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Álvaro de Campos

Que Noite Serena!


Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...


O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?


Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.

1. Identifique os elementos caracterizadores do passado evocado pelo sujeito


poético.
O tempo evocado é o da infância feliz, vivida em Lisboa, que o sujeito poético caracteriza
como um tempo de encantamento que a memória convoca quando ouve a cantiga; é
também um período de "Sossego de várias espécies" (v. 7), físicas e mentais, vivido com
despreocupação, porque se trata de uma "infância sem o futuro pensado" (v. 8). É um
tempo de harmonia, de tranquilidade, de vivências familiares e domésticas, representado
pelo "terceiro andar das tias" (v. 6), pelo "ruído aparentemente contínuo da máquina de
costura" (v. 9) e em que "É tudo bom e a horas" (v. 10).
O passado evocado pelo sujeito poético caracteriza-se como sereno, suave (“Suave, todo
o passado”), pleno de sossego, de regras harmoniosas e felizes “E tudo bom e a horas”),
um passado “sentido”, onde o pensamento não ocupava lugar (“A infância sem o futuro
pensado”), um tempo de encantamento e despreocupação
Álvaro de Campos

2. Os quatro primeiros versos são a citação de uma cantiga, parcialmente


retomada no verso 13. Explique a função de cada uma das citações.
A primeira citação remete para a memória encantada da infância, o tempo em que o su-
jeito poético ouvia a cantiga agora evocada; a segunda, para quando a consciência do
presente se interpõe entre o "eu" e a recordação da infância. A permanência do seu eco
na memória do sujeito poético faz com que essa cantiga se revele como um resto do
passado morto, que se torna incómodo e que, como tal, o sujeito tenta silenciar.

3. Refira os sentimentos do sujeito poético relativamente ao presente.


A consciência do presente, que surge do confronto com o passado evocado, desencadeia
um sentimento de perda irremediável que domina o sujeito poético. A saudade de um
tempo perdido é agudizada e o verso final traduz o desespero do "eu" perante a
impossibilidade de esquecer a cantiga e de recuperar a infância perdida.
Os quatros primeiros versos funcionam como uma espécie de máquina do tempo que
transporta o sujeito poético até à infância, despoletando essas lembranças e, portanto,
de uma certa felicidade nostálgica. A citação presente no verso 13 já desempenha um
papel diferente, é uma espécie de grito de dor face a um passado e a uma felicidade
irremediavelmente perdidos.

4. Comente o efeito expressivo da repetição «E dói, dói, dói,...» (v. 17).


A repetição de "dói" sublinha o sofrimento experimentado pelo "eu", provocado pela
evocação de um passado feliz e impossível de reviver. Confere, assim, a essa dor uma
dimensão insuportável, uma presença constante, da qual o sujeito poético não se
consegue libertar.

“Aqui” é o momento presente, é dor, o sofrimento, a incapacidade de viver e ser feliz. “Lá” é a
infância encantada, é a felicidade perdida, é o espaço do “tudo bom e a horas”. O presente é o
momento do desconforto, da dor, do sofrimento, da incapacidade de viver. Esta dor do
presente agudiza-se ainda mais, quando o sujeito poético evoca o passado. Desse confronto
entre os dois tempos surge o desespero evidente do último verso do poema.

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