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História da igreja

antiga
Aula- Patrística
Irineu de Leão
Irineu de Lyon é considerado um dos teólogos mais importantes do seu
século. Não se sabe exatamente a data de seu nascimento, provavelmente
nasceu entre 140 e 160. Sua cidade natal fica na região da Ásia Menor,
provavelmente em Esmirna. Foi discípulo de Policarpo de Esmirna. Deixou a
Ásia Menor e foi viver na região das Gálias. Quando ocorreu a perseguição
de Marco Aurélio já era Presbítero em Lyon em 177/ 178.
Na qualidade de Presbítero foi enviado pelos mártires de Viena e Lyon para
ser mediador em Roma, levando uma petição de tolerância ao papa Eleutério,
na questão montanista. Quando regressou de Roma o Bispo de Lyon, Fotino,
havia sido martirizado e Irineu foi nomeado seu sucessor.
Outro momento marcante de sua trajetória foi quando o Papa Vitor
excomungou aos asiáticos pelo motivo da controvérsia Pascal, Irineu
escreveu a alguns destes bispos e mesmo ao papa exortando eles a fazerem as
pazes.
A partir desse incidente desaparece todas as pistas acerca de sua vida, não se
sabe exatamente qual foi a sua causa de sua morte até que Gregório de Tours
em sua Historia Francorum narrar que ele havia sido morto com mártir.
Escritos de Irineu
Além da administração de sua diocese, Irineu se dedicou a tarefa de
combater as heresias gnósticas por meio de textos escritos através de uma
excelente refutação e análise crítica . Sabia combinar seu vasto
conhecimento das Fontes eclesiásticas.
Infelizmente a grande parte dos seus escritos se perderam e apenas duas
foram conservadas na íntegra, sendo uma delas a sua obra de maior
importância, mas que não é o original em grego, apenas uma versão latina.
A obra intitulada Denúncia e Refutação da Falsa Gnose, geralmente
chamada Adversus Haereses, data dos anos decorrentes entre 180 e 185. A
obra se divide em duas partes, a primeira (Livro I) trata de demonstrar a
heresia gnóstica, Irineu começa com uma detalhada descrição da doutrina
dos valentinianos, apenas depois aborda a questão das origens do
gnosticismo. Fala de Simão, O Mago e de Menandro, depois cita os chefe das
escolas e seitas gnósticas . Na segunda parte é composta de quatro livros, o
livro II refuta com o argumento de razão a gnose dos valentinianos e dos
marcionitas, o livro III usa argumentos da doutrina da Igreja sobre Deus e
sobre Cristo, O livro IV traz as palavras do Senhor, o livro V trata quase
exclusivamente da Ressurreição da carne negada por todos os
gnósticos. Como conclusão fala do milênio.
A obra é considerada como falta de nitidez em sua disposição e de unidade
de pensamento. Isso pode ser decorrente do fato de que o autor tenha escrito
sua obra de forma intermitente. No prólogo do terceiro livro disse que já
havia mandado os dois primeiros a um amigo a cujo requerimento havia
pedido suas composições, os outro três foram enviados uns após os outros.
Tudo indica que Irineu adicionou a toda obra novos detalhes e ampliações de
tempos em tempos. Apesar de tudo a obra contém uma descrição clara,
simples e persuasiva das doutrinas da Igreja.
Sua obra segue sendo de grande importância para o estudo da gnose e da
teologia da igreja primitiva. “Não podem esperar de mim, que resido entre os
celtas e estou acostumado a usar continuamente uma dialeto bárbaro,
nenhuma exibição de retórica, a qual não aprendi nunca, nem tampouco a
qualidade na composição, que nunca pratiquei, nem sequer um estilo belo e
persuasivo, que não pretendo. Porém, aceitarás com espírito benevolente o
que eu te escrevo, com o mesmo espírito, com simplicidade, sinceridade e
modéstia”. (Adv Hae, I, Prefa. 3)
Quando escreve as doutrinas gnósticas Irineu se baseia em suas extensas
leituras de tratados gnósticos, porém aproveita também a contribuição dos
escritos anti-heréticos que lhe precederam.
A segunda obra de Irineu chama-se Demonstração dos Ensinos Apostólicos.
Durante muito tempo apenas se conhecia o título dessa obra que foi
apresentada por Eusébio de Cesareia, porém, em 1904 foi descoberta a obra
inteira em uma tradução armênia e foi publicado pela primeira vez em
1907. Este opúsculo não é uma obra de catequese como opinavam alguns,
mas um tratado apologético. É composto de duas partes, traz algumas
observações introdutórias sobre os motivos que o impulsionou a escrever essa
obra. Na primeira parte estuda o conteúdo essencial da fé cristã, trata das três
divinas pessoas, da criação e da queda do homem, da Encarnação e da
Redenção. Descreve a história das relações de Deus com o homem, desde
Adão até Cristo. A segunda parte traz algumas provas em favor da Verdade da
Revelação Cristã, retiradas das profecias do Antigo Testamento e apresenta
Jesus como filho de Davi e como Messias. Como Conclusão o autor exorta
seus leitores a que vivam de acordo com a sua fé e os precavêem contra a
heresia e a impiedade.
A Teologia de Irineu
Duas razões explicam a importância teológica de Irineu, em primeiro lugar o
fato de ter desmascarado o caráter pseudocrístão da gnose, acelerando dessa
maneira a eliminação dos adeptos desta heresia do seio da Igreja e em
segundo porque ele defendeu com muito êxito os artigos de fé da Igreja,
negando as más interpretações feitas pelos gnósticos.
Irineu tem o grande mérito de haver sido o primeiro a formular termos
dogmáticos da doutrina cristã:
Trindade- ainda que seu contemporâneo Teófilo de Antioquia tenha
empregado a palavra, Irineu não se serve dela para definir a Deus uno em três
pessoas. Ele preferiu insistir em outro aspecto da divindade, a identidade do
Único verdadeiro como criador do mundo, com o Deus do Antigo Testamento
e com o Pai do Logos. Irineu não discute as relações com as três pessoas em
Deus, porém está convencido de que a história da humanidade prova
claramente a existência do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Existiram antes
da criação do homem. Explica que uma vez ou outra o Espírito Santo, a
serviço do Logos, chega aos profetas com o carisma da inspiração e que as
ordens para tudo isso é dada pelo Pai.
Cristologia- em Irineu temos a primeira intenção de compreender a
relação entre o Pai e o Filho de uma maneira mais especulativa: “Deus
se manifestou pelo Filho, que está com o Pai e tem em si o Pai”. Ensina
que há apenas um Cristo, ainda que demos a ele diferentes nomes,
portanto, Cristo é idêntico ao Filho de Deus, ao Logos, ao Homem-Deus
Jesus, nosso Salvador e Senhor.
Usa a ideia da Recapitulação, que é resumir todas as coisas em Cristo
desde o princípio. Deus refaz seu primitivo plano de salvar a
humanidade que havia ficado perdida com a queda de Adão e volta a
tomar toda sua obra desde o princípio para renová-la, restaurá-la e
reorganizá-la em seu Filho encarnado, quem converte para nós desta
maneira em um segundo Adão. Uma vez que houve a queda do homem,
toda raça humana se tornou perdida, o Filho de Deus teve que tornar-se
homem para realizar como tal uma nova criação da humanidade. Com a
recapitulação do homem original, não apenas foi renovado e restaurado
Adão pessoalmente, mas também toda raça humana.
Mariologia- a ideia de Recapitulação influenciou profundamente a
doutrina mariana de Irineu. Justino havia sido o primeiro em estabelecer
paralelismo entre Eva e Maria, assim como Paulo o fizera com Adão e
Cristo. Portanto, segundo ele, a obra de redenção segue exatamente as
etapas da queda do homem. Para cada passo em falso que deu o homem,
seduzido por Satanás, Deus lhe exigiu uma compensação, a fim de que
sua vitória sobre o sedutor seja completa. Se a humanidade recebe um
novo progenitor que ocupa o lugar do primeiro Adão, a primeira mulher
também estava implicada na queda por sua desobediência, deste modo
Maria, se converte em advogada de Eva. Está convencido de que Maria
é a nova mãe da humanidade que chama ao seio da humanidade. Ensina
assim a maternidade universal de Maria.
Eclesiologia- a eclesiologia de Irineu está intimamente ligada a sua teoria da
recapitulação. Deus resume em Cristo não apenas o passado, mas também o
futuro. Por isso ele se fez a Cabeça da Igreja, a fim de perpetuar mediante ela
sua obra de renovação até o fim do mundo.
Está firmemente convencido de que a doutrina dos apóstolos segue
mantendo-se sem alterações. Apenas as igrejas fundadas pelos apóstolos
podem servir de apoio para o ensino autêntico da fé e como testemunhos da
verdade, pois a sucessão ininterrupta dos bispos nestas igrejas garantiam a
verdade de sua doutrina.
A Eucaristia- Irineu está convencido da presença real do corpo e do sangue do
Senhor na Eucaristia, que deduz a ressurreição do corpo humano do fato de
haver sido alimentado pelo corpo e sangue de Cristo.
Escrituras- o cânon do Novo Testamento compreende os quatro Evangelhos,
as Epístolas de São Paulo, os Atos do Apóstolos, as Epístolas de São João e o
Apocalipse, a primeira carta de São Pedro e o escrito profético do Pastor de
Hermas, mas não a Epístola aos Hebreus.
Antropologia- Irineu ensina que o homem está composto de corpo,
alma e espírito, o corpo animado apenas por uma alma natural não é um
homem completo e perfeito, é necessário essa terceira parte essencial, o
espírito que completa e coroa a natureza humana, como se fosse o
Espírito pessoal de Deus.
Soteriologia- o homem tem a necessidade de redenção e é capaz dela.
Isto se segue a queda dos nosso progenitores, devido a ela, todos seus
descendentes caíram sujeitos ao pecado e a morte e perderam a imagem
de Deus. A redenção realizada pelo Filho de Deus livrou a humanidade
da escravidão de Satanás, do pecado e da morte. A redenção do
indivíduo a realiza, em nome de Cristo, a Igreja e seus sacramentos.
Uma criatura alcança sua perfeição através dos sacramentos. Pelo
batismo o homem nasce de novo para Deus, neste contexto Irineu fala
do batismo das crianças.
Clemente de Alexandria
Tito Flávio Clemente, nasceu por volta do ano 150, de pais pagãos,
oriundo provavelmente de Atenas, onde recebeu sua educação. Nada
sabemos sobre a sua conversão. Uma vez convertido viajou
extensamente pelo sul da Itália, Síria e Palestina. Seu propósito era
receber instrução dos mestres cristãos mais renomados. Porém, o
acontecimento de sua vida que mais influenciou sua carreira foi sua
chegada a Alexandria. As aulas de Panteno o atraíram de tal maneira que
fixou residência naquela cidade, que se tornou sua segunda pátria.
Se tornou discípulo e assistente de Panteno e finalmente o sucedeu
como diretor da escola de catecúmenos. Dois ou três anos depois da
perseguição de Sétimo Severo, foi obrigado a abandonar o Egito, indo
se refugiar na Capadócia seguido por seu discípulo Alessandro, que
seria mais tarde bispo de Jerusalém.
Suas obras
A Clemente é atribuído o título de pioneiro da ciência eclesiástica. Sua obra
reflete sua vasta erudição, que continha, filosofia, poesia, arqueologia,
mitologia e literatura. Tinha um conhecimento completo da literatura cristã,
tanto da Bíblia, como das obras pós-apostólicas e heréticas. Cita 1500 vezes o
Antigo Testamento e 2000 vezes o Novo Testamento, tem um bom
conhecimento dos clássicos que cita diversas vezes.
Clemente tinha consciência de que a Igreja tinha que enfrentar a filosofia e a
literatura pagãs, se queria cumprir seus deveres para com a humanidade e
estar a altura de sua missão de educadora dos povos.
Sua formação helenística o capacitou a fazer da fé cristã um sistema de
pensamento com base científica. Demonstrou que a fé e a filosofia, o
Evangelho e o saber profano não se opõe, senão que havia uma possibilidade
que se complementarem mutuamente. Todo conhecimento humano serve a
teologia. O cristianismo é a coroa e a glória de todas as verdades contidas nas
diferentes doutrinas filosóficas.
Três de seus escritos formam uma espécie de trilogia, são eles o
Protréptico, o Pedagogo e Stromata.
O Protéptico- ou Exortação aos gregos, é um convite a conversão. Seu
propósito é convencer aos adoradores dos deuses da necessidade e
inutilidade das crenças pagãs, descobrir os aspectos vergonhoso dos
mistérios ocultos e induzi-los a que aceitem a única religião verdadeira,
os ensinos do Logos divino, quem depois de haver sido anunciado pelos
profetas, se apresentou como Cristo.
Pelo seu conteúdo, o Protéptico está estreitamente relacionado com as
primeiras apologias cristãs. Quanto a sua forma literária, deve ser
relacionado como um tipo de exortação, cujo fim era animar os homens
a tomar uma decisão.
O Pedagogo- é composto por três livros e vem a ser uma continuação da
anterior. É dirigido aos que seguindo o conselho de Clemente, adotaram a fé
cristã. O Logos aparece agora em primeiro plano como preceptor para ensinar
a estes conversos como devem ordenar sua vida. O primeiro livro tem um
caráter mais geral. Clemente afirma que a pedagogia é a educação das
crianças, logo pergunta quem a Escritura chama de crianças, são os filhos de
Deus, todos aqueles que foram redimidos e regenerados pelo batismo.
O segundo livro, passa a ocupar-se dos problemas da vidas cotidiana.
Enquanto o primeiro falava dos princípios gerais da moral, o segundo e o
terceiro dão uma espécie de casuística para todas as esferas da vida: a comida,
a bebida, a casa, a música, a dança, as diversões etc. Estes capítulos nos dão
uma descrição interessante da vida cotidiana de Alexandria, com seus luxos,
sua licença e seus vícios. O autor previne os cristãos contra esta forma de
vida e lhes dá um código moral de comportamento cristão em ambientes
como este. Clemente no entanto, não exige do cristão que se abstenha de
todos os refinamentos da cultura, não lhe pede que renuncie ao mundo, nem
que faça voto de pobreza. O que importa é a atitude da alma.
O Stromata- ao final de sua introdução do Pedagogo, Clemente faz esta
observação: “Desejando pois, ardentemente conduzi-los a perfeição
por um progresso constante até a salvação, apropriado a uma educação
eficaz, o bondosíssimo Verbo segue uma ordem admirável: primeiro
exorta, logo educa e finalmente ensina”.
Estas palavras parecem indicar que Clemente tinha intenção de compor
um volume intitulado o Mestre, mas ele não possuía as qualidades que
se requer para escrever esta classe de livros, que exigiam uma
distribuição estritamente lógica. Por isso abandonou seu plano primitivo
escolheu um gênero literário dos Stromata, ou chamado de tapeçaria. O
nome Tapeçaria, é semelhante a outros muito em voga, que se tornava
favorito entre os filósofos e os permitia tratar das mais variadas questões
sem terem que se sujeitar a uma ordem ou plano estrito, podiam passar
de uma questão a outra sem seguir a uma ordem sistemática.
É composto por oito livros. Neles se estudam principalmente as relações
da religião cristã com a ciência secular, especialmente as relações da fé
cristã com a filosofia grega.
Outras obras de Clemente são as Excerta ex Theodoto e Eclogae
Propheticae, Que rico se salvará? Este último é uma homilia sobre
Marcos.
Aspectos da teologia de Clemente-
Se o compararmos com seu contemporâneo Irineu de Lyon, eles tem um
comportamento distinto, pois Irineu era um homem da tradição que
derivou sua doutrina da predicação apostólica e via na cultura e na
filosofia de seu tempo um perigo para a fé. Clemente propunha proteger
e aprofundar a fé mediante o uso da filosofia. Apesar disso tinha
consciência do perigo que a helenização poderia incorrer no
cristianismo e lutou como Irineu contra as heresias.
Clemente quis fundar um sistema teológico cuja base e princípio fosse a
ideia do Logos, esta ideia domina todo seu pensamento e sua maneira de
razoar. Sua ideia era a de que o Logos era o princípio supremo para a
explicação religiosa do mundo, ele era o criador do universo. O que
revelou a Deus na Lei do Antigo Testamento, na filosofia dos gregos e
finalmente na plenitude dos tempos, em sua própria encarnação. Com o
Pai e o Espírito Santo forma a Trindade divina. Não podemos conhecer
a Deus, mas que através do Logos, pois o Pai é inefável. O Logos sendo
a razão divina, é por essência o mestre do mundo e o legislador da
humanidade.
Eclesiologia- está firmemente convencido de há somente uma Igreja
universal, assim como não há mais do que um só Deus Pai, um só Verbo
divino e um único Espírito Santo. A esta Igreja chama de virgem mãe,
que alimenta seus filhos com o leite do Verbo divino.
O batismo- considera o batismo como um renascimento e uma regeneração.
A Eucaristia- Clemente condena as práticas do sacrifício pagão e judeu, mas
reconhece o sacrifício eucarístico da Igreja, o qual diferencia dos demais,
distingue o uso do sangue humano, do sangue eucarístico de Cristo, a
recepção deste sangue eucarístico produz o efeito de santificar o corpo e alma
do homem.
Os pecados e a penitência- em sua ideia, o pecado de Adão consistiu no fato
de ter recusado ser educado por Deus, o que herdaram todos os seres
humanos, não por degeneração, mas por causa do mau-exemplo do primeiro
homem. Ele está convencido de que somente um ato pessoal pode manchar a
alma. Esta maneira de pensar se explica provavelmente como uma reação
contra os gnósticos, que sustentavam que a causa do mal é a matéria má.
Enquanto os castigos de Deus, segue Platão, que tem apenas um caráter
purgativo.
O pensamento de Clemente coincide com Hermas, em que deveria haver
somente uma penitência na vida de um cristão, a que precede o batismo, mas
que Deus em sua misericórdia pela fraqueza humana concedeu uma segunda
penitência, que não poderá ser obtida uma segunda vez.
O matrimônio- Clemente defende o matrimônio contra todos as
intenções dos gnósticos de desacreditá-lo e rechaçá-lo. Não apenas
recomenda o matrimônio por razões de ordem moral, senão que chega a
considerá-lo um dever para o bem estar da população, para a sucessão
familiar e para o aperfeiçoamento do mundo. O fim do casamento é a
procriação dos filhos, é um dever para todos que amam sua pátria, um
ato de cooperação com o Criador, “o homem se converte em imagem de
Deus na medida que coopera na criação do homem” (Paed. 2,10,83,2). A
preocupação dos filhos não é o único fim do matrimônio, o amor mútuo,
a ajuda e a assistência que se prestam um ao outro, unem os esposos
com um laço eterno.
Orígenes
A escola de Alexandria chegou ao seu apogeu com o sucessor de
Clemente, Orígenes, doutor e sábio eminente da Igreja antiga, dotado de
uma erudição enciclopédica, um dos pensadores mais originais de todos
os tempos. Graças ao interesse particular que lhe dedicou o historiador
Eusébio de Cesareia, possuímos mais dados biográficos de sua pessoa
do que a qualquer outro teólogo anterior. Eusébio consagra a Orígenes
uma grande parte do livro sexto de seu História Eclesiástica.
Segundo as fontes, Orígenes não era um convertido do paganismo, era o
filho mais velho de uma família cristã numerosa. Nasceu provavelmente
em Alexandria no ano 185. Seu pai, de nome Leônidas, procurou dar-lhe
uma educação esmerada, instruindo-lhe nas Escrituras e nas ciências
profanas, morreu vítima do martírio durante a perseguição dos Severos
em 202. O Estado confiscou o patrimônio de sua família, fazendo com
que Orígenes tivesse que se dedicar ao ensino para ganhar seu sustento
e de sua família.
O bispo Demétrio confiou a direção da escola de catecúmenos de
Alexandria a Orígenes quando ele ainda tinha apenas 18 anos. Vivia de
maneira rigorosamente ascética e por uma interpretação
demasiadamente literal de Mateus 19,12 acabou castrando-se.
Em 212 empreendeu uma viagem a Roma, sob a justificativa de
“conhecer a antiquíssima Igreja de Roma”, ali encontrou um dos mais
renomados teólogos, o presbítero Hipólito. Pouco antes de 215 ele
rumou para a Arábia, onde havia ido instruir o governador romano a
seu pedido. Em outra ocasião foi para Antioquia, convidado pela mãe do
futuro imperador Alexandre Severo, Julia Mameia, que desejava ouvir-
lhe. Quando Caracala saqueou a cidade de Alexandria e mandou fechar
as escolas e perseguir os mestres, Orígenes decidiu rumar para a
Palestina no ano de 216. A pedido dos bispos de Jerusalém predicava
sermões e explicava as Escrituras.
O bispo Demétrio de Alexandria, protestou e censurou a hierarquia
palestinense por permitir que um secular predicasse em presença de
bispos, coisa nunca antes feita. Diante disso, em obediência a seu bispo,
Orígenes retornou a Alexandria. Em 230 ao empreendeu uma viagem à
Grécia e passando por Cesareia, os bispos Alexandre de Jerusalém e
Teoctisto de Cesareia ordenaram Orígenes presbítero, apesar de sua
mutilação voluntária. Mas isso só fez piorar a situação de Orígenes,
porque Demétrio alegou dessa vez que segundo a legislação canônica,
Orígenes não podia ser admitido ao sacerdócio por ter sido castrado, por
isso convocou dois sínodos em 230 e 231, expulsando-o de Alexandria,
destituindo-o do magistério e da dignidade de presbítero e chegando a
excomungá-lo.
Depois da morte de Demétrio, voltou a Alexandria, porém seu sucessor
Heraclas renovou a excomunhão.
Dessa forma Orígenes se domiciliou definitivamente em Cesareia, onde
permaneceu até o governo de Décio. Nessa cidade fundou uma escola
semelhante a de Alexandria, em que esteve a frente por mais de 20 anos.
Seus trabalhos científicos deram a ele um reconhecimento sem igual,
mesmo nos círculos pagãos. No ano de 244, viajou até a Arábia para
converter o Bispo Berilo, que era acusado de patripassianismo
(monarquianismo unitário). Durante a perseguição de Décio, foi lançado
à prisão, onde foi torturado, cujas consequências o levou a morte, com a
idade de 69/70 anos na cidade de Tiro.
Tratar aqui da teologia de Orígenes e de suas diversas formulações
acerca das realidades divinas, consiste uma tarefa bastante árdua.
Orígenes, filho do II século, foi se não o primeiro, o mais eminente
edificador do cristianismo como uma religião enquanto tal, e seu
principal mérito foi conformá-la às correntes filosóficas de sua época,
pois só assim poderia fazer frente a seus opositores e seus respectivos
credos.
As controvérsias origenistas foram a causa do desaparecimento da maior
parte de sua produção literária. O que sobrou foi conservado
principalmente, não no grego original, mas em traduções latinas. Em
uma lista de suas obras que Eusébio retirou dos escritos de seu discípulo
Pânfilo, a mesma que se serviu Jerônimo, o número de tratados chega a
dois mil. Epifânio calcula em seis mil. São conhecidos os títulos de
oitocentos.
Orígenes não teria meios para publicar um número tão grande de obras
sem o apoio de amigos com poder aquisitivo. Esta ajuda veio
principalmente de Ambrósio, a quem havia convertido da heresia
valentiniana.
O Tratado dos Princípios juntamente ao Contra Celso, constitui-se uma
das suas principais obras que respeitam ao mundo divino, sua natureza e
circunstâncias, uma vez que nele Orígenes oferece especial atenção e
reflexão sobre sua cosmogonia e sua discutida teoria da apocatástases.
Também fora considerado o seu trabalho mais intelectual, e por
consequência, mais criticado, uma vez que encerrara as principais
formulações bem pouco quistas aos olhos de muitos escritores
dogmáticos de seu tempo e da posteridade. Este livro constitui-se
sobretudo em uma obra de especulação, ainda que permeada por
verdades bíblicas que Orígenes não questiona. Suas questões propostas
permanecem muitas vezes tão abertas e repletas de possíveis respostas,
portanto, de nenhuma em definitivo, que o filosófico se alça muitas
vezes sobre o teólogo.
A maior parte da produção literária de Orígenes está consagrada à Bíblia,
podendo justamente ser chamado o fundador da ciência escriturística. Seus
Hexaplas, ou Bíblia em seis colunas, se constitui a primeira intenção para
estabelecer um texto crítico do Antigo Testamento. Uma tarefa imensa que
levou toda sua vida. Para isso Orígenes justapôs em 6 colunas paralelas: o
texto hebraico, em caracteres hebraicos, o hebraico em caracteres gregos, a
tradução grega de Áquila, de Símaco, dos Setenta e de Teodocião. Desta obra
gigantesca, só o texto revisto dos Setenta foi frequentemente copiado.
Obras exegéticas- redigiu comentários sobre quase todos os livros bíblicos,
muitos deles em duas e até em três diferentes formas literárias: os escólios
que são explicações breves de passagens difíceis, as homilias, isto é,
preleções ou sermões de cunho popular e edificante e ainda os comentários
eruditos, cujas explicações eram, às vezes, entremeadas de longas
dissertações teológicas.
Dos escólios não restou nenhum na íntegra, as homilias, poucas ainda
subsistem no original grego, como por exemplo, vinte sobre Jeremias, e uma
sobre Samuel, dezesseis sobre Gênesis, treze sobre o Êxodo, dezesseis sobre
Levítico, vinte e oito sobre Números.
Nenhum de seus comentários, se conservou na íntegra.
Os escritos apologéticos- o mais importante foi o Contra Celso,
composto por oito livros. É uma refutação ao Discurso Verídico, que o
filósofo pagão Celso dirigiu contra os cristãos no ano de 178. A obra de
Celso se perdeu, porém se pode reconstruí-la quase completamente
através das citações de Orígenes, que formam três quarto do texto de seu
livro. Celso se propunha converter os cristãos ao paganismo, fazendo-
lhes envergonha-se de sua própria religião. A refutação de Orígenes
segue frase por frase, o escrito de Celso. As vezes se a refutação é
superficial, mesmo assim, impressiona pelo tom sereno e digno e pela
elevada erudição. Para comprovar a verdade do cristianismo, alega as
curas de possessos e de enfermos que ainda, continuamente, Cristo
opera. Mas, a divindade de Cristo é evidente não apenas pelos milagres
que operou, e pelas profecias que Nele se cumpriram, mas também pelo
poder do Espírito Santo que atua nos cristãos.
O Contra Celso é uma importante fonte para história da Igreja, pois
podemos ver nela um espelho da luta entre paganismo e cristianismo
Escritos dogmáticos- o Peri-Archon, é o primeiro sistema de teologia
cristã e o primeiro manual de dogma. Foi escrito entre os anos de 220 e
230. Composta de quatro livros, cujo conteúdo pode ser resumido sob
estes tópicos: Deus, Mundo, Liberdade, Revelação. Se propôs nessa
obra estudar as doutrinas fundamentais da fé cristã.
A disputa com Heráclides- tem como tema a discussão sobre do Pai ao
Filho e o modo de traduzi-la na oração eucarística. Além disso tem a
resposta à questão, se a alma está no sangue e em que sentido a alma
pode ser dita imortal.
Escritos de caráter prático- Sobre a Oração(De Oratione)- Instrui sobre
a oração em geral e explana o Pai-Nosso. Esse tratado revela melhor que
nenhum outro a profundidade e o fervor da vida religiosa de Orígenes.
A Exortação ao Martírio- escrito por volta de 235 no início da
perseguição aos cristãos por Maximino. Foi dirigido a dois amigos, o
diácono Ambrósio e o presbítero Protocteto, ambos já haviam passado
por atribulações, estimulando-os a perseverarem com firmeza.
Das numerosas cartas reunidas em quatro séries diferentes, uma das
quais conta mais de cem, restam apenas duas cartas: a primeira dirigida
a Gregório, o Taumaturgo, a segunda a Júlio, o Africano.
Aspectos da Teologia de Orígenes
Orígenes de forma diversa de Clemente de Alexandria não fundamentou
sua teologia na doutrina do Logos como fonte de todo conhecimento.
Toma seu ponto de partida da mais alta ideia cristã, a ideia de Deus. Seu
tratado teológico mais importante, o De Principiis, começa com a
afirmação de que Deus é espírito, de que Deus é Luz, está livre de toda
matéria. Deus Pai, como ser absoluto que é, é incompreensível. Se faz
compreensível por meio do Logos que é Cristo. Defende a imutabilidade
de Deus, especialmente contra as noções panteístas e dualistas dos
estoicos, gnósticos e maniqueístas.
Trindade- usa com frequência o termo “trindade”. Refuta e rechaça a
negação modalista da distinção das três divinas pessoas. O Filho
procede do Pai, porém não por um processo de divisão, mas da mesma
maneira que a vontade procede da razão, através de um ato espiritual.
Posto que em Deus, tudo é eterno, se segue que este ato de geração é
também eterno. Pela mesma razão, o Filho não tem princípio, não
houve um tempo em que Ele não fosse.
Cristologia- Orígenes relaciona sua doutrina do Logos com a do Jesus
Encarnado dos Evangelhos. Introduz o conceito da alma de Jesus e vê
nesta alma preexistente o laço de união entre o Logos infinito e o corpo
finito de Cristo. É o primeiro a usar a expressão Deus-Homem, que seria
incorporada de maneira definitiva ao vocabulário da teologia. A união
das duas naturezas em Cristo é extremadamente estreita, “porque a alma
e o corpo de Jesus formaram, depois da oikonomia, um só ser com o
Logos de Deus”
Orígenes concebe a criação como um ato eterno. A onipotência e a
bondade de Deus nunca podem ficara sem um objeto para sua atividade.
Numa eterna emanação, o Filho sai do Pai e do Filho procede o Espírito
Santo. Ao atual mundo visível precedeu outro mundo de espíritos,
inteiramente perfeitos. Parte deles apostatou de Deus, entre os quais
também as almas humanas preexistentes, por isso passaram a viver
como exilados, dentro da matéria, as diversidades dos homens na terra e
a medida das graças dadas por Deus a cada um são proporcionais à sua
culpabilidade num mundo anterior.
Batismo e pecado- Orígenes é um testemunho do pecado original e a
prática do batismo dos párvulos (crianças). Todo ser humano nasce em
pecado. Por isso a tradição apostólica ordena o batismo aos recém-
nascidos.
A penitência e o perdão dos pecados- o autor afirma em diferentes
ocasiões, que estritamente há uma remissão dos pecados, a do batismo,
porque a religião cristã dá a força e a graça para dominar as paixões
pecaminosas. Há, portanto, meios para obter o perdão dos pecados
cometidos depois do batismo. Orígenes enumera sete: o martírio, as
esmolas, perdoar aos que nos ofendem, converter um pecador, a
caridade e por fim mediante a penitência e a confissão dos pecados ante
um sacerdote.
Eucaristia- o teólogo pensa que a carne e o sangue na eucaristia se
formam por influência do Logos de Deus e da epiclese dos homens
sobre os elementos naturais. Denomina o corpo eucarístico “munus
consecratum”, do qual nada se deve desperdiçar. Em várias passagens
interpreta alegoricamente “o corpo e o sangue de Cristo”. Em sua
homilia 16,9 afirma a possiblidade de beber o sangue de Cristo de dois
modos, ou seja, sacramentalmente, ou quando recebemos suas palavras
que contêm a vida.
Um dos pontos capitais da sua doutrina é a apokatástasis pánton: as almas
que pecaram na terra, irão depois da morte, para um fogo purificador, pouco a
pouco, porém todos, inclusive, os demônios subirão, de grau em grau, até
que, por fim, inteiramente purificados, ressuscitarão com corpos etéreos e
novamente, Deus será tudo, em todos. No entanto, esta restauração
(apokatástasis) não significa o fim do mundo, e sim, um fim provisório.
Antes de nosso mundo atual existiram outros mundos e depois dele, ainda
outros seguirão. De acordo com Platão, Orígenes ensinava, sucederam-se os
mundos, em mutação interminável. Portanto, Orígenes negava a eternidade do
inferno.
Orígenes chegou a ser, para os séculos seguintes, o mestre mais influente da
vida ascética, e como tal, o pioneiro do monarquianismo. A exigência
primordial para a sequela de Cristo e a aspiração à perfeição é conhecer-se a
si mesmo. O cristão há de saber o que deve fazer e o que omitir, a fim de
progredir no caminho da união com Deus e com Cristo. As condições e
disposições principais para a união com Deus são o combate contínuo contra
as paixões e contra o espírito do mundo. A mortificação da carne é caminho
para dominar enfim, todas as paixões. Razão pela qual Orígenes recomenda a
renúncia ao matrimônio, exaltando o celibato e o voto de virgindade, ambos
ensinado pelo próprio Cristo. Entre as práticas ascéticas, Orígenes aprecia
altamente as frequentes vigílias, a meditação, jejuns rigorosos, bem como a
leitura cotidiana das Sagradas Escrituras.
Cipriano de Cartago
Cipriano nasceu de uma abastada família pagã, com toda a probabilidade em
Cartago, entre os anos de 200-210. Foi primeiramente retor. Em 246,
convertido ao cristianismo pelo sacerdote Cecílio de Cartago, recebeu o
batismo. Em 248-49 foi feito bispo de sua cidade natal. Sua zelosa e fecunda
atividade pastoral foi interrompida muito depressa pela perseguição de Décio,
durante a qual se ocultou nas vizinhanças da cidade, permanecendo contudo,
em contínuo contato com sua Igreja. Mas, sua fuga não encontrou a
aprovação de todos. A readmissão de muitos que haviam negado a fé nos
tempos da perseguição provocou um cisma.
Como Cipriano rejeitasse a pretensão de confessores da fé que exigiam a
imediata reconciliação dos “lapsi”, formou-se um partido de descontentes, em
torno do diácono Felicíssimo. Aderiram a este, também cinco presbíteros que
já se haviam oposto à sagração episcopal de Cipriano: um deles Novato, foi
pouco depois para Roma, onde apoiou o cisma de Novaciano. Na primavera
de 251, Cipriano pode voltar a Cartago. Em sínodo, então convocado,
excomungou os chefes da oposição estabeleceu que os “sacrificati” (os que
ofertaram sacrifícios) e “thurificati” (os que queimaram incenso no altar do
deuses), mesmo arrependidos, deviam submeter-se a severa penitência,
entretanto, caso irrompesse nova perseguição, poderiam, mesmo antes do
termo da penitência, serem fortalecidos com a eucaristia, para o combate.
A terrível peste que assolou o Império Romano de 252 a 254 acarretou
também aos cristãos da África, além da nova onda de perseguição.
Cipriano organizou socorro aos doentes e exerceu benéfica influência
sobre os ânimos de seus conterrâneos pagãos. Seus últimos anos foram
conturbados pelas controvérsias do batismo de hereges.
Cipriano considerava assim como Tertuliano antes dele e alguns bispos
da Ásia Menor, inválido, o batismo administrado por hereges. Três
sínodos que ele presidiu em Cartago nos anos 255 e 256 se
pronunciaram pela invalidade desses batismos. Embora o papa Estevão
reprovasse o ponto de vista da Igreja Africana, Cipriano persistia em seu
modo de ver. Com a nova perseguição de Valentiniano, o papa Estevão
foi martirizado e Cipriano foi desterrado para Cucubis em 30 de agosto
de 257. Um ano mais tarde em 14 de setembro de 258 foi decapitado.
Foi o primeiro bispo africano mártir.
A atividade literária de Cipriano está intimamente relacionada com os
acontecimentos de sua vida e de seu tempo. Todas as obras foram provocadas
por circunstâncias particulares, respondendo a fins práticos. Era um homem
de ação, a quem interessava mais a direção das almas que as especulações
teológicas. Não tinha a profundidade, nem o talento literário, nem a
apaixonada fogosidade de Tertuliano. Apesar de sua obra ter uma influência
notória de Tertuliano, seu mestre, não tinha contudo os exageros e conceitos
unilaterais deste último.
Cipriano emprega uma linguagem facilmente compreensível, seu estilo é
perfeito na forma. excetuando-se Agostinho, Cipriano escritor Eclesiástico
Latino mais influente. Seus escritos foram muito lidos na Antiguidade na
Idade Média, sendo transmitidos por inúmeros manuscritos, embora nem
todos sejam completos.
O opúsculo Ad. Donatum reveste a forma de um monólogo dirigido pouco
depois do seu batismo a seu amigo Donato, descreve com o intuito
apologético e vibrante entusiasmo, a transformação e a felicidade
experimentados pelo retor com a recepção do Sacramento da
Regeneração. Parece um prelúdio das Confissões de Santo Agostinho.
O escrito Quod idola dii non sint- de conteúdo insignificante foi elogiado por
Jerônimo sendo sua autenticidade repetidas vezes contestada. Nesse tratado
Cipriano se defronta com o paganismo: os cristãos não são a causa das
tribulações que flagelam o mundo, peste, fome e a guerra.
Testimoniorum libri III ad Quirinum 249-250- consta de uma coletânea de
textos escriturísticos (polêmica contra judeus, cristologia, espelho das
virtudes cristãs) . O tratado reúne máximas bíblicas, adequadas para fortalecer
os cristãos, mesmo em tempo de perseguições.
Em sua obra De Eclesiae Unitate Cipriano impugna prevalentemente o cisma
de Novaciano em Roma e ao mesmo tempo o partido chefiado por
Felicíssimo em Cartago. Acentua, incute e demonstra o dever de todo cristão
de perseverar para salvação da sua alma, na Igreja Católica, Isto é, em união
com o legítimo bispo católico. Assim como seu mestre Tertuliano, Cipriano
está convencido de que a Cathedra Petri, não se encontra unicamente na
igreja romana, mas também qualquer outra igreja presidida por um bispo
católico. Mt. 16,18 é para Cipriano a “Carta Magna” de fundação de
episcopado monárquico.
A introdução nos diz que os cismas e heresias são causados pelo diabo. São
mais perigosos inclusive que as perseguições, porque comprometem unidade
interna dos crentes, arruínam a fé, e corrompem a verdade . Todo cristão deve
permanecer na Igreja Católica, porque não há mas que uma só Igreja, a que
está edificada por Pedro.
Sobre os apóstatas (De Lapsi)- A obra foi composta depois que regressou
deste desterro voluntário em 251, durante a perseguição de Décio. Depois de
dar graças a Deus pelo restabelecimento da Paz, falava dos mártires que
haviam resistido ao mundo, proporcionaram um glorioso espetáculo aos olhos
de Deus, e servindo de exemplo para os irmãos. Porém, sua alegria, esbarra
em sua tristeza, uma vez que muitos irmãos sucumbiram na perseguição.
Fala dos que sacrificaram aos deuses e dos pais que levaram seus filhos a
participar desses ritos, especialmente aos que por estarem cego de amor às
suas propriedades permaneceram na cidade e renegaram a sua fé. Não se pode
considerar a eles um perdão tão fácil. Adverte aos seus confessores que não
intercedam por eles. Ser indulgentes nessas circunstâncias seria impedi-los de
fazer a devida penitência. Os que se mostraram débeis, apenas depois de
grande torturas merecem mais clemência.
O Tratado de Cipriano foi lido no Concílio que se reuniu em Cartago na
primavera de 251 e se converteu na base de uma maneira uniforme de atuar a
difícil questão dos apóstatas em todo o norte da África.
Sobre o Vestido das Virgens (De Habitu Virginum)- Quer precaver as virgens
consagradas a Deus, chamadas Flores do Jardim da Igreja, contra a vaidade o
espírito mundano. Transborda o entusiasmo de Cipriano pelo estado da virgindade
Cripriano. Aqui ecoa, não raras vezes, pensamentos de Tertuliano, e afloram
expressões das obras homônimas de seu mestre. As esposas de Cristo devem se
vestir com modéstia e simplicidade, evitando jóias e cosméticos que são invenção
do Diabo. Se são ricas, não devem fazer o uso de suas riquezas para adornar-se,
mas para bons fins como socorrer aos pobres.
Sobre a Morte (De Mortalitate)- A Perseguição promovida por Décio acabava de
cessar, quando uma mortífera peste causou de novo terror e espanto em 252. A
morte era a companheira de todos os dias e Cipriano compôs sua obra nesse tempo
para explicar o que significa a morte para o cristão. Nada distingue melhor um
cristão de um pagão do que o espírito com que afronta o término de sua vida. Este
momento é para os cristão o descanso depois de um combate, a chamada de Cristo.
Ninguém que tenha fé pode ter medo da saída deste mundo para entrar em um
mundo melhor.
As boas obras e a esmola (De Opere et Eleemosynis)- Nesse tratado Cipriano mostra
a necessidade da prática generosa da esmola. Uma grande consequência da peste
havia sido o aumento do número de pobres e necessitados e a caridade cristã era
uma maravilhosa oportunidade para ajudar os necessitados, enfermos e
moribundos. Cipriano recorda a seus caríssimos irmãos todas as graças que haviam
recebido de Deus.
Foram redimidos do pecado pelo Sangue de Cristo e ademais a misericórdia
divina nos proporciona meio para assegurar a salvação pela segunda vez,
porque habilidade e a fragilidade humana nos arrastou ao pecado depois do
batismo. Uma vez que ninguém está isento de alguma ferida de consciência
todo mundo está obrigado a praticar a caridade. Ninguém pode se escusar. Os
que temem que suas riquezas diminuam pelo exercício da generosidade e se
vejam expostos no futuro pela pobreza e a necessidade deveriam saber que
Deus cuida daqueles que socorre os demais. Esse Tratado de Cipriano foi uma
das leituras favoritas da antiguidade Cristã.
Os aspectos da teologia de Cipriano
Até a época de Agostinho e Gregório Magno, Cipriano era o maior expoente
teológico da Igreja Ocidental. Cipriano era um homem de ação, mais que um
intelectual, faltava a ele a originalidade de Tertuliano e o poder especulativo
de Orígenes.
Mediante a documentação muito pessoal, afirma prevalentemente, a antiga
ideia da unidade da Igreja católica, conforme o estado de desenvolvimento
dogmático de seu tempo, tendo influenciado, de modo perdurável, o ensino
posterior da Igreja. Com mão firme manteve a disciplina eclesiástica no justo
meio entre o relaxamento e o rigorismo.
Eclesiologia- para Cipriano a Igreja é o único caminho da salvação. É impossível
ter a Deus por Pai se não se tem a Igreja como Mãe. Por isso é de importância
capital permanecer dentro da igreja. Não se pode ser cristão sem pertencer a ela. A
Igreja é a esposa de Cristo e como tal não pode ser adúltera. Cipriano compara a
igreja com a Arca de Noé, fora da qual ninguém será salvo, o navio ao qual o Bispo
pilota, é a mãe que reúne seus filhos em uma só Grande Família, que é feliz por
estreitar contra seu seio um povo que não tem senão um só corpo e uma só alma. O
Cristão que se separa de seu seio se condena à morte.
O primado de Roma- Cipriano está convencido de que os bispos apenas devem
render contas a Deus. Em sua controversa com o Papa Estevão sobre a validade do
batismo dos hereges, expõe como presidente do conselho africano de 256 que ele
não reconhecia uma supremacia de jurisdição do Bispo de Roma sobre seus
colegas. Tampouco acreditava que Pedro houvesse recebido poder sobre os demais
apóstolos. Pedro tampouco reivindicou esse direito: “Quando Pedro que havia sido
eleito o primeiro pelo Senhor e sobre quem edificou sua igreja teve aquela
controversa com Paulo sobre a circuncisão, não reclamou arrogantemente nenhuma
prerrogativa nem se mostrou insolente com os demais dizendo que tinha o primado e
que deveria ser obedecido”. Por outra parte o mesmo Cipriano dedica grandes
elogios a igreja de Roma por sua importância para a unidade eclesiástica e a fé
queixando-se dos hereges que se atreve atravessar o mar e levar as cartas cismáticas
e profanas a cátedra de Pedro, igreja principal de onde provém a unidade do
sacerdócio.
O batismo- Cipriano considera inválido do batismo conferido pelos hereges,
porém, discorda na questão do batismo das crianças. Cipriano condena o
costume de esperar oito dias depois do nascimento para o batismo da criança.
A penitência- na questão da disciplina penitencial, Cipriano defende com
êxito a prática tradicional da Igreja Primitiva contra os extremos, seja o
laxismo do seu clero e o rigorismo do partido Novaciano em Roma.
A Eucaristia- Sacrifício do sacerdote é a repetição para ceia do Senhor onde
Cristo se ofereceu ao Pai: “Pois se o mesmo Jesus Cristo, Senhor de Deus, é
Sumo Sacerdote de Deus Pai e ofereceu a si mesmo como sacrifício ao Pai e
mandou que se fizesse isso em sua memória, por certo aquele sacerdote faz
verdadeiramente as vezes de Cristo, a qual imita aquilo que fez Cristo, e então
oferece em sacrifício verdadeiro e cheio na igreja de Deus Pai, começa a
oferecer assim conforme o que vê que ofereceu o mesmo Cristo”. Esta
passagem de São Cipriano, é o primeiro que de maneira explícita, afirma que
a oferenda da Eucaristia é o corpo e o sangue do Senhor. A última ceia e o
sacrifício eucarístico da Igreja são a representação do sacrifício de Cristo.
Basílio Magno
À corrente teológica neo-Alexandrina, cujo representante mais insigne é
Atanásio, pertencem também os três grandes capadócios, Basílio, seu irmão
mais novo Gregório de Nissa, e seu amigo Gregório de Nazianzo, unidos
entre si não somente por idênticos interesses intelectuais, mas ainda por laços
de amizade. Sua influência sobre o desenvolvimento da Igreja e de modo
particular sobre a posição da Igreja, ante a cultura profana é difícil de ser
mensurada.
Basílio nasceu de uma família que era distinta para o seu zelo pela fé
hereditária, especialmente sua avó Macrina, a anciã, a sua mãe Emélia, seus
irmão Gregório de Nissa e Pedro, bispo de Sebaste e sua irmã Macrina, a
Jovem. Baslio era filho de um proprietário de latifúndios, Basílio de Cesareia
na Capadócia. Formou-se nas escolas de retórica de sua cidade natal, de
Constantinopla e por fim de Atenas, onde travou com seu conterrâneo
Gregório de Nazianzo, uma amizade que iria durar a vida inteira.
Ao retornar a sua pátria em 356, Basílio ensinou por um breve tempo retórica, logo
porém, decidiu renunciar ao mundo. Recebeu o batismo, e para imbuir-se do
espírito do monaquismo, começou a visitar os ascetas mais célebres da Síria, da
Palestina, do Egito e da Mesopotâmia. Juntamente com amigos animados no mesmo
ideal, foi viver no deserto, nas proximidades de Neo-Cesareia no Ponto.
Durante uma visita de Gregório de Nazianzo ambos compuseram a Filocália e
redigiram duas regras monásticas de importância decisiva para o desenvolvimento
subsequente e a propagação da vida monástica no Oriente até os nossos dias.
Em 370 Basílio tornou-se Bispo de Cesareia.
Travou uma luta de suma importância contra o arianismo, que na época era muito
poderoso, sob o governo do Imperador Valente. O Imperador conseguiu, prejudicar
Basílio, dividindo em 371 a Capadócia em duas províncias, e por conseguinte,
também seu território Metropolitano.
A fim de assegurar de modo duradouro a ortodoxia no Oriente, ainda fortemente
ameaçada, Basílio empenhou-se, por intervenção de Atanásio e mediante contato
direto com o Papa Dâmaso, a melhorar as relações e a concórdia entre os bispos
ocidentais e orientais e obter um só e mesmo procedimento de todos. A ação
mediadora e conciliadora de Basílio contribuiu de modo essencial para a ruína do
arianismo.
As atividades de Basílio atingiram os círculos mais ilustres, os auxílios destes
reforçaram os copiosos recursos provenientes dos latifúndios de sua
família, para proveito de sua solicitude em favor dos afligidos. Basílio revela
em seus escritos uma acentuada interesse pelas questões éticas e práticas da
vida cristã, o que em geral costuma ser característica dos Padres Ocidentais.

Seus escritos

Não dá para ver exatamente em Basílio unicamente o administrador e


organizador eclesiástico. Em meio a todas as tarefas que consumiam seu
tempo, ele foi sempre um grande teólogo. Seus inscritos revelam um homem
de ação e uma inclinação aos aspectos práticos e éticos na mensagem do
cristianismo, fato esse que não era muito comum entre os Padres Gregos, que
tinham uma decidida preferência para o lado metafísico do Evangelho.
Sua produção literária compreende tratados dogmáticos, ascéticos,
pedagógicos e litúrgicos além de um grande número de sermões e cartas.
Escritos dogmáticos
Contra Eunomio- composto por três livros, nos anos de 363-365. Seu
título indica que se trata de uma refutação do pequeno tratado Apologia,
que publicou no ano de 361 Eunomio, um dos chefes da ala extrema do
arianismo, os anomeus. O livro primeiro refuta o argumento de que a
essência de Deus consiste em sua inacessibilidade e que por conseguinte
o Verbo não pode ser verdadeiro Filho de Deus, porque é engendrado e
simples criatura. O livro segundo defende a doutrina de Niceia, de que o
Verbo é consubstancial com o Pai. O livro terceiro afirma com idêntica
ênfase a consubstancialidade do Espírito Santo.
Sobre o Espírito Santo- a obra foi escrita em 375 e também trata da
consubstancialidade das duas divinas pessoas, o Filho e o Espírito
Santo, com o Pai.
Tratados Ascéticos
Se dá o nome de Ascética a um grupo de treze livros atribuídos a Basílio,
entre os quais se insere algumas obras que não são suas.
Moralias- se trata de uma coleção de oito regras o instrumentos morais, cada
uma delas respaldadas por citações do Novo Testamento, é uma vigorosa
exortação em favor da vida ascética.
As Duas Regras Monásticas- são frutos de perguntas feitas aos monges que
Basílio visitou. As Regras Detalhadas, discute em 55 parágrafos os princípios
da vida monástica, a segunda, as Regras Breves, em 313 capítulos, tem-se a
aplicação da vida cotidiana de uma comunidade monástica.
Tratados de Educação
Ad Adolescentes- Basílio de trata de um problema particular da educação: a
atitude cristã ante a literatura e o saber pagão. Ainda que ele coloque os
ensinamentos abaixo das Sagradas Escrituras, não proíbe o uso das literaturas
clássicas para fins educacionais. Desta maneira os jovens da Capadócia
poderiam encontrar muitos exemplos de virtude em Homero, Hesíodo,
Teogonites, Solon e Eurípedes, entre os filósofos Platão a quem cita várias
vezes.
Cartas
As cartas de São Basílio melhor ainda que em suas homilas demonstram
sua fina educação e seu gosto literário. Os Beneditinos de São Mauro
em sua edição, publicaram nada menos que 365, entre elas algumas que
não foram compostas por Basílio, mas que foram escritas para ele. Essa
coleção se divide em três classes: cartas escritas antes de ser episcopado
357 /370, cartas assinadas durante o seu episcopado 370 a 378 e que
constituem dois terços de toda a coleção, e por fim as cartas que não se
podem datar, por não apresentarem indício algum que oriente acerca da
data de sua composição. Podemos distingui-las entre as seguintes
categorias: cartas de amizade, carta de recomendação, cartas de
consolo, cartas canônicas, cartas ascético-morais, cartas dogmáticas,
cartas litúrgicas e cartas históricas.
Doutrina teológica
A doutrina de São Basílio gira em torno da defesa da doutrina de Nicéia contra os
distintos partidos arianos. A amizade que o uniu a Anastácio durante toda a vida se
fundava na causa comum que defendiam. Se manteve fielmente devoto ao Patriarca
de Alexandria, porque reconhecia nele um defensor da ortodoxia: “Não podemos
pontuar nada ao Credo de Niceia, nem sequer a coisa mais leve, fora da glorificação
ao Espírito Santo, isto porque nossos Padres mencionaram esse tema
incidentalmente. Apesar dessa afirmação, o mérito maior de Basílio está no fato de
haver avançado mais do que Atanásio e haver contribuído enormemente para aclarar
a terminologia trinitária e cristológica.
Doutrina Trinitária- a contribuição mais importante de Basílio foi haver atraído
novamente à igreja os semi-arianos e haver fixado de uma vez para sempre
significado das palavras ousia e hypostasis. Basílio foi o primeiro que insistiu na
distinção, uma ousia e três hypostasis. Sendo que para ele, ousia significa a
existência ou a essência ou entidade substancial de Deus, enquanto que hypostasis
quer dizer a existência de uma forma particular, a maneira de ser de cada uma das
Pessoas. Ousia corresponde a substantia em latim, aquela entidade essencial que
tem em comum o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O Homoousios- um esclarecimento que Basílio introduziu no uso dos
termos, ousia e hypostasis, contribuiu de sobremaneira para quê o
homoousios niceno fosse adotado universalmente e triunfasse no
Concílio de Constantinopla. Foi a respeito desse ponto que são Basílio
e seus dois companheiros capadócios foram acusados de afirmar a
consubstancialidade das três Pessoas Divinas apenas no sentido do
homoiousios, reduzindo a unidade a uma simples questão de
semelhança.
Espírito Santo- uma das razões que contribuíram para despertar a
suspeita de que Basílio compartilhasse as ideias dos semi-arianos, foi
que em seu Tratado De Spiritu Sancto, nunca chamar explicitamente
“Deus” ao Espírito Santo.
Foi essa reserva por parte de Basílio que o levou a ser atacado pelos
monges. Atanásio escreveu a eles defendendo Basílio e instou-os a
considerar sua intenção e propósito: “Se fazem débeis com os débeis para
ganhar os débeis”. A postura de Basílio será também defendida por Gregório
de Nazianzo.
Confissão- para K. Holl, foi São Basílio quem inventou a confissão auricular
do sentido católico, como confissão regular e obrigatória de todos os pecados
ainda os mais secretos. O seu problema foi em identificar a confissão
sacramental com a chamada “confissão monástica”, que era simplesmente
um meio de disciplina e direção espiritual e não implicava a reconciliação
nem absolvição sacramental. Em sua Regra, ordena que o monge descubra
seu coração e confesse todas as suas ofensas, seus pensamentos mais íntimos
a seu superior ou a outros homens probos, ”aqueles que gozam de confiança
dos irmãos”. Não há indicação de que o superior ou seu substituto tenham que
ser sacerdotes.
Jerônimo
“O príncipe dos tradutores”. Eusebius Hieronymus, nascido na fronteira
do mundo latino, na pequena cidade de Estridon, entre as regiões da
Dalmácia e da Panônia. No entanto é preciso ressaltar Jerônimo tem
como sua pátria a cidade de Roma por sua vinculação com a cultura
latina. Não existe nele nenhum vestígio de patriotismo local, o que
existe é um patriotismo romano e cristão, cujo símbolo máximo é a
Cidade Eterna, centro de sua vida como romano e como cristão. É para a
Roma de Rômulo Augusto, assim como a de Pedro e Paulo com seus
valores e virtudes que Jerônimo devotou em seus escritos, todo seu
ardor patriótico.
Era oriundo de uma família pertencente a aristocracia provincial,
detentora de terras e que professavam o cristianismo. Sua infância
transcorreu nos moldes de uma criança aristocrática romana iniciando
seus estudos em uma escola provincial, onde aprende a ler, escrever e
contar. Como demonstrar aptidão para os estudos é enviado para Roma
com intuito de prosseguir sua formação intelectual.
Nessa nova fase de vida, Jerônimo irá se empenhar em sua busca incessante pelo
conhecimento e encontra na própria cidade de Roma a sua primeira grande
mestra pois nela congregavam-se todos os povos, tradições e culturas do mundo
conhecido. A cidade é cultuada como eterna por sua grandiosidade, os seus triunfos,
sendo também um dos principais centros intelectuais da Antiguidade. Entre os anos
de 360 e 367 seus estudos foram dedicados a gramática e a retórica. Paralelamente
aos seus estudos Jerônimo começa a formar uma vasta biblioteca.
Os estudos realizados por Jerônimo em Roma marcaram profundamente toda a sua
vida e tiveram grande influência em sua obra não somente para os conhecimentos de
gramática e da retórica adquiridos neste momento, mas principalmente por esta
estadia na cidade de Roma ter marcado toda sua formação intelectual.

Uma vez findados seus estudos Gerônimo parte de uma série de viagens que o
levará a percorrer as Gálias e grande parte do Oriente. Essas viagens possuem uma
dupla importância, por um lado são as jornadas nas quais o autor busca fazer crescer
seus conhecimentos, a sua erudição através de contatos com homens de renomada
capacidade intelectual, por outro lado, são também autênticas peregrinações, onde
ele procura aprofundar a sua fé.
Em suas viagens Jerônimo leva consigo a sua biblioteca repleta de obras e
autores pagãos e cristãos. Ele é alguém que procura conciliar as tradições de
Roma com a doutrina Cristã algo que ocorrerá na construção do discurso para
conversão da aristocracia de Roma através da cristianização das virtudes
romanas.
Quando esteve nas Gálias, provavelmente sob a influência dos monges de
Tréveros, resolveu levar uma vida ascética.
Em sua estadia no Oriente, Jerônimo acaba por fixar-se durante certo período
na cidade de Antioquia. Já nessa ocasião um grande conflito o envolve: de
um lado admiração pelas tradições e pela herança romana que manifesta-se
através da dedicação a literatura pagã e de outro a sua fé. Repentinamente
decidiu empreender uma peregrinação a Jerusalém em 373-374, mas uma
grave doença o reteve em Antioquia. Aí ouviu discursos exegéticos de
Apolinário, bispo de Laodicéia e aprendeu a fundo a língua grega.
Em seguida partiu para o deserto de Calcis, a leste de Antioquia, onde viveu
como eremita, com o intuito de tornar-se monge. É nesse momento que inicia
os seus estudos na língua hebraica, que permitirão futuramente a tradução do
Antigo Testamento diretamente para o latim.
Datam deste momento os seus primeiros escritos, a hagiografia de Paulo,
monge egípcio, na qual Jerônimo utiliza todo seu conhecimento retórico para
construir um relato repleto de acontecimento maravilhosos.
O segundo grupo de escritos é constituído por uma série de epistolas, cujo
principal tema é o isolamento vivido por ele em Calcis, apesar de sua vocação
monástica.
O próximo passo na sua jornada em busca de conhecimento é a cidade de
Constantinopla. O intuito de Jerônimo é aperfeiçoar, aprofundar-se em seus
estudos exegéticos, sob a direção de Gregório de Nazianzo, nesse momento
inicia trabalhos de tradução de obras gregas para o latim, como os escritos de
Orígenes. Também nutriu relações de amizade com Gregório de Nissa. Sua
estadia em Antioquia é interrompida por um lado, pela decisão de seu mentor
Gregório de Nazianzo de abandonar o bispado após o Concílio de
Constantinopla em 381.
Em 382 a convite do papa Dâmaso, participou juntamente com Paulino e
Epifânio de Salamina de um sínodo romano convocado no intuito de por fim
ao cisma meleciano.
Esse novo período de Jerônimo em Roma, apesar de curto, 382-385, é
crucial, pois é nele que vai entrar em contato com a aristocracia romana,
começando a elaborar um discurso para converter e consolidar a religião
cristã no seio deste grupo social, que terá como um dos pontos mais
altos de apoio para a cristianização das virtudes romanas.
O destacado papel de Jerônimo no Concílio de Roma em 382, devido a
sua fama de homem douto e conhecedor da disciplina eclesiástica,
proporciona a oportunidade de aproxima-se do papa Dâmaso que o fará
seu secretário e amigo. Vai tornar-se consultor do papa para questões
ligadas às Escrituras. Por outro lado, Dâmaso será o grande incentivador
para que Jerônimo se aplique a uma nova tradução integral do texto
bíblico em latim. A solicitação do papa decorre das deficiências dos
códices latinos repletos de divergências entre si.
É desse período também que temos outros trabalhos de Jerônimo, como
a versão das Dez Homilias de Orígenes e a obra Adversus Helvidio, na
qual defende a virgindade mariana.
Outra atividade desenvolvida por Jerônimo nesse momento diz respeito ao
Círculo do Aventino, isto é, um grupo de mulheres aristocráticas que
inspirado por uma grande religiosidade, praticava o retiro e austeridade no
interior dos palácios, entre elas temos as figura de Marcela e Paula e a filha
desta última Eustoquia. Ele se torna um verdadeiro diretor orientando
aquelas nobres mulheres romanas na vida cristã.
A importância desse contato é dupla: é através desse grupo que Jerônimo
esteja suas relações com aristocracia de Roma, e principalmente nas cartas
endereçadas a esse segmento social que elabora o seu discurso romano-
cristão, no qual cristianiza as virtudes romanas com o objetivo de converter e
consolidar a mensagem evangélica na elite dessa cidade.
O programa de vida propugnado por Jerônimo estava constituído de três
elementos fundamentais: as práticas ascéticas, o retiro do mundo e o estudo
das escrituras. Quanto às práticas ascéticas, significavam o abandono dos
prazeres carnais e de certas ocupações sociais próprias no mundo
aristocrático, como desprezo por todo luxo e o cuidado no vestir. o abandono
do corpo levava também a renúncia de faustosos banquetes e sua substituição
por uma alimentação mais moderada e principalmente pela prática de jejum.
O retiro do mundo, era o abandono da sociedade mundana.
Com a morte de seu protetor Dâmaso em 385, e por seu caráter polêmico e críticas à
sociedade de Roma, Jerônimo cultivou numerosos inimigos. Ele que havia nutrido a
esperança de se tornar sucessor de Dâmaso foi obrigado a partir de Roma por causa
das pressões de seus desafetos.
Antes de seu assentamento definitivo em Belém, realizou uma viagem juntamente
com Paula e Eustóquia pelo Egito e pela Terra Santa, que se constituiu uma
verdadeira peregrinação religiosa e cultural. Com a ajuda de Paula, construiu três
mosteiros de mulheres e outro de homens, o qual ele mesmo dirigiu, ainda alguns
albergues para peregrinos e uma escola ligada ao mosteiro, onde ele explicava os
clássicos.
Os trinta e quatro anos de permanência em Belém não foram tempos tranquilos. A
primeira controvérsia origenista o levou a uma contenda com João, bispo de
Jerusalém e uma inimizade com seu amigo de outrora Rufino. Depois esteve envolto
em uma querela pelagiana, no decurso dessa luta, um grupo de pelagianos incendiou
seus mosteiros em 416 e o próprio Jerônimo correu risco de vida.
As migrações de povos perturbaram a tranquilidade da vida em Belém, pois hordas
de hunos, dos isáuricos e sarracenos, ameaçavam a vida das comunidades.
Jerônimo morreu em 30 de setembro de 419.
Trabalhos quanto ao próprio texto da Bíblia
Considerando as variantes das diversas traduções latinas da Bíblia, que
alteravam o texto, o Papa Dâmaso encarregou Jerônimo da tarefa de
estabelecer um texto digno de confiança. Não se tratava de fazer uma
tradução completamente nova, mas de rever e corrigir com ajuda de um
texto grego, a versão em uso em Roma, deveria começar com os
Evangelhos. Não sabemos com certeza, se a revisão dos restantes
escritos neotestamentários foi seguido imediatamente. Em 384
Jerônimo corrigiu também ligeiramente o Psalterium, com base nos
LXX. Tão pouco não é absolutamente certo que esse texto melhorado
seja idêntico ao Psalterium Romanum, em uso na liturgia da cidade de
Roma até 1568-1570.
Pouco depois de sua chegada Belém , Jerônimo começou a revisão do
texto de todo o Antigo Testamento, segundo a versão dos LXX nas
Hexaplas (monumental trabalho crítico do texto grego de Orígenes), que
havia consultado em Cesareia, mas também levou em conta o texto
original hebraico. Destes trabalhos subsistem na íntegra apenas o Livro
de Jó, e os Salmos. Este texto dos Salmos foi admitido na
liturgia, primeiro nas Gálias.
Enquanto ainda estava ocupado com a revisão do texto latino do Antigo
Testamento, Jerônimo decidiu em 391 traduzi-lo novamente, baseando-
se no texto original respectivamente hebraico e aramaico. Esse trabalho
se prolongou até o ano de 406. Os livros considerados Apócrifos
traduziu o de Tobias e Judite do aramaico. As partes deuterocanônicas,
os livros de Daniel e Ester foram traduzidas segundo a Septuaginta.
Outras traduções
Jerônimo que até a controvérsia origenista, foi profundo admirador de
Orígenes como sendo “grande mestre” da exegese, traduziu várias
obras do alexandrino, principalmente as homilias. Já depois, não sendo
mais admirador de Orígenes, traduziu em 398, os 4 livros De Principiis,
para combater o ex-amigo Rufino, que desapareceram. Desapareceu
também sua tradução dos panfletos de Teófilo de Alexandria contra João
Crisóstomo.
Traduziu também parte das Crônicas de Eusébio de Cesareia.
Graças a sua tradução em 392, foram salvos os escritos De Spirictu
Sanctu de Dídimo. Em 404, traduziu as Regras Monásticas de Pacômio,
Teodoro e Orsiésio, bem como suas Cartas.
De Viris Illustribus- Este catálogo de escritores cristãos, compilado em
393, é uma lista das publicações de seus autores antes desse ano. Apesar
de parecer uma obra original, na realidade foi inspirado em Suetônio, e
de parte substancial do Historia Eclesiastica de Eusébio de Cesareia,
com adições de personagens do mundo latino. Apesar da obra conter
alguns erros de interpretações, é a prova da sua curiosidade intelectual,
que tentava colocar os fundamentos de uma história da exegese.
Fora estes textos apresentados, Jerônimo ainda tem uma enorme
diversidade de obras, como textos dogmáticos considerados polêmicos,
homilias e um vasto número de cartas. O epistolário de Jerônimo é
considerado a parte mais cuidada de sua produção, a mais lida, com
exceção da tradução da Bíblia. Seu epistolário, chegou até nós não como
uma coleção completa, mas através de diversas tradições.
As cartas mais conhecidas são as que tratam da viuvez, da vida monacal,
da vida clerical, da educação dos jovens, elogios fúnebres, tratados de
argumentos exegéticos.
Doutrina
Jerônimo não tinha inclinação nem talento para teologia especulativa (investigação
teórica). Sua argumentação assentava-se quase exclusivamente de material
positivo, (da Sagrada Escritura, tradição liturgia e vida Prática). Em questões éticas,
teoricamente é rigorista, mas na casuística mostra-se mais moderado e
compreensivo diante das exigências dificuldades da vida.
Doutrina da inspiração- em suas primeiras obras, Jerônimo era adepto da
interpretação alegórica das Sagradas Escrituras, porém, aos poucos, sob influxo de
seus trabalhos filológicos, familiarizou-se cada vez mais com sentido histórico
gramatical das palavras. Concordava com o axioma de Orígenes, de que uma
narrativa escriturística, interpretada literalmente, poderia conter algo de ridículo ou
blasfematório. A princípio, segundo o seu modo de ver, os LXX eram inspirados.
Por influência judaica, reconhece unicamente os livros protocanônicosdo Antigo
Testamento.
A liberdade e a graça- são elementos igualmente necessários na ordem da
salvação. Contra Pelágio, Jerônimo procura demonstrar que o homem não se pode
manter sem pecado, só Deus é impecável, o homem pode ser apenas por um lapso
de tempo e com auxílio da Graça de Deus, exigir de um homem impecabilidade
significa fazer dele um deus.
A igreja e o primado romano- poucos padres da Igreja anteriores a Jerônimo
manifestaram tão expressamente seu amor à Igreja quanto ele. Por ela lutou
apaixonadamente, e os adversários da Igreja eram seus inimigos pessoais. O
magistério da Igreja é, aos seus olhos, a mais próxima fonte de fé, e com toda
energia toma partido da Sé Romana. Ao Papa Dâmaso escreve : “Quanto a
mim, a nenhum outro tendo por primeiro, a não ser Cristo, quero permanecer
em comunhão eclesiástica com Vossa Beatitude, isto é, com a Sé de Pedro.
Sobre esta pedra foi edificada a Igreja, eu o sei”.
Relações entre episcopado e presbiterato - de forma contrária a convicção de
outros Padres de sua época, Jerônimo opina que o episcopado monárquico
não é Iuris Divini, mas foi introduzido por lei da Igreja, sobretudo para
impedir o perigo da divisão nas comunidades. Não obstante, unicamente o
bispo tem o poder de conferir a Ordem, e são os bispos os sucessores dos
apóstolos e não os presbíteros.
Escatologia- Jerônimo escreve que todos os negadores de Deus sofrerão as
penas eternas do inferno, mas não os cristãos, mesmo se pecadores, estes
escutarão no juízo uma sentença moderada e temperada de clemência.
Agostinho de Hipona
Sem dúvida é considerado o maior entre todos os Padres da Igreja e um dos grande
pensadores da humanidade. Sua influência sobre a posteridade tem sido contínua e
profunda. Os estudos sobre ele se multiplicaram com o tempo, e continuam a
aumentar o que resulta impossível oferecer uma lista completa de tudo o que ele fez
ou pensou.
Alguns biógrafos de Agostinho, como Agostino Trapé e Hamman, são unânimes em
dizer que o ambiente, em que ele nasceu e viveu, foi profundamente marcado pelo
contraste religioso: de um lado, a marcante influência de sua mãe, Mônica, que tinha
uma piedade personificada por uma grande fé e confiança absoluta em Deus e, por
outro lado, a presença do pai, Patrício, homem rude, de caráter firme e violento,
pagão, com costumes depravados, portanto, contrários à fé cristã de sua
companheira. Foi, neste contexto, que nosso futuro Doutor da Graça viveu os
primórdios de sua existência. A mãe desejava e antevia, pela fé, que seu filho seria
um cristão convicto e temente a Deus. O pai talvez nutrisse o sonho de ver o filho
ocupando nobre posto no governo do Império Romano e levando uma vida de
prazeres e aventuras vaidosas. Sabemos, porém, pela história, que o batismo e o
desejo alimentado e gerido na oração silenciosa de Mônica acabaram vencendo, pois
ambos, pai e filho, seriam mergulhados, um dia, nas águas regeneradoras do
batismo. E, em Agostinho, a fonte batismal culmina com a graça do sacerdócio e,
mais tarde, do episcopado.
Aurelius Augustinus nasceu em Tagaste, província romana da Numídia, na
África romanizada atual Souk-Ahroz, na Argélia, norte da África em 13 de
novembro de 354. Agostinho teve dois irmãos: Navígio, que se converteu
juntamente com ele, e Perpétua, que, depois de enviuvar, tornou-se religiosa,
chegando a ocupar a função de superiora em um convento agostiniano em
Hipona.
De condição social modesta, Patrício esforçou-se por garantir ao filho uma
boa formação intelectual, para que tivesse um futuro brilhante. Para este fim,
o pai de Agostinho contou com a colaboração de seu amigo Romaniano, que
possuía bens em abundância, cobrindo as despesas que Patrício não tinha
condições de assumir. Agostinho, por ser o primogênito, teve o privilégio de
desenvolver-se intelectualmente, mas seus irmãos não tiveram a mesma
oportunidade, devido às dificuldades financeiras da família, pelas despesas
oriundas da educação de Agostinho. Patrício, teve o mérito de ter oferecido ao
filho a possibilidade de adentrar na vida acadêmica, descortinando, para este,
os caminhos do saber, que lhe conferiram o prestígio da cultura greco-
romana, que marcou sua personalidade, deixando rastros de uma inteligência
iluminada no horizonte do pensamento ocidental, que, apesar do tempo
transcorrido, permanecem indeléveis até hoje.
Agostinho se expressava em púnico ou cartaginês, língua de suaterra.
Dominava, perfeitamente, o latim. Embora gostasse das poesias da
mitologia grega, não dominava bem o grego.
Continuou seus estudos em Madauro, cidade vizinha. Em 371
transferiu-se para Cartago, onde nesse período se deixou levar pela vida
dissoluta e onde viveu em concubinato, mantido até 384, desta união
nasceu um filho chamado Adeodato. Agostinho em sua fase inicial não
compartilhava a religiosidade de sua mãe, a qual ele denominava de
“fábulas velhas”. Tendo lido em 373, o Hortensius de Cícero, despertou-
se-lhe o anelo pela sabedoria filosófica. Pouco depois aderiu ao
maniqueísmo, que lhe parecia uma religiosidade fundada na razão e
livre de toda autoridade.
Quando em 375-375, tendo terminado seus estudos regressou a Tagaste
como mestre de gramática, Mônica não o recebeu em sua casa, pois era
um apóstata, que rejeitara a verdadeira fé. Após breve tempo mudou-se
para Cartago, para se dedicar ao ensino, de 375 a 383.
Foi então que suas dúvidas acerca da verdade do maniqueísmo se
acentuaram cada vez mais. Sua cosmologia parecia-lhe incompatível
com a filosofia grega, reconheceu igualmente as contradições de seu
dualismo e de sua noção de Deus. Sua decepção foi completa por
ocasião de um debate público com o célebre bispo maniqueu Fausto de
Mileve, cuja falta de cultura veio a perceber, através de sua loquacidade.
Apesar disso, mesmo quando se estabeleceu em Roma, contra a vontade
de sua mãe, continuou em contato com seus amigos maniques.
No início de 384, obteve, por recomendação de Símaco, prefeito de
Roma, a cátedra oficial de mestre de retórica em Milão. Apesar de sua
colocação e de estar novamente acompanhado por sua mãe e outros
parentes próximos, Agostinho sentia-se sacudido por inquietações
interiores, cativo de suas paixões carnais e acabrunhado de dúvidas. Ao
ouvir, porém, as pregações de Ambrósio, bispo de Milão, que explicava
com frequência alegoricamente textos veterotestamentários, desvendou-
se um caminho para vencer a crítica maniqueísta do Antigo Testamento.
Em várias destas pregações, Ambrósio utilizou eventualmente, ideias
neoplatônicas, assim, Agostinho pôde vencer o maniqueísmo, sendo
compatível igualmente com o cristianismo.
Quando o conflito da alma se fez mais violento do que nunca,
Simpliciano lhe falou do célebre retor Mario Vitorino e da energia com
que este, finalmente, sem qualquer respeito humano, venceu os últimos
obstáculos que se opunham à sua entrada na Igreja. Um dia fazendo-lhe
um amigo referências à vida austera do eremita Antão e de muitos
outros monges e anacoretas, soou também para Agostinho a hora da
decisão. Profundamente comovido desceu ao jardim, ouviu então, uma
voz de criança a repetir as palavras “toma, lê”. Abriu as epístolas de São
Paulo, leu a passagem de Romanos 13,13s “todas as trevas da dúvida se
dissiparam”. Poucas semanas mais tarde, no outono de 386, renunciou e
retirou-se à sua cátedra e retirou-se a Cassiciacum, propriedade rural de
um amigo, não longe da cidade, preparando-se para se inscrever como
candidato ao batismo.
Existem claros indícios de que Agostinho já estava firmemente decidido,
antes da “cena no jardim”, a aceitar a autoridade da Igreja como representante
da verdade por ele procurada havia muito.
Na noite pascal de 387, Agostinho foi batizado juntamente com seu filho e
amigo Alípio por Santo Ambrósio. Alguns meses depois partiu de regresso à
África passando por Roma. Em Óstia sua mãe morreu. Após a morte de
Mônica, Agostinho permaneceu ainda um ano, em Roma, ocupado com
trabalhos literários. Voltou para sua cidade natal, onde permaneceu por três
anos.
A fama de sua ciência e de sua piedade, veio a ser tão grande, que Valério,
bispo de Hipona, em uníssono com o povo, quis torna-lo sacerdote em 391.
Agostinho surpreso, se declarou finalmente, disposto a receber a ordenação
sacerdotal, com a qual se iniciou uma nova etapa de seu desenvolvimento
espiritual. Seu interesse que até então era predominante pela filosofia e pelas
artes liberais cedeu lugar a uma orientação puramente teológica e às novas
obrigações do ministério pastoral da igreja.
Em 395, Valério o consagrou seu coadjunto. Ao falecer o bispo pouco tempo
depois, Agostinho seu sucessor.
Como bispo continuou vivendo uma vida monástica com seu clero. Com zelo
peculiar dedicou-se ao ministério da pregação, era incansável em socorrer aos
pobres. Reservou boa parte de suas energias aos trabalhos literários,
concentrando-se, em primeira linha, nas questões do momento e nas
controvérsias da Igreja.
A princípio durante mais de dois decênios, até 400, centralizou sua atividade
nos debates literários contra o maniqueísmo, que abandonara completamente
ao entrar na Igreja. Seguiu-se depois o período em que Agostinho se
empenhou em vencer o cisma donatista, mediante tratados, pregações e
disputas. Ponto culminante destes seus esforços, foi, em certo sentido a
Disputa de Cartago, em 411, à qual compareceram 286 bispos católicos e 279
donatistas. Finalmente se tornou o guia espiritual na luta contra o
pelagianismo.
Morreu em Hipona em 28 de agosto de 430, durante o sítio da cidade pelos
vândalos.
Obras
As fontes para conhecer a produção literária do Bispo de Hipona são duas e
ambas incompletas: as Retractationes, de Agostinho e o Indiculus , de
Posidio. o próprio Agostinho nos contas em seu balanço literário, ter
composto até o ano de 427 nada menos que 93 escritos, distribuídos em 232
livros, sem contar os numerosos sermões e numerosas cartas por vezes bem
intensas. Apenas 10 das obras citadas se perderam. Apesar da consciência de
suma importância de sua missão teológica e literária e de sua superioridade
intelectual, jamais procurou por sua pessoa em destaque. Repetidas vezes
confessou dever tudo à bondade de Deus. Agostinho estava de posse da
cultura de seu tempo, mas era ainda perfeito mestre da palavra escrita e
falada, conhecendo a fundo todos os recursos da retórica (antítese, metáfora
comparações, jogos de palavras). Muitas figuras retóricas ornamentais tecem
a cintilante e magnífica trama da retórica do declínio da Antiguidade. Por
isso, Agostinho é também mestre da polêmica. No interesse do efeito superior
a conseguir, renuncia, nos sermões e nos escritos destinado a círculos
populares mais vastos, ao brilho e aos ornamentos retóricos descendo ao
modo de falar do povo, até o vulgar “barbarismo”.
Dentre suas obras mais conhecidas temos Confissões e Retractationes, além
do célebre Cidade de Deus (Civitate Dei), além delas podemos destacar, De
Trinitate de cunho dogmático, escritos antimaniqueístas, antidonatistas,
escritos exegéticos, sermões , cartas, e as Regras.
Doutrina
Relação entre filosofia e teologia- apesar de que tenha havido a influência do
neoplatonismo sobre o pensamento filosófico teológico de Agostinho, assim
como os Padres antigos se manteve por princípio, na posição expressa pela
célebre frase de Anselmo de Cantuária “Creio para entender”. Agostinho
cristianizou o neoplatonismo, assim como mais tarde, Tomás de Aquino fez
com o aristotelismo. A teologia de Agostinho não é do gênero das que
conhecemos desde a Escolástica. Na concepção que ele tem da importância
do pensamento do campo religioso, encontramos uma atitude e uma
veracidade que os progressos ulteriores de uma especulação estritamente
racional não puderam destruir ou dispensar. Do ponto de vista da história do
pensamento e da civilização, não se situa no declínio da cultura antiga,
constitui antes que um ponto de chegada, um ponto de partida para as épocas
subsequentes.
Provas da existência de Deus- em parte alguma Agostinho tratou em conjunto ou
sistematicamente das provas da existência de Deus. Conhece a prova deduzida da
aspiração dos homens à felicidade, bem como a prova histórica da existência de
Deus. Além da prova teológica, é familiar a ele a ideia de que a consideração da
mutabilidade das coisas deste mundo há de levar o homem ao conhecimento de sua
natureza de criatura. Com particular predileção e de modo mais pormenorizado usa
o argumento derivado da existência das mais sublimes verdades objetivas, imutáveis
e universalmente válidas, de ordem lógica, matemática, ética e estética que
repousam no espírito humano. A existência dessas verdades seria inexplicável, se
não se admitisse uma verdade essencial idêntica com o próprio Deus, que contém
todas as verdades particulares.
Doutrina trinitária- em oposição ao modo de pensar e especialmente caro aos
Padres gregos, que começam, em geral, pelas pessoas divinas, Agostinho parte da
essência divina. As três Pessoas necessariamente existentes em uma única
natureza, se distingue e subsistem por suas relações mútuas que se baseia na vida
intratrinitária. Agostinho explica psicologicamente as relações da vida
intratrinitária. Concebe a geração do Filho como um ato de pensamento do Pai, o
Espírito Santo que procede do Pai e do Filho é um amor mútuo entre ambos, e esse
amor é uma pessoa. Toda atividade de Deus decorre de sua natureza e é por isso
comum às três pessoas.
Doutrina da criação- quanto à origem do mundo, a ideia Bíblica da criação é
determinante para ele. Relaciona com ela a teoria de Platão acerca da
formação do mundo e das razões seminais fornecidas pelo
neoplatonismo. Na matéria primitiva, criada por Deus do nada,
desenvolveram-se, em virtude das forças seminais nela depositadas, os
diferentes seres do mundo empírico.
Doutrina cristológica- Agostinho compreende a doutrina católica da
Encarnação do verbo nas vésperas de sua conversão e desde então a professou
e defendeu com vigor e perseverança. Sua doutrina não se distingue da
doutrina tradicional, mas pela claridade de sua formulação, pelo recurso cada
vez mais insistente e elaborado, podemos citar, a união da alma e do corpo,
pela defesa da doutrina contra todos os heresias que de algum modo negavam
ou obscureciam a perfeita natureza divina e humana de Cristo e pela
apresentação de Cristo homem como exemplo diáfano de gratidão e graça.
As fórmulas mais felizes para expressar a unidade da pessoa e dualidade
das naturezas em Cristo, são vistas em seus discursos:
“Aquele que é Deus é também homem, e aquele que é homem é também
Deus, não pela confusão das naturezas, mas pela Unidade da Pessoa”
“Não duas pessoas, Deus e o homem. Em Cristo há certamente duas
naturezas Deus e Homem, porém uma só Pessoa”
“Deus é sempre, é sempre Deus, o homem se une a Deus, e é uma só
pessoa, não um semideus, Deus por parte de Deus e o homem por parte
do homem, todo Deus e todo homem”.
“Uma coisa é o Verbo na carne outra coisa é o Verbo feito carne, uma
coisa é o Verbo no homem outra o Verbo homem”
“Pois assim como na unidade da pessoa a alma se une ao corpo e é
homem, assim também na unidade da pessoa, Deus se une ao homem e
é Cristo”
Mariologia- para sua época a mariologia de Santo Agostinho é singularmente ampla
e rica. Já em 389 escrevia que a mãe do Senhor, a Virgem Maria, é a “dignitas
terrae”. Temos como pontos principais de sua doutrina:
Maternidade divina- depois do que foi dito não é preciso insistir acerca da unidade
da pessoa em Cristo “Não há dúvida em afirmar de que Deus nasceu de uma
mulher, como é possível confessar na Igreja de fé que cremos no filho de Deus,
nascido da Virgem Maria, se nascido de Maria fosse não o filho de Deus senão Filho
do Homem? Quem nega entre todos os cristãos de que dessa mulher haja nascido o
Filho do Homem? Mas, Deus feito homem e portanto o homem feito Deus”.
Virgindade Perpétua- Santo Agostinho afirma e defende com particular vigor, que
Maria virgem concebeu, vir virgem deu à luz e virgem permaneceu.
Santidade- diante da polêmica contra os pelagianos Agostinho sustenta
resolutamente a imunidade de Maria de todo pecado.
As relações entre Maria e a igreja formam um belo capítulo da mariologia
agostiniana. Maria o modelo da igreja, modelo pelo esplendor de suas virtudes e
pela graça de ser corporalmente o que a Igreja deve ser espiritualmente, quer dizer
virgem e mãe, vir virgem pela integridade da Fé e mãe pelo fervor da caridade.
Maria é mãe da Igreja, por haver cooperado com a caridade a que os fiéis nascem na
igreja.
Cristo mediador e Redentor- ele demonstra que o motivo da
Encarnação, segundo as escrituras não é outro senão a redenção dos
homens, ele conclui “ o senhor Jesus Cristo não por outra razão veio em
carne, senão para vivificar, salvar, libertar, redimir e iluminar aqueles que
estavam na morte, na enfermidade, na escravidão, no cativeiro e nas mãos do
pecado. Desta conclusão se depreende as três propriedades essenciais da
Redenção: a necessidade, pois nada pode salvar-se sem Cristo; a
objetividade, pois não consiste apenas no exemplo das virtudes que imitar,
mas na Reconciliação com Deus; e a universalidade, pois Cristo morreu por
todos os homens sem exceção alguma.
Cristo Redentor como sacerdote e sacrifício- Cristo foi ungido sacerdote não
com óleo visível, mas com unção mística e invisível, quando o verbo se fez
carne, quer dizer quando a natureza humana foi unida a Deus Verbo no seio
de Maria para formar com ele uma só pessoa. Porém, Cristo quer ser não
apenas sacerdote, mas sacrifício, “por nós, ante Ti, sacerdote e sacrifício e no
entanto, sacerdote quanto sacrifício”. Ofereceu ao Pai um sacrifício
sumamente verdadeiro, livre e perfeito, com ele purgou aboliu e extinguiu
todas as culpas da humanidade resgatando-lhes do poder do demônio.
Escatologia- a teologia agostiniana da graça, da Igreja e da história é
notadamente escatológica, pois a escatologia confere a ele orientação,
os sentidos. A escatologia retratada nos últimos quatro livros da Cidade
de Deus. Se opôs resolutamente em nome da fé e da razão, à concepção
platônica de história, que repercutiu na concepção do homem e da
felicidade, não faz concessão alguma milenarista, que em outro tempo
havia professado, defendeu em especial contra os platônicos, a
ressurreição dos corpos, corpos de verdade, porém incorruptíveis.
Doutrina da igreja- a igreja dos donatistas não pode ser a verdadeira
igreja, porque não é católica, uma, santa e apostólica. Quem abandona
a igreja perde a salvação. Nunca poderá haver razão justa, para se
separar alguém da igreja e fundar uma igreja particular. Pensamentos e
sentimentos terrenos, paixões e falta de caridade, são nos hereges, os
motivos de sua maneira de agir.
Devemos destacar que Agostinho distingue entre a igreja visível e a
igreja invisível. Há quem está por sua culpa própria fora da Igreja, há
outros que sem culpa, não pertencem a Igreja visível . Aqueles que
nasceram em meio donatista, que vivem de boa-fé e procuram a
verdade, não devem ser considerados hereges. De igual modo, os
católicos injustamente excomungados, que não aderem aos inimigos da
Igreja, mas permanecem fiéis a verdade católica, continuam na
comunhão da Graça da Igreja. De outro lado, a pertença exterior a Igreja
Católica, não garante por si só, são santidade para o indivíduo. Aqui na
terra, a Igreja visível será sempre uma mistura de bons e maus, só no
céu, a santidade da Igreja corresponderá a santidade de todos os seus
membros.