, este pode ser o princípio do fim para o Sol Negro. Um chefe de setor
como Villachor sabe todo tipo de segredo sujo. E se ele puder levar os arquivos
de chantagem de Qazadi com ele... - D’Ashewl ergueu as sobrancelhas.
– Talvez - falou Dayja com cautela olhando para o datapad. Não podia ser tão
fácil assim. Havia uma cilada escondida em algum lugar. – Eu notei que, apesar
de todas as palavras que ele proferiu, há uma notável ausência de qualquer
declaração ou promessa sólida.
– O que não é um absurdo para alguém que está simplesmente
jogando verde - ponderou D’Ashewl.
– Ou para alguém que está buscando um acordo unilateral - disse Dayja. - Isso
pode também ser um golpe para nos fazer olhar para a direção errada.
– É possível - concordou D’Ashewl. - Mas o que quer que esteja acontecendo,
temos que tratar como uma oferta genuína. - Ele deu um sorriso contido. - Nem
que seja porque, quanto mais mergulharmos no esquema de Villachor, mais
enxergaremos e mais chances teremos de voltá-lo contra ele.
– A não ser que o esquema seja nos atrair e matar um par de agentes da
Inteligência - alertou Dayja.
– Eu nunca disse para realmente confiarmos no homem - falou D’Ashewl
dando de ombros. - Eu já mandei a ordem para o capitão Worhven retornar. Ele e
o Dominador devem estar aqui ao anoitecer.
– E aí?
D’Ashewl franziu os lábios.
– Dado que Villachor ainda não sabe da ligação entre nós, acho que já é hora
de vocês dois se encontrarem cara a cara. Possivelmente como parte do golpe do
brilhestim que você já armou.
Dayja ponderou.
– Talvez. Embora isso possa atrapalhar o que quer que Eanjer e sua equipe
estejam aprontando.
D’Ashewl soltou um muxoxo de desdém.
– Se Villachor vier até nós, não precisaremos de Eanjer e sua coleção de
vigaristas.
– Se Villachor estiver apenas fazendo barulho por nada, talvez precisemos —
contra-argumentou Dayja.
D'Ashewl acenou com a mão.
– Você é o agente operacional — disse ele. Eu não vou pré-julgar nada que
você decidir fazer sobre Eanjer.
– Obrigado, disse Dayja. D'Ashewl estava certo, claro. Esta foi a missão de
Dayja; d'Ashewl estava aqui apenas como apoio e camuflagem. Todas as
decisões que em última análise teriam que ser tomadas devem ser suas.
Como seriam as conseqüências dessas decisões.
– Quem você está chamando? D'Ashewl perguntou enquanto Dayja desenhava
seu comlink.
– Para Eanjer — disse Dayja, digitando para que a conversa também fosse
transmitida ao comlink de d'Ashewl e, em seguida, digitando o número. Eu não
posso acreditar que Villachor acabou de acordar esta manhã, e que ele decidiu
que estava cansado de trabalhar para o Sol Negro. Se ele está sendo pressionado,
pode ser a equipe de Eanjer que está exercendo essa pressão. Pode ser uma boa
ideia saber exatamente o que eles estão fazendo.
O comlink fez a conexão.
– Sim Disse Eanjer.
– Eu sou Dayja — O agente se identificou. Você pode falar?
– Espera um momento. O comlink foi interrompido por um momento, depois
ativado novamente. Ok, eu já estou sem interferência — disse Eanjer, sua voz se
acalmando.
– Eu estou chamando você para me atualizar — disse Dayja. E para fazer um
possível aviso.
– Que tipo de aviso?
– Você primeiro — disse Dayja.
– Até onde eu sei, o plano está se desenvolvendo da maneira mais apropriada
— disse Eanjer. Há algumas idéias sobre pressionar Villachor para mover os
arquivo transferir os arquivos para outro lugar em Wukkar, mas não o imagino
entrando em pânico a ponto de seguir por esse caminho. Se isso não der certo,
teremos que ir em frente e invadir a caixa- forte.
– Entendo - falou Dayja sorrindo para si mesmo. Então essa era a jogada de
Villachor. - A Honraria certamente deve proporcionar distrações suficientes para
um serviço como esse.
– Você nem sabe da metade. Agora, e essa história de alerta?
– Villachor pode estar tentando contornar vocês - respondeu Dayja. - Ele está
sondando um integrante da corte imperial que se encontra na cidade, neste
momento. Se Villachor realmente decidir desertar, qualquer que seja a isca ou a
pressão que vocês estão usando contra ele se tornará subitamente irrelevante.
Quando isso acontecer, você e sua equipe podem estar enrascados.
– Entendo - disse Eanjer lentamente. - Obrigado pelo alerta. Quando você
saberá se isso vai acontecer ou não?
– Até agora eles estão bem no início das conversas preliminares - falou Dayja.
— Se alguma coisa mudar, eu aviso você.
– Eu agradeço - disse Eanjer. - Tenho que ir. Falo com você depois.
A ligação foi desfeita.
– Interessante - comentou D’Ashewl ao abaixar o comlink.
– De fato - concordou Dayja. - E de repente a oferta de Villachor tem toda
uma segunda parte anexada.
– Ele está pensando em transferir os arquivos, sem dúvida — disse D’Ashewl.
- Mas sabe que não deve transferi-los sem a devida segurança.
Dayja concordou com a cabeça.
– E haveria segurança melhor do que uma escolta imperial completa?
– Realmente, haveria segurança melhor? — concordou D’Ashewl. - Então
Villachor finge desertar, faz com que escoltemos alguns equipamentos ou itens
de uso pessoal insignificantes para outro lugar e então subitamente muda de
ideia.
– E uma vez que é impossível que Villachor faça isso sem que Qazadi
interprete mal o ato e arranque a cabeça dele no meio do caminho — acrescentou
Dayja -, deduz-se que Qazadi também saiba do plano.
– Então os arquivos são transferidos e protegidos, e a equipe de Eanjer é
deixada de mãos abanando — concluiu D’Ashewl. - E como um bónus para o
Sol Negro, um par de agentes da Inteligência é identificado.
– E possivelmente tratados da tradicional maneira agradável do Sol Negro -
falou Dayja em tom ácido. - E lá se foi a abordagem de Eanjer.
– Ao que parece - concordou D’Ashewl. - A questão é: recomeçamos a nossa?
Dayja bateu com o dedo no lábio.
– Creio que tenho que fazer isso - disse ele. - Se Villachor realmente está
planejando desertar, não faz muito sentido tornar a água mais turva. Mas se for
só um golpe para nos obrigar a fazer o serviço pesado para ele, então ainda
precisamos de um caminho para entrar em Marblewood.
– E você vai precisar desse caminho antes que Villachor transfira os arquivos -
alertou D’Ashewl. — Porque onde quer que ele nos faça levá-los, Villachor
estará pronto para retirá-los para outro local qualquer onde jamais os
encontraremos.
– A não ser que consigamos pegá-los no trajeto, como Eanjer obviamente
pretendia - salientou Dayja. - Mas ele também terá
pensado nisso.
– Com certeza. - D’Ashewl encarou Dayja. — E então?
– Então eu acho que irei à Honraria do Fogo em Movimento em Marblewood,
amanhã — respondeu Dayja ao se levantar da cadeira. — Melhor preparar outra
amostra para balançar embaixo do nariz de Villachor.
– Você tem um dia para pensar em como adaptar sua abordagem — lembrou
D’Ashewl. - E não se esqueça de que o Dominador estará aqui até lá. Se
precisar, haverá reforços disponíveis.
– Só se quisermos revelar a operação inteira.
D’Ashewl deu de ombros.
– Se chegar a esse ponto, a operação já estará revelada — disse ele. - Melhor
uma operação morta e um agente vivo do que o contrário.
– Você tem um jeito tão reconfortante de dizer as coisas - falou Dayja
ironicamente. — Você quer que eu o sirva durante o almoço, creio eu?
– Se você tiver tempo — disse D’Ashewl. - Se não, eu posso explicar a sua
ausência.
– Não, precisamos manter as aparências - falou Dayja. — Eu vejo você no
almoço.

– O que foi isso? — gritou Bink do outro lado da sala de estar.


Parado diante da janela e da vista da cidade lá fora, Eanjer se virou para
encará-la.
– Perdão?
– Aquela ligação - disse Bink.
Ela tinha começado a apontar para o comlink que Eanjer estava guardando,
aparentemente se lembrou a tempo de que já tinha rasgado dois pontos das
costuras que Winter tivera o trabalho de tentar terminar, e em vez disso apontou
para o aparelho com a cabeça.
– Era o meu contato — falou Eanjer. — Ele queria me alertar que...
– Você anda contando nossos planos para o seu contato? - interrompeu Bink.
– Ele já sabe - explicou Eanjer pacientemente. — Foi ele quem nos contou
sobre Qazadi e os arquivos de chantagem antes de mais nada, lembra? Seja como
for, meu contato quis me alertar que Villachor talvez arrume mais alguns
droides-policiais Z.
Bink abaixou o olhar para Winter, e Winter notou a inquietação nos olhos
dela.
– Quantos? - perguntou Bink.
– E quando? - acrescentou Winter.
– Ele não sabe - respondeu Eanjer. - Ele nem tem certeza de que Villachor vai
realmente arrumá-los ou se está apenas pensando em fazer isso. Vai me avisar se
souber de mais alguma coisa. - Ele gesticulou para o corredor. - Eu vou à
cozinha. Alguma de vocês quer algo?
– Não, obrigada - disse Bink.
– Eu também não - falou Winter.
– Ok. - Eanjer hesitou. - Me avisem se puder ajudar em alguma coisa.
Ele saiu da sala.
– Alguns Zs a mais não vão prejudicar o plano, não é? - perguntou Winter.
– Eles não deveriam — disse Bink. Mas ela não parecia estar cem por cento
convencida. Um Zed ou cinquenta, todos eles trabalham com o mesmo sistema
de controle mestre.
Winter assentiu. Eu tinha assumido que era o caso, e eu tinha certeza que Han
estava coberto. Mas ela estava escondendo suas cartas muito perto de seu colete,
especialmente desde o seqüestro, e ela não tinha certeza absoluta de como ou
onde poderia estar começando a ajustar seus planos. Eanjer, pelo que pôde
apreciar, estava ainda mais no escuro do que ela.
Por outro lado, se ele soubesse que Eanjer tinha começado a tagarelar
livremente sobre seus planos com esse contato desconhecido, essa
provavelmente seria a razão pela qual Han não lhes contaria muito.
– Eu não tive a oportunidade de conversar com Tavia ultimamente — disse
Winter enquanto estudava a costura em que estava trabalhando. Ela não tinha
ideia do tipo de detalhe que Sheqoa tinha, mas era melhor prevenir do que
remediar. Você está bem?
– Ela está bem — disse Bink.
– Tem certeza? O inverno pressionou, enquanto ela se movia para a próxima
costura. Este, ela sabia, tinha que ser um pouco torto se fosse para combinar com
o anterior no outro vestido. Ela parecia bem cansada quando a vi no jantar ontem
à noite.
– Cansado, mas feliz — Bink assegurou. Sentar-se para articular elementos
eletrônicos e fazê-los trabalhar é o que ela vive. Mesmo quando se trata dos
mesmos produtos eletrônicos, como agora, ter que acoplá-los da mesma maneira
várias vezes. Entediado, se você me perguntar. Mas, ei, as diferenças são o que
move a galáxia, não é?
– Pelo que ouvi — Winter concordou. No entanto, parece que ela preferiria
uma vida tranquila.
Bink ficou em silêncio, tempo suficiente para Winter terminar aquela costura e
passar para a próxima.
– Percebo que ela andou conversando com você — disse Bink finalmente. -
Interessante. Tavia deve gostar de você; ela não se abre com quase ninguém.
Imagino que tenha contado como eu gosto do estilo de vida de ladra-fantasma e
como nunca estou contente de me fixar em outra coisa por muito tempo?
Winter hesitou.
– Tavia disse que você é muito boa no que faz — respondeu ela, preferindo
uma abordagem diplomática. - Nós conversamos um pouco sobre as pessoas
geralmente gostarem das coisas em que são boas.
– E imagino que ela tenha dito como é boa com equipamentos eletrónicos?
– Tavia não precisa dizer isso para nenhum de nós — falou Winter na
esperança de desviar do assunto com um pouco de humor. — Todos vimos o que
ela sabe fazer.
– Ah, ela é boa no que faz, sem dúvida - disse Bink. - No que Tavia não é
muito boa é em perceber como o universo ao redor é realmente cruel.
Winter ergueu a cabeça e franziu a testa para Bink. Havia uma expressão
extremamente séria no rosto da jovem, uma que Winter ainda não tinha visto
antes.
– Eu não entendi.
– Deixe que eu dê um exemplo - disse Bink com um tom de amargura na voz.
- Suponho que ela tenha contado sobre a Companhia de Eletrónicos Rivordak?
– Não pelo nome.
– É a empresa que Tavia geralmente cita como um exemplo de eu abandonar
todas as coisas boas que surgem na vida dela — explicou Bink. - O salário era
bom, o chefe estava contente com o desempenho de Tavia, e ela realmente
gostava do trabalho. Na superfície, parecia perfeito.
– Então o que havia de errado? — perguntou Winter. - Eles tomavam sopa
fazendo muito barulho?
– O que havia de errado é que o lugar não existe - disse Bink duramente. —
Ou pelo menos o lugar em que ela pensava estar trabalhando não exista. Toda a
operação não era nada mais do que uma fachada de um dos sindicatos dos Hutts.
Eles escoavam especiaria, armas contrabandeadas, até mesmo escravos pela
empresa, tudo enfeitado por inocentes como Tavia.
Winter torceu o nariz. Ela tinha visto muitas operações como aquela enquanto
sondava locais prováveis para a Aliança atacar.
– Você podia ter dito para ela.
– Eu podia - concordou Bink com um suspiro. - Talvez eu devesse ter dito.
Mas Tavia é tão inocente que... veja bem, tenho certeza de que, a essa altura,
você já percebeu que eu tenho cinismo suficiente para nós duas. Provavelmente
teria o bastante se fôssemos trigêmeas. Só não quero que ela fique como eu.
– Eu entendo - falou Winter.
E, surpreendemente, ela se deu conta de que entendia de verdade. Winter e a
princesa Leia tiveram a mesma inocência juvenil arrancada de suas almas pelo
conflito contra o Império.
– Eu quero que Tavia seja feliz, Winter — falou Bink com sinceridade. - Eu
realmente quero. Mas também quero que ela coma regularmente, e isso não quer
dizer num refeitório de prisão em Kessel. Até que a gente tenha o suficiente para
colocá-la em algum lugar seguro... - Ela deu de ombros. — Eu tenho que
continuar a fazer isso.
Bink pareceu voltar a si subitamente.
– Desculpe. Eu abri algumas das costuras agora?
– Não, está tudo bem - garantiu Winter. - Só não repita isso.
– Certo — disse Bink. O clima mais sombrio havia desaparecido, e ela estava
de volta ao jeitão alegre. — Desculpe.
A sala ficou em silêncio novamente. Winter voltou a trabalhar, ponderando
como o universo podia parecer tão diferente para dois pares de olhos tão
semelhantes.
Ponderando, também, se esse seria o golpe que Bink e Tavia estavam
esperando. O golpe que finalmente lhes daria a liberdade.
Ou se o dia seguinte seria o último que as duas teriam juntas na vida.
CAPÍTULO

17

A manhã surgira com um raiar do sol pleno, sem nuvens, e todos os sinais de
um dia glorioso à frente. Algumas nuvens brancas tinham aparecido por volta do
meio-dia, mas foram embora no início da tarde. Naquele momento, com o sol
quase no horizonte e o céu ao leste já começando a escurecer, havia todos os
sinais de que os fogos de artifício que encerrariam a Honraria ao Fogo em
Movimento ocorreriam contra a noite totalmente estrelada.
Era um bom dia para ganhar 163 milhões de créditos, pensou Han.
Não seria um dia tão bom para sair de mãos abanando. Seria um dia realmente
péssimo para levar um tiro. Ele fez uma careta de desdém ao passar pela
multidão conversando alegremente, ao ouvir as pessoas exclamando diante dos
jatos de chamas e tornados de fogo que cruzavam o ar acima das dependências
de Marblewood. O humor de Han tivera altos e baixos naquele dia, indo do
otimismo insano ao medo paralisante de que eles estivessem a caminho de um
fracasso catastrófico. Naquele momento, ao caminhar em direção à mansão, com
os prédios mais altos da cidade por trás, o humor pendia para o lado do mau
pressentimento.
O que não fazia sentido algum. Han fizera tudo que era possível. O
equipamento estava pronto, ele repassara todos os detalhes do plano e, por
habilidade ou pura sorte, Han havia conseguido juntar a equipe perfeita para
executá-lo.
Talvez esse fosse o problema. Talvez a equipe fosse boa demais. Tirando o
planejamento geral, não havia realmente muita coisa para o próprio Han fazer.
Na verdade, assim que ele entregasse o datacard especialmente preparado para
Villachor, sua parte estaria encerrada. Han voltaria para a suíte, se sentaria em
uma poltrona confortável ao lado da janela e observaria tudo se desenrolar
embaixo dele através de eletrobinóculos. Ele ficaria com toda a espera, todo o
estresse e preocupação e nada da ação.
Han fez uma careta de desdém um pouco maior. Ele estivera no comando
quando ele e Chewie fizeram a rota de Kessel. Era ele na cabine de tiro quando
havia piratas ou mercenários que precisavam ser expulsos a tiro das costas da
Falcon.
E embora Han tivesse passado a maior parte do lance de Yavin sentado
tranquilamente com o sol nas costas, ele sabia que, quando chegasse a hora, seria
ele quem surgiria para derrubar a tiros aqueles caças TIE da cola de Luke.
Han não estava acostumado a ficar sentado esperando enquanto outra pessoa
qualquer se divertia. Mas, para variar na vida dele, Han teria que se conformar
com aquilo.
Como sempre, não foi difícil encontrar Villachor. Tudo que blan teve que tazer
toi oinar para o ponto onde estavam as atrações de fogo mais complexas e
descobrir que caminho as pessoastomavam quando não estavam olhando para o
fogo ou indo em direção às barracas de comida e bebida. Como a maioria dos
figurões que Han conhecera, e praticamente todos os chefões do crime, Villachor
gostava de ser bajulado.
Como era de se esperar, o homem e dois guarda-costas estavam na horda de
uma multidão que olhava boquiaberta para um chafariz de fogo que parecia
igualar precisamente o fluxo e os movimentos do chafariz de água que estivera
ali dois dias atrás. Um belo truque, Han teve que admitir enquanto esperava a
fila de simpatizantes em volta de Villachor diminuir.
Finalmente houve um momento de calma.
– Ah - falou Villachor quando Han foi até ele, com um tom meio estranho na
voz. - Fiquei me perguntando se você viria.
– Eu disse que sim - lembrou Han. - Eu trouxe...
Ele se interrompeu quando um dos guardas surgiu por trás e uma coisa dura
foi pressionada contra a lateral do seu corpo. Um segundo depois, o outro guarda
se juntou ao companheiro e segurou os braços de Han com firmeza.
Ele olhou para os homens e a seguir para Villachor.
– Você está brincando.
O lábio de Villachor tremeu.
– Tranquilo, por obséquio - disse ele.
Villachor deu meia-volta e foi para uma das portas de serviço da mansão,
seguido por Han e pelos guarda-costas.
Han não viu nenhum dos outros seguranças pelo caminho. Aparentemente,
Villachor queria manter a situação em sigilo até mesmo para o próprio pessoal.
O motivo para isso ficou rapidamente claro. Havia três Falleens esperando no
interior, a alguns metros da porta. O do meio usava um robe esmerado com
camadas e uma longa faixa ornamentada. Provavelmente o tal Qazadi que Eanjer
mencionara, especialmente porque os dois Falleens que o flanqueavam tinham a
aparência durona de guarda-costas. Por meio segundo, Han pensou em tentar dar
a primeira palavra, depois decidiu que o silêncio calmo seria a melhor maneira
de agir.
Provavelmente foi melhor assim, porque Qazadi claramente queria a primeira
palavra para si.
– Aqui está ele - disse o Falleen antes de a porta sequer ter se fechado atrás do
pequeno grupo. - O humano que, na arrogância e no orgulho, pensa que pode
subverter a lealdade jurada de um agente do Sol Negro.
Han olhou para Villachor. A expressão dele estava controlada, mas havia suor
na testa.
– Eu sou apenas um funcionário, mestre Qazadi - falou Han, se voltando para
o Falleen. - Eu não tenho permissão para ter arrogância ou orgulho. Só transmito
mensagens.
– Talvez eu deva transmitir uma mensagem minha - sugeriu Qazadi
calmamente. - Seu corpo, por exemplo, destroçado em pedacinhos de carne e
osso. Será que uma comunicação dessas daria uma mensagem clara o bastante
sobre o preço de nos desafiar?
Han engoliu em seco. Ele sentiu o coração disparar enquanto a onda de medo
se aproximava rapidamente do pânico.
Eram os feromônios do Falleen, Han sabia, que o levavam àquela emoção.
Mas saber aquilo não adiantava nada.
– Tenho certeza de que há melhores maneiras de conseguir o que o senhor
quer - respondeu ele, mantendo a voz tão calma
quanto possível.
– O que eu quero? - perguntou Qazadi ao erguer as sobrancelhas fingindo
surpresa. - O que o faz pensar que eu quero alguma coisa além da sua morte e a
de todos em sua organização?
– O fato de o senhor estar falando, e não atirando. - Han ergueu as mãos,
basicamente o único gesto que podia fazer com os braços ainda seguros pelos
guarda-costas de Villachor. - Então?
Qazadi deu um sorrisinho.
– Ele realmente é esperto, mestre Villachor - comentou o Falleen. - Muito
bem. Eu quero o cryodex.
Mesmo sabendo que aquele seria o pedido de Qazadi, Han ainda sentiu uma
nova onda de medo.
– E em troca? - perguntou ele, também sabendo qual seria a resposta do
Falleen.
Han estava certo.
– Uma morte rápida - disse Qazadi. - Ou, dependendo do que você me contar
sobre seu pessoal e seus recursos, há uma chance muito remota de você de fato
sair de Marblewood com a vida intacta.
– Parece um acordo razoável - falou Han. - Eu preciso ligar para meu contato.
Qazadi fez um pequeno gesto, e os guardas soltaram os braços de Han. Ele
puxou o comlink e digitou o número de Lando.
Lando não gostaria daquilo. Nem um pouco.

– Mas por que levaram Han para dentro? - perguntou Rachele preocupada,
com os eletrobinóculos enfiados no rosto, parada diante da janela da sala de
estar. - Tudo que ele tinha que fazer era entregar um datacard. Por que não
fizeram isso lá fora?
– Talvez Villachor quisesse privacidade - disse Lando, imaginando se a
desculpa parecia tão esfarrapada para os outros quanto para si.
Pareceu que sim.
– Desde quando? - indagou Winter. A voz estava mais controlada do que a de
Rachele, mas Lando notou a mesma preocupação. - Até agora, ele sempre
preferiu nos manter do lado de fora sempre que possível. Mudar esse padrão é
um mau sinal.
Chewbacca soltou um rosnado de mau agouro.
– Calma - aconselhou Lando. - Han é crescidinho. Seja lá o que Villachor
tenha em mente, tenho certeza de que ele consegue se safar no papo.
Na cintura, o comlink apitou. Lando puxou e clicou para atendê-lo.
– Sim?
– Ei, Kwerve. - A voz de Han estava apenas um pouco descontraída demais. -
Tem um problema aqui.
– Que tipo de problema? - perguntou Lando chamando os demais enquanto
ligava o viva-voz do comlink.
– Estou em uma reunião com o mestre Qazadi - disse Han. - Ele gostaria de
ver nosso cryodex.
Epa.
– Você quer dizer que ele gostaria de vê-lo funcionando? - perguntou Lando
com cuidado.
– É, algo assim - respondeu Han. - Acho que seria de nosso interesse mostrá-
lo para ele.
Lando olhou de relance para os demais, reunidos em volta dele. Rachele e
Tavia pareciam assustadas. Winter parecia controlada e estar tramando algo.
Dozer parecia nervoso. Chewbacca parecia pronto para partir para a violência. E
Eanjer...
Lando franziu a testa. Eanjer parecia estranhamente culpado.
Que motivo exatamente Eanjer teria para parecer culpado?
– Eu posso perguntar para o chefe - disse Lando no comlink. - Teriam que lhe
mostrar que há uma compensação excelente para isso.
– Digamos apenas que haverá uma compensação muito desagradável se ele
não mostrar o cryodex - falou Han com um tom sombrio.
Por um momento, Lando teve um visão daquela cena constrangedora em Nar
Shaddaa, antes do fiasco de Ylesia, quando ele ficara tão furioso com Han que
ameaçara meter um raio na cabeça do amigo. Han tinha a tendência de provocar
esse tipo de reação nas pessoas.
Mas Lando tinha falado no calor da raiva, frustração e traição. A ameaça de
Qazadi era fria, calculista e muito, muito séria.
– Eu direi para ele - prometeu Lando. - Eu retorno assim que tiver a resposta.
– Seja rápido - disse Han. - O mestre Qazadi não me passa a impressão de ser
paciente.
– Pode deixar - falou Lando. - Eu retorno em breve.
Ele desligou.
– Bem, isso tornou o dia mais interessante - comentou Lando. - Alguma ideia?
Chewbacca deu um rosnado em tom de ameaça.
– Claro que vamos tirá-lo de lá - concordou Rachele firmemente. — Acho que
a questão é como.
– Na verdade, a primeira questão é por quê, tipo por que a situação entrou em
colapso de repente? - falou Lando. - Eanjer? Você tem algo a dizer?
Quando ele se sentiu desafiado, Eanjer respondeu a ele com uma pergunta.
– O que você quer dizer?
– Você recebeu uma ligação do seu contato ontem — disse Winter. Ele disse
alguma coisa sobre isso?
Eanjer engoliu visivelmente.
– Eu ... - ele parou. Quero dizer…
Chewbacca deu um passo em direção a ele. Eanjer se afastou e depois pareceu
se encolher.
– Sinto muito — disse ele, falando quase baixo demais para Lando ouvir. Eu
não acho que ... mencionou que Villachor estava fazendo propostas para os
imperiais.
– E você não achou que valeu a pena contar sobre isso? Tavia repreendeu.
Porra, Eanjer, se ele fizer um acordo com os Imperiais, perderemos todo o
controle sobre ele. Ele pode jogar conosco sem ter que colocar todas as fichas no
pote, com a certeza de que ele tem uma brecha se seu jogo não for bem sucedido.
– Eu sei, eu sei — disse Eanjer, parecendo ainda mais contrito. Eu não achei
que nada disso pudesse acontecer tão rápido, só isso.
– Acho que aconteceu assim — disse Dozer sem rodeios. E agora que?
– Você ouviu Chewie e Rachele — disse Lando. Vamos sair
Como? Dozer respondeu.
– De alguma forma — disse Lando com uma paciência tensa, enquanto sua
mente lutava para elaborar um plano. Inverno, existem outros depósitos de armas
espalhados pela cidade em que nos podemos aventurar?
– Até onde sei, há dois — disse Winter. Mas qualquer coisa que pudéssemos
contrabandear através de suas portas, certamente não seria poderosa o suficiente
para passar pelas portas, paredes ou janelas da mansão.
– Sem mencionar todos os seguranças — destacou Dozer.
– O power dome terá que ser desligado para o grande show de fogos de
artifício mais tarde — ressaltou Rachele. Talvez pudéssemos conseguir algo
grande o suficiente para quebrar a parede daqui de cima.
– Não podemos esperar tanto tempo — disse Lando. Não sei quanta paciência
Qazadi tem, mas duvido que dure mais de uma hora, mais ou menos.
Eanjer limpou a garganta.
– Eu tenho uma idéia — ele disse hesitante. Winter, com que precisão você
duplicou o outro cryodex?
– Com a máxima precisão — disse Winter.
– Quer dizer, com a maior precisão?
– Que parte do "completo" não é compreendido? Lando rosnou.
– Não, não, eu entendo — disse Eanjer. Eu estava pensando ... se deixarmos
Qazadi ver o cryodex, e se ele já o viu perto o suficiente junto com Aziel ... "Ele
fez uma pausa, olhando em volta com expectativa.
Rachele foi o primeiro a entender isso.
– Ele vai pensar que é da Aziel — disse ele. E isso Aziel é ... não é?
– Que está…? Eu poderia pensar que é Aziel quem está por trás da proposta
de Lando para obter os arquivos de chantagem? Winter perguntou. Claro, porque
não?
– Você está certo — concordou Tavia. Se ele suspeita que Villachor é
responsável por uma possível traição, por que ele não poderia pensar o mesmo
de Aziel?

– Jogar um contra o outro - concordou Lando. Eanjer talvez estivesse no


caminho certo. - Então, se conseguirmos convencer Qazadi de que Aziel é um
traidor...
– Ele não vai simplesmente deixar Han ir embora - falou Tavia lentamente. -
Mas com certeza vai descobrir que Han vale mais vivo do que morto.
– Especialmente se Qazadi achar que ele pode esclarecer os detalhes do plano
de Aziel - acrescentou Rachele. - Isso pelo menos deve nos dar tempo.
Chewbacca grunhiu um alerta.
– Tem razão - concordou Lando com a cara fechada. - O plano só funciona até
Aziel aparecer em Marblewood com o verdadeiro cryodex.
– O que significa que temos que pegar Aziel agora mesmo e roubar o
verdadeiro - disse Rachele.
– E quanto aos guardas e aos alarmes nas janelas? - reclamou Dozer.
– Vamos ter que correr o risco, simplesmente - falou Rachele. — Se Villachor
vir os dois cryodexes juntos, Han está morto. Tavia, você acha que Bink
consegue levar isso a cabo?
– Não sei - respondeu ela com uma careta enquanto pensava. - Rápido assim,
e antes de ficar totalmente escuro... acho que não. Mas se for a única maneira,
ela topará tentar.
– Se retirarmos Bink de lá agora, podemos perder a chance de entrar na caixa-
forte de Villachor - alertou Winter enquanto pegava os eletrobinóculos e
retornava à janela.
– Han vale mais do que todos os arquivos na galáxia — disse Rachele logo
atrás de Winter e olhando feio para Eanjer. - E todos os créditos também.
– Não vamos chegar no tudo ou nada ainda - falou Lando. - Winter? Consegue
vê-la?
– Sim - respondeu Winter balançando a cabeça. - Sinto muito, ela já está
metida com Sheqoa. Se a retirarmos agora, especialmente com ele já
desconfiado, será o fim.
– A não ser que a gente consiga devolvê-la a tempo - disse Dozer.
– Nem pensar - falou Tavia.
– O que deixa apenas outra tentativa - continuou Winter calmamente. - Dozer
e eu não temos mais nada para fazer agora. Nós iremos ao Lulina Crown e
manteremos Aziel lá.
– Opa - exclamou Dozer arregalando os olhos. - Nós contra...? Não. Nem
pensar.
– Calma - disse Winter. - Não estou sugerindo que nós ataquemos Aziel e sua
coleção de guarda-costas. Só temos que mantê-lo trancado na suíte do hotel.
– Ah, sim, isso vai funcionar - falou Dozer sarcasticamente. - Ele não vai ter
um comlink ou outra coisa que possa usar para ligar para Qazadi. Nem pensar.
– Espere - disse Lando sentindo a primeira pontada de esperança. - Winter está
certa. Ligar para Qazadi não serve de nada para Aziel. É claro que ele dirá que
ainda está com o cryodex, mas ele diria isso quer estivesse com o aparelho ou
não.
– Então como se prende alguém no quarto? — perguntou Rachele.
– Eu não sei ainda — respondeu Lando. — Vamos fazer um rápido inventário
do que temos à mão e ver se conseguimos bolar um plano.
– A não ser que você ainda esteja com medo demais do Falleen para fazer isso
— acrescentou Rachele para Dozer, com um tom de desafio na voz.
Dozer olhou feio para as costas de Winter e endireitou os ombros.
– Vamos encontrar um plano que funcione primeiro - disse ele.
– Quanto aos equipamentos, eu tenho alguns veículos remotos, alguns
abridores universais de portas criptografadas...
– Com licença - falou Winter, ainda parada na janela. - Algum de vocês sabe
se Han fuma?
– Não que eu saiba - disse Lando franzindo a testa. - Chewie?
Chewbacca rosnou uma resposta negativa.
– Talvez há muito tempo, mas não ultimamente - falou Lando.
– Por quê?
– Porque eu acho - disse Winter pensativa - que ele talvez tenha acabado de
nos mandar uma mensagem.

Han desligou o comlink. Quando começava a guardá-lo, um dos seguranças


arrancou o aparelho de sua mão.
– Ok, eu mandei a mensagem - falou Han para Qazadi. - Acho que agora é
esperar.
– Sim - disse Qazadi. - Vamos torcer para que seu superior lhe considere mais
valioso do que o cryodex. - Ele deu um sorrisinho.
– Especialmente porque lacaios são muito mais fáceis de substituir do que
artefatos raros.
– Não os bons — contra-argumentou Han olhando para Villachor. O homem
estava a dois passos de distância. O plano devia funcionar. — Creio que serei seu
hóspede por algum tempo?
– Por pouco tempo apenas — disse Qazadi, cujos olhos se voltaram para os
guarda-costas de Villachor. - Vocês dois, levem-no até os aposentos dos guardas
na frente da minha suíte. O armário lá pode ser protegido com a fechadura.
Coloque dentro.
– Manning pode levá-lo — disse Villachor com firmeza. Tawb ficará comigo.
– Os dois vão levá-lo — disse Qazadi.
Por um segundo, seu olhar e o de Villachor permaneceram trancados.
E naquele instante, Han fez seu movimento.
Os guarda-costas ainda seguravam seus braços, mas ambos os antebraços
estavam livres. Encolhendo o ombro esquerdo ligeiramente como uma distração,
Han enfiou a mão direita no bolso lateral e pegou o cartão de dados que ele havia
colocado lá. Com um único movimento suave, ele puxou e jogou para Villachor.
Ela teve tempo suficiente para ver como Villachor, em um ato reflexo, a pegou
antes que os dois guarda-costas o puxassem de volta e o bateu no chão.
– Acalme-se — Han disse a eles apressadamente, fazendo uma careta com a
dor súbita em seus ombros, enquanto desintegradores pareciam vir de toda a
sala. É apenas a ordem do meu chefe. Fui obrigado a entregar o cartão ao
maestro Villachor.
Por um longo momento, ninguém se mexeu. Com o canto do olho, Han pôde
ver Villachor girando o cartão de dados entre as mãos.
– O que é? Qazadi perguntou.
– Os detalhes da sua proposta — disse Han. Eu não acho que isso importe
muito agora, suponho.
– Eu nunca disse que ia me juntar a você — insistiu Villachor, jogando o
cartão de volta para Han, como se estivesse se livrando de um gundark de bebê.
Han fez um pequeno encolher de ombros.
Como eu havia dito, recebi ordem para entregá-lo.

Por mais alguns segundos, ninguém fez um gesto ou falou. Han aguardou
ansiosamente...
E então Qazadi se mexeu e deu um sorrisinho para Han.
– Eu admiro um homem que gasta seu último suspiro cumprindo ordens -
disse ele. - Levantem-no.
As mãos que prendiam Han ao chão mudaram de direção e o puxaram para
ficar em pé novamente.
– E eu ficarei com esse datacard - acrescentou o Falleen quase como se tivesse
esquecido. - Dygrig?
Um dos guardas de Qazadi recuperou o datacard e o entregou para o chefe.
– Vocês têm ordens a cumprir - continuou Qazadi pensando enquanto olhava o
datacard.
– Senhor? - perguntou um dos guarda-costas de Villachor.
– Sim, vá em frente, Manning - falou Villachor com um sinal de suspiro. -
Tawb, vá com ele.
– Ande - rosnou Manning no ouvido de Han enquanto apertava o braço dele
com as mãos novamente. Seu hálito tinha um leve cheiro de tabaco;
aparentemente o homem fumava cigarra.
Os guarda-costas o conduziram por um corredor comprido e por três lances de
escada acima até o quarto andar. Pelo caminho, Han percebeu com algum
interesse, eles passaram por uma única pessoa exatamente, um velho em roupas
de chef correndo para a área da cozinha. Aparentemente, todos os funcionários
de Villachor estavam do lado de fora ou de prontidão nas várias áreas de serviço
da mansão.
– Aonde estamos indo? - perguntou Han ao erguer o olhar para as clarabóias
enquanto andavam pelo corredor até a ala nordeste.
– Você ouviu Sua Excelência - rosnou Tawb.
– Sim, um armário na sala da guarda. - Han olhou Manning de lado. - Você
bem que podia me dar uma cigarra para ajudar a matar o tempo.
Manning deu um muxoxo de desdém.
– Sei.
– Não, é sério - insistiu Han. - Eu realmente preciso de uma cigarra e sei que
você fuma; posso sentir o cheiro em você. Vamos lá, seja razoável. Eu realmente
preciso.
– Você realmente precisa fumar? - Manning soltou o braço de Han, deu um
longo passo à frente e depois acertou o passo ao lado dele. Ele tirou do bolso
uma cigarra comprida e fina. - Uma dessas?
– Cuidado - alertou Tawb. - Qazadi não vai gostar se você jogar fumaça nos
aposentos dele.
– Não vou fazer isso - garantiu Manning. Ele acendeu a cigarra, tragou e
baforou. - Fumar assim? - perguntou ele para Han e soltou outra nuvem de
fumaça.
– É, assim - disse Han, lutando contra o aperto de Tawb enquanto tentava se
aproximar dos anéis de fumaça, torcendo para conseguir esconder o nojo que
sentia daquilo. - Vamos, deixe-me pelo menos sentir o cheiro.
– Porque eu teria muitos problemas se desse alguma coisa a você - continuou
Manning ao andar de costas enquanto tragava e baforava mais fumaça em cima
de Han, sempre mantendo distância suficiente para que Han só sentisse um leve
cheiro da borda de cada nuvem antes que ela subisse para o teto. —
Especialmente uma cigarra. Especialmente na suíte de Qazadi.
– Ora, vamos - implorou Han.
Ele praticamente podia sentir os pelos do nariz se enroscando ao inalar a
fumaça, e seus pulmões pairaram sobre a borda de um violento ataque de tosse.
Mas eu tive que fazer isso parecer real se eu quisesse que Manning continuasse
com o jogo.
– Chega — Tawb disse. Vamos lá, estamos bem perto.
– Relaxe — Manning se acalmou. Ele soltou um último suspiro e depois
deslizou uma tampa sobre o charuto para apagá-lo. Vou guardar o resto para
mais tarde — disse ele, colocando-o de volta no bolso. Aproveite a memória. Ele
parou em uma porta aberta e gesticulou para dentro. Entre lá
– Claro — disse Han. Winter e Rachele deveriam estar em sua suíte agora,
mantendo um olhar atento na mansão e nos jardins, e um estranho padrão de
fumaça em uma das clarabóias, deveria ser exatamente o tipo de coisas que um
deles poderia perceber.
Ou pode ser que a mensagem tenha sido perdida completamente. Mas se eles
pudessem detectá-lo, eles poderiam perceber que Han estava apontando a parte
da mansão onde ele estava sendo mantido.
Era uma possibilidade muito remota. Mas, às vezes, tiros longos
compensavam.
O quarto por onde passaram era surpreendentemente grande, equipado com
uma pequena mesa e quatro cadeiras, um par de luzes no chão e seis camas
espaçadas ao redor da sala de estar. Era um quartel para guardas bem equipados,
para homens ou homens que usariam o quarto por muito poucas coisas, exceto
para dormir. Manning levou-o na direção de uma grande porta na parede lateral,
que tinha um teclado grande ao lado. Ele digitou um código simples - um, dois,
três - e a porta se abriu para revelar um grande camarim. Tawb caminhou até
Han e deu-lhe um empurrão para mandá-lo para dentro.
– Você tem que estar brincando — Han protestou enquanto recuperava o
equilíbrio e olhou em volta. Sem roupas, sem caixas de arrumação, o armário
estava completamente vazio, exceto por um punhado de hastes penduradas ao
longo das paredes laterais, prateleiras móveis e uma dúzia de cabides. E se você
pelo menos me der uma daquelas cadeiras?
– E se não o fizermos? Tawb disse, dando ao gabinete uma rápida verificação
de sua parte, depois se afastando. Aproveite a sua estadia. Estaremos de volta
quando o Mestre Villachor mandar por você.
– Muito provavelmente quando o Mestre Qazadi me mandar — Han
respondeu quando a porta se fechou. Parece que é ele quem está encarregado de
tudo agora.
Nenhum comentário foi ouvido de nenhum deles. Han não esperava que
houvesse.
O armário estava escuro, mas Han descobrira um interruptor ao lado da porta
em seu caminho. Ele bateu, e um conjunto de luzes suaves iluminou as bordas
superiores do gabinete.
Ele passou os minutos seguintes olhando ao redor da sala, esperando encontrar
algo útil que não teria notado em sua primeira avaliação. Mas não havia nada. Os
cabides eram do tipo de alta classe, madeira polida com ganchos cromados -
ligeiramente úteis como suportes - mas nada que pudesse causar qualquer dano
contra uma pesada porta de madeira. As prateleiras e os varais das roupas eram
feitos da mesma madeira polida, que, de novo, não oferecia muita esperança
como material para conseguir sua fuga. As paredes e o chão também eram feitos
de madeira, de um tipo diferente da prateleira, mas igualmente sólidos. Teto…
O teto.
Han olhou para cima. O teto parecia ser feito de algum tipo de cerâmica. Mas
quando Rachele falara sobre a caixa-forte, ela mencionara um vão entre o teto e
o piso acima dele. Se o mesmo design se aplicasse ali, aquele teto não deveria
estar sustentando peso algum e talvez não fosse tão grosso assim.
E se o vão entre andares fosse suficientemente grande para Han caber nele...
Ele levou alguns minutos para retirar as prateleiras e apoiá-las nas paredes
laterais, em ângulos opostos do chão ao teto para criar uma espécie de andaime
improvisado. Han pegou o cabide de madeira com aparência mais robusta, subiu
nas prateleiras e experimentou bater no teto.
Nada aconteceu. Ele bateu com mais força, depois com mais força ainda,
imaginando se o barulho atrairia atenção indesejada. Mas ninguém entrou
correndo. Han continuou batendo até que, finalmente, de uma batida de força
mediana, o cabide rompeu a cerâmica.
Ele estava certo - o material não era muito grosso. Han forçou a teia de
rachaduras que partiam do ponto de impacto e arrancou o suficiente para fazer
uma abertura de 20 centímetros. Ele subiu o resto do andaime e enfiou a cabeça
no buraco.
Havia um vão entre os andares, realmente. Infelizmente, não tinha mais do
que 20 ou 30 centímetros de profundidade, e ficava mais estreito em cima da
porta do armário. Bink talvez conseguisse passar, especialmente com o
equipamento de alpinismo adequado, mas não havia jeito de Han fazer aquilo.
Mas se ele conseguisse arrancar pedaços suficientes do teto do lado de fora do
armário, talvez fosse capaz de usar uma das barras de roupa para bater no
teclado e abrir a porta. O código um-dois-três que Manning usou, provavelmente
era uma configuração padrão, e seria fácil digitar novamente.
Segurando de novo para poder descer, ele moveu seu andaime para um lugar
bem em frente à porta e foi trabalhar.

Por tudo isso Dayja tinha sido capaz de ler nos folhetos de visitantes, o
Tributo a Fire in Motion foi o destaque do Festival, um dia em que os vários
locais em toda a largura de todo o planeta, trabalhando da maneira mais amarga
para superar os outros. Algum dia, Dayja decidiu, ele teria que ter tempo para vir
aqui e apreciá-lo corretamente.
Mas hoje não foi esse dia. Hoje, ele só tinha olhos para a multidão que
passava pelos jardins da Hacienda de Mármore.
Havia onze pessoas na equipe de Eanjer, eu sabia disso. Depois de observá-los
secretamente na varanda nove dias antes, ele os tinha visto na sala de
conversação de sua suíte. E apesar de eu ter visto apenas uma das mulheres, tive
uma visão clara de todos os rostos dos outros. Hoje, naquele exato momento,
eles tiveram sua última e melhor chance de se infiltrar na mansão de Villachor e
invadir seu cofre. Eles deveriam estar aqui, prontos para desempenhar seus
papéis em qualquer plano com o qual Eanjer tivesse chegado.
Ele já havia visto três deles. Dois deles, o mais jovem da equipe e balosar
Peeping macho humano, parecia ter o mesmo trabalho: passear e sub-
repticiamente colocar algo debaixo trajes com projetos da chama de diferentes
serviços droids que cuidou de provisionamento e manutenção de dróides.
Restrições, Dayja supostamente, ou possivelmente pequenas acusações de
detonite. O terceiro membro da equipe, uma jovem de cabelos negros, vestida
com um longo tom vermelho intenso, grudara em Sheqoa, o chefe da segurança
de Marblewood. Ela, obviamente, estava planejando ser a distração.
Então onde, raios, estavam os outros oito?
À esquerda, um jorro de chamas azul-amareladas subitamente disparou para o
céu e mandou uma onda de calor pela multidão reunida. Dayja deu um olhar
distraído para o chafariz, depois mudou a direção e foi para as barracas de
bebidas. O sol havia acabado de se pôr, e faltava mais ou menos uma hora e meia
para a escuridão completa e a exibição apoteótica de fogos de artifício. Dayja
decidiu dar uma hora para Eanjer agir; depois disso, se nada tivesse acontecido
ainda, ele encontraria Villachor e tentaria retomar o seu plano original de
infiltração.
Enquanto isso, as barracas de comida e bebida de Marblewood ainda tinham
um estoque impressionante. Não haveria problema em tirar vantagem disso.
O teto do quarto bem do lado de fora da porta foi tão fácil de quebrar quanto o
teto do armário, embora Han fizesse uma careta a cada estalo e ruído que a
cerâmica fazia quando os pedaços se soltavam. Ele conseguiu ver que a porta do
quarto estava parcialmente aberta e ficou um pouco surpreso de que ninguém lá
fora tivesse notado o barulho que fazia.
Ainda assim, como Han já havia percebido, a maioria dos funcionários de
Villachor estava ocupada em outros lugares. Isso e mais o barulho da multidão e
do espetáculo lá fora eram aparentemente suficientes para acobertar suas
atividades.
O primeiro problema aconteceu quando ele se deu conta de que as barras eram
longas demais para manejar dentro do buraco, através do vão entre os andares,
até descê-las pelo buraco ao lado da porta. Também teimavam em não quebrar,
mesmo com Han apoiando uma delas contra a parede e pulando sobre ela.
Mas ainda havia os cabides de luxo. Prendendo um no outro, ele conseguiu
fazer uma corrente flexível suficientemente comprida para pendurar pela
abertura e tocar no teclado.
Não que tenha sido fácil. Foram necessárias inúmeras tentativas e mais
paciência do que Han achou que tivesse. Mas, no fim, ele conseguiu abrir a
porta.
Felizmente, o quarto ainda estava vazio. Segurando um dos cabides de
prontidão como um porrete, e reconhecendo no fundo de sua mente que uma
arma assim seria ridícula contra facas, chicotes neurônicos e armas de raios, Han
cruzou o quarto e espiou de mansinho lá fora.
E se viu completamente bloqueado. A 15 metros, descendo o corredor,
parados de cada lado de uma porta, estavam os dois guarda-costas Falleen que
ele vira mais cedo.
Evidentemente Qazadi era a única pessoa na Cidade de Iltarr que não estava lá
fora vendo o espetáculo pirotécnico de Villachor.
Han praguejou baixinho e recuou da porta. Ok, então ele estava encurralado
ali. Mas isso não duraria para sempre. Assim que Lando surgisse com o cryodex
falso, Qazadi certamente desceria para dar uma olhada. Aonde fosse Qazadi, os
guarda-costas também iriam.
E com o resto dos funcionários de Villachor ocupados, assim que os Falleens
saíssem, Han basicamente teria liberdade de ação dentro da mansão.
Presumindo que Lando realmente trouxesse o cryodex.
Enfie isso na sua cabeça, as palavras raivosas de Lando retornaram à
memória. Como nós fomos amigos no passado, eu não eu não vou fazer o que
você realmente merece, o que é para explodir sua mente. Mas nunca mais se
aproxime de mim.
Lando havia dito a ele dias antes, que a questão já havia esfriado desde a
disputa, que ele havia relutantemente percebido que Han não o havia enganado
de propósito. Em virtude de sua longa história em comum, Han aceitara que esse
fogo era autêntico.
Mas e se não fosse? E se as desculpas não fossem de todo, não fossem mais
do que as palavras que Lando achava que ele tinha a dizer para se aproximar dos
cento e sessenta e três milhões de créditos de Eanjer?
Nesse caso, tudo o que Lando tinha que fazer era continuar com o plano
original, ajudar os outros a invadir o cofre do Tesouro de Mármore e deixar Han
para Qazadi decidir o que ele queria fazer com ele. Limpo e bem cuidado, sem
Lando precisar sujar as mãos.
E seria quase como garantir que ele nunca teria que se preocupar com Han
chegando perto dele novamente.
Han respirou fundo. Não, Lando não faria isso com ele. Não dessa maneira.
Definitivamente não com Chewie respirando em seu pescoço.
Eu apenas tive que esperar. Isso foi tudo. Apenas espere.
Voltando pela sala para uma das camas, ela se sentou no chão atrás dela,
abaixando o suficiente para colocar os olhos logo acima do nível do colchão, de
onde ela podia ver o corredor, mas onde ela não iria fazê-la. A pessoa era
imediatamente visível, a menos que a pessoa que passasse tivesse um olhar
cuidadoso.
Lando e os outros viriam com alguma coisa. Eu só precisava estar pronta para
quando eles fizessem.
Cuidadosamente, Lando instalou seu falso cryodex em seu contêiner e o selou.
– Todo mundo pronto? — perguntou ele olhando em volta da sala.
O grupo deu um coro de respostas afirmativas. Eles certamente pareciam
prontos, decidiu Lando. Mesmo com o chapéu marrom de aba larga que escondia
metade do rosto e a tensão da expectativa do que viria a seguir, Tavia estava
deslumbrante no discreto vestido marrom. Rachele tinha transferido o
computador para a janela, pronta para prestar qualquer apoio a quem precisasse,
fosse pesquisa de informações ou vigilância aérea. Winter e Dozer estavam
vestidos com trajes que não atrairiam olhares na rua, mas que foram feitos para
ajudar a correr, desviar ou atirar. Chewbacca, como sempre, apenas parecia
impaciente para andar logo.
– Ok - falou Lando enquanto ajustava cuidadosamente a barra do casaco
rasgável comum que Zerba tinha feito para ele. - Vamos nessa.
– Esperem! - berrou Eanjer, vindo do corredor.
Lando virou e se perguntou, irritado, o que o sujeito queria então.
Ele ficou boquiaberto. Eanjer tinha vestido um casacão comprido, azul-escuro,
com o colarinho virado para cima a fim de esconder grande parte do medselo
que cobria a metade direita do rosto. Na cabeça, de maneira vistosa, havia uma
grande boina bordo com penas que pendiam pela borda e escondiam boa parte
do resto.
– Por que você está todo arrumado assim? — indagou Lando.
– Eu vou com vocês — respondeu Eanjer em tom firme. — E minha culpa que
Han está nessa enrascada. Eu não vou simplesmente ficar sentado aqui sem fazer
nada.
– E se o pessoal de Villachor reconhecer você? — perguntou a ele.
– Eles não vão — assegurou Eanjer.
– E se eles fizerem? Tavia insistiu.
O único olho de Eanjer parecia algo cortado de uma pedra de sílex quando ele
se virou lentamente para ele.
– Então você e Bink terão que fazer um pouco mais de trabalho de distração,
certo?
Chewbacca grunhiu e fez um gesto impaciente para a porta.
– Sim, e não podemos desperdiçar qualquer ajuda — Lando concordou com
relutância. Ele não queria que Eanjer fosse lá com ele. Mas a menos que
colocassem algemas nos pulsos do homem, ou ordenassem a Rachele que
sentasse nele, não haveria maneira prática de mantê-lo na suíte. Ok, mas... – Ele
apontou um dedo para ela. Você permanecerá nas sombras, fará apenas o que um
de nós lhe disser para fazer e não se converterá em nenhum tipo de distração.
Entendido?
– Entendimento –Enjer sorriu cinicamente. Afinal, se Villachor me pegar, seus
cento e sessenta e três milhões serão subitamente reduzidos para oitocentos mil.
Nós não podemos permitir isso, certo?
– Eu não me importo com a redução — rosnou Lando. Nós sabemos o que
estamos fazendo. Você não. Então fique fora do caminho.
– Confie em mim — disse Eanjer suavemente. Não tenho intenção de morrer
hoje.
Bem, disse Lando. Porque nenhum de nós pretende fazer isso. Ele respirou
fundo. Tudo bem. Vamos
Houve outra rodada de assentimento silencioso enquanto todos se dirigiam
para a porta.
Ao se juntar a eles, Lando sentiu ainda mais o sulco enrugado da testa. Teria
sido difícil dizer que eu o ouvira no meio de todos os outros murmúrios. Mas eu
poderia jurar que Winter acabara de dizer ...
– Inverno -Ele interpelou ela.
– Sim Ela disse, olhando para ele.
Lando sentiu seus lábios se contraírem.
– Nada — ele disse, e continuou andando.
Porque, na verdade, ninguém disse que a Força nos acompanha. Ninguém,
exceto rebeldes e fanáticos religiosos.
E se Winter pertencia a um desses dois grupos, ele realmente não queria saber
nada sobre isso.
CAPÍTULO

18

Dozer aterrissou o airspeeder na área de pouso a meio quarteirão do Hotel


Lulina Crown e desligou o motor e as luzes.
– Em posição - informou Winter via comlink. Ela ouviu durante um instante,
depois acenou com a cabeça. - Ok, nos avise quando for o momento.
Ela desligou e guardou o aparelho.
– Os outros estão a caminho - disse Winter para Dozer. - Lando ligará quando
quiser que entremos em ação.
Dozer concordou com a cabeça olhando para a escuridão da entrada da
garagem de airspeeders do Lulina Crown.
– Otimo - murmurou ele.
– Você está pronto?
Dozer cerrou os dentes. Não, ele não estava pronto para isso, raios. E se
Winter tivesse cérebro, também não estaria.
Porque aquele lá dentro era um Falleen. Um Falleen. Mais do que isso, um
Ealleen que já havia levado Dozer à beira de dizer
coisas que ele não queria.
E o Falleen tinha feito isso simplesmente sorrindo, perguntando com educação
e enchendo os pulmões de Dozer com veneno bioquímico.
Dozer sempre se orgulhara de estar no controle. Sempre. Mesmo quando
estava trabalhando para outra pessoa, ainda havia certas liberdades importantes
que Dozer possuía e de que jamais abriria mão. Era ele quem escolhia se
obedecia a ordens questionáveis ou não. Era ele quem decidia quando e como
fechar o negócio que era preciso fechar. Era ele quem sabia quando precisava
continuar ou cair fora.
Com o Falleen, ele não tinha mais essas liberdades. O Falleen podia tirar todas
elas de Dozer.
Ele olhou de lado para Winter. Ela olhava diretamente para a entrada da
garagem, mas Dozer sabia que ela podia sentir o olhar dele.
E não havia medo no rosto dela. Nada além de calma e determinação.
Dozer sentiu o lábio tremer. Winter mal tinha a metade da idade dele.
Certamente não tinha mais do que a metade do tamanho. Mas mesmo ela devia
ser esperta o suficiente para ficar preocupada com as chances de encarar um
agente do Sol Negro e seus guarda-costas.
Talvez Winter estivesse nervosa. Talvez simplesmente não estivesse
demonstrando.
Ou talvez ela apenas não se importasse. Talvez tudo que importasse para
Winter fosse realizar o serviço.
E que raios partissem Dozer se ele deixasse uma garota imatura humilhá-lo.
Na verdade, pensando nisso, o grupo inteiro andara basicamente ignorando
Dozer desde o dia em que tudo aquilo começara. Ele tinha sido escolhido como
testa de ferro, mas aí Calrissian aparecera e recebera a função. Ele esperava ter
que roubar airspeeders, mas Eanjer simplesmente saíra e alugara os veículos.
Tirando o Z-95 e aquele outro serviço que Han lhe pedira para executar, Dozer
basicamente não tinha feito nada para merecer sua fatia do bolo, a não ser
entregar as propinas que todo mundo sabia que o pessoal de Villachor sequer
pegaria.
Bem, isso mudaria. Ele, Dozer Creed, faria com que os 163 milhões de
créditos de Eanjer parecessem trocados no bolso. E quando o fizesse, os demais
o tratariam com mais respeito. Muito mais respeito.
– É — rosnou Dozer para Winter. - Estou pronto.
E para sua surpresa, ele descobriu que realmente estava sendo sincero.

Uma chama sibilante passou diretamente acima deles como uma cobra
flamejante. Lando se abaixou por reflexo, embora o fogo estivesse contido por
um campo repulsor e separado por bons 2 metros da cabeça dele. Chewbacca,
que estava mais próximo ainda à chama, sequer piscou.
Mas, por outro lado, Chewbacca estava seriamente concentrado agora. Como
já tinha visto aquele humor antes, Lando estava contente por não ser o foco do
Wookiee.
O fogo passou, e Chewbacca rosnou.
– Ele está aqui - disse Lando.
– Onde? — perguntou Eanjer.
– Ao lado do posto de segurança na extremidade sul do pavilhão infantil —
informou Lando.
Eanjer resmungou.
– Estou um pouco surpreso de que ele tenha se disposto a se reunir
publicamente assim.
– Eu não ofereci outra escolha - disse Lando com a cara fechada. — Duvido
que ele esteja muito contente a respeito disso.
– Nem sempre conseguimos o que queremos - comentou Eanjer
filosoficamente. - Qazadi está com ele?
Chewbacca rosnou de novo.
– Nenhum sinal do Falleen - disse Lando. - Ok. Mais dez passos e será o
momento de você e Chewie se separarem e encontrarem Bink.
– Espere um minuto — reclamou Eanjer franzindo a testa para Lando com o
olho bom. - Eu pensei que iria com você.
– Não sei de onde você tirou essa idea — falou Lando. - Você vai com
Chewie.
– Mas...
– E se você encher nossos ouvidos de estática quanto a isso, ele vai jogá-lo
sobre o ombro e levá-lo para fora daqui como uma criança malcriada - disse
Lando. — Entendeu?
Eanjer ergueu o olhar para Chewbacca.
– Entendi — respondeu ele relutantemente.
– Você veio aqui ajudar a soltar Han - lembrou Lando. - Esse é o trabalho de
Chewie, e sei que ele pode contar com a sua ajuda.
Chewbacca vociferou sua opinião sobre aquilo.
Dessa vez, Lando decidiu que seria melhor não traduzir.
– Da minha parte, só vou entregar uma encomenda e depois irei embora -
disse Lando, em vez da tradução.
O que também não era verdade. Mais uma vez, Eanjer não precisou se
preocupar com os detalhes.
Chewbacca rosnou um aviso.
– Hora de ir– disse Lando, enfatizando sua ordem com um firme empurrão no
ombro de Eanjer. Boa sorte.
Com um breve aceno de cabeça, Eanjer deslizou pela multidão, Chewbacca
andando atrás dele. Lando esperou até que o Wookiee fosse apenas uma cabeça
emergindo acima da multidão, e então retirou seu comlink.
– Rachele?
– Parece que há um total de oito guarda-costas no grupo — ela informou. Mas
há pelo menos mais quatro tipos de segurança vagando, formando um anel a
cerca de vinte metros do lado de fora do grupo principal. Poderia haver mais
alguns que eu não consegui detectar.
Lando assentiu. Ele esperava que Villachor fosse fortemente protegido e
estava certo.
E Qazadi?
– Não há sinais dele. Villachor poderia estar planejando levá-lo para dentro
para que você possa conhecê-lo.
– Tenho certeza de que é assim — disse Lando acidamente. Entrar na mansão
era o que deixara Han preso, e Lando não tinha intenção de oferecer a Villachor
um especial dois por um. Particularmente considerando o que ele usava sob o
terno para rasgar. Tavia está indo bem?
– Ela já está lá, circulando ao redor da instalação principal do gêiser de
chamas — disse Rachele. Espere ... Sim, ela viu Chewbacca. Está começando a
se mover para o sudeste ... bem, agora eu posso ver Bink, saindo do quiosque de
bebidas com Sheqoa. Chewie e Tavia estão a caminho para interceptá-los.
Bem, disse Lando. Ele pensou brevemente em dizer a Rachele para dar um
rápido telefonema a Tavia para lembrá-lo sobre a nova sincronização com a qual
haviam concordado, mas decidiu contra. Ela e Chewbacca sabiam o que estavam
fazendo, e Bink já sabia o que esperar para não ultrapassá-los. Contanto que eles
não a empurrem, o tempo deve ser preciso. Ok, eu vou entrar — disse ele. Como
você vê a extremidade norte do pavilhão infantil?
– Está claro, pelo que vejo — disse Rachele. Mas eu não posso ver todas as
pessoas de Villachor daqui. Tenha cuidado.
– Eu vou ter — disse Lando. Não se esqueça de que todas as probabilidades
são contra Villachor, tornando meu rosto familiar demais, mesmo entre sua
própria força de segurança.
– Isso pode ser o que seus cálculos lhe dizem — Rachele disse severamente.
Eu não tenho tanta certeza.
– Eu vou ficar bem — disse Lando. Eu tenho aquelas cargas estridentes do
pacote de Kell. Se o pior acontecer, posso começar a jogá-los ao redor deles e
tentar escapar em meio à confusão.
– Apenas não muito barulho — Rachele lembrou a ele. A última coisa que
queremos agora é desencadear um pânico total.
– Eu sei — disse Lando. Vou verificá-los novamente antes de fazer a entrega.
O pavilhão das crianças era fácil de identificar, cheio de equipamentos
coloridos para brincar e repleto de gritos e risos excitados das crianças. Lando se
aproximou do extremo norte com cautela, mas não notou nenhum homem de
rosto duro andando por ali. Através do labirinto colorido de estruturas de
escalada e estruturas de jogo, ele vislumbrou aparições ocasionais de Villachor e
seu grupo de guardas, à espera de Lando, no extremo sul, exatamente onde
Lando lhes havia dito que esperar.
Villachor não ficaria feliz por levar um bolo dessa maneira, mas as pessoas
nem sempre conseguiam o que queriam.
Ao passar pelo pavilhão, Lando deixou cair o estojo discretamente dentro da
coluna no canto noroeste.
Ele andou por mais um minuto, ziguezagueando entre grupos de pessoas, e em
dado momento passou por uma fila dupla de gente que ia e vinha entre um dos
chafarizes de chamas e a barraca de bebidas. Só então ele puxou o comlink e
ligou para o número de Villachor.
O homem atendeu prontamente.
– Villachor.
– Kwerve - Lando se identificou. - O pacote o espera no canto noroeste do
pavilhão infantil.
Houve uma breve pausa.
– Eu pensei que teríamos uma discussão cara a cara como cavalheiros
civilizados.
– Eu sei - concordou Lando. - Meu chefe decidiu que não havia mais nada que
a gente precisasse dizer um para o outro no momento. Ele também quer saber
quando podemos esperar que o outro funcionário seja libertado.
– Depois que verificarmos seu aparelho - respondeu Villachor. - E se ele não
estiver onde você disse, ou se acontecer uma explosão quando abrirmos, eu lhe
prometo que a única libertação que seu funcionário terá será na forma de uma
morte muito lenta.
– Não haverá explosões — prometeu Lando com uma careta. Era melhor que
o plano de Chewie para resgatar Han funcionasse. — Por sua vez, meu chefe
mandou que eu lhe dissesse que, se alguém do nosso pessoal for machucado, é
você que morrerá muito lentamente.
– Tenho certeza de que sim — disse Villachor com uma calma enganosa. Diga
a ele que estou ansioso para conhecê-lo um dia.
– Algum dia — prometeu Lando, tentando igualar o tom do outro. Aproveite o
pacote. Estaremos esperando para ver nosso amigo livre muito em breve.
Quando isso aconteceu, tudo aconteceu de uma só vez.
Em um minuto, o corredor do lado de fora do quarto de Han estava tão morto
quanto a lista de amigos de um hutt. No seguinte, ele foi de repente o anfitrião de
um desfile. Mantendo-se tão agachado quanto pôde, viu seis seres humanos e
três falleen partirem em formação; Um dos Falleen estava vestido como se
tivesse recebido uma convocação imperial, e os outros foram mortos e os
humanos estavam armados até os dentes.
Em algum lugar, aparentemente Lando entregou o cryodex.
Esperou até que a procissão passasse e lhes deu um minuto depois disso, só
para ter certeza. Então, abandonando a alpendre, ele caminhou silenciosamente
em direção à porta. Uma verificação rápida em ambas as direções mostrou-lhe
que o corredor estava vazio novamente. Tentando observar em ambas as direções
ao mesmo tempo, ele voltou para a parte central da mansão.
No entanto, não havia muito que ele pudesse fazer, e ele sabia disso. Não, pelo
menos até o plano realmente começar. Sem armas, aliados ou comlink, tudo que
eu poderia fazer era encontrar um lugar para ficar escondido por um tempo.
Felizmente, depois de ter tido tempo para pensar nisso, encontrei o lugar ideal.
Apenas as grandes salas foram totalmente identificadas nos planos de
Rachele, mas a análise dela sobre um determinado grupamento de pequenos
quartos no segundo andar sugeria que eles eram provavelmente uma estação de
guarda. No momento, com o contingente de guardas de Marblewood
sobrecarregado, seria lógico que as subestações menores provavelmente
estivessem desertas.
A principal sala de segurança daquele grupamento, onde o equipamento e as
armas provavelmente ficavam guardadas, estava solidamente trancada. Mas a
área de estar ao lado estava aberta e vazia.
E o melhor de tudo, ela era convenientemente localizada bem no fundo do
corredor em relação ao principal alojamento dos seguranças e à sala da guarda,
aquela que ficava bem em cima do salão de baile menor.
A sala onde, se tudo ocorresse de acordo com o plano, a equipe se reuniria
para invadir a caixa-forte.
Han sabia que havia uma boa chance de não ser pertubado por ninguém até
que o entretenimento inesperado que Kell e Zerba haviam providenciado
começasse lá fora. Mas caso alguém o incomodasse...
A área de estar revelou ter um estoque de petiscos, garrafas de água, sucos de
frutas e bebidas à base de caf. Han encontrou uma bandeja, levou ao aparador e
encheu com metade das garrafas e metade da tigela de frutas. A seguir, com as
costas para a porta, ele enfiou no cinto o cabide que havia retirado do armário
que lhe servira de cela, onde ficaria à mão.
Um guarda que passasse provavelmente ficaria instantaneamente desconfiado
de um estranho perambulando pelos corredores da mansão, mas não deveria
desconfiar tanto de um simples funcionário que viera reabastecer os petiscos.
Com sorte, o guarda permaneceria sem desconfiar por tempo suficiente para
Han dar o primeiro tiro.
Ao olhar para os petiscos e se perguntar se pareceria suspeito se um guarda
flagrasse um dos funcionários do bufe comendo durante o serviço, Han decidiu
esperar.

Dayja ainda circulava pelas dependências, procurando em vão o resto da


equipe de Eanjer, quando finalmente notou um deles.
Não que aquela descoberta fosse digna de orgulho especial. O Wookiee era
mais alto que todos os humanos e que a maioria dos outros alienígenas
misturados na multidão - suficientemente alto, na verdade, para que ele e os
outros da espécie provavelmente corressem risco de serem queimados por
algumas das atrações mais baixas que cuspiam fogo. Dayja viu o Wookiee indo
para noroeste, passando pela multidão com uma determinação que confirmava
que ele não estava apenas apreciando o espetáculo a esmo.
Com um sorrisinho, Dayja traçou um curso de interceptação e perseguição e
partiu para ver o que o Wookiee estava tramando.
Ele havia dado quatro passos quando um objeto duro foi abruptamente enfiado
em suas costelas, o que lhe provocou uma parada igualmente súbita.
– Ora, ora - murmurou uma voz em seu ouvido. - Já era hora de mostrar a
cara.
Dayja engoliu um xingamento. Com tudo que acontecera nos últimos dias, ele
quase se esquecera daquela voz.
– Olá, Crovendif - disse ele inocentemente. - Apreciando o espetáculo?
– Apreciando bem mais agora - rosnou Crovendif. — O mestre
Villachor não sai do meu pé, querendo mais daquele brilhestim que você
empurrou para cima de mim. Só que você nunca mais
apareceu. Em lugar algum.
– Eu andei ocupado - falou Dayja olhando inocentemente sobre o ombro.
Se conseguisse sair da linha de tiro de Crovendif, ele talvez fosse capaz de
derrubá-lo discretamente, a ponto de a multidão ao redor sequer perceber.
Infelizmente, a falta de percepção provavelmente não se estenderia aos dois
seguranças de Marblewood que o vigiavam a poucos metros de distância.
Dayja considerara Crovendif estúpido demais ou descuidado demais para
garantir reforços antes de confrontar um alvo potencialmente perigoso.
Obviamente ele o havia subestimado.
– Imagino que o mestre Villachor tenha considerado a amostra intrigante?
– Eu não sei - falou Crovendif. — Que tal nós perguntarmos para ele? - O
sujeito pressionou a arma de raios com mais força na lateral do corpo de Dayja. -
Agora mesmo.

Villachor ficara olhando o pavilhão infantil com uma expressão furiosa por
quase dois minutos, planejando elaboradamente o que faria com o prisioneiro se
Kwerve estivesse mentindo, quando a confirmação finalmente chegou.
– Eles pegaram - anunciou Manning baixinho ao se aproximar um pouco mais
do comlink de colarinho. — Mesmo estojo que ele trouxe antes.
O mesmo estojo. Será que isso também significava a mesma armadilha com
bomba?
– Eles abriram?
– Não, senhor — disse Manning. Eles estão levando-o para a sala de guarda.
Onde Dempsey e seu equipamento para escanear bombas já estavam
instalados.
– Bom Villachor olhou em volta, quase esperando ver Kwerve observando-o
da beira da multidão. Mas o homem não estava em lugar nenhum. De volta para
dentro, ele ordenou. Permita que Vossa Excelência saiba que devemos ter o
cryodex no saguão sudoeste em alguns minutos.
– Ele já está lá — Manning disse desconfortavelmente. Bromley diz que ele
parece impaciente.
Villachor engoliu uma maldição. Claro que Qazadi estava impaciente. Ele
queria ver alguém morto.
Mas pelo menos, esse alguém não seria Villachor. Nem uma vez eu mostrei a
ele que Kwerve havia realmente lhe trazido um cryodex.
Embora a razão pela qual Kwerve tivesse lhe dado tão facilmente ainda o
incomodasse. Seu prisioneiro valeria tanto para seu chefe? Ou havia outra coisa
que ainda continuava a se mover abaixo da superfície?
– Você quer que a gente vá atrás dele, senhor? Tawb perguntou. Ou lançamos
um alerta geral? Nós temos a descrição do Kwerve.
– Mas não o rosto dele — rosnou Villachor.
Tawb fez uma careta.
– Não senhor.
Villachor olhou para o céu acima dele. Droides voadores amaldiçoados e
inúteis, os técnicos ainda não conseguiram decifrar por que não podiam tirar
fotos decentes.
– Esqueça isso — ele decidiu. Seus dois guarda-costas e Sheqoa foram os
únicos que realmente viram o homem, e neste momento, Villachor precisava que
os três ficassem exatamente onde estavam.
– Não há grande prejuízo que ele possa causar aqui fora. Não agora.
Villachor gesticulou para os outros seguranças.
– Os demais, voltem às áreas de patrulha - disse ele falando mais alto do que o
barulho da multidão. - E fiquem atentos.
Outra pessoa qualquer, até mesmo outro senhor do crime, talvez tivesse
expressado sua impaciência andando de um lado para o outro no saguão. Mas
vigos não andavam de um lado para o outro. Pelo menos não esse. Qazadi estava
perfeitamente imóvel quando Villachor e seus dois guarda-costas entraram pela
porta; ele encarou e trespassou Villachor com um olhar frio.
– O cryodex está em nossas mãos, Vossa Excelência - anunciou Villachor. -
Estão verificando se há armadilhas neste exato momento.
– E aquele tal mestre Kwerve? - perguntou Qazadi.
– Ele fugiu da reunião e deixou o estojo em um lugar diferente
– disse Villachor. — Provavelmente já foi embora das dependências.
– Sem o companheiro? - Um leve sorriso gelado surgiu nos lábios de Qazadi. -
Acho que não. Alerte seus guardas para vigiarem as portas com cuidado. Mais
cedo ou mais tarde ele tentará entrar na mansão.
– Os guardas já foram alertados - respondeu Villachor tentando não torcer a
cara. Ele não precisava de um vigo para dizer como deveria gerenciar o próprio
território. - As portas estão bem seguras.
– Ótimo — falou Qazadi. — Eu gostaria de ver esse suposto cryodex. Quando
termina a verificação?
Do outro lado do saguão, a porta da sala da guarda se abriu e
surgiu Dempsey, com um passo que era uma mistura fatídica de urgência e
hesitação. Ele segurava o cryodex em frente ao corpo com as duas mãos, como
se fosse uma obra de arte de valor incalculável.
– Eu diria que a verificação está completa agora - disse Villachor ao acenar
para Dempsey. - Traga-o aqui. Pelo que vejo não havia explosivos?
O olhar de Dempsey se voltou para Qazadi. Porém, em vez de responder, ele
simplesmente apertou o passo.
Villachor sentiu uma nova pontada de raiva. Ele não estava acostumado a ver
suas perguntas serem ignoradas.
– Eu perguntei se havia explosivos - repetiu Villachor asperamente.
– Não havia, mestre Villachor — falou Dempsey ao parar aos trancos a alguns
metros do grupo. Agora ele parecia fazer muito esforço para não olhar para
Qazadi. - Mas havia uma armadilha, um tubo de gás pressurizado pronto para
explodir em uma nuvem quando o estojo fosse aberto.
Então Kwerve tinha uma última carta letal na manga. Ele e seu pessoal
pagariam caro por aquilo.
– Que tipo de gás?
– Vou precisar levar o tubo de volta ao laboratório para realizar uma análise
química adequada - respondeu Dempsey. - Mas a etiqueta... - A língua lambeu o
lábio superior. — A etiqueta identificava como fieljina branca.
Um chiado violento irrompeu dentro do grupo de Qazadi, um som diferente de
tudo que Villachor ouvira antes. Ele estremeceu como reação e se virou para
olhar.
Villachor pensava ter visto Qazadi furioso antes. Ele estava errado. Foi assim
que um homem furioso foi realmente visto.
– Excelência? Ele perguntou cautelosamente.
– Você vai encontrar esse humano, Kwerve, e trazê-lo para mim — Qazadi
disse em uma voz que fez um frio percorrer o corpo de Villachor. Então você
encontrará todos os membros da sua organização e também os trará para mim.
– Entendido, Excelência — disse Villachor, desejando que o demônio o
levasse embora. Ele se virou para Dempsey. Em nome da galáxia, o que é esse
fieljine branco?
– É um veneno — disse Dempsey, tremendo visivelmente naquele momento.
Isso só mata o falleen.
Villachor olhou para ele, sentindo o sangue escorrer de seu rosto. Em um
piscar de olhos, isso passou de uma rivalidade comercial para algo amargamente
pessoal.
Kwerve estava morto, certo. Assim foram todos em sua organização e,
provavelmente, todos que já tiveram relações com sua organização.
E a menos que Villachor executasse o filho de Sith, e rapidamente, ele
provavelmente se juntaria a todos eles.
– Eu vejo — ele disse. Bem ...
Ele parou de novo, enquanto a porta se abriu de repente. Ele se virou, quase
esperando ver Kwerve e uma equipe de assalto fortemente armada, entrando para
resgatar seu companheiro.
Mas eram apenas dois membros de sua equipe de segurança, Becker e Tarrish,
que estavam à porta, com um homem desconhecido usando suspensórios de
camponeses, espremidos entre eles.
– O que aconteceu? Ele rosnou.
– Alguém de fora, chamado Crovendif, disse-nos para trazê-lo, senhor —
disse Becker, seu comportamento profissional rachando quando percebeu o
clima tenso no saguão. - Crovendif disse que esse é o homem que deu a amostra
de brilhestim para ele, há alguns dias.
Villachor sentiu uma pontada de alívio. Finalmente notícias boas, e o
momento não poderia ter sido melhor.
– O senhor pediu a organização de Kwerve, Vossa Excelência - disse Villachor
fazendo um gesto para que eles entrassem. - Aqui está o primeiro deles.
– Sério? - disse Qazadi enquanto observava o recém-chegado.
Villachor notou que o breve acesso de raiva aparentemente
havia passado. Com Falleens, ele sabia que isso podia ser um mau sinal ou um
péssimo sinal.
– Traga-o para mim. - Qazadi gesticulou para Dempsey. - E o cryodex.
Villachor confirmou a ordem com um aceno de cabeça. Becker e Tarrish
conduziram o prisioneiro para Qazadi e pararam a alguns metros de distância ao
serem interceptados por dois dos guarda- costas do Falleen, que pegaram o
homem sob custódia silenciosamente, porém com firmeza. Ao mesmo tempo,
Dempsey foi cautelosamente até o grupo e da mesma forma entregou o cryodex
para um dos Falleens do Qazadi, que por sua vez passou o aparelho para o chefe.
– Como o senhor pode ver, Vossa Excelência, é realmente um cryodex - falou
Villachor enquanto Qazadi estudava o instrumento. - E como lhe disse, minha
única intenção era atrair esse sujeito e a organização dele...
– O que é isso? - rosnou Qazadi, subitamente com raiva de novo. - Onde você
pegou isso? - Ele disparou um olhar fulminante como laser para o prisioneiro. -
Onde conseguiu isso? - indagou o Falleen.
– Eu não sei - reclamou o prisioneiro estremecendo diante da fúria do Falleen.
- Quem quer que sejam essas pessoas, eu não estou com elas...
Abruptamente, Qazadi deu um longo passo à frente e estapeou com força o
rosto do homem. Ele cambaleou para trás e só não caiu no piso de pedra porque
os guardas impediram.
– Vossa Excelência, o que foi? - perguntou Villachor cautelosamente.
Qazadi virou um olhar cruel para ele.
– Este aqui não é um cryodex qualquer - disparou o Falleen. - Esse é o
cryodex de Aziel. De AzieD.
– De Aziel? - repetiu Villachor, completamente confuso agora. - Ele tem o
próprio...?
E numa onda repentina e horrível, ele compreendeu. Aziel não detinha os
códigos de um cryodex que Qazadi guardava em sua suíte, da forma como
Qazadi lhe contara. Ele jamais tivera. Na verdade, Aziel era o guardião do
próprio cryodex.
Mas se aquele era o cryodex de Aziel, então a oferta de Kwerve para copiar os
arquivos de chantagem...
Villachor ficou aflito. Era impossível. Para um ajudante de um vigo do Sol
Negro, era completamente impossível sequer pensar em traição.
E, no entanto, ali estava o cryodex, entregue a eles pelo próprio Kwerve. O
cryodex de Aziel.
Ou alguma coisa que parecia o cryodex de Aziel.
– Só pode ser uma cópia — disse Villachor no silêncio tenso. — Uma
falsificação.
– Como? - indagou Qazadi. - Há marcas na parte traseira que só o cryodex
dele tinha. Marcas que nenhuma outra pessoa jamais
veria. Marcas que certamente ninguém mais notaria. Por que elas
teriam sido incluídas?
– Eu não sei - falou Villachor. - Mas só pode ser um truque. Porque se for
mesmo o cryodex do lorde Aziel... - Ele se interrompeu ao se dar conta de que
não ousaria dizer.
Qazadi não teve tais escrúpulos.
– Então Aziel é um traidor - disse ele baixinho. - E portanto, talvez, você
também seja.
– Não - falou Villachor rapidamente. Talvez rápido demais. - Se eu estivesse
planejando alguma coisa com o lorde Aziel, nós dois dificilmente precisaríamos
passar por essa complicação toda. Eu poderia ter entregado os arquivos para ele
há muito tempo.
– Talvez você tenha feito isso - disse Qazadi. - Talvez esse seja apenas o
método que você escolheu para atrair meu interesse para a questão e depois
providenciar a minha morte. - Ele ergueu o cryodex levemente. - Com certeza,
assim que eu estivesse morto, seria difícil provar quem seria o verdadeiro dono
deste aparelho.
Villachor sentiu um nó no estômago. A situação inteira era uma loucura
completa.
Mas um vigo do Sol Negro não precisava das típicas provas de um tribunal
para tomar decisões e julgar. Ele poderia fazer isso puramente baseado nas
próprias suspeitas.
– Mas eu não acho que veneno seja o seu estilo - continuou Qazadi. - Se não
for você, talvez um de seus homens esteja agindo em conluio com o traidor.
O primeiro impulso de Villachor foi negar. Seus homens eram leais,
selecionados a dedo pelo próprio Sheqoa.
O segundo impulso foi manter a boca bem fechada. Se a ameaça de morte de
Qazadi fosse apontada para outra pessoa, não seria para ele.
Qazadi também sabia disso.
– Vejo que você não nega a possibilidade - comentou ele.
– Infelizmente, tudo é possível, Vossa Excelência - falou Villachor escolhendo
as palavras com cuidado. - Antes do dia de hoje, eu teria dito que a lealdade de
todos os meus homens ao Sol Negro era inquestionável. Agora... - Ele balançou
a cabeça.
– Sim - disse Qazadi, e a palavra saiu da boca como um silvo de cobra. - Você
retirou todos os guardas humanos da caixa-forte, como mandei?
– Sim, Vossa Excelência - confirmou Villachor. Na ocasião, ele achara a
ordem perigosamente estúpida; agora, estava bem contente por ter obedecido. -
E verifiquei a caixa-forte após eles terem saído. Os datacards continuam no
lugar. - Villachor usou a cabeça para indicar o prisioneiro, que havia conseguido
ficar mais ou menos de pé e estava apoiado entre os guardas. - O que o senhor
quer que eu faça com ele?
– Eu cuido dele - disse Qazadi com um olhar frio para o homem. - Você disse
que não está com essas pessoas, humano?
– Eu nunca ouvi falar desse tal Kwerve - respondeu o sujeito, com a voz
estremecida, a respiração fraca e acelerada. - Ou desse Aziel, ou de um cryodex,
ou de todo o resto. Eu só tenho uma boa fonte de brilhestim e procuro alguém
para distribuí-lo para mim. Até trouxe outra amostra, que está com ele ali. - Ele
começou a erguer a mão a fim de apontar para Becker.
E ofegou engasgado quando o guarda de Qazadi dobrou o braço dele no
cotovelo.
– Eu não estou com eles - gemeu o prisioneiro. - Eu juro.
Por mais um momento, Qazadi encarou o sujeito. O homem
estremeceu sob o olhar do Falleen e evitou seus olhos como se estivesse à
beira das lágrimas. Bem diferente do traficante arrogante e convencido que
Crovendif havia descrito, pensou Villachor com desdém.
– Levem-no para meus aposentos - disse Qazadi finalmente. - O que ele
carregava?
– Um comlink, uma holocâmera e uma pequena ampola - respondeu Becker. -
Talvez o brilhestim. Sem armas.
– Tragam aqui.
Novamente Becker deu uma olhadela para Villachor em busca de
confirmação, depois deu um passo à frente e entregou os itens para um dos
homens que segurava o prisioneiro.
– Levem essas coisas para os meus aposentos também - ordenou Qazadi. -
Esperem por mim lá.
– Nós obedecemos, Vossa Excelência - disse um dos guardas.
Ele empurrou o prisioneiro, e o trio foi na direção do
turboelevador de serviço no fundo do saguão. Qazadi observou a saída deles,
depois se voltou para um dos quatro guardas humanos remanescentes.
– Levem mais dois e os meus airspeeders e se posicionem em pontos de
observação ao redor do Hotel Lulina Crown - ordenou ele. - Eu mandarei o lorde
Aziel trazer o cryodex aqui. Se o mestre Villachor estiver correto e esta for
simplesmente alguma cópia bem feita, ele responderá ao chamado sem hesitação
ou medo.
Ele olhou para Villachor.
– Se o mestre Villachor estiver errado e este for mesmo o cryodex de Aziel,
ele tentará fugir. Pelas próprias ações, Aziel será condenado.
O guarda se curvou.
– Eu obedeço, Vossa Excelência. - Ele puxou o comlink e saiu rapidamente do
saguão, na direção da garagem.
– Posso oferecer a assistência da minha própria segurança? - perguntou
Villachor com hesitação.
– Existe alguém em quem você confie com a própria vida? - contra-
argumentou Qazadi.
Diante das circunstâncias, Villachor sabia qual seria a resposta correta.
– Não - admitiu ele.
– Então seus homens não podem ajudar - falou Qazadi. - Eu lhe informarei os
resultados dos interrogatórios no devido tempo.
Ele deu meia-volta e foi na direção da escada, com os dois Falleens e os três
humanos formando uma caixa móvel ao redor de Qazadi.
Villachor observou o vigo ir embora, com uma sensação de nó no estômago.
Nas quase três semanas desde a chegada de Qazadi e seu séquito, ele tinha visto
os guardas do Falleen assumirem uma formação defensiva tão óbvia apenas nas
raras ocasiões quando eles saíam da segurança da mansão para as dependências
lá fora. Obviamente, Qazadi não se sentia mais seguro dentro da casa de
Villachor.
Villachor mal podia culpá-lo. Se o cryodex era falso, como tinha sido feito?
Se era real, o que poderia ter possuído Aziel para que ele fizesse essa jogada
louca por poder?
A não ser que o pessoal de Kwerve não estivesse apenas mirando em
Villachor. Talvez eles estivessem trabalhando com ambos os lados: com Aziel
pelo cryodex, com Villachor pelos próprios arquivos.
Ou talvez não houvesse traição alguma. Afinal de contas, ele só tinha a
palavra de Qazadi de que o cryodex de Kwerve era idêntico ao de Aziel. Será
que essa era a forma de Qazadi pintar Villachor com a suspeita de traição?
Se fosse isso, provavelmente não haveria nada que pudesse fazer. Villachor
era um chefe de setor; Qazadi era um vigo. Se Aziel era realmente um traidor ou
se Qazadi estava manipulando uma prova inexistente para implicar Villachor, era
a palavra de um lado contra a de outro.
E não havia dúvida alguma sobre em que lado o príncipe Xizor acreditaria.
De repente, o acordo com os imperiais parecia cada vez melhor.
– Senhor? - disse Tawb.
Villachor saiu dos pensamentos sombrios e sentiu uma onda de determinação
renovada. Ele não sairia correndo para lorde D'Ashewl, Darth Vader ou até
mesmo o próprio imperador. Ele defenderia sua posição e lutaria pelo poder e o
território que trabalhara tão pesado para construir. O poder e o território que
eram dele por direito. Como Villachor seria sequer capaz de pensar em desistir?
E aí ele se deu conta de como fora capaz de pensar naquilo e cerrou os dentes
em um rosnado cruel.
Maldito Qazadi e seus feromônios de Falleen, de qualquer forma.
– Senhor? - repetiu Tawb com mais urgência.
– O que foi? - disparou Villachor.
– Estou recebendo informes de uma comoção lá fora - disse o guarda-costas
em tom de emergência.
– Que tipo de comoção? - A voz de Qazadi cruzou o saguão.
Villachor se virou. O falleen e sua guarda haviam parado perto da base da
escada e estavam olhando para Villachor e os outros.
Villachor virou-se para Tawb. E ele amaldiçoou Tawb e sua boca grande
também.
– Você já ouviu falar — ele rosnou. Que tipo de comoção?
– Parece... — Tawb franziu a testa e aproximou-se do comlink de seu clipe.
Parece que alguns dos droides estão ficando loucos...

O céu estava começando a escurecer, e Bink estava se perguntando se algo


estava errado, quando finalmente viu Chewbacca se aproximando casualmente
na direção deles.
Ele soltou um suspiro de alívio. O comunicador no clipe Sheqoa vinha
recebendo novas encomendas e solicitando relatórios a cada poucos minutos
durante a última hora, e embora ele podia ouvir nenhum deles claramente como
ela se aconchegou contra seu lado, ela poderia inferir a partir da contração de sua
músculos faciais e a tensão de seu corpo que algo não estava indo bem naquele
cantinho do paraíso de Villachor. O fato de que Sheqoa aparentemente estava
ignorando os relatos, a fim de continuar vagando pelas multidões - e fingindo
desfrutar da conversa com Bink - confirmou a ela que ela era o objetivo de sua
missão naquele momento.
Qual era, naturalmente, o lugar exato onde eu queria.
Chewie estava chegando cada vez mais perto, aparentemente, com sua atenção
focada em algo ao lado. Bink ainda não tinha visto Tavia, mas ele não tinha
dúvidas de que sua irmã estava se movendo atrás dela, exatamente como deveria.
Casualmente, ele tirou a mão direita sobre o braço esquerdo Sheqoa,
levantando-o para acomodar uma mecha de cabelo caindo sobre os olhos, e
dando a oportunidade para uma verificação visual final das lâminas unhas
plenamente respeitado, mas totalmente invisível abaixo de suas unhas. Eles
estavam bem colocados e prontos para ir. Com o canto do olho ele viu
Chewbacca se aproximando de sua esquerda ...
E de repente lá estava ele, em rota de colisão em um ângulo reto com ela,
enquanto fingia observar algo à sua esquerda. Bink se afastou da grande parede
peluda que se aproximava dela e se agachou para um lado para enfrentar Sheqoa.
Ela se agarrou a ele enquanto continuava o movimento evasivo, segurando o
ombro de Sheqoa com a mão esquerda, enquanto pressionava a mão direita
levemente contra o peito, enquanto soltava um suspiro de surpresa e pânico
sobre ele. rosto do seu companheiro.
Enquanto ele continuava a se virar para alcançar o outro lado do homem, as
lâminas de sua mão direita cortaram com destreza, destacando a pequena
corrente que continha a chave pendurada que pendia do colarinho ao redor de
seu pescoço. A pedra esmaltada do tamanho de um dedo caiu em sua mão, e
quando ele a envolveu na palma da mão, ele continuou a virar para o lado direito
de Sheqoa, segurando o braço direito com as duas mãos.
Qual foi a mão com a qual ele lidou com seu blaster, que ele já havia avisado
para não tocar. Com certeza, antes que ele pudesse ter seus pés totalmente
assentados, seu antebraço reflexivamente contraiu para cima e para trás,
destacando-se de suas mãos e enviando-o para trás na multidão circulante de
pessoas atrás dele. Ela meio que se virou enquanto alguém a estava segurando,
ela podia ver um vestido marrom, um chapéu de abas largas e o rosto de Tavia.
Enquanto os dois se viravam, lutando para manter o equilíbrio contra o impulso
que Bink trouxe, a mão direita oscilante de Bink escorregou sob a aba do chapéu
de Tavia, jogando-o para trás e puxando-o da cabeça de sua irmã. Quando o
chapéu foi perdido no ar, a mão esquerda de Bink entrou em uma dobra de sua
saia e pegou um dos ovos mágicos de Zerba. Ela apertou o ativador...
E num piscar de olhos, enquanto os dois caíram no chão, o vestido de seda
vermelha de Bink foi sugado em um instante para dentro do ovo, deixando-a
vestida com uma duplicata do vestido marrom de Tavia, enquanto o vestido
marrom de Tavia se desvaneceu de maneira semelhante para deixar uma cópia
do vestido vermelho de Bink aparecer.
O movimento giratório, quando caíram, fez com que, no momento do
desembarque, Bink estivesse no fundo da confusão das duas mulheres. Tavia se
levantou em um instante, rolando para dar a Bink a necessária liberdade de
movimento para rolar de bruços e fazer com que seu rosto não fosse visto por
Sheqoa. Ela terminou de executar o movimento giratório, então colocou as mãos
sob ele e se empurrou tremendo para se levantar de joelhos. Um segundo depois,
meia dúzia de mãos se fecharam em torno de seus braços, outra meia dúzia ficou
com a de Tavia e, um instante depois, as duas mulheres estavam de pé
novamente. Pé atrás de sua irmã, ouvindo tensa de perceber os sinais significam
que Sheqoa não tinha sido enganado pelo truque, Bink sacudiu-se e foi levado
pela multidão na distância, murmurando algumas palavras para tranquilizá-los de
que ele era bem para as pessoas ansiosas que estavam ao seu redor. Alguém lhe
entregou o chapéu de aba larga de Tavia quando ele passou; ela sorriu agradecida
e colocou-o cuidadosamente em sua cabeça.
– Se encontra bem? Sheqoa disse asperamente atrás dela. Bink ficou tenso ...
– Estou bem — disse Tavia, quase sem fôlego. Sinto muito. Não era minha
intenção agarrar você desse jeito.
– Está tudo bem — disse Sheqoa. Seu tom de voz ainda era abrupto, mas Bink
podia sentir que o grunhido era produto de vergonha, não de suspeita. Estúpido
estúpido wookie oaf. Isso te machucou?
– Não, não, estou bem — disse Tavia novamente. Eu tinha certeza que ele ia
me jogar diretamente no chão.
– Está tudo bem agora — disse Sheqoa, e Bink percebeu que ele estava
agarrando o braço dela e puxando-a gentilmente, mas com firmeza, para trazê-la
de volta para o lado dele.
Em algum ponto nas proximidades, audível acima do rugido da multidão e dos
chiados de vários jatos de chamas, veio o ruído de utensílios de mesa caindo.
– Epa, parece que alguém vai ter que fazer uma limpeza - comentou Tavia. -
Acho que os Wookiees não são os únicos desajeitados aqui, hoje.
As palavras mal tinham saído da boca de Tavia quando mais duas quedas
foram ouvidas nas dependências, cada uma vindo de uma direção diferente.
Meio segundo depois, uma queda ainda mais alta ecoou no muro da mansão,
acompanhada pelo grito de uma mulher ou criança.
– Isso não é alguém desajeitado - disparou Sheqoa. - Vamos.
Pelo rabo de olho, Bink viu os dois correrem na direção da
queda mais recente e desaparecerem em questão de segundos na multidão.
Ela deu um sorrisinho para si mesma ao sair da área de maneira mais relaxada.
Lá se foram as preocupações de algo ter dado errado.
O plano estava de volta ao cronograma. Chewbacca e Tavia tinham feito sua
parte, e pela cacofonia cada vez maior de quedas, berros e gritos, estava claro
que Kell e Zerba fizeram a deles.
Agora era hora de Bink fazer a parte dela.
Os demais estariam esperando por ela na porta da garagem. Bink acelerou o
passo enquanto imaginava o tamanho da confusão que os droides estavam
causando e rumou para o norte.

Dayja nunca tinha apanhado de um Falleen antes, e se o tapa de Qazadi fosse


uma amostra representativa do serviço deles, ele tinha certeza de que jamais
queria apanhar de outro Falleen novamente. Aquele único golpe ainda latejava
na bochecha, na cabeça e na maior parte da metade superior do corpo.
Mas os efeitos residuais do tapa não se comparavam à confusão mental criada
pelas revelações que ricocheteavam pelo cérebro.
Um cryodex. Então era assim que Xizor encriptara os arquivos de chantagem.
A Inteligência Imperial tinha conseguido reunir supostos trechos desses arquivos
com o passar dos anos, mas jamais havia sido capaz de decifrar a encriptação,
nem mesmo descobrir como ela havia sido feita. Havia muitos analistas, na
verdade, que rejeitavam categoricamente a ideia de que aqueles trechos fossem
de arquivos genuínos do Sol Negro e consideravam que eles eram simplesmente
desinformação feita para manter a Inteligência correndo em círculos.
Um cryodex explicava tudo. E se fora usado para encriptar os arquivos de
chantagem, por que não outras informações
confidenciais? Na verdade, por que não toda a rede de informações do Sol
Negro?
Dayja torceu o nariz. Intrigante, mas muitíssimo improvável. Era possível que
ainda existissem outros cryodexes flutuando por aí, e qualquer um poderia
instantaneamente decifrar o código indecifrável. Xizor era esperto demais para
colocar todos os filhotes recém-saídos dos ovos na mesma cesta.
Mas mesmo que fossem apenas os arquivos de chantagem, conseguir pegar
aquele cryodex seria um grande feito.
Especialmente agora que a maioria dos modelos remanescentes fazia parte da
nuvem de poeira em expansão que um dia havia sido Alderaan. Dayja não fazia
ideia de como a equipe de Eanjer conseguira pegar o aparelho de Aziel, mas não
tinha intenção de deixar Qazadi ou qualquer outro levá-lo novamente para as
sombras.
Supondo, e claro, que o aparelho em posse de Qazadi tosse de fato um
verdadeiro cryodex.
Mentalmente, ele balançou a cabeça. Dayja concordava com Villachor quanto
a isso. Tanto roubar o cryodex de Aziel quanto falsificá-lo pareciam ser
igualmente impossíveis. A coisa toda cheirava de fornia suspeita a um jogo de
conchas de um vigarista, e até que Dayja soubesse qual concha escondia o
verdadeiro cryodex, não fazia sentido tomar qualquer atitude.
A não ser, obviamente, a primeira atitude em todo e qualquer plano futuro, que
era se livrar dos capangas de Qazadi.
– Entre - rosnou um deles quando a porta do turboelevador se abriu.
Dayja encolheu os ombros completamente desmoralizado e obedeceu. Os
guardas se juntaram a eles, e todos subiram.
Dayja notara ao longo dos anos que os roteiristas de holodramas tinham um
estranho fascínio por turboelevadores. Eles gostavam especialmente de escolher
tais lugares como o local perfeito para um herói ou uma heroína capturados
entrarem em ação contra os malignos captores, usando mãos, pés ou armas
escondidas para matar ou nocautear os oponentes, geralmente antes de eles
sequer chegarem ao andar de destino. Talvez fosse do drama do ambiente
confinado que os produtores gostavam, ou talvez as brigas em turboelevadores
simplesmente não precisassem de um cenário decorado e deixassem um estrago
mínimo para limpar depois.
Aquilo era, obviamente, ridículo. O ambiente confinado implicava que não
havia para onde o fugitivo escapar, além da desvantagem adicional de ter que
lutar com um círculo inteiro de inimigos ao mesmo tempo. A falta de mobília ou
decoração significava que não havia armas improvisadas à mão. Também não
havia como dizer que tipo de ambiente ou situação se revelaria quando a porta
do turboelevador se abrisse. Mesmo que o herói sobrevivesse a tudo isso, um
turboelevador não tinha lugar para esconder os corpos.
Finalmente, o fato de que os bandidos assistiam aos mesmos holodramas
significava que eles esperavam perfeitamente que surgisse confusão em
turboelevadores. Como resultado, os guardas tinham a tendência de cercar ainda
mais o prisioneiro em tal ambiente, deixando os sentidos alertas para qualquer
sinal de confusão.
Infelizmente para eles, o fato de estarem atentos a sinais de violência iminente
os deixava mais distraídos de qualquer outra coisa. O que tornava os
turboelevadores o local ideal para um prisioneiro arrombar algemas.
Dayja já havia se soltado na hora em que a porta se abriu no quarto andar.
– Aonde estamos indo? - perguntou ele ao espiar pela abertura, nervoso.
O corredor tinha uma decoração luxuosa, com vasos de plantas e obras de arte
caras ao longo das paredes, um tapete espesso no piso e um teto modelado com
cobertura cintilante. Um andar para hóspedes, sem dúvida, cujos únicos
residentes atuais eram Qazadi e seu contingente de guardas. Várias portas no
corredor estavam vazias, mas não havia ninguém visível.
– Para seu próprio inferno pessoal - respondeu um dos seguranças ao empurrá-
lo para fora do turboelevador. - Ande.
Turboelevadores eram péssimos locais para brigar. Portas de turboelevadores,
por outro lado, eram ideais.
A porta aberta mais próxima levava a um quarto de dormir que possuía uma
decoraçao ainda mais Domta que a do corredor, o armário de vestir tinha uma
tranca, mas havia espaço suficiente no outro lado da cama enorme para ambos os
corpos. Dayja parou para retirar dos guardas mortos o comlink e a holocâmera
que lhe foram confiscados e depois voltou ao turboelevador. Teria sido bom
também pegar uma das armas de raios, mas ele não descartaria que Qazadi fosse
capaz de mandar colocar um chip de rastreio em todo o armamento dos guardas.
Assim que o alarme fosse acionado e a caçada começasse, não faria sentido
facilitar sua localização para eles.
A planta original da mansão do governador incluía uma escada para o telhado
ao lado do duto do elevador de cozinha que subia da parte central do prédio.
Havia uma chance de Villachor ter selado a escada por julgá-la desnecessária e
um possível risco para a segurança, mas valia a pena tentar.
Ele ficou um pouco surpreso de ver que a escada ainda estava ali, com a
entrada escondida atrás de uma impressionante pintura com quatro painéis.
Dayja abriu a porta, entrou de mansinho e depois fechou a pintura da melhor
maneira possível.
Telhados eram tradicionalmente lugares ruins para um fugitivo ficar
encurralado, especialmente aqueles tão altos que tornavam os pulos uma garantia
de morte ou de graves ferimentos. Mas sua fuga provavelmente seria descoberta
dentro de poucos minutos, e a mesma lógica que argumentava contra os telhados
como esconderijos deveria mandar os caçadores de Villachor correndo para
verificar todos os outros locais prováveis primeiro. No mínimo, o telhado
deveria dar um pouco mais de tempo para Dayja.
E naquele exato momento, era de tempo que ele mais precisava.
Subindo as escadas o mais silenciosamente que pôde, ele puxou seu comlink.
Ele só esperava que sua ligação não chegasse tarde demais.
CAPÍTULO

19

Do outro lado das dependências escuras veio um som de madeira sendo


quebrada.
– Lá - disse Tawb apontando naquela direção. - Lá se vai mais um.
– Parece o som de um droide de manutenção chutando um banco -
acrescentou Manning. - Sim, está confirmado. Tallboy está indo lá para tentar
derrubá-lo.
Villachor fez um esforço para manter o que sobrara da paciência. Alguns
droides com defeito, e seus pretensos seguranças profissionais estavam em
pânico?
– Nós temos técnicos para isso — rosnou ele ao dar meia-volta a fim de
retornar para a porta aberta atrás de si. - Chame-os.
– Não - disse a voz de Qazadi dentro da porta.
Villachor parou e engoliu um xingamento.
– Eles são droides com defeito, Vossa Excelência - disparou ele. - Acontece o
tempo todo. Provavelmente um vazamento de
frequência entre motivadores...
– Ou um ataque proposital - interrompeu Qazadi. - Como seu chefe de
segurança parece considerar que seja.
Villachor franziu a testa.
– O quê?
– Ele está vindo até você agora — disse Qazadi.
Villachor se virou. De fato, Sheqoa apareceu na orla da multidão e vinha
correndo na direção de Villachor, com a mão no pulso de uma jovem em um
vestido vermelho que era meio puxada, meio arrastada por ele.
E com certeza havia uma expressão séria em sua face.
Villachor arreganhou os dentes. Traição e deslealdade por toda parte,
prisioneiros que podiam deter a solução esperando interrogatório, e tudo com
que esses tolos se preocupavam eram alguns droides fora de controle?
Mas Qazadi estava preocupado, e era Qazadi quem mandava. Tudo que
Villachor podia fazer era resolver aquela confusão o mais rápido possível e
voltar aos verdadeiros problemas.
– São os droides, senhor — falou Sheqoa ao se aproximar deles. — Tanto os
garçons quanto os de manutenção.
– Sim, eu estou ouvindo - rosnou Villachor quando outro estrondo e grito de
susto surgiu de algum lugar a noroeste. - Eu já chamei Purvis. Se for um defeito
de programação, ele consertará.
– Eu não acho que seja um defeito - insistiu Sheqoa. — Acho que é uma
distração proposital. Meus homens já estão sobrecarregados, e esta situação os
está distraindo ainda mais...
– Sheqoa! - disparou Villachor sentindo uma pontada de horror e fúria. O
pescoço do homem... — Seu pingente!
A mão livre de Sheqoa foi para sua garganta, enquanto seus olhos se
dilatavam com o mesmo horror no momento em que ela tocava o lugar onde
deveria estar a chave pendurada. Então, jogando uma maldição, ele puxou a
mulher para encará-la.
– Onde está? Ele estalou quando ela parou de tropeçar entre ele e Villachor.
Droga, onde está?
– Onde está o que? - ela protestou, encolhendo diante do olhar dele -. Eu não
sei do que você está falando.
Sheqoa amaldiçoou novamente e empurrou-a para Tawb.
– Segurá-la — ele ordenou quando ele enfiou a mão no bolso e tirou a barra
de luz. Classificando o seletor para emitir radiação ultravioleta, ele segurou a
mão direita da mulher, aproximou-a e focalizou a luz nela. Villachor deu um
passo à frente e olhou para a mão.
Nada Apenas a pele normal, com o cálcio de suas unhas brilhando com o
branco usual, sem nenhum sinal no corante revelador de corante que cobria todas
as teclas penduradas.
Sheqoa lançou um olhar ilegível para Villachor, deixou cair a mão direita da
menina e colocou a luz UV em sua mão esquerda. Nem nada.
– E Qazadi pediu-lhes de dentro da porta.
– Ela pegou — Sheqoa disse sombriamente. Eu não sei porque ele não mostra
evidências do corante, mas eu sei que ele pegou. Ele parou de segurar a mão,
mas ele estalou o braço dela para que fosse novamente colocado ao lado da
mulher surpresa. Talvez com... – Ele pegou a mão esquerda novamente, desta
vez virando-a para que pudesse observar de perto a parte de baixo de suas unhas.
Ele amaldiçoou baixinho e mudou para a mão direita, fazendo o mesmo
escrutínio naquele conjunto de unhas.
– Lâminas de unha? Villachor perguntou.
Mais uma vez Sheqoa jogou a mão da mulher para o lado dela.
– Ele deve ter conseguido se livrar deles de alguma forma — ele rosnou.
– Do que você esta falando? A mulher perguntou. Olha, eu não quero causar
nenhum problema com o seu pessoal, mas isso é suficiente. Eu tenho direitos, e
não tenho que ...
– Cale a boca — interrompeu Sheqoa. Ele se virou e olhou para a multidão,
tentando alcançar o comlink de seu clipe. Kastoni deve estar muito perto. Vou tê-
lo carregado para dentro e gravá-lo completamente.
– Não — disse Qazadily calmamente. Eu vou cuidar disso.
Villachor se virou, enquanto a frustração se apoderou dele.
– Com todo o respeito, Vossa Excelência, você tem outros prisioneiros para
questionar — disse ele tão civilmente quanto podia. Prisioneiros que sabemos
estão realmente envolvidos.
– Ela também está envolvida — insistiu Sheqoa.
– Os outros terão que esperar, Mestre Villachor — disse Qazadi-. Mas esta é
uma fêmea. Nós, as falleen, temos certas raízes para fazer as fêmeas falarem.
Villachor observou a mulher. Seu rosto endureceu.
– Você tem alguma coisa que queira nos contar? Ele convidou.
Ela engoliu em seco.
– Não tenho nada a ver com o que você está dizendo — disse ele com firmeza.
Eu vim aqui hoje para a homenagem ao fogo em movimento, e ...
– Leve-a para o interior, Sheqoa — disse Villachor, apontando para a porta. Se
Sua Excelência deseja dispor dela, devemos agradar a Sua Excelência.
– Sim, senhor.
Sheqoa pegou o punho da mulher e novamente meio que a puxou, meio que a
arrastou até a porta e ao Falleen que a aguardava.
– E depois tire alguns homens das dependências e faça uma varredura na
mansão — disse Villachor para Sheqoa. - Começando com os prisioneiros.
– Sim, senhor.
Villachor se voltou para as dependências, rosnando baixinho a cada estrondo,
baque ou grito. Aparentemente, o chefe de Kwerve queria seu pessoal de volta.
Era hora de ver o preço que ele estava disposto a pagar por eles.

– Eles a levaram para dentro. - A voz tensa de Rachele surgiu no comlink de


Lando. - Alguém lá dentro levou Tavia... eu não consegui ver quem foi.
Lando olhou para as dependências escuras e se abaixou por reflexo quando
uma bola de fogo passou girando acima e iluminou brevemente a área.
– Eu aposto que foi Qazadi - disse ele. - Pelo menos torço que sim.
– Você torce que sim? Lando, você faz ideia do que um Falleen faz com as
mulheres?
– Sim, eu ouvi as histórias - respondeu Lando com a cara fechada. — Estou
torcendo para que ele esteja com Tavia porque calculo que esteja com Han
também. E nós sabemos onde Han está.
– Talvez - falou Rachele. — Se Winter estiver certa a respeito da fumaça.
– Eu ainda não vi que ele estava errado — lembrou Lando. E pedir um charuto
de alguém, só para poder enviar lufadas de fumaça através de uma clarabóia, é
exatamente o tipo de coisa que Han faria.
– Bem — disse Rachele. É melhor você entrar lá e tirar os dois. E rápido.
– O mais rápido que podemos — prometeu Lando. Me dê o sinal.
– Certo — ela disse com relutância. Apenas tenha cuidado, não esqueça tudo
que Dozer teve que passar em seu interrogatório com Aziel. Eles são quase tão
ruins com os homens quanto com as mulheres.
– Vou ter cuidado.
Ele desligou o comlink e olhou para o céu. A noite caiu rapidamente e os
fogos de artifício não levaram mais de meia hora para serem acesos. Eles
tiveram que resolver tudo antes disso.
Só ele e Chewbacca não podiam se mexer. Ainda não. Não até Bink fazer os
outros entrarem em segurança dentro do cofre.
Para a segurança de sua irmã, seria melhor se Bink fizesse sua parte no tempo
estimado.

Kell e Zerba estavam esperando perto da porta do estacionamento quando


Bink chegou.
– Você entendeu? Kell perguntou.
Bink assentiu com a cabeça, colocando a mão na boca e recuperando a chave
pendurada de onde ele havia escondido, debaixo da língua. O rastreamento de
tintura de cor, provado exatamente da mesma maneira que cheirava, só que mais
forte.
– A propósito, bom trabalho com os droides — disse ele enquanto corriam
para a porta e através dela. Além era um corredor de serviço de cor clara. Para
onde estamos indo?
– O ambiente de reparo dos dróides está por aqui — resmungou Kell,
enquanto se dirigia para as profundezas da passagem de serviço. O controle e as
operações dos dróides geralmente estão na mesma área.
– Vamos — ele disse a Bink para Zerba, puxando as alças de fechamento de
seu vestido marrom. Eu já te alcancei.
– Certo — disse Zerba, puxando um blaster escondido de seu cinto. O sabre
de luz?
Bink puxou a bainha de sua saia e desembrulhou o sabre de luz, retirando-o de
sua anágua interna. Ele entregou a Zerba, recebendo o blaster em troca, e
enquanto ele estava trotando pelo corredor atrás de Kell, ele voltou para a tarefa
de se livrar de seu vestido.
Não era o mesmo material fácil de rasgar como o vestido vermelho que ela
usava nele. Mas pelo menos Zerba se certificou de que não houvesse ganchos,
atacadores, gravatas ou qualquer outro aborrecimento complicado associado a
esse tipo de vestido. Depois de um minuto, o vestido já havia sido retirado, e as
ferramentas e outros equipamentos que haviam sido colocados na parte inferior
das pernas já estavam colocados nos lugares mais convenientes do cinto em seu
quadril. .
Sua última tarefa foi a de inserir o pingente de chave em uma bola de massa
de vidraceiro rock, abrindo uma fresta na porta exterior que tinha atravessado, e
coloque a massa no chão perto da porta, impedindo-a fechada. Tudo com o
objetivo de que, no momento em que Lando estivesse pronto para entrar, ele
pudesse chegar ao interior da mansão sem ter que intimidar qualquer guarda de
segurança para abrir a porta para ele.
Ela estava a menos de dois minutos atrás das outras. Mas esses dois minutos
podem fazer toda a diferença no universo. Um pouco além do ambiente de
reparo dos andróides, ele observou uma porta com uma longa incisão de borda
enegrecida sobre ela. Franzindo a testa, ele correu para ela e olhou através da
rachadura.
Era a sala de controle dos dróides, com todas as paredes cobertas por
controles, consoles de computadores e telas de indicadores. Kell e Zerba
estavam lá dentro, andando entre três corpos imóveis esparramados no chão
perto de várias cadeiras. Com uma careta, Bink abriu a porta de mansinho e
entrou.
Zerba deu meia-volta quando a porta se abriu e apontou a arma de raios de
porte pequeno para ela. Ele abaixou a arma novamente assim que viu quem era.
– Por que demorou? — perguntou Zerba.
– Tente sair de um desses vestidos — respondeu ela acenando com a cabeça
para a porta. - Eu nunca me dei conta de que sabres de luz faziam tanta confusão
assim.
– O meu faz - disse Zerba ainda soando um pouco aborrecido.
– Por que acha que eu não quis usar na porta exterior? Venha aqui e me diga o
que eu preciso fazer.
– Provavelmente nada — falou Bink passando agilmente por cima de um dos
corpos. - Eu espero que você tenha se lembrado da ordem de Han de não matar
ninguém, se fosse possível evitar.
– Não se preocupe, eles só estão atordoados - garantiu Kell. - Acho que este
aqui é o console dos Zs. Mas parece bem maciço.
– Não é um problema - disse Bink enquanto olhava para o console ao lado de
Zerba. - Zerba, aquele teclado ali. Digite oito ou nove números, quaisquer oito
ou nove números servem, e depois repita três ou quatro vezes.
– Certo — respondeu ele e começou a trabalhar.
Bink foi até o console de Kell, uma versão mais blindada do que o console de
Zerba.
– Mesma coisa - falou ela para Kell apontando um dos teclados.
– Zerba, jogue aquele sabre de luz para mim, pode ser?
– Deixa comigo - Zerba digitou o último número, depois foi até eles e tirou o
sabre de luz de seu cinto. — Desculpe, mas ele já é suhcientemente
temperamental nas circunstâncias atuais. Do que você precisa?
– Um cortezinho aqui — respondeu Bink enquanto passava o dedo por uma
das conexões traseiras. — Com mais ou menos 3 centímetros de comprimento, e
não corte nenhum dos fios atrás dela.
– Pode deixar.
Ele ligou o sabre de luz, que emitiu um chiado meio engasgado que não
parecia em nada com os sabres de luz em velhos holodramas. A lâmina também
não parecia com nada que Bink tinha visto na vida, um tom enjoativo de amarelo
que não tinha mais do que 14 ou 13 centímetros de comprimento.
– Eu sei - resmungou Zerba ao posicionar o sabre de luz com cuidado no
ponto que Bink indicara.
Ele devia pedir muitas desculpas pela arma. Ainda assim, por mais que fosse
inútil em uma luta, o sabre de luz era mais do que perfeitamente adequado para o
que Bink precisava. A ponta da lâmina cortou o metal com facilidade, ainda que
fizesse barulho, e deixou outra cicatriz escura como a da porta.
– Ótimo — disse ela. - Feche o sabre de luz, e vamos sair daqui.
– Você descobriu um local para nos escondermos? - perguntou Kell enquanto
os três voltavam à porta.
– Acho que sim - respondeu Bink abrindo a porta de mansinho e olhando lá
fora. O corredor ainda estava deserto. - A escada de serviço fica a 20 metros
naquela direção, e subimos ao segundo andar.
– Espere um momento - falou Kell ao retirar um disco fino do bolso e erguer
os olhos para o teto. - Tem alguma ideia de onde ficariam o intercomunicador e
os fios dos alarmes?
– Por que raios você precisa disso? - perguntou Bink.
– Ah, é mesmo... você não sabe — disse Kell. - Lando ligou enquanto você
conversava com Sheqoa. Villachor capturou Han quando ele veio mais cedo.
Bink ficou sem ar.
– O quê? Ai, maldição...
– Está tudo bem, nós temos um plano - Zerba se apressou em tranquilizá-la.
— A gente te informa mais tarde.
– Neste momento nós precisamos de uma desculpa para Lando entrar e fazer
um barulho - falou Kell. — É isso aqui. — Ele balançou o disco.
Bink cerrou os dentes e passou um olho treinado por cima da porta. Se o
sistema tivesse sido instalado como geralmente era...
– Provavelmente ali — respondeu ela apontando para o canto superior direito
da porta. - Aquele deve ser um dos pontos de conexão, de qualquer forma.
– Já serve. — Kell se esticou ao máximo da altura e colocou o disco no lugar,
contra a parede. — Ok, vamos.
Bink concordou com a cabeça e franziu a testa ao olhar para trás para o disco,
enquanto novamente começava a andar pelo corredor.
– O que aquilo faz?
– Absolutamente nada - respondeu Kell. - Mas eles não saberão disso.
– A gente devia fazer silêncio agora, certo? — sugeriu Zerba.
Bink concordou com a cabeça. Ela tinha um monte de perguntas, mas elas
teriam que esperar.
A escada de serviço levou a um corredor suntuoso, e enquanto Bink ia à frente
no tapete espesso, ela decidiu que aquele era, sem dúvida, o maior alvo que já
havia atacado na vida.
– Aonde estamos indo? — murmurou Kell.
Bink sorriu. Eles tinham segredos? Beleza. Ela também.
– Vocês vão ver.

– O que você quer dizer com eles sumiram? - indagou Villachor. —Ambos?
– Sim, senhor - respondeu Kastoni, com um tom de fúria contida por pouco. -
E dois dos guardas do mestre Qazadi estão mortos. Parece que nosso vendedor
de brilhestim é mais do que um típico traficante de drogas.
Villachor apertou o comlink com tanta força que doeu. Aquilo, ou eles tinham
tido ajuda de quem quer que tivesse roubado o pingente de Sheqoa.
– Encontre-os — ordenou ele, deixando sua raiva e frustração entrarem em
banho-maria. Estourar furioso apenas o impediria de pensar claramente, e isso
era a última coisa a que Villachor podia se dar ao luxo. — Retire quantos
homens forem necessários da patrulha das dependências, mas encontre-os.
– Senhor, eles provavelmente já estão fora das dependências...
– Se estiverem, cuidaremos deles depois - interrompeu Villachor. - Você se
concentre em garantir que eles não estejam se escondendo em algum lugar na
minha casa. Ficou claro?
– Sim, senhor.
Villachor desligou, praguejou baixinho e ligou para Sheqoa.
– Os prisioneiros fugiram - disse ele quando o outro atendeu.
– Sim, eu acabei de saber - falou Sheqoa com a cara fechada. — Eu mandei
mais cinco homens para Kastoni e estou tentando retirar guardas suficientes das
dependências para colocar em cada porta.
– Utimo - disse Villachor. - Deixe bem claro que ninguém entra ou sai sem
minha ordem expressa.
– Sim, senhor - respondeu Sheqoa. — Quer que eu destaque mais alguns
homens para o senhor?
– Você quer dizer caso eles peguem Manning e Tawb cochilando como eles
fizeram com os finados guardas de mestre Qazadi? - falou Villachor em tom
ácido. - Acho que isso é muito improvável.
– Sim, senhor - disse Sheqoa. - Se eles ainda estiverem aqui, nós vamos
encontrá-los.

Han tinha rearrumado os petiscos e as garrafas de bebidas na bandeja


provavelmente pela sétima vez e se perguntava até quando deveria abusar da
sorte, quando ouviu o som suave de vários passos vindo em sua direção pelo
corredor.
Ele congelou, com uma das maçãs ainda na mão. Então, propositalmente, Han
recolocou a maçã de volta na bandeja e recomeçou a transferir os itens de volta
para o aparador. Ele resolveu que, caso quem quer que fosse decidisse dar uma
olhada, a própria bandeja seria sua melhor aposta. Han jogaria o conteúdo em
cima da cara do primeiro guarda da fila e depois tentaria chegar perto do
segundo guarda rapidamente para acertá-lo com a bandeja em si. Os passos se
aproximaram...
E passaram pela porta sem desacelerar.
Han respirou fundo e sentiu um pouco da tensão ir embora. Aquela tinha
passado perto.
Ele franziu a testa e respirou fundo novamente. Veio do corredor um cheiro
leve, porém totalmente inconfundível.
O perfume que Bink e Tavia estavam usando na manhã daquele dia.
Com três passos rápidos, ele já estava na porta. Com certeza, correndo
silenciosamente pelo corredor estavam Bink, Kell e Zerba. Pelo menos, ele
assumiu que era Bink.
– Bink! Ele meio que sussurrou o nome, quando entrou no corredor e se
dirigiu a eles.
Os três se viraram, seus engenheiros se voltando para ele também. Os três
pares de olhos se dilataram para ver quem era. Bink fez sinal para que ele se
apressasse, e então a mão que o animava mudou para colocar um dedo de
advertência em seus lábios.
Han assentiu. Ele já havia presumido que teria que ser assim.
Os três estavam de pé na frente de uma porta de metal simples no momento
em que Han se juntou a eles.
– Nós pensamos que você era um prisioneiro — Kell sussurrou, enquanto
Bink se agachou na porta com seu picklock.
– Eu estava — Han sussurrou, olhando para a placa da estação elétrica na
porta. Teremos espaço suficiente para todos nós?
– Fácil — Bink assegurou a ele. Houve um clique suave e a porta se abriu.
Enter Em silêncio.
Han já havia visto armários elétricos antes. Na verdade, ele passara boa parte
do tempo se escondendo naquele tipo de lugar de tempos em tempos nos últimos
anos. Mas eu nunca tinha visto um tão grande. Tinha uns bons dois metros de
diâmetro, com um telhado de cerca de três metros de altura, e continha uma
dúzia de cabos de vinte centímetros de espessura que corriam verticalmente ao
longo da parede dos fundos.
– O que eles dão impulso para um, destróier estelar? - murmurou ele ao olhar
para os cabos enormes.
– Quase isso - sussurrou Bink, com o ejetor de sinteticorda na mão, prendendo
a ponta do cabo em um pequeno pedaço de massinha. - Esses são os cabos que
sobem do gerador do subporão norte até a seção sul dos projetores do escudo
abrangente no telhado.
Ela desdobrou um pequeno estilingue e disparou a massinha em uma ponta do
teto, enquanto o ejetor alimentava uma linha fina de sinteticorda.
– Kell, aquele é seu - disse Bink ao cortar a linha com as microferramentas e
encher o ejetor com mais massinha. - Conte até dez, depois prenda no passador
do cinto e suba até o teto.
Quando a massinha estava suficientemente sólida para Kell começar a subir,
Bink já tinha colocado duas linhas no lugar.
– Acho que temos que dividir uma - falou Bink enquanto retirava o cinto de
escalada e entregava para Han. - Já teve alguém sentado no seu colo a 2 metros
do chão?
– Não recentemente - respondeu Han ao prender o cinto na cintura. Quando
ele ficou pronto, Kell e Zerba já estavam lá no teto, com os corpos espremidos
contra a cerâmica. - O que faremos se eles olharem para cima?
– Já cuidei disso - garantiu Bink. Ela foi até Han, enfiou a sinteticorda no
passador no cinto, depois deu meia-volta e recuou para se aconchegar nele. —
Você quer operar? Ou deixa comigo?
– Eu faço — resmungou Han sentindo uma onda inesperada de vergonha e
irritação.
Quer Bink estivesse sendo sincera ou não, havia uma hora e um lugar para
flertes, e ali não era nem um, nem outro. Han encontrou o controle, e os dois
saíram do chão quando o cinto recolheu a linha. Alguns segundos depois, ambos
estavam espremidos contra o teto entre Kell e Zerba.
– E agora? - perguntou ele.
– Pegue isso — disse Bink ao entregar para Han um pedaço grosso de algo
que parecia a seda que Zerba usara para fazer os vestidos rasgáveis das
mulheres; no centro de um lado havia um anel flexível do tamanho de um dedo. -
Segure firme no anel, mantenha-o embaixo de você e puxe o cadarço da ponta. E
não solte.
Han abaixou a mão e obedeceu...
E teve um sobressalto de surpresa quando o material se desdobrou para fora
em todas as direções, com cada ponta se expandindo até chegar à parede daquele
lado.
– Tecido camaleônico - explicou Bink. - Parede ou teto instantâneos, em um
prático tamanho portátil.
– Eles não vão notar que o teto é mais baixo do que deveria ser? - perguntou
Kell.
– As pessoas jamais sabem a altura que os tetos deveriam ter - respondeu Bink
dando de ombros. - Vocês dois, segurem firme nas bordas e estabilizem o tecido.
Ótimo. Agora, tudo que temos que fazer é esperar os caçadores passarem por
essa parte do...
Bink se interrompeu quando ouviu um clique suave por baixo deles. Um
segundo depois, a porta foi escancarada e uma eletrotocha brilhou. A luz reluziu
suavemente pela borda do tecido camaleônico enquanto quem quer que estivesse
lá embaixo brandia a eletrotocha pelo quadro elétrico. Han ficou tenso, à espera
do inevitável grito anunciando a descoberta...
Mas não houve nenhum grito, e a porta foi batida com força.
Bink contou até vinte antes de falar novamente.
– E aí estaremos quase prontos para ir — terminou eia.
– Não exatamente - disse Zerba ao puxar o comlink. - Eu tenho que dar o sinal
para Rachele.
– Sinal para quê? - perguntou Han.
– Depois que você foi capturado, nós decidimos que não podíamos nos dar ao
luxo de deixar que Villachor percebesse o lance dos droides - explicou Zerba. -
Então Lando vai ajudar.
– Lando?
– Sim - falou Zerba. - Que pena que vamos perder a atuação dele. Deve ser o
apogeu da carreira de Lando.
– Sério? - perguntou Han franzindo a testa. - Quem ele vai encarnar?
– A última coisa que você esperaria - falou Zerba, e Han o imaginou sorrindo
no escuro. - Ele vai encarnar alguém respeitável.
CAPÍTULO

20

Lando jamais gostara da ideia de Bink se esconder em um quadro elétrico.


Gostara ainda menos quando a tarde virou noite, e quando Han, e depois Tavia,
foram capturados. A segurança de Marblewood estaria ainda mais alerta após
tudo aquilo, e ter visto uma demonstração do tecido camaleônico não diminuíra
suas dúvidas.
Então, quando ele finalmente recebeu a ligação de Rachele, foi ao mesmo
tempo um alívio e muita surpresa.
E houve até um bónus quanto à parte do alívio.
– E Han está com eles? - perguntou Lando apenas para garantir.
– A não ser que Zerba tenha errado o código - disse Rachele. - Ele não enviou
detalhes, mas se Han estivesse ferido, acho que Zerba teria dito alguma coisa.
– Provavelmente - falou Lando. Então Han havia escapado por
conta própria. Ele deveria ter imaginado que eles não o manteriam preso por
muito tempo. - E quanto a havia?
– Nada - respondeu Rachele com a voz séria. - Mas se Qazadi assumiu a
situação, e com certeza nós demos muitas razões para ele fazer isso, então é
provável que tanto ela quanto Han tenham sido levados para o local onde ele se
instalou. Zerba confirmou que aquelas nuvens de fumaça que vimos eram um
sinal de Han, então Tavia provavelmente está na mesma área.
– É o local para começar, de qualquer forma - concordou Lando.
Ele espiou por trás do refrescador portátil para a porta da garagem a 50 metros
de distância. Um dos homens de Villachor se posicionara ali, com a coluna ereta
e rígida, e a cabeça se movendo de um lado para o outro enquanto vasculhava a
área ao redor. Villachor e Qazadi estavam nervosinhos, de fato. Era hora de levá-
los além do limite.
– Ok, vou entrar - falou ele. - Avise Chewie e Eanjer que a porta deve estar
livre em alguns minutos.
– Entendido. Boa sorte.
Lando desligou e guardou o comlink enquanto dava a volta pelo refrescador,
olhando inocentemente ao redor. Os técnicos e seguranças de Villachor
capturaram a maior parte dos droides com os misturadores soltos por Kell e
Zerba, mas ainda havia um número suficiente deles no ambiente para dar um ar
de preocupação distraída a uma multidão até então festiva. Somando isso aos
jatos e chafarizes de chamas ainda ligados por todas as dependências, não havia
muita atenção sobrando para notar alguém como Lando apenas parado
calmamente ao lado.
Ele tomou coragem, puxou o ovo de Zerba e apertou o ativador.
Lando esperou sentir um choque ou sobressalto quando a roupa exterior de
seda tosse arrancada e puxada para dentro do ovo, porém praticamente não
houve sensação alguma. Um belo truque, decidiu ele, que deveria ser estudado
para uso futuro.
Ele parou um instante para examinar o uniforme da polícia da Cidade de Iltarr
que vestia agora, tirou um pedacinho de seda que se soltara de alguma forma ao
ser arrancado, e puxou o quepe dobrado que estava enfiado dentro da túnica.
Colocou o quepe na cabeça, com cuidado para a aba cobrir bem os olhos, e pediu
uma última esperança ao céu de que o aparelho que Bink e Tavia haviam
plantado para confundir os droides-câmera tivesse feito seu serviço. Não daria
certo se o guarda ali o reconhecesse como o mesmo homem que trouxera um
cryodex contrabandeado para seu chefe examinar.
Lando respirou fundo e se empertigou, assumindo a postura de autoridade
arrogante que tinha visto muitas vezes em policiais e seguranças. Passou pela
curva do refrescador e foi a passos largos na direção da porta da garagem.
A primeira reação do guarda ao ver a figura que se aproximava foi enfiar a
mão embaixo da barra da túnica, na direção da arma de raios escondida. A
segunda reação, quando um jato de chamas do outro lado das dependências
iluminou brevemente a cena e o uniforme de Lando, foi não se mexer um único
centímetro daquela postura.
– O que você quer? - gritou ele.
– Sargento Emil Talbot, da polícia da Cidade de Iltarr — disse Lando com
educação. — Eu preciso verificar a ligação de emergência que nós recebemos de
alguém aí dentro.
Outro jato de chama foi disparado em algum lugar atrás dele, formando uma
espiral sibilante, e na luz, Lando viu o guarda que os seus olhas estavam se
estreitando.
– Desculpe, oficial, mas tenho ordens de não admitir ninguém sem
autorização de ...
– Sou sargento, não oficial — gritou Lando. E eu não preciso da sua
permissão para investigar uma situação de emergência. Alguém, em sua sala de
controle de dróides, ligou para informar que estavam sob ataque. E eu já estava
na cena, se isso ...
– No ambiente de controle dos droides? O guarda perguntou, endurecendo.
– Sim, no ambiente dos dróides. Lando apontou o dedo para a porta atrás dele.
Agora, faça essa porta abrir neste momento, ou eu juro para você ...
– Sim, claro — disse o guarda, recuando e dirigindo-se ao comlink camuflado
no clipe em seu ombro. Eu só tenho que fazer uma ligação ... Senhor, eu sou
Pickwin. Eu tenho um sargento da polícia da cidade de Iltarr aqui, que diz que
eles receberam uma chamada de emergência da sala de controle dos dróides ...
Sim, senhor, imediatamente.
Ele recuou e abriu a porta.
– O mestre Villachor enviará alguns de nossos homens para verificar — disse
ele.
– Eu também tenho que dar uma olhada para mim — insistiu Lando.
– Entendido, senhor — disse Pickwin. Como sempre, o Mestre Villachor está
mais do que disposto a cooperar com a polícia. Se ele tem que fazer assim, eu fui
ordenado a acompanhá-lo até a cena.
– Obrigado - disse Lando. Ele passou pelo guarda e atravessou a porta,
parando do lado de dentro para esperar por Pickwin. O outro homem o seguiu,
fechando a porta atrás dele.
E logo antes de fechar, Lando viu algumas figuras movendo-se pelos jardins
em direção à porta: uma delas era do tamanho de um ser humano normal; o
outro, o porte alto, como se fosse uma torre, de um Wookiee.
– Aqui, senhor — disse Pickwin, indo pelo corredor.
Lando seguiu, resistindo à tentação de lançar um olhar furtivo atrás dele. Se
Bink tivesse seguido o plano e deixado sua chave roubada onde Chewbacca
poderia encontrá-lo, ele e Eanjer deveriam estar bem atrás dele.
Se ele não tivesse, Lando estava sozinho.

– Confirmado, senhor — disse Kastoni gravemente. A entrada da sala de


controle dos dróides foi definitivamente forçada. Provavelmente uma tocha de
plasma, embora o corte pareça um pouco estranho. Três técnicos estavam no
andar de baixo, incluindo Purvis. A boa notícia é que eles estavam apenas
atordoados.
– Sim, isso é maravilhoso — rosnou Villachor enquanto observava nos jardins
escuros, os bolsos caóticos de pessoas ainda se formando entre as multidões.
Purvis era o chefe da seção de dróides, com um conhecimento mais prático
daquelas malditas máquinas do que qualquer um dos outros cinco homens de
Villachor. Com ele incapacitado, os dróides de serviço e manutenção, que
estavam fora de controle, teriam que ser derrubados um a um. Por que diabos
eles não pediram ajuda? Mesmo um jato de plasma levaria tempo para passar por
aquela porta.
– Provavelmente tentou — disse Kastoni. Há algo na parede, no topo das
linhas de intercomunicação e alarme. Provavelmente é um certo bloqueador de
sinal de algum tipo.
– E você não pensou em usar seus links em vez disso?
– Claro, é assim que a polícia descobriu sobre isso — disse Kastoni
acidamente. Eu acho que eles não poderiam se comunicar com ninguém até que
fosse tarde demais.
E isso talvez porque todos os homens de segurança também estava usando
seus comlinks, perseguindo os dróides defeito, e determinado a encontrar os
prisioneiros que haviam desaparecido. Villachor notou um conjunto de fontes de
chamas à distância, que giravam para uma música distante, de modo que ele
pudesse ouvi-la.
– O que há com esse policial? Eles verificaram isso?
– Sim, senhor — disse Kastoni. É o sargento Emil Talbot. Eu não o conheço
pessoalmente, mas sua identidade está correta e aparece no sistema. Além disso,
parece que ele é treinado para lidar com a cena do crime.
– De qualquer forma, manter um olho sobre ele ordenou Villachor, sua mente
foi agitada novamente com o incidente no Hotel "Crown Lulina" e como Qazadi
tinha manipulado contatos Villachor no Departamento de Polícia de enterrar essa
investigação. Pickwin está de volta na porta?
– Sim, senhor — disse Kastoni. Eu o mandei de volta assim que ele passou a
informação sobre Talbot.
– Bem — disse Villachor, embora não houvesse uma coisa boa nessa situação.
Estou mandando Sheqoa para assumir. Assim que chegar, você e Bromley
voltarão para sua equipe de pesquisa.
– Sim senhor.
Villachor desligou o comlink, novamente com uma carranca na escuridão que
estava cheia de raios de fogo, e digitou o número de Sheqoa.
– Você ouviu alguma coisa de Qazadi, sobre Aziel e seu cryodex? Ele
perguntou quando o outro havia respondido.
"Não ele, senhor, não — disse Sheqoa. Mas nossos homens no hotel acabaram
de informar que Lorde Aziel e seus guardas deixaram o quarto e estão indo para
o estacionamento do hovercraft. Eu estava prestes a ligar para ele.
"Faça-os segui-lo — ordenou Villachor. Se este era um jogo que Qazadi e
Aziel cozinhavam entre si, pelo menos ele queria manter os olhos focados em
como isso iria se desenvolver. Então siga em direção à sala de controle dos
dróides. Tivemos uma infiltração e quero que você supervisione o policial que
veio investigá-lo.
-Sim senhor.
Villachor se desconectou e lançou outro olhar sobre o recinto. Seria em um
espaço de tempo muito curto que os fogos de artifício começariam.
Normalmente, essa era a parte mais feliz e ansiosamente esperada do Festival.
Mas Villachor não estava ansioso por eles começarem. Não totalmente.
Porque um show de fogos de artifício apropriado iria forçá-lo a desconectar
seu escudo protetor de energia.
Ele olhou para o céu. Cancelar o show, seria uma tremenda perda de prestígio
aos olhos da comunidade.
Mas se Qazadi ou Aziel tivessem planejado algum tipo de ataque aéreo ...
Felizmente, ainda não havia necessidade de tomar tal decisão. Ainda não. Ele
poderia esperar até que eles capturassem os prisioneiros fugitivos, ou até que
eles confirmassem que haviam deixado o Rancho de Mármore; ou até que os
homens de Sheqoa descobriram o que Aziel estava fazendo na "Corona de
Lulina".
E ele definitivamente não tomaria nenhuma decisão até que Sheqoa e o
sargento Talbot descobrissem o que os intrusos estavam fazendo na sala de
controle dos dróides.

– Acho que sim - respondeu Winter.


Ela abaixou os eletrobinóculos e esfregou os olhos rapidamente com a ponta
dos dedos. Quatro airspeeders entraram na garagem do Hotel Lulina Crown,
outros três saíram, e no intervalo entre eles, Winter já estava com o
procedimento e o cronograma na ponta da língua.
– É melhor começarmos a voar assim que um airspeeder passar pela quarta
abertura, contando a partir da entrada - continuou ela apontando para uma das
largas passagens no paredão da garagem. - Isso deve fazer com que a gente bata
no veículo sem dar muita chance para que ele saia do caminho, ao mesmo tempo
mantendo a ilusão de ter sido um acidente.
– E nosso ângulo está certo?
Winter franziu a testa. Dozer ficara olhando intensamente para a garagem
desde que eles chegaram, com tanta intensidade que ela praticamente era capaz
de ouvir as engrenagens girando no cérebro.
– Está ótimo - disse Winter. — Vamos acertá-lo no ponto cego. E, com o
atendente olhando para o outro lado enquanto realiza o procedimento de saída do
hotel, ele também não nos verá. Tudo bem com você?
– Tudo bem - garantiu Dozer. - Estou pensando que, depois de batermos no
airspeeder e bloquearmos aquela entrada, talvez você devesse permanecer aqui
para manter o atendente ocupado enquanto eu cruzo e bloqueio a entrada do
outro lado.
– Achei que você quisesse que eu fosse ajudá-lo.
– Acho que não vou precisar de você - falou ele. - É melhor ficar por aqui,
onde não vai atrapalhar.
– Onde não vou atrapalhar? - repetiu Winter. - O que isso quer...
– Ali está um - interrompeu Uozer ao pegar novamente no volante e ligar os
faróis. — Segure-se.
O airspeeder cruzou a passagem que Winter apontara. Ela agarrou o cinto de
segurança quando o veículo saltou à frente e acelerou em direção à entrada da
garagem. Ela contraiu o corpo por reflexo, depois fez um esforço para relaxar os
músculos. Essa era a melhor maneira de evitar ferimentos. O veículo-alvo
apareceu atrás da estação do atendente e começou a fazer uma curva lenta para
entrar pela passagem. Dozer acelerou por mais meio segundo, depois pisou no
freio como se tivesse subitamente percebido o obstáculo.
Com uma batida de revirar o estômago, o mundo inteiro de Winter pareceu se
afundar em seu peito, girar por cima da cabeça e cair como um saco de batatas
sobre os ombros. Houve um grito horroroso de metal, plástico e cerâmica que
reverberou em seu ouvido como uma lixa.
E então, abruptamente, tudo ficou em silêncio.
Winter pestanejou duas vezes, e na segunda piscadela seu mundo confuso
subitamente se ajeitou. O airspeeder estava virado de lado em um ângulo de
trinta graus e apontando para cima, com o bico quase tocando no teto da
garagem. Algo ali perto estava assobiando; mais baixo do que o assovio, ela
conseguiu ouvir sons tênues de gente berrando. Havia fumaça branca por toda
parte, provavelmente uma mistura do fluido resfriador do turbojato rompido com
o spray do sistema de contenção de incêndio dos airspeeders.
E Dozer havia sumido.
Ela balançou a cabeça, e o movimento ajudou a clarear as ideias.
Winter soltou o cinto de segurança. Se Dozer achava que ela simplesmente
ticana sentada ali parecendo indefesa, era meinor ele
pensar melhor.
A confusão era ainda mais barulhenta e agitada com a porta aberta, e o ar tinha
cheiro de fluido resfriador e jato de extintor de incêndio. Winter escutou com
cuidado ao sair rolando pela abertura e se deitar no piso, mas os gritos eram mais
de surpresa e fúria do que de dor e ferimentos, na verdade. Pelo menos Dozer
tinha seguido aquela parte do plano corretamente. Ela levou um segundo para
confirmar que os dois airspeeders estavam de fato bloqueando a entrada, depois
saiu de mansinho em meio à fumaça. Winter se manteve abaixada ao lado das
fileiras organizadas de veículos estacionados e rumou para a entrada, do outro
lado do hotel.
Lá, o atendente na cabine estava olhando ansioso para os destroços
fumegantes, mas não fazia menção de ir ajudar. Winter achou que ele
provavelmente tinha ordens expressas para ficar no posto, não importando o que
acontecesse.
Embora isso provavelmente fosse mudar quando o maior veículo da garagem
viesse para cima dele roncando, executasse uma meia pirueta e se enfiasse bem
na frente da entrada. Winter viu por ali três candidatos perfeitos para o serviço,
todos a quatro fileiras da entrada.
Dozer não estava em nenhum deles.
Por um instante, ela se recostou no último dos grandes airspeeders, respirando
a leve fumaça que cruzava a garagem vinda dos jatos dos extintores de incêndio,
enquanto sua pulsação reverberava nos ouvidos. O que, raios, Dozer estava
aprontando? Tudo que Lando pedira para eles era que impedissem Aziel de levar
o verdadeiro cryodex para Qazadi.
A não ser que Dozer tivesse decidido ser criativo.
De fato, Winter o encontrou no fundo da garagem, deitado de costas embaixo
de um dos quatro landspeeders negros de Aziel.
– O que você está fazendo? - indagou ela ao se ajoelhar ao lado de Dozer.
– Já não era sem tempo de você aparecer — disse ele com um resmungo. - É
você que tem esse talento maluco para identificar detalhes. Existe algum desses
landspeeders aqui que Aziel sempre use?
– Dozer...
– Eu sei, eu sei — interrompeu ele. - Grite comigo mais tarde. Agora, só me
diga qual landspeeder é o dele.
Engolindo uma palavra que certa vez deixara ela e Leia em sérios problemas,
Winter olhou para os landspeeders. O menor, com pequenas marcas...
– Aquele — respondeu ela apontando para o veículo à direita de Dozer. - Eles
se enfileram em ordem aleatória quando saem, mas Aziel sempre anda naquele.
– Eu sabia. - Dozer resmungou novamente ao sair do landspeeder e se enfiar
embaixo do que Winter identificou. - Esses caras são sempre muito previsíveis.
– Claro - falou ela. - Falando em talento maluco, você ficou completamente
maluco? Aziel pode chegar aqui a qualquer minuto, e você está tentando fazer
uma ligação direta no landspeeder dele?
– Tentando, não - corrigiu ele, com a voz interrompida pelo barulho de
ferramentas. - De qualquer forma, todos nós concordamos que os arquivos de
chantagem valem muito mais se tivermos um cryodex para juntar a eles, correto?
Winter ficou boquiaberta.
– Você está louco?
– Você me perguntou antes — Dozer lembrou a ele. Toma isto; Você poderia
descascar o isolamento nas extremidades por favor?
Um pequeno cilindro do tamanho de um dedo rolou sob o hovercraft.
– Dozer, você não vai pensar nisso — Winter insistiu, enquanto ele se
agachava e começava a puxar o isolamento nas pontas dos fios que saíam de
uma das extremidades do cilindro. Pelo menos você tem um blaster? Porque eu
não.
– Eu não preciso de um blaster — disse Dozer. Houve um duplo tinido quando
ele bateu uma de suas ferramentas contra a borda da estrutura do veículo. Eu
tenho isso Você terminou com isso? Magnifico Obrigado
Winter endireitou-se, tomando uma posição inclinada, e observou o outro lado
da capa do chinelo, em direção ao conjunto de portas do turbo elevador que
ficavam ao longo da parede. - Quanto tempo você vai levar com isso?
– Não muito — disse Dozer, enquanto a última palavra soava como um
grunhido. Eu só tenho que evitar o sistema de segurança, que é absurdamente
simples; A Sol Negro realmente precisa investir alguns créditos em um sistema
realmente confiável e, em seguida, conectá-lo a seus controles remotos. Eu
terminarei em muito pouco tempo.
Do outro lado do estacionamento, uma das portas do turbolift se abriu.
– Espero que você esteja certo — Winter murmurou com urgência. Porque
aqui vêm eles.

– Eu não sei — disse Kastoni, olhando para frente e para trás nos monitores e
teclados. Tenho certeza de que fizeram alguns ajustes em algum lugar. Por que
mais eles entram aqui? Mas não tenho ideia do que eles poderiam ser.
– Vamos precisar de um técnico — concordou Lando, fingindo olhar em volta.
Ele notou o console que Zerba havia cortado quase tão logo ele entrou na sala.
Mas, claro, ele sabia o que procurar. Ele também sabia que não deveria apontar
muito depressa. Já fiz a ligação, mas todos os nossos técnicos estão espalhados
pela cidade nos vários locais do Festival. Vai demorar um pouco para qualquer
um deles voltar.
– Tudo bem — disse o outro guarda, Bromley, do outro lado da sala. De
qualquer forma, não acho que o Mestre Villachor queira que seu pessoal esteja
bisbilhotando por aqui. Nosso chefe de andróides poderá consertá-lo assim que
ele acordar.
– Espero que sim — disse Lando, olhando casualmente para a porta.
E ele estava petrificado. No outro extremo do corredor, falando
incessantemente para o comlink escondido em seu clipe enquanto caminhava em
direção à sala de controle, estava Sheqoa.
Uma das poucas pessoas na propriedade de Marble que conhecia Lando de
vista.
De repente, Lando ficou sem tempo.
– Espere um segundo — disse ele, apontando o dedo para o console
danificado. Aquela consola ... vês o corte?
– Sim — disse Kastoni quando ele cruzou para ela. Parece que eles fizeram
isso com a mesma coisa que usaram para cortar e abrir a porta.
– Tenho certeza de que era — disse Lando, juntando-se a ele e examinando
seu próprio console. Não havia nada para identificá-lo como um painel de
controle do 501-Z, pelo menos nada que ele pudesse ver. Mas, obviamente, Bink
tinha percebido que era, e se ela pudesse fazê-lo, certamente o sargento da
polícia Talbot poderia fazer isso também. Parece que é um console de controle
501-Z — disse ele. Eles têm Zeds patrulhando os jardins em algum lugar?
Com o canto do olho, viu Kastoni balançar a cabeça em sua direção.
– Isso controla os Zeds? Ele bufou. Oh inferno. Ele tocou o comlink que
estava em seu clipe. Lando prendeu a respiração... – É Kastoni, senhor — disse
Kastoni rapidamente. Parece que eles estavam mirando no painel de controle dos
Zeds ... Sim, senhor.
Ele recuou e esticou o pescoço para olhar pelo corredor.
Sim, eu vejo ... Mestre Sheqoa? -eu chamo-. Mestre Villachor requer sua
presença.
Kastoni foi pelo corredor. Lando virou as costas para ele, inclinando-se sobre
o console Zed, enquanto fingia examinar o corte irregular que o sabre de luz de
Zerba havia produzido. Atrás dele, os dois homens conversavam em voz baixa e,
embora Lando não conseguisse distinguir as palavras, ele pôde ver a mudança no
tom de voz de Sheqoa quando parou de falar com Kastoni e começou a
conversar com Villachor. A conversa chegou ao fim e Lando ouviu passos que
estavam saindo rapidamente.
– Você foi verificar seus Zeds? Lando perguntou por cima do ombro.
– Sim, se eles ainda estão lá — Kastoni rosnou, chegando ao seu lado.
– Você sabe que a polícia sabe alguma maneira de acordar alguém que foi
atingido por um atordoador? Bromley perguntou. Alguma droga ou algo que
possamos usar?
– Nada que possa ser legal — Lando disse a ele. Sinto muito. Aqui, você
poderia me ajudar a tirar esse outro console do caminho? Precisamos ver se os
cabos deles também entram nos conduítes da parede.

O eco do movimentado corredor de o serviço deu lugar ao silêncio e à


tranquilidade mais tênue que prevalecia nos corredores principais da sala.
Sheqoa mal notou.
Então eles estavam atrás dos Zeds, afinal. Em retrospecto, tudo era óbvio,
especialmente depois que Villachor substituiu todos os guardas humanos que
carregavam armaduras no cofre, por um número maior de dróides de kriffing.
Tudo isso fora idéia de Qazadi. De qualquer forma, ele também amaldiçoou o
estúpido idiota com escamas verdes.
A menos que não fosse estúpido. A menos que fosse parte de algum plano
maluco Qazadi Aziel, Kwerve e talvez o mesmo kriffing Príncipe Xizor, tinha
preparado para derrubar Villachor e colocar outra pessoa em seu lugar.
Bem, não faria mal a eles continuarem sonhando. Não importa quão grande
seja o sucesso que o misterioso intruso poderia ter obtido com os dróides de
serviço e manutenção do lado de fora, ele certamente descobriria que os Zeds
eram um osso duro de roer. Eles eram terrivelmente difíceis de reprogramar ou
desativar, especialmente sem os códigos gerais de acesso que apenas Villachor e
Purvis, o chefe dos andróides, possuíam. Uma vez que Purvis se recuperasse do
impressionante impacto, ele poderia checar os Zeds e consertar qualquer dano
que o intruso tivesse conseguido infligir. Enquanto isso, Sheqoa e Villachor
iriam para o cofre, sozinhos se necessário, e ficariam de guarda diante dos
arquivos de chantagem preciosos e seguros de Xizor.
A menos que Purvis fizesse parte do enredo.
Sheqoa olhou para o luxuoso corredor. O lindo e complicado Festival das
Quatro Honrarias de repente se tornara um labirinto de conspirações dentro de
conspirações dentro de conspirações. Com Qazadi e seu plano secreto de um
lado, e alguém subornando os funcionários de Marblewood do outro, ele não
tinha mais noção de em quem podia confiar.
– Mestre Sheqoa?
Sheqoa arreganhou os dentes. Ele certamente não confiava naquele sujeito.
– O que você quer, Barbas? - rosnou Sheqoa, sem se dar ao trabalho de dar
meia-volta ou mesmo diminuir o passo.
– Temos uma mensagem de Sua Excelência - respondeu Barbas.
Ele ouviu o som suave de passos vindo correndo, e Barbas e outro dos guardas
de Qazadi (Narkan, Sheqoa hesitou em identificá-lo) surgiram nas laterais de
Sheqoa.
– Sua Excelência exige a graça de sua presença - relatou Barbas.
– Sua Excelência terá que esperar - falou Sheqoa rispidamente. - Neste exato
momento eu tenho uma possível crise nas mãos.
– Uma crise para o mestre Villachor e Marblewood? - perguntou Barbas
incisivamente - Ou uma crise para o mestre Lapis Sheqoa?
Sheqoa balançou a cabeça.
– Eu não faço ideia do que você está falando.
– Então deixe-me esclarecer - disse Barbas. - A mulher que você mandou para
nós está dando algumas declarações fascinantes para Sua Excelência. Uma das
declarações é que ela não consegue se lembrar de ter visto seu pingente com a
chave por pelo menos uma hora antes de mestre Villachor finalmente notar que
ele havia sumido.
Sheqoa sentiu uma onda de desdém superar a raiva.
– E você acreditou nela? Uma ladra desgraçada, e você realmente acreditou
nela?
– Sim, quanto a isso - falou Barbas. - Nós a examinamos detalhadamente e
não encontramos nada. Nem sinal de tintura rastreadora; nenhuma
microferramenta, ou mesmo marcas onde as microferramentas poderiam ter sido
presas; nenhuma arma, equipamento ou contrabando de qualquer espécie. Até
onde sabemos, a mulher não é nada além da alpinista social avoada que parece
ser.
– Então vá mais fundo - rosnou Sheqoa. - Ela é a ladra. Eu sei disso.
– E Sua Excelência adoraria que você provasse isso para ele - disse Barbas. -
Isso deve tomar apenas alguns minutos de seu tempo.
– Discordo - falou Sheqoa e parou abruptamente.
Barbas e Narkan foram tomados completamente de surpresa, cada um dando
ainda outro passo antes de conseguir reagir. Os dois pararam e se viraram para
encarar Sheqoa...
E congelaram diante da visão de sua pistola de raios de prontidão.
– Deixe-me lhe dizer o que vai acontecer - disse Sheqoa no silêncio tenso. -
Eu irei à caixa-forte e confirmarei que o cofre e seu conteúdo estão seguros.
Depois disso, se o mestre Villachor achar que pode dispensar meus serviços
pelos poucos minutos que você mencionou, eu terei prazer em responder
qualquer pergunta que Sua Excelência tenha para mim. — Ele ergueu o cano da
arma de raios alguns centímetros. - Você pode vir comigo, pode voltar a
Sua Excelência e esperar ou pode morrer. A escolha é sua.
– Você não ousaria - falou Barbas ameaçadoramente.
– Nós temos dois prisioneiros fugitivos e possivelmente outro intruso dentro
dessas paredes - lembrou Sheqoa. - Um deles pode facilmente ter pego uma arma
de raios.
Os lábios de Barbas tremeram em um sorrisinho.
– Muito bem. Nós aceitamos o convite gentil. Afinal de contas, o item mais
valioso no cofre é de Sua Excelência, portanto faz sentido que nós o ajudemos a
torná-lo seguro. - Ele gesticulou para o fim do corredor. - Indique o caminho.
Sheqoa enfiou a arma de raios no coldre ao passar pelos dois. Barbas podia
sorrir à vontade, mas Sheqoa sabia que ele não se esqueceria disso.
Tudo bem. Sheqoa também não.

O landspeeder de Aziel não fora tão fácil de invadir quanto Dozer fizera
parecer. Longe disso. Mas ele era o melhor, ele estava determinado, e o Sol
Negro realmente precisava gastar os créditos em uma segurança melhor.
Ainda assim, Dozer podia ouvir os passos se aproximando no permacreto na
hora em que finalmente terminou e rolou pelo chão até um ponto seguro.
Winter o esperava a cinco fileiras de distância, abaixada atrás de um clássico
Incom T-24 lindamente restaurado.
– Nada como terminar em cima do laço - murmurou ela.
– Isso mantém o coração batendo - sussurrou Dozer de volta enquanto olhava
por trás do estabilizador ventral do T-24 e se perguntava se o seu dono tinha
optado por um sistema de segurança decente.
Havia doze pessoas vindo a passos largos, incluindo Aziel. O contingente
completo, se a estimativa anterior de Rachele sobre o
tamanho do grupo estivesse correta. Em volta da cintura de Aziel
havia uma pochete que aparentemente continha o cryodex.
– Qual é o plano? - perguntou Winter.
– A primeira parte de qualquer plano é sempre a mesma - respondeu Dozer
enquanto abria o console do controle remoto que ele instalara no sistema do
landspeeder. O sincronismo ali seria importantíssimo. - Você separa o doce das
pessoas contratadas para guardá-lo.
– Se você quer dizer que espera que ele entre naquele landspeeder sozinho,
isso não vai acontecer - alertou Winter. - Lá em Marblewood, o motorista e dois
guardas sempre entraram no mesmo momento que Aziel.
– Eu sei - falou Dozer. - A gente simplesmente vai ter que se virar com o que
tem.
O primeiro humano da fila parou diante do landspeeder de Aziel e entrou pela
porta do motorista. Assim que o sujeito fez isso, o próximo homem na fila
passou por ele e abriu a porta traseira. O segurança entrou e foi seguido por
Aziel, que por sua vez foi acompanhado pelo próximo homem na fila. Os demais
guardas esperaram até que ambas as portas estivessem fechadas, depois foram na
direção dos outros três landspeeders. Dozer se concentrou para escutar o motor
do primeiro landspeeder ser ligado.
E no meio segundo entre a ignição e a digitação do código de acesso do
motorista, Dozer ativou o interruptor do redirecionador no console.
Com um ronco, os motores foram levados à potência máxima.
Dozer apertou o acelerador e girou completamente o controle de
nível; o veículo deu um pulo para cima e colidiu com força no teto de
permacreto.
Os guardas eram bons, de fato. Nenhum deles perdeu tempo olhando
boquiaberto para o movimento súbito e inexplicável do landspeeder. Em vez
disso, os oito sacaram as armas de raios e se espalharam, à procura de quem
seria o responsável pela sabotagem.
Um segundo depois, correram freneticamente para se proteger quando Dozer
derrubou o landspeeder bem no meio deles.
– Você pegou um - avisou Winter baixinho de uma nova posição, no nariz do
T-24. - O resto está se protegendo entre outros veículos.
Onde Dozer não poderia atingi-los. Mas era um atitude óbvia de defesa, e ele
tinha contado com ela. Tudo que Dozer realmente queria fazer era atrasá-los e
obrigá-los a reagir em vez de pensar.
Porque aquele era o momento de afastá-los de Dozer. Ele ergueu o
landspeeder acima do nível dos veículos em geral, balançou-o violentamente
para trás e para frente, a fim de manter os passageiros se agitando no interior, e
lançou o landspeeder pela garagem, na direção dos destroços dos dois veículos
que Dozer e Winter haviam provocado antes.
Com a mistura perfeita de raiva frustrada e reação irracional com que Dozer
contara, o grupo inteiro de guardas se levantou dos esconderijos e disparou atrás
do landspeeder.
Dozer deu um sorrisinho. Perfeito. Agora tudo que ele tinha que fazer era
manter o veículo balançando tanto que o motorista não conseguisse pressionar o
botão para desligar o motor, deixar os guardas caçarem o sabotador que eles
naturalmente presumiam que estivesse em algum ponto perto do destino do
landspeeder, e depois trazê-lo de volta para lá. Antes que os guardas
conseguissem retornar, ele deveria ser capaz de virar o veículo de cabeça para
baixo, abrir a porta, tirar o cryodex da pochete de Aziel enquanto o Falleen e
seus guardas estivessem tontos demais para fazer qualquer coisa, e fugir dali.
– Cuidado. Três deles estão entrando em um dos outros landspeeders - alertou
Winter.
O sorrisinho de Dozer virou uma careta. Ok, então os guardas de Aziel não
eram tão burros quanto ele pensara. Eles estavam dividindo as apostas; um grupo
cuidava da busca no solo, enquanto o outro voava.
O que significava que ele tinha menos tempo do que pensara para terminar o
plano.
– Você pode fazer ligação direta em um airspeeder? - perguntou Dozer para
Winter.
– Provavelmente - respondeu ela, e pelo rabo de olho, Dozer viu Winter
olhando em volta. - Algum modelo em especial?
– Esquece - falou Dozer. Ele recuou até Winter e enfiou o console nas mãos
dela. - Para frente, para trás, de lado, balançar, acelerar - disse ele rapidamente,
tocando cada controle para identificá-los. - Mantenha o landspeeder lá, e
mantenha-o em movimento.
– Dozer...
– E se o landspeeder cair, significa que o motorista desligou o motor, e nós
desistimos e saímos correndo - acrescentou ele olhando para os veículos
estacionados mais perto; Dozer optou pelo OS-20 a dois veículos dali.
– Dozer, cuidado!
Ele deu meia-volta. Um airspeeder negro entrou roncando pela entrada
desobstruída, com mais dois pairando em posições de guarda atrás dele. O
primeiro veículo parou assim que entrou na garagem enquanto o motorista
aparentemente avaliava a situação.
– São de Villachor - disse Winter com a voz tensa. - As placas...
– Sim, sim - interrompeu Dozer ao pegar de volta o console. - Pegue um
veículo para nós, eu vou contê-los.
O recém-chegado concluiu a avaliação e se voltou na direção do landspeeder
de Aziel, que estava pairando...
E virou a toda para o lado, tentando sair do caminho, enquanto Dozer
mandava o veículo sabotado diretamente para cima dele.
O outro piloto quase conseguiu. O veículo de Aziel pegou de raspão no
anteparo dos jatos e jogou o airspeeder contra a parede lateral em uma colisão
rangente. Um vislumbre de movimento chamou a atenção dos olhos de Dozer: o
outro landspeeder de Aziel havia decolado então, com propulsores a toda
velocidade, a caminho do veículo sabotado.
E com isso, as chances de Dozer de repente foram reduzidas a zero. Com dois
veículos no jogo e mais dois pairando do lado de fora, à espera de uma
oportunidade de participar, era apenas uma questão de tempo para que eles
conseguissem isolar o veículo sabotado de Aziel por tempo suficiente para o
motorista se soltar dos assentos e desligá-lo.
Era agora ou nunca.
– Proteja-se - disparou Dozer e virou o controle com força.
O landspeeder sabotado mudou de direção e colidiu novamente no recém-
chegado. Dozer virou-o novamente para frente e trouxe o veículo diretamente
para o ponto onde ele e Winter estavam abaixados. Pela visão periférica, notou
que os dois airspeeders lá fora tinham desaparecido em algum lugar. Dozer
trouxe o veículo sabotado quase até eles, colidiu-o com o teto pela última vez,
depois virou o landspeeder de cabeça para baixo e fez com que deixasse cair no
chão na frente deles.
Ele não tinha ideia de quanto tempo levaria os homens e as pessoas dentro
para se recuperar daquele duplo impacto. Ele também não tinha intenção de ficar
tempo suficiente para descobrir. Saltando de seu esconderijo, ele correu para o
veículo que estava virado de cabeça para baixo, digitou o controle de seu seguro
e abriu a porta.
O interior do slider da Terra estava quase tão quebrado quanto o exterior.
Aparentemente, Aziel tinha sido equipado com um frigobar com bebidas para o
seu conforto, o conteúdo do qual, foram espalhados em cima, ou estavam
pingando nos luxuosos assentos.
Mas nada disso importava. A única coisa que importava era o cryodex que
permanecia preso ao redor da cintura do idiota atordoado, e que não havia
blasters apontando para ele. Descompactando a mochila que estava na cintura de
Aziel, Dozer se agachou para sair do veículo e correu na direção dos turbolifts.
Ele não teve tempo para se apossar de um hovercraft naquele momento, ele sabia
disso, e mesmo se ele tivesse, ele não tinha nenhum lugar onde pudesse ir com
ele. Sua única chance era tentar escapar dos perseguidores que os procuravam no
estacionamento e jogar todas as suas possibilidades no nível do solo.
Winter estava agachado ao lado de um dos hovercrafts, trabalhando na
fechadura. Dozer agarrou seu pulso quando ele passou, fazendo-a ficar de pé e
arrastando-a para trás dele. Atrás dele, o estacionamento explodiu com os flashes
e a fúria de várias explosões de blaster, e Dozer fez uma careta enquanto muitas
das cenas queimavam o ar acima de suas cabeças. Ele pensou em olhar para trás
para ver o quão próximos seus perseguidores estavam, mas decidiu que ele tinha
que focar toda a sua atenção em sua fuga. Os turbolifts não estavam mais de
trinta metros à frente. As portas de todas abriram ao mesmo tempo...
E com uma maldição horrorizada, Dozer parou de repente. Em um piscar de
olhos, a situação subitamente chegara ao fim.
O jogo estava encerrado... e ele e Winter haviam perdido.
CAPÍTULO

21

Villachor estivera esperando impacientemente na antessala da caixa-forte por


quase dois minutos até que finalmente Sheqoa apareceu.
Só que ele não estava sozinho. Sheqoa tivera a consideração de trazer
convidados.
– O que eles estão fazendo aqui? - indagou Villachor. - Eu não chamei
ninguém além de você.
– Eu também não chamei ninguém, senhor - rosnou Sheqoa. - Eles se
convidaram. E eu não achei que tivesse tempo para matá- los.
Villachor olhou feio para os dois capangas, muito tentado a mandar que
fossem embora e a reforçar a ordem com os Zs então imóveis em frente à porta
da caixa-forte.
Mas Sheqoa tinha razão. Haveria tempo para lidar com os capangas de Qazadi
mais tarde.
Com um muxoxo de desdém, Villachor deu as costas para eles. Os dois
queriam assistir? Muito bem - que assistissem. Ele ainda era o senhor de
Marblewood, da caixa-forte de Marblewood e de tudo que havia dentro dela. E
naquele momento, pelo menos, não havia nada que os homens de Qazadi ou até
mesmo que o Falleen em pessoa pudessem fazer a respeito. Villachor foi a
passos largos até o Z principal e ergueu a mão até a face do droide para a
confirmação de odor de sempre. Villachor decidiu que ele e Sheqoa entrariam,
verificariam se o cofre ainda estava seguro, e depois reconfigurariam os Zs no
interior da caixa-forte para uma possível invasão. Àquela altura, Villachor
poderia sair ou esperar lá dentro com os droides...
Ele franziu a testa. A mão ainda estava na face do Z, mas o Z estava apenas
parado ali.
– Cheire — ordenou Villachor aproximando a mão. A colónia com a senha
não poderia ter vencido. Ela nunca vencia. - Eu mandei cheirar - repetiu ele,
desta vez pressionando a mão bem no metal.
Villachor recolheu sua mão justamente a tempo de o Z subitamente ganhar
vida e erguer seu enorme braço para segurar Villachor, enquanto sua outra mão
descia para o chicote neurônico enrolado na lateral.
– Senhor! - disse Sheqoa ao pular para frente.
– Eu sei, eu sei - rosnou Villachor ao recuar rapidamente para fora do alcance
do chicote.
Os Zs eram programados para reagir severamente se fossem tocados.
E as implicações daquela reação gelaram seu sangue.
O intruso penetrara na programação do Z, de fato, exatamente como o
policiais na sala de droides avisara. Mas ele não havia simplesmente desligado
todos os Zs, da maneira como um ladrão sem imaginação teria feito. Em vez
disso, o intruso havia reprogramado suas lealdades, convertido os droides para o
lado dele, de forma que, em vez de impedir o acesso de intrusos, os Zs estavam
impedindo a entrada de Villachor.
Só havia um motivo para fazer algo tão complicado e demorado assim: ganhar
mais tempo no outro extremo da situação.
O intruso não tinha intenção de invadir a caixa-forte. Ele já estava lá dentro.
Com um xingamento, Villachor arrancou o comlink e ligou para Kastoni.
– Purvis já acordou? - disparou ele.
– Eu não sei, senhor - respondeu Kastoni. - Ele e os demais foram levados
para a enfermaria por Bromley e dois técnicos...
– Não importa - interrompeu Villachor. Então o intruso achava que podia virar
os Zs contra seu mestre? Muito bem. Aquele jogo ele também podia jogar. - Vá
ao painel de controle dos Zs e acione a página principal de status.
– Sim, senhor.
Villachor fez um gesto para que Sheqoa se aproximasse.
– Você ainda tem homens de prontidão na sala da guarda? - perguntou ele
mantendo a voz baixa.
– Sim, senhor, cinco - confirmou Sheqoa. — Uzior está no comando.
– Mande que coloquem os trajes — ordenou Villachor. — Equipamento
completo, e que desçam até aqui o mais rápido
– Sim, senhor. — Sheqoa tocou o comlink de colarinho, e os olhos se
voltaram para os homens de Qazadi, parados ali do lado. - Senhor?
– Eu sei e não me importo - rosnou Villachor. - O intruso está lá dentro, ou
estará em breve, e mandou que os Zs o ajudassem. Então vamos tirá-los de cena.
Sheqoa olhou para a fileira dupla de Zs.
– Sim, senhor - falou ele, não parecendo muito contente com a ideia. - O
senhor acha...
– Estou na página de status, senhor - interrompeu Kastoni.
– Vá na caixa de inserção de código no canto superior esquerdo - orientou
Villachor, que fechou os olhos para visualizar a sequência. - Digite os seguintes
números: oito, quatro, cinco, cinco, dois...
Villachor informou a sequência completa, depois mandou que Kastoni lesse
de volta para ele.
– Ótimo - disse Villachor. - Agora aperte “ativar”.
– Posso perguntar o que o senhor está fazendo, mestre Villachor? - falou um
dos homens de Qazadi.
– Estou resolvendo um problema - respondeu Villachor olhando feio para o
homem. - Eu espero que você não esteja planejando se tornar outro.
– Não, senhor, de maneira alguma - garantiu o sujeito com um leve sorriso.
Mas Villachor notou que o sorriso não se refletia no olhar.
E que a mão dele estava muito próxima à arma de raios.

Só quando passos pesados começaram a soar no corredor do lado de fora do


quadro elétrico é que Han realmente começou a acreditar que a coisa toda
pudesse funcionar mesmo.
Foi um pensamento surpreendente. Na maior parte do tempo, ele sempre
achava que seus planos tinham uma chance de sucesso de cinquenta por cento, e
mesmo assim, só se ele começasse a remexer como louco a ideia original, que
começava a fazer água de todos os lados. Mas por algum motivo, este parecia
estar funcionando exatamente como deveria.
Claro, se eles não levassem em conta o pequeno par de falhas secundárias que
eu tive ao longo do caminho.
– Parece que havia cerca de cinco deles — Bink murmurou, seu ouvido
pressionado contra a porta. Eles também parecem bastante apressados.
– Acho que eles estão procurando por Han e seu cartão de dados mágicos —
disse Zerba. Ele parecia ainda mais surpreso do que Han, que o plano estava
funcionando. Em todo caso, o que havia nele?
– Simples e simplesmente, uma base modificadora de perfume — disse Bink,
deslizando uma fina linha ótica por baixo da porta e ajustando a ocular sobre o
olho. O tipo que se adapta à química do seu corpo ao longo do dia. Um toque foi
suficiente para os reagentes dissolverem a colônia na mão de Villachor e alterá-
la o suficiente para torná-la irreconhecível para os Zeds. Tudo bem, parece claro.
Han assentiu.
– Primeiro — ele disse.
Na verdade, o corredor estava deserto. Os guardas que tinham acabado de
trovejá-lo com o passo, haviam se lembrado de fechar a sala de guarda quando
saíram, mas era uma fechadura comum e Bink fez o seu caminho em questão de
segundos. Os quatro patifes escorregaram para dentro, fecharam a porta e
prenderam-na novamente.
Era a coisa mais próxima da réplica de um ambiente de preparação militar
padrão, como Han nunca tinha visto. Duas das paredes estavam cobertas com
conjuntos de armaduras que imitavam a blindagem dos droides Zs, sobre os
quais Kell havia alertado, dispostos no mesmo tipo de estrutura automática que
os stormtroopers imperiais usavam para ajudá-los a entrar nas armaduras. As
outras duas paredes eram dedicadas a armários de roupas, gabinetes para
equipamentos e um aparador para comidas e bebidas como aquele na área de
estar em que Han se escondera mais cedo. No centro da sala havia um par de
mesas de jogos e cadeiras, com um grupo de beliches de três camas visível
através de uma porta aberta em uma sala dos fundos.
– Por onde começamos? - perguntou ele para Bink.
Ela se abaixou entre as duas mesas e segurou um pequeno sensor logo acima
do piso.
– Bem aqui deve servir - respondeu ela, que desenhou um pequeno círculo
com o dedo no tapete fino. - Zerba?
– Que profundidade? - indagou ele ao se ajoelhar ao lado de Bink e ligar o
sabre de luz.
– Cerca de 10 centímetros - disse Bink enquanto prendia um gancho naquele
ponto do tapete. - Não tem que ser preciso... não há muitos fios de sensores
embaixo.
Zerba concordou com a cabeça e cuidadosamente cortou um círculo em volta
do gancho. Ele desligou o sabre de luz, e Bink puxou a tampa do buraco.
– Agora, se eles fizeram isso corretamente - comentou ela ao enfiar a ponta do
cabo óptico dentro do buraco e mexê-lo de um lado para o outro -, deve haver
uma malha de fios de sensores... sim, lá estão eles. Ok, Zerba: um círculo de um
metro de diâmetro daqui até aqui. Com essa espessura. — Bink ergueu a tampa
para demonstrar. — Desta vez, a precisão importa.
– Certo. - Zerba ligou o sabre de luz novamente e se pôs a trabalhar.
Han olhou ao redor da sala, de repente acometido por um pensamento
esquisito. Sua parte do trabalho de campo deveria ter acabado com a entrega do
datacard sabotado para Villachor. Na verdade, de acordo com o plano original,
ele deveria estar na suíte naquele exato momento, observando as dependências
de Marblewood com eletrobinóculos e ajudando Rachele e Winter a coordenar o
resto da operação. Ali, naquele instante, Han basicamente não tinha nada para
fazer.
Os olhos dele se voltaram para a fileira de trajes blindados. Ou talvez ele
tivesse o que fazer.
– Kell? - chamou Han baixinho enquanto andava até o traje mais próximo.
Não parecia muito complicado de entrar.
– O quê? - perguntou Kell surgindo ao lado dele.
– Você sabe alguma coisa sobre esses trajes?
– Nada específico - disse Kell passando os dedos pelo metal do capacete,
pensativo. - Suporte de vida completo, provavelmente. Com certeza tem
ampliação de força motora, meio painel transparente, capacidade de
comunicação e um conjunto parcial de sensores. Possivelmente mira óptica
também.
– Obrigado - falou Han secamente. Uma pena que o garoto não soubesse nada
específico. - Pode me dar uma mão?
– Vai a algum lugar? - perguntou Bink erguendo os olhos do trabalho de
Zerba.
– Pensei em dar uma volta lá embaixo e ver o que Villachor está aprontando
— disse Han dando um puxão no torso da armadura para experimentar. Este se
ergueu facilmente no braço automático contrabalanceado. - Vocês três parecem
estar com essa parte do plano bem sob controle, não é?
– Mais ou menos — Bink disse quando ela e Zerba removeram o círculo que
haviam cortado do chão e o colocaram de lado.
Han esticou o pescoço para olhar dentro do buraco, trabalhando na perna
esquerda e no quadril na parte de baixo de sua armadura. Juntamente com meia
dúzia de armas de raios, havia dois chicotes.
– Aqui - disse ele ao arrancar um do gancho e jogá-lo para Bink. - Eu mal
posso esperar para ouvir essa.
– É realmente muito simples - falou ela ao desenrolá-lo. - Os chicotes
neurônicos se adaptam às características neurais de qualquer pele que por acaso
estejam tocando, certo?
Kell ficou boquiaberto.
– Você está brincando.
– De maneira alguma - garantiu Bink enquanto colocava cuidadosamente o
chicote em um círculo em cima da malha de cabos. - Eles não são
suficientemente rápidos para se adaptar a um campo de pulsos normal, e é por
isso que ninguém perde tempo se preocupando com chicotes neurônicos. Mas
com o randomizador desacelerado, o chicote deve conseguir captá-los e copiá-
los numa boa.
Ela fez um ajuste final no posicionamento do chicote, pegou no cabo e
acionou o interruptor.
Houve um estalo de energia do chicote, acompanhado por um clarão de luz
branco-azulada. O chicote reluziu de novo, depois passou a emitir um brilho
azulado intermitente.
– E deve ser isso - concluiu Bink.
– Nós precisamos nos preocupar com o deve nessa frase? - perguntou Zerba.
– Vamos descobrir. — Bink fez um gesto para a cavidade. — Faça um buraco,
Zerba. Não saia do círculo do chicote.
Zerba foi devagar e com cuidado, claramente esperando que uma sirene de
alarmes fosse disparada em algum momento, e igualmente surpreso quando isso
não aconteceu. Enquanto ele trabalhava, 15ink desdobrou uma pequena grua
com tnpe e colocou sobre o buraco. Han notou as pernas do aparelho tremerem
enquanto a grua lentamente recebia o peso do segmento do subpiso e da
blindagem embaixo dele. No momento em que Kell fechou o capacete na cabeça
de Han, o corte havia terminado, a tampa fora erguida, e eles estavam retirando o
material do caminho.
– Como estou? - perguntou Han.
– Veja você mesmo - surgiu tenuamente a voz abafada de Bink pelo capacete.
– Como? - grunhiu Han olhando para a escuridão diante dele.
E então, subitamente, o interior da placa frontal se acendeu com uma imagem
da sala, sobreposta com medidas de distância. Havia uma minúscula versão
infravermelha no canto superior direito e um igualmente minúsculo visor com a
imagem traseira no canto superior esquerdo.
– Melhorou? - A voz de Kell surgiu normalmente nos ouvidos.
– Sim - respondeu Han olhando o monitor.
Havia uma barra de status que percorria a parte inferior da imagem e marcava
a configuração do sistema de comunicação, os níveis de energia e de captação de
som e opções avançadas de sensores.
– Os controles devem estar bem aqui - disse Kell ao virar o braço esquerdo de
Han e indicar a parte interna do pulso. - Vê alguma coisa?
– Vejo agora - respondeu Han com um sorrisinho.
Onde ele tinha visto apenas metal liso do lado de fora do traje, o painel
transparente agora indicava meia dúzia de botões e controles deslizantes
suscetíveis ao toque. Para experimentar, Han levou a mão direita ao pulso
esquerdo e tocou no botão de visão telescópica e, em seguida, deslizou o dedo ao
longo do slide. A imagem na frente dele saltou para ele, ampliando os controles,
o braço e a seção do chão que estava além deles.
– Sim, eu entendi — disse ele, deslizando o escorregador de volta ao lugar e
desligando o osciloscópio. Você tem alguma entrada aqui para conectar um
comlink adicional? Eu acho que o comlink do traje está integrado no circuito de
segurança.
– Sim, deve haver uma entrada aqui — disse Kell, tocando o capacete atrás da
borda da bochecha direita. Há uma entrada de ar escondida atrás deste aro.
Deixe-me ver se consigo encaixar meu comlink aqui para você ... Ok, isso deve
funcionar. Zerba?
Zerba tirou o seu link.
– Probando?
– Chega — disse Han.O som do comlink era fraco, mas enquanto não
houvesse muito barulho lá fora, ele deveria ser capaz de ouvir bem o suficiente.
Ok, estou indo para baixo. Boa sorte com o cofre.
– Espera um segundo. Bink tirou um detonador do bolso e jogou para Kell.
Kell, desde que você está com vontade de colocar acessórios, veja se você pode
encontrar um lugar para isso.
– Não há problema, pode ser anexado logo abaixo do comunicador — disse
Kell. Deixe-me ver ... lá. É logo abaixo do comunicador, Han. Pressione para
fazer o trabalho.
– Espere um segundo — disse Zerba, franzindo a testa para Bink. Eu pensei
que você ia tomar conta dessa parte.
– Han ia estar lá assistindo o show de qualquer maneira — Bink apontou. Eu
poderia ter a honra. Além disso, você terá uma visão melhor e um ângulo melhor
do que eu poderia ter.
– Ela está certa — Han concordou, olhando para o quadro de armas.
Tudo que ele precisava para completar o novo traje era algo que tivesse o
máximo de poder em curto alcance.
Os olhos bateram em uma pistola de raios pesada Caliban Modelo X:
cinquenta disparos em carga plena, com alcance de 60 metros, e quase tão
poderosa quanto um fuzil de raios. Serviria muito bem.
Ele enfiou a Caliban no coldre da armadura, no lado direito. Depois, quase se
esquecendo, soltou o outro chicote neurônico e o prendeu na cintura esquerda.
– Tomem cuidado - falou Han ao sair.
– Você também — disse Kell.
Um momento depois, Han estava a caminho, pisando forte no corredor, com
um mau pressentimento. Essa parte da operação era de Bink, e se ela tivesse
sucesso, seria o auge de toda a sua carreira. Não havia chance de Bink entregar
de bandeja o grande momento para ele. A menos que ela tivesse uma razão
muito boa para isso.
Infelizmente, aquela razão não era difícil de adivinhar. No minuto em que
Bink abrisse o cofre, ela cruzaria a mansão para encontrar a irmã.
Han murmurou um xingamento e sentiu a respiração quicar no painel
transparente e voltar para os lábios. O problema era que Bink jamais conseguiria.
Não sozinha. Certamente não sozinha e com toda a segurança de Marblewood
agitada do jeito que estava. A divisão de tarefas naquela operação toda fora bem
clara: Lando e Chewbacca, na extremidade norte da mansão, iriam atrás de
Tavia; Bink, Zerba e Kell, na extremidade sul, cuidariam do cofre. Esse fora o
combinado desde o começo, e nenhum dos ajustes de última hora de Lando
mudara isso. Bink, aparentemente, iria mudá-lo de qualquer maneira.
E não havia nada que Han pudesse fazer a respeito. A não ser que eles
quisessem descartar a operação e fossem todos resgatar Tavia juntos, e eles
tinham ido longe demais para isso.
Han só podia torcer para que Bink se acalmasse e pensasse melhor. Desde que
Qazadi não soubesse quem estava de que lado - ou mesmo quais eram os lados -,
ele seria um tolo em pressionar demais Tavia. Especialmente com a questão do
cryodex ainda no ar. Se Bink relaxasse apenas um pouco, talvez ela visse que
poderia recuar e deixar Lando e Chewbacca resgatarem a irmã.
Porque, se Bink não fizesse isso, eles bem que podiam acabar com duas
prisioneiras para resgatar em vez de uma.
E havia uma chance muito boa de Qazadi decidir que não precisava manter
ambas vivas.

Com um chiado de propelente químico das antigas, o primeiro dos fogos de


artifício disparou para o alto saindo das dependências de Marblewood. O
propelente queimou até acabar, e houve um momento de expectativa enquanto
parecia que nada iria acontecer. Então, com um estouro de cores vibrantes, o
rojão explodiu e disparou estrelinhas no ar que depois voaram, mergulharam e
sumiram no esquecimento.
Sentado encostado em uma das chaminés, onde as sombras eram maiores,
Dayja franziu a testa. Ele sabia que os fogos de artifício eram o final tradicional
do Festival das Quatro Honrarias. Mas aquele final deveria esperar até o pleno
anoitecer, e ainda havia quinze ou vinte minutos para isso. Será que algo dera
errado?
Talvez. Por outro lado, talvez alguém houvesse notado que o grande número
de droides alvoroçados tinha ameaçado causar um êxodo em massa dos
visitantes e estivesse tentando conter aquele fluxo com o começo antecipado dos
fogos.
Se aquele fosse o plano, ele claramente parecia estar funcionando. Quando um
segundo rojão subiu chiando e depois estourou, Dayja viu que o fluxo de pessoas
indo na direção das saídas havia diminuído conforme os visitantes retornavam
para assistir ao espetáculo.
Se ao menos...
Dayja franziu a testa, abriu a holocâmera falsa e retirou a faca e os pequenos,
porém possantes, eletrobinóculos enfiados lá dentro. Ele enfiou a arma na
manga, onde seria útil caso fosse precisar da faca, ativou os eletrobinóculos e
focou no muro baixo que cercava as dependências.
De acordo com o tênue brilho das luzes indicadoras, o escudo abrangente de
Marblewood ainda estava ativo.
Um terceiro rojão explodiu no céu, e as estrelinhas se dividiram em um
desenho de flores. Deixar o escudo para esses fogos menores, tudo bem. Mas os
fogos maiores e mais rebuscados, programados para mais tarde no espetáculo,
eram feitos para voar muito mais alto antes de explodir. Se o escudo ainda
estivesse ligado quando eles fossem disparados, os fogos estourariam antes ou
possivelmente até ricocheteariam para baixo, no meio da multidão.
Talvez Villachor já tivesse cuidado disso e desligasse o escudo antes de o
espetáculo chegar ao ponto de colocar em perigo os visitantes.
Ou talvez colocar em perigo os visitantes fosse exatamente o que ele tinha em
mente.
De uma forma ou de outra, seria muito interessante de assistir.

O grande cofre redondo estava no meio da sala, se movendo pesadamente


sobre a plataforma flutuante, enquanto Bink deslizava pelo buraco no teto.
Para seu alívio, os Zs distribuídos pelo aposento permaneciam silenciosos e
imóveis. Sempre havia a chance, por mais remota que fosse, de que Villachor
reconsiderasse sua estratégia e reativasse os droides. Observando pelo buraco
acima dela, Zerba e Kell estavam quase tão quietos quanto os Zs.
O que era ótimo, porque Bink não estava a fim de conversar com ninguém
naquele momento.
Será que Han tinha adivinhado? Provavelmente. Quando se dedicava, ele
conseguia julgar muito bem as pessoas, e Han conhecia Bink a ponto de ser
capaz de interpretar suas reações. Obviamente, o simples fato de ter dado a ele o
detonador sobressalente seria uma pista mais do que suficiente para Han.
Mas ele não fizera nada para detê-la. Nem dissera nada. Provavelmente sabia
que seria uma perda de tempo.
Porque Tavia estava em perigo, e era Bink quem a tinha colocado ali. E por
mais que ela gostasse de Chewbacca e confiasse nele, Bink não tinha intenção de
deixá-lo conduzir a bola sozinho naquela situação.
Primeiro, ela tinha um serviço a fazer, pela simples razão de que a missão
garantiria que aquela seria a última vez que sua irmã passaria por aquele tipo de
perigo na vida.
Bink pousou com um leve baque no chão, olhou uma vez para a porta e depois
foi na direção do cofre flutuante, examinando-o enquanto andava. Conforme
Rachele descrevera antes, a plataforma girava lentamente seguindo o traçado de
sua trajetória em volta do salão de baile. Não muito rápido, provavelmente
apenas uma vez a cada três minutos.
Infelizmente, àquela altura qualquer rotação era um problema. A primeira
tarefa, portanto, era pará-la.
Houve um baque suave atrás dela, e Bink olhou para trás e viu Kell se
soltando da sinteticorda.
– Tem algum lugar em especial por onde você quer que eu comece? -
sussurrou ele.
– Você não precisa sussurrar - informou Bink. - O lugar é completamente à
prova de som.
Kell ergueu o olhar, como se fosse comentar que o buraco aberto acima deles
com certeza não era à prova de som. Felizmente, ele mudou de ideia.
– Estava pensado que a gente devia interromper o movimento da plataforma -
continuou Kell em tom apenas ligeiramente mais alto ao correr até ela. — Caso
contrário, o momento certo...
– Sim — interrompeu Bink. — Acha que consegue fazer isso sem deixar cair
tudo?
Kell fez que sim com a cabeça.
– Sem problema.
– Então faça.
Kell fez que sim novamente, passou por ela e retirou o kit de ferramentas
compactas e uma de suas pequenas cargas de detonita. Bink assistiu enquanto
Zerba descia de rapei, pousando com um baque bem maior do que ela e Kell
fizeram.
– Você está pronto? - perguntou Bink.
– Claro - respondeu Zerba enquanto corria até ela. — Você vai conseguir
achar a porta? Não sou fã da ideia de cutucar aquela coisa aleatoriamente.
– Também não sou fã - disse Bink. - Não se preocupe, nós vamos encontrar
isso.
As escadas se desdobraram quando se aproximaram, do jeito que Rachele
dissera que iriam. Bink subiu na plataforma e começou a girar devagar, passando
os dedos pela superfície do duracrete, procurando as marcas reveladoras de
desgaste que Winter identificara. Na metade da exploração, Bink sentiu a
plataforma parar suavemente.
– Eu entendi — disse Kell. Vou começar a definir as cargas explosivas.
– Bem — Bink respondeu, franzindo a testa enquanto olhava para o cofre.
Seria apenas uma questão de sorte se ela começou mais à direita, enquanto
procurando os orifícios adequados para os dedos, mas teria que examinar todos
os buracos escavados cerca de nove metros e meio compondo a entrada da área,
antes que ele pudesse encontrar os corretos
Mas o universo decidiu jogar de maneira cavalheiresca hoje. Dois passos
depois, ele identificou as marcas.
Os buracos corretos onde ele tinha que inserir os dedos estavam à sua direita,
exatamente como Winter lhe dissera. Cruzando os dedos mentalmente, Bink
inseriu os dedos nos buracos.
E com uma gratificante ausência de esforço ou desconforto, o segmento
inferior desdobrou-se para baixo, exatamente como a simulação de Rachele lhes
mostrara. Bink deu um passo para o lado da estrada enquanto estava sentado na
plataforma e olhou para dentro.
O túnel tinha seu próprio sistema de iluminação: um conjunto de pequenos
holofotes dicróicos instalados no teto, com um painel brilhante maior, colocado
logo acima da porta de pedra negra e do teclado que ficava na outra extremidade.
– Eu espero que você não vai me pedir para fazer um corte através disso —
Zerba advertiu como ele estava atrás dela. Eu li algo sobre a pedra Hijarna. Eu
duvido que meu sabre de luz possa começar a arranhá-lo.
– Eu não sonharia em passar por isso com o seu sabre de luz — assegurou
Bink, puxando o dispositivo de recepção e entrando no túnel.
O cuspidor dentro do datacard falso estivera silencioso desde que Villachor o
desligou no cofre, e seu transmissor de baixa voltagem não era capaz de mandar
um sinal nem através da pedra Hijarna nem das paredes magneticamente seladas
da caixa-forte. Mas Tavia calculara que ele deveria conseguir enviar um sinal
através da pedra se o receptor estivesse suficientemente perto do cofre.
Como sempre, ela estava certa. O sinal era fraco, mas legível.
– O que temos aí? - perguntou Zerba.
– Villachor abriu o cofre mais três vezes nos últimos quatro dias - respondeu
Bink com satisfação.
– Então são quatro no total, contando a vez que ele colocou o datacard aí
dentro - disse Zerba em tom de incerteza. - Eu não sei. Vai ser complicado
calcular um padrão com apenas quatro pontos.
– Rachele e Winter conseguem - falou Bink com firmeza ao voltar para a
plataforma. - Você não tem um trabalho para fazer?
– Só estava esperando até ter certeza de que o cofre não vai a lugar algum -
disse Zerba, que se debruçou sobre a borda da plataforma. - Kell?
– O cofre não vai a lugar algum - confirmou Kell. - Se a gente não terminar
isso antes de os homens de Villachor entrarem, nenhum de nós vai também.
– Entendido - falou Zerba.
Ele espiou a porta, depois deu as costas para ela e se ajoelhou ao lado do pilar
curto que ligava a bola de permacreto à plataforma. Zerba ligou o sabre de luz e
começou a trabalhar.
Bink se afastou alguns passos dele e do chiado do sabre de luz e fez uma
ligação no comlink.
Rachele atendeu quase antes de o sinal de chamada tocar.
– Bink?
– Sim - confirmou ela. - Estamos prontos aqui. Pode colocar Winter na
ligação?
– Estou tentando - disse Rachele, tensa. - Não sei dela ou de Dozer desde que
eles entraram.
Bink apertou o comlink.
– Você acha que aconteceu algo com eles?
– Não sei - respondeu Rachele. - Estou começando a me perguntar se teremos
outra missão de resgate nas mãos.
Bink soltou um suspiro de impaciência.
– Espero que não, raios.
– Eu também - disse Rachele. - Mas, de uma forma ou de outra, acho que eu e
você estamos por nossa conta.

Os cinco guardas blindados entraram pisando forte pela porta da antessala,


para alívio e irritação simultâneos de Villachor. Já não era sem tempo, droga.
– Eu quero entrar na minha caixa-forte - rosnou ele. - Esses Zs estão no meu
caminho. Tirem os droides daqui.
– Sim, senhor - falou o líder da guarda com a voz filtrada de Uzior. - Vamos
retirá-los em um instante.
Villachor olhou de lado para Barbas e Narkan, ainda parados silenciosamente
contra a parede, com expressões indecifráveis. Provavelmente já pensavam em
como relatariam aquela situação para o chefe.
Que relatassem. Que dissessem o que quisessem. De uma forma ou de outra,
Villachor sobreviveria àquilo tudo.
– Andem rápido — disse ele para Uzior. — Bem rápido.
CAPÍTULO

22

O jogo acabou, Winter pensou com frieza. Ela jogara bem e sobrevivera por
muito mais tempo do que jamais imaginara. Certamente por mais tempo que
muitos de seus companheiros. Mas então acabou.
E ela perdeu.
Sem forças, Winter estimava que havia pelo menos trinta, ao vê- los sair aos
borbotões dos turboelevadores. Trinta stormtroopers imperiais. As armaduras
brancas reluziam mais do que deveriam na luz difusa do lugar, com os fuzis de
raios de prontidão enquanto eles se espalhavam com eficiência silenciosa pela
garagem.
– Lá se foi nossa fuga - murmurou Dozer ao lado dela. - Pelo menos nós
sabemos por que aqueles outros dois airspeeders de repente descobriram outro
lugar para estar.
Winter olhou para trás. Pairando do lado de fora da entrada da garagem,
reluzindo como a armadura dos stormtroopers na luz difusa da cidade, estava
uma nave imperial de desembarque, classe sentinela, com canhões de laser e
armas de raios giratórias cobrindo a garagem.
– Vocês - disse bruscamente uma voz filtrada.
Winter se virou para a frente. Dois stormtroopers foram até ela e Dozer, com
os fuzis de raios não exatamente apontados para eles.
– Venham conosco.
E ali o jogo realmente chegava ao fim.
Outro homem tinha surgido dos turboelevadores abertos quando Winter e
Dozer chegaram. Ele foi meio que uma surpresa: um sujeito mais velho, de rosto
rosado e com um excesso de peso bem maior do que até mesmo um oficial
superior da Frota poderia manter impunemente, vestindo roupas comuns, porém
caras. Alguém importante, a julgar pela maneira como a escolta de stormtroopers
ficou em posição de sentido ao parar diante dele.
– Ah — falou o homem alegremente, com um olhar intenso, concentrado e
sagaz. - É isso?
– É isso o quê? - perguntou Dozer, com uma confusão genuína na voz. - Eu
não sei o que está acontecendo aqui, mestre, mas estou muito contente que o
senhor e suas tropas tenham aparecido. Essa gente - ele apontou para trás com o
polegar - está maluca ali. Simplesmente maluca.
– Sério? - comentou o homem calmamente. - Voando a esmo como maníacos,
não estavam?
– E batendo no telhado e nos veículos estacionados e simplesmente destruindo
o lugar inteiro — disse Dozer pegando gosto pela história. — Pensei que a gente
fosse morrer, com certeza.
– Uma experiência assustadora, realmente - apiedou-se o homem, quase como
se genuinamente acreditasse naquilo. - Mas não se preocupe. Tudo acabou agora.
Vamos prender todo mundo e resolver essa situação. - Ele acenou com a cabeça
na direção da lateral de Dozer. - E muito obrigado por recuperar minha pochete.
Não sei como você conseguiu, mas fico contente por você ter sido capaz de
resgatá-la antes que essas travessuras pudessem danificá-la ainda mais.
Winter sentiu um aperto no coração. Então os imperiais sabiam até sobre o
cryodex.
– Sua pochete? - perguntou Dozer franzindo ao abaixar o olhar para o objeto
na mão. - Não, não, isto é...
– Isso é a minha pochete, que foi roubada de mim - interrompeu o homem
com firmeza. - É por isso que, quando recebi uma dica de seu paradeiro, eu
imediatamente chamei o capitão Worhven do destróier estelar imperial
Dominador e pedi que ele me ajudasse a recuperá-la. - O sujeito sorriu de novo,
e desta vez o sorriso era incisivo. - Eu tenho certeza de que você entende como
às vezes é difícil trabalhar com os nativos.
Winter engoliu em seco. Especialmente quando os nativos eram
essencialmente propriedade de Villachor e do Sol Negro, que os controlavam.
– Ficamos contentes em poder ajudar - disse ela cutucando Dozer. Diante das
circunstâncias, realmente não havia sentido em arrastar mais a situação.
Com um suspiro resignado, Dozer entregou a pochete para o homem.
– Obrigado — disse ele, que abriu a pochete e espiou o interior. — Sim, é isto
aqui, comandante — confirmou o homem ao fechá-la e se virar para o
stormtrooper ao lado. - Mande que seus homens recolham todo mundo e levem-
nos para a guarnição de Tweenriver ser interrogado. By the way, o que aconteceu
com os outros dois hovercraft? Espero que eles não tenham permissão para
escapar.
– Não, meu senhor, nós os temos — disse o stormtrooper.
– Excelente — disse o homem. Naturalmente, as comunicações por qualquer
dos prisioneiros não são permitidas.
Sim, meu senhor. O stormtrooper fez um gesto em direção a Dozer e Winter.
O que há com esses dois?
O homem olhou para Winter e Dozer, e pareceu a Winter que, dessa vez, seu
sorriso tinha um toque de satisfação irônica.
– Sr. e Sra. Smith podem se aposentar — disse ele. Você vai precisar de ajuda
com seu veículo?
Houve uma breve pausa enquanto Dozer aparentemente tentava dizer algumas
palavras.
– Não — ele finalmente disse. Obrigado Nós podemos gerenciar.
– Muito bem — disse o homem energicamente. Adeus
Ele se virou e voltou para o elevador, enquanto um dos stormtroopers o seguia
respeitosamente atrás dele.
O outro stormtrooper fez um gesto com seu blaster.
– Eles ouviram — ele disse bruscamente. Saia.
Sem esperar por uma resposta, ele passou por eles e se dirigiu para onde os
outros imperiais estavam reunindo os homens furiosos de Aziel em pequenos
grupos para desarmar e algemar.
– Vamos — disse Dozer entre os dentes cerrados, pegando o braço de Winter e
voltando para o hovercraft em que ela estava trabalhando. Você conseguiu abri-
lo?
– Sim — disse Winter, com a cabeça ainda girando. Isso tinha que ser algum
tipo de truque. Algum jogo que o predador estava jogando com sua presa.
Ela ainda estava esperando para cair os atingiu enquanto Dozer jogado com
cabos hovercraft, acendeu-o e atirou para o céu, transformando cuidadosamente
pela saída, sob o escrutínio do alerta olho e lasers silenciosas da patrulha Ele
estava de guarda sobre o Sentinela.
– Era muito barulhento para permanecer em segredo — disse Dozer
amargamente enquanto ele as levava para o fluxo do tráfego através das luzes da
cidade.
– Que queres dizer? Winter perguntou.
– Isso não é óbvio? Ele rosnou. Os imperiais conhecem a coisa toda
completamente. Primeiro, eles nos permitem obter o cryodex para ficar com ele,
e agora eles estão nos deixando livres na esperança de que possamos obter os
arquivos de chantagem também.
Winter sentiu o estômago apertar. Claro. Ela tinha estado tão focada em seu
relacionamento com a Aliança, que por um momento ela esqueceu que estava
em um lado completamente diferente dessa vez.
– O contato de Eanjer — ele murmurou.
– Quem mais? Disse Dozer sombriamente. Não é de admirar que o homem
soubesse o suficiente sobre Sol Negro e Qazadi.
– Eu me pergunto que tipo de acordo Eanjer terá alcançado com ele.
– Seja o que for, não está fazendo isso — disse Dozer com firmeza. A
evidência está aqui. Mesmo assim, isso será como um enorme quebra-cabeça
para Villachor e Qazadi, para digeri-lo.
– Você quer dizer o desaparecimento de Aziel e do cryodex sem deixar
rastros? - perguntou Winter.
Ela puxou o comlink e ligou o sinalizador. Não adiantou - eles ainda deviam
estar dentro do campo de interferência dos imperiais.
– Não vai durar muito, você sabe - disse Winter. - Eles terão que deixá-lo sair.
– Claro, mas tomara que não soltem Aziel até a gente estar bem longe...
– Espere — interrompeu Winter quando o comlink deu sinal. Ela atendeu. -
Rachele?
– Sim - respondeu ela parecendo aliviada. - Vocês estão bem? Eu fiquei
ligando sem parar.
– Estamos bem - garantiu Winter. - Os imperiais tinham um campo de
interferência sobre o hotel.
– Os imperiais?
– É uma longa história; não temos tempo - falou Winter. - O que está
acontecendo com Bink?
– Espere um instante — interrompeu Bink. — Você não pode simplesmente
deixar como está. O que está acontecendo com Aziel?
– Os imperiais chegaram e o capturaram — respondeu Winter. — Tanto ele
quanto o cryodex.
– O que deve, na verdade, trabalhar a nosso favor — comentou Dozer. -
Dependendo da velocidade com que a rede de espiões de Villachor descubra
isso, ele vai presumir que Aziel desertou para o Império ou então imaginar que
ele fugiu.
– Eu não vejo como isso nos ajuda — disse Rachele. — Se pensarem que
Aziel está fugindo, eles podem decidir apertar Tavia para descobrir o que ele está
tramando.
– Só que eles têm apenas a palavra de Sheqoa de que Tavia está envolvido —
disse Dozer. Sheqoa significa Villachor, e Qazadi não confia em Villachor além
do que Villachor representa para a segurança do cofre. Ele não vai interrogar
alguém simplesmente, digamos, porque é o que Sheqoa diz.
– Olha, podemos conversar sobre isso depois que Bink abrir o cofre — disse
Winter. Em que situação você está?
– Eu tenho três seqüências de código adicionais na minha frente — disse
Bink. Ela os leu. Você deve ter notado que eles têm comprimentos diferentes, o
que significa que eles não são apenas variantes de um código padrão de vários
dígitos ou algo parecido.
– Até agora, a equipe não encontrou nenhum padrão — disse Rachele.
Alguma ideia?
Winter olhou para a cidade abaixo deles, visualizando a distribuição do
teclado padrão Galáctico Superior que Villachor estivera usando e sobrepondo as
quatro sequências que eles já conheciam acima daquele teclado.
– A série parece estar em ordem alfabética — sugeriu ele.
– Sim, já temos essa parte — disse Bink em breve. Você não é o único que leu
tudo o que existe sobre Villachor. Poderia ser uma lista de batalhas famosas, ou
seus velhos animais de estimação, ou sua escola ...
– Eu tenho isso — disse Winter de repente, como se tudo aparentemente se
encaixasse. Claro-. Tente esta sequência: sete dois, nove, dois, três, quatro.
Houve um breve silêncio.
– Não está certo — disse Bink.
O inverno franziu a testa. Não foi certo?
Ele sorriu fortemente. Claro que não estava certo. Foi culpa dele por não ter
seguido as outras sequências completamente até o final. -Tente a mesma
seqüência, seguida por três, dois, cinco, três, seis, cinco, três.
Outro curto silêncio. Dozer subiu para a próxima via e acelerou.
– É isso - disse Bink, só faltando exultar. - Abrimos... lá vamos nós. Uma
caixa de datarcads de chantagem do Sol Negro... uma caixa realmente bonita...
mais uma pilha de outros datacards que Villachor sem dúvida também odiaria
perder. E um punhado das fichas de crédito mais lindas que vocês já viram na
vida.
– Eu desisto - falou Rachele, parecendo empolgada e perplexa ao mesmo
tempo. - O computador não consegue encontrar nada com aquela sequência.
– Isso porque o computador procura por palavras normais, mas não consegue
cobrir toda a gama de nomes próprios - respondeu Winter. - O código de hoje é
Qazadi Falleen. Villachor está alternando dentro de uma lista alfabética dos nove
vigos do Sol Negro, com suas respectivas espécies anexadas.
– Que lindo - disse Dozer. - Um lambe-botas subserviente, e é uma lista que
ele tem que manter memorizada de qualquer forma.
– Exatamente - falou Winter. - Como está indo o resto da operação?
– No rumo certo - respondeu Bink. - Kell está usando meu sensor e plantando
as cargas finais, Zerba está limpando o cofre, e eu vou subir de volta à sala da
guarda.
– Só não deixe de estar bem atrás dele quando as cargas dispararem - alertou
Rachele. - Aquela parte do universo vai se tornar um lugar bem insalubre por
bastante tempo depois da explosão.
– Não se preocupe, eu ficarei bem — falou Bink baixinho. - Até mais.
– Espere um instante... eu ainda não acabei de falar sobre Tavia
– disse Rachele. - Talvez a gente devesse mandar Lando e Chewie antes do
planejado.
– Se você fizer isso, corremos o risco de perder ambas as equipes
– alertou Dozer. - O plano todo é fazer com que tudo acontecesse ao mesmo
tempo, de maneira que Villachor não soubesse para que lado pular. Lembra?
– Han? - chamou Rachele. - O plano é seu, na verdade. O que você acha?
– Vamos dar um tempo agora - veio a voz de Han, suave e com um estranho
eco. - Eu não acho que Qazadi faria alguma coisa sem avisar Villachor a respeito
primeiro. Se vier aquela ordem, saberemos a tempo de colocar Chewie e Lando
em ação.
Winter franziu a testa para Dozer.
– Como ele espera saber o que Villachor está ou não fazendo? - murmurou
ela.
Dozer deu de ombros.
– É Han - disse ele, como se aquela fosse toda a explicação de que Winter
precisasse.
Ou, mais provavelmente, toda a explicação que ela receberia.
– Então ficamos esperando - falou Rachele, que ainda não parecia contente,
mas aparentemente estava disposta a aceitar a decisão de Han. - Mas ficaremos
em cima dele, ok?
– Claro — disse Han. - A conferência acabou. Todo mundo de volta ao
trabalho.
Winter olhou para Dozer com uma expressão de interrogação. Ele deu de
ombros e gesticulou, e ela desligou.
– O que faremos agora? — perguntou Winter.
– Eu não sei — respondeu Dozer lentamente. — O contato de
Eanjer provavelmente sabe onde fica a suíte. Por outro lado, pode
não saber. Eu realmente espero que ele não saiba onde é o ponto de encontro.
– Então nós não vamos nem à suíte e nem ao ponto de encontro?
Ele deu de ombros novamente.
– Eu só estava pensando que é uma bela noite para um passeio. Se importa de
se juntar a mim?
Winter olhou para a cidade. Ao longe, um dos apoteóticos espetáculos de
fogos de artifício estava começando.
– Claro, por que não?

Com um suspiro baixinho de alívio, Kell plantou a última das cargas de


detonita e delicadamente armou a bomba. Evitar explosivos era uma coisa.
Evitar os explosivos de uma armadilha de outra pessoa era outra completamente
diferente.
– Zerba?
– Tudo pronto - anunciou Zerba ao dar a volta pela curva do cofre e prender a
pochete agora protuberante na cintura. - E você?
– Pronto - respondeu Kell.
Ele olhou para o buraco no teto. Bink deveria estar lá em cima, vigiando para
ver se eles ainda estavam no horário.
Só que ela não estava lá em cima. Não estava em lugar algum.
– Bink? - chamou Kell baixinho.
– Nem se incomode - disse Zerba com um grunhido. - Ela já foi embora faz
tempo.
Kell ficou boquiaberto.
– Ela foi embora?
– É claro — falou Zerba. — Por que você acha que Bink deu o detonador para
Han? Ela jamais planejou ficar por aqui depois que abrisse o cofre.
– Mas... — Kell olhou para cima novamente. Para onde foi?
– Onde você pensa? Zerba disse acidamente. Ela foi para resgatar sua irmã.
Uma mulher solitária, carregando equipamento para roubos, fornecia apenas
as ferramentas de qualquer ladrão comum, sem armas, exceto uma pequena luz
blaster.
– Você nunca pode fazer isso — Kell murmurou.
– Não — Zerba concordou gravemente. Eu só espero que não seja capturado
no momento de estragar tudo isso para o resto de nós.
Kell olhou para ele.
– Como você pode…
– Porque esse é o tipo de negócio em que estamos, garoto — disse Zerba
calmamente. Você pode se juntar a alguém para um trabalho como este, mas
você tem que aprender a não fazer qualquer tipo de compromisso a longo prazo.
Nem mesmo nas profundezas do seu ser.
Ele fez um gesto.
– Vamos lá. Está na hora de se preparar.

Bink refletiu sobre o fato de que Han não tentou impedi-la, enquanto ele
atravessava a mansão. Zerba também não havia feito. Kell poderia ter tentado,
mas provavelmente não notara o fato de que ela os estava abandonando.
Essa foi a parte do assunto que o incomodou. Ele trabalhou com um bom
número de pessoas nos últimos anos e nunca falhou com nenhum deles antes.
Claro, ela não estava falhando nem Zerba nem qualquer um dos outros que
estavam aqui. Realmente não. Han agora tinha controle da situação e Han sabia
o que estava fazendo. Geralmente
Mas, às vezes, a percepção da culpa era ainda mais importante do que a
própria culpa.
Ele cerrou os dentes. Era sobre a irmã dele. Se eles não pudessem entender, ou
simplesmente não se importassem, então para o inferno com todos eles.
E especialmente para o inferno com alguém que cruzou seu caminho com o
argumento de que ele estava indo para a boca do lobo - na porta da suíte de
Qazadi, para ser morto. Isso seria alguém que não apenas não entenderia a
situação, mas também estaria insultando seu profissionalismo.
Diretamente à frente, o espaço entre os andares se estreitou para terminar em
outra porta pesadamente emoldurada que ela já havia cruzado duas vezes.
Soltando os ganchos que estavam presos no teto acima dela, ela deslizou a
cabeça e os ombros pela abertura, recolocou os ganchos do outro lado e
continuou se movendo. Pelo menos Han não deveria ter se preocupado com isso
- pelo que ele tinha sido capaz de ouvir, no momento em que ele contou a
história enquanto esperavam na usina - ficou claro para ele que ele já tinha
checado todos os ambientes aqui, e concluiu que havia muito espaço para ela
tornar invisível sua viagem pela mansão.
Embora, para ser justo, talvez o que o incomodava, era como Bink seria capaz
de lidar com a distância vertical entre o segundo e o quarto andar. Os poços dos
elevadores eram as rotas óbvias, o que também significava que o povo de
Villachor os cobria.
Para sua sorte, havia uma rota que provavelmente nunca ocorreria a nenhum
deles.
Ele sempre se surpreendera com o número de edifícios com mais de cem anos
que incluíam quartos ou corredores escondidos em algum lugar. Talvez os ricos e
poderosos naqueles tempos tivessem sido mais paranóicos que seus
descendentes hoje, ou talvez simplesmente, gostassem do romance e do glamour
um tanto antiquados daquilo tudo. Visto que a mansão de Villachor antigamente
abrigara um governador de setor, Bink apostaria muito que havia um conjunto
inteiro de passagens de emergência discretamente enfiadas em algum lugar entre
as paredes.
Infelizmente, as plantas de Rachele não incluíam nenhum refúgio escondido, e
ela não tinha tempo para procurá-los.
Felizmente, aquelas mesmas plantas mostravam o elevador de cozinha.
Bink abriu caminho pela parede com pouco esforço e menos barulho ainda. O
poço era simplesmente tão estreito quanto ela esperava. Também era fácil de
passar para alguém do tamanho dela, que sabia o que estava fazendo.
Bink entrou na passagem apertada e começou a escalar.

Os Zs eram coisas pesadas e volumosas, e mesmo com ajuda da força


ampliada dos trajes blindados, foram necessários quase dez minutos para Uzior e
seus homens retirarem do caminho a primeira das cinco fileiras de droides.
Villachor assistia em silêncio ao lado de Sheqoa, ouvindo os segundos passarem,
furiosamente ansioso para saber o que estava acontecendo atrás daquela porta,
mas igualmente determinado a manter o medo e a frustração invisíveis para os
homens de Qazadi.
Uzior começara a trabalhar na segunda fileira quando Villachor subitamente
notou que um sexto guarda blindado havia entrado na antessala de mansinho,
sem ser visto, e estava observando silenciosamente da parede do outro lado da
porta da caixa-forte.
– Quem é você? — indagou ele. - Quem é ele? — repetiu Villachor, olhando
feio para Sheqoa.
– Eu presumi que o senhor o tivesse chamado - respondeu Sheqoa, parecendo
confuso. - Mais cedo, quando eu estava passando suas instruções para os outros.
– Se eu o tivesse chamado, ele estaria ajudando - rosnou Villachor olhando
feio para o recém-chegado. - Quem é você?
– Meu nome é Dygrig - veio a voz filtrada do sujeito. - Sua Excelência mestre
Qazadi mandou que eu viesse e observasse.
Villachor disparou um olhar para Barbas e Narkan. A antessala inteira estava
começando a feder a vigo do Sol Negro.
– Ele disse para você colocar a minha armadura para a ocasião?
– O senhor já tinha falado que talvez houvesse confusão dentro da caixa-forte
- lembrou Dygrig. - Sua Excelência achou que seria uma boa ideia se outra
pessoa viesse preparada.
Villachor respirou fundo, sentindo todo seu sistema sanguíneo prestes a
explodir. Para Qazadi ter mandado um dos guardas dele, vestido com um dos
trajes blindados de Villachor...
– Muito atencioso da parte de Sua Excelência - respondeu ele lutando
ferozmente pelo autocontrole. Ficar enfurecido diante de testemunhas seria toda
a desculpa de que Qazadi precisaria para expulsá-lo e colocar outra pessoa em
seu lugar. - Já que está aqui, você pode dar uma mão para meus homens.
– Eu recebi ordens de permanecer de prontidão para o que quer que
encontremos lá dentro - opôs-se Dygrig calmamente. - Minhas ordens não dizem
nada sobre ajudar com as preliminares.
Não, obviamente Qazadi não queria que seus homens sujassem as mãos.
– Uzior?
– Vamos liberar a área em oito minutos - prometeu Uzior.
– Eu posso chamar mais homens - ofereceu Sheqoa.
– As equipes de busca encontraram o intruso?
Sheqoa torceu a cara.
– Não, senhor.
– Então nós vamos ter que nos virar - disse Villachor.
Ele disparou um olhar para Dygrig, que agora o observava com o mesmo
distanciamento condescendente de Barbas e Narkan. Villachor prometera a si
mesmo que, caso sobrevivesse àquele desafio, encontraria uma forma de Qazadi
pagar por sua falta de tato, sendo vigo ou não.
– Mande a equipe de busca mais próxima ir à sala da guarda - ordenou ele
para Sheqoa. - Se Qazadi tiver mais homens dele lá em cima, pegando nosso
equipamento sem permissão, eu quero ficar sabendo.

O comlink de Rachele tocou, e ela respondeu:


– Relatório.
– Problemas - disse Han com uma voz tão baixa que ela mal conseguia ouvir. -
Zerba, você trancou bem a sala da guarda depois que eu saí?
– Tão bem quanto a tranca que estava lá permitia - falou Zerba. - Nós não
soldamos a porta ou algo do gênero, se é isso que está perguntando. Por quê?
– Villachor está mandando alguém aí - disse Han. — No minuto em que virem
o buraco, o plano todo acaba. Haverá dez caras na caixa-forte antes de Villachor
terminar de gritar.
– E será o fim de Zerba e Kell - falou Rachele com a cara fechada. — Então
explodimos agora?
– Não podemos - respondeu Han. — Villachor ainda não abriu a porta da
caixa-forte.
– Tem certeza que precisamos de você para abri-lo? Kell perguntou. O selo
magnético não impediu a entrada do sabre de luz.
– Você não está usando um sabre de luz desta vez — Rachele lembrou. Não
sei o que o selo magnético poderia fazer, mas preferiria que não nos
arriscássemos.
– Tenha certeza de que, se você não quer se arriscar, nós também não —
concordou Zerba. Eu voto em nós para ir em frente e deixar Chewie e Lando
agirem.
– Espere — disse Bink. Eles ainda não podem intervir, não estou em posição.
– Você tem dois minutos para entrar em posição — Han disse duramente.
Uzior diz que o cofre será aberto em oito. Precisamos de algo para distrair os
guardas desta parte da mansão, e esse algo é Chewie e Lando.
– Você pode fazer isso, Bink? Kell perguntou.
– Eu tenho outra opção? Bink disse entre os dentes. Ok, continuo indo. Mas se
algo acontecer a Tavia, isso cairá em suas cabeças. E digo literalmente.
– Eu sei — disse Han. Dois minutos, Rachele.
– Entendimento Rachele cruzou os dedos mentalmente enquanto mudava para
a frequência mais segura para contatar o comlink de Chewbacca. Chewie,
Eanjer: dois minutos.
Ao longo dos anos, Bink acumulou uma extensa coleção de palavras que eram
mais apropriadas para esse tipo de situação. A caminho do topo do poço do
elevador, ele percorreu toda a lista deles.
Dois minutos. Ela ainda era metade de uma mansão longe de onde Tavia
estava sendo segurada, e Han estava dando a ela dois minutos miseráveis para
chegar lá.
Não havia como chegar lá pela brecha entre os andares. Suas técnicas de
gancho de aperto eram perfeitas para esse tipo de viagem sub-reptícia, mas a
natureza completa da operação exigia uma perspectiva de velocidade. E mesmo
a velocidade máxima não seria suficiente.
Que só o deixou com uma opção. Uma opção que, como a própria
empilhadeira, os projetistas originais da mansão, foram responsáveis por
fornecer.
Os ductos horizontais estavam justamente na parte superior do duto,
ramificando-se em direções opostas: um na direção da ala sudeste e o outro na
direção da ala nordeste. Em um duto completamente fechado, que parecia tão
pouco ameaçador como este, não haveria necessidade de ganchos. Suas luvas
padrão de atrito antiderrapante eram as únicas ferramentas que ele precisaria, e
ele poderia facilmente cobrir a distância na metade do tempo que levaria para
seguir a rota intermediária. Talvez até dentro da janela de dois minutos que Han
lhe dera.
O problema era que a rota entre andares permitia que ele escolhesse onde sair
do outro lado. Infelizmente, apenas uma saída existia na linha de fornecimento
de alimentos. Se Qazadi ou qualquer um de seus guardas vigiasse a boca para a
qual ela estava indo na hora errada, ela nem veria a cena chegando.
Mas eu teria que tentar. Foi sobre Tavia. Era sobre a irmã dele.
Ele torceu o corpo em um ângulo ao redor da curva no topo do poço do
elevador, e empurrou o conduto, inclinando os ombros diagonalmente para
aproveitar ao máximo o espaço limitado. Agarrando-se às paredes laterais de
metal do duto com as luvas e começando a examinar sua lista completa de
maldições, ele foi direto para a escuridão.

Kastoni já estava começando a ficar perigosamente impaciente, e Lando tinha


sido reduzido a sua segunda e última linha de técnicas dilatórias, quando toda a
ala da mansão pareceu explodir em meio a uma cacofonia de cerâmica, madeira
e pedra quebrada.
E quando ele e Kastoni se viraram para a porta, um hovercraft rugiu pelo
corredor, saltando das paredes de ambos os lados. Kastoni mal teve tempo de
soltar uma maldição de horror enquanto um segundo veículo entrava atrás do
primeiro.
E logo atrás dos veículos, correndo como se suas vidas dependessem disso,
estavam Chewbacca e Eanjer.
Lando soltou um suspiro de alívio. Finalmente
– Em nome de ... -ele começou. Ele parou enquanto o rugido do hovercraft foi
substituído pelo rugido dos alarmes.
– Emergência! Kastoni gritou no comlink de seu clipe quando ele tirou seu
blaster do caminho. O estacionamento foi invadido. Dois hovercrafts estão se
infiltrando livremente pela ala norte em direção à zona central; Repito, dois
hovercraft estão se movendo pela ala norte em direção à área central.
Um "recebido" chegou e foi para a porta.
– O que eu posso fazer? Perguntou Lando, que estava atrás dele.
– Ele pode tirar sua bunda daqui — Kastoni rosnou. Aqui acabou.
Ele parou na porta, deslizou a cabeça para dar uma olhada rápida...
E ele desabou no chão quando Lando bateu com o punho diretamente atrás da
orelha esquerda de Kastoni.
Apertando a mão para abafar o súbito batimento cardíaco que sentia, Lando se
ajoelhou ao lado do homem inconsciente e pegou seu blaster. Por um momento
ele pensou em se comunicar com Rachele, mas decidiu que não tinha tempo e
correu atrás de Chewbacca.
Ele já havia presumido que o interior da mansão estaria essencialmente
deserto, com exceção do pessoal da cozinha que estava preparando os refrescos
para os visitantes do Festival que aconteciam do lado de fora. Certamente, a
maioria das forças de segurança estava do lado de fora, vasculhando a multidão e
tentando perseguir os últimos andróides que estavam fora de controle. Mas
enquanto seguia o rastro de Chewbacca, Eanjer e do hovercraft, ele encontrou
um número surpreendente de pessoas observando com medo, cautela ou
descrença através das diferentes portas. A maioria deles parecia ser de algum
tipo de técnica, o que não era muito surpreendente, já que eles estavam perto do
estacionamento e da instalação de reparo dos dróides.
Um casal deles gentilmente apontou o caminho para o sargento da polícia
uniformizado que estava caçando, perseguindo os intrusos. Nenhum deles fez
qualquer movimento para detê-lo ou interpelá-lo.
Ele havia deixado a ala norte e estava descendo a larga escadaria que levava à
seção central e à ala nordeste, quando ouviu os primeiros sons de tiros a laser.

O comlink integrado na armadura de Han, estava ligado ao canal de segurança


do Tesouro de Mármore, o que significava que ele recebia as notícias sobre o
hovercraft ao mesmo tempo que Sheqoa, e alguns segundos antes de Villachor.
Ele esperava que Villachor ficasse furioso com o relato de que algo mais
estava errado. Mas em vez de queimar, a atitude do senhor do crime ficou
congelada.
– Ele informa Sua Excelência que ele pode encontrar-se com intrusos em seu
caminho — disse a Sheqoa imperturbável. Ele fez um gesto para Barbas e
Narkan. - Talvez vocês devessem ir ajudar na defesa de seu senhor.
Os dois homens trocaram olhares. Barbas concordou com a cabeça em
silêncio, e eles cruzaram a antessala e saíram pela porta norte em passos rápidos.
Han torceu a cara. Tomara que Chewbacca e Lando soubessem ficar de olho
nos problemas que surgissem pelas costas.
– Você pode ir com eles - acrescentou Villachor.
Han piscou para tirar da mente a visualização tática. Villachor estava olhando
para ele, com o mesmo gelo mortal nos olhos.
– Eu recebi ordens para ficar aqui - falou Han. - Eu irei embora se e quando
receber novas ordens.
– Você vai embora quando eu ordenar para que vá embora - disse Villachor
calmamente. - Isto ainda é meu território. Minha palavra é a lei aqui, não a de
mestre Qazadi.
– Eu compreendo, mestre Villachor — falou Han, tentando usar a mistura
certa de respeito e arrogância que tantos oficiais de médio escalão da Frota
dominavam. — E eu não tenho intenção de violar esse comando, mas...
– Alerta! — surgiu subitamente uma voz tensa no comlink do traje. - A caixa-
forte foi invadida por cima. Repito, a caixa-forte foi invadida.
– Senhor, a caixa-forte foi invadida - informou Sheqoa urgentemente para
Villachor. — Parece que eles entraram pela sala da guarda.
Por um instante, Villachor apenas olhou fixamente para Sheqoa. Depois ele se
virou para os homens que removiam os Zs imóveis.
– Abram aquela porta agora! - rosnou Villachor.
Ele apontou para Han.
– E prendam esse homem.
CAPÍTULO

23

Nervoso, Lando notou que os disparos de raios estavam ficando mais altos e
intensos enquanto subia correndo a escada, três degraus de cada vez. Até agora
ele não tinha visto nenhum dos guardas de Villachor subindo por trás, mas isso
deveria acontecer muito em breve.
O ideal seria que o tiroteio tivesse parado no momento em que Lando
chegasse ao quarto andar da ala nordeste. No meio do corredor, estava o motivo
de os disparos continuarem. Um dos dois airspeeders havia parado no meio do
piso, bloqueando o que vinha atrás. Chewbacca e Eanjer estavam agachados
atrás do segundo veículo; o Wookiee mexia no controle remoto tentando fazer o
airspeeder ultrapassar o danificado. No fim do corredor, um Falleen e um par de
guardas humanos estavam agachados atrás de um fuzil de raios de repetição F-
Web que disparava uma rajada contínua nos airspeeders, enquanto um segundo
Falleen estava deitado ao lado deles mirando com o que parecia ser uma versão
pirata de um BlasTech T-21.
Lando parou ao lado de Eanjer.
– Por que a demora? — berrou ele mais alto que o tiroteio.
– Acertaram um tiro da sorte — berrou Eanjer de volta. - Chewie acha que
consegue consertar, mas vai levar tempo, e nós precisamos fazer o outro
airspeeder passar para mantermos a pressão sobre os atiradores no fundo do
corredor.
– Por que você não... - Lando matou a pergunta.
Era óbvio que Eanjer não podia fazer o conserto por Chewbacca. O controle
remoto precisava de duas mãos, e a mão direita medselada de Eanjer era inútil.
– Chewie, passe o controle para mim — disse ele para o Wookiee. — Eu darei
um jeito. Conserte o outro.
Chewbacca vociferou e enfiou o controle nas mãos de Lando, depois se deitou
no chão e rastejou até o airspeeder derrubado.
Com um airspeeder normal, Lando poderia simplesmente ter colidido o
segundo em cima do primeiro, amassando ou quebrando o canopi do primeiro
veículo para criar o espaço que precisasse. Mas os airspeeders de Villachor eram
reforçados e blindados demais para isso, o que coincidentemente também era o
motivo de eles já não terem sido fatiados pelos disparos de raios vindos da outra
ponta do corredor. Os esforços de Chewie já tinham derrubado parte do teto;
infelizmente, o vão entre pisos não tinha lhe dado suficiente espaço extra para
fazer o airspeeder passar.
Mas o Wookiee ainda não havia tentado bater contra as paredes. Se elas
fossem suficientemente finas, e se houvesse bastante espaço pelas laterais do
corredor, talvez isso funcionasse.
Lando fez o airspeeder que pairava no ar recuar alguns metros virou o veículo
na direção da parede e se preparou para a colisão.

O fim do duto do elevador de cozinha não estava a mais do que 20 metros à


frente quando o corredor à esquerda de Bink explodiu com o som de disparos de
raios abafados.
Ela praguejou novamente e tentou arrancar um pouco mais de velocidade do
rastejo lateral. Lando e Chewie haviam começado o ataque, e o tempo de Tavia
estava se esgotando. Até mesmo um vigo do Sol Negro podia somar dois mais
dois, e um ataque à suíte de Qazadi enquanto ele abrigava um prisioneiro era
uma ligação óbvia demais para não ser percebida.
A guerra do lado de fora tinha entrado em um padrão constante, e havia pelo
menos um fuzil de raios de repetição em operação quando ela chegou ao fim do
duto. Bink tirou as luvas de fricção e sacou a arma de raios de pequeno porte.
Com uma expressão de determinação, ela colocou a outra mão na porta do duto e
empurrou.
Bink temia que a porta estivesse trancada e ela tivesse que desperdiçar
preciosos segundos passando uma sonda em volta dos selos de borracha para
pegar o ferrolho. Mas não havia tranca, nem ferrolho. Ela abriu a porta de
mansinho e prestou atenção da melhor maneira possível diante do barulho, à
procura de algum sinal de que a sensacional porta que abria sozinha tivesse sido
percebida.
Nada. Bink se segurou na borda e saiu pela passagem.
Ela se deparou com a sala de jantar mais deslumbrante que provavelmente
vira na vida. Havia duas portas de saída, e uma delas estava entreaberta. Bink
cruzou o ambiente até a porta e espiou pelo vão.
E sentiu um nó no estômago. Tavia realmente estava ali, sentada em um sofá
de encosto baixo, com as costas para a porta de Bink. Ela não conseguia
enxergar o rosto da irmã, mas podia ver a tensão nos ombros dela. Sentado em
uma cadeira de espaldar alto em frente a Tavia, estava um Falleen com um traje
ao estilo real completamente intimidante. Qazadi, sem dúvida. Os olhos estavam
voltados para a porta do corredor à direita dele, a expressão era fria e calculista,
com um sinal de sorriso macabro nos lábios.
Entre Qazadi e a porta, virados para o tiroteio abafado com as armas sacadas e
de prontidão, estavam dois guarda-costas Falleen.
Bink era uma ladra-fantasma, não um soldado, uma assassina, ou mesmo uma
contrabandista. Ela normalmente portava uma arma de raios em serviço, mas
apenas porque era uma ferramenta ocasionalmente útil. Bink havia atirado contra
outro ser vivo exatamente duas vezes na vida, e em ambas as ocasiões a intenção
era conter a pessoa para que ela pudesse fugir. Até onde ela sabia, nenhum
daqueles tiros tinha acertado, muito menos causado algum dano de verdade.
Agora ela teria que atirar em dois Falleens. Pelas costas.
Para matar.
Mas não havia outro jeito. Não se ela quisesse tirar Tavia e a si mesma com
vida dali. Com um nó tão apertado na garganta que Bink sentia como se
estivesse sendo esganada, ela pegou na arma com as duas mãos, alinhou o cano
com o primeiro guarda e apertou o gatilho.
Ele estremeceu como se tivesse levado um tapa na cara, as pernas
desmoronaram e o derrubaram no chão sem fazer barulho. O segundo guarda
estava começando uma espécie de pulo giratório de lado quando o segundo
disparo de Bink arrancou uma pequena nuvem de tecido e pele do torso dele. Ele
caiu esparramado no chão, com tanta força que Bink fez uma careta de dor
solidária. Ela empurrou a porta com o pé para terminar de abri-la e virou a arma
de raios para Qazadi.
– Não se mexa — alertou Bink.
– Eu não pensaria nisso - disse o Falleen friamente.
Ele e Tavia estavam olhando para Bink agora, Qazadi sentado nas profundezas
da cadeira, Tavia por cima das costas baixas do sofá. O Falleen estava sorrindo
abertamente, e o olhar se alternava entre Bink e Tavia. A expressão da irmã, em
comparação, estava tensa e assustada.
– Agora finalmente nós temos a solução do quebra-cabeças - continuou
Qazadi. — Muito inteligente. - Ele ergueu a mão para Bink. - Você, imagino, é a
ladra com a tinta rastreadora nas mãos?
– Apenas não se mexa - ordenou Bink.
A onda de adrenalina do breve combate estava passando, e conforme o
cérebro funcionava novamente, ela se deu conta de que não fazia ideia do que
faria a seguir. Obviamente, Bink e a irmã não poderiam sair da mesma forma
como ela havia entrado - tudo que Qazadi precisava fazer era cruzar a sala de
jantar, disparar alguns tiros pelo duto e dar o assunto como encerrado.
Mas com a guerra barulhenta se desenrolando no corredor, aquele caminho
também não era uma direção especialmente salutar para correr.
A não ser que as duas mulheres levassem um refém com elas.
– Em pé - ordenou Bink ao entrar completamente na sala.
Ela notou subitamente que o sorriso do Falleen era radiante, com certeza.
Estranho que não tivesse percebido isso antes.
– Você vai sair por aquela porta. — Bink se interrompeu.
O sorriso não era simplesmente radiante — era praticamente virtuoso.
Virtuoso, piedoso, amoroso...
E então, abruptamente, Bink compreendeu.
Mas era tarde. Era tarde demais.
Malditos feronômios de Falleen, raios.
– Por favor — convidou Qazadi ao gesticular para o assento ao lado de Tavia.
- Temos tanta coisa para conversar. Mestre Villachor, lorde Aziel, isto aqui.
Ele indicou uma mesinha lateral com a cabeça, onde o falso cryodex de
Winter estava exposto com destaque.
Bink olhou para o rosto tenso de Tavia. Não havia esperança ali - a irmã
estava tão perdida no encantamento químico de Qazadi quanto ela.
Provavelmente até mais.
Bink estava com a arma de raios de prontidão na mão. Já usara duas vezes.
Com certeza podia usar de novo.
Só que não podia. Enquanto o cérebro ordenava que a mão se erguesse e
atirasse, o coração mandava que a mão permanecesse ao lado do corpo.
E dessa vez, o coração falou mais forte.
O que significava que tudo havia acabado. Ela e Tavia estavam perdidas.
Assim como, provavelmente, o resto da equipe de Han.
E ao afundar ao lado da irmã no sofá, Bink percebeu que havia acabado de
matar dois seres vivos. A troco de nada.

Ainda havia dois Zs imóveis em frente à porta da caixa-forte, mas o caminho


estava finalmente livre o suficiente para Villachor chegar ao teclado. Ele
desdobrou o equipamento da parede e digitou o código de acesso com tanta força
que Han achou um pouco surpreendente que os dedos não tivessem varado as
teclas. A porta se abriu e Han esticou o pescoço para olhar.
O cofre foi parado perto do centro do cofre, assim como a plataforma que
normalmente o movia pela sala, que flutuava imóvel naquele momento. O
segmento drop-down da área que deu lugar ao gabinete Hijarna pedra estava
pendurada aberta no meio, e Han não precisava potenciadores de áudio do seu
capacete para ouvir as maldições torcidas Villachor quando ela O cofre foi
violado. Bem no limite do campo de visão de Han, dois seguranças deslizavam
pela corda de sintetizador que Bink deixara pendurado, os engenheiros prontos
enquanto exploravam a sala.
– Cuidado, senhor — disse um deles, indo para a porta. Nos dê um momento
para ter certeza de que está claro.
Villachor os ignorou. Fez sinal para que três dos guardas armados avançassem
e, quando entraram no cofre, os outros dois apontaram na direção de Han
novamente, para o caso de terem esquecido que tinha que ser mantido. em
custódia. Virando novamente, Villachor entrou no cofre atrás dos três guardas,
enquanto seus dois guarda-costas habituais e Sheqoa estavam indo para o
interior muito perto dele.
Os dois guardas restantes cercaram Han, com suas mãos enormes descansando
em advertência, em seus engenheiros de caçamba. Han colocou as mãos na
cabeça, apenas para mostrar que sabia o procedimento adequado para qualquer
prisioneiro.
E enquanto ele passava a mão pela face direita da flange do capacete, passou
um dedo pelo detonador que Bink lhe dera e empurrou-o gentilmente para a
frente.

Com um impulso final, e enquanto produzia um desmoronamento de madeira


e pedra, o hovercraft esmagou o suficiente da parede lateral do corredor para
abrir um caminho que permitiria ir além do veículo entupido. Dando um último
impulso ao controle remoto, Lando girou o veículo deslizando-o pelo último
meio metro da superfície da parede e conseguiu movê-lo à frente de seu parceiro
caído.
E com isso, eles finalmente estavam prontos para atacar o outro extremo, onde
o objetivo estava finalmente ao alcance. O F-Webs foram implementadas com
geradores de escudo construídas, mas Lando teria apostado fortemente que um
escudo concebido para desviar pequenas armas de fogo não seria capaz de fazer
muito contra um hovercraft blindadas lança em uma corrida para uma centena de
quilómetros por hora.
Apenas começando a posicionar o hovercraft para enfilarlo para sua nova
carreira, quando o fogo da F-Web começou a se intensificar, de repente,
enquanto guardas Qazadi viu a morte vem como um veículo blindado preto em
direção a eles. Naquele momento, abruptamente, Eanjer saltou e foi para trás do
hovercraft rugindo.
– Janjer! Lando gritou atrás dele. Volte aqui!
Mas já era tarde demais. Eanjer foi instalado e funcionando, as pernas de
bombeamento com força e velocidade, Lando nunca teria imaginado que o
homem tinha, tamborilando atrás do hovercraft como se fosse um burocrata
Centro Imperial tentando embarcar em um Airbus .
Lando assobiou uma maldição. Tinha planejado para manter o hovercraft logo
abaixo do teto até o último segundo, apresentando tanto a parte inferior blindado
que pôde contra o fogo inimigo para protegê-lo, na esperança de que o tiroteio
dos blasters não têm o mesmo tipo de acaso que havia derrubado o primeiro
veículo. Mas com Eanjer correndo como um louco diretamente em frente à linha
de fogo, essa não era mais uma opção viável. Franzindo a testa, ele deixou cair o
controle quase ao nível do solo, movendo sua massa para tentar fornecer a
Eanjer a maior cobertura possível.
E, claro, deixou o veículo mais vulnerável a ataques. Se os guardas o
derrubassem antes de Lando poder virá-lo de lado e varrer tanto os homens
quanto o F-Web para tirá-los da jogada, como ele esperava fazer, Lando e
Chewbacca teriam que simplesmente usar o próprio Eanjer como escudo quando
invadissem a suíte de Qazadi.

Com uma brusquidão que passou uma forte impressão para Dayja de que tinha
sido premeditada, o grande espetáculo de fogos de Marblewood começou em
toda a sua plena glória brilhante. Não apenas com os rojões de baixa altitude que
ele tinha visto antes, mas também com os explosivos mais altos e rebuscados,
quase de nível militar.
O problema era que o escudo abrangente ainda estava ligado. E quando os
rojões acertaram o campo de energia invisível, explodindo prematuramente e
provocando uma chuva de fogo no solo, aquilo foi a gota d’água para a multidão
lá embaixo. Com berros, xingamentos e uma dispersão de gritos histéricos, a
multidão se desmanchou em caos.
Um pedaço dos destroços flamejantes caiu no telhado a mais ou menos 5
metros da chaminé de Dayja. Ele recuou e pegou o comlink. Basta! Se aquilo era
coisa de Eanjer ou apenas um acidente, Dayja não podia ficar mais sentado
assistindo.
Outro disparo explodiu contra o escudo e provocou uma chuva de fragmentos
sobre a multidão, e com uma sensação de resignação, Dayja guardou o comlink.
Era tarde demais. O pânico havia começado, e não havia nada que ele, a polícia
ou qualquer um dos outros serviços de emergência da Cidade de lltarr pudessem
fazer a respeito.
Tudo o que ele podia fazer agora era assistir.

Han havia avisado Kell que a coisa toda teria que se desdobrar rapidamente. O
garoto havia pego a palavra.
O detonito que foi colocado sob a plataforma flutuante foi o primeiro; um
grupo de pequenas cargas decepcionantes que deixaram as linhas de energia de
todos os repulsores na metade dianteira desabilitadas. A plataforma manteve sua
posição por não mais do que meio segundo, e então a borda de ataque caiu no
chão, produzindo um acidente explosivo. Quase mascarado pelo eco
ensurdecedor, houve uma crise ainda mais profunda, enquanto o pilar
enfraquecido que conectado com o chão que havia sido enfraquecida por Zerba-
sabre de luz, dobrados e entrou em colapso sob o súbito e pressão inesperada.
Outro meio segundo, e cargas finais de Kell explodiu, arrancando pedaços
duracrete da parte traseira do cofre, e um par de detonar carga em forma
explosiva que thunderously Shook ouvidos, que veio das armadilhas poderosos
caza- peitos que haviam sido enterrados abaixo da superfície.
Com a aparência de uma miniatura da Estrela da Morte explodindo nos
sistemas de pós-combustão, e com um rugido que parecia abalar para baixo toda
a mansão, o cofre caiu de seu pilar, rolou para baixo da plataforma inclinada, e
fez contato com o chão.
Por um segundo eterno, Villachor e seus homens observaram, incrédulos, a
esfera de seis metros de diâmetro que se dirigia para eles. Então, quase em
perfeito sincronismo, eles entraram em choque descontroladamente em sua
tentativa de sair do caminho deles.
Villachor e seus dois guarda-costas tiveram sucesso. Sheqoa e os outros três
guardas não conseguiram.
Mesmo antes de desaparecerem abaixo da esfera, Han já estava se movendo,
dando um passo à frente e se plantando entre os dois guardas, que agora
assistiam boquiabertos ao drama que se desenrolava dentro da caixa-forte. Han
colocou as mãos no peito deles e empurrou com o máximo de força possível para
cada lado.
Os trajes eram pesados, mas a força ampliada de Han foi mais do que
suficiente para a tarefa. Os guardas voaram para trás uns bons 3 metros antes de
caírem esparramados no chão - talvez longe o suficiente para estarem fora do
caminho da esfera que se aproximava, mas Han realmente não se importava
tanto assim, de uma forma ou de outra.
Agora ele estava mais preocupado com a vida das centenas de cidadãos que
poderiam estar andando ou parados diretamente no caminho de um colosso
rolante prestes a irromper pela parede da mansão. Os disparadores de fogos de
artifício instalados anteriormente por Kell e Zerba deveriam ter feito a maior
parte da multidão ir na direção das saídas, mas sempre havia alguns que eram
valentes, distraídos ou estúpidos demais para saber quando era a hora de ir
embora.
Para essas pessoas, o cofre rolante provavelmente seria o último erro de
cálculo que elas fariam na vida.
O cofre estava quase chegando à parede blindada da caixa-forte. Han deu
meia-volta, correu para a porta lateral da antessala e esvaziou a Caliban
emprestada na parede em volta da porta enquanto corria. A arma de raios ficou
vazia; Han a jogou fora e se lançou contra a porta, torcendo que a armadura
fosse tão resistente quanto parecia.
Era sim. Han atravessou a porta praticamente sem se abalar, e um enorme
trecho da parede veio com ele. A saída mais próxima para o lado de fora da
mansão ficava a 30 metros de distância, para o sul; Han recuperou o equilíbrio e
se virou para lá, torcendo fervorosamente para que conseguisse ser mais rápido
do que a esfera lá fora. Atrás dele, Han ouviu o ruído violento de destruição
conforme a esfera avançava pela blindagem da caixa-forte...
E eis que ele saiu pela porta do pátio e se voltou para o caminho da esfera.
Han estava certo em relação à multidão. A maioria das pessoas já estava bem
longe, correndo para os portões enquanto os fogos de artifício explodiam
espetacularmente contra o escudo abrangente acima delas. Mas algumas dezenas
de visitantes ainda estavam por ali e observavam as falhas dos fogos com uma
informalidade ou arrogância que parecia ensaiada.
Han revirou os olhos. Até ele sabia que deveria se abrigar quando chovia,
especialmente quando a chuva era feita de brasas. Ainda assim, se explosões
aleatórias no céu não eram suficientes para fazer esses últimos teimosos
andarem, talvez algo mais íntimo e pessoal fosse.
Ele tirou o chicote neurônico do cinto, ativou-o e girou-o bem acima da
cabeça.
A maioria dos indolentes já tinha visto Han na armadura reluzente. Todos
viram o brilho branco-azulado do chicote, que estalava e chiava.
– Andem! - berrou Han enquanto girava o chicote acima da cabeça. - Saiam
daqui... agora!
Eles finalmente entraram em movimento, correndo como um Toong assustado,
quando a esfera irrompeu pela parede externa da mansão e rolou pelo pátio,
destruindo as pedras da pavimentação embaixo dela ao passar. Dez metros à
frente do cofre, onde a pavimentação cedia espaço para a grama, uma cerca de
estacas se erguia do solo e circundava a mansão como uma floresta eletrificada e
mortal de 6 metros de altura.
O cofre atravessou rolando a cerca sem sequer desacelerar.
Han passou se abaixando pelo vão que ainda chiava e forçou os limites de
velocidade e força da armadura para correr em volta do cofre e chegar à frente
dele. Novamente girando o chicote freneticamente acima da cabeça, ele avançou.
Aquela era uma das façanhas mais malucas que Han realizara na vida. Mas
estava funcionando. No escuro, com a distração dos fogos de artifício, muitas
das pessoas no caminho da esfera provavelmente jamais teriam visto o perigo até
que fosse tarde demais. Mas uma figura de armadura com um chicote azul
brilhante era impossível não ver. Elas se espalharam diante de Han, a maioria
entendeu a situação e correu para as saídas, os demais dispararam em todas as
direções, exceto o vetor em que Han e o cofre seguiam.
Ele continuou em frente, observando o cofre no monitor traseiro, torcendo
para que conseguisse se manter a salvo até que a esfera finalmente perdesse o
ímpeto. Torcendo, também, para que ela não pegasse a parte de trás da grande
multidão que se dirigia para as saídas, deixasse um enorme rastro de morte entre
as pessoas e depois quebrasse o muro exterior e entrasse no intenso tráfego da
Cidade de Iltarr.
Han torcia muito, muito mesmo para que isso não acontecesse.

De lá de fora no corredor veio um estrondo horrendo, acompanhado por um


som estridente de metal no permacreto que Bink às vezes ouvia quando um
airspeeder batido caía em uma plataforma de pouso e deslizava sobre ela.
E quando o som estridente passou, ela percebeu que os disparos também
haviam parado.
Ele olhou para Qazadi. Seus olhos estavam fixos na porta, sua expressão fria e
dura.
– Fique quieto — disse ele para as duas mulheres. Não faça barulho Sua mão
mergulhou em sua capa e reapareceu segurando um blaster. Permaneça sentado
em silêncio e veja seus amigos morrerem.
Bink ingestão, lutando contra irrazoável senti calmo e até mesmo contra o
sentimento mais razoável de amor e alegria que flui através dele. Aqueles que
estavam lá fora, eram seus companheiros de equipe. Ele simplesmente não podia
deixá-los entrar no alcance de fogo do explosivo Qazadi. Eu tive que fazer algo
para parar.
Só não consegui. Ele não conseguia nem ouvir sua voz, para não mencionar
fazer algo com a mão.
Sua mão. Ele olhou para o colo, em direção ao raio de luz que estava lá.
Qazadi tinha permitido que ele retivesse a arma, sabendo que ele não seria capaz
de usá-la contra ele.
E ele estava certo. Ela queria que sua mão se movesse, ela queria com toda a
força dentro dela. Mas a mão dele ficou onde estava. Blaster ainda permanecem
lá, sem sucesso, e ela ficou lá permanecem inutilmente, e assistindo seus
companheiros de equipe veio por aquela porta e morreu.
– Há uma coisa que você está esquecendo, Mestre Qazadi — disse Tavia.
Bink balançou a cabeça, olhando incrédulo para sua irmã. O rosto de Tavia
estava contraído e congestionado, a ponto de ser quase irreconhecível. O tom de
sua voz era monótona e hesitante, e as palavras soavam como se tivessem sido
completamente esmagado individualmente moinho de grãos sob um agricultor.
Qazadi ordenou que ele não falasse. Entretanto, ela estava falando. Pelo rabo
do olho, Bink viu Qazadi se virar para olhar, aparentemente tão surpreso quanto
ela.
– Eu lhe disse para ficar calada - falou ele.
– O senhor está esquecendo - Tavia conseguiu dizer com dificuldade,
praticamente ofegante com o incrível esforço mental - que nós não viemos aqui
sozinhas. O senhor está esquecendo... que eles são nossos amigos.
– Eu disse fique calada! - rosnou o Falleeen, que virou a arma de raios para
ela.
Com um estouro violento de madeira e pedra, a porta do corredor explodiu
para dentro.
Qazadi foi pego de surpresa, e seu braço tremeu com o impacto dos destroços
quando ele tentou reposicionar a arma no alvo. Através da nuvem de fumaça,
Bink viu uma figura entrar calmamente na sala.
Ela ficou sem ar. Havia presumido que seria Chewbacca ou Lando quem
estaria arriscando a vida para salvá-las. Mas não era nenhum deles.
Era Eanjer.
As mãos estavam espalmadas diante dele como se Eanjer estivesse se
rendendo; a mão direita deformada envolta no medselo, a esquerda aberta e
vazia.
– Eu lhe trago uma proposta, Vossa Excelência - falou ele, mais alto do que o
barulho abafado dos estilhaços da porta caindo no chão e na mobília.
– Eu não faço acordos — rosnou Qazadi, que apontou a arma de raios para o
intruso...
Um tiro verde irrompeu da mão direita deformada de Eanjer, cruzou a sala e
acertou bem no meio do rosto de Qazadi.
E enquanto rosnava desafiadoramente, o Falleen desmoronou na cadeira.
Morto.
Bink encarou Eanjer e abaixou o olhar para o buraco fumegante na mão
medselada. Ela percebeu que a mão não tinha aquela aparência porque era
deformada ou porque fora substituída por uma estranha prótese alienígena.
A mão tinha aquela aparência porque era uma mão humana normal,
completamente funcional, segurando uma arma de raios de pequeno porte.
Bink ergueu o olhar para o olho perfeito de Eanjer.
– Você...
– Era ele ou nós - disse ele calmamente. - Vocês duas estão bem?
– Estamos - garantiu Tavia com a voz ainda rouca, mas Bink notou que ela
estava começando a se recuperar.
Assim como o próprio cérebro de Bink. Sem os feronômios, ela sentiu a
bruma se dispersando rapidamente.
– Qual é o plano? - perguntou ela ao pegar a arma de raios no colo e se
levantar.
– Sair daqui - respondeu Eanjer indicando com a cabeça o buraco irregular
atrás dele. - Lando e Chewie estão esperando ao lado do outro airspeeder.
Vamos.
Bink concordou com a cabeça, pegou o braço da irmã e ajudou Tavia a ficar
de pé.
– E quanto a você? — perguntou ela enquanto guiava Tavia sobre os
destroços.
– Eu quero pegar o cryodex - falou Eanjer. A meia boca deu meio sorriso. -
Melhor deixá-los na dúvida. Vamos, vamos.
Bink levou sua irmã para o corredor, observando que nas proximidades, um
speeder meio esmagado estava à sua direita, e que um desintegrador quebrado da
F-Web estava emergindo a meio caminho de baixo dele. À sua esquerda, Lando
e Chewbacca agachavam-se atrás de um veloz oscilante, os olhos e as
metralhadoras apontavam para o outro lado do corredor. Ele virou Tavia naquela
direção. Quando saíram da sala, ele parou para dar a Qazadi um último olhar,
imaginando como sua mente poderia ter sido levada a pensar que ele era bom,
gentil e amoroso.
E porque ele estava olhando naquela direção, viu Eanjer em pé no corpo da
falleen.
Ela não podia ter certeza, não com o olhar rápido e único que ela lhe dera.
Mas pareceu-lhe que ele estava vendo um holograma ...

Dayja pensou, atordoado, que parecia algo saído de um holodrama insano,


enquanto observava a cena se desdobrar embaixo dele. Uma figura blindada
acenou com um chicote neurônico sobre os últimos remanescentes da multidão
noturna, puxando-os para fora do caminho de uma esfera gigante que rolava
inexoravelmente pelos terrenos do Tesouro de Mármore.
Ele esperava que a equipe de Eanjer roubasse o conteúdo do cofre de
Villachor. Eu nunca teria sonhado que eles planejavam roubar o cofre em si.
Nem teria pensado que, quando o roubo fosse executado, ele se veria preso no
telhado da mansão, a meio quilômetro de onde a ação estava indo.
Tanto quanto não ser capaz de entrar e apreender os arquivos de chantagem
antes que os patifes fizessem sua fuga.
No entanto, isso ainda não acabou. Eanjer prometera a ele os arquivos, e com
certeza ele ainda estava na cena. Em algum lugar.
O cofre estava praticamente invisível enquanto rolava para fora do alcance das
luzes da mansão e dos estalos reluzentes da cerca de varas. Mas o brilho
inconfundível do chicote neurônico mais do que compensava a ausência de luz, e
o cofre em si ficava esporadicamente visível nos breves clarões dos fogos de
artifício.
Dayja pegou os eletrobinóculos e começou uma cuidadosa varredura da área.
Se Eanjer estivesse lá fora, ele o encontraria.

Parecia, pensou Han mais de uma vez, com algo saído de um holodrama
insano.
Ele esperava que o cofre rolasse em uma bela linha reta. Não rolou. O
segmento aberto da esfera ocasionalmente se prendia no chão, o que às vezes
atrasava o ímpeto à frente, e em outras alterava drasticamente a direção. Han
tinha que prestar atenção no monitor traseiro do capacete para evitar perder
completamente a esfera, ao mesmo tempo que continuava a interpretar o papel
do droide descontrolado enquanto tirava as pessoas do caminho do perigo.
Algumas vezes Han pensou ter visto alguns seguranças de Villachor, mas eles
estavam tão boquiabertos quanto os visitantes. Nenhum dos seguranças fez
qualquer esforço para detê-lo. Quando estava já no meio das dependências, o
segmento finalmente bateu no solo com força suficiente para se quebrar. Depois
disso, o trajeto da esfera ficou muito mais previsível.
Por alguns maus momentos, Han pensou que sua preocupação anterior seria
confirmada, de que a esfera realmente fosse atravessar o muro e entrar na cidade.
Mas, pelo menos dessa vez, o pior não aconteceu. A esfera desacelerou e
finalmente parou a cerca de 50 metros do muro. Han desligou o chicote, deu
meia-volta e voltou-se para ela.
Ele estava olhando para o túnel formado pelo armário de pedra Hijarna,
quando a porta se abriu, e Zerba e Kell se arrastaram de maneira insegura.
– Eles estão bem? Han perguntou a eles.
– Isso foi ótimo — disse Kell, soando e parecendo estar bêbado. Lembre-me
de nunca mais fazer isso.
– Sempre será melhor do que andar — disse Zerba. Especialmente quando há
pessoas que estão atirando em você.
– Contanto que a sua porta não termine na parte inferior — disse Han,
enquanto os ajudava a sair do túnel e ir para o chão.
– Não foi por acaso — assegurou-lhe Zerba. O gabinete estava fora do centro
da esfera, e a pedra Hijarna é muito mais densa que a duracreta. O mesmo
princípio que o dado cobrado.
Eu vou acreditar sua palavra 'eu disse Han. Um ruído fora explosões da
direção da mansão foi ouvido, e se virou para ver um avanço do acelerador do
caminhão vários passageiros, atravessando a abertura segura tinha produzido na
cerca de arame farpado eletrificada, e que se dirigia a eles pelo meio dos jardins.
Atrás dele, uma chuva de fogos de artifício estava furiosa nas paredes da sala.
– Que bom — disse Zerba com aprovação. Eu acho que não há chance de eles
queimarem completamente o lugar.
– Provavelmente não — disse Han. Mas, desde que eles tenham que lidar com
o que resta de segurança, não acho que eles nos incomodem.
– A menos que esses sejam alguns deles — alertou Kell, apontando com um
dedo ainda instável em direção ao veículo que se aproximava.
– É apenas sobre Chewie — assegurou Han.
– Tem certeza? Kell perguntou.
Han concordou com a cabeça.
– Eu conheço o estilo de voo dele.
Mesmo assim, não faria mal verificar. Han ligou a visão telescópica do traje e
deu um zoom na speeder van. Era realmente Chewbacca, com Lando e as
gêmeas com ele.
Não havia sinal de Eanjer.
Han franziu a testa e melhorou a captação da imagem, caso tivesse deixado de
ver Eanjer nas sombras, em algum dos bancos detrás. Mas o homem não estava
ali. Han franziu ainda mais a testa e mudou a atenção para as dependências atrás
da speeder van, depois para a mansão. Ainda não havia sinal de Eanjer.
Ele estava verificando as janelas da mansão para ver se o sujeito poderia estar
preso lá dentro quando algo acima delas chamou a atenção.
Havia um homem sentado no telhado.
Han aumentou um pouco a visão telescópica. Não apenas havia um homem
sentado calmamente lá em cima, mas ele estava com um par de eletrobinóculos
nos olhos. Alguma espécie de observador?
Mas aqueles não eram eletrobinóculos comuns, Han percebeu ao se concentrar
no equipamento. Eles eram pequenos e compactos, do tipo que a pessoa poderia
enfiar em um bolso lateral sem sequer ser notado. O tipo caro de eletrobinóculos
que um oficial imperial do alto escalão usaria.
Um oficial do alto escalão ou um agente imperial.
Irrefletidamente, Han afastou o olhar. Dozer havia especulado mais cedo que
o contato de Eanjer pudesse ser um imperial. Parece que ele estava certo.
– Pegaram tudo? - perguntou ele para Zerba enquanto tirava o capacete e
soltava as presilhas da armadura do torso.
– Bem aqui - confirmou Zerba dando um tapinha na pochete da cintura. —
Arquivos de contrabando, outros datacards variados, e todas as fichas de crédito
de Eanjer.
– Otimo - disse Han soltando a armadura do braço e do torso no chão. —
Deixe comigo. Kell, pode me dar uma mão para sair dessa coisa?
Na luz refletida, ele viu Zerba franzir a testa. Mas o outro simplesmente soltou
a pochete e a entregou.
A armadura tinha sido retirada e Han estava revirando a pochete quando a
speeder van freou ao lado deles. A porta se abriu e Chewbacca rosnou.
– Sim, quase - falou Han. - Onde está Eanjer?
– Ele ficou para trás a fim de virar mais alguns canhões de fogos de artifício
na direção da mansão - respondeu Lando enquanto saía pelo outro lado e ia na
direção de Han. - Eanjer disse que vai ao ponto de encontro por conta própria. -
Ele esticou a mão. - Se você não se importa, eu vou pegar a minha parte agora.
Han fez uma expressão de desagrado. Ele imaginou que Lando fosse fazer
essa gracinha.
– Que tal esperamos até todos nós estarmos no ponto de encontro? - sugeriu
Han.
– Que tal você me dar agora? - contra-argumentou Lando. — Então eu posso
pular o ponto de encontro e seguir com a minha vida.
– O que ele está falando? - perguntou Zerba.
– Lando quer trocar a parte dele dos créditos pelos arquivos de chantagem -
explicou Han.
– Ele pode fazer isso? - indagou Kell franzindo a testa.
– Sim, ele pode - disse Lando em tom firme. - Nós já concordamos. E, sem
querer ofender, Han, mas você tem o péssimo hábito de perder a recompensa
para outras pessoas. Então passe aí.
Não havia como evitar.
– Beleza - falou Han com um suspiro.
Ele puxou a caixa com os arquivos de chantagem e entregou para Lando.
– Obrigado - disse ele ao enfiar a caixa dentro da túnica de policial. — Agora,
se você puder me deixar no meu airspeeder, eu vou seguir meu rumo. Quanto ao
resto de vocês, foi divertido.
Um momento depois, eles estavam dentro da speeder van, e Chewbacca
seguia para uma das saídas. Provavelmente ainda havia seguranças de serviço,
mas Han não esperava que eles fossem causar problemas. Não com um dos
veículos do próprio Villachor.
Han estava preocupado com Lando e com o que Lando diria.
E com o que Lando faria.

– Ele tem cerca de 1,75 metro de altura, cabelo escuro, pele negra, bigode tipo
três — falou Dayja correndo no comlink enquanto o airspeeder passava pelo
portão e entrava no intenso tráfego da cidade. — Está com os arquivos de
chantagem e, se tiver algum bom senso, levará para fora de Wuklcar assim que
chegar ao espaçoporto.
– Eu não imagino que você saiba o nome dele - disse D’Ashewl. — Há muitas
naves no solo agora.
– Eu não sei o nome de ninguém, a não ser o de Eanjer - disse Dayja. - Mas
acho que podemos reduzir as possibilidades. A nave dele provavelmente será
alguma coisa pequena, para um passageiro apenas. Tenho a impressão de que ele
apareceu depois que os demais e veio sozinho. Pela aparência, ele
provavelmente é do tipo que adora as coisas boas da vida, mas não pode pagar
por elas, então procure por uma nave que já esteve no topo da lista dos esnobes,
mas que atualmente parece um pouco gasta. Tempo de chegada há nove dias,
com provavelmente uma janela de doze horas em ambos os lados.
– Entendido - respondeu D’Ashewl. - O que ele está vestindo?
– Você vai morrer ao ouvir isso - falou Dayja ao se abaixar quando um dos
rojões que acertavam a mansão jogou fogo em um telhado próximo. - Ele está
usando o uniforme da polícia da Cidade de Iltarr. Mas duvido que tente passar
pelo espaçoporto desse jeito.
– Eu espero que não - concordou D’Ashewl. - Mais alguma coisa?
– Ele estará com pressa - disse Dayja. - Na verdade...
Ele parou e fez os cálculos de cabeça. Pegar a speeder van roubada até o local
onde um veículo de fuga adequado certamente estava estacionado; mudar para
aquele veículo; ir ao espaçoporto; ir à baia; ligar os motores...
– Ele deve pedir uma permissão para decolar em 32 ou 55 minutos,
dependendo de como vai chegar, se de airspeeder ou landspeeder - falou Dayja.
– Ok - disse D’Ashewl. Se ficara surpreso ou duvidara das estimativas de
Dayja, ele foi discreto. — Você quer que ele seja capturado no solo?
– Melhor não — respondeu Dayja. - Eu não sei em que estado estão Villachor
e sua organização neste exato momento, mas não podemos arriscar que um de
seus agentes no espaçoporto se meta antes que tenhamos garantido. Peça ao
Dominador para capturá-lo depois que ele entrar em órbita.
– Vou ligar para o Capitão Worhven imediatamente — disse d'Ashewl. Tenho
certeza de que você ficará feliz em receber outra tarefa sem dar maiores
explicações.
– Faz parte do seu trabalho — disse Dayja. Algo novo sobre Aziel?
– Infelizmente, tivemos que deixá-lo ir — disse d'Ashewl. O príncipe Xizor
foi tão gentil que lhe deu credenciais diplomáticas. Mas havia evidências
suficientes de que o cryodex havia sido originalmente roubado, então consegui
retê-lo como prova.
– Perfeito — disse Dayja. Se conseguirmos os arquivos de chantagem,
teremos o bloqueio e a chave. O diretor ficará satisfeito.
– Eu não me importo com o diretor — disse d'Ashewl com um grunhido.
Lorde Vader ficará satisfeito. Ele representa o futuro do império.
– Talvez — disse Dayja cautelosamente. A última coisa que ele queria naquele
momento era se enredar em outro argumento político. Obtenha um canal de
comunicação com a torre do espaçoporto e coloque o Dominator em alerta. Eu
estarei lá assim que eu puder me apropriar de um speeder do estacionamento do
Villachor.
– Suponho que você quer conduzir o interrogatório por si mesmo?
– Dayja sorriu vigorosamente.
– Apenas pegue ele — ele disse. Eu cuido do resto.

Eanjer sempre esperou sair deste emprego vivo. Ele não estava tão certo sobre
o resto da equipe.
Eu também fiquei um pouco mais do que surpreso que, na realidade, o plano
teria funcionado.
O píer de ancoragem permaneceu em silêncio enquanto passava pela porta.
Ele estava preocupado que Han e Chewbacca tivessem conseguido chegar à sua
frente, apesar de terem que deixar os outros saírem do veículo nas proximidades
do ponto de encontro. No entanto, o Falcon permaneceu silenciosamente
estacionado no escuro brilho da cidade vizinha, com suas luzes e sistemas
desligados e frios.
Ele se perguntou brevemente o que os outros pensariam quando ele e Han não
aparecessem no ponto de encontro. Eles provavelmente concluiriam que ambos
prepararam tudo isso com antecedência, com a clara intenção de não
compartilhar os milhões desses cartões de crédito com qualquer outra pessoa.
Eles ficariam furiosos, prometiam vingança e faziam todas as outras coisas que
as pessoas faziam em tais situações.
E eles falariam sobre isso. Eles definitivamente iriam falar sobre isso. Com
sorte, o que restava da reputação contaminada de Han nunca poderia se
recuperar.
Não que Han precisasse de uma boa reputação. Eu não precisaria mais disso.
Encontrou um lugar onde pudesse sentar-se confortavelmente e observar toda
a seção de campo aberto entre a entrada da doca e a rampa dos Falcões.
Descansando com sua luz blaster em seu colo, ele se preparou para esperar.

Depois de deixar o resto do resto de sua equipe, Han decidiu deixar o


caminhão de aceleração emprestado, e ele e Chewbacca estavam finalmente
prontos para ir para o espaçoporto sozinhos.
– Chewbacca rugiu.
– Eu sei, eu sei — Han disse irritado. Chewbacca estava lhe dando o mesmo
olhar de desaprovação pela última hora. Tudo estará bem. Confie em mim.
– Chewbacca fez um comentário final e depois ficou calado.
Han suspirou. Ele estava certo, era claro. Lando ficaria furioso. Ou coisa pior.
Mas não havia nada que Han pudesse fazer. Não com aquele imperial no
telhado observando a coisa toda.
– Ele vai superar - disse Han em tom firme para Chewbacca. - Eles não farão
nada com ele. Não sem alguma prova.
Chewbacca urrou o óbvio.
– Claro, só que ele não vai simplesmente deixar a caixa parada às claras -
explicou Han pacientemente. - Olha só, vai dar certo. Lando e eu temos uma
longa história. Ele vai superar isso.
Chewbacca não respondeu.
Há duas abordagens quando se lida com uma súbita e avassaladora presença
Imperial, pensou Lando friamente. Uma era continuar voando em inocência
calma e perfeita, um cidadão comum do Império sem nada a esconder. A outra
era meter potência nos motores subluz e tentar fugir.
Em retrospecto, ele deveria ter tentado fugir.
– Eu não estou entendendo nada dessa situação - insistiu Lando com os dois
soldados da Frota de expressão severa que estavam entre ele e a porta da área de
estar de sua nave. — Nem sei o que eu supostamente fiz. Os senhores podem
pelo menos me dizer qual é a acusação?
Os soldados não responderam. Por outro lado, tirando terem mandado que ele
abrisse a escotilha após ter sido trazido via raio trator para o hangar do destróier
estelar, e depois terem mandado que ele fosse à área de estar, nenhum dos dois
guardas tinha dito uma palavra.
Lando suspirou e desistiu da última tentativa de comunicação. Todos eles
obviamente estavam esperando por alguém, e nada aconteceria até aquele
alguém chegar. Aquela seria uma noite longa, muito longa.

Do outro lado da baia, a tranca da porta se abriu com um clique. Eanjer ergueu
a arma de raios e mirou com o olho bom.
E abaixou novamente quando o droide de limpeza entrou na baia, com os
quatro braços escovando diligentemente as paredes e o piso.
Eanjer verificou o relógio e franziu a testa. Han estava atrasado.

A porta da área de estar se abriu e, para a surpresa de Lando, uma figura


mascarada, de capuz e capa, entrou no ambiente.
– Boa noite - falou o sujeito ao parar entre os dois soldados. - Eu peço
desculpas pelo atraso. Imagino que o senhor esteja à vontade?
– Bastante - respondeu Lando se sentindo abatido.
Sem uniforme, sem insígnia, com o rosto oculto, e andando livremente por um
destróier estelar. Alguma espécie de agente então - Inteligência, Ubictorado,
talvez até o Departamento de Segurança Imperial.
– Ótimo. - O homem gesticulou para os soldados. — Esperem do lado de fora.
– Sim, senhor - respondeu um deles.
Os dois saíram juntos. O sujeito aguardou até que a porta se fechasse, depois
abaixou o capuz e a capa e retirou a máscara.
– Chega disso — disse ele animadamente enquanto esfregava a testa. -
Desculpe pela atitude teatral, mas por razões que não explicarei eu não posso
mostrar minha cara a bordo desta nave.
– Eu compreendo - falou Lando ficando ainda mais abatido.
O homem que o encarava era jovem. Bem mais jovem do que ele esperava.
Assustadoramente jovem.
Porque os jovens eram sempre ambiciosos. E no universo nebuloso em que
essa gente operava, só havia uma única maneira de jovens agentes subirem na
carreira: levando troféus de presente para seus superiores.
Inimigos do Império. Verdadeiros ou meramente plausíveis.
A situação só ficava cada vez pior.
– Bem, então - disse o jovem ao colocar a máscara na mesinha lateral e se
sentar na cadeira diante de Lando. - Vamos começar com as apresentações. Eu
sou Dayja, e você... bem, vamos só chamá-lo de Lando, que tal?
– O que você quiser - respondeu Lando contendo uma cara feia. Lá se foram a
identidade falsa cuidadosamente construída e o registro da nave que ele usara
para voar.
– Ótimo - falou Dayja. - Bem, está tarde, nós dois tivemos um dia muito
cheio, e tenho certeza de que você está tão cansado quanto eu. Então, o que você
diz de nós andarmos rápido com isso, e você simplesmente me dar a caixa.
– Caixa?
– A caixa de arquivos de chantagem do Sol Negro - explicou Dayja
pacientemente. — Aqueles que você roubou na noite de hoje do cofre de Avrak
Villachor. Trabalho magnífico, por falar nisso. Estou muito impressionado.
– Ficamos contentes que tenha gostado — disse Lando com o cérebro dando
voltas com as possibilidades.
Não parecia haver sentido em negar que Han lhe dera os arquivos. Dayja
obviamente sabia de alguma forma.
Mas se ele jogasse bem suas cartas, talvez ainda conseguisse algum espaço
para negociação.
– Se eu lhe entregar a caixa ...
– Se é o que? Dayja o interrompeu, olhando para ele perplexa. Não, você não
entende. Não é um "se isso". Você vai me dar a caixa. Em seguida, vamos falar
sobre como fazer uma oferta.
Soa mais como um ultimato do que um acordo.
– Eu suponho que sim — Dayja concordou, olhando ao redor da sala. Eu vou
te dizer o que vamos fazer. Para economizar tempo, por que não acabo
procurando a caixa sozinho? Ele se levantou e se aproximou da estação de
monitoramento do motor na parede lateral.
E a incredulidade horrorizada de Lando, deu o canto da ventilação tela do
monitor, um empurrão rápido para liberá-lo, e enquanto o cofre escondido fez
sua aparição, virou o monitor aberto para revelar o compartimento de arrumação
escondido atrás do.
– Sinto muito — disse ele, dando um sorriso forçado para Lando. Infelizmente
para você, este pequeno esconderijo de jóias tem sido um recurso padrão na série
G50 já há algum tempo.
Lando suspirou.
– Eles me disseram que era um condicionamento personalizado.
– E, sem dúvida, eles cobraram extra por isso. Algumas pessoas não têm
escrúpulos. Inserindo a mão na abertura, Dayja removeu cuidadosamente a
caixa. Lançou a Lando um olhar indecifrável e, quase com reverência, soltou a
fechadura da caixa e levantou a tampa.
Sua expressão petrificada. Por um momento mais, ele manteve sua postura,
depois ergueu os olhos para Lando.
– Muito inteligente — ele disse, uma súbita fragilidade em sua voz. Onde
estão?
– Onde eles estão? Lando perguntou, com uma desagradável sensação de
desgraça caindo sobre ele. Não; Han não poderia ter conseguido ...
Dayja virou a caixa vazia na frente dele.
– Onde estão os cartões de dados?
Lando suspirou. Sim, Han foi capaz de fazer isso.
– Eles ainda estão em Wukkar, suponho — disse ele. Na verdade, eles
provavelmente estão em algum lugar no hiperespaço agora.
– Onde eles estão indo?
– Um ponto de encontro em Xorth — disse Lando. Mas duvido que eles
fiquem lá por muito tempo. De fato, desde que eles estavam obviamente
esperando que eu fosse capturado, eles provavelmente não irão a esse lugar.
Por um longo minuto, Dayja olhou para ele. Então, com cuidado, ele fechou a
caixa.
– Você joga sabacc, Lando? -te pergunto.
– Sim — disse Lando, sentindo o cenho franzido na testa.
– Sim, claro que sim — disse Dayja, voltando para a cadeira, mas ainda de pé.
E aposto que ele depende muito de sua habilidade de blefar.
– Na verdade, prefiro ter boas cartas na mão.
– Eu também — disse Dayja. Mas às vezes temos que ser criativos com os
cartões que nos foram entregues. Ele puxou o seu link. Capitão Worhven? Eu
terminei aqui. Peça a seus homens que preparem meu transporte. Deu a Lando
um sorriso estranhamente irônico. Assim que eu partir, nosso convidado e seu
navio estarão livres para recuar. -Ele recebeu um "entendido" e removeu o
comlink.
– Realmente? Perguntou Lando com cautela.
– Sério — Dayja assegurou. Alcançando a cadeira, ele pegou sua máscara.
Felizmente para você, é do meu interesse que isso pareça como se tivéssemos
chegado a um acordo, que tivéssemos negociado nossos negócios, e então nos
separaríamos amigavelmente. Ele inclinou a cabeça. A menos que você queira
ficar a bordo.
– Não, não, não mesmo — disse Lando apressadamente.
– É claro que você não deve contar aos seus amigos nada sobre isso —
continuou Dayja. O que aconteceu aqui continuará sendo nosso pequeno
segredo.
– Não se preocupe — rosnou Lando. Eu duvido que eu veja algum deles. Pelo
menos não por um bom tempo.
– Bem. -Dayja colocou a máscara e reorganizou sua capa e capuz. Uma boa
noite para você, e tenha uma viagem segura. E mais uma coisa.
Ele apontou o dedo para o rosto de Lando.
– Você me deve uma — ele disse. Algum dia eu vou aparecer novamente para
coletar.
Colocando a caixa no bolso de sua capa, ele se virou e saiu da sala.
Lando esperou um minuto. Os soldados não retornaram. Ele esperou mais um
minuto, depois outro e finalmente abriu a porta do quarto.
Os troopers foram embora. Bem como Dayja. Lando foi até a escotilha,
certificou-se de que estava bem fechado e seguiu para a cabine.
Ele estava no banco do piloto, olhando para os homens andando no interior da
estação de controle de voo do outro lado do hangar, quando recebeu a ordem de
soltura.
Porém, foi preciso todo o tempo até entrar no hiperespaço para Lando respirar
normalmente outra vez.

O som de fogos de artifício pela cidade havia parado fazia muito tempo.
Assim como o volume de trânsito havia diminuído conforme o povo da Cidade
de Iltarr saía dos vários locais do Festival e rumava para casa. E Han ainda não
tinha aparecido.
Finalmente, com atraso, Eanjer percebeu.
Era uma cópia excelente, ele teve que admitir ao passar por baixo da nave e
iluminar o casco com a eletrotocha. Um cargueiro YT-1300 clássico,
praticamente com a mesma idade e estado, até mesmo com algumas das mesmas
modificações.
Mas apenas com algumas. Outras, como o compartimento de mísseis de
concussão e o canhão de raios Ground Buzzer, não estavam presentes.
Não era a Millennium Falcon. Era um chamariz, trocado na baia em algum
momento durante os últimos nove dias.
Han não viria. Na verdade, ele já tinha ido embora fazia muito tempo, sem
dúvida.
Eanjer deu um sorriso frágil na escuridão. Dozer, obviamente. Tinha que ter
sido ele. Todo o tempo que Dozer passara longe da suíte nos primeiros dias de
preparação, supostamente resolvendo compromissos e comprando equipamentos
para todos os demais.
Eanjer teria que encontrar alguma maneira de fazer o ladrão de naves pagar.
Ainda assim, haveria outras oportunidades. Ele podia esperar.
Eanjer saiu da baia e cruzou o espaçoporto até onde a própria nave estava
pousada. Não olhou para trás.

A multidão já tinha ido embora fazia muito tempo, e os fogos de artifício


descontrolados há muito tinham acabado.
E a vida de Villachor estava acabada.
Ele estava no guarda-corpo da sacada, olhando nas dependências para o
enorme cofre impenetrável parado ali fora para o universo inteiro ver. O cofre
impenetrável que tinha sido invadido.
Os arquivos de chantagem do príncipe Xizor haviam sumido. Aziel se livrara
dos imperiais, mas perdera o cryodex e estava procurando furiosamente alguém
para culpar.
E Qazadi estava morto. Fora assassinado.
Na própria casa de Villachor.
Atrás dele, a estação de comunicação segura da suíte apitou. Por um breve
momento, Villachor considerou ignorá-la. Mas não havia sentido realmente.
Quando o Sol Negro decidisse rastreá-lo, não haveria nada que pudesse fazer a
respeito. Ele lançou um último olhar para sua amada e devastada propriedade,
deu meia-volta e entrou na suíte.
Ele esperava que fosse Aziel, possivelmente o príncipe Xizor em pessoa. Mas
não era nenhum dos dois.
– Mestre Villachor - disse lorde D'Ashewl, sorrindo alegremente no monitor.
— Espero não estar ligando muito tarde?
– De maneira alguma - falou Villachor. - O que posso fazer pelo senhor?
– Eu estava pensando em nossa conversa há alguns dias — respondeu
D’Ashewl — e achei que o senhor estaria interessado em algo que acaba de
chegar às minhas mãos. Ele se inclinou, levantando o arquivo de chantagem da
Black Black. Eu acho que não preciso te dizer o que isso significa —
acrescentou ele, abrindo a caixa para mostrar a Villachor os cinco cartões de
dados pretos colocados perfeitamente por dentro.
– Não, não — concordou Villachor, cansado. Você me chamou para me gabar?
– Não, de jeito nenhum — assegurou d'Ashewl. Estou ligando para ver se ele
ainda está interessado em chegar a um acordo.
Villachor franziu a testa, tentando ler as intenções daquele rosto redondo e
corado.
– Você tem os arquivos e você também tem o cryodex. Por que ele precisaria
de mim?
D'Ashewl encolheu os ombros.
– Você sabe muito sobre Sol Negro e Você pode ser uma contribuição muito
valiosa para nós.
– E claro, você poderia me proteger? Villachor grunhiu sarcasticamente.
– Na verdade, somos bons o suficiente para esse tipo de coisa — disse
d'Ashewl, enquanto todos os remanescentes de leveza desapareciam de seu rosto
e voz. Lorde Vader é ainda mais. Acredito que, nas circunstâncias atuais, poderia
ser persuadido a colocar um interesse pessoal nisso.
Era uma possibilidade remota, Villacho sabia. Sol Negro tinha pessoas e
agentes em todos os lugares. Sua vida provavelmente estava sendo contada em
questão de dias ou até horas.
Mas mesmo uma possibilidade remota era melhor que nenhuma chance.
– Muito bem — disse ele. Ele cruzou os dedos mentalmente. Toda a sua vida,
todos os seus esforços, todo o seu poder acumulado e suas riquezas ... - Você tem
um acordo.
CAPÍTULO

24

– E ainda nenhum sinal de Eanjer? - perguntou Dozer, provavelmente pela


décima vez desde que chegara.
– Não - respondeu Han ao desmoronar no sofá, cansado.
A suíte não era tão grande ou luxuosa quanto aquela na Cidade de Iltarr, e a
mobília não era tão confortável. Mas, diante das circunstâncias, era bem mais
segura.
E ser segura era bom naquele momento. Ser segura era muito bom.
– E nem haverá sinal dele - acrescentou Han. - Rachele acabou de descobrir...
– Espere um instante — interrompeu Zerba incrédulo. - Você está nos dizendo
que ele simplesmente escapou?
– É mais provável que Eanjer não tenha visto a mensagem no ponto de
encontro - sugeriu Bink. — Talvez um de nós devesse voltar e ver se ele ainda
está esperando lá.
– Ele não está. - Han fez um gesto para Rachele, sentada atrás
dele ao computador, com uma expressão tensa no rosto. - Você quer contar
para eles, Rachele? Ou eu conto?
– Eu conto - falou Rachele com a voz melancólica. — Eu acabei de receber
um relatório da polícia da Cidade de Iltarr. Eles encontraram o corpo de Eanjer.
– Ah, não - sussurrou Tavia, parecendo abalada. — Ah, Rachele.
– Não seja assim tão sentimental - rosnou Han. — Conte o resto.
– Eles encontraram o corpo de Eanjer — repetiu Rachele - onde
aparentemente foi desovado e deixado para sangrar até morrer. - A garganta
travou. - Há seis semanas.
Por um longo momento, ninguém falou. Han olhou ao redor da suíte,
observando as expressões de surpresa e confusão se tornarem uma compreensão
horrorizada.
– Você quer dizer... antes de ele sequer falar com Han? - indagou Kell, que
disparou um olhar para Han. - Ou...
– Ou quem quer que fosse — disse Dozer parecendo não ter certeza se deveria
estar chocado ou furioso. - Mas então...
– O que ele queria? — Han balançou a cabeça. - Eu não faço a menor ideia.
– Eu faço — falou Bink baixinho. — Ele veio para matar Qazadi.
Chewbacca vociferou.
– Com certeza - concordou Winter em tom sério. — E todos nós caímos nessa.
– Mas você pelo menos suspeitou de alguma coisa, não foi, Han? —
perguntou Rachele. — Aquela conversa que você teve com ele depois que
resgatamos Lando e Zerba.
– Eu sabia que o cara tinha alguma coisa esquisita — falou Han. - Ele parecia
mais interessado em entrar na mansão do que em retirar seus créditos. Mas eu
imaginei que fosse apenas a parte da vingança falando. O resto... - Ele balançou
a cabeça. - Eu não tinha noção.
– Então ele nos usou — murmurou Kell. - Ele nos trouxe para fazer todo o
trabalho pesado, levá-lo ao interior da mansão e matar os guardas de Qazadi.
Filho de um bantha.
– E a troco de nada — rosnou Zerba e jogou a ficha de crédito que andara
remexendo de volta à pilha na mesa. - Sem Eanjer... o verdadeiro Eanjer... essas
coisas não valem nada.
– Não completamente - disse Rachele. — Eu conheço alguns slicers. A gente
talvez consiga pegar... eu diria uns 815 mil.
– Erro meu - falou Zerba sarcasticamente. - Isso continua sendo mais perto de
zero do que os 163 milhões que eram o nosso combinado. Se algum dia eu pegar
aquele cara...
– Você não vai pegá-lo — disse Bink. - Quem quer que fosse, ele era um
profissional.
– Ou um imperial — grunhiu Dozer.
– Ou um imperial - concordou Bink. - O que eu quero dizer é que nós nem
sabemos como é a aparência dele. Não com todo aquele medselo metido na cara.
Para onde quer que tenha desaparecido, ele escapou para valer.
– E então, o que faremos agora? - perguntou Kell.
– Nós recuperamos o que for possível — respondeu Han tentando evitar a
própria decepção avassaladora no tom de voz. Lá se fora o sonho de se livrar de
Jabba. Lá se foram todos os seus sonhos. - Rachele disse que consegue arrancar
815 mil das fichas. É 81.500 para cada um. Nada mal para duas semanas de
trabalho.
– Oitenta e um mil e quinhentos? — perguntou Zerba franzindo a testa. - Eu
conto 90 mil mais uns trocados.
– Dez de nós são 81.500 para cada um - lembrou Kell.
– Eu só vejo nove pessoas nesta sala.
– Lando ainda recebe a parte dele — disse Han em tom firme.
– Eu pensei que a parte dele fosse os arquivos de chantagem - falou Zerba em
tom de desdém.
– Que ele não recebeu - falou Han. - Então ele recebe um décimo dos créditos
como foi combinado.
– Que você vai entregar em pessoa? - Zerba deu um muxoxo de desdém. - Isso
eu pagaria para ver.
– Vamos entregar para ele - disse Han olhando a pilhagem sobre a mesa.
O resto dos datacards se mostrara sem valor - detalhes das operações de
contrabando de Villachor que seriam interessantes para uma promotoria, mas
não para um bando de vigaristas freelancers.
Mas ainda havia os cinco datacards de chantagem. Como os outros datacards,
eles não valiam nada para ninguém naquela sala.
Talvez não fossem inúteis para todo mundo. Pelo que Han tinha visto da base
em Yavin, a Aliança Rebelde tinha todo tipo de coisa esquisita entocada. Se eles
conseguissem desencavar um cryodex em algum lugar, talvez pudessem fazer
bom uso dos arquivos de chantagem.
E se esse fosse o caso, talvez Han pudesse pedir alguma recompensa para
Dodonna. Provavelmente não o suficiente para levar uma vida mansa, como
aquele serviço deveria ter bancado, mas talvez o bastante para pelo menos dar a
ele e Chewbacca uma pausa para respirar.
Han fez um pequeno cálculo mental. Se ele mantivesse o suficiente para pagar
sua dívida com Jabba...
– Deixe-me adoçar o pote um pouco — ele ofereceu. Eu posso comprar sua
parte dos arquivos de chantagem por dezoito mil e quinhentos cada. Isso faria
com que cada um ganhasse cem mil mil.
Chewbacca rugiu uma pergunta.
– Bem, sim, estou incluindo sua parte nessa transação — Han confirmou. De
que outra maneira você acha que ele ia oferecer dezoito mil e quinhentos para
cada um?
– Então, primeiro Lando queria as cartas e agora quer ficar com elas? Zerba
perguntou desconfiada. Há algo que você não está dizendo ao resto de nós?
– Na verdade não — disse Han. Na verdade, achei que todos gostariam de
receber alguns créditos adicionais. E não é que Chewie e eu estamos escapando
de qualquer lugar.
– Então você poderia pagar sua dívida com Jabba — Bink apontou.
– Teremos o suficiente para fazer isso — assegurou Han.
– Na verdade ..." Rachele interrompeu. Não importa.
– É um negócio? Han perguntou.
Os outros se entreolharam.
– Tudo bem para mim — disse Kell.
– Para mim também — destacou Dozer.
– Claro, porque não? Zerba rosnou. Eu não podia usá-los no meu ato ou para
qualquer outra coisa.
– Tudo bem — disse Han. Deixe suas informações de contato com Rachele, e
ela enviará suas partes depois que ela puder transformar as fichas em dinheiro.
– E não vamos mais falar sobre isso — acrescentou Rachele. Com ninguém.
– Sem problema - falou Kell. - Para começo de conversa, quem acreditaria na
gente?
– Apenas as pessoas que nos matariam por ter feito o serviço - falou Zerba ao
ficar de pé. - Bem. Até mais, todo mundo. Bons voos.
– Foi ótimo não nos conhecermos assim - disse Tavia ironicamente.
– Na minha opinião, Han, foi divertido — falou Bink ao se levantar também. -
Chame a gente da próxima vez que tiver um serviço.
Cinco minutos e uma rodada de despedidas depois, todos eles, a não ser
Chewbacca, Rachele e Winter, tinham ido embora.
– Você queria alguma coisa? — perguntou Han para Winter.
– Só um minuto - disse ela. — Primeiro, eu gostaria de ouvir o que Rachele
estava começando a dizer anteriormente.
Chewbacca rosnou, concordando.
– É unânime, Rachele - falou Han. - Vá em frente.
Rachele suspirou e respondeu:
– E uma coisa que eu captei nos canais alternativos. Antes de nós sabermos
sobre Eanjer. - Ela respirou fundo. - Jabba aumentou sua dívida, Han. Aumentou
para meio milhão.
Han olhou fixamente para Rachele.
– Meio milhão?
– Ele está culpando você pelo Sol Negro ter descoberto sobre Morg Nar em
Bespin - explicou Rachele com tristeza. — Eu sinto muitíssimo. Imaginei que
não fosse importar realmente, uma vez que você ganharia quase quinze milhões,
e não quis estragar a ocasião para você. Mas depois, quando descobrimos sobre
Eanjer, e... - Ela se interrompeu.
– Tudo bem - disse Han, sentindo o peso de todo o universo caindo em cima
dele.
Han não esperava que a notícia sobre Nar chegasse a Jabba tão rápido. Mesmo
que chegasse, ele não imaginava que Jabba fosse capaz de culpá-lo. Han
certamente não esperava que Jabba levasse a perda da operação de Bespin para o
lado pessoal.
Assim, em vez de se livrar de Jabba para valer, ele se envolvera ainda mais.
Chewbacca grunhiu.
– E, talvez - concordou Han em tom de dúvida. - Mas ele com certeza não vai
se acalmar por enquanto. Aquela operação de Bespin não dava muito dinheiro,
mas por algum motivo Jabba realmente gostava dela.
– Se você precisar de um lugar para ficar, tenho certeza de que consigo
encontrar - ofereceu Rachele.
– Ou - falou Winter calmamente — você pode voltar para seus outros amigos.
Han franziu a testa.
– Que outros amigos?
– As pessoas com quem você trabalha - disse Winter. — As pessoas para
quem eu imagino que você dará os arquivos de chantagem. — Ela ergueu
levemente as sobrancelhas. — As pessoas que simplesmente podem ser capazes
de encontrar outro cryodex.
Han disparou um olhar para Chewbacca. Como ela tinha conseguido descobrir
aquilo, raios?
– Eu não sei do que você está falando.
– Você sabe, sim - retrucou Winter. - Veja bem, eu cuido da
Logística para eles... e aquela cápsula de fuga que você disparou
dentro da fábrica fazia parte de um lote que eu contrabandeei para eles há sete
meses.
– Claro que fazia - falou Han revoltado. Ele nunca, jamais deveria ter deixado
Sua Veneranda convencê-lo a deixá-la substituir as cápsulas de fuga que ele
ejetara durante o lance da Estrela da Morte. - Olha só, eu não roubei as cápsulas,
se é isso que está pensando. Ela insistiu que nós as pegássemos.
Foi como se alguém tivesse ligado um farol atrás dos olhos de Winter.
– Ela? — repetiu Winter abruptamente ajeitando as costas na cadeira. - Sobre
qual ela nós estamos falando?
Han encarou Winter, e aquela confissão amarga que ela fizera subitamente lhe
veio à mente. Eu era envolvida com o palácio real de Alderaan...
– A princesa - respondeu ele. — Leia.
– Você a viu? — perguntou Winter com a voz um pouco trémula. — Desde
Alderaan, quero dizer.
– Claro. Na verdade, eu estive com ela em Yavin, onde a... - Ele disparou um
olhar para Rachele.
– Tudo bem — disse Rachele. - Nós sabemos sobre Yavin e a Estrela da
Morte.
– Ela escapou de lá numa boa - falou Han. - Até onde eu sei, ela continua
numa boa.
E continua esnobe e insuportável, ele pensou em acrescentar. Ainda assim, se
Winter conhecia a princesa, ela provavelmente já sabia disso.
– Obrigada - disse Winter calmamente. - Eu fiquei... nós não soubemos dos
detalhes.
– Bem, você vai ter que saber o resto por outra pessoa - falou Han ao se
levantar. - Se Jabba aumentou minha dívida, ele provavelmente aumentou a
minha recompensa também. Nós precisamos encontrar algum lugar para nos
escondermos por um tempo.
– Leia vai acolhê-lo - prometeu Winter.
– Veremos. - Han a encarou. - A propósito, aquele lance sobre jamais
mencionar este serviço para alguém? Vale em dobro para Sua Alteza.
Winter sorriu.
– Certamente - prometeu ela. - Cuide-se, Han.
– Ele vai - disse Rachele sorrindo também. — Ele sempre se cuida.
Eles estavam de volta à Falcon, esperando pela permissão para decolar,
quando Chewbacca finalmente fez a pergunta óbvia.
– Eu não sei ainda - respondeu Han. - Voltaremos quando for o momento,
acho eu.
Chewbacca ponderou, depois grunhiu novamente.
– Claro que ela gosta de mim - disse ele sarcasticamente. - Quem não gosta?

– Mestre? - chamou hesitante o droide protocolar parado na porta. - Chegou a


hora.
– Hora de quê? — perguntou Eanjer, concentrado no espelho diante dele
enquanto tirava com cuidado a última faixa de medselo do rosto.
– Sua Sublimidade espera sua presença - disse o droide parecendo ainda mais
nervoso do que o normal.
O que não